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© Brasil Blackwell Ltd 1858 108 Cowley Road, Oxford OX4 lJF, UK

Tradução brasileira a partir do original alemão (Philosophische Untersuchungen) e complementada com a edição inglesa (Philosophical investigations). ISBN 3-517-27803-7 (edição alemã) e ISBN 0-631-146709 (edição inglesa)

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ão em língua portuguesa ozes Ltda. ís, 100 ópolis, RJ om.br

uma parte desta obra poderá

ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia

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A impressão da primeira edição desta obra foi feita pela Editora Vozes, Petrópolis, RJ, em 1994.

101.8

W786i

Wittgenstein, Ludwig

Investigações filosóficas I Ludwig Wittgenstein ; tradução Marcos G. Montagnoli; revisão da tradução e epresentação Emmanuel Carneiro Leão. 6ª ed. - Petrópolis :

Vozes, 2009.

350 p. (Coleção Pensamento Humano) Título original: Philosophische Untersuchungen. ISBN 978-85-326-1328-8

1. Wittgenstein. I. Montagnoli, Marcos G.

2. Pensadores.

3. Filosofia.

I!. Título.

Ill. Série.

Ficha catalográfica elaborada pelas bibliotecárias do Setor de Processamento Técnico da Universidade São Francisco.

NOTA DOS EDITORES

A primeira parte deste volume já estava concluída desde 1945. A segunda parte surgiu entre 1946 e 1949. Se o próprio Wittgenstein tivesse publicado sua obra, teria deixado fora gran- de parte do que agora perfaz m~is ou menos as trinta últimas páginas da primeira parte e, no s.eu lugar, teria inserido o conteúdo da segunda parte, acrescentando outro material. Por toda parte, no manuscrito, tivemos que decidir entre diferentes leituras de palavras isoladas e locuções. A escolha jamais afetou o sentido. As passagens que eventualmente estão impressas ao pé da página, abaixo de um traço, estavam escritas erri tiras de papel que Wittgenstein recortou de outros escritos e agregou às respectivas páginas, sem indicar com mais precisão onde se encaixariam. Palavras entre parênteses duplos são referências a notas, seja nesta obra ou em um outro de seus escritos que, esperamos, serão publicados mais tarde. Somos responsáveis pela colocação dos fragmentos finais da segunda parte na sua posição atual.

G.E.M. Ascombe

G.H. von Wright

Rush Rhees

1952

De um modo geral, o progresso em si parece ser muito maior do que realmente é.

NESTROY

APRESENTAÇÃO

No fim do ano letivo de 1947, WITTGENSTEIN renunciou à docência em Cambridge e passou a viver uma existência solitária e errante, ora na Irlanda, ora no País de Gales, ora nos EEUU ., ora na Noruega. Mas , por toda parte, trabalhou sempre na reforrnulação de sua filosofia da linguagem, cuja primeira formulação, no Tratado lógico-filosófico de 1922, era uma teoria paradigmático-apodigmática. As reflexões de seus últimos quinze anos de vida, 1936-1951 , foram recolhidas e publicadas postumamente em duas obras de fôlego: Investigações filosó-

ficas de 1953 e Observações sobre os fundamentos da Mate-

mática de 1956. Ambas lidam, em larga escala, com o problema filosófico da linguagem. A primeira se ocupa da linguagem real

da vida quotidiana e a segunda trata da linguagem ideal da lógica

e Matemática.

Toda a Filosofia da linguagem de WITTGENSTEIN exerceu neste século uma influência decisiva. Enquanto o Tratado lógi- co-filosófico marcou amplamente o chamado positivismo lógi- co, as duas últimas grandes obras se tomaram fundamentais para

o movimento conhecido como Filosofia analítica. Visto que as

Investigações filosóficas se concentram em descobrir os dife- rentes usos da linguagem operados na vida quotidiana, a coleção Pensamento Humano, da Editora Vozes de Petrópolis, as apre- senta agora numa tradução do original alemão de Marcos Galvão Montagnoli. As linguagens perfeitamente ordenadas são transparentes e como que eternas. Ideais e imutáveis, são, contudo, desprovidas de vida e de morte, e insensíveis para as diferenças históricas e

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a diversidade cultural da humanidade. A linguagem real da vida

não considera apenas as estruturas lógicas que se podem ordenar

com perfeição e transparência. A linguagem real da vida se mantém sempre em aberto e abrindo-se para usos sempre novos

e jogos em contínua reformulação. A fonte da vida histórica dos

homens é o caos, no sentido originário da palavra grega. Trata-se de uma experiência inaugural tão rica e dinâmica que dela se origina tudo que é e nela se nutre toda criação em qualquer área

ou nível do real e/ ou possível, do necessário e/ ou contingente. Por isso todo propósito de pensar ou falar, conhecer ou agir sempre aponta para este vigor primordial de ser e realizar-se da realidade. Do caos provém, para o caos remete, no caos se mantém e de volta ao caos retoma toda ordem e toda desordem,

o mundo e o imundo, tudo que está sendo, como tudo que não está sendo.

A palavra "caos" tem o mesmo radical do vebo chasko, que

nos remete para a experiência de manter-se continuamente abrindo-se, de estar, portanto, sempre em aberto. Diz o hiato do ser, o abismo hiante da realidade que é, no sentido transitivo de fazer ser e realizar. Todo real se instala e se sustém num advento

desta realidade que se abisma no hiato sem limites nem discri- minações, sem ordens nem desordens de todas as possibilidades

e impossibilidades. A linguagem real da vida quotidiana é este

poder inaugural do caos , o poder em si indeterminado e indeter- minável de toda determinação e indeterminação. Assim, toda linguagem originária remete sempre para a conjugação em toda experiência real das três dimensões ou poderes da realidade:

1 2 a linguagem está aquém de toda ordem e/ ou desordem de qualquer tipo , natureza ou nível;

2 2 a linguagem é a possibilidade em sentido transitivo de possibilitar, i.

é, dar o poder ou tirar o poder de toda discriminação e indiscrimi-

nação; 3 2 a linguagem é o princípio de continuidade e manutenção para toda diferenciação e/ ou indiferenciação. Esta integração da linguagem real da vida constitui de alto a baixo toda experiência humana, em cuja força se inaugura a existência histórica das culturas. Nela mora tanto o silêncio da

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fala como o espanto da criação. Dela vive o estranho que atrai o conhecimento e o inesperado que alimenta de esperança as esperas. Com ela partilha o pensamento a ousadia de suas aventuras e para ela recorre a insistência das tentativas de ultrapassar os limites do real. É o que WITTGENSTEIN percebeu desde 1936. A lingua- gem originária não é nem se deixa reduzir a mero instrumento de descrição e representação. As funções paradigmática e apo- digmática não exaurem o vigor de presença da linguagem. Compõem apenas um de seus usos e regem somente os jogos de subsunção e jonglagém. A linguagem instaura processos de ação e transformação em que nenhuma emergência é sem sentido. Nas Investigações, a linguagem se toma mais elástica e compreensiva e o pensamento

se transforma cada vez mais em atividade de diferenciar padrões

de comportamento sem propósito lógico ou teórico de combi-

nação. Trata-se de aprendizagem, a aprendizagem de ver novos modos de ser. Quebra-se a prepotência da uniformidade. Já não

se pretende impor um modelo de uso e um padrão de discurso

a todas as alas e a todos os jogos da linguagem. Com relação ao

Tratado, temos uma outra atitude. WITTGENSTEIN já não considera a forma lógica o paradigma de todo discurso possível. O uso lógico, com suas tautologias e não contradição, já não se atrita nem entra em conflito com outros usos da linguagem real.

A cada passo de sua passagem, as Investigações filosóficas

lançam o desafio do progresso na vida da linguagem que, de

próprio WITTGENSTEIN formulou com as seguin-

tes palavras: "A Filosofia não fez nenhum progresso? Se alguém coça, onde lhe faz comichão, deve-se ver nisso um progresso?

Do contrário, a coceira ou a comichão não seriam verdadeiras? Não poderá persistir esta reação ao estímulo até se encontrar um remédio para a comichão? "

certa feita , o

Emmanuel Carneiro Leão Outubro de 1994

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PREFÁCIO

No que se segue, publico pensamentos, o assentamento de investigações filosóficas que me ocuparam nos últimos dezesseis anos. Elas dizem respeito a muitos objetos: ao conceito de significado, de compreensão, de proposição, de lógica, aos fundamentos da matemática, aos estados da consciência e ou- tros. Assentei todos esses pensamentos como observações, breves parágrafos, às vezes, em séries mais longas sobre o mesmo objeto, às vezes , em mudanças rápidas, saltando de uma região a outra.-Desde o início, a minha intenção era reunir tudo isso em um livro, de cuja forma eu fazia idéias diferentes em épocas diferentes. Mas parecia-me essencial que os pensamentos aí deveriam progredir de um objeto a outro numa seqüência natural e sem lacunas. Após algumas tentativas mal sucedidas de fundir os meus resultados nesse todo idealizado, compreendi que nunca conse- guiria isso. Compreendi que o melhor que poderia escrever, permaneceria tão-somente observações filosóficas, e que os meus pensamentos afrouxavam quando eu tentava forçá-los em uma direção contra a sua tendência naturaL- E isto estava ligado, naturalmente, à natureza da investigação. Ela, sim, obriga-nos a percorrer uma distante região do pensamento em todos os sentidos e direções .- As observações filosóficas deste livro são , por assim dizer, um conjunto de esboços de paisagem que surgiram nestas viagens longas e complicadas. Os mesmos pontos, ou quase os mesmos , foram tocados sempre de novo a partir de direções diferentes, e foram projeta- das sempre novas imagens. Destas, uma infinidade foi mal desenhada, ou impropriamente guarnecida com as falhas todas de um fraco desenhista . E se eliminássemos estas , restaria uma quantidade das que ficaram a meio caminho e deveriam então ser ordenadas, freqüentemente podadas, de tal forma que pu-

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dessem dar ao observador uma imagem da paisagem.-Portanto, este livro é, na verdade, apenas um álbum. Até há pouco eu havia desistido de pensar em uma publica- ção de meu trabalho em vida. Todavia, este pensamento avivou- se, de tempos em tempos, aliás, principalmente pelo fato de eu ter que experimentar os meus resultados , transmitidos em pre- leções, escritos e discussões, circulando muitas vezes mal com- preendidos, mais ou menos trivializados ou mutilados. Minha vaidade instigou-se com isso, e tive trabalho para acalmá-la. Mas, há quatro anos, tive ocasião de ler novamente o meu primeiro livro (o "Tratado Lógico-Filosófico") e de esclarecer os seus pensamentos. Pareceu-me, de repente, que eu deveria publicar aqueles antigos pensamentos junto com os novos: estes poderiam receber sua reta iluminação somente pelo confronto com os meus pensamentos mais antigos e tendo-os como pano de fundo . Desde que comecei, pois, há dezesseis anos, a me ocupar novamente com a filosofia, tive que reconhecer graves erros naquilo que eu expusera naquele primeiro livro. Ajudou-me a reconhecer estes erros-nem eu mesmo consigo avaliar em que medida-a critica de Frank Ramsey às minhas idéias-com quem as discuti em inúmeras conversas durante os dois últimos anos de sua vida.-Mais ainda do que a esta critica-sempre vigorosa e segura,-sou agradecido à crítica que um professor desta Univer- sidade, Sr. P. Sraffa, continuamente fez aos meus pensamentos, durante muitos anos. A este estímulo devo as mais fecundas idéias deste escrito. O que publico aqui vai ao encontro, por mais de um motivo, do que outros hoje escrevem.-As minhas observações não têm em si nenhuma marca que as caracteriza como minhas, -assim não as reivindico também como minha propriedade. É com sentimentos duvidosos que as entrego ao público. Não é impossível que seja dado a este trabalho em sua indigência, e nas trevas deste tempo, lançar luz numa ou noutra cabeça; mas, naturalmente, não é provável. Com meu escrito não pretendo poupar aos outros o pensar. Porém, se for possível, incitar alguém aos próprios pensamentos. Eu gostaria de ter produzido um bom livro. Não resultou assim; mas já se foi o tempo em que eu poderia melhorá-lo . Cambridge, janeiro de 1945.

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PARTE I

1 . Santo Agostinho diz nas Confissões (1/8): cum ipsi (majores homines) appellabant rem aliquam, et cum secundum eam vocem corpus ad aliquid movebant, videbam, et tenebam hoc ab eis vocari rem illam, quod sonabant, cum eam vellent ostendere. Hoc autem eos velle ex motu corporis aperiebatur: tamquam verbis naturalibus omnium gentium quae fiunt vultu et nutu oculorum, ceterorumque membrorum actu, et sonitu voeis indi- cante affectionem animi in petendis , habendis , rejiciendis , fugien- disve rebus. !ta verba in variis sententiis locis suis posita, et crebro audita, quarum rerum signa essent, paulatim colligebam, meas- que iam voluntates, edomito in eis signis ore, per haec enuntia- bam. [Quando os adultos nomeavam um objeto qualquer voltan- do-se para ele, eu o percebia e compreendia que o objeto era designado pelos sons que proferiam, uma vez que queriam chamar a atenção para ele. Deduzia isto, porém, de seus gestos, linguagem natural de todos os povos, linguagem que através da mímica e dos movimentos dos olhos, dos movimentos dos membros e do som da voz anuncia os sentimentos da alma, quando esta anseia por alguma coisa, ou segura, ou repele, ou foge . Assim, pouco a pouco eu aprendia a compreender o que designam as palavras que eu sempre de novo ouvia proferir nos seus devidos lugares , em diferentes sentenças. Por meio delas eu expressava os meus desejos, assim que minha boca se habituara a esses signos.] Nestas palavras temos, ao que parece, uma determinada imagem da essência da linguagem humana, a saber: as palavras da linguagem denominam objetos-as sentenças são os liames de tais denominações.-Nesta imagem da linguagem encontra- mos as raízes da idéia: toda palavra tem um significado. Este significado é atribuído à palavra. Ele é o objeto que a palavra designa. Santo Agostinho não fala de uma diferença de espécies de palavras. Quem descreve o aprendizado da linguagem dessa forma , pensa, acredito eu, primeiramente, em substantivos como

nomes de pessoas . Somente em

segundo plano, em nomes de certas atividades e qualidades e nas restantes espécies de palavras como algo que se irá encon- trar. ·

"mesa ", "cadeira ", "pão " e em

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Pense agora no seguinte emprego da linguagem: eu envio

tra defronte a ela uma amostra de cores. Ele diz a seqüência dos

É como se alguém explicasse: "Jogar consiste em movimen-

alguém às compras. Dou-lhe uma folha de papel onde se

tar coisas sobre uma superfície de acordo com certas regras

"-e

encontram os signos: "cinco maçãs vermelhas". Ele leva o papel

nós lhe respondêssemos : você parece estar pensando nos

jogos

ao comerciante. Este abre a gaveta sobre a qual está o signo

de tabuleiro, mas os jogos não são todos como estes .

Você

"maçã". Ele procura a palavra "vermelho" numa tabela e encon-

pode retificar sua explicação ao limitá-la expressamente a esses jogos.

numerais-

suponho que ele a saiba de cor- até à palavra "cinco ",

e a cada número tira da gaveta uma maçã que tem a cor da amostra.-Da mesma forma, operamos com palavras.- "Como ele sabe onde e como deve procurar a palavra 'vermelho' e o que tem que fazer com a palavra 'cinco'?"- Ora, suponho que ele aja conforme descrevi. As explicações encontram um fim em algum lugar. - Qual é o significado da palavra 'cinco'?- Aqui não se falou disso mas somente de como a palavra 'cinco' é usada.

2. Aquele conceito filosófico de significado é comum em toda representação primitiva do modo como a linguagem funciona. Mas pode-se dizer também que se trata de uma representação de uma linguagem mais primitiva do que a nossa. Imaginemos uma linguagem para a qual a descrição dada por Santo Agostinho esteja correta: a linguagem deve servir ao entendimento de um construtor A com um aj udante B. A constrói um edifício usando pedras de construção. Há blocos, colunas , lajes e vigas. B tem que lhe passar as pedras na seqüência em que A delas precisa. Para tal objetivo, eles se utilizam de uma linguagem constituída das palavras: "bloco", "coluna" , "laje", "viga". A grita as palavras;-B traz a pedra que aprendeu a trazer ao ouvir esse grito.- Conceba isto como uma linguagem primi- tiva completa.

3 . Poderíamos dizer que Santo Agostinho descreve um sistema de comunicação; só que nem tudo que chamamos de linguagem é este sistema. E isto precisa ser dito em certos casos onde se levanta a questão: "Esta exposição é út il ou inútil? " A resposta: é útil; mas somente para este domínio estritamente circunscrito, não para a totalidade que você pretendia expor".

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4. Imagine uma escrita na qual seriam usadas letras para

designar sons, mas também para designar a acentuação e os sinais de pontuação. (Pode-se conceber uma escrita como uma linguagem para descrever imagens sonoras.) Imagine agora que alguém compreendesse aquela escrita como se cada som corres- pondesse simplesmente a cada letra e as letras não tivessem também funções bem diferentes. A concepção agostiniana da linguagem assemelha-se a uma tal, muito simples, concepção da linguagem .

5. Se considerarmos o exemplo no§ 1, talvez pressintamos

até que ponto o conceito geral de significado das palavras envolve o funcionamento da linguagem com um nevoeiro que impossi- bilita a clara visão .-Dissipa-se a névoa quando estudamos os fenômenos da linguagem em espécies primitivas de seu empre- go, nos quais se pode ter uma visão de conjunto da finalidade e do funcionamento das palavras.

Quando aprende a falar, a criança emprega tais formas prim itivas de linguagem . Ensinar a linguagem aqui não é explicar mas treinar.

6. Poderíamos imaginar que a linguagem no § 2 é toda a

linguagem de A e B; e até , toda

crianças são educadas para executar essas atividades, para usar essas palavras e para reagir dessa maneira às palavras dos outros. Uma parte importante do treinamento consistirá em o instrutor apontar para objetos, dirigir a atenção da criança para eles enquanto profere uma palavra, por exemplo, a palavra "laje ", mostrando esta forma . (Não quero chamar isto de "expli- cação ostensiva" ou de "definição", porque a criança ainda não

linguagem de um povo . As

a

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pode perguntar pela denominação. Quero chamar isto de "ensino

ostensivo das palavras".-Digo que esta é uma parte importante

do treinamento , porque é o que ocorre entre as pessoas e não

porque não dá para imaginar outra coisa.) Pode-se dizer que esse

ensino ostensivo das palavras estabelece uma ligação associativa entre a palavra e a coisa: mas o que isto quer dizer? Ora, pode significar diferentes coisas; mas pensa-se, em primeiro lugar, que a imagem da coisa se apresenta à mente da criança quando ela ouve a palavra.-Mas mesmo que isso aconteça-é essa a finali- dade da palavra? Sim, pode ser essa a finalidade.-Posso imagi- nar um tal emprego de palavras (sucessão de sons). (Pronunciar uma palavra é, por assim dizer, tocar uma tecla no piano da

representação.) No entanto, na linguagem do

§ 2 , não

é finali-

dade das palavras despertar representações . claro que

se pode

achar que isto seja útil para a finalidade verdadeira.) Mas se é assim que se produz o ensino ostensivo-devo dizer que é assim que se produz a compreensão da palavra?/Não entende o grito "laje" aquele que age de acordo com ele desta

ou

daquela forma? Mas foi isto, certamente, o que proporcionou

o

ensino ostensivo; no entanto, somente acompanhado de

determinada instrução. Numa outra instrução, o mesmo ensino ostensivo dessas palavras teria operado uma compreensão bem diferente. "Unindo a barra com a alavanca, aciono o freio ."-Sim, suposto todo o mecanismo restante. Só em relação com este mecanismo é ela a alavanca do freio ; e desprendida de seu apoio , não é nem ao menos alavanca, antes pode ser qualquer coisa, ou nada.

7. Na prática do uso da linguagem (2), uma parte grita as palavras, a outra age de acordo com elas; mas na instrução da linguagem vamos encontrar este processo: o aprendiz dá nome aos objetos. Isto é, ele diz a palavra quando o professor aponta para a pedra.-De fato, vai-se encontrar aqui um exercício ainda mais fácil : o aluno repete as palavras que o professor pronun- cia-ambos, processos lingüísticos semelhantes. Podemos imaginar também que todo o processo de uso de palavras em (2) seja um dos jogos por meio dos quais as crianças

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-

aprendem sua língua materna. Quero chamar esses jogos de

linguagem ", e falar de uma linguagem primitiva às

"jogos de

vezes como de um jogo de linguagem. E poder-se-ia chamar também de jogos de linguagem os processos de denominação das pedras e de repetição da palavra pronunciada. Pense em certo uso que se faz das palavras em brincadeiras de roda.

