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Caderno de Responsabilidade Civil – UFSC

(Luiza Silva Rodrigues)
Aulas do Prof. Rafael Peteffi
Introdução
- Alguns autores chamam a parte de responsabilidade civil de parte patológica do
direito obrigacional. Normalmente a nomenclatura utilizada é a vítima (credor) e o
agente, devedor da relação jurídica obrigacional.
- A responsabilidade civil, apesar de fechar um ciclo do direito obrigacional, também
tem uma dificuldade inicial de conseguir visualizar o momento de formação desse
direito obrigacional.
Exemplo de responsabilidade civil extracontratual: acidente de trânsito.
- No contrato de compra e venda, a visualização desse momento de início, de geração
do direito obrigacional era muito claro. Como nasce ou por que nasce, no caso, por
exemplo, do acidente de trânsito?
- Aqui na responsabilidade civil o nascimento desse dever jurídico vai se dar com a
quebra de um dever jurídico originário que venha a causar dano para a vítima
normalmente o titular desse direito violado.
- Trabalha-se sempre com uma situação traumática, por isso é a parte problemática do
direito obrigacional. O surgimento sempre é com violação a um direito originário,
porque a violação desse direito com a causação de dano para a vítima vai gerar um
dever jurídico sucessivo, que é exatamente, caso verificados todos os requisitos, o
dever de indenizar. Eu quebrei um dever originário, causei dano pra vítima e devo
indenizar.

Dever jurídico originário é todo e qualquer tipo de direito, absoluto ou relativo.

- A quebra do dever jurídico originário é um dever jurídico absoluto e não aquele
relativo do contrato que deveria entregar um computador na casa do fulano.
- Para gerar responsabilidade civil com certeza não precisa haver lesão a um bem
jurídico com patrimonialidade. O que é necessário é vislumbrar que, para gerar o dever
de indenizar eu preciso uma quebra do dever jurídico originário e o dano causado à
vítima.
- Eu nunca tenho indenização se não houver dano. Mas, por outro lado, não é todo
dano que é indenizável porque existem danos toleráveis. Exemplo: dano causado no
sistema capitalista pela concorrência leal.

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- Os crimes de mera conduta não possuem um paralelo aqui. Não há responsabilidade
civil sem dano. Indenizar é tornar indene, se eu não tenho um dano eu indenizo o que?
Exemplo: passei no sinal vermelho: tem pena administrativa, multa. Se eu não bati em
ninguém, não atropelei, não há ação de indenização.
- Não se indeniza negligência no ar. Conduta culposa no ar não é indenizar. Tem que
ver o que ela causou. Causou dano? Pode-se pensar em indenização.
A fonte da responsabilidade civil é a quebra de um dever jurídico originário com a causação de dano.

- Em responsabilidade civil, muito mais do que em qualquer outra área do direito civil,
há normas de suporte fático aberto muito importantes em sua estruturação. Possui
uma sistemática baseada em cláusulas gerais e a grande cláusula geral é aquela
formada pela junção dos artigos 186 cc e 927 CC.
- A cláusula geral pode gerar uma insegurança inicial. Felizmente, a doutrina e a
jurisprudência já conseguiram preenchê-la de tal forma que hoje já temos uma
segurança jurídica muito grande.
- Qual é a grande diferenciação desse ilícito civil que causa dano e vai gerar uma ação
de indenizar e o ilícito do direito penal? Qual a diferença ontológica da
responsabilidade civil e penal? Na verdade não há nenhuma diferença ontológica entre
eles. Pra saber se vai gerar responsabilidade civil ou penal, é uma questão cultural.
Tudo é uma questão da legislação, que deve ser verificado no caso concreto.
- Algumas questões como a sonegação fiscal podem gerar dúvida sobre o tipo de
responsabilidade. Os crimes de mera conduta geram responsabilidade só no âmbito
penal.

25.03.11

Requisitos da Responsabilidade Civil
- Os requisitos da responsabilidade civil não são pacíficos na doutrina. Não há um
consenso absoluto sobre isso. Muitos autores simplesmente falam da culpa, do nexo e
do dano, mais vinculados à doutrina francesa; normalmente os autores portugueses
vão trabalhar com o nexo de imputação como um dos requisitos.
- No direito brasileiro, há um rol de requisitos bastante comum e o núcleo duro é um
fato jurídico, um dano sofrido pela vítima, e um nexo causal entre eles. Sem isso, eu

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tenho muita dificuldade de configurar responsabilidade civil. E há, atualmente, um
quarto requisito, que nos últimos anos foi expurgado desse núcleo, que é a culpa.
- A culpa foi expurgada desse núcleo pelo advento da responsabilidade civil objetiva.
Hoje em dia nós temos basicamente essa conduta da pessoa que causa o dano, que
pode ser comissiva ou omissiva, antijurídica, por parte do agente, e precisa haver nexo
de causalidade entre a conduta e o dano causado à vítima.

A culpa é o qualificador da ação do agente que vai ser importante ou não
dependendo do tipo de responsabilidade sobre o qual estamos falando.

1. Culpa e Ato Ilícito
- No direito brasileiro, nós temos, até por uma peculiaridade da nossa legislação, uma
dificuldade muito grande de separar a análise da culpa da análise do ato ilícito.
Art. 186 + art. 927 CC.
- A grande cláusula geral da responsabilidade civil subjetiva no Brasil está na junção
dos artigos 186 e 927 CC. A doutrina brasileira teve como fundamento principal a
doutrina francesa. E lá eles chamam a responsabilidade objetiva por um termo que
pode significar tanto ato ilícito como culpa. Então importante é tentar diferenciar ato
ilícito de culpa.
 Art. 186 CC: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou
imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente
moral, comete ato ilícito.”
- Podem-se visualizar, aqui, dois elementos bastante distintos:

há o elemento objetivo que é essa parte da violação de direito de outrem
(conduta antijurídica, ato contrário ao direito). Esse é um dos elementos do ato
ilícito; a questão de romper um dever jurídico originário.
e o segundo elemento, subjetivo, vai fazer referência exatamente a um
qualificador da conduta desse agente que está agindo contrariamente ao
direito: voluntariamente e por negligência ou imprudência.

- No artigo, em nenhum momento está escrito expressamente culpa, mas ela foi
referenciada por algumas de suas espécies, que é a negligência e a imprudência.
- Para ter ato ilícito:
Conduta contrária ao direito

Qualificador da conduta do agente

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se um seqüestrador está apontando uma arma na minha cabeça. ou imperícia. Aqui. E em alguns casos eu não vou ter ato ilícito – por exemplo. Muitos autores dizem que pra essa ilicitude do abuso de direitos. contrariamente. Na imensa maioria dos casos em que isso acontece. . 188 CC: “Não constituem atos ilícitos: I . O primeiro elemento não é senão simples verificação do fato. Qualificador da conduta do agente: esse meu ato contrário ao direito precisa ser um ato culposo. nesse caso. esse é um ato contrário ao direito.José de Aguiar Dias diz que “o primeiro elemento mostra somente que o ato é contrário ao direito – independentemente da questão de saber se se pode ou não censurar o autor. pela boa-fé ou pelos bons costumes. No caso do inciso II. 187 CC: “Também comete ato ilícito o titular de um direito que.Outra questão importante é que na responsabilidade civil vamos trabalhar com a culpa lato sensu. verifica-se um caso de imprudência. O artigo 188 CC diz que é excludente de ilicitude. há um conceito de ilicitude objetiva. 187 CC. II . seria dispensável a culpa. Exemplo: se uma pessoa está dirigindo e ela atravessa o sinal vermelho. Parágrafo único. um ato em que o observador vai poder verificar negligência. o segundo elemento.Então esse elemento subjetivo do ato ilícito é exatamente a possibilidade de se censurar moralmente um ato contrário ao direito.  Art. excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social. Isso quer dizer que quando estivermos falando em responsabilidade por culpa.” . evidentemente que vou ter que indenizar. ou seja. se relaciona diretamente co esse caráter censurável.  Art. imprudência. o segundo. Exemplo: se eu bati no carro de alguém com intenção de causar o dano porque é um desafeto.” . não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. implica apreciação moral. estaremos falando em culpa e dolo. imperícia ou negligência. a fim de remover perigo iminente. não há esse qualificador da censura moral. ao contrário. ou a lesão a pessoa.os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido. ao exercêlo. o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário. . esse fato também pode ser censurado moralmente – poderia ter causado um acidente. Essa classificação nas categorias não tem nenhuma implicação prática. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 4 .Se a pessoa tinha condições de evitar e não o fez.” OBS! Muitas pessoas dizem que para a ilicitude do art.a deterioração ou destruição da coisa alheia.

Isso geraria injustiças no sentido de que pessoas muito dedicadas responderiam por danos que uma pessoa muito relapsa não responderia. . honesto. acaba servindo pra uma quantidade pequena de casos porque há parâmetros de comparação muito mais específicos: um bom médico. Um exemplo são os contratos gratuitos. tem. nem a mais.Então pra saber se a pessoa agiu culposamente.  Há poucos casos em que culpa e dolo vão produzir uma diferenciação prática efetiva. esse modelo de bom pai de família. Eu não posso avaliar a conduta médica da mesma forma do Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 5 . que ser avaliado de acordo com a situação concreta em que o agente se encontra. 2. importante seria remeter-se a características particulares. um bom advogado. depende do caso concreto. Assim. Claro que esse conceito varia com o tempo. seu grau de atualização profissional. Além de demandar uma análise muito minuciosa que levaria tempo. para que uma pessoa não seja considerada culpada de alguma coisa. . com o protocolo que ele deve seguir. Exemplo: é evidente que aquele bom médico. para saber se a conduta de alguém efetivamente merece aquela censura moral. evidentemente. b) Culpa In Abstracto . essa forma não é utilizada para verificar a culpa.Por motivos óbvios. eu preciso comparar essa conduta com o modelo comportamental que nós consideramos o aceitável pra vida em sociedade. tem que provar ter agido como um bom pai de família: responsável.A culpa in concreto levaria em consideração aspectos específicos.A função precípua da responsabilidade civil é indenizar a integralidade do dano causado. nem a menos.  Esse homem abstrato. Normalmente..Aqui na culpa in abstracto. sob pena de causar enriquecimento sem causa. padrão de conduta. Culpa In Abstracto e Culpa In Concreto a) Culpa In Concreto . um bom engenheiro. particulares da personalidade do agente. .Claro que hoje. a importância em distinguir dolo e culpa é minúscula. Exemplo: sua capacidade de concentração. de estudo.

se as pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes.médico que está em um postinho de saúde precário ou na emergência de um grande hospital.Até no código antigo. De uma maneira coloquial. . na imensa maioria dos casos porque normalmente essas pessoas de 16 a 21 anos não costumam ter um patrimônio significativo a ponto de ter vários bens penhoráveis que vão permitir a execução de uma ação indenizatória. 928 CC: “O incapaz responde pelos prejuízos que causar. Art. é incorreto. 928.  Pela primeira vez o direito nacional autoriza entrar no patrimônio de um inimputável. que deverá ser eqüitativa. o art.Costuma trabalhar com duas questões bem específicas: a maturidade (uma criança de 10 anos é inimputável por não ter maturidade pra estabelecer essa relação de causa e conseqüência) e a sanidade mental.  Claro que. neste artigo. Ele representa uma exceção a um princípio basilar na responsabilidade civil no direito brasileiro. isso tem pouca relevância. Essa indenização equitativa permite que o juiz condene a uma indenização inferior ao dano (porque a regra geral é o princípio da reparação integral do dano). não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou as pessoas que dele dependem. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 6 . A indenização prevista neste artigo. então. . O novo código trouxe. nós tínhamos uma regra bem interessante que dizia que os menores púberes (entre 16 e 21 anos) respondiam solidariamente com o responsável. eu até posso dizer. Parágrafo único. na prática.Fundamental. 3.  É muito complicado dizer que alguém que é inimputável seja culpado. a gente trabalha então com essa possibilidade de o autor direto do dano não indenizar. Imputabilidade . mas tecnicamente. O código anterior não previa essa hipótese. .Nos casos de inimputabilidade.Muitos autores questionavam a possibilidade de adentrar o patrimônio do inimputável nos casos em que este tivesse um patrimônio importante e seus responsáveis não tivessem nada. que diz que a indenização deverá ser equitativa. é o parágrafo único. .

A verificação da culpa e a avaliação da responsabilidade regulam-se pelo disposto neste Código. risco para os direitos de outrem. traduz um dever de indenização eqüitativa. fica obrigado a repará-lo. negligência. sob pena de retirar do código penal os crimes de mera conduta. ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. por ação ou omissão voluntária. ainda que exclusivamente moral.A junção do art.. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 7 . Então pela primeira vez no direito brasileiro um juiz pode dizer que o dano foi de 200 mil reais e condenar à reparação de 120 mil. 928: a impossibilidade de privação do necessário à pessoa. causar dano a outrem. 186 e 187). ou causar prejuízo a outrem. independentemente de culpa. Se alguém subtraiu 100 mil da minha conta. por ação ou omissão voluntária. Conexões Sistemáticas da Responsabilidade Subjetiva Art.  Enunciado 39 do Conselho Federal de Justiça: “Art. deve devolver-me com correção monetária e juros.” Art. fazer com que a pessoa volte ao status quo ante. 927 CC: “Aquele que. prevista no art.” . violar direito. de modo que a passagem ao patrimônio do incapaz se dará não quando esgotados todos os recursos do responsável. também os pais. 4. fica obrigado a reparar o dano. Mas opta-se por deixar o avô com esse mínimo que ele tem para viver e vai-se em busca do patrimônio do inimputável que possui mais condições. comete ato ilícito. Parágrafo único. tutores e curadores serão beneficiados pelo limite humanitário do dever de indenizar. negligência ou imprudência. nos casos especificados em lei.Indenização é tornar indene.” Exemplo: o avô. O artigo 159 do Código de 1916 dizia o que dizem os artigos mencionados:  “Aquele que. vivia com base no aluguel de um apartamento. Ele é penhorável. informado pelo princípio constitucional da proteção à dignidade da pessoa humana. mas se reduzidos estes ao montante necessário à manutenção de sua dignidade. por ato ilícito (arts. violar direito e causar dano a outrem.”  É claro que pra configuração de um ato ilícito eu não preciso de dano. Haverá obrigação de reparar o dano. por sua natureza. ou imprudência. ao invés de ganhar aposentadoria. Como conseqüência. 186 CC: “Aquele que. 186 com o 927 forma essa grande cláusula geral. 928.

Então. Então a idéia da responsabilidade civil objetiva é fazer com que o responsável por esses processos internalize os custos do seu próprio risco.A responsabilidade do Código de Defesa do Consumidor é toda objetiva. Os produtores lindeiros começaram a sofrer seguidos danos representados pelo incêndio de suas propriedades em decorrência da passagem de trens. Exemplo: a empresa de ônibus.Responsabilidade Objetiva . . sociais. aquele que teve a melhor oportunidade de contratar o seguro.A responsabilidade civil objetiva é relativamente nova. basicamente é essa a diferenciação entre a responsabilidade civil objetiva e a subjetiva.Então nos casos regulados pela responsabilidade civil objetiva. constituíam uma possibilidade danosa muito grande.  Decreto Legislativo de 1912: o primeiro caso de responsabilidade civil objetiva no direito brasileiro ocorreu com o advento do transporte ferroviário. em muitos casos essa perícia é de uma dificuldade tão grande para o autor da demanda (vítima) que não ensejaria reparação. mesmo uma perícia mais apurada teria dificuldades de demonstrar a culpa. que guardavam um risco intrínseco à sua atividade. normalmente. mesmo em alguns casos nos quais. . a prova da conduta culposa do agente não se faz necessária para o surgimento da obrigação de indenizar. . independentemente da culpa do agente. Eram processos sociais. tecnológicos. É socializar o risco desses novos processos tecnológicos. Por isso houve um grande progresso dos julgados com base na responsabilidade civil objetiva. uma perícia técnica muito aprofundada poderia até provar efetivamente um ato ilícito culposo por parte do agente. a companhia aérea. .Vários processos verificados na sociedade no final do século XIX. acabavam tendo uma lucratividade muito grande em detrimento dos usuários desses processos.Começou-se a verificar que as pessoas que dominavam esses novos processos. Nesse caso concreto. de fato. Exemplo: se a gente tivesse que provar a culpa da celesc ´porque em virtude de uma queda de energia alguns eletrodomésticos queimaram. industriais. não haveria como se responsabilizar o agente. Existia Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 8 . Regra geral. econômicos. indeniza. . talvez.Pela lógica da responsabilidade objetiva. . que suportavam os danos. A responsabilidade civil objetiva pode ser conceituada como aquela que não tem a culpa como um de seus requisitos.

uma socialização de todo o prejuízo por uma comunidade de tomadores daquele produto ou serviço muito grande. mas também aos proprietários lindeiros à estrada de ferro.certo risco intrínseco à atividade daquela locomotiva. . Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 9 . este era a culpa. o único fundamento da responsabilidade até o advento da responsabilidade civil subjetiva. poderia nascer certo desconforto inicial: será que não é uma injustiça.  É verdade que. Risco Criado . Não seria injusto forçar alguém a indenizar se não teve culpa nenhuma em causar o dano? . porque além de ser um dos requisitos para haver responsabilidade civil subjetiva. Risco Proveito 3. na realidade tinha uma importância muito grande pra toda teoria da responsabilidade civil. permitindo indenização independente de culpa. se analisarmos uma ação indenizatória de A contra B. independente de culpa. devem ser indenizados. Depois. que é muito interessante. todos os danos causados. uma tentativa vã de tirar da vida coisas que a ela são inerentes? Alguns danos nós acabamos sofrendo durante a vida.Com o advento da responsabilidade civil objetiva. Risco Integral 2. coloca-se em cheque essa questão de solidariedade. Se alguém precisasse de algum fundamento moral.Era. começa-se a ter um olhar um pouco diferente sobre a responsabilidade civil objetiva.A CULPA. ao nos depararmos com ela.Num primeiro momento. porque. a partir dela. . Então nós tínhamos duas opções: a) continuávamos com o sistema antigo e só teria indenização se provada a culpa – as vítimas ficariam sem indenização alguma. portanto.Hoje há uma concepção na doutrina e na jurisprudência de que uma concessionária de serviços públicos responde objetivamente. não só aos passageiros. ela era também o próprio fundamento da responsabilidade civil. Portanto. Teoria do Risco 1. a conseqüência prática é. surge a teoria do risco. b) ou então se poderia imaginar a possibilidade de reverter completamente a lógica da responsabilidade civil. . exatamente.

