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BIBLIOTECA DE "DIREITO ALTERNATIVO ppleM a TU7.N 8s (eM OE eae eazy amen Ore eee CPN Secon ceed Prof. Silvio Chagas PCr Recon ano retcT) Pe eee 2. Direito do Trabalho e Modo de Producao Capitalista— et eesacy WR ee oS Pe CaS Na Biblioteca de "Direito_ Alternativo do pe oe Mec eee CC Bier ot On CRS Mt cee lee ec se een Cem RS SON ccna eed impésios, promovidos por instituigies, associagbes ou aculdades, e ainda artigos, pareceres, sentencas ou Roe ee cee Me tS reas do direito do trabalho e processual do trabalho. a ce Cr Doers EDITORA ACADEMICA Rua Senador Feijé, 176 - % andar — Cj. 920 DOCU nO tre eer Ce Le ear freee BNE TORE ed ie} i rs yi % F Q Q g 4 E < Zz e ci 0 E 0 rs Q ® Prereys LICOES DE DIREITO ALTERNATIVO DO TRABALHO ced ener t) ern Sree See ae) ey ere ad ae ee ee omen Ricardo Carvatho Fraga rae) ered rd rN Sry pe ciay Pt ee ec) fies cee tae Ligées de Direito Alternativo do Trabalho Editor Responsével: Prof, Silvio Donizete Chagas CONSELHO EDITORIAL Coordenador Geral: Edmundo Lima de Arruda Jr. (Mestre ¢ Doutor em Direito, Profes- ‘sor nos Cursos de Graduagio e Pés-Graduagao da UFSC), Coordenadores Assistentes: Amilton Bueno de Carvatho (Juiz. em Porto Alegre ¢ Professor na Escola Superior da Magistratura gaticha). Celso Fernandes Campilongo (Mestre em Diteito pela Universida- de de Sao Paulo ¢ Professor nas Faculdades de Dircito da Univer dade de S40 Paulo, da PUCISP e de So Bernardo do Campo). Jacinto Nelson de Miranda Coutinho (Professor de Direito na UFPR. Procurador do Estado do Parana, Doutor em Direito pela U- niversidade de Roma. Silvio Donizete Chagas (Professor Titular de Direito Processual Ci vil e Processual Penal nas Faculdades de Dircito de Braganca Pau- lista ¢ de Osasco) Hordcio Wanderlei Rodrigues (Professor de Teoria do Processo € Coordenador do Estigio do Curso de Direito da UFSC. Mestre ¢ Doutor em Direito) © 1993 by Autores. Todos os direitos reservados & EDITORA ACADEMICA Rua Senador Feija, 176 ~ 92 andar - cj, 920 (01006 - Centro - Sio Paulo - SP Fone; (O11) 37-8110 Impresso no Brasil - 1993 Edmundo Lima de Arruda Junior (Organizador) Ligdes de Direito Alternativo do Trabalho s AEREICA Stio Paulo — 1993, Gravura; Guernica, de Pablo Picasso (1937) Divulgagao e vendas: José Alves Dedicai6ria Para Daniele, levada to codo pelas contradigées da modernida- de, c que esperava ajudar neste livro, como o fez no tiltimo: Que sauda- de, fihat Para Gabriela, que ficou e enfrentara as lutas ¢ muito trabalho: va~ mos lil Para Katie, companheira methor que a encomenda: sorte minha! Para aqueles colegas e alunos de mestrado ¢ graduagdo da UFSC ‘que milo esmorecem nem se prostituem, como a maioria de sorriso fi- cil. as coisas estto mudando! SUMARIO Apresentagao. ‘Capitulo 1 Derecho Alternativo: Elementos para una definicion, Oscar Correas Capitulo 2 Sindicalismo, Praxis Social ¢ Direito Alternativo. Wilson Ramos Filho Dircito do Trabalho: Um Direito Comprometido com a Justica Magela Barros Biavaschi Capitulo 4 Sistema de Relagdes Industriais no Brasil: A Transigao do Corporativismo a Liberdade Sindical ja Antonello Renites Filho Capitulo 5 Liberaliso Autoritario: Ensaio sobre a Questdo Trabalhista Aires José Rover Capitulo 6 Em Defesa do Poder Normativo. Ricardo Carvalho Fraga Capitulo Flexibilizagao s Direito Alternativo. Amilton Bueno de Carvatho 66 Capitulo 8 Sindicalismo ¢ Cidadania Josecleto Casta de Almeida Pereira Capitulo 9 Os Caminhos de um Direito Insurgente Celso Soares tulo 10 Em Defesa do Direito do Trabalho Contra ‘a *Flexibilizagao” no Terceiro Mundo(restimo).... Taiz Alberto de Vargas e Ricardo Carvatho Fraga Capitulo 11 [A Defesa dos Interesses Diftsos. Coletivos c Individuais Homogéneos na Esfera Trabalhista Leonardo Vieira Wandelli Capitulo 12 [Em Defesa do Poder Normativo da Reforma do Estado. Tarso Fernando Genro Capitulo 13, ‘Advocacia Trabalhista Popular: Apropriagao fo Hegemon... amundo Lima de alrruda Jr Capitulo 14 Informatizagio ¢ cidadania: Elementos para uma reflexao sobre 0 direito ao trabalho. Katie Silene Caceres Arguelio Capitulo 15 Pequena Historia do Aproveitamento da Forga de Trabalho Humano Willis Santiago Guerra Filho si us Ww 152 178 APRESENTACAO, Estamos chegando a0 fim do século XX e do segundo milénio, hhomem apresenta inegaveis sinais de avango. Mas ao lado do progresso ccaminha a barbarie. Paradoxo? Depende de como encaramos a situacio O planeta ¢ cada vez mais global. Tal globalizagao atinge a todos, cen- tro, perferia, economia, filosofia. A historicidade indica o exacerba- ‘mento das contradigSes, mas no esti immune a essa “universalizaga0” da tmiodernidade no que cla carrega de positivo ¢ de negativo, O direito do trabalho cncontra-se também dentro de varios dilemas da humanidade aque se autoavalia, ndo sem dificuldades, no momento em que se proves- sam 05 efeitos dos cambios: queda do muro de Berlin: ofensiva do neo- liberalismo; esgotamento dos marxismos enquanto doutrinas; constata~ G40 de que o clima olimpico de vitéria do capitalismo evapora-se 20 thar sobre as estatisticas: 80% da populagdo mundial “fora do contrato da socicdade de mercado capitalista, emergéncia “estemporiinea do n: isto": proeminéncia dos nacionalismos de que Croatas. Sérvios s3 ‘exemplos mas préximos. © trabalho dignifica 0 homem, reafirma a tradigd0 cristi reapro- priada de forma conservadora, Sera que iso €falso? A mais-valia estara ‘morta, como 0 querem os niilistas, sempre partindo do grau zero do saber (ou do nto saber). num clima pés-moderno irresponsivel que v ticina “todos esgotado, hasta el concepto de esgotado..."?, ou a base da nova utopia seri © nao trabalho, a sociedade do lazer. lida no préprio Marx ou, numa wlopia menos delirante, nos verdes? AA verdad € que a exploragio é um dado real, em varios nive partir de virias ideologias, presentes, principalmente nas sociedades i Gustriais, A sociedade capitalista funda-se no valor-trabalho, ¢ isso é Dré-Mars. Sefia cinismo, sendo imbecilidade politica, afirmar-se 0 fis da alienaglo, da tuta de classes, da mais-valia, Os conceitos merecem fedefinigio, de acordo com © aumento de complexidade do social, emt todos os seus niveis, no limiar do século XI, direito do trabalho j# nio é sequer direito 20 trabalho, ou, em outras palavras. 0 direito do trabalho néo é sequer a condigao contratual minima da exploragio. posta a crénica auséncia de mercado clissico. De certa maneira o dircito ao trabalho — diretto humano — esta cada vez menos garantido nas a leis burguesas, O Direito do trabalho ¢ um dircito do Capital ¢ 0 dircito 0 trabalho um direito cada vez menos dos trabalhadores. Mas sera que o dircito do trabalho por ser basicamente parte con- tébil do Capital constitui-se como terreno abandonado da Tuta de cl ses? Advogados populares, magistrados progressistas, lideres sindicais, cstariam todos, mais ou menos delimitados/controlados na estratéaia tanto da reprodugiio da forga de traballio como ideol6gica? Essa questiio devera ser entfrentada pelos tcéricos ¢ pelas liderangas politicas com {tempo para reflexdes mais mediatizadoras e menos imunes & razdio ins {rumental e corporativista das burocracias (partidarias, sindicais) Tinteressa-nos deixar por ofa claro que as lulas populares nao se deixam tocar pelo cémodo reacionarismo dos eéticos, “transmodernos” Mas nao esti hermético & concomitante Tuta contra as doutrinas que se constroem a partir de Mars. Os positivismos so sempre perniciosos. de dircita ou de esquerda, Interessa-nos combater politicamente 0 mito, sempre disfargado, da vit6ria da “sociedade capitalista”, paradigma da democracia liberal. Tal combate usa varias ferramentas © constitui a base para reclaborarem-se teoricamente novas utopias. Este livro aponta neste caminho, A da consciéncia do carter in- concilidvel entre capitalismo ¢ democracia, mormente quando se cons deram as sociedades periféricas. Em grande medida todos os autores as sumem 0 carter contraditério do direito do trabalho, que 11d0 € mero epifendmeno do Capital, nem terreno abandonado da luta de classes, tampouco campo de batatha principal da arena politica. E lugar impor- tante do social, constituindo-se as Iutas dos advogados populares, ma- ‘gistrados trabalhistas indicativas tanto da relativa reposigio de parte do Irabatho devido, bem como da artesania da democracia, que é, antes de tudo, construgiio cultural, institucional, da emergéncia plural de novos atores do cAmbio, Ligaes de Direito Alternativo do Trabalho nasce da conjugagio de dois fatos. Primeiramente, a realizago do I Encontro internacional de Direito Alternativo do Trabalho (set/92, em Florianépolis), que reuni aproximadamente noventa painelistas € oitocentos participantes, vindos de todos os recantos do pais, bem como de varios paises da América Latina, Magistrados, advogados populares, professores universitirios, procuradores. estudantes de dircito preocupados com movimientos so- Giais ¢ lutas populares, num clima amistoso de discussio. Soci6logos, ‘cconomistas. sindicalistas trouxeram grande contribuigo, dai o convite especial a Mauricio Tragtenberg, Paulo Singer. Carlos Nelson Couti- rho, Leandro Konder, Ricardo Antunes, liderangas nacionais da CUT, deputados federais, que enriqueceram essa primeira experiéneia de re- flexiio sobre varios temas recorrentes ¢ particulares a0 dircito alterna- tivo do trabalho, O segundo fato que possibilita a presente publicagao é 4 oportunidade oferecida pela Editora Académica, diigida pelo incansi- vel Prof. Silvio D. Chagas, a quem todos da coletinea rendemos home- nagem com esta obra Com efeito, a Biblioteca de Direito Alternativo tem sido 0 canal mais importante de divulgagéo de trabalhos de militantes, académicos © simpatizantes do movimento do dircitoalternativo, Objetiva-se conjugar obras de cariter politico. que caracterizam o presente momento. com trabathos académicos, publicando também, pois urgentes. dissertagdes © teses. ‘A coletinca reine basicamente artigos preparados para o referido encontto de Florianépolis. Por uma questio de salisfagio de uma de- manda crescente junto 0 piblico este primeiro volume nao pode ainda se constituit como uma sintese de toda a rica e variada intervenga dos painclistas, Publicamos primeiramente os trabalhos previamente clabo- Fados. Numa segunda oportunidade trarcinos aos leitores palestras de allo nivel ora em fase de transcrigio, sobre temas como mercosul, neo- liberalismo = direito do trabalho, fungo social do vocalato, adv popular tratalhista, ministério publico trabalhista, socialismo © demo- Cracia, Tal empresa esta a cargo de Wilson Ramos Filho. organizador do Direito Alternonivo do Trabalho I. Os autores pertencem. majoritariamente. a0 campo das esquerdas. jo marsists, liberais, profissionais progressistas, enfim, pessoas iden- lificadas com 0 fio condulor do movimento: inconformidade com o di- reito do tratalho vigente ¢ busca de alternativas. O movimento € plural felizmente,¢ eivado de ricas constatagdes ¢ indagagdes. © arligy de Oscar Correas. professor renomado da Universidade ‘Autdnoma do México abre a coletinea, Mantido em espanol por con- siderarmos desnecessaria a sempre perigosa empreitada da traducto, O titulo “Derecho alternative: elementos para una definicién” clucida 0 porqué da escolha para a abertura. E 0 nico texto mais genérico sobre a nnecesséria e sempre presente questo: a busca de definigdo das natu- tezas politics e tedricas do nosso movimento. Como marxista clissico Oscar Cortcas indaga sobre a natureza contradtéria do diteito enquanto discurso ¢ ideologia, mapeando os limites © alcances do dircito al- temativo ¢ do us0 alfernativo do direto. Em resumo, profundo conhe- cedor dt obra de Kelsen, indica as possibilidndes da Iuta dentro do campo da juridicidade estatal. 