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DENISE FARIAS DA FONSECA

AVESSOS DE CIDADANIA: UM EXERCICIO ANALITICO

MESTRADO: PSICOLOGIA CLINICA

PUC – SÃO PAULO

1997

DENISE FARIAS DA FONSECA

AVESSOS DE CIDADANIA: UM EXERCICIO ANALITICO

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do titulo de MESTRE em Psicologia Clinica:

estudos e Pesquisa da Subjetividade, sob a orientação do Prof. Doutor Pater Pál Pelbart.

i

RESUMO

Este trabalho propõe pensar a noção de cidadania no âmbito da produção de subjetividades, ramificando-se em três direções. A primeira é um esforço para produzir uma análise da noção de cidadania no mundo moderno, voltada para as conexões entre elementos que compõem o ideário liberal europeu, suas relações com a constituição de uma subjetividade capitalística e conseqüentemente com os processos de produção da noção de cidadania enquanto um dos modos possíveis de produzir este tipo de subjetivação. A segunda direção vai percorrer alguns elementos de produção da noção de cidadania no Brasil, propondo uma análise desta produção a partir do confronto entre diferentes tipos de força em relação. Confronto de onde emergem tanto os sentidos e valores em conformidade com princípios de ordenação de uma suposta ‘matriz cidadã’ quanto as linhas ‘desobedientes’ que por este motivo sofreram, e ainda sofrem, inúmeros embaraços. A terceira e última direção, aberta para novas conexões, propõe ultrapassar a

dicotomia æ cidadania consentida X cidadania conquistada, sugerindo pensar a noção de cidadania produzida. Aponta para o engendramento de um tipo de ‘vontade-de-cidadania’ que se alastrou pelo corpo social brasileiro produzindo, sustentando e dissimulando os mesmos tipos de degeneração das condições de vida que tanto repelimos. Para problematizar alguns afeitos desta vontade, aponta para uma experimentação no campo da Ética visando a produção de outros modos de subjetivação possível, engendrados através de composições ético-políticas germinadas nos arredores da cidadania. Trata-se, em suma, de um exercício que visa por em análise alguns sentidos e valores que impregnam o nosso corpo æ sejam eles liberais, neoliberais ou

ii

qualquer similar æ fundado na diminuição da potência dos corpos e coextensivamente no enfraquecimento do corpo social.

AVESSOS DE CIDADANIA: UM EXERCÍCIO ANALÍTICO

INTRODUÇÃO

1

1. AVESSOS DE CIDADANIA NO MUNDO MODERNO

10

1.1 A Renúncia como Prova de Civilidade

13

1.2 O Consentimento como Sinal de Racionalidade e Garantia da Propriedade

 

20

1.3 A Perspectiva da Vontade Geral

27

1.4 Uma Nova Mecânica do Poder

32

1.5 Consumo e Controle

37

2.AVESSOS DO “AVESSO”: O EMBARAÇO DAS LINHAS DESOBEDIENTES

 

43

2.1 Quem inventa o Cidadão?

46

2.2 As Forças de Ordenação e de Higiene

.54

2.3 Forças do Desenvolvimento e da Segurança

61

2.4 A Imobilização do Corpo Social como Condição de “Estabilidade”

.75

3. EXERCÍCIO ANALÍTICO E TURBULÊNCIAS ÉTICO-POLÍTICAS

84

3.1 Cidadania e Processo de Subjetivação

86

3.2 A “Vontade-de-Cidadania” no Brasil

93

3.3 Uma Urgência Ético-Política

100

3.4 Qualidades e Estados do Cidadão

108

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

114

117

AVESSOS DE CIDADANIA: UM EXERCÍCIO ANALÍTICO

INTRODUÇÃO

“ Nós nos dirigimos aos inconscientes que protestam.

Buscamos aliados. Precisamos de aliados. E temos a impressão

de que esses aliados já existem, que eles não esperaram por nós, que tem muita gente que está farta, que pensa, sente e trabalha em direções análogas: não é questão de moda, mas de um “ar do tempo” mais profundo, em que pesquisas convergentes estão sendo realizadas em domínios muito ”

diversos

(Deleuze, 1992, p.34)

O Encontro com a Cidadania

Não estaríamos exagerando se disséssemos que a palavra cidadania é uma das mais

invocadas e aplicadas no atual momento brasileiro. Porém, poderíamos dizer, ao mesmo

tempo, ser a cidadania um conjunto de práticas pouco colocado em análise, tratada com

mais freqüência apenas como um direito inquestionável, restando-nos somente ou esforços

para sua aquisição ou o ressarcimento por não tê-la adquirido.

Nossa pretensão durante esse percurso às avessas será poder afirmar a noção de

cidadania como uma produção. Uma produção histórica, um conjunto de práticas, um modo

de subjetivação ao qual corresponderá o aparecimento de um tipo de corpo: o cidadão.

2

Propor uma análise da noção de cidadania no âmbito da subjetividade implica como ponto de partida tornar claro que estamos falando em desacordo com toda uma tradição filosófica e psicológica de pensar a subjetividade como relacionada a uma identidade individual, ou como uma espécie de entidade centrada no indivíduo. Trata-se, ao contrário, de pensar a subjetividade como um efeito da conexão entre um conjunto heterogêneo de sistemas de referência econômicos, políticos, tecnológicos bem como de sistemas afetivos, perceptivos, corporais, inconscientes etc. Tal perspectiva apresentada ao longo da obra de Félix Guattari é uma das principais inspirações desse exercício analítico, na medida em que passamos a entender o conjunto de práticas que aprendemos a conhecer pelo nome de cidadania, enquanto parte desse complexo de fabricação, reprodução e suporte de um tipo de subjetividade. Neste sentido, a noção de cidadania não pode ser pensada nem além, nem aquém, nem ao lado dos processos de produção de subjetividade, mas sim, como um modo de subjetivação. Uma maneira de produzir condições de vida coletiva, relações cotidianas, sensibilidades, vontades etc. Se a cidadania se apresenta para nós como uma produção, será necessário, durante o nosso percurso, nos desvencilharmos de possíveis armadilhas do senso comum, para tentarmos ir ao encontro de algumas forças que lhe emprestam sentido. Cabe então evocar a

idéia nietzscheana de que a história de alguma coisa é geralmente “

que dela se apodera e a coexistência das forças que lutam para dela se apoderar.” 1 Todo

sentido, neste caso, será inscrito em um jogo de forças que o condicionam e determinam sua direção, que tanto pode se ajustar como pode provocar rupturas nos processos de dominação e exploração do corpo social.

a sucessão de forças

3

1 DELEUZE, G. Nietzsche e a Filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1976. p.03.

Nosso percurso, marcado por transtornos e tentativas, se abre a uma ramificação em três direções. Na primeira, tomamos o rumo dos avessos de cidadania a partir de seu percurso ocidental moderno. Sugerimos neste caso, com base no pensamento de Félix Guattari, que uma das características mais marcantes da produção de subjetividade a partir da consolidação do capitalismo no mundo moderno é o esvaziamento do caráter processual da

existência e a supervalorização dos processos de normatização e de centralização “

torno de uma imagem, de um consenso subjetivo referido e sobrecodificado por uma lei transcendental.” 2 Se é assim, podemos observar que os diferentes dispositivos postos a serviço da confecção de civilidade no mundo moderno não só tomaram parte nessa produção, como serviram de suporte aos efeitos hegemônicos dessa economia política e subjetiva. Inclui-se neste caso, os diferentes princípios que serviram de base de sustentação do ideário liberal europeu e conseqüentemente da noção de cidadania que lhe é correspondente: a idéia de renúncia em favor da segurança que atravessa a produção do princípio de Estado, a idéia de consentimento em favor da preservação da propriedade que engendra a produção do princípio de mercado e a idéia de vontade geral que sustenta o princípio de comunidade. Tais princípios heterogêneos e complementares puderam consolidar a distinção Estado- Sociedade reatando ao mesmo tempo suas ligações através da idéia liberal de contrato- social.

em

Trata-se de processos não lineares e aparentemente contraditórios que vão possibilitar o aparecimento de um tipo de homem ao mesmo tempo em que vão implicar o funcionamento de uma série de dispositivos de assujeitamento e obediência com o conseqüente enfraquecimento político do corpo social, condição fundamental para a construção do capitalismo industrial.

4

2 GUATTARI, F., ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986. p.40.

Sob este ponto de vista o “cidadão” será um dos efeitos dessa produção, do mesmo modo que todas as crenças e valores a ele atribuídos e dele propagados, a saber: identidade, privacidade, liberdade, autonomia para gerir e defender seus bens, igualdade e felicidade. O que se está propondo é pensar que todo fenômeno é correlato a um conjunto de práticas e não existe antes delas. Sendo assim, impõe-se problematizar a idéia de uma Cidadania que se põe na história como uma meta a ser atingida, variando conforme as diferentes atitudes daqueles que desejam alcançá-la. Logo, longe de querer desvendar o que teria se passado numa origem da cidadania, importa-nos puxar algumas linhas que, do nosso ponto de vista, ajudaram a tecer sentidos heterogêneos, porém complementares, daquilo que passamos a reconhecer e a almejar enquanto “A Cidadania”. Pretendemos assinalar que as idéias liberais, em seu solo primordial, tomaram rumos diversos, muitas vezes divergentes entre si e com efeitos totalmente alheios aos seus “firmes propósitos”. Trata-se de afirmar que a noção de cidadania, além de sofrer diferenciações, vai funcionar, simultaneamente, como efeito e como instrumento da economia política e subjetiva que lhe for correspondente. Assim, tomamos o rumo dos avessos do “avesso”: segunda direção, onde se pretende ultrapassar a mera constatação de que no Brasil inexistem os direitos e os deveres que lhes são correspondentes pautados nos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade etc., para arriscar encarar a noção de cidadania na positividade do seu caráter produtivo, ou seja, na sua função estratégica. Vários autores preocuparam-se em analisar as relações entre os ideais do liberalismo europeu e as práticas sociais brasileiras observando que estas idéias da chamada modernidade ocidental, ao penetrarem no Brasil, vão coexistir com idéias antagônicas e até mesmo incompatíveis. Destacamos neste percurso, as análises de Schwarz (1977), DaMatta (1985), Carvalho (1987) que servem de suporte para análises mais recentes sobre o assunto. É o caso de Figueiredo (1994) que, ao

5

retomar elementos da obra de Roberto DaMatta e Roberto Schwarz, traça algumas considerações importantes sobre modos de subjetivação no Brasil. A despeito das diferenças marcadas por cada uma dessas interpretações, interessa- nos destacar que elas compartilham uma espécie de eixo comum, a saber: afirmam o quanto é complicado querer explicar o Brasil a partir de modelos importados da experiência moderna ocidental. E, mais do que isso, indicam que a conexão das idéias liberais com a tradição colonial escravista brasileira vai, conseqüentemente, produzir obstáculos para o desenvolvimento da cidadania no Brasil. Embora tais argumentações reforcem a nossa atenção em direção ao campo das conexões, o que nos interessa, no entanto, diferentemente das interpretações destacadas, é afirmar este campo como um campo de forças de onde emergem tanto os sentidos e os valores obedientes aos princípios de ordenação de uma “subjetividade cidadã”, quanto aqueles totalmente avessos a qualquer tipo de modelização. Interessa-nos ainda apontar de que maneira os processos de diferenciações brasileiros mediante as forças que delas se apoderaram foram sendo capturados e despotencializados em nome de uma idéia matriz cidadã. Deste ponto de vista, sugerimos o termo ‘avessos’ para poder pensar tanto as linhas marcadas pela idéia de oposição quanto aquelas totalmente alheias às ordenações que foram produzindo esse Brasil ‘avesso’ e seus avessos Tomamos emprestadas algumas análises e alguns fragmentos de pesquisas de autores brasileiros na tentativa de ir produzindo uma espécie de encaixe dentre as diferentes forças que, da nossa perspectiva, constituíram uma ‘Vontade-de-Cidadania’ no Brasil, por mais paradoxal que isto possa parecer. Este exercício que chamamos de analítico, esboçado principalmente a partir da perspectiva proposta por Félix Guattari, implica numa disponibilidade para perseguir parâmetros analíticos os mais afastados possíveis das ordenações e da

6

modelização imposta pelos processos hegemônicos de subjetivação. Trata-se do esforço de

apreensão da coextensividade subjetividade/realidade social material e de reflexão de como

reproduzimos (ou não) os modos de subjetivação dominantes.” 3 Além disso

compreende tentativas de construção de instrumentos conceituais que sirvam para pôr em

xeque o que persiste em nós de fé nos princípios transcendentes como organizadores da

nossa subjetividade 4 incluindo, neste caso, a fé nas leis que ordenam a subjetividade

capitalística e que, do nosso ponto de vista, são capazes de produzir as maneiras pelas quais

nos relacionamos até mesmo nossas relações inconscientes incidindo nos modos “

como se trabalha, como se é ensinado, como se ama, como se trepa, como se fala”. 5

Este é o rumo da nossa terceira direção, repleto de interrogações e atropelos

engendrados por este exercício complexo interessado em problematizar a relação entre a

produção da noção de cidadania conforme alguns elementos de sua constituição no

Brasil e a produção de subjetividade.

Se aceitamos esta espécie de linha de montagem subjetiva é porque, conforme

observa Guattari,

“ partimos do pressuposto de que esta é a ordem do mundo, ordem que não pode ser tocada sem que se comprometa a própria idéia de vida social organizada.” (Guattari e Rolnik, 1986, p.42)

Deste modo, para além da antiga dicotomia cidadania consentida X cidadania

conquistada sugere-se pensar a noção de cidadania produzida: manufaturada enquanto

efeito e instrumento de determinadas relações de força. Neste caso, suas conseqüências

indesejáveis e suas deficiências não são senão sua

3 Idem. p.133. ROLNIK, Suely. Esboço de uma cartografia da prática analítica. São Paulo: PUC, 1995. p mimeo.

4

7

01.

5 GUATTARI, F., ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986. p.42.

eficácia, seus efeitos produtivos (desde que) interpretados do ponto de vista das forças que

as constituíram.

Ultrapassar esta dicotomia implica pôr em análise uma espécie de “subjetividade

cidadã” forjada a partir de uma determinada “vontade-de-cidadania” que, implícita ou

explicitamente, arrasta o nosso pensamento para longe do cotidiano brasileiro produzindo,

sustentando e dissimulando os mesmos tipos de degeneração das condições de vida que

tanto repelimos.Para problematizarmos alguns efeitos deste tipo de “vontade”

empreendemos uma experimentação no campo da Ética, visando esboçar outras

composições germinadas nos arredores da cidadania.

Daí elegermos, como ferramenta conceitual, elementos que compõem o pensamento

de Félix Guattari, suas conexões com a filosofia de Deleuze fertilizadas pelas idéias de

Espinosa, Foucault e Nietzsche bem como a pesquisa e os estudos de diferentes autores

interessados em engendrar fatores de resistência no campo da subjetividade.

Pôr-em-Análise, aqui entendemos como exercício de esmiuçar e desarticular

práticas totalizadoras que atravessam e modelam o corpo social. Como uma das maneiras

possíveis de apostar na criação e na sustentação de vias de acesso aos processos de

transformação. Uma maneira de recusar os modos preestabelecidos de controle e regulação

do corpo social. Recusá-los para tentar construir,

“ modos de sensibilidade, modos de relação com

outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade

de construir o mundo no qual nos encontramos, com

a instauração de dispositivos para mudar os tipos

de sociedade, os tipos de valores que não são os

nossos”

(Guattari e Rolnik, 1986, p.17)

8

Para além da interferência de um analista, esta perspectiva indica “o acontecimento” como promotor de questões analíticas e os agentes sociais em suas múltiplas variações como agentes de “provoc-ação” 6 , mediante os agenciamentos que consigam pôr para funcionar.

Trata-se de compor com a maior variação possível de elementos a fim de produzir o

que Guattari chamou de “componentes de passagem”. Componentes que “

emergir de repente outras coordenadas, permitindo encontrar uma saída7 . Permitindo,

quem sabe, fazer “as paixões tristes” dobrarem-se às “paixões alegres” com vistas a “

modificar a direção do desejo e aumentar a potência do nosso corpo.” 8

Designamos por corpo toda espécie de individuação complexa constituída por uma

multiplicidade de componentes heterogêneos 9 , podendo aparecer caracterizada sob a

forma de um personagem individual ou sob a forma de organizações sociais,

institucionais etc. Deste corpo, não sabemos o quanto ele pode, “

forças nem o que elas preparam.” 10 Por este motivo podemos afirmar que todo corpo

biológico, social, político etc. possui uma espécie de tensão, uma potência

singular que o faz diferente de qualquer outro e diferente até de si mesmo durante sua

própria existência.

fazem

quais são as suas

Assim, uma prática analítica se constitui como um processo de experimentação de

articulações funcionais e de sustentação de condições favoráveis para que estas

potências singulares não sejam sistematicamente neutralizadas e possam vir a funcionar

como disparadoras de processos diferenciados e criadores.

