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Os Segredos e a Arte de Contar Histórias

Professor Osmar Lima

2007©

Copyright © Osmar lima

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Correspondências para o autor:

Professor Osmar Lima E-mail: artolimacub@yahoo.com.br Website: http://br.geocities.com/artolimacub

Í N

D

I

C

E

PREFÁCIO

4

PREÂMBULO

5

O

INSPIRADOR DE JOSIMAR

6

JOSIMAR - SEU PERFIL

8

QUALQUER PESSOA PODE CONTAR UMA HISTÓRIA

9

IMPORTANTE LER MUITAS HISTÓRIAS E OBSERVAR AS ESTRATÉGIAS

11

CONHECER OS OUVINTES

13

A

PREFERÊNCIA DO PÚBLICO

16

INSTRUIR OS OUVINTES

19

O

ENVOLVIMENTO DE QUEM OUVE A HISTÓRIA

20

O

DOMÍNIO DA LÍNGUA

21

A

MORAL DA HISTÓRIA

22

MEMORIZANDO A HISTÓRIA

24

COMO INICIAR A HISTÓRIA

28

DESCREVENDO OS PROTAGONISTAS

30

DESCREVENDO AS SITUAÇÕES

32

AMBIENTAÇÃO

34

CENÁRIOS PRINCIPAIS E CENÁRIOS OCULTOS

36

O

TEMPO NA HISTÓRIA

38

CONTANDO A HISTÓRIA

40

DIÁLOGOS BEM CLAROS

42

O

CORPO TAMBÉM FALA

44

O

SUSPENSE

46

FINALIZANDO

48

HISTÓRIA: EDUCAÇÃO, FLORES E PEDRAS

49

HISTÓRIA: O FANTASMA DA AVÓ

51

PREFÁCIO

Este livro tem caráter de ferramenta. Ele não oferece normas rígidas de como se deve construir uma história, para que ela seja perfeita. E não existe história perfeita porque com o tempo ela pode perder o sabor, pois os sabores desejados pelas pessoas modificam-se constantemente.

Ela pode até sobreviver através de adaptações, aclimatações e atualizações. Muitas vezes, com estas metamorfoses ela fica ainda melhor, ou melhor, mais saborosa.

Uma história pode ser útil numa atividade de treinamento, numa aula, num trabalho de evangelização, mas se não for saborosa, não sensibilizará os ouvintes. Há boas histórias que não produzem sabor porque foram mal formatadas e mal contadas. E há histórias bem simples, que com

o tempero do escritor e do contador tornam-se deliciosas e inesquecíveis, produzindo influências.

Neste livro, procuramos transmitir sugestões para orientação dos desejosos em aprender a contar histórias. Estas sugestões não são feitas através de esquemas enfadonhos para serem compreendidos, memorizados

e implementados. São feitas através do melhor recurso pedagógico adotado por mestres, líderes e comunicadores: A HISTÓRIA.

Contamos uma história mostrando como nosso protagonista Josimar aprendeu as técnicas e estratégias para contar histórias. E junto com ele, podemos aprender também.

Professor Osmar Lima

PREÂMBULO

UMA OCASIÃO

Estas palavras pareciam mágicas, quando pronunciadas pelo Sr. Arnaldo, ou melhor, “Seu Arnardo” como era melhor conhecido na pequena cidade do interior. Ele era um notável contador de histórias ou “causos” como se falava ali. Era o grande astro dos velórios. Encantava as pessoas com suas histórias, distraindo os “veladores de defunto” na longa noite de vigília, entre bolinhos, café e até umas pinguinhas.

Estas palavras eram o anúncio de mais uma de suas histórias e, quando as pronunciava, produzia-se um silêncio geral. Todos ficavam atentos e eletrizados para ouvir mais um “causo do Seu Arnardo”. Com o Sr. Arnaldo presente, as horas passavam rápidas.

Ele fez um discípulo, Josimar, jovem professor de História do colégio local, que viu na virtude do Sr. Arnaldo um recurso pedagógico riquíssimo para tornar suas aulas mais produtivas.

A história de Josimar é um “causo” que vamos contar e como ele

aprendeu a contar histórias. Enquanto ele aprende, o leitor aprende também.

Aprende a aprender contar histórias.

Aprende a iniciar uma história, fazer suspense, encantar os ouvintes, construir cenários, descrever situações e protagonistas, etc.

A arte de contar histórias pode ser um dom. Pode-se mesmo ter

nascido com esta vocação, com esta facilidade de memorizar as histórias e contá-las com sabor, encantando uma platéia. Mas pode-se muito bem aprender a contar histórias. Basta que se conheçam as estratégias para iniciar, desenvolver e concluir com um bonito desfecho. Também podemos aprender a técnica do suspense, das expressões faciais e da gesticulação, que enriquecem a história.

E para aprender, o querer é fundamental.

O INSPIRADOR DE JOSIMAR O “SEU” ARNALDO

O velório estava cheio de gente. E permaneceu cheio por toda a madrugada. Ninguém arredou pé da sala onde se achava o caixão com o finado.

Ele era assim tão querido que todos choraram sua morte por toda a madrugada? Por acaso os bolinhos e o café tradicional destes momentos no interior eram assim tão atraentes?

Nada disso. É que lá estava presente o melhor freqüentador de velórios da cidade, o “Seu “ Arnaldo.

Ele era uma verdadeira atração nestas reuniões fúnebres. Religioso? Quase. O que ele era mesmo é um notável contador de “causos”. Quando morria alguém nas vizinhanças, Josimar procurava saber se o “Seu”Arnaldo estaria lá e, diante da afirmativa, não titubeava. Rumava para lá para passar a noite ouvindo suas histórias.

Eram histórias simples de negociação, traição, malandragem, de alguém que havia sido apanhado na própria armadilha, ingenuidade ou esperteza de caipiras, etc.

Muitas vezes, a história já havia sido contada várias vezes. Todos os ouvintes já conheciam o desfecho. No entanto, pediam ao “Seu” Arnaldo para contá-la mais uma vez.

Era a história do ferroviário que pusera laxante da garrafa de café para pegar quem a roubava todos os dias. Ou o “causo” da mulher que roubou a galinha da vizinha, mas foi descoberta porque as penas foram vistas no seu lixo. Contava ainda o caso do viúvo que espalhou pólvora na soleira da porta onde um gozador costumava defecar à noite e deixar um bilhete. Era mesmo um sabor, quando ele, em detalhes, contava como o viúvo acendeu a pólvora.

Então, quando lhe pediam, ele não se negava e começava sempre com o mesmo chavão:

Uma ocasião

Parecia uma palavra mágica. Fazia-se um silêncio total. Todos os ouvintes se esfregando de emoção, preparados, para ouvir um “causo” do “Seu” Arnaldo.

No dia seguinte algumas pessoas tentavam em vão reproduzir as histórias contadas. Ninguém achava graça.

O próprio Josimar já tentara várias vezes sem sucesso. E ele tinha muita vontade mesmo de contar histórias como o “Seu”Arnaldo.

Josimar era muito inteligente. Achava que não havia nada de mágico com aquele notável contador de histórias. O que havia mesmo era o jeitão de contá-las, sua estratégia.

Então, por vários velórios, deixou de ficar atento às histórias quando estavam sendo contadas, fixando sua atenção no jeito como ele começava, desenvolvia e terminava a história. Depois do enterro, ia para o trabalho com sono, mas na volta para casa, tomava nota daquilo que fora observado. Como iniciava a historia, os trejeitos, as pausas, enquanto enchia e acendia o cachimbo ou tomava um cafezinho.

Nos capítulos seguintes, vamos conhecer o que Josimar anotou, formando um verdadeiro manual de instruções para contar e escrever histórias.

JOSIMAR - SEU PERFIL

Josimar era professor de História. Havia concluído a faculdade há dois anos e já lecionava na mais considerada escola pública da região. Esta escola era muito bem administrada por competentes educadores. Conseguira a cadeira através de concurso. Apesar de serem muito disputadas as vagas naquela escola, teve o privilégio de escolhê-la dado à excelente colocação no concurso.

Havia escolhido esta matéria porque era mesmo apaixonado por História Geral. E foi através das aulas de história no ensino fundamental, ministradas por um professor entusiasmado, que apaixonou-se e decidiu-se por este caminho.

Na sua opinião, os alunos não a valorizavam com justiça porque não compreendiam bem a sua essência. Isto porque a maioria dos professores lecionava contemplando apenas o seu aspecto científico, desprezando o aspecto da emoção, do sabor. Achava que se tornasse a aula saborosa os alunos estariam mais motivados a absorver os conhecimentos e compreender o seu valor, sua essência.

Era da opinião de que, mais importante que os nomes e as datas, eram os fatos. É claro que os grandes vultos não poderiam nunca ser relegados ao esquecimento, mas de que adiantaria saber o nome deles sem conhecer-lhes as grandes realizações? Sem lembrar das razões porque as realizaram? Sem avaliar as suas conseqüências? Eles se imortalizaram mesmo pelo que fizeram.

