Vous êtes sur la page 1sur 116
UAC EKere Do Dae URN Ar en he eet me eC ee kee Prof. Edmundo L., de Arruda Jr. om econ mates eaten ore Reet eet ee ea a ee a) 3. Magistratura e Direito Alternativo 4. Mnistério Piiblico e Direito Alternativo eet eed eens ee eee oc ie ere ey Aen eae ee ee eee ee en Perera eee ere ee oe 11. Ligoes Alternativas de Direito Processual (Civil, Penal ¢ Trabathista) 12. Ligbes de Direito Alternativo do Trabalho Ean ee eae ee ee ee) ee yee eee Corse Tce ee het eee ced manusis de cursos, caletdnes de palestras ¢ conferéncias proferidas em ee een ee eet nnn Per ee eee cena areratas ae Sre re eens eee tes eee ee Se td Pao TONOND ATO Eee eee et sey cet ee roe Pee) rs ee CL ed D LICOES ALTERNATIVAS DE DIREITO PROCESSUAL (Civil, Penal e Trabalhista) Dee ne ee ad eRe ee eB nv ee See een area) eae a ere Bee eed en rod Luiz Guilherme Marinoni De Re ere eget CERT a nace 7% See ce ay : ead EDITORA Porta tiory Re aeTL eee cot fod rete ore Jo dire ere LICOES ALTERNATIVAS DE DIREITO PROCESSUAL — | Btemninantemente proibida a reprodugao total ou parcial desta obra, por qualquer meio ou proces- so, sem a expressa autorizagao do autor. A vio- lagao dos direitos antorais caracteriza delito puni- | sa pela legislagdo em vigor, sem prejuizo das san- Bes civeis cabiveis (Lei de Direitos Autorais) HORACIO WANDERLEI RODRIGUES (Organizador) LICOES ALTERNATIVAS DE DIREITO PROCESSUAL a AER So Paulo — 1995 Editor responsével: Prof. Silvio Donizete Chagas (Registro de jornalista no MT sob n? 20041, fls. 8, livro 82) Divulgagao e vendas: José Alves Carneiro Diagramagao: Marcio de Souza Gracia Todos os direites reservados & EDITORA ACADEMICA Rua Planalto, 81 - Jardim Presidente Dutra Guarulhos - 0 Paulo - Cep: 07171-130 Fone: (011) 688-0536 - Fax: (O11) 688-0536 SUMARIO Apresentagio Capitulo 1 Direito Alternativo e Processo Amilion Bueno de Carvalho Capitulo 2 - O Ministério Piblico: Inexisténcia de legitimatio ad causam ativa para a agio de dissolugao de Sociedade Andnima Antonio Cléudio da Costa Machado Capitulo 3 Brevi Riflessioni sul Significato del Garantismo (con Riferimento a Vicende Italiane degli Anni 1988-1994) Arnaldo Miglino Capitulo 4 Esquisitice de Juiz.(Dois Novos Fundamentos para a rejeigdo da denincia) Edson Vieira Abdala Capitulo § Forum da UFSC: Experiéncia Altemativa de Concretizagao da Garantia de Assisténcia Juridica Integral e Gratuita ..... Hordeto Wanderlei Rodrigues Capitulo 6 Um Novo Ensino do Direito Processual Penal Jacinto Nelson de Miranda Coutinho 18 B 59 67 1” Capitulo 7 0 Estado em Juizo ¢ o Principio da Isonomia.. José de Albuquerque Rocha Capitulo 8 La Civilizaciéa y sus negociadores — La Armonia como Técnica de Pacificacién Laura Nader Capitulo 9 Tutelas Diferenciadas ¢ Realidade Social Luiz Guilherme Marinoni Capitulo 10 Conceito de Justo Titulo para Efeito de Usucapiao no Direito Brasileiro o z = Manoel Caetano Ferreira Filho e Paulo Ricardo Schier Capitulo 11 Sincretismo Juridico ou Mera Esquizofrenia? A Logica Judicial da Excludéncia ¢ a Organizagao Judiciaria Brasileira Roberto Kant de Lima Capitulo 12 Principio Tgualizador Rui Portanova Capitulo 13 Teoria Geral do Processo: Em que Sentido?.... Willis Santiago Guerra Filho 90 413 132 44 198, 212 APRESENTACAO ‘A ideia de organizar este livro nasceu em outubro de 1993, durante oH! Encontro Internacional de Direito Alternativo, Houve, nesse even- to, um painel denominado Processo e Direito Alternativo. Dele partici- param operadores juridicos, representando as diversas profissdes juridi- ‘cas, preocupados especificamente com a questo processual, em espe- cial os aspectos atinentes ao problema do acesso a justiga, Em conversas posteriores ao painel discutiu-se a