6 RODRIGUES, Heliana de Barros Conde. Psicanálise e análise institucional. In: Grupos e Instituições em Análise. Rio de Janeiro: Ed. Rosa dos Tempos, 1992. p.48.

Idem. p.222. 8 Espinosa. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p.250. 9 A noção de corpo aqui apresentada inspira-se no pensamento de Espinosa, onde o corpo é entendido como um complexo de corpos menores e constituído por relações de movimento e repouso. Ver Espinosa. Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1979. p.149.

7

10

DELEUZE, G. Nietzsche e a Filosofia. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1976. p.32.

Se o modo capitalístico de produzir subjetividade se disseminou em escala mundial contaminando todo o corpo social, não conseguiu conforme afirma Guattari evitar o choque constante e os pontos de ruptura com os processos que ainda resistem à ortopedia e ao empobrecimento total dos modos de subjetivação. Por acreditar nesta afirmação somos impelidos a pensar que precisamos aproveitar todos os recursos que estiverem ao nosso alcance para favorecer os processos de resistência que atravessam as sociedades e os grupos sociais. E ainda, mais que isso, para produzir toda espécie de curto-circuito possível nos sistemas de manutenção dos modos de subjetivação dominantes.

9

1. AVESSOS DE CIDADANIA NO MUNDO MODERNO

“ Os direitos do homem não nos obrigarão a abençoar as

‘alegrias’ do capitalismo liberal do qual eles participam

ativamente. Não há Estado democrático que não esteja totalmente comprometido nesta fabricação de miséria humana.” (Gilles Deleuze, 1992, p.213)

A Europa do século XVII tem como traço marcante a eclosão de inúmeras e radicais

mudanças. A Inglaterra, em especial, tornou-se cenário de novas composições político-

subjetivas que vão evidenciar o processo de ruptura com sentidos e valores vigentes no

mundo medieval. São mudanças econômicas, conflitos religiosos rompendo com a

hegemonia católica, invenções no campo da ciência e da arte. Revoltas, insurreições,

invasões dos campos e massacres vão compor esse cenário perturbador que contextualiza o

século XVII e parte do século XVIII.

Pode-se dizer que com a conquista do Novo Mundo o tecido social é esgarçado

dando passagem a combinações de crenças e a distensão de limites. No choque entre forças

tão diversas, engendram-se, ao mesmo tempo, o interesse pelo desconhecido e pela

incerteza criadora, assim como a ameaça da desordem, o medo e o desejo de controlar os

movimentos do corpo social.

Ferreira (1993) vai observar que este momento é marcado por uma espécie de

“perplexidade social”,

“ Talvez um dos mais ricos vividos no mundo ocidental, que

culmina com um processo de laicização, no qual se questionam o conhecimento, a autoridade e o direito. Não só o artista e o homem de ciência deixam sua marca. Também lavradores, homens, mulheres, crianças,

10

trabalhadores anônimos construíram com seus corpos, a nova ”

(Ferreira, 1993, p.34)

era

No entanto, não podemos deixar de constatar que o conhecimento racional invade

esta “nova era” expurgando as misturas e os “mistérios” encarados neste momento como

fontes de ameaça à estabilidade e à ordem do mundo. Desde então, a ciência e a política

não são mais consideradas como fruto de mandamentos ou ameaças divinas, mas como o

resultado da capacidade dos homens de com base em princípios racionais calcular,

prever e ordenar seus impulsos através da formulação de pactos, de acordos e contratos

de uma espécie de costura desse tecido social esgarçado, com vistas a transformá-lo em um

único corpo.

Pode-se também constatar que esta estratégia não consegue impedir que as “forças

da natureza” reafirmem seu poder e seu estado permanente de guerra, conseqüentemente,

seus efeitos de instabilização.

Na tentativa de encontrar uma resposta razoável para essa virtual ameaça, corta-se o

tecido social ao meio, separando o campo das turbulências interno do campo da

racionalidade social o campo externo. Defende-se os interesses individuais, pautados

nos princípios racionais tornando-os incompatíveis com as paixões destrutivas e com a

obediência irrefletida. Deste modo, obedecer a um poder real absoluto torna-se uma

obrigação indesejável aos interesses da burguesia que a esta altura deseja autonomia para o

uso dos bens e da propriedade, bem como para expressar suas novas convicções morais e

religiosas: autonomia para o campo da privacidade. Sendo assim, o território público,

campo das ações políticas, encarrega-se de instituir a autoridade civil, a obediência e o

dever como garantia da liberdade individual e dos interesses privados. Trata-se da

emergência de um tipo de poder político e subjetivo fundado através do pacto racional

firmado entre os

11

indivíduos, com a pretensão de garantir a moralidade social, os interesses individuais e a prosperidade dos cidadãos. A partir daí, torna-se possível distinguir três modos de funcionamento que predominaram na composição do ideário liberal europeu e conseqüentemente, na produção da noção de cidadania que lhe é correspondente. A saber: renunciar ao próprio poder em favor da segurança, consentir em outorgar esse poder como garantia da preservação da propriedade, e abrir mão desse poder em nome de uma vontade geral. Compreendemos que estes três modos distintos não ficaram isolados uns dos outros. Combinados, fertilizaram o solo de onde emerge a noção de cidadania em sua versão ocidental moderna e liberal. Servem de fundamento para a reprodução de uma teoria do poder político, segundo a qual cada homem possui um poder equivalente à posse de um bem ou de riquezas e da capacidade de cumprir os imperativos da razão que pode ser cedido, transferido ou alienado através de um contrato social com vistas a alcançar a soberania política. A noção de cidadania, neste caso, emerge como expressão máxima dessa aquisição e, conseqüentemente, dessa entrega. Percorrer estes “avessos de cidadania” no mundo moderno é pretender na medida do possível elucidar um campo de subjetivação e, ao mesmo tempo, criar meios para intervir efetivamente neste campo. Isto não significa desprezar todos os pontos de ruptura e todos os focos de resistência política que enfrentaram e ainda enfrentam esses sistemas de modelização. Trata-se apenas de chamar a atenção para determinados modos de funcionamento que tomaram parte no processo de reificação da noção de cidadania no chamado mundo moderno e na sua propagação enquanto modelo hegemônico supostamente válido para qualquer tipo de sociedade.

12

1.1. A Renúncia como Prova de Civilidade

A natureza fez os homens iguais em corpo e espírito de forma que nenhum

deva aspirar ou reclamar qualquer tipo de benefício a que outro homem não possa também

usufruí-lo. 11

Este parece ter sido um dos argumentos mais poderosos para o estabelecimento da

“igualdade natural” como um meio de combater a rede de privilégios que caracterizava o

mundo feudal.

Conforme observa Ferreira (1993),

“ o direito feudal caracteriza-se pelo tratamento desigual aos

desiguais. Aos proprietários dos meios de produção (nobreza, clero) é conferido um sistema de privilégios: somente eles podem praticar determinados atos. Os produtores diretos são apenas sujeitos de deveres: somente eles devem praticar certos atos”.

(Ferreira, 1993, p.54 - grifo meu)

Contrariando este sistema de privilégios aparece um novo modo de funcionamento

político e subjetivo forjado a partir da idéia da constituição de um poder soberano único

capaz de impor aos homens um conjunto de leis civis universais. Seria através do

cumprimento dessas leis que os homens poderiam definitivamente se igualar. Esta

igualdade, que ganha relevo na concepção social e política formulada por Hobbes (1588-

1679), teve como base de sustentação a idéia de que todos os homens possuem o desejo

e o poder fundamental de autoconservação.

13

11 HOBBES, Thomas. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1989. p.75.

Porém Hobbes adverte para o fato de que como todos os homens têm direito a tudo e

podem fazer tudo estão constantemente sob a ameaça da destruição, já que todos podem, na

mesma medida, fazer valer o uso de seu direito.

“ Deixado a si, o instinto de conservação é a abertura para a

violência que o reitera e, ao mesmo tempo, para a paz tática

que prometa conservação. É esse o campo da lei natural.” (Hobbes, 1983, p. xv)

Sendo assim, os homens não poderiam viver sem um poder comum que os

mantivesse em situação de respeito mútuo.

“ durante o tempo em que os homens vivem sem um poder

comum capaz de manter a todos em respeito, eles se encontram

naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é ”

de todos os homens contra todos os homens (Hobbes, 1983, p.75)

Paradoxalmente, a “igualdade natural” este direito que os homens possuem de

serem senhores de seu poder transforma-se em um dos argumentos mais importantes

para justificar a ordem e o uso de dispositivos de controle sobre o corpo social.

A civilidade passa a ser o único meio para garantir a distinção entre os interesses de

cada homem e, mais que isso, da distinção que cada homem precisa fazer de seus próprios

interesses. Assim, guiados pela razão, os homens poderiam ultrapassar sua tendência

impulsiva e apaixonada para poderem transitar no território da moral, das relações sociais e

da prosperidade.

Conforme observa Figueiredo,

14

“ A civilidade, efetivamente, existe tanto como instrumento

repressivo quanto como defesa do homem natural. As identidades fictícias dos súditos e do soberano, que ocupam e se movimentam nos espaços públicos, garantem a sobrevivência e dão perspectiva de desenvolvimento aos seres naturais, que se recolhem ao campo da privacidade, dos interesses e negócios particulares, das opiniões pessoais, das associações ou sistemas privados, desde que legítimos.” (Figueiredo, 1992, p.99)

Na base desta cisão entre o campo da privacidade e o campo público, encontram-se

as tensões entre os ditames da consciência individual e a obediência à autoridade: entre as

opiniões e as ações.

Apontando Thomas Hobbes como o grande teórico da separação entre interno e

externo, Figueiredo (1992) vai destacar como efeito desta separação a produção de um tipo

de homem desdobrado numa metade privada e numa metade pública 12 . De um lado

devendo ficar as paixões, os excessos, os interesses individuais e do outro, a civilidade: o

território onde irá prevalecer o interesse geral e a segurança. A civilidade, deste ponto de

vista, significa a garantia do assujeitamento do indivíduo natural com vistas a assegurar sua

sobrevivência e seu espaço privado de liberdade. Ao mesmo tempo a consolidação desta

autonomia da esfera da privacidade vai significar a ‘garantia’ de que os juízos privados

livres não invadam o território público e, conseqüentemente, não se transformem em

ação política.

Mas esta separação entre espaço privado e espaço público conforme os

investimentos do pensamento hobbesiano não significa impedir que os conflitos

reverberem e, que, como observa Figueiredo, sob o domínio do medo,

a opção

15

12 A interpretação apresentada por Figueiredo tem como referência a pesquisa elaborada pelo sociólogo alemão R. Koselleck em que o autor analisa as relações público-privado no pensamento hobbesiano. FIGUEIREDO, Luis Cláudio. Quatro séculos de subjetivação: 1500- 1900. São Paulo: Escuta: EDUC. 1992. p.109.

prudente deva ser pela ordem pública e pela obediência, em detrimento da liberdade de

opinião que pode ser mantida apenas ‘em segredo’

Neste sentido, o direito é interpretado como liberdade para fazer ou para omitir,

distinto deste modo da lei; entendida como uma obrigação ou uma determinação daquilo

que deve (ou não) ser feito.

13

“ A lei e o direito se distinguem tanto como a obrigação e a liberdade, as quais são incompatíveis quando se referem à mesma matéria.”

(Hobbes, 1983, p.78)

Trata-se da distinção entre o “direito de natureza” entendido como a liberdade que

os homens possuiriam para fazer o que sua razão lhes indicasse conveniente: sem

impedimentos externos, os homens usariam seu próprio poder como quisessem. E a “lei de

natureza” uma regra geral, estabelecida pela razão que proibiria um homem de destruir,

ou privar sua vida de qualquer meio que pudesse preservá-la.

A vida civil seria forjada como o meio razoável de superação do “ingovernável”

estado de natureza no qual, por direito natural, habitariam os conflitos, as disputas e o

desejo de poder.

“ enquanto perdurar este direito de cada homem a todos as

coisas, não poderá haver para nenhum homem (por mais forte e sábio que seja) a segurança de viver todo o tempo que geralmente a natureza permite aos homens viver. Conseqüentemente, é um preceito ou regra geral da razão, que

todo homem deva esforçar-se pela paz, na medida em que tenha esperança de consegui-la, e

16

13 FIGUEIREDO, Luis Cláudio. Quatro séculos de subjetivação: 1500-1900. São Paulo: Escuta:

EDUC. 1992. p.110.

caso não a consiga pode procurar usar todas as ajudas e vantagens da guerra.”

(Hobbes, 1983, p.79)

O esforço pela paz enquanto um preceito da razão induziria os homens à

organização e à associação, já que o isolamento os colocaria numa posição vulnerável a

mercê de seus apetites, dos excessos e do desejo de poder. Conclui-se que os homens

deveriam renunciar às suas paixões ao seu próprio poder para viverem em sociedade.

“ que um homem concorde, quando os outros também o

façam, e na medida em que tal considere necessário para a paz

e para a defesa de si mesmo, em renunciar a seu direito à todas as coisas, contentando-se, em relação aos outros homens, com a mesma liberdade que aos outros homens permite em relação a si mesmo.” (Hobbes, 1983, p.79 - grifo meu)

Deste modo, a igualdade natural pautada na liberdade e na autonomia individual

deve ser abdicada em favor da segurança e da paz e transferida para o soberano que

proporciona o bem aos que abrirem mão de seus direitos: de seu poder. Esta transferência

de direitos, expressa pelo pensamento hobbesiano, significa o estabelecimento de um

contrato social um acordo cuja finalidade é forjar uma instância que assegure uns

contra os outros.

Neste caso, não há o estabelecimento de um contrato político, pois, conforme

observa Marilena Chauí,

“ um contrato pressupõe partes contratantes livres e iguais, e

não há igualdade entre cidadãos e o soberano, pois este resulta da decisão anterior dos indivíduos de alienar para ele seu direito natural. Entretanto, se não há

17

contrato político, pois não é possível um contrato entre súditos e o soberano, há contrato social, isto é, um pacto pelo qual os homens concordam entre si em alienar seu direito natural, transferindo-o para o soberano. Sem o pacto não haverá ”

Estado civil

(Chauí, l995, p.75)

Assim, a noção de cidadania vai emergir como um efeito da transferência de poder

para alguém neste caso para o Estado com vistas a salvaguardar os direitos dos

homens. Ser cidadão vai pressupor a efetuação de uma entrega, uma espécie de resignação

e de submetimento a idéia de Estado, já que sem esta submissão, o indivíduo não adquire a

condição de cidadão. Esta concepção de cidadania se institui através da prescrição moral de

que cada indivíduo deve, por medo da morte e dos impulsos excessivos, preservar sua vida

e seus bens abrindo mão da ação política e transferindo a outro homem, a um colegiado ou

a uma assembléia sua capacidade de se autogovernar.

A partir daí, comenta Ferreira,

“ os indivíduos autorizam que o governante seja portador de

sua própria pessoa. Esse ato fundante da autoridade institui o

governo como autor de todos os atos relacionados ao bem comum. O corpo político, representado na figura do governante, sintetiza a união de todos.”

(Ferreira, 1993, p.62)

Cada homem lobo do homem aprenderia a reconhecer na presença do outro

um opositor, um rival, uma ameaça real ou imaginária justificando, assim, tanto a coerção e

o controle impostos pela civilidade, quanto a obediência, o sacrifício e a renúncia, em favor

da sustentação das forças dominantes, neste caso atualizadas sob a forma de um Estado.

18

Um Estado que, conforme observa Ferreira, acaba por se tornar uma espécie de

Deus, ainda que a principal argumentação para sua criação fosse o rompimento com a

Igreja.

“ Sua legitimidade se funda num sistema de crenças que não

foge do dualismo sagrado-profano. Em vez da ameaça do castigo do inferno, apela para a ameaça do caos. No lugar da salvação eterna, promete ao grupo segurança e perpetuação.” (Ferreira, 1993, p.65)

As idéias que sustentaram o absolutismo real foram afrontadas pela força das idéias

liberais que acabaram predominando no Parlamento Inglês. Alguns comentadores

concluíram que a história não teria dado razão a Hobbes preferindo a solução liberal

defendida por seu conterrâneo John Locke. 14

Do nosso ponto de vista, porém, essas idéias e suas respectivas objetivações, não

foram ativadas, desdobradas, neutralizadas ou barradas por uma espécie de intenção

histórica ou mesmo pelas intenções daquele a quem atribuímos a responsabilidade pela sua

criação. Ao contrário, entendemos que elas foram afrontadas por forças de resistência que

romperam sua unidade enfraquecendo seu efeito global de dominação. Ao mesmo tempo,

essas idéias funcionaram, combinaram com outras idéias e tomaram parte na constituição

de outros territórios políticos e subjetivos e no exercício de outras relações de dominação.

