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© 2010 Rosivaldo Toscano Júnior

Capa e projeto gráfico: Fernando Chiriboga Design Studio Editoração eletrônica: Leila Chiriboga Revisão: Amíris Félix Silva de Oliveira Todos os direitos desta edição reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro, através de qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem prévia autorização do detentor do copirraite. Esta é uma obra de ficção. Nomes, locais, personagens e acontecimentos são inteiramente produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com fatos reais, locais ou pessoas é mera coincidência.

Catalogação na fonte: DEPARTAMENTO NACIONAL DO LIVRO

Júnior

S237e

O escultor da alma: romance / Rosivaldo Toscano Júnior. 2ª Ed., 1ª Ed. Digital – Natal: Rosivaldo T. dos Santos

Júnior, Rosivaldo Toscano

255p.

ISBN: 85-902763-1-7

1. Literatura brasileira. I. Título

CDD: B869.3

Impresso no Brasil

DEDICATÓRIA

A ele, que ajudou a construir o homem que sou. A ele, meu maior mestre na universidade da vida – meu pai.

Ao irmão de sonhos, exemplo de inteligência, coragem e simplicidade – Desembargador Deusdedit Maia.

AGRADECIMENTOS

Aos amigos

Klícia Maia, Antônio Pereira, Madson Phetrônnio Fábio Uchoa, Raimundo Uchoa, Juliana Dantas e Kalina Maia.

O escultor da alma

PRÓLOGO

A história que narrarei a seguir é verdadeira em sua essência e fatos. Não posso explicar o

porquê de ter sido o escolhido para contá-la. Certamente não pelo talento literário, comum. Com mais razão pela afinidade com Heloísa e por ter acompanhado sua trajetória de vida durante a faculdade e, principalmente, nossa residência em medicina, época recente, a mesma dos acontecimentos do livro. Mais acostumado a tratar luxações e fraturas, pus-me na tarefa de dedicar diuturnamente uma hora do meu tempo para narrar, da forma mais fidedigna que pude, o que a mim foi contado. Para melhor desenvolver o trabalho, a saída foi buscar o máximo de informações possíveis para

desempenhar a tarefa. Como legado pelo árduo destino de concretizar no papel essa, no mínimo,

inusitada história, que envolve dor, descobertas, crescimento, poesias, amizade e amor, tenho, em minhas mãos, nada menos que dezoito fitas gravadas com as personagens que desfilarão a seguir.

E não foram poucas as idas até as salas de bate-papo do site “Coração do Mundo” para

poder entender ainda melhor o ambiente onde se desenvolveu boa parte dos casos que, em

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seguida, relatarei ao leitor. O que era eventual se tornou, aliás, um hábito salutar e que já faz parte

do

meu cotidiano. Recomendo fazê-lo. Quem sabe até nos encontremos por lá

Sem percebermos.

O

futuro está batendo à porta de cada um agora. Deixe-o entrar. O bom futuro. O bom porvir.

Faz bem lembrar que na transcrição de diálogos na internet, tive o cuidado de não fazer as reduções tão comuns, tudo com o fim de facilitar o entendimento de quem não é acostumado ao uso de salas de bate-papo na rede. Também me certifiquei de, poucas vezes, aparecer no livro. Sou um personagem secundário,

um mero divulgador dos fatos envolvidos, afinal de contas nada mais fiz que reproduzir e organizar

as idéias com o fim de possibilitar o desenvolvimento do enredo. Procurei enfocar minha

participação na terceira pessoa para melhor aprofundar a narração e não influir nela. Em todo caso, é preciso estar preparado para o que poderá acontecer após a leitura deste livro. A vida imita a arte. Nesse caso a arte imita a vida. Não é mesmo? Talvez tais palavras não façam sentido nesse momento. Mas certamente serão recordadas com felicidade ao término desta pequena obra escrita. Não sei se irei agradar o gosto de um leitor exigente. Seja complacente comigo. Sempre fui dado mais à leitura do que à escrita. As palavras veementes faltaram sempre. Mas não o afinco com que tentei reproduzir nas folhas deste livro a verdade dos fatos, que levarei para a posteridade, não como a maior obra da minha vida, mas certamente a que me trouxe maiores lições. Lembro agora os versos do grande poeta baiano Antônio de Castro Alves:

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Eu, que a pobreza de meus pobres cantos Dei aos heróis – aos miseráveis grandes –, Eu, que sou cego, – mas só peço luzes Que sou pequeno, – mas só fito os Andes Também cresci escrevendo a saga de Heloísa em busca do seu aprimoramento enquanto ser humano e mulher. E ainda há surpresas que por ora não podem, e nem devem, ser reveladas Mas cabe a você, meu caro leitor, desvendar as folhas que aqui levam para a posteridade uma história que merece ser contada. O convite está feito.

Alberto.

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Dona Raquel estava em um dia difícil. Para ela a mudança de situação não tinha sido, ainda, digerida. Heloísa olhou sua genitora com um ar de ternura e disse, confiante:

– Mamãe, tenha força. Lembro-me agora do que me falou um amigo, certa vez, quando

também passou por uma grande perda: “Se a vida tem muitas provas, nos dá milhões de presentes!” Tudo vai passar e, em breve, estaremos recebendo Joãozinho com muita alegria e esperança. – Era verdade, Magnólia já estava no oitavo mês de gestação. Seria o primeiro sobrinho e neto da família. A senhora Raquel olhou a filha, profunda e silenciosamen-te, e sorriu, ainda que de forma tímida. Depois, disse:

– Pena seu pai não o conhecer.

Heloísa não se fez derrotada e falou:

– Dona Raquel, e quem disse que ele não está acompa- nhando e torcendo por nós neste

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momento? Tenho certeza de que também está feliz com o novo rebento da família Algarve, que em breve estará aqui para nos dar muitas alegrias – e voltou para o quarto, deixando o clima mais ameno em casa. De volta ao computador, já passava das dez da noite, horário de encontro na página de bate- papo da internet. Foi só acessar o atalho e a sala 241 já estava aberta. Havia, ainda, poucos conectados. Uma das principais finalidades do site “Coração do Mundo” é auxiliar pessoas em dificuldades ou mesmo necessi- tando de uma opinião descomprometida e isenta, em questões que as afetem diretamente. Para manter a maior isenção possível, e sendo as salas divididas, primeiramente, conforme as cidades ou regiões e, dentro de cada área geográfica, por assuntos, utilizam-se nicknames, ou apelidos, nomes fictícios que estimulam as pessoas a, através do anonimato, sentir-se mais à vontade para contar os seus sofrimentos, com a garantia de não serem motivo de comentários na comunidade. A sala 241 era reservada para a região onde morava Heloísa. Ela notou que havia um novato conectado, cujo nome fictício, ou nickname, era Paulo. Estava desconsolado com o impacto da descoberta de que sua esposa era viciada em drogas. Já tinha percebido que ela andava distante em casa e que algumas coisas, tais como jóias, vinham desaparecendo. Culpavam a empregada. Tudo começou quando ela foi demitida do trabalho e, há meses, vivia em uma depressão tremenda, constante. Ganhou peso rapidamente e, sob a pres- são do marido, que agora se sentia culpado, passou a ingerir remédios redutores de apetite por conta própria. Assim, tudo se iniciou com o referido medicamento, que causava dependên- cia

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física com o uso prolongado. Terminou se viciando e, a partir daí, passou às drogas ilícitas e mais fortes, como a cocaína. Levada a um médico sob o diagnóstico de depressão, uma vez que ela escondia muito bem o vício do marido, dos filhos e até mesmo dos médicos, foi encaminhada a um bom terapeuta. Apesar das sessões terem sido pagas com antecedência, muito tempo depois

é que Paulo foi descobrir que a esposa tinha pedido a devolução do dinheiro e comprado tudo em

entorpe-centes, sem que ninguém soubesse. E o sofrimento não parava por aí. Ela abandonou os filhos em casa, perdeu completamente a rotina do lar e se tornou agressiva. Paulo chegou a ver pessoas estranhas rondando a casa à noite. Achava que eram traficantes querendo cobrar dívidas. Assim, estava em grande estado de tensão e completamente atônito. Heloísa o incentivou a ter

esperança nos tratamentos modernos contra o vício. Ainda mais ela, médica, já ciente de inúmeros casos dessa natureza e da possibilidade de cura, desde que obedecido o tratamento, que consistia em internação para extirpação da dependência química e em atividades que a levassem a repensar

a própria vida. Ele aparentava ser um senhor de meia-idade, bom nível de instrução, uma vez que

escrevia com correção e articulava bem as idéias. Heloísa, codinome “Tâmara” na sala de bate-papo, logo que tomou conhecimento do assunto envolvendo Paulo, preferiu assistir aos diálogos e às palavras de apoio. Depois, perguntou:

<Tâmara>. O que mais o aflige, Paulo? <Paulo>. Como assim? Tudo. Ora! Como vou fazer para tirar minha mulher dessa? <Tâmara>. Caro Paulo. A vida nos coloca obstáculos que nem sempre sabemos como fazer para vencê-los. De toda ordem, sua angústia só terá razão de ser se depender de você a resolução

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do problema. É o que acontece? <Paulo>. Não. Ela precisa colaborar. E o que mais me dói é ver meus filhos enfrentando uma barra dessas. Na escola já correu a história da minha mulher. Eles voltam chorando dizendo que os estão chamando de filhos de uma traficante. Mas sabemos que minha esposa é, na verdade, uma vítima das drogas. <Tâmara>. Então, cuide em tornar para eles a situação o menos dolorosa possível. Não se sinta responsável pelos aconte-cimentos. Faça sua parte, apoie. O momento exige serenidade, principalmente porque há crianças em jogo. Mais um motivo para manter a tranqüilidade. As crianças são, não só física como psicologicamente, frágeis. Um lar desarmonioso propicia

o crescimento de indiví- duos inseguros e instáveis, mais propensos a comportamentos rebeldes

e violentos. A maior preocupação de Heloísa era com isso, uma vez que a criança de hoje é o alicerce do adulto de amanhã. Outros membros da sala interagiram e deram o seu recado. Querubim, sem perder seu estilo, atacou de provérbio chinês: “Se o problema tem solução, não esquente a cabeça, porque tem solução. Se o problema não tem solução, não esquente a cabeça, porque não tem solução”. Não

é fácil pensar assim em uma hora dessas. Mas o que vale é tentar ajudar. Ao final, Paulo saiu mais confortado e ciente do seu papel em todo aquele problema. Apoiar

a esposa e os filhos, deixando que a equipe médica fizesse sua parte, sempre com o pensamen- to positivo, mas com um pé na realidade dos fatos, uma vez que se tratava de uma patologia que merecia um tratamento a longo prazo.

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E Heloísa, duplamente reconfortada, sentiu-se feliz em ajudar e em descobrir que havia superado os acontecimentos traumáticos. Percebeu que há perdas e dificuldades na vida que podem ser compreendidas e superadas. Isto não quer dizer que se deixe de amar aquele que partiu, mas que podemos tocar em frente e ajudar a tornar mais feliz quem continua compartilhando a vida conosco. A vida é uma estrada de mão dupla, realmente. Ora estamos indo, ora vindo. Porém, o importante de tudo isso é estarmos, sempre, na busca da felicidade; não somente da nossa, mas também da felicidade dos que nos cercam

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Retornemos exatamente um ano no tempo. Portanto, no ano anterior havia mais três pessoas, além de Heloísa Algarve, na família. Seus pais se chamavam Wilson e Raquel, e a única irmã, que era a primogênita, Magnólia. Heloísa era morena clara, tinha as feições tênues e lábios retintos que destacavam o belo sorriso. Seus olhos eram negros, assim como os cabelos, lisos, longos e brilhosos. Era uma bonita jovem, de beleza delicada e feminina. Magnólia não distava muito da irmã, sendo apenas um pouco mais gordinha. Não raras vezes já tinham sido confundidas. Wilson era alvo, grande, gordo e desengonçado. Filho de portugueses, mais parecia um italiano, pelo temperamento. Falastrão e alegre, gostava de boa comida, em grande quantidade, de preferência, e de mimos da esposa. Já a senhora Raquel fazia o tipo franzino: era pequena e morena clara. Por outro lado, era a

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mais ingênua dos quatro. Sempre bondosa e prestativa, vivia para o marido, as filhas e o lar. Moravam em uma bonita casa de dois pavimentos, situada num condomínio afastado do centro da cidade. Construída em estilo clássico, possuía telhas de cerâmica e um varandão na suíte de casal, de onde se podia ter uma bela visão geral da área onde o empreendimento imobiliário fora encravado. Um gramado de aproximadamente cinco metros, cortado pelos acessos de concreto

da garagem e da entrada social da casa, fazia sua ligação com a pacata e asfaltada rua do condomínio onde, aos domingos, transitavam animadas crianças em seus skates e bicicletas.

A residência possuía três suítes, uma ampla sala de estar, que se destacava pelo felpudo tapete

branco sob o conjunto de sofás vermelhos. Na parede, uma tela recentemente colocada – de

gosto bastante duvidoso – contrastava com o ambiente. Tinha sido pintada pela dona da casa e, após grande insistência, sob protestos das filhas, lá tinha sido pendurada. Pelo menos chamava a atenção dos visitantes – que a olhavam e, às vezes, perguntavam o que significariam aqueles rabiscos indefiníveis e o excesso de tintas coloridas.

Já a escada em forma de caracol era margeada por um bonito corrimão de madeira talhada,

compondo um ambiente clássico e aconchegante. Na área de recreação, havia uma pequena piscina

ovalada e, mais ao canto, localizava-se uma churrasqueira, palco de constantes festas promovidas pelas duas irmãs, onde os amigos mais chegados e os namorados de ambas – Mariano, de Heloísa, e Jonas, de Magnólia – curtiam os momentos de folga.

A família tinha o costume de acordar cedo, tanto em razão dos afazeres de cada um como

também pela distância do centro da cidade: dezenove quilômetros. “É o preço do sossego. Mas

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ainda sai barato” – costumava dizer o senhor Wilson, único homem da casa. Mas aquela manhã seria marcada nas vidas dos membros da família Algarve. Dona Raquel

estranhou a demora do marido, Wilson, durante o banho. Foi até a porta do banheiro e o chamou:

– Wilsinho, Wilsinho! – nenhuma voz respondeu. Ouvia-se apenas o barulho do chuveiro.

Ao girar a maçaneta, estava trancada. Intrigada com o silêncio do marido, resolveu chamar as duas filhas, Heloísa e Magnólia:

– Filhas, venham até aqui, rápido.

Quando as duas chegaram, logo foram se juntando ao coro:

– Papai! Papai! Responda! – diziam as jovens, já aflitas, enquanto batiam à porta, que continuava

trancada. Mas o corpo, já desprovido de vida, não reagia aos gritos das filhas. Eram sete horas da manhã. O silêncio e a demora injustificada do pai no banheiro as assustava cada vez mais. Chegou, então, Alberto, amigo e colega de faculdade de Heloísa, que com ela revezava caronas com a tarefa de ir até o centro médico, diariamente. Era um sujeito branquelo, baixo e forte. A pedido das filhas, em apenas duas tentativas, arrombou a porta, sendo o primeiro a ver a cena dantesca do pai das jovens estirado ao solo, pálido e seminu. Em sua mão cerrada, fruto da forte angina, via-se um barbeador. Foi um enfarto fulminante. A senhora Raquel, aos prantos, caminhava descompassada- mente à porta do banheiro. Magnólia assistiu, entre apavorada e perplexa, aos primeiros socorros. Inútil foi o trabalho de ressuscitamento empreendido com todo o vigor pelos jovens médicos

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Heloísa e Alberto, uma vez que não mais havia vitalidade naquele corpanzil. Em poucos minutos, chegou a ambulância. Era tarde. Wilson partira ines- peradamente para a eternidade, deixando para trás as duas filhas e uma esposa, em polvorosa. Wilson, cardiopata, não tomava os cuidados necessários, tais como a prática de exercícios

regulares e moderação alimentar. Sedentário, servidor público burocrata, passava os dias atrás de um birô e adorava comidas ricas em gorduras e colesterol. Não dava cabimento nenhum às constantes reclamações dos parentes. Era previsível o resultado fatídico. Heloísa não acreditava no que tinha acontecido. Não passaria tudo de um pesadelo? Ah, se

pudesse despertar e comprovar que não era nada daquilo

voltar no tempo para salvar seu amado pai. Inúmeras conjecturas surgiram: se houvesse ido

tomar banho antes, talvez não tivesse acontecido

tivesse enfartado. Se ele tivesse dito algo antes, reclamado de dores

agora desabava sobre a família Algarve. Sentiu um aperto no peito ao mesmo tempo em que experimentava uma profunda sensação de vazio. Jamais dor igual àquela perda havia se instalado em seu coração. Era uma sensação aguda, extrema e dilacerante. Não se tratava de uma dor física, localizada. Era muito pior, pois atingia o âmago, a alma. Nunca mais aquele sorriso fácil, as brincadeiras, o apoio necessário nas horas de angústia, o pai, o amigo, o conselheiro e o confidente. Tudo se fora naquela manhã trágica. Para Magnólia, além da saudade e da dor premente, o sonho de entrar na igreja acompanhada do pai se tornara impossível. Era o que pensava. Seria um momento de tristeza que mancharia a

