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7º Encontro Nacional da ANPPAS

Brasília – DF, 17 a 20 de maio de 2015

GT 7 - Consumo, Mercado e Sustentabilidade

A 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET e o Preço Justo

A 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET e o Preço Justo

Resumo

Os instrumentos legais como a Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Programa Pró-Catador não surgem somente como meios para mudar o contexto de destinação do “lixo” urbano, mas também visam alterar o quadro de injustiça social da população que vive da reciclagem. Uma das principais mudanças é a integração das cooperativas de catadores com o objetivo de formalizar a atividade de coleta de resíduos sólidos. A partir desse objetivo, o governo do Estado do Rio Grande do Sul vem reunindo esforços de maneira criativa para implementar a legislação atual, o exemplo disso é a 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET, um empreendimento político, social e econômico, que além de estar em acordo com a nova legislação, soma esforços para construir uma sociedade mais justa, com economia solidária e sustentável. Por traz de todo esforço de construção da cadeia do PET está a formação do “preço justo”, cálculo usado como parâmetro de referência para a viabilidade do empreendimento. De forma sucinta, o objetivo deste artigo é mostrar como se deu o caminho para se chegar ao “preço justo” em torno do preço do quilo do PET, esforço que define novas formas de repensar a metodologia de precificação, assim foi possível superar a ideia generalista de que o mercado é o mecanismo por excelência para alocação de preços.

Introdução

O estudo que será apresentado é o resultado da consultoria técnica prestado pela Cooperativa de Trabalho dos Sociólogos Solidários – Coopssol Brasil 1 para a avaliação social e viabilização econômica do empreendimento denominado a 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET, que deverá transformar novamente o resíduo sólido de origem da reciclagem, a garrafa de polietileno tereftalato (PET) em matéria-prima para produção de novos produtos para os mercados.

A avaliação socioeconômica das atividades em torno da reciclagem do polietileno tereftalato buscou atender a demanda do projeto da 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET, a qual agrega vários apoiadores como: Governo Federal do Brasil, Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Secretaria da Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa (SESAMPE) 2 , Departamento de Incentivo e Fomento à Economia Solidária (DIFESOL), Cooperativa de Produção Têxtil de Para de Minas (Coopertextil - do estado de Minas Gerais – Brasil), Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) e Governo da República Oriental do Uruguai. Além das entidades

1 A Coopssol é um empreendimento de trabalho associado, multidisciplinar, organizado por profissionais com vasta experiência no conhecimento técnico-científico. Baseada na economia solidária, a COOPSSOL projeta sua ação fundamentalmente no campo do desenvolvimento social e sustentável, gerando novas formas de participação na sociedade e no mercado. Disponível em: < http://www.coopssol.coop.br/>.

2 Disponível em: <http://www.sesampe.rs.gov.br>.

de apoio e solidariedade Internacional: Cooperação para o Desenvolvimento dos Países Emergentes (Cospe) 3 , Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL Emilia Romagna) 4 , Nexus 5 , Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários (Unisol Brasil) 6 , Cooperativa Industrial Maragata do Uruguai (Coopima), Instituto Nacional de Cooperativismo da República Oriental do Uruguai (Inacoop) e a Rede de Desenvolvimento de Empresas de Economia Social do Mercosul (Red Del Sur) 7 .

O projeto da 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET é um esforço político, que através da implementação de um processo produtivo, visa uma nova forma de incluir grupos menos favorecidas à dinâmica econômica. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estimam-se que sejam coletados por dia no Brasil aproximadamente 125.281 toneladas de resíduos domiciliares. Este enorme volume de resíduos que são descartados periodicamente se transformam, na maioria dos casos, na única oportunidade de trabalho para um elevado número de pessoas. Um contingente de trabalhadores que sobrevivem a partir da coleta, seleção e comercialização de materiais recicláveis. O que é uma inovação pois adota o modelo de cadeia produtiva, práticas de gestão administrativa de redução de custos, como forma de inclusão social. Vale lembrar que o modelo de cadeia produtiva também vem sendo adotado para uma nova dinâmica tecnológica das práticas de gestão ambiental, denominada como Logística Reversa, isto é, reaproveitar resíduos sólidos de uma forma econômica, que antes iriam para aterros e lixões. Os resíduos sólidos ganham sentido novamente como matéria-prima. A logística reversa é um método de planejamento, de controle, de estoque e de pós-venda e/ou pós-consumo. O método consiste em estabelecer relações de colaboração mútua entre os agentes envolvidos (os elos) para que seja possível criar um sistema logístico em que haja um fluxo de materiais com objetivos de reciclar, reutilizar e reaproveitar, conforme as ideias do pensamento sustentável. A principal preocupação da logística reversa consiste em recuperar matérias-primas e diminuir os impactos com a extração de mais materiais da natureza e geração de poluição. A 1ª Cadeia Solidária Binacional é um

3 A Cospe é uma organização sem fins lucrativos privado e secular que atua em 30 países, com cerca de 150 projetos ao lado de milhares de mulheres e homens para uma mudança que vai garantir o desenvolvimento equitativo e sustentável, o respeito pelos direitos humanos,

a paz e a justiça entre as nações. Nós trabalhamos para construir um mundo onde a diversidade é considerada um valor, um mundo com muitas vozes, onde você encontra enriquece e onde a justiça social, os primeiros passos através do acesso de todas as pessoas a igualdade de direitos e oportunidades. Disponível em: <http://www.cospe.it>.