19

14 A este respeito ver, por exemplo, HOBBES, Thomas. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. xviii.

1.2. O Consentimento como Sinal de Racionalidade e Garantia da Propriedade

Ainda no século XVII é consolidada a idéia de que a civilidade deve defender a

natureza contra seus excessos garantindo, através de instrumentos democrático-liberais, os

espaços de privacidade e de liberdade. Tais instrumentos, conforme observa Figueiredo,

“ terão como função conter dentro de limites muito estreitos

as intervenções do Estado e a penetração da ordem pública no

campo dos assuntos particulares. Esta é a fórmula básica do liberalismo clássico: a limitação dos poderes do Estado.” (Figueiredo, 1992, p.111)

Nesta versão do liberalismo que ganha sustentação através das idéias de Locke

(1632-1704), os indivíduos autônomos por intermédio do pacto livre, criam um tipo de

Estado que não mais interfere nem administra os espaços de privacidade, mas regula as

relações entre esses indivíduos, para garantir que não tenham os seus direitos violados:

principalmente os direitos à liberdade e à propriedade.

“ é para esse fim que os homens transferem todo poder

natural que possuem à sociedade para a qual entram, e a comunidade põe o poder legislativo nas mãos que julga mais conveniente para esse encargo, a fim de que sejam governados por leis declaradas, senão ainda ficarão na mesma incerteza a paz, a propriedade e a tranqüilidade, como se encontravam no estado de natureza.”

(Locke, 1983, p.88)

20

No estado de natureza cada homem independente dos demais, seria livre de

qualquer constrangimento para exercer sua vida. Governado pela razão, cada homem

deveria conservar-se e conservar suas posses, zelando caso não corresse nenhum risco

pela preservação dos outros homens. Na formulação de Locke este estado pressupõe o

autogoverno e a constituição de leis que garantam a universalidade dos direitos naturais.

Porém, conforme Macpherson (1979), o liberalismo de Locke não fugindo à

perspectiva hobbesiana 15 sustenta que os homens são impulsionados principalmente por

apetites e aversões;

“ e que os apetites são tão fortes que se fossem deixados a

seu próprio impulso, levariam os homens à subversão de toda a moralidade. As leis morais são estabelecidas como bridão e freio a esses desejos exorbitantes.”

(Macpherson, 1979, p.259)

Contudo, diferentemente de Hobbes, Locke acredita que os homens por perceberem

sua utilidade, são capazes de impor normas para si e por sua própria paixão sem

necessidade de instituir um soberano.

“ A fim de evitar esses inconvenientes que perturbam as

propriedades dos homens no estado de natureza, estes se unem em sociedade para que disponham da força da sociedade inteira para garantir-lhes e assegurar-lhes a propriedade, e para que gozem de leis fixas que a limitem, por meio das quais todos saibam o que lhes pertence.”

(Locke, 1983, p.88)

21

15 Macpherson considera o pensamento hobbesiano como precursor das idéias que fundamentam o princípio de mercado e que posteriormente encontram em Locke seus dedobramentos. Neste sentido, aponta Hobbes como um pensador do mundo capitalista. Sobre o assunto, consultar:

MACPHERSON, C. B. A teoria política do individualismo possessivo: de Hobbes a Locke. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

Locke considera que os homens originalmente inocentes, teriam conhecido a

abundância das provisões naturais que durante muito tempo existiram no mundo, não

havendo, portanto, lugar para

assim estabelecida.” 16 Porém com o aumento da população e da riqueza veio a

escassez, com o uso do dinheiro foi dado valor à terra e conseqüentemente, por medo

controvérsias ou lutas relativamente à propriedade

da miséria e da fome os homens se afastaram das leis naturais. Para evitar a miséria,

os homens livres e iguais teriam abandonado o estado natural para criar a sociedade

política.

Ferreira (1993) observa que para Locke, a grande ameaça não teria sido a morte

violenta, mas a fome.

“ A fome está, portanto, na origem de tudo, da produção à

troca, da propriedade à posse, da acumulação à disputa.”

(Ferreira, 1993, p.73)

No entanto se a ameaça da fome serve como justificativa para o aparecimento do

processo de ordenação social e para a instituição do Estado como garantia dos direitos

naturais, ao mesmo tempo, servirá como base para o desenvolvimento de uma teoria

política sustentada na valorização do pleno desenvolvimento desta sociedade em sua forma

individualista e deste Estado como defensor e mantenedor da concentração de riquezas nas

mãos de poucos.

Locke sustentava a tese de que cada homem unido a outro homem, preservaria sua

vida, sua liberdade e sua propriedade. Juntos, reprimiriam qualquer tentativa de violação

desses direitos naturais garantidos pelo pacto social. Destes direitos destaca-se o direito à

propriedade que segundo Locke se justificaria pela relação de cada homem com as coisas,

através do trabalho.

22

16 LOCKE, John. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p.47.

“ cada homem tem uma propriedade em sua própria pessoa;

a esta ninguém tem qualquer direito senão ele mesmo. O trabalho do seu corpo e a obra de suas mãos, pode dizer-se são ”

propriamente dele

(Locke, 1983, p.45)

Essa concepção de propriedade, que inclui a propriedade do próprio corpo, dá

sustentação à idéia de que um homem pode vender seu trabalho — o trabalho que seu corpo

efetua — em troca de salário.

Esta afirmação emerge de um tipo de sociedade que, conforme afirma Bresciani

(1994), se institui sobre o pressuposto da positividade do trabalho. Afinal, pontua a autora,

“ são J. Locke e Adam Smith que desfazem a imagem

negativa do trabalho como patrimônio da pobreza, como fardo exclusivo dos que não possuem propriedade, e o definem como

fonte de toda atividade criadora de riqueza.” (Bresciani, 1994, p.80)

Este homem livre para vender seu próprio corpo terá que ser capaz de gerar e

cumprir leis. Reflexivo e autoconsciente, este homem deverá dominar sua vontade e se

esforçar para ‘vencer na vida’, fazendo bom uso das oportunidades. Sendo assim, Locke

conclui que cada indivíduo, dotado de vontade autônoma, não enriquece ou não trabalha se

não quiser, ou ainda, se não tiver competência. Por este motivo, o êxito econômico será

interpretado como sinal de virtude do próprio homem e de sua capacidade para gerir sua

vida. A indiferença ao mundo do trabalho, por outro lado, representará uma ameaça à

organização social e uma agressão à sociedade.

23

Assim, seriam as leis estabelecidas com as mesmas regras para ricos e pobres a garantia da formação de um povo como um conjunto de indivíduos juridicamente autônomos e iguais 17 . Essas mesmas leis vão assegurar que fiquem fora deste contexto de igualdade e autonomia os escravos, as mulheres e os doentes mentais, considerados

incompatíveis com a sustentação e o desenvolvimento da sociedade civil, já que a isonomia dos direitos e deveres é vedada àqueles que não possuem meios para garantir sua sobrevivência e o sustento de seus dependentes. Este ideário, conforme observa Bresciani (1994) é atravessado pela concepção

puritana dos eleitos:

De fato, apenas os homens proprietários são reconhecidos como interessados na preservação de suas propriedades e, portanto, julgados como capazes de uma vida racional. De assumir um compromisso voluntário para com a lei da razão considerada como :

base necessária para a plena participação na sociedade civil.” 19 Esse mesmo ideário que afirma a igualdade de todos perante a lei, pouco importando a idade, a posição social ou econômica — onde todos poderiam recorrer à mesma lei sem precisar dispor de privilégios — encontra meios para justificar a exclusão daqueles que possuem apenas o próprio corpo e dele dispõem para garantir sua sobrevivência. A respeito desta classe de pessoas — os pobres — será produzido um conjunto de discursos pautados na falta de disponibilidade de tempo e de oportunidade para fazer uso do pensamento ou para atuar politicamente. E os que não trabalham — sejam desempregados ou

muitos serão chamados mas poucos serão escolhidos.” 18

24

17 FERREIRA, Nilda Teves. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p.84.

18 BRESCIANI, Maria Stella M. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.85.

19 MACPHERSON, C. B. A teoria política do individualismo possessivo: de Hobbes a Locke. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p.260.

pobres vadios — serão considerados como fruto da “degeneração moral, do relaxamento

da disciplina e da corrupção dos costumes.” 20

Como observa Bresciani,

“ os membros da classe trabalhadora não são considerados

cidadãos, mas sim um conjunto de força de trabalho potencial

ou real disponível para os objetivos da nação

racionalidade incompleta e sua incapacidade de obter renda superior às suas necessidades vitais os impedem de estar em condições de ser contribuintes, de sustentar o governo e, decorrentemente, de ter qualquer participação política.” (Bresciani, 1994, p.89)

Sua

Pode-se dizer que a noção de cidadania forjada no solo da teoria liberal é a

expressão máxima desse conjunto de “propriedades”: a propriedade material, expressa pela

aquisição de bens, a propriedade física que asseguraria os corpos úteis e produtivos e a

propriedade mental que garante a possibilidade do indivíduo praticar atos por sua ‘livre

vontade’ base de sustentação da idéia de consentimento mútuo.

O consentimento, ao contrário da renúncia, funda um acordo efetivo entre o que fica

estabelecido pelos indivíduos e o que é feito, sugerindo, deste modo, que ninguém deva

possuir poderes ilimitados nem possa descomprometer-se com o acordo estabelecido pela

maioria:

decide, como tendo o poder de todos pela lei da natureza e da razão.” 21

o ato da maioria considera-se como sendo o ato de todos e, sem dúvida,

Quando um homem concorda com outros homens em formar um corpo político sob

um governo,

25

20 BRESCIANI, Maria Stella M. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.85.

21 LOCKE, John. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p.71.

“ assume a obrigação para com todos os membros dessa

sociedade de submeter-se à resolução da maioria conforme a assentar; se assim não fosse, esse pacto inicial, pelo qual ele juntamente com outros se incorpora a uma sociedade, nada significaria, deixando de ser pacto, se aquele indivíduo ficasse livre e sob nenhum outro vínculo senão aquele em que se achava no estado de natureza.”

(Locke, 1983, p.71)

Deste modo a ação política por parte do povo é interpretada como uma ação

negativa pois representaria o rompimento do consentimento que havia conferido ao

governo aos “juizes imparciais” poderes para preservar a propriedade e a paz da

sociedade.

A oposição legítima só seria justificada em momentos críticos, quando os

governantes excedendo no uso do poder agissem de maneira contrária ao encargo que lhe

havia sido conferido quando os direitos naturais fossem ameaçados. Neste caso, seria até

compreensível que o povo reagisse a força, mas ainda assim, esta ação seria considerada

como negativa pois o Parlamento do ponto de vista desta perspectiva liberal seria

suficiente para gerir as questões de âmbito público, liberando os cidadãos para cuidarem de

suas vidas. 22

Essas idéias serviram como base de sustentação para o funcionamento da doutrina

político-econômica liberal e para a auto-regulação da sociedade pelo mercado, consolidadas

ao final do século XVIII e início do século XIX. Criaram condições para o pleno

desenvolvimento desse conjunto de unidades racionais e teoricamente idênticas: o conjunto

de cidadãos. Entidades dotadas de autonomia, privacidade, liberdade para estabelecer

contratos e trocar mercadorias e, além disso, viver em prol de seus próprios interesses.

26

22 FERREIRA, Nilda Teves. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p.93.

1.3. A Perspectiva da Vontade Geral

Quando as idéias inglesas chegam à França encontram um solo fértil para sua

difusão. Essas idéias são então assimiladas por Rousseau (1712-1778) que as redimensiona,

também com o intuito de combater os privilégios que dominavam em seu país.

Rousseau, tido como precursor da concepção democrática-burguesa, pressupôs que

os homens nascem para a felicidade e no campo da civilização, encontram amarras e seus

empecilhos.

Convivendo, os homens ultrapassam a liberdade natural e a sua solidão penetrando

assim, no campo da moralidade e da racionalidade. A sociedade humana, desse ponto de

vista, é anterior à sociedade civil e portanto, nenhuma desigualdade social deriva da

simples convivência entre os homens. Será na sociedade civil e da propriedade dela

decorrente que o homem se defrontará com o logro.

Para Rousseau é o advento da propriedade privada a fonte de toda miséria humana,

da arrogância e da inveja que tomam conta do corpo social. A propriedade engendra a

desigualdade levando os homens, necessariamente, a forjarem as primeiras sociedades civis

norteadas por leis.

“ Sendo a força insuficiente para conservar o que adquiriu, o

rico, a fim de legitimar sua posse, imagina dar aos homens máximas e instituições além das naturais. Daí a formação de associações e de governantes: daí a perda da liberdade e do direito natural.”

(Rousseau, 1983, p.204 - comentário)

Rousseau é crítico com relação à sociedade burguesa e seu individualismo perverso,

fundado em favores e na inviabilização do bem-estar de todos. Além disso

27

questiona a legalidade do poder soberano, transpondo para a comunidade o ideal da

soberania. Desse ponto de vista crítico ele vai afirmar que a manifestação desta soberania é

a vontade geral e não os interesses privados. A vontade geral entendida como a

materialização da verdade e dos princípios universais será a maneira razoável de alcançar a

liberdade, a igualdade e do bem-estar de todos os homens.

Nesta condição de soberano, o povo passaria a desejar o interesse geral, como

prática da vontade coletiva que deste ponto de vista, não poderia ser transferida para

outrem, perturbada ou dividida. É por este motivo que o indivíduo deve renunciar a sua

diferença, para se conformar ‘harmoniosamente’ com o grupo, com os ideais de

solidariedade e fraternidade, com o intuito de transpor os obstáculos à preservação dos

direitos naturais.

Nessa perspectiva que contagiou o mundo ocidental moderno, será o contrato

social, expresso pelo sonho de Rousseau, o instrumento possível para a construção de uma

sociedade justa e pacífica. Para isso seria preciso forjar um tipo de homem íntegro,

trabalhador e ocupado com seus deveres, sem tempo para exageros e revoluções. Tais

ideais necessitam encontrar uma espécie de unidade em conceitos como bem e mal, como

justo e injusto, como certo e errado, devendo assim os indivíduos conformados em cidadãos

chegarem a um consenso.

“ a vontade geral é sempre certa, mas o julgamento que a

orienta nem sempre é esclarecido. É preciso fazê-la ver os objetos tais como são, algumas vezes tais como eles devem perecer-lhe, mostrar-lhe o caminho certo que procura, defendê-la da sedução das vontades particulares, aproximar a seus olhos os lugares e os tempos, pôr em balanço a tentação

das vantagens presentes e sensíveis com o perigo dos males distantes e ocultos.”

(Rousseau, 1983, p.56)

28

Ferreira (1993) observa que o medo que levou Hobbes a produzir o Leviatã talvez

tenha levado Rousseau a construir o contrato social e sua utopia de uma sociedade justa. 23

O medo da “des-ordem”, do desarranjo de uma pseudo unidade do corpo social e da

diferença que, nesse caso, se confunde com a idéia de desigualdade.

Nesse sentido, o homem ideal não pode ter tempo para “paixões exóticas”. Deve

usufruir dos benefícios do progresso, da ciência e da arte desde que freando o consumo de

futilidades e os prazeres extravagantes.

Rousseau investigou as cidades e visualizou as descontinuidades da experiência

urbana, sendo o primeiro a desenvolver uma teoria do cosmopolitismo. Sua análise

minuciosa das cidades vai levá-lo, conforme comenta Sennett (1988), a aprovar um tipo de

tirania: a tirania política.

Sennett observa que Rousseau foi o primeiro a ligar os códigos de crença pública na

cosmópolis com as experiências psicológicas básicas, como é o caso dos jogos e da

confiança entre os homens. Foi ainda,

“ o primeiro a relacionar a psicologia das cidades com uma

psicologia da criatividade. E tudo isto, tão analítico, tão esquadrinhado, estava no entanto dirigido a uma finalidade terrível: a partir de sua anatomia da cidade grande, Rousseau conclui que a espécie humana poderia travar relações psicologicamente autênticas o contrário do cosmopolitismo apenas impondo a si mesma a tirania política. E esta tirania

ele aprova.”

(Sennett, 1988, p.148)

Trata-se da formulação de uma teoria acerca da corrupção dos costumes e nesta

formulação, a corrupção vai aparecer como fruto de um desvio no contexto

23 Idem. p.128.

29

da “sobrevivência funcional”, quando os homens se dedicam aos prazeres e se afastam dos

princípios que regem o trabalho, a família e o dever cívico.