0 papel das organizagées populares e dos intelectuais — profissionais de dircito. — dentro do Estado (magistrades. promotores. procuradores) ‘Wilson Ramos Filho é advogado popular na area sindical, Conhe- cido pela combatividade na CUT ¢ no PT escreve sobre “Sindicalismo 9 Praxis Social ¢ Direito Alicrnativo™. Aliando a experiéneia de advogado, hho Param ¢ em Santa Catarina hi mais de uma déeada. com a sua sempre presente preocupagao intelectial, conhecida desde os tempos de ‘curso de mestrado na UFSC (80/81), Wilson R. Filho tent por objeto do artigo buscar idenlificar as alteragdes das priticas socials novas no sindicalismo alternative, © suas implicagdes no pmo hermensutico Iradicional. que por sua ver acabam por contribir para» alteragio do direito positive Sindical brasileiro nos tiltimos quinze anos. forjando modificagdes significativas face ao corporativismo laboral vigente strada do trabalho gaiicha Marya Barros Btavaschi tem his toria no movimento associative de sta categoria no RS, Presidi a Ama tra ¢ hoje encontra-se presidindo aS ICI de Porto Alegre, Sew texto Direito do Trabalho, Direito comprometide com a Justiga”. parte do proprio pressuposto. explicitido pelos te6ricos tadicionsis do dircito = carater protctivo do dircito do trabalho - ¢. inteligentemente potenei liza, a partir de uma telcologia desse dircita novo, os principios norte adores de um dircito do trabalho que no seja o diteito do Capital por texceléncia, como bem demonstrou Edelman (La Kéyalisation de la classe fuvrigre) ¢ Lyra (Dircito do Trabalho e Diretto do Capital). Optando. ao Contrario da maioria de scus pares. por umn diteito do trabalho realmente comprometide com a justiga. que ¢ soctal, antes de ser represen- tadalidentificada com 0 Poder Judiciirio, Magda Bavaschi: conchi propondo wm debate amplo entre Magistraturs trabalhista © connie dade, passo inicial. quigil. pari a consttugzo de um direite do trabalho imiais proximo a0 ditcito a0 trabalho es cidadania, pressupostos dit ver= dade lade democritica Plivio Antonello Benites Filho & advagado dos metaliigicos de S20 Bernardo do Campo ¢ Diadem. Seu texto "Sistoma de Relagdes indus- triais no Brasil - A transigio do corporauvisino a liberdade sindical” & verdndeira monograffa, bem provina a) uma dissertago de mestrado. De maneira rigorosa. sob o pono de vista analitica, sustemta a tese de que indo ha crise no dircito coletive do trabalho brasileiro, mas redetinigae do sour papel fice as relagdes industriais atuais. A cultura sindical & produto de ovas praticas com dois polos’ Capital/Trabalho. expres sando suas contradigdes ~ sua historicidade ~ que sofistica 0 antago hismo fimdamental entre trabulhaclores © classe patrowal, Do corpo ralivismo aos cambios pos 1987/1988. Lenttes vishumtbra os desdobrt- mentos pari aquela perderam 36% de sua rend entee 1989 ¢ 1991, Em segundo lugar. no aso de substituigto da produgio fibril por ouira de tipo mais artesanal hi sensivel queda na produtividade do trabalho, Ambos os efeitos redu- em 0 potencial de creseimento dt renda nacioru. a0 snibitem 0 er cimenio di produtividade, ou da domanda efetiva. quer como gasto iblico, quer como consumo” (Carta Fee. Fundagio de Economia e statistica do Rio Grande do Sul, nimero de fevereiro de 1986, Editor conomista Luiz. Augusto Estrella Faria) A “Declarago Final da 1X Conferéncia Continental da Associagéio americana de Juristas”. realizada em Porto Alegre. em junho de 1991 om a. presenga de mais de quinhentos profissionais de todo © conti- ente,afirmou que: “O neoliberalismo busca destnui os fundamentos do ireito do Trabalho. A crise provocada pelas classes dominantes nao ade servir de argumento para a chantagem internacional, com a mnseqiiente azudizagdo das desigualdades sociais e a porda polos traba- adores de suas conquistas através da pretendida “flexibilizagio” das ormas laborais” Na Argentina, por evemplo, jé se lexibilizou demasindamente, com adogio do trabalho temporsrio em larga escaln ¢ em prejuizo da ndicalizagio. Na Bolivia, foi estimulada, ¢ inclusive financiada pelo stado, a expulsio de quase dois tergos dos trabalhadores do mercado mal de trabalho. Os nimeros com beleza aparente ¢ superficial. di- ulgados pela imprensa internacional. sobre o Chile, no esclarecem 0 imero de subempregados ou a miscria das “poblaciones' 0 neoliberalisio. acaso nao contide eficaziente, pode nos levar ira da propria fragmentagio da sociedade, aqui neste canto do plane- 0 que ¢ inaceitivel e.antda, pode ser evitado. 7 FLEXIBILIZACAO X DIREITO ALTERNATIVO, Amilton Bueno de Carvalho* —Direite Alternativo © movimento do Dircito Alternativo, na realidade brasileira atua ccaracteriza-se pela busca de um instrumental pritico-tebtico destinado a profissionais que ambicionam colocar seu saberfatuaga0 na perspectiva de uma socicdade socialista democratica Representa algo novo porque é a praxis de um saber tebrico que antigamente circulava apenas na citedra de alguns pensadores pro- ipressistas, Assim, envolve o saber dos humanistas dialéticos, marxistas © neomarsistas, socidlogos e antropdlogos do direito, corrente psica~ nalitica, juristas vinculados & teologia da ibertago. ‘A nivel da América Latina nasceu com a uta pela concretizagao dos Direitos Humanos e como forma de resistencia & dominagio imposta por regimes ditatoriais. A populagdo, ante 0 fracasso da tentativa de alteragao do modelo vigente, via revolugo ou eleigdo. busca no juridico uum espago de luta para resistir & dominagdo ow avangar em tutas libertirias. Enfim, como ensina Fabio Konder Comparato (RT, 670, p. 11). coloca-se “a questio da interpratagaa da lei no terreno que Ihe & proprio fede onde mina deveria tr sido aljada: 0 politico” Juiz de Direito em Porto Alegre, Prof. de Dircito Alternativo na Escola Superior da Magistratura no R.GS. Prof, Convidado do Curso de pos-gradwagio fem criminolbgia na Univ, Fed. do Parand, Autor do livro Magistratura e Direito Alternanvo, Ed, Academica. 8 © movimento do dircito alternativo envolve: a) uso alternative do jrcito. com raizes na Magistratura Democritica Haliana, que ¢ atwagio entro do sistema positivado, no jé instituido, E utilizar contradigdes, mibigitidades do sistema numa ética democrativante, E uscar, Via interpretago qualificada, abertura de espagas possibilitado- es do avango das hutas populares: b) pasitivismo de combate (expresso ¢ Miguel Pressburguer), onde se (riva autGntica guerritha para que as onquistas da maioria da populagdo que ja foram crigidas 4 condigao de i fenham efetiva concretizagdo. ante a tendéncia de descumprimento e normas que represcntam vitérias populares. E utilizar o positivismo Jo como critério de explicagio da realidade, mas como anima ombativa. 10-56 Neste local, luta-se para que norms do: Cédigo do ‘onsumidor ¢ conquistas dos trabalhadores, por excmplo, tenham vida cal ¢ mio apenas vida formal, E que © dicito positivado, por veves, esiime conquistas democriticas. ¢) direito allernativo em sentido strito: emerge do. phuralismo juridico. E direito paralclo. cmergente, ouicorrente, insurgente. achado na rua. £ direito construido pela pullagiio na sua caminhada libertiria, ou seja. 0 povo constroi direitos a busca de solugdes a scus problemas. até em conflito com © dircito ictal, Reconhece-se que mun mesio espago geoerifico, nuin mesmo jomenlo histérico, existem direitos que caminham paralelamente, as ezes cm conflito. A atuagdo é no plano institute Este dircito alternativo deve ser efetivado desde que resuma con- uistas democriticas, busque sociedade mais justa, © tenha por limite rincipios gerais do dircito, E de se ter claro que a alternatividade no advoga inexisténcia de is. busca-se uma dominagdo justa cm oposigo a liberdade de dominia- io ou ais formas injustas de dominagio. na concepgio de Otfried Hoffe Iustiga Politica, ed, Vores, 1991). Nio se vislumbra sociedade sem ormus. Aliis. 4 veves Icis niis sto melhores do que auséncia de leis, Mas “a Iei. eticamente considerada, mndo dove estar a sorvigo da pressio, mas posilivar as conquistas na direeo da vida em abundancia ara todos. Assim, na busca do sonho. na luta por ele, as vitérias devem er crigidas a condigio de Hei, transformando em conduta obrigat6ria a er acatada por todos” (Amilton Bueno de Carvalho ¢ André Baggio, Jusnaturalismo de Caminhsida: uma Visio ético utopica da Lei”, Ij is. WAS. p49). Eo limite (conteiido racional) para violagto de leis injustas. ou jus- AS que na concrotude leven! & injustiga. esti nos principios gerais do ircto. principios definidos © conquistados pelo homem historicamente ocalizado, 16 H— Flexibilizagio Jo sobre flexibilizago no Ambit trabalhista tem origem calzanga, com vigor. nos altimos tempos. a América Latina, O tema é palpitante entre os tebricos juslaboralistas. Amauti Mascaro Nascimento (Problemas Atuais do Direito & do Processo do Trabalho, LTt $5, 18 8, p. 913) ensina que “Mexibilizagdo do Dircito do Trabalho é a corrente de pensamento segundo a qual ne- cessidades de natureza ccondmica justficam a postergagio dos direitos dos trabalhadores. Marly A. Cardone (Inirodugao ao tema cia Flexibilizagao no Direi- 10 do Trabalho, LTr 54, n° 7. p. 849) cita Luiz Pablo Slavin, para quem flesibilizar ¢ “uma forma de temperar os suposios excessos protetivos {que as leis estabelecem em favor do trabathador”. Marly afirma: “6 a possibilidade de alteraglo do contrato individual de trabalho ainda que prcjudicial ao empregado”. No mesmo local, cita Pla Rodrigues: ¢ “afrouxar a rigidez.resultante do direito laboral” .. “busca recuperar li- berdades fecilidades para o empregador” Nei Frederico Cano Martins (O Projeto de Reconstrugao Nacional a Fexibilizagao do Direito do Trabalho. UTr $5. 