4 A Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL) é uma união geral dos direitos e solidariedade, programática, da sociedade unitária,

democrática e pluralista, que protege e promove a expressão plena de direitos individuais e coletivos, direitos civis e sociais. Baseia-se

a prática da autonomia e trabalho para afirmar e ampliar a negociação, para eliminar todas as formas de precariedade e exclusão social,

para reafirmar o direito à realização pessoal no trabalho e na vida cívica e de abrir novos espaços para os direitos universais e a liberdades dos cidadãos, especialmente os mais vulneráveis, e para construir uma sociedade multiétnica. Disponível em: <http://www.er.cgil.it>.

5 A Nexus é uma ONG promovida pela Central Sindical – CGIL, que é a maior central sindical italiano. A Nexus trabalha na América- Latina, África e Palestina. Nossa prioridade é sempre estar apoiando os movimentos dos trabalhadores, os movimentos associativos, seja no âmbito rural ou urbano. Temos uma linha de apoio a educação e também uma linha de trabalho com as mulheres. Disponível em: <http://www.nexusemiliaromagna.org>.

6 A Unisol Brasil (Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários) é uma associação civil com fins não econômicos, de âmbito nacional, de natureza democrática, cujos fundamentos são o compromisso com a defesa dos reais interesses da classe trabalhadora, a melhoria das condições de vida e de trabalho das pessoas, a eficiência econômica e o engajamento no processo de transformação da sociedade brasileira com base nos valores da democracia e da justiça social. Disponível em: <http://www.unisolbrasil.org.br>.

7 A Red del Sur pretende tornar-se uma representante das empresas dos países parceiros de Mercosul espaço de trabalho. O objetivo é trabalhar com a democracia econômica, social e política profunda na região, promovendo as entidades que compõem o Social e Econômico Solidária (ESS) da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Disponível em: <http://www.reddelsur.coop>.

empreendimento de logística reversa, que vem sendo desenvolvida em conjunto com diversos atores governamentais e não governamentais e que passaram a constituir ações articuladas para promover agregação de valor à atividade de reciclagem das embalagens de PET.

Este artigo visa apresentar como foi desenvolvido o custo (preço) do quilo do PET. As orientações para elaboração da precificação do PET contou com uma pesquisa que realizada em

cinco municípios do estado do Rio Grande do Sul, entre os meses de outubro de 2012 e janeiro de 2013. Os dados foram coletados em Porto Alegre, Canoas, Santa Cruz do Sul, Pelotas e Canguçu.

A proposta é chamar atenção para uma nova orientação política no tratamento dos resíduos sólidos

que vai muito além das ideias de reciclar, reduzir e reutilizar. É cada vez mais necessário repensar

os mercados (ZELIZER, 1992) no sentido propor mudanças na dinâmica do capitalismo, uma nova forma de construção da economia que seja capaz de combinar fatores como: cultura local, articulação política e o contexto socioeconômico dos trabalhadores. Uma nova proposta de ação que supere tanto o pensamento moderno quanto a falsa ideia de que o mercado é o mecanismo por excelência para alocação de preços. Para Gonçalves-Dias (2012), a verdadeira mudança na situação da poluição, que é gerada por descarte de resíduos sólidos, passa pela reflexão dos processos produtivos industriais e pela própria lógica do capitalismo. Neste sentido, a pesquisa científica empírica pode nortear novos horizontes de atuação na economia, e ajudar a pensar formas matemáticas que contemplem tais estudos, que superem a lógica do paradigma moderno. Além de

mostrar que o mercado, nas bases conceituais que está calcado, não é o melhor mecanismo para gerar qualidade de vida.

Os Mercados para o PET

A reciclagem tem ganhado maior atenção não somente pelos benefícios ambientais que tem

gerado, mas porque também passou a significar um ótimo negócio. Materiais como papel, vidro, plástico, metais (ferrosos e não-ferrosos, como alumínio, cobre e níquel), madeira, tecidos, pilhas, baterias, óleos lubrificantes, produtos eletroeletrônicos e seus componentes (a exemplo de geladeiras, televisores, celulares, computadores e impressoras), etc. mesmo depois de descartados ainda possuem valor e podem ser reutilizados. A reciclagem pensada como um negócio conta com

a vantagem da relativa facilidade de encontrar matéria prima no “lixo”. E dentre os muitos materiais reciclados, o plástico denominado PET já possui mercado próprio.

O mercado da reciclagem do PET está diretamente ligado tanto à produção de resina de polietileno tereftalato virgem quanto ao mercado de bebidas, em especial o de refrigerantes. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do PET (ABIPET), em 2009, o consumo de

resina polietileno tereftalato chegou a 522 Kton (mil toneladas), apresentando um crescimento de 7,4% em relação ao ano anterior. Se observamos um período maior, verificamos que no ano 2000,

o consumo de resina de PET era de 255 Kton, isto aponta para um crescimento de 105% do

consumo em apenas 9 anos, o que significa um crescimento médio anual de 8,3%. De acordo com

a ABIPET, as embalagens para refrigerantes, água e óleo de cozinha foram responsáveis pela

demanda de aproximadamente 90% do total da resina virgem colocada no mercado brasileiro em

2009. Os refrigerantes são responsáveis pelo consumo de mais de 60% da produção de PET.

Agora conforme dados da Associação Brasileira de Indústrias de Refrigerantes (ABIR), cada brasileiro consumiu aproximadamente 86 litros de refrigerante em 2010, o que significa um acréscimo de 6,5% em relação ao ano anterior. Se analisarmos o volume produzido, podemos verificar um aumento nas vendas de refrigerantes que passou de 12 milhões de litros em 2000 para quase 17 milhões de litros em 2010. Outras bebidas também apresentaram crescimento. As vendas de água, outro produto que também se utiliza de garrafas PET, apresentou um importante incremento passando de 6 milhões de litros vendidos em 2000 para 15 milhões em 2010.