Mas era a verdade. Desejou poder

Se pudesse haver percebido logo que ele

A crua e dura realidade

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felicidade na cerimônia de matrimônio, iminente. Dona Raquel se perguntava como sobreviveria agora sem o amado companheiro de tantos anos. O enterro – concorrido, uma vez que Wilson tinha muitos amigos – foi antecedido de uma

noite inteira de velório, fato ainda mais traumatizante, não fosse a assistência dada pelos amigos

e parentes mais próximos, que as acompanharam, durante boa parte daquela fria madrugada, em

um centro especializado. Viam-se sempre ao lado do féretro as jovens filhas e a chorosa esposa. Foram parafusadas oito alças ao caixão em razão da compleição física do falecido. O jovem médico Alberto gostava de Wilson, com quem conviveu um bom período, inclusive no início dos estudos universitários, quando o extinto lhe dava carona ao deixar a filha na faculdade de medicina, uma vez que residiam próximos. E pensou, preocupado com o futuro das duas filhas e da esposa do falecido: “como ficarão as três daqui por diante? Uma casa apenas com mulheres, sentindo-se indefesas e frágeis?” Heloísa, abatida, óculos escuros, caminhou com dificuldade até o local gramado onde o féretro seria abaixado naquela manhã nublada. Chovia fino no momento do adeus ao falecido. A

senhora Raquel se desesperou, tendo sido consolada pelas filhas, apesar de também chorosas. O caixão foi sendo abaixado, lentamente, no jazigo da família Algarve, sob uma chuva de pétalas de flores. Alberto percebeu – estranhamente e pela primeira vez com mais nitidez – a beleza da jovem

e se sentiu contrariado por estar, naquele momento, pensando em tal coisa. Sempre foram amigos.

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Inclusive tinha um bom contato com Mariano, namorado dela. Mas realmente percebia a jovem por trás das lentes escuras, que escondiam uma beleza singela e encantadora. Estatura mediana, olhos e cabelos negros, longos, pele morena clara, feições delicadas, possuía um excelente caráter, era digna e verdadeira. Às vezes, porém, explosiva e valente. Já sua irmã, Magnólia, trazia um semblante um pouco mais sofrido naquela hora. Era a primogênita, acostumada a uma criação rigorosa, castradora. Por isso, mais medrosa e alvoroçada. Formou-se em arquitetura. As duas se pareciam muito fisicamente, quase gêmeas, embora os três anos de diferença. Heloísa tinha, assim, um temperamento mais explosivo e emotivo, enquanto Magnólia tendia a ser mais extrovertida e ansiosa. Contavam vinte e quatro e vinte e sete anos, respectivamente. Magnólia estava noiva fazia um ano. A cerimônia de casamento, que estava com data e local já definidos, seria marcada para sempre com o clima triste da orfandade da nubente. As jovens estiveram, durante o velório, acompanhadas, respectivamente, de Mariano e Jonas. Dona Raquel, ao contrário das filhas, não passava de um metro e sessenta. Também vestia luto naquela ocasião e era, visivelmente, a mais abatida das três mulheres – carregava consigo a dor da perda de uma união de quase trinta anos. Casaram-se jovens, ela com vinte e dois e ele com vinte e oito anos. Sempre afeita às tarefas do lar e aos cuidados com o marido, seria difícil superar a perda do seu grande amor, cujos ventos ariscos da rotina dos anos não conseguiram apagar a chama. Ao lado de Heloísa, a bela Dália – loira de olhos verdes e penetrantes – sua melhor amiga e também confidente, que vivenciava com ela as gotas da dor e da saudade de um ente querido.

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Choraram, por algumas vezes, abraçadas. Só quem perdeu um pai ou uma mãe sabe, ao certo, quão profundo é o hiato cujos anos são

capazes apenas de amainar. É um daqueles fatos inevitáveis, mas nem por isso menos doloroso e traumático.

A jovem médica Heloísa, não bastasse o momento difícil, tinha que se preocupar com a mãe.

A senhora Raquel era a mais frágil das três mulheres da casa, física e psicologicamente. Como suportaria a solidão depois de tantos anos? Chegou a comentar isso com a irmã.

O pior de uma morte repentina na família é a falta de preparo. Nem sempre se tem a estrutura

para agüentar um abalo dessas proporções. O amargor tomara conta do viver da dona de casa. Só não seria ainda mais gravoso devido à pensão que receberia do Governo, o que, ao menos, não afetaria o padrão de vida familiar. Para Heloísa a situação também era especialmente complicada. Estava iniciando a residência em traumatologia com uma pesada carga de trabalho, plantões intermitentes, e pouco tempo para se distrair. Mariano, seu namorado, reclamava dos poucos instantes de convívio, com razão, e agora a jovem estava prestes a assumir, sozinha, a responsabilidade do lar, uma vez que a irmã

mais velha casaria dentro de uns cincos meses e a mãe, ao que parecia, não estaria em condições de conduzir a rotina de casa durante um bom tempo. O mundo se fazia pesar sobre as costas. Nem mesmo a música clássica de que tanto gostava seria capaz de fazê-la relaxar e esquecer, durante um bom período, a saudosa lembrança do pai. Tudo parecia ruir sob seus pés. E havia mais para acontecer.

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Os problemas em casa fizeram a jovem mergulhar com tudo no trabalho. Dias depois, lá estava ela assistindo às aulas e clinicando no horário da tarde. Fazia parte do treinamento dos residentes o acompanha- mento de pacientes por eles cirurgiados. Havia um roteiro a ser seguido, começando pela ala de urgência, passando pelas enfermarias e seguindo aos casos mais graves. Os doentes crônicos, ou que há muito estavam internados, já eram conhecidos do corpo médico. É comum a um paciente acometido de grave patologia apresentar um certo desânimo, principalmente ao sentir a debilidade lhe tomando conta. Geralmente passa por três estágios: no primeiro, ocorre a revolta, quando descobre a doença crônica. No segundo, dá-se a depressão,

quando se abate diante da possibilidade da derrota. E, por fim, no terceiro, a aceitação dos fatos

é o que impera. Esse é o estágio crítico, uma vez que pode desistir, entregando-se, ou lutar contra

a doença. Por isso é importante o corpo médico transmitir ao acamado tranqüilidade e esperança. A força de vontade, o otimismo, a crença na cura são fatores imprescindíveis. Muitas vezes, até

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mesmo a fé tem importância capital para a recuperação do doente. Por isso a recomendação é para que jamais, mesmo diante de casos gravíssimos, se transmita ao paciente a iminência da derrota, até porque o ser humano é uma máquina maravilhosa e que, muitas vezes, surpreende positivamente. Os doentes mais difíceis de acompanhar eram os da oncologia, ala B do complexo hospitalar. Isso porque os pacientes entendem a gravidade do problema, permanecem lúcidos e sofrem vendo sua vitalidade se esvair aos poucos. Ademais, dá-se uma interação com o corpo médico, uma vez que a doença geralmente é de lenta progressão e muitas vezes letal, o que prolonga um contato pessoal que a frieza da experiência nem sempre consegue afastar. Por isso exigia-se equilíbrio e serenidade ao corpo médico em geral. Naquele dia, havia dado entrada um paciente portador de sarcoma, que é um dos tipos mais devastadores de tumor cancerígeno, após uns dias na UTI. Heloísa olhou a ficha. Tratava-se de um senhor chamado Ângelo, 78 anos, fazendeiro que viera do interior do estado. Estava internado no apartamento 38. Lembrou-se de que se tratava de um paciente recentemente cirurgiado por ela, uma vez que tinha auxiliado na retirada de um tumor na parede torácica, tendo sido incumbida da extração do osso esterno, visando extrair as ramificações da patologia, sendo, em seguida, realizado enxerto ósseo no local. Era a primeira vez da doutora Heloísa na famigerada ala B. Sabia o que poderia lhe aguardar. Os colegas relatavam casos de criancinhas em estágio terminal e com os parentes tristes em sua volta. O clima era pesado e sombrio, bem diferente do setor de obstetrícia, onde se viam jovens

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casais, acompanhados de suas famílias, sorridentes e alegres com o nascimento dos primeiros rebentos. Ao entrar na sala, encontrou o homem, que a fitou com seus olhos ternamente idosos e sorriu. Acompanhava-o uma senhora que parecia ser sua esposa, e que levemente a cumprimentou

com um aceno. A primeira impressão que a médica teve foi a de que a pessoa que parecia doente era a idosa sentada ao lado da cama, não fossem os lugares que ocupavam no quarto. Ela tinha um semblante mais apagado do que ele. Era a preocupação com o marido.

