Vous êtes sur la page 1sur 64
Diego J. Duquel ea Gomez Pree tno sate ay Pere ere) Cee Gene ocr! Cee Cees integrard o rol dos pensadores do Peer Om CLO) nero meee Pee On Pees eet Se stan Diego J. Duquelsky Gomez ENTRE A LEI E O DIREITO ENTRE A LEI E O DIREITO SOTO iil ee icHe! ‘Teoria do Direito Alternativo ——+6-———- Tradugao de AMILTON BUENO DE CARVALHO E SALO DE CARVALHO - TIMACATA HIDIC \ LEI E © DIREITO eer eek Rema Rea Movimento do Direito Alternativo Cee cece ean rd OMCs) Pcceeme ce ee te ere CMe Lert juridicos para colocarem seu ee Ree eae Pe See ee me en ay ae Perea er Pe Ree ere Rents Ear er nec Mer MST nio Mari, Oscar Correas (hoje no México), e, mais especifis een ier oar a eration Oeics PE eager fora ener caer dos mais brilhantes representantes ee eee NCSC reer) Rea Rn es eects ec a OS Pere Urey Pe eee Eee ena eee eee ce SCR mtn) Ce EON NLC) ENTRE A LEI E O DIREITO Uma Contribuigao a Teoria do Direito Alternativo Eprrora Lumen Juris Eprrores Jodo de Almeida Jodo Luiz da Silva Almeida ConsetHo Eprronta Alexandre Freitas Camara Antonio Becker Augusto Zimmermann Eugénio Rosa Firly Nascimento Filho Geraldo L. M. Prado 4J.M, Leoni Lopes de Oliveira Letécio Jansen ‘Manoel Messias Peixinho Marcello Ciotola ‘Marcos Juruena Villela Souto Paulo de Bessa Antunes Salo de Carvalho ConseLHo Consutrrvo Alvaro Mayrink da Costa ‘Aurélio Wander Bastos, Cinthia Robert Elida Séguin Gisele Cittadino Humberto Dalla Bemardina de Pinho José dos Santos Carvalho Filho José Fernando ©. Farias José Maria Pinheiro Madei José Ribas Vieira Marcellus Polastri Lima Omar Gama Ben Kauss Sergio Demoro Hamilton Diego J. Duavetsky Gomez Professor Regular Adjunto de Teoria Geral ¢ Flosofia do Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires [Mestre em Teorias Criticas do Dieito @ Democracia pela Universidad Internacional da Andaluzia ~ Bspanha ENTRE A LEI E O DIREITO Uma Contribuigao a Teoria do Direito Alternativo ‘Tradugao de Amilton Bueno de Carvalho e Salo de Carvalho Eprrora Lumen Juris Rio de Janeixo 2001 Copyright © 2001 Diego J. Duquelsky Gomez Do original: “Entre la Ley y el Derecho” ‘Uma aproximacién a las préticas juridicas alternativas” SUPERVISAO EDITORIAL Antonio Becker Eprroragdo Ererrowica ‘Maanaim Informatica Ltda. ‘Telefone (21) 2242-4017 Cara, Mércia Campos A EDITORA LUMEN JURIS lo se responsabiliza pele originalidade desta obra © pelas opinides nela emitidas polo Autor e Tradutores. E proibida a reprodugdo total ou patcal, por qualquer meio ou process inclusive quanto as caracteristices ardficas e/ou editorais, A violagéo de direitos autorais constitu crime (Cédigo Penal, art. 184 e 6, e Lei nt 6.895, de 17/12/1980), sujeitando-se a busca e apreensdo e indenizagdes diversas (Lei n® 9.610/98). ISBN 85-7387-228-4 ‘Todos os direitos reservados & Editora Lumen Juris Ltda. www.lumenjuris.com.br Rua da Assembléia, 10 grupo 2.307 ‘Telefone (21) 2531-2199 Fax (21) 2531-1126 Rio de Janeiro, RJ ~ CEP 20.011-000 Impresso no Brasil Printed in Brazil Sumario Apresentando o Autor Amilton Bueno de Carvalho Apresentando a Obra Salo de Carvalho Introdugéo Prumema Pars: Estapo © Dinero NAS SOCIEDADES ConrEMPORANEAS 1, Estado e Direito Liberal 2. O Estado Social .... oe 3. A Crise do Estado de BomEstar . 4, Um Indispensével Paragrafo . 4.1, O Humanismo como Obstéculo Epistemolégico 4.2. A Sociedade como Sistema . 43.0 Poder na Teoria de Niklas Luhmana 4,4, Sistema Politico, Democracia e Governabilidade . 4.5. Luhmann e Estado de Bem-estar 5. O Novo Direito , 3.1. As Mudangas do Mundo Mercantil 5.2. A Destegulamentagao e 0 Direito Reflexivo 5.3, Globalizacdo e Multiplicacao dos Niveis do Poder . SEGUNDA PaRTE: Dinero, CIDADANIA E Novos ‘Movmenros Socials 1, Uma Histéria de Desequilibrios 1.1. A Cidadania Civica 12. A Cidadania Social e sua Crise 2. Os Novos Movimentos Sociais (NMS) 2.1, Movimentos Sociais e Novos Movimentos Sociais . 2.2, Tragos Definitérios dos NMS . 3. Os Novos Movimentos Sociais Frente ao Direito 3.1, Delineamento do Conflito 3.2. A Agao do Estado 3.3, Estratégias Frente o “Desarme” 7 19 20 22. 23 25 27 28 32, 34 36 36 39 44 46, 47 49 50 52. 56 87 58 60 4. A Inversao de Papéis 4.1. A Outra Face da Moeda I: Desde 0 Estado 4.2, A Outra Face da Moeda II: Desde os NMS 61 61 64 ‘Tencemra Pants: O Dinero ALTERNATIVO & A REAPROPRIAGAO Soctat. pa Fun¢Ao Normariva 1. Que ¢ Direito Alternativo? 1.1, Caracteristicos e Breve Historia do Movimento 1.2. Teoria Critica do Dircito: © Direito como Discurso . 1.3, Niveis do Discurso e Usos do Direito 2. Uso Alternativo do Direito 2.1, Caracteristicos 2.2. Algumas Palavras sobre a Interpretagao. 2.3. Italia, Anos Setenta: Uso Alternativo del Diritto 3. O “Positivismo de Combate” 3.1. Caracteristicos 3.2, Diteito Alternativo e Constituigao 3.3. Garantismo 4. Pluralismo Juridico 4.1. Origens @ Evolugao 4.2. As Posturas no Interior do Movimento 5. Novo Senso Comum e Democracia Radical . 5.1, Um Novo “Senso Comum” Juridico 5.2, Os Direitos, Frutos das Lutas 5.3, Um Novo Senso Comur Politico: Democracia Som Fim Referéncias Bibliograficas 67 67 70 72 18 18 17 80 84 84 84 87 93 93 99 104 104 105 107 at (Qué es una revolucién més que una metéfora social? Le6n Felipe El Poeta Prometeico Apresentando o Autor Amilton Bueno de Carvalho HA profundo vinculo entre 0 Movimento do Direito Alternativo e o saber critico que vem da Argentina. © movimento brasileiro — procura instrumental prati- co-teérico destinado a operadores juridicos para colocarem seu saber-atuagao na perspectiva da radicalidade demo- cratica - na construgao de nova teoria - nas palavras de Diego Duquelski: um novo senso comum — tem sugado 0 pensamento de vanguarda produzido pelos portenhos Carlos Maria Carcova, Alicia Ruiz, Enrique Mari, Oscar Cor- reas (hoje no México), e, mais especificamente no Direito Penal, Eugenio Raiil Zaffaroni. Os primeiros ~ desde sempre ~ presentes na maioria dos congressos promovidos sobre o tema, na terra brasilis. E Diego? Pois bem. O autor desta obra é dos mais brilhantes representantes da escola carcoviana do Direito. Mas, se num primeiro momento segue 0 Pai, n’outro vai lado a lado, agora como parceiro. Representa, pois, o que se poderia denominar segunda geragao de eriticos argentinos vinculados a alternatividade. E 0 faz com brilhantismo exemplar ~ a leitura desta obra tudo comprova! Mas, Diego é meu amigo~ logo, sou suspeito, nos termos ‘do artigo 405, § 32, III, do Cédigo de Proceso Civil, de teste- munhar em seu favor: os lacos afetivos abalam minha isengao! Ha cerca de cinco anos nos conhecemos num Con- gresso — realizado de Cércova ~ na Universidade de Buenos Aires, Posteriormente, estudamos juntos, por dois meses, na Universidade Internacional da Andaluzia, Espanha. Mais tarde, voltamos @ nos aproximar em Congresso de Direito Alternativo realizado em Florianépolis. aD Em novembro do ano passado (2000) estivemos nova- mente juntos, proferindo palestras