Já em relação a reciclagem, segundo o Censo de Reciclagem de 2011, estudo encomendado pela ABIPET, as taxas de recuperação de PET vêm demonstrando uma evolução positiva. Em 1994, recuperava-se no Brasil 18,8% do volume produzido. Já em 2004, passada uma década, a taxa de recuperação era de 47%, ou seja, quase metade do PET produzido era recuperado através da reciclagem. Esta taxa não parou de crescer atingindo em 2011 o patamar de 57%, o equivalente a 294 Kton por ano. E se analisarmos a partir da origem das garrafas que serão recicladas, o estudo aponta que a maior fatia (47%) provêm de catadores, e ainda 21% de cooperativas e 32% que apresentaram outras fontes. E se analisarmos o destino do PET reciclado,

o censo aponta que 65% deste é vendido como flake 8 , contra 22% como garrafa e 13% como

granulado. O maior comprador é a indústria têxtil que usa 39,3% do material reciclado. O segundo maior comprador é a indústria de resinas insaturadas (18,7%) seguida de perto pela indústria de embalagens (18%). Dentro dos usos têxteis, observamos que 30% do PET foi usado para a produção de tecidos e malhas, 27% para a fabricação de cerdas, cordas e monofilamentos e 43% foi usado para a produção de não tecidos.

Em 2010, no estudo realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública

e Resíduos Especiais (ABRELPE) foi apontado que no estado do Rio Grande do Sul eram coletadas

6.808 toneladas de lixo por dia em 2009, sendo que no ano seguinte este passou para 7302

toneladas por dia. A taxa entre resíduo gerado e resíduo coletado em 2010 é de 91,73%. O estudo também aponta uma expansão do número de municípios que implantam a coleta seletiva, embora

o ritmo apresentado ainda seja muito lento. A região sul do país, apresentava em 2010 77% dos

seus municípios com coleta seletiva, índice bem superior a outras regiões do país como o nordeste (34,8%) e o centro-oeste (27,7%).

8 Flake é o nome dado ao resultado da transformação da garrafa PET em pequenos pedacinhos picados (flocos), descontaminados e separados por cor, que são novamente transformados fibra poliéster.

A partir dos dados acima foi possível verificar a expansão dos mercados dos produtos que

estão diretamente ligados ao PET. O aumento do consumo de bebidas deve levar a uma maior produção de resina de PET virgem que se transformará em garrafa. O aumento da coleta seletiva nas cidades acarretará no aumento do PET reciclado. Além disso, o Brasil ganhou uma nova legislação voltada para a Gestão de Resíduos, devido a sanção da Lei Federal nº 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos, bem como sua regulamentação pelo Decreto Federal nº 7.404/2010, que institui o Programa Pró-Catador, com o objetivo de criar programas e incentivos para o desenvolvimento das cooperativas de reciclagem.

O contexto apresentado possibilita pensar muitas oportunidades de negócios. Porém, mesmo sendo a reciclagem de resíduos sólidos uma atividade econômica que garanta renda, ela não pode ser comparada com as demais, pois apresenta todas as características de precarização do trabalho. A atividade de catador de materiais recicláveis ainda é um considerado um trabalho informal, sem garantidas de todos os direitos sociais e trabalhistas. Os catadores possuem um perfil de falta de escolaridade, exclusão e baixos rendimentos (MEYER, 2009), o que os coloca numa situação de vulnerabilidade diante da negociação de sua força de trabalho no mercado. Isto é, os catadores pela falta de recursos, de informação e de organização, tornem-se reféns diante dos compradores, o que retroalimenta uma dinâmica de exploração. Assim temos a intervenção do ator conhecido como atravessador/intermediário, àquele que compra os materiais dos catadores a preços muito irrisórios. Somando a isto, também existe o problema dos riscos à saúde, que faz parte da atividade de coleta. Portanto, em razão dos problemas apresentados, a SESAMPE vê na criação de cadeias produtivas, que incluem organizações sociais do tipo cooperativas, para associar catadores, como a forma mais adequada de reduzir as injustiças sociais, e consequentemente aumentar os recursos do trabalhador que coleta, diminuindo assim a influência dos atravessadores/intermediários.

A 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET

A Cadeia Solidária Binacional do PET é um projeto do governo do Estado do Rio Grande do

Sul, que a partir do termo de cooperação com o Uruguai, assinado em 8 de novembro de 2011, estabelece compromissos comuns entre diferentes atores. A cadeia de reciclagem do PET está sob a coordenação do Departamento de Incentivo e Fomento à Economia Solidária da SESAMPE, e que tem o objetivo de contribuir para a geração de uma maior renda aos trabalhadores envolvidos no processo de transformação do PET em flake, depois em fibra e, por último, em tecido.

A cadeia do PET visa a política de apoio e estimulo as iniciativas econômicas solidárias.