Chamarei de "jogo de linguagem" também a totalidade formada pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem entrelaçada.

8 . Consideremos uma extensão da linguagem (2). Além das quatro palavras "bloco ", "coluna", etc ., ela conteria uma série de palavras que é empregada como o comerciante em (1) emprega os numerais (pode ser a série de letras do alfabeto); além disso , duas palavras , que podem ser "para lá" e "isso" (porque isto já sugere mais ou menos sua finalidade) , são usadas

em conexão com um movimento indicativo de mão. E, por fim, uma quantidade de padrões de cores. A dá uma ordem do tipo:

"d-laje-para-lá ". Nisso ele faz o ajudante ver um padrão de cores e, ao pronunciar a palavra "para lá ", aponta para um lugar da construção. B apanha do estoque de lajes uma de cada cor do padrão para cada letra do alfabeto até "d" e a leva para o local

ocasiões, A ordena: "isso-para-Já". um tijolo. E assim por diante.

assinalado por A. -Em outras Ao dizer "isso ", aponta para

9. Quando a criança aprende esta linguagem, deve aprender

a série de 'numerais' a, b, c

seu uso .-Dar-se-á nesta instrução um ensino ostensivo das palavras?-Ora, vai-se mostrar lajes e contar: "laje a, laje b, laje c".-Uma maior semelhança com o ensino ostensivo das palavras "bloco", "coluna" etc. teria o ensino ostensivo dos números que não servem para contar mas para designar grupos de coisas que se podem captar com os olhos. É assim que as crianças apren- dem o uso dos cinco ou seis primeiros numerais.

de cor. E ela tem que aprender o

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Ensina-se "para lá" e "isso " também ostensivamente?-Ima- gine como se poderia ensinar seu uso! Aponta-se para lugares e coisas- mas aqui este apontar acontece também no uso das palavras e não só no aprendizado do uso.-

1O. O que é que designam as palavras desta linguagem? - Como demonstrar o que designam a não ser pelo modo como são usadas? E nós já descrevemos o seu uso. A expressão "esta palavra designa isto" deveria, portanto, tomar-se uma parte desta descrição. Ou: a descrição deveria ser formalizada. "A

palavra

Ora, pode-se abreviar a descrição do uso da palavra "laje", dizendo que a palavra designa este objeto. É o que acontece quando se trata, p . ex. , de afastar o equívoco de que a palavra "laje" se refere à forma de pedra de construção que nós, de fato , chamamos de "bloco",- sendo que o modo dessa ' referência ', isto é, o uso dessas palavras, no mais, é conhecido.

E pode-se dizer, igualmente, que os signos "a", "b" etc.

designam números; se isto, porventura, afastar esse equívoco; "a", "b ", "c" desempenhariam na linguagem o papel que, na realidade, "bloco ", "laje", "coluna " desempenham . E pode-se dizer também que "c" designa este número e não aquele; se com isso, porventura, se esclarecer que as letras devem ser emprega- das na seqüência a, b, c, d , etc . e não: a, b, d, c .

Mas, com o fato de assim as descrições do uso das palavras se assemelharem uma às outras, o uso não se toma mais semelhante! Pois, como vemos, o seu uso é totalmente desigual.

designa

".

11 . Pense nas ferramentas dentro de uma caixa de ferra-

mentas:

chave de fenda, um metro , uma lata de cola , cola , pregos e parafusos . - Assim como são diferentes as funções desses

objetos ,

ças aqui e ali.)

são diferentes as funções das palavras . (E há semelhan-

encontram-se aí um martelo, um alicate, uma serra , uma

O que nos confunde, sem dúvida, é a uniformidade de sua

manifestação, quando as palavras não são ditas ou se nos

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apresentam na escrita e na impressão. Pois, seu emprego não é tão claro assim. Especialmente quando filosofamos!

12. Do mesmo modo, quando olhamos dentro da cabine do maquinista de uma locomotiva: ali se encontram alavancas que mais ou menos se parecem. (Isto é compreensível, pois todas devem ser agarradas com a mão.) Mas uma é a alavanca de uma manivela que pode ser deslocada continuamente (ela regula a abertura de uma válvula); uma outra é a alavanca de um comutador que tem apenas duas posições de funcionamento: ou está abaixada ou levantada; uma terceira é o cabo de uma alavanca de freio: quanto mais forte se puxa, tanto mais forte se freia; uma quarta é a alavanca de uma bomba: ela só opera quando é movimentada para lá e para cá.

13. Quando dizemos: "cada palavra da linguagem designa

alguma coisa", com isso ainda não se disse por enquanto absolutamente nada; a não ser que explicássemos, exatamente, que distinção desejamos fazer. (Poderia ser que desejássemos distinguir as palavras da linguagem (8) das palavras 'sem signifi- cado', como elas ocorrem nas poesias de Lewis Carroll, ou de palavras como "la-ra-la-ra-la" numa canção.)

14. Imagine que alguém dissesse: "Todas as ferramentas

servem para modificar alguma coisa. Assim, o martelo, a situação

do prego , a serra , a forma da

metro, a lata de cola, os pregos?-"Nosso conhecimento do comprimento de uma coisa, da temperatura da cola e da consistência da caixa ." - Ter-se-ia ganho alguma coisa com a

assimilação da expressão?-

tábua , etc." - E o que modificam o

15. A palavra "designar" é empregada de modo mais direto talvez lá onde o signo repousa sobre o objeto que designa . Suponho que as ferramentas utilizadas por A na construção são portadoras de certos signos. Quando A. mostra ao ajudante um desses signos, este leva a ferramenta correspondente ao signo.

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É assim, e de uma maneira mais ou menos semelhante, que um nome designa uma coisa, e que se dá um nome a uma

coisa.-Será sempre útil, quando

filosofamos , dizermos a nós

mesmos: dar nome a algo é semelhante a afixar uma etiqueta

em uma coisa.

16. O que acontece com os padrões de cores que A mostra

a B,-pertencem à linguagem? Bem, como quiser. À linguagem

verbal não pertencem; mas quando digo a alguém: "Pronuncie

a

palavra 'a"', você vai incluir este segundo "a" também na frase .

E

ela desempenha um papel bem semelhante ao do padrão de

cores no jogo de linguagem (8); trata-se, a saber, de um padrão

daquilo que o outro deve dizer. É mais natural, e causa menos confusão, se incluirmos os padrões nos instrumentos da lin?uagem. ((Observação sobre o proneme reflexivo " esta frase" .))

17. Poderemos dizer: na linguagem (8) temos diferentes espécies de palavras. Pois, as funções da palavra "laje" e da palavra "bloco" se assemelham mais umas às outras do que as funções de "laje" e de "d". Mas o modo como reunimos as palavras segundo as espécies vai depender da finalidade da divisão-e de nossa inclinação. Pense nos diversos pontos de vista segundo os quais se pode classificar as ferramentas em espécies de ferramentas . Ou figuras de xadrez, em espécies de figuras.

18. Não se deixe incomodar com o fato de as linguagens (2)

e (8) consistirem apenas de ordens. Se você quer dizer que por isso elas não são completas, pergunte-se se nossa linguagem é completa;-se o era antes de lhe ter sido incorporado o simbolis-

mo químico e a notação infinitesimal; pois estes são, por assim

1. Cf. Bemerkung en über di e Grundlagen der Mathematik,

22

p. 176 ; Zettel , § 691.

-

dizer , subúrbios de nossa linguagem . (E com quantas casas ou ruas começa uma cidade a ser cidade?) Podemos ver nossa linguagem como uma velha cidade: uma rede de ruelas e praças, casas velhas e novas, e casas com remendos de épocas diferen- tes; e isto tudo circundado por uma grande quantidade de novos bairros , com ruas retas e regulares e com casas uniformes .

19. Pode-se imaginar facilmente uma linguagem que seja constituída somente de comandos e informes na batalha.-Ou uma linguagem constituída apenas de questões e de uma expres- são de afirmação ou de negação. E inúmeras outras.-E repre- sentar uma linguagem equivale a representar uma forma de vida. Mas, como é isto: o grito "Laje! " no exemplo (2) é uma frase ou uma palavra?- Se é uma palavra, então não tem o mesmo significado da similar de nossa linguagem usual, pois no § 2 ela

é um grito. Mas se for uma frase, então não é a frase elíptica:- Laje! " de nossa linguagem.-No que toca à primeira questão, você pode chamar "Laje!" de palavra e também de frase ; acertadamente, talvez, de uma 'frase degenerada' (como se fala de uma hipérbole degenerada), aliás, exatamente o que nossa

frase 'elíptica' é.-Mas ela é apenas uma forma abreviada da frase

fato, não há esta frase no exemplo

(2).-Mas, ao contrário, por que eu não deveria chamar a frase "Traga-me uma laje! " de um prolongamento da frase "Laje"?- Porque aquele que grita "Laje! ", no fundo, tem em mente :

"Traga-me uma laje! "-Mas como é que você tem em mente isto enquanto diz "Laje"?-Você diz interiormente a frase por inteiro?

E por que tenho que traduzir esta expressão em uma outra para

E se

significam a mesma coisa-por que não devo dizer: "Se ele diz 'Laje!', tem em mente 'Laje! "'? Ou: porque você não deve poder

ter em mente "laje" , se você pode ter em mente "Traga-me uma

fato, que ele me traga

uma laje!-Certamente, mas 'querer isto' consiste em você,

numa forma qualquer, pensar uma frase diferente da que você

"Traga-me uma laje! " e, de

dizer o que alguém tem em mente com o grito "Laje- "?

laje "?-Mas se eu grito "Laje! ", quero , de

diz?-

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"Traga-me uma laje! ", parece agora

como se lhe fosse possível ter em mente esta expressão como uma longa palavra: correspondente, a saber, à palavra "Laje! ".- Pode-se então tê-la em mente ora como uma palavra, ora como quatro palavras? E como é que a temos em mente, habitualmen- te?-Creio que estaremos inclinados a dizer: nós a temos em mente como uma frase de quatro palavras quando a usamos em contraposição a outras frases como "Passe-me uma laje! ", "Traga-lhe uma laje ", "Traga duas lajes ", etc. Portanto , em contraposição a frases que recebem as palavras de nossa ordem

em outras combinações.-Mas, em que consiste usar uma frase contraposição a outras frases? Pairam estas frases , porven-

tura, no espírito de alguém? E todas? E enquanto dizemos uma frase, ou antes, ou depois?- Não! Mesmo que tal explicação nos seja tentadora, precisamos ponderar apenas um instante o que talvez acontece para vermos que estamos aqui em caminho errado. Dizemos que usamos a ordem em contraposição a outras frases, porque nossa língua contém as possibilidades dessas outras frases. Quem não entende nossa língua, um estrangeiro que tivesse ouvido várias vezes como alguém dá a ordem "Traga-me uma laje! ", pode ser da opinião de que toda essa série de sons seja uma palavra que porventura corresponde à palavra "tijolo" na sua língua. Se ele mesmo desse essa ordem, ele a proferiria talvez de modo diferente, e nós diríamos: ele a profere de um modo assim esquisito porque a considera uma palavra.- Mas quando ele a profere, não se processa nele também algo diferente-que corresponde ao fato de ele conceber a frase como

em

20. Mas se alguém dia

uma palavra.-Pode-se processar o mesmo, ou outra coisa. O que se passa em você, pois, quando dá uma tal ordem; está consciente de que ela consiste em quatro palavras enquanto a profere? Sem dúvida, você domina esta linguagem-na qual há também aquelas outras frases-mas é este dominar algo que 'acontece' enquanto você profere a frase?-E eu já admiti: o estrangeiro, provavelmente, vai proferir de forma diferente a frase que ele concebe de forma diferente. Mas o que chamamos de concepção falsa não tem que estar em algo que acompanha o proferir da ordem.

24

A frase não é 'elíptica' porque deixa fora algo que temos em mente quando a proferimos, mas porque está reduzida-em comparação com um determinado modelo de nossa gramática.- Aqui poder-se-ia objetar, sem dúvida: "Você admite que a frase abreviada e a frase não-abreviada têm o mesmo sentido.-Que sentido têm elas, portanto? Não há uma expressão verbal para este sentido?"-Mas não consiste a igualdade de sentido das frases na igualdade de seu emprego?-(Em russo se diz "pedra verme- lha" ao invés de "a pedra é vermelha". Falta-lhes a cópula ou eles imaginam a cópula quando falam?)

21. Imaginemos um jogo de linguagem em que B, ao ser interrogado por A, comunica-lhe a quantidade de lajes ou de blocos numa pilha, ou as cores e as formas das pedras de construção que se encontra lá e cá .-Um tal comunicado poderia soar, portanto: "Cinco lajes". Qual é a diferença entre o comu- nicado, ou a afirmação, "Cinco lajes" e a ordem "Cinco lajes!"?- Bem, é o papel que o proferir dessas palavras representa no jogo de linguagem. Mas diferente será também o tom em que elas são proferidas e a expressão facial , e certas coisas mais. Podemos imaginar também que o tom seja o mesmo,-pois uma ordem e um comunicado podem ser proferidos em vários tons e com várias expressões faciais-e que a diferença esteja somente no emprego. claro que poderíamos usar também as palavras "asserção" e "ordem" para a designação de uma forma grama- tical da frase e de uma entonação: assim como denominamos pergunta "Não está esplêndido o tempo hoje? ", embora ela seja empregada como asserção.) Poderíamos imaginar uma lingua- gem em que todas as asserções tivessem a forma e o tom de frases retóricas; ou cada ordem, a forma da pergunta: "Você gostaria de fazer isto? " Então, dir-se-á talvez: "O que ele diz tem a forma de uma pergunta , mas na realidade é uma ordem:" - isto é, tem a funão de ordem na prática da linguagem. (Analo- gamente, diz-se "Você fará isto" não como profecia mas como ordem. O que faz com que seja uma ou outra?)

--

segundo a qual numa asserção se

esconde uma suposição, que é aquilo que é afirmado baseia-se,

22 . A opinião de Frege,

25

na verdade, na possibilidade que há em nossa linguagem de

escrever toda proposição assertiva na forma "Afirma-se que isto e aquilo é o caso ".-Mas "Que isto e aquilo é o caso " não é, propriamente, uma proposição na nossa linguagem-não é ainda um lance no jogo da linguagem . Se escrevo "Afirma-se: isto e

", as palavras

"Afirma-se" são aqui então

Poderíamos muito bem escrever aquela asserção também na forma de uma pergunta com asserção proposta; mais ou menos assim: "Chove? Sim! " Isto mostraria que em toda asserção se esconde uma interrogação? Tem-se o direito de empregar um sinal de asserção em contraposição , p . ex ., a um sinal de interrogação; ou quando se quer distinguir uma asserção de uma ficção ou de uma suposição. Isto é errôneo somente quando se tem em mente que a asserção

aquilo é o caso " ao

invés de "Afirma-se que

supérfluas .

é constituída de dois atos: ponderar e afirmar (atribuição do valor de verdade, ou algo semelhante) e que nós realizamos esses atos pelo signo proposicional, mais ou menos como cantamos por notas. Contudo, com o canto por notas se deve comparar a leitura em voz alta ou em voz baixa da frase escrita, mas não o

'ter em mente ' (pensar)

da frase lida.

O sinal de asserção de Frege acentua o começo da frase. Ele tem uma função semelhante ao ponto final. Ele diferencia todo o período da frase no período . Quando ouço alguém dizer "chove", mas não sei se ouvi o início ou o fim do período, então esta frase não é para mim ainda um meio de comunicação. 23. Mas quantas espécies de frases existem? Porventura asserção, pergunta e ordem?-Há inúmeras de tais espécies:

Imaginemos um quadro representando um boxeador numa determinada posiç~o de luta. Este quadro pode ser usado para comunicar a alguém como ele deve se posicionar ou se manter; ou como não deve se manter; ou como um determinado homem se posicionou aqui e ali; ou etc. etc. Poder-se-ia chamar esta imagem (falando na linguagem química) de radical proposicional. De modo semelhante imaginava Frege a "suposição ".

26

-

inúmeras espécies diferentes de emprego do que denominamos "signos ", "palavras ", "frases ". E essa variedade não é algo fixo, dado de uma vez por todas; mas, podemos dizer, novos tipos de linguagem , novos jogos de linguagem surgem, outros envelhe- cem e são esquecidos. (As mutações da matemática nos podem dar uma imagem aproximativa disso.) A expressão "jogo de linguagem" deve salientar aqui que falar uma língua é parte de uma atividade ou de uma forma de vida. Tenha presente a variedade de jogos de linguagem nos seguintes exemplos, e em outros:

Ordenar, e agir segundo as ordens- Descrever um objeto pela aparência ou pelas suas medidas- Produzir um objeto de acordo com uma descrição (desenho)- Relatar um acontecimento- Fazer suposições sobre o acontecimento- Levantar uma hipótese e examiná-la- Apresentar os resultados de um experimento por meio de tabelas e diagramas- Inventar uma história; e ler- Representar teatro- Cantar cantiga de roda- Adivinhar enigmas- Fazer uma anedota; contar- Resolver uma tarefa de cálculo aplicado- Traduzir de uma língua para outra- Pedir, agradecer , praguejar, cumprimentar, rezar. - É interessante comparar a variedade de instrumentos da lingua- gem e seus modos de aplicação, a variedade das espécies de palavras e de frases com o que os lógicos disseram sobre a estrutura da linguagem. {Inclusive o autor do Tratado Lógico-Fi" losófico.)

24. Quem não tem clara a variedade dos jogos de linguagem estará inclinado a fazer perguntas como esta: "O que é uma pergunta?"-É isso a constatação de que não sei tal e tal coisa,

27

?

Ou é a descrição de meu estado psíquico de incerteza?-E o grito "Socorro! " é uma descrição?

Pense na quantidade de coisas que são chamadas de "des- crição": descrição da situação de um corpo por meio de suas coordenadas; descrição de uma expressão facial ; descrição de uma sensação táctil; de uma disposição. Pode-se, naturalmente, substituir a costumeira forma de perguntar por uma constatação ou por uma descrição: "Quero

saber se

om isso não se aproxi-

maram mais os diferentes jogos de linguagem uns dos outros. A importância de tais possibilidades de transformação , p.

ex ., de todas as frases afirmativas em frases que se iniciam com

ou a constatação de que eu desejo que o outro possa me dizer

" ou "Estou em dúvida se

"-c

a cláusula "Eu penso " ou "Eu creio " (portanto, digamos, em descrições de minha vida interior) vai-se mostrar mais claramente em um outro lugar. (Solipsismo.)

25. Muitas vezes se diz: os animais não falam porque lhes

faltam as faculdades espirituais . E isto significa: "eles não pen-

sam, por isso não falam ". Mas: eles simplesmente não falam. Ou melhor: eles não empregam a linguagem-se não levarmos em conta as formas de linguagem mais primitivas.-Ordenar, pergun- tar, contar, conversar, fazem partem de nossa história natural assim como andar, comer, beber, brincar.

26. Tem-se em mente que o aprendizado da linguagem

consiste em denominar objetos. Ou seja: pessoas, formas , cores,

dores, disposições, números etc. Como foi dito-dar nome é semelhante a afixar um etiqueta em uma coisa. Pode-se chamar isto de preparação para o uso de uma palavra. Mas é uma preparação para quê?

27. "Nós damos nomes às coisas e por isso podemos discursar sobre elas, e no discurso fazer referência a elas."-Como

se com o ato de dar nomes fosse dado o que faremos em seguida.

Como se houvesse apenas uma coisa que se chamasse: "Falar das coisas". Enquanto que com nossas frases fazemos as coisas

28

mais diversas. Pensemos apenas nas exclamações, com suas funções tão diferentes. Água! Fora! Ai! Socorro! Lindo! Não! Você ainda está inclinado a chamar essas palavras de "denomi- nações de objetos"? Na linguagem (2) e (8) não havia um questionamento da

denominação. Isto e a explicação ostensiva, que é o seu corre- lato , é, como se poderia dizer, um jogo de linguagem próprio . Na verdade, isto quer dizer: somos educados e treinados para perguntar: "Como se chama isto?"-ao que se segue a denomi- nação. Há também um jogo de linguagem: inventar um nome

" e

então para fazer uso de um novo nome. assim que as crianças

dão nomes , p. ex., às suas bonecas, falam delas ou para elas. Pondere, neste contexto, como é singular o uso do nome próprio com o qual chamamos o denominado!)

para alguma coisa. Portanto, para dizer: "Isto se chama

28. Pode-se então definir ostensivamente um nome próprio, um nome de cor, um nome de material, um numeral , o nome de um ponto cardeal, etc. A definição do número dois "Isto significa 'dois"' -enquanto se mostram duas nozes-é perfeita- mente exato.-Mas, como se pode definir o dois assim? Aquele a quem se dá a definição não sabe então o que se quer denominar com "dois"; ele vai supor que você chama "dois " este grupo de nozes!-Ele pode supor isto; mas talvez não suponha. Ele poderia também, vice-versa, se quero atribuir um nome a esse grupo de nozes , entendê-lo erroneamente como nome de um número. E, de igual modo, quando explico um nome próprio ostensivamen- te, poderia concebê-lo como nome de uma cor, como designação da raça, sim, como nome de um ponto cardeal. Isto quer dizer que a definição ostensiva pode, em cada caso, ser interpretada de um modo ou de outro.