para juizes e fiscais em Medellin, Colémbia. Ai tive contato com o livro que ora vem a pubblico. De imediato, senti-me compelido a traduzi-lo para comparti- Ihar com a critica brasileira. A parceria, na tradugao, com Salo ~ aliés, outro representante na segunda goragao ~ foi inevitavel: cada vez mais somos companheiros de produ- 40 intelectual (as vezes, até me pergunto: quem 6, afinal, © pai? Quem € 0 filho?) Outrossim, hé profunda ligagao histérico-afetiva entre 0s gatichos e argentinos. Nés, do Sul, somos préximos. As coisas em comum sao muitas: o folclore, a alimentagao, 0 clima, a prépria cultura. ‘Tanto isso é presente na alma gaticha que inimeras mtisicas nativistas tratam em profundidade dessa relagao. Uma delas, em particular, demonstra a irmandade: Orelhano, gravada por um gaiicho-argentino: Dante Ramén Ledesma. E, ela, em seus versos, expressa o sonho de um pampa sem aramado: Grethane, brasileiro, argentino ( Castelhano, campesino, gaticho de nascimento Séo trangas de um mesmo tento, sustentando um ideal Sem sentir a marca quente, nem o peso do bugal Orelhano, ao paisano de tua estampa Nao se pede passaporte, nestes caminhos do pampa Bueno ~ como diria um gaticho ou um argentino -, neste contexto, nada mais simbélico que Diego chegasse ao Brasil — invadindo} com seu saber, a nossa terra - condu- zido pelas maos de dois gatichos, desde sempre vinculados a0 Movimento do Direito Alternativo, a Leieo Direito Bem-vindo Diego, queremos reparti-lo com 0 resto do pais: sonbamos contigo com um novo tempo: um direito construido com 0 nosso suor, fruto da nossa luta e dirigido a uma América Latina sem “aramados". Apresentando a Obra Salo de Carvalho Em 4 de setembro do corrente ano, estaré a critica juri- dica nacional comemorando os dez anos do I Encontro Inter- nacional sobre Direito Altemativo, realizado em Florianépolis. O instigante 6 0 fato de que 0 Movimento do Direito Alternativo (MDA), apés cerca de uma década de existéncia no cenario jurfdico brasileiro, ainda continua sendo pauta de constante discusséo académica, tanto no que diz respeito aos ataques inconsistentes que perduram, como na tentati- va de seus aliacios em avangar em busca de uma teoria que © explique e dé consisténcia a sua atuagao de vanguarda. ‘Amilton Bueno de Carvalho, com quem tenho a honra de dividir a tradugao da presente obra, em importante artigo sobre o MDA, principia afirmando que el derecho alternativo se caracteriza por ser Movimiento. En principio, no es una teo- ia que dé cuenta del fenémeno juriaico.t Conclui, assim, que (o MDA) és una praxis en busca de una teorizacién que dé res- puestas a las crisis por la que atraviesa el derecho (y sus ope- adores) en este final de siglo en una sociedad periférica? diagnéstico realizado pelo autor em 1994, bem como seu prognéstico de elaboragéo de uma apurada teoria futura, sofreu algumas alteracoes. Todavia, néo podemos dizer que hoje, passada uma década do fortalecimento do MDA no pais, tenhamos conseguido elaborar uma teoria suficiente que con- globasse todos os viéses e matizes do “grupo” (dos militantes do garantismo até os tedricos do pluralismo socictério). Poderfamos dizer, inclusive, que nem existe, no inte- rior do “movimento”, tal pretenséo, vista a possibilidade de dogmatizar algo que, em esséncia, 6 plural e heterogéneo. 7 Ailton Bueno de Carvalho, Actuacién de Jos Jusces Alternatives Gau: hos en el Processo de Pastransicisn Democratica, Portavoz (40), p. 24 2 Idem, p. 31 0 J. Dusualaky Gomez No entanto, 0 medo da dogmatizagao nao faz com que seus pensadores deixem de lado as preocupagées tedricas, direcionando toda sua atuacao no universo do labor juridi- co cotidiano, pelo contratio. E é neste contexto que, neste momento, é publicada no Brasil a tradugao da obra Entre la Ley y el Derecho: una apro- ximacién a las précticas juridicas alternativas, do professor de ‘Teoria Geral e Filosofia do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, Diego J. Duquelsky Gomez. © autor portefio renova a discussao sobre o tema no pais, demonstrando, inclusive, para aqueles mais céticos, que o MDA, além de ultrapassar nossas fronteiras, conti- nua vivo e fortificado na seara do pensamento juridico de vanguarda, O livzo € fruto da dissertagao de mestrado do autor no Master en Teorlas Criticas del Derecho y La Democracia, da Universidad Internacional de Andalucia. A propésito, talvez seja a Espanha, mais especificamente a Andaluzia, o prin- cipal local de discusséo do MDA na atualidade, compr. vando, mais uma vez, que as fronteiras da discussao tem: tica foram absolutamente rompidas. Destaca-se, e é impor- tante que se diga, neste processo de intemnacionalizacao da discussao, o fundamental papel dos professores Drs Joaquin Herrera Flores e David Sanchez Rubio, coordena- dores do curso de Doutorado em Derechos Humanos y Dessarollo, da Universidad Pablo de Olavide (Sevilha), que tém agregado, sob suas orientagées, intmeros pesquisado- es latino-americanos identificados com 0 MDA. A obra, além de apresentar importante anamnese do atual estado de crise do modelo juridico contemporaneo, o que por si s6 recomendaria a leitura, agrega novos elemen- tos & talvez vindoura teoria do Direito Alternativo. Diego Duquelsky inicia o trabalho desde uma impor- tante discussao sobre o Estado e o Dirdito na atualidade (Estado © Direito nas Sociedades Contempordneas). Para tanto, percorte 0 transcurso e a modificacao do direito no avanco da estrutura estatal, mais especificamente do siste- Boue a Lei e © Direito ma juridico moldado no Estado liberal e o presente no Estado Social, ingressando em fundamental anélise sobre 0 papel do juridico (ou do que resta dele) na atual conjuntu- ra de globalizagao neoliberal. Assim, propée sério debate sobre os modelos de des- regulamentacéo, baseacios em uma estrutura de direito do tipo reflexivo, e da quebra das garantias juridicas materiais © processuais advindas com a globalizacéo. Agregando argumentos ao instigante estudo, temos que 0 efeito de tal processo, nitidamente totalitério em suas raizes, 6 a descar- tabilidade do valor pessoa humana ¢ 0 retorno a um estado de selvageria pré-civilizatério, barbaro, no qual impera a lei do mais forte.? Logo, a auséncia de limites ao poder empre- sarial, como percebe Ferrajoli, determinado pela desregula- mentagao e selvageria da liberdade econémica, colocaria 0 mercado como “a” nova Grundnorm, acima do direito e da politica, resultando no desmantelamiento del Estado social y de sus sistemas de limites, garantias y controles no sélo sobre el Estado, sino también sobre e! mercado. (© segundo momento do texto de Duquelsky (Direito, Cidadania e Novos Movimentos Sociais) adquire importén- cia fundamental para a compreenséo do MDA. Da definicéo dos Movimentos Sociais & sua redefinicao em Novos Movimentos Sociais (NMS), 0 autor articula e inte- gra as manifestagdes societdrias pluralistas com as possibili- dades de atuagao desde o interior do diteito. Demonstra, com _pxecisao, a tensdo existente entre a agao do Estado, na busca ‘de mecanismos de dispersdo (desarme) do conflito, ¢ as estratégias elaboradas pelos NMS em neutralizar tal pratica, Finalmente, na terceira parte do liv (O Direito Alternativo e a Reapropriacao Social da Fungo Normativa), trabalha o autor com o intento de conceituar e classificar os Salo de Carvalho, Garantismo Penal © Conjuntura Fat Contemporinea: ResistSncia & Globalizagio Neoliberal: Breve Critica, p, 56. 