“ Cidadão é, pois, aquele que aprende a inibir sua inclinação

a centrar-se em si mesmo, se libertar de seus próprios limites, encontrando sua plenitude na experiência política. Na concepção rousseauriana de cidadania resta muito pouco, sem dúvida, para a vida particular. Espera-se que o indivíduo esteja sempre pronto a se submeter ao ideal comum, sempre a serviço da comunidade.”

(Ferreira, 1993, p.134)

Contudo, é necessário preparar esses homens para a realização concreta desse EU

comum dessa comunidade regida por sentimentos universais de amor, de compaixão e

de dignidade. Esse esforço consiste na formulação de uma pedagogia e de uma teoria

política que se desvencilha do caminho da razão e apela para o sentimento como sendo “o

verdadeiro instrumento do conhecimento”. (Rousseau, 1983).

A criança precisará ser educada para que não se torne má, já que o pressuposto

básico desta teoria é a crença da bondade natural do homem.

Rousseau supunha que os homens aceitariam espontaneamente a autoridade da

vontade geral e libertariam seu “próprio ser individual” encontrando assim a “plenitude” da

coletividade. Pode-se dizer que esta concepção de sociedade é marcada por uma dimensão

religiosa que se expressa nas idéias como as de sentimento universal, de amor por si e pelo

semelhante, de sacrifício e de compaixão. A compaixão, por exemplo, passa a ser

interpretada como um dever político que terá como pressuposto, a admissão dos desvalidos

ao campo da política, enfraquecendo com isso a antiga crença no consentimento e

fortalecendo a idéia da vontade geral.

30

“ com Rousseau, a repugnância inata ante o sofrimento

alheio fora arrancada dos recônditos da intimidade pessoal. Esse sentimento novo, a compaixão, é a chave para se compreender a mudança na própria concepção de povo no decorrer da Revolução Francesa: não mais só os cidadãos, mas eles somados aos pobres.” (Bresciani, 1994, p.115 - grifo meu)

O direito político, neste caso, passa a ser o poder de autoridade dessa totalidade

soberana. Ao contrário da renúncia, os indivíduos abrem mão de suas diferenças para se

conformarem a um conjunto que pretensamente pensa e age em uníssono.

Deste modo, os indivíduos também abririam mão de seus descontentamentos, de

suas divergências e da sua heterogeneidade em benefício dessa uniformidade.

Porém, suspeitando que o corpo social encontraria meios para escapar a este projeto

de modelização, Rousseau vai propor uma “profissão de fé” fixada através de “sentimentos

de sociabilidade” com os quais seria possível produzir o bom cidadão: um súdito fiel. E

como esses dogmas não poderiam ser impingidos a ninguém, eles deveriam funcionar como

um meio para incapacitar politicamente ou mesmo punir se necessário com a morte

àqueles que, depois de tê-los reconhecido, viessem a se conduzir como se neles não

acreditassem. 24

31

24 ROUSSEAU, J.-J. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p.144.

1.4. Uma Nova Mecânica do Poder

Foucault (1979), em sua análise microfísica do poder, desloca o problema

formulado pela concepção liberal do poder político. Problema este que consistiu em

interpretar o poder como um direito originário. Um direito que os homens possuiriam

como um bem que poderia ser transferível, ou alienável através de uma ordem

contratual, constituindo deste modo, uma soberania.

não se dá, não se troca, nem se retoma,

mas se exerce, só existe em ação

dessa delimitação forjada pela soberania jurídica, para pensar o poder enquanto técnica de

dominação.

Vale destacar que quando Foucault nos fala do poder, ele está se referindo a um

conjunto de ações, de práticas, de funções, que só existem em ação. O poder é uma força

25 , Foucault orienta sua pesquisa colocando-se fora

Partindo da afirmação de que o poder “

sempre em relação com outras forças. Neste caso descarta-se a idéia de pensar o poder

como algo exclusivo de uma classe sobre as outras ou de um indivíduo sobre os outros. O

poder é microfísico, circula, funciona e se exerce em rede. Enfim, o poder não é um modo

de sujeição global nem mesmo um sistema geral de dominação.

É por este motivo que Foucault vai afirmar que:

“ A análise em termos de poder não deve postular, como

dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a

unidade global de dominação: estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais.”

(Foucault, 1979, p.88)

Com base neste entendimento, Foucault analisa quatro papéis distintos delineados

pela história da teoria jurídico-política da soberania.

32

25 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. p.175.

Destaca que primeiramente esta teoria fazia referência a um mecanismo de poder

efetivo, o poder da monarquia feudal. Posteriormente serviu como instrumento e

justificativa para o estabelecimento das monarquias administrativas. Em terceiro lugar,

sobretudo a partir do século XVII, foi usada tanto como limite quanto como reforço do

papel real:

sistemas de poder dos séculos XVI e XVII.” 26 Por fim, Foucault aponta a presença da teoria

da soberania no século XVIII, atravessando o pensamento de Rousseau e de seus

contemporâneos, desempenhando seu quarto papel. O papel de construir o modelo das

democracias parlamentares em oposição às monarquias absolutas, administrativas e

ela foi o grande instrumento da luta política e teórica em relação aos

autoritárias. 27

Ao examinar estes quatro papéis desempenhados pela teoria jurídico-política da

soberania, Foucault observa que:

“ a relação de soberania, quer no sentido amplo quer no

sentido restrito, recobria a totalidade do corpo social. Com efeito, o modo como o poder era exercido podia ser transcrito, ao menos no essencial, nos termos da relação soberano- súdito.”

(Foucault, 1979, p.187)

Porém os séculos XVII e XVIII puderam inventar uma mecânica do poder bem

diferente e até incompatível com as relações de soberania do antigo regime. A presença

desta nova mecânica do poder não exclui a presença da soberania. Ao contrário, Foucault

por um

lado um discurso, e uma organização do direito público articulados em torno do princípio

do corpo social e da delegação de poder: e por outro, um sistema minucioso de coerções

disciplinares que garanta efetivamente a coesão deste mesmo corpo social.”

observa que as sociedades modernas a partir do século XIX apresentam

26 Idem p.187.

27 Idem. p.187.

33

Enquanto os sistemas jurídicos avaliam os sujeitos a partir de normas gerais e universais, a

disciplina redistribui, vigia e controla os corpos.

Para Foucault (1979), os processos de acumulação de homens e de capital não

podem ser separados. Ele observa que na combinação da exploração econômica com a

disciplina haverá um aumento de forças do corpo em termos econômicos de utilidade e uma

diminuição dessas mesmas forças, em termos políticos de obediência.

A disciplina dissocia o poder do corpo:

“ faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade”

que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita.”

(Foucault, 1977, p.127)

Separando o corpo daquilo que ele pode esse mecanismo do poder foi capaz de

fabricar corpos submetidos e adestrados: corpos dóceis.

Se anteriormente cabia aos mecanismos disciplinares a função de neutralizar os

perigos, fixar as populações inúteis ou agitadas, ao longo dos séculos XVII e XVIII sua

função principal passa a ser a de aumentar a utilidade possível dos corpos e fabricar um tipo

de homem necessário ao funcionamento e à reprodução da sociedade industrial, capitalista.

Deste modo,

“ a forma jurídica geral que garantia um sistema de direitos

em princípio igualitários era sustentada por esses mecanismos miúdos, cotidianos e físicos, por todos esses sistemas de micropoder essencialmente inigualitários e assimétricos que constituem as disciplinas. E se, de uma maneira formal, o

regime representativo permite que direta ou indiretamente, com ou sem revezamento, a vontade de todos forme a instância fundamental da

34

soberania, as disciplinas dão, na base, garantia da submissão das forças e dos corpos.”

(Foucault, 1977, p.195)

Cabe observar que se o contrato social elemento fundamental de sustentação da

idéia da vontade geral forja uma noção de cidadania fundamentada na igualdade

formal de todos os homens, as disciplinas garantem, na base, a submissão do corpo-

cidadão.

É interessante lembrar que a teoria política dos séculos XVII e XVIII obedeceu ao

esquema da associação contratual de sujeitos jurídicos, tendo como elemento constituinte

os indivíduos, e que esta mesma época desenvolveu uma técnica para construir esses

mesmos indivíduos como elementos correlatos de um poder e de um saber.

“ O indivíduo é sem dúvida um átomo fictício de uma

representação ideológica de sociedade; mas também é uma realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder que se chama disciplina.”

(Foucault, 1977, p.172)

Este indivíduo, e por que não dizer o cidadão que lhe é correspondente, é um efeito

de um conjunto de práticas forjadas pelo ideário liberal de sociabilidade do século XVIII e

posteriormente do século XIX, combinados com a eficácia “das novas tecnologias de

controle capazes de, mais do que apenas reprimir os indivíduos indóceis, engendrar uma

realidade social feita de corpos docilizados.” 28

Mas se o poder produz verdades, inventa realidades e objetivações, este indivíduo-

cidadão também será um dos instrumentos dessa produção, como também o será toda a

espécie de conhecimento que dele nos é possível ter.

28 Idem. p.187.

35

Deste ponto de vista, a cidadania, mais que uma concessão — ou mesmo uma conquista de direitos civis, políticos ou sociais através de um Estado precisará ser pensada como um dos artefatos deste poder. E o corpo-cidadão que lhe é correspondente, uma produção de poder-saber.

36

1.5. Consumo e Controle

Nosso século, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, produzirá uma nova versão de Estado e, conseqüentemente, uma nova interpretação do que sejam as “qualidades” ou os “estados” do cidadão. O modelo clássico liberal de Estado acaba entrando em colapso, a auto-regulação do mercado cai em descrédito, o capitalismo se reorganiza de modo que as trocas livres de propriedade, defendidas pelo princípio de mercado, sejam ultrapassadas pela consolidação dos monopólios industriais. O mundo do trabalho também sofre grandes modificações, reagindo à ordem burguesa e tentando criar meios para ultrapassar as adversidades e o massacre a que estavam submetidos os trabalhadores. Novas forças se instalam lentamente, dando visibilidade a um tipo de relação Estado-Sociedade que se materializará, principalmente, sob a forma das chamadas políticas sociais aplicadas através de múltiplas instituições — um conjunto de ramificações, uma espécie de rizoma — as quais Guattari (1986) denominou de “equipamentos coletivos”. 29

Estes equipamentos que atravessam o campo social, cujos efeitos aprendemos a conhecer pelo nome de “direitos sociais”, obtiveram, sem dúvida, algum sucesso tanto na Europa quanto nos Estados Unidos; porém, eles funcionaram muito mais a serviço das

novas castas burocráticas do que propriamente para contribuir com a construção de novas possibilidades de vida. Para Ferreira (1993), esse Estado, a partir de sua função primária — a segurança —, passa a oferecer escolas, saúde, transporte coletivo; passa também a se preocupar com questões de moradia, saneamento, alimentação etc. e com o

problema mais grave: “

manter reduzida a população desempregada, de forma

37

29 GUATTARI, F., ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986. p.147.

que não ofereça ameaça30 . Para os excluídos, dirá Ferreira, serão aplicados os programas assistenciais, de maneira que se mantenham minimamente satisfeitos. Porém, cabe acrescentar a esta observação que este novo tipo de configuração de Estado terá necessariamente que produzir suas margens, ou seja, aqueles que devem se subordinar aos circuitos econômicos, para posteriormente serem reincorporados aos diferentes modos de controle vigentes. A esta configuração de Estado corresponderá uma imensa máquina de produção de subjetividade. Conforme afirma Guattari (1986), uma subjetividade industrializada e nivelada a nível mundial, transformada em alicerce para a formação da força coletiva de trabalho e da força de controle coletivo. Para além da concepção de aparelhos ideológicos visíveis, Guattari (1986) irá sugerir um funcionamento de Estado a nível invisível de integração. Uma espécie de modelização que será capaz de interferir até mesmo nas nossas relações inconscientes, penetrando níveis extremamente miniaturizados, indo muito além do esquadrinhamento social e do comportamento. É importante que se observe, tomando como referência a pesquisa de Foucault, que os diferentes equipamentos de poder vão se encarregar dos corpos, não para simplesmente castigá-los ou reprimi-los, ou até mesmo para protegê-los, mas, ao contrário, se encarregam dos corpos para assegurar o funcionamento, a incorporação e a reprodução das forças dominantes. Para Foucault, nas redes do poder, os indivíduos não só circulam, como, também, se encontram sempre em posição de exercer este poder, de sofrer sua ação: “nunca são alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão31

38

30 FERREIRA, Nilda Teves. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p.182.

31 FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. p.183.

“ uma classe dominante não é uma abstração, mas também

não é um dado prévio. Que uma classe se torne dominante, que

ela assegure sua dominação e que esta dominação se reproduza, estes são efeitos de um certo número de táticas eficazes, sistemáticas, que funcionam no interior de grandes estratégias que asseguram esta dominação.” (Foucault, 1979, p.252)

Neste sentido, a própria concepção de Estado, no entendimento de Foucault,

aparecerá como uma espécie de abstração mistificada, cuja importância atual vai muito

além de uma unidade ou de uma individualidade, tal como nos habituamos a pensar.

Foucault (1979) ao seu modo, chamando nossa atenção para o fato do poder não

estar reduzido à violência, à exclusão ou à repressão, nos faz ver que o poder supõe

diferentes forças em relação, cujos efeitos são provocações, produções e inclusões. São

como que mutações que se projetam enquanto realidade social e psíquica, incidindo nas

nossas relações com o mundo e com as nossas produções, no nosso próprio corpo.

Tendo como referência a pesquisa de Foucault, Deleuze (1992) procura nos mostrar

como as chamadas sociedades disciplinares que atingiram seu apogeu no início do século

XX sofreram uma série de modificações, conhecendo novas relações de forças que se

precipitaram depois da Segunda Guerra Mundial.

Sociedades disciplinares, dirá Deleuze (1992), é o que deixávamos de ser, para dar

lugar ao aparecimento daquilo que o autor denominou de “sociedades de controle”.

“ A família, a escola, o exército, a fábrica não são mais

espaços análogos distintos que convergem para um proprietário, Estado ou potência privada, mas são agora

39

figuras cifradas, deformáveis e transformáveis, de uma mesma empresa que só tem gerentes.”

(Deleuze, 1992, p.224)

Podemos dizer que esta nova configuração de sociedade põe em cena — sob a

máscara do cidadão — o consumidor. Uma incorporação de um conjunto de idéias-práticas

fundadas no sentido da aquisição e do desperdício, do devoramento e do descarte, não

apenas de produtos, mas de idéias, imagens e até mesmo de pessoas.

Talvez seja este um dos motivos, como observa Deleuze, que fazem dos serviços de

vendas das empresas, a “alma dos negócios”.

“ Informam-nos que as empresas têm uma alma, o que é

efetivamente a notícia mais terrificante do mundo. O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a

O homem não é mais o

raça impudente de nossos senhores [

homem confinado, mas o homem endividado.”

(Deleuze, 1992, p.224)

]

Na concepção de Deleuze (1992), o capitalismo do século XIX — “de concentração,

para a produção e de propriedade” — cria a fábrica como meio de confinamento. O

capitalismo atual desloca-se da produção para a sobre-produção. Nem compra mais

matéria-prima nem vende produtos acabados:

“ compra produtos acabados, ou monta peças destacadas. O

que ele quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações. Já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo, e a fábrica cedeu lugar à empresa.”

(Deleuze, 1992, p.223-224)

40

Deleuze dirá que a esta nova configuração de sociedade correspondem, não os antigos

procedimentos de confinamento, mas o controle contínuo e a comunicação instantânea.

Corresponde um processo diferente de produzir sanções, educação, saúde etc. Este novo

tipo de processo parece incidir mais sobre o tempo do que sobre o espaço, como no antigo

controle dos corpos.

A informática pode ser um bom exemplo deste ideal de controle do tempo. Uma

espécie de ideal de abolição do tempo que almeja, como descreve Pelbart (1993), a

informação total,

“ a memória absoluta que pudesse não só prever um

acontecimento mas reagir a ele, antecipando-se a seu advento,

neutralizando-o. É evidente: o que já é conhecido de antemão não pode ser experimentado como acontecimento.” (Pelbart, 1993, p.33)

Peter Pelbart observa, tomando como referência o pensamento de François Lyotard

(1993), que esta predestinação do futuro, seu estoque numa memória de computador,

antecipa esse futuro em relação ao presente, enfraquecendo sua dimensão imprevisível:

presentificando-o.

Ainda é difícil pensar nos desdobramentos desta economia política e subjetiva. No

entanto, cabe destacar seu poder de reabsorção e incorporação, em tempo recorde, dos

processos de resistência. Processos que se caracterizam pela criação de sistemas de

referência estranhos a qualquer tipo de ordenação da subjetividade.