Por isso, dava destaque a narrativa dos fatos. E o que desejava mesmo era amealhar a técnica de contar histórias para dar aulas de História, relatando os fatos no formato de estória. Os alunos poderiam torcer o nariz para a ciência História, mas todos eles, como todo mundo, gostavam de estórias. Este era o caminho, na perspectiva de Josimar. Por isso, desejava ardentemente aprender a contar histórias. E concretizou o seu sonho com as forças da vontade e da dedicação.

QUALQUER PESSOA PODE CONTAR UMA HISTÓRIA

Qualquer pessoa pode contar uma história porque há histórias curtas, simples e histórias longas e mais complexas, repletas de detalhes.

A criança, quando relata à mamãe como foi que se machucou, está

contando uma história. E, se acrescentar algo que na verdade não ocorreu, estará usando a imaginação. Neste momento, estará criando uma história.

Muitas vezes, machucou-se fazendo alguma traquinagem, fazendo algo que a mamãe havia proibido. Desta forma, terá que criar alguma fantasia para justificar o machucado. Então é criado um cenário, onde vários personagens interagem, tudo conduzindo os elementos para alcançar o momento mais importante, o desfecho, o acidente.

Mamãe, foi o cachorro da vizinha que me assustou. Eu corri para passar o portão, mas tropecei e, na queda, raspei o joelho naquele muro rústico.

A verdade mesmo é que a criança havia trepado no muro e, quando

foi descer, esfregou o joelho no muro rústico. Ela contou uma história, que

criara naquele momento. Uma história curtinha, simples, mas criara uma história.

Dizem que os mentirosos são bons para contar histórias, mas isto é mesmo generalização. Nem todos os mentirosos sabem contar histórias, por isso caem sempre em contradição, revelando a mentira.

Autores de histórias também não são mentirosos, porque a história não chega a ser uma mentira. É uma fantasia, declarada que é uma fantasia e, portanto, não é uma mentira.

Muitas vezes o autor participa da história como protagonista, mas fica claro, desde o princípio, de que se trata somente de uma história e não de um relato de acontecimento real. Então, ainda assim, não se trata de uma mentira.

Também, quando vamos ao médico, fazemos um relato sobre nossa enfermidade: como começou; onde sentimos o desconforto pela primeira vez; em que condições é que passamos a sentir a dor; etc. E até mesmo fantasiamos um pouco para que o médico não nos censure. Mentimos que tomamos os remédios receitados, que fizemos a dieta recomendada etc.

A rigor, estamos mesmo contando histórias ao médico, que por sua vez, apenas nos respeita fingindo acreditar, porque bastando nos examinar, descobre a verdade. Faz novas recomendações reiterando que a cura depende da disciplina do paciente.

a

importância da disciplina na busca da cura. Conta uma história real ou inventada naquele momento mesmo da consulta.

Às vezes, conta um caso parecido com o nosso para encartar

IMPORTANTE LER MUITAS HISTÓRIAS E OBSERVAR AS ESTRATÉGIAS

Josimar perguntava-se onde teria o Sr. Arnaldo garimpado tantas histórias. É bem verdade que sua idade já passava dos setenta. Mesmo assim, não havia muitas pessoas nesta idade com conhecimento de tantos “causos” como ele. E, se dependesse de idade para conhecer muitas histórias, não haveria muita chance para Josimar, que tinha somente vinte e cinco anos.

Então ouvia programas de rádio onde eram contadas histórias e também passou a ler alguns jornais que as publicavam.

Procurou livros com histórias infantis, histórias para a juventude e para a idade adulta.

Passou então a observar as estratégias com que os escritores formatavam os contos, para manter cativo o leitor.

Começava por um título sugestivo, apelando para a curiosidade do leitor. Ele mesmo se apanhara escolhendo as histórias, seduzido pelo título.

Mas não bastava um bom título. O título tinha a finalidade de obter- se a atenção. Era preciso depois sustentar o interesse do leitor para que ele fosse até o fim da história.

Alguns escritores são mestres nesta arte – pensava Josimar –. Ficou mesmo apaixonado por uma história, onde um prisioneiro está para ser decapitado, embora seja amado por toda a sua comunidade.

condenação, até o fim da

história. O livro tinha mais de trezentas páginas e Josimar não foi para a cama enquanto não chegou ao fim da história.

O autor faz mistério

da

razão de sua

Ele procurava achar um meio de converter aquelas estratégias de escrever em estratégias para contar. Ele não achava muito difícil fazer isto. Principalmente porque para contar histórias, havia muito mais recursos do que para escrever.

Contar histórias é um discurso onde podemos utilizar o colorido da modulação tonal, as pausas, a gesticulação, os trejeitos, as expressões faciais e, até mesmo, a interação com os ouvintes.

Assim, ele lia histórias procurando construir em sua mente os cenários, os personagens e o desenrolar das cenas como se estivesse assistindo a um filme.

Não

raras

vezes,

até

podia

modificá-la

dando-lhe

algo

para

enriquecê-la, pois conhecia-lhe a essência.

CONHECER OS OUVINTES, O QUE GOSTAM, O QUE ACHAM ENGRAÇADO, O QUE LHES ESTRATÉGICO.

Josimar percebeu logo que a platéia do “Seu” Arnaldo era quase sempre a mesma. Isto lhe facilitava muito as coisas.

Ele, o Sr. Arnaldo, conhecia a maioria das pessoas que freqüentavam velórios. Sabia do que gostavam de ouvir, o que achavam engraçado e o que achavam trágico. Conhecia bem a cultura deles porque também era a sua cultura. Convivia com eles desde a infância.

Quando contava um “causo” era como se estivesse contando para si mesmo. De nada adiantava tentar imitá-lo. Era preciso conquistar a sua própria platéia. Como as pessoas já o conheciam e o valorizavam, bastava iniciar com o chavão “uma ocasião” para obter toda a atenção.

Então ele começou a fazer uma experiência.

Logo após o Sr. Arnaldo ter acabado de contar um de seus “causos”, Josimar emendava com uma história de mesmo gênero.

Se tinha sido uma história de fantasma, observava o impacto produzido e contava uma história de fantasma também, aproveitando algumas palavras típicas do Sr. Arnaldo e, até mesmo explorando a sua presença como referencial. Exemplo:

E, no dizer do “Seu”Arnaldo, ele ficou espiando a moça “de fianco”, “na moita” enquanto ela “muito coió” tirava toda a roupa pensando que estava lá só ela e Deus.

A técnica de usar as palavras do Sr. Arnaldo e ofertando-lhe o

crédito, tornava Josimar simpático àquela platéia.

E inventou também um chavão. “Eu tenho uma história parecida”. Quando o pronunciava, todos lhe davam atenção.

Até o Sr. Arnaldo, depois que Josimar a contava, a respaldava com um novo “causo “ do mesmo gênero ou fazia um comentário sobre a história do discípulo.

Josimar percebera que “atrelado” ao “Seu” Arnaldo conquistara uma platéia à sombra do notável contador de histórias.

Então aconteceu a consagração.

Numa noite de velório, o Sr. Arnaldo não pode comparecer. Estava viajando. Fora ao casamento de um sobrinho em outra cidade. Meio sem jeito, Josimar compareceu ao velório. Tomou um café, comeu um bolinho e ficou ali, em silêncio como todas as outras pessoas.

Então alguém disse:

Que pena que o “Seu” Arnaldo não está aqui.

E alguém arrematou:

Ainda bem que o Josimar veio.

Ei, Josimar. Conta uma história para nós – pediu outro.

Mais uma vez, Josimar iniciou a história, à sombra do Sr. Arnaldo:

Uma vez, eu estava num velório e o Sr. Arnaldo contou a seguinte história

Todos se acomodaram, se esfregando de emoção, porque sabiam que lá vinha uma boa história e que era uma do Sr. Arnaldo.

Aos poucos, Josimar foi se libertando do apoio do seu inspirador e impondo seu próprio estilo, sem descuidar-se de obter a atenção e o interesse da platéia, que agora conhecia bem.

Josimar lia muito, conhecia muitas histórias e as adaptava para agradar aquela platéia.

Agora tinha diante de si um novo desafio. Conquistar outras platéias com cultura e interesses diferentes da platéia do Sr. Arnaldo.

Porém já havia obtido o conhecimento da importância de conhecer- lhes os sentimentos e o que valorizavam para selecionar ou adaptar histórias que os sensibilizassem.

A PREFERÊNCIA DO PÚBLICO

Despertar o interesse do público para a história que contava era bem mais difícil do que descobrir antecipadamente que tipo de histórias os diversos públicos preferem.

Josimar, que contava histórias para diversos públicos, recebendo muitas vezes sugestões para contar ou ainda repetir esta ou outra história, não demorou muito para saber o que os sensibilizava.

As crianças geralmente gostavam de ouvir as histórias que envolvessem encantamentos. Então eram sempre solicitadas as histórias de duendes, anões, feiticeiros, fadas, etc.