A cama ampla, limpa e alva, estava em posição reclinada, o que permitia ao senhor uma

acomodação sentada. Aparentava menos idade do que possuía e tinha uma compleição física

invejável para sua idade. À primeira vista, não apresentava nenhum dos efeitos físicos da doença, mas os relatórios já confirmavam a possibilidade de metástase em razão da extensão do tumor na caixa torácica. O hospital, apesar de público, era referência no tratamento do câncer há muitos anos. Ele, pelo menos naquela área do complexo médico, estava em boas mãos.

– Boa tarde, senhor Ângelo, meu nome é Heloísa. Sou médica residente, auxiliei na intervenção cirúrgica a que foi submetido e farei o acompanhamento do senhor até seu restabelecimento. Como está se sentindo hoje?

– Forte como um touro! – disse, vigorosamente, quase estremecendo as janelas do quarto.

– Ótimo.

A jovem utilizou o estetoscópio, verificou os reflexos do senhor, os batimentos cardíacos e a

temperatura, e deu andamento aos demais procedimentos comuns, apalpando a região suturada,

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perguntando se sentia dores.

Enquanto isso, o velho disse, batutando, como se quisesse recordar algo guardado, há muito tempo, na memória:

– olhando a plaqueta de identificação da médica, em seguida,

arrematou: – conheci um rapaz que foi gerente do banco em minha cidade há muitos anos. Era da sua família. Alto, sorridente e desengonçado. Um garoto, na época. Mas já se passaram muitos anos. Não vou dizer quantos para que a senhora não descubra que já tenho mais de vinte

– disse, sorrindo. – Seria um parente seu? – Antes que ela respondesse, começou a contar várias histórias engraçadas envolvendo o então jovem executivo que nada conhecia da vida do interior, principalmente as trapalhadas com os costumes locais. Heloísa ouviu atenta e alegremente. Até se abstraiu da gravidade do estado do velho e dos problemas pelos quais estava passando, recordando, de forma positiva, do genitor. Disse ele que o pobre gerente, apesar dos estudos e de ser uma pessoa de bem, não diferenciava um bode de uma cabra. Heloísa riu com as mancadas daquele que seria no futuro ninguém mais ninguém menos que o seu pai. Wilson havia sido bancário quando jovem, antes de assumir um emprego público e constituir família.

– Doutora Heloísa Algarve

– Wilson Algarve? – perguntou a jovem doutora.

– Isso mesmo! Era seu tio?

– Ângelo, deixe de ser curioso! – reclamou a esposa do idoso.

– Sem problema, senhora. Esse gerente era meu pai.

A idosa, preocupada com uma provável incontinência verbal do marido, advertiu, consolada:

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– Agora não vai deixar mais a senhora sair daqui. Melhor arrumar uma cadeira porque a

conversa vai ser longa. Ângelo tem uma memória de elefante. Nunca vi ninguém lembrar tantos “causos”.

– Pois como ele está? Continua assim, bonito como eu?

– Infelizmente, meu pai faleceu não faz dois meses, senhor

tristeza. Concluiu o velho:

– Heloísa respondeu, com

– Ângelo, minha jovem, Ângelo. Minhas mais sinceras condolências

– Obrigada.

– Mas vejo, ao menos, que ele fez bem o seu trabalho. Ter uma moça assim tão bonita,

dedicada, inteligente e sortuda – disse o senhor, para descontrair o ambiente depois da triste

notícia.

– Que sorte? – perguntou, sem entender a afirmação do fazendeiro:

– Por estar cuidando de mim – respondeu, com cara de riso.

Heloísa, dando reciprocidade ao bom humor do velho que, magistralmente, soubera driblar

o constrangedor fato, abriu um sorriso. Maria, mulher do enfermo, apenas amainava a cabeça e dizia em voz baixa:

– Ai, minha nossa senhora

Esse aí

Ainda conversaram mais amenidades por uns instantes. Mas a médica tinha que dar continuidade aos atendimentos. “Que senhor amável”, pensou.

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Há um provérbio indiano que diz: “quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio”. Ângelo certamente sabia disso. Heloísa saiu mais leve da ala B naquela tarde. Fora uma boa estréia.

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À parte esse acontecimento que trouxe descontração, foram dificultosos os primeiros dias após o enterro. Apesar do esforço, a concentração da jovem médica se vergava como o pequeno arbusto sujeito a um vento forte. Às vezes, achava que estava à beira de um colapso. Mas precisava tocar a vida em frente. Sua maior preocupação, no momento, era a genitora. Enquanto cada uma das meninas tinha ocupações que lhe tomavam o tempo, o ócio no lar da senhora Raquel certamente a transformaria em absorta e distante. Até as tarefas da casa poderiam ser abandonadas, o que levou as filhas a ficarem bastante apreensivas. A tia Abgail, irmã da mãe das jovens, apesar de residir distante, tomou um avião e veio participar do enterro. Havia um laço de amor e amizade muito grande entre as duas, tanto que nunca perderam o contato, apesar dos anos. Preocupada após ver dona Raquel bastante apática e depressiva, Abgail chamou as sobrinhas em um canto e disse:

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– Estou preocupada com Raquel. É melhor ela ir passar um tempo comigo.

Abgail era casada com Ivan, um engenheiro civil que tam- bém se relacionava bem com o concunhado, mas que lamentava não poder ter vindo em razão de compromissos profissionais.

Foi ele quem propôs a ida de Raquel para a sua casa durante uns dias ou até meses, se preciso fosse. Era sua forma de ajudar a cunhada. E Abgail arrematou:

– O que acham?

– Concordamos, tia – falou Magnólia pelas duas –vamos apenas perguntar a ela. – As filhas,

então, dirigiram-se até a mãe e comunicaram o convite, informando que seria importante para ela mudar de ares. Ela concordou. As malas foram preparadas por Magnólia e Heloísa, às pressas. Dois dias depois voltou a senhora Abgail para sua cidade, acompanhada por dona Raquel. As moças foram até o aeropor- to deixar a mãe e a tia, e se abraçaram com fervor. Para Magnólia, a proximidade do matrimônio servia de incentivo com o fim de esquecer o episódio. Em algumas oportunidades até sorria, confiante na união matrimonial tão sonhada pelo jovem casal. Já a caçula tentava ao máximo superar a saudade, o que nem sempre conseguia, uma vez que Wilson era bastante carinhoso com todas, e brincalhão – a alegria da casa – dizia ela.

Certa tarde, Heloísa foi com a irmã escolher o vestido do casamento. Deu-se um momento

de espontaneidade. Após a escolha da belíssima manta nupcial, estando a futura noiva vestida, Heloísa brincou:

– Trate esse vestido com cuidado, Magui.

– Por quê, Bela? Está querendo negociá-lo? Vou logo avisando que não o venderei. Será

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lembrança. Quem sabe minha filha o vista um dia.

Heloísa colocou as mãos à cintura e, com um tênue sorriso, comentou:

– Ah, sim

– E em quem mais serviria? – Magui perguntou, com ironia, fazendo-se de desentendida.

– Em mim, ora – riram, contentes.

Agora, sim. Você acha que uma filha sua iria usar esse vestido daqui a trinta anos?

A vida de Heloísa se resumia ao convívio com os pais, o pessoal do hospital, Mariano e

alguns amigos mais chegados. Os colegas de trabalho do centro médico tentaram a todo custo reanimar a jovem. Chamavam- na de Rapunzel, já que suas madeixas eram volumosas e compridas, à meia altura das costas.

Sempre a convidavam para um cinema, nas poucas horas vagas, ou um barzinho. Na maioria das vezes, a recusa era educadamente dada.