4 Litigi Ferrajoli, £1 Bstado Costitucional de Derecho, Hoy, p. 20, co-Bcondimica Diego J. Duquelsky Gomez diversos niveis de atuagao presentes nas mais variadas vertentes do MDA. Utiliza-se, pois, das tipologias propostas por Amilton Bueno de Carvalho (positivismo de combate, uso alternati- vo do diteito e direito altemativo em sentido estrito) © Edmundo Lima de Arruda Jr. (plano do instituido sonega- do, plano do instituido relido e plano do instituinte nega- do). Acrescenta, no entanto, uma rica discussao sobre a questao do garantismo juridico, (re)vitalizando os modelos e preenchendo uma lacuna, notada desde ha muito mas pouco debatida,® qual seja a compatibilidade entre as pro- postas do MDA e 0 modelo forjado por Ferrajoli Dado © completo ¢ atual material de debate, trazido ao Brasil pelas maos de Duquelsky, novas frentes de discus- so sero estabelecidas para o desenvolvimento do MDA. ‘Assim, felicita-nos poder apresentar o livro ao leitor bra- sileiro, sabendo de sua importancia histérica e da profunda contribuigao das teses nele levantadas para o proceso de (re)interpretagao do direito em tempos de globalizagao. Diego Duquelsky, desde muito tempo, é colaborador da critica do direito na Argentina. Agora, com a divulgacéo de sua obra no Brasil, integraré o rol dos pensadores do pais co-irmao, intentando, como todos da critica brasileira, produzir um novo modo de pensar e produzir o direito. Seja bem-vinda a obra de Duquelsky, e que seja rece- bida pelo pensamento critico brasileiro como integrante do uma nova era do MDA. Introdugao La potestad de castigar y de juzgar es seguramente ~ sustenta Luigi Ferrajoli? citando Condercet y Montesquiou ~ el més “terrible” y “odioso” de los poderes: ol que se ejerce de la manera més violenta y directa sobre las personas y en el que se manifiesta de la forma més conflictiva Ja relacién entre estado y ciudadano, entre autoridad y libertad, entre seguridad social y derechos individuales. Es por Io que el derecho penal ha estado siempre en el centro de Ja reflexién Juridico-filoséfica. Deste local, 0 da filosofia do direito, procuraremos na primeira parte deste trabalho tragar algumas linhas sobre © papel do direito frente aos denominados “novos interes- ses sociais' Cabe esclarecer que nossa postura jusfiloséfica identi- fica-se com as denominadas “Teorias Criticas do Direito”, para as quais uma das principais premissas epistemolégi- cas deriva de enfoque interdisciplinar. Nao deveré, portan- to, surpreender o leitor uma continua remissao aos aportes de outras ciéncias sociais. Em tal sentido tem sustentado Carlos M. Cércova, referindo-se ao surgimento destas teo- rias: Permeaba la idea de que, para dar cuenta de la especi ficidad de lo juridico, era menester comprender la totalidad estructural que Jo contenfa, es decir, la totalidad social, y que para ello se necesitaba constituir un saber multi y trans- diciplinario que sg desplegara como lugar de interseccién de miitiples conocimientos: histéricos, antropoldgicos, politi- cos, econémicos, psicoanaliticos, lingtiisticos, etc.2 7 L. Feajot, Derecho y Razén, Teoria del Garantiemo Penal, Madi: Tottta, 1995, p21 2 6, Chreova, “Teorias Juridicas Alternativas", in Derecho, Politica y Ma cgistrature, Buenos Aires: Biblos, 1986, p. 28 10 J. Duquelsky Gomez Entdo, embora nestas paginas nao nos dediquemos de forma direta a temas estritamente vinculados com a préti- ca penal, seus pontos de contato serdo miiltiplos, desde © momento em que trataremos, precisamente, as "relacdes conflituosas” entre Estado e cidadao, autoridade e liberda- de, seguranga social ¢ direitos fundamentais, de que nos falava Ferrajoli no pardgrafo antes citado. Para isso, serd nocessério analisar os diversos aspectos nos quais 0 direito contemporfineo ~ que outros proferem denominar “pés-moderno” - tem sofrido consideraveis muta- Ges: globalizacao, pluralismo juridico, desregulamentagéo ©, ‘em particular, a notavel transformagao e reformulagao de-um dos conceitos juridicos fundamentais: 0 sujeito de direito. E que, se queremos realmente compreender qual é 0 papel dos direitos frente aos novos interesses sociais, néo devemos perder de vista quem sao, atualmente, os porta- vozes de tais interesses Uma das possiveis alternativas - frente crise da velha distingao entre Estado e Sociedade Civil - que nos é legada, fundamentalmente, desde 0 ambito da sociologia ~ ainda que se tenha difundido notavelmente a outras areas das ciéncias sociais - centra a andlise do fenémeno dos “novos movimentos sociais” (NMS), como sujeitos inaugu- radores de uma “nova era politica”, que reivindica a subje- tividade acima da cidadania Por outra parte, surgiré de nossa anélise algo que é muito mais do que um simples “jogo de palavras": nao é 0 diteito que se situa frente aos interesses sociais, mas a expressio social de novos interesses é que representa mui- tas vezes um enfrentamento e até a propria negacao do direito vigente.s Sem nos estendermos sobre um tema que sera tratado em profundidade mais adiante, podemos recordar, de modo introdutério, que muitas das estratégias de acao dos NMS TE. Ferrajli, ob cit, p. 995, 10 Entre ie 0 Dizeito implicam atividades que desde um enfoque meramente nommativista seriam consideradas “ilegais". Como, por ‘exemplo, a ocupagao por parte de ativistas antinucleares germano-ocidentais, em fevereiro de 1975, dos terrenos nos quais se projetava construir a central nuclear de Whyl (pré- ximo de Friburgo);4 os freqiientes casos de invasao de ter- ras nos subitrbios das grandes cidades latino-americanas.$ Outras vezes, ao contrario, 6 o Estado que atua ilegal ou ilegitimamente, ¢ so os movimentos sociais que encon- tram um aliado no Poder Judiciério para a satisfagao de suas necessidades. O seguinte passo sera tratar de explicar como, em virtu- de dos fenémenos analisados, podemos afirmar que nos encontramos frente & emergéncia de um novo “senso comum” juridico e politico, a partir do qual 6 possivel fundamentar uma nova teoria da democracia e da emancipagao, libertados da “ditplice caida” — tedrica e politica ~ do liberalismo realizado® eda “caricatura grotesca" do socialismo real.” | J. Rischmana e F Pernindes Buey, Redes que Dan Libertad, Barcolona: Paidés, 1994, p. 232 5 Uma brihante anise dos j “famosos" casos de Ja Vila de Jos Nios, la Vila dl Styiab y la Vila Campesina, em Recfe, Brasil, pode ser encontrada em B. de Sousa Santos, "EI Estado, al Dorecho y las Luchas Urbana de Recife" in Estado, Derecho y Luchas Socials, Bogoté:ILSA, 1991, pp. 97 e sequintes. 