Ficavam mesmo eletrizadas quando Josimar começava a contar pela quarta ou quinta vez uma mesma história em que começava assim:

Lembram-se daquela história da princesa que ganhou um ovo de presente de um príncipe do oriente?

E vinha a resposta em coro:-

Lembramos sim.

Então Josimar perguntava:

Vocês se lembram do que havia dentro do ovo? Lembram-se que ela tentou quebrar o ovo e não conseguiu? Lembram-se que em sonho ela viu o que havia dentro do ovo?

Lembramos sim – diziam as crianças se esfregando de emoção.

Então Josimar, após uma pausa, caminhando entre as crianças começava a narrar a história do pequeno príncipe que fora aprisionado dentro do ovo.

As crianças já conheciam de sobra o desenvolvimento e o desfecho da história. No entanto, havia a magia da voz, da expressão facial, da

expressão corporal, da musicalidade da entonação, do ritmo que Josimar promovia à história. Então, tudo se renovava.

Os jovens, por sua vez, gostavam mais de histórias de aventuras, de

ação.

Josimar não gostava de contar aos jovens alunos histórias que envolvessem assassinatos e atrocidades. Então contava histórias que envolviam heróis enfrentando desafios.

Contava como se preparavam, como lutavam contra as adversidades, o medo, as maquinações dos inimigos, as pequenas derrotas e, no final, o sucesso. Eram histórias de marujos, astronautas, atletas, pilotos de avião, pilotos de motocicletas, cachorro, etc.

As mocinhas adoravam histórias românticas. Sendo assim, como o público jovem era composto do elemento masculino e também feminino, mesclava o conto com ação, aventura e romance. Aprendeu isto lendo romances para a juventude.

Religiosos gostavam de histórias de pessoas santas e abnegadas.

Josimar não cansava de contar para um grupo de idosas a história de Francisco de Assis, o milagre de Lourdes, o milagre de Fátima, etc. Elas já conheciam de sobra o enredo todo, mas ficavam enlevadas quando Josimar descrevia o cenário, as aparições, os milagres e como os circunstantes se emocionaram em Lourdes.

As palavras de Josimar, não raro, levavam as velhinhas às lágrimas de júbilo. E ele também se emocionava por ter causado tanta alegria.

Homens adultos já gostavam de histórias de pessoas que obtiveram sucesso na vida, em seus negócios, em seu reconhecimento pela sociedade. Josimar contava sobre as dificuldades enfrentadas com coragem, as estratégias, a seriedade e lealdade, os valores temperando as ações e a fé em Deus. Gostavam de ouvir como os grandes magnatas se fizeram a partir do zero, usando a coragem, a operosidade, a fé e a criatividade.

Já, as vovós, adoravam histórias de crianças. De forma alguma a história poderia terminar sem um final feliz.

Josimar conseguiu ser muito bem sucedido nesta carreira de contador porque era também um notável pesquisador. Estava sempre atento ao que as pessoas gostavam e precisavam.

Este binômio é a alavanca do interesse e da atenção.

INSTRUIR OS OUVINTES

Para que os ouvintes possam entender e valorizar certos momentos da história, eles têm que obter certos conhecimentos.

Josimar observou isto, quando o Sr. Arnaldo começava a contar uma história que envolvia alguns conhecimentos que os ouvintes ainda não dominavam. Por exemplo:

Um dia, ele estava contanto um “causo” de como atravessara com muito medo a ponte por onde passava um trenzinho e que dava acesso à fábrica onde sua irmã trabalhava. Ele levava marmita para ela e indo pela ponte encurtava muito o caminho. Teve então que descrever a ponte, que não tinha sido preparada para pedestres e, quem quisesse atravessá-la teria que ir pulando de dormente em dormente. Teve também que explicar que o trenzinho apitava a uns trezentos metros antes de chegar àquela ponte.

Todas estas explicações porque ele sabia que bem poucas pessoas haviam transitado por ali.

Josimar também viu isto num filme que contava a história de um vampiro.

No filme, um dos protagonistas instrui alguém sobre as características dos vampiros. Explica como as pessoas se transformam em vampiros e como se deve combatê-los. De sorte que, quando uma jovem se recusou terminantemente a receber de presente um crucifixo, o público já ficou informado de que ela havia sido mordida pelo vampiro.

Também, no momento em que a cortina é rasgada deixando entrar a luz do sol, todos já sabiam que isto significava o fim do vampiro.

Assim, quando Josimar estava planejando a narração, levava sempre em conta o nível de conhecimento do seu público.

O ENVOLVIMENTO DE QUEM OUVE A HISTÓRIA IDENTIFICAÇÃO

Josimar descobriu através da observação que algumas pessoas se emocionavam mais que outras, mas, em geral, dependendo da estratégia aplicada, todos se envolviam, identificando-se com os protagonistas da história. Podiam mesmo quase experimentar suas sensações.

Um dia, ele contava uma história em que a mãe explicava à filhinha de quatro anos a diferença entre o limão e a laranja. Esta não era a parte mais importante da história, mas contou, em detalhes, como o limão fora cortado, como exalou o seu aroma e como a mãe mordeu o limão aberto, demonstrando que o limão era azedo, mas que não fazia mal. Depois, deixou que a filha desse uma leve lambida no limão verde.

Neste momento, Josimar percebeu que todos os ouvintes estavam com a boca cheia de água e rindo do fato.

Mais tarde, ninguém comentava o desfecho da história. Era comentado mesmo o momento em que todos ficaram com a boca cheia de água.

Por medo, superstição, ambição, desejo de vingança, inveja, altruísmo, fé religiosa, sensualidade, generosidade, sadismo, insatisfação ou amor viajamos na emoção desencadeada pela história.

Josimar, então, tratava cuidadosamente dos detalhes para construir na mente dos ouvintes as situações que o protagonista enfrentava e mais, o mais importante, como ele se sentia, em função de suas características psicológicas.

Assim, os ouvintes, ao se identificarem com o protagonista, sentiam todas as suas emoções, transmitidas pela magia da voz do notável contador.

O DOMÍNIO DA LÍNGUA

Josimar lia muitas histórias e todas elas eram escritas em bom Português, isto é, respeitando as regras gramaticais. Mas uma coisa é escrever uma história, outra é contar uma história.

A linguagem que se deve usar ao contar uma história tem de estar alinhada ao tipo de público ouvinte.

No caso do contador, Sr. Arnaldo, o público dele era quase exclusivamente de pessoas pouco letradas. Ele também não tinha grandes conhecimentos da língua. Mal cursara os quatro anos primários e apenas conseguira alfabetizar-se. Pouco lia e as histórias que contava ele as haviam ouvido de outros contadores ou mesmo presenciado alguns fatos.

Como tinha excelente memória para detalhes, era dono de aguda observação e gostava muito de contar histórias, tornou-se um contador notável. Contudo, o linguajar simples, jocoso, próprio das pessoas do campo, encantava a sua platéia.

Bem cedo, Josimar percebeu que para contar histórias àquela platéia, teria que ajustar o seu modo de falar sem, entretanto, imitar o Sr. Arnaldo porque aí ficaria falso e as pessoas perceberiam.

Assim sendo, adotou o meio termo. Nem eufemismo, nem caipirismo. Poderia sim, usar o termo “de fianco” para falar oblíquo, “de fasto” para falar retroagir, “buiento” para falar ruidoso, “trem” para falar elemento, “eslargá” para falar ampliar, etc., que eram palavras bem conhecidas.

Pornografia, nem pensar. Embora muito simples, eram muitos respeitosos e religiosos. Já, em aula, Josimar tinha que contar as histórias em bom Português porque tinha que dar bom exemplo aos alunos.

A MORAL DA HISTÓRIA O OBJETIVO DA HISTÓRIA

Josimar aprendeu que quando se conta uma história, alguma coisa se aprende e alguma coisa se ensina, porque a maioria dos ouvintes se identifica com os protagonistas e o envolvimento pode ser muito grande. Aliás, o grande interesse de Josimar era mesmo utilizar o conto como recurso pedagógico em suas aulas de História.

bem sucedido através de certas

estratégias, elas ficam arquivadas na mente dos ouvintes, que poderão aplicá-las nas oportunidades que surgirem em sua vida real.

Assim,

se

o

protagonista

é

Desta forma, ele aprendeu a tomar muito cuidado para não transmitir maus exemplos que viessem no futuro produzir comportamentos incompatíveis com os valores consagrados por sua comunidade.

Ele teria também

que evitar que pessoas do

meio, com certas

características dos personagens, fossem rotuladas.

A narração de uma história pode ter vários objetivos. Para obter riso, ela tem que ser engraçada.

Para motivar aperfeiçoamento de comportamento ela tem que ser exemplar. Para encartar um argumento ou um ensinamento, ela tem que apresentar, no mínimo, uma metáfora pertinente, que desperte o interesse. Para obter adesão a um movimento, sociedade ou empreendimento, ela tem que contar a saga de alguém que aderiu a movimento similar e que obteve êxito.