1. p. 1332) diz que é a “idéia de, ci sintese. afrousar-Ihe a rigides (do Dircito do Tra- balho). propiciando @ classe empresarial facilidades para 0 enfrenta- mento do pe-iodo cconamicamente nao propicio” Na suima, 0 que se pretend & o enfraquecimento das normas que resumam conquistas dos trabathadores, concedendo. assim, maior li- berdade Aquele que esti do lado opasto. do outro lado do baleto: 0 em- pregador. fo Alternativo: ponto em comum Ha ponto de contato interessante entre ambas as correntes de pensa- mento: tanto os adcpios da teoria da Mlexibilizagdo das normas traba- Ihistas quanto os integrantes do movimento do Direito Alternativo re- pudiam visio meramente legalista do dircito. ou seja. aquela que iden fifica 0 diteito 120-56 com a let. Eloisa Tinto Marques. de um lado. propugna afastamento da Teoria Pura do Dircito “que se respa jetta fria da lei” (Flexibilizagao do Direito do Trabalho — no Brasil, LTr 34. 8 12. p, L451) ¢ Tarso Genro, de outro, ataca “a identificagao do Dircito com 0 Estado. numa cespécie de Kelsenianismo de esquerda. que. por seu turno. produ uma ybordagem puramente I6gico-formal do Direito” (Direlto e Marsiswvo original, p. 3). ‘Vé-se que ambas correntes acolhem a lig protagdo atinge visio politizada Tal aspecto & importante porque, mediante nova téenica interpre- iva do fendmeno juridico, 0 ator juridico abandona o discurso da neu- ralidade ¢ se vé obrigado a despit-se idcologicamente (no sentido de risio de mundo). Em verdade. 0 jurist tradicional (ao entender que sua fungio no & srindora, mas apenas de sustentagio do dircito positivado) busca escon- fer seus compromissos sociais. Todavia, frente & discussio “Mlesibilizar” :“direito alternativo”, & necessaria a clarificago das opcodes assumida pelo exegeta. Aqui. mais do que munca, exige-se definigio do jurista qual tipo de Sociedade ambiciona’ de Comparato: a inter- IV — Flexibilizagao e Direito Alternativo: Tarso Genro. no artigo “Crise da Lei: a real ¢ a imaginaria”, ensina que para se chegar a um acordo sobre o dircito, deve ocorrer acerta- mento prévio sobre qual tipo de sociedade se ambiciona ¢ qual a pers- pectiva de humanidade Dircito Alternativo e adeptos da Nexibilizagao tém divergéncia in- superavel: aquele tem como pano de fundo. a orientar qualquer inter- pretacdo, uma visto socialista democratica da sociedade, postulando a stratificagao dos dircitos conquistados pelos trabalhadores ¢ sua possi- rel ampliaglo: estes. por sua ver. esto assentados nurnia “mistica do miereado como regulador natural ¢ insubstituivel da economia” (Luiz Alberto de Vargas e Ricardo Carvalho Fraga, “Reflexdes sobre as pro- postas de Flexibilizagao no Dircito do Trabatho em paises de tercciro mundo”. Revista do 42 TRT. n® 2). possibilitador da restriglo dos di- tos do traballiador. ‘Sao. pois. dticas que se destroem! A alternatividade atua, cada vex mais. com base em principios que slo “pautas que organizam o sistema independentemente das normas primarias ¢ sccundarias”. na palavra de Francisco Ballon Aguirre (Sistema Juridico Aguaruna ¢ Positivismo", in; Qual Dircito. Tajup. 1991, p. 20): principio é “norma que € mister observar. nto porque lore possivel ou assegure uma situago econdmica, politica o social julgada conveniente, mas por ser um imperative de justiga, de ho- nestidade ou de alguma outra dimensio moral” (Dworkin, citado por Ballin Aguirre, no mesmo local), 18 E que a humanidade, em sua caminhada histérica. constr6i direitos que sio crigidos 8 condigo de principios norteadores. universais. Assim 0 sio 0 dircito vida, a liberdade. No justaboralismo ha o principio de protego aos direitos do trabalhador (am imperativo de justiga). Aqui reside sua caracterstica essencial: protego ao débil, a maneira de tratar com desigualdade os design tal principio protetor esta fulerado em outro anterior que é 0 da vida com dignidade Esta carecteristica do Dircito do Trabalho (protegdo ao fraco) ¢ to significativa que ha unanimidade entre os doutrinadores e estende-se hoje a outros ramos do dircito (ver atual Codigo do Consumidor, ‘Assim, ¢ principio de protegao aquele que trabalhia ¢ conquista da ‘numanidade. € etapa vencida no movimento histérico que niio se admite ais retrocesso, A consciéncia juridica universal repudia a restrigdo de tal conquista Este, pois, ¢ 0 norte imterpretativo, 'A partir de tais principios (vida digna ¢ protesa0 ao trabalhador) normas legais que buscam colocar em pritica. ou seja. no mundo real. aqueles principios, sob pena de servir de adorno tio-s6. Dai cmergom. sempre pela luta popular. leis que tornam irredutivel 0 sakirio, o pagamento de horas-evtras diferenciadas. entre outras. Os principios que esto em pano de fund fazem-se presente no dia- ‘dia. Eles se incorporam, via dircito positivado, 20 mundo dos fatos, Entio o direito altemativo procura, através do positivism de com- bate, estraifcar tais conquistas. A atuagao € para que ndo ocorra retro~ cesso, ante a tendéncia de recusa de aplicagao de normas que beneficiem 6s trabalhadores. ‘No Dircito do Trabalho onde as conquistas sao muito presentes, © Jurista deve atuar. com froqiéncia, dentro do limite do positivado, como ‘maneira de politizar a interpretagio. Mas nao é s6. A partir do momento em que as vitérias na busca da ‘t6pica vida em abunckincia forem erigidas & condigao de lei ¢ aplicadas fa luta no se encerra, sob pena de cristalizago da historia, mas continua para que novas expectativas populares sejam elevadas a con- digo de leis escritas e efetivadas. ‘Assim, deve-se buscar a construgdo de novas leis que incorparem os avangos das anteriores. superando-as. ultrapassando~as, positivando fnovas conquistas mun perntanente devit Flesibilizar, por outro lado © no lado oposto. no sentido que se tem dado, representa, na dtica alternativa, um retrocess0, posto que busca restringir direitos ja conquistados pela classe trabalhadora, E passo atré na histdria cue deve movimentar-se no sentido da construgio de direitos, © do no da destruigdo, Mesmo porque. como ensina Cindido n arco, “o homem vio tem ais direitos. mas ele & tals direitos” Hxecugao Civil, RT, 1987, WN61), Vé-se. portanto, que a allernatividade quer ampliar direitos do rabalhador e a flexibilizago pretende restringir. Assim, tendo-se como principio (pano de findo) a protegao ao tra alhador (conseqiiéneia de principio mais amplo, vida digna). toda que ofenda tal substrato merece repiidio por vir Je enicontro com as interesses do dsbil: © principe do direito modemno, \0 contririo, merece apliuso toda norma ou interpretagao que amplic s direitos da classe trabathadora Entao, quando a flexibilizago suyere reduvir salérios ow hor le Servigo. mesmo com eventual anucncia de sctores sindicais. ainda sim no podem ser acetlos no plano do juridico. Eis 0 principio, como odos. que € de ordem piiblica, su dimensie ¢ social. dai porque irre- nunciavel, A sociedade, como um todo. tem interesse na firmer do rincipio profetivo: o stkitio (¢ os direitos do trabalhiador) nie mantémn statulo meramente individual, privade Evidente que se admite nexoctagao entre patrdo ¢ cmpregado desde ue ndio seja_ para ncorporados © conformes com rincipios gerais. Mesmo porque o que se vislumbra na expresso ne~ ociar é. como sempre. diminuir as conguistas dos trabalhadores. AL -mitigagao do principio protctive. no pais. tem local historico esclare~ edor: regime de 1964, com a instituigao do FGTS (Orlando Teixeira da ‘osta, Rigides ¢ Mextbilidade no Direito der Trahallis no Brasil, LT 4.189, p. 1047), Por outro lado, quer me parceer que a doutrina da Aexibilizagio & penas uma forma de dar suporte teérico “Mexibilizagio” que sempre Xisti no pais. posto que, na vida real. mesmo os direitos legalmente onquistados pelo povo tem sido sonegads. posicryados. bastando coma xemplo 0 confronto entre a defin scion do salirio minimo ont © niimero de moedais que chegim micusalmente ao bolso do traba- hador. Flexibilizar (ou temperar dircitos daquete que traballia) sempre em sido a tGnica em nossa hist6ria, ou a morosidade do judickirio tra alhista, o arrocho salarial, «falta de estabilidade, nio sto Formas cruis| je conceder vantagens ao empreyador? Alias. Nei Frederico Cano Martins (loc. cit.) demonstra com clareva qual 0 invisivel ideologico que st por tris da flexibilizagio Ent jo se pode admitir que o suber teérico tenha 0 condiio de lestruir conquistas secutares. fruto de lula as veres sangrenta dos tra nalhadores. A teoria que pretenda destruir a praxis libertadora deve ser Zomba w 8 SINDICALISMO E CIDADANIA Josecleto Costa de Almeida Pereira* Este texto nasce em face da critica ¢ autocritica existente no nosso contexto sécio-politico. ¢ também como uma contribuigao modesta pa fazer alguinas reflexdes sobre 0 Sindicalismo ¢ 0 exereicio da Cidada- nia, A intengio ¢ levantar a problemetica sindical atual face a nova (des) ordem econdmica mundial. arriscando um prognéstico sobre a cemancipagao do trabalhador como cidadao. ‘© Brasil mudou nos iiltimos anos ndo Iii divida. Mas 0 que real~ mente mudou foi a vontade dos brasileiras, ¢ especialmente a juventude dos caras pintadas. que resgataram o movimento estudantil na uta pela ‘tica na pol tica, acompanhados de outros segmentos da socicdade civil, ‘como por exemplo. as principais Centrais Sindicais. Hoje mais que nunca temos um papel importante a desempenhar {que € a consotidagaio da Democracia em nosso pais © a0 mesmo tempo ‘excitar 0 trcbalhador & necessidade de participar das discussdes © ages para relomar a cidadania identificada com a emancipagao da maioria da populacao. A Gidadania nio pode ficar restrita a declaragao de direitos politicos formais do cidadio abstrato. mas os direitos concretes do homem real, © {quo pressupde para nos um estado de espirivo © uma postura permanente {que levam pessoas a agirom. individualmente ou em grupo (sindicato). ‘com abjetivos de defesa de direitos ¢ de cumprimento de deveres civis. * Professor Adjunto no Departamento de Direito Privalo ~ UFSC. Pose Gradua» Mestre em Direito! 1982. Membro da OA. ~ Santa Catarin. al sociais, politicos ¢ profissionais. E necessirio ajudarmos desenvolver em nosso povo a consciéncia da cidadania uma ver. que, existem as condigées politicas favordveis para isso. Os brasileiros nao tiveram, até hi pouco, oportunidade de ceduear-se para a cidadania, raz8o por que éfraca sua idéia e conscigncia a respeito dela. No momento nao estamos resgatando por que nunca © exercemos realmente, Portanto, participar de qualquer segmento da sociedade implica numa decisio do individuo e este precisa descobrir sua capacidade para por em ago suas decisées, ¢ esta tomada de decisio significa poder. Este poder levari o homem a encontrar-se consigo mesmo. construindo sua identidade que é social, ¢ de classe, ¢ a descobrir sua propria liber- taglo face as forgas dominantes ¢ opressoras comprometendo-se a depu- rat suas idéias ¢ Iutar por uma sociedade mais justa, Estamos no alvoreecr do terceiro milénio. Comegamos a questionar 0s valores espirituais ¢ materiais deste tltimo século, nossas verdades- paradigmas transformam-se em incertezas, o homem esti mergulhado ‘num egocentrismo e isolamento social sem limite, contrastando com 0 desenvolvimento tecnoligico. 