6 A respeito, sustenta Ferrajoli, é necessérlo distingyulr duas fases na histé- ‘ia do pensamentojuridico liberal, Uma primera, ilstreda e revolucions- ria, ¢ uma segunda, conservadora e estatalista. Bm cdmbio, teve expres- ‘580 numa duplice caida, veéricae politica. En el plano te6rico, el lberalis ‘mo reformador fue suplantado por doctrinas abiertamente estatalistas, que disolvieron la originaria censién axiologica de aquel haciéndola pasar de ‘cultura de oposicién,orientade a la defensa de los darechas de los ciudada: nos ya la consiquiente delimitacion y funeionalizacién de los poderes esta- tales, a doctrina de lagitimacién y de apologia de los existentas preardona- da a la dafensa y seguridad dei Estado como bien supremo. En el plano _préctico e institucional, el lieralismo rélizado se ha manifestada on sist ‘mas penales y procesales ampliamente lesivos para los modelos teéricas sgarantistas y en compactas legislaciones policiacas en materia de orden ‘piblice y contra las clases peligrosas (L. Ferrajol, ob. ct. p. 890) 7B. de Sousa Santos, "Subjetividad, Ciudadania y Emancipacién", in B) Otro Derecho, 15, vol. §, m9 2, Bogota: ILSA, 1996. n Diego J. Duquelsky Gomez Paralelamente, na tiltima etapa do trabalho, estudare- mos 0 papel que cabe ao Direito Alternativo neste proces- 80 de radicalizacao democratica. Entender o direito como uma “pratica social de natureza discursiva”® permitird evi- tar cair no reducionismo que implicaria concebé-lo como uma mera corrente jurisprudencial reprodutora de seus j4 esgotados homénimos europeus. Para Jacinto Nelson de Miranda Coutinho,? o movimen- to 6 fruto do momento histérico por que passamos e expres- so da realidade social: néo existe mais 0 inimigo comum “ditadura’, atrés do qual transitavam na obscuridade os pseudodemocratas, confundindo, por interesses pessoais, @ luta contra ela, com as reais aspiragdes do povo. Agora, inobs- tante, “El Rey estd desnudo", nas palavras de Edmundo Lima de Arruda Jr, © a questa segue sendo a plena possibilidade de manipulagao da lei pelos operadores juridicos. Sera preciso, entdo, afrontar e analisar 05 miiltiplos sen- tides da expressao “Direito Altemativo". Assim, por exem- plo, para Amilton Bueno de Carvalho existiriam trés frentes:! 1. 0 tradicional uso alternative do direito, atividade que se desenvolve no préprio seio do ordenamento juridico positivo, utilizando as contradigdes, ambigiidades e lacunas do diteito vigente, buscando, através de uma interpretagao qualificada, que os efeitos da norma sejam cada vez mais democréticos. GE Alicia E, C, Ruiz, “Aspectos Meoligicos de! Discurso Juridico", in ‘Materiales para una Teoria Critica del Derecho, Buenos Aires: Abeledo Perrot, 1981 9 Cf Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, "O Papel do Juiz © sua Formatacdo’ pelo Sistema Processual”, trabalho apresentedo no Seminario Internacional Derecho, Democracia y Cultura Juridica al Fn de Sigio, Buenos Aires, 29 a 31 de marco de 1995, 10 Cf Joaquin Herrera Flores ¢ David Sanchéz Rabio, "Aproximacién al Derecho Alternativo en Iberoamérica”. in Jueces para la Democracia, nt 3/1989, i 2 Lele oDiteito Neste ponto analisaremos, como principal antece- dente, o fenémeno surgido na Itdlia quando 0 pensa- mento juridice dos anos sessenta se transforma, na década seguinte, ao teorizar em torno do carter politi- co da atividade do jurista, ao tempo que se reafirma a politicidade do direito,"t a partir das idéias divulgadas por um conjunto de juizes agrupados na Magistratura Democratica, corrente intema da Associacao Nacional de Magistrados fundada em 1964. Entre os prestigiosos integrantes deste movimento destacam-se autores como Pietro Barcellona, Luigi Ferrajoli, Giusepe Coturri, Salvatore Senese, Vincenzo Accattatis, Domenico Pulitano, Francesco Misiani ‘Também em relacdo a esta primeira acepgao da ex- pressdo direito alternative devemos repassar um tema classico na filosofia do direito: a interpretagao da lei. Um dos pontos em que existe acordo na discusséo metodo- légico-juridica contempordnea é que j4 nao é mais pos- sivel afirmar seriamente que a aplicagéo das normas juridicas 6 simplesmente uma subsuncéo légica perante promissas maiores formuladas abstratamente. ‘A antiga disputa entre "formalistas" e “realistas"” encontra-se atualmente superada. Em tal sentido foram substanciais os aportes das correntes herme- néuticas, das quais Gadamer € seu referente paradig- matico. Para el autor de Verdad y Metodo, la interpre- tacién supone un acuerdo entre la objetividad de un texto y la subjetividad de un lector. Ambos cambian al superarse la tensién inicial. Todo acto de lectura movi- liza las ideas previas, los prejuicios y preconceptos del GE Pietro Costa, “La Alternativa ‘Tomada en Serio" Manitiestos Juridicos de los Afios Sotenta", in Anaies de la Cétedra de Francisco Suérez, n= 30/1980. Cr, Alexy, Teerta dela Argumencacién Juridica, Madr Centio de Estudios Constinucionales, 1968, 1 1B 14 Diego J. Duquelsky Gomez lector que organizan un esquema préprio que no siem pre es posible reducir al texto.13 © Positivismo de Combate, expresso utilizada por Miguel Pressburguer, para caracterizar aquele nivel de disposigées normativas que reconhecem uma série de conquistas histéricas e democréticas e que, apesar de terem sido positivadas, nao se aplicam. O direito posi- tivo deverd ser utilizado, com 0 apoio da mobilizagao popular, como instrumento de combate." Neste nivel, resulta imprescindivel 0 nexo com a ‘Teoria do Garantismo."* Para tanto nos centraremos no estudo de uma das obras que tem tido maior impacto na cultura jurfdica dos iltimos tempos: Derecho y Razén, de Luigi Ferrajoli. Um dado “curios”, que merece ser levado em conta, é que este autor havia sido um dos principais expoentes do movimento do uso alternativo do direito na Itdlia dos anos setenta. Sustenta Forrajoli," entao, que a orientagdo que desde algum tempo se conhece pelo nome de “garan- tismo réplica ao crescente desenvolvimento da divergéncia existente entre a normatividade do modelo em nivel constitucional e sua auséncia de ofetividade nos nasceu no campo do direito penal como uma (Gfe. C. Cércova, “Jusnaturalismo vs. Pasitivismo Juridico: Un Debate Supe- ado", in Derecho, Politica y Magistratura, Buenos Aires: Bibl, 1996, NE. Como se vé do livre Diraito Alternativo ~ Teoria e Pritica, Porto Alegre: Sintese, 1998, p. 66, o referido autor Amilton Buene de Carvalho passou a utilizar, em vez de “positivismo de combate", a expresséo “positividade combativa’: "..Clsmerson no local jé citado demonstrou 2 {impropriedade de tal expressdo: os postulados do positiviemo~ neutral de, imparciaidade, ‘inexisténcia de vownaa® no ato de aplicagao da lei Jnexisténcia