Não será impróprio dizer que a produção de civilidade e a homogeneidade têm

caminhado juntas desprezando tudo aquilo que se diferencia, o desconhecido, o

imprevisível — enfim, os processos de singularização.

41

Esse, no nosso ponto de vista, é o traço comum às diferentes modalidades de poder que compartilham o subsolo de produção do que podemos chamar, em acordo com Guattari, de sociedades capitalísticas. Trata-se de diferentes tipos de economia política e subjetiva que fizeram e fazem funcionar um conjunto de sistemas de valores, de máquinas de produção de subjetividade, de tecnologias que não consistiram unicamente numa produção de poder para controlar as relações sociais e as relações de produção. Constituem matéria-prima de toda e qualquer produção. (Guattari, 1986). Entretanto, é importante que se diga, em acordo com o pensamento de Félix Guattari, que nenhum desses processos de homogeneidade de produção de civilidade foi instalado sem que houvesse processos de resistência, confrontos efetivos e práticas ativas. No interior do pensamento e das práticas sociais, sempre surgiram e continuarão a surgir, linhas de fuga ativas, desvios e potências de resistência, por mais que muitas vezes o corpo social e o nosso próprio corpo emitam sinais de cansaço.

42

2. AVESSOS DO “AVESSO”: O EMBARAÇO DAS LINHAS DESOBEDIENTES

Quando começamos a entrar em contato com elementos que tomaram parte na

composição da produção da noção de cidadania no Brasil nos deparamos com uma

complexidade de discursos e práticas que entrelaçam esta noção aos processos de produção

política e subjetiva delineados pelo chamado ideário liberal europeu.

Observamos que, de um modo geral, as idéias que tomaram parte na constituição do

ideário europeu acabaram servindo de base de sustentação para quase todos os autores que

se dedicaram a pensar as relações sociais brasileiras, bem como a idéia de cidadania no

Brasil.

Tornou-se comum pensar que, no Brasil, tanto as injustiças sociais com todos os

seus efeitos colaterais, bem como os contornos bizarros e o perfil pouco ortodoxo do país

seriam fruto de uma espécie de receita liberal que haveria desandado. Ao serem misturados

os ingredientes do liberalismo europeu com os picantes temperos escravistas teríamos

produzido uma espécie de massa amorfa, cada vez mais destoante de sua fonte criadora, um

exemplar de disparidades e de contra-senso.

A sociedade brasileira, na maioria dos casos, acaba sendo tomada como uma

espécie de sociedade que se tornou avessa aos princípios do ideário moderno de

constituição da cidadania e o Brasil, uma espécie de “avesso” do mundo civilizado.

Disto tudo, uma coisa fica evidente e esta evidência foi bem observada por Roberto

Schwarz quando diz:

“ Envergonhando a uns, irritando a outros, que insistem na

sua hipocrisia, estas idéias — em que gregos e troianos não reconhecem o Brasil — são referências para todos.” (Roberto Schwarz, 1977, p.13)

43

Atraídos por estas evidências, enveredamos pelos “Avessos de Cidadania no Mundo Moderno”, procurando manter nossa arriscada intenção, qual seja, a de efetuarmos alguns desvios no decorrer daquele percurso.

O primeiro deles implicou em traçarmos as diferentes interpretações sobre os processos de produção da noção de cidadania em sua versão liberal moderna, procurando nos desvencilharmos de caminhos que nos conduzissem a uma pesquisa comparativa entre

a sociedade brasileira e os princípios do liberalismo europeu. Ao contrário, implicou um esforço para construir uma análise voltada para as conexões entre elementos do ideário liberal europeu, suas relações com a constituição de uma subjetividade capitalística e conseqüentemente com processos de produção da noção de cidadania enquanto um dos modos possíveis de produzir este tipo de subjetivação.

Vários foram os autores brasileiros que procuraram interpretar as relações entre o ideário europeu e a nossa sociedade. Selecionamos para este percurso em avessos de cidadania no Brasil elementos extraídos de pesquisas de autores que ao analisarem estas relações, problematizaram um tipo de compreensão do Brasil calcada em modelos importados da experiência moderna ocidental e apontaram —ainda que por diferentes vias

— que o encontro entre as idéias liberais e as relações sociais brasileiras teriam produzido obstáculos para o pleno desenvolvimento da idéia de cidadania no Brasil. Destacamos, neste caso, as análises de Schwarz (1977), DaMatta (1985) e Carvalho (1987) que serviram

e ainda servem de suporte para pesquisas mais recentes sobre o assunto.

Todavia, levando em conta as pistas traçadas por estes autores a respeito das relações entre o ideário liberal e a sociedade brasileira, pretende-se enfatizar que é do confronto que se estabelece entre esta diversidade de idéias — já que consideramos este campo de idéias como um campo de forças — que emergem tanto os sentidos e valores em conformidade com princípios de ordenação de uma

44

suposta “matriz cidadã”, quanto às linhas ‘desobedientes’ que por este motivo sofreram e ainda sofrem inúmeros embaraços. Tomaremos emprestadas algumas análises e alguns fragmentos de pesquisas de outros autores brasileiros que ao investirem na constituição de processos de transformação da nossa sociedade encontram no campo da cidadania um campo de luta. Destacamos, entre outras, as contribuições de Chalhoub (1990), Chauí (1993) e Coimbra (1993) através das quais pretende-se construir uma espécie de encaixe dentre as diferentes forças que da nossa perspectiva, constituíram uma “Vontade-de-Cidadania” no Brasil, por mais paradoxal que isto possa parecer.

45

2.1 Quem inventa o cidadão?

As primeiras interpretações formais de cidadania no Brasil vão aparecer a partir do

rompimento dos vínculos coloniais e da constituição da sociedade brasileira independente.

A primeira Constituição surge ainda no Império (1824) e, na sua formulação, a

maioria da população não é incluída na sociedade civil.

“ Os escravos e as mulheres não eram considerados

cidadãos. E os eleitores teriam que ter renda mínima de 100 mil a 200 mil réis. Para candidatar-se a deputado, precisava ter renda de 400 mil réis, e para senador, 800 mil réis. Era o chamado voto censitário, pois só podia votar e ser candidato quem tivesse renda. O sistema eleitoral censitário eliminava da vida política a maioria da população: os escravos, os que recebiam baixos salários, os pequenos sitiantes, os vaqueiros etc. Os pobres não tinham vez nem voz.” (Alencar, Ribeiro e Ceccon, 1990, p.93)

Com a passagem do regime monárquico para o regime republicano a noção de

cidadania também só será aplicada aos grupos e setores dominantes na sociedade brasileira.

Assim, conforme observa Engel (1993),

“ Além dos analfabetos, a Constituição de 1891, privava do

direito do voto os menores de 21 anos, as mulheres, os mendigos, as praças de pré e os membros das ordens religiosas, eliminando, portanto, da sociedade política a maior parte da população brasileira.”

(Engel, 1993, p.02)

Por trás da concepção restritiva de participação, havia a inspiração liberal da distinção

entre sociedade civil e sociedade política, discriminando os cidadãos em

46

ativos e inativos. Os cidadãos ativos possuíam os direitos civis e os direitos políticos. Os

chamados inativos — ou simples — possuíam apenas os direitos civis relativos a cidadania.

(Carvalho, 1987).

“ Só os primeiros são cidadãos plenos, possuidores da jus

civitatis do direito romano. O direito políticos, nesta concepção não é um direito natural: é concedido pela sociedade àqueles que ela julga merecedores dele. O voto, antes de ser direito, é uma função social, é um dever.”

(Carvalho, 1987, p.44)

Pareceria ‘razoável’ pensar que a República seria o momento certo e a cidade seria o

local ideal para o desenvolvimento da cidadania. Porém, nem sempre a ‘regra’ corresponde

à cotidianeidade e, nestes casos, os efeitos podem parecer um verdadeiro contra-senso.

É o que nos chama atenção no estudo intitulado “Os Bestializados: o Rio de Janeiro

e a República que não foi”, onde José Murilo de Carvalho (1987) ao investigar as relações

entre a República, a cidade do Rio de Janeiro e a Cidadania, indicará um processo de

dissociação entre essas três concepções históricas.

Observa-se que a República, ainda que tenha se apresentado no Brasil como um

regime político voltado para a liberdade e para a igualdade, acabará sendo consolidada com

“ um mínimo de participação eleitoral, sobre a exclusão do envolvimento popular no

governo.” 32 A noção de igualdade será interpretada como relação de semelhança entre

pares e as diferenças, além de não serem reconhecidas, precisarão ser muitas vezes

excluídas e até mesmo punidas.

Em tese, observa Carvalho, deveria haver uma relação de positividade e de reforço

entre o regime político, a cidade e a ampliação da cidadania. Porém, tomando o Rio como

centro urbano que apresentava condições favoráveis para a

47

32 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia das Letras, 1987. p.161.

expansão do ideário europeu e para o crescimento da participação política — pois além de

ser a maior cidade era também o centro político e administrativo da República, cujos efeitos

refletiam em todo país — o autor indicará que as relações entre a República e a produção

da cidade, agravaram a dissociação entre as duas e a cidadania.

Embora seu estudo tenha sido voltado para a cidade do Rio de Janeiro, podemos

apontar dois aspectos que, do nosso ponto de vista, vão reaparecer em diferentes linhas de

interpretação dos processos de constituição da sociedade brasileira. E, mais do que isso,

sugerem uma espécie de nódulo onde ao mesmo tempo se concentram e se multiplicam as

diferentes forças que iriam traçar posteriormente um sentido hegemônico para a noção de

cidadania no Brasil.

Destacamos primeiramente a afirmação da disparidade entre o cumprimento da

“agenda do liberalismo europeu” 33 e o cotidiano da sociedade brasileira. E ainda, que esta

disparidade se torna visível através do combate entre as forças de ordenação de um mundo

civilizado ideal e os modos particulares de vida que escapam ao compromisso voluntário

com a lei e aos mecanismos de controle e domesticação do corpo social.

A cidade será neutralizada politicamente através do impedimento e da repressão da

participação popular além de ser transformada em símbolo de poder, de civilização e de

progresso inviabilizando a incorporação do povo na vida política e social.

Carvalho observa,

“ Domesticada politicamente, reduzido seu peso político pela

consolidação do sistema oligárquico de dominação, à cidade pôde ser dado o papel de cartão-postal da República. Entrou- se de cheio no espírito francês da belle

48

33

SANTOS, Wanderley Guilherme. Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo: Ed. Duas Cidades, 1978. p.74.

époque, que teve seu auge na primeira década do século (Carvalho, 1987, p.39)

Enquanto isto, havia algo no comportamento do povo que desencaixava das idéias e

da expectativa dos reformistas — pertencessem a elite ou a classe operária — que, embora

divergentes entre si, compartilhavam o sonho de produzir o cidadão ativo. Um cidadão que

tivesse consciência dos seus deveres e que fosse capaz de se organizar e agir em prol de

seus interesses. (Carvalho, 1987).

“ Definitivamente, nem para os estrangeiros (que tinham em

vista os modelos de seus países), nem para os republicanos radicais (que talvez acalentassem modelos ainda mais idealizados), a população do Rio de Janeiro passava no teste da cidadania. E, no entanto, assim como o Império copiara o modelo europeu das monarquias parlamentares, a República se aplicara mais ainda em importar a parafernália institucional da república democrática norte-americana. Havia uma constituição que garantia os direitos civis e políticos dos cidadãos, havia eleições, havia um parlamento, havia tentativas de formar partidos políticos. A mesa estava posta, por que não apareciam os convivas? Onde estavam eles? (Carvalho, 1987, p.74)

Tomando como base um estudo feito por Eduardo Silva (1984) intitulado “As

queixas do Povo: Massas Despolitizadas e Consolidação da República” onde o autor

investiga a primeira década do século, Carvalho dirá que o povo parecia se comportar mais

como súdito do que como cidadão. As queixas que aparecem no estudo de Silva não

revelam sinais de oposição ao estado tampouco reivindicações de interferência nas decisões

do governo, participação ou formas de representação. O povo parecia não se julgar com

direito de influenciar nas decisões do Estado se colocando enquanto objeto das ações

políticas.

49

Entretanto, ao analisar a Revolta da Vacina (1904) — ação coletiva que continua sendo

matéria de estudo de muitos pesquisadores brasileiros 34 — Carvalho vai sublinhar a

existência de uma espécie de “pacto informal”, um entendimento por parte do povo, do que

seria considerado uma interferência legítima do governo no seu cotidiano.

“ Quando parecia à população que os limites tinham sido

ultrapassados, ela reagia por conta própria, por via da ação direta. Os limites podiam ser ultrapassados seja no domínio material, como nos casos de criação ou aumento de impostos, seja no domínio dos valores coletivos.”

(Carvalho, 1987, p.138)

Por um lado, a tradição colonial e escravista criara uma obstrução no campo da

participação civil e, segundo o autor, viciara as relações do povo com seus governantes.

Assim, esta relação será caracterizada por uma oscilação permanente entre o cinismo e a

ironia, não havendo maiores vínculos ou compromissos com a lei ou com seus

representantes que, ao combinarem a ordem com a desordem, a lei com a transgressão, vão

produzir não só uma espécie de contra-senso em relação aos ideais republicanos, mas

também uma descrença total por parte da comunidade.

A ‘República’ vai destoar das ‘repúblicas’ que vão se multiplicar na cidade,

deixando os observadores estrangeiros e os intelectuais brasileiros embaraçados na busca

do protótipo cidadão europeu.

“ Impedida de ser república, a cidade mantinha suas

repúblicas, seus nódulos de participação social, nos bairros, nas igrejas, nas festas religiosas e profanas e mesmo nos cortiços e nas maltas de capoeiras. Estruturas

50

34 Ver em Carvalho (1987) onde o autor sugere um roteiro de leitura sobre o tema.

comunitárias que não se encaixavam no modelo contratual do liberalismo dominantes na política.”

(Carvalho, 1987, p.163)

Serão os espaços de participação comunitária que vão aos poucos delinear o que o

autor denomina de “rosto real da cidade”, ultrapassando os antagonismos reforçados pelo

mundo da política.

transformar sua capacidade de

participação comunitária em participação cívica35 e que as relações entre esta, a

República e a Cidadania se mantiveram “distanciadas” ou “perversamente entrelaçadas”.

Carvalho conclui que a Cidade não conseguiu

Uma cidade avessa à “República” e um citadino ao avesso do “cidadão”.

Não há dúvida, entretanto, que esta “dissociação” e este “entrelaçamento” de que

nos fala o autor, se analisado do ponto de vista de sua produtividade, serão tomados como

efeitos — e não como defeitos — de uma série de mecanismos de ordenação do corpo

social e que ao atravessarem este corpo reforçaram certas práticas, enfraqueceram outras

tantas e produziram efeitos hegemônicos, porém instáveis de dominação.

Ainda que aos ‘trancos e barrancos’, as hierarquias sociais rígidas e o aparato

igualitário jurídico-legal republicano mantiveram um desejo comum: a ‘ordenação’ deste

corpo social, visando a transformação de segmentos da população em homens disponíveis

para o mercado de trabalho.

Como bem observa Roberto Schwarz (1977), os princípios do liberalismo europeu,

combinados com princípios escravistas — e seus respectivos defensores — criaram um

clima de tensão no plano das convicções e das práticas na sociedade brasileira.

51

35 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Cia das Letras, 1987. p.164.

Um escravo, por exemplo, sendo uma propriedade, poderia ser vendido, mas não

despedido (Schwarz, 1977).

“ O trabalhador livre, nesse ponto, dá mais liberdade a seu

patrão, além de imobilizar menos capital. Este aspecto — entre muitos — indica o limite que a escravatura opunha à racionalização produtiva.”

(Schwarz, 1977, p.15)

Porém, tanto o escravismo como a instituição do favor na sociedade brasileira, que

pareceriam à primeira vista incompatíveis com as idéias liberais, podiam muitas vezes

encontrar justificativas nestas mesmas idéias e razões européias. Sem prejuízo de existir,

observa Schwarz,

mãos dadas.” 36

Para o autor, as idéias da chamada modernidade ocidental vão penetrar no contexto

brasileiro de forma desencaixada. Nesse universo-diverso elas ganham novos sentidos,

novas funções chegando muitas vezes a produzir uma espécie de “coexistência

estabilizada”.

o antagonismo se transforma em fumaça e os incompatíveis saem de

Schwarz comenta:

“ Ao legitimar o arbítrio por meio de alguma razão

“racional”, o favorecido conscientemente engrandece a si e ao

seu benfeitor, que por sua vez não vê, nessa era de hegemonia das razões, motivo para desmenti-lo.”

