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Como seria o Correio se o jornal existisse em 1500

A FALA DE CAMINHA ‘‘Andam mais seguros


Em entrevista, Caminha
conta suas impressões
entre nós, do que nós
sobre a terra nova andamos entre eles’’
PÁGINA 7 Pero Vaz de Caminha

Moeda
Começa a circular
em Portugal uma
nova moeda,
Cabral chega a
cunhada em ouro.
Batizada de
Português, a moeda
traz, de um lado,
uma cruz, e de outro
uma terra nova
a inscrição que
identifica o Os nativos andam nus e com os corpos pintados
soberano: Dom
Manuel I, Senhor da português Pedro zou de Monte Pascoal. Hoje, o gueses conhecem a língua um
Conquista, Álvares Cabral, 32 capitão mandou seus barcos se do outro, não houve fala, mas
Navegação e anos, chegou a aproximarem da terra para fa- uma troca amistosa de presen-
Comércio da uma nova terra. zer contato com os homens tes. A chegada de Cabral encer-
Etiópia, Arábia, Ontem, os tripu- que, nus e com os corpos pinta- ra uma viagem que começou
Pérsia e Índia. Será a lantes de sua frota avistaram dos, acorreram à praia. Como no dia 8 de março, em Portugal.
moeda de mais alto um monte, ao qual Cabral bati- nem os nativos nem os portu- PÁGINA 6
valor da Europa.
PÁGINA 8

No bolso
Os editores de
algumas cidades
européias estão
aproveitando de
maneira inovadora
a criação da
imprensa, há 50
anos. Preparam-se
para lançar livros
tão pequenos que,
prometem, podem
ser carregados no
bolso. Se for verdade,
será o fim dos
pergaminhos e
incunábulos,
aqueles livros
enormes. Cabral aponta o morro a que deu o nome de Monte Pascoal: enfim, terras à vista
DOIS, PÁGINA 12

Acidente PRESO DUQUE FLORENTINOS RAINHA ISABEL


Ahuízotl, imperador
asteca, piorou de DE MILÃO VÃO ÀS RUAS FAZ 49 ANOS
saúde. No ano
passado, 40 dias Numa batalha sem san- No último dia 19, várias No auge de seu reinado,
depois de inaugurar gue, o duque de Milão, Lu- cidades da península itáli- Isabel I comemorou ontem
um novo aqueduto dovico o Mouro, foi captu- ca voltaram a celebrar o seu 49º aniversário. Desde o
em Tecnochtitlan, rado pelas tropas francesas Domingo de Páscoa fazen- seu casamento com Fer-
capital do império, de Luís XII. Ludovico aca- do as corridas pascoais, nando II, e a conseqüente
bou traído por seus solda- que têm levado um grande união dos reinos de Aragão
ele se feriu ao tentar
dos que depuseram as ar- público às ruas. O espetá- e Castela, essa rainha, que
fugir da violência
mas em vez de lutar. O du- culo mais concorrido ocor- age com mão de ferro con-
das águas que
que deve ser levado para reu na cidade-estado de tra os hereges, tem sido bem
jorravam sem cessar.
uma prisão na França. Até Florença. Na Europa, as sucedida. Há oito anos, Isa-
Bateu no umbral da agora, Luís XII é mais co- práticas esportivas têm bel financiou a viagem de
porta do seu palácio. nhecido por seu rumoroso passado por grandes mu- Cristovão Colombo, que os
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divórcio do que pelas vitó- danças. Já não são inspira- portugueses dizem ter che-
rias militares. das em exercícios militares. gado a uma nova terra.
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Maximiliano, O castelhano Como as Editorial: por um No Oriente, Os guerreiros
o germânico, Yáñez Pinzón economias mundo novo. persiste a Kayapó,que
herda mais já esteve por apelam aos Artigo: que supremacia vivem nessa
uma terra essas terras tributos venham em paz das lutas região central

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QUINTA

HERANÇA

Maximiliano I,
imperador da região da
Germânia, herda o
condado de Gorizia
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ARTE

Em Roma, Michelangelo
está esculpindo duas
imagens juntas em
tamanho natural
DOIS, PÁGINA 12

GUERRA

Camponeses de Cena da batalha sem sangue entre as tropas de Ludovico, o Mouro, e Luís XII: um rei está escapando de passar por bobo
Dithmarschen derrotam

Duque de Milão é preso


dinamarqueses e
garantem independência
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Soldados traem e entregam seu comandante ao exército de Luís XII


Alexandre Botão bém parece uma aberração mas teve que sai perdendo é o cardeal Domeni-
Da equipe do Correio sua razão de ser. Ludovico, em sua ges- co Grimani, homem de confiança de
tão, aumentou os impostos até o gar- Ludovico. Grimani certamente terá de
ilão — Pode ter galo apenas para levantar construções deixar o comando do castelo, embora
chegado ao final belíssimas, mandou estrangular cida- muitos comentem que ele é um dos
o toma-lá-dá-cá dãos de respeito só porque bradaram traidores do Mouro e está interceptan-
do ducado de contra as novas taxas e, no auge de sua do despachos do duque para enviá-los
Milão, que há soberba, chegou a vangloriar-se que o ao seu próprio pai, em Veneza, inimigo
dois anos vem papa Alexandre VI era seu ‘‘capelão’’ e o declarado de Ludovico.
sendo invadido e imperador germânico Maximiliano I, o Apesar do estilo não muito amigável
retomado numa seu ‘‘mensageiro’’. do rei Luís XII, ninguém acredita que, a
disputa entre o duque Ludovico Sfor- Com a retomada de Milão, o rei Luís exemplo do que ocorreu em setembro
za, conhecido como o Mouro, e o rei XII vai, por enquanto, escapando de do ano passado, Ludovico tenha con-
Luís XII, da França. No último dia 8 de passar por bobo da corte nessa trunca- dições de retornar a Milão. Se realmen-
abril, soldados milaneses que teorica- da batalha. Em setembro do ano pas- te for mandado para Loches, na Fran-
mente deveriam lutar ao lado de Ludo- sado, o rei chegou a ocupar o ducado, ça, dificilmente conseguirá deixar a
vico fizeram um acordo com o exército mas apesar da vitória em terra, faltou- prisão, uma das mais fortificadas da
francês e traíram o Mouro. Mal come- lhe habilidade política para costurar Europa.
çara a batalha nos alpes da cidade de entendimentos com os suíços e mila-
Navarro, os integrantes dos dois gru- neses. Suas táticas de terror sangrento ■ Ludovico ficará preso em Loches, tentará
pos decidiram fazer um acerto e pou- acabaram tornando o monarca impo- várias fugas, todas sem sucesso, e acabará
par sangue na luta pela ducado. Ludo- pular, facilitando a volta de Ludovico. morrendo na prisão, em 27 de maio de 1508.
vico, atônito com a paralisia de seu A captura do Mouro deve deixar ór- Luís XII manteve Milão e Nápoles sob seu
exército, tentou fugir, mas foi em vão. fãos diversos pintores, poetas e músi- domínio até 1513 quando a Santa Liga de
Capturado, deve ser levado para a pri- cos, como aconteceu no ano passado Júlio II expulsou os franceses da Itália. Por
são de Loches, na França. com o promissor Leonardo da Vinci, fim: Grimani, o homem de confiança de Lu-
Como todas as traições, essa tam- na primeira ocupação francesa. Outro dovico, era sim um traidor. Morreu em 1511.

Comando fraco Luís XII e Ana


de Bretanha:
casamento depois

e sexo insólito de um rumoroso


divórcio nos tribunais

O monarca que expulsou de Milão o mesmo assim, ‘‘não conseguia


duque Ludovico Sforza tem apenas dois verter sêmen no íntimo natural
anos de reinado. A trajetória de Luís XII dela’’. Durante o interrogatório
é curta e, por enquanto, igualmente tu- do rei no tribunal, Luís XII dis-
multuada. Considerado teimoso na se ter recebido a bênção nup-
corte, a impressão que se tem é de que cial chorando, ‘‘sendo a isso
também falta ao rei uma certa argúcia Ana de Bretanha, viúva de Carlos VIII, forçado por violência’’, e que nunca foi
para conduzir os destinos da França. Luís XII é mais famoso nas cortes euro- encontrá-la para passar a noite: ‘‘Creio
Desde que assumiu, por exemplo, após péias pelo processo de divórcio que só ter passado a noite com ela forçado.
a morte de Carlos VIII, Luís XII ainda abriu contra sua ex-esposa, Joana de De outra maneira, só se estivesse
não conseguiu apoio do povo para suas Valois, do que por suas vitórias milita- louco’’. Desde que deixou de ser rai-
investidas Europa afora, apesar de os res. Em 13 de setembro de 1498, o rei nha, em dezembro de 1498, e ganhou
franceses andarem ávidos por cresci- pediu a anulação do casamento, ale- — como prêmio de consolação — o
mento e atividades empreendedoras. gando não ser possível ter relações se- ducado de Berry, Joana parece dedi-
Não conseguiu e, do jeito que vai, po- xuais com a princesa. Joana é corcunda, car-se à vida religiosa. (AB)
de não conseguir nunca. Apesar da vi- tem um ombro maior que o outro, o
quadril próximo ao fêmur e ainda sofre ■ Luís XII será rei da França até morrer, em
tória do último dia 8, numa batalha sem 1515, e terá duas filhas (Claude e Renée)
sangue, seu exército vem caindo pelas com uma deformidade no órgão sexual, com sua segunda mulher, Ana de Bretanha.
tabelas. Lá Trémoille, um dos grupos obstruído por um osso. Ficará viúvo em 1514 e irá casar-se pela ter-
mais poderosos do continente, já não O médico Jean de Bourges, disse à ceira vez, com Maria da Inglaterra. Joana,
forma mais jovens soldados talentosos época, no processo, que o rei era ‘‘obri- de fato, se tornará freira e fundará a Ordem
nem grandes estrategistas. gado a fazer grandes esforços para da Anunciada. Em 1951 será canonizada
Casado há um ano e três meses com manter relações com a esposa’’ e que, pelo Vaticano.

Bibliografia consultada: A Cultura do Renascimento na Itália, de Jacob Burck- bridge, 1964; El Renacimento en Italia, de John Addington Symonds, Fondo de Lucas-Dubreton,Editorial Aster,Lisboa,s/d;O Estado Monárquico, de Emmanuel
hardt, Editora Universidade de Brasília, Brasília, 1991; The New Cambridge Mo- Cultura Mexico, Ciudad de Mexico, 1957; Renaissance et Réforme, de Claude Le Roy Ladurie, Companhia das Letras, São Paulo, 1994;Dois Mil Anos de Segre-
dern History — The Renaissance, editado pela Cambridge University Press,Cam- Semnoz, Librarie Larousse, Paris, 1986; História da Renascença Italiana, de Jean dos de Alcova, de Claude Pasteur,Editora Rosa dos Tempos,Rio de Janeiro,1997.

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Festa da rainha de aço


Isabel I,de Castela,faz 49 anos num momento em que seu reino está virando potência européia
evilha — Ma-
drigal de las
Altas Torres
esteve em fes-
ta ontem. Fes-
ta que se es-
palhou pelos
reinos de Cas-
tela e Aragão. Isabel I, a rainha de
Castela, uma mulher de nervos de
aço e fé vulcânica e também a filha
mais ilustre de Madrigal de las Altas
Torres, comemorou ontem seu 49º
aniversário — e o fez no auge. Há oi-
to anos que Isabel I e seu marido,
Fernando II, o rei de Aragão, estão
fazendo dos limites dos seus reinos
unidos uma potência na Europa.
Quando casaram, em 1479, uniram
Castela e Aragão. Mas foi em 1492
que reconquistaram Granada, ex-
pulsando os mouros, e moldando
uma geografia definitiva para os
seus reinos.
O casal, que ganhou o apelido de
Reis Católicos, forma um par perfei- Uma sala de interrogatório da Inquisição: perguntas capciosas de um manual castelhano
to para os objetivos políticos e di-
plomáticos dos casamentos régios.