10. esse conforto pode de fato ser maior. mas. A concessionária. ou faz um fundo de reserva para a indenização. Não houve culpa nenhuma. todas essas atividades possuem riscos intrínsecos. Em alguns casos.Se adotarmos um olhar muito atomizado na questão de uma única ação de indenização. . Para a Teoria do Risco Integral basta a simples relação. de pouquíssima aplicabilidade. coincidência entre a atividade do agente e o dano sofrido pela vítima para que exista responsabilidade civil. mandar instalar a ligação de eletricidade na minha casa. É verdade que. .Então. 1. quem está indenizando somos nós.É uma teoria radical.  Essa á grande teoria que está por trás da responsabilidade civil objetiva.60 vai cobrar R$ 2. Risco Integral . durante uma viagem. que pegamos os ônibus.70 para poder ter o seu lucro e indenizar as pessoas. vários casos de responsabilidade civil objetiva possuem certa dificuldade no seu julgamento. na imensa maioria das vezes em que formos trabalhar com a responsabilidade objetiva. ou a empresa contrata um seguro.Com o advento da teoria do risco surgiram algumas categorias. Ela se advoga somente em alguns casos específicos. quebrou a barra de direção de um dos ônibus e alguns passageiros se machucaram. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 10 . uma mera relação entre a atividade do agente e o dano sofrido pela vítima. ou o governo resolve instalar uma usina nuclear. basta uma coincidência. porque toda a subjetividade que antes pertencia à análise da culpa foi transferida para o nexo de causalidade. A teoria do risco integral diz praticamente que não precisa haver nexo de causalidade. a referência vai ser única e exclusiva à teoria do risco.Exemplo: vamos imaginar que houve um dano sem culpa nenhuma dessa concessionária: comprou ônibus novos. a sociedade toda vai pagar para aqueles que forem atingidos. andar de avião. ao invés de cobrar uma tarifa de R$ 2. . e se por acaso se comentar sobre o fundamento subjacente a essa teoria. ou a empresa não faz nada disso e corre risco de quebrar. . Mas a questão é tentar abarcar o maior número de vítimas com indenização. alguns autores vão trabalhar com subespécies.Normalmente. Com os R$ 0. Se houver um dano. Na verdade.

É muito comum os autores quererem dar um adjetivo específico: por exemplo. a verificação do nexo de causalidade pode ser complexa. Exemplo: uma empresa poluiu as águas do rio. .Exemplo: a pessoa foi ali. Então deve indenizar. No meio do trajeto. O tsunami seria um caso clássico de caso fortuito ou força maior que vai romper o nexo de causalidade. Essa pessoa estava. . . A prestadora de serviços tem a obrigação de que essa viagem ocorra com segurança. pegou o ônibus. Era um problema de terminologia. Ou então pegamos um ônibus. teoria do risco do estado.É uma teoria que trata da questão do lucro e possui uma importância mais histórica.Muita gente utilizava a teoria do risco integral para definir a responsabilidade civil do estado. Por que a pessoa que cria risco tem que indenizar? Porque ele que tem o lucro com a atividade. A empresa tem que responder por isso?   O STJ vai dizer que não.Em alguns casos. dentro do ônibus. Matou todos.Trabalhar com a energia nuclear é algo que tem um grau de periculosidade tamanho que a pessoa deve indenizar mesmo que se comprove caso fortuito ou força maior. entra um assaltante e atira no passageiro. São danos previsíveis e que a companhia tem obrigação de indenizar. Que isso é um fato exclusivo de terceiro que rompe o nexo de causalidade. é possível traçar uma relação entre o tsunami e a morte dos passageiros. Tem que indenizar porque quem cria risco é quem ganha o lucro. porque deve prestar um serviço de segurança de qualidade.Outros autores acham que ela também deve ser utilizada em casos de desastres ambientais. Mas não tem influência nenhuma no tratamento teórico da categoria normativa. durante a viagem vem um tsunami e o atinge. . As pessoas acham então que tem uma plausibilidade a aplicação dessa teoria do risco integral.  A Teoria do Risco Integral diz que. teoria do risco do empreendimento. portanto. Os Tribunais de São Paulo e do Rio de Janeiro vão dizer que sim. Risco Proveito . Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 11 . 2. durante a viagem. Exemplo: pego um ônibus e no meio da viagem cai um meteoro em cima dele. mesmo no caso do tsunami.

o que vem sendo importante para solidificar a idéia de risco criado é que.  Achamos que CULPA é aquilo que não está de acordo com o caráter do homem médio. não existe efetivamente um proveito no sentido de lucro. culpa média. em muitos casos. no caso concreto. 1.Hoje em dia. Quem tem a melhor oportunidade de contratar o seguro é quem indeniza. leve ou levíssima. como Caio Mário. que é um proveito para a população inteira. Culpa Levíssima . Talvez a questão mais importante aqui seja a responsabilidade objetiva do estado. ..Mas. porque aplicar uma idéia de culpa levíssima quase que desvirtua a idéia de culpa.É possível imaginarmos algumas graduações da culpa? Sim. Risco Criado . a gente não usa. Alguns disseram que a culpa é capaz de dar resposta a todos os casos e há meios de ampliação da responsabilidade subjetiva. . culpa grave.Um dos poucos autores que trabalha esses meios de ampliação. Basta que se verifique. Entretanto. 3.A revolução que a responsabilidade objetiva propôs foi tão grande que nós tivemos certo movimento de resistência. é porque ele teve a melhor oportunidade para contratar o seguro. Alguém que agiu com dolo. .Alguns autores diziam que não precisa de responsabilidade objetiva. precisa indenizar de forma objetiva.A questão é a seguinte: foi ele que criou o risco? Sim. Se ele criou o risco. diz que um dos meios de ampliação é fruto de uma transferência muito grande de casos que eram considerados responsabilidade extracontratual e foram para responsabilidade contratual. Meios de Ampliação da Responsabilidade Subjetiva . A censurabilidade moral do agente cai por terra porque qualquer mínimo deslize acaba sendo considerado culpa e gera o dever de indenizar. algum deslize mínimo que seria o suficiente para a indenização. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 12 .

Mas é um mecanismo bastante útil em alguns casos em que a responsabilidade objetiva imporia um ônus muito grande ao agente. não tem como rebater. se a plástica não sai de acordo. que fez os procedimentos corretos. eu vou ter que pagar.  Se eu não tenho a possibilidade de fazer um juízo valorativo da ação ou omissão do agente.O problema da culpa levíssima é que. ele vai ser culpado. Porque. a presunção absoluta de culpa não é nada mais nada menos do que uma grande falácia para encobrir a admissão da responsabilidade civil objetiva. Exemplo: presunção relativa de culpa na cirurgia plástica estética: como a tendência é de se verificar que a pessoa fez a cirurgia voluntariamente. eu não tenho responsabilidade civil subjetiva. Exemplo: um dos casos clássicos costumava acontecer na responsabilidade civil do trânsito com quem bateu atrás de um veículo (ela é presumidamente culpada). provavelmente.Em primeiro lugar. na realidade. ela é juris tantum. 2. é o médico que tem que provar que não foi culpa dele. isto é. admite prova em contrário. porque eu só consigo exonerar o agente provando caso fortuito ou força maior. isto é. for de caráter duvidoso e eu não tiver nenhuma testemunha que forneça provas de que a culpa não foi minha. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 13 . não tinha doença nenhuma. passa a ser quase que uma responsabilidade objetiva. Se.  Mas na imensa maioria dos casos quem tem culpa é quem está atrás então facilita-se essa prova. por um acaso. eu estou matando a essência da responsabilidade civil subjetiva que é exatamente permitir um juízo valorativo da censurabilidade moral da conduta do autor. na prática. .Então. a pessoa que está na minha frente.São aquelas presunções que não admitem prova em contrário. a partir do momento que eu deixo pré concebido que não importa qual prova fática eu fizer. Presunções a) RELATIVA (juris tantum) . se ele entrar com um processo contra mim pedindo indenização. b) ABSOLUTA (juri et juri) .. porque ela simplesmente inverte o ônus probatório da culpa.

Acórdão – REsp.Neste caso concreto. a responsabilidade civil seria subjetiva. Pelo voto. mascarar a existência de responsabilidade civil objetiva. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 14 .Não é a característica da situação fática. Arranjo Sistemático da Responsabilidade Objetiva . A escolha de que teoria será utilizada ou os critérios que vão determinar sua escolha são definidos aprioristicamente. o que ficou evidenciado é que o tipo de responsabilidade utilizada foi a objetiva. Então não é a presença ou a ausência da culpa na ação do agente que vai determinar o tipo de teoria a ser usada no caso concreto. foi provada a culpa do agente. dizer que eu tenho responsabilidade civil subjetiva com presunção absoluta de culpa significa que eu estou querendo. 159 do Código Civil de 1916. restou comprovado que havia negligência por parte da empresa. o critério para determinar qual teoria deve ser utilizada no caso concreto. a lei federal que ele ofendeu. . a gente usa a responsabilidade civil subjetiva? Não. na verdade. . Logo.  Aí nós vamos ter um princípio importante no direito que vem do direito romano: o que a abunda não prejudica. foi o art.No caso do acórdão. a possibilidade de observar uma conduta culposa ou não do agente.Para entrar com Recurso Especial é preciso alegar divergência jurisprudencial (STJ tem a função de harmonizar a jurisprudência) ou então ofensa à lei federal. . .758 . Então nos mostra que existem casos que serão regulados pela responsabilidade civil objetiva. portanto. subjetiva? Pelo que consta no relatório.Portanto. Mesmo assim.. STJ 246.  Qual é o critério para saber se deve usar responsabilidade civil objetiva ou subjetiva? A lição clara do acórdão é que não é a existência ou não de culpa no caso concreto que vai determinar a teoria a ser utilizada. é um caso de responsabilidade objetiva.Aqui nós temos um caso de responsabilidade objetiva.No caso em questão. mas que no caso concreto ela pode não representar uma vantagem concreta para a vítima. segundo a alegação da Eletroacre.

Responsabilidade subjetiva era a regra geral e a objetiva era uma responsabilidade específica. . 927. por ação ou omissão voluntária. comete ato ilícito..” Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 15 . a responsabilidade civil subjetiva era usada em um sistema de competência residual ou subsidiária.Responsabilidade civil subjetiva:  Art. causar dano a outrem. eram regulados pela subjetiva.  Responsabilidade objetiva somente é observada nos casos em que há uma previsão específica de lei. Com o advento do Código de Defesa do Consumidor. ele poderia ter uma listinha dizendo o que é responsabilidade objetiva e o que é subjetiva. 186 CC: “Aquele que. da Maria Fumaça. por ato ilícito (arts. ainda que exclusivamente moral. dizendo que deveria ser regulado pela responsabilidade objetiva. Haverá obrigação de reparar o dano.Responsabilidade civil objetiva:  Art. é que. ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. que somente poderia ser utilizada com guarida em algum dispositivo legal específico. § único CC: “Parágrafo único.Em 2002.Até 2002. . Exemplo: se chegassem à mesa de um magistrado os autos de determinado processo. fica obrigado a repará-lo. . negligência ou imprudência. Deveria ser usado no sentido de competência residual e não no sentido de serem a imensa maioria dos casos julgados com base na responsabilidade civil subjetiva. violar direito e causar dano a outrem. até 2002. por sua natureza. todos os casos de responsabilidade civil objetiva guardam uma relação direta com a promulgação de um novo diploma.” . nos casos especificados em lei.”  Art. 927 CC: “Aquele que. risco para os direitos de outrem. o termo ‘regra geral’ já deveria ser usado com cuidado. até 2002.Grande parte dos casos de responsabilidade objetiva ou são casos de relação de consumo ou casos de responsabilidade civil do estado. após o primeiro deles.O que se vai conseguir observar nos próximos casos de responsabilidade civil objetiva. a importância da responsabilidade civil objetiva no direito brasileiro sofreu um aumento exponencial. . independentemente de culpa. 186 e 187). Todos aqueles casos que não contavam com um dispositivo legal específico.

dessa revolução sistemática. Esse parágrafo foi responsável por uma revolução sistemática no trato da responsabilidade civil. Se tivesse sido promulgado antes.  “(. o dono do carro entraria com ação sem necessidade de provar culpa. 927 pelo CDC. A construtora responde objetivamente. um julgamento independente de culpa. 17 CDC.) ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. A partir de 2002. mas os dois colegas que estavam de carona iam ter que provar a culpa da montadora. mesmo que não haja previsão legal específica pra ela.-Depois da palavra ‘lei’ do § único há uma vírgula.” Exemplo: vai uma pessoa de uma agência comprar um automóvel 0 km. b) e a grande novidade do novo código é que. A concessionária e o comprador. Então pode existir. não se enquadra no § único do art.É uma cláusula geral. Exemplo: caso do prédio que ia ser construído e prejudicou o prédio ao lado. equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 16 . teria surtido tais efeitos. para ver se. 927 CC. pela primeira vez no direito brasileiro. por sua natureza. As pessoas se machucaram. risco para os direitos de outrem.Pela primeira vez depois de 2002. poder-se-ia esperar um resultado prático da mesma dimensão. 17 CDC: “Para os efeitos desta Seção. . Então o art. Agora eu posso começar a criar um catálogo de casos jurisprudenciais ao lado dos casos legais.  Dá pra dizer hoje que nós temos uma revolução sistemática na parte de responsabilidade civil objetiva. Há uma utilização quase que diluída do § único do art. nós temos uma cláusula geral de responsabilidade civil subjetiva. 927 CC. 17 CDC sanou esse problema e também foi um dos grandes responsáveis por um esvaziamento prático do § único do art. E é aqui que se consegue demarcar a grande modificação do sistema de responsabilidade civil até e após 2002. Imagine que na primeira curva o carro vem a capotar e todas as pessoas sofrem dano porque ele veio com um defeito grave na suspensão.  Art.. Se não fosse o art.” . enquadrando-se no § único do art. . numa demanda judicial específica. o sistema brasileiro de responsabilidade civil começa a contar com duas hipóteses: a) ele pode ser aplicado naqueles casos previstos em lei – o que não é novidade nenhuma. a maior parte dos casos já está prevista no catálogo legal. Mas.. 927 CC. verificar o que foi comprovado. Não foi isso que aconteceu porque o projeto do Código Civil de 1970 acabou sendo promulgado só em 2002. o juiz agora vai ter que ler o processo. além da lista.A grande questão que não se pode deixar passar é que.

os dois requisitos que são o tema base do estudo moderno da responsabilidade civil são o nexo de causalidade e o dano. grande parte da subjetividade que acabava reservada à análise da culpa. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 17 .Cavalheri prega uma aplicação mais restrita do art. a causalidade que se estuda vai passar obrigatoriamente por um juízo valorativo.  Art. pode também ser demandado pelo empregado caso ele aja com culpa. além de outros que visem à melhoria de sua condição social: (. se machucou porque estava sem cinto. que o empregador. E isso é uma linha jurisprudencial que tem muita coisa.. 927 CC.” . acabou sendo transferida para a análise do nexo de causalidade. . nos quais o empregador deveria responder independentemente de culpa. . O nexo de causalidade que se estuda aqui é um conceito jurídico que se afasta em muito daquele conceito metafísico estudado na física e na matemática. o que acontece é o pagamento por parte do empregador também – então pode cumular.O INSS vai me indenizar independentemente de culpa. e não uma mera idéia de risco criado. Então ele não vai se preocupar dizendo que o sujeito caiu do andaime. O que se tem no referido artigo é a idéia de risco proveito. Não há posicionamento muito claro. trabalhar culpa acaba sendo um assento em desuso. Se a culpa foi do empregador. muitos entenderam devida sua utilização nos casos de acidente de trabalho. com § único do art. o que vai fazer com que depois do acidente ganhe mais do que ganhava antes de salário. a cargo do empregador. no art. sem excluir a indenização a que este está obrigado. . a pessoa que está levando vantagem da atividade de risco.O que começou a ser verificado é que. apesar de pagar esse seguro. Ele vai pagar acidente de trabalho. não importa o que aconteça. Com esse aumento exponencial da responsabilidade objetiva. Aqui.seguro contra acidentes de trabalho. O empregador é obrigado a fazer o seguro INSS.Sem dúvida. 927 CC. nesse sentido. sem capacete. Trabalha-se com novas categorias de dano e a outra grande questão é o nexo de causalidade. 7 CF: “São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais.. 7 CF. A atividade normalmente desenvolvida deve ser interpretada como uma atividade empresarial.Com o advento da responsabilidade objetiva.) XXVIII . Teoria do Nexo de Causalidade . jurisprudencial. quando incorrer em dolo ou culpa. Inclusive a jurisprudência do STJ permite que cumule os dois.A constituição diz..