Josimar aprendeu isto, vendo alguns comerciais na televisão, onde se contavam pequenas histórias de alguém que usou o produto que estava sendo oferecido e ficara satisfeito.

Assim sendo, Josimar aprendeu que toda história carrega consigo um objetivo que precisa ser identificado no momento de selecioná-la. Numa festa, numa roda de amigos, não se conta algo triste que venha a esvaziar toda a energia que produzia alegria do encontro. Também não se

conta uma história super hilariante em meio a um sermão em ambiente religioso, produzindo gargalhadas.

Em atenção ao objetivo enunciado, têm-se que destacar, de forma estratégica, os aspectos alinhados a ele. Tem-se mesmo que ficar bem claro o porquê da história que está sendo narrada para que, ao final, nem seja necessário dizer qual a moral que ela encarta.

Josimar aprendeu isto, quando, algumas vezes, após o término da narração, alguém lhe perguntava:

E aí, Josimar, o que você quer dizer com esta história?

Quando isto ocorria, ele já sabia que faltara algo a ser destacado e, então, de volta para casa, avaliava o ocorrido, identificava a falha e aperfeiçoava a história.

MEMORIZANDO A HISTÓRIA

Há histórias com poucos detalhes, há histórias com muitos detalhes.

Há detalhes que pouca influência pode oferecer, entretanto, há alguns que são mesmo imprescindíveis e, caso sejam omitidos, isto pode enfraquecer a história. Então tem-se mesmo que memorizá-los muito bem.

Josimar sentiu isto na pele, quando contava uma história aos alunos e, de repente, percebeu que estava omitindo elementos importantes. E o pior, não conseguia mesmo lembrar-se deles. Passou então a dar grande importância o processo da memorização.

Achava incrível esquecer de alguma coisa na história porque a narração é sempre seqüencial, um fato puxa outro e ela vai assim até o fim. Entretanto, quanto aos detalhes, tem-se mesmo que memorizar muito bem. Mas como fazer isto com segurança?

Uma coisa é contar uma piada ou uma história breve a um grupo de amigos no bar, num vestiário ou num ônibus. Outra coisa é narrar para uma platéia com mais de cinqüenta pessoas, onde é normal estar-se sob a pressão da emoção.

Se

não

tiver

a

história

firmemente

memorizada,

pode-se

esquecer de detalhes importantes e perdê-la num vazio.

Josimar comprou livros que ensinavam a turbinar a memória e também fez um curso por correspondência. Não acreditava nestes processos para melhora da memória, mas preferiu tomar contato com eles ao invés de desprezá-los precipitadamente, sem verificar primeiro a sua validade. E não é que funcionou?

Ele não prestou muita atenção aos exercícios todos de memorização, mas aprendeu que, na história, a ferramenta da associação caia como uma luva. Comparou-a com a deixa no teatro, quando o ator sabe o que tem que falar porque esta fala está associada à última palavra que foi dita pelo interlocutor. Às vezes a deixa é um som ou mesmo um gesto, uma entrada de outro ator. Aprendeu as leis da associação. Exemplo:

Se quisermos enumerar todas as coisas que observamos no caminho de casa, basta seguirmos a seqüência como se estivéssemos caminhando para casa. Vamos então lembrar de cada esquina, padaria, posto de gasolina, igreja, etc.

Podemos também associar as coisas por padrões. Exemplo:

Alho, cebola, sal, pimenta - padrão temperos;

Alicate, chave de fenda, martelo, prego – padrão ferramentas;

Lápis, borracha, caderno, caneta, livro - padrão escola;

Tesoura, tecido, agulha, linha botão – padrão costura;

Também podemos associar pelos contrastes:

Bem, mal - baixo, alto - noite, dia - claro, escuro.

Josimar pôde então, através destas associações, memorizar com segurança os detalhes. Por exemplo:

Quando ele contava uma história em que depois de morto ouvia-se o

chinelo do avô arrastando-se no corredor, era muito importante citar os detalhes do chinelo arrastando-se e fazendo o ruído característico. Então associava fraqueza das pernas do ancião caminhando com dificuldade, isto

é, arrastando

arrastar-se. De que forma poderia ser ouvido? Pelas janelas que davam para o corredor. A palavra corredor lembra janelas porque são elementos que pertencem ao padrão residência. Se estes detalhes fossem omitidos, a história ficaria sem sentido.

Que fazia o que? O ruído de

O que? Ora,

o chinelo

Mas e a seqüência da história, como mantê-la perfeitamente alinhada quando narrá-la? Como memorizar tudo isto?

Josimar aprendeu a dividir a história em vários blocos, à maneira de um livro dividido em capítulos, mesmo que a história fosse curta. Desta forma, memorizava perfeitamente cada bloco, deixando armada uma deixa, uma palavra para iniciar o próximo com segurança.

Uma história poderia ter quatro, cinco ou mais blocos, que todos seriam lembrados com todos os seus detalhes porque estavam interligados por uma deixa, uma chave.

Eis uma história que Josimar contava sempre com muito sabor e sempre lhe pediam para repeti-la:

“EDUCAÇÃO, PEDRAS E FLORES” 1 - Resumo: A história de um menino de doze anos que fora apanhado pela professora, quando mexia em sua bolsa para roubar. A professora perseguiu-o, mas como não conseguiu apanhá-lo, indignada atirou uma pedra. Mesmo sem intenção, acertara as costas do menino. O menino então procurou uma pedra e guardou-a para atirá-la na professora na primeira oportunidade. Contudo, não conseguiu perpetrar a vingança, quando conheceu melhor a professora num episódio onde ela revelou toda a sua ternura.

PRIMEIRO BLOCO: Trata do perfil do menino Manoelzinho e como ele começou a roubar. Na história, ele interage com a professora. Desta forma, Josimar terminava o primeiro bloco com a palavra PROFESSORA. Era a deixa para entrar no segundo bloco, que traçava

o perfil da professora.

SEGUNDO BLOCO: Trata do perfil da professora. Sua pouca idade, beleza, impulsividade, energia com os alunos, principalmente com o Manoelzinho que ela já percebera muito levado. Ele terminava este bloco com a palavra LEVADO, deixa para o terceiro bloco.

TERCEIRO BLOCO: O flagrante. O momento em que o menino é apanhado roubando. A perseguição e a pedrada sem intenção, mas que acertara o alvo. Terminava o bloco com a deixa PEDRA.

QUARTO BLOCO: A dor nas costas, o desejo de vingança, o planejamento. Como ele planejara acertar a professora numa manhã de domingo, a deixa era MANHÃ.

QUINTO BLOCO: O cenário da manhã, a professora abrindo a janela e

o menino a espreitando carregando a sacola com algumas pedras. Na

janela havia flores. Como o detalhe flores é muito importante na história, então Josimar as punha em destaque para o bloco seguinte

A deixa era então FLORES.

SEXTO BLOCO: A professora está linda na janela beijando as flores. Manoelzinho desiste da vingança e volta para casa. Como vai

1 História: EDUCAÇÃO, PEDRAS E FLORES, vide página 49.

enfrentar a professora no SEGUINTE.

dia seguinte? A

deixa agora

é

DIA

SÉTIMO BLOCO: A cena em que Manoelzinho, no dia seguinte, pede desculpa à professora e promete nunca mais roubar.

Assim, Josimar preparava a narração e não esquecia nenhum detalhe, nem se perdia na seqüência da história. Tinha então liberdade para tratar cada bloco com todo molho, observando a reação da platéia, sem o risco de perder seqüência da história.

COMO INICIAR A HISTÓRIA

Josimar, observando outros contadores de histórias, aprendeu que só existem duas formas de iniciar a narração, isto é, a boa e a ruim.

Havia contadores que faziam uma longa preparação, descrevendo os personagens, os cenários e a situação reinante, para somente, bem depois, iniciar o relato das ações.

Isto tornava o preâmbulo muito monótono e acontecia mesmo que algumas pessoas começavam a conversar e até deixar o recinto.

Então ele estudava bem a história, começando muitas vezes pelo final, pelo desfecho.

A história é que iria contar como as ações dos personagens, em

interação com o ambiente e com as situações, teriam desembocado ali,

produzindo aquele final.

Ele, por exemplo, começava assim:

Vou

contar a história de

cometeu, acabou riquíssimo

um homem, que de tantos erros

que

É claro que todos os ouvintes desejavam agora saber que erros

teriam sido estes afinal. Pronto! O interesse já havia sido conquistado.

Ou então:

A história que vou contar é de um garoto de quinze anos que estava apaixonado pela professora de quarenta e decidiu empregar

todos seus esforços para conquistá-la, pois tinha certeza de que ela

Ela tinha um grave defeito na face, mas isto não

gostava dele

fazia diferença alguma porque o menino era cego

Era assim que ele começava o relato, com um ritmo forte, desde o início, com muita ação.

Não era fácil fazer isto. Era necessário estar muito seguro de como se sucediam todas as ações, sem cometer nenhuma incoerência, sem omitir aspectos importantes responsáveis pela clareza da história. Mas o seu repertório era composto de histórias muito bem construídas para serem contadas com toda segurança.