importdncia de or- ‘ganizar uma coletanea que reunisse alguns trabalhos tedricos dos alter- nativos na drea processual, como forma de ser ele um primeiro elemento de discussio— um ponto de partida — para a posterior organizago de ‘um Encontro Internacional sobre Proceso ¢ Direito Alternativo, Fiquei cntio encarregado de fazer os contatos e reunir os trabalhos. Dentre 08 convidados ha alfernativos ¢ também ndio alternatives simpatizantes do movimento, Também ha a presenga de dois convidados estrangciros, estranhos a0 movimento brasileiro, mas que contribuern com artigos nos quais analisam experiéncias concretas especificas, & ue trazem importantes elementos para a reflexdo sobre as nossas crises no ambito do Direito. (s treze artigos que compdem o livro abrangem, em nivel de suas teméticas especificas, um leque bastante amplo, Envolvem trabalhos de cordem teérica, técnica e relatos de experiéncias. Entre seus autores hi juizes, promotores, procuradores, advogados e professores. Esses ele- ‘mentos emprestam & coletinea uma visdo plural, extremamente interes- sant Espera-se que a sua leitura seja proveitosa e possa atingir os objeti- ‘vos almejados: iniciar, de forma mais conereta, a discussdio das questdes processuais no Ambito do movimento Direito Alternativo e contribuir na discusso ¢ busea de solngdes dos problemas da justica em nosso pais. Florianépolis (SC), julho de 1995. Prof, Dr. Hordcio Wanderlei Rodrigues. Capitulo 1 DIREITO ALTERNATIVO E PROCESSO Amilton Bueno de Carvatho * 1. Introdugaio Apesar de nao teérico do direito, nem tampouco especialista de di- reito processual, ousei aceitar o convite-desafio que me fez 0 professor Hordcio Wanderlei Rodrigues para pensar sobre o tema proposto. Este trabalho emerge de um juiz (¢ apenas de um juiz) que tem. procurado colocar sua atuagao a servigo da radicalizago democritica, buscando demonstrar 0 desgaste do direito posto e apontando para no- vas solugdes, Deste local de fala é que procurarei, a seguir, assinalar questdes «que me parecem importantes no cotejo do movimento do Direito Alter- nativo com 0 Processo. E 0 norte que permeia é um: democratizagao do espago juridico! objetivo é levantar pontos & diseusso: nada do que aqui se aponta * Juia Criminal em Porto Alegre e Professor de Direito Alternativo na Escola de Magistratura Gatiche tem ambigo ou cunho de definitividade. O trabalho & dividido em dois momentos: (a) noges sobre Direito Alternativo eo retomar da técnica, ¢ (b) o'provesso enquanto local privi- legiado da fala 2 da escuta 2, O Movimento do Direito Alternativo e o Retomar da Técnica Nevessiriose fixem algumas nogdes sobre o movimento do Direito ‘Alternativo posto que: (a) ainda no ha acordo tedrico quanto a sua con- ceituagdo (ndo ha como esquecer que ele tem apenas algo em torno de ‘quatro anos de existéncia) ¢ (b) existe forte deturpagao, consciente ou inconsciente, de mé-f6 ou por ingenuidade ou por ignoréincia, do seu sentido, EntGo, ha que se estabelecer um acordo sobre Direito Alternativo para que o leitor tenha claro a que me refiro. Em outro local (Direito Alternativo na Jurisprudéncia, Ed. Académi- ca, 1993, p. 8), procurei deixar claro que se esta frente a um movimento ‘enio a uma teoria (ao menos por agora) que procure dar conta do fend ‘meno juridico. Ele (0 movimento) se caracteriza pela busca (desespe- rada ¢ urgente) de um instrumental pritico-tesrico destinado a profis- sionais que ambicionam colocar seu saber/atuagdo na perspectiva de uma sociedade radicalmente democritica. Uma atividade juridica com- prometida com a ut6pica vida digna para todos, com abertura de es- pacos democraticos visando a emancipagao popular, torando o direito cm instrumento de defesa/libertagao