A teoria da equivalência de condições vai botar todas essas causas necessárias no mesmo balaio.Existem algumas teorias pra tentar definir o que é nexo de causalidade. O nexo de causalidade é muito diferente da simples coincidência entre o dano sofrido pela vítima e a ação do agente. É a condição necessária. sem a qual alguma coisa não ocorre. O que essa teoria diz é que pra ter nexo de causalidade. para aqueles que adotam a Common Law.   O STJ acredita que não há nexo de causalidade entre a atividade de transporte e a morte de um passageiro dentro do ônibus em função de assalto. Então todas as condições se equivalem. Exemplo: tinha um vôo às 6 da manhã e tinha combinado com um motorista de táxi para me levar ao aeroporto. Eu chego ao aeroporto e o check-in já foi Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 18 . . Houve várias condições necessárias para acontecer o acidente.. quando volta. O TJRS entende que há. O anestesista sai da sala de cirurgia. precisa ter conditio sine qua non. basta que sejam necessárias para serem causa. . .Causation é só a causalidade matemática.O caso muito comum de assalto a ônibus tem uma diferenciação de análise nos tribunais brasileiros justamente por causa do nexo de causalidade. a principal carcaterística do nexo de causalidade é que ele precisa ser certo. Houve falha do controlador. Exemplo: caiu um avião. . Vai equivaler todas essas conditios sine que non. Ele se atrasa. tanto que não é utilizada no nosso direito. houve erro médico. problemas na pista e na turbina do avião. a morte teria ocorrido mesmo se o anestesista ali estivesse. Existe uma coincidência.Alguns até chamam de teoria da conditio sine qua non.  A conduta foi decisiva para que aquilo acontecesse? Caso não. mas não existe conditio sine qua non. Exemplo: anestesista que se retira da sala de cirurgia. o paciente está morto. não há nexo de causalidade. fica duas horas fora da sala e depois. Teoria da Equivalência de Condições . 1. O que é sine qua non é causa. Se a perícia disser que.  Há críticas fortes a essa teoria.É muito comum haver várias causas. da conditio sine qua non. na verdade.

com o controlador do vôo.A posição pessoal do prof. o controlador de vôo. pode-se dizer que a causa é adequada. O que normalmente poderia causar a morte de alguém seria um erro grave do piloto. aquele erro. Exemplo: no processo do acidente aéreo. o mau tempo.A teoria do dano direto e imediato diz que a causa deve ser direta e imediata. Então faz uma análise ao reverso. 403 CC. 3. . normalmente causa o dano X? Sim. Exemplo: é razoável que um atraso de meia hora de um motorista de táxi vá matar um passageiro? Pode se atrasar para uma reunião importante. há embasamento legal: art. Pode o motorista ser responsabilizado por causa disso? O atraso do motorista é conditio sine qua non? .  Art.” 2. mas não é razoável dizer que vai tirar a vida do sujeito. as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato. um problema na pista. É aí que se passa pra essa fase mais valorativa. Teoria do Dano Direto e Imediato . Teoria da Causalidade Adequada . uma palestra. Durante este vôo o avião cai e a pessoa morre. Poderia prever se aquele ato. as turbinas. sem prejuízo do disposto na lei processual. Se existe isso.Vai pinçar somente aquelas causas que ela considera adequadas para a causação do dano. Toda causa será direta e imediata se não houver outra causa que rompa a relação entre essa causa e o dano sofrido pela vítima. São causas que normalmente podem levar à queda de um avião. com óticas distintas. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 19 . Devo esperar o vôo das 10 horas. Não dá mais para imaginar que toda e qualquer causa precisaria ser apenas conditio sine qua non. 403 CC: “Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor.encerrado. é que ambas as teorias são praticamente a mesma coisa. há uma multiplicidade de causas: o atraso do motorista.Para essas duas teorias. que normalmente tenham capacidade de causar aquela potencialidade do dano. Diz que só vai ser direta e imediata a causa que não tenha uma outra causa que possa romper esse liame entre a causa que está sendo analisado e o dano à vítima.

mas depois sou vencido numa ação reivindicatória – a casa não é minha.11 Causalidade Concorrente 1. 945 CC) 3.Na maioria dos exemplos tratados até então. Poderia pedir indenização pela falta da cultura e pela morte das vacas? Não. Multiplicidade de agentes (art. dificilmente vai haver uma causa que rompa o vínculo da causa com o dano sofrido pela vítima. 942 CC) 2. Agora.Quase sempre que se tiver uma causa adequada. 29. Surge para o locador a obrigação de indenizar. como também contamina as demais vacas. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 20 . Então apesar de parecer que existe uma causa direta e imediata entre a vaca e não poder cultivar a terra. Agustinho Alvin. Ela está doente. O fato de eu ter perdido a casa. é o melhor autor clássico que escreve sobre esta última teoria. Exemplo: um agricultor compra uma vaca pra ajudar a arar a terra e plantar. A própria vítima causou uma parte do dano por não ter procurado uma alternativa. Seria dano direto do locatário a diferença a mais que deveria pagar por uma casa semelhante. Mas a vaca doente é causa direta e imediata da contaminação das demais vacas.O prof. Causalidade alternativa . existem outras causam que rompem o nexo de causalidade.  Eu. se eu perco a casa. dono da casa não tenho uma relação direta com o sublocatário dele. ele tem prejuízo e os sublocatários também e todos podem demandar de mim. A parte de causalidade concorrente vai trabalhar quando existe mais de um causador do dano. O contrato de locação deixa de subsistir. Então não só não consegue arar. Entre agente e vítima (art. ao final das provas. tínhamos um grande causador do dano. O verdadeiro dono vai tomar posse da casa. Então elas acabam tendo. no final das contas. Poderia eu fazer cultivar por outros bois que eu tivesse comprado ou tivesse tomado de arrendamento ou poderia arrendar as terras se não pudesse explorar. . Exemplo: eu alugo uma casa.04. uma semelhança muito grande. .A falha da turbina e a falha do piloto são as causas diretas e imediatas capazes de romper esse nexo de causalidade com o mau tempo e o atraso do motorista. é uma causa direta e imediata.

se o juiz arbitrasse o dano em 12 mil. Aplica-se tanto a causas sucessivas quanto às concomitantes. paga o único que possui condições financeiras e ele vai tentar se virar numa ação regressiva para cobrar a quota parte dos co-ofensores. 942 CC: “Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado. 942 CC cairíamos na regra geral da teoria geral das obrigações. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 21 . ao mesmo tempo. Pela solidariedade. só conseguiria cobrar daquele que possui patrimônio e os outros 9 mil não ia conseguir ganhar. recebe diagnóstico equivocado. possui muito patrimônio e os outros três não possuem patrimônio algum.O artigo vai determinar que esses múltiplos agentes respondam solidariamente.  É esse efeito que vai levar à possibilidade de muitas vezes a vítima receber uma reparação integral. . se a ofensa tiver mais de um autor. Se não houvesse regra específica para a responsabilidade civil extracontratual. essas várias causas que concorrem são chamadas de concausas. Depois. Ambos são fundamentais para a gravidade da seqüela causada por essa ingestão de medicamento errado. Sem a regra do art. Aquela causa do atraso do motorista de táxi que não era adequada. Isso é muito importante. Um rapaz vai ser espancado pelos outros. e. Muitos chegavam a cogitar uma multiplicidade causal: falava-se muito do reverso pinado. Essas concausas podem se manifestar sob duas formas: a) concausas concomitantes – aquelas que agem junto. que é menor. todos responderão solidariamente pela reparação. da pista insuficiente que não tinha as ranhuras adequadas. Exemplo de concausa sucessiva: a pessoa vai ao médico. para a concepção de dano.. Um deles.Quando nós temos responsabilidade concorrente. Multiplicidade de Agentes Exemplo: acidente da TAM no aeroporto de congonhas.O atraso do motorista de taxi não entra na análise dessa matéria que se vai trabalhar agora. que é que a solidariedade não se presume.” .  Art. ela não entra na análise da multiplicidade de agentes (artigo 942 CC). Havia ali uma multiplicidade de causas entre vários agentes. o médico receita tratamento e a pessoa toma os remédios. Exemplo: a pessoa vai a uma festa que deu uma briga muito grande. 1. outro médico também incorre em erro. b) concausa sucessiva. problemas na torre de controle.

Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 22 . De fato nessa questão da culpa concorrente. Cobra das outras duas. Afinal de contas.É muito comum. a ação assim será decidida.Em algumas situações vamos verificar que a própria vitima contribuiu decisivamente para o dano que ela mesma sofreu. não é muito difícil imaginarmos um caso em que uma pessoa com culpa grave cause um prejuízo pequeno e uma pessoa com culpa leve cause prejuízos grandes.Um dos exemplos mais utilizados pela doutrina é o famoso caso do motociclista abalroado pelo carro.Por isso que na prática o art.  Todo mundo que é considerado concausador é. Trata-se de uma má técnica.Aqui a lógica se inverte: a solidariedade não é presumida. se deparar com a nomenclatura ‘culpa concorrente’ ao invés de causalidade concorrente. O médico contribuiu para o agravamento do caso. Todos os bons autores são unanimes em dizer que estamos trabalhando com o art. É uma segurança à vítima de que ela será indenizada na sua integralidade. conditio sine qua non numa causa adequada. . na imensa maioria dos acórdãos. isso não vai gerar um prejuízo pratico muito grande. Entre Agente e Vítima (art. E isso tem conseqüências práticas muito grandes. geralmente. eu também não tomo da forma que o médico determinou. O banco só pode exigir a quota parte de cada um. 942 CC é muito importante: imaginem três empresas poluidoras que estão poluindo um rio. . sem dúvida nenhuma.. mas parte deles foi causado pelo fato de ele não estar usando capacete. a gente trabalha com uma quota parte igual para o número de pessoas. pelo menos nas obrigações divisíveis. mas tive uma conduta também determinante para que a seqüela tomasse tais proporções.Na responsabilidade civil contratual. Se existir dúvida. 2. Porém. Um dos causadores possui capacidade de indenizar a vítima? Sim. Se eu consigo provar que um causou 80% e outro 20%. Basta que algum dos ofensores tenha contribuído de maneira decisiva e adequada para o dano. . a regra geral é que não existe solidariedade. mas determinada por lei na responsabilidade civil extracontratual.A ação regressiva é exatamente pela gradação causal da ação de cada um. . Uma delas quebrou. Exemplo: o médico me dá uma droga não adequada para curar determinada doença. . 942 CC na seara do nexo de causalidade e não da culpabilidade. 945 CC) . Sofre diversos danos.

a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano.. eles querem saber se a vítima contribuiu para o dano. A partir de 2002. segundo o grau de causalidade do ato de cada um. o legislador resolveu colocar um artigo que desse sustentação legislativa à doutrina e à jurisprudência.O que o artigo 945 CC fez foi simplesmente ressuscitar algo que praticamente já está enterrado.  Pode existir culpa concorrente na seara da responsabilidade civil estatal. faziam uma análise dedutivista enquanto não havia a previsão expressa do art. se forem iguais as culpas. é de se afastar-se o conceito que perturba a discussão de compensação de culpas. Note-se que a gravidade da culpa deve ser apreciada objetivamente. 945 CC: “Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso. Os tribunais não querem saber se o Estado teve culpa.Não parece que o que o legislador diz neste artigo contradiz um pouco o que vimos até agora? O que leva a uma discussão que estava praticamente morta no Brasil. Continuar fazendo culpa concorrente perderia sentido. isto é. mas do grau de causalidade.Todos os bons autores de responsabilidade civil estão de acordo que se trata de uma concorrência causal e não de culpa. .” . Culpas não se compensam. Isso é uma aula de incoerência. . A própria vítima suporta a parte do prejuízo causado por ela. os bons autores vinham escrevendo que se fala que é uma confusão terminológica e que se tratava de uma concorrência causal.As pessoas. o Estado não pode ser responsabilizado integralmente. com o advento da responsabilidade objetiva. ou se não for possível provar a culpa dos autores. O ato do réu é concausa ou aumento o dano.  Art.A melhor doutrina é a que propõe a partilha dos prejuízos em partes iguais. Isso começou a ficar mais claro para a doutrina brasileira. Aqui não necessitava mais visualizar a culpa do agente e muitas vezes a vítima contribuía para a causação do dano.No caso de autor e vítima. 945 CC. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 23 . Trata-se de saber até onde contribuiu o agente ou de destacar o excesso (quando é a vítima). entre a doutrina e a jurisprudência nacional. . é a mesma coisa. Evidentemente que não se trata aqui da análise da culpa. e se sim.Pontes de Miranda já dizia: preliminarmente. . Isso começou a ficar mais claro com o advento da responsabilidade civil objetiva. .

da conditio sine qua non.3. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 24 . Há processos muito rápidos. independente de provas mais profundas do nexo. Só de provar a conditio sine qua non que este dano teve como causa necessária a contaminação de uma nascente lá em Lages. . a não ser que prove que o câncer dele não é proveniente da radioatividade.Há uma lei já instituída nesse tipo de caso concreto induzindo à utilização dessa causalidade alternativa.A evolução da responsabilidade civil nos mostra que a quantidade de danos indenizáveis vem aumentando. junto às suas possibilidades de comprovação. aumentar as possibilidades de procedência da ação indenizatória. Ela só propõe a inversão do ônus da prova do nexo de causalidade. em alguns casos concretos. indicando a correlação entre o fato de eu ter câncer e a radioatividade. que só isso não resolvia porque surgiram dificuldades muito grandes de se fazer uma prova mais básica do nexo de causalidade. . Exemplo: a radioatividade gera muitos efeitos no corpo humano. Ela vai ser observada sempre que um membro anônimo ou indeterminável pertencente ao grupo determinável for o causador do prejuízo da vítima. . como o câncer. o caso mais famoso que nós temos de aplicação da causalidade alternativa. Quando existem esses casos. Essa é uma das hipóteses dessa teoria. Teoria da Causalidade Alternativa . eu transfiro o nexo de causalidade para o réu. todas as teorias vieram para beneficiar a vítima. muitas vezes é um processo complexo. O ministério da saúde já vai ter uma lista dizendo que tais enfermidades guardam uma relação muito profunda com a exposição à radioatividade. Portanto.Também podem ser criados outros casos de utilização por via jurisprudencial. serão indenizadas. está causando desequilíbrio ecológico aqui em Florianópolis). . O juiz condena a empresa.Se a gente traçar um plano histórico dos últimos 650 anos. já provados pela ciência. Mas as pessoas que são expostas à radioatividade podem vir a ter doenças idênticas às que aconteciam sem radioatividade. é o caso da responsabilidade civil dos grupos. A evolução da responsabilidade civil anda de mãos dadas quase sempre com o processo de melhoria da situação da vítima. .A teoria da causalidade alternativa não é radical a ponto de dizer que há responsabilidade independente de causa. processos que se alongam no tempo ou então que há uma distancia física também (o cara que está contaminando a nascente do rio em determinado lugar.Porém. No direito brasileiro. começou-se a verificar. Exemplo: eu entro contra a empresa que espalhou a radioatividade.

.A pessoa que está sendo indicada como responsável do dano vai conseguir provar uma das excludentes. b) o fato exclusivo da vítima.05. . e c) caso fortuito ou de força maior em sentido estrito. como Fernando de Noronha.Normalmente. vão dizer que as espécies de excludentes são: a) fato exclusivo de terceiro.11 Excludentes do Nexo de Causalidade . Mas só uma delas. O indigitado responsável. Um membro apenas ultrapassa a barreira da conversa. a pessoa se esconde atrás do grupo. Os sistemas estrangeiros. E essa é uma das razões pelas quais o caso fortuito ou força maior pode ser usado como um gênero. isto é. que conta com um artigo específico – 393 CC. Mas aqui há um grupo determinado – não é simplesmente uma aglomeração aleatória de pessoas. então resolvem entregar quem foi. e acaba arremessando uma garrafa num membro do outro grupo. Então vamos colocar todo mundo no pólo passivo. principalmente na Itália e na França.Elas são sempre uma ação ou omissão externa à atividade do indigitado responsável. 06. como sinônimo de excludente de causalidade. porque aí não tem erro: a responsabilidade é da pessoa jurídica. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 25 . que é o caso fortuito ou de força maior. Exemplo: saiu toda a turma da aula e foi pro bar tal. quando sua conduta não gerou nada relevante sob o ponto de vista jurídico. não se consegue identificar quem foi o agressor. O grupo acaba entrando em conflito com outro grupo. nós vamos trabalhar com três grandes espécies de excludentes: a) o fato exclusivo de terceiro. Tanto que alguns autores. .. chamam esses fatos de fatos externos que vão ser indicados como a verdadeira e única causa naquele processo etiológico. A solução clássica para esse conflito é que a vítima suportaria o dano sofrido porque não há como colocar alguém no pólo passivo. b) fato exclusivo da vítima. e c) o caso fortuito ou força maior. esta pessoa está na condição de poder indicar a existência de uma excludente de causalidade.No direito brasileiro. da discórdia verbal.O problema quando não se usa a causalidade alternativa é que quase todos têm o espírito do grupo. OBS: esse grupo não pode ser a representação de uma pessoa jurídica. Pela rapidez da ação.

Fato Exclusivo de Terceiro A característica básica é que a grande causa apontada como única e verdadeira causa do dano tem vinculação direta com um sujeito de direito. o que gera uma dificuldade muito grande naqueles casos de responsabilidade objetiva.Vai que o terceiro causador de dano é um amental. 2.Muitas vezes. O STJ entende que é fato exclusivo de terceiro. por sua vez. alguém me fecha e eu bato em quem está na esquerda. Isso acontece também com a questão da culpa e não causalidade concorrente. . é possível alegar a existência de fato exclusivo de terceiro. para escapar de terceiro. mas que essa questão da segurança está intrinsecamente ligada à obrigação de transporte do prestador de serviço. OBS! É diferente daquela pessoa que foi fechada. Isso é muito complicado. pega meu braço e faz com que atinja o rosto de uma colega. Não se pode desviar a análise do nexo de causalidade para a culpa.Essa nomenclatura ‘fato exclusivo’ não é mais encontrada tanto na doutrina. Foi a vítima a principal causadora de seu dano e juridicamente considerada como imputada a suportar o dano sofrido. Exemplo: outro caso é o caminhão que atinge o carro da frente que.No caso fortuito ou na força maior. Fato Exclusivo da Vítima . atinge o carro da frente. . Estou na Beiramar Norte.1. incapaz? Não há culpa. . O que se usa mais é a questão da “culpa exclusiva”. um aluno chega.São institutos que não contam com um artigo próprio. o grande causador vai ser um elemento da natureza – ex: tsunami. . não há fato exclusivo de terceiro. O braço foi simplesmente instrumento para atingir a colega. Neste caso. desde que ela comprove que foi simplesmente instrumento para a consumação do dano.Os exemplos mais recorrentes que se vê na doutrina são os famosos casos de suicídio. Exemplo: eu estou dando aula. mesmo que a pessoa tenha participado diretamente do dano. mas principalmente na jurisprudência. Claro que eu tive uma participação direta no evento. Os TJs de SP e do RJ entendem que não é um fato externo. eu cometi um dano. . Exemplo: o caso de assalto a ônibus. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 26 . Foi uma atitude volitiva que.