Arapucas
Isabel, filha de uma princesa louca e O inqusidor deve rebater:Você chama sua fé de cristã
mãe de uma outra princesa, tam- porque considera a nossa como falsa e herética. Mas eu
bém louca, é uma mulher de fibra, perguntei se você alguma vez acreditou na verdade de
severa e consciente de seu papel: outra fé que não a da Igreja Romana.

e subtextos
tornar seu reino uma potência e ex-
pandir a fé cristã. Seu marido, mais Em outra passagem, o inquisidor força o suspeito a
dado à manha política que à força fazer alguma pergunta para, em seguida, aplicar-lhe
militar, compartilha o mesmo dever uma rasteira:
— e não mede ardis para chegar on- A inquisição tem capítulos controvertidos. Está circu- O acusado indaga: E o senhor acredita nisso?
de quer. Recentemente, quando lhe lando no reino de Castela um manual orientando os in- O inquisidor responderá: Eu acredito piamente.
disseram que o rei da França alegara quisidores sobre como interrogar os acusados — e seu O acusado replica: Eu também.
que fora por ele enganado duas ve- conteúdo serve de argumento para quem contesta os O inquisidor atacará: Você acredita que eu acredito,
zes, Fernando corrigiu: ‘‘Mente o rei métodos inquisitoriais. É curioso observar como o ma- mas eu não perguntei isso e sim se você acredita.
da França. Eu o enganei dez vezes.’’ nual ensina a extrair confissões do interrogado, quan-
O casamento dos dois (na ima- do, na verdade, não o leva a se confessar, mas Mais adiante, aparece outro exemplo de como o in-
gem à direita) rendeu um feito apenas a se confundir. Confira exem- quisidor deve transformar em armadilhas eventuais
memorável. O navegador plos de diálogos hipotéticos do ma- perguntas do suspeito:
Cristovam Colombo, nual castelhano: O inquisidor começa: Você acredita que o vinho e o
que dizem ter nascido O inquisidor deve declarar: pão usados pelos padres foram transformados em corpo
na cidade de Gêno- Você é acusado de heresia, de e fé de Cristo por virtude divina?
va, cruzou o Atlânti- acreditar e ensinar outras O acusado dirá: Acredito.
co e encontrou crenças que não as da Igreja O inquisidor então pergunta:Você acredita que Cris-
uma nova terra. Sagrada. to nasceu da Virgem, sofreu, morreu e ascendeu aos
Ainda não se sabe O acusado responderá céus?
exatamente se che- mais ou menos assim: Deus, O acusado dirá: Acredito. Não deveria acreditar?
gou às Índias, como ninguém melhor que o se- O inquisidor aproveita a deixa: Eu não perguntei se
ele próprio imagina, nhor para saber que sou ino- você deveria acreditar, mas apenas se acredita.
pois cartógrafos portu- cente disso e que nunca abracei Diálogos assim, cheios de arapucas e subtextos, têm
gueses, mais bem versados outra fé além da cristã. servido de base para levar pessoas à fogueira.
no ramo, apostam que Colom-
bo chegou a um novo continente. A
viagem contou com o apoio decisivo
da rainha Isabel, que até a financiou,
apesar de ser um investimento altís-
simo sustentar uma aventura nos
confins do Mar Oceano.
Mas o interesse maior da rainha
Isabel nesses dias que correm é ga-
rantir a pureza da fé católica e a uni-
Morte de dois opostos
ficação religiosa, tendo em vista que Há dois anos, a fatalida- apostasia, feitiçaria, biga-
os mouros já foram derrotados e os de histórica uniu o destino mia, usura, blasfêmia. Au-
judeus estão sendo expulsos do rei- de dois homens opostos torizou, ainda, o uso da tor-
no. Criado em 1478, o tribunal da em tudo. Em maio de 1498, tura nos interrogastórios.
Inquisição está cada vez mais forte, morreu Girolamo Savona- Foi tão implacável que, em
pois os Reis Católicos sempre ouvi- rola, enforcado com cor- 1496, o papa Alexandre VI
ram com muita atenção os conse- rentes e queimado em ple- sentiu-se na obrigação de
lhos de seu confessor e conselheiro: na Piazza della Signoria, mandar dois inquisidores à
o inquisidor-geral Tomás de Torque- em Florença. Quatro meses península ibérica com a
mada, que faleceu há dois anos. Foi depois, em setembro, na lo- missão de refrear seus ex-
por sugestão de Torquemada que os calidade de Ávila, na penín- O inquisidor-geral O dominicano cessos.
Reis Católicos baixaram um edito sula ibérica, morreu Tomás Tomás de Torquemada Girolamo Savonarola O ponto mais contradi-
real, há oito anos, expulsando os ju- de Torquemada. O que di- tório da biografia do Tor-
deus de Castela e Aragão. Todos de- vidiu esses dois homens, quemada é com relação
viam partir em quatro meses, sem que nunca se conheceram, blica democrática, mas despertou aos judeus. Ele ajudou a
levar dinheiro, ouro ou prata. Calcu- é que Savonarola morreu na foguei- rivalidades. O papa Alexandre VI, convencer os Reis Católicos a aban-
la-se que 170 mil foram embora, ra da Inquisição. E Torquemada foi incomodado com suas pregações, donarem sua política de tolerância
muitos se refugiaram em Portugal, o inquisidor-geral da península ibé- sentindo-se pessoalmente atingido religiosa e expulsar os judeus de
onde a tolerância ainda é maior. rica por quinze anos e mandou duas pelas acusações de corrupção, proi- Aragão e Castela. O curioso é que
mil pessoas vivas à fogueira. biu-o de pregar. Savonarola deso- Torquemada era, ele próprio, de
■ A união de Castela e Aragão, e Eram ambos sangüíneos e com dedeceu, foi julgado, torturado e origem judaica.
mais tarde a anexação de Granada, ares de profetas, mas tinham metas condenado à fogueira.
formou o território do que mais tar- inteiramente diferentes. Em Floren- Torquemada, ao contrário, era ■ O nome de Savonarola passará a
de se chamará Espanha. Isabel I ça, Savonarola pregou contra o pa- um homem do clero, respeitado por ser sinônimo de moralismo extre-
morrerá aos 53 anos, em 26 de no- ganismo humanista que corrompe seus pares, mas fanático, intoleran- mado. O de Torquemada virará le-
vembro 1504. A viagem que finan- os costumes. Era contra a arte, a te e cruel com os suspeitos de des- genda de intolerância. Em 1579, os
ciou de Colombo resultou na desco- poesia, contra o clero corrupto. vio de fé. Em 1484, um ano depois restos mortais de Torquemada serão
berta da América. A inquisição per- Com a deposição dos Medici há seis de assumir o posto de inquisidor- levados para um magnífico túmulo
derá força com o tempo mas só será anos, a quem combateu pesada- geral, promulgou 28 artigos orien- de alabastro. Ali, ficarão até 1836,
definitivamente abolida na Espa- mente, Savonarola tornou-se um lí- tando os inquisidores no julgamen- quando serão profanados e, ironica-
nha no século XIX. der de Florença, fundou uma repú- to de uma penca de crimes: heresia, mente, levados à fogueira.

Bibliografia consultada: Historical Tables, de S. of Ideas, da Macquarie Library, Australia, 1983; The Proença e outros, edição da Faculdade de Filosofia Florença, de Christopher Hibbert, Companhia das
H. Steinbger, Mac Millan & Co. Ltd., London, 1966; Medieval and Renaissance World, edição de Esmond da UFRGS, Porto Alegre, 1969; Savonarola, de Luis Letras, São Paulo, 1993; Enciclopedia Universal Ilus-
L a B a j a E d a d M e d i a , c o l e ç ã o d i r i g i d a p o r Jo a n Wright, The Hamlyn Publishing, London, 1979; Pe- María Lojendio, Editorial Aster, Lisboa, s/d.; Ascen- trada - Europea Americana, editora Espasa-Calpe,
Evans, Editorial Labor SA, Barcelona, 1968: History d ro Á l v a re s C a b ra l : 5 0 0 a n o s , de João de Matos são e Queda da Casa dos Medici - O Renascimento em Madrid, 1928.

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Da Vinci em Florença
‘‘Aquele que despreza a pintura, que é a única imitação dos todas as obras visíveis da Albrecht Dürer, auto-
natureza, certamente desprezará a sutil invenção que aporta a filosofia e a fina especulação retrato, 1500. O alemão
à natureza de todas as formas — mar e terra, plantas e animais, grama e flores — envolvidas Dürer é o mais
em sombra e luz. A pintura é verdadeiramente uma ciência, a ciência nascida da natureza.’’ ‘‘italiano’’ dos pintores
do norte da Europa. É o
Leonardo da Vinci primeiro pintor a fazer
diversos auto-retratos

Armando Mendes grar Michelangelo, Bramante e um Belém, é o exemplo. Nas cidades-estado