de critividade na atividade do operadorjuridico' ~ néo per ‘ita ser (0 pasitivismo) combativo, ao contrério, é passivo. Dai porque tenho que a expreasdo mais correta é positividade combativa NIT Sobre a relacdo entre a teoria do Garantismo ¢ o Direito Alternativo, conferir Carvalho, Amiiton Bueno e Carvalho e Salo, Aplicagso da Pena © Garantismo, Rio de Janel: Lumen Juris, 2001 Luigi Porraeli, ob. cit. Entre a Lel eo Direito niveis inferiores, 0 que comporta o risco de fazer do primeiro uma simples fachada, com meras fungdes de mistificaco ideolégica do conjunto. Delinean, efectivamente, los elementos de una teo- ria general del garantismo: el caracter vinculado del poder ptblico en el estado de derecho; la divergencia entre validez y vigencia producida por los desniveles de normas y un cierto grado irreductible de ilegitimidad juridica de las actividades normativas de nivel inferior; la distincién entre punto de vista externo (0 ético-poli- tico) e interno (o juridico) y la correspondiente diver- gencia entre justicia y validez; la autonom{a y la pre- cendencia del primero y un cierto grado irreductible de ilegitimidad politica de Jas instituiciones vigentes con respecto a 6.15 3. 0 Direito Alternativo em sentido estricto, também deno- minado direito insurgente, paralelo, emergente. Partindo de uma visao pluralista do direito, que tem seu sustentaculo nas teses de Boaventura de Sousa Santos, postula-se que 0 Estado nao ¢ 0 tinico sujeito ctiador de normas juridicas. A sociedade gera suas proprias normas e este direito nao deve ser considera- do inferior ao direito estatal. Tanto a antropologia como a sociologia juridica tém chamado atengéo desde muito tempo sobre o fenémeno do “pluralismo juridico", é dizer, quando vigora (oficialmente ou nao), num mesmo espago geo- politico, mais de uma ordem juridica.16 Miltiplas serdo as razées que explicam o surgi- mento deste fenémeno, como assim também encontra- 15 Luigi Ferrajoli, ob. cit, 18 B, de Sousa Santos, “BI Derecho en Ja Favala. Notas sobre Je Historia Juridico-Social de Pasdrgada”, traciugso de Christian Courts, ia No hay Derecho, n2 6, p17 16 16 Diego J. Duquelsky Gomez remos no interior do proprio Movimento do Direito Alternativo variadas correntes que se traduzem em outras tantas reagées frente ao pluralismo. O ponto de chegada de nosso largo caminho sera a conclusao da imperiosa necessidade de entender o Direito Altemativo, seus limites © possibilidades, no marco de uma redefinicao do papel da juridicidade, da teoria e pritica democriticas, de maos dadas com os “atores ndo-convencionais", sem os quais 0 novo “senso comum", ao qual fazfamos referéncia anterior- mente, nao podria ser sequer imaginado. Primeira Parte Estado e Direito nas Sociedades Contemporaneas Nesta primeira parte, como haviamos adiantado, ana- lisaremos as principais transformages do Estado e do Direito no nosso tempo. Para tanto, deveremos tazer uma breve referéncia da evolugao que um e outro tém softido desde sua emergéncia como forma de dominago politico- paradigmatica da modernidade. 1, Estado e Direito Liberal A primeira das formas que tomou o Estado moderno, a partir das revolugdes burguesas dos séculos XVIII ¢ XIX, 6 © Estado Liberal baseado no principio da limitagéo da intervencdo estatal, na liberdade do individuo e na crenga na superioridade da regulacdo esponténea da sociedade através da “mao invisivel” do mercado (Adam Smith). Sua imagem é a de um protetor dos direitos indivi- duais, que cumpre sua tarefa gragas & monopolizacéo do uso da forca e do poder juridico. Sua legitimidade para valer-se da coagao juridica e fisica tem como contrapartida a rentincia a todo 0 tipo de intervencao nos campos econé- mico e social, os quais tém um caréter puramente privado.? E funco do direito, portanto, garantir a livre circula- cdo das idéias, das pessoas e, particularmente, dos bens. Vale-se para isso de regras gerais, abstratas e previsiveis, 7 Tomaremos como base, neste momento, 08 textos de André-Noal Re .B] Derecho en Crisis: in del Estado moderno?” (in C. Cércova, ed. Ofati Proceedings 20, Derecho y Transicién Democrética, Problemas de Governabilidad, Oati, 1995) ¢ Francois Ost e Japiter, Hermes, Hercules: Tres Modelos de Juez (em Doxa, 14, Alicante, 1983) 2 ALN Roth, ob. cit, p. 188. ” Diego J, Duquelsky Gomez que alcangam seu maior grau de racionalidade a partir do processo codificatério. Para Frangois Ost,’ 0 modelo do Cédigo carrega quatro corolérios: I~ 0 monismo juridico. Em oposicao & disperséo das fontes do direito da Idade Média, o material juridi- co adota sucessivamente a forma dominante da lei, acoplada em cédigos que reforgam sua sistematiza- ao e autoridade. Il- 0 monismo politico. A codificagao supée o resulta- do de um processo de identificagao nacional e cen- tralizac4o administrativa que culmina na figura do soberano. Il - Uma racionalidade dedutiva e linear. E dizer que as solugées particulares sdo deduzidas de regras gerais, derivadas elas mesmas de princfpios ainda mais gerais, seguindo inferéncias lineares e hierar- quizadas. No caso de controvérsias interpretativas, a técnica elucidatéria apela a racionalidade do legislador¢ "garante Jupiterino” - diz Ost ~ da coe- réncia légica e da harmonia ideolégica do sistema. IV - Uma concepcao de tempo orientado para um futu- ro controlado. O processo de codificagéo descansa sobre a crenca eminentemente modema do pro- gresso da hist6ria: a idéia de que a lei — antecipan- do um estado de coisas possiveis e considerado preferivel ~ pode fazer chegar um devenir melhor. Esta concepgao se opée a temporalidade de larga duragao que sobretudo mira em diregao 0 passado © que caracteriza 0 direito consuetudinério. 3” Fat ob. ct, pp. 174175, 4 Um profunde estudo do tema podemos encontrar em E. Mati, Interprotacién de la Ley. Analisis Histérico de la Escuela Exogética y su [Noxo con e! Proceso Codificatorio de la Modernicad”, in Materiales para siria Critica del Derecho, Buenos Aires: Abeledo Perrot, 1991 ‘ba 1 Entre a Leis 6 Direito 2. O Estado Social Assim como as revolucées burguesas deram base para a formagao do Estado Liberal, foi a revolugao industrial que obrigou o desenvolvimento da segunda forma arquet{pica assumida pelo Estado, desde 0 iltimo quarto do século XIX, e, fundamentalmente, a partir da Primeira Guerra Mundial: 0 Estado Social, de Bem Estar, Providencial, Welfare State. ‘A répida destruicao dos lagos de solidariedade tradi- cionais, familiares e territoriais, obrigou a intervengao do Estado na regulacao da “questo social” (Diteito do Traba- Iho, seguridade social etc.) e da economia (politica moneté- ria, gastos publicos, subsfdios etc.). E do mesmo modo que as teorias “smithsonianas” davam sustento ao Estado minimo Liberal, a doutrina econémica de J. M. Keynes facilitou a legitimagao da intervencao estatal em todos os setores da vida econémica e social da nagao. ‘As transformagées