Exemplo: todo mundo sabe que. . a melhor doutrina trata-os como sinônimos. é que é uma coisa previsível. que quando se levanta a questão de o que é caso fortuito e o que é força maior. vai haver um terremoto devastador na região de São Francisco.Ele é um fato necessário. Esse é um dos casos clássicos de fato exclusivo da vítima. nos próximos 10.A doutrina nacional não enfrenta. . Exemplo: a pessoa que vende uma faca e a pessoa se corta. no caso fortuito ou força maior. 20 anos. o caso fortuito deveria ser imprevisível. Essa questão é relativizada. Só se cortou porque realmente utilizou mal o instrumento. que não poderia ser impedido. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. se expressamente não se houver por eles responsabilizado. Exemplo: o médico receitou um tratamento determinado a e vítima simplesmente não cumpre nada do estabelecido pelo profissional e depois pede indenização porque ficou com seqüelas. Necessariedade e inevitabilidade. 3. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 27 . Inevitabilidade do caso fortuito ou de força maior. Alguma coisa dá pra fazer.Outro são aqueles danos causados pela má utilização do produto ou serviço. inevitável. .Exemplo: a pessoa está esperando o metrô chegar e quando ele já está quase chegando se atira nos trilhos do trem. mas há como evitar totalmente os danos bilionários que vão ser gerados por um terremoto dessas proporções? . Além de necessário.” . naquele caso do assalto a ônibus.Um dos argumentos mais importantes dos tribunais de SP e do RJ. 393 CC: “O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior. Diz o prof. Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário. Alguns dizem que os casos fortuitos estão ligados ao comportamento humano. a diferença entre os conceitos. Caso Fortuito ou de Força Maior  Art.Uma característica que a doutrina tinha o costume de adicionar a ela e que hoje está muito relativizada é a questão da previsibilidade.

Ele não tem a capacidade de excluir um nexo de causalidade. Exemplo: o motorista teve um mal súbito. perdeu a direção e o ônibus caiu no barranco.Não é a mesma coisa que caso fortuito ou coisa maior. FORTUITO INTERNO . ao indigitado responsável. Está vinculado intrinsecamente à atividade. Exemplo: o ônibus cuja barra de direção quebra. é porque não tem caso fortuito ou força maior.Se o caso fortuito ou de força maior começa onde acaba a culpa. Se o réu na ação de indenização é culpado. Numa curva o ônibus quebra a barra de direção e ocorre um acidente. não chego a excluir o nexo de causalidade. . Há uma confusão na doutrina e na jurisprudência.  CULPA E CASO FORTUITO .Fortuito interno são aqueles atos que não são culposos. Então: vocês são empresários de transporte. É um fato exclusivo de terceiro. Eu só posso imaginar casos fortuitos ou de força maior sem agentes culpados. Não existe nada mais perigoso do que esta idéia.Existem alguns autores que costumam explicar o caso fortuito ou força maior com a seguinte lição preliminar: o caso fortuito ou de força maior começa onde acaba a culpa do agente. . O empresário vai dizer que é caso fortuito ou força maior. Mas quebrar a barra de direção é algo externo à sua atividade – como uma bala perdida – ou é uma coisa que faz parte do risco intrínseco da atividade? O dano foi causado por um ato vinculado indubitavelmente com a atividade de transporte. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 28 . mas que não se pode dizer que eles são externos ao réu. . São os riscos típicos da atividade de transporte. na culpa estou na seara do agente culpado. Nós temos vários problemas aqui porque de novo haveria uma confusão completa entre culpa e nexo de causalidade. Não é algo que foge à atividade. mesmo assim. e passa por uma troca de tiros que atinge alguém que está dentro do ônibus. mas. fretaram um ônibus para ir a um congresso. . é interno à atividade dele.As questões de confusão terminológica e conceitual entre nexo de causalidade e culpa são muito presentes em nosso direito.Então não há culpa. Fato externo: o ônibus está passando na via expressa.

num primeiro momento. outros que ficavam mexendo em terrenos próximos. A responsabilidade civil objetiva só vai ser importante na transição entre culpa e caso fortuito. e se não houve culpa do médico começa o caso fortuito ou força maior. Ela não existe. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 29 . ou não tem razão nenhuma de existir.Essa idéia. Ele é culpado porque está na contramão. Exemplo: responsabilidade civil médica. Exemplo: o anestesista que sai da sala de cirurgia e não é culpado.Aguiar dias critica isso de maneira muito contundente: o caso concreto trabalha com uma desvirtuação da natureza do caso fortuito ou de força maior: de excludente para uma simples dirimente. Vai ser fato exclusivo de terceiro. Exemplo: o prof. Mas houve aqui caso fortuito ou de força maior na causação de dano à vitima. Se não houve erro médico. . mesmo sem culpa. mas a sua culpa não teve nada a ver com o dano. Como a doença é um caso de caso fortuito ou força maior. mas causou o dano. pode parecer muito sedutora. Vem um ônibus desgovernado. O ato dele é ilícito.Ela é importante e surgiu exatamente para regular os casos em que o agente não tinha culpa. ela pode funcionar. . eu posso dizer que ou eu tenho culpa do agente. Eles condenaram a prefeitura do Rio que deu o habite-se quando o prédio não tinha nenhuma condição e não deixaram de verificar o caso fortuito ou força maior que concorreu para a causação do dano que foram as chuvas.Um dos exemplos mais comuns do TJ do RJ é de um prédio que ruiu e várias causas foram identificadas no caso concreto: as fortes chuvas que assolaram o estado na semana. que foi a sua morte?  CAUSA CONCORRENTE . Noronha dá o seguinte exemplo: imagine que um carro está estacionado na contramão. vai ter força maior. Tanto é que existem casos em que não existe nem agente culpado nem caso fortuito ou de força maior.. bate no carro de forma que há perda total. . Mas aqui deve ser a teoria do tudo ou nada: ou eu provo o caso fortuito ou força maior e excluo o nexo de causalidade. eu posso rasgar tudo que foi aprendido sobre responsabilidade objetiva. a fiscalização da prefeitura. E se a gente até desenvolvê-la pensando em searas específicas da responsabilidade. e há casos em que os dois estão presentes ao mesmo tempo.O grande problema que se tem aqui é que se aceitarmos essa idéia como correta. o que matou foi a doença. ou não provo e os causadores vão ser responsabilizados pelos danos.

Em caso fortuito ou de força maior o réu está tranqüilo porque rompeu o nexo de causalidade que é fundamental ao sucesso de qualquer demanda. Portanto é evidente que a preocupação maior do ordenamento foi sempre garantir o lado da vítima. então. Parágrafo único.Não interessa se é responsabilidade objetiva ou subjetiva. . 932. 188 CC: “Não constituem atos ilícitos: I . Assim. traz um argumento adicional com base no direito brasileiro. um requisito do núcleo duro da responsabilidade civil e teriam o condão de exonerar o réu de toda e qualquer ação indenizatória. ou a lesão a pessoa.” . 942 CC: “Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado. Caso não haja. existe sempre a solidariedade. o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário. II .a deterioração ou destruição da coisa alheia. Repartiram a responsabilidade civil entre o armador e a tempestade.” .Na doutrina estrangeira há essa mesma opinião. A ação regressiva é impossível – quem vai colocar no pólo passivo da ação?  Art. em 1940. não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. entra com ação regressiva contra os outros concausadores.O prof. e. se a ofensa tiver mais de um autor. 942 CC diz ser a preocupação primeira do ordenamento? A reparação integral da vítima e depois. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 30 . todos responderão solidariamente pela reparação. Hoje não se admite mais que seja causa dirimente de responsabilidade. caso seja possível. Essa interpretação ficou na década de 40. São solidariamente responsáveis com os autores os co-autores e as pessoas designadas no art.os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido.As excludentes de causalidade possuem uma importância muito grande porque. não parece lícito que quando a causa concorrente for com o fator da natureza não se aplique a mesma solução.Mas o que o art. houve o caso de um navio que afundou e disseram que houve tempestade forte no mar e falha do armador. romperia. 942 CC que diz que quando existe causalidade concorrente. Na França. a fim de remover perigo iminente.. Excludentes de Ilicitude  Art. vai ter que pagar integralmente. No caso do inciso II. Parágrafo único. como rompem o nexo de causalidade. . Há o art.

Mas no caso de legítima defesa e de exercício regular do direito. o sujeito não me pagou. eu vou lá e protesto aquela nota.Mas não é assim. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 31 . mas chama somente de excludentes de responsabilidade. Exercício Regular de um Direito . . mas mantém o dever de indenizar. Estado de Necessidade . ou seja. Exemplo: eu tenho uma nota promissória.Isso nos poderia levar ao seguinte argumento: se eu saio do excludente de causalidade e passo pra excludente de ilicitude. Às vezes uma empresa pode levar a outra a quebrar. portanto. imprime exclusão da própria antijuridicidade do ato e.Ela só tem aqueles três grandes requisitos: é sempre uma reação – não existe legítima defesa daquele que deu primeiro -.Outro caso é o do protesto devido de títulos. 2. 3..Danos puramente econômicos: são os danos que a vítima sofre e não há indenização. Não exclui o fato. ela só será de alguma válida quando eu estiver trabalhando com a responsabilidade civil subjetiva.O exercício regular de um direito está muito naqueles exemplos de que muitos danos não são indenizáveis. é uma parte da responsabilidade que exclui a ilicitude. 1. mesmo se tratando de um caso de responsabilidade civil objetiva ela é suficiente para exonerar a vítima.A argumentação de Noronha diz que o estado de necessidade só exclui a ilicitude. . é sempre imediata – se não for é vingança e não legítima defesa –.É uma excludente de ilicitude mesmo. Legítima Defesa . e deve ser minimamente proporcional – não pode dar um tapa na cara e revidar com a motosserra.  A legítima defesa e o exercício regular do direito são tão fortes ou têm o mesmo poder de um caso fortuito ou de força maior. . . A maioria dos autores não faz distinção entre causalidade e ilicitude. Exemplo: concorrência leal. mas tão somente sua ilicitude. no exercício regular de direito e na legítima defesa.

assaltaram algumas pessoas. contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado.. mesmo que em estado de necessidade. Exemplo: a pessoa atira uma faca em mim. 188. não forem culpados do perigo. Esse meu ato de me esquivar da faca não é ilícito. como estavam em fuga.” . porque é excludente de ilicitude. Essa é a grande diferenciação. além do art. .Neste caso concreto. para se afastar de perigo. mas. 929 CC: “Se a pessoa lesada.Claro que não se pode culpar alguém que se desvia da faca. No estado de necessidade há necessidade de indenização. Eu devo responder pelo perigo que era a mim endereçado. eu me atiro para escapar da faca.”  Art. 188 CC nós contamos com dois artigos específicos para o estado de necessidade. Ambos vão tratar da responsabilidade civil do causador do dano.O estado de necessidade é observado naqueles casos em que uma pessoa. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 32 . no caso do inciso II do art. uma que tenta se afastar do perigo e para isso causa dano a outra pessoa. 930 CC: “No caso do inciso II do art. Para salvar a própria vida. evidentemente. acaba causando dano a terceiro que nada tem a ver com a situação. não tinha nada a ver.Na legítima defesa a gente vai causar dano exatamente para a pessoa que causou o perigo. 188.  Acórdão 234263: tem como objeto um daqueles casos de assalto a ônibus. Parágrafo único. .  Art. Os assaltantes entraram. mesmo que a pessoa não tenha agido com nenhum tipo de ilicitude. o assaltante colocou a arma na cabeça do motorista do ônibus e mandou que ele andasse em alta velocidade e com as portas abertas. ou o dono da coisa. acaba causando dano a terceiro. a priori. inciso I). que se diferencia do caso em questão. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. 929 e 930 CC. em que o dano será causado a quem. assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. . se o perigo ocorrer por culpa de terceiro. Mas atingiu uma terceira pessoa que nada tem a ver com a causação do perigo.O artigo traz um dos exemplos em que a ilicitude é completamente apagada. O motorista. obter benefício próprio. que são os arts. mas mesmo assim a indenização será devida. 188. mas a pessoa que está ao meu lado acaba caindo no chão e quebra a perna. Então vai se verificar essa situação triangular: uma pessoa que causa.

. se alguém me fecha no trânsito e eu desvio o carro de forma a bater no outro carro. decidiu o relator. os tribunais. a responsabilidade civil começou a observar uma distinção muito importante entre dano moral (dano extrapatrimonial) e dano patrimonial. 1. continuaram fazendo aquela qualificação trabalhando se era ou não questão de caso fortuito ou força maior. A pessoa é simples instrumento para a consecução do dano – e isso é excludente de causalidade. mas a pessoa tem que indenizar. Óbvio que fez isso sob ordens do assaltante. numa primeira análise. mas estado de necessidade. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 33 . que são os DANOS PATRIMONIAIS.No caso do exercício regular de direito e da legítima defesa. a relação causal que se coloca entre essas circunstâncias e o resultado lesivo não é resultado da conduta do assaltante. E os exemplos são tão singelos quanto: alguém bateu num carro a oficina disse que vai precisar de 2 mil reais para consertar (esse é o dano patrimonial). Patrimoniais . Não é excludente de causalidade. é excludente de ilicitude. É um estado de necessidade.Nesta parte de dano ou de prejuízo.Nos últimos 50 anos. até chegar ao STJ. sem duvida nenhuma.Esses danos patrimoniais. O requisito por excelência sempre é a existência de dano. Mas nem por isso se exime de indenizar. O relator diz que a hipótese não é de dano produzido diretamente em razão do assalto ou de algum projétil arremessado por terceiro. A responsabilidade é do motorista. mas são dois atos praticados pelo motorista. Exemplo: se um carro está parado na sinaleira e vem um caminhão e o arremessa contra o veículo da frente. parecem ter uma explicação extremamente singela.obedeceu. uma passageira caiu do ônibus. Dano . Basicamente. Quem causou a queda do passageiro foi o motorista que trafegou em alta velocidade com a porta aberta. Numa das curvas com a porta aberta. Agora. O TJRJ pensa que não há caso fortuito ou força maior. dizer que simplesmente exclui a ilicitude. . é o requisito central da responsabilidade civil. sofreu graves lesões e entrou com ação de indenização. naqueles casos regulados pela responsabilidade objetiva ela não teria eficácia nenhuma. . Logo.A espécie de dano por excelência são aqueles danos TANGÍVEIS.

e essa consequência negativa no patrimônio. entrar com ação de reintegração de posse para forçar que saia do meu terreno. Mas se não causou nenhuma conseqüência. é a lesão a um interesse juridicamente protegido. dizem que dano não tem nada a ver com conseqüência danosa.Não adianta eu ter. mas não há tutela reparatória. Há ilicitude. por exemplo. Eu posso. apesar de ter um prejuízo específico no patrimônio. E não a conseqüência danosa. . ao mesmo tempo. .Eu posso ter uma lesão ao patrimônio e muitas vezes não ser considerado um dano indenizável. O dano é lesão ao bem jurídico tutelado – isso que basta. .Talvez um dos exemplos mais interessantes no Brasil é quando uma gestante tem um bebê de maneira indesejada por uma falha na laqueadura. ou uma pílula que não funcionou. e há muita gente que não indeniza – e tem também dano patrimonial. Qualquer um dos dois sozinhos não basta. que adotam uma linha muito radical neste sentido. Mas há casos bem complexos em que se consegue separar a questão da ilicitude de um bem juridicamente tutelado. para ser indenizado. Os tribunais dizem que não é um dano indenizável porque. por exemplo. uma lesão a um bem jurídico tutelado se eu não tiver essa conseqüência negativa no patrimônio (não há indenização). há nexo de causalidade.É preciso. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 34 . não posso pedir indenização.O prof. não lesou um bem jurídico tutelado. . Exemplo: o caso da gestação indesejada em decorrência de erro médico na cirurgia de laqueadura. precisa de dois elementos:   lesão ao bem juridicamente tutelado.Também é verdade que muitos autores. Exemplo: se alguém invadiu meu terreno na SC-401.Outros autores dizem que DANO não é simplesmente este efeito patrimonial. lesou a minha propriedade. porque o bem atingido não é juridicamente tutelado. lesão ao bem jurídico tutelado e esse efeito negativo no patrimônio da vítima. Na verdade. . .Normalmente a questão da ilicitude já mata a questão do bem juridicamente tutelado. . por exemplo. Dano patrimonial é a diminuição de patrimônio de cada um. acredita que deve haver um equilíbrio: o dano patrimonial. . Mas acreditam que não existiria um direito a não ter filho – então não consideram que ter filho é um dano indenizável.