A rotina diária de Heloísa era pesada. Começava cedo, por volta das sete e meia da manhã,

com raras aulas teóricas e, principalmente, práticas, estendendo-se até o meio-dia. No turno vespertino, que se iniciava às duas da tarde, atendia normalmente no hospital e acompanhava os pacientes que foram por ela operados. Os fins de semana, às vezes, eram despendidos em plantões de até vinte e quatro horas. Ganhava-se razoavelmente com isso, malgrado o sacrifício da vida pessoal. Um médico afamado e com grande clientela não necessitava de perder seu sábado e domingo com a família para ficar no corre-corre estressante de um final de semana na emergência. Restava aos residentes tal tarefa. O hospital, pelo menos, fazia sua parte. Havia alojamentos climatizados onde podiam eles descansar, juntamente com o corpo médico efetivo que estava em

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plantão. Mas o entra e sai dos médicos era constante, o que dificultava um repouso a contento. Como o hospital era distante de sua residência, geralmente ela, Alberto e outra médica, por medida de economia, faziam revezamento. Nas segundas, ela dava carona e nas quartas era caronista de Alberto. Com Patrícia, nas terças, era a caronista e, nas quintas, dava a carona. Às sextas e feriados, os horários eram diversos, o que obrigava cada um a ir em transporte próprio. O prédio era imenso. O maior hospital de toda a região metropolitana. Excelência no tratamento do câncer, há muitos anos, era nacionalmente famoso. Até pacientes de países circunvizinhos que mantinham acordo já haviam se deslocado até lá para tratamento. Mas tinha lá suas deficiências em outras áreas. Oito andares, inúmeras salas. Centenas de pessoas trabalhavam ali na tarefa diária de salvar vidas. Era cansativo, mas Heloísa amava seu mister. Além do local para descanso e um refeitório, havia um banheiro amplo também colocado à disposição, tudo exclusivo para os médicos. Nele se encontravam pequenos armários, quase escaninhos, onde se podia guardar a roupa e alguns objetos pessoais, tais como bolsas, livros etc. Eram chaveados, o que garantia segurança e tranqüilidade de não verem seus pertences sumirem enquanto estavam trabalhando. Certo dia, entretanto, um fato incomum ocorreu. Ao abrir a porta metálica do seu armário, reparou num bilhete que lá havia sido inserido por umas frestas de aeração. Após desdobrar a folha, viu um impresso em computador que dizia:

Heloísa, não tenho a intenção de causar problemas. Mas quero avisá-la de que está sendo traída por seu

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namorado. Não tenho coragem de contar a forma como ocorrem, porque considero aviltante para a minha moral. Mas os encontros se dão às terças-feiras. Vá hoje até o Choupana por volta das 22 horas e verá. Desculpe o anonimato. Um(a) amigo(a) que lhe quer bem.

Um arrepio correu-lhe a espinha. Não era possível tamanha difamação! Logo ela, que passava por uma perda grande na família há apenas dois meses, com a mãe depressiva, e repleta de encargos com o hospital, era vítima de alguém desejoso de prejudicar seu relacionamento amoroso! Choupana era um conhecido bar da região, muito freqüentado por universitários. Ficava próximo do campus da Universidade. Mariano não seria tão idiota a ponto de lá se encontrar com alguém, pois certamente seria visto por todo mundo – pensou. Heloísa teve vontade de falar ao telefone, imediatamente, e contar ao namorado o acontecido.

Já passava das sete da noite, hora de sua saída do hospital. Para sua surpresa, exatamente, naquele momento, ligou Mariano para o seu telefone celular:

– Oi, Bela, ainda no hospital? – os mais próximos chama- vam-na de Bela.

– Sim – respondeu a jovem, friamente.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou Mariano.

Por um átimo, Heloísa teve vontade de contar tudo sobre a carta. Mas seu coração pediu que esperasse

– Tive mais um problema com Mônica. – Essa moça era uma colega de trabalho bastante

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individualista e competitiva. Tivera atrito com os demais residentes e Bela já tinha contado isso ao namorado. Por isso a desculpa para a frieza.

– De novo essa chata compulsiva? – perquiriu o rapaz. – Pois bem, estou indo jogar bola

com os amigos lá no Mangueirão. Vai ficar em casa estudando? – Era costume de Mariano jogar futebol às terças à noite e aos sábados no fim da tarde, sempre no Mangueirão, um campo de

futebol society que era alugado pelos esportistas. Heloísa até o estimulava, pois sabia da importância das atividades físicas. Ela mesmo atuara como levantadora nas equipes de vôlei do colégio e da Universidade, e ainda jogava com colegas do hospital nos raros finais de semana livres.

– Sim, amor – respondeu, tentando ser mais carinhosa, já que não havia provas de nada. –

Preciso preparar o resumo de um caso clínico sobre consolidação de fraturas para ser apresentado sexta-feira.

– Pois bom estudo. Que tal amanhã almoçarmos juntos?

Magoada com o conteúdo do bilhete, teve o ímpeto de dar um não ao convite, mas resolveu consentir:

– Passe lá no hospital ao meio-dia.

– Combinado. Um beijo, Bela – despediu-se o jovem comerciante.

Heloísa e Mariano se conheceram ainda na faculdade, por intermédio de uns amigos. Ela, estudante de medicina. Ele, aluno do curso de administração, em vias de se graduar. Foi amor à primeira vista. Havia quase quatro anos que namoravam. Chegaram a conversar sobre o futuro, mas tudo ficou acertado para depois da especialização, porque ela precisava de mais tempo para

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se dedicar à residência em traumatologia e sabia que os rotineiros plantões dificultariam a vida de dona de casa. Mariano era alvo, estatura e compleição física medianas. Diziam que ela era uma princesa para ele. Mas a paixão tem razões que não se explicam. O jovem era de família afamada na cidade. Sempre teve reputação de bom moço e jamais Heloísa desconfiara de algo dessa natureza ou gravidade. Por outro lado, durante os procedimentos do velório de Wilson, ele tinha sido bastante solícito, ficando a madrugada inteira ao lado dela, além de ter sido o negociador dos valores das despesas, providenciado as notas nos jornais e os procedimentos burocráticos exigidos para o enterro. Havia um bom entrosamento entre as famílias. As únicas e pequenas rusgas se davam com a mãe de Mariano, ciumenta. Era, portanto, um relacionamento que não tinha razão para confirmar as acusações sérias que eram feitas. Por cautela, porém, ao sair do centro clínico, resolveu passar no local do jogo. E lá estava o automóvel de Mariano estacionado. Ficou mais tranqüila. Tudo não passava de uma armação de alguém de má-fé. E foi para casa se preparar para fazer a apresentação aos outros residentes. Heloísa sempre foi dedicada nas tarefas que assumiu. E não seria diferente. Apesar do abatimento, uma vez que não se passaram muitos meses da perda do pai, pôs-se a estudar. A cozinha jamais fora do agrado de nenhuma das filhas. Na ausência de dona Raquel, a alimentação passou a ser feita fora de casa, seja em restaurantes, seja através de entregas em domicílio. Ana, empregada da casa, malgrado o esforço, não era o que poderia se chamar de

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cozinheira para o apetite de Heloísa e Magnólia. No máximo, uma boa arrumadeira. Por isso declinavam constantemente da boa vontade da moça em preparar-lhes o jantar. Ingenuamente, a doméstica pensava: “essas meninas vão acabar desmaiando de fraqueza. Também, não comem!”. Para dar um descanso aos estudos, resolveu ela mesma ir pegar a comida em um drive-in. Chovia. Sequer trocou de roupa. E nem precisava, já que nem ao menos iria sair do automóvel. Comprou um sanduíche natural, mais ao seu estilo, e um copo de suco. No caminho de volta, lembrou-se da história do bar Choupana. Uma ponta de irresignação lhe cobriu a mente: “E se fosse verdade?” Resolveu, então, investi-gar. Sentiu um pouco de culpa em pensar assim. Como ela mesma pôde conferir, ele estava jogando futebol como havia dito na hora em que ela saiu do hospital e, sendo assim, deveria estar em casa naquele momento, já que normalmente não jogava mais que uma hora e meia. Ligou para lá. A empregada da casa disse que ele não tinha chegado, ainda. – Fácil! – pensou. Porém, ao ligar para o aparelho celular, o mesmo se encontrava desligado. Olhou o relógio: nove e quarenta e dois. – Será o destino? – perguntou-se. Um frio rompante lhe percorreu as costas e os braços. Teve um calafrio. Subitamente, decidiu investigar. Mas como fazer se sequer teria coragem de entrar no ambiente vestida daquele jeito? Decidiu, entretanto, parar o carro a uma distância segura e aguardar. No estacionamento, olhando rapidamente, não reconheceu o automóvel dele. Parou, constrangida consigo mesma, numa esquina próxima, em frente a uma farmácia, de onde se via todo o movimento do estabelecimento noturno. Aproveitou e jantou ali mesmo, sob os olhares interrogativos do vigia da drogaria. O bar estava cheio. Era o point da cidade às terças-feiras. Muitos carros estacionados. O