'No século passado, criaram-se muitas esperangas, com base nas doutrinas filoséficas, nas eiéncias, no progresso tecnol6gico, mas z hu- manidade, néo se fazendo acompanhar por um correspondente desen- volvimento social e ético, foi obrigada pelas crises econdmicas plane- Jadas perversas. a ver volumosos bolsbes de miséria, desemprego, em- ;purrando o homem para a ansicdade, a inseguranga. a violéncia, enfim, ‘um niilismo pos-moderno, Quantas indagagdes poderemos fazer a partir de algumas constata- ‘gdes dentro da ordem social, econémica e politica do nosso tempo? Vivemos num periodo histérico de intensas transformagoes tecno- logicas ¢ suas conseqiiéneias na organizagao social, politica e sindical 'Sdo também muitas as verses que (entam aprender esta realidade: © fim da guerra fria e a nova (des)organizagao mundial; 0 nascimento de uum mundo com novos blocs de poder (CEE-Comunidade Econdmica Europeia / Mercosul-Mercado Comum do Sul / NAFTA-Assoviagio de Livre Comércio da América do Norte (EUA, Canada ¢ México) estes locos politico-econdmicos esto substituindo velhas aliangas militares; ‘6 neoliberalismo se propaga pelo mundo, na esteita dos descaminhos do socialismo do leste europeu, como nova face do capitalismo; entre coutras, 82 Com tantas transformagbes em curso, surgem muitas inquictagbes © {questionamentos, mas pelo menos uma delas se coloca de forma in- ‘questionavel, que é a internacionalizagao da economia ¢ da politica, fevidenciando-sc uma crescente interdependéncia entre os paises ricos aumentando a concentragao de renda ¢ aprofundando as contradigbes entre os chamados paises do Primeiro e do Terceiro Mundo, ou de Cen- tro-periféricos, E, dentro deste quadro dantesco, cresce nos movimentos sindicais a necessidade de uma unio na defesa dos seus principais interesses, es- bogados como por exemplo: a questao da flexibilizagao da jornada de trabalho e do salério, procurando destacar 0 cardter internacional das stias aspiragées politicas, enquanto sujeitos transformadores desta socie- dade. 1 importante lembrarmos que a histéria do sindicalismo comeya com a Revolugdo Industrial do fim do século XVIII, em face da desco- berta da maquina a vapor, e a mudanga radical no modo de produglo, tem decoréncia da ulilizagao da maquina como fonte energética, em substituigio a forca humana ¢ a forga animal, criando, por outro lado, ‘uma concentragao de trabalhadores vulnerdveis superexploracao pelos patrdes. ‘A partir deste periodo surgiram as primeiras greves reivindicadoras das condiges de trabalho e de saldrio, como também as associagGes dos trabalhadores para defender scus interesscs. ‘As questdes sociais surgidas com o capitalismo receberam da Igreja Catélica suas primeiras criticas com a Enciclica Rerum Novarum do Papa Ledo XIII (1891), quando a mesma reconheceu a gravidade das condigdes sociais dos trabalhadores, afirmando que “o erro capital na questio presente € crer que as duas classes slo inimigas natas uma da outta, como se a natureza tivesse armado 95 ricos ¢ 0s pobres para se Combaterem mutuamente num duclo obstinado'”. Mas. considerou “"vergonlioso e desumano usar 0s homens como vis instrumentes de Iucro?,” devendo o Estado “se preocupar com os trabalhadores™. Surgiram também varias correntes de pensamento critico a0 Capi- talismo. como por exemplo: A doutrina Anarquista, que defendia a ne~ cessidade de suprimir qualquer forma de governo, sustentava que 0 1. Epcicliea Rerum Novarum - Condigio dos Operéios/Bd. Vozes, 1985 p. 19. 2. dem, p. 21 3. em, p. 35. 83 overno, ¢. conscqtientemente, 0 Estado, representavam a origem dos les da sociedade. no admitindo, como os marxistas ortodoxos. a rOpria existéncia do Estado. (© mais antigo sindicalismo ¢ 0 da Inglaterra (tradeunionismo). cu- 1s associngdes visavam as reivindicagdes salaiais ¢ & limitagdo da jor- ada de trabalho. 14 na Alemanha, o sindicalismo foi admitido com a ‘onsttuigdo de Weimar (1919), ¢ na Franga doclarado a partir de 1884 ) Tratado de Versalhes (1919) referia-se de forma indiscutivel a0 prin- ipio da Liberdade Sindical, como um dos objetivos da Organizagao aternacional do Trabalho (O1T) No Brasil. os priniciros sindicatos foram as Ligas Operarias. dos ns de 1800. influenciadas pelos trabalhadores estrangeiros. Porém, os sindicatos s6 foram reconhecidos em 1903; 05 trabalha- rcs rurais ¢ os sindicatos urbanos em 1907, com a primeira Lei que ontemplava a Liberdade as entidades sindicais para se consttuirein ra abrigada claborar seus eslatutos. se registrarem ¢ formarem Federa- a. no inicio da industrial Bes ¢ Confederagées. Todavia. naquela época io. quase nao teve aplicago, Predominava no Brasil, no inicio deste século. 0 movimento anarco- indicalista. de pura contestagio 10 capitalismo, pois esta doutrina olitica desembarcou no Brasil com os imigrantes italianos, espanhéis, ntre outros curopeus. Em 1930, Gciilio Vargas chega ao poder através da Revolugo. que narcou uM momento na transiglo de uma economia agririo-ex- ortadora para uma economia industrializante, ou seja, uma concilia nire os intcresses agririos ¢ os urbanos. excluindo a participagao do perario. Uma das primeiras medidas do Governo Vargas foi a cri jo Ministério do Trabalho, com um objetivo muito claro. conter 0 vango da classe traballiadora dentro de uma politica sindical onde © indicato incorporava-se ‘is regras do Estado, em outras palavras. os indicatos passaram a 6rglos consultives do Estado. numa politica con- iliadora entre capital ¢ o trabalho, além da proibigao da atividade clitica ou ideolégica Entendemos que © corporativismo sindical brasileiro iniciou-se fetivamente com 0 Decreto n® 19.70/31, o qual estabelecia 0 controle inanceiro do sindicato pelo Ministério do Trabalho, permitia a interfe~ éncia dos delegados deste Ministério nas assombléias operdrias. velava filiagdo a organizagées sindicais internacionais. negava direito de indicalizagao dos servidores piblicos ¢ tantas outras limitagoes: enfim \e Decreto era a sinopse da Carta del Lavoro do fascismo italiano de Zenito Mussolini. 4 E 0 tempo nfo para, grandes modificagdes vio surgindo ao longo da nossa historia recente. delineando novas formas de luta © de question ramentos sobre © papel do Estado, dentro do modelo cconémico nnun- dial c brasileiro, 5s efeitos da crise econdmica mundial se fazem sentir no Brasil na década de 70. 0 nosso modelo econdmice, politico ¢ social entra em es- tado de choque com a crise do petr6teo!73. Buscaram-se solugdes super ficiais, mantendo regras que proiegem 0 capital em detrimento do tra- batho, Tenta manter os sindicatos sabre controle (Ditadura Militar) mas 2 Iuta dos trabalhadores por melhores condigées de trabalho e de vida © pela Democracia foi decisiva para romper com a esirutura sindical corporativa. O teste para os sindicatos foi fundamental, © aumento de desemprego ¢ a incerteza empresarial levaram os sindicatos a disculi- rem o seu papel Muilos paises, principalmente periféricos. adotaram como saida tuma politics neoliberal tendo como meta, superar a crise econémica com a possibilidade de tornar mais flexivel os direitos trabalhistas reti- rando certas garantias no emprego. como por exemplo: a establidade © a redugio dos satairios. E € dentro desta realidade que os sindicatos tém que se defrontar © agir para garantir um compromisso social eavaliando o projeto neolibe- ral como “salugdo” para a crise ¢. ao mesmo tempo. avangande no exervicio da cidadania fortalecendo assim a Democracia que se quer ver construida Os sindicatos enquanto entidades inscridas no cotidiamo dos traba- Inadores se constituem cm sujeitos privilegiados na elaboragao de: um novo projeto para sociedad onde a cidadania esteja idemtificada com a ‘emancipagae politica e social do trabalhador. onde o sindicato assuma tum papel eritico a interagir sobre os destinos da sociedade com outros segmentos populares rumo a Democracia, fundada na liberdade na solidaricdade Porém. a estrutura sindical brasileira (ainda fortemente corporati- vista, mesmo com a atual Carta Constitucional - 1988) para enfrentar este grande desafio. que ¢ repensar a ago sindical com 0 exercicio da Cidadania, precisa romper com velhos preconccitos e a0 mesmo tempo se inlegrar no movimento sindical internacional. mesmo mantendo sta especificidade a As primeiras manifestagdes sobre organizagao sindical foram com as Internacienais. a primeira fundada por Karl Marx (1864). a segunda socialista (1889) ¢ a terceira loninista (1914), Mas 0 movimento sindical intemacionalizou-se efetivamente com a iagdo de organismos de Ambito internacional dentre 0s quais a Fede- ago Sindical Mundial - FSM (1945); a Confederagao Internacional jos Sindicatos Livres - CISL, criada em Bruxelas em 1949, (defendendo ) pluralismo sindical ¢ ao mesmo tempo reagrupando as organizagoes issidentes das outras entidades), j4 a Confederagao Mundial dos Traba- hadores - CMT, teve uma atuag0 no muito representativa agrupando ‘gumas Confederagées dos sindicatos catélicos de alguns paises, tendo como linha de ago 0 meio termo, ou seja, nem capitalismo nem socia- Das entidades sindicais a nivel internacional indiscutivelmente a nais importante no momento & a Confederagio Internacional dos Sin- ficatos Livres (CISL), que tem uma politica baseada em principios da ocial-democracia européia, agrupa as Centrais Sindicais Nacionais dos yaises do bloco capitalista (EEUU, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Succi, etc), ‘No Brasil a Central Sindical que se filiow a CISL foi a Central Unica dos Trabalhadores (CUT) sendo a mais conhecida das Centrais existentes no Brasil. O papel da CUT é de fundamental importincia nas liscussocs em torno das questGes trabalhistas que norteiam as Centrais indicais do mundo moderno (nao quero dizer _modernidade) possibilitando abrir um novo caminho dentro da nossa reatidade, com perspectivas conercias de responder ao desafio da transnacionalizagao da economia mundial, ‘As constatagées de que o mundo vem softendo mudangas réipidas, que o ser humano que trabalha é mais complexo que o trabalhador do culo passado e que nao existe uma solugo magica (s sindicatos nao podem ficar & margem desta realidade, & neces~ sirio superar os preconceitos. romper com 0 modelo clissico e se afir- mar enquanto sujeitos auténomos no debate plural na construgao de uma nova sociedade. 