Exemplo: pessoa que bate num motorista de táxi.”. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 35 .O termo “razoavelmente” se prende a uma idéia de presunção. Razoavelmente deixou de ganhar o valor das corridas que normalmente desempenha em função daquelas duas semanas que o táxi vai ter que ficar no conserto. a quantificação do lucro cessante pode ser muito complexa. Como se indenizar esses lojistas que atuavam nessa rua? Fez-se uma média de lucros dos últimos três anos.  Muitas vezes. ou se acha razoável ou não se acha.Em algumas situações fáticas.Um artigo do Código que consegue nos dar uma idéia interessante da amplitude do dano indenizável no direito brasileiro é o 402. Mas esta não deve ser uma preocupação. “O termo razoavelmente não significa que se pagará aquilo que é razoável.  É razoável se admitir que o taxista iria trabalhar nas próximas duas semanas? Sim. as perdas e danos devidas ao credor abrangem.” . mas se pagará. se se puder. o que razoavelmente deixou de lucrar. . . 3. Quase sempre o lucro cessante envolve-se em uma álea maior. é razoável se presumir que ele trabalharia. Dano Presente e Dano Futuro . Dano Emergente e Lucro Cessante . além do que ele efetivamente perdeu. Exemplo: uma rua inteira deve ficar interditada por um ano para a realização de obras. avaliando também as possíveis valorizações de produtos. que vai diferenciar as hipóteses de dano emergente e lucro cessante.Dano emergente e lucro cessante são categorias que fazem parte da categoria de dano patrimonial. essa diferenciação pode se tornar difícil. etc. indica que não é possível dizer exatamente quanto a pessoa deixaria de lucrar.Mais difícil é conseguir determinar com bastante clareza qual é o momento temporal 78paradigma para saber o que está no presente e o que está no futuro.. 402 CC: “Salvo as exceções expressamente previstas em lei. Mas.Dano emergente é o que a gente efetivamente perdeu e lucro cessante é aquilo que razoavelmente se deixou de lucrar..2. razoavelmente. vez que essa distinção tem caráter mais didático de dano indenizável.  Art. . Foi pra oficina – o que efetivamente perdeu.

não indenizável. existem alguns casos em que o magistrado vai admitir já de imediato a indenização de um prejuízo que ocorrerá em momento posterior à apreciação. portanto. Mas há algumas coisas como uma cirurgia marcada pra daqui a um ano em que vou ter que colocar uma prótese. o que vai determinar se algo está no presente ou futuro é o momento da apreciação judicial do prejuízo. desde que ele se apresentem como uma prolongação certa e direta de um estado de coisas atual suscetível de quantificação imediata.. Todos os danos que ainda se manifestarão ou que possuem probabilidade grande de se manifestar em momento posterior. Exemplo: sofri um acidente. estou trabalhando com um dano PRESENTE.Claro que talvez eu tenha que entrar de novo em juízo se daqui há 6 anos acontecer algo muito grave. na sua completude nesses 7 anos.A codificação francesa utiliza uma fórmula desde 1932: os danos futuros até podem ser reparados. Mas se o dano já ocorreu e a integralidade das suas manifestações já foram provadas. Somente nestes casos é que eu vou pedir indenização já de um dano futuro. mas é certo que vai ocorrer. É uma despesa que eu terei e inclusive os médicos podem provar isso. todos aqueles prejuízos que já estarão consolidados no momento da apreciação judicial. tive vários danos presentes. . . o juiz tem condições de avaliá-lo na sua inteireza. Todavia. Claro que esta análise aqui é uma restrita. atuais ou pretéritos. portanto. Entrei com ação de indenização contra a pessoa que me atropelou. são considerados danos futuros. . . Exemplo: eu entro com uma ação de indenização.   Se eu fizer apreciação judicial de um dano que ainda não ocorreu ou que pode se manifestar de maneira integral só no futuro. Mas fazer prova sobre o que vai ocorrer é uma situação bem mais complicada. como diriam alguns.Isso é muito importante quando se lembra da morosidade do judiciário. ele é FUTURO. reparar o dano presente é fácil porque é um dano tangível. decréscimo dos meus rendimentos.Quando a gente trabalha essa questão de reparabilidade do dano. muito grande e que não foi concedido pelo juiz porque era uma probabilidade muito tênue. pelos três meses que fiquei no hospital. Todos os danos. tudo que pode vir a ser dano no futuro é considerado como mero dano hipotético e. Entretanto. Talvez essa ação seja julgada cinco anos depois. serão presentes. Isso é uma prolongação certa e direta de um estado de coisas atual. Eu posso entrar quase três anos depois do evento danoso.Quando se está falando de dano. Ainda não ocorreu. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 36 . que se manifestarem na sua integralidade.

O seu procurador no Rio de Janeiro esquece de levar um documento até dia tal e o cavalo é desclassificado. Por mais 5 anos além da sentença não vou poder realizar determinada atividade (lucro cessante futuro). Responsabilidade Civil pela Perda da Chance . fez recolhimento a mais de ICMS no ano anterior e que deve ser ressarcido. A pessoa perde completamente aquela ação que valia 100 mil. Na apelação. Mas há uma chance. Dano emergente futuro: vou ter que fazer uma cirurgia 4 anos depois – depois da sentença. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 37 . A pessoa entra com a ação que é julgada improcedente pelo juiz de primeiro grau. muitas vezes. lucro cessante. Quem ganhasse o primeiro prêmio ganharia 100 mil reais.A análise da responsabilidade civil pela perda de uma chance é bem importante porque Paul Speaker costuma dizer que é o locus mais sofisticado para se discutir nexo de causalidade e dano. dinheiro que o dono do cavalo nunca mais vai ver.. O lucro cessante vai ser dano presente e dano futuro. portanto.  São quatro categorias independentes. 2. Recurso Intempestivo Exemplo: um cliente chega ao escritório do seu advogado dizendo que é empresário. Da mesma forma. o advogado perde o prazo e nem se conhece do recurso.  Logo. O problema é que isso não está pacífico na jurisprudência. uma probabilidade interessante. Sem uma análise aprofundada do nexo de causalidade não é possível se falar em perda de uma chance. o lucro cessante é o dano futuro e o dano emergente é o dano presente? Não! Exemplo: um acidente: indenização por dano corporal. Já saiu do hospital. Corrida de Cavalos Exemplo: há um famoso criador de cavalos que tem um cavalo classificado para concorrer ao grande prêmio do Brasil. vai trabalhar com um grau de álea um pouquinho maior que o dano emergente. 1.É verdade que o lucro cessante. o dano futuro vai trabalhar num campo menos tangível que no dano presente. Pode-se ver todas as questões. não pode trabalhar.

O resultado do exame mostrou que a pessoa estava com uma probabilidade enorme de ter câncer mas o médico não faz o diagnóstico. . Diagnóstico Intempestivo Exemplo: a pessoa vai ao médico fazer um check-up. Mesmo que o cavalo conseguisse correr. nós tínhamos diversos julgamentos no Brasil nos quais os casos de perda de uma chance simplesmente eram julgados improcedentes.Se todas essas pessoas entrarem com ação pedindo 100 mil. e que o médico aumente minhas chances de sobrevivência.Até 1990. . as estatísticas médicas comprovam que ele teria apenas 40% de chance de sobreviver.A grande questão é: o que se vai tentar indenizar é um novo tipo de dano que não se conseguia vislumbrar até então. vai ser julgada improcedente porque aqui não conseguem provar a conditio sine qua non. . Considerouse que a probabilidade de ganhar algo poderia ser considerada como um dano próprio e independente. Nunca mais vai ter a sobrevida. não há nexo de causalidade entre o ato do agente e 100 mil reais.Nos três casos acima. E as pessoas ficam ali. a chance hoje pode ter um caráter de certeza bastante grande. A pessoa vem a falecer. . básico do nexo de causalidade. E é essa chance perdida que esta teoria visa indenizar. A família pede dano moral em 100 mil. . . às vezes a gente vê as pessoas em fila para fazer aposta.Será que essa chance não é muito hipotética? Não há certa fraqueza neste caráter de certeza do dano se adotarmos a teoria da perda de uma chance como possível no nosso ordenamento? De fato. E não tinha como saber se a pessoa ia ganhar a ação. a vítima se encontrava em um processo aleatório ao final do qual ela esperava obter uma determinada vantagem (vantagem esperada ou dano final).3. quero que o meu cavalo ganhe. Eu quero ganhar 100 mil: quero a procedência da minha ação. De fato. Passam esse Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 38 . não há garantia alguma que sairia vencedor e mesmo que o diagnóstico fosse tempestivo. Exemplo: quando tem mega sena acumulada. O processo aleatório foi frustrado pela ação do agente. fazendo com que as pessoas fiquem com absoluto desconhecimento sobre o que aconteceria no futuro. mas há entre o ato do agente e a perda da chance de ganhar 100 mil.As pessoas se sentiam injustiçadas porque havia probabilidade de obter êxito ao final do processo aleatório que foi totalmente subtraída pela ação do ofensor. pagam e saem dali sem nada.

sem dúvida nenhuma. Não se pode dizer que ele nunca seria um tenista profissional. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 39 . Uma simples chance de ganhar uma licitação fez com que as ações despencassem na bolsa de valores. mesmo em se tratando de uma chance ínfima como esta que é a de ganhar a mega sena. Exemplo: logo no primeiro governo do lula. 1. No dia que o governo fez o anúncio. Portanto. Quantificação . mas que. Ganhou dano moral. Requisitos da Chance Perdida .  Outro exemplo é a perda da chance de ter subido na vida. e realmente aqui não há exceções. a quantificação da chance perdida deve ser inferior ao que seria indenizável caso fosse possível indenizar a vantagem esperada ou o dano final. testa os limites tradicionais de certeza do dano.As pessoas que fazem as precificações mais sofisticadas do mercado de capitais também acham que chance tem valor. Todos os casos clássicos de perda de uma chance supramencionados possuem uma chance séria e real. dano estético.O primeiro dos requisitos é que a chance seja SÉRIA e REAL. que a chance não é séria e real. . as ações da Embraer caíram muito. o processo aleatório pelo qual teria que passar era tão árduo. mas também queria perda de uma chance porque jogava tênis e então não poderia mais se tornar um grande tenista profissional.trabalho todo para comprar uma chance. ele cancelou uma licitação para compra de novos caças para a aeronáutica.Então há os requisitos de reparabilidade da chance perdida. O que eu preciso aqui é que realmente essa probabilidade seja bastante razoável e consistente. . todas elas acreditam de maneira pia que existe valor naquela chance. 2. Exemplo: um menino sofreu um acidente grave ficou com invalidez parcial permanente e possuía 9 anos de idade. ou seja.É a consideração da álea na codificação. Chance Séria e Real .Se é uma teoria revolucionária e deve ser aceita. precisa de alguns balizamentos. Mas as chances dele são tão ínfimas. dano por invalidez. Sempre.

tinha uma chance grande de ganhar. . Como é um dano autônomo e independente. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 40 . . avaliar é simples. estavam pagando dois pra um. A juíza disse que razoavelmente todo mundo deixa de ganhar pelo menos 1% de aplicação financeira – eu não preciso usar a teoria da perda de uma chance. 50 mil reais da chance. por exemplo.É preciso encontrar no caso concreto alguns parâmetros que levem à quantificação. Se se consegue verificar que no caso concreto a jurisprudência estava bem dividida.Nestes casos. acaba-se fazendo uma avaliação mecânica. São análises muito mais complexas. ao contrário de outros casos muito mais complexos. Perda Definitiva da Vantagem Esperada . aqui há uma afirmação e não uma exceção ao princípio da reparação integral do prejuízo sofrido. 3. a quantificação tem que ser menor. Exemplo: a pessoa está no meio de um concurso para a polícia civil e uma pessoa que não foi notificada da prova não compareceu e foi desclassificada. quer dizer que. não tem idéia do que vai acontecer.Na prática. sem dúvida que a chance deveria ter valor inferior aos 100 mil reais. .Normalmente há uma facilidade de trabalhar perda de uma chance no caso da falha de um advogado porque o juiz pode atuar como um expert da causa (não precisa fazer perícia).É o terceiro e último requisito de aplicação. No caso do diagnóstico. equivale à totalidade do dano gerado pela chance perdida. . até por uma incapacidade de fazer uma valoração quantitativa do projeto. No caso do cavalo. Como não é isso que ocorre e estamos trabalhando com a probabilidade de ganhar. Exemplo: um banco pediu a alienação de um caminhão porque equivocadamente não retirou a restrição da matrícula.  A vítima sempre precisar estar num processo aleatório ao final do qual ela não sabe. a gente faz uma regrinha de três muito singela.Exemplo: se o cliente tinha contratado o advogado pra entrar com uma ação cujo valor da causa era 100 mil reais. se ele era o favorito. . aquela parte do dano integral que se está indenizando.A partir do momento em que se considera a chance perdida um dano autônomo da vantagem esperada. é possível se trabalhar com estatísticas de sobrevivência. Qual é a chance de alguém passar em um concurso? É complicado. Talvez aqui.Em muitos casos concretos vai ser difícil chegar a esta proporção. .

muito grave. .É aqui que vai se fazer a diferenciação entre a teoria da perda de uma chance e a teoria da simples criação de um risco. exercer aquela minha possibilidade de ganho que está definitivamente perdida. . . Mas neste caso não é assim. E quando se fala em teoria do risco. o dano final já ocorreu: a perda do processo. eu posso pedir a perda da chance.  TEORIA DA PERDA DE UMA CHANCE X TEORIA DA SIMPLES CRIAÇÃO DE RISCO .Nos casos de perda de uma chance. teve que fazer uma cirurgia complexa. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 41 . se envolveu num acidente.Uma simples criação de um risco pode ter reflexos presentes que são indenizáveis.. Há alguns casos já de indenização no direito estrangeiro de simples criação de risco. não consegui inscrever o meu cavalo e a corrida aconteceu. Eles reconstroem o joelho. que não é adotada no direito brasileiro. Exemplo: uma pessoa que é contaminada hoje com um metal pesado aumentou sua chance de ter câncer aos 50 anos em 40%. mas hoje isso lhe causa uma fobia de câncer e pode ser considerada como um dano moral atual.No caso do recurso intempestivo. Não sabe se vai ter câncer. a probabilidade do risco aumentou muito. Exemplo: a pessoa caiu. No caso do diagnóstico. com a morte do paciente. Ela pode ser considerada como um dano em si mesma. mas ele ainda não se materializou. Na simples criação. Transitou em julgado. a morte do paciente. não se está fazendo referência à responsabilidade objetiva.E há outras que até são danos futuros indenizáveis: todos os anos vai ter que fazer um check-up profundo para saber do desenvolvimento de sua saúde. o transcorrer da corrida sem o cavalo. .Eu só consigo indenizar aquele dano que aparece como prolongação certa e direta do estado atual. a perda definitiva ocorre com o trânsito em julgado da ação. presente. . .É preciso que eu realmente não consiga mais tentar a minha chance.Criação de um risco é o aumento da probabilidade de ter um dano no futuro. E na corrida de cavalos. a perda definitiva é quando acaba transcorrendo a corrida. mas os médicos dizem que aos 60 anos a pessoa tem uma probabilidade muito superior de ter uma artrite neste joelho. Monitoramentos médicos.

foi em 1990 o primeiro caso. ou seja.. . É uma teoria completamente assentada no Sul e no Sudeste. ainda não encontrou nenhum julgado que diga que a teoria não é aceita no Brasil. eles perderam o processo aleatório. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 42 .No direito brasileiro.A gente teve uma recepção bem tardia da perda de uma chance. temos uma aceitação quase que integral. acham que este tipo de procedimento não está dentro do conceito de dano indenizável. Se a probabilidade da pessoa alcançar a vantagem esperada é muito grande. a) Um deles é que ela às vezes erra usando a perda de uma chance onde ela não existe. ela ficara na do dano emergente. Se a pessoa teve a oportunidade de tentar a sua chance (rapaz foi fazer vestibular.  A probabilidade de ele alcançar a vantagem esperada é muito grande. . mas foi tentar fazer a prova). neste caso não se pode usar a perda de uma chance porque a chance foi tentada. .Tanto que se eu tivesse que colocar a chance perdida vinculada a uma daquelas duas categorias de dano emergente e lucro cessante. Na jurisprudência. isso ainda não está na categoria de dano indenizável. O fator preponderante foi o acidente ou foi porque ele não estava preparado? . Eles não trabalharam. o prof. Alguns países. na doutrina. não é visto como algo importante pelo direito brasileiro. mas cometia alguns equívocos muito grandes. . eu só não consigo dizer que o agente é o causador daquele dano final porque várias causas estranhas poderiam acarretar a conseqüência.A segunda categoria é se a criação do risco propriamente dita é indenizável ou não? Dentro do nosso ordenamento. Exemplo: teve uma rua comercial inteira que foi fechada no Rio de Janeiro.O que há realmente é um debate quanto à natureza jurídica da perda da chance. . foi atropelado.Hoje.O que vai diferenciar a perda da chance é que nesta há a perda definitiva da vantagem esperada – o dano final já ocorreu. Então os comerciantes perderam a chance de trabalhar? Não. como a Inglaterra. No Brasil. essa característica da ação do agente não interromper definitivamente o processo aleatório. essa simples diminuição da probabilidade e o fato da vítima poder chegar ao final do processo aleatório. eu saio da aplicação da categoria da perda de uma chance e passo a utilizar a categoria do lucro cessante.  O único problema é que a jurisprudência brasileira felizmente está melhorando muito. Poucos autores são conta.