29

29. Talvez se diga: o dois pode ser definido ostensivamente somente desta maneira: "Este número se chama 'dois'". A palavra "número" indica aqui em que lugar da linguagem, da gramática, colocamos a palavra. Mas isto quer dizer que a palavra "número" tem que ser explicada antes que a definição ostensiva possa ser compreendida.-Contudo, a palavra "número ", na definição, indica esse lugar; indica a posição em que colocamos

a palavra. Assim podemos prevenir mal-entendidos, dizendo:

"Esta cor se chama tal e tal ", "Este comprimento se chama tal

e tal", etc. Isto é, assim é que , muitas vezes, se evitam mal-en-

tendidos. Mas pode-se conceber a palavra "cor" ou "comprimen- to" somente desta maneira?-É evidente que temos que explitá-la.-Portanto, explicar mediante outras palavras! O que acontece com a última explicação nesta corrente? (Não diga "não há uma 'última' explicação ". Isto é exatamente como se você quisesse dizer: "Não há uma última casa nesta rua; pode-se

sempte construir uma outra ". )

Se a palavra "número" é necessária na definição ostensiva do dois , depende se uma pessoa a concebe, sem essa palavra, de um modo diferente do que eu quero. E isto dependerá

certamente das circunstâncias em que ela é dada, e da pessoa,

a quem a dou. E o modo como ele 'concebe' a explicação se mostra no modo como ele faz uso da palavra explicada.

Para explicar a palavra "vermelho", poder-se-ia apontar para algo que não fosse vermelho? É como se tivéssemos que explicar a palavra "modesto" a uma pessoa que não domina a língua portuguesa e, ao explicá-la, apontássemos para uma pessoa arrogante e disséssemos: "Este sujeito não é modesto". Não serve de argumento contra um tal modo de explicação o

fato de ele ser ambíguo. Toda explicação pode ser mal-entendida. No entanto, poder-se-ia perguntar: Devemos chamar isto

ainda de "explicação"?-Pois

no cálculo ela desempenha , natu-

ralmente, um papel diferente do que nós, habitualmente, cha- mamos de "explicação ostensiva" da palavra "vermelho";

mesmo que tenha as mesmas conseqüências práticas, o mesmo efeito sobre o aprendiz.

30

30. Poder-se-ia dizer, portanto: a definição ostensiva explica

o uso-o significado-da palavra, caso já esteja claro que papel a

palavra tem que desempenhar na linguagem. Se sei, no entanto,

que alguém quer me explicar a palavra para uma cor, neste caso

a explicação ostensiva "isto se chama 'Sépia'" vai me ajudar na compreensão da palavra.-E pode-se dizer isto se não se esquece que toda espécie de pergunta vincula-se à palavra "saber" ou "estar claro". Tem-se de saber (ou poder) alguma coisa antes de poder questionar a denominação. Mas o que se tem de saber?

31. Se mostramos a alguém a figura do rei no jogo de xadrez

e

dizemos "Este é o rei no xadrez", não lhe explicamos com isso

o

uso desta figura-a não ser que ele já conheça as regras do jogo

até este último ponto: a forma da figura do rei. A forma da figura

de jogo corresponde aqui ao som ou à forma de uma palavra. Mas pode-se imaginar também que alguém tenha aprendido o jogo sem jamais aprender as regras, ou sem formulá-las. Talvez ele tenha aprendido assistindo a um jogo de tabuleiro bem simples, e foi progredindo para os jogos sempre mais complica- dos. Também a este poderíamos dar a explicação: "Este é o rei"-quando lhe mostramos, p. ex ., figuras do xadrez que para ele têm uma forma incomum. Mesmo esta explicação lhe ensina o uso da figura só porque, como poderíamos dizer, o lugar onde ela forà colocada já estava preparado. Ou também: só vamos dizer que ele lhe ensina o uso se o lugar já estiver preparado. E não está preparado aqui pelo fato de que a pessoa, a quem damos a explicação, já saiba as regras, mas porque, num outro sentido, ela já domina um jogo. Olhe com atenção ainda o seguinte caso: Explico o jogo de xadrez para alguém; e começo apontando para uma figura e dizendo: "Este é o rei. Ele pode se mover desta ou daquela maneira, etc. etc."-Neste caso, diremos: as palavras "Este é o rei" (ou "Este se chama 'rei"')são pois uma explicação da palavra somente se o aprendiz já 'souber o que é uma figura de jogo'. Portanto, se ele, porventura, já jogou outro jogo ou assistiu,

31

'entendendo', o jogo de uma outra pessoa- e coisa semelhante. Só assim ele poderá, ao aprender o jogo, perguntar com rele- vância: "Como se chama isto? "-ou seja: esta figura de jogo. Podemos dizer: pergunta significativamente por uma deno- minação somente quem já sabe o que faze r com ela . Podemos imaginar também que a pessoa, a quem se faz a pergunta, responda: "Determine você mesmo a denominação"- então, aquele que perguntou teria ele mesmo de responsabilizar- se por tudo.

32. Quem chega a um país estrangeiro para aprender a língua dos nativos muitas vezes por meio das explicações osten- sivas que lhes são dadas; e, freqüentemente , ele terá que adivi- nhar a interpretação dessas explicações , e adivinhar às vezes com acerto, às vezes erroneamente. Acredito que podemos dizer então: Santo Agostinho descre- ve a aprendizagem da linguagem humana como uma criança que chegasse a um país estrangeiro e não entendesse a língua do país ; isto é : como se ela já tivesse uma língua, só que não esta. Ou também: como se a criança já fosse capaz de pensar mas não ainda de falar. E "pensar" significaria aqui algo como: falar para si mesmo.

33. E se alguém objetasse: "Não é verdade que alguém tenha de dominar um jogo de linguagem para entender uma definição ostensiva, mas ele tem - evidentemente-de saber (ou de adivi- nhar) somente para onde aponta a pessoa que explica! Se, p. ex., para a forma do objeto, ou para a sua cor, ou para a quantidade, etc. etc."-Em que consiste pois-'apontar para a forma ', 'apontar para a cor'? Aponte para um pedaço de papel!-Aponte então para a sua forma-agora para a sua cor,- agora para o seu número (isto soa esquisito!)- Como foi que você fez isto?-Você dirá que, ao apontar, cada vez 'teve em mente ' algo diferente. E se pergunto como isso se dá, você dirá que concentrou a sua atenção na cor, na forma , etc . Mas então pergunto mais uma vez como isto se dá.

32

Pense em alguém apontando para um vaso e dizendo: "Veja que azul esplêndido!"-a forma não é importante.-Ou: "Veja que forma esplêndida! "-a cor é indiferente. Não há dúvida de que você fará coisas diferentes, caso atenda a esses dois convites. Mas você faz sempre a mesma coisa quando dirige a sua atenção para a cor? Imagine pois casos diferentes! Quero indicar alguns:

"Este azul aqui é o mesmo que o de lá? Você vê diferença?"- Você mistura as cores e diz: difícil atingir este azul celeste." "O tempo está melhorando, já se vê novamente o céu azul! " "Veja que efeitos diferentes produzem estes dois azuis! " "Está vendo ali o livro azul? Traga-o aqui! " "Este sinal luminoso azul significa "Como se chama este azul?-é 'índigo'?" Dirigir a atenção para a cor: isto se faz afastando com a mão os contornos da forma; ou não dirigindo o olhar para o contorno da coisa; ou fixando-se no objeto e tentando lembrar-se onde já viu essa cor. Dirige-se a atenção para a forma , às vezes copiando-a, às vezes semicerrando os olhos para não ver a cor claramente, etc.

etc . Quero dizer: é

enquanto 'dirige-se a atenção para isto ou para aquilo '. Mas não

isto, e coisas semelhantes, o que acontece

"

é só isso que nos permite dizer que alguém dirige sua atenção para a forma , para a cor etc. Como um lance de xadrez não

consiste apenas em uma pedra ser colocada no tabuleiro desta

e

daquela maneira,- mas não consiste também nos pensamentos

e

sentimentos do jogador que acompanham o lance; mas, antes,

nas circunstâncias que chamamos: "jogar uma partida de xa- drez", "resolver um problema de xadrez ", e coisas do gênero .

34. Suponha, porém, que alguém diga: "Eu faço sempre o mesmo quando dirijo a minha atenção para a forma: sigo o

contorno

". E suponha que esta pessoa

dê a uma outra a explicação ostensiva: "Isso se chama 'círculo'",

apontando para um objeto circular e tendo todas estas vivên-

com os olhos e sinto

33

das-todavia não pode o ouvinte interpretar a explicação de maneira diferente, mesmo quando vê que o explicador segue a forma com os olhos e ainda quando sente o que o explicador sente? Quer dizer: esta 'interpretação' pode também consistir

em como ele agora faz uso da palavra, por exemplo, para a qual aponta quando recebe a ordem: "aponta para um círculo!"-Pois nem a expressão "ter em mente assim e assim a explicação" nem a expressão "interpretar assim e assim a explicação" designa um processo que acompanha a quem dá e quem ouve

a explicação.

35. Há, evidentemente, o que se pode chamar de "vivências características" de apontar, digamos, para a forma. P. ex., percorrer o contorno com o dedo ou com o olhar enquanto se aponta. - Mas, assim como isto pouco acontece em todos os casos nos quais 'tenho em mente a forma ', do mesmo modo acontece pouco, nesses casos todos, um outro processo carac- terístico qualquer. - Mas também, se tal processo se repetisse em todos os casos, dependeria das circunstâncias-isto é, daquilo que acontece antes e depois do apontar-se disséssemos "Ele apontou para a forma e não para a cor". Pois as palavras "apontar para a forma", "ter em mente a forma", etc. não são usadas como as palavras: "apontar para este livro" (não para aquele), "apontar para a cadeira, não para

a mesa", etc.-Pense apenas como aprendemos o uso da palavra

de modo diferente: "apontar para esta coisa", "apontar para aquela coisa" e, por outro lado: "Apontar para a cor~ não para

a forma", "ter em mente a cor" etc. etc. Como foi dito, em certos casos, especialmente ao apontar 'para a forma' ou 'para o número', há vivências e maneiras de apontar características-'características', porque elas se repetem, freqüentemente (não sempre), onde se 'tem em mente' forma ou número. Mas você conhece também uma vivência caracterís- tica de apontar para a figura de jogo como figura de jogo? E, no entanto , pode-se dizer: "Eu tenho em mente que esta figura de jogo se chama 'rei' e não este determinado pedaço de madeira, para o qual aponto!" (Reconhecer, desejar, lembrar-se, etc.)

34

36. E fazemos aqui o mesmo que fazemos em mil casos

semelhantes: Porque não podemos indicar uma ação coporal, à qual chamamos de apontar para a forma (em contraposição, p. ex. , para a cor), então dizemos que a estas palavras corresponde

uma atividade espiritual. Onde nossa linguagem nos faz supor um corpo, e não há corpo, ali gostaríamos de dizer que se trata de um espírito.

37. Qual é a relação entre o nome e o denominado"?-Ora,

o que é ela? Veja o jogo de linguagem (2), ou um outro! Lá se pode ver mais ou menos em que consiste esta relação. Esta relação pode, entre outras coisas, consistir também no fato de que a audição do nome nos traz à mente a imagem do denomi- nado, e consiste, entre outras coisas também, no fato de que o nome está escrito sobre o denominado ou é proferido ao se apontar para o denominado.

38. O que denomina, p . ex., a palavra "isso" no jogo de

linguagem (8), ou a palavra "isto " na explicação ostensiva "Isto

"-Se não se quer provocar confusão, o melhor é não

dizer que estas palavras denominam alguma coisa.-E, estranha- mente , já se disse uma vez da palavra "isso" que ela é o nome genuíno. Tudo o mais que chamamos de "nome", o é somente

se chama

em um sentido

inexato , aproximativo.

Como se dá isto: ter em mente as palavras "Isto é azul", uma vez como afirmação sobre o objeto para o qual se aponta-outra vez como explicação da palavra "azul"? No segundo caso, o que se tem em mente, na verdade, é "Isto se chama 'azui"' - Pode-se, portanto, ter em mente a palavra "é" uma vez como "chama-se" e a palavra "azul" como "azul", e outra vez o "é" realmente como "é"? Pode acontecer também que alguém tire uma explicação para a palavra daquilo que se tinha em mente como comunica- ção. (Observação à margem: aqui se esconde uma superstição de graves conseqüências.) Com a palavra "bububu" posso ter em mente "Se não chover, irei passear"?-Somente dentro de uma linguagem posso ter em mente algo como algo. Isto mostra claramente que a gramática do "ter em mente" não é idêntica à da expressão "representar-se algo ", e coisas do gênero .

35

Esta estranha concepção emana de uma tendência de subli- mar a lógica de nossa linguagem-como se poderia dizer. A verdadeira resposta é: chamamos "nome " a coisas muito dife- rentes; a palavra "nome" caracteriza muitas espécies diferentes de uso de uma palavra aparentadas umas com as outras de muitas maneiras diferentes; - mas dentre essas espécies de uso não se encontra a da palavra "isso ".

É bem verdade que na definição ostensiva, p. ex. , apontamos freqüentemente para o denominado e, ao mesmo tempo, pro-

ferimos o

p . ex ., na definição ostensiva , ao apontarmos para uma coisa . E

a palavra "isso" e um nome ocupam também, freqüentemente ,

a mesma posição no contexto da frase. Mas o que caracteriza o

nome é, justamente, que ele seja explicado mediante o ostensivo "Isto é N" (ou "Isto se chama 'N "' ). Mas explicamos também:

"Isto se chama 'isso', ou "Isso se chama 'isso"'?

Isto está ligado com a concepção de denominação como um processo, por assim dizer, oculto. A denominação aparece como uma estranha ligação de uma palavra com um objeto.-E uma ligação assim estranha ocorre realmente quando o filósofo, para evidenciar o que seja a relação entre o nome e o denominado , fita um objeto diante de si , enquanto repete um nome inúmeras vezes , ou mesmo a palavra "isso". É que os problemas filosóficos têm origem quando a linguagem folga . E podemos imaginar todavia que denominar é um ato psíquico notável, quase um batismo de um objeto. E assim podemos dizer a palavra "isso" também para o objeto, dirigir-nos a ele com ela-um uso estranho desta palavra que só ocorre ao filosofarmos.

nome . Do mesmo modo , proferimos a palavra "isso ",

39. Mas, por que se chega à idéia de se querer fazer exatamente desta palavra um nome, quando ela, manifestamen- te, não é um nome?-Exatamente por isso. Pois, se é tentado a fazer uma objeção contra o que usualmente se chama "nome";

e pode-se exprimi-la assim: o nome deve propriamente desig-

nar algo simples. Pode-se fundamentar isso mais ou menos assim: Um nome próprio, em sentido comum, é, p . ex., a palavra "Nothung". A espada Nothung constitui-se de várias partes,

36

numa determinada composição . Caso sejam compostas de for- ma diferente, então não existe Nothung. Mas a frase "Nothung tem um corte afiado ", evidentemente , tem sentido , quer Nothung esteja ainda inteira, quer já esteja destruída. Mas , se "Nothung " é o nome de um objeto, então este objeto não existe mais, caso Nothung esteja destruída; e, uma vez que nenhum objeto corres- penderia ao nome , por conseguinte, ele não teria nenhum significado. Mas então haveria na frase "Nothung tem um corte afiado" uma palavra sem significado, e a frase seria por isso um absurdo . Mas agora ela tem sentido; portanto, algo tem sempre que corresponder às palavras de que a frase é composta. Portanto, a palavra "Nothung" tem que desaparecer na análise do sentido e, em seu lugar, têm que entrar palavras que deno- minem algo simples . Com razão , chamaremos essas palavras de nomes genuínos.

40. Falemos, primeiramente, sobre o ponto central desta argumentação: a palavra não tem significado algum quando nada lhe corresponde.-É importante constatar que a palavra "signifi- cado" é usada de um modo que vai contra a linguagem quando com ela se designa a coisa que 'corresponde' à palavra. Isto significa: confundir o significado de um nome com o portador do nome. Se morre o Sr. N.N. , costuma-se dizer, morre o portador do nome e não o significado do nome. E seria absurdo falar assim, pois, se o nome deixasse de ter significado, não teria sentido dizer "o Sr. N.N. morreu".

41 . No§ 15, introduzimos nomes próprios na linguagem (8). Suponha agora que a ferramenta com o nome "N" esteja quebrada. A não sabe disso e dá a B o signo "N". Este signo agora tem ou não significado?-0 que B deve fazer quando recebe este signo?-Não combinamos nada sobre isso. Poder-se- ia perguntar: o que ele fará? Talvez quedará perplexo , ou mostrará os pedaços a A. Poder-se-ia dizer aqui: "N" tomou-se insignificante; e esta expressão significaria que agora não há mais nenhuma aplicação para o signo "N" em nosso jogo de lingua- gem (a não ser que lhe déssemos uma nova aplicação) . "N"

37

poderia também tomar-se insignificante pelo fato de que, seja por que motivo for , dá-se à ferramenta uma outra designação e não se emprega mais o signo "N" no jogo de linguagem .-Mas poderíamos imaginar também um acordo, segundo o qual B deve abanar a cabeça como resposta quando uma ferramenta estiver quebrada e A der o signo dessa ferramenta.-Poder-se-ia dizer que com isso a ordem "N" foi absorvida no jogo de linguagem, mesmo que essa ferramenta não mais exista, e que o signo "N" tem significado, mesmo que seu portador deixe de existir.

42. Mas, porventura tem significado naquele jogo também

nomes que nunca foram empregados para uma ferramenta?- Suponhamos, portanto, que "X" seja um tal signo, e A dê a B esse signo-ora, tais signos poderiam ser absorvidos também no jogo de linguagem, e B. teria que responder a eles também com um movimento de cabeça. (Poder-se-ia imaginar isto como uma espécie de divertimento de ambos.)

43. Para uma grande classe de casos-mesmo que não para

todos-de utilização da palavra "significado" , pode-se explicar esta palavra do seguinte modo: O significado de uma palavra é seu uso na linguagem.

E o significado de um nome se explica, muitas vezes, ao se apontar para o seu portador.

44. Dizíamos: a frase "Nothung tem um corte afiado" tem

sentido mesmo que Nothung já esteja destruída. Bem, isto é assim, porque neste jogo de linguagem um nome é usado mesmo na ausência de um portador. Mas podemos imaginar um jogo de linguagem com nomes (isto é, com signos que nós certamente podemos chamar de "nomes"), no qual estes são usados somente na ausência do portador; portanto, podem ser substituídos sempre pelo prenome demonstrativo com o gesto ostensivo.

45. O demonstrativo "isso " jamais pode ficar sem portador.

"Enquanto houver um isso, a palavra 'isso' terá um significado, quer isso seja simples ou composto".- Mas isto não faz da

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palavra exatamente um nome . Pelo contrário , pois um nome não é empregado com o gesto ostensivo, mas apenas explicado por ele.

46. Como acontece então que nomes designem ,

propria-

mente, o simples?- Sócrates (em Teeteto): "Se não me engano, ouvi de algumas pessoas: para os elementos originários -para me expressar assim-de que nós e as outras coisas somos compostos, não há

explicação; pois , tudo que é em si , só se pode designar com nomes; não é possível uma outra determinação, nem do que é

nem do que não é

sem todas as outras determinações. Deste modo, é impossível fa lar explicativamente de qualquer elemento originário ; pois para

este não há nada além da mera denominação; há somente seu nome. Mas, assim como aquilo que se compõe desses elementos originários é, ele mesmo, uma criação entrelaçada, da mesma forma as suas denominações se converteram em discurso expli-. cativo desse entrelaçamento; pois a sua essência é o entrelaça- mento de nomes. " Esses elementos originários eram também os 'individuais' de Russel, e também os meus 'objetos' (Trat . Lóg. Fi/os.) .