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relógio passou das dez da noite e nada de Mariano. Porém, o celular continuava fora da área de serviço. Sentindo que estava fazendo papel de boba, de adolescente, decidiu ir embora e acabar com aquele verdadeiro surto de ciúmes. Não se considerava ciumenta, mas sempre tivera cuidado com Mariano, o que seria natural em qualquer relacionamento, embora ele afirmasse freqüentemente que ela tinha um típico comportamento feminino quando dizia: “a possessividade é atributo da alma da mulher”. Naquela mesma noite iria ligar e se desculpar pelos pensamentos maldosos. Mariano era genioso, de pouca cultura e, às vezes, irritadiço. Mas tinha também qualidades. Era carinhoso e até compreensivo com os problemas de disponibilidade de tempo da jovem, embora vez em quando reclamasse. Começou, então, uma chuva fina, que caía sobre o pára-brisa do automóvel, e que aos poucos foi se encorpando. “Melhor ira para casa” – pensou. Ligou o carro e quando ia dando a partida um susto: o veículo de Mariano! – Meu Deus! Eu não mereço mais esse desgosto! – falou alto, em tom de desabafo. De longe viu alguém entrando apressadamente no veículo do jovem. Quem seria? Decidida, resolveu acompanhar, de longe. Logo foi tomada por um tremor, as lágrimas dificultavam a visualização das ruas. O susto foi grande. Estava perplexa. Chegou a estancar o carro. Ia colidindo o veículo por duas oportunidades. Sorte sua que Mariano estava dirigindo em velocidade média. O veículo se direcionava a uma zona afastada da cidade. Não acreditava. Seria um sonho tudo aquilo. Não. Seria mais um recente pesadelo em sua vida?

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Mais esse abismo no caminho da pobre moça. E se questionava do por quê de tanto sofrimento

em tão pouco tempo. E chorava no volante a cada instante. Tentou fazer uma ligação para sua irmã. Não teve coragem. O carro seguido entrou em um motel. Não havia mais dúvidas. Era traição! O local, ermo e sombrio, atemorizava-a. Teve medo, o que seria natural. Deu vontade de entrar e apanhá-los ali mesmo, fazer um flagrante. E por que não um escândalo? Mas não era mulher para aquele tipo de comportamento. Resolveu esperar, tirando coragem não se sabe de onde. Decidiu, então, ligar para Magnólia. A irmã tentou demovê-la:

– Volte para casa, Bela. Não se arrisque aí. É perigoso. – As duas sempre foram muito

unidas. Magnólia estava realmente preocupada e assustada com a situação pela qual passava a irmã. E o melhor naquele momento era preservar a segurança de Heloísa.

A jovem médica se sentiu aviltada e desprotegida. Será que nem a irmã lhe daria apoio em tão difícil hora? Não era ingênua. Sabia o que estaria acontecendo no quarto naquele momento. Sentia ódio e repulsa. Estava absolutamente revoltada com a situação:

– Não. Agora vou até o fim! – exclamou com firmeza – e não ligue para Mariano ou Jonas. Quero resolver isso logo hoje! Não me traia você também!

– Calma. Sou sua irmã, lembra? Então aguarde que chegarei daqui a pouco.

Magnólia jamais deixaria a irmã passar por aquele momento sozinha. Já a conhecia o bastante para saber que era melhor acompanhá-la do que esperar que desistisse.

– Venha de táxi, porque não sei se conseguirei dirigir direito – alertou, enquanto pranteava.

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– Está certo – e não demorou. Em poucos minutos, lá estava a irmã.

Juntas, choraram, agora as dores do desengano e da decepção, no interior de um carro, em local afastado e escuro. E a chuva castigava aquela noite de forma violenta. Foram quase duas horas de tensão. Vez ou outra chegava e saía um automóvel. Magnólia

ainda insistiu para que fossem embora. Heloísa estava irredutível. Precisava saber de tudo, logo. Já beirava a meia noite quando o carro de Mariano saiu. Magnólia, em melhores condições, guiou o automóvel. A chuva passara. O trajeto era inverso. Onde moraria a amante? Eis que o veículo voltou ao local do encontro, o bar Choupana.

– Não é possível. Agora ficarão juntos lá dentro. É um acinte! – disse Magnólia, revoltada.

Na mente de Heloísa, todo o relacionamento passou em flash-back. Desde quando se conheceram. As brigas, os momentos de afeto e harmonia. Os planos para o futuro que fizeram, os sacrifícios e as expectativas em relação ao casal. Tudo jogado fora em tão pouco tempo. Seria possível o perdão? Naquele momento isso não lhe passava pela cabeça. Mas por que acontecera aquilo?

– Onde errei? – perguntou-se.

De repente, bem próximo a entrada do Choupana, desceu do carro uma pessoa que, àquela distância, embora não desse para definir bem, parecia ser uma jovem. As irmãs não foram percebidas, já que Magnólia, com medo de uma reação desmedida de Heloísa, preferiu manter certa distância. Na verdade, o bar não era freqüentado por Mariano e seu affair. Era apenas o

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ponto de encontro onde a outra pessoa deixava o veículo em segurança. E entra nele. Tinha

planos de fazer o flagrante ali mesmo. Sem escândalos, mas o suficiente para desmoralizar Mariano. Porém, a vista da jovem médica escurece, prestes a desmaiar. A dor é grande. E cresce assustadoramente, tornando-se insuportável. As forças lhe faltam. A reação de Magnólia é apenas balbuciar, estupefata:

Dália! – grita Heloísa, antes da síncope – isso mesmo, aquela que julgava

ser sua grande amiga. A dália é uma flor. Mas aquela tinha espinhos

– Que decepção

!

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Bela só foi se reanimar em casa, e Magnólia a ajudou a sair do carro. Estava completamente abatida. Foram duas grandes quedas em poucos dias. A perda do pai, amado e saudoso, deixou um vazio em seu coração que somente o tempo poderia ser lenitivo. Porém, a traição de Mariano fora também de grande impacto para ela, uma vez que já se encontrava emocionalmente frágil. Nunca tinha passado por sua cabeça, ainda que nas crises de ciúmes, uma situação tão extremada. O namorado a traía com aquela que julgava ser a sua melhor amiga. E começou a digerir algumas situações de que antes não tinha se dado conta, como as ocasiões em que Dália voltara com ele depois de festas em sua casa. A última vez, não fazia muito tempo, foi no seu aniversário. Sentiu-se uma tola, tão facilmente enganada. Mas o pior: Dália fora sua confidente durante todo esse tempo. Os problemas com Mariano eram compartilhados com ela. Até algumas intimidades do casal, a jovem médica havia contado com absoluta confiança, certa de que a interlocutora era pessoa acima de qualquer suspeita. Dália tinha se aproveitado disso tudo para se

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aproximar de Mariano e conquistá-lo. Mas por que fazer isso com ela? Por que jogar pela sarjeta uma amizade sincera e de tantos anos? Como poder confiar agora em alguém se a melhor amiga a traía com o seu amado? Além de passada para trás, Heloísa se sentia humilhada e revoltada, indignada por saber que não faria uma coisa dessas. Sentiu-se afetada em sua moral, em sua honra. Dália não era fisicamente mais bonita que Heloísa. E certamente não seria uma mulher mais interessante, tendo por conta outros atributos, tais como inteligência, caráter ou dignidade. Conheceram-se ainda na infância. Residiam próximas uma da outra, no mesmo bairro. Por isso cresceram compartilhando as mesmas brincadeiras e a turma de amigos. Seguiram, porém, caminhos diversos na juventude. Heloísa se preocupava com seus estudos. Já Dália sempre fora mais sociável e festiva. Uma equilibrava a outra: Heloísa a estimulava a estudar, enquanto Dália fazia crescer o rol de amizades da amiga. Contudo, no íntimo, Dália nunca passara de uma menina mimada, filha de pais abastados, que não se realizara enquanto profissional. Terminou a faculdade de Jornalismo sem maiores pretensões. De outro lado, era rosto freqüente nas fotos das colunas sociais. Não obstante, dizia, não raras vezes, que gostaria de viver um relacionamento mais estável, como o da amiga. Seus namoros nunca eram duradouros e no fundo temia a solidão futura. Só poderia ser essa a resposta. Indignada e abatida, Bela se perguntou, em voz alta:

– Como pude confiar em Dália? Ou melhor, como ela pôde fazer uma coisa dessas comigo?