Dano Extrapatrimonial 1. dando uma indenização superior à vantagem esperada.) X .Acórdão do TJRS que a empresa perdeu a chance de converter as debêntures em ações. a quantificação vai ser uma tarefa extremamente complexa.. inventar e dizer que a perda de uma chance é uma subespécie do dano moral..são invioláveis a intimidade. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. à segurança e à propriedade. . .No direito brasileiro. perde completamente os parâmetros. moral ou à imagem. pode inclusive infringir a regra de ouro. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. à liberdade.b) E outro problema gravíssimo da jurisprudência brasileira é que. a honra e a imagem das pessoas. TJRJ tem um caso que uma outra empresa não cumpriu contrato de lançar o disco de uma banda de rock. aí sim pode-se dizer que a perda da chance é dano moral. ao se deparar com tais dificuldades. . Como fazer uma perícia pra ver qual a chance de a banda ter sucesso? . (.Isso foi feito. resolveu.Há alguns casos em que a complexidade da quantificação vai ser muito grande.. Perderam a chance de fazer sucesso.. 5.Pelo menos uma coisa é certa: a gente não pode deixar que os ofensores ataquem as vítimas e fique inerte em razão da falta de um método matemático.) V .Quando a vantagem esperada não tinha valor de mercado.  Art. a vida privada.. V e X CF: “Todos são iguais perante a lei. até a constituição de 1988. O início da discussão ocorreu na década de 1950. pra ficar mais fácil de quantificar. segundo o prof. no dano moral. Aí claro que gera uma perversão total da teoria. nos termos seguintes: (. à igualdade. proporcional ao agravo. além da indenização por dano material. havia uma discussão ampla ainda sobre a aceitação do dano moral. Admissão e Conceituação de Dano Moral .é assegurado o direito de resposta. A jurisprudência brasileira. em muitos casos da perda de uma chance. Isso aqui pode gerar um Frankstein: como.” Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 43 . como uma forma de poder quantificar sem critérios técnicos. sem distinção de qualquer natureza. .

Como há uma tendência cada vez maior na doutrina do RJ. a vergonha. por muito tempo. que vai definir qual é a natureza do dano.A CF fala expressamente de lesão à honra. pode gerar tanto dano patrimonial como moral. dano moral. não há também um dano moral? Eu poderia ter um dano moral. A única coisa que vai ser importante é a lesão a um bem jurídico tutelado. mas não sobre a admissão. José de Aguiar Dias diria que já que não tem nada a ver com o bem jurídico lesado.  Súmula 37 STJ: “São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato.O dano moral é aquele que nasce da lesão dos direitos de personalidade. a seguinte posição já superada: o dano moral não é aquele que nasce de uma lesão a um bem jurídico extrapatrimonial. muitos diziam que o dano moral se indeniza. na realidade. .  Esta noção está em desuso porque. em tese. Se houver uma lesão à integridade física.A doutrina do Rio de Janeiro diz que isso é uma bobagem porque se está conceituando o dano pela consequência. Não sei se a afeição que eu tenho por uma jóia é uma lesão a um direito da personalidade. que passou por cinco gerações. que possui valoração de mercado. E eu também posso lesar um bem jurídico patrimonial. por exemplo. . quando foi criado. . mesmo que a lesão seja a um bem jurídico patrimonial.Hoje o dano moral não é aquela conseqüência. posso roubar uma jóia – tradicionalmente só me dá dano patrimonial.José de Aguiar Dias manteve. Prejuízo pela afeição que ele tinha. imagem. O dano moral se deu em razão do sentimento que ela tinha pela jóia. Há vários debates sobre o dano moral. . do sistema. A lesão a bem jurídico patrimonial só dá dano patrimonial. o dano não nasceu da lesão a um bem jurídico patrimonial. o constrangimento. emitiu a súmula 37 para dizer que é possível a cumulação de dano patrimonial com dano extrapatrimonial (moral). é uma jóia de família. dizem que o dano moral é a lesão à dignidade da pessoa humana. mesmo no caso da jóia.Tanto essa era uma questão controvertida que o STJ. mas a conseqüência. todos esses sentimentos ruins que se tem quando há dano moral. Ninguém mais hoje diz que não se indeniza dano moral. E se a jóia. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 44 . Não interessa a natureza jurídica do bem lesado.” ..Mesmo após a Constituição. mas não se pode cumular com o dano patrimonial – nestes casos se entende que a indenização por dano moral estaria incluída na indenização por dano patrimonial. . . o dano moral é a dor. E realmente hoje é uma das coisas mais comuns.

imbecil. pensa. diário.A jurisprudência brasileira diz que pra haver dano moral realmente eu preciso de um abalo psicológico mais profundo.Na realidade. para que exista dano moral eu precisaria de algo que me levasse a um abalo psicológico um pouco mais profundo. não é suficiente pra causar um abalo psicológico um pouco mais profundo. ao contrário do que o prof.Uma das dificuldades antes é que a quantificação sempre é algo fluido. Se não houver consequência danosa também.O grande argumento da doutrina do Rio que diz que tem que ter conseqüência danosa. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 45 . Exatamente para que não haja banalização. não há dano extrapatrimonial. que na realidade o que está indenizando é o dano reflexo no caso em que pode indenizar a família do de cujus que foi ofendido. Não é exatamente isso. . 2. sob pena de pedir que toda vítima passe numa junta de psiquiatria para provar aquilo que está sentindo.. . Exemplo: se eu estou dirigindo e alguém me chama de burro. Prova . mas aqui o magistrado trabalha com o homem médio. eu preciso dos dois: da lesão ao bem jurídico tutelado. Por isso que eu não preciso de uma prova como no dano patrimonial.Na prática. . 3. isso normalmente é de uma dificuldade muito grande. Configuração do Dano . aquela incomodação que a gente tem. mas também dessa consequência danosa. Não é considerado dano moral aquele mero dissabor comum. Na verdade aqui é um dano reflexo que quem vai sofrer é a família.O dano moral é um dano que não precisa de prova.Na questão da prova do dano moral é evidente que deve haver um critério diferente do dano patrimonial. Lesão ao bem jurídico tutelado Consequência danosa DANO MORAL .

Entretanto. poderia estar gerando uma perversão no sistema que é a pessoa gostar por ter sofrido o dano.No dano moral. toda aquela nossa lógica quantitativa anterior fica prejudicada.Hoje em dia o que já acontece é que pelo menos para aqueles danos mais observados no dia a dia já há um padrão jurisprudencialmente conhecido através do qual os juízes conseguem balizar. Arbitramento . até mesmo para balizar o enriquecimento sem causa. a capacidade econômica e social da vítima (o estado econômico). uma pessoa que teve a viagem de férias frustrada pela agência de viagens –.4.  Há um pilar compensatório e um pedagógico. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 46 . Nunca vai ser colocado no status quo ante.  A gravidade e a extensão do dano são os requisitos primordiais. que é a gravidade e a extensão do dano. . porque nunca vai se sentir suficientemente compensado. COMPENSATÓRIO . .Nós temos sim alguns critérios. . do prejuízo. . nos casos menos graves de dano moral – SPC. que por conceito vai trabalhar com um interesse jurídico lesado que não tem valoração de mercado. O critério principal continua sendo aquele que já se trabalhava no direito patrimonial. caso eu quantificasse o dano moral em um valor muito alto.Isso quer dizer que apesar de não termos um ponto inicial – agora já há jurisprudência consolidada – é claro que o dano sofrido por uma pessoa que foi inscrita indevidamente no SPC vai ser menor do que o daquele cônjuge que perdeu o outro num acidente.Talvez a capacidade econômica e social da vítima seja o mais polêmico porque aqui sim há realmente quase uma unanimidade doutrinária e jurisprudencial de que a situação sócioeconômica da vítima é importante.Nos casos de dano moral extremo – mãe que perdeu o filho – a situação sócioeconômica da vítima não tem muita importância.No compensatório entra a gravidade e a extensão do dano. . por mais dinheiro que ganhe. .

na realidade.Exemplo: uma pessoa que ganha pouco mais que um salário mínimo: 700 reais.00.O enriquecimento sem causa. . Exemplo: se me colocam no SPC e me dão uma indenização de 200 mil reais. Dá pra dizer que há esse limite do enriquecimento sem causa. Se eles indenizarem R$ 3. indenização punitiva. é ganhar alguma coisa que seria além do dano sofrido. nós trabalharíamos com o grau de culpa/ dolo. Seu nome é inscrito no SPC ou Serasa. Então deve-se olhar a capacidade econômica de quem está causando o dano a fim de desestimulá-lo. segundo alguns autores (critério não unânime). o dano é 3 mil.O problema do dano moral é que não há um número fixo para determinar o que é enriquecimento sem causa ou não. é enriquecimento sem causa.No pedagógico se vai trabalhar com a capacidade econômica do ofensor e. deve ser usado como um desestímulo à conduta dos ofensores.  A indenização é tornar indene.Na realidade. Exemplo: bateram no teu carro a oficina diz que custa 3 mil. na jurisprudência brasileira. Quer dizer que a honra dessa pessoa mais humilde vale menos? Não é isso. voltar ao status quo ante.O caráter pedagógico do dano moral não tem nada a ver com o que acontece na Common Law. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 47 . então que realmente o caráter pedagógico é levado muito a sério. e dá pra dizer que isso é majoritário na jurisprudência. Vamos supor que ela ganhe indenização de 15 ou 20 mil reais. nem o caráter pedagógico é unânime. Porque a gente quantifica o dano sempre de forma igual ao dano sofrido. a indenização deve ser de 3 mil. PEDAGÓGICO . Eles pouco se importam se a pessoa de classe média vai ganhar 80 mil dólares de indenização.100. Alguns autores acham que isso não faz parte dos critérios que deveriam ser aplicados no arbitramento do dano moral. . .O dano moral. Isso é instituto do direito norte-americano e eles acham que se quem acabou causando o dano foi a GM. Exemplo: se morre o filho do desembargador ou o filho do servente de pedreiro essa discussão já não é mais levada em conta. . . Exemplo: se eu estou diante de um servente de pedreiro que ganha 800 reais por mês e no outro lado há o Unibanco. eu acho que é um bom negócio ter sido colocado no SPC.

Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. na verdade. eqüitativamente.06..Mas ainda assim.   A objetiva é a idéia que os outros tem de ti. .Como ela vai sentir a dor. ou com as empresas que trabalham com nichos específicos. mas sua honra objetiva de fato pode ser lesada e aí poderia trazer um dano moral. abalo de crédito é dano patrimonial. 5. além do dano patrimonial. 944 CC: “A indenização mede-se pela extensão do dano. A grande fundamentação do STJ diz que existe a honra objetiva e a subjetiva. a indenização.É a possibilidade de se legitimar no pólo ativo a pessoa jurídica. Numa primeira análise fica um pouco difícil de verificar isso porque no dano moral há lesão a direitos personalíssimos. . . no direito brasileiro. a Anatel – nos casos da Brasil Telecom.No direito brasileiro há outros mecanismos para aplicar multas tipo o MP. Isso se observa com as empresas que não tem fim lucrativo.Há autores que dizem que. o STJ sumulou a questão: súmula 227. E a subjetiva é o teu sentimento com relação a essa idéia exterior. . no sentimento da pessoa. prejuízo na afeição. há uma lesão à honra. Pessoa Jurídica .11 Quantificação  Art. para pedir dano moral. que pacificou o assunto dizendo que a pessoa jurídica pode sofrer dano moral.Há uma discussão grande na doutrina brasileira sobre isso. a privação? Hoje em dia. na empresa o que acontece é abalo de crédito e isso é dano patrimonial.Esta última a pessoa jurídica não poderia ter. o constrangimento. Parágrafo único. poderá o juiz reduzir. 03.  Súmula 227 STJ: “A pessoa jurídica pode sofrer dano moral. que ultrapassa a questão do dinheiro.” Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 48 . à imagem.” . OBS! Na empresa.

A indenização prevista neste artigo. na responsabilidade civil. ou se o montante da Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 49 . eqüitativamente. que deverá ser eqüitativa. Se nós tivermos um dano de grande proporção de uma culpa muito leve.  Art.É o caso do art. Não foi falha grave. Tanto que a diferenciação tão importante no direito penal entre dolo e culpa. é o seu parágrafo único. . Já no artigo 413.O § único veio inovar substancialmente esta situação porque prescreve o seguinte:  Art. com uma conseqüência gravosa. poderá o juiz reduzir. a diferenciação pouco importa – indeniza igual (inclusive em estado de necessidade – ausência absoluta de culpa). O que se vai trabalhar. quando fala do incapaz. 928. Exemplo: um médico com culpa muito leve matou a pessoa.No direito brasileiro sempre houve uma separação absoluta entre grau de culpa e quantificação. E isso acabou sendo também positivado no § único do 944.. o que é uma inovação absoluta no direito brasileiro. se as pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes. que está no caput do artigo 944 CC: é o princípio da reparação integral. Parágrafo único. principalmente. Não está obrigando o juiz a fixar de forma equitativa.O artigo serve tanto para o dano patrimonial quanto para o moral. .Cavalheri fala: imagine uma pessoa que esqueceu de colocar um pisca acaba atropelando uma pessoa e causa lesão gravíssima. . 944 CC: “Parágrafo único.  Art. a indenização. o juiz é obrigado. o juiz poderia então reduzir aquela indenização integral do prejuízo. não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou as pessoas que dele dependem. como o importante é reparar o dano. na cláusula penal. . 928 CC: “O incapaz responde pelos prejuízos que causar. .” . 413 CC: “A penalidade deve ser reduzida eqüitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte.Tem-se uma regra geral. mas leve.Se existir uma grande desproporção entre culpa e dano (uma culpa leve e um dano grande) poderá dar uma indenização equitativa – parcial.” Exemplo: pode a vítima provar um dano de 100 e a sentença condenar o causador do dano em 50. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. que sempre esteve no nosso ordenamento. OBS! O § único diz “pode”.

46 da I Jornada de Direito Civil. Toda vez que há uma desproporção é preciso ter duas variáveis. com uma culpa muito leve. mas se vai condenar em 100. O dano é 200 mil. portanto. tornase inaplicável o artigo – é um caso em que se admite indenização integral com culpa zero. 944: a possibilidade de redução do montante da indenização em face do grau de culpa do agente.O enunciado dizia que o § único é a exceção ao princípio da reparação integral do prejuízo e não poderia ser aplicado nos casos de responsabilidade objetiva.  Enunciado n. deve ser interpretada restritivamente. falta uma das variáveis. não se aplicando às hipóteses de responsabilidade objetiva.” .” . pelo menos. estabelecida no parágrafo único do art. É um sistema que indeniza com culpa zero.Se houver um dano de grande proporção. . então como falar em desproporção? Na verdade sempre vai haver desproporção.  Enunciado 380 do Conselho da Justiça Federal: “Atribui-se nova redação ao Enunciado n. o juiz pode reduzir a indenização. 944 do novo Código Civil. com a supressão da parte final: não se aplicando às hipóteses de responsabilidade objetiva. . Vai-se fazer uma gradação do que houve entre culpa e dano.penalidade for manifestamente excessivo. diz que se eu estou trabalhando com uma teoria que parte do princípio da não existência ou pelo menos da não necessidade de culpa para a indenização.O prof. tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio. .Revogou a última parte do enunciado 46 (que dizia que não se aplica à responsabilidade civil objetiva) porque não era consenso. por representar uma exceção ao 8 princípio da reparação integral do dano. Nada pode ser desproporcional em relação a si mesmo. 46 do Conselho da Justiça Federal: “Art.  Poderia aplicar o artigo aos casos de responsabilidade civil objetiva? Precisamos considerar que o artigo fala em desproporção entre culpa e dano. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 50 .O § único trabalha com culpa e dano. Na responsabilidade civil objetiva.

948 CC: “No caso de homicídio. que diz que só responderia por danos decorrentes do inadimplemento direto e imediato.Numa análise inicial. que vamos chamar de D1. Esse D2. Em razão desse V1 ter algum tipo de relacionamento com uma segunda pessoa.” D2 não está em efeito direto e imediato. vai haver um reflexo. .”  Art. o que razoavelmente deixou de lucrar. causando um dano que se vai chamar de D2. 403 CC: “Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor. que é um dano próprio sofrido por V2. nos artigos 402 e 403 CC. V2.O caso mais comum na nossa jurisprudência. Mas em algumas situações fica evidente que a indenização de D2 é uma questão de justiça. sem excluir outras reparações: I . a indenização consiste.10. a vítima direta. é o que se vai chamar de dano reflexo ou por ricochete.  Art. Fato V1 D1 V2 D2 . É um caso clássico de dano reflexo ou por ricochete no nosso ordenamento. seu Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 51 . 402 CC: “Salvo as exceções expressamente previstas em lei. precisa do intermediário que vai refletir o dano até D2. Ela sofre determinado tipo de dano. é aquele do art. as perdas e danos só incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato.06.  Art.Ele vai estar circunscrito no direito brasileiro a algumas hipóteses legais porque a própria admissão da idéia do dano reflexo ou por ricochete é contradiz um pouco aquilo que foi observado sobre nexo de causalidade. poder-se-ia dizer que o dano reflexo pode ser identificado na seguinte situação: Exemplo: imagine um fato (ato ou omissão) que vai causar um dano a uma vítima V1. as perdas e danos devidas ao credor abrangem. além do que ele efetivamente perdeu. vai ricochetear.11 Dano Reflexo ou por Ricochete . ou seja. 948 CC. sem prejuízo do disposto na lei processual. esse D1 vai refletir. vai causar um efeito na esfera jurídica própria de V2.no pagamento das despesas com o tratamento da vítima.