Da equipe do Correio talentoso discípulo de Pierugino Hoje em dia, Florença italianas onde o ideal
que se chama Rafael e já anda crian- já acolhe grandes pal- renascentista já se fir-
lorença — do melhor que seu mestre. A van- lazzos, igrejas e capelas mou, está mudando
Leonardo da guarda artística do Ocidente muda renascentistas. também a posição so-
Vinci, pintor, de lugar, mas permanecerá na pe- Roma e Florença já cial dos pintores, es-
arquiteto, nínsula itálica. estão longe da Idade Média e de cultores e arquitetos. Os mestres
músico, geô- Outra península européia, a ibé- seu misticismo exacerbado. Até construtores da Idade Média eram
metra, enge- rica, é o lugar de uma vanguar- suas novas igrejas sugerem humildes artesãos que se contenta-
nheiro e cien- da diferente: a que faz avançar a outra mentalidade, outra reli- vam em transmitir de pai para filho,
tista, está de técnica das navegações, impul- giosidade, mediada pela ra- de aprendiz para mestre, o conheci-
volta a Florença, sua cidade natal. siona a conquista de novas ter- zão e pelo humanismo resga- mento prático das técnicas cons-
Chegou neste mês de abril, depois ras e alimenta o impulso impe- tado dos textos clássicos. Mas a trutivas. Os artistas do Renasci-
de passar por Mântua e Veneza. Aos rialista da Europa. Mas, como cidade de Lisboa, hoje em dia, mento querem mais. Querem ser
48 anos de idade, famoso e reco- para demonstrar que as mu- ainda está coberta por uma reconhecidos como eruditos e estu-
nhecido, é um refugiado de guerra. danças políticas, artísticas e velha capa medieval. O estilo diosos no mesmo nível intelectual
No final de 1499, foi obrigado a fu- tecnológicas se dão por sal- manuelino do Mosteiro dos dos poetas e filósofos.
gir de Milão, onde vivia há 18 anos, tos desencontrados, Portu- Jerônimos que ora está sendo Arquitetos como Leone Battista
para não cair prisioneiro dos inva- gal e os reinos de Aragão e erguido é a última manifes- Alberti, de ampla educação huma-
sores franceses que ocuparam a ci- Castela estão na retaguarda tação significativa da arqui- nista, não se contentam em apren-
dade no ano passado — e acabam da pintura e da arqui- tetura gótica na Europa. der técnicas empíricas de constru-
de capturar Ludovico, o Mouro. tetura européias E o gótico é a mais ção. Aplicam a matemática aos pro-
Na mesma época em que Leonar- neste momento. refinada lingua- blemas construtivos, estudam sis-
do fugia de Milão, chegou a Roma O Mosteiro gem arquitetô- tematicamente as proporções geo-
outro grande arquiteto do Renasci- dos Jerôni- nica da Idade métricas dos monumentos do Im-
mento: Donato Bramante. E pouco mos, em Média. pério Romano e da Grécia Antiga,
depois da partida da frota de Cabral teorizam sobre as leis que re-
de Lisboa, em março de 1500, o rei gem a beleza arquitetônica.
dom Manuel I de Portugal deu iní- Os pintores encaram sua arte co-
cio à construção do Mosteiro dos mo instrumento para especular so-
Jerônimos, à margem do Tejo, um bre as leis da natureza e os misté-
ponto alto da exuberante arquitetu- rios do universo. Leonardo da Vinci
ra manuelina. é um dos artistas mais preocupados
Esta constelação de eventos se- com isso. Quer demonstrar que a
parados por poucos meses parece pintura também deve ser conside-
indicar algumas coisas que estão rada uma arte liberal equiparada às
acontecendo na arquitetura e nas artes liberais codificadas por Aristó-
artes européias neste momento. teles, como a Gramática, a Dialética,
Leonardo, o homem de mil ta- a Retórica e a Geometria (e contra-
lentos que sintetiza o ideal do postas às atividades manuais e
Renascimento, está em plena artesanais indignas de um ho-
atividade. Já pintou uma obra- mem do pensamento). Tem ra-
prima, a Última Ceia, no re- zão, pelo menos no caso dele e
feitório do mosteiro domini- de alguns de seus contempo-
cano de Santa Maria delle râneos geniais, como Miche-
Grazie, em Milão. Acredita-se langelo e Alberti. Juntos, eles
que fará outras obras geniais. definem para os séculos vindou-
Já a chegada de Bramante a ros, o que é o gênio artístico.
Roma coincide com o momen-
to em que a iniciativa artística e ■ Nos cinco anos seguintes à sua
arquitetônica da Europa passa chegada a Florença, Da Vinci pin-
de Florença para a cidade dos tará a Mona Lisa. Donato Bra-
papas. Este ano de 1500 poderá mante apresentará o projeto revo-
entrar para a história como a di- lucionário do tempietto de S. Pe-
visa entre dois momentos do dro em Montorio, em Roma — uma
Renascimento: o começo tosca- capela (templo pequeno, daí o ape-
no e florentino, nos anos 1400, e lido que os romanos lhe deram) de
o Alto Renascimento romano, planta circular que obedece a seve-
dos anos 1500. ras regras geométricas e emula
Florença foi o centro artístico conscientemente os templos gregos
da Europa no Quattrocento. Ro- da Antigüidade (veja imagem à
ma poderá fazer o mesmo pa- esquerda). Bramante será tam-
pel no Cinquecento. Floren- bém o autor do projeto da
ça apresentou ao mun- nova Basílica de São Pe-
do Giotto, Brunelles- dro, o templo mais
chi, Leonardo da Vinci. importante da Igreja
Roma poderá consa- Católica Romana.

Curtas
As embaixadas Luto de abril
Há uma novidade na relação entre os reinos e O abastado clã dos Médici, financistas de Florença, atravessa mais um
cidades da Europa. O rei de Aragão, Fernando II, luto em abril. No último dia 9, os Médici lembraram os oito anos da
mandou instalar uma espécie de embaixada em morte de Lourenço, o Magnífico (imagem à direita), que ajudou artistas
algumas cidades da península itálica. O rei copiou como Leonardo da Vinci e Sandro Brotticelli. Agora, dentro de três dias,
essa nova arma para os negócios internacionais a 26 de abril, lembrarão o 22º aniversário do assassinato de Giuliano,
dos próprios italianos. Por lá, todo o estado, de irmão de Lourenço. Giuliano foi morto em 1478 num atentado na
qualquer tamanho, tem um agente permanente catedral metropolitana de Florença. O arcebispo, cúmplice do complô,
nas capitais de seus principais rivais. foi capturado e dependurado de uma das janelas do Palazzo Vecchio.

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Correio no mundo
INDEPENDÊNCIA - Os camponeses de Dithmarschen, uma região germânica, acabam de garantir sua PALÁCIO - Comenta-se
independência. No dia 17 de fevereiro passado, resistiram à ocupação do rei João, da Dinamarca, que chegou que a dinastia Ming está er-
REGIÕES GELADAS — com 20 mil homens. Os camponeses recuaram para Hemmingstedt, atraíram o exército dinamarquês e guendo uma obra que ficará
Gaspar da Corte Real, capitão abriram as comportas, deixando as tropas submersas. O rei João fugiu e renunciou aos planos de conquista. para a história. É o palácio
português está no meio do imperial da Cidade Proibida,
Atlântico. Quer chegar às ■ O rei João, morto em 1513, jamais conquistou Dithmarschen, território que hoje pertence à Alemanha. em Pequim, cuja construção,
regiões geladas que ficam no demoradíssima, começou
norte, em paralelo à Europa. em 1368 e ainda prossegue.

■ Ao fim da viagem, Corte Real ■ O palácio foi concluído em


terá passado pela Groenlândia e 1644 e é uma das principais
vai aportar em Labrador, terra que atrações de Pequim.
mais tarde se chamará Canadá.
TERRA - Maximiliano I,
imperador germânico, parece
EM BUSCA DAS ILHAS — que quer tudo ao mesmo
Diogo de Lepe, navegador tempo. Ele, que adora as festas
castelhano, está no Atlântico, já populares e é um apaixonado
passou pelas terras ao sul do por caça, também é um homem
Equador e agora navega na culto. Fala seis línguas (latim,
direção norte. Está próximo à alemão, francês, italiano, inglês e
foz do rio Orinoco. Quer chegar boêmio), é versado em
às ilhas encontradas por matemática e história, e ainda
Cristovam Colombo em 1492. pratica pintura, música, poesia e
No começo deste ano, Lepe arquitetura.Agora, no último dia
esteve ao sul do Equador, na 12 de abril, herdou mais um
Terra de Vera Cruz. naco de terra para seu império:
a região de Gorizia.
■ Na foz do rio Orinoco, Lepe
encontrará um país que, parecido ■ Maxilimiliano I viveu até 1519.
com Veneza, se chamará ‘‘pequena Gorizia hoje é uma região que
Veneza’’, ou Venezuela. pertence à Itália.

Imperador enfermo
O bem-sucedido governo de Ahuízotl na capital asteca pode estar chegando ao fim
Sandra Lefcovich está unida à terra firme por meio de plo maior, uma monu-
Da equipe do Correio três calçadas que convergem no mental pirâmide de 30
centro religioso e servem como prin- metros dedicada a
ecnochtitlan cipais artérias do tráfico. Huitzilopochtli, deus
— Piorou o es- A visão é deslumbrante: o conjun- supremo do Sol e da
tado de saúde to de 78 templos piramidais e palá- guerra, e a Tláloc,
do imperador cios em torno da praça ocupa um deus da água e
Ahuízotl, de retângulo gigantesco, cercado por da fertilidade.
Tecnochtitlan, um muro no qual se distinguem as Para cele-
capital do im- cabeças de enormes serpentes. Tec- brar a proe-
pério asteca. nochtitlan tem verdes jardins e za, o impe-
No ano passado, quando estava nos brancos edifícios localizados no rador havia
aposentos baixos dos jardins do pa- centro de lagos azuis circundados e m p re e n -
lácio, ele tentou fugir da violência por altas montanhas. dido uma
das águas do aqueduto da cidade, Entronizado desde 1486, Ahuí- campanha
bateu no umbral da porta e feriu-se. zotl, inclinado à guerra e à ostenta- militar du-
A água jorrou aos borbotões da ção, vem tornando realidade o que rante dois
fonte, crescendo incessantemente, ele acredita ser o destino grandioso anos, reu-
inundou o local e causou pânico no do povo do Sol, que começou a se nindo 20 mil
imperador que correu para escapar. destacar há menos de cem anos, vítimas. Os ca-
Ainda não é possível saber a gravi- quando, aliados aos monarcas de tivos, colocados em
dade da enfermidade do imperador, Texcoco e Tlacopan, venceram os duas fileiras, foram dis-
mas comenta-se que este pode ser o tepanecas, que dominavam todo o postos para que Ahuízotl ini-
início de um fim melancólico para planalto central do continente. ciasse a espantosa tarefa de ar-
um governante que, em 14 anos, Ahuízotl consolida melhor que rancar o coração das vítimas, segui-
transformou a capital numa das ninguém o poderio do império, ao do por outros guerreiros.
mais belas e imponentes cidades do submeter 45 novos povos — são
mundo. agora 327 as etnias subjugadas aos ■ Em 1503, Ahuízotl morrerá em con-
Tecnochtitlan encontra-se no mexicas. O imperador estende os seqüência do acidente sofrido três
apogeu. A capital asteca reúne mais seus domínios de oceano a oceano, anos antes, na inundação de Tec- Tecnochtitlan,
habitantes do que qualquer metró- ao conquistar pela primeira vez o li- nochtitlan. Em 1519, a mando de 400 vista pelos
pole da Europa: entre 250 mil e 500 toral Pacífico. espanhóis, Hernán Cortés desembar- castelhanos.
mil mexicas vivem nesta Veneza Além das campanhas militares, cará pela primeira vez na capital as- Huitzilopochtli
d’além mar. Erguida em 1325 sob duas obras marcam, até agora, o rei- teca. Começará o crepúsculo do impé- é o deus
uma ilha ovalada, no centro do ex- nado de Ahuízotl. Antes do aquedu- rio, destruído pelos invasores no ano máximo dos
tenso lago, a cidade de mil hectares to, ele concluiu a edificação do tem- seguinte. astecas

Poder nas mãos tantes, lutando


para manter e au-
O norte era habitado, até recente-
mente, por povos de uma cultura pa-
de um só homem mentar o reinado,
apesar da escas-
recida aos incas, que poderiam ser
assimilados. E é nesta direção que
Cuzco — Huayna Capac, o 11º In- sez de meios de Huayna Capac fez a sua primeira ex-
ca, sempre levanta-se cedo para transporte e de pedição, anos depois de 1493, quan-
trabalhar nos assuntos do Estado e problemas de co- do tornou-se imperador. Lá domi-
faz a refeição principal do dia entre municação. nou os rebeldes chachapoyas, incor-
oito e nove da manhã. É o retrato Isso porque o porando as selvas tropicais do alto
dos tempos atuais, de muita inquie- império ocupa Amazonas. (SL)
tação, na capital Cuzco. Também um território apa-
pudera: o Tahuantinsuyu (Estado rentemente sem ■ O 11º Inca completará a obra de
inca) cresceu demasiado em ape- limites de norte a seus antecessores ao incorporar novos
nas setenta anos. sul e domina as Huayna Capac foi o 11º imperador inca. Ponchos de territórios e pacificar com rigor e
O poder está concentrado nas florestas virgens 24 desenhos e jóias de ouro só para os privilegiados crueldade as regiões que não haviam
mãos de um único homem, o impe- amazônicas às sido subjugadas por completo. Ele
rador, em uma única cidade, Cuzco, margens do Pací- morrerá em 1525. Poucos anos de-
localizada no coração dos Andes. fico. tram-se os indomáveis mapuche, a pois, a guerra entre os seus filhos pela
Tido como descendente do Sol, Não há para Huayna Capac, jo- Leste, as tribos das selvas. Todos sucessão do trono e a chegada dos es-
Huayna Capac governa por direito vem chefe, rico em virtudes, muito eles em regiões desconhecidas e panhóis darão o golpe de misericór-
divino cerca de dez milhões de habi- o que conquistar: ao Sul encon- pouco atrativas para os incas. dia na civilização inca.
Bibliografia consultada: Culturas de la América cas, de Miguel León-Portilla, Universidad Nacional Económica, México, 1956; Los aztecas, de Eduardo lante, Lexus Editores, Espanha, 1999; Historia del Ta-
Indígena, de Wolfgang Haberland, Fondo de Cultura Autónoma de México, 1972; La vida cotidiana de los Matos Moctezuma, Lunwerg Editores, Barcelona, huantinsuyu, de Maria Rostworowski de Diez Canse-
Económica, México, 1974; De Tehotihuacán a los azte- aztecas , de Jacques Soustelle, Fondo de Cultura 1989; Historia de los Inkas, de Roberto Ojeda Esca- co, editora do IEP, Lima, 1999.