– Só o tempo irá dizer, irmãzinha. Agora cuide em dormir. Amanhã você poderá resolver

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esse problema com a cabeça fria. Não fosse a exaustão pelo choro, a noite teria sido longa. Mas nem por isso foi tranqüila. Repleta de pesadelos, a angústia foi sua companheira de claustro na escuridão do quarto. A pedido de Heloísa, Magnólia não contou a ninguém o ocorrido, nem mesmo ao noivo, Jonas – que certamente adiantaria a Mariano, uma vez que se tornaram amigos – até que a irmã decidisse o que fazer. Porém, o pior foi ter que ir para o hospital na manhã seguinte. Alberto apareceu buzinando na hora marcada e percebeu o semblante da amiga, que demorou um pouco mais do que de costume. Os sinais eram evidentes de que algo de grave havia ocorrido. Mas para os colegas médicos do hospital, o abatimento nem seria motivo de questionamento face à morte recente de seu genitor. Era até um assunto que evitavam tocar para não causar constrangimentos. Alberto contou algumas piadas no caminho, a maioria sem graça. Heloísa disfarçou uns sorrisos. Ele sentiu um clima diferente e teve até vontade de perguntar se tinha acontecido mais alguma coisa de ruim. Porém, seria uma lembrança qualquer do pai, talvez o dia do aniversário ou coisa assim, imaginou. Heloísa se mostrava aérea e distante. Estava usando óculos escuros e nada conversou. Suas respostas eram monossilábicas: – é; sim; não; talvez Foi difícil manter a concentração em uma aula teórica que teve de assistir exatamente naquela manhã. Dirigiu-se ao banheiro algumas vezes para chorar. Decidiu voltar para casa por volta das nove horas, já que estava sem feitio para disfarçar mais. Magnólia saiu do trabalho no escritório de arquitetura e a apanhou.

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– O que vai fazer? – perguntou a preocupada Magui.

– Não sei ainda – respondeu, grave.

– Pelo amor de Deus, não faça uma besteira, Bela! Já basta o sofrimento de mamãe com a

morte de papai. Não nos dê um desgosto! – Magnólia disse, imaginando como se sentiria se ocorresse o mesmo com ela.

– Quanto a isso, nem se preocupe. Pelo amor que sinto por ele, até perdoaria uma traição Mas com minha melhor amiga, não!

– Você sabe que andava ausente ultimamente, muito atarefada. E sabe como os homens são,

não podem ver um rabo de saia

– Isso não é desculpa, Magnólia. Deixe de ser machista! Parece que você está do lado dele!

Não jogue a culpa em mim! Era inegável que, com o passar do tempo, criou-se um elo de afeto e amizade entre Magnólia

e o cunhado. Por outro lado, sabia que Heloísa já sofria muito com a perda do pai e precisava de um apoio. Talvez ainda houvesse remendo para o relacionamento:

– argumentou, tentando contemporizar.

– Está bem! Só estava querendo salvar a relação de vocês.

– Então, coloque-se no meu lugar. O que você faria?

– quase cometia um ato falho. Ela também não perdoaria facilmente um ato

desses por parte de Jonas. – Tá bem! Faça o que achar melhor. Mas me responda: vai acabar com ele?

– Eu esgan

– Não, não vou matá-lo. Era isso que você pensava?

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– Absolutamente, Bela!

– Vou terminar. Não dá para perdoar uma coisa dessas.

– Posso contar a Jonas?

– Ainda não.

A noite mal dormida exigiu, com a mais pura razão, a continuidade do sono em plena manhã. Agradeceu à irmã e entrou em casa. Como havia combinado, Mariano passou pelo hospital e perguntou por Bela. Falaram que tinha ido para casa porque não estava se sentido bem. Imediatamente, Mariano, sem saber da descoberta, foi até a casa da jovem. Tocou a campainha e esperou. Eis que Bela apareceu. Gesticulou para que ele entrasse. Mariano estranhou o comportamento dela e perguntou se algo havia ocorrido. Respondeu que sim, com uma feição grave. Dessa vez, ele tremeu. Teria Heloísa descoberto? – perguntou-se. Mariano sempre fora cuidadoso em suas aventuras. Gostava de Heloísa, mas o relacionamento, que no início era uma chama de paixão, deixou-se apagar pela rotina dos dois. O costume se tornou mais forte que o sentimento, era pelo menos o que pensava. Por isso as aventuras. Dália, embora sonhasse conquistar o coração do jovem, agia também por leviandade, deixando em segundo plano os sentimentos de Bela. Mas, para Mariano, a história não passava de uma aventura, e nada mais. Nunca valorizaria Dália pelo que fizera. À parte seu machismo, jamais respeitaria a ponto de amar uma mulher que se sujeitasse a sair com o namorado da melhor amiga. E de que mais não seria capaz de fazer uma mulher dessas?

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O jovem, desconfiado, achou melhor levá-la a um local agradável. Lá seria mais fácil contornar a situação. Tudo tinha sido uma aventura, sem envolver sentimentos. Heloísa ficaria um bom tempo chateada, mas terminaria lhe perdoando:

– Não acha melhor sairmos para almoçar?

– Não. Vamos conversar agora mesmo, Mariano – enquanto enxugava as primeiras gotas nos olhos entristecidos. Então, de uma vez só – lágrimas rolando do rosto – Bela pormenorizou o que tinha

presenciado. No início Mariano ainda tentou justificar, mas viu que era inútil. Ela sabia de tudo. Ele se sentiu um crápula, culpado, e chorou, de remorso e vergonha, ali, de frente para quem jurara tanto amor e que por trás traía. Pediu uma segunda chance. Sem resposta. Sentiu, então, que poderia perdê-la.

– Foi humilhante, vergonhoso, Mariano. O que você vai dizer aos seus pais? Vai ter coragem de contar a verdade?

– Bela, me perdoe

– Saia daqui antes que eu faça uma besteira.

– Eu sei que errei, mas te amo.

– Não diga essa palavra!

O diálogo inicial, então, transformou-se em discussão emotiva. Mariano, em defesa, argumentou que Heloísa despendia mais atenção à residência em traumatologia que a ele e que por isso dava suas saídas. Mas logo com a melhor amiga dela? Era difícil para Bela compreender

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isso.

– Não passou de uma aventura sem importância. Era só sexo – de que adiantava dizer isso a Heloísa? Mas seu coração não pendeu, realmente, em momento algum, a favor de Dália. Não adiantaram as explicações. Aos prantos, expulsou Mariano de casa. Ele saiu atônito. Andou a esmo no carro. Ligou para Dália e contou tudo. Ela caiu em si. Que coisa horrenda havia feito com a amiga. Dália e Heloisa não se falaram mais. Nem pedido de desculpa, nem perdão. Restaram, de um

lado, o rancor e o desprezo. Do outro, o remorso, a vergonha e a culpa. Uma relação mal resolvida que poderia, no futuro, causar mais transtornos.

A história da traição correu entre os amigos e as conseqüên- cias foram graves para a flor

espinhosa, que murchou pelo abandono. Sequer Mariano a quis. Teria sido leviana? Provavelmente.

Agiu por amor a Mariano? Talvez. O coração se volta, às vezes, contra si mesmo.

Já Mariano teve que engolir a seco tudo que Bela lhe havia dito. Só naquela hora, então, dera

conta do grande erro que foi ter se envolvido com Dália. Seu peito doía. O sentimento por Bela, que parecia ter adormecido, se fez presente com intensidade. Acordara para o mundo tarde? Redescobrira o amor por Heloísa de forma traumática. Poderia reconquistá-la? As dúvidas pairavam

sobre as angústias do jovem administrador. E não seria fácil contemporizar seus sentimentos e as incertezas que agora lhe rondavam. Sabia disso.

O tempo é o senhor dos sábios e dos tolos. Responderia as perguntas na época oportuna. De

toda forma, aquele fora o pretenso almoço mais indigesto que tivera na vida.

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Heloísa e Magnólia estavam esperando no saguão do aeroporto. Havia três meses que sua mãe partira. Nesse tempo muita coisa mudou na vida de todas. Bela terminara um relacionamento longo e ainda sofria. Magnólia iria se casar em breve e por isso a mãe tinha que voltar. A senhora Raquel passou por uma mudança de ares necessária. Após um forte abraço das filhas, a família seguiu até um restaurante para comemorar a volta

da matriarca. Dona Raquel adorava pizza. Dirigiram-se, então, ao seu restaurante preferido. Sentadas

à mesa, foi uma grata surpresa para as filhas sentirem o estado de ânimo da viúva. Parecia mais

tranqüila e descansada. Era o que importava. Estava também mais magra. Mas todas elas perderam peso no período, o que não seria de se surpreender. Conversaram, primeiro, sobre as novidades da viagem, os locais visitados e o dia-a-dia com

a irmã, o cunhado e os sobrinhos. Os primos, dois, estavam bem. Um deles, Carlos, terminava engenharia civil, era cantor de uma banda de rock nas horas vagas e sempre acordava a senhora

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Raquel quando chegava das baladas, por mais cuidado que tentasse ter.