Onde ele aprendeu isto? Assistindo a filmes que tinham um início com muita ação para logo após vir o elenco resumido.

O elenco em detalhes, contemplando todos os créditos, ficava para o final, para quem tivesse o interesse e a paciência de assisti-lo. Quando ocorria o contrário, ficava mesmo maçante, assistir a um elenco todo detalhado para depois dar-se início ao filme, à história.

DESCREVENDO OS PROTAGONISTAS

Há muito que explorar descrevendo os personagens. Pode-se falar do físico, idade, saúde, do caráter, da situação social, padrão de vida, sonhos, desejos, ansiedade, traumas, etc.

A descrição dos personagens é extremamente importante, pois a força da história está no relacionamento entre as suas características e as situações que se sucedem, em razão de suas atitudes ou independente delas.

As situações podem ser criadas pelo personagem ou acontecerem fora do seu controle. Mas, de qualquer forma, a força da história está na forma com que o personagem é atingido pelas situações e como reage, conforme as suas características. Assim sendo, as características que devem ser destacadas são aquelas que influenciam os fatos ou através das quais o personagem é influenciado.

CARACTERÍSTICAS FÍSICAS: Velho, jovem, criança, adulto, etc.; Gordo, magro, atlético, baixo alto, gigantesco, anão, forte, fraco, doente, saudável, cabeludo, calvo, barbudo, ágil, lento, atlético, etc.; Bonito, feio, elegante, relaxado, perfumado, mal cheiroso, refinado, asseado, desleixado, etc.

Não basta, por exemplo, dizer que o cabelo da donzela era sedoso. O narrador tem fazer com a mão o movimento de tocá-lo com carinho, como que sentindo-lhe a textura delicada entre seus dedos. Há que fazer com que

o público sinta também.

CARACTERÍSTICAS SOCIAIS: Rico, pobre, miserável, mendigo, trabalhador, desocupado, aposentado, bom profissional, picareta, religioso, ateu, respeitável, respeitoso, colaborador, atencioso, etc.

se

relaciona com o mundo. Um professor prestigia a Educação. Um bibliotecário prestigia o livro. Um engenheiro, a construção. Um esteticista,

a beleza.

PROFISSÕES:

Conforme

a

profissão,

assim

o

personagem

Estas características têm que ser muito bem destacadas se tiverem relação com as situações.

verdadeiro,

mentiroso, responsável, leviano, trabalhador, preguiçoso, colaborador,

indiferente, religioso, ateu, desapegado, sovina, comilão, comedido, respeitador, irreverente, sábio, bronco, etc.

CARÁTER:

Bondoso,

maléfico,

honesto,

desonesto,

Durante a narração, não basta dizer que fulano é honesto. Terá que ser contada uma passagem de sua vida em que ele demonstrou isto. Exemplo:

Quando André encontrou a carteira recheada de notas altas, imediatamente concluiu que havia sido perdida por alguém muito rico. Com aquele dinheiro, André poderia sair de algumas situações difíceis em que se encontrava naquele momento.

Mas depois pensou:

Será que quem perdeu este dinheiro não estaria numa situação muito pior que a minha? Se eu não a entregar, como ficará minha consciência?

Então remexeu toda a carteira até achar um documento que identificava o dono dela. Não o conhecia, mas procurou-o e entregou-lhe o achado. O dono quis dar-lhe algum dinheiro pela honestidade, mas André não aceitou.

Com este fato, ficava patente na história que André era honesto.

DESCREVENDO AS SITUAÇÕES

Foi lendo muitos romances que Josimar aprendeu a descrever as situações que envolviam os personagens de suas histórias.

Aprendeu que não basta relatar as situações com que o protagonista se defronta. Tem que ser relatado, com muita habilidade, como ele a vê, como a interpreta, como se sente diante dela, o que passa pela sua mente, o que mais deseja naquele momento, se deseja fugir ou aproximar-se.

Tudo isto tem que ser relatado com muita riqueza, mas também com muita habilidade para não escorregar na incoerência. Além disso, a reação do personagem, exteriorizada ou interiorizada, é deixa para a continuidade da história.

Muitas vezes, as situações que enfrenta podem modificar o caráter do personagem para melhor ou, então, revelar a sua fraqueza ou torpeza de alma.

Tudo isto pode ser relatado em detalhes, levando o personagem a fazer uma retrospectiva de sua vida em poucos segundos e agir bem ou mal, com coragem ou esvaziado dela.

É claro que as situações se modificam no curso da história com a influência das ações do protagonista.

Desta forma, tem-se que tornar o relato muito claro porque, muitas das vezes, um pequeno detalhe é que faz a diferença e se não for bem destacado, pode-se perder o sabor da história.

Havia uma história que Josimar contava e que envolvia o uso de uma escova para cabelo. Ela surgia várias vezes durante o relato. Então, ele a descrevia na cor, no formato, na leveza das cerdas, na anatomia do cabo, nos arabescos dourados que a decoravam, etc. Dando um toque de sensualidade, comparava-a com o corpo de uma bailarina.

E mais, como era sentida pelo tato do personagem, que muito a

valorizava por ter pertencido a uma pessoa extremamente querida por ele, o detalhe escova ficava fortemente gravado na mente dos ouvintes, que

compreendiam bem o poder de influência que ela exercia. Assim, cada vez que o personagem tocava na escova, o público também lhe sentia a influência.

Os filtros através dos quais os personagens interagem com as situações é que enriquecem as situações.

AMBIENTAÇÃO

Josimar aprendeu no cinema, no teatro e nos livros de contos a importância de se construir o cenário onde ocorre a história.

Estava sempre atento, observando essas estratégias e tomando nota. É claro que todos os fatos ocorrem no tempo e no espaço.

Para que uma história seja

boa, o espaço

e o

tempo têm que

se

harmonizar com ela. Tem que dar-lhe o colorido pertinente.

O contador de histórias tem livre trânsito no passado, no presente e

no futuro. Quanto ao cenário, pode construí-lo com toda a propriedade da imaginação, enriquecendo a história.

Para dar força ao conto, Josimar tinha que navegar ora ao passado imediato, ora ao passado remoto. Muitas vezes tinha mesmo que viajar para o futuro.

Contar uma história de assombração que se passa numa praça pode até ser boa. Mas quando Josimar contava uma história de assombração, ele a ambientava no cemitério ou numa igreja em ruínas ou, ainda, num casarão antigo abandonado, com muita poeira, móveis em péssimo estado corroídos pelo tempo ou por cupins. Descrevendo as janelas, as descrevia caindo das dobradiças, com os vidros embaçados pela poeira e muitos deles quebrados. Lá fora, aquilo que fora jardim, agora era um matagal tenebroso. O único banco que sobrara estava apodrecendo. O telhado todo quebrado produzindo muitas goteiras. E, para arrematar, a presença de alguns morcegos que adotaram a residência.

Os circunstantes, caso o protagonista interagisse com eles, eram sempre misteriosos. Josimar os descrevia com roupas e atitudes inusitadas, exóticas. As cores? Sempre cinza e preto.

Também era explorado o cheiro que o ambiente exalava, umidade, podridão.

O tempo? A hora? Eram sempre altas horas da noite.

O protagonista? Pobre dele. Estava sempre sozinho, desprotegido, amedrontado, obrigado a permanecer naquele ambiente.

A temperatura ambiente? Fria, gélida. Lá fora, vento forte, uivante.

Assim, Josimar construía o cenário para uma história horripilante.

Depois, ao final da narração, desmontava todo este cenário, produzindo um final hilariante e contando, em seguida, uma historia alegre, engraçada envolvendo bichos, crianças, música, dança, etc. Agora o cenário já era outro. Muita luz, muita cor, flores, perfume, limpeza, etc.

Ele achava que, com isto, desarmava os pensamentos mórbidos que a história poderia ter produzido na mente dos ouvintes.

CENÁRIOS PRINCIPAIS, CENÁRIOS OCULTOS

O cenário, onde transcorre a história, tem parte ativa, através dos

elementos que o compõem, influenciando as ações dos protagonistas, ofertando recursos para que os ouvintes as interpretem, as avaliem e compreendam as sutilezas dos fatos que estão sendo relatados.

Há cenários materiais e cenários abstratos, sociais, psicológicos, existenciais etc. Eles se misturam às situações que se formam com ou sem

o concurso dos personagens, sendo muitas vezes a razão da história.

Mas nem sempre os cenários estão todos revelados. Há um cenário principal e, muitas vezes, um cenário oculto, influenciando todo o contexto.

Um exemplo de cenário principal sendo influenciado por um cenário oculto é aquele do caso de um vendedor de imóveis se debatia tentando encontrar argumentos para vender uma casa a um casal, que até desejava fazer a transação, mas nunca se resolvia a fechar o negócio. Este era o cenário principal, clarificado, de primeiro plano.