0 fato € que depois de muitos anos de obscurantismo involuntirio, imposto pelo sistema politico ditatorial, o movimento sindical ¢ grevista recolocow a classe trabalhadora na cena social ¢ politica do nosso pais. Outro dado interessante do movimento sindical ¢ o grau de polit raciio da classe trabalhadora, mesmo quando a lula ¢ de motivagio coondmica. E 0 que nos parcce bastante positive, hoje. € a mudanga qualitativa do movimento geral. Indiscutivelmente esta situagd0 criou uma questo nova que é a ideologizacio do proprio movimento sindical Esta realidade € fruto do vazio aberto pela limitagdo dos partidos politicos eo papel politico relevante assumiido pelas Centrais Sindicais, (CUT; CGTS; Forga Sindical). Dai a discussio se as Centrais devem se 86 restringir as pugnas sécio-profissionais ou engajarem-se num projeto de sociedad alternativa “La necesidad que todos tenemos que afrontar, y no en menor grado cn los sindicétos, es democratizar a la democracia. Esto es mucho mas que una simple cuestién formal, y es algo mucho mds que dejar abiertas las oportunidades de las cuales se pueden aprovechar los hombres, si lo desean. La democtacia significa participacion”™ ‘A Democracia s6 serd democratizada para 0s trabalhadores quando ‘0 “homem-massa” tiver consciéncia de sua capacidade de fazer e refazer ‘© mundo, pis. so os homens, as consciéncias, as alavancas para remover o velho ¢ construir 0 novo. ‘A conscientizagio deste fendmeno € condigao fundamental para a transformagao social, pois seri impossivel qualquer transformagdo indi- vidual, se nie for feita a social. O povo, até hoje, foi totalmente escravo dos poderosos; diretamente, através da escravidao, ou indiretamente, por meio dos regimes sociais, seja através de governo imperial, feudal, burgués, capitalista e © marxista ortodoxo, 0 fato € que nunca 0 povo serviu a seus préprios interesses, 0 que equivale dizer que jamais 0 ser ‘numano foi livre Vv Nao pretendemos definir a cidadania, mas entender seu significado a0 longo das conquistas sociais, politicas, juridicas, do nosso tempo. Historicamente a nogdo de cidadania ficou relacionada a situagdes e mo- vimentos libertirios ¢ revoluciondrios que demarcaram seus espagos como grupos emergentes na sociedade. Temas como exemplo: a passa~ ‘gem do regime feudal para a “liberdade” do sistema capitalista, © qual impés limites para 0 exercicio da cidadania. ‘A classe emergente, ou seja, a burguesia, tragou pardmetros ao indi- viduo e suas relagdes com a sociedade e 0 Estado. Trata-se, portanto, de um fenémeno complexo que passou para a histéria com a Revolugdo Francesa (1789) a qual estimulou fortemente 0 totalitarismo. Houve, na realidade, um verdadeiro “totalitarismo democratico popular”, uma vez que 0 Estado agambarcou a ordem juridica. A subdivisio do Estado nos és poderes, legislative, executive e judiciisio, ao mudou em nada a situagdo. As sociedades intermedisrias, as associag¥es, continuaram © continuam marginalizadas, Em outras palavras a Revolugo Francesa 4, Harold I, Laski. Los Sindicatos en la Nueva Sociedad, Fondo de Cultura Beonomica, México, 1985 87 spresentou a crise das estruturas até entio vigentes. sendo substituidas or outras apropriadas a0 Estado burgués (capitalista). a ideologia svolucionaria foi burguesa, Estava-se na era da burguesia triunfante (5 efeitos desta Revolugao foram sentidos no campo econdmico. ocial e politico, aumentando as contradigdes da sociedade. Estas contradigdes aumentaram as desigualdades desta “nova rdem” burguesa, tranformou os principios de igualdade, liberdade © faternidade, em novas lutas, novos questionamentos e, indiscuti- elmente, negando as forgas historicas que os instituiram, Portanto. falar sobre cidadania é reafirmar 0 direto do individuo se ealizar plenamente, como cidadio no proceso de desenvolvimento ccnolégico que estamos vivenciando. "Ao longo deste século, a humanidade se defrontou com muitos contecinientos de repercussdes profundas com as revolugdes socialistas ¢ duas grandes guerras mundiais ¢ mais recentemente a estingdo da Jno das Repiblicas Socialistas Sovisticas © a formago da Co- nunidade de Estados Indopendentes (CEI). hoje duas tendéncias pre~ fominam nas agdes politicas dos lideres das repiblicas da CEI, em meio 10s avangos ¢ recues no reformismo econémico, De um lado, a procura fe uma nova unidade das ex-repiblicas sovidticas. através da CEI. sem } tradicional centralismo administrativo de Moscow. de outro. mpleta autonomia de cada uma das repiblicas, varias delas mergu hadas em lutas étnicas internas. além das incerte7as, se agrava mais © juadro ccondmico e politico daquela regis. 0 fato é que hoje vivemos a estruturacdo de uma nova (desjordem internacional cuja feigto ainda nao se encontra completamente definida, nbora, estas duas tltimas décadas. os principlos te6ricos do ritalismo. negando 0 estatismo © a planificagdo econdmica (revigo- faram o neolibcralismo) tenham soprado muito forte principalmente com a crise do socialismo real ¢ o consequente fim da Guerra Fria, com repercussdes no conjunto das relagdcs politicas ¢ econdmicas interna sions, Portanto, a questo da cidadania. como fenmeno politico e juridi- co, depende da classe social a que pertencem 0s individuos. ou seja. no exercicio da cidadania se abre a questo sobre 0 socialismo e a demo- cracia, pois a luta politica ¢ ideolégica poder mover-se no sentido da igualdade teal de dircitos dentro das regras yuridicas vigentes. numa luta em que & isonomia juridica corresponda uma real igualdade dos homens. ara concluir este artigo. nao poderia deixar de faver algumas con- sideragdes sobre o pensamento de Karl Marx. nome que esta presente na historia politica contemporiinea, sem esquecer que ele foi um filésofo do 38. seu tempo (século XIX), no que diz. respeito ao conflito ow a po- larizagao. na sociedad entre as duas classes em luta: a burguesia © © proletariado. (© que Marx (1848) previa era um conflito resultante das contradi- Ges da propria sociedade capitalista que ele estava vivendo, condutor & negagio do modo de producio capitalista a ser substituide pelo modo coletivista (sacialismo). por isso somos obrigados a pensar ¢ agir de formas diferentes, pois sua previsio niio se confirmou, 0 que nos leva a ‘uma conclusio de que velhos procedimentos do movimento operirio correm 0 riseo de se esgotar ¢ escorregar numa praxis ineficaz, tipica dds positivistns da primeira e segunda Internacionais. Por isso entendo que “o movimento dos trabalhadores, hoje, s6 pode cerescer ¢ se fornar a forga hegeménica na sociedade se souber Fazer aliangas realistas, se tiver propostas viaveis para as classes médias, se mostrar comaeténcia politica para dividir 0 campo de seus adversirios ais poderosos. O jogo se tornou muito mais dificil do que aquele que Marx conhecia. E tudo indica que vai se tornar ainda muito mais dificit™. Porlanto. o movimento sindical brasileiro, em fungao de sua forca coletiva com sujeito inserido no dia-a-dia dos trabathadores. se consti- tui, hoje, em um instrumento capaz de formular wm novo projeto para a sociedade onde se possa aprofundar a andlise sobre concepgdes de vida. a a verdadeira emancipagio politica ¢ humana do trabalhador, ou © exercicio pleno da cidadania, “O terreno onde a assimilagao do pluratismo poderd vir a ser com= provada nao serio terreno do discurso, mas o da criagio pritica de condigdes nas quais os socialistas venham a se capacitar para a constru- ‘fo de uma cidadania democratica. Os “marvistas” estardo sob observa- ‘40; cabe-Ihes demonstrar na atividade politica que a “fitosofia da pri- sis" Ihes permite assegurar aos cidadaos, universalmente, direitos mais abrangentes ¢ liberdades mais completas do que as propiciadas pela concepgtio liberal. ‘Quais serdo as contribuigdes que eles poderdo dar a esse fortaleci- ‘mento da cidadania?". (0 desafio dos dias de hoje € muito grande, 05 sindicatos no orto- doxos precisim ampliar ¢ enriquecer © pensamento de esquerda, abrit espago para discusses universais da condigao humana sem pruridos como por exemplo: a criagio cultural 5. Leandro Konder. O fut da filosofia la praxis: 0 pensamento de Marx no século XX1, p. 135, Ed. Paz e Terra, Rio, 1992. 6. Leandio Konder, op. cit, p. 136 89 Portanto, é necessério o didlogo, pois dele surge a autocritica e, por conseqiiéncia, uma avaliagao melhor sobre a realidade, favorecendo a construgo de uma sociedade mais humanizada e politizada, para nos ibertarmos do medo, da miséria e da opressio. Pois, mais importante do que as questdes tecnologicas, econdmicas ou de mercado, continua sendo 0 homem. “O momento é de surpresa. Sabemos que a cultura juridica burguesa esti ruindo, Conhecemos a necessidade da positivagio juridica do direito dos trabalhadores. Sentimos a necessidade de articular forgas entre os operadores juridicos e destes com os movimentos sociais, Ieit- motiv do dircito novo. Pressentimos as dificuldades politicas, tedricas ¢ idcoldgicas, Estamos abertos as ripidas mudangas que tocam 0 pais ¢ 0 mundo no findar do século XX. Acreditamos num novo iluminismo, negador da barbarie e afirmador do socialismo, radicatizagio da demo- cracia, Trata-se de um longo processo. A luta somente tem inicio. Importa estar sempre alerta ao lema favorito de Marx: De omnibus dubitan- dum” Em suma, vivemos num mundo em transiga0, em que paradigmas ¢ muitas verdades esto sendo questionadas ¢ substituidas por novos valores, isto implica num direcionamento onde as prioridades do di dia se ampliam de forma que a emancipagio e a libertagzo humana possam resgatar do passado a esperanga, sem, no entanto, repetir os err9s, e 20 mesmo tempo alimentar as utopias pensadas, num projeto de sociedade que extrapole os interesses imedialos e resgate a vida digna do trabalhador no exercicio da cidadania, “Os fil6sofos limitaram-se a interpretar variadamente 9 mundo, mas o que importa é transformar o mundo” (Karl Mars). 7. Edmundo Lima de Arruda Jr. Introdugdo @ Sociologia Juridica Altemativa, Ensaios sobre 0 Dieito numa sociedade de classes, p. 142, Ed. ‘Académica, So Paulo, 1993. 90, BIBLIOGRAFIA ARRUDA JR,, Edmundo Lima. lnrodugdo 4 Sociologia Juridica Altemativa, S. Paulo, Ed. Académica, 1993. 