contra qualquer tipo de dominagao, ‘ou scja, 0 dircito enquanto concretizagao da liberdade (para maior es- clarccimento, inclusive tipologia, ver Edmundo Lima de Arruda Junior, Introdugao & Sociologia Juridica Alternativa, Ed. Académica, 1993, p. 169/187, eo referido Direito Alternativo na Jurisprudéncia, p. 8/15). ‘No mesmo local, apontava para 0 novo que o movimento representava, Se bem que é de se perguntar se ¢ realmente importante 0 novo, a novi- dade. Parece que é detalhe sem maior significado posto existe 0 novo perverso ¢ o antigo libertador. O que importa realmente saber & dos efeitos que gers qualquer movimento: aponta para a democratizagao ou 6 mantenedor éo status quo? Tanto que Salo de Carvalho, in: Mitos sobre a Escola do Direito Livre (Revista de Estudos Juridicos da Unisi- nos, vol. 26, n® 68, setembro/dezembro de 1993, p. 11] a 128) ¢ in: O 10 Fendmeno Magnaud (Revista de Direito Alternativo, vol. 3, ano de 1994) recupera o antigo, que é novo no sentido de libertador, Entendia naquele momento que 0 novo estava em que o movimento encampava o conhecimento te6rico-critico que antigamente apenas cir- culava na cétedra de pensadores progressistas, tomnando-se praxis deste saber. Ou seja, que 0s ditos técnicos (uizes, promotores, advogados) comegaram a alterar sua atuagao, colocando na “vida real”, nos ltigios, aquele saber tedrico-critico, abandonando, cada vez. mais, 0 positivis- ‘mo legalista subsungor. ‘Todavia, aquela visio no corresponde hoje a0 que acontece. Ha algo mais do que o técnico dar vida a teoria ‘Na nossa realidade ocorria um profundo (¢ até certo ponto patologi- co) distanciamento entre os ditos tedricos.¢ os técnicos: para a técnica o teSrico era um sonhador que estava absolutamente fora da realidade: sua produgdo nio servia a0 mundo dos litigantes. A questo era sempre a soguinte: de que servem ditas teorias no momento em que 0 réu que defendo (ou devo denunciar ou julgar) esta no presidio? ‘Na outra ponta, o tedrico tinha a técnica como um local menor, insignificante, com até certo rango de preconceito: 0 técnico no é pen- sador! ‘A repulsa era reciproca Pois bem. ‘Num primeiro momento (talvez.erroneamente) eu vishumbrava que ‘6 novo (aqui no sentido de criativo-libertador), como ja referi antes, cstava em que o operador comecava a aterrizaro saber teérico, procurava trazer a prética forense o pensamento agudizado da critica, ao mostrar 0 desgaste do vigente e ao apontar para novas solugdes. Os ensinamentos da corrente psicanalitica, da sociologia juridica, da filosofia do dieito, por exemplo, comegaram a chegar aos litigios, politizando-os para além de uma atividade praticamente mecénica e ingénua que caracteriza a atuago técnica. Mas ha algo mais do que isso, repito. Hoje o teérico desce do “pedestal” e se preocupa com a técnica. Ou seja, a critica procura dar respostas a partir da propria técnica, E técni- co buscando socorro na critica ea critica procurando dar respostas atra- vvés da técnica E nesta relagdio quase que simbitica entre critica e téenica, 0 novo transformador poder chegar ao juridico. Agora, sim, se vislumbra para u 1 possibilidade da criagdo de uma teoria, realmente latino-americana, {que responda as nossas contradigdes ¢ angistias, comprometida com esta sociedade periférica, E mais, para uma teoria que tenha respaldo na atuagio cristiva dos técnicos. Enfim, que 0 dircito seja um todo no uma esquizofrénica divisio entre teoria ¢ praxis. Assim, poder-se- 4 ter atuago mais completa: uma praxis comprometida com a democra- tizagGo, cotejando e transformando a teoria ¢ por ela sendo cotcjada e transformada, ‘Agora se azeita o convite de André-Jean Arnaud quando desafia 0 ator juridico a ter uma feoria, a