do papel do Estado obrigam, irre- mediavelmente, A adogéo de um novo papel também do direito. Este é entendido, entao, como instrumento a servi- go de metas concretas: orientar as condutas humanas para a promogao do desenvolvimento econémico e social. Outro 6 também o papel dos juizes no Estado de Bem- Estar. Vale a pena recordar as palavras de Frangois Ost: Nunca nada seré perdonado al “juez asisten- cial” de hoy. Conciliar las economias familiares en cri- sis; dirigir las empresas en dificultades evitando, sies posible, la quiebra; juzgar si correponde al interés de! nifio ser reconocido por su padre natural, sila madre se opone; apreciar si la interrupcién voluntaria del embarazo se justifica por el “Estado de angustia” de Ia mujer embarazada; intervenir “en caliente” en los conflictos colectivos de trabajo y decidir (en procedi- miento de extrema urgencia un catorce de agosto a Ja noche) si la huelga de pilotos aéreos de la compa: Diego J. Duquelsky Gomez ia nacional prevista para el dia seguiente a las seis, 9s ono licita; juzgar si un aumento de capital decidi- do con el objeto de oponerse a una oferta ptiblica de compra de un Holding, cuya cartera representa un tercio de la economia belga es conforme a la ley; imponer moratoria a los trajadores 0 a las empresas que amenazam el equilibrio ecolégico; juzgar si lle- var el velo isl&mico es compatible con la disciplina y el espititu de la escuela...° Aos quatro corolarios do "modelo do cédigo”, poder mos oper, em virtude das caracteristicas assinaladas, outras tantas do "modelo de dossier": 1~ Ao monismo normativo corresponde opor a prolife- ragao das decisées particulares, cuja generalidade ¢ abstragao da lei deixam lugar ao concrete do juizo. I—Do mesmo modo cabe destacar que assim como 0 cédigo supde um monismo politico, o “dossier” oca- siona a dispersao das autoridades encarregadas de aplicar 0 direito, III - Podemos ver também que se inverte a marcha da racionalidade dedutiva e linear, substituindo-a por uma légica que se pretende indutiva. IV ~ Finalmente, podemos concluir que este modelo implica um tempo descontinuo, feito de irrupgées juri- dicas esporddicas e "descartaveis” depois do uso. 3. A Crise do Estado de Bem-Estar A crise do Estado de Bem-Estar ~ e conseqitentemen- te da forma de direito que lhe é propria -, é um fenémeno denunciado desde os anos setenta pelos teéricos sociais tanto de esquerda como de direita. Em tal sentido cabe Ost, ob. cit, pp. 176/177 Hem, p. 180 re a Lele 0 Dirsito mencionar - entre outros ~ os conhecidos trabalhos de Offe, Dahrendorf, Willke, Teubner e Luhmann.? Dita crise relaciona-se diretamente com 0 esgotamen- to do regime de acumulagao consolidado no pés-guerra, 0 “Regime fordista-taylorista”, caracterizado por uma total separacao entre concepgao e execugao no processo de tra- balho, acoplada com a integragao inevitavel dos trabalha- dores na sociedade de consumo através de uma certa inde- xagao dos salarios diretos ¢ indiretos (os beneticios sociats préprios do Welfare State), Este colapso se traduziu logicamente na crise da regu- lamentagao nacional que regia eficazmente até entdo, fren- te a internacionalizagaio dos mercados ¢ a transnacionaliza- go da produgao. Como esta regulamentacéo estava centra- da no ambito do Estado Nacional, sua crise foi também a crise deste frente a globalizacéo da economia e das institui- des que se desenvolveram com ela (empresas multinacio- nais, Fundo Monetério Internacional, Banco Mundial etc.).# De fato —sustenta Roth ~ assistimos a um deslocamen- to e a uma fragmentacao das instancias legitimadas a pro- mulgar regras, visivel nas politicas de descentralizacao ¢ desregulamentacao t{picas de nossa era.? Uma série de “novas probleméticas” instala-se nas ciéncias sociais, como a crise de representacdo, governabi- lidade democratica, phuralismo juridico, entre outras, todas elas mediadas pelo conceito chave de “complexidade” Conceito chave jé que el problema de la complejidad en Jas sociedades del capitalismo maduro es también observa- 7 GE Wi Ramos Filho, “Diteito Pés-Moderno: Caos Criativo © Neolibera- wiemo", in Direito e Neoliberalismo. Elementes para uma Leitura Interdisciplinar, Curitiba: EDIBEJ, 1996, p. 84 8 A crise do fordismo teve também uma dimensio cultural ou politico-cul tural, da qual o movimento estudantil do final dos anos sessenta foi sew ‘grande articulador. Cf. B, de Sousa Santos, Subjetividad, Cludadania y Emancipacién, ob. cit. Este aspecto ser analisado, em profundidade, oportunamente neste trabalho 9 AN. Roth, ob. cit. p. 192. a Diego J. Duquelsky Gomez ble en Jas nuestras, aun cuando no hayan alcanzado aquel estadio de madurez, porque ellas exhiben una realidad sin- gular, en la que conviven tradicionalismo y posmodernidad; miseria y consumismo; relaciones productivas precapitalis- tas y desarrollos tecnolégicos de punta; analfabetismo y sofisticacién intelectual en una caleidoscépica mixtura que se contituye e dato peculiar de nuestra propia complejidad.1° 4, Um Indispensdvel Paragrafo E, se falamos de complexidade, merece destaque 0 au- tor que mais profundamente trabalhou este conceito: Niklas Luhmann. © mundo oferece ao homem, segundo o autor de Sistemas Sociais, uma quantidade praticamente ilimitada de possibilidades de experiéncia e de agao, & qual corres- ponde uma capacidade muito reduzida de perceber, elabo- rar informagées e atuar. Para Luhmann, a “complexidade” 6 0 excesso de possibilidades do mundo, ou seja, a diferen- ca entre o mimero de possibilidades potenciais ¢ o ntimero das mesmas atualizadas. Em tal sentido, a complexidade significa necessidade de selegao."! Cremos oportuno dedicar algumas linhas ao pensa- mento “Luhmaniano", pela particular atengao que ele dis- pensou a crise do Estado de Bem-Estar a que estamos nos referindo."2 YO C, Céicova, “La Opacidad del Derecho", in Derecho, Poli tratura, ob. cit, p. 128 11 Mais especificamente, por complexidade, a teoria sistémico-cibernética entende: 1. O mimero e variedade dos elementos de um sistema. 2. A extensio e @ incidéncia das relagbes de interdependéncia dos elementos fe um sistema. 2. A variabilidade no tempo dos elementos de suas rl ‘es. CED. Zolo, “BI Léxico de Lahmann'",in Sistemas Politicos. Temas de! Dabate ltaliano, Compilador Marco Cippole, México: UNAN, 1986, p, 224 12 Este tema 6 tratado particularmente em Luhmann, Teoria Politica en el Estado de Bienestar, Mads’: Alianza Rdltorial, 1994 fea y Magis 22 Entre a Lei e 0 Direito 4.1. O Humanismo como Obstaculo Epistemolégico A obra de Niklas Luhmann, embora viesse se desen- volvendo desde os anos sessenta, alcangou notoriedade a partir de principios dos anos setenta em razéo de seu aber- to debate teérico com Jiirgen Habermas. Sem embargo, Luhmann ndo se limita a criticar a obra do pensador de Frankfurt, mas prope implantar um novo paradigma que desloque a tradigao vetero-européia. Para ele, os conceitos teéricos herdados do iluminismo no 40 validos para descrever a sociedade contemporanea, muito mais complexa e diferenciada. Como anteciparamos, para Luhmann, é mister realizar uma “Ilustragao da llustracéo”: impor um novo modo de pensar que possa dar conta da complexidade do sistema social, tarefa em que até o momento a sociologia fracassou. ‘Mas por que fracassou? Porque Ilustracién, materialismo marxista, historicis- mo, weberismo son en cuanto humanismos, variantes modemos de une filosofia y una ética social arcaicas.!