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Sobre o tema, que no é novidade, mas que ainda nfo se incorporou. como prtica conscientc ¢ sistematizada. a atividade Jjuriica conum, a primeira questio a ser posta & a da nevessidade de os juristas ¢ advogados interessados na busca desses caminhos superarem a formagio clissica do diteito brasileiro, informada pelo positivism juridico. que faz. da norma um fetiche e converte o processo numa téc- nica vazia, tudo isso com um propésito bem determinado Encontrar a postura correta cxige o conhecimento da estrutura e das condigées materiais da sociedade, num certo momento histérice, para dai se comprvender como se passa a formagdo do dircito, em que consistem os modos de stia produgdo. comumente conhecidos como “fontes do direito”. Exige constante anilise critica. nao empirista e sim dialética, ¢ © dominio da logica dialética para saber valer-se dela num mundo onde impera a légica formal. Nio se pode prescindi, para isso, da. discussio interdisciplinar, j4 que ~~ parafrascando o que alguém disse da guerra — o dircito ¢ assunto sério demais para ficar por conta apenas dos juristas. Esses es'orgos tém sido empreendidos. Em 1980. circulava_ 0 primeiro nimero da revista Critica do Direito, editada em Sio Paulo sob a diregio de Marcio B. Naves ¢ J. M. de Aguiar Barros. em cuja * Advogndo no Rio de Janeiro, 93 presentagdo se proclamava a necessidade de “forjar os elementos te6- icos que possibilitem revelar € desmistficar a pritica ¢ a ideologia uridicas que, ao mesmo tempo, realizam ¢ encobrem as relagdes de lominio e de exploragio das classes trabalhadoras”. Infelizmente, essa niciativa nd passou, creio, de um terceiro niimero daquela importante yublicagio. Ficaram o alerta e a semente. Em 1982 — ja agora em Brasilia — outro grupo anuncia a funda- io da Nova Escola Juridica Brasileira langa a revista Direito e Avesso, ‘ujo conselho editorial ¢ constituido de Marilena Chaui, Raymundo Faoro e Roberto Lyra Filho, ¢, expondo as razées da existéncia, no mundo juridico nacional, de uma nova escola, coloca 0 Direito como um processo histBrico e afigma: “O que deste resulta, a cada momento, € © votor extraido da dialética social, numa pluralidade de ordenamentos antitéticos, dentro do qual as classes ¢ grupos ascendentes afirmam as novas quotas de liberdade, no eterno combate contra a espoliagdo © @ opressio do homem pelo homem”. Esta segunda iniciativa vem conseguindo resistr, e nosso trabalho pretende dar uma contribuigo a que cresya € ganhe novo impulso a produgio daquele Direito em nova dimensio, ‘No momento presente, caracterizado pelo agusamento dos conflitos sociais causados pelas sucessivas medidas de implemento de uma poli- tica econdmico-financeira imposta por um poder ilegitimo, que priv Iegia o capital estrangeiro e eleva a niveis insuportiveis o empobreci- mento da classe média e a miséria dos trabalhadores, cm que grassa a descrenga nos valores da socicdade brasileira ¢ a palavra “crise” se transforma em pesadelo nacional, aumenta a importancia de levar & frente, aprofundando-a, a critica do ordenamento juridico que tem ser~ vido a essa estrutura social. Em época como a que estamos vivendo, a efervescéncia do organismo social provoca pronunciamentos somibrios de mau agouro, destinados a fazer crer que 0 pais esta a beira do abis- ‘mo, mergulhado no caos € na anarquia ou a ponto disso. Todo esse discurso exprime o temor das classes privilegiadas, ja no ‘Go seguras de conservar suas posigées de dominio ¢ levadas a apontar ‘como catastrofico para toda a sociedade aquilo que podera abrir as por- tas para que ela se liberte da opressio € das iniqiidades. Num quadro desses ganha relevo, para os profissionais do Dircito, a ligo de Roberto Lyra Filho em Direito do Capital e Direito do Trabatho: A nossa posigéo de juristas ndo ¢ apenas a de “conhecer e inter~ pretar os sistemas de normas”, e, sim, de contribuir para que elas sejam transformadas, na diregdo dos movimentos juridicos reivindicatérios de classes espoliadas e grupos oprimidos, cujos direitos ficam sacrificados setorial ou globalmente. O saber técnico-cientifico do jurista, libertado 94 da sua fungio de assessorar a dominagio, como no positivismo, torna-o, pelo contrario, um assessor da libertaco.” ‘ Essa contribui¢do transformadora nio se esgota em retoques nas normas jé inscritas na ordem juridica (embora, sob certas citcunstan- cias, ndo seja deixado ao jurista espaco para nada mais que alguns reto- ques da legislagao). Para ser realmente libertadora, a atividade dos ju- ristas ¢ advogados tem sempre de ir além de uma atitude meramente re- formadora da lei e ousar criar direitos, ainda que tenham de contrariar 0 ordenamento juridico existente, mesmo porque eles so impostos pelo movimento social daquelas classes e daqueles grupos a que alude Ro- berto Lyra Filho, Requer uma Iuta permanente contra a alienagao resul- tante do axioma de que “a lei é igual para todos”, para que se possa cchegar a0 abandono das ilusdes, no sentido definido por Marx em n- trodugéo & Critica da Filosofia do Direito de Hegel: “A exigéncia de abandonar as ilusdes sobre sua condi¢ao 6 a exigéncia de abandonar uma condigéo que necessita de ilusoes”. Ou seja: ndo haveré nenhum contetdo transformador e criador no ‘trabalho do advogado e do jurista enquanto estes nao abandonarem a condigdo de portadores e difusores da falsa consciéncia da igualdade Juridica, de que norma e direito se identificam, de que a boa aplicagao dda norma (raz a justiga, sem questionar a natureza histérica e o contei- do social dessa normatividade. ‘0 abancono, pelos assalariados, das ilusdes sobre sua condigdo de explorados, no depende somente de juristas ¢ advogados, e muito me- nos se alcangara pelas vias judicidria e logislativa, pura ¢ simplesmente. Mas 0s homens do Direito comprometidos com a justiga social podem ser bons auxiliares na construgio do direito dessa classe emergente, ainda no interior da velha sociedade ¢ aproveitando suas estruturas € InsituigSes. Até porque o abandono da ilusdo na lei ¢ na méquina ju- dicidria como garantias maximas do direito do trabalhador methor se atinge com ¢ pritica critica de sua utilizagao do que com doutrinaristos vverbais. Tudo esti em nfo se considerar a sociedade existente como 0 es- Ligio final do desenvolvimento humano, eterna ¢ imutivel. Porque ela niio € sendo histaricos, como histérico € o direito, historica é a moral histéricos sio os costumes. E preciso, a cada instante, vencer a falsa conscigneia que a orden juridiva ansuiite ao organisme social, a idéia de que o Estado espelha os interesses gerais de toda a sociedade, como algo abstrato que pairasse acima dela e fosse um produto da razio; a iusdo na perenidade de uma determinada ordem juridica, decorrente da cultura recebida das faculdades de Direito e sobre a qual vale citar um trecho de George Sarotte em O Materialismo Historico no Estudo do 95 Direito: “Os juizes. bem como os outros juristas, esto impregnados de ‘uma cultura juridica ligada a ordem social existente. A cultura ¢ a ideologia das forgas sociais dominantes absorve-se como 0 ar que se respira, sem mesmo se dar por isso. Alids, isto niio ¢ especifico do ‘mundo dos juristas: os proprios proletarios nao escapam com facilidade 4 esta impregnagio; apenas a luta de classes pode conseguir preserva- los, pois, em iltima anilise, a ago e pritica exercida de acordo com determinado sentido ¢ que determinam 0 pensamento ¢ que © podem fortalecer contra as influéncias opostas” Sarotte aponta o fator essencial para o desenvolvimento de uma ‘consciéncia critica: “a pratica exercida de acordo com determinado sentido”, 0 de que vivemos numa sociedade de classes em contlito, Para quem ainda se escandaliza ante o simples enunciado do conflito entre as lasses, deve ser lembrado que. se existe ramo do Direito onde cle tem presenga assegurada, sob as mais diversas formas, este & precisamente 0 Direito do Trabalho. Evaristo de Moraes. jurista ¢ homem piblico que imprimiu a sua ‘marca nas mudangas sociais advindas da Revolugdo de 30, em Aponta- ‘mentos de Direito Operério, livro editado pela primeira vez em 1905, tinha a uta entre 0 capital e 0 trabalho como dado primeira de suas formulagdes juridico-politicas. a0 dizer. por exemplo: “A evolugio do ‘movimento operairio mostra que a greve precede 0 sindicato; no prin cipio, porém, o sindicato é quase éo-somente dedicado a preparagdo da reve”. Grifo nosso. — C.S.) Eis o conflito apresentado corretamente na génese do sindicalismo, confiando o eminente jurista em que a organizagao sindical viria a ser, proporgio que se tornasse mais forte ¢ mais rica, tum elemento pacii ado dessa luta (0 que hoje the valeria 0 aplauso de pelegos de todos os ‘matizes), ‘A visdo do Direito do Trabalho como fator de contengao dos confli- tos entre classes sociais também aparece em Evaristo de Morais Filho (Tratado Elementar de Direito do Trabatho, volume 1): “Em nenhum ‘outro ramo juridico encontramos essa tarefa de mediador, de ‘compromisso, entre duas classes sociais em luta: uma que dispoe dos rmeios de produgio ¢ outra que coloca a sua atividade em seu proveito ¢ sob suas ordens.” (Grifo nosso, — C.S.) Riva Sanseverino, no seu Curso de Direito do Trabaiho, da a nogio de classes 0 caréter de elemento “relevante no scu conjunto para 0 Direito do Trabalho”. Essa nogao, todavia, nao é relevante somente no Direito do Trabalho. Gustav Radbruch, em Filosofia do Direito, 30 analisar 0 diteito de propriedade e fazer a critica da weoria individualista desse insttuto, indica 0 conceito de classe © a realidade da luta social 96 como informadores do ordenamento juridico que © consagra, quando diz: “Ora, sabido € que na sua forma sociol6gica chamada “capital”. propriedade, no seu aspecto negativo, exclui os outros, no proprieta~ rios, nio s6 da propriedade de certas coisas. como da propriedade duma maneira geral. O capital tem, sabe-se, como contrapartida, 0 proleta- riado; ¢ a propriedade, sob esta forma, supée a existéncia duma classe de homens sem propriedade alguma” E, portanto, ponto pacifico que o Direito do Trabalho representa a intervengio do Estado nas relagdes entre classes com interesses anta- zgonicos, em nome do bem-estar social; instrumento criado pelo Estado para conter 0s arroubos dessa “classe perigosa” — 0 trabalhador assalariado — que, em alguns momentos histérivos, ameaga a ordem jjuridica estabelecida, a qual se apdia nagucle tipo de propriedade de- finido por Radbruch. A cringao desse instrumento juridico, por sew tuo, se fez e vem fazendo & custa de concessdes da classe dominante do aparelho do Estado para conservar a sua ordem — por ela apresen- tada como uma ordem abstrata, de todo 0 corpo social — como se 0 Es tado parecesse voltar-se, em dados instantes, contra os interesses dessa classe em nome da manutengiio da sociedade dividida, Para isso, fot ¢ tem sido obrigado muitas vezes a valer-se de principios contidos em doutrinas que, no séeulo XIX, negavam a sociedade capitalista; com esse procedimento, tem prolongado sua existéncia e até mesmo s¢ tor- nado mais forte. O Prof. Vital Moreira, em 4 Ordem Juridica do Capitalism, cuja primeira edigao data de 1973, a esse respeito, entende que : ~O lugar principal de operagdo desse proceso € precisamente « ordem juridica”. (Grifo nosso. — CS.) ‘Na mesma linha de pensamento situa-se Paul Sweezy quando, em Teoria do Desenvolvimento Capitalista, a0 estudar 0 Estado como instrumento da Economia ¢ assinalar um certo abandono desse aspecto pela Teoria do Estado, chama a atengdio para 0 fato de que “a agdo esta~ tal pode chocar-se com os interesses econdmicos imediatos de alguns, ‘ou mesmo de todos os capitalistas, desde que isso atenda a0 objetivo principal de proservar intacto o sistema. A limitagio legal do dia de trabalho ¢ um exemplo clissico da agao estatal dessa ordem.” ‘No Brasil, o recente manifesto dos empresirios € exemple do cho- {que entre 0 sistema instaurado a partir de 1964, de exacerbagio da de- pendéncia ccondmica do pais ao capital estrangeira — onde 0 Estado Assume 0 papel de sécio de interesses multinacionais, privilegiando o capital financeiro — ¢ os interesses econdmicos imediatos do Capital industrial, sobretudo os das indiistrias de capital extensivo (desenvolvimento do mercado consumidor interno, para o que € neces- saria a elevagao do poder aquisitivo). Todos sabemos que, no momento 97 fem que mudar sua politica econdmico-financeira