Estima-se que aproximadamente 40 mil catadores poderão ser beneficiados, já que a proposta política estimulará participação da sociedade civil e inclusão de outros segmentos produtivos, o que significa a promoção da geração de trabalho e renda cujos ganhos para trabalhadores poderão

alcançar três vezes mais do que o valor adquirido fora da cadeia produtiva. Além disso, o projeto promove a sustentabilidade ambiental, pois são retirados de circulação mensalmente cerca de um milhão de garrafas PET, dando nova utilidade a esta “matéria prima”. A garrafa PET é transformada em fio e tecido para que se possa confeccionar produtos com a ideia de sustentáveis. Basicamente, a cadeia se constitui em atividades de coleta (triagem), organização social (cooperativa), processamento (volume de materiais aproveitados pela coleta), logística (transporte), transformação (flake, fibra e fio), confecção (tecido) e artesanato, e por fim a comercialização (venda).

A estrutura física da cadeia produtiva reversa do PET prevê algumas instalações para seu funcionamento. O empreendimento está sendo planejado em cinco etapas, que ligam os diferentes elos da cadeia. Num primeiro momento do empreendimento foram organizados com o apoio do governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio da SESAMPE, cinco polos de triagem que transformarão a garrafa PET em flake. Todo o processo da cadeia do PET está sob o controle da economia solidária, colocando o segmento como uma forma de desenvolvimento. Boa parte dos investimentos para configurar a cadeia do PET advêm do Ministério do Trabalho, através da Secretaria Nacional de Economia Solidária, que vai destinar boa parte dos recursos para o empreendimento, com contrapartida ao governo do estado do Rio Grande do Sul. O recursos permitirão a compra de máquinas que vão viabilizar a flocagem do PET, estágio inicial de processamento. A DIFESOL é responsável por elaborar a programação de cursos de capacitação para os trabalhadores dos galpões de reciclagem.

Os polos de reciclagem são formados por centrais de cooperativas de triagem, que já possuem galpões, e estão localizadas no estado do Rio Grande do Sul: nas regiões do Vale do Rio Pardo, Vale dos Sinos, Metropolitana e Delta do Jacuí. O material coletado pelas cooperativas gaúchas será transformado em flake, que após este processo deverão ser enviado ao Uruguai, onde se encontra a Coopima, localizada na cidade de San José, distante 100km de Montevidéu. Este arranjo produtivo irá integrar o Brasil e o Uruguai numa iniciativa pioneira do Mercosul, com o objetivo de fortalecer a cultura da cooperação.

O segundo momento é quando a Coopima irá transformar o flake em fibras para ser enviado novamente ao Brasil. A Coopima possui uma estrutura industrial capaz de processar duzentos toneladas de flake. Após esta etapa do processo produtivo de transformação do flake em fibra sintética, a Coopima enviará a matéria prima para a cooperativa de tecelagem Coopertêxtil, localizada no estado de Minas Gerais, Brasil. A quarta etapa do processo é a transformação da fibra em fio e tecido. Por fim, os fios e tecidos irão ser enviado novamente para o Rio Grande do Sul, onde as cooperativas de costureiras confeccionarão roupas, sacolas, calçados, bolsas, mochilas, cortinas e outros produtos possíveis. As ações conjuntas desenvolvidas pelos diferentes segmentos da cadeia produtiva de reciclagem da garrafa PET também servirão como modelo para se pensar

outros setores, isto é uma forma inédita e pioneira de lidar com os resíduos sólidos e promover inclusão social.

No ano de 2012, a SESAMPE convidou a Cooperativa de Trabalho dos Sociólogos Solidários

Coopssol Brasil 9 para participar da elaboração do projeto da Cadeia Solidária Binacional do PET 10 .

O

objetivo desta parceria visava apresentar o estudo do custo do quilo do PET, o contexto

socioeconômico dos associados às cooperativas de reciclagem e a viabilidade do empreendimento

da cadeia produtiva de logística reversa do PET. O alcance do objetivo geral do projeto propiciaria

chegar ao valor do “preço justo”, que combinaria ação governamental, cidadania, iniciativa privada

e econômica. Na verdade, o preço significava o desejo político de implementar a nova legislação

de gestão dos resíduos sólidos, aliada a vontade de dar melhores condições de rendimentos para

o trabalho do catador (que é pouco reconhecido e realiza uma atividade de imensa importância)

através da economia solidária.

A Construção do “Preço Justo”

Normalmente os parâmetros para a construção dos preços seguem o velho pensamento do mainstream econômico. Em outras palavras, para se chegar na determinação do valor do preço, as metodologias podem partir por duas vias:

1. Análise Interna – viabilidade do empreendimento econômico: levantamento de informações

sobre custos fixos e variáveis da produção, o que irá auxiliar na compreensão das despesas

e receitas. Essas informações organizadas possibilitaram gerar simulações hipotéticas que ajudarão a entender as condições para o negócio funcionar de acordo com melhor

custo/benefício. O preço do produto ou do serviço é definido a partir da equação que envolve os investimentos, receitas, despesas e margem de lucro. Toda a análise de viabilidade econômica do empreendimento segue raciocínio administrativo, que visa um plano de ações

e decisões para alcançar o ponto de equilíbrio adequado, momento em que o negócio gere

o retorno dos investimentos e potencialidade de crescimento nos lucros a partir da capacidade de produção e de venda. As variáveis relacionais com o negócio, como, por exemplo, fornecedores, colaboradores, logística, inovação, público alvo, território, publicidade e propaganda, legislação vigente, Stakeholders, etc. também são levadas em consideração no momento da elaboração do preço final do produto ou serviço que serão

ofertados no mercado;

2. Análise Externa - o mercado é o mecanismo de alocação de preços: Num sistema competitivo de trocas de bens/serviços por capital, as empresas disputam oferecendo melhores preços para conquistar a clientela, a chamada “lei da oferta e da procura”. O

9 A equipe contou com a participação dos sócios da cooperativa: cinco sociólogos e dois economistas. 10 O estudo foi financiado pela Cospe e Nexus, organizações internacionais que são apoiadoras e colaboradoras de projetos voltados para a economia solidária.

mercado como ponto de encontro de indivíduos possuidores de interesses que deverão ser negociados. A dinâmica de vendedores e compradores na atividade comercial determina o valor do preço final do produto ou do serviço.