¢ © préprio Luhmann apela para o conceit de “obsta- culo epistemolégico”, formulado por Bachelard em seu livro A Formagao do Espirito Cientifico, para refletir sobre © humanismo que caracterizou o pensamento sociolégico desde seu infcio.15 G9 Nao nos referimos a um ano em particular porque encontramos divergén- clas a respeite. Para Danilo Zolo, © anc de explosio do “caso Luhmann” foi 1971, enquanto, pars Ignacio Tzuzquiza, a polémica surgiu em 1972. Veja- se, a tespeito, Zolo, Danilo. “Complejidad, Poder y Democracia", in Sistemas Poliices. Temas del Dabate Isaliano, Compilador Marco Cuppulo, fb. cit, p. 161; ¢ Niklas Luhmann, Sociedad y Sistema: La Ambicién de la 0 de Ignacio Tauaquiza. Barcelons: Paidés 1980, p. 10, 14 CED. Zola, ob cit, p. 166. 38 CEN, Luhmann eR, De Gi de lberoamericana, 1993, p. 30 Teoria de Ia Sociedad, México: Universida Diego J. Duquelsky Gomez Os “obstdculos epistemolégicos” derivam geraimente da tradigao, estao implicacos no ato mesmo de conhecer & atuam gerando estancamentos € retrocessos, confusdo e entorpecimentos, provocando expectativas que nao podem ser satisfoitas. Os mesmos surgem tanto a partir da propria sensibilidade do homem, dos erros do passado, de sua experiéncia de vida, da tensao permanente entre o conhe- cido © 0 desconhecido, como da histéria interna de cada disciplina cientifica e suas praticas educativas. Carlos Cércova, na sua anélise da obra de Bachelard, enuncia e classifica os distintos tipos de “obstéculos epis- temolégicos": a experiéncia bésica, a generalizagéo, os habitos verbais e imagens familiares, os substancialismos e, finalmente, 0 obstaculo animista, Este tltimo consiste en el rol predominante que juega nuestra intuicién de vide, nuestro cuerpo como objeto privilegiado. Proyectamos en nuestras explicaciones esta intuicién de nuestra propia exis- tencia vital y ella da forma, estiliza, preconstituye otras naturalezas otros fendmenos a imagen y semejanza de nue- tra naturaloza, de Jo que somos nosotros mismos como fend- ‘menos. Esta patologia se manifesta na teoria sociolégica ‘tradicional. Luhmann enuncia as trés hipéteses presentes na idéia de sociedade que prevalece atualmente e nas quais se manifestam estes “obstaculos epistemol6gicos":*” 1, que uma sociedade esta constituida por homens concretos e por relagdes entre os homens; 2. que as sociedades s40 unidades regionais territo- rialmente delimitadas; 3. que as sociedades podem ser observadas desde o exterior como grupo de homens ou territérios.1® Ye GEG, Cétcovs, “Bacholard y Ia Nocién de Obstéculo Bpistemaligico”, in Re vista Motodologia de la Ensafanea del Derecho, Universidad de Morén, n° 3, 17 CEN. Lubmann ¢ R, De Goirgi, Teoria de la Sociedad, ob. cit. 31 18 Como exemplo do afirmade por Lubmann, podemos citar autores como ‘Weber ou Talcott Parsons, nos quais se encontrar presentes ditas hipo- za Entre @ Lei e © Direito ‘Um dos pontos mais “escandalosos"#9 da teoria hihma- niana é, precisamente, sua oposigéo a estas idéias, Para Luhmann, a sociedade nao esté composta por homens, mas sim por comunicagées. Como caracterizar, entao, os seres humanos? Que papel jogam em relacao com o sistema social? Por um lado, devemos ter em conta que, no marco da teoria geral dos sistemas, os homens séo sistemas auto- referentes que tém na consciéncia e na linguagem seu pré- prio modo de operar autopoieticamente. kistes sistemas psiquicos nao sao integrantes do sistema social, mas sim seu entomo. Disto se depreende que as relagées entre 0 homom e a sociedade s4o as mesmas que as de qualquer sistema com sou entorno. 4.2. A Sociedade como Sistema Evidentemente, existem distintos tipos de andlises, as quais, de fato, podem ser denominadas sistémicas. Mas nao todos significam esforgos teéricos de igual envergadu- 1a20 Como se pode verificar nos pardgrafos anteriores, a {e2es, Assim, Waber define “sociedad politica” como aquela cuya existen- ia y cuyo orden estén protegidos continuamente, dentro de un dea territo- rial determinada, por Ia amenaza y Ia aplicacién de fuerza fisica por parte el personal gubemative. Cf. A. Giddens, El Capitalismo y la Moderna ‘horia Social. Barcelona: Labor, 1985, p. 2259, Para Parsons, por sua parte, tum “sistema social” & e! generado por cualquier proceso de interaccién, en el nivel sociocultural entre dos o més actores £] actor es el individuo huma- no concreto (una persons) 0 una colectividad de la que son miembros una ‘pluralidad de parsonas. CR. Alford e R. Hedland, Los Foderes de a Teoria, (Capitaliemo, Estado y Democracie. Bd. Manantial, p. 47. 19 Cf. Ignacio Izuzquiza, ob. cit, p. 27. Em tal nivel, considera teuequiza fescandaloso este ponto da obra de Luhmann, que publicou um livro cha- mado La Sociedad sin Hombres. Niklas Luhmenn o la Teoria como Escéndalo, Barcelona: Anthropos, 190. 20 Por exemplo, Rober: Dahl sustenta que toda recopilacién de elementos ‘que interactian de aigtin modo entre si puede considerarse un sistema, tina galaxia, un equipo de fitbol, una legislature, un partido politico...Un sistema es un aspocto de las cosas an algin grado abstraido de Ia realidad ‘con propésito de andliss (Andlisis Politico Actual. Budebsa). Como vemos, sta caracterizacio dista muito da profundidade teérica de Luhmann. Diego J. Duguelsky Gomez teoria de Luhmann é um projeto tao ambicioso quanto com- plexo, que encontra suas raiz Parsons, na cibernética, na teoria dos jogos, na neurocién- cia, nas ciéncias anglo-sax6nicas da conduta coletiva e na sociologia da organizagao.t Devemos entender os sistemas, segundo Luhmann, como identidades que se manifestam num ambiente comple- x0 e mutavel por meio da estabilizagao de uma diferenca interno-extema. I dizer, a complexidade do mundo impoe aos sistemas que atuem como redutores seletivos. Eles redu- zem a complexidade do ambiente, selecionando os perfis que Ihes sao relevantes para seus fins transformando ae mesmo tempo a complexidade externa em complexidade interna.” Com instrumentos préprios da teoria geral dos siste- mas, Luhmann pretende caracterizar 0 sistema social, ¢ 0 primeiro passo para a delimitagéo de um sistema e seu entorno é precisar com clareza a operagéo que realiza a autopoiese do sistema. No caso dos sistemas sociais, tal ocorre mediante a comunicagao.2? Vejamos as propriedades da comunicagao que permi- tem a autopoiese do sistema: pressupor o concurs de um grande nimero de sistemas de consciéncia é uma operagao genuinamente social ~ a tinica para Luhmann. Por sua vez, como unidade, nao pode ser imputada a uma consciéncia s6 nem pode ser produzida por uma consciéncia comum coletiva. E dizer, é autopoiética na medida que pode ser somente em um contexto recursive com outras comunica- goes. Devemos agregar a isto uma caracteristica que dis- tingue a comunicagao de outros tipos de processo: sua capacidade de auto-observacao. ‘Em seu desenvolvimento, o sistema social tendera & diferenciagéo, produzindo subsistemas sociais, autopoiéti- s no funcionalismo de 21 GED. Zolo, ob. cit., p. 168, 22 Idem, p. 168. 