Mas o que é em si , temos que

denominá-lo

1

4 7. Mas quais são os componentes simples de que se

compõe a realidade?- Quais são os componentes simples de uma poltrona?- As peças de madeira com as quais é montada? Ou as moléculas, ou os átomos?- "Simples" quer dizer: não composto.

E aí depende : em que sentido 'composto'? Não tem sentido

algum falar dos ' componentes simples da poltrona, pura e simplesmente'. Ou: É minha imagem visual dessa árvore, dessa poltrona, constituída de partes? E quais são os seus componentes simples? Policromia é uma espécie de composição; uma outra, p. ex., é

1. Tradução de Preisendanz.

39

a complexidade de um contorno quebrado composto de peças

retas. E pode-se chamar uma curva de composta de um ramo ascendente e um ramo descendente. Quando digo a alguém sem qualquer explicação: "O que vejo agora diante de mim é composto ", ·ele vai me perguntar , com razão: "O que você tem em mente com 'composto'? Isto pode significar uma infinidade de coisas! "-A pergunta "O que você vê

é composto?" tem sentido, é claro, se já está estabelecido de que espécie de ser composto-isto é, de que uso específico dessa palavra-se deve tratar. Se tivesse sido fixado que a imagem visual de uma árvore deve se chamar "composta" quando se vê não só um tronco mas também os ramos, então a pergunta "A imagem visual desta árvore é simples ou composta?" e a pergunta "Quais são os componentes simples?" teriam um sentido claro-uma aplicação clara. E a resposta à segunda pergunta não é, natural- mente, "Os ramos" (esta seria uma resposta à pergunta grama- tical: "O que se denomina aqui os 'componentes simples'?"), mas talvez uma descrição dos ramos isolados.

Mas um tabuleiro de xadrez não é, p. ex., manifesta e simplesmente, composto?-Você pensa certamente na composi- ção dos 32 quadrados brancos e dos 32 pretos. Mas não poderíamos dizer também , p. ex ., que ele é composto das cores branca, preta e do esquema da rede de quadrados? E se há aqui modos de consideração bem diferentes, você ainda quer dizer que o tabuleiro de xadrez é 'composto', pura e simplesmente?- Perguntar "Este objeto é composto?" fora de um determinado jogo, é semelhante ao que fez certa vez um jovem que devia dizer se, em certos exemplos de frases , os verbos são usados na forma ativa ou na passiva, e ele quebrou a cabeça para decidir se o verbo "dormir", p. ex., significa algo ativo ou algo passivo.

A palavra "composto" (assim como a palavra "simples") é utilizada por nós numa infinidade de maneiras diferentes e aparentadas umas com as outras de diversos modos . (A cor de uma casa de xadrez é simples, ou consiste em um branco puro ou em um amarelo puro? E o branco é simples, ou se constitui das cores do arco-íris?-Este trecho de 2 em é simples, ou se constitui de duas partes de 1 em cada? Mas, por que não de um

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pedaço de 3 em de comprimento e de 1 em acrescentado em sentido negativo?)

A resposta correta à questão filosófica : composta a

imagem visual desta árvore, e quais são os seus componentes?"

é : "depende do que

você entende por ' composta'. " (E isto não

é, naturalmente , uma resposta , mas uma recusa da questão.)

48. Vamos aplicar o método do § 2 na apresentação de Teeteto. Olhemos com atenção um jogo de linguagem para o qual esta apresentação realmente se aplica. A linguagem serve para apresentar combinações de quadrados coloridos sobre uma superfície. Os quadrados formam um complexo com formato de um tabuleiro de xadrez. Há quadrados rubros, verdes, brancos e pretos . As palavras da linguagem são (correspondentemente) :

"R", "V", "B" e "P" e uma proposição é uma série de tais palavras . Elas descrevem uma composição de quadrados na seqüência

CiJww CiJww

www

A frase "RRPVVVRBB " descreve , p. ex ., uma composição da

seguinte espécie:

O = vermelho (R)

• =verde (V)

Aqui a frase é um complexo de nomes, ao qual corresponde um complexo de elementos. Os elementos originários são os qua- drados coloridos. "Mas estes quadrados são simples?"-Eu não saberia o que, neste jogo de linguagem, deveria chamar mais naturalmente de "simples ". Em outras circunstâncias, porém, eu daria o nome de "composto" a um quadrado de uma cor, constituído talvez de dois retângulos ou dos elementos cor e

composição poderia ser alargado de

tal forma que a superfície menor seja chamada de 'composta' de

forma . Mas o conceito de

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uma maior ou de outra dela subtraída. Compare 'composição' de forças , 'divisão ' de um trecho por um ponto exterior; estas expressões mostram que nós, conforme a situação, estamos inclinados também a conceber o menor como resultado da composição do maior, e o maior como resultado da divisão do menor.

Mas não sei se devo dizer agora que a figura descrita pela nossa frase se constitui de quatro ou de nove elementos! Pois bem, constitui-se aquela frase de quatro ou de nove letras?-E quais são os seus elementos : os tipos de letras ou as letras? Seja lá o que for que dissermos , não é indiferente? Mesmo se evitamos mal-entendidos apenas no caso especial!

49. O que significa , porém , que não podemos explicar (i. é ,

descrever) esses elementos, mas apenas denominá-los? Isto poderia dizer, talvez, que a descrição de um complexo, quando este, num caso extremo, é constituído apenas de um quadrado, é simplesmente o nome do quadrado de cores.

Poder-se-ia dizer aqui-embora isso induza facilmente a todo tipo de superstição filosófica-que um signo "R", ou "P", etc. pode ser uma vez palavra e outra vez frase? Mas, se 'é palavra ou frase ', depende da situação em que é pronunciada ou escrita. Caso A, p . ex., precise descrever complexos de quadrados de cores para B e usa aqui a palavra "R" sozinha, podemos dizer então que a palavra é uma descrição-uma frase. Caso ele, porventura, memorize as palavras e seus significados, ou ensine o uso das palavras a uma outra pessoa e as profira no ensino ostensivo, não diremos aqui então que elas sejam frases. Nesta situação, a palavra "R" não é, p . ex ., uma descrição; com isso denomina-se um elemento-mas por isso seria estranho dizer aqui que se pode apenas denominar o elemento! Denominar e descrever não se encontram num mesmo nível: a denominação é uma preparação para a descrição. A denominação não é ainda nenhum lance no jogo de linguagem-tão pouco quanto a colo- cação de uma peça de xadrez é um lance no jogo de xadrez. Pode-se dizer: com a denominação de uma coisa não se fez nada ainda. Ela também não tem nome, exceto no jogo. Isto era

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também o que Frege tinha em mente quando dizia que a palavra só tem um significado no contexto de uma frase.

50 . Mas o que significa então dizer que não podemos atribuir aos elementos nem o ser nem o não-ser?-Poder-se-ia dizer: Se tudo o que chamamos de "ser" e de "não-ser" consiste na existência e na não-existência de ligações entre os elementos, então não tem sentido falar de ser (não-ser) de um elemento; assim também, se tudo o que chamamos de "destruição" consiste na separação de elementos, não tem sentido falar de destruição de um elemento. Mas gostaríamos de dizer: não se pode atribuir o ser ao elemento, pois, se ele não existisse, não se poderia também nem ao menos nomeá-lo e, portanto, não se poderia afirmar absolu- tamente nada sobre ele.-Consideremos, pois, um caso análogo! De uma coisa não se pode afirmar que tenha 1 m de compri- mento nem que não tenha 1 m de comprimento: do metro-pa- drão de Paris.-Com isso não estamos atribuindo a este uma propriedade estranha, mas apenas caracterizamos o seu papel peculiar no jogo de medir com o metro.-lmaginemos que em Paris seja conservado o padrão de cores do mesmo modo que o metro-padrão. Assim explicamos: Chama-se "sépia" a cor sépia- padrão que lá se encontra conservada a vácuo . Não terá sentido então afirmar acerca deste padrão que ele tem nem que ele não tem esta cor. Podemos exprimir isto da seguinte maneira: Este padrão é um instrumento da linguagem com a qual fazemos afirmações sobre as cores. Neste jogo não há algo exposto mas um meio de exposição.-E exatamente isso se aplica para um elemento no jogo de linguagem (48) quando, denominando-o, proferimos a palavra "R": com isso demos a esta coisa um papel no nosso jogo de linguagem; ela é agora meio de exposição. E dizer "Se ele não existisse, não poderia ter nome ", diz tanto ou tão pouco quanto: se não houvesse essa coisa, não a poderíamos empregar em nosso jogo.-Aquilo que, aparentemente, tem que haver, pertence à linguagem. Existe um paradigma em nosso jogo; algo com que se compara. E constatar isso pode significar fazer uma constatação importante; mas é, todavia, uma constatação que

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diz respeito ao nosso jogo de linguagem-ao nosso modo de exposição.

51. Na descrição do jogo de linguagem (48) eu dizia que as cores dos quadrados corresponderiam às palavras "R", "P ", etc . Mas em que consiste essa correspondência, até que ponto se pode dizer que certas cores dos quadrados corresponderiam a estes signos? A explicação no (48) estabelecia apenas uma conexão entre estes signos e certas palavras de nossa linguagem (os _nomes de cores).-Bem, pressupunha-se que o uso dos signos

seria ensinado de um modo diferente, ou seja , apontando

para os paradigmas. Sim, mas o que significa então dizer que na prática da linguagem certos elementos corresponderiam aos signos?- Consiste no fato de aquele que descreve os complexos de quadrados coloridos dizer sempre "R" onde se encontra um quadrado rubro , "P " onde se encontra um preto , etc.? Mas , e se ele se enganar na descrição e por equívoco disser "R" onde vê um quadrado preto?-qual é o critério aqui para se dizer que isso foi um erro-Ou será que o fato de "R" designar um quadrado rubro consiste em que um quadrado rubro sempre paira no espírito das pessoas que fazem uso da linguagem quando usam o signo "R"?

. , Para ver mais claro, precisamos ter em vista aqui, como em mumeros casos análogos, os pormenores dos processos; olhar de perto o que se passa.

no Jogo

5~. Se estou inclinado a supor que um rato nasce, por ~eraç~o espontânea, de trapos cinzentos e de pó, seria bom mvestJgar bem esses trapos para saber como um rato conseguiu se esconder neles , como conseguiu chegar até lá, etc. Mas , se estou convencido de que um rato não pode nascer de tais coisas então esta investigação talvez será supérflua.

_Mas ~emos que aprender ainda a compreender aquilo que na filosofia se opõe a uma tal consideração de pormenores.

'

53 . H~ diversas possibilidades para nosso jogo de lingua- gem (4~),diversos casos em que diríamos que um signo, no jogo, denomma um quadrado desta ou daquela cor. Nós diríamos isso,

44

p . ex ., se soubéssemos que o uso dos signos foi ensinado desta ou daquela maneira para pessoas que usam essa linguagem. Ou se fosse assentado por escrito, mais ou menos na forma de uma tabela, que a este signo corresponde este elemento, ou se esta tabela fosse utilizada no ensino da linguagem e a ela se recorresse na decisão de certos casos controversos. Podemos imaginar também que uma tal tabela seja um instrumento no uso da linguagem. A descrição de um complexo se dá então da seguinte forma: Aquele que descreve o complexo leva consigo uma tabela e procura nela cada elemento do complexo e passa dele, na tabela , para o signo (e aquele a quem é dada a descrição pode também traduzir as palavras da mesma para uma visão de quadrados coloridos por meio de uma tabela). Poder-se-ia dizer que esta tabela assume aqui o papel que a memória e a associação desempenham em outros casos. (Habi- tualmente, não executamos a ordem "Traga-me uma flor verme- lha! " procurando a cor vermelha numa tabela de cores e trazendo, a seguir, uma flor da cor que encontramos na tabela; mas se se trata de escolher, ou de misturar, um determinado tom de vermelho, acontece então que fazemos uso de um padrão ou de uma tabela.) Se chamamos uma tal tabela de expressão de uma regra do jogo de linguagem, pode-se dizer então que o que chamamos de regra de um jogo de linguagem pode ter, no jogo, papéis muito diferentes.

54. Pensemos em que casos dizemos que um jogo é jogado de acordo com uma regra determinada! A regra pode ser um recurso de instrução no jogo. Ela é transmitida ao aprendiz e sua aplicação é treinada.-Ou é um instrumento do próprio jogo.-Ou: uma regra não encontra uma aplicação nem na instrução nem no jogo; nem está assentada num catálogo de regras. Aprende-se o jogo assistindo como os outros jogam. Mas dizemos que é jogado de acordo com tais regras, porque um observador pode ler estas regras a partir da prática do jogo-é como uma lei natural, em cuja regência as jogadas se desenrolam.-Mas, como é que o observador distin- gue, neste caso, um erro dos outros jogadores de uma jogada

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correta?- Para isso há sinais característicos no comportamento do jogador. Pense no comportamento característico daquele que corrige um lapsus linguae. Seria possível reconhecer que alguém faça isto, mesmo que não entendamos a sua língua.

55. "Tem que ser indestrutível o que os nomes da linguagem

designam: pois deve-se poder descrever o estado no qual é destruído tudo o que é destrutível. E nesta descrição haverá palavras; e o que lhes corresponde não pode ser destruído, caso contrário as palavras não teriam significado algum. " Não posso

serrar o galho sobre o qual estou sentado. Com efeito, poder-se-ia objetar de imediato que a descrição mesma tem que excetuar-se da destruição.-Mas o que corres- pende às palavras da descrição e, portanto , não pode ser destruído, se ela for verdadeira, é o que dá às palavras o seu significado-sem o que elas não teriam significado algum.-Mas este homem de fato é, em certo sentido , o que corresponde ao seu nome. Mas é destrutível; e seu nome não perde o significado quando o portador é destruído.-0 que corresponde ao nome, e sem o que ele não teria significado algum, é, p. ex ., um paradigma que é usado no jogo de linguagem em ligação com o nome.

56. Como assim, se nenhum de tais padrões pertence à

linguagem , se memorizamos , p. ex ., a cor que uma palavra designa?-"E se memorizamos a cor, esta se apresenta então aos nossos olhos espirituais quando pronunciamos a palavra. Ela tem , portanto, que ser em si indestrutível , caso deva existir a possibilidade de nós nos lembrarmos dela a todo momento. "- Mas, o que consideramos o critério para dela nos lembrarmos

com acerto?-Se trabalhamos com um padrão ao invés de nossa memória, vamos dizer, conforme o caso, que o padrão modificou sua cor, e julgamos isto com nossa memória. Não podemos falar também , conforme o caso , de um obscurecimento (p . ex.) da nossa imagem de memória? Não estamos à mercê da memória assim como de um padrão? que alguém poderia querer dizer:

"Se não tivéssemos memória, estaríamos à mercê de um pa- drão.")-Ou tlavez de uma reação química. Imagine que você

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devesse pintar uma determinada cor "C" , que é a cor que se vê quando as substâncias químicas X e Y se combinam.-Suponha que a cor lhe pareça mais clara num dia do que em outro; você não diria, conforme o caso: "Devo ter me enganado. A cor é, com certeza, a mesma de ontem"? Isto mostra que nem sempre nos servimos do que a memória nos diz como o mais elevado e inapelável arbítrio.

57. "Um objeto vermelho pode ser destruído mas não o

significado da palavra 've~elho' é inde-

vermelho; daí que o

pendente da existência de uma coisa vermelha. "-E certo que não

tem sentido dizer que a cor vermelha (color, não pigmentum) é rasgada ou triturada. Mas não dizemos: "O vermelho está desaparecendo"? E não se agarre à idéia de que podemos trazê-lo diante dos olhos, mesmo que não haja mais nada vermelho! Isto não é diferente de você querer dizer que haveria ainda uma reação química que produzisse uma chama verme- lha.-0 que acontece, pois, se você não consegue mais se lembrar da cor?-Se esquecermos que cor tem tal nome, então este perde o seu significado para nós; isto é, não podemos mais jogar com ele um determinado jogo de linguagem. E esta situação deve ser comparada então àquela em que se perdeu o paradigma, que era um meio de nossa linguagem.

58. "Quero chamar de 'Nome' somente o que não pode ocorrer na combinação 'X existe'.-E assim não se pode dizer 'o vermelho existe' porque, se não houvesse o vermelho, não se poderia absolutamente falar sobre ele. "-Mais acertadamente: se "X existe", deve significar o mesmo que "X" tem um significa- do-então não é uma proposição que trata do X, mas uma proposição acerca do nosso uso da linguagem, a saber: do uso da palavra "X" . Parece-nos que com isso estaríamos dizendo algo sobre a

palavras "o vermelho existe" não dão

natureza do vermelho : as

sentido algum. Ele existe ' em si e por si'. A mesma idéia-de que esta é uma asserção metafísica sobre o vermelho-expressa-se também no fato de dizermos que o vermelho é a-temporal, e

talvez ainda mais fortemente na palavra "indestrutível".

47

Mas, na verdade, queremos interpretar 'o vermelho existe' apenas como asserção : a palavra "vermelho" tem um significa- do . Ou talvez mais acertadamente: "o vermelho não existe" como "o 'vermelho' não tem um significado". Só que não queremos dizer que aquela expressão diz isto, mas que ela teria que dizer isto, se tivesse um sentido, mas que ela mesma se contradiz na tentativa de dizer isto-dado que o vermelho, eviden- temente , é ' em si e por si ' . Ao passo que uma contradição consiste apenas em a proposição dar a impressão de que ele fala da cor quando deve dizer algo sobre o uso da palavra "verme- lho ".-Mas , na realidade, dizemos muito bem que uma determi- nada cor existe; e isto significa o mesmo que: existe algo que tem esta cor. E a primeira expressão não é menos exata do que a segunda, sobretudo lá onde 'o que tem a cor' não é um objeto físico.

59. "Nomes designam somente o que é elemento da realidade. Que não se deixa destuir; que em toda mudança permanece o mesmo. "-Mas o que é isto?-Enquanto dizíamos a frase, algo ja pairava diante de nós . Já proferíamos uma repre- sentação bem determinada. Uma imagem determinada que queremos empregar. Pois a experiência não nos mostra os elementos. O que vemos são os componentes de algo composto (de uma poltrona, p. ex .). Dizemos: o encosto é uma parte da poltrona, mas ele é, por sua vez, composto de madeiras diferen- tes; ao passo que um pé é um componente simples. Vemos também um todo que se modifica (é destruído), enqual!to seus componentes permanecem inalterados. Estes são os materiais com os quais construímos aquela imagem da realidade.

60. Se digo: "Minha vassoura está no canto",-é esta, real- mente, uma asserção acerca do cabo e da escova da vassoura? Em todo caso, poder-se-ia substituir a asserção por uma outra que indique a posição do cabo e a posição da escova. E esta asserção é, por certo, uma forma mais analisada da primeira.- Mas, por que a chamo de "mais analisada"?-Ora, se a vassoura se encontra ali, isto significa que ali têm que estar cabo e escova

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e dispostos um ao outro numa determinada posição ; e isto estava

anteriormente como que escondido no sentido da frase e é proferido na frase analisada. Portanto, aquele que diz que a vassoura está no canto, na verdade, tem em mente: ali estão 0 cabo e a escova, e o cabo está enfiado na escova? - Se perguntássemos a alguém se ele tem isso em mente, certamente diria que não pensou especialmente no cabo ou especialmente na escova. E esta seria a resposta correta, pois ele não queria falar especialmente nem do cabo da vassoura nem da escova. Imagine que você, ao invés de dizer a alguém "Traga-me a vassoura! ", dissesse 'Traga-me o cabo da vassoura e a escova que está pregada nele! "-A resposta não seria: Você quer a vassoura? E por que expressa isto de forma tão estranha?"-Ele quer, portanto, entender melhor a frase mais analisada?-Poder- se-ia dizer que esta frase realiza o mesmo que a frase usual, mas por um caminho mais complicado.-Imagine um jogo de lingua-

gem no qual se dão ordens a alguém para trazer, para movimen- tar certas coisas, compostas de várias peças, ou coisas do gênero.

E imagine duas maneiras de jogar este jogo: numa (a), os objetos

compostos (vassouras, cadeiras, mesas, etc.) têm nomes como

em (15); noutra (b), as peças recebem nomes e o todo é descrito com o seu auxílio.-Até que ponto uma ordem do segundo jogo

é uma forma analisada de uma ordem do primeiro? Esconde-se

aquele neste, e agora é trazido à tona pela análise?-Sim, a vassoura é decomposta, se separarmos cabo e escova; mas a ordem de trazer a vassoura é, por esta razão, também constituída de partes correspondentes?