estar disposto a correr riscos ¢ a ser milidanie, para que s¢ possa ser um jurista do século XXI (Jornal da “Ajuris”, nt 29, agosto de 1991, p. 12). ‘A outra contribuigao do movimento do Direito Alternativo (¢ con- seqiiéncia da primeira) est, no especifico, em resgatar a dignidade da técnica, ao reconhecé-la como elemento indispensével para que a criti- ca aterrise, ou, mais claramente, que cla se tome viva, chegue até o ‘mundo das pares. E para que o técnico desperte, também do seu local especifico, para a importancia do instrumental processual como elemento indispensavel a democratizagao do juridico. Demonstrando, deste lu- gar, o desgaste deste instrumental e crie novas possibilidades democra~ tizantes. Entio, apciados em critica séria, competente, comprometida com maxima vida digna para todos, vislumbram-se trabalhos, entre outros, dos processualistas altemativos Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, Rui Portanova, José de Albuquerque Rocha, Paulo de Tarso Brando, Manoel Caetano ¢ Horacio Wanderlei Rodrigues. 0 novo modificador da velha estrutura chega apesar do ranger de dentes dos todricos (?) do direito que nfo conhecem o juridico e dos técnicos acriticos. Onde che- garemos? Evi¢ente que ndo se sabe, previamente, o resultado da re- flexao/atuago, mas Michel Miaille tranquiliza: “Ninguém sabe 0 que afinal de contas seré descoberto, ninguém sabe que dificuldades nos cesperam nessa exploragdio. Mas vale bem a pena tentar a experiéncia, ‘mesmo se ela nos conduzir por caminhos solitarios, mesmo se ela nos ‘opuser a tudo 0 que se éncontra “normalmente” dito e explicado koje. Una introdugéo critica, &, portanto, bem a iniciago a um esforgo de reflexio com todos os seus riscos € todas as suas aberturas” (Michel Miaille, Uma Introdugao Critica ao Direito, Ed. Moraes, Lisboa, 1979, p.21). 2 3. 0 Processo enquanto Local da Fala e da Escuta Através de Paulo de Tarso Brando (O Processo como Obstéeulo a Aplicagdo da Justiga no Ambito Penal, Livro de Estudos Juridicos, IEJ, Rio, 1994, p. 257) chego até Dinamarco: “E vaga ¢ pouco acres centa a0 conhecimento do processo a usual afirmagiio de que ele ¢ ins- frumento ,enquanto no acompanhada da indicago dos objetivas a serem alcangados mediante 0 scu emprego” Incessantemente permeia o discurso alternativo a expresso radi- calidade democrética. A preocupagdo com a democracia substancial.6.0 norte do movimento. E 0 pano de fundo: 0 inicio c fim da atuagao. Direi- to e democracia, alias, na viséo de Luigi Ferrajoli (EI Derecho como Sistema de Garantias, in Revista Jueces para la Democracia, Madrid, 1 1617, 2-3/1192, p. 69) esto umbilicalmente vinculados, tanto que, para cle, salvar 0 futuro do direito € salvar o futuro da democracia. Via processo, pois, 0 direito se faz presente na realizagao da de- mocracia substancial, Eis seu objetivo maior, seu compromisso, sua dig- nidade! Pois bem. Quer-me parecer que na democracia se busca a autonomia do indi- viduo; que ele possa vivenciar a si mesmo ¢ a realidade de forma no- passiva; que tenha dominio de sua vida e seja responsiivel pela histéria Bossa, enfim, solucionar as desavengas ¢ desajustes que 0 alcancem em sua caminhada, individuo auténomo, pois, resolve, democraticamente, seus liti- gos, posto que apto ao didlogo, ou seja, disposto a ouvir/conversar (“.. el didlogo ... se debe presuponer la intencién de llegar a un acuerdo libre y sincero sobre la cuestién debatida” — Modesto Saavedra, “Poder Judicial, Interpretacién Juridica y Critérios de Legitimidad”, in: Anuéirio de Derecho Publico y Estudos Politicos, n° 1, Granada, 1988, p. 49), Quanto mais forte a democracia ¢ mais auténomo 0 individuo, 0 respeilo 408 “valores éticos-politicos — igualdad, dignidad de las per- sonas, derechos fundamentales” (Ferrajoli, loc. cit.) estdo presentes na vida didria, “0 processo (fruto do litigio) surge no momento do caos da demo- cracia dialogal, ou seja, quando as partes nao logram solucionar seus atritos através do conversar (possibilidade de expor o sentimento) ¢ do ouvir (condigo de quem nao se tem como o dono da verdade ¢ esté 3 disposto a aceitar o diverso; ou ser tolerante ao permitir que 0 outro tenha o direito a professar a propria verdade, como quer Nicoliis Maria Lopez Calera Derecho e Toleramcta, Revista Jueces para la Democra- cia, ja cit, p. 3). Neste momento de conturbago da democracia/au- tonomia é que as partes buscam que o judiciério imponha a vontade do Estado, via prozesso. ‘Um exemplo do dircito de familia parece esclarecedor. Evidente que um casal que esté disposto a ouvir e a conversar, apesar do sofrimen- to que encerra toda separagao, vem a juizo e rompe 0 vinculo do ca- samento com toda a dignidade (alids, nao tem sequer sentido o proces- so de separagio amigavel se realizar judicialmente; 0 ideal é que as partes simplesmente comparecam ao cartorio onde celebraram 0 casa mento ¢ se separem, ou scja, rompam 0 pacto da mesma forma que o constituiram). Todavia, com a perda da capacidade do ouvir/conversar terminam por nfo mais conseguir viver juntos e nem separados, ¢ mantém © vinculo neurético através do proceso de separacdo. Dai porque as agdes de separseao e suas resultantes (alimentos, guarda de filhos, etc.) se eternizam: o processo passa ser instrumento nao da democracia, mas da neurose das partes. Como, enti, fazer com que 0 processo sirva a democracia (local da autonomia = igual didlogo)? ‘Num primeiro momento, ha que invadir 0 imaginério do advogado para que abandone a atividade burocritica de aceitar incondicionalmente a “verdade” de parte ¢ jogé-lo num tipo legal, com mecanismo sub- sungor, sem a menor criatividade. E ai advogar tal interesse via petigo inicial ou contestagao. Outrossim, deve abandonar o paternalismo que eventualmente o caracteriza como se 0 problema nao fosse mais da parte sim dele profissional. E a partir da, utilizando do seu local privilegi- ado de fala, buscar resgatar a possibilidade dialogal entre as partes para, com elas, atvar para que reassumam a capacidade aut6noma de solugio do litigio. Ou seja, advogado como Parcial Etico comprometido com as partes no sentido de democratizacao do proprio saber juridico. Outrossim, o imagindrio do Juiz e do Promotor devem ser invadi- dos, com o também abandono da atividade byrocratico — paternalista, para que, como Imparciais Eticos, possam ouvir a angiistia das partes ¢ utilizando seu também privilegiado local de fala, buscar, agora, ja em juizo, a possibilidade do didlogo se fazer presente. E juiz.e promotor descendo do seu doentio pedestal ¢ vir até-as partes para, com elas, 4 ‘numa espécie de justica do amor, lutar com todas as forgas para que os _litigantes superem, por si mesmos, seus atritos. 'A vontade do Estado, o uso da forga decisional, s6 deve ser reser- vada, pois, para situagdes limites, ou seja, quando o nivel de intolerdn- cia dos litigantes (ou de um deles) for insuperavel. Neste momento do- Toroso, ante o caos da democracia, é que deve surgir 0 ato decisério (0 qual, por sua vez, apesar de imposto, deve refletir as conquistas demo- criticas, ou seja, “un instrumento al servicio de la libertad frente a los intolerantes” (Lépez Calera, loc. cit., p. 6), & que, como ele mesmo (Calera) diz, “en una sociedad de setes humanos algiin tipo de reglas coativas se hace necesario”, p. 8) Num segundo momento, 0 processo, em si mesmo, para atingir a autonomia/democracia deve ser o local reservado