23. CEN. Lan .an @ R, de Glorgl, Teoria de la Sociedad, ob. cit, p. 45, 6 Entze a Lei e o Direito cos e auto-referentes, Subsistemas como 0 politico € 0 jurt- dico sao, em conseqiiéncia, produtos da complexidade das sociedades contemporaneas. 4.3. O Poder na Teoria de Niklas Luhmann Um dos fatores que poderia caracterizar a teoria sociolégica de Lukmann, como novo paradigma cientifico, 6 0 fato de que termos centrais como poder, democracia, sistema politico so redefinidos e assumem significades que escapam A tradigao da filosofia e da ciéncia politica classicas. A politica é um subsistema social diferenciado, cuja fun- cao é produzir poder. E dizer, transmitir decisées vinculan- tes.24 Deste modo, o poder é caracterizado como um “meio de comunicagao” ~ igual ao dinheiro, ao amor etc. ~, que consis- te na possibilidade de que dispée um sujeito ou uma plurali- dade de sujeitos de eleger com sua deciséo uma alternativa para outros sujeitos. E a faculdade de reduzir a complexida- de para outros.25 Luhmann se aparta, desta maneira, das teorias tradi- cionais, que consideravam 0 poder como um bem que se poderia possuir ou como um lugar ao qual se poderia ascender sendo um sujeito, um grupo ou uma classe social. Mas também se distancia de definigdes funcionais como a de Parsons, o qual sustenta que o poder é a capacidade generalizada para mobilizar os recursos da sociedade para 2A Umma posture totalmente oposta podemes encontrar, por exemplo, em. Hanna Arendt, Assim, segundo Habermas, para Arendt, el poder es un bien ‘porel que los grupos politicos rivaizan y que a ireceién politica ha de admi- pistra, pero tanto los unoe como la otra se encuentran ya en cierto modo con Ia existencia de ese bien, no lo producen. Esta es la impotencia de los pode- roses: tienen que formar prastado su poder de los generadores de poder (J. Habermas, Poriles Picedce Poitioas, Mads: Tauras, 1984, p. 20). Cf D.Zolo, ab. cit. p. 172. 2 Diego J. Duquelsky Gomez alcangar as metas coletivas do sistema. O conceito de poder em Parsons nao é to distinto da viséo weberiana Repete, no plano de umas categorias da teoria dos siste- mas, a mesma idéia teleolégica de poder que Weber sus- tenta no plano da teoria da agéo.27 Nas sociedades modernas, complexas e diferenciadas, © poder s6 pode ser explicado como um fenémeno relacio- nal. As relagdes de poder nao se dao tao sé de cima para baixo, a refloxividade é outra categoria saliente. Em maior ou menor medida, ambas as partes da relagao “tém” poder e estdo em condigées de exercé-lo.?8 Com estas consideragées, vem o problema da “quanti- dade de poder". Luhmann abandona o teorema classico da invariabilidade da soma de poder ~ conhecido como a teo- ria da soma zero ~ e chega & conclusao de que, ante a com- plexidade e a interdependéncia nas sociedades modernas, aumenta a necessidade de decisées rapidas, sincronizadas e tempestivas. Assim, o risco nao é de um excesso, mas sim de um déficit de poder. 4.4. Sistema Politico, Democracia e Governabilidade Osubsistema politico pode, por sua vez, dividir-se em dois novos subsistemas, alerta Luhmann. Por um lado, 0 chamado 26 Weber define o poder como a probabilidade com que um agente poderd realizar seus proprios objetivos ainda frente & oposigo de outros com o8 quais se encontra em relegao social (ef. A. Giddens, ob. cit., p. 259) Parsons, por sua vee, diz que el poder es ia capacidad generalizada para ‘movilizar los recursos de la sociedad incluso la riqueza y otros ingredien- tes tales como las lealtades, la responsabilidad politica, etcétera, para alcanzar las metas colectivas del sistema més o menos inmediatas (ct ‘Alford e Friedland, ob. cit. p.72) 27 G&.J. Habermas, ob. ci. p. 207. 28 E curioso como este conceito "relacionista” do poder pode ser encontra- do em autores de provedéncia tao distinta de Lohmann, Também para Fouleautt, 0 poder é uma situacao estratéyica em uma sociedade deter- minada. & esta relagao 6 cambiante, mutével, dialética, histérica (cle. C Caircova, “Acerea de las Runciones del Derecho", in Materiales para une ‘Teoria Critica del Derecho, Buenos Aizes: Abelodo Perrot, 1991, p. 217) 28 Entre 4 Lei e 0 Direito sistema politico em sentido estrito, é dizer: o sistema dos parti- dos politicos; ¢, por outro, o sistema da administracao piblica. O primeiro tem come fungao produzir legitimidade. Atra- vés dos partidos politicos, fica garantida a disponibilidade do pablico aceitar as decisées vinculantes do segundo - a admi- nistragdo -, as que séo emanadas dos poderes executivo, legislativo e judiciério, através do procedimento burocratico, Os partidos sao as estruturas seletivas que permitem reduzir a hoterogeneidade ¢ a complexidade das demandas de deci- s6es administrativas, por parte dos cidadaos, com expectati- vas particulares préprias de seus papéis e subsistemas, ‘A atengao do pitblico diminui na medida em que aumenta a complexidade e a diferenciagéo social. Esta “atengao politica” converte-se em um bem cada vez mais escasso, sobretudo porque os temas politicos adquirem um nivel de especificidade e especializagéo muito alto. A legitimagéo jé nao esté dada pelo consentimento dos cidadaos, que seria impossivel e ilusério, mas se manifesta em duas caras de uma mesma moeda, Por um lado, a disponibili- dade geral a aceitar as decis6es da administragao pitblica e, Por outro, ndo menos importante, pela suposigéo, por parte do sistema politico, que existe tal disponibilidade geral com base na participacao dos sujeitos aos procedimentos institucionais, Como vemos, a politica é um sistema auto-referente, j& que por si mesma produz e reproduz os elementos de que estd constituida: as decisées politicas. A evolucao das for- mas de operacao auto-referentes corresponde plenamente As exigéncias que marcam o desenvolvimento histérico do sistema social e que permitem, por uma parte, liberar-se de dependéncias extemas como a moral, 0 dinheiro ou a reli- giao. Porém, por outra, possibilita a abertura interna do sis- tema a temas cambiantes ante condig6es de relativa per- manéncia das estruturas que dirigem as operagées (proce- dimentos, direito, estrutura de partidos politicos etc.).2 28 GEN, Luhmann, Teoria Pol Editorial, 1994, p. 55. sa en el Estado de Bienestar, Mads: Alianza 9