(Schwarz, 1977, p.17)

Contudo, vale destacar que se não temos motivos para ter orgulho desse embaralhamento

das idéias também não temos motivo para recair em suspeitas de possíveis “defeitos

especiais” brasileiros. Pois, conforme Schwarz pode observar, as

52

36 SCHWARZ, Roberto. As idéias fora do lugar. In: ——. Ao vencedor as batatas. São Paulo:

Livr. Duas Cidades, 1977. p.17.

idéias da burguesia, em princípio voltadas contra o privilégio, também acaba por produzir

uma série de antagonismos europeus.

“ para apreciar devidamente a sua complexidade considere-

se que as idéias da burguesia, a princípio voltadas contra o privilégio, a partir de 1848 se haviam tornado apologéticas: a vaga das lutas sociais na Europa mostrara que a universalidade disfarça antagonismos de classe. Portanto, para bem lhe reter o timbre ideológico é preciso considerar que o

nosso discurso impróprio era oco também quando usado propriamente.”

(Schwarz, 1977, p.19)

Importa-nos observar que, para além da ‘propriedade’ ou ‘impropriedade’ das

formas da Cidade, do Regime Político e da Cidadania, estão as relações entre as diferentes

forças que lhes emprestaram sentido.

Trata-se do confronto entre o que podemos chamar de uma ‘vontade’, expressa a

partir das instituições normativas que - sutilmente ou pela violência, combinando o tronco

e a pena - visaram impor seus objetivos, suas metas a serem cumpridas e seus alvos

fictícios. E as estratégias coletivas — conjunto de forças totalmente heterogêneas —

contrárias ou alheias a estes sistemas de ordenação.

Vale ressaltar que é desse confronto que surgem os diferentes modos de vida que

tanto estabeleceram uma relação de complementaridade e de dependência aos princípios de

ordenação de uma ‘subjetividade cidadã’, quanto aqueles totalmente alheios aos modos

dominantes de subjetivação que continuaram a inventar seus modos próprios e seus rumos

imprevisíveis.

Mas como o imprevisível poderia compor com os ideais de ‘civilização’ e

‘progresso’?

53

2.2 As Forças de Ordenação e de Higiene

Desde o final da escravidão o conceito de trabalho começa a ser forjado como sinal

de dignidade e de civilidade, como elemento capaz de despertar sentimentos de

nacionalidade e de superar os sintomas de “preguiça” e o “marasmo”, atribuídos à

sociedade colonial, procurando desta forma

costumes civilizados — e do capital — das nações européias mais avançadas.” 37

abrir as portas do país à livre entrada dos

Assim observa o historiador Sidney Chalhoub:

“ a definição de homem de bem, de trabalhador, passa

também pelo seu enquadramento em padrões de conduta familiar e social compatíveis com sua situação de indivíduo integrado à sociedade, à nação.”

(Chalhoub, 1986, p.30)

Mas este movimento de ordenação terá que ser completado através da vigilância

policial, no sentido de corrigir e transformar os “vadios”, os “promíscuos” e os

“desordeiros” em trabalhadores e em homens civilizados.

Estudando a relação entre escravos, libertos e republicanos na cidade do Rio de

Janeiro, Chalhoub (1988) vai nos mostrar o quanto as “vítimas da escravidão” eram

consideradas como uma ameaça para a cidade, eram concebidas como pessoas

despreparadas para viver em sociedade. Tidos como indóceis, esses homens libertos da

escravidão precisavam ser transformados em “trabalhadores livres”.

As “almas negras” ameaçavam os republicanos e esse medo cresceu com o término

da escravidão e com o fim da Monarquia. (Chalhoub, 1988).

54

37 CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.29.

Se o Imperador vendia uma imagem de defensor da libertação dos negros, os

primeiros republicanos vão, ao contrário, estimular através dos discursos de higiene, de

moral, de civilização e progresso, o desejo de eliminar as diferenças através da repressão e

da amputação “

Porém, será ainda no Império que o termo “classes perigosas” serve como um dos

motivos de debate na Câmara de Deputados nos meses que se seguem à abolição da

escravidão.

de opções indesejáveis de sobrevivência.” 38

Esse debate inspirado em idéias francesas irá concluir que:

“ a principal virtude do bom cidadão é o gosto pelo trabalho, e este leva necessariamente ao hábito da poupança, que, por sua vez, se reverte em conforto para o cidadão.” (Chalhoub, 1990, p.06)

Logo, o espírito desinteressado pela acumulação ou o corpo apaziguado frente a

uma vida pobre — já que não tem gosto pelo trabalho — será em si e por si um ocioso-

vicioso, potencialmente um malfeitor.

Chalhoub conta que, nessa ocasião, os deputados preocupados com os efeitos da

abolição na organização do trabalho vão correndo consultar suas “fontes européias” em

busca de soluções para as suas preocupações. Chegam a M. A. Frégier — um funcionário

da polícia de Paris que, a partir da análise de inquéritos, escreveu um livro sobre classes

perigosas nas grandes cidades. Frégier, ao tentar detalhar uma variedade de malfeitores,

acabou produzindo um relato sobre a pobreza parisiense, sem apontar uma delimitação

nítida entre classes perigosas e classes pobres.

55

38 CHALHOUB, Sidney. Classes perigosas. In: æ æ . Trabalhadores, classes perigosas. Campinas: Arquivo Edgard Leuenroth, UNICAMP/IFCH, 1990. p.06.

Onde Frégier havia empacado, diz o autor, os nossos deputados encontram

inspiração para “filosofar sobre a questão do trabalho, da ociosidade e da criminalidade

na sociedade brasileira.” 39

Chalhoub comenta que os parlamentares, depois de construírem uma verdadeira

Babel das idéias produzidas por Frégier, chegarão à conclusão de que: os pobres são, por

definição, perigosos. 40

Mas este “quiprocó de idéias” 41 não se reduz a uma mera aplicação desinteressada

de determinados conceitos. Ele se configura enquanto um tipo de prática que entra em

funcionamento, criando, distribuindo e fixando valores no corpo social.

Nesse caso, foram os negros que se transformaram em “principais suspeitos” e a

“lei” no instrumento de intervenção sobre esta população considerada “ociosa-viciosa”,

com vistas a transformá-la em trabalhadores honestos.

Essas idéias aparentemente sem nexo, vão produzir conseqüências graves na história

do país.

“ Por exemplo, elas têm servido como um dos fundamentos

teóricos da estratégia de atuação da polícia nas grandes cidades brasileiras, desde pelo menos as primeiras décadas do século XX. A polícia passou a agir a partir do pressuposto da suspeição generalizada, da premissa de que todo cidadão é suspeito de alguma coisa até provar em contrário.” (Chalhoub, 1990, p.06)

Conforme aponta Chalhoub,

56

39 Idem, p.05.

40 Idem, p.06.

41 O termo é utilizado por Roberto Schwarz (1977) no ensaio “As idéias fora do lugar” — expressando o que o autor denomina de disparidades entre as idéias liberais e seus diferentes usos no Brasil. p.18.

“ Se não era mais viável acorrentar o produtor ao local de

trabalho, ainda restava amputar-lhe a possibilidade de não estar naquele lugar. Daí o porquê, em nosso século, de a questão da manutenção da “ordem” ser percebida como algo pertencente à esfera do poder público e suas instituições específicas de controle — polícia, carteira de identidade, ”

carteira de trabalho etc

(Chalhoub, 1990, p.07)

Ao narrar a destruição do “Cabeça de Porco”, o cortiço mais famoso do Rio de

Janeiro do século XIX, Chalhoub — observando a atualidade dessas intervenções violentas

nos centros urbanos brasileiros — indica dois eixos fundamentais que, do seu ponto de

vista, marcaram a produção histórica dessa maneira de encarar a diversidade urbana.

O primeiro diz respeito à própria conexão da idéia de pobreza com a idéia de perigo.

O segundo, será a idéia de uma “administração” da cidade pautada em uma “racionalidade”

técnico-científica. Esta combinação será atualizada sob a forma de intervenções violentas

sobre as habitações coletivas. Essas habitações abrigavam tanto os imigrantes portugueses

quanto os escravos alforriados, além dos escravos cativos que conseguiam autorização para

viver “sobre si” tornando-se indiferenciados junto à população livre da cidade. Esta mistura

vai corroendo, aos poucos, sentidos e valores impostos pela escravidão, mas não se

constitui em reforço para os ideais de “assepsia” fixados pela república.

Chalhoub vai nos mostrar como a luta dos negros pela liberdade estava intimamente

ligada à construção das habitações coletivas. Tais habitações na cidade do Rio de Janeiro

serviam como território de ajuda mútua, de solidariedade, de esconderijo e de resistência. E

este parece ter sido mais um dos motivos para o acirramento da violência das primeiras

administrações republicanas contra seus habitantes.

57

“ Eles não simplesmente demoliam casas e removiam

entulhos mas mais do que isso, procuravam desmontar cenários e esvaziar significados penosamente construídos nas longas lutas contra a escravidão.”

(Chalhoub, 1990, p.10)

De um modo geral, a violência contra o diferente toma graves proporções nas

primeiras administrações republicanas.

Conforme observa Engel (1993), a política dedicada, por exemplo, aos alienados

pelos governos republicanos também estava inserida numa perspectiva mais abrangente que

visava a destruição de valores, memórias e práticas de liberdade dos chamados setores

populares da cidade.

Para isto, dirá a autora,

“ estes governos muniram-se de um discurso pautado no

tripé ciência, progresso e civilização inspirado, sobretudo, nas

concepções elaboradas pela medicina social.” (Engel, 1993, p.05)

Engel destaca — tomando como base o estudo de Clementina P. Cunha intitulado

O Espelho do Mundo” (1986) — que com o crescimento das cidades, a desagregação dos

valores escravistas, a implantação de novas medidas disciplinares, uma imagem de

“ameaça” rondará o corpo social.

Será então necessário conter a multidão disforme que se espalha e, por contágio,

dissemina a “desordem”, a “revolta”, a “doença” e a perturbação da ordem pública. Será

necessário produzir meios de normatização dos comportamentos tanto individuais quanto

do corpo social.

Analisando um projeto de postura formulado por Pereira Rego (1866), Chalhoub

(1990) vai nos mostrar como o Vereador — e Presidente da Junta de

58

Higiene — utilizando a oposição entre “civilização” e “tempos coloniais”, vai estabelecer a

existência de dois princípios básicos de progresso, a saber: que existiria “um caminho da

civilização” válido para qualquer povo e que seria a “higiene pública” o requisito para

qualquer nação “prosperar”, como os “países cultos”. 42

Essa combinação de um “modelo de aperfeiçoamento moral e material” com a “ação

saneadora”, vai aos poucos legitimar o discurso científico como responsável pela

transformação do país numa “nação civilizada”.

Esses propósitos “científicos” servirão de suporte para as ações sanitárias

implementadas pelo governo republicano, caracterizadas pela estigmatização, pela

suspeição e pela despotencialização das ações coletivas enquanto práticas de cidadania.

Como observa Chalhoub, embora seja necessário reconhecer que tenham existido

práticas de promoção de mudanças e de combate a “flagelos humanos” por parte das

administrações públicas republicanas, não é possível apagar o fato de que muitas delas

tiveram “

preços sociais excessivamente elevados.” 43

Ele acrescenta:

“ O mais trágico em toda essa história é que a alegação de

‘cientificidade’, de neutralidade nas decisões administrativas,

traz sempre em seu cerne a violência contra a cidadania.” (Chalhoub, 1990, p.21)

Mas esse esquema de dominação, como nos alerta Foucault (1977), não conseguiria

se manter baseado apenas em mecanismos repressivos. Não será por

59

42 CHALHOUB, Sidney. Classes perigosas. In: æ æ . Trabalhadores, classes perigosas. Campinas: Arquivo Edgard Leuenroth, UNICAMP/IFCH, 1990. p.13. 43 Idem, p.20.

acaso que os corpos serão o alvo da violência, mas também do aprimoramento, do

gerenciamento e do controle.

Conforme observa Chalhoub (1986) ao investigar as condições específicas da

sociedade carioca, o controle social da classe trabalhadora vai compreender,

“ todas as esferas da vida, todas as situações possíveis do

cotidiano, pois este controle se exerce desde a tentativa de disciplinarização rígida do tempo e do espaço na situação do

trabalho até o problema da normatização das relações pessoais ou familiares dos trabalhadores, passando, também, pela vigilância contínua do botequim e da rua, espaços consagrados ao lazer popular.”

(Chalhoub, 1986, p.31)

Os homens anteriormente dispersos terão que ser transformados em “cidadãos”.

Mas a idéia de cidadania que lhes corresponde será forjada como uma espécie de matéria

jurídico-moral inerte, anterior e exterior às relações sociais.

60

2.3 Forças do Desenvolvimento e da Segurança

Com a concentração do processo de urbanização nos limites do Sul do país nas

áreas ligadas ao café e nas áreas portuárias, será produzida fora dessas áreas uma

marginalização social progressiva tanto das cidades como das classes sociais

subordinadas e das populações, no quadro brasileiro de desenvolvimento industrial44 .

A repressão ao movimento operário já havia tomado graves proporções nas duas

primeiras décadas do século fortemente marcadas pelas greves.

Será a partir de 1930 que começará a ser implementada no Brasil uma série de

medidas trabalhistas conciliatórias privilegiando os interesses dominantes através de

dispositivos institucionais — como o sistema previdenciário, o sistema público sanitário

etc. — apaziguadores do movimento operário. Também serão oficializados os canais de

reivindicações das categorias, dentro dos parâmetros permitidos pelo Estado.

“ Tais ações e políticas se congelam em novas instituições,

órgãos e programas, cuja verticalidade e desligamento abissal das bases sociais que pretendem enquadrar, só fazem exprimir a exclusão das classes sociais subordinadas desta Ordem, contraditoriamente trancadas em corporativos interesses da classe dominante.”

(Luz, 1982, p.68)

A ampliação do voto às mulheres, a instituição do voto secreto, entre outras,

cumprirão a pauta de reivindicações da chamada revolução de 1930. Importava ao Estado,

naquele momento, ‘conceder’ aos trabalhadores alguns direitos políticos e

61

44 LUZ, Madel T. Medicina e ordem política brasileira: políticas e instituições de saúde (1850- 1930). Rio de Janeiro: Graal, 1982. p.45.

sociais para poder consolidar o modo paternalista — expresso na figura de Getúlio Vargas — e reapropriar as diferentes formas de luta e de expressão política da sociedade sob a forma de reivindicações corporativas. Cabe observar que este Estado para ser reconhecido como provedor terá que investir na infantilização, na disciplinarização e na representação como ingredientes básicos para a contenção do corpo social e na cristalização da noção de cidadania enquanto um problema de aquisição a partir, por exemplo, do exercício de uma profissão reconhecida e regulamentada pelo Estado 45 . A infantilização, conforme escreve Guattari (1986), talvez seja a função mais importante da economia política e subjetiva produzida pelo capitalismo consistindo em

fomentar, manter e reproduzir relações de dependência à idéia de Estado. Em conexão com os mecanismos de infantilização, Guattari vai apontar mais duas funções desta economia. A primeira delas é a segregação e consiste na produção de sistemas de hierarquias e escalas de valores que servem para posicionar os indivíduos e as camadas sociais. Vinculada a esta função de segregação se instala a culpabilização. Esta última consiste em criar uma

imagem-referência a partir da qual deve-se “agir” e “pensar”. Pressupõe

a identificação

de qualquer processo com quadros de referência imaginários, o que propicia toda espécie

de manipulação.” 46

Este modo de produzir subjetividade projeta uma Ordem na realidade material e psíquica. Sustenta uma série de empreendimentos de nivelação da subjetividade “responsáveis pelo fato de o imperialismo se afirmar hoje através da manipulação da subjetividade coletiva, no mínimo, tanto quanto através da dominação econômica.” 47

62

45 O que Wanderley Guilherme dos Santos chamou de “cidadania regulada”. Uma forma de

sistema de estratificação ocupacional e

definido por norma legal.” Em: SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Cidadania e justiça. Rio

cidadania cujas “raízes” são encontradas em “

um

de Janeiro: Campus, 1979. p.160.

46 GUATTARI,F.,ROLNICK, S. Micropolítica: cartografias do desejo.Petrópolis:Vozes, 1986.p.41 47 Idem, p.50.

Essa avalanche capitalística se alastrou por todos os modos de subjetivação e seria tolice

pensar que no Brasil, por algum motivo especial, teríamos nos livrado da interferência

desses mecanismos de congelamento do corpo social.

Porém, a sociedade brasileira considerada sui generis, complexa e caracterizada por

suas complementaridades e seus diferentes e até paradoxais modos de viver, manteve seu

desconserto em relação aos pressupostos básicos do capitalismo mundial.