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CORREIO BRAZILIENSE

Cordialidade: português pede que os nativos baixem os arcos e flechas. Eles obedecem e baixam

Primeiro encontro
Nicolau Coelho pisa na terra nova e troca presentes com nativos que o aguardavam na praia
Ana Beatriz Magno minho das Índias. Para chegar à praia, ro de linho; e um sombreiro preto, um
Da equipe do Correio Nicolau passou para um pequeno ba- chapéu de copa cônica e alta. Eles
tel, barco especial para águas rasas. adoraram, desconhecem a maciez do

Curtas
ntem Pedro Ál- Enquanto Nicolau se aproximava algodão. Retribuíram a gentileza.
vares Cabral solitário da foz do Cahy, aumentava o Nicolau ganhou um colar grande,
avistou a terra, número de nativos que o aguardavam feito de pequenas continhas brancas,
hoje Nicolau nas areias. Primeiro eram dois, pouco ao que indica tiradas do fundo do mar.
Coelho pisou
no Novo Mun-
depois viraram dezoito ou vinte. Car-
regando arcos e flechas, aqueles ho-
Os nativos também lhe deram um es-
quisito sombreiro redondo e vazado.
Antes, chegou
do. Encontrou
homens de co-
mens correram decididos para o ba-
tel. Nicolau fez sinal com as mãos pa-
Mais se assemelha a uma coroa. É feito
de longas penas vermelhas e marrons.
Yáñez Pinzón
res e modos diferentes. São pardos, ra que pousassem os arcos. Eles en- A troca de presentes acabou quan- Em janeiro de
de pele avermelhada, e jeito afável. tenderam, pousaram. do o mar encrespou. Nicolau retor- 1500, três meses
Não se envergonham de suas vergo- Nicolau não faz idéia da língua fala- nou, embarcou na nau capitânia e antes de Cabral,
nhas, andam nus, mas, vaidosos, da por seus anfitriões. Comunicaram- contou o que se passou a seus cole- o castelhano
pintam o corpo e o rosto. Sua pele é se por gestos. O português fez as vezes gas. O escrivão Pero Vaz de Caminha Vicente Yáñez
lisa, sem pelos, barba ou bigode. Na de embaixador. Entregou três presen- anotou os detalhes deste que foi o pri- Pinzón atracou
cabeça, usam chapéus de penas; no tes para as cabeças dos vinte nativos. meiro encontro entre um português e na Terra de Vera
pescoço, colares de contas. Desco- Deu-lhes um barrete vermelho, uma os pardos homens do Novo Mundo, a Cruz, perto de
nhecem artilharia, carregam arcos e touca; uma carapuça, espécie de gor- Terra de Vera Cruz. um cabo rochoso. ‘‘É o lugar de
setas, parecem flechas. mais luz da terra’’, disse. Batizou
Só hoje os portugueses percebe- a região de Santa Maria de La
ram que há gente nestas paragens. Consolación. Seguindo viagem,
Ontem, os marinheiros apenas viram cruzou com a gigantesca foz de
um monte, alto e redondo, que bati- um rio. Agora, está explorando
zaram de Pascoal. Os navios estavam
a seis léguas da costa, mas já era tarde Personagem da Notícia as ilhas que ajudou Colombo a
encontrar em 1492.
para uma aproximação. Cabral achou
por bem passar a noite no mar.
O sol mal despontara quando o
comandante ordenou o levantar das
O obediente Cabral, é um homem ponderado.
Antes de embarcar, consultou
várias vezes o bem sucedido Vasco
■ A terra que Pinzón batizou de
Santa Maria de Consolación será
chamada de Cabo de Santo
âncoras. Os 12 barcos zarparam na
direção da praia. As embarcações
fidalgo da Gama. Dele recebeu uma carta
com instruções de como proceder
Agostinho, em Pernambuco. A
foz do rio é o Amazonas.
menores foram na frente. Com o em alto-mar. Obedeceu a todos os
prumo nas mãos, os marujos iam Cabral é um conselhos.
medindo a profundidade. A nove sujeito de sorte. Corvo de Colombo
braças, o comandante mandou an- Fidalgo, nascido ■ Cabral e seus
corar. Estavam em frente à foz de um em Belmonte, não homens Cristovão Colombo sofre. Há
rio de águas escuras, o Cahy. Eram dominava as artes permancerão nas seis meses, o almirante passa os
dez horas da manhã, e apenas meia naúticas, jamais terras brasileiras por dias na ilha de São Domingos
légua separava os portugueses de navegara em mar 10 dias. No dia 1º de tentando contornar motins dos
seu achado. aberto até que, em maio, içarão velas colonizadores. Nos últimos dias
Pendurados sobre a amurada dos fevereiro deste ano, para as Índias. No foi traído também pela sorte: a
barcos, os marinheiros viram sete ou dom Manoel o Cabo das sífilis devorou 25% da
oito homens andando pela praia, se- escolheu para Tormentas, população e desmoralizou
gundo informaram os tripulantes dos comandar a maior enfrentarão uma Adriano de Muxica, o líder
barcos mais próximos da costa. Ca- frota da história terrível tempestade regional apoiado pelo almirante.
bral convocou todos os capitães para das navegações que engolirá quatro
uma reunião. Precisavam decidir a européias. A missão barcos, entre eles o ■ A situação em São Domingos
melhor maneira de desembarcar e a oficial é chegar às Índias e lá de Bartolomeu Dias, primeiro vai piorar durante o primeiro
estratégia para possíveis confrontos. convencer os rajás hindus de que homem a dobrar o Cabo, em 1488. semestre de 1500. Em 23 de
Decidiram mandar um único ho- vale a pena negociar com os Depois de passar pelas Índias, agosto de 1500, chegará à ilha o
mem: Nicolau Coelho. É o mais expe- portugueses. Cabral voltará a Lisboa, em 1501, e interventor espanhol Francisco
riente piloto entre os quase 1500 tri- Segundo filho de uma cairá no ostracismo até morrer, de Bobadilha, comendador de
pulantes da frota — em 1498, Nicolau tradicional família de guerreiros, entre 1520 e 1521. Calatrava. Em outubro, o
comandou um dos quatro barcos comendador prenderá Colombo
com que Vasco Gama descobriu o ca- e o despachará para a Espanha.

Bibliografia consultada: Os 14 primeiros Documentos Re- tos, publicações da Comissão Nacional para as Comemo- Colonização Portuguesa, organização de Carlos Malheiro sé Hermano Saraiva, Publicações Europa-América, Lisboa,
lativos à Armada de Pedro Álvares Cabral, coletânea, O Desco- rações dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1999; Lis- Dias, Litografia Nacional, Porto, 1922; História Geral do Bra- 1998; A Fundação do Brasil, de Darcy Ribeiro e Carlos de
brimento do Brasil, de Max Justo Guedes, e A Navegação boa Ultramarina, 1415-1580, organização de Michel Chan- sil, volume I, de Francisco Adolfo Vanhargen, Melhoramen- Araújo Moreira Neto, Editora Vozes, Petrópolis, Rio de Ja-
Atlântica dos Portugueses em 1500, de Jorge Semedo de Ma- deigne, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1990; História da tos, Rio de Janeiro, 1948; História Concisa de Portugal, de Jo- neiro, 1992.

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CORREIO BRAZILIENSE

São gordos e formosos, que não pode mais ser


Na noite de hoje, 23 de abril, o tesoureiro Pero Vaz com a inocência e a naturalidade com que a gente
de Caminha, 50 anos, português do Porto,recebeu a desta terra expõe suas vergonhas. Caminha também
reportagem do Correio Braziliense a bordo da nau encantou-se com os corpos limpos, bonitos e sadios,
capitânia chefiada pelo capitão-mor Pedro Álvares embora essa gente, segundo ele, não plante nem
Cabral. Na entrevista, Caminha falou de suas crie. Também falou sobre a paisagem da nova terra,
primeiras impressões sobre a terra nova encontrada muito farta de arvoredos e águas. A seguir, os
a André Petry
Da equipe do Correio
pela frota e mostrou-se bastante impressionado principais trechos da entrevista:

orreio — Quando ção branda como cera, de maneira que a as curvas assim tintas e também os co-
vocês viram terra cabeleira fica mui redonda e mui basta, e los dos pés; e suas vergonhas tão nuas e
pela primeira vez? mui igual, e não faz míngua mais lava- com tanta inocência descobertas, que
Pero Vaz de Cami- gem para a levantar. nisso não havia vergonha alguma.
nha — Na quarta- Correio — Os homens desta terra Correio — O que mais
feira, pela manhã parecem saudáveis? chamou sua atenção
topamos aves a Caminha — A feição deles é serem par- além da nudez
que chamam fura- dos, maneira de avermelhados, de bons e dos corpos pintados?
buxos. Neste dia, a horas de véspera, rostos e bons narizes, bem feitos. Eles an- Caminha — Eles trazem os beiços de
houvemos vista de terra! dam muito bem curados e muito limpos. baixo furados e metidos neles seus os-
Correio — Qual foi a primeira Os corpos seus são tão limpos, tão gordos sos brancos e verdadeiros, de compri-
paisagem que vocês viram? e formosos, que não pode mais ser. mento duma mão travessa, da grossura
Caminha — Primeiramente dum grande Correio — E as mulheres são bonitas? dum fuso de algodão, agudos na ponta
monte, mui alto e redondo; e doutras ser- Caminha — Bem moças e bem gentis, como furador.
ras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com cabelos muito preto e compridos Correio — Os ossos não incomodam
com grandes arvoredos; ao monte alto o pelas espáduas, e suas vergonhas tão al- para falar ou comer?
Capitão pôs nome — o Monte Pascoal e à tas, tão cerradinhas e tão limpas das ca- Caminha — São encaixados de tal sorte
terra — a Terra de Vera Cruz. beleiras. Vi moça tão bem feita e tão re- que não os molesta, nem os estorva no
Correio — Cabral mandou a frota donda, e sua vergonha tão graciosa, que a falar, no comer ou no beber.
se aproximar da terra? muitas mulheres da nossa terra, vendo- Correio — O que eles comem,
Caminha — Mandou lançar o prumo. lhe tais feições, fizera vergonha, por não como sobrevivem no meio
Acharam vinte e cinco braças; e, ao sol terem a sua como ela. do arvoredo?
posto, obra de seis léguas da terra, surgi- Caminha — Não comem senão desse
mos âncoras, em dezanove braças. Ali inhame, que aqui há muito, e dessa se-
permanecemos toda aquela noite. mente e fruitos, que a terra e as árvores
Correio — O que aconteceu hoje, de si lançam.
quinta-feira,23 de abril? Correio — Eles não plantam?
Caminha — Fizemos vela e seguimos di- Caminha — Eles não lavram, nem criam.
reitos à terra, indo os navios pequenos Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra,
diante, até meia légua da terra, onde nem ovelha, nem galinha, nem qual-
todos lançamos âncoras em frente à quer outra alimária, que costumada
boca de um rio. seja ao viver dos homens.
Correio — O que se avistava Correio — E mesmo assim
a meia légua da terra? parecem saudáveis?
Caminha — Homens que anda- Caminha — Andam tais e tão ri-
vam pela praia, obra de sete ou jos e tão nédios que o não somos
oito. nós tanto, com quanto trigo e le-
Correio — O senhor desembar- gumes comemos.
cou? Correio — Eles bebem vinho?
Caminha — O capitão-mor Caminha — Mal põem a boca.
mandou em terra no batel a Ni- Não gostam nada. Mas, parece-
colau Coelho para ver aquele rio. me, que se lho avezarem, o bebe-
Correio — E como reagiram rão de boa vontade.
os homens à aproximação Correio — Eles não lavram,
de Nicolau Coelho? mas a terra é fértil,
Caminha — Acudiram pela praia boa para plantar,tem água?
homens, quando aos dois, quando Caminha — Águas são muitas: infin-
aos três, de maneira que, ao chegar o das. E em tal maneira é graciosa que,
batel à boca do rio, já ali havia dezoito querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tu-
ou vinte. do, por bem das águas que tem.
Correio — Como eram? Correio — Tem ouro e prata?
Caminha — Eram pardos, todos nus, Caminha — Não pudemos saber que ha-
sem coisa alguma que lhes cobrisse suas ja ouro, nem prata, nem coisa alguma de
vergonhas. Nas mãos traziam arcos com Caminha lê seu relato da terra nova na metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a
suas setas. nau capitânia: nem ouro, nem prata terra em si é de muito bons ares, assim
Correio — O que Nicolau Coelho fez? frios e temperados. Tem, ao longo do
Caminha — Nicolau Coelho lhes fez sinal mar, nalgumas partes, grandes barreiras,
que pousassem os arcos. Eles os pousa- delas vermelhas, delas brancas; e a terra
ram. Os arcos são pretos e compridos, as Correio — Elas também andam nuas? por cima toda chã e muito cheia de gran-
setas também compridas e os ferros de- Caminha — Todos andam nus, sem co- des arvoredos. De ponta a ponta, é tudo
las de canas aparadas. bertura alguma. Não fazem o menos caso praia-palma, muito chã e muito formosa.
Correio — Foi possível conversar de encobrir ou de mostrar suas vergo- Correio — Como são as
com eles na praia? nhas; e nisso têm tanta inocência como matas,o arvoredo?
Caminha — Ali não pôde deles haver fa- em mostrar o rosto. Caminha — O arvoredo é tanto, tama-
la, nem entendimento de proveito, por o Correio — O senhor avistou crianças? nho, tão basto e de tantas prumagens,
mar quebrar na costa. Caminha — Vi uma mulher moça, com que homem as não pode contar. Há entre
Correio — Mas houve algum um menino ou menina ao colo, atado ele muitas palmas, de que se colhem
tipo de contato,de comunicação? com um pano (não sei de quê) aos peitos, muitos e bons palmitos.
Caminha — Nicolau Coelho deu-lhes so- de modo que apenas as perninhas lhe Correio — Os homens desta
mente um barrete vermelho e uma cara- apareciam. Mas as pernas da mãe não terra têm casas? Como são elas?
puça de linho que levava na cabeça e um traziam pano algum. Caminha — São tão compridas, cada
sombreiro preto. Correio — Eles andam nus, uma, como esta nau capitânia. São de
Correio — E os homens retribuíram? só com essas cabeleiras de penas madeira, e das ilhargas de tábuas, e co-
Caminha — Um deles deu-lhe um som- coloridas e sem nenhuma outra bertas de palha, de razoada altura; todas
breiro de penas de ave, compridas, com cobertura ou enfeite? duma só peça, sem nenhum repartimen-
uma copazinha pequena de penas ver- Caminha — Uns andam quartejados de to, têm dentro muitos esteios; e, de esteio
melhas e pardas como de papagaio; e ou- cores, a saber, metade deles da sua pró- a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta,
tro deu-lhe um ramal grande de conti- pria cor, e metade de tintura preta, a mo- em que dormem. E tem cada casa duas
nhas brancas, miúdas que querem pare- dos de azulada; e outros quartejados de portas pequenas, uma num cabo, outra
cer de aljaveira. E com isto se volveu às escaques. Vi um que andava tinto de tin- no outro. Dizem que em cada casa se re-
naus por ser tarde e não poder haver de- tura vermelha pelos peitos, espáduas, colhem trinta ou quarenta pessoas.
les mais fala, por causa do mar. quadris, coxas e pernas até baixo, mas os Correio — Eles são alegres?
Correio — Eles usam chapéus vazios com a barriga e o estômago eram Caminha — Dançam e folgam, uns dian-
ou sombreiros? de sua própria cor. te dos outros, sem se tomarem pelas
Caminha — Uns trazem por baixo da so- Correio — Essa tintura não sai mãos. E fazem-no bem.
lapa, de fonte a fonte para detrás, uma es- do corpo quando eles se banham Correio — Parecem pessoas dóceis,
pécie de cabeleira de penas de ave ama- no rio ou no mar? afáveis com estranhos.
relas, que seria do comprimento de um Caminha — A água a não come nem Caminha — São muito mais nossos ami-
coto, mui basta e mui cerrada, que lhes desfaz a tintura. Antes, quando sai da gos que nós seus. Andam mais mansos e
cobre o toutiço e as orelhas. E pega aos água, parece mais vermelha. Vi uma seguros entre nós, do que nós andamos
cabelos, pena a pena, com uma confei- moça que trazia ambos os joelhos, com entre eles.
A entrevista foi produzida a partir da carta de Pero Vaz de Caminha na versão adaptada pelo historiador português Jaime Cortesão

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Coroa cria nova


moeda de ouro
Com alto valor,o novo dinheiro de Portugal servirá para atrair a atenção dos soberanos indianos
Lisandra Paraguassú to, a expedição nunca foi concreti-
Da equipe do Correio zada. Mas ficaram as moedas.
Desta vez, o Português tem tam-
isboa — De bém uma função fora das fronteiras
um lado, a de Portugal. Dom Manuel pretende
cruz. De ou- usá-lo para negociar as especiarias
tro, a inscrição com os soberanos das Índias. Pedro
Dom Manuel Álvares Cabral, que lançou-se ao
I, Senhor da mar para seguir o caminho aberto
Conquista, por Vasco da Gama, levou Portugue-
Navegação e ses para comprar a boa vontade do
Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e príncipe de Calicute, o samorim
Índia. É assim o Português, a nova Glafer, e fundar uma feitoria no
moeda que começa a circular em principado.
Portugal para comemorar a con- Na viagem de Vasco da Gama,
quista do caminho das Índias pelo apesar da boa quantidade de espe-
navegador Vasco da Gama. ciarias trazidas e do incrível
Cunhado em ouro, o Por- lucro de 6.000%, os negó-
tuguês será a moeda de cios não foram tão bons
mais alto valor no país como deveria se espe-
e na Europa. rar, justamente pela
É mais um dos tan- falta de bens valio-
tos dinheiros que cir- sos. Acostumados a
culam hoje em Portu- receber presentes
gal. Irá dividir espaço magníficos, cercados
com os cruzados de ou- por pedras, tecidos e
ro e prata, os reais, e os materiais preciosos, os
reais brancos. No entanto, samorins desprezaram as
em vez de atrapalhar, acre- poucas prendas levadas
ditam seus defensores, para as Índias. Os por-
o Português deverá aju- tugueses tiveram que
dar a Coroa, princi- usar alguns de seus
palmente no comér- pertences para ten-
cio exterior. tar encantar o samo-
Desde o cruzado, rim. Foi em vão.
cunhado em 1481 por A Coroa aposta
dom Afonso V, não se agora na nova moeda,
tem no país uma moeda feita com o ouro que vem
de tão alto valor. Dom Afon- das minas da fortaleza de
so mandou fazer os cruzados São Jorge da Mina, no golfo da As armas e o retrato de dom Manuel na capa dos documentos
com a intenção de que não houves- Guiné, na África. A principal razão de administração do reino
se em lugar algum comerciante que dos novos Portugueses é impressio-
os recusasse, justamente porque nar aqueles que o rei dom Manuel volte a ver tempos de prosperidade. passou a ser, como bem disse em
seriam uma moeda bastante valio- pretende que passem a ser os mais Desde os anos de 1400, quando a 1425 o rei dom Pedro, ‘‘mui bom su-
sa. Os cruzados, assim batizados importantes parceiros comerciais Coroa investiu nas expedições de midoiro de gente, de armas e de di-
em homenagem às expedições pa- do país. Se aceitarem as moedas, os conquista na costa norte da África, os nheiro’’. A tentativa da conquista de
ra livrar a Terra Santa dos infiéis, comerciantes das Índias poderão cofres do reino andam em más con- Tânger serviu para aumentar ainda
deveriam sustentar os guerreiros concordar em abastecer os navios dições. Tudo começou com a cidade mais o déficit nas contas do país, e as
na luta para livrar a cidade de Cons- portugueses com especiaria vari- de Ceuta que, se até a conquista fora dívidas do reino fizeram os preços
tantinopla dos mouros. No entan- adas e, quem sabe, o tesouro real um ativo centro comercial, depois aumentarem pelo menos seis vezes.

O recurso aos impostos


Nestes tempos bicudos, quase tivo a mais para se endividar com
todas as cortes do continente vi- os banqueiros florentinos e geno-
vem da mão para a boca, tentando veses (os venezianos são rivais no
equilibrar gastos sempre crescen- comércio oriental das especiarias):
tes com rendas incertas. O Estado pratica um verdadeiro capitalismo
vem ganhando funções e responsa- de Estado para financiar as expedi-
bilidades cada vez mais amplas. A ções de descobrimento. Investe
primeira solução é sempre impor parte dos capitais necessários, pega
mais tributos a nobres, comercian- de volta parte dos lucros e adminis-
tes e ao povo em geral. Mas a tole- tra um monopólio.
rência dos súditos a novos impos- Seu instrumento para isso são as
tos tem limite, e logo os reis euro- casas, agências estatais que contro-
peus se vêem obrigados a pedir di- lam com mão de ferro todo o co-
nheiro emprestado para fechar as mércio entre Lisboa e as terras há
contas. A dívida pública faz parte pouco alcançadas na África e no
da vida da maior parte das cortes Oriente. Há a Casa da Guiné e Mi-
européias. na, a Casa da Índia. E o principal
Os banqueiros da península itáli- monopólio português é o da pi-
ca, os mais sofisticados do mundo, menta, o ouro negro de Malabar.
fazem grandes negócios aprovei- Outros estados europeus também
tando a penúria dos estados euro- A manipulação do dinheiro: estados que vivem da mão para dominam, cada um, o comércio de
peus. Florentinos, genoveses e ve- a boca que recorrem com freqüência aos banqueiros um produto: o reino de Castela
nezianos emprestam dinheiro às controla a prata; a França, o sal; a
cortes de Lisboa, Valladolid (Caste- outro vai perder a cautela e o senso em especulações muito arriscadas, Suécia, o cobre. Mas só Portugal,
la), Londres e outras grandes capi- de medida diante do dinheiro fácil, este é um negócio seguro e lucrati- até agora, criou estruturas adminis-
tais européias. Como costuma e terminará falindo. Mas, de forma vo para o banqueiro. trativas tão rígidas para manter seu
acontecer com banqueiros, um ou geral, e desde que não embarque A Coroa portuguesa tem um mo- monopólio.