Geralmente as duas metodologias são utilizadas em conjunto para definir o preço do produto ou serviço. Porém, no caso da atividade da reciclagem do PET foi necessário buscar outras alternativas teórico-metodológica para tentar formular outras formas de pensar a precificação da reciclagem do PET. Uma metodologia que seja capaz de garantir viabilidade econômica para o empreendimento da cadeia produtiva. Portanto, não bastavam somente os dados sobre infraestrutura das cooperativas, custos, receitas e despesas, logística, transporte, frete, captação de recursos, etc. Era necessário incluir no cálculo também a realidade socioeconômica do trabalhador da reciclagem, suas estratégias de sobrevivência, o contexto local, a cultura, a política e a gestão pública para se pensar a elaboração de uma nova proposta de preço, um valor real que mudasse a exploração do trabalhador e que viabilizasse um novo empreendimento coletivo.

Durante o processo de criação da metodologia para se chegar ao “preço justo” foi necessário incluir na análise algumas abordagens teóricas que conseguissem combinar diferentes interesses. E para contemplar as diferentes “esferas”, como a política, o cultural, o cognitivo, o social e a econômica, a autora Zelizer (MÜLLER e MÜLLER, 2010) forneceu um referencial adequado aos objetivos do estudo. Para a autora, há um tipo de pensamento intelectual que reforça a crença de que existam fronteiras bem definidas que separam o econômico, o social, o político, o cultural e o cognitivo. Podemos encontrar essa forma de pensar em três tipos de visões de mundo:

a) Ponto de vista da “extensão”: que busca aplicar modelos econômicos padronizados aos fenômenos aparentemente não econômicos, mas tendo o cuidado com a mistura do social com o dinheiro, o que pode criar problemas;

b) Ponto de vista do “contexto”: a análise se interessa por fatos econômicos standard, com o objetivo de mostrar como a organização social, ou o contexto, determina as escolhas dos atores econômicos. A teoria econômica só é válida quando se tratava de explicar fenômenos tais como as negociações ou a fixação dos preços. Portanto, os fenômenos considerados não econômicos são formas especiais de relações comerciais, neste sentido, o problema é o de definir o “preço justo”;

c) Ponto de vista “alternativo”: a análise tenta identificar os processos e as relações sociais no próprio “coração” da atividade econômica, os mercados. Ou seja, é possível uma negociação entre as partes a partir da adequação do que seja justo, o que assegura a continuidade do aspecto simplesmente econômico.

Para Zelizer (MÜLLER e MÜLLER, 2010), os três pontos de vistas também podem ser interpretados como Mundos Hostis, Comércio em Toda Parte e Relações Bem Ajustadas. Superar essas interpretações foi a forma que o estudo encontrou para chegar aos melhores valores de “preço justo”. Para isso, ao invés de considerarmos as unidades de triagem e cooperativas como simples agentes tomadores de preço estipulados pelo mercado, optamos por aplicar uma metodologia kaleckiana. De acordo com Kalecki (1980), toda organização econômica que opera no mercado tem condições potenciais para determinar uma parcela dos seus preços. Além disso, quanto maior será o grau de concentração do mercado e poder sintetizado num grupo econômico, maior será a capacidade da organização em determinar seus preços. Para fixar os preços, a firma leva em consideração a média de seus custos diretos e os preços de outras firmas que fabricam produtos similares. Assim, quando o preço p é determinado pela firma com relação ao custo direto unitário u, é preciso tomar cuidado para que a razão entre p e a média ponderada dos preços de todas as firmas, p_, não se torne alta demais. Se u aumenta, p pode ser aumentado proporcionalmente somente se p_ aumenta menos que u. Mas se p aumenta menos que u, o preço da firma p também subirá menos do que u. Essas condições se acham claramente expressas na fórmula.

p =

mu + np_

onde tanto m como n são coeficientes positivos.

Aceitamos que n < 1, pelo seguinte motivo: no caso onde o preço p da firma focaliza é igual ao preço médio p_ temos:

p = mu + np

de onde se conclui que n tem que ser menor que a unidade.

Os coeficientes m e n, que caracterizam a política de fixação de preços da firma, refletem aquilo que podemos chamar de “grau de monopólio” da posição da firma. (KALECKI, 1983, p. 08). Nesta perspectiva, temos a hipótese de que os custos fixos e variáveis de todos as organizações de reciclagem investigados poderão manter o funcionamento do empreendimento econômico e, por seguinte, manterão a força de trabalho.

Mas para definir a equação que determina os possíveis padrões de preços e valores, a Coopssol se reuniu para desvendar as principais características da coleta de materiais.

A coleta e a reciclagem consistem em pelo menos quatro processos:

1) Coleta seletiva sob a responsabilidade do poder público local enviada para os galpões das cooperativas;

2) Coleta e separação dos materiais sólidos realizada pelos catadores informais nas ruas das cidades e o material enviado para os galpões das cooperativas;

3)

Doações de materiais sólidos, já separados, feitas por empresas privadas/públicas

enviadas para os galpões das cooperativas;

4) O próprio galpão da cooperativa faz a separação dos resíduos sólidos advindo de diferentes fontes, como por exemplo, poder público ou doações.