Na questão do dano extrapatrimonial a jurisprudência brasileira começou a evoluir e hoje nós temos uma reparação amplamente pacificada. Então este é um tipo de dano admitido no nosso direito. A autora deve ter sido indenizada porque presenciou os danos sofridos pelo seu filho. 948 CC. Há alguns casos não por morte. mas não menciona a questão do dano moral. O marido ganhou então dano reflexo. mas esse dano acabou refletindo diretamente na esfera jurídica de ouras pessoas.Então hoje o mais comum de todos é exatamente no caso do art. dano extrapatrimonial por ricochete no seguinte caso: Exemplo: a senhora teve que fazer cirurgia e depois houve uma complicação bastante grande no aparelho reprodutor de forma que ter relações sexuais seria algo extremamente desagradável para o resto da vida. levando-se em conta a duração provável da vida da vítima. que o dano moral por ricochete também pode ser cobrado. por sequestro. Então ela ganhou dano reflexo ou por ricochete. 948 CC não fala expressamente da questão de dano moral. . E o mais importante é que as pessoas que eram recebedoras de alimentos – já que faleceu a pessoa que as sustentava – também têm direito a um pensionamento. .A vítima direta foi a pessoa que acabou por falecer.  Há uma vítima direta de uma vítima reflexa ou por ricochete. Exemplo: a pessoa entrou contra a companhia de trem. mas por lesão corporal grave.na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia. que equivale aquilo que o outro diz proporcional. de funeral. tem que ser indenizada aos parentes da vítima. Então o artigo diz que essa despesa de luto. inclusive.A jurisprudência brasileira tem se mostrado cada vez mais aberta para admitir hipóteses de dano moral por ricochete.O art. V1. de tratamento médico. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 52 . a vítima direta é a que sofreu um dano direto D1. que especifica a possibilidade de cobrar dano por ricochete. que foi atacado e espancado por uma gangue nesta linha de trem.funeral e o luto da família.” . II . Nós temos. Fato V1 D1 V2 D2 . jurisprudencial e doutrinariamente.

então. existe pelo menos um caso. daqui a pouco morre um ídolo da música e haverá milhares de legitimados. presencia o fato. descendentes e cônjuge.  Existem autores bem mais permissivos na questão do dano patrimonial.Nos casos de dano reflexo por ricochete. 948 CC. com jurisprudência pacífica. Em Portugal. essa Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 53 . . Apesar de não se negar essa dor profunda. sofrer dano moral por ricochete. o prof. comungam a idéia de que se poderia ver tal hipótese fora do art. .  Hoje em dia.Alguns países que têm muita dificuldade de admitir este tipo de dano – Alemanha. Ou talvez ficou muito mais que o tempo da condenação.Quando a pessoa assiste.  A mãe sofreu momento de angústia porque presenciou – neste caso teria um dano direto e não haveria necessidade de passar por um dano por ricochete ou reflexo. neste aspecto. a vítima direta não está morta – vamos supor que ficou 15 anos injustamente presa.Se hoje a configuração do dano moral não é algo tão difícil. a jurisprudência tem entendido de forma diferente. Na realidade. . pode ser afastada. . Cavalheri isolado nessa restrição ao art. por exemplo. isso não seria nem perito. se sairmos da questão do dano morte. que deixaria..Entretanto. . eles têm uma reparação muito grande se causada a morte. só a França. Portugal – defendem que se não está na lei não pode indenizar. mas dano direto. Em relação a estes há uma presunção de legitimidade – portanto. Luís Renato Ferreira da Silva e Mário Moacir Porto. principalmente quando eles moram juntos.Se pode. o problema que se tem é o seguinte: como saber quem é a cadeia de legitimados? Para os teóricos da teoria eclética do processo civil. Mesmo na doutrina. . Uma seara é a do dano ambiental. Inglaterra. até nos acórdãos mais recentes do STJ. tem-se visto o aparecimento dos irmãos também no pólo de legitimados ativamente. Neste caso concreto. .Com mais hipóteses do que o direito brasileiro.Sérgio Cavalheri entende que dano patrimonial por ricochete só pode ser o caso previsto no art. 948 CC. a cadeia de legitimados clássica sempre foi ascendentes. 948 CC. . alguns defendem que não é dano reflexo por ricochete. mas por lesão corporal não.O problema do dano moral é que nós precisamos ter uma análise bastante cuidadosa para não chegar a abrir um leque muito grande dos legitimados. por exemplo.

. que é um dano autônomo e independente. e aqui não há comunhão de dor. mas fato do produto. consórcio de sofrimento. Nesse caso há. sem dúvida nenhuma. Exemplo: uma empresa fez a organização e divulgação de grande show e trouxe um maestro internacional. completamente distinto do D1 que V1 sofreu. A interpretação é que se a bagagem não tivesse sido extraviada. os acidentes do consumo. A empresa entrou com indenização contra a empresa aérea. dano patrimonial reflexo. Um menino morreu durante um show de rock no ginásio de um clube recreativo. Pediram dano patrimonial por perda de renda futura.” O artigo fala de fato do produto ou do serviço. O STJ disse que não é vício do produto. Despachou todas as suas partituras e a empresa aérea extraviou as partituras.Este caso de dano ambiental está previsto em lei também. Aqui. . o que V2 vai pedir é D2. não repara porque vício do produto é nos artigos 18 e seguintes. se alguém foi poluir o rio na fazenda em que a pessoa faz piscicultura. pode fazê-lo. ele vai prejudicar essa pessoa também. Exemplo: quando se polui um rio. não ganharam.  Art. O maestro não pode fazer o show.  Se alguma vítima por ricochete quiser entrar com indenização. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 54 . haveria indenização. não há dependência nenhuma da ação da cvítima direta.Viria a contrariar Cavalheri de maneira evidente. . Exemplo: o sujeito que ficou preso não quis entrar com a ação.característica do dano reflexo ser autônomo e independente é o que vai possibilitar a vítima entrar com eventual indenização que a vítima direta não tenha. equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento. 17 CDC: “Para efeitos desta Seção. mas se o avião tivesse caído e o maestro morrido. O filho do presidiário que ficou preso injustamente. a vítima direta é o meio ambiente. Os casos de responsabilidade extrapatrimonial é que não possuem tipificação legal. Os pais entraram pedindo dano reflexo.Outro caso é do TJSP. isto é. Agora. Então como extravio de partitura não é acidente de consumo.Pode ser dano autônomo ou reflexo – individual. Dano Ambiental .

agora que teve que agüentar o marido em casa. numa hipótese particular. então deve haver teoria geral – deve haver critérios. Este é patrimonial. . . ou a pessoa entrou com ação em vida ou o direito não se transmite aos herdeiros. sucessível.Se o de cujus já tinha entrado em juízo. Logo. Isso ninguém fala. formado entre as partes. o que se vai transferir aos herdeiros são os danos patrimoniais. não resistiu aos ferimentos e acabou morrendo. só está trabalhando com a questão da transmissibilidade do direito à vida até a lesão acontecer. é refletir no filho do de cujus e a mulher dele. como qualquer outro direito patrimonial. Se não está limitado a hipóteses típicas.O que poderia é provar.Uma das barreiras que há para não haver uma banalização. Porque. ficou tendo muitas dores durante três meses. Haveria então uma teoria geral de dano reflexo? Parece que no dano patrimonial estamos um pouco restritos às hipóteses. que a nora está muito triste por causa da morte do sogro – entraria nos legitimados. receber dano moral também. logo. Aí não há divergência: há a sucessão automática dos herdeiros.Hoje o STJ entende que é uma relação de crédito e débito: vítima e agente. só vai haver a sucessão do CPC. Exemplo: se V1 foi atropelado. fora do rol em que há uma presunção relativa. teve fraturas múltiplas. o direito é lesado e neste exato momento entrou na esfera patrimonial da vítima o direito à reparação.A responsabilidade civil contratual é aquela que nasce do inadimplemento do contrato prévio. a partir daí.A identificação de responsabilidade civil ou de um dano proveniente de um ato que não guarda relação com contrato ou então do inadimplemento contratual é bem fácil. . . Transmissibilidade do Dano Moral (D1) . Os eventuais danos serão caracterizados depois numa ação de responsabilidade civil contratual. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 55 . . é transmissível. Responsabilidade Contratual e Responsabilidade Aquiliana .Situação limítrofe do dano reflexo: transmissibilidade do dano moral. Dois posicionamentos: uma corrente diz que a vida é direito personalíssimo. enquanto no dano moral não. Ou seja.

186 e 187). por ação ou omissão voluntária.Segundo a doutrina majoritária. independentemente de culpa. acontece toda vez que ocorrer uma lesão aquele direito absoluto que tem um sujeito passivo universal. Exemplo: compra e venda de uma geladeira. Há obrigações específicas. isso falando dentro daqueles casos de responsabilidade subjetiva – se é objetiva pouco importa se é contratual ou extracontratual porque a culpa não estará configurada.O que a maior parte da doutrina vai dizer como sendo a conseqüência prática desta distinção de responsabilidades? Vai dizer que na responsabilidade civil contratual. de outro norte. existirá uma presunção relativa de culpa. e honorários de advogado. enquanto na extracontratual. Caio Mário Pereira vai dizer que.” .”  Art.” . negligência ou imprudência. ainda que exclusivamente moral. Os clássicos desse tipo de direitos são os direitos personalíssimos ou os reais. 186 CC: “Aquele que.Artigos 186 e 927 CC. responde o devedor por perdas e danos. .A responsabilidade extracontratual. A partir do momento que eu não entrego ou que ele não paga o preço. A cláusula do contrato já define o comportamento dos contratantes que estão adstritos em sua observância a um dever específico. violar direito e causar dano a outrem. por sua natureza. Parágrafo único. causar dano a outrem. comete ato ilícito. nos casos especificados em lei. 927 CC: “Aquele que. na responsabilidade aquiliana. Diversamente. Há um contrato extremamente singelo. Haverá obrigação de reparar o dano. por ato ilícito (arts. uma vez que o contrato traça normas de conduta para os contratantes. 3) condições de pagamento e 4) se é de ir buscar ou receber. que são a grande cláusula geral. fica obrigado a repará-lo. incorre em culpa aquele que se desvia do pactuado. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 56 . risco para os direitos de outrem. mais juros e atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos. Art. 2) preço. 389 CC: “Não cumprida a obrigação. Clausula 1) do objeto. .  Claro.  Art. esta presunção não existirá. o lesado tem o dever de mostrar a existência de uma norma de comportamento e sua infração. em que não é preciso estabelecer nenhuma relação contratual para que se possa fazer valer contra terceiros. ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. automaticamente. aquele que desrespeita isso é presumidamente culpado.

ela carece de fundamento. mas é o que a maior parte da doutrina vai falar. Esse dever jurídico obrigacional principal é aquele que tipifica a obrigação. como a gente tem meras obrigações gerais de prudência e diligência. . o dever de proteção. o teu vínculo obrigacional. além do dever jurídico obrigacional principal que tipifica a obrigação e cuja fonte precípua é a vontade das partes.O que se tem hoje. Então quando eu sofro um dano nesta seara. ainda não especificada. Ou seja. .Esses deveres anexos ou laterais são o dever de informação. tais deveres anexos não têm nada de específico – são tão amplos e gerais quanto o dever de não gerar dano. há outros tipos de deveres. que é caracterizada por um feixe de direitos e deveres. eu é que tenho que provar a culpa do agente. de cooperação.Em muitos casos. porque essa distinção da doutrina tradicional está baseada em dois pilares fundamentais: que na responsabilidade civil contratual eu só tenho deveres específicos e que na extracontratual só há deveres gerais. nenhuma base de sustentação no direito moderno hoje.A partir do momento em que existem tais deveres anexos.  É uma diferenciação um pouco sutil. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 57 . . Então é muito tranqüilo: eu me obriguei a entregar uma geladeira e ele se obrigou a me dar 1000 reais – contrato de compra e venda. Por quê? .Em primeiro lugar. Talvez Brasil e Portugal foram os países que internalizaram essa idéia alemã de maneira mais profícua.. . A partir do momento em que eu consigo afastar essas premissas. mesmo naqueles contratos singelos de compra e venda – geladeira usada – estão prenhes de obrigações gerais de prudência e diligência. Eu pago 100 reais por mês pra usar um imóvel na cidade – contrato de locação. primeiro vou ter que trabalhar qual é a norma de conduta e depois a culpa em desrespeitá-la. E aí. É a questão da violação positiva do contrato. esse dever principal efetivamente se constitui em dever específico – como na compra e venda da geladeira. aquele que lhe confere nome. Mas hoje em dia a visão moderna do direito obrigacional é que se tem uma relação jurídica obrigacional complexa. na moderna teoria do direito obrigacional. é que.Na responsabilidade civil extracontratual.  O prof. Vai ter que ser verificada no caso concreto. não há norma de conduta específica. .Dever anexo de proteção – súmula 130 STJ. acha que isso não tem nenhum sentido.

 Súmula 130 STJ: “A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de
dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento.”
- É aquele caso de roubo de veículos em estacionamento de shopping, de
supermercado, de farmácias. Volto e meu carro não está mais lá. Eu posso entrar
contra a farmácia, mesmo que o estacionamento não seja cobrado? Sim, porque
existia o dever anexo de proteção naquele contrato de compra e venda de aspirina.
- A partir do momento desta idéia, uma premissa está morta – de que na obrigação
contratual sempre há deveres específicos somente. Não é verdade.
b) Existe mais uma contraprova, ainda, que mata essa primeira premissa. Que em
muitos casos nem o dever jurídico obrigacional principal será específico. Claro que daí
até – isso sempre ocorreu antes desta nova visão – seria a exceção. Contrato de
prestação de serviços médicos, de serviços advocatícios. Não existe um contrato
dizendo todos os passos, os procedimentos necessários ao desenvolvimento das
atividades destes profissionais.
c) O último argumento é que, mesmo na seara aquiliana, eu também não tenho só
deveres gerais de prudência e diligência. Claro, se agente fica pensando única e
exclusivamente nos arts. 186 e 927 CC, não há deveres específicos. Mas se formos
pensar nos inúmeros diplomas legais cujos deveres específicos podem levar à
responsabilização civil.
 Exemplo: dirigente de sociedade anônima é obrigado a declarar bens – é uma
atividade específica. Se depois sofre um dano porque a empresa não fez isso,
pede indenização porque não cumpriu um dever específico.
Art. 39 CDC: “É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas
abusivas: I - condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de
outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos; II recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas
disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade com os usos e costumes; III enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou
fornecer qualquer serviço; IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor,
tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe
seus produtos ou serviços; V - exigir do consumidor vantagem manifestamente
excessiva; VI - executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização
expressa do consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as
partes; VII - repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo
consumidor no exercício de seus direitos; VIII - colocar, no mercado de consumo,
qualquer produto ou serviço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos
oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira
de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional de
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Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro); IX - recusar a venda de
bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-los
mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis
especiais; X - elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços; XII - deixar de
estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a fixação de seu termo
inicial a seu exclusivo critério; XIII - aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do
legal ou contratualmente estabelecido. Parágrafo único. Os serviços prestados e os
produtos remetidos ou entregues ao consumidor, na hipótese prevista no inciso III,
equiparam-se às amostras grátis, inexistindo obrigação de pagamento.”
- É um artigo que fala de práticas abusivas.

Responsabilidade Civil pelo Fato de Outrem
- A norma básica é o artigo 932 CC.
 Art. 932 CC: “São também responsáveis pela reparação civil: I - os pais, pelos
filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; II - o
tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas
condições; III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e
prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; IV - os
donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por
dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e
educandos; V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do
crime, até a concorrente quantia.”
- A imensa maioria dos casos examinados até agora eram casos de responsabilidade
por fato próprio. A maioria dos casos de responsabilidade civil é assim.
- Em alguns casos se pode imaginar que terceiro será o efetivo causador do dano. Os
casos clássicos dessa responsabilidade indireta estão positivados no artigo 932. Pode
haver outros casos, mas os clássicos são esses.
- Alguns autores dizem que essa nomenclatura não seria a mais adequada. Importante
é o seguinte: qual a natureza jurídica da responsabilidade do pai? Esse tipo de
responsabilidade, que era subjetiva, ganhou uma presunção de culpa. Se o filho menor
tivesse cometido o dano, o pai era presumidamente culpado. Ele respondia em
decorrência da culpa in vigilando. O que era importante verificar: essa presunção de
culpa incidia, a ação do agente direto teria que ser culposa. A responsabilidade do filho
não era objetiva. Presumindo-se a culpa do filho, não precisa provar a culpa do pai que
vigiou mal. O pai tinha que provar que ele não cuidou mal.
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- No código atual se teve um artigo novo: artigo 933 CC. Mais um caso em que o novo
código veio objetivar. Desde o código de 2002, essa discussão da responsabilidade da
culpa in vigilando acabou silenciando. Agora realmente é responsabilidade objetiva
desses responsáveis elencados no artigo 932. Isso mudou muita coisa na prática.
 Art. 933 CC: “As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda
que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos
terceiros ali referidos.”
- O artigo 933 veio modificar a parte do agente direto (AD). Porque se se fosse
formalista, um dos elementos para a pessoa ser culpada é ela ser imputável. Não se
pode dizer que o curatelado, tutelado, ou menor são culpados no sentido técnico.
Deve-se analisar o comportamento deles para ver se eles fossem imputáveis seriam
considerados culpados. Carlos Roberto Gonçalves acaba chamando de ilicitude
objetiva.
- Apesar de o artigo 933 dizer que responde objetivamente, só responde pelos que
estiverem em sua companhia (sob sua autoridade, é aquele filho que convive com o
pai).
Exemplo: se o rapaz de 12 anos pegou um ônibus, foi para outro bairro jogar futebol e
quebrou o vidro de uma casa, o pai não estava com ele, mas vai responder.

Os outros exemplos clássicos que tiram a autoridade são exemplos de casais
separados. Só aquele que tem a guarda da criança é o que tem autoridade
sobre ela. Se o filho dentro do colégio jogar algo em alguém que está passando
na rua, interpreta-se que ele está sob autoridade do colégio.

- Nos casos de emancipação voluntária (contrair núpcias, diploma de curso superior,
etc.), a jurisprudência dizia que não gerava a obrigação dos pais de indenizar os danos
causados.
- No código passado, depois dos 16 anos até os 21 se dizia que o menor respondia
solidariamente. Hoje, ou continua não respondendo, ou se o caso concreto preencher
os requisitos do artigo 928 vai responder. Não existe mais a figura de regra geral do
código passado. O que vai acontecer é que os pais vão pagar na maioria dos casos e se
se conseguir passar para o menor, este pagará.
 Art. 928 CC: “O incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por
ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios
suficientes.”
- O artigo 933 poderia ser um auxílio nos casos em que a mãe fica com a guarda das
crianças. Vamos supor que ela é dona de casa, o único que tem patrimônio é o pai.