Bibliografia consultada: História Econômica Geral e do Editora Mestre Jou, São Paulo, 1968; História de Portugal History of Portugal, de David Birmingham, Cambridge Martins Fontes, São Paulo, 1998; História Concisa de Por-
Brasil, de Hilário Franco Jr. e Paulo Chacon, Atlas, São Popular e Ilustrada, de Manuel Pinheiro Chagas, volumes University Press, Cambridge, 1993; Civilização Material, tugal, de José Hermano Saraiva, Publicações Europa-
Paulo, 1980; História Geral da Economia, de Max Weber, IV e V, F. Correa Lima e Cia., Rio de Janeiro, s/d; A Concise Economia e Capitalismo, de Fernand Braudel, volume I, América, Lisboa, 1998.

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Por um mundo novo


chegada da carregando um inevitável es-
frota de Ca- tranhamento, já que somos
bral ao rio todos tão diferentes uns dos
Cahy não é outros, mas com os corações
um aconte- em paz.
cimento Nas terras mais ao norte, a
ímpar pela chegada dos navegadores cas-
descoberta telhanos não se deu sob um
de novas terras. Navegadores clima tão pacífico. Parece que
castelhanos já haviam aporta- esses navegadores não simpa-
do por essas bandas, ainda que tizaram com os astecas, nem
bem mais ao norte, de modo os astecas com eles.
que os reis da Europa já sa- Será que a boa surpresa de
biam que, depois do Mar Ocea- portugueses, a boa acolhida
no, muito depois dele, terra dos homens nus e corpos pin-
havia. O que chama a atenção tados, será que o desejo de co-
no episódio ocorrido ontem municação mesmo sem uma
no litoral de Pindorama é a ex- única palavra comum é pre- CARTAS DOS LEITORES
trema cordialidade com que os núncio de uma era de cordia-
portugueses receberam os ho- bilidade, de pacifismo e de tro-
mens desta terra — e os ho- ca de conhecimentos e expe-
mens desta terra receberam os riências? Será que essa simpa-
portugueses. tiza, essa cordialidade de am- Aos interessados O paraíso
No primeiro contato, eles bos os lados, selará o início de
trocaram sinais, trocaram ges- uma relação equilibrada e de A família Simas comunica Quanta beleza, meu Deus!
tos, trocaram olhares curiosos paz? Aconteça o que aconte- que foi agraciada, por sorteio, Que maravilha! Pedro Álvares
e trocaram presentes. E volta- cer, deseja-se, desde já, que o com a primeira semana de Pe- Cabral mostrava-se surpreso e
ram, cada um para seu lugar, encontro à praia desses ho- tencostes deste ano de 1500 deslumbrado. Pura simulação,
os portugueses às suas naus, mens, deles brancos, deles ver- com visita do Divino Espírito pois o desvio de rota não fora só
Santo da nossa freguesia de por cálculo e estudo, como por
os homens desta terra às suas melhos, seja o início de um
Biscoitos (Terceira-Açores) re- uma viagem anterior de que
casas, cada um a seu destino, mundo novo de verdade. presentada pela bandeira, co- guardara sigilo bem o que que-
roa e cetro. Todas as noites es- ria, aonde desejava aportar. Na-
taremos recebendo na nossa da de partir para a Índia, mas
casa os amigos para a reza do encontrar os índios. Uma sema-
terço diante do altar armado na na depois da partida de Portu-
nossa sala de visitas. Na noite gal as Canárias ficaram ao lon-
de quinta-feira distribuiremos ge. As ilhas do Cabo Verde, onde

RICARDO NOBLAT as roscas para aqueles que nos


acompanharem. No domingo
pela manhã distribuiremos as
marinheiros, tripulantes e de-
gredados desejavam água e re-
pouso também ficaram para
esmolas de pão e carne aos po- trás. Muitos estranharam mas

Que venham em paz bres que baterem à nossa por-


ta. Em seguida, iremos em pro-
cissão, com o menino Impera-
não ousavam nada perguntar
ao contramestre. E assim a ar-
mada seguia viagem pela volta
dor, até a Igreja assistir à missa do mar, e as 13 naus dançavam
De que lugar chegam esses ho- te à distância, que em seguida gesti- e receber a bênção. Serviremos como sardinhas sobre as águas
mens estranhos, de vestes pesadas culam como se pedissem para dei- depois um almoço de carne revoltas, ora poisavam, dias e
que desconhecem a inclemência do tarmos ao chão arcos e flechas que dias, como pétalas num lago
(“alcatra açoriana’’), pão e vi-
sol por essas bandas, de pêlos no carregamos nos ombros e, que uma
nho a todos que participarem tranqüilo, no mar das calma-
rosto como em nenhum de nós se vez satisfeitos em seu desejo, se
da procissão, o qual será segui- rias, quando o gajeiro deu a no-
apresenta, e que a tudo observam aproximam em silêncio respeitoso,
como se jamais em suas vidas tives- oferecem o que têm e recebem o que do de desafios cantados por co- tícia inesperada para muitos de
sem visto gente assim como nós, lhes damos. nhecidos cantadores, desta- terra à vista. E que terra! De lon-
parda e desavergonhadamente nua, O que poderá advir desse encon- cando-se o Machadinho. ge se podia ver um verde inten-
gente a quem mais tarde chamarão tro na praia entre gentes de costu- Roldão Simas Filho, so, de uma cor que só as pintu-
de nativos, ou de nativos selvagens, mes tão diferentes, incapazes de leitor do Correio há cinco anos ras do Paraíso retratavam iguais.
e mais adiante de brasis por habitar- emitir um único som compreensível Riachos que presumiam fontes
mos terras a que darão o nome de ao ouvido alheio, e que no entanto, puras já podiam ser vistos à me-
Brasil? por mais distintas que possam pare- dida em que as caravelas se
Parecem mansos e receptivos co- cer, acabam de uma forma ou de ou- Um bom lugar aproximavam. E havia gente.
mo aos olhos deles igualmente de- tra se assemelhando porque perten- Descobriu-se que o lugar abun-
veremos parecer, tão diferentes de cem, sem dúvida, a uma mesma es- No ano de 1500, o português dava de árvores e que havia
outros, como nós, que por vezes ati- pécie espalhada por terras que co- Pedro Álvares Cabral, com muita gente caminhando pela
ram flechas em nossas casas, violam meçam onde o mar acaba, e por ou- apoio de dom Manuel, rei de praia. As âncoras foram lança-
e roubam nossas mulheres, captu- tras, assim como a nossa, que aca- Portugal, se lançou na aventu- das na foz de um pequeno rio. O
ram e matam nossos filhos e sobre bam na beira do mar? ra de descobrir novas terras. capitão mandou baixar um ba-
os quais desaba em revide toda a Aqui não há um único guerreiro, Saindo de Portugal com sua tel ao mar e ordenou que se ve-
força e toda a fúria dos tupinambás, por certo, moço ou velho não im- frota de treze navios e muitos rificasse que tipo de gente era
pois outra maneira não há de reagir porta quanto, cujo pai, ou o pai do auxiliares no dia 9 de março do aquela. Os homens da armada
quando a guerra interrompe a placi- seu pai, ou o pai do pai do pai dele, mesmo ano. Em seu périplo, notaram que era gente de cor
dez da vida em contato direto com a tenha um dia se despedido da famí- observava tudo que pudesse parda — entre o branco e o ne-
natureza. lia, dado as costas para o mar e ca- servir de orientação na busca gro —, de boa compleição e de
Estávamos na margem esquerda minhado terra a dentro por muitos de novos caminhos. Observou, cabelos compridos. Notaram
do rio Cahy quando os vimos pela sóis e muitas luas, a perder a memó- inclusive, a direção de vôos de ainda que andavam nus como
primeira vez, para muito além da ria do quanto andou, e retornado pássaros. Na sua rota, teve di- tinham nascido, sem vergonha
encosta onde a terra se torna verme- afinal com a certeza de que há, sim, versas visões; no dia 21, encon- nenhuma.
lha como a nossa pele e desce em li- um limite para o que imaginamos
trou ervas marinhas, sinal de A terra tem donos, portanto.
nha quase vertical na direção do simplesmente não ter mais fim.
terra próxima; dia 22, avistou o Há necessidade de conquistá-
mar, desse mar onde vez por outra Em terra tão vasta e onde há de
monte Pascoal, nome que deu la. Por bem ou por mal. Como
banhamos nossos corpos e curamos tudo que mata a fome de muitas bo-
nossas feridas, sem jamais, contudo, cas, cabem aqueles como nós que por estar em plena semana da somos europeus, brancos, ci-
ousar singrá-lo em canoas toscas não precisam do muito que a pró- páscoa; hoje, dia 23, os navios vilizados e cultos tudo deverá
feitas sob medida para cursos de pria terra pode oferecer sem tanto se aproximaram da terra e lan- correr maravilhosamente para
águas mais tranqüilas, assim como esforço, e ainda sobra espaço para çaram âncoras. Está previsto eles e para nós. Evangelizare-
esse a que chamamos de Cahy. todos os que aqui cheguem em paz e para amanhã, dia 24, que os mos esse povo, propondo-lhe
O mar engole os rios e nos devolve queiram se instalar com bons pro- navios fiquem fundeados na ou impondo-lhe a fé católica.
o que sobra deles em forma de tem- pósitos, partilhar conosco as nossas enseada da praia de Coroa Ver- Não devastaremos suas matas
pestade, e assim foi desde tempos mulheres, misturar o seu sangue ao melha; dia 25, deverão estar e florestas nem poluiremos
imemoriais até a esse sol, quando nosso sangue, até o dia em que eles reunidos todos os navios que seus rios e nascentes. Tudo,
dele emergiram os seres estranhos sejamos nós e em que nós sejamos participaram da exploração; e enfim, será cuidadosamente
que nos contemplam primeiramen- eles. Pois que seja assim. no próximo domingo, dia 26, preservado, principalmente o
deverá ser celebrada a primei- índio e suas tradições. Afinal,
ra missa. Esperamos que esta somos brancos, europeus, ci-
terra descoberta por Cabral se- vilizados e cultos. O futuro di-
ja um lugar cada vez melhor de rá como essas previsões se
Edição: Ana Beatriz Magno e André Petry. Pesquisa e texto: Alethea Muniz,Alexandre Botão, se viver. concretizaram.
Armando Mendes, Carlos Alexandre, Leonardo Meireles, Lisandra Paraguassú, Mércia Santana e
equipe do Cedoc, Ricardo Noblat e Sandra Lefcovich; Projeto gráfico: Chico Amaral; Edição
Natal Martins, Lúcio Flávio,
de arte: André Rodrigues, Marcelo Ramos e Toni Lucena; Diagramação: Marcelo Ramos; leitor do Correio há seis anos leitor do Correio há oito anos
Ilustração: Junior; Agradecimento: aos funcionários da Biblioteca Central da Universidade
de Brasília, UnB.