Essas diferentes formas que caracterizam a coleta propiciaram questionamentos do tipo:

a) Quanto custa tirar uma garrafa do lixo e levar para o galpão de triagem?

b) Qual o padrão de custo que pode ser adotado para classificação dos resíduos sólidos que já foram triados?

c) Que valor deverá ter para as atividades insalubres?

d) Quais são as condições reais de sobrevivência dos associados dos centros de triagem, pois eles não são mais catadores informais e agora precisam aguardar o retorno financeiro do trabalho, já que a remuneração não é mais diária, mas sim quinzenal ou mensal?

e) Quais os ganhos financeiros ao dia do catador?

f) Qual o preço do PET em relação à produção e o número de cooperados?

g) Qual é o limite para o ganho viável?

A partir dos questionamentos acima, alguns objetivos específicos foram traçados para se chegar a uma proposta ideal de “preço justo”:

a) diagnosticar as condições socioeconômicas dos cooperados e catadores que sobrevivem

da reciclagem de materiais;

b) diagnosticar a infraestrutura e condições de trabalho das cooperativas e unidades de

triagem;

c) identificar o tamanho da produtividade do trabalho realizado;

d) verificar a distribuição econômica dos recursos gerados ao longo do processo produtivo;

e) avaliar os dados coletados na possibilidade dessas informações ajudarem em ações de

políticas públicas para modificar o quadro de exclusão social;

f) identificar padrões de custos para precificações, ganhos e classificação do trabalho

envolvido, principalmente em atividades que envolvem risco de contaminação;

g) estimar e projetar os limites para o ganho viável no processo produtivo e comercialização.

Além de gerar informações para tomada de decisões que possibilitem tornar os empreendimentos cooperativos mais competitivos no mercado;

h) analisar os resultados que oferecem possibilidades para a intervenção dos agentes envolvidos, de forma a promover um grau de integração e organização no processo de coleta e processamento do resíduo em suas etapas iniciais e processamento em flocos;

i) apontar possíveis riscos para o empreendimento.

É importante frisar que a pesquisa contemplou um método qualiquantitativo (HAGUETTE, 1997), em que foi possível realizar o levantamento de dados financeiros das unidades de triagem investigadas e coleta de informações de condições socioeconômicas dos catadores cooperados. O instrumento de coleta de dados voltado para o conselho administrativo das unidades de triagem priorizava o histórico da constituição da organização, número de cooperados e descrição das principais mudanças da cooperativa em sua história. Além disso foram feitas perguntas sobre a gestão administrativa da cooperativa, infraestrutura, dados sobre a produção, custos, faturamento e aquisição de equipamentos. Já o instrumento de entrevista com os cooperados contemplava questões sobre dados pessoais, socioeconômicos, renda e saúde. No total foram realizados 153 questionários com pessoas que trabalham nos galpões de triagem e mais dois (02) catadores informais. Além disso foram realizadas entrevistas com agentes públicos de secretarias e departamentos dos municípios investigados que tratam da coleta de lixo e limpeza urbana, que totalizaram cinco 11 : Departamento Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre (DMLU); Secretaria Municipal de Preservação Ambiental de Canoas (SEMMA); Secretaria de Serviços Urbanos de Canoas (SSU); Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Saneamento de Santa Cruz do Sul (SEMMAS); Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (SANEP); Secretaria Municipal de Planejamento, Meio Ambiente e Urbanismo de Canguçu (SMU). As visitas realizadas em órgãos públicos revelaram a falta de dados mais precisos, como cadastros que informam dados básicos sobre quem são as pessoas que trabalham na reciclagem. Portanto, devido à falta de informações sobre o tamanho da população envolvida com a reciclagem, tanto formal quanto informal, não foi possível elaborar um plano amostral estatístico. Entretanto, a equipe da Coopssol preferiu adotar alguns critérios de investigação para obter dados mais confiáveis, ou seja, as entrevistas foram realizadas com o máximo de pessoas que trabalham nas organizações selecionadas no estudo. Para isto foi necessário escolher as unidades de triagens mais representativas, ou seja, a coleta de dados foi realizada nas organizações que recebem maior volume/quantidade de materiais reciclados (FUÃO, 2012). Em Porto Alegre forma escolhidas cinco unidades de triagem: 1) Reciclando Pela Vida - Associação Reciclando pela Vida; 2) Vila Pinto – Centro de Triagem Vila Pinto; 3) Cavalhada - Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis do Loteamento

11 O roteiro de entrevista para os agentes públicos abordava questões sobre os tipos de serviços de limpeza que a prefeitura presta, como limpeza urbana, remoção de entulhos, coleta de lixo, coleta seletiva, reciclagem, coleta de lixo especial e tratamento e/ou disposição final dos resíduos sólidos coletados. O roteiro também contou com questões sobre a área de abrangência do serviço público de coleta de lixo, como perímetro urbano, áreas com atividade agropecuária e de proteção ambiental. Informações sobre quantidades e percentuais de resíduos coletados e se as prefeituras enviam/exportam resíduos para outros municípios. Temas como campanha de limpeza urbana ou programa de educação sanitária/ambiental, política de resíduos sólidos adotadas no município e relação do atual governo municipal com as s cooperativas de reciclagem também foram contemplados nas entrevistas (ANDERSSON, 2005).