Então, um outro vendedor mais experiente procurou verificar se havia

algum cenário oculto e descobriu que, por traz do interesse do casal, havia

a influência da mãe do rapaz, que detestava a idéia de que fossem morar

longe dela. Sem conhecer este cenário, o vendedor inexperiente não sabia

que argumentos poderia utilizar para convencer o casal.

A venda se concretizou, quando através de hábeis manobras, foi

produzida a negociação com a presença da mãe, que se convenceu que a casa em negociação não era assim tão distante.

Com base neste fato, Josimar construía uma história partindo do cenário principal, deixando os ouvintes intrigados com a forma com que a história fluía.

Somente, depois, com o desenvolvimento da narração é que ia, aos poucos, fornecendo pistas para que os ouvintes percebessem que havia algo por traz dos fatos, influenciando-os.

Muitas vezes era o caráter do personagem, cujas ações eram incompatíveis com o modelo que aparentava, sendo influenciadas por uma experiência anterior, que produzira traumas difíceis de reverter. Doutras vezes eram os interesses espúrios que os personagens não revelavam no início do conto.

Enfim, fatos, experiências, interesses, medos ocultos influenciando o cenário principal, que às vezes se apresentava como um jardim florido, porém ocultando serpentes entre as flores.

Estes cenários ocultos, quando por fim eram revelados, davam um toque de mestre na história com o elemento surpresa.

O mais curioso é que, quando Josimar contava este tipo de história, a

pedido dos ouvintes que já a conheciam, eles ficavam atentos, ansiosos

pelo momento em que Josimar revelava o cenário oculto, que já lhes era conhecido e vibravam com o final.

Josimar comparava isto com o fato de crianças adorarem assistir ao mesmo filme várias vezes.

Quando a pedido, ele começava a repetir uma de suas histórias e algumas pessoas exclamavam:

Esta história eu já conheço!

Mas ficavam atentas até o final da narração. Rindo, quando ela era engraçada ou comentando a moral da história com os outros ouvintes.

O TEMPO NA HISTÓRIA

A história ocorre no tempo. Não há como dissociar isto. Então, o

tempo é um elemento extremamente importante na história e deve ser muito valorizado.

Josimar não sabia como fazer com o que os ouvintes sentissem o passar do tempo em toda a sua dimensão, em toda a sua força.

Foi vendo um filme que aprendeu isto. O filme conta a história de um soldado que permanecera na atividade da guerra, fora do seu país, durante mais de cinco anos e depois retornando para casa, onde se defronta com situações inesperadas em razão das mudanças ocorridas enquanto esteve no exército.

Ficaria muito vazio, simplesmente mostrá-lo indo para o campo de luta e voltando em seguida, após decorridos os cinco anos.

O filme não mostra de pronto como as mudanças vão se realizando

na sua cidade e em casa, com sua família, durante aquele tempo. O impacto é justamente este. Ele se faz, quando da volta do soldado.

Mas, como foi que o tempo passou?

O filme, para demonstrar o tempo passando, vai relatando o que

ocorre em cada um dos cinco anos, nas batalhas, nas trincheiras, nas vitórias, nas derrotas, nas fugas, no relacionamento entre soldados e

superiores, entre eles e os inimigos prisioneiros.

Mas isto daria apenas um filme de guerra, que

não

é

o objetivo

principal do filme. A essência da história, porém, é o impacto da sua volta. Mas como preparar isto?

Bem, enquanto o soldado está na guerra, recebe correspondência de casa, com fotos da família, lembranças, fotos, etc. Isto faz com que espectador esteja informado da angústia dele com a expectativa da volta. Ele também sonha com sua casa e a companhia da esposa.

Toda a dimensão espectador.

do

passar

do

tempo, então, é sentida

pelo

A forma como as coisas mudaram em sua cidade e em sua casa é

mostrada depois, através de uma retrospectiva, comparando-a numa forma

de sincronismo com o que ocorria na guerra no mesmo tempo.

Assim, quando Josimar contava uma história e falava do tempo que passara, nunca dizia de forma resumida:

Passaram-se cinco anos.

Ou ainda:

Depois de cinco anos

Ele valorizava cada ano que passava, com alguns fatos.

Depois de um ano, aconteceu

No segundo ano, foi feito isto

No

terceiro ano, ele já pensava diferente, pois passou a agir

Então,

passados cinco anos, fez um balanço do que ocorrera neste tempo todo

O

tempo passado não pode ser relatado em interação somente com o

personagem principal, mas também com todos os envolvidos na história. Às

vezes tem-se mesmo que relatar ocorrências do passado para explicar certas situações, certos desfechos. E ainda, por vezes, reservar estas explicações como elemento surpresa.

CONTANDO A HISTÓRIA

Josimar aprendeu logo que para contar uma história com êxito, teria que conhecê-la, detalhe por detalhe, para não ficar indo e vindo a todo o momento, isto é, voltando para um momento anterior porque lembrou-se dele agora que a seqüência da história o reclama, para ter sentido.

Observou isto quando uma pessoa contava a história de um violinista não valorizado pelo próprio pai:

Então

o violinista

levou

seu

pai

ao concerto,

sem que

ele

soubesse que o concertista seria o filho que o levava

Há!

mas

antes, lá em casa o pai lhe dissera

Esta parte em negrito é o que o contador esquecera de relatar e estava retornando por se tratar de parte importante do relato. O ritmo fôra então quebrado e a parte seguinte perdeu o vigor.

Ele também aprendeu a usar

a

voz na medida

certa, com bom

volume, de acordo com o tamanho da sala e atento à acústica. Às vezes,

sentia que tinha que posicionar-se no centro da sala, para que todos pudessem ouvi-la.

Aí complicava um pouco, pois tinha que virar-se a todo o momento

para dar atenção a todos.

A velocidade da narração também tinha que ser adequada. Se muito lenta, ficava monótona e, se muito rápida alguns ouvintes não conseguiam acompanhá-la.

O ritmo é muito importante. São os contrastes entre rápido e

lento, baixo volume e volume mais alto. Tonalidades diversas acompanhando a emoção do relato é que dão colorido à apresentação.

Mas a pronúncia tem que ser bem articulada. Josimar fez tantos exercícios de articulação que chegou a ter câimbras no maxilar.

Os braços e as mãos têm que acompanhar a fala, pois também falam.

Às vezes, o contador utiliza apenas um gesto e ele tem muito mais

expressão que a fala na história.

A expressão facial também tem que acompanhar a exposição.

Contador tem que aprender a fazer cara de triste, alegre, arrogante, invejoso, desconfiado, medroso, raivoso, satisfeito, assustado, surpreso, sensual, indiferente, aborrecido, etc.

Josimar aprendeu depressa a usar estes recursos para enriquecer os momentos em que contava as histórias. E foi mesmo observando as pessoas, na vida real, em diversas situações é que aprendeu isto.

Dentro da seqüência da história, tem que se tomar muito cuidado para não incorrer em certas incoerências. Por exemplo:

Numa história em que o protagonista fica muito rico, o contador escorregou quando, referindo-se a um momento em que ele estaria ainda muito pobre, disse que teria adquirido muitas terras. Esta parte somente ocorreu quando ele já teria iniciado a ganhar sua fortuna.

O contador se perdera no tempo e, quando percebera o erro, teve que retificar, perdendo energia e comprometendo a narração.

Josimar, aprendiz aplicado, tomou nota da gafe.

DIÁLOGOS BEM CLAROS EXPLICITAR DE QUEM É A FALA

Uma das coisas que dificultam a compreensão na história é o relato imperfeito dos diálogos.

Muitas vezes, lendo histórias, Josimar tinha que retornar várias linhas atrás para entender bem as situações porque o escritor era econômico em informar de quem tinha sido a fala, nos diálogos, limitando-se somente a escrever o que fora dito. Por exemplo:

Acho que vou sair daqui agora - disse Roberto.

Não vai não porque eu não vou deixar.

Reinou-se

então

um

discussões prosseguiram:

clima

extremamente

desagradável

e

as

Estou cansado de suas mentiras, de sua deslealdade.

– Como ousa falar assim comigo?

Depois de falar do clima, quem é que falou? O leitor fica confuso.

No caso da leitura, o leitor pode sempre retomar a leitura linhas atrás para compreender, mas durante a narração não há como a não ser que alguém interrompa o contador para perguntar de quem é a fala afinal.

O contador tem que dar explicações e pode ocorrer uma quebra de ritmo. É claro que ficaria muito cansativo estar todo o tempo dizendo “fulano falou, sicrano respondeu, fulano falou outra vez, sicrano retrucou“.

Mas há vários recursos para evitar estas repetições.

Uma delas é, diante de uma afirmação de fulano, descrever primeiro a reação de sicrano para depois dizer o que ele respondeu. Por exemplo:

– Então André afirmou:

Seu trabalho está sendo inútil em razão de sua incompetência.

Naquele momento, Amadeu sentiu o sangue ferver. Como André se atrevia a criticar sua competência? Como poderia falar assim de uma experiência de mais de quinze anos? Então retrucou espumando:

Que condições você me ofereceu para o que trabalho saísse a contento?