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O sucesso das
corridas pascoais
O espetáculo que mais atraiu a atenção popular aconteceu na cidade-estado de Florença
Leonardo Meireles como as cruzadas e as viagens pelo gioco del calcio atraindo interesse veados, grandes animais.
Da equipe do Correio Mar Oceano, estão ajudando a fazer porque, até hoje, os esportes que E as transformações não se esgo-
com que os habitantes dos reinos da mais fazem sucesso na Europa têm tam nisso. Há notícias de que estão
á quatro dias, Europa voltem a dar importância à origem em práticas militares, como se popularizando jogos pacíficos e
no último dia preparação física, como acontecia a esgrima, além, é claro, das antigas sem contato físico. La Giocosa de
19 de abril, na civilização grega. E até os padres e populares Justas e Torneios, que Mantova, a academia que o senhor
muitos luga- têm aderido a práticas esportivas. divertem de nobres a plebeus. Nas Vittorino Rambaldoni (1378-1446)
res da Itália Sabe-se que muitos têm partici- Justas, dois cavaleiros, vestidos com criou, tem ajudado até a populari-
repetiram um pado do gioco del calcio, ou jogo do armaduras pesadas e empunhando zar um esporte aquático, que ele
belíssimo es- pontapé, em que duas equipes de 27 um escudo e uma lança, correm chamou de natação. Outro esporte
petáculo pú- pessoas procuram a posse de uma com seus cavalos um em direção ao muito calmo que está se tornando
blico ao pra- bola e tentam passá-la por cima de outro e tentam se acertar. Nos Tor- conhecido é o xadrez. Há três anos,
ticar o esporte que comemora a res- dois postes. Não há regras exatas neios, que começaram no reino da o castelhano Juan Ramirez Lucena
sureição de Cristo. São as corridas para a prática do jogo, mas acredita- França, dois grupos, formados por publicou o livro Repetición de Amo-
pascoais, que a cada ano têm rece- se que seja um esporte de futuro, inúmeros cavaleiros, um chefe e um res e Arte de Ajedrez em 501 Juegos de
bido um número maior de partici- pois tem sido acompanhado por porta-estandarte, simulam uma Partido e, a partir desse manual, as
pantes, que saem de suas casas para muita gente. guerra. Mas as mortes e os ferimen- peças que antes se chamavam car-
correr, observar a maratona ou só Os bretões também praticam um tos são reais, tanto nos Torneios ros, cavalos, elefantes, soldados, rei
celebrar o Domingo de Páscoa. Cor- esporte parecido com o gioco del quanto nas Justas. e vizir, como no distante Oriente,
redores e espectadores encheram as calcio, chamado soule, ou sol. O es- Parece que os impérios, reinos e agora começam a ser chamadas de
ruelas de várias localidades, mas a porte faz parte do treinamento mili- ducados e mesmo as cidades-esta- peões, torres, bispos, cavalos, rei e
festa mais numerosa de que se tem tar dos bretões e é praticado da se- dos da Europa estão passando por rainha. E o português Damiano Pe-
notícia aconteceu na cidade-estado guinte maneira: a bola é confeccio- uma transformação. O que antes era dro, um boticário da cidade de Ode-
de Florença, epicentro cultural da nada com bexiga de boi ou porco, e meio de sobrevivência está virando nira, tem dito que, nos próximos
região — e contou com a bênção os jogadores usam mãos e pés. As esporte com regras definidas. É o anos, lançará um livro que revolu-
das autoridades da Igreja Católica. metas ficam em cidades diferentes, caso do arco e flecha e das caças. Os cionará ainda mais o xadrez. É espe-
Em tempos passados, a Igreja de modo que os times atravessam nobres têm praticado a caça com rar para conferir.
quase acabou com o esporte de cor- campos, florestas e rios para chegar falcão e a caça de feras, os tipos mais ■ Quem, em abril de 1500, apostasse no
rer pelas ruas, mas atualmente o ao seu objetivo. Mas são muitos os comuns hoje na Europa. A caça com futuro do gioco del calcio recolheria uma
clero tem visto essas manifestações casos de morte, em especial por afo- falcão é feita em descampados para vitória estrondosa: o gioco del calcio é a
populares com bons olhos, pois gamento, quando a bola cai em rios capturar coelhos e animais peque- origem do que, cinco séculos depois, será
conseguiu incorporá-las aos seus de águas profundas e traiçoeiras. nos, e a caça de feras é nas florestas, o esporte mais popular do planeta sob o
cultos. As corridas pascoais, assim É curioso ver corridas pascoais e para pegar javalis, porcos-do-mato, nome de futebol.

Entre as lutas e a diversão As Justas, violentas


disputas entre dois
Cada região do mundo tem um esses povos do Oriente. colocada na ponta de um bastão. O cavaleiros de
modo próprio de encarar o esporte. O jiu-jitsu (arte suave) começou jogador deve levá-la ao gol oposto. armaduras
Enquanto os habitantes da Europa com os monges budistas indianos, Entre os astecas, há dois esportes carregando
começam a difundir esportes sem no começo deste século. Mas os ja- principais: a caça e o tlachtli. Co- escudos e lanças,
contato físico e sem inspiração mili- poneses gostaram tanto da luta que menta-se que o imperador dos aste- são o esporte que
tar, aqui nestas terras novas, que cas- já tomaram-na para si. Na China, as cas gosta de levar visitantes para seu mais diverte
telhanos e agora portugueses estão duas modalidades mais praticadas palácio para exibir-se usando a zara- nobres e plebeus da
descobrindo, a prática esportiva é hoje em dia são o kung-fu e o tai-chi- banata. É um cano, feito de Europa
pura diversão ou, em alguns casos, chuan. A primeira, que significa lutar bambu, no qual o guerreiro
metáfora de cunho religioso. Já do com habilidade, foi criada por agri- sopra uma bolinha de barro
outro lado do mundo, no Japão e na cultores com o objetivo de defender e acerta pássaros e outros
China, seus habitantes praticam es- suas terras e também é chamada de animais pequenos. O tlach-
portes sempre com objetivo militar wushu. Já o tai-chi-chuan é pratica- tli é também chamado de
— em geral, são lutas corporais. do há mais de 5 500 anos e foi criado jogo da palma. Nele, duas
No Japão, há dois tipos de comba- para traduzir as lendas e mitos do pessoas, ou um grupo de
tes mais populares. Um deles é o nin- país em forma de gestos. pessoas, dividem-se em
jutsu, que une armas e mãos, e é pra- Enquanto do outro lado do mun- um campo delimitado
ticado por guerreiros ninjas, merce- do o esporte é luta, os povos destas por uma linha no meio e
nários contratados por senhores feu- terras novas daqui divertem-se de passam uma bola de
dais para se infiltrar em fileiras ad- modo diferente. Os nativos da região borracha por meio de
versárias e matar seus oponentes. O norte deste continente, por exemplo, tapas. Aquele que dei-
outro é o sumô, criado há 1 500 anos gostam de praticar um jogo que os xar a bola quicar mais
e praticado como forma de defesa. O franceses chamam de lacrosse. O jo- de uma vez no chão, perde. Para
sumô tem sido usado para arrecadar gador carrega uma bola, que pode os astecas, o esporte também tem
dinheiro para a construção e restau- ser uma pedra ou uma fruta, dentro objetivo religioso: a bola significa
ração de templos budistas e xintoís- de uma cesta feita de cabelos ou pê- o Sol, esse astro que é objeto de
tas, as religiões mais populares entre los de animais. A cesta com a bola é devoção para eles. (LM)

Bibliografia consultada: III Encontro Nacional de História Rio de Janeiro, 1956; Os exercícios físicos na história e na arte Toronto, 1952; Apontamentos para uma história do xadrez & Soustelle, Itatiaia, Belo Horizonte, 1962; O Guia dos Curiosos,
do Esporte, Lazer e Educação Física, coletânea de vários auto- - Do homem primitivo aos nossos dias, de Jayr Jordão Ramos, 125 partidas brilhantes, de Fernando de Almeida Vasconcel- de Marcelo Duarte, Companhia das Letras, São Paulo, 1996;
res, CNPQ, Curitiba, 1995; História Geral da Educação Física, Ibrasa, São Paulo, 1982; Pictorial History of American Sports, los, Da Anta Casa Editora, Brasília, 1991; A vida quotidiana Todos os esportes do mundo, de Orlando Duarte, Makron
de Aluizio Ramos Accioly e Inezil Pena Marinho, Cia Brasil, de John Durant e Otto Bettmann,A.S Barnes and Company, dos astecas nas vésperas da conquista espanhola, de Jacques Books, São Paulo, 1996.

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Guerra sem fim


na região central
A valorização do espírito guerreiro é a justificativa para as batalhas na sociedade Tupinambá
Carlos Alexandre norte e avançam pelo sul em dire-
Da equipe do Correio ção ao litoral, zona mais rica em
nutrientes do que a mata fe-
les são os se- chada ou o sertão. O esgotamento
nhores do pla- do solo, exaurido com as plan- Análise
nalto central tações e colheitas de milho e man-
desta nova dioca, e a caça também motivam da Notícia
terra. Conhe- as tribos a invadirem territórios de
cidos pela fe-
rocidade dos
tribos inimigas.
Outras razões, de cunho reli-
Uma questão
ataques aos
inimigos e pela extrema habilidade
gioso e espiritual, servem de pa-
no de fundo para os conflitos. A
em aberto
para a caça, os Kayapó são os índios busca da Terra Sem Males é o As constantes guerras entre
mais temidos e odiados da região. que move muitas tribos, em es- diferentes grupos tribais são um
As incursões desse grupo são con- pecial as do ramo Tupi, e as faz problema que começaram neste
hecidas em um raio de mais de mil vencer todas as adversidades. século XV. Por enquanto, a
quilômetros. Eles são nômades e Esses guerreiros buscam o paraí- supremacia dos grupos tupi é
famosos pela resistência contra o so terrestre, o que motiva a mi- evidente, mas ainda não parece
inimigo. Exímios caçadores e muito gração dos índios Tupi em dire- definitiva para uma terra onde
habilidosos na arte de esmagar crâ- ção ao litoral desta terra imen- vivem mais de 5 milhões de
nios com golpes de porrete, costu- sa. Enquanto não chegam nesse habitantes.
mam matar os homens e aprisionar paraíso, habitam a chamada Rivalidades entre civilizações
mulheres e crianças quando inva- Pindorama. e povos distintos sempre
dem uma aldeia. A rivalidade é estimulada em marcaram a história da
As guerras intertribais marcam a grande parte pelo sentimento humanidade. É do conflito de
realidade entre índios às vésperas de vingança. Os Tupinambás interesses que os povos surgem,
do novo século. A dominação de ter- adotam a antropofagia por- conquistam, crescem e morrem.
ras e a vitória sobre grupos rivais é que acreditam que ao devorar Por essa razão, pode-se inferir
uma das diretrizes mais importan- o inimigo ficam imbuídos do que a cena política entre as
tes para a sobrevivência das tribos. espírito guerreiro. A glorifi- nações indígenas destas terras
Apesar da agressividade dos Kayapó cação da valentia também se novas é instável. Mesmo entre os
na porção central desta terra, os Tu- verifica entre os derrotados: grupos dominantes, não há
pinambá, que pertencem às nações é preferível ser canibalizado intenção declarada de
de língua Tupi, estão vencendo nes- em conseqüência do comba- conquista, como ocorre com as
se cenário de guerra. Depois de mi- te a morrer por doença civilizações inca e asteca.
grar do norte, lá onde ficam as flo- O manto dos Tupinambá, soberanos na costa ou atacado por uma fera Nesse contexto, será
restas mais verdes e imensas, eles litorânea: Pindorama antes do paraíso da floresta. interessante observar a entrada
estenderam seus domínios por boa Nesse cenário belicoso, as tri- no cenário de um novo
parte do litoral. bos Tupi assumiram o controle da personagem. Os europeus que
A valorização do espírito guerreiro — Pouco me importa — responde costa. Os índios pertencentes ao aportaram por aqui ontem, com
é a justificativa para a realização de o condenado. Quantas vezes me en- tronco língüístico Jê dominam o pla- evidente interesse em ganhar a
grandes ritos na sociedade Tupi- chi com a carne da tua nação! Ade- nalto central desta nova terra e, tam- simpatia dos Tupinambá,
nambá. Nessas festas, o prisioneiro mais, tenho irmão e primos que me bém, a região mais ao norte que certamente exercerão alguma
está pintado de preto e untado com vingarão. compreende dois rios grandes. influência nas relações, pacíficas
resina para a cerimônia. Capturado O carrasco prossegue com a sua Entre os grupos tribais pertencen- ou hostis, entre as tribos. É uma
durante a batalha, ele é centro das missão. Ergue o tacape e desfere um tes à genealogia Jê, os Kaiapó assu- questão em aberto
atenções e motivo de glória para os golpe matador na nuca do inimigo, mem maior expressão no interior para o futuro. (CA)
vencedores do conflito. O algoz en- que cai ao chão sem vida. Seguem- desta nova terra. É improvável que a
feitado com um manto de penas ver- se então os procedimentos que vão chegada do novo século represente
melhas começa o diálogo sagrado culminar na grande festa tupinam- uma trégua entre as centenas de
com o cativo: bá: o canibalismo. grupos tribais pulverizados pela ter-
— Não sabes que tu e os teus ma- A dominação do inimigo, eviden- ra de Pindorama. A hostilidade e a
taram muitos parentes nossos e temente, tem razões estratégicas. Os guerra, que traduzem o nível extre-
muitos amigos? Vamos vingar essas Tupi (Tupinambá, Tupiniquim, Ta- mo das diferenças culturais entre as
mortes. Nós te mataremos, assare- moio e outros) desceram do grande tribos, devem manter-se no cotidia-
mos e comeremos. rio que corta a floresta imensa do no das tribos para os próximos anos.