para atcnder a esses outros interesses, 0 sistema se desintegrard, pondo em rio nae serard, pondo em risco 0 prop Na hipétese mencionada por Sweezy ocorre uma oposigio entre consciéneia de classe ¢ imeresse de classe, conforme expose George Lukacs na digo francesa de Histéria e Consciéncia de Classe: “Cette situation tragique de la bourgeoisie se reflete historiquement dans Ie fait quelle n'a pas encore abattu son prédécesseur, le fSodalisme. quand le nouvel ennemi, Ie protétaria, est déjé apparu; la forme politique de ce phénomene, c’est que la lutle contre organisation de la société en états a €é menée au nom d'une “liberté” qui, au moment de la victoire, a di se transformer un en nouvelle oppression.” Cada episédio da tuta social gerada por essa “situagdo tragica” emunciada por Lukacs pode provocar avangos ou recuos na ordem social. As ve7es 0s recuos se fazem mediante concessdes do Estado a classe trabalhadora, ¢ clas se incorporam a ordem juridica. Nao ha di vvida que essas concessdes podem representar fatores de impulso & Tuta mais geral dos assalariados, desde que compreendidas como resultado desta, Mas nao pode perder de vista que 0 Estado existe, antes de mais nada, para garantir as relagtes capitalistas de propricdade. por mais li- beral c democritico que seja. E ainda o Prof. Vital Moreira que escla- rece: “Quer dizer: a ordem econdmica do capitalism, ao ser obrigada a assumir juridicamente realidades econdmicas — 0s sindicatas ¢ 0s sali- rios, os monopélios ¢ a concorréncia. a planificagao e a propriedade es- tadual dos meios de produgio — assume ao mesmo tempo dentro de si especificas contradigées econémicas e socinis, perde a coeréncia ¢ uni- dade pacifica da ordem econémica liberal, e estabelece-se a si mesma ‘como campo de tensdes. Por exemplo: 0 reconhecimento juridico do sindicato ¢ da greve significou 0 reconhecimento juridico da tuta de lasses.” (Grifo nosso. — CS.) Prevalece, contudo, 0 fato sintetizado por Evaristo de Moraes na ex- pressfo “a greve precede 0 sindicato”, isto 6, 0 conflito, soja sob que forma for, precede esse “reconhecimento juridico” de que fala Vital Moreira, No Brasil, onde historicamente os confrontos tém sido resolvidos por arranjos no interior da classe dominante; onde a sociedade, extre- mamente autoritiria, soube sempre difundir a idcotogia do mascara- mento desse seu. contetido sob 0 manto de mitos como 0 do “homem cordial” ¢ o da “democracia racial” para melhor manter afastados do rocesso politico e social os milhdes de assalariados, subempregados, desempregados ¢ dos simplesmente miseraveis, & importante recordar que, ainda na vigéneia do escravismo e quand este pais ainda n3o pas- 98 sava de colénia portuguesa, a Bahia foi palco de um sério movimento popular armado, desencadeado sob as bandeiras da repiblica © da gualdade sceial: a Conjuragtio Baiana de 1798, conhecida como ‘evolta dos alfaiates” nos livros escolares, mas que foi muito além de simples revolta ¢ arrastou consigo mais do que alfaiates. ‘Nao por outro motivo 0 Prof. Affonso Ruy de Souza a denominou “primeira revolugio social brasileira”, titulo do livro que publicou sobre Co assunto. Esse movimento tem sido alyo de sistemtica conspiragio de siléncio pela historiografia oficial. e isto nao s6 pelo carater de suas rei viindicagdes, mas também por um preconceito social que 0s editores denunciam na apresentago da segunda edicdo dessa magnifica obra, comparando essa atitude com a exaltagdo permanente da Conjuragao Mineira e da figura do Tiradentes: “L4, os personagens eram sobretudo intelectuais, padres. ricos proprietarios de terras ¢ de capitais — os “magnatas” — militares e gente do povo: aqui, sobretudo alfaiates e sol- dados, todos mulatos. pobres e sem sfatus social, inclusive escravos. ‘com pequena participagio de brancos ou pessoas qualificadas. La, até 0 ovo foi parte; aqui, ele foi o micleo, © mesmo gente de condi¢ao atuou Pois bem: dos ideais que levaram aquetes brasileiros de. camadas populares a se sublevarem, o da repiiblica veio a ser, quase um século depois, empalmado pelas classes dominantes, que © reduziram a uma {quartelada, tormando-o a forma de governo do pais: ¢ da igualdade so- cial comegou a ser reconhecido pela ordem juridica somente apos a queda da Repiblica Velha — na qual a questio social era caso de policia e mesmo assim gracas 4s lutas operirias inspiradas pelo anarco- ‘indicalismo trazido por imigrantes europeus, Isso nao se deu sem que a classe dominante também se apropriasse daqucle ideal, apresentando sua realizagio como dadiva dela mesma e conciliando-a com seus inte- esses, ‘0 povo trabalhador. no Brasil, tem permanecido mais como figura de retérica de discursos politicos, muito cortcjado em época de elcigdes fe temido quando resolve manifestar seus descontentamentas. B mantido, porém, sempre afastado dos érgfios de decisio. O trago marcamte da Classe dominante brasifeira tem sido sua habilidade em cvitar o enfren- tamento modiante formulas de conciliagio entre clementos de seu meio ‘ou cou 0s trabalhadores. Quando 0s fator ndo conduzem a salnghes de Compromisso, nossa classe dominante niio vacila em violar sua props ordem juridica, sua legalidade, ¢ 1964 é exemplo de ruptura do equili- brio social mantido pelo Estado ¢ de insttuigao de uma legatidade au- toritaria, déstinada a convalidar atentados aos direitos politicos ¢ civis Mais recentemente tivemos 0 exemplo das altcragSes da politica salarial 99 pela via de decretos-leis, em infringéneia de norm pea s, em infringéncia de norma constitucional ex- Em meio a essas contradigdes a que a nossa sociedade ndo 7 capar, 2s classes primis enon modos emeles de Isl che claves que respondam a algumas de suas necessidades, o que pode ocor- rer por confrontos ou, se existe equillibrio entre as forgas, dentro da normalidade da orcem estabelecida, ocasio em que entra em cena o que Yves Leclereq, em Teorias do Estado, chama de “jogo democritico”: “O jogo democritico nfo toma 0 lugar do poder real: ele nao pode por em causa 0 aparclho militar ¢ burocritico de opressao a que pode associar- se, deixando também intactas as relagBes de produgo. Mas, a0 mesmo tempo, a democracia € produto das contradigdes de classe, da sua cexisténcia, © pode, em consequéncia, ter wm contetido tangivel para as clases opriida (Go nso. ~ CS.) 7 Esse “contetido tangivel” é precisamente a possibididade de os assa- lriados abrom como, wells conglsa de metas interesse, para a superagao da exploragao de sua forga de trabalho, 0 que Permite que vi construindo o direita insurgente, aquele sistenia juridico ue vai convivendo com a ordem das classes dominantes até se dar aquela superagio, Fruto de concessies do Estado em determinado momento hist oDirato dora, no Bras tom sua nesta no contol esta sobre a organizagdo sindical, enquanio a maior énfase recai no direito indivi | median 2 igualdde formal reconhecida ao trabalhador nama rela gio caracteristica do populismo brasileiro, uni Yertents do nosso sear aortas. nn ms A sociedade brasileira se mantém em equilibrio as ex} la ne- eno de democracia para o talindres: Sua lve eraniaye atu ago sempre foram encaradas como ameacas de rompimento desse quilibrio, ¢ esta é a razao de a legislagao sindical e de greve oriunda do golpe de 1964 haver exacerbado a tutela estatal sobre os sindicatos, apenando os seus dirigentes com a Lei de Seguranga Nacional. Esse controle do Estado demonstra a debilidade da democracia em rosso pais, pois nem nos governos mais iberais o aparclho estatal abriu dele: tratou. isto sim, de uilizé-los em sua politica demagégica, manobrando- para resolver, csts ds rabalhadores, confies entre selores das classes dominantes, © que levava, algunas ve“es, & por 0 Imovimeno sind a sergo dos ness dese ou dal tor, Esa tutela estatal produziu o clissico pelego, o servigal do Estado e de qualquer governo, cujo protstipo se cl disso, dirigentes sindicais independentes e de esquerda procuraram sempre tirar partido do carder liberal de alguns governos: puseram em 100 ago 0 movimento sindical, realizaram greves, mas terminaram ser- indo de insirumentos de setores © mesmos de personalidades das clas- ses dominantes, fendmeno que observamos na década de 60. ‘O real interesse da classe trabalhadora esti no estabelecimento, em nosso pais, de uma democracia em cuja construgio tenha influéncia decisiva, que Ihe abra caminho para conguistar parcelas de mando ¢ the permitir dar os passos necessirios A edificagdo de uma sociedade livre da exploragao do trabalho humano. Com muito acerto a Dectaragée dos ‘Advogados Brasileiros, aprovada em maio de 1978 pela VII Confe- réncia Nasional da OAB, afirmou: “Sem liberdade sindical néo ha de ‘mocracia possivel”. Resulta, do que dissemos. que a liberdade sindical & imprescindivel para a construgao de um direito insurgent Compreendida a natureza do Estado € sta fungdo num pais de ‘economia dependente como o nosso, & preciso atentar para o papel do Judiciério como mecanismo de controte social, decorréncia do contesido ideoldgico éessa fungi estatal, que se manifesta no processo, forma de solugao dos conflitos pela vontade do Estado, a chamada “prestagao jurisdicional”, Precisamos ainda analisar a figura do advogado como intelectual, pega dessa engrenagem, defendida por lei como elemento indispensavel da administragio da Justiga, a0 lado da magistratura ¢ do ministério piblico. O advogado nao é, porém, como também no 0 so © juiz e 0 premotor, elemento neutto. ¢ sim bastante influenciado pelos Cconceitos de drcito ejustiga elaborados pela ideologia juridica Os intelectuais no formam uma classe; sto grupos vinculados as diferentes classes sociais, ¢ cada uma delas possui os seus ou tende @ forma-los. Nesse sentido, ndo possuem idcologia propria, o que talvez cexplique haverem sido qualificados por Gramsci como “funciondrios das superestruturas”, o¥ soja, 0s que elaboram a ideologia dominante © a {ransformam em concepgaio de mundo que entranha (odo 0 corpo social. encarregando-se de difundi-la nas organizagbes da sociedade civil ‘Considerando essa fungio social do intelectual ¢ a situago do ‘vogado perante 0 Judiciario, dada pela lei, devemos resolver 0 problema de se tem e'e condigdes de atuagio no sentido até aqui proposto (criago dde um dircito insurgente) e, se as tem, de que maneira ha de fazer-se ‘essa atuagao, Existem essas condicdes, fato derivado das contradigdes da sociedade de classes, de seu reflexo no poder estatal, j referidas anteriormente, A possibilidade de atuagio também existe, desde que se fstabelegam aquelas premissas apontadas por Roberto Lyra Filho, depois as citadas por Sarotte, ¢ pode ser completada pelo que chamamos fa busca da sociedade pelo advogado (no caso, a busca das classes ‘oprimidas) tal como apresentada por Gramsci em Os Intelectuais ¢ a Organizagao da Cultura: “O modo de ser do novo intelectual nao pode Wl mais consistir na cloqiiéncia, motor exterior € momentineo dos afetos & das