61. "Mas você não irá negar que uma determinada ordem em (a) diz o mesmo que uma ordem em (b); e como você pretende, pois, chamar a segunda senão de forma analisada da primeira?"-Eu diria, sem dúvida , que uma ordem em (a) tem o mesmo sentido que uma ordem em (b); ou como me expressei, anteriormente: elas realizam o mesmo. Isto significa: Se porven- tura me mostrarem uma ordem em (a) e me colocarem a pergunta "A que ordem em (b) ela contradiz? ", eu responderei desta e daquela maneira. Mas com isso não se disse que, no

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geral, chegamos a um entendimento comum sobre o emprego da expressão "ter o mesmo sentido " ou "realizar o mesmo". Pode-se perguntar, a saber: Em que caso dizemos "Estas são apenas duas formas diferentes de um mesmo jogo"?

62. Suponha, p . ex. , que a pessoa, a quem são dadas as

ordens (a) e (b), tenha que verificar numa tabela que ordena nomes e imagens em uma relação entre si , antes que traga o que foi exigido. Faz ele então o mesmo quando cumpre uma ordem em (a) e a correspondente em (b)?-Sim e não. Você pode dizer:

"O espírito das duas ordens é o mesmo ". Eu diria a mesma coisa

aqui. -Mas não está claro sempre o que se deve chamar de 'espírito' da ordem. (Do mesmo modo, pode-se dizer de certas coisas: sua finalidade é esta e aquela. O essencial para que isto seja uma lâmpada é que ela sirva para iluminar-que ela enfeite

o quarto , que preencha um espaço vazio , etc ., isto não é

es$encial. Mas essencial e inessencial nem sempre são separados

claramente.)

63. Mas a expressão, que diz que uma frase em (b) é uma

forma 'analisada' de uma frase em (a), nos induz, facilmente, a

achar que aquela forma é a mais fundamental; que ela mostra somente o que se tem em mente com a outra, etc. Pensamos, talvez: falta a análise a quem possui apenas a forma não analisada; no entanto, quem conhece a forma analisada, possui tudo.-Mas posso dizer que um aspecto da coisa se perde para este assim como para aquele?

64. Imaginemos o jogo (48) modificado, de sorte que nele

os nomes não designem quadrados de uma só cor mas retângulos

que se constituem de cada dois de tais quadrados . Um tal retângulo, metade vermelho e metade verde, chama-se "U "; um retângulo , metade verde e metade branco , chama-se "V", etc. Não poderiamos imaginar pessoas que tivessem nomes para tais combinações de cores mas não para as cores individuais? Pense

50

nos casos em que dizemos: "Esta combinação de cores (

a

Até que ponto os signos desses jogos de linguagem têm necessid~d~ de uma análise? Sim, até que ponto pode 0 jogo ser substitu1do pelo (48)?-Ele é justamente um outro jogo de linguagem; mesmo que aparentado com o (48).

Tricolor francesa , p . ex. ) tem um caráter bem especial. "

, 65 . Aqui nos deparamos com a _wande questão que está por tras de todas estas considerações.-E que alguém poderia retor- quir: "Você facilita muito a coisa! Você fala de todos os jogos de linguagem possíveis, mas não disse, em nenhum lugar, 0 que é a es~ência do jogo de linguagem e, portanto, da linguagem. O que e comum a todos esses processos e os toma uma linguagem ou peças da linguagem. Você se dá de presente, portanto, exatamente a parte da investigação que, a seu tempo, lhe deu as maiores dores de cabeça, a saber: a parte que diz respeito à forma gera l da proposição e da linguagem. "

E isto é verdadeiro.-Ao invés de indicar algo que seja comum a tudo o que chamamos linguagem, digo que não há uma coisa sequer que seja comum a estas manifestações, motivo pelo qual empregamos a mesma palavra para todas, - mas são aparen- tadas entre si de muitas maneiras diferentes . Por causa deste parentesco, ou destes parentescos, chamamos a todas de "lin- guagens" . Quero tentar elucidar isto.

66. Observe, p. ex., os processos a que chamamos "jogos". Tenho em mente os jogos de tabuleiro, os jogos de cartas, o jogo de bola, os jogos de combate, etc. O que é comum a todos estes jogos?-Nã_o diga: "Tem que haver algo que lhes seja comum, d~ contráno não se chamariam 'jogos'" - mas olhe se há algo que seJa comum a todos.-Porque, quando olhá-los, você não verá algo que seria comum a todos, mas verá semelhanças, paren- tescos, aliás, uma boa quantidade deles. Como foi dito: não pense , mas olhe!-Olhe , p . ex ., os jogos de tabuleiro com seus variegados parentescos. Passe agora para os jogos de cartas:

aqui você encontra muitas correspondências com aquela primei- ra classe, mas muitos traços comuns desaparecem, outros se

51

BIBLIOTECA CENTRAL

UESB

apresentam. Se passarmos agora para os jogos de bola, veremos que certas coisas comuns são mantidas, ao passo que muitas se perdem.-Prestam-se todos eles ao 'entretenimento? Compare

toda parte, ganhar e perder,

o xadrez com o ludo . Ou há, por

ou uma concorrência dos jogadores? Pense nas paciências. Nos jogos de bola há ganhar e perder; mas, se uma criança atira a bola contra a parede e a agarra novamente, neste caso este traço

desapareceu. Veja que papel desempenham habilidade e sorte.

E quão diferente é habilidade no jogo de xadrez e habilidade no

jogo de tênis. Pense agora nas brincadeiras de roda: aqui se encontra o elemento de entretenimento, mas quantos dos outros

traços característicos desapareceram! E assim podemos percor-

rer os muitos, muitos outros grupos de jogos, ver as semelhanças aparecerem e desaparecerem. E o re~ultado desta observação é: vemos uma complicada rede de semelhanças que se sobrepõem umas às outras e se entrecruzam . Semelhanças em grande e em pequena escala.

67 . Não posso caracterizar melhor essas semelhanças do

que por

se sobrepõem e se entrecruzam as várias semelhanças que

estatura, traços

fisionômicos , cor dos olhos, andar, temperamento, etc., etc.-E

existem entre os membros de uma família:

meio das palavras "semelhanças familiares "; pois assim

eu

direi: os 'jogos' formam uma família. Do mesmo modo formam uma família, p . ex. , as espécies

de

números . Por que chamamos algo de "número"? Ora, talvez

porque tem um-direto-parentesco com alguma coisÇJ. que até agora se chamou de número; e pode-se dizer que através disso

adquire um parentesco com uma outra coisa que também chamamos assim. E alargamos nosso conceito de número do mesmo modo que, ao tecermos um fio, traçamos fibra por fibra.

E a robustez do fio não consiste em que uma fibra qualquer

perpasse toda sua extensão, mas em que muitas fibras se sobreponham umas às outras. Mas, se alguém quisesse dizer: "Há, portanto, algo comum

a essas construções todas, -a saber: a disjunção de todas essas propriedades comuns"-eu responderia então: aqui você joga

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com uma palavra apenas. Poder-se-ia dizer, igualmente: algo perpassa o fio todo ,-a saber, a sobreposição sem falhas dessas fibras.

68. "Muito bem; assim está explicado para você o conceito de número como a soma lógica daqueles conceitos individuais aparentados: número cardinal, número racional, número real etc. e, igualmente, o conceito de jogo como a soma lógica dos conceitos parciais correspondentes."-Não, necessariamente. Pois assim eu posso conferir limites rígidos ao conceito 'número' , isto é, usar a palavra ' número' como designação de conceito limitado rigidamente, mas posso usá-la também de tal modo que

a extensão do conceito não seja fechada por um limite. E é assim que empregamos a palavra "jogo". De que modo está fechado

o conceito de jogo? O que é ainda um jogo e o que não o é mais? Você pode indicar os limites? Não. Você pode traçar alguns:

pois ainda não se traçou nenhum. (Mas isto jamais o incomodou ao empregar a palavra "jogo ").

"Mas então não está regularizado o emprego da palavra; não está regularizado o 'jogo' que jogamos com ela. "-Não está delimitado por regras em toda parte; mas também não há, no jogo de tênis, regras que determinem, p. ex., a que altura ou com que força se é permitido arremessar a bola, mas o tênis é de fato um jogo, e também possui regras.

"'.p 69. Como explicaríamos para alguém o que é um jogo? Cre1 ue descrevendo jogos, e poderíamos acrescentar à des- crição: "isto e coisas semelhantes são chamados 'jogos"'. E sabemos, nós próprios, mais do que isto? E somente a outrem é que não somos capazes de dizer exatamente o que é um jogo?-Mas isto não é ignorância. Não conhecemos os limites, porque não se traçou nenhum limite. Como foi dito, podemos- para uma finalidade especial-traçar um limite. Somente fazendo isto é que tomamos o conceito utilizável? De forma alguma! A não ser para esta finalidade especial. Tampouco tornou útil a medida de comprimento '1 passo' quem definiu: 1 passo= 75 em. E se você quiser dizer: "Mas, anteriormente, ela não era uma

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medida de comprimento exata" , respondo então: bem, então era uma medida inexata.-E você ainda fica me devendo a definição de exatidão.

70. "Mas, se desta forma o conceito de 'jogo' é ilimitado, então você não sabe, propriamente, o que tem em mente com 'jogo ' ."-Quando dou a descrição: "O solo estava totalmente coberto de plantas",-você quer dizer que eu não sei do que estou falando enquanto não puder dar uma definição de planta? Minha opinião poderia ser explicada, digamos, por um desenho ou pelas palavras "O solo tinha mais ou menos tal aspecto". Talvez eu diga também: "Ele tinha exatamente tal aspecto".-Portanto, estavam lá, nessas posições, exatamente essas ervas e folhas? Não , não é isto que se quer dizer . E, neste sentido, eu não reconheceria em nenhuma imagem a imagem exata. 71. Pode-se dizer que o conceito 'jogo' é um conceito de contornos imprecisos.- "Mas um conceito impreciso é, por aca- so, um conceito?"-Uma fotografia desfocada é, por acaso, o retrato de uma pessoa? Bem, pode-se substituir sempre com vantagem um retrato desfocado por um nítido? Freqüentes vezes não é o retrato desfocado precisamente aquilo de que mais

precisamos?

Frege compara o conceito a uma região e diz: uma região delimitada sem clareza não pode, absolutamente, ser chamada de região. Isto significa que não podemos fazer nada com ela.- Mas não tem sentido dizer: "Detenha-se mais ou menos aqui"? Imagine que eu estivesse com uma outra pessoa em um lugar e dissesse isto. Nisso, nem ao menos traçarei algum limite, mas farei um movimento indicativo talvez com a mão,-como se lhe mostrasse um determinado ponto. E é precisamente assim que se explica o que é um jogo. Dá-se exemplos e pretende-se que

Alguém me diz: "Mostre um jogo às crianças!" Ensino-lhes

a jogar dados a dinheiro , e o outro me diz "Eu não tinha em

mente um tal jogo". Era necessário que estivesse em sua mente

a exclusão do jogo de dados quando me deu a ordem?

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eles sejam entendidos num certo sentido.-Mas com esta expres- são não te~ho em mente: nestes exemplos ele deve ver 0 ~omum,aqu1lo que-por uma razão qualquer-não consegui trazer a fala . Mas: ele deve empregar estes exemplos apenas nu determinado modo. A exemplificação não é aqui um me:

indireto de explicação,-na falta de um melhor. Pois, toda ~xplicação?era! t~mb~m pode ser mal entendida. É assim que JOgamos o JOgo. (E o Jogo de linguagem que tenho em mente com a palavra "jogo". )

. 72. Ver o comum. Suponha que eu mostre para alguém diferentes quadros coloridos e diga: "A cor que você vê em todos esses ~uadros ch~ma-se 'ocre'."-Esta é uma explicação que é ~ntend1dana med1da em que o outro procura e o que é comum aqueles quadros. Ele pode então olhar para o comum, apontar para ele.

Compare com o seguinte: Mostro-lhe figuras de formas d!ferentes, todas pintadas da mesma cor, e digo: "O que estas tem em comum entre si, chama-se 'acre"'.

E compare com isso: Mostro-lhe padrões de diferentes matizes de azul e digo: "A cor, que é comum a todos eu chamo '

de 'azul"'.

73. Se alguém me explica o nome das cores apontando para

.",

entao este caso pode ser comparado, em muitos aspectos, a ele colocar-me nas mãos uma tabela, na qual as palavras estão sob os padrões de cores.-Mesmo que esta comparação possa enga- nar de certo modo. -Estamos inclinados agora a estender a co_mparaçã~:. Ter compreendido uma explicação significa pos- SUir :m espmto_um conceito do que foi explicado, e isto é um padrao ou uma Imagem. Caso alguém me mostre folhas diferen- tes e diga "Isto chama-se 'folha '" , obtenho então um conceito de forma de folha, uma imagem dela no espírito.-Mas que aspecto tem a imagem de uma folha que não apresenta uma forma determinada , e sim 'aquilo que é comum a todas as formas de folha'? Que tom de cor tem 'em meu espírito o padrão' da cor verde-daquilo que é comum a todos os tons de verde?

o p~drão e dizendo: "Esta cor chama-se 'azul', esta 'verde '

55

"Mas não poderia haver tais padrões 'gerais'? Talvez um esquema de folha ou um padrão de verde puro?" -Certamente! Mas, que este esquema seja entendido como esquema e não como a forma de uma determinada folha , e que um quadrinho de verde puro seja entendido como padrão de tudo o que é esverdeado e não como padrão para o verde puro-isto reside outra vez no modo de aplicação deste padrão. Pergunte-se: Que forma tem que ter o padrão da cor verde? Deve ser quadrado? Ou seria ele então o padrão para quadrados verdes?-Deve, portanto, ser 'irregular' na forma? E o que nos impede de considerá-lo-isto é, de empregá-lo-apenas como padrão da forma irregular?

74. Aqui se insere também o pensamento de que quem vê esta folha como padrão 'de forma de folha em geral' , a vê

diferentemente de quem a considera talvez como padrão para esta forma determinada. Ora, isto poderia ser assim, - embora não o seja-,pois significa apenas que, de acordo com a expe-

riência , quem

a folha de um determinado modo , emprega-a

deste e daquele modo ou de acordo com tais e tais regras. Há, naturalmente, um ver assim e um ver de outro modo. E há casos

em que quem vê um padrão assim, em geral irá empregá-lo

o vê diferentemente, de outro modo. Quem

plana ,

constituída de um quadrado e de dois losangos, talvez cumprirá

deste modo , e quem vê, p . ex ., o desenho

esquemático de um cubo como figura

a ordem "Traga-me tal coisa! " diferentemente de quem vê a imagem espacialmente.

75 . O que significa saber o que é um jogo? O que significa sabê-lo e não ser capaz de dizê-lo? É este saber um equivalente qualquer de uma definição não formulada? De tal forma que, se ela fosse formulada , eu poderia reconhecê-la como a expressão do meu saber? Não está meu saber, meu conceito de jogo, expresso inteiramente nas explicações que eu fosse capaz de dar? A saber: no fato de eu descrever exemplos de jogos de espécies diferentes; de mostrar, em analogia a estes jogos, como se pode construir outros jogos de todas as espécies possíveis ; de

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dizer que quase não mais chamaria isto e aquilo de jogo· e coisas '

do gênero.

76. ~e algué_m traçasse um limite preciso, eu não poderia reconhece-lo entao como o que também sempre quis traçar ou que tracei em espírito. Pois eu não queria traçar nenhum. Pode-se dizer então: seu conceito não é igual ao meu, mas tem paren:esco c?n; ele. E é o parentesco de duas imagens, das quais uma e constitU!da de manchas de tinta delimitadas imprecisa- mente, a outra de manchas de tinta modeladas e distribuídas por igual mas precisamente delimitadas. O parentesco é, neste caso tão inegável como a diferença.

'

77. E se levarmos esta comparação um pouco além então fica claro que o grau, até onde a imagem nítida pode ser semelhante à desfocada, depende do grau da não-nitidez da segunda. Imagine que você deva projetar para uma imagem desfocada uma imagem nítida que lhe seja 'correspondente'. Naquela está um retângulo vermelho pouco nítido · você coloca um nítido no lugar. Sem dúvida-poder-se-iam traçar outros tantos retângulos nítidos que correspondessem ao não-nítido.- Mas se no original as cores se misturam sem o vestígio de um li~ite,-não será tarefa sem esperança desenhar uma imagem mtJda que corresponda à desfocada? Você terá que dizer então:

"Aqui eu poderia desenhar um círculo tão bem como um retângulo ou um coração; as cores todas se mesclam. Tudo está certo; e nada está certo. ",-E nesta situação se encontra, p . ex ., quem na Estética ou na Etica busca por definições que corres- pendam aos nossos conceitos.

Nesta dificuldade, pergunte-se sempre: Como foi que apren-

A mão de

dem os o significado desta palavra ("bom ", p. ex .)?

que exemplos; em quais jogos de linguagem? (Então você verá facilmente, que a palavra deve ter uma família de significados.)'

78. Compare: saber e dizer:

quantos metros de altura tem o Mont-Bianc- como é usada a palavra "jogo"- como soa um clarinete.

57

Alguém que se admira de que se pode saber algo e não se pode dizê-lo, talvez pense num caso como o primeiro. Certa- mente, não num caso como o terceiro.

79 . Olhe com atenção o seguinte exemplo: Quando se diz "Moisés não existiu ", isto pode significar diversas coisas . Pode significar: Os israelitas não tiveram um guia quando saíram do Egito-ou : seu guia não se chamava Moisés-ou : não houve ~m homem que tivesse realizado tudo o que a Bíblia narra a respeito de Moisés-ou etc., etc.-Segundo Russell, podemos dizer: o nome "Moisés" pode ser definido por meio de diferentes descri- ções . Como, p . ex .: "O homem que conduziu os israelitas através do deserto", "o homem que viveu neste tempo e neste lugar e a quem, naquela época, chamavam 'Moisés', que em criança foi

E, dependendo da

definição que aceitamos, a proposição "Moisés existiu" adquire um outro sentido, assim como qualquer outra proposição que trate de Moisés.-E se nos dizem "N não existiu", questionamos

, ou

retirado do Nilo pela filha do Faraó" , etc.

também : "O que você tem em mente? Quer dizer que

, etc .?" Mas quando eu faço uma afirmação sobre Moisés,-estou sempre disposto a substituir qualquer uma dessas descrições por "Moisés"? Direi talvez: Por "Moisés" entendo o homem que fez aquilo que a Bíblia narra sobre Moisés, ou mesmo muitas dessas coisas narradas. Mas, quantas? Decidi quantas têm que se mostrar falsas para que eu desista de minha proposição como falsa? Tem o nome "Moisés" para mim, portanto, um uso fixo e claramente determinado em todos os casos possíveis?-Não é assim que eu, por assim dizer, tenho à disposição uma série de apoios e estou disposto a apoiar-me em um deles, caso os outr~s venham a ser tirados de mim, ou vice-versa?-Oihe com atençao ainda um outro caso. Quando digo "N morreu" , pode ser que com o significado do nome "N" se dê o seguinte caso: eu acredito que viveu um homem , (1) o qual eu vi aqui e ali, (2) o qual tinha esta e aquela aparência (imagens}, (3) fez isto e aquilo e (4) no mundo civil era portador do nome "N".-Se me perguntassem o que entendo por "N", eu enumeraria tudo isto ou algumas dessas

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coisas e coisas diferentes em ocasiões diferentes. Minha definição de "N" seria mais ou menos assim: "o homem, a quem tudo isso se encaixa". -Mas , e se agora alguma dessas coisas se mostrar falsa!-Estarei disposto a declarar que a proposição "N morreu" é falsa ,-mesmo que apenas uma coisa, que me pareça secundá- ria', verificar-se falsa? Mas onde é o limite do secundário?-Se, num tal caso , eu tivesse dado uma explicação do nome, estaria disposto a modificá-la. E isto pode ser expresso da seguinte maneira: Eu uso o nome 'N' sem um significado fixo. (Mas isto influencia o seu uso tão pouco quanto o uso de uma mesa que repousa sobre quatro pernas ao invés de três e, por isso, em certas ocasiões, balança.) Deve-se dizer que, usando uma palavra, cujo significado não conheço, estou dizendo disparátes?-Diga o que quiser, desde que isto não o impeça de ver como a coisa é . (E quando vir isto , já não dirá certas coisas.) (A oscilação das definições científicas : O que hoje vale como fenômeno concomitante empírico do fenômeno A, será utilizado amanhã na definição de "A" .)