Cavalhada; 4) Ilha Grande dos Marinheiros - Cooperativa Mista de Produção e Serviços Arquipélago Ltda. (Coopal); e 5) Frederico Mentz - Cooperativa de Educação Ambiental e Reciclagem Sepe Tiaraju (CEAR). No município de Canos foram escolhidos três empreendimentos: 1) Cooarlas - Cooperativa de Trabalho Amigas e Amigos Solidários; 2) Coopermag – Cooperativa de Coleta Seletiva e Reciclagem União Faz a Força de Canoas; 3) Cooperativa de Reciclagem Renascer. Em Pelotas foram visitadas três unidades de triagem: 1) Cooafra - Cooperativa de Agentes Ambientais Fraget; 2) Cooperativa Crias BGV; 3) Unicoop - Cooperativa União Cooperativa dos Catadores de Resíduos Sólidos de Pelotas. E por fim, na cidade de Santa Cruz do Sul foi escolhida somente a Coomcat - Cooperativa dos Catadores e Recicladores de Santa Cruz do Sul e no município de Canguçu foi visitada a Coopersol - Cooperativa de Trabalhadores em Coleta Seletiva de Resíduos Sólidos de Canguçu - antiga Coorelcan (Cooperativa de Trabalhadores de Lixo de Canguçu/RS).

As observações durantes as visitas e as informações coletadas das unidades de triagem e cooperativas revelaram mínimas condições de viabilidade para sustentar um tipo de empreendimento econômico. A situação não é pior porque houve muitas conquistas pelos cooperados em anos anteriores, principalmente em estrutura física dos prédios (galpões) e maquinário. O nível tecnológico das unidades de triagem e cooperativas é precário, e os equipamentos utilizados como prensas e elevadores já apresentam sinais de depreciação, além de gerarem elevados custos de manutenção para mantê-los funcionando. Os problemas internos nas

unidades de triagem e cooperativas levantados durante a investigação fez com que a construção do “preço justo” tomasse outro rumo, pois as informações da infraestrutura produtiva não eram as mais adequadas para construção dos instrumentos de cálculos e elaboração da precificação, pois os custos fixos não eram representativos, em virtude do baixo uso de tecnologia no processo produtivo, uso de energia, água, etc. A saída para o problema foi pensar o cálculo de forma inverso para determinar os preços dos materiais, e principalmente o do PET. Isto é, a partir do volume triado (mão de obra) seria possível determinar os preços mais justos de venda. Logo, para se chegar ao valor do preço de produção de mão de obra foram realizados duas modalidades de cálculos. A primeira foi baseada no preço de mercado em relação ao volume de triagem do PET nas unidade e cooperativas, ou seja, pela oferta e demanda. Vale lembrar que o contexto do mercado de reciclagem investigado possui características que são determinadas pelos preços praticados pelos intermediários do setor, os quais ganham sua margem no processo de intermediação entre as cooperativas de reciclagem e a indústria de transformação que reutiliza os materiais. E é esse contexto que a política quer mudar, pois os valores pagos ao trabalhador informal são muito baixos

e não garantem uma renda digna a essas pessoas.

Já a segunda modalidade de preço foi baseada na renda dos trabalhadores, com a finalidade

o “preço justo” da mão de obra envolvida no PET. Como a maioria das organizações de reciclagem não possuem esteiras, o sistema de mesa determina o ritmo que cada material é separado e acumulado. O processo de triagem de materiais sólidos é determinado pelo volume de trabalho

manual. Isso indicou que o valor da mão de obra é o que normalmente se aplica às vendas dos materiais, que servem para manter razoável nível de renda dos trabalhadores das unidades de triagens e cooperativas. De acordo com as entrevistas realizadas nas unidades de triagem e cooperativas investigadas, os trabalhadores possuem uma renda média entre R$ 340,00 até um salário mínimo (R$ 678,00), o que representa em torno de 53,5% do total. Somente 28,4% dos entrevistados conseguem alcançar um valor de R$ 1.017,00 ao mês, pois a renda é complementada por outras fontes de recursos. Uma das principais fontes de complementação da renda dos catadores advém do benefício social concedido pelo governo, o chamado Bolsa Família 12 .

A renda média dos trabalhadores investigados estava em torno de um salário mínimo, então

se optou como critério adotar o salário mínimo regional, que no ano de 2013 estava em torno de R$ 700,00 no estado do Rio Grande do Sul.

A equação ficou da seguinte maneira: a soma da massa salarial da comunidade que permeia

o cooperado sobre três diferentes aspectos:

a) Comparação diferencial com o salário mínimo regional, R$ 700,00 reais;

b) Renda média dos cooperados dos demais empreendimentos;

c) Salário privado de cargo equivalente.

A renda nova passa a ser uma remuneração que resulte em algum nível de ascensão social.

Portanto, o valor do “Preço Justo” deveria ser capaz de garantir tanto o acesso aos direitos humanos

básicos quanto o respeite a nova legislação trabalhista para o cooperativismo. Neste sentido, para elaborar o “preço justo” foi necessário adotar alguns critérios como: 1) Jornada de trabalho; 2) Retiradas não inferiores ao piso da categoria profissional; 3) Repouso; 4) Férias; 5) Seguro para acidente; 6) Educação pública; 7) Acesso ao SUS; 8) Lazer; 9) Moradia; 10) Transporte coletivo.