Além de evitar as desagradáveis repetições, ainda enriqueceu o clima do diálogo.

O CORPO TAMBÉM FALA

Assistindo a um filme do Zorro, Josimar observou a importância das expressões corporais durante a narração, pois lhe dão muita força.

No filme, há um personagem, amigo do Zorro, que é mudo, mas tudo que ele diz com gestos é compreendido pela platéia. E é justamente por comunicar-se desta forma que fica engraçado e o torna muito simpático para o público.

Desta forma, Josimar começou a prestar atenção às pessoas que falam gesticulando e se expressando com o corpo.

Aprendeu que ao falar de frio, tem que encolher-se com os ombros perto das orelhas e esfregando as mãos.

Falando de calor teria que abrir a boca, e abanar-se com as mãos.

Com medo, teria que encolher-se e ficar mexendo com a cabeça na horizontal olhando para os lados como se esperando algo acontecer.

Com coragem, estufar o peito, levantar o queixo, lábio inferior à frente do lábio superior e com os punhos cerrados.

Tranqüilo, recostado na cadeira e com as mãos na nuca.

Ansioso, esfregando as mãos, agitando as pernas e olhando em volta sem fixar-se em nenhum ponto.

Sentindo um cheiro ruim, franzindo o nariz e fungando.

Sentindo

um

perfume,

com

o

queixo

levantado,

suspirar

profundamente, com os olhos semi-cerrados.

Preocupado, inclinado para a frente, mão no queixo e olhar no

vazio.

Feliz, mãos abertas com as palmas para baixo, braços esticados, sorriso largo.

Zangado, senho franzido, dentes à mostra, ombros erguidos, cabeça inclinada para a frente e olhar para a frente, como um animal que vai atacar.

Bondade, braços descontraídos, cabeça levemente inclinada para o

lado.

Repulsa, tronco inclinado para traz, braços fortemente estendidos para a frente e mãos abertas tensas.

Falando de um homem alto, erguer bem a mão como se o estivesse medindo.

Falando de um homem baixo, baixar a mão e movê-la como se estivesse afagando a cabeça dele.

Se falar de uma explosão, encolher-se, fechar os olhos, contrair a face, agir como se a tivesse ouvido e se assustado.

Falando de alguém carregando um grande peso, encolher-se e falar de forma espremida.

E teve que aprender observando a cada dia as expressões usadas pelas pessoas enquanto falavam.

Todas as pessoas que estiverem interessadas em aprender a contar histórias têm que desenvolver o senso de observação e estar atentas às múltiplas expressões corporais que as pessoas apresentam a cada momento.

O SUSPENSE

No cinema ou no teatro, Josimar, que era extremamente sensível às cenas, identificava-se intensamente com os protagonistas e lhes sentia todas as emoções.

Numa

seqüência

de

cenas

de

suspense,

ele

quase

perdia

a

respiração, transpirava e até mesmo já tinha se pegado transpirando.

Mas como extrapolar este recurso para o conto?

Foi mesmo observando o Sr. Arnaldo é que descobriu várias formas de fazer suspense.

Foi quando ele contava uma história de fantasma 2 . A princípio pensava-se que o fantasma era mau. Mas próximo ao final da história, já se sabia que era um ancestral da família tentando avisá-la de um homem que desejava prejudicá-la. Como todos fugiam dele, não conseguia avisá-los.

Ao chegar ao desfecho, quando, afinal o fantasma iria aparecer para salvar a menina que se afogava na lagoa, ficava contando em detalhes o que o resto da família estava fazendo em uma festa, enquanto os ouvintes se desesperavam porque a menina estava morrendo.

Contando estes detalhes, muito devagar, interrompeu várias vezes a narração.

Primeiro para tomar um café que lhe foi servido.

Depois foi o bolinho. Comeu e ficou falando do petisco, elogiando a cozinheira e contando que em outro velório havia comido um bolinho com um sabor estranho.

Enquanto isto todos ficavam reclamando a continuidade da história, porque, afinal, a menina estava se afogando e o fantasma ainda não tinha avisado a família.

2 História O FANTASMA DO AVÓ, vide página 51

Enrolou durante mais de quinze minutos para, somente depois, contar que o caseiro do sítio viu o fantasma e, apesar de muito arrepiado, soube o que ocorria e correu para a lagoa salvando a menina, que tinha sido atirada lá pelo homem inimigo da família.

Então Josimar aprendeu que, para fazer suspense, pode se transportar para outro cenário enquanto os apuros ocorrem no cenário principal. Ou então ficar contando minuciosamente e lentamente as cenas que ocorrem até o esperado desfecho.

FINALIZANDO

Foi com esta dedicação que Josimar tornou-se um notável contador de histórias, não somente em velórios, mas em suas aulas também. Muitas vezes era convidado para abrilhantar reuniões de amigos, almoços, chás beneficente, etc.

Mais tarde, começou a ensinar

a

arte

de contar histórias

e

foi

orientador de professores, pais, artistas e palestrantes religiosos.

A atividade de contar histórias é, a rigor, um trabalho de exposição

verbal. Nesta atividade, quem expõe se expõe, portanto precisa se expor

bem, com elegância, disposição e bom humor.

Tem-se mesmo que ser simpático à sua platéia porque em todo trabalho de exposição verbal entra o processo de sedução. Se o público gostar do contador, ouvirá com gosto até as histórias mais fracas. Em caso contrário, as melhores histórias não sensibilizarão.

Então é preciso muito cuidado para não ferir os sentimentos de alguém que, de repente, seja identificado com o protagonista passando a ser alvo de chacotas dos amigos.

É muito comum contarem-se histórias onde o protagonista pertence à

determinada religião, nacionalidade ou região do país, produzindo generalização. Pode-se com isto gerar ressentimentos, comprometendo a imagem do contador de histórias.

De qualquer forma, se você deseja ser um contador de histórias, não basta ler este livro somente. Terá que praticar constantemente as técnicas contidas nos capítulos apresentados.

Não temos a pretensão de afirmar que somente através destas técnicas que o contador obterá sucesso. É claro que há outras estratégias, porém com estas aqui apresentadas e bem praticadas você poderá conquistar o prazer, o enorme prazer de encantar o público com uma magnífica narração e fazer amizades incríveis.

BOA SORTE !!!

HISTÓRIA:

EDUCAÇÃO, PEDRAS E FLORES

Manoelzinho era um bom menino mas começou a descambar para o vício de roubar. Tinha então doze anos.

Primeiro algumas frutas, alguns objetos e, um pouco mais tarde, já estava roubando dinheiro.

Espreitando sempre uma oportunidade, mexia na bolsa das pessoas descuidadas e surrupiava algum trocado. Ainda não tinha coragem de roubar uma grande importância.

Um dia, foi apanhado em flagrante por sua professora, quando vasculhava sua bolsa após a aula. Ela ficou indignada e saiu atrás dele mas não conseguiu alcançá-lo pois o menino era veloz.

Então, já fora da escola ela lhe atirou uma pedra. Ela não percebeu que acertara o alvo, pois nem tinha esta intenção. A pedra acertara as costas do menino.

O impacto não produziu grande ferimento, mas a dor que ele sentiu

foi muito grande, talvez mais pela culpa ou pelo susto.

A dor acabou produzindo muita raiva. Vira sempre na professorinha a

personificação de amor e carinho e, de repente, uma agressão dessas causou um impacto muito grande.

Voltou mais tarde à escola e tentou procurar a arma da agressão, a pedra que o castigou. Havia no local várias pedras e , não podendo identificar com precisão qual o acertara, levou para casa umas três. Uma delas seria a tal.

Tinha um plano de vingança.

No dia seguinte, bem cedinho, com as pedras num pequeno saco, foi até a casa da professora e ficou à espreita, escondido num arbusto, defronte a janela que dava para a rua. Era domingo. Ninguém na rua tão cedo. O momento era propício para a vingança.

Pensava: – Na hora em que ela sair à janela eu a acerto com uma das pedras – Uma delas era aquela com que me havia acertado. - Esperou, esperou e esperou

Ela estava demorando muito a sair. Impaciente, pensou noutra vingança. Na janela, em que ela sempre vinha pela manhã, havia uns vasos de flores. - Vou destruir as flores e deixar as pedras no lugar. Ela vai entender o meu recado.

Estava ainda escondido arquitetando esta vingança, quando, de repente a janela se abriu ruidosamente, pois era um caixilho com duas folhas de correr, e lá estava ela. - Meu alvo – pensou ele.

Então, com as pedras na mão ficou a observar a professorinha que cuidava distraída das flores, sem desconfiar sequer do perigo que corria. Não se encorajava a atirar as pedras e isto lhe dava ainda mais ódio. Agora então, ódio de si mesmo por não ter coragem de perpetrar sua vingança.

Então, enquanto espreitava a professorinha observou o carinho que ela dedicava às flores da janela.