80. Digo: "Ali está uma poltrona ". O que acontecerá se eu

for até lá para apanhá-la, e ela de repente sumir da minha vista?-"Então não era uma poltrona mas uma ilusão qual- quer."-Mas, em alguns segundos, vejo-a novamentee posso pegá-la, etc.- "Então a poltrona estava mesmo lá e Seu desapa" recimento foi uma ilusão qualquer."-Mas suponha que depois de algum tempo ela desapareça novamente,-dU ã impressão de que desaparece. O que dizer agora? Você dispõe de regras para tais casos,-regras que digam se pode ainda chamar uma tal coisa de "poltrona"? Fogem-nos essas regras ao usarmos a palavra "poltrona", e devemos dizer qué, na verdade, não associamos nenhum significado a esta palavra, uma vez que não estamos equipados com regras para todas as possibilidadéS de seu emprego?

81. F.P. Ramsey acentuou certa vez em conversa càmigo,

que a lógica é uma 'ciência normativa'. Que idéia, exãtàmente,

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passava-lhe pela cabeça ao dizer isto, não sei; mas ela estava, sem dúvida, intimamente relacionada com a idéia que somente mais tarde se me ocorreu: a saber, que em filosofia compara- mos, freqüentemente, o uso das palavras com jogos, com cálculos segundo regras fixas, mas não podemos dizer que quem usa a linguagem é obrigado a jogar um tal jogo.-Se dizemos, porém, que nossa expressão lingüística apenas se aproxima de tais cálculos, com isto se está imediatamente à beira de um mal-entendido. Pois pode dar a impressão de que na lógica falamos de uma linguagem ideal, como se nossa lógica fosse, por assim dizer, uma lógica para o vazio.-Ao passo que a lógica não trata em absoluto da linguagem-respectivamente do pensa- mento-no mesmo sentido que uma ciência da natureza trata de um fenômeno da natureza, e o máximo que se pode dizer é que nós construímos linguagens ideais. Mas aqui a palavra "ideal" seria enganosa, pois isto soa como se estas linguagens fossem melhores, mais perfeitas, do que a nossa linguagem corrente; e como se o lógico fosse necessário, para mostrar aos homens, finalmente, que aspecto tem uma proposição correta. Mas tudo isso só pode aparecer em sua verdadeira luz, quando se adquiriu maior clareza acerca dos conceitos de compreender, de ter em mente e de pensar. Pois então tomar- se-á claro também o que nos pode induzir (ou me induziu) a pensar que quem profere uma proposição e a tem em mente, ou a compreende, com isso está operando um cálculo segundo determinadas regras.

82. O que chamo de 'regra segundo a qual ele procede'?-A hipótese que descreve, satisfatoriamente, o seu uso das palavras, o qual nós observamos; ou a regra que ele consulta ao usar os signos; ou a que ele nos dá como resposta ao lhe perguntarmos pela sua regra?-Mas como, se a observação não permite reco- nhecer claramente nenhuma regra e a pergunta não traz nenhu- ma à luz?-Porque, embora ele me tenha dado uma explicação à minha pergunta pela sua compreensão de "N", não estava disposto a revogar e a modificar esta explicação.-Como devo, portanto, determinar a regra segundo a qual ele joga? Ele próprio não a sabe.-Ou mais acertadamente: O que deve ainda significar aqui a expressão "regra segundo a qual ele procede"?

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83. Não é elucidativa a analogia da linguagem com 0 jogo?

Podemos muito bem imaginar pessoas que se divertem num campo, jogando com uma bola, de sorte que começassem diversos jogos conhecidos, não levassem alguns até o fim entrementes atirassem a bola para o alto sem objetivo, corresse~

uns atrás dos outros com a bola por brincadeira e atirassem-na

uns nos outros , etc . E

tempo todo um jogo de bola , e por isso guiam-se, a cada jogada, por regras determinadas.

E não há também o caso, onde jogamos e-'make up the rules as we go along '? Sim, também o caso , em que nós as modificamos-as we go along.

agora alguém diz : As pessoas jogam 0

84. Eu dizia sobre o emprego de uma palavra : ele não é

totalmente delimitado. Mas que aspecto tem um jogo que é totalmente delimitado por regra? Cujas regras não permitem a penetração de nenhuma dúvida e lhe tapam todos os orifícios?- Não podemos imaginar uma regra que regule o emprego da regra? E uma dúvida que remova aquela regra-e assim por diante?

Mas isto não quer dizer que duvidamos porque podemos imaginar uma dúvida. Posso imaginar muito bem que alguém, toda vez que vai abrir a porta de sua casa, duvide se atrás dela não se abriu um abismo, e que ele se certifique disso, antes de entrar pela porta (e pode resultar alguma vez que ele tinha razão)-mas nem por isso eu duvido no mesmo caso.

85. Uma regra está aí como uma placa de orientação.-Ela

não deixa em aberto nenhuma dúvida sobre o caminho que devo seguir? Mostra ela em que direção devo ir quando passo por ela :

se seguindo a estrada, ou o caminho do campo, ou pelo meio

do pasto? Mas onde está dito em qual sentido eu devo segui-la,

da mão ou (p. ex .) na direção oposta?-E se

ao invés de uma placa de orientação estivesse ali uma cadeia fechada de placas ou corressem traços de giz sobre o solo,-há apenas uma interpretação para eles?-Posso dizer, portanto, que a placa de orientação não deixa nenhuma dúvida em aberto. Ou antes: algumas vezes ela deixa uma dúvida em aberto, outras

se na direção

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vezes não. E isto já não é mais uma proposição filosófica , mas uma proposição empírica.

86. Joga-se um jogo de linguagem como (2) com o auxílio de uma tabela. Os signos que A dá a B são os caracteres. B tem uma tabela; na primeira coluna estão os signos que são usados

no jogo; na segunda, figuras de formas de pedra de construção.

A mostra a B um tal caracter; B procura-o na tabela, olha para

a figura que se encontra em frente, etc. A tabela é, portanto,

uma regra pela qual ele se orienta ao executar a ordem.-Apren- de-se a procurar uma figura na tabela com treinamento, e uma parte deste trinamento consiste em o aluno aprender a percorrer a tabela com o dedo, em sentido horizontal, da esquerda para a direita; assim ele aprende, digamos, a traçar uma série de riscos horizontais.

Imagine então que fossem introduzidas as maneiras diferen- tes de ler a tabela, a saber: uma vez, como acima, segundo o esquema:

.,

.,

outra vez segundo este esquema:

~

ou segundo um outro esquema.-Um tal esquema é anexado à tabela como regra que indica como ela deve ser usada. Não podemos imaginar agora outras regras para a explica- ção desta? E, por outro lado, estava incompleta aquela primeira tabela sem o esquema de setas? E o são as outras tabelas sem o seus esquemas?

87 . Suponha que eu explique: "Por 'Moisés' entendo o homem, caso tenha existido, que tirou os israelitas do Egito, não importando como ele se chamava naquela época ou o que ele possa ou não ter feito". -Mas, sobre as palavras desta explicação,

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são possíveis dúvidas equivalentes àquelas sobre o homem "Moisés " (o que é que você chama de "Egito ", a quem você chama "os israelitas ", etc .?). Estas perguntas também não termi- nam, se chegarmos a palavras como "vermelho", "escuro", "doce':.- "Mas então como pode uma explicação ajudar na compreensão, se ela não é a derradeira explicação? Então a explicação jamais está terminada; portanto, não, entendo ainda e nunca vou entender o que ele tem em mente!-E como se uma explicação, por assim dizer, estivesse pendurada no ar, caso uma outra não a sustentasse. Ao passo que uma explicação pode repousar sobre uma outra que se tenha dado, mas uma não precisa da outra-a menos que nós precisemos dela para evitar um mal-entendido-um mal-entendido que aconteceria sem a explicação; mas não aquele mal-entendido que eu posso imagi- nar.

Pode facilmente parecer que cada dúvida mostra apenas

uma fenda no fundamento; de sorte que uma compreensão segura só é possível se nós primeiramente duvidarmos de tudo

o que se possa duvidar, e depois eliminarmos todas estas dúvidas. A placa de orientação está em ordem-se, em circunstâncias normais, ela cumpre com sua finalidade.-

88. Quando digo a uma pessoa "Detenha-se mais ou menos aqui!"-esta explicação não pode funcionar perfeitamente? E uma outra não pode também falhar? "Mas a explicação não é de fato inexata?"-Sim; por que não

se deve chamá-la "inexata"? Se ao menos entendêssemos o que "inexata" significa! Porque não significa "inutilizável". Reflitamos sobre o que chamamos de explicação "exata" em oposição a esta explicação! Seria, porventura, a delimitação de uma região mediante um traço de giz? Ocorre-nos de imediato que o traço tem sua largura. Exato seria, portanto, um limite de cor. Mas esta exatidão tem aqui ainda uma função? Não opera em ponto morto? E também não determinamos ainda o que se deve considerar como o ultrapassar deste limite preciso; como verifi- cá-lo e com quais instrumentos. Etc.

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Nós entendemos o que quer dizer acertar um relógio de bolso ou ajustá-lo para que ande . com precisão. Como _s~ri~, no entanto, se perguntássemos : E esta precisão uma prec1sao 1deal, ou até que ponto se aproxima dela?-Poderíamos falar , sem dúvida, de medições de tempo, nas quais há uma outra e, diríamos, maior precisão do que na medição de tempo com o relógio de bolso. Onde as palavras "acertar~ relógio" t~n; um significado diferente, embora aparentado , e ver a hora e um outro processo .-Quando digo a alguém : "Você deveria vir mai_s pontualmente para a refeição; você sabe que ela começa preCI- samente à uma hora"-não se está falando aqui, propriamente, de precisão? Porque pode-se dizer: "Pense na determinação do tempo no laboratório ou no observatório; aí você vê o que significa 'precisão' ." "Inexato" é, na verdade, uma censura e "exato" é um elogio. E isto quer dizer: o inexato não atinge o seu alvo tão perfeita- mente como o mais exato. Depende, pois, do que chamamos "o alvo". Sou inexato se não indico com precisão métrica a que distância o sol está de nós, e se não indico ao carpinteiro com precisão milimétrica a largura da mesa? Não está previsto um ideal de precisão; nem sabemos que idéia fazer disso-a não ser que você mesmo estipule o que deve ser denominado assim. Mas vai ser difícil para você encontrar uma tal estipulação; uma que o satisfaça.

89. Com estas reflexões, estamos lá onde o problema está:

Até que ponto a lógica é algo sublime? Pois parecia competir-lhe uma profundidade especial - um significado geral. Parecia que ela estava na base de todas as ciências .-É que a reflexão lógica investiga a essência de todas as coisas. Ela quer ver as coisas em seu fundamento e não deve se preocupar se o acontecimento real é deste ou daquele modo.-Ela não emerge de um interesse por fatos da natureza nem d~ necessidade de apreender conexões causais, mas de uma aspi- ração por compreender o fundamento ou a essência de tudo que é empírico. Não que para isto devêssemos rastrear fatos novos:

para nossa investigação é muito mais essencial que não queira- mos aprender nada novo com ela. Queremos compreender algo

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que já está aberto diante de nossos olhos. Porque, em um certo sentido, é isto que parecemos não compreender.

Santo Agostinho diz (Conf. Xl/14): "Quid est ergo tempus? si nemo ex me quaerat seio ; si quaerenti explicare velim , nescio ." - Não daria para dizer isto de uma questão da ciência da natureza

(p.

questão acerca do peso específico do hidrogênio) .

Aquilo que sabemos, se ninguém nos pergunta, mas que já não

sabemos mais, se devemos explicá-lo, é algo de que devemos nos lembrar. (E, obviamente, é algo de que, por um motivo qualquer, dificilmente nos lembramos.)

ex .,

da

90. É como se tivéssemos que penetrar os fenômenos: mas

nossa investigação não se dirige aos fenômenos, e sim, como poderia dizer, às 'possibilidades' dos fenômenos. Isto quer dizer que meditamos sobre a espécie de asserções que fazemos sobre os fenômenos . Daí que também Santo Agostinho medita sobre as diferentes asserções que se faz sobre a duração dos aconteci- mentos, sobre o seu passado, o seu presente ou o seu futuro . (Estas não são, naturalmente, asserções filosóficas sobre o tempo, passado, presente e futuro.) Por isso nossa reflexão é uma reflexão gramatical. E esta reflexão ilumina o nosso problema, removendo mal-entendidos. Mal-entendidos que dizem respeito ao uso de palavras, provoca- dos , entre outras coisas, por certas analogias entre as formas de expressão em diversas áreas de nossa linguagem.-Alguns poderri ser eliminados, substituindo-se uma forma de expressão por outra; a isto se pode chamar "análise" de nossas formas de expressão, porque o processo se assemelha muitas vezes a uma decomposição.

91. Mas isto pode dar agora a impressão de que existe algo

assim como uma última análise de nossas formas de linguagem, portanto, uma forma de expressão perfeitamente decomposta. Quer dizer: como se as nossas formas usuais de expressão ainda não estivessem analisadas em sua essência, como se nelas houvesse algo oculto que deve ser trazido à luz. Se isto aconte- ceu, então a expressão está esclarecida e nossa tarefa resolvida.

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Isto pode ser dito também da seguinte forma: nós elimina- mos mal-entendidos ao tomarmos nossa expressão mais exata:

pode parecer, no entanto, que aspiramos a um estado determi- nado, à exatidão perfeita; e que isto é a meta propriamente dita da nossa investigação.

92. Isto expressa-se na questão acerca da essência da linguagem, da proposição, do pensamento.-Pois, se com nossas investigações também almejamos compreender a essência da

linguagem- sua função, sua estrutura-,por certo não é bem isso

o que esta questão tem em vista. Pois ela não vê, na essência,

algo que já está abertamente manifesto e que se toma visível em seu conjunto mediante organização. Mas é algo que se situa sob

a superfície. Algo que se situa no interior, algo que vemos quando penetramos a coisa, algo que cabe à análise desenterrar.

'A essência nos é oculta': eis a forma que nosso problema assume agora. Nós perguntamos: "O que é a linguagem?" "O que é a proposição?" E a resposta a estas questões deve ser dada de uma vez por todas e independente de qualquer expe- riência ulterior.

93. Alguém poderia dizer "Uma proposição é o que há de mais trivial no mundo", e um outro: "Uma proposição- é algo muito esquisito!"-E este simplesmente não é capaz de verificar como as proposições funcionam, porque as formas de nosso modo de falar, que dizem respeito às proposições e ao pensar,

o atrapalham. Por que dizemos que a proposição é algo esquisito? Por um lado, por causa da enorme importância que lhe é atribuída. (0 que é correto.) Por outro lado, esta importância e uma má-com- preensão da lógica da linguagem nos induzem a achar que a proposição tem que realizar algo extraordinário, algo original. Por um mal-entendido, parece-nos que a proposição faz algo- estranho.

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_94 . ~A proposição, uma coisa esquisita !': aqui já reside a subl~maçao ~~ ~oda a apresentação. A tendência de supor um ser mtermed1ano puro entre o signo proposicional e os fat C?~também.de querer purificar, sublimar o próprio signo pro;~~ si.CJonal. -Po!s nossas formas de expressão nos impedem, de diversos modos, de ver que isto acontece com as coisas ordiná- rias, na medida em que nos enviam à caça de quimeras.

95. "O pensar tem que ser algo singular". Quando dizemos quando temos em mente que a coisa é assim e assim, não no~ detemos com o que temos em mente em algum lugar diante do fato: mas temos em mente que isto e isto-assim e assim-é.- Mas pode-se exprimir este paradoxo (que tem forma de evidên- cia) também assim: pode-se pensar o que não é o caso.

96. À ilusão peculiar que aqui se tem em mente associam-se

outras de diversos lados. O pensar, a linguagem, aparece-nos agora como o correlato singular, a imagem, do mundo. Os conceitos: proposição, linguagem, pensar, mundo encontram-se numa série, um atrás do outro, um equivalente ao outro. (Mas para que devemos usar agora estas palavras? Falta o jogo de linguagem no qual devem ser empregadas.)

97. O pensar é envolto por um halo.-Sua essência a lógica

~presentauma ordem, ou seja, a ordem a priori do m~ndo,ist~ e, a ordem das possibilidades, que tem que ser comum ao mundo e ao pensar. Esta ordem, no entanto, ao que parece, tem

~~e ~erda máxima simplicidade. Ela é anterior a toda expe- nencia; tem que perfazer toda a experiência; a ela mesma não

se pode aderir nenhuma opacidade ou insegurança empírica.- Ela tem que ser, antes de mais nada, de puro cristal. Este cristal, no entanto, não aparece como abstração; mas como algo concreto, sim, como o que há de mais concreto, por assim dizer,

o que há de mais duro. (Trat. Lóg. Fi/os. , n. 5.5563.)

Estamos na ilusão de que o peculiar, o profundo, o essencial

de nossa investigação reside no fato de ela almejar compreender

a essência incomparável da linguagem. Isto é, a ordem que existe

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entre os conceitos de proposição, palavra, dedução, verdade, experiência etc. Esta ordem é uma super-ordem entre-por assim dizer-super-conceitos . Ao passo que as palavras "linguagem ", "experiência ", "mundo ", caso tenham um emprego , este tem que ser tão modesto como as palavras "mesa ", "lâmpada ", "porta".

98. Por um lado, está claro que cada proposição de nossa

linguagem ' está em ordem como está ' . Isto é, que não aspiramos

a um ideal: Como se nossas proposições habituais e vagas não

tivessem ainda um sentido irrepreensível, e uma linguagem perfeita estivesse ainda por ser construída por nós.-Por outro

lado, parece claro: Onde há sentido, tem que haver ordem perfeita.-Portanto, a ordem perfeita tem que estar também na mais vaga proposição.

99. O sentido da proposição-diriamos-pode, sem dúvida,

deixar em aberto isso ou aquilo, mas a proposição tem que ter

um sentido determinado. Um sentido determinado,-não seria,

propriamente, sentido a/gum.-Como uma delimitação impreci- sa não é, propriamente, delimitação alguma. Pensa-se aqui mais ou menos assim. Quando digo "tranquei o homem no quarto firmemente- apenas uma porta ficou aberta"- desta forma não

o tranquei absolutamente. Ele está trancado apenas aparente- mente. Estaríamos inclinados a dizer aqui: "Agindo assim você não fez absolutamente nada" . Um cercado que tem um buraco vale tanto quanto nenhum.-Mas isto é verdade?

100. "Não é de fato jogo, se há uma vaguidade nas regras. "-Mas então não é um jogo? - "Sim, talvez você irá chamá-lo de jogo, mas, em todo caso, não é de fato um jogo perfeito. " Isto é: é um jogo contaminado, e eu me interesso agora por aquilo que foi contaminado.-Mas quero dizer que nós compreendemos mal o papel que o ideal desempenha em nosso modo de falar. Quero dizer: também nós iriamos chamá-lo de jogo, só que estamos ofuscados pelo ideal e, por conseguinte, não vemos claramente o emprego real da palavra "jogo".

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101. Queremos dizer que na lógica não pode haver vagui-

dade. Vivemos na idéia de que o ideal ' tem

na realidade. Ao passo que não se vê ainda como ele se encontra

que' se encontrar

aí , e não se entende a essência deste "tem que". Acreditamos

que o ideal tem que estar metido na realidade, pois acreditamos

já vê-lo nela.

102 . As regras rígidas e claras da construção da proposição aparecem-nos como algo escondido no fundo - no medium do entendimento, uma vez que entendo o signo, que tenho algo em mente com ele.

103. O ideal está fixado em nossos pensamentos de modo

irremovível. Você pode sair dele. Você tem que voltar sempre

de novo . Não existe um fora ; lá fora falta

isto? A idéia está colocada, por assim dizer, como óculos sobre

o nosso nariz, e o que vemos, vêmo-lo através deles. Não nos ocorre tirá-los.

o ar vital. - Donde vem

104. Afirma-se da coisa o que já se encontra no modo de

sua exposição. Tomamos a possibilidade de comparação que nos impressiona para a percepção de uma conjuntura da máxima

universalidade.

105. Se acreditamos ter que encontrar aquela ordem, o

ideal, na linguagem real, ficamos insatisfeitos com o que se chama usualmente, de "proposição" , "palavra", "signo".

A proposição, a palavra, de que trata a lógica, deve ser algo puro e bem talhado. E agora quebramos a cabeça por causa da

essência do signo propriamente dito . É ela, por acaso,

representação do signo? ou a representação no momento

presente?

a

106. Aqui é difícil, por assim dizer, de manter a cabeça

erguida,-ver que temos que nos ater às coisas do pensar cotidia- no para não enveredarmos pelo caminho errado, onde se tem a impressão de que teríamos que descrever as últimas sutilezas que

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nós, por nossa vez, não poderíamos descrever com nossos meios. Acontece conosco como se devêssemos refazer com nossos dedos uma teia de aranha destruída.