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E para tal análise. . todos os seus atos são executados por pessoas naturais. Mas o artigo 933 agora não quer saber – as pessoas respondem objetivamente.  Art. no exercício do trabalho que lhes competir. enquanto exerce seu trabalho. já se tinha responsabilidade objetiva.  Art. O terceiro não tem nada a ver com isso. pelos pupilos e curatelados. Aqui se poderia analisar melhor essa situação. .Aqui a doutrina e a jurisprudência tiveram uma atitude corajosa e fizeram praticamente uma interpretação contra legis. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 61 . Mesmo com abuso de função. por seus empregados. II: “o tutor e o curador. quando não tinha nenhuma atividade de trabalho. . Exemplo: ele estava proibido pela empresa de pegar o carro ou assinar o contrato. 933. que se acharem nas mesmas condições. quando o empregado está agindo.Na realidade.Daqui a pouco a vítima fica sem nada porque o pai vai dizer que ele não tem autoridade e ele não pode se meter. na realidade.Pode-se transferir os detalhes relatados nos casos dos pais. o dano que ele causou foi no domingo. utiliza-se a teoria da substituição. O ponto III é um dos poucos casos em que se tinha uma responsabilidade civil objetiva doutrinária e jurisprudencial. Essa discussão só seria necessária nos caso de pessoa física dando emprego para outra pessoa física. mesmo assim a empresa vai responder. muitos autores diziam que a prova da culpa dos pais.”  Súmula 341 do STF: “É presumida a culpa do patrão ou comitente pelo ato culposo do empregado ou preposto.” . Se for emancipação voluntária.” . no caso dos tutores e curadores. Se eles demonstrarem que não têm autoridade eles não respondem.A empresa se defende utilizando as excludentes de causalidade ou então conseguindo comprovar que o funcionário estava em um momento em que não havia relação com a empresa – por exemplo.Na prática. etc. mas esses casos representam pouca parte dos empregos. A pessoa jurídica é uma ficção legal. III: “o empregador ou comitente. Todos os outros ordenamentos dizem que a responsabilidade do patrão para com o empregado é objetiva. a empresa paga. antes da súmula. serviçais e prepostos. . 933. ou em razão dele. para os tutores e curadores. Às vezes a pessoa nunca quis filhos e acaba como tutor. deveria ser olhada com muita parcimônia porque às vezes é um ônus público a tutela e a curatela.Aqui. continua respondendo. ele é empresa.

. Ou então o transformador da CELESC explodiu. Hoje o que acontece mais na prática é que o colégio não renova mais a matrícula. . mas ele liberou ação regressiva contra os pais. V: “os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 62 . O STF decidiu que o colégio tinha que pagar. Na verdade.” .  Art. Responsabilidade por Fato da Coisa . A pessoa vai ter que devolver o som que ganhou.A pessoa. Aqui a pessoa não é responsável pelo auto da outra.Também será uma exceção. Mas há todo um entendimento doutrinário e jurisprudencial para fundamentar isso. casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro. o colégio é responsável. porém. IV: “os donos de hotéis. até a concorrente quantia. Aqui.Houve um caso em que os alunos estragaram o elevador do prédio. hospedarias. Critica-se esse posicionamento do STF.Antigamente era normal haver os colégios internos. mas ela tem que restituir. ela não é obrigada a comprar outro. e não por um ato de terceiro. acabou participando do produto do crime. 933. será responsabilidade civil por um ente inanimado.Não tem nada a ver com responsabilidade pelo fato de terceiro. mesmo para fins de educação.Não se tem um artigo específico no código. Eles têm a guarda dessas crianças. porque neste não há essa supervisão.Na questão da hospedagem. Se a pessoa ganhou uísque e ela consumiu de boa-fé. A exceção é o ensino superior. Foi um ente inanimado o causador direto do dano. no momento que os pais entregaram para o colégio. sempre se fez uma interpretação muito parcimoniosa. de boa-fé. . Vai ser observada quando o agente direto for um fato inanimado. a pessoa dá de presente um som roubado para outra. 933. Por exemplo. rolou uma pedra e passou por cima do carro. pois não será responsabilidade por fato próprio. Os fatos têm que guardar relação com a hospedagem. perdeuse uma oportunidade de tirar ele deste artigo. eles não têm mais autoridade. Art. Ele é um caso de enriquecimento sem causa. Qualquer coisa que acontecer com o menor ou por ato do menor. Por exemplo. . moradores e educandos. Mas. pelos seus hóspedes.” . Claro que não se vai responsabilizar o hotel se lá dormiu um assassino.

um mix entre locação e venda. Um posicionamento jurisprudencial do direito brasileiro que felizmente mudou era em relação a roubo.Os casos mais comuns envolvem automóveis. Ao final do contrato.. . Claro que essa guarda pode ser efetivamente transferida. o proprietário vai ser o proprietário presumido e vai ter que indenizar. Exemplo: tinha um caminhão que parou e o motorista deixou a porta aberta. ou devolve. Por incrível que pareça. Por exemplo. Mas há exceções nesse sentido. Exemplo: faz um leasing de 4 anos de um carro de 20 mil dólares. nos casos em que a pessoa facilita. se pode dizer que o ente inanimado é o agente direto. o carro acabou deslizando e estava com problemas no freio de mão. Estava passando um incapaz.Essa noção de guarda é a direção efetiva sobre o objeto inanimado. ela continua respondendo. .E esse guardião da coisa. ou a pessoa fica com o carro por 10 mil dólares. . Casuística a) ROUBO DE CARRO . O louco entra no caminhão. então não resta dúvidas de que ele tinha que deixar o caminhão fechado. No Brasil. Até o louco conseguiu ligar. b) LEASING . liga o caminhão. a pessoa continua respondendo. Tinha prova de que o caminhão ligava até sem a chave. O guardião da coisa responde também objetivamente. Mesmo não havendo artigo específico. joga o caminhão no carro e mata uma família. Quem vai responder pelo fato da coisa é o tal do guardião. vai embora. Os filhos queriam indenização do dono do caminhão pela morte da mãe.Vai haver a ação do objeto inanimado. Agora. como os pais transferem a guarda para a instituição de ensino naquele período de aula. O proprietário é o guardião presumido da coisa. mas era uma pessoa que caminhava e tal. Este não é sujeito de direito.É uma operação. a jurisprudência dizia que como não há uma transferência da guarda pelo ladrão. deixando a chave dentro do carro. a pessoa responde. furto de veículo. Felizmente se mudou isso. a opção de Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 63 . Para bens de desvalorização muito rápida é muito interessante. por exemplo.Se não se conseguir provar a transferência efetiva. por isso não vai para o pólo passivo da ação indenizatória. A teoria da guarda vai explicar isso. não era violenta.

No caso do leasing.Tal dispositivo usa como únicas excludentes da causalidade aptas para exonerar o fato exclusivo de terceiro ou caso fortuito ou de força maior. Mas. . Assim. quem tem a guarda é o comprador. 936 CC: “O dono. Muitas vezes os carros são transferidos. mas é diferente. no leasing não há nenhum tipo de guarda por parte do proprietário.compra é 1% do valor do bem.Quem conseguir provar que fez a transferência efetiva não responde pelos eventuais danos causados. se alguém andando com o carro mata alguém.Pela importância prática que isso tem no Brasil. mas não há a mudança no DETRAN. Não é uma situação de Responsabilidade Civil por Fato de Terceiro. sendo a jurisprudência unânime na prevalência do Código de Defesa do Consumidor. seria o guardião presumido. Mas a vítima pode sim entrar com ação contra a locadora. ou detentor. Não houve uma transferência total da coisa por parte da locadora para o locatário. o dono da coisa continua sendo o locador. Se se faz um leasing de carro. . do animal ressarcirá o dano por este causado. porque todo valor dele é cobrado no aluguel.Pode parecer semelhante. As locadoras respondem pelos danos causados pelo motorista. o banco é o dono de carro e. Responsabilidade Animal  Art. no Brasil. O CDC tem uma especificidade Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 64 .A aplicação do Código de Defesa do Consumidor é macro. como dono. por uma análise constitucional. . Responsabilidade Civil no Código de Defesa do Consumidor . mesmo o nome constando no DETRAN. o banco é o responsável? Não. Daí a pessoa paga mais 1% e fica com a coisa. há uma situação bem sui generis quando se trata da transferência de propriedade de veículo automotor. A locadora faz análise da ficha do locatário. O banco não vai indenizar. mesmo não estando explícito. se não provar culpa da vítima ou força maior”. a questão da locadora de veículo. ainda que haja uma legislação específica.  Súmula 132 do STJ: “A ausência de registro de transferência não implica a Responsabilidade do antigo proprietário por dano resultante de acidente que envolva veículo alienado. Por isso. Bem móvel não tem registro específico. A transferência de bens imóveis só se dá com o registro.” . seria Responsabilidade Civil Objetiva. Pode-se entrar com ação regressiva depois.Ainda assim. .

trabalhamos com a responsabilidade civil por Vício do produto ou do serviço. tem-se um defeito por fato de produto. 18 e seguintes. . tendo-se um produto viciado. Exemplo: compra-se uma televisão. 17. Sendo. em tal responsabilidade. tem-se o vício. o bem juridicamente tutelado é a adequação quantitativa e qualitativa do produto. trabalhando com duas categorias relativamente novas. podendo haver ou não o defeito. RESPONSABILIDADE CIVIL POR FATO DO PRODUTO OU SERVIÇO . Do art. tendo toda uma sistemática distinta.Assim. a situação pode ser vício ou defeito. mas podendo gerar também um defeito. sendo um produto viciado. 12 até o art. enquanto que aquele causa uma lesão à segurança física ou patrimonial. mas continua não funcionando. porém. trabalhamos com responsabilidade civil por Fato do produto ou do serviço (chamada por muitos autores de Responsabilidade Civil por Defeito).  Assim. uma televisão que explode. que desde já tem um vício. A análise deve ser pelo bem juridicamente tutelado. o bem juridicamente tutelado é a segurança física e patrimonial do consumidor. que não exibe a Imagem com perfeição. porém. tem-se um defeito. . Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 65 . que possui defeitos. e tal acabe gerando hospitalização.   Do art. A diferença entre defeito e dano é que este apenas existe.Na situação do vício. .Sempre que se tiver o fato. RESPONSABILIDADE CIVIL POR VÍCIO DO PRODUTO OU SERVIÇO .  Todo inadimplemento contratual é vício. dependendo da consequência. bem como um computador que foi para o conserto.muito importante. por vezes. havendo as duas responsabilidades. caso ingerido o alimento. Um exemplo seria aquele em que se compra uma comida estragada.A responsabilidade civil por fato do produto ou do serviço é aquela que os autores chamam de responsabilidade civil por acidente do consumo.Porém. sendo uma diferenciação pelo bem juridicamente Tutelado.

o fabricante. além do vício. pode-se alegar o vício. o construtor. fabricação. percebe-se defeito no freio do veículo. havendo um acidente por falta de freio.Como regra geral.Outro exemplo em que o mesmo problema gera vício e defeito seria aquele em que se compra o automóvel. construtor ou importador. mas logo quando se sai da concessionária. vai haver. e o importador respondem. III ..a época em que foi colocado em circulação. manipulação. A pessoa pode entrar tanto contra o supermercado quanto contra o produtor no caso de uma comida estragada. o defeito inexiste. 12 CDC traz um rol de responsáveis.a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro”. o Código de Defesa do Consumidor fala da solidariedade da cadeia. 1. independentemente da existência de culpa. nos termos do artigo anterior. o construtor. § 3° O fabricante.que não colocou o produto no mercado. nacional ou estrangeiro. levando-se em consideração as circunstâncias relevantes. II .não conservar adequadamente os produtos perecíveis.  Art. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de regresso contra os Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 66 . o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: I . apresentação ou acondicionamento de seus produtos. também um defeito. por exemplo. Porém. II . Considerando tal dispositivo em seu caput. § 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera. Parágrafo único. fórmulas.o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam. o produtor ou o importador não puderem ser identificados. o produtor. produtor. montagem. quando: I . A maioria das pessoas tem a relação com o varejista. o construtor. Fato do Produto ou de Serviço a) Responsáveis . . embora haja colocado o produto no mercado. 12 CDC: “O fabricante.O art.o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante. entre as quais: I . que é o comerciante.  Art. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto.sua apresentação. II .que. construção. Conseguindo-se voltar para a concessionária. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. § 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado no mercado. temos um fornecedor de produto clássico que não está ai. dizendo que todos na cadeia serão igual e objetivamente responsáveis. III . 13 CDC: “O comerciante é igualmente responsável. III .

Assim.. .  Na situação do carro. não querendo correr o risco. como também nos de projeto ou de concepção. 13 CDC tem uma norma específica na responsabilidade pelo fato do produto. Na imensa maioria dos casos em que há uma venda direta. Os artigos 12 e 13 só falam do defeito. . segundo sua participação na causação do evento danoso”. não deve mais vender para aquele revendedor.Apenas nos casos em que não se pode identificar. Pode até ser que o fornecedor tenha ação de regresso contra o varejista. . Um caso clássico foram as pílulas de anticoncepcional chamadas de pílulas de farinha.O art. que normalmente gera recall. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 67 . Aqui. como no caso em que não poderá se identificar produtor e nos produtos perecíveis. havendo regras específicas para o vício. É o defeito gerado pelo projetista. de como ele foi projetado. Havendo. o comerciante vai ter uma responsabilidade limitada. como a compra a granel. por exemplo. ainda assim a empresa produtora responderá e. se o Comerciante não sabe conservar. b) Tipologia de Defeitos: . contra o produtor. uma intoxicação. em tal caso. em que. como nas vendas a granel. em que normalmente não se identifica o produtor. e sim contra o Ford. vai-se contra o Supermercado. como o das latas que poderiam ter suas tampas retiradas por inteiro e poderiam cortar. bastando que não esteja identificado no produto. . etc. além de poder entrar.Trabalhamos com três defeitos clássicos: Defeito de Projeto ou de Concepção: o primeiro é o de projeto ou de concepção. Defeito de Produção: outro é o defeito de produção.demais responsáveis. fornecedor. Mesmo aqui continua a solidariedade com o produtor. não se poderia entrar contra o Dimas (revendedor). Também em situações de bens perecíveis. a projeção do produto foi correta. mas a produção deu errado. mas o que não pode é o consumidor ficar sem ressarcimento porque o varejista não tem bens.Assim.O varejista é parte legítima mesmo que indique quem é o produtor. da forma do produto. porém. pode-se entrar também contra o Supermercado (o comerciante). O prazo é de 5 anos para fato. normalmente não haverá mais venda. havendo um acidente por falta do freio.

o que não exoneraria. na maioria dos casos isso não será um óbice. sendo um risco intrínseco à atividade. 12. Ainda assim se responde pelos riscos do desenvolvimento. A doutrina coloca que mesmo quando o produtor. pela tecnologia da época.O parágrafo 3º fala das excludentes. mas que não poderiam ser previstos quando do desenvolvimento do produto. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 68 . . havendo fato exclusivo de terceiro ou da vítima. . Tal será trabalhado em algumas situações. Alguns entendem que. A primeira excludente é não ter colocado o produto no mercado. Deve-se responder pela atividade. A segunda situação é aquela em que o defeito inexiste.Mas. falando apenas de fato exclusivo do consumidor (fato exclusivo da vítima) ou de terceiro. Porém. responderá. sendo a simples evolução tecnológica. Produto defeituoso não é aquele em que há um produto melhor no mercado. como a responsabilidade da empresa tabagista. não haveria que se falar em caso fortuito ou força maior. A mesma situação pode ser alegada quando a pessoa compra carne com gordura e o consumidor tem um enfarte. não pudesse saber dos defeitos que pudessem ser gerados. bem como no parágrafo 2º. pois há defeito. independente de ocorrer defeito ou não. pela análise pró-consumidor. não podendo ser condenadas pelo consumidor ter tido enfisema.Defeito de Informação: temos ainda o defeito de informação. É o caso dos remédios e suas contra-indicações. entendendo o STJ que caso fortuito ou força maior seria sim uma excludente.Tais empresas podem alegar que o produto não é defeituoso. ele fala do produto defeituoso em seu parágrafo 1º. Exemplo: um medicamento (talidomida) que acabava gerando defeitos nos fetos.O Inciso III não fala de excludente de causalidade por caso fortuito ou força maior. gera-se dano. Tal suaviza um pouco a responsabilidade objetiva. d) Excludentes . mas não há defeito. c) Risco do Desenvolvimento: . ou o caso clássico das fagulhas dos trens. Porém.Considerando-se o art. podendo-se transformar o produto em defeituoso pela falta de informação. Não se admite que o fato de não saber se enquadre em caso fortuito ou força maior. esse não é o entendimento majoritário da doutrina e da jurisprudência. por vezes. .

obviamente não haveria que se falar em causalidade concorrente. e sim do Supermercado.Outro elemento desse inciso III é que ele fala de duas hipóteses de excludente.. Assim.Temos ainda a questão de que quem está na cadeia não seria terceiro. O prof. estando todos na mesma cadeia.Mas grande parte da doutrina e da jurisprudência entende que. concorda com o uso de causalidade concorrente. Tem ocorrido uma discussão da doutrina que. também entendendo o STJ tal (REsp 247389 STJ). . Um caso do STJ foi aquele em que a garrafa explodiu no Supermercado quando o consumidor a pegou. . mas como ele fala ali de excludente. Entendeu o STJ que não haveria terceiro na situação. também poderia haver parcial. considerando o que ele fala. Caderno de Responsabilidade Civil (UFSC) – Luiza Silva Rodrigues Página 69 . a produtora disse que não seria responsabilidade dela. causalidade concorrente não poderia ser considerada. havendo excludente completa.