Ficou mesmo boquiaberto quando a viu beijando as flores. Ela parecia ter se levantado há pouco, pois ainda estava vestindo um roupão e com os cabelos meio despenteados. E como ficara lindo aquele quadro de quem parecia ter-se levantado para beijar suas flores. Despertou-lhe algo que nunca ainda havia sentido.

Manoelzinho sentiu algo pesado batendo em seu pé. Olhou para baixo e, com espanto, percebeu que era o saco com as pedras que distraído, olhando deslumbrado a professora, deixara cair.

Não, não, como poderia ele atirar uma pedra numa pessoa que estava beijando as flores?

Saiu de mansinho, ainda oculto pela folhagem e já a caminho decidiu

voltar.

Retornou ao lugar e apanhou uma das pedras. Levou-a consigo para casa e guardou-a na gaveta onde conservava suas coisas mais valiosas.

Na segunda-feira, foi pedir desculpas à professora, mas não revelou o episódio do dia anterior, defronte a casa dela. Então ficou sabendo que a professora ignorava tê-lo acertado com a pedra. Ficou mesmo surpresa e o abraçou comovida.

A pedra ficou guardada em sua gaveta e, por muito tempo, conservou-a como lembrança daquele momento. Agora, era uma grata lembrança.

Professora, pedras e flores, nunca saíram da cabeça de Manoelzinho.

Deixou de roubar.

HISTÓRIA:

O FANTASMA DA AVÓ

Não me lembro do nome dele. Nós o conhecíamos por Alemão, talvez por ser muito loiro e ter a pele muito clara.

Éramos colegas num curso noturno. Saíamos das aulas por volta das onze da noite e voltávamos para casa a pé, pois não era tão longe. Formávamos um grupo de umas dez pessoas. O Alemão morava perto da escola, por isso, quando passávamos por sua casa, nosso grupo estava ainda completo.

O Alemão

morava

com

a

família

contornando todo o prédio. Ele era rico.

numa

belíssima

casa

com

jardim

Depois que seu avô faleceu, o Alemão começou a ficar com medo de atravessar o jardim, à noite. Pedia que ficássemos lá na frente até que ele passasse pelos canteiros da frente, subisse a pequena escada que dava para uma varanda estreita de mais ou menos quinze metros, atravessasse essa varanda e alcançasse por fim a porta de entrada. Essa porta dava para a sala principal da casa.

Do lado esquerdo dessa varanda ficavam as janelas dos três dormitórios, do

lado direito uma balaustrada que dava para o jardim. De dia, muito bonito, mas à noite o cenário ficava meio tétrico. A iluminação era precária. A única luz que ficava acesa era aquela em cima da porta da sala principal.

Não condenávamos o Alemão por ter medo de passar por ali. Nós nem mesmo arriscávamos acompanhá-lo porque depois teríamos que voltar por ali sozinhos. Afinal de contas, o avô do Alemão havia morrido há poucas semanas.

Uma coisa estranhávamos. O Alemão nunca se revelara medroso. Por que agora todo esse pavor?

Isto durou pelo menos um mês. Repentinamente, quando chegamos uma noite em frente a casa, o Alemão não nos pediu para encorajá-lo, como vinha fazendo. Despediu-se e entrou descontraído.

Ficamos confusos. O que afinal acontecera? Porque o Alemão sentira medo? Porque ele estava tão desassombrado de repente?

Na cantina da escola, quando um professor faltou e ficamos aguardando a próxima aula, o Alemão revelou o que havia acontecido. Fora a assombração do avô.

- Assombração? – perguntamos curiosos –.

Morava com a família o avô, um ancião de oitenta anos. Tinha vários problemas de saúde e quase não saía de casa. Dividia um dos quartos com seu filho solteiro, um tio do Alemão. O tio dormia no quarto do velho para assisti-lo, pois precisava dar-lhe medicamentos várias vezes à noite.

Salvo estas pequenas preocupações, o velho não incomodava. Era até divertido. Jogava cartas com os filhos e netos e roubava no jogo. Depois que fazia isto, revelava que tinha roubado e chamava a todos de ingênuos, rindo muito. Também tinha muitas histórias para contar, com exagero, é claro.

Ultimamente, tinha insônia e, de madrugada, saía para o jardim da casa. Ouvia-se então, muitas noites, o ruído do seu chinelo se arrastando pela varanda. ”

Às vezes, aquele “chek

incomodar, principalmente ao tio que cuidava dele. Como as janelas dos dormitórios davam para a varanda, todo mundo na casa se aborrecia com o

“chek

do chinelo, de madrugada chegava a

chek

chek

chek

chek

Uma noite, de repente o ruído do chinelo cessou.

- Puxa! Graças a Deus ele entrou para dentro da casa. - pensaram -. Mas

logo cedinho, quando a mãe do Alemão ia sair para ir à padaria, um susto. Gritou em pânico. Todos se levantaram assustados.

O tio estava morto, estendido, de pijama e chinelo, no chão da varanda. Não

queriam alarmar os vizinhos, mas foi duro levá-lo para dentro da casa. Apesar de

estar doente ele era corpulento.

Foi sepultado no mesmo dia. O quarto onde dormia foi fechado. Ninguém queria mais dormir lá. O tio passou a dividir o quarto com o Alemão.

Então o terror. Logo na segunda noite após o passamento, o Alemão pensou

ouvir um ruído que vinha da varanda. E parecia mesmo “chek

chek

chek

”.

- Não, não. – pensou – Trata-se apenas de uma impressão. – Mas parecia

que o “chek

chek

” era mesmo real

O terror ganhou corpo mesmo quando no dia seguinte, à mesa do café, o pai

do Alemão perguntou:

- Vocês ouviram, nesta noite, um ruído na varanda?

Esta pergunta gelou o sangue de todos, que perderam totalmente o apetite. Nem precisavam responder. Estavam todos pálidos. Todos ouviram naquela noite o

“chek

chek

”.

Concluíram que era o ruído do chinelo do vovô.

E agora? O que fazer? Decidiram esperar por uns dias e depois chamar o

padre para benzer a varanda. Passou-se a semana e o ruído continuava. Falaram com o padre. Este assegurou que, após a missa do sétimo dia isto cessaria, pois que a alma do avô já estaria salva e não precisava ficar assombrando as pessoas no mundo.

Foi feita a missa. Foi feita uma novena na varanda. Todas as noites a família

prosseguia e cada vez mais

forte. Havia mesmo momentos em que o cessar de repente do ruído era tido como

se reunia para uma oração, mas o “chek

chek

o momento em que o avô caia morto. Pensaram em mudar de casa.

- Então, num sábado à noite, – contou o alemão – cheguei em casa por volta

da meia-noite. Esta hora me apavorava ainda mais. Tinha que atravessar aquela varanda sozinho, sem vocês para me encorajar no portão. Era terrível o meu medo. Entrei. Passei pelos primeiros canteiros do jardim, aqueles que tem as palmeiras e alcancei a varanda. Comecei a rezar baixinho. Já estava chegando perto da porta

do chinelo. Fiquei

extático, todo arrepiado, o coração a mil, não conseguia respirar direito, não sabia

de entrada, quando ouvi atrás de mim o “chek

chek

o que fazer. Mas, de repente, resolvi olhar para trás. Resolvi enfrentar. Afinal que mal poderia me fazer o meu avô?

Voltei-me e olhei. E o que vi? Nada. Mas o ruído continuava, bem forte, parecia até que se aproximava de mim. Mas observando melhor, vinha lá de perto

da escada. Fui até lá. O ruído estava cada vez mais forte, mas nada de ver o meu avô. Cheguei à escada e percebi que o ruído vinha do jardim, dos canteiros da

frente. E então, quando olhei para cima

pendurado na palmeira

lá estava ele

agora eu podia ver

,

lá em cima.

- O fantasma do seu avô? – perguntamos de olhos arregalados –.

- Sim, o fantasma

o fantasma do fantasma

- disse rindo -.

- Como assim? Fantasma do fantasma?

- O fantasma que nossa superstição e medo criaram. – falou, apertando a

boca e balançando a cabeça como quem conclui um raciocínio -. Nada do vovô, apenas a explicação, por fim, do tal ruído que nada tinha a ver nem com chinelo

nem com vovô.

E, concluiu o Alemão:

- Uma folha seca da palmeira, que não havia se soltado, agitava-se ao vento

produzindo o tal ruído. Não deixei por menos. Acordei toda a família, dizendo que tinha visto o vovô e convidando a todos para vê-lo. Foi uma farra. Ninguém queria sair, mas depois que mostrei a palmeira todos rimos tanto que até acordamos o vizinho do lado. Só minha mãe não aceitou a explicação. Talvez desejasse que o ruído continuasse para sentir mais de perto o finado pai.

Quem diria? Quem diria que uma folha de palmeira ao vento tivesse causado tanto terror? É claro que árvores não assustam ninguém. As pessoas é que se assustam com elas quando as associam com suas superstições. É bem possível, segundo o Alemão, que o tal ruído , quando o velho ainda vivia, vinha da palmeira e não do chinelo.