Assim se configura do nosso ponto de vista, de forma resumida, o modo como

alguns autores brasileiros contextualizam as relações sociais no Brasil.

A hipótese de trabalho formulada por Roberto DaMatta (1985), por exemplo,

seguindo pistas da pesquisa do antropólogo Louis Dumont (1978), consistirá em distinguir

duas maneiras de filiação à sociedade brasileira. Uma, hierarquizada e relacional — a

sociedade de pessoas — próxima ao que Dumont denomina de sociedades holistas e outra

igualitária e homogênea: a sociedade individualista.

Desta mistura resulta um sistema social onde convivem múltiplas concepções de

sociedade, de política, de economia e, naturalmente de cidadania.” 48

Para DaMatta, por exemplo,

“ O papel de cidadão é muito complicado no caso brasileiro.

Se ele faz parte do ideário da ética pública e é decantado nos comícios políticos como parte de programas eleitorais, se ele — ainda — faz parte das constituições que dizem que todos são iguais perante a lei e o tomam como a unidade básica sobre a qual se funda o direito, as leis e as prerrogativas críticas de todos os brasileiros, não é assim que a cidadania como papel social é vivida no cotidiano da sociedade brasileira.” (DaMatta, 1985, p.67)

63

48 DaMatta, Roberto. A questão da cidadania num universo relacional. In: ——. A casa e a rua. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1995. p.66.

Esta análise toma como referência o conceito de cidadania em sua versão moderna

ocidental implicando de um lado a idéia fundamental de indivíduo e de outro, as regras

gerais e universais. Neste sentido indica que haveria no Brasil uma espécie de desvio da

noção de cidadania em relação a este sentido hegemônico “universalista” e “nivelador” 49 ,

engendrado pelas sociedades européias e a norte-americana.

Nestas sociedades, conforme indica a perspectiva apresentada, o indivíduo-cidadão

é o elemento mais importante e o individualismo é criador de leis que visam salvaguardar

as totalidades. Aqui no Brasil, a unidade básica da comunidade não será o indivíduo

Num caso o que conta é o

cidadão, mas as pessoas, as relações, os grupos, as famílias. “

indivíduo e o cidadão; noutro, o que vale é a relação.” 50 Para este último caso o indivíduo

que não possui nenhuma relação de prestígio com pessoas ou com instituições é visto como

um inferior e sujeito às leis impessoais.

“ Mas se a categoria profissional (os trabalhadores

como cidadãos e não mais como empregados) tem uma ligação forte com o Estado (ou governo), então, eles podem ser diferenciados e tratados com privilégios. É a relação que explica a perversão e a variação da cidadania, deixando perceber o que ocorre no caso das diversas categorias ocupacionais no Brasil, onde elas formam uma nítida hierarquia em termos de sua proximidade do poder, ou melhor, daquilo que representa o centro do poder.” (DaMatta, 1985, p.66)

Para o autor a soma dos ingredientes tomistas e centralizadores brasileiros com os

ingredientes liberais puritanos deu origem a diferentes formas de filiação à sociedade

brasileira: a outras formas de cidadania. (DaMatta, 1985).

DaMatta interroga:

49 Idem, p.64. 50 Idem, p.66.

64

“ Será que podemos falar de uma só concepção de

cidadania como forma hegemônica de participação, ou temos que necessariamente discutir a hipótese de uma sociedade com múltiplas formas e fontes de cidadania, tantas quantas são as esferas de ação que existem em seu meio?”

(DaMatta, 1985, p.66)

Esta análise apresentada por DaMatta nos chama a atenção na medida em que

investe na noção de cidadania para além de seu caráter meramente jurídico-moral, abrindo

um campo de discussão importante no âmbito da sociologia e para o nosso caso, no âmbito

da produção de subjetividade.

Porém, do nosso ponto de vista, ela sofre uma certa instabilidade na maneira como

vai encarar o processo de produção da noção de cidadania no Brasil.

Embora procure apontar a todo momento para o sentido da complementaridade

dessas duas maneiras de filiação à nossa sociedade — moderna e relacional — acaba por

enfatizar o modo relacional como o modo mais pregnante na constituição da sociedade

brasileira 51 além de atribuir a este modo os sentidos e valores negativos que emergem dessa

combinação.

A “capacidade de relação”, do ponto de vista dessa interpretação, cria uma posição

linguagem de conciliação, negociação,

intermediária que se traduz enquanto

gradação

52 , levando DaMatta a afirmar:

“ Sustento que

isso

é

tão

crítico que

explica

a

popularidade de figuras como o malandro e o político

65

51 Ver, a respeito, a análise realizada por Luis Cláudio Figueiredo em Modos de Subjetivação no Brasil e outros ensaios. São Paulo: Escuta: EDUC, 1995. p.44.

52 DAMATTA, Roberto. A questão da cidadania num universo relacional. In: ——. A casa e a rua. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1995. p.79.

(carioca ou mineiro) que estão sempre manipulando com habilidade os dois lados.”

(DaMatta, 1985, p.79)

Sob este ponto de vista as “cidadanias” defendidas pelo autor — efeito do que ele

denomina de combate entre o mundo público das leis universais e o universo privado das

relações — surgem como uma escolha dos membros da sociedade de acordo com o

contexto e os lugares que desejam ocupar, produzindo variedades de cidadania.

Diz DaMatta:

“ Assim, se sou um cidadão na festa cívica da Independência

e no comício político, não quero de modo algum ser apenas cidadão quando estou às voltas com a polícia num caso de roubo, ou me vejo tendo que tomar um empréstimo bancário ou, ainda, tendo que dar uma explicação junto ao Imposto de Renda.”

(DaMatta, 1985, p.72)

Do nosso ponto de vista, cabe tomar um rumo bem diferente deste percorrido por

DaMatta e afirmar que os efeitos do conjunto heterogêneo de discursos e de práticas que

vão objetivar as diferentes formas de cidadania no Brasil precisam ser analisados segundo

sua produtividade e sua função estratégica.

Trata-se do interesse pelo tipo de técnica que fazem funcionar, pelo modo como

algumas formas são valorizadas e outras não. De interrogar até que ponto quando as

reivindicamos e as utilizamos, veiculamos, sem perceber, conforme observa Guattari

em relação aos conceitos de cultura e de identidade cultural:

“ modos de representação da subjetividade que a reificam e

com isso não nos permitem dar conta de seu caráter composto,

elaborado, fabricado, da mesma forma

66

que

capitalísticos.”

qualquer

mercadoria

no

campo

dos

mercados

(Guattari e Rolnik, 1986, p.70)

Assim, interessa-nos problematizar o modo como essas diferentes formas de

cidadania são consumidas. O quanto são capazes de ser fonte de criação de novos

horizontes subjetivos e o quanto são absorvidas de maneira passiva e conservadora. É neste

sentido que temos procurado pensar os efeitos da ação de práticas hierarquizadas e

autoritárias que penetraram sutilmente ou pela força todo o corpo social brasileiro e

de como os discursos sobre a cidadania não só expressam e traduzem estas práticas, como

as fazem funcionar. Trata-se, do nosso ponto de vista, de um jogo de forças complexo,

descontínuo e instável em que estes discursos se tornam ao mesmo tempo instrumento e

efeito do poder, do mesmo modo que podem se tornar obstáculo ou modo de resistência as

estratégias de modelização e controle do corpo social.

Este poder, que aqui conectamos ao sentido formulado por Foucault, traduz-se pela

diversidade e pelo combate constante entre múltiplas forças que em determinados

momentos podem ser neutralizadas ou cristalizadas por dispositivos estatais, por estratégias

legais ou pelas hegemonias sociais.

Deste modo, seria impossível separarmos a produção da noção de cidadania no

Brasil dos rumos tomados pela chamada modernização do país e seus respectivos ‘avanços’

diretamente vinculados ao desenvolvimento do capitalismo e da dominação do capital

estrangeiro. 53 Desta conexão vai aparecer a idéia, por exemplo, forjada através dos

interesses dominantes de que o Brasil, após o término da ditadura de Vargas (1946)

passara a viver uma democracia.

Cavalcanti (1988), por exemplo, denomina como “bons tempos”, este período que

compreende o chamado “desenvolvimentismo” no qual segundo a

67

53 COIMBRA, Cecília. Guardiães da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “milagre”. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1995. p.02.

autora a “nau da República” que “viajara em águas tormentosas” teria encontrado um

“bom porto”. 54 Um porto que será edificado a partir da idéia de reconciliação nacional que,

deste ponto de vista, só começa a ser rompida com a renúncia do presidente Jânio Quadros

na década de sessenta.

Porém, conforme analisa Chauí (1993), este tipo de democracia foi norteado por

práticas autoritárias significativas que se fortaleceram, por exemplo, através de leis como as

que foram regulamentadas pela constituição de 1946 que:

“ define a greve como ilegal, mantém a legislação trabalhista

outorgada pela ditadura Vargas (e que é reprodução literal da Carta del Lavoro, de Mussolini), proíbe o voto aos analfabetos (isto é, à maioria da população na época), coloca o partido

Comunista na ilegalidade, conserva a discriminação racial e não questiona a discriminação das mulheres, consagrada pelos códigos Civil e Penal etc.”

(Chauí, 1993, p.50)

Será no início da década de sessenta, conforme observa-se na pesquisa de Coimbra

(1995), que alguns movimentos sociais vão se desenvolver contando com o consentimento

e com o apoio governamental para investir na chamada “conscientização popular”. 55

Instala-se neste período, um processo de mobilização que se expressará através de

ações voltadas para a chamada conscientização das massas com vistas a prepará-las para

ingressar no “processo revolucionário”.

O corpo social vai encontrando meios para reagir ainda que muitas vezes

impulsionado por anseios populistas e pelas promessas desenvolvimentistas

conseguindo exercer algum tipo de pressão sobre os grupos dominantes e suas relações com

o capital estrangeiro.

54 Idem, p.28.

55 Idem, p.07.

68

Coimbra, tomando como referência a pesquisa de Holanda (1978) intitulada

Impressões de Viagem”, observa que a produção cultural desta época, do mesmo modo

que algumas produções sindicais e dos movimentos sociais, foram marcadas pelo

“engajamento” e pela condução da esquerda, o que possibilitou colocar em relevo temas

centrais como por exemplo, “

democratização e os projetos de tomada do poder”. 56

Mas, o pacto populista entra em processo de corrosão tornando-se indesejável para

as relações do Brasil com o capital estrangeiro até o ponto de sob o domínio das forças

armadas acabar por prevalecer a economia política e subjetiva tecida pelos interesses

“expansionistas” dos grupos dominantes brasileiros e do capitalismo internacional. Estas

forças armadas vão encontrar na família, em Deus, na propriedade, na militarização

do cotidiano, nas prisões, na prática da tortura e no extermínio, os meios necessários para a

sua efetuação.

É interessante observar que no ano de 1966 dois anos após o golpe militar

surge a primeira legislação específica visando preparar o país para o exercício da cidadania

através da educação cívica. Destacamos, a exemplo, o objetivo final do artigo 2º do Decreto

58.023 de 21 de março deste ano, que extraímos da pesquisa de Cavalcanti (1980) sobre a

evolução do conceito de cidadania na educação brasileira a partir da República.

os mitos do nacionalismo e do povo, a modernização e a

“ A educação cívica visa a formar nos educandos e no povo

em geral o sentimento de apreço à Pátria, de respeito às Instituições, de fortalecimento da família, de obediência à Lei, de fidelidade no trabalho e de integração na comunidade, de tal forma que todos se tornem, em clima de liberdade e responsabilidade, de cooperação e solidariedade humanas, cidadãos sinceros, convictos e fiéis no cumprimento de seus deveres (art. I).”

56 Idem, p.05.

(Cavalcanti, 1980, p.153)

69

Posteriormente a Educação Moral e Cívica — este conjunto de práticas educativas

— será transformada em disciplina obrigatória em todos os níveis do ensino sob a

argumentação de preparar o cidadão na moral, no patriotismo e na ação construtiva,

visando ao “bem comum”. 57

Para levar às últimas conseqüências este projeto voltado para “o bem comum”,

baseado no desenvolvimento econômico e social, o governo militar vai investir no aparato

de segurança — controle das relações sociais com vistas a assegurar os interesses

dominantes — aperfeiçoado e consolidado em 1968 através do Ato Institucional nº 5 de 13

de dezembro. A partir daí, conforme observa Coimbra,

“ o regime militar consolida a sua forma mais brutal de

atuação através de uma série de medidas como o fortalecimento do aparato repressivo, com base na Doutrina de Segurança Nacional. Desta forma, está garantido o desenvolvimento econômico com a crescente internacionalização da economia brasileira e a devida eliminação das oposições internas. Silencia-se e massacra-se toda e qualquer pessoa que ousa levantar a voz.”

(Coimbra, 1995, p.17)

Deste modo o “cidadão“ não será mais aquele que precisa “fazer por merecer” os

“benefícios” da cidadania, ao contrário, trata-se agora de “nada fazer” além de comportar-

se e obedecer os mandamentos do regime a fim de manter-se em “segurança”. Este é um

momento em que torna-se evidente o quanto as forças opressivas podem atravessar um

corpo social alcançando níveis os mais elevados e, mais que isso, tornam-se justificáveis

através do suporte moral que insiste em fazer

70

57 CAVALCANTI, Rosa Maria N. Tavares. Conceito de cidadania: sua evolução na educação brasileira a partir da República. Rio de Janeiro: SENAI, 1980. p.156.

prevalecer um tipo de ordem engendrando a desordem, um sentido de progresso

fomentando o atraso e o controle produzindo a subversão.

Os germens de autoritarismo visíveis e invisíveis incrustados no corpo social

brasileiro foram ativados e, conforme observa Chauí (1993), foram reforçados com “o

golpe de Estado de 1964, paradoxalmente batizado com o nome de revolução”. 58

Este conjunto de forças opressivas ironicamente chamado de “revolução” funda-se

no terror e no imobilismo do corpo social, investindo no silêncio dos trabalhadores, na

intervenção dos sindicatos, na perseguição às lideranças no campo e na cidade, prendendo e

matando em nome da formação de cidadãos “sinceros”, “convictos” e “fiéis” ao

cumprimento do dever.

Na primeira metade dos anos 70, conforme nos indica Coimbra, alguns movimentos

sociais ainda conseguem resistir. Muitos fugiram à modelização e à institucionalização,

outros, foram sendo massacrados ou integrados aos sentidos hegemônicos vigentes.

“ Se, nos primeiros anos da década de 70, as classes urbanas

brasileiras respiram e vivem o clima ufanista do “milagre”, do

país que “vai pra frente”, orientando-se pelas subjetividades hegemônicas então fortalecidas, apesar das resistências que acontecem (luta armada e ecos dos movimentos contra- culturais), há neste período tentativas de se forjarem outras formas de luta, outros territórios singulares, atingindo sobretudo, outros segmentos sociais.”

(Coimbra, 1995, p.38)

São os movimentos sociais, as lutas cotidianas, as pequenas conquistas associativas

e a resistência de setores operários, que vão promover alguns desvios e

71

58 CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993. p.35.

afrontas ao governo militar. Porém, muitas das políticas sindicais instituídas nesta época

seguem o caminho do desenvolvimento e da segurança nacional.

Essa interdição dos processos de atividade do corpo social — chegando a graus de

submissão tão elevados — será complementada pelo fomento de valores voltados para o

consumo, para a ascensão social e para ideais de modernização cujos efeitos foram

majoritariamente mutiladores e paralisantes.

Não será por mera coincidência que esta malfadada época marcada pela tortura,

pelas perseguições, pelos seqüestros também será a época do “milagre brasileiro” 59 ,

“ quando se vende a imagem da “ilha de tranqüilidade”, de

“progresso”, de “bem-estar”, de “euforia”, tanto interna como externamente. Há uma produção massiva de subjetividades coletivas, o que mostra as dificuldades, neste

período, de se recusar ou mesmo questionar a ordem social que está sendo produzida, fortalecida e imposta.” (Coimbra, 1995, p.22)

Não nos parece impróprio dizer que trata-se de uma relação recíproca entre os

discursos de “progresso” e os dispositivos de controle do corpo social o que torna possível

uma sinistra fusão entre uma espécie de esperança na obtenção de um “futuro melhor” e o

medo da experimentação no presente. Esta fusão, que articula o medo da punição com a

esperança na aquisição de compensações tornou-se um ingrediente fundamental na

produção e na sustentação da ordem estabelecida.