Para melhor avaliar a proposta de nova renda média para os trabalhadores da reciclagem,

foi necessário realizar alguns cálculos comparativos de outros parâmetros de renda. No nosso caso,

o estudo decidiu usar as referências de renda definida pelo IBGE e DIEESE, e chegamos nos seguintes coeficientes:

R m /S mr = 0,714;

R m /R mhIBGE 13 = 0,424;

R m /S miDIEESE 14 = 0,215;

12 O Bolsa Família é um programa, integra o Plano Brasil Sem Miséria, e que tem o objetivo de transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de pobreza em todo o País. O Bolsa Família possui três eixos principais focados na transferência de renda: 1) promove o alívio imediato da pobreza; 2) reforça o acesso a direitos sociais básicos nas áreas de educação, saúde e assistência social; 3) objetiva o desenvolvimento das famílias, de modo que os beneficiários consigam superar a situação de vulnerabilidade. Disponível em: < http://www.mds.gov.br/bolsafamilia/. Acessado dia 13 de abril de 2013.

13 Pela média de 2012 do IBGE, na região de Porto Alegre, o valor correspondia a R$ 1.180,56, e escolhemos a média desta capital pelo fato dos empreendimentos estarem sediados no estado do RS, o qual possui características socioeconômicas específicas.

14 Última estimativa realizada pelo DIESE em 2012 indica que o salário ideal deveria ser R$ 2.329,35.

Onde, R m é a renda média dos cooperados, S mr é o salário mínimo regional, R mhIBGE é o rendimento médio habitual do IBGE e S miDIESE é o salário mínimo ideal calculado pelo Diese.

Com base nestes resultados, podemos concluir que a renda média dos cooperados está abaixo do piso regional e não corresponde sequer a metade da renda média dos trabalhadores da região metropolitana de Porto Alegre. A partir dessas conclusões, e visando atingir um aumento significativo na qualidade de vida destes trabalhadores, optamos em utilizar 1,5 vezes o piso regional, que se mostrou uma boa medida para contrastar a renda média dos cooperados. A referência passou a ser o de R$ 1.050,00, pois com este valor seria possível chegar, de forma significativa, até o nível de rendimento indicado pelo IBGE (dado que o salário ideal do DIESE ainda não é uma medida real, mas sim uma crítica do patamar atual da economia brasileira). Portanto, este valor de R$ 1.050,00 foi nossa base salarial, ou seja, a “renda justa” que definiria o “preço justo” pelo quilo do PET.

Definido o “nível de renda justa”, então foi possível nos deter sobre a construção das simulações da estrutura de custos (realizados em planilha eletrônica) das unidades de triagem e cooperativas investigadas. As simulações são exercícios matemáticos para avaliar o comportamento dos preços, uma vez que os custos variáveis acabaram apresentando um certo padrão homogêneo por polo de reciclagem. Os resultados e os detalhes das simulações não serão apresentados neste artigo porque o projeto da 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET ainda está em processo de construção. Entretanto, podemos informar que a primeira simulação analisou quanto o preço do PET seria alterado com o impacto do aumento da remuneração dos cooperados. Em outras palavras, quanto a atividade de reciclagem, somente do PET, promoveria a renda do trabalhador. Já na segunda simulação, o PET é apenas um entre muitos matérias comercializados. Aqui é importante não perdermos de vista que as cooperativas comercializam uma série de materiais que representam a maior parte das vendas realizadas. Em suma, as diferentes formas de se compreender o preço nos leva a conclusão que a sua padronização pode ser relativizada, proporcionando outras leituras sobre a definição do preço.

Conclusão

Este artigo é somente a primeira etapa do estudo de viabilidade socioeconômica do empreendimento da 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET, que buscou mostrar novas possibilidades de pensar e repensar outras formas de precificação econômica, com o objetivo de criar novas metodologias para definição do preço.

A lógica da definição do preço também pode ocorrer inversamente. O mercado em vez de ser a “entidade eficiente” de alocação de preços, também pode ser definido pela articulação e desejo político por melhores condições de vida e reconhecimento social. Neste sentido, o esforço em criar

cálculos econômicos que contemplem diferentes interesses representa um passo que ajude a

romper com antigos paradigmas.

O próprio “preço justo” deixa de ser uma referência de medida padrão, e se torna uma

variável contextual. Durante a análise de cada organização da reciclagem investigada foi possível

perceber os níveis diferenciados de estruturas de custos e comercialização, o que indica que o

contexto é uma variável importante. As características das regiões, como a cultura, também ajudam

no entendimento para se chegar ao “preço ideal”.

A combinação entre articulação política, envolvida com o contexto socioeconômico dos

associados às cooperativas de reciclagem, e a viabilidade do empreendimento da 1ª Cadeia

Solidária Binacional do PET poderá indicar novos arranjos econômicos potenciais para determinar

uma parcela dos preços de materiais reciclados nos mercados, com a finalidade de gerar mais

justiça social aos trabalhadores deste ramo de negócio.

A próxima etapa do estudo de viabilidade da 1ª Cadeia Solidária Binacional do PET

contempla a construção de modelos simulados de funcionamento da planta industrial de

beneficiamento do PET em flake e as demais etapas dos elos da cadeia até chegar ao produto final.

Este exercício de simulação irá permitir visualizar possíveis situações que possam ocorrer durante

o funcionamento da cadeia. A simulação do empreendimento contempla o prognóstico de

funcionamento da cadeia nos cinco primeiros anos. A partir das simulações de funcionamento do

empreendimento será possível realizar as primeiras conclusões do projeto da 1ª Cadeia Solidária

Binacional do PET.

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