da fala e da escuta. ( instrumento especifico processual necessariamente dove propici- ar que as partes possam, da maneira mais abrangente possivel, explici- tar seus encantos/desencantos. E da fala ampla que se possibilita o didlo- g0 (bem como a atuago do operador juridico no restrita apenas ‘conseqiiéncia, mas causa do litigio; é que este, muita e muita vez, é apenas a ponta de outro que lhe é a origem mediata), Ea fala de que trato nfo ¢ apenas aquela que possibilita ao advoga- do expressar, mas também, ¢ principalmente, a propria parte. Dai porque niio ha como se admitir o julgamento antecipado da lide, formula facil de se impossibilitar a parte de falar, de se fazer sentir pessoalmente, Este é um principio que deve ser obedecido (da parte se expressar frente 40 juz e a parte adversa), ja que se constitui num auténtico principio geral de direito processual e “las garantias de los derechos no son deroga- bles ni disponibles” (Ferrajoli, loc. cit.,p. 67). E se a possibilidade da fala (evidente que a néo-neurotizada ¢ com limites na tolerdncia) e da comprovagio de suas razdes (ampla defesa) no devem sofrer limites (a ndlo ser que agridam, repito, a liberdade/ tolerancia — outra vez, retomo Lépez. Calera), até 0 principio da coisa julgada resta abalado, enquanto dogma, posto qué ele ¢ 0 limitador da fala no tempo. Hipéteses existem (em casos limites, é bem verdade) que a'Goisa julgada nao pode estar acima do principio da possibilidade do falar, via processo. E que, em verdade, o dogma da coisa julgada poe fim a qualquer possibilidade da renovagdo da fala. Mas este ponto final da fala s6 pode aFFEr em situagGes ético-justas, Se ndo for com tal atributo néo in- 1s teressa o tempo para a renovacao da fala, se eventualmente mal limita da, Afora isso, até mesmo a coisa julgada (fim da fala) ético-justa hoje pode nao o ser amanha, como o progresso da cincia, por exemplo. Assim, ¢ como exemplo e por excegao (hd que se lembrar que a regra para o jurista € atuar na exceedo que passa a ser sua regra, jé que a regra para a sociedade € as pessoas ndo chegarem ao judiciario), vale lembrar as ages de investigagao de paternidade. Ha alguns anos atrés, ‘© conhecimento cientifico nao tinha condigdes de estabelecer a paterni- dade. O operador atuava baseado em presungdes, a0 contrério dos dias atuais quando ha como se estabelecer com seguranga a paternidade. Pois bem. Imagine-se alguém que propés aco de investigagao de paternidade hd vinte anos passados. E com base em presungdes teve sua demanda julgada improcedente, embora fosse ele realmente filho do investigado. ‘Tudo transitou em julgado, Agora a ciéncia pode demonstrar que ele realmente tem razo, Ha como se limitar a possibilidade da 'renovaco da fala com base no principio da coisa julgada? Ou se deve dar vasio a0 principio de direito processual da fala nesta situagao limite? No cotejo “entre os prineipios deve vigorar aquele que aponta para o ético-justo, reabrindo-se a fala, Alias, & da esséncia da democracia a possibilidade do homem set Ex (alis, a psicandlise vai por ai também): ser ex-doente, ex-desones~ to, ex-incompetent§ (sobre o tema ver Jacinto Nelson Miranda Couti- ho, “Crénica de uma ex-morte anunciada”, Jornal Gazeta do Povo, Curitiba, 27.6.94, p. 25), E.0 processo deve permitir esta possibilidade. No caso da agao de investigagao acima referida que 0 autor possa ser ex-sem pai! A prépria igreja tem buscado recuperar pessoas que foram injustamente condenadas, mesmo aps morte: o dogma da coisa julgada 6 repudiado (repito em situagées limites) até pela instituigao centrada em dogmas, Outrossim, o Supremo Tribunal Federal jé enfientou situagdo se- melhante no atrito entre o principio da coisa julgada ¢ o principio da indenizagdo justa nas desapropriagdes. Ficou com a iltima superando.o dogma da coisa julgada (ver RE n* 111.787.7 — GO, 2* Lurna — DJ, 13.09.1991). Mas 0 processo nao € local reservadoo td0-s6 a fala, mas 0 local da escuta, do ouvir: aqui o elemento vital do contraditério: fazer com que se possa ser ouvido. 