107. Quanto mais precisamente considerarmos a linguagem real, tanto mais forte se toma o conflito entre ela e a nossa exigência. (A pureza cristalina da lógica não se deu a mim como resultado; ela era, sim, uma exigência.) O conflito toma-se insustentável. A exigência corre o risco de se converter em algo vazio.-Entramos por um terreno escorregadio, onde falta o atrito, portanto, onde as condições, em certo sentido, são ideais, mas nós, justamente por isso, também não somos capazes de andar. Queremos andar. Então precisamos do atrito. De volta ao chão áspero!

108. Reconhecemos que o que chamamos "proposição", "linguagem", não é a unidade formal imaginada por mim, mas

a

família de estruturas mais ou menos aparentados entre si.-Mas

o

que será então da lógica? Seu rigor parece aqui desfazer-se.-

Mas com isso ela não desaparece por completo?-Como é que pode a lógica perder o seu rigor? Naturalmente, não pelo fato de abatermos um pouco do seu rigor.-0 preconceito de pureza cristalina só pode ser eliminado dando uma guinada em nossa reflexão. (Poder-se-ia dizer: é preciso dar uma guinada em nossa reflexão, mas em volta de nossa verdadeira necessidade como ponto axial.) A filosofia da lógica não fala de proposições e de palavras em sentido diferente do que o fazemos no dia-a-dia, quando dizemos, p. ex., "aqui está escrita uma frase em chinês", ou "não, isto apenas se parece com caracteres, mas é um ornamento" etc.

Falamos do fenômeno espacial e do fenômeno temporal da linguagem; não de um disparate a-espacial e a-temporal. [Nota

à margem. Só que se pode interessar por um fenômeno de modo

Faraday, The Chemical History of a Candle: Water is one individual thing-it never changes.

70

diferente.] Mas falamos dela, assim como falamos das figuras do jogo de xadrez, ao indicarmos regras de jogo para elas e não ao descrevermos suas características físicas . A pergunta "O que é, propriamente, uma palavra?" é análoga à pergunta "O que é uma figura de xadrez?"

109. Certo era que nossas reflexões não podiam ser refle-

xões científicas. A experiência de 'que se pode pensar isto ou aquilo em oposição a nosso preconceito' - não importa o que isto significa-não nos podia interessar. (A concepção pneumática

do pensar.) E não nos é permitido levantar qualquer teoria. Não

é permitido haver nada de hipotético em nossas reflexões. Toda explicação tem que sair e em seu lugar entrar apenas descrição.

E esta descrição recebe sua luz, isto é, seu objetivo, dos proble-

mas filosóficos. Estes, sem dúvida, não são empíricos, mas são resolvidos por um exame do funcionamento de nossa linguagem, ou seja, de modo que este seja reconhecido: em oposição a uma tendência de compreendê-lo mal. Estes problemas não são solucionados pelo ensino de uma nova experiência, mas pela combinação do que de há muito já se conhece. A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso intelecto pelos meios de nossa linguagem.

110. "A linguagem (ou o pensar) é algo singular"-isto se revela como uma superstição (não um erro!), provocada ela mesma por ilusões gramaticais. E é sobre estas ilusões, sobre estes problemas, que recai o pathos.

111. Os problemas, que surgem através de uma má inter-

pretação de nossas formas de linguagem, têm o caráter de profund idad e. Trata-se de inquietações profundas. Elas estão arraigadas em nós tão profundamente quanto as formas de nossa linguagem, e seu significado é tão grande quanto a importância de nossa linguagem.-Perguntemo-nos: Por que sentimos que um chiste gramatical é profundo? (E esta é a profundidade filos ófica .)

71

112. Um símile, que é absmvido nas formas da nossa

linguagem, provoca uma falsa aparência. Esta nos inquieta: "Não

é assim!"- dizemos. "Mas tem que ser ass im!"

113. de fato assim- " digo sempre de novo para mim

mesmo. Sinto que, se eu fosse capaz de ajustar o meu olhar com

toda precisão neste fato e conseguisse pô-lo em foco, eu teria que apreender a essência da coisa.

114. Tratado Lógico-Filosófico 4 .5: "A forma geral da

proposição é: as coisas estão assim e assim" .-Esta é uma proposição da espécie que se repete inúmeras vezes. Acredita-se estar indo sempre de novo atrás da natureza, e vai-se apenas ao longo da forma pela qual nós a contemplamos.

115. Uma imagem mantinha-nos prisioneiros. E não podía- mos escapar, pois ela residia em nossa linguagem, e esta parecia repeti-la para nós, inexoravelmente.

116J Quando os filósofos usam uma palavra-"saber", "ser", "objetó< "eu", "proposição", "nome"-e almejam apreender a essência da coisa, devem sempre se perguntar: esta palavra é realmente sempre usada assim na linguagem na qual tem o seu torrão natal?-

Nós conduzimos as palavras do seu emprego metafísico de volta ao seu emprego cotidiano.

117. Alguém me diz: "Você entende esta expressão? Ora,- também eu a uso no significado que você conhece." -Como se o significado fosse uma penumbra que acompanha a palavra e é transferida para todos os seus empregos. Se alguém, por exemplo, diz que a proposição "Isto está aqui" (apontando para um objeto diante de si) tem sentido para ele, então ele poderia perguntar-se, em que condições específi- cas se emprega realmente esta proposição. Nestas é que ela tem sentido.

72

118. Donde tira a reflexão sua importância, uma vez que

ela parece apenas destruir tudo que é interessante, isto é, tudo que é grande e importante? (Por assim dizer, todos os edifícios,

deixando sobrar apenas blocos de pedra e entulho.) Mas o que

destruímos, não passa de castelos no ar, e pomos a descoberto

o fundamento da linguagem sobre o qual eles estavam.

119. Os resultados da filosofia são a descoberta de um

absurdo simples qualquer e as mossas que o intelecto arranjou ao bater contra o limite da linguagem. Elas, as mossas, fazem-nos

reconhecer o valor daquela descoberta.

120. Quando falo sobre linguagem (palavra, propostçao,

etc.), tenho que falar a linguagem do dia-a-dia. É esta linguagem, porventura, muito grosseira, material, para o que desejamos dizer? E como é que se forma uma outra?-E como é estranho que ainda possamos fazer alguma coisa com a nossa!

O fato de eu, nas minhas explicações que tangem a lingua- gem, ter que empregar a linguagem plena (não uma linguagem preparatória, provisória), já mostra que acerca da linguagem só posso aduzir exterioridades. Sim, mas então como podem satisfazer-nos estas explana- ções?- Ora, as suas perguntas também já estavam formuladas nesta linguagem; elas tinham que ser expressas nesta linguagem quando havia algo para perguntar! E os teus escrúpulos são mal-entendidos. As tuas perguntas referem-se a palavras ; deste modo, tenho que falar de palavras. Diz-se: O que importa não é a palavra mas o seu significado;

e pensa-se no significado como se pensa numa coisa do gênero

da palavra, se bem que diferente da palavra. Aqui está a palavra,

· e a vaca, que com ele se pode

comprar. (Mas, por outro lado: o dmneiro e sua utilização.)

aqui o significado Q_çlinh

121. Poder-se-ia pensar: se a filosofia fala acerca do uso da

palavra "filosofia" , teria que haver então uma filosofia de segunda

/

73

ordem. Mas não é assim; este caso corresponde, antes, ao caso da ortografia , que tem a ver também com a palavra "ortografia ", mas nem por isso é de segunda ordem:

122. Uma das principais fontes de nossa falta de compreen-

são é que não dominamos com uma clara visão o uso de nossas palavras.- Falta à nossa gramática uma disposição clara. Uma exposição de conjunto transmite a compreensão, que consiste

exatamente em "ver conexões ". Daí a importância de se achar

e de se inventar conectivos. O conceito de exposição de conjunto tem para nós um

significado fundamental. Ele designa nossa forma de exposição,

a maneira de vermos as

uma "visão do mundo "?)

coisas. isto

123. Um problema filosófico tem a forma: "Não estou por

dentro. "

~ ~ Afilosofia não deve, de forma alguma, tocar o uso real da lih gr[a'gem; o que pode , enfim , é apenas descrevê-lo . Pois ela também não pode fundamentá-lo . Ela deixa tudo como é. Ela deixa também a matemática como é, e nenhuma desco- berta matemática pode fazê-la avançar. Um "problema prepon- derante da lógica matemática" é para nós um problema da matemática como qualquer outro.

125. Não é tarefa da filosofia solucionar a contradição por

meio de uma descoberta matemática, lógico-matemática. Mas tomar visível em seu conjunto a situação da matemática que nos inquieta , o estado antes da solução da contradição . (E com isso não se esquiva de uma dificuldade.)

O fato fundamental é aqui: fixamos regras, uma técnica, para um jogo, e então, ao seguirmos as regras, as coisas não funcionam tão bem como havíamos suposto; portanto, nós nos enleamos, por assim dizer, em nossas próprias regras.

74

Este enlear-se nas próprias regras é o que queremos enten- der, i. é, queremos abarcá-lo com a vista. Ele lança uma luz em nosso conceito de ter-em-mente. Pois ele é, naqueles casos, diferente do que tínhamos em mente e tínhamos previsto. Quando surge a contradição, dizemos, por ex. : "Não foi assim que o tive em mente."

O estad o civil da co ntradição , ou o seu estado no mundo

civil: este é o problema filosófico .

126 . A filosofia de fato simplesmente expõe tudo e não esclarece, nem deduz nada .-Uma vez que tudo se encontra em aberto , não há também nada para esclarecer. Pois , o que porventura está oculto, não nos interessa. Poder-se-ia chamar também "filosofia" o que é possível antes de todas as novas descobertas e invenções .

127 . O trabalho do filósofo é compilar uma determinada finalidade.

recordações para

128. Se, por acaso, se quisesse levantar teses em filosofia , jamais se poderia chegar a discuti-las , porque todos estariam de acordo com elas .

129. Os aspectos das coisas que consideramos ser os mais importantes estão ocultos por sua simplicidade e trivialidade. (Não se é capaz de notar isto,-porque o temos sempre diante dos olhos.) Os fundamentos reais de sua investigação não chamam a atenção do homem. A não ser que isto lhe tenha chamado a atenção alguma vez.-E isto quer dizer: aquilo que, uma vez visto, se constitui em o mais surpreendente e o mais forte , não nos chama a atenção .

130. Nossos jogos de linguagem claros e simples não são estudos preparatórios para uma regulamentação futura da lin- guagem,- não são, por assim dizer, aproximações preliminares, sem levar em conta o atrito e a resistência do ar. Os jogos de

75

linguagem estão aí muito mais como objetos de comparação , os quais, por semelhança e dissemelhança, devem lançar luz nas relações de nossa linguagem.

131. Seremos capazes de escapar da injustiça ou do vazio

de nossas asserções, somente na medida em que considerarmos o modelo como aquilo que é, como objeto de comparação-por

assim dizer, como medida; e não como preconceito ao qual a realidade tem que corresponder. (0 dogmatismo, em que caí- mos tão facilmente ao filosofar.)

132. Queremos construir uma ordem no nosso conhecimen-

to do uso da linguagem: uma ordem para uma finalidade determinada; uma das muitas ordens possíveis; não a ordem. Para esta finalidade , iremos sempre de novo realçar diferencia- ções que as nossas formas habituais de linguagem facilmente deixam passar. Daí pode parecer que consideramos ser nossa tarefa reformar a linguagem.

Uma tal reforma para determinadas finalidades práticas, para o melhoramento de nossa terminologia para evitar mal-en- tendidos no uso prático, é perfeitamente possível. Mas não são estes os casos com os quais temos que lidar . As confusões que nos dão o que fazer originam-se, por assim dizer, quando a linguagem está em ponto morto, não quando ela trabalha.

133. Não queremos aprimorar ou completar o sistema de

regras para o emprego de nossas palavras de maneira exorbi- tante.

Pois a clareza a que aspiramos é, todavia, uma clareza

completa . Mas isto significa apenas que os problemas

devem desaparecer completamente. A descoberta real é a que me torna capaz de deixar de filosofar quando eu quiser.-A descoberta que aquieta a filosofia, de tal modo que ela não seja mais açoitada por questões que coloquem a ela mesma em questão.-Mas vai-se mostrar agora um método à mão de exemplos, e pode-se interromper a série

filosóficos

76

desses exemplos.-P roblemas são solucionados (dificuldades eli- minadas), não um problema.

método em filosofia, o que existe são

métodos, por assim dizer, diferentes terapias.

Não existe

um

134. Olhemos com atenção a proposição: "A coisas estão assim e assim"-como posso dizer que esta é a forma geral da proposição?-Antes de tudo, esta é uma proposição por si mesma, uma frase em português, porque tem sujeito e predica- do. Mas como se emprega esta proposição-a saber, na nossa linguagem cotidiana? Pois só posso tê-la tirado daí. Dizemos, p. ex.: "Ele explicou-me a sua situação , disse que

as coisas estão assim e assim, e por isso ele precisa de um adiantamento." Neste ponto, pode-se dizer, portanto, que aquela proposição substituiria qualquer asserção. Ela é empregada como esquema proposicional; mas isto somente porque ela

invés dela,

possui a estrutura de uma

poder-se-ia dizer também, sem problemas: "Isto e aquilo é o caso" ou "as coisas se encontram assim e assim ", etc . Poder-se-ia também usar, como na lógica simbólica, apenas uma letra, uma variável. Mas ninguém irá chamar a letra "p" de forma geral de uma proposição . Como foi dito : "As coisas se encontram assim

e assim" era-o somente por ser ela mesma o que se chama de uma frase em português. Mas, apesar de ser uma proposição, só tem aplicação como variável. Dizer que esta proposição está de acordo com a realidade (ou não está de acordo), seria uma absurdo manifesto, e ela ilustra o fato de o som da proposição ser um sinal característico de nosso conceito de proposição.

frase em português . Ao

135. Mas não temos um conceito do que é uma proposição, do que entendemos por "proposição "?-Sim, temos ; uma vez que temos também um conceito do que entendemos por "jogo". Se nos perguntarem o que é uma proposição-não importa se devemos dar uma resposta a outrem ou a nós mesmos-iremos indicar exemplos e, dentre eles, o que se pode chamar de séries indutivas de proposições; ora, deste modo temos um conceito de proposição. (Compare o conceito de proposição com o conceito de número.)

77

136. A indicação de "As coisas estão assim e assim" como

forma geral da proposição é, no fundo, a mesma coisa que a explicação: uma proposição é tudo o que pode ser verdadeiro

ou falso . Pois, ao

também: "Isto e aquilo é verdadeiro ". (Mas também: "Isto e aquilo é falso" .) Mas, então

" eu poderia ter dito

invés de "As coisas estão

'p' é verdadeiro = p

'p' é falso

= não-p.

E dizer que uma proposição é tudo o que pode ser verdadeiro ou falso, dá no mesmo: chamamos de proposição aquilo a que, na nossa linguag~m, aplicamos o cálculo de funções da verdade. Aparentemente, é como se a explicação-proposição é tudo o que pode ser verdadeiro ou falso-determinasse o que uma proposição é, ao dizer: o que se encaixa no conceito 'verdadeiro ' , ou em que o conceito 'verdadeiro' se encaixa, é uma proposição. Portanto, é como se tivéssemos um conceito de verdadeiro e de falso, com o auxilio do qual podemos determinar então o que é uma proposição e o que não é uma proposição. O que engrena no conceito (como na roda dentada}, é uma proposição. Mas esta é uma imagem ruim. É como se alguém dissesse "O rei no xadrez é a figura à qual se pode anunciar o xeque". "Mas isto só pode significar que no nosso jogo de xadrez só podemos dar xeque ao rei. Assim como a proposição de que somente uma proposição pode ser verdadeira, só pode dizer que nós atribuímos os predicados "verdadeiro" e "falso" ao que chamamos de proposição. E o que é uma proposição é, num sentido, determinado pelas regras da sua construção (em portu- guês, p. ex.), num outro sentido, pelo uso dos signos no jogo de linguagem. E o uso das palavras "verdadeiro" e "falso" pode ser também um componente deste jogo; e então, ao nosso ver, pertence à proposição, mas não 'se encaixa' nela. Como podemos dizer também que dar xeque pertence ao nosso conceito de rei no xadrez (por assim dizer, como componente do mesmo) . Dizer que dar xeque não se encaixa no nosso conceito de peão, significaria que um jogo, no qual se dá xeque ao peão, no qual talvez perca aquele que perde seus peões,-que um tal jogo seria desinteressante, ou estúpido, ou complicado demais, ou coisas do gênero.

78

137. Como é, pois, quando aprendemos a determinar 0

sujeito na proposição pela pergunta "Quem ou o que

há um 'encaixar-se' do sujeito nesta pergunta; de outro modo, como viríamos a saber, pela pergunta, o que é o sujeito? Nós viemos a sabê~lo do mesmo modo como viemos a saber qual letra do alfabeto vem depois de 'K', ao recitarmos o alfabeto até 'K'. Até que ponto o 'L' se encaixa naquela série de letras?-E neste ponto poder-se-ia ensinar uma criança a distinguir propo- sições de outras expressões, dizendo-lhes: "Pergunte-se se em seguida você pode dizer 'é verdadeiro'. Se estas palavras se encaixam, então é uma proposição." (E do mesmo modo teríamos podido dizer: Pergunte-se se antes você pode colocar

?"-Aqui

as palavras "As coisas estão assim".)

138. Mas não pode o significado de uma palavra que eu

entendo encaixar-se no sentido da proposição que eu entendo? Ou o significado de uma palavra no significado de uma outra?- Sem dúvida, se o significado é o uso que fazemos da palavra, então não tem sentido falar de um tal "encaixar-se". Ora, compreendemos o significado de uma palavra quando a ouvi- mos ou quando a proferimos; aprendemo-la de um golpe só; e o que aprendemos deste modo é algo diferente do 'uso' que se

estende no tempo!

139. Quando alguém diz, p. ex., a palavra "cubo", sei então

o que ela significa. Mas pode me pairar no espírito todo o emprego da palavra quando a entendo assim? Sim, mas o significado da palavra não é, por outro lado, determinado também por este emprego? E podem contradizer- se estas determinações? Aquilo que entendemos de um golpe pode estar em contradição com um emprego, pode encaixar- se nele e pode não se encaixar nele? E como pode encaixar-se

Tenho de saber se entendo uma palavra? Não acontece também que eu imagino entender uma palavra (o que não é diferente de entender uma espécie de cálculo) e acontece depois que eu não a entendi? ("Eu acreditava saber o que quer dizer movimento 'relativo' e 'absoluto', mas vejo que não sei.")

79

num emprego aquilo que nos é presente num momento, que nos paira no espírito num momento?

O que é que nos passa pela mente, propriamente, quando

entendemos uma palavra?-Não é algo assim como uma ima-

gem? Não pode ser uma imagem?

Bem , suponha que, ao ouvir a palavra "cubo ", paire-lhe no espírito uma imagem. Talvez o desenho de um cubo. Até que ponto esta imagem pode se encaixar num emprego da palavra "cubo" ou não?-Talvez você diga: "Isto é simples;-quando esta imagem me paira no espírito e aponto, p. ex. , para um prisma triangular e digo que aquilo é um cubo, então esse emprego não se encaixa na imagem. " Mas ela não se ajusta? Escolhi, de propósito, um exemplo que tome b~m fácil representar-se um método de projeção mediante o qual a imagem seguramente se encaixa.

todavia , um certo emprego,

mas eu podia também empregá-la de outro modo.

A imagem do cubo ins inuou,

." Não

mostra isto que o significado da palavra é algo que nos paira no

espírito e que é, por assim dizer, a imagem exata que queremos usar aqui? Imagine que eu escolhesse entre as palavras "impo-

se

escolhesse entre desenhos em uma pasta?- Não; o fato de se falar de palavra acertada não mostra a existência de algo que, etc. Estamos muito mais inclinados a falar de algo figurativo, porque pode-se sentir uma palavra como acertada; porque freqüentemente se escolhe entre palavras como se escolhe entre imagens semelhantes mas não iguais; porque freqüentemente se usa imagens ao invés de palavras, ou para ilustração de palavras;

etc.

nente ", "honrado", "orgulhoso", "respeitável"; não é como

(a) "Acredito que a palavra correta neste caso é

(b) Vejo uma imagem: ela representa um velho homem subindo um íngreme caminho apoiado num bastão.-E como é isto? Não podia também ter o mesmo aspecto, se ele deslizasse estrada abaixo nesta posição? Um habitante de marte talvez descreveria a imagem desta mesma maneira. Não preciso expli- car por que nós não a descrevemos assim.