paindes, mas mum imiscuir-se ativamente na vida prética, como construtor, organizador. “persuador permanente”, j4 que no apenas ‘orador puro, © superior, todavia, a0 espirito matemaitico abstrato: da \écnica-trabalho, eleva-se técnica-ciéncia e 4 concepgao humanista historica, sem a qual se permanece “especialista” e no se chega a “dirigente”(especialista mais politico)”. (Grifo nosso. — C.S.) © processo dessa aluagio de novo tipo, pode-se bem entender, & sempre demorado e muitas vezes acidentado. A burguesia percorreu um. caminho de oitocentos anos entre sua afirmagao urbana (cartas de cida- des livres) e a Revolugdo Francesa, Nesse periodo, porém, houve mu- dangas na ideologia juridica em favor dessa classe entdo revolucionsria © Direito do Trabalho, em sua trajeléria historica, comprova que também sucedem mudangas na idcologia juridica em favor dos trabs Ihadores sob 0 Estado capitalista, conquanto a ordem juridica conserve @ ‘sua esséncia. Mais ainda: existe a possibilidade real de se ampliar 0 campo dos dircitos das classes emergentes, desde que efetivadas de- terminadas condigées. ‘A principal delas, até hoje nao resolvida, & que se tenha a mais ampla democracia no pais — compreendida como aquela que incorpore a participagdo das massas nas estruturas sociais, politicas e econdmicas — jé que a democracia expoe as contradigdes sociais ¢ fortalece o trabs thador em suas reivindicagdes, Nao a democracia como expediente t lico de facgdes politicas, mas como condigo sine qua non da liberdade daquelas massas. A liberdade proporcionada por uma democracia como a que defendemos cria condigdes a que passe a ter “contetido tangivel”. por exemplo, a pritica da negociagdo coletiva, que, para o jurist francés Lyon-Caen, “é a procura do conflito por outros. micios’ obscrvagiio que ele assim completa: “A negociagdo coletiva & © processo ‘mediante 0 qual os poderes dos patrées ¢ os dos trabalhadores, apés atingirem © méximo de seu desdobramento, alcangam 0 equilibrio ¢ cchegam assim a criar novas regras juridicas”. (Grifo nosso, — CS.) Para que se alcance esse equilibrio ¢ haja condigdes para que 0s po- deres de empregadores ¢ de empregados atinjam “o miximo de seu des- dobramento”, ¢ imprescindivel uma ordem juridica que assegure efeti- vamente 0 direito de greve como pritica de excreicio socialmente aceite. Pois. para icrei a plenta capacidade de, por via da negociagdo, criarem direitos novos. conforme seus interesses ¢ fora da estrulura estatal da norma, os trabalhadores precisam de garantia para usar a arma cuja cficacia reside em retirarem do mercado a sua mercadoria, forga de tra- balho, causando prejuizos 4 concorréneia entre as empresas. E nao ha- vera pleno direito de greve sem sindicatos livres. Dessa mancira, a re 102 vogagio do Titulo V da CLT e a fornmulagdo de uma proposta conereta de legislagao sindical democrética é elemento fundamental na constru- ‘¢lo do dircito insurgente. Evidentemente isso pressupde um poder esta~ {al que resulte da vontade popular livremente manifestada. (0 jurista¢ 0 advogado sio pegas valiosas na construgio desse dirci- to ingurgentc, mas o éxito de scu trabalho nito depende exclusivamente de sua constigncia social, adquirida naquela “busca da sociedade” de Gue tralamos pouco antes: estara sempre condicionada a forga que ad- {uitirem 0s trabalhadores por sua organizago ¢ combatividade, aliando seu interesse de classe a uma consciéncia de classe. Sem esse processo que afete as condigdes materiais da sociedade, tudo no passara de ilu- so na superestrutura juridica e politica, A agdo sindical e politica dos trabalhadores niio pode desdenhar a possibilidade de obtengdo de con- cessdes a cada momento e na medida das forgas em presenga, inclusive impondo 0 exercicio de dircitos que se formam margem da ordem Juridica. (0 exemplo da longa caminhada histérica da burguesia nos mostra que ela, inicialmente, se ulilizoa da propria ordem feudal naquilo de {que podia beneficiar-se, até avangar para a criagio de institutos afinados fom scu inleresse especifico (0s tribunais de feira, 05 tribunais tnaritimos, a introdugao do contrato como forma de livre manifestago de vontade, etc.). Sua acto no se produziu de modo repentino nem rotilineo, sendo conhecidas os levantes nas cidades das séculos XI ¢ XIL Contou, de par com isso, com juristas ¢ advogados que a ajudaram a claborar uma idcologia juridica propria e em condigées de dar aquele favango (livre cdmbio, livre comércio, personalidade juridica, etc.) a tal onto que por muito tempo o advogado foi identificado com a burguesia. © nas Fovolugdes camponesas do século XIV alguns advogados foram mortos. Claro que devemos guardar as proporgdes, pois a luta da burguesia contra a sosiedade feudal foi uma luta entre sistemas de propriedade, a0 paso que, para os trabalhadores brasileiros, se trata de luta contra a Dpropriedade capitalista espoliativa num pais de economia reflexa de economias estrangciras. E lula inteiramente diversa, e seria estipido supor que os trabalhadores chegario a bom termo mediante simples rudangas na forma dessa sociedade (sua ordem juridica) sem Ihe alterar Aresséncia (esse tipo de relagGes de propriedade). O que nao invalida rem tem invalidado, a possibilidade de abertura de espagos na ordem vigente. A atuagio dos jristas ¢ dos advogadas na busca dessa abertura de espagos no interior do ordenamento juridico requer 0 conhecimento do {que representa o Judiciério como pega do aparetho estatal 103 A Justiga integra 0 contingente administrative do Estado, ¢ 0 pro- cesso administrative ¢ parte do processo politico, Essa natureza politica & mascarada ¢ muitas vezes negada pela burocracia, donde a afirmacao de Karl Mannheim, segundo 0 qual “a tendéncia fundamental de todo 0 pensamento burocritico & a de transformar todos os problemas de politica em problemas de administragio”, quando, na verdade, no ha nenhum setor em que os funcionrios burocriticos deixem de contribuir para o exercicio do poder estatal Juizes e tribunais gozam constitucionalmente (formalmente, por- tanto) de independéncia diante dos outros érgios do Estado, na concep- ‘so montesquiana, ¢ uma das batalhas que movimentaram a Ordem dos Advogados do Brasil nos tempos do Al-S foi justamente 0 restabeleci- mento das garantias da magistratura. Apesar de integrante do poder es- tatal, 0 Judiciério muitas vezes tem condigdes de afetar 0 exercicio desse poder, ¢ este & um fato que nao devemos minimizar. Juizes houve que foram cassados por suas posigdes contrarias a0 autoritarismo de 1964. Tem havido ¢ sempre havera juizes capazes de decidir contra interesses do Executivo: os exemplos esto ai: 0 voto do Ministro Bicrrenbach no Superior Tribunal Militar, quando do caso Riocentro; a sentenga de um Jovem juiz.no caso Herzog: a corajosa atuagio de outro jovem juiz na ‘questo da antiga sede da Unitio Nacional dos Estudantes. © eonccito da independéncia do Iudicidrio é, porém, 0 de sua inde- pendéncia relativamente ao governo, ¢ esta talvez scja_a peca menos importante da estrutura social, se considerado em termos de adminis- raga. pois o Estado inclui muito mais que o governo, ja que representa © sistema econdmico ¢ 0 regime politico, ¢ estes ¢ que determinam 0 rumo dos governos. O Brasil ja teve governs democraticos ¢ ditaduras, ‘mas nem o sistema econdmico, nem o regime politico deixaram de set ‘95 mesmos. A realidade oferece provas, portanto, de que juizes podem ser inde- pendentes em relagdo ao governo; mas a idéia dessa independéncia, se tomada em sentido mais amplo, perde sua significagdo. Juizes e tribu- nais no so € no podem ser independentes sob a ingluéncia de fatores como 0 conteiido idcolbgico da fungdo jurisdicional, controladora da sociedade através do proceso, para nio falar noutros elementos como difusto da ideologia dominante (origem de classe, perspectiva de coop- tagio para altos postos, etc.) enisténcia e a meanifestaydy do arbitrio € do discricionarismo conferides pela lei a0 juiz na sua aplicagdo ¢ in- lerpretagao nao pode, portanio, ser tomada como prova de in dependéncia absoluta Por ser 0 juiz um componente do aparctho estatal, sua fungao é também de natureza politica endo constitui novidade alguma que. 20 108 aplicar Ieis emanadas da agao repressiva do Executive. 0 Judicidrio pratica atos oliticos. que servem de legitimago suplementar 40s g0- ‘yernos autoritirios, Tivemos exemplo disso quando da greve dos meta- liargicos do ABC, em 1980, dado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 2? Regio, 0 qual, depois de julgado 0 dissidio colctive instaurado na forma da Lei 4330/64 e de haver decidido que no Ihe cabia dectarar a legalidade ou nao daquela greve, voltou a se reunir logo apds ¢, em novo julgamento ca mesma matéria — 0 que mostra 0 verdadeiro conteiide dos sacrossaatos principias processuais — declarou ilegal o inovimento , com esse julgamento, legitimou a intervengiio nos sindicatos da ca- {egoria, a prisio de scus dirigentes ¢ a virtual intervengao federal no Estado de Sao Paulo No Brasil. 0s Tribunais do Trabatho, em regra, revelam a natureza ideolégica da fungao judicante ao julgarem dissidios coletivos, sobre- tudo sob o peso de movimentos reivindicatérios. ocasides em que tratam de abater a capacidade de Juta dos sindicates. Ralph Milliband, a0 mencionar essa “tendéncia preconceituosa mais ampla que os tribunais, cm sua preocupagio de proteger a “sociedade” (isto é, as sociedades de classes desiguais) tém manifestado de maneira conseqiente em favor do privilégio, da propricdade e do capital”, declara que “os assalariados ¢ stias organizagées de defesa jamais esto a salvo dos ataques judicidrios. inclusive no que se refere a direitos que desde ha muito so encarados como acima de qualquer contestagao Logo em seguida, 0 autor arremata: “o arbitrio judicial continua a ser uma ameaga permanente a0 “poder compensador” que 0 trabalho cconseguiu censtituir através dos anos. principalmente a defesa militante desse poder” Conseqiientemente, enquanto nio desmistificarmos 0 Estado. en- quanto nio desmistificarmos © Judiciério, pondo a prova sua procla- ‘mada neutralidade ¢ sua apregoada independéncia, nao daremos gran- des passos na elaboragiio de um direito insurgente. Essa desmistificagio 86 se oblém por uma pratica critica criadora no curso. de nossa atividade profissional Outro aspecto que devems ter em conta ¢ que a atuagao no sentido da construgio do dircito insurgente muitas vezes é precedida ou acom- hada de alos de desobediéncia civil (0 grande piblice que assistiu a0 Filme sobte a vida de Ghandi, ele proprio um advogado, teve exemplos disso), No Brasil de hoje. atos dessa natureza ocorrem em ravzio da ile- gimidade do poder que contamina a legalidade vigente. Esses alos de desobedigncia civil s6 tém eficécia de imposigao de dircitos nao reco- nhecidos pelo ordenamento juridico quando so manifestagées coletivas. tembora nem sempre se expressem em demonstragdes de nia ou pa- 10s