16 E que de nada adianta possibilitar a fala sc nio se estabelecer do outro lado a imposic&o da escuta, ja que ha uma tendéncia das pessoas ‘80 monélogo: falam, falam, sem nada ouvir, ou seja, a possibilidade da democracia/autonomia desaparcee. Entdo, 0 processo deve impor, aqui via atuago do Imparcial Etico Juiz, evidente desde que possivel, o elemento vital: a escuta, A desmiti- ficagao do processo e da propria audincia so importantes para que as pessoas no se sintam amedrontadas e ameagadas. O espetdculo deve reduzir a pompa que o caracteriza, para se transformar num local onde © dislogo possa Muir. Mas a escuta néo deve aleancar, como se poderia pensar apressada- mente, apenas os litigantes, mas também o proprio juiz, o qual nio tem sido treinado & democracia (ouvir/escutar/dialogar) mas a prepoténcia, Via de regra, ele entra no processo com preconceito de tratar com pes- soas de “menor significado”, que nada tem a dizer, mas apenas a ouvir sua “respeitavel decisio”, processo, instrumento do direito na diretiva da democracia, deve, Portanto, estar calcado nestes dois principiis: local da fala ¢ da escuta, (05 quais sio informadores dos principios, que lhe so secundarios, do contraditério da ampla defesa. E eles tém um norte: a possibilidade das partes, autonomamente, resolyeram seus conllitos, reservando-se 0 ato de império decisional a situagao limite ao se,verificar 0 caos da democracia dialogal. Mas ainda assim, 0 ato decisério deve refletir, ante a impossibilidade da caminhada auténoma, a democracia como imposigdo de limite ao intoleravel. Capitulo 2 MINISTERIO PUBLICO: INEXISTENCIA DE LEGITIMATIO AD CAUSAM ATIVA PARA A ACAO DE DISSOLUCAO DE SOCIEDADE ANONIMA Anténio Claudio da Costa Machado* Resumo: 0 escopo exclusivo do presente trabalho & a demonstragdo dde que Ministério Pablico nao esta autorizado por nenhuma norma le- gal a promover agio de dissolugdo de sociedades anénimas. O exame de ‘muitos textos legais — inclusive do Cédigo de Processo Civil, da Lei das Sociedades Anénimas e, principalmente, do art. 129, Il, da Constituicio Federal brasileira — revela que a legitimatio ad causam ativa para tal ado nio é dads em nenhuma hipétese a esta insttuigdo. Ementa: Ministéio Piblico;legitimidade ad causam, ag20 de disso- “ tug; sociedade anénima, interesses difusos, interesses coletivos. 1, Parecer Solicitado 1.1. Introdugao 4 Consulta Solicita-nos parecer juridico a empresa Dezenove de Novembro Re ee a mani e Wanderley Bonveti, a respeito da existéncia ou inexisténcia de legitimagao ativa ad causam do Ministério Piblico para promover ado de dissolugio de sociedade an6nima e cautelar de busca e apreensio de livros que a ela se atrelou preparatoriamente. | Questiona-nos a consulente, ainda, sobre alguns aspectos especifi- cos relacionades ao tema, para tanto apresentando-nos uma exposigo detathada acerca da causa que reproduzimos de forma concisa como se- = segundo nos & documentalmenteinformado, 0 Ministério Piblico do Estado de Sto Paulo, — por sua Curadoria Fiscal de Massas Falidas, + Mestre e Doutorando em Direito Processual Civil na FADUSP. Professor Assistente do Departamento de Direto Processal da FADUSP 18 Setor de Liqiidagdes Extrajudiciais — promoveu ago cautelar de apre- {nso ¢ depésito de livros e documentos em face da consulente, abtendo 8 concessao da medida liminar que foi regularmente executada. Os fun-