Os povos desta nova terra: guerra tribais, práticas de canibalismo e a procura por um local onde não haja mal algum

Bibliografia consultada: Os Índios e a Civilização, de Darcy de Manuela Carneiro da Cunha, Companhia das Letras, São res, Porto Alegre, 2000. Índios do Brasil, de Julio Cezar Melatti, e do Homem no Planalto Central, de Paulo Bertran, Solo Edito-
Ribeiro,Vozes, Rio de Janeiro, 1977. História dos Índios no Brasil, Paulo, 1992. Brasil,Terra à Vista, de Eduardo Bueno, LPM Edito- Coordenada Editora de Brasília, Brasília, 1970. História da Terra res, Brasília, 1994.

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Curtas
Adágios de Erasmo Mudanças na escrita Duas estátuas
Sempre envolvido em polêmicas religiosas Os desenhistas ingleses ganharam um Há quatro anos que
por defender idéias consideradas ‘‘liberais novo alidado. Na Inglaterra, acaba de ser Michelangelo encontra-se em
demais’’ pela Igreja, o erudito Desidério inventado o lápis de grafite. Já está Roma. Está por lá esculpindo A
Erasmo (imagem ao lado), publica agora os disputando com a caneta de pena, a Pietà, que combina duas
seus Adágios. A obra reúne mais de 800 preferência dos que vivem da escrita e do estátuas de mármore em
provérbios gregos e latinos. desenho. A invenção promete ganhar tamanho natural numa peça só.
■ Será um notável trabalho de grande muitos adeptos e tende a se popularizar, ■ Ele voltará a Florença em 1501
importância aos estudos clássicos. já que seu custo é baixo. para esculpir seu célebre Davi.

Adeus,pergaminho
Alethea Muniz o quanto essas cifras poderão subir
Da equipe do Correio com as inovações de Manúcio.
Até agora, cada incunábulo tem
incunábulo no máximo 200 exemplares por edi-
está com os ção. Mas a expectativa, com a re-
dias contados. dução do tamanho do volume, é pro-
Enquanto es- duzir edições com 500 exemplares.
critores holan- Embora o número de prelos aumen-
deses e ale- te a cada dia, ninguém arrisca editar
mães estão incunábulos sem leitores certos. Por
disputando a isso a maioria dos impressos são li-
autoria da imprensa entre Guten- vros religiosos, jurídicos, poemas e
berg e Coster, os editores vêm apro- pequenos textos com narrativas épi-
veitando de maneira inteligente a in- cas e algumas comédias.
venção. Trata-se do oitavo e do grifo, Os editores também seguem a ten-
duas pequenas inovações que pro- dência dos artistas. Assim como os
metem transformar os incunábulos pintores e escultores recuperam a es-
— livros enormes de transporte qua- tética grega e romana em suas obras,
se impossível — em volumes tão pe- os textos clássicos renascem na lite-
quenos a ponto de serem até carre- ratura e, graças aos prelos, estão mais
gados no bolso. acessíveis. Foi o próprio Aldo Manú-
A idéia é trocar a tipografia gótica cio quem imprimiu a primeira ver-
impressa em pergaminho, que imita são tipográfica de Aristóteles, em
os manuscritos do século passado, grego, há dois anos. Há mais tempo,
pela ‘‘cursiva aldina’’ impressa em em 1494, também publicou a Gra-
papel de formato in-octavo. Por se- mática Grega, de Lascaris.
rem mais simples, os novos caracte- Entre os autores preferidos dos ti-
res compõem páginas muito areja- pógrafos estão Boccaccio e Dante
das, leves e elegantes. O autor dessa Alighieri. A Divina Comédia ganhou
façanha chama-se Aldo Manúcio e nove edições em incunábulos, de
possui um prelo em Veneza há exatos 1472 a 1493, e está previsto que ga-
dez anos. Para inaugurar o novo for- nhe outras sete nos próximos 20
mato, ele está planejando reeditar o Impressão de um livro: só em Veneza estima-se que haja cerca de 150 prelos anos. É um livro bastante especial,
clássico Virgílio, com lançamento muito apreciado dentro e fora da re-
previsto para o próximo ano. Aliás, se tivesse conhecido as ma- copistas, tão parecido com o original gião da Itália. Os europeus apreciam
Por enquanto, Manúcio está pre- ravilhas da tipografia, Petrarca talvez que ele dizia não saber mais distin- e buscam comprar as coleções de vo-
parando os tipos com os novos ca- não precisasse mais se preocupar guir um do outro. lumes múltiplos, que reúnem grande
racteres, desenhados por Francesco com a reprodução dos seus textos. Com a facilidade da impressão, os número de obras já publicadas. Mas
Griffo. Quando questionado sobre a Autor de mais de 400 poemas em ita- livreiros e impressores estão conse- impressionante mesmo é a procura
cursiva inventada, Manúcio respon- liano e alguns outros em latim, o guindo colocar ao alcance de uma pela Bíblia, obra que marcou a pri-
de que pediu algo inspirado na letra poeta propôs a escritura autógrafa grande clientela textos que antes só meira impressão tipográfica de Gu-
do poeta italiano Petrarca (1304- (em vez de copiada por escriba) des- circulavam no mundo restrito dos le- tenberg, há 40 anos, e deve se prolife-
1374), um dos mais lidos atualmente. tinada à circulação limitada. Com is- trados. Para se ter idéia do que isso rar com o oitavo, que facilitará o
Mas Griffo diz que se baseou na cali- so, ele pretendia evitar as reprodu- significa, quando a tipografia foi in- transporte do livro sagrado.
grafia de Bartolomeo Sanvito, trans- ções errôneas dos copistas ventada, há 50 anos, havia cerca de
critor da página final do ■ De fato, os incunábulos sumiram e
profissionais e manifestar 100 mil exemplares circulando. Hoje, as inovações de Manúcio significaram
Purgatório, segunda e as intenções que presidi- estima-se que haja 9 milhões de vo- uma revolução semelhante à provo-
penúltima parte de A ram a composição da obra. lumes por toda a Europa. Sem falar cada hoje pela Internet. Só no Brasil,
Divina Comédia, do ita- Ele mesmo chegou a co- nos prelos, que cresceram extraordi- atualmente, são publicados 369 mil-
liano Dante Alighieri piar várias delas para im- nariamente: há cerca de mil prelos hões de exemplares por ano. A Bíblia
(1265-1321), outro popu- pedir a ‘‘corrupção do em mais de 250 localidades, 150 so- ainda é o grande best seller da hu-
lar no momento. texto’’ reproduzido pelos mente em Veneza. É difícil imaginar manidade.
A Bíblia de Gutenberg:
sucesso editorial

Personagem da Notícia
Editor também cidido a imprimir pessoalmente as grandes obras
da Europa. Minucioso, é conhecido na cidade pe-
las edições rigorosamente exatas, autênticas, cor-
com estatuto redigido em grego.
Os membros se reúnem em dias fixos, na casa
de Manúcio, e discutem questões literárias, esco-
é escritor rigidas palavra a palavra. Chega a dizer que dará
um escudo de ouro a quem encontrar qualquer
lhas de livros a imprimir, problemas referentes ao
texto clássico. Todos têm o mesmo cuidado do edi-
O editor Aldo Manúcio nasceu na década da in- erro em suas edições. tor, embora Manúcio esteja sempre por perto e ve-
venção da tipografia, mas nunca pensou em tra- Em três anos, Manúcio chegou a publicar mais rifique cada edição pessoalmente. Aos 50 anos,
balhar com essa técnica até completar 40 anos de de 40 volumes de clássicos, entre os quais Teócrito, quatro filhos, também encontra tempo para escre-
idade. Seus estudos foram os de um aplicado hu- Aristóteles e a Gramática Grega, de Lascaris. Até ver o próprio livro. Está preparando a Gramática
manista: cursou latim em Roma e grego em Ferra- pouco tempo esse trabalho exaustivo era realiza- Latina, que será editada no ano que vem.(AM)
ra, com o célebre Guarino. do apenas por ele. Com a demanda de pedidos,
Ao instalar a própria oficina em Veneza há dez porém, decidiu se valer de alguns humanistas de ■ Manúcio morrerá em 1515. Um de seus filhos,
anos, ele nada sabia de tipografia, mas estava de- reputação segura e fundou a Aldi Neacademia, Paulo, continuará o ofício do pai.

Bibliografia consultada: A Palavra Escrita, de Wilson Unesp, São Paulo, 1991; A Ordem dos Livros, de Roger Janeiro, 1986; A Aventura das Línguas no Ocidente, de Hen- va Cultural, São Paulo, 1995; História da Civilização Oci-
Martins, Editora Ática, São Paulo, 1996; O Aparecimento Chartier, Editora UnB, Brasília, 1994; A Construção do Li- riette Walter, Editora Mnadarim, São Paulo, 1997; Enciclo- dental, de Edward McNall Burns, Editora Globo, Rio de
do Livro, de Lucien Febvre e Henry-Jean Martin, Editora vro, de Emanuel Araújo, Editora Nova Fronteira, Rio de pédia Ilustrada de Pesquisa — Conhecer 2000, Editora No- Janeiro, 1959.

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