80

140. Mas, de que espécie foi o meu erro então? Foi o que

se poderia expressar assim: eu teria acreditado que a imagem

me obriga agora a um determinado emprego? Como pude acreditar nisso? Em que foi que acreditei? Existe uma imagem , ou algo semelhante a uma imagem, que nos obriga a um determinado emprego, e foi o meu erro, portanto, uma equivo- cação?-Porque poderíamos estar inclinados a nos expressarmos também assim: estamos, no máximo, sob uma pressão psicoló- gica, mas não sob uma pressão lógica. E de fato parece perfei- tamente que conhecemos dois tipos de casos.

O que fez o meu argumento? Chamou a atenção para o fato

(lembrou-nos) de que possivelmente estaríamos prontos a cha- mar um outro processo de "emprego da imagem do cubo", e não apenas aquele em que havíamos pensado, originariamente.

O nosso 'Creio que a imagem nos obriga a um determinado

emprego' consistia, portanto, em que nos ocorreu apenas um caso e nenhum outro. "Existe também uma outra solução" quer dizer: existe também uma outra coisa que estou pronto a chamar de "solução"; à qual estou pronto a empregar esta e aquela imagem, esta e aquela analogia, etc. E o essencial agora é vermos que, ao ouvirmos a palavra, paira-nos no espírito a mesma coisa, e que o seu emprego pode ser um outro. E tem então o mesmo significado em ambas as vezes? Creio que nossa resposta será não! 141. Mas como, se não nos paira no nosso espírito, sim- plesmente, a imagem do cubo, mas junto com ela também o método de projeção?-Como imaginar isto?-Imaginando talvez ver diante de mim um esquema da espécie de projeção. Uma imagem que mostre talvez dois cubos ligados um ao outro pelos raios de projeção.-Mas isto me leva a avançar substancialmente? Não posso também imaginar agora diferentes empregos deste esquema?-Sim, mas um emprego não me pode pairar no espírito?-Certamente ; só que temos que tomar mais claro nosso emprego desta expressão. Suponha que eu demonstre para alguém diversos métodos de projeção para que ele os aplique em seguida; e perguntemo-nos, em qual caso iremos dizer que lhe paira no espírito o método de projeção que eu tenho em mente.

81

Para isto reconhecemos, evidentemente, dois tipos de crité-

rio : Por um lado , a imagem (não importa de que espécie seja) ,

que lhe paira no espírito em qualquer época; por outro lado, o emprego que ele-no decorrer do tempo-faz dessa repre- sentação. (E não está claro aqui que é inteiramente acidental que esta imagem paire na sua fantasia , e não que esteja diante dele como um desenho ou como modelo; ou também que seja

fabricada por ele como modelo?) Entre imagem e emprego, pode haver colisão? Bem, elas podem entrar em conflito desde que a imagem nos faça esperar por um outro emprego . É que os homens, em geral, fazem este emprego desta imagem . Quero dizer: há aqui um caso normal e caso anormais.

142. Somente em casos normais nos é traçado claramente o uso das palavras; sabemos, não temos dúvida do que temos que dizer neste e naquele caso. Quanto mais anormal é o caso, tanto mais duvidoso se torna o que devemos dizer. E se as coisas fossem bem diferente do modo como realmente são-então não haveria, p. ex. , uma expressão característica de dor, de medo, de alegria; a regra converter-se-ia em exceção , e a exceção em regra; e se ambos os fenômenos fossem de uma freqüência mais ou menos semelhante- com isso nossos jogos de linguagem normais perderiam a sua graça.- 0 procedimento de colocar um pedaço de queijo sobre a balança e de determinar o preço mediante a oscilação da balança perderia sua graça, caso acon- tecesse mais freqüentemente que tais pedaços, de repente, aumentassem de tamanho ou encolhessem sem causa manifesta. Esta observação tornar-se-á mais clara se falarmos sobre coisas como a relação da expressão para com o sentimento, e coisas semelhantes.

143. Olhemos agora com atenção a seguinte espécie de jogo de linguagem: por ordem de A, deve B escrever séries de signos de acordo com uma determinada lei de formação.

82

A primeira destas séries deve ser a dos números naturais no

sistema decimal. -Como é que alguém

sistema?- Primeiramente, são-lhe escritas séries de números, e ele é exortado a copiá-las. (Se a palavra "série de números" não

aprende a entender este

o

incomoda, então ela não está empregada aqui incorretamente!)

E

já aqui há uma reação normal e uma reação anormal do

aprendiz.- Talvez comecemos por conduzir sua mão ao copiar a série de O a 9 .; mas, depois, a possibilidade de entendimento vai depender de que ele continue a escrever por si mesmo .-E aqui podemos imaginar, p. ex. , que ele até copie algarismos por

si mesmo, porém, não na seqüência , mas uma vez este, outra

vez aquele, fora de ordem. E aí então cessa o entendimento.- Ou ele comete "erros" na seqüência.-A diferença entre este e o

primeiro caso é, naturalmente, uma diferença de freqüência .-Ele

comete um erro sistemático , sempre copia, p.

de cada dois números ; ou ele copia a série O, 1, 2, 3, 4, 5,

Quase seremos tentados a dizer que

assim : 1, O, 3, 2, 5, 4 ,

ex ., apenas um

ele nos entendeu incorretamente. Mas, note: não há um limite nítido entre um erro desorde-

nado e um erro sistemático . Isto é, entre aquilo que você tende

a chamar de "erro desordenado" e aquilo que tende a chamar de "erro sistemático". Pode-se desacostumar alguém talvez do erro sistemático (como de um mau costume). Ou aceita-se o seu jeito de copiar

e procura-se ensinar-lhe o jeito normal como uma variante, uma variação, do seu.-E aqui também pode cessar a capacidade de aprendizagem do aluno .

144. O que é que tenho em mente quando digo "aqui pode cessar a capacidade de aprendizagem do aluno"? Transmito isto

a partir da minha experiência? Naturalmente que não. (Mesmo

que tivesse feito uma tal experiência.) E o que faço com aquela

O que temos a dizer para explicar o significado, quero dizer,

a importância do conceito, são, freqüentemente, fatos naturais

extraordinariamente triviais. São os tais que, por causa de sua grande trivialidade, mal são mencionados.

83

proposição? Gostaria que você dissesse: "Sim, é verdade, po- der-se-ia imaginar isto também , isto poderia acontecer também! " - Eu queria chamar a atenção de alguém para o fato de que ele está em condições de representar-se isto?-Eu queria colocar esta imagem diante de seus olhos, e seu reconhecimento desta imagem consiste em que ele agora está inclinado a considerar um caso dado de outra maneira: ou seja, a compará-lo com esta série de imagens. Modifiquei o seu modo de ver. (Dizem os matemáticos indianos: "Veja isto! ")

145. O aluno escreve agora a série de O a 9, para nossa satisfação.-E isto só será o caso se ele conseguir fazê-lo com freqüência , e não, se acertar uma em cem tentativas. Continuo conduzindo-o agora na série e dirijo sua atenção para o retomo da primeira série nas unidades; a seguir, para este retomo nas dezenas. (0 que nada mais significa senão que eu emprego certos acentos, sublinho signos, escrevo um debaixo do outro desta e daquela maneira, e coisas do gênero.) E agora ele continua a

continua .-Mas, por que você diz

isto? Isto é evidente!-É claro; eu queria dizer apenas: o efeito de

série por si mesmo,-ou não

qualquer explicação ulterior depende de sua reação. Suponhamos, porém, que ele, após alguns esforços do professor, continue a série corretamente, isto é, do modo como nós o fazemos . Então podemos dizer: ele domina o sistema.-Mas até que distância ele tem que continuar a série corretamente para podermos dizer isto com razão? É evidente: aqui você não pode indicar nenhum limite.

146. Se pergunto agora: "Entendeu ele o sistema se conti- nua a série até o centésimo lugar?" Ou- caso eu não deva falar de "compreensão" em nosso jogo de linguagem primitivo: Está ele de posse do sistema se continua a série até corretamen- te?- Talvez você dirá: Possuir (ou mesmo entender) o sistema não pode consistir no fato de se continuar a série até este ou até aquele número; isto é apenas a aplicação da compreensão. A compreensão mesma é um estado do qual emerge o correto emprego.

84

E em que é que se está pensando realmente aqui? . N-

ao se

sua

u, de fato , em algo análogo?-Mas já

e stJ _vemos por a1 .~ma_ vez . Ev identemente , podemos imaginar ma1s de uma aphcaçao de uma expressão algébrica· embo cada tipo de aplicação, por sua vez, possa ser f~rmulal~

alg:bri~amente, isto não nos faz avançar, evidentemente.-A aphcaçao permanece um critério da compreensão.

d

,

t

es a

pensan o 'b na

_

1

? derivação de uma série a

0

partir d

e

ex~ressao age ~ca.

147. "Mas como ela pode ser isto? Se eu digo que com-

preendo a lei de uma série, não o digo baseado na experiência

de que eu, até agora, tenha empregado a expressão algébrica deste e daquele modo! Em todo caso, sei por mim mesmo que tenho em mente esta e aquela série; não importa até que ponto eu a desenvolvi realmente. "-

sabe a aplicação da lei

da sen:, n:_esmo ~bstraindo-se totalmente de uma recordação ~as_aphcaçoes rea1s a determinados números. E você dirá talvez:

~~cê quer dizer, portanto , que você

Evidentemente! pois a série é infinita, enquanto que o fragmen-

to de série, que pude

desenvolver, finito ."

148. Mas em que consiste este saber? Permita-me pergun-

tar: quando é que você sabe esta aplicação? Sempre? Dia e noite? Ou somente enquanto você está pensando na lei da série? Quer dizer: Você a sabe, como sabe também o ABC e 0

um-mais-um? ou você chama 'saber' a um estado da consciência o~ um processo-p . ex . , um pensar-em-algo , ou coisas do genero?

149. Quando se diz que saber o ABC é um estado da alma

pensa-se assim no estado de um aparelho psíquico (p . ex . , d~ nosso cérebro), por meio do qual elucidamos as exteriorizações ?este saber. Um tal estado chama-se disposição . Mas não é Incontestável falar aqui de um estado da alma, conquanto deveria haver dois critérios para o estado; a saber: um conhecimento da construção do aparelho, independentemente dos seus efeitos. (Nada seria mais desconcertante aqui do que o uso das palavras

85

"consciente" e "inconsciente" para ?esignar o contraste entre estados de consciência e disposição. E que aquelas duas palavras ocultam uma diferença gramatical.)

150

É evidente que a gramática da palavra "saber" goza de

u

d

~o er

,

,

"

er

s

compreen-

estreito parentesco com a gramática das palavras capaz". Mas também com a gramática da palavra der". ('Dominar' uma técnica.)

151

.

Mas há também este emprego da palavra "saber":

I''

dizemos "Agora sei! "-e , igualmente, "Agora sou capaz. e "Agora compreendo!" Imaginemos o seguinte exemplo: A anota série.s de nú~:ro:; B fica observando-o com o intuito de achar uma le1 na sequencm dos números. Tendo conseguido, grita: "Agora sou capaz de continuar!" - Esta capacidade, esta compreensão é, algo que se dá num instante . Verifiquemos então: O que .e que se dá aqui? - A escreveu os números 1, 5 , 11, 19 , 29; B d1z que sabe continuar. O que aconteceu? Pode ter acontec~dodivers~s coisas; p . ex.: enquanto A coloca lentament~ um nu~ero apos 0 outro, B está atarefado em experimentar d!Versas formulas

port~nto,

(a) " Compreender uma pa l avra ", um es t a d o. M~s u~ :stado

psíquico? - Damos o nome de estados psí.quico~a afhçao: ao nervosismo, às dores . Faça a seguinte cons1deraçao gramatical:

Dizemos

"Ele esteve aflito o dia inteiro ."

"Ele esteve muito nervoso o dia inteiro."

, "Desde ontem ele está sentido dores , ininterruptamente. - Dizemos também "Compreendo esta palavra desde ontem". Mas "ininterruptamente"?-Sim, pode-se falar de uma interrupção da compreensão. No entanto, em que casos? Compare: "Quando cederam as suas dores?" e "Quando você cessou de compreen-

,

, (b} Como seria, se alguém perguntasse: Quando e que v~ce sabe jogar xadrez? Sempre? ou enquanto faz um lance .

der a palavra?"

E

durante cada lance, todo o xadrez?-E como é estranho ~ue saber-jogar-xadrez necessite de tempo tão curto, e uma part1da,

de tempo muito mais longo.

86

algébricas nos números anotados. Assim que A escreveu 0 número 19, B experimentou a fórmula an = n 2 + n - 1; e o próximo número confirmou a sua suposição. Ou então: B não pensa em fórmulas. Ele fica observando, com um certo sentimento de tensão, como A escreve os seus números; ao mesmo tempo, flutua na sua cabeça toda sorte de pensamentos vagos. Por fim, ele se pergunta: "Qual é a série de diferenças?" Ele acha: 4 , 6, 8 , 10 e diz: Agora sou capaz de continuar.

a conti- 1, 3 , 5,

7, 9.-Ou ele não diz absolutamente nada e continua escrevendo

nua; como teria feito , p. ex., se A tivesse escrito a série

Ou olha bem e diz: "Sim , conheço esta série"

-e

a série simplesmente. Ele teve talvez uma sensação, que se pode chamar de "isto é fácil! " (Uma tal sensação é , p . ex ., a

sensação de inspirar o ar, leve e rapidamente, depois de um leve susto.}

152. Mas esses processos que acabei de descrever, são eles

a compreensão?

"B compreende o sistema de série" não significa simplesmente:

Ocorre

aBa fórmula "an =

."!Pois é perfeitamente concebível

que lhe

ocorra a fórm ul a, e mesmo assim não

compreenda. "Ele

compreende" tem que ter um conteúdo maior do que: ocorre-lhe

a fórmula. E igualmente maior também do que qualquer um

daqueles processos concomitantes mais ou menos característi- cos, ou exteriorizações, da compreensão .

153. Estamos tentando apreender agora o processo psíqui-

co da compreensão que, ao que parece, esconde-se por detrás daqueles fenômenos concomitantes mais rudimentares e que por isso nos chamam a atenção. Mas isto não dá resultado. Ou dizendo mais corretamente: não se chega, absolutamente, a uma

tentativa real. Pois, mesmo supondo que eu tenha encontrado algo que ocorrera em todos aqueles casos de compreensão,-por

que isto deveria ser a compreensão? Sim, como é que o processo da compreensão pode estar escondido, se eu de fato disse

E se digo que ele

"Agora compreendo" , porque compreendi?!

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está escondido,-como sei, pois, o que tenho que procurar? Estou confuso.

154. Alto lá!-se "agora compreendo o sistema:·, não, diz a

"prohro a formu- " ora

"anoto-a"

",ou "agora sou capaz de continuar", como descn-

de

mesma coisa que "ocorre-me a ormu a

I

f ,

1

" (

ou

etc.)-segue-se daí que emprego a frase

que estar

1

d

d

,

a

,

ag

50

.

d

compreen o , ção de um processo que existe atrás ou ao a o o proces

articulação da fórmula?

. trata-se então de certas circunstâncias que me JUshÍicam diZer

que sou capaz de continuar,-caso a fórmula

Tente uma vez não pensar na compreensão como 'processo

' I que este é o modo de falar que o confunde. Mas

d. emos

psiqUJco .

-

Se algo tem

'atrás da articulação . da . fórmula', .

me ocorra

,

.

t

A

pergun e-

Se

:

em que caso

'

em que circunstanc1as,

f,

1

IZ

"agora sei continuar"? quero dizer, quando a

ormu a me ocor

reu.-

No sentido em que há para característicos (também processos

não é um processo psíquico. (Diminuir e aumentar uma sensação de dor, melodia, ouvir uma frase: processos psíquicos.)

a compreensão processos psíquicos), a compreensão

ouvir uma

155. Eu queria dizer, portanto: Se ele ~o~be de repente

como continuar, se entendeu o sistema, qUJça ele teve um~ vivência especial -que talvez irá descrever se lhe perguntarmos. "Como foi, o que aconteceu, quando você de repente com~reen-

do mesmo modo como descrevemos acima-

, mas aquilo que para nós o justifica dizer, em tal cas?, ~ue e e compreende, que ele sabe continuar, são as circunstancras nas quais ele teve uma tal vivência.

d eu o s1s . t ema.

?"

1

156. Isto tomar-se-á mais claro, se inserirm~s ~' refl~xã~

acerca de uma outra palavra, a saber: da palavra

ramente, devo observar que, nesta reflexão, não incluo em

ler . Pn~ei~

er

88

a compreensão do sentido do que se lê; mas ler é aqui a atividade

de transformar o que está escrito e impresso em som , de escrever

um ditado, copiar algo impresso, de tocar lendo a partitura , e coisas do gênero.

O uso desta palavra em meio às circunstâncias de nossa vida

habitual é-nos , naturalmente , muito bem conhecido. No entanto ,

o papel que a palavra desempenha em nossa vida e, com ele, o

jogo de linguagem no qual a empregamos, seria difícil de apresentar, mesmo que em traços rudimentares. Uma pessoa, digamos, um brasileiro, passou na escola ou em casa por um dos tipos costumeiros de ensino, e nesta aula aprendeu a ler sua língua materna. Mais tarde , ele lê livros, lê cartas , lê o jornal e outras coisas.

ex. , o jomal?-Seus

olhos deslizam-como dizemos-pelas palavras impressas , ele as pronuncia-ou as diz apenas aos seus botões; ou seja, diz certas palavras ao compreender sua forma de impressão como um todo; diz outras, depois que seus olhos captaram as primeiras sílabas; algumas outras, lê sílaba por sílaba , e uma e outra, talvez, letra por letra .-Diríamos também que ele leu uma frase quando, enquanto lê , nem fala alto nem fala para si mesmo , mas , em

seguida, está em condições de reproduzir a frase literalmente ou de maneira aproximada.-Ele pode prestar atenção ao que lê , ou também - como poderíamos dizer-funcionar como mera máqui- na de leitura, quero dizer, ler em voz alta e corretamente, sem prestar atenção ao que lê; talvez , enquanto sua atenção é dirigida para algo bem diferente (de tal sorte que ele não está em condições de dizer o que leu, quando é interrogado logo a seguir).

O que acontece então quando ele lê, p.

Compare então um principiante com este leitor. Ele lê as palavras, soletrando-as, penosamente.-Algumas palavras, no entanto, ele as adivinha pelo contexto; ou talvez já saiba o texto parcialmente de cor. O professor diz então que ele não as palavras realmente (e em certos casos , que apenas faz de conta que as lê).

Se pensarmos neste modo de ler, na leitura do principiante, e nos perguntarmos em que consiste ler, estaremos inclinados a dizer: ler é uma atividade especial consciente espiritual.

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"Somente ele sabe,

naturalmente, se lê realmente, ou se simplesmente diz as palavras de cor". necessário que se fale ainda dessas proposições

Dizemos acerca do aluno também:

"Somente ele sabe

". )

Mas quero dizer: Temos que admitir que-no que diz respeito a proferir qualquer uma das palavras impressas-no consciente do aluno que 'faz de conta' que a lê, pode passar-se a mesma

coisa que no consciente do leitor treinado que a lê. A palavra "ler" é empregada diferentemente quando falamos de princi-

piante e quando falamos de leitor treinado. -

dizer, é claro: o que se passa no leitor treinado e o que se passa no principiante quando proferem a palavra, não pode ser a

mesma coisa. E se não houver diferença naquilo de que precisa- mente estão conscientes, por certo, have-lo-á no funcionamento inconsciente do seu espírito; ou mesmo no cérebro.-Gostaria- mos de dizer, portanto: aqui há, em todo caso, dois mecanismos diferentes! E o que neles acontece, tem que distinguir ler de não-ler.- Mas estes mecanismos são apenas hipóteses; modelos para explicar, para sintetizar aquilo que você percebe.

Gostariamos de

157. Reflita no seguinte caso: seres humanos, ou outros seres, seriam usados por nós como máquinas de leitura. São treinados para esta finalidade. A pessoa que os treina diz de alguns, que já sabem ler, de outros, que não sabem ler ainda. Torne o caso de um aluno que ainda não tomou parte no treinamento: se lhe mostrarmos uma palavra escrita, às vezes produzirá alguns sons, e acontece aqui e ali, 'por acaso', que eles mais ou menos conferem. Um terceiro ouve este aluno em um tal caso e diz "Ele está lendo" . Mas o professor diz: "Não, ele não est;)lendo; foi apenas um acaso."-Suponhamos, no entan- to, que este gluno, caso lhe fossem apresentadas outras palavras, reagisse a elas sempre de modo correto. Depois de algum tempo, diz o professor: ''Agora ele sabe ler!" - Mas o que aconteceu com aquelª primeira