Para pensar este tipo de ordenação tentamos uma aproximação com o que Espinosa

(1979) chamou de mandamentos religiosos ou políticos cuja função, além da punição

aos transgressores, é construir um aparato militar e político que,

72

59 COIMBRA, Cecília. Guardiães da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “milagre”. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1995. p.22.

conforme observa Chauí (1995), funciona na base de castigos ao corpo rebelde e nas

ao servilismo dos obedientes com promessas de recompensas”. 60 Instala-se

assim, uma espécie de abatimento um golpe no corpo social o que repercutirá necessariamente na produção e na manutenção de ações distintas dessa economia política e subjetiva engendrada através do regime militar.

adulações

Contudo, e ainda que tenha sido difundida a idéia de que os movimentos sociais e populares só teriam restabelecido sua força após a instalação da chamada abertura política, encontramos na pesquisa de Coimbra a afirmação de uma outra vertente. Para a autora e para os diferentes autores com quem compartilha esta idéia 61 será em pleno período da ditadura militar que surgem no Brasil novas expressões coletivas que não vão se enquadrar no projeto militarista de modelização do corpo social. Práticas que foram gestadas na periferia das grandes cidades, nos bairros, nos locais de trabalho e que vão conseguir inventar ainda que em meio a tantas adversidades outras relações político-sociais e, conseqüentemente, vão produzir uma nova correlação de forças na formulação da noção de cidadania.

Conforme esta perspectiva, é da “fragmentação” e da “diversidade” que o corpo social encontra meios para se pôr em movimento. Estes movimentos vão atravessar o campo da saúde, da educação, do transporte, da habitação, do trabalho, da ecologia, etc., tendo que se chocar, inúmeras vezes, com a rigidez dos modos de subjetivação dominantes, inclusive nas práticas de militância e nas organizações sociais. 62 O “milagre”, no nosso caso, fez diminuir o pão e aumentar a dívida externa que a partir da década de 70, já aparece contabilizada pelo sistema financeiro

73

60 CHAUÍ, Marilena. Espinosa: uma filosofia da liberdade. São Paulo: Ed. Moderna, 1995. p.35. 61 COIMBRA, Cecília. Guardiães da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “milagre”. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1995. p.39.

62 Idem, p.40.

internacional com o país mergulhado na recessão, no arrocho salarial, na pobreza material e psíquica.

Contudo, rejeitar a idéia de cidadania consentida, regulada e outorgada, passou a ser do ponto de vista dos movimentos sociais e populares comprometidos com a construção de mudanças nas condições de vida coletiva uma maneira de romper com a idéia demagógico-liberal de doação que além de desqualificar os enfrentamentos entre as

diferentes forças que compõem o corpo social, reincorpora e dilui estas forças,

em nome

do fortalecimento da representação política instituída e das instituições de poder estabelecidas”. 63

Não tivemos dúvida de que a noção de cidadania, a partir da década de 80, foi sendo reassimilada nos espaços institucionais e incorporada enquanto luta pela conquista de direitos a serem assegurados a todos. A incorporação deste novo sentido de cidadania torna-se evidente tanto no que se refere à definição do novo texto constitucional (1988) quanto na sua veiculação nos meios de comunicação e na sua presença marcante nos discursos e nas plataformas eleitorais.

Contudo, esta assimilação em massa dos diferentes discursos sobre “A cidadania” e esta proteção da lei, paradoxalmente, parecem ter intensificado o conservadorismo político e a insegurança da sociedade brasileira: a corrupção torna-se banal e até mesmo natural, o privilégio dos direitos transmuta-se em direito de obter privilégios, a prática política torna- se totalmente desacreditada, os serviços públicos sucateados são desqualificados e as condições de vida da maior parte da população brasileira entra em corrosão, como se produzíssemos uma espécie de “democracia ao avesso”.

74

63 COIMBRA, Cecília. Cidadania e processos de inclusão e exclusão social: a construção da identidade. In: ENCONTRO NACIONAL DA ABRAPSO - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL, 7., 1993, Irajaí, SC. Anais. [S.l.: s.n.], 1993. p.02.

2.4 A Imobilização do Corpo Social como Condição de “Estabilidade”

Pode-se dizer que nem bem haviam sido dispersadas as forças que davam

sustentação e legitimidade à ditadura militar, começavam a ser engendrados novos

componentes de subjetivação, que chamaríamos de dispositivos de modelização

disseminados por todo o corpo social brasileiro. Eram as sementes do neoliberalismo

sopradas ao vento pelo chamado mundo desenvolvido, fertilizadas, conforme nos indica

Francisco Oliveira (1996), ainda no solo da ditadura.

A má distribuição de renda, o aumento do desemprego, o processo de degradação de

todas as políticas sociais, completaram o rol de condições favoráveis para a incorporação

do que Oliveira denomina de “neoliberalismo à brasileira”. 64

“ Sempre avacalhado e avacalhador: em vez da austeridade

britânica um tanto desmentida, hoje, pelos escândalos da monarquia, hélas! a Casa da Dinda, uma farsa grotesca, florestas amazônicas em pleno cerrado. Mas esse neoliberalismo sempre foi mal estudado entre nós, sempre foi atenuado por nossa própria ironia e capacidade de não levar a sério o que deve ser levado muito a sério.” (Oliveira, 1996, p.25)

É verdade que as diferentes versões neoliberais foram sendo produzidas a partir dos

ingredientes locais das forças que prevaleceram em cada país e das relações desses

países com o capitalismo mundial. Mas este novo tipo de economia política e subjetiva,

cujos efeitos continuam sendo ainda imprevisíveis, aponta para dois sentidos abrangentes e

predominantes a nível mundial. Perry Anderson (1996)

75

64 OLIVEIRA, Francisco de. Neoliberalismo à brasileira. In: SADER, E., GENTILI, P. Pós- neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

p.25.

apresentando um balanço global a respeito do neoliberalismo analisa estes dois sentidos e

observa que:

conseguindo nenhuma revitalização básica do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muitos dos seus objetivos, criando sociedades marcadamente mais desiguais, embora não tão desestatizadas como queria. Política e ideologicamente, todavia, o neoliberalismo alcançou êxito num grau com o qual seus fundadores provavelmente jamais sonharam, disseminando a simples idéia de que não há alternativas para os seus princípios, que todos, seja confessando ou negando, têm de adaptar-se a suas normas.”

Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não

(Anderson, 1996, p.23)

Pode-se dizer que este tipo de ordenação incide nos sistemas de modelização de

cada tipo de sociedade através de uma dupla estratégia a qual Guattari (1986) denominou

de “dupla opressão”: a primeira diz respeito à coerção material propriamente dita a

ação direta em níveis econômico-sociais. A segunda, indissociável da primeira consiste

em produzir um tipo de subjetividade “industrializada” e “nivelada” em escala mundial,

capaz de nos convencer de que estamos realmente mergulhados numa espécie de

fatalidade. 65

Reafirmando a análise de Anderson, Oliveira (1996) observa que o êxito político-

social do programa neoliberal no Brasil é maior do que seu êxito econômico. Como

exemplo aponta para a proliferação de práticas conservadoras que desempenham, hoje, a

função de pulverizar ou, se necessário, extinguir os processos emancipatórios.

Nos termos propostos por Oliveira o neoliberalismo surge como uma virose

atacando o “princípio de esperança” que dava vigor aos movimentos populares,

76

65 GUATTARI, F., ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986. p.39.

transmutando-se e insuflando estes movimentos com o fardo da derrota, intensificando com

isso, o terror à mudança e à experimentação.

“ Há pesquisas em São Paulo que dizem que o povão pede

que não se toque nos salários, posto que se acredita depois de quase vinte anos de altíssima inflação que os salários, seus aumentos, são a causa da inflação.”

(Oliveira, 1996, p.27)

Da nossa perspectiva retomando a argumentação anterior a respeito da conexão

“medo-esperança” enquanto sistema de modelização do corpo social esse “princípio de

esperança”, de que nos fala Oliveira, trazia consigo tanto as condições para o

desenvolvimento deste tipo de vírus capaz de tornar o corpo social impotente para gerir seu

próprio futuro, quanto um nível de resistência capaz de retardar sua ação

despotencializadora.

A sociedade civil encontra meios para responder concretamente ao avanço das “neo-

sandices” do governo Collor, através do processo de impeachment, da instalação da CPI

dos anões etc. Porém, não consegue aglutinar força suficiente para aumentar a capacidade

de resistência do corpo social e ultrapassar suas próprias relações de dependência e de

complementaridade com esta linha de montagem subjetiva.

A partir daí, observa-se, em concordância com a análise de Oliveira (1996), o

aumento do processo de corrosão da capacidade de experimentação das lutas populares e

das ações sindicais, com uma ruptura nos processos das alianças de classe e das alianças

sociais. Somada a esta espécie de “lesão-corporal-social” ocorre uma “direitização da

intelectualidade” e conseqüentemente uma total “dessolidarização” desses intelectuais para

com os processos de deterioração do cotidiano brasileiro.

Mais que isso,

77

“ os vilões do atraso econômico passam a ser os sindicatos, e

junto com eles, as conquistas sociais e tudo que tenha a ver com a igualdade, com a eqüidade e com a justiça social. Ao mesmo tempo, a direita, os conservadores, se reconvertem à modernidade na sua versão neoliberal, via privatizações e um modelo de Estado Mínimo.”

(Sader, 1996, p.147)

No entanto, pelo que ‘andam dizendo’, o cidadão brasileiro dos anos 90 embora

preocupado, está “otimista”. Quem diria?

Em outubro de 1995, a pedido da revista VEJA, o instituto de pesquisa Vox Populi

fez uma pesquisa de opinião pública para saber sobre como o brasileiro se enxerga

atualmente e de que forma vê o Brasil nos dias de hoje. Os resultados ‘surpreendentes’

publicados em janeiro de 1996 revelaram que o Brasil e o brasileiro, “segundo ele

mesmo”, estavam vivendo um processo de intensa e “otimista” transformação. Estudiosos e

professores universitários foram entrevistados pela VEJA para contribuírem com o

aprofundamento da análise iniciada pelo Vox Populi. 66

Segundo o artigo publicado pela VEJA, os dados da pesquisa revelam que a maioria

dos brasileiros,

se

orgulha

do

país

e

acredita

que

ele

vai

transformar-se numa grande potência. É um sonho antigo que não foi derrotado nem pelos políticos, empresários ou sindicalistas,

78

66 Ver, a propósito, o texto “A lei é dura, mas

(para uma clínica do ‘legalismo’ e da transgressão)”

apresentado por Figueiredo (1996) na PUC/SP, p.9, onde o autor comenta alguns resultados da pesquisa realizada pela Vox Populi, observando o fato de que muitos dados e muitas

insistiu numa

possibilidades de análise foram desprezadas na reportagem de VEJA que

certa visão otimista da nossa realidade social e política que nem sempre corresponde aos dados da pesquisa”.

apontados pela pesquisa como sendo gente de má qualidade.” (VEJA, 1996, p.48)

Quando comparada às sociedades industrializadas do mundo ocidental, a sociedade

brasileira ainda continua conservadora. Porém, em plena “evolução em direção a uma

postura liberal”. 67

O historiador e cientista político José Murilo de Carvalho, por exemplo, que há

aproximadamente dez anos registrava os impasses da “República que não foi”, declara,

‘inspirado’, para a revista VEJA:

“ A sociedade brasileira está vivendo uma transição. Os

brasileiros desejam um novo país e estão fazendo pressão para

consegui-lo [

desejamos viver como o holandês, que forma uma sociedade

organizada, mas é alegre e festivo.”

Os resultados do Vox Populi mostram que

]

(VEJA, 1996, p.50)

De acordo com os resultados da pesquisa, segundo a interpretação do artigo

publicado pela VEJA, os brasileiros querem se livrar de seus “maus modos”, como por

exemplo, furar filas, estacionar o carro em cima da calçada, jogar o lixo na rua etc. A

interpretação apresentada também vai reafirmar o argumento oficial da baixa da inflação,

do crescimento da economia, da folga na carteira do brasileiro para comprar “comida” e

“eletrodomésticos”. O artigo conclui que os brasileiros estão “flertando” com a idéia de

tornarem-se capitalistas. Neste sentido, o antropólogo Roberto DaMatta também

entrevistado pela VEJA observa:

79

67 GRINBAUM, Ricardo O que é que o brasileiro pensa que é. VEJA, São Paulo, v.29, n2, p.49, jan. 1996.

“ o sentimento capitalista está-se espalhando rapidamente

pelo país, sobretudo depois da estabilização trazida pelo Plano Real.”

(VEJA, 1996, p.54)

O brasileiro já estaria até pensando em trocar o sistema relacional por um sistema

mais impessoal, com regras claras, que possa assegurar-lhe o acesso às benesses do

capitalismo.

Não restam dúvidas de que este verdadeiro “torcicolo cultural” um pacote de

‘otimismo’ e de ‘fé’ nesse novo ‘milagre’ brasileiro além de sugerir alguns dos

ingredientes que já tomam parte na nova composição do corpo-cidadão brasileiro, vai tentar

separar o ‘joio do trigo’. Vai apontar quem são os atuais “vilões do atraso” e quais serão os

novos exemplares do progresso. O corpo-social brasileiro æ segundo o artigo æ indica o

seu desprezo pela aquisição de dinheiro fácil, alegando que a prosperidade virá como “fruto

do trabalho, do esforço e da competição”. 68

aquele que pega no batente logo cedo ganha respeito. Para

o

morador da periferia das grandes cidades, sair para o

trabalho às 5 da manhã, tomar duas conduções para o serviço

e voltar tarde da noite virou, mais do que sacrifício, uma prova

de correção social”.

(Veja, 1996, p.50)

Este candidato “ao consumo” ávido de estabilidade e prisioneiro da

sobrevivência precisa manter-se desmobilizado e angustiado æ embora ainda “alegre” e

“festivo” æ ameaçado constantemente pela desestabilização, pelo permanente estado de

miséria e desespero que rondam o seu cotidiano, tornando-

80

68 GRINBAUM, Ricardo. O que é que o brasileiro pensa que é. VEJA, São Paulo, v.29, n.2, p.50, jan. 1996.

se indiferente ao seu próprio processo de ‘sucateamento’ e a pôr em funcionamento as mais duras provas de “correção social”. Quatro meses depois da “orgulhosa” publicação dos resultados da pesquisa em 15 de maio de 1996 o Jornal do Brasil publicava uma reportagem intitulada Vergonha! Esta reportagem é aberta com o quadro das chacinas realizadas no país: Carandirú (111 mortos), Candelária (07), Vigário Geral (21) e Corumbiara (09). No Pará em Eldorado dos Carajás foram executados, naquele dia, 19 trabalhadores Sem-Terra a sangue frio, sob a alegação de entrarem em confronto direto com a Polícia Militar. A concentração fundiária, o desemprego, o quadro de miséria nacional, rapidamente, são travestidos em um escandaloso caso de polícia. Ocorre que, neste caso, os trabalhadores Sem-Terra brasileiros em movimento além de denunciarem o blefe do compromisso brasileiro com a reforma agrária e buscarem formas de sobrevivência, “ousaram” dar sinais de vida, de mobilidade e de resistência. Um ano depois abril de 1997 os trabalhadores Sem-Terra ainda resistem e continuam sua caminhada, agora em direção a Brasília arrebatando pelo caminho uma quantidade significativa de brasileiros que, provavelmente, não fizeram parte dos ‘altos índices’ apontados pela ‘voz do povo’, divulgados em 1996.

Desta vez, o que é veiculado é uma espécie de ‘alerta’. 69 Uma necessidade de ‘cuidar’, urgentemente, desses “marchadores do atraso” que teriam se tornado “popularíssimos” depois de serem enredo de uma telenovela ‘global’ “O Rei do Gado”. Este discurso de ‘assepsia’ que mais parece ser, como diz o dito popular, ‘a volta dos que não foram’, começa alertando:

81

69 A LONGA marcha: diante da caminhada dos Sem-Terra, a pior escolha é ficar de braços cruzados. VEJA, São Paulo, v.30, n.15, p.34, abr. 1997.

“ Na era do avião a jato, eles andam a pé. Quando a

economia se globaliza, seu ideal é um pedaço de chão com cerca, uma vaca no pasto e uma roça atrás da casa. O mundo caminha no passo da informática e da alta tecnologia, e eles querem trabalhar na terra, enxada na mão. A moçadinha vai de rock, e o hino do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, canta uma pátria ‘operária e camponesa’. Representantes de um Brasil arcaico, descalço, dentes ruins, bicho-de-pé e pouco estudo, os sem terra invadem propriedades, desrespeitam a lei e enfrentam a polícia. Já morreram e mataram nesses conflitos. Parecem um pouco os fanáticos do beato Antônio Conselheiro”.

(Veja, 1997, p.34)

E antes das 21 páginas seguintes que pretendem ‘elucidar’ o leitor a respeito do

O atra