E contou às filhas, sorrindo:

– Também, com aquele corpanzil de mais de cento e vinte quilos, mal distribuídos em um

metro e oitenta de altura

pensando que ninguém nota. Discreto como um rinoceronte – dizia a senhora Raquel – é uma

graça. Sempre cantarolando, dentro de casa, músicas que não eram bem ao gosto de Ivan e Abgail. Ele está fazendo aquele tipo que usa blusão de couro sintético e pulseiras com cravos metálicos.

– Vocês acreditam que, certa vez, tocaram a campainha, fui atender e de repente vi um dos

excêntricos amigos de Carlos? Chamei-o e, quando ele chegou até a porta, fez um gesto com as mãos em forma de diabo, usando o indicador e o dedo mínimo. Eles eram tão esquisitos que daria para trancá-los em uma jaula e cobrar ingresso – disse, rindo, a senhora. Referindo-se ainda a Carlos:

– O metaleiro ouve as estridentes músicas constantemente. Mas Ivan teve uma idéia que

salvou a paz no lar: tem que ser com fones de ouvido.

Gordo, vive em um regime semi-aberto: assalta à noite a geladeira,

– E como anda Marx? – perguntou Magnólia. Ele era o irmão mais novo.

– Continua o oposto. Intelectual, erudito e reservado, mais magro e formal. Anda sempre

penteado e não perde uma aula do curso de direito, do qual é aluno destacado. Já estagia em um escritório, apesar de cursar o terceiro período, apenas. Tem um ponto em comum com o

Para chatear o irmão, Marx colocou-

primogênito, pois gosta de música, só que Chopin, Mozart

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lhe o apelido de Roberto Carlos. Carlos considera um verdadeiro insulto. E deu o troco, só chama Marx de “Jaboti”, por considerá-lo um lerdo. O pior é que o danado parece mesmo – confidenciou às filhas, sorrindo.

– Ivan faz gozação com isso tudo. Costuma dizer agora que um deles foi trocado na

maternidade. – E continuou: – É costume, aos sábados, pedirem para entrega no domicílio duas

pizzas. Eu me deleitava. Só que uma era para o resto da família e a outra somente para Carlos. Ambas acabavam rapidamente. – As meninas gargalharam.

– E não é só. Eles estão agora com um cachorro grande e felpudo que anima a casa, ao

mesmo tempo em que a enche de pêlos. O nome do sem-vergonha tem tudo a ver: Fofão. Deixa pêlo até no controle remoto – observou a senhora. – Parece Carlos: grande, desengonçado e não faz mal a ninguém. Todos o adoravam, inclusive eu. Continuam morando no mesmo local, uma confortável casa em um condomínio fechado, a vinte minutos do centro da cidade. Lá, eu e Abgail fazíamos caminhadas matinais bastante agradáveis. A pedido de Heloísa, dona Raquel passou a contar do dia-a-dia de Ivan, que era engenheiro civil:

– Continua com a construtora, seguindo a mesma rotina de sair cedo, voltando somente no

início da noite, o que nos dava a tarde inteira para conversar. As meninas ficaram felizes com o tratamento dispensado pelos tios e depois ligaram agradecendo. Mas já era hora mesmo da mãe voltar para casa. No dia seguinte, as irmãs tiveram uma ótima idéia: foram até um pet-shop e compraram um

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cachorro para fazer companhia à mãe. Assim dona Raquel teria algo para cuidar e ocupar seu tempo.

– Qual a raça? – perguntou a vendedora.

– Não pode ser peludo – responderam. Dentro da loja havia um cercadinho repleto de filhotes, cada um mais bonitinho que o outro.

– Dá vontade de levar todos – comentou Magnólia. Mas escolheram um Beagle branco e

marrom de apenas dois meses de idade. Tal raça é boa porque é pequena, tem pelo curto e é bastante alegre e brincalhona, o que viria somente a alegrar a residência. A campainha da casa da senhora Raquel tocou. Ela mesma fez questão de abrir a porta. Não tinha ninguém. Porém, ao olhar para baixo viu, em uma cestinha, um lindo cachorrinho bicolor dormindo. Ao lado, uma mamadeira e um cartão:

Mamãe, cuide de mim. Minha raça é Beagle, a mesma do Snoopy, aquele cachorrinho de desenho animado. Mas sou de verdade, tenho dois meses. Tomarei leite fervido até o próximo mês. Prometo não fazer pipi nem cocô nos tapetes e nem encher a casa de pêlos, desde que a senhora me ensine. Não tenho nome ainda. Bote um em mim, por favor.

Ass.

– Ana, vem cá! Olha só o que as meninas trouxeram

– chamando a empregada.

– Dona Raquel, que coisa linda! Só não vá sujar a casa para eu ter que limpar depois – disse a empregada, apontando-lhe o indicador, enquanto segurava a cesta onde estava o pequeno e sonolento cãozinho.

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– pensou um pouco e teve uma idéia

– Snoopy! Isso mesmo! Snoopy será seu nome – enquanto olhava carinhosamente para o bichinho que dormia com a barriguinha rosada para cima. Bem, o nome pode não ter sido uma escolha para lá de criativa, mas foi o gosto da dona. A intenção é o que vale

– Chamá-lo de Fofão seria muita falta de criatividade

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Douglas Azatto estava saudoso naquele réveillon. Em plena Plaza Mayor, repleta de nativos e estrangeiros, passava os seus últimos dias na Espanha. Havia sido um bom ano, de grandes acontecimentos em sua vida. Concluíra seu mestrado na famosa e antiga Universidade Complutense de Madri. Mestre recém- titulado, sua dissertação, bastante elogiada pela banca examinadora, tinha sido sobre Direito Internacional Privado, assunto que o apaixonava. Contava trinta e um anos. Era alto, magro, alvo, de feições amenas. Naquela noite, usava um sobretudo cinza que o agasalhava do frio rompante de Madri, a mais alta capital européia, majestosamente encravada a seiscentos metros de altitude. Junto com alguns amigos, dentre eles outros dois brasileiros que lá estavam também cursando pós-graduação, assistiram com alegria aos estampidos dos fogos na Plaza Mayor. Pensou no Brasil. E o réveillon em Copacabana? Seus pais tinham viajado para romper o ano na cidade maravilhosa. Como estariam todos àquelas horas?

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Abraçada a ele se encontrava Tereza, sua namorada. Os olhos da jovem catalã brilharam ao encontrar os seus. Sorriram com a espontaneidade que só o amor sabe e pode produzir. Mas eram conscientes dos seus destinos. Conheceram-se havia oito meses e depois disso não mais se separaram. Era uma pena o relacionamento passar por um momento como o que viria em pouco tempo. Haveria, em breve, um oceano a separá-los. Sabiam disso, mas não queriam pensar senão no presente, embora inevitável, já que o vôo de volta para o Brasil partiria três dias depois Natural de Barcelona, Tereza cursou engenharia elétrica em Madri e, nessa mesma cidade, iniciara seu trabalho. Filha de família numerosa, por sua inteligência e profissionalismo fora a única bem sucedida e assumiu a responsabilidade de ser o arrimo dos seus genitores, uma vez que seus pais eram agricultores nas cercanias da capital catalã. Formara-se com destaque em engenharia elétrica e se tornara executiva de uma multinacional alemã que atuava na mesma área, após anos de intenso, destacado e profícuo trabalho, o que ocasionou sua vertiginosa subida dentro dos quadros da empresa tedesca. Não tinha como se transferir para a América do Sul sem procurar outro emprego, uma vez que lá não havia subsidiárias do grupo berlinense. Por outro lado, dada

a posição que ocupava naquele holding, não conseguiria igual remuneração no Brasil. Inúteis tinham

sido até então os inúmeros currículos que havia enviado ao País e distribuídos entre head-hunters e diretores de corporações de porte. Apesar dos sentimentos envolvidos – uma vez que percebera

a grande afinidade entre ela e Douglas – o melhor foi raciocinar com a razão e esperar para ver se

algum resultado concreto adviria das ofertas que surgissem para trabalhar em nossa terra. Azatto

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insistiu para que voltasse com ele. Disse que a sustentaria até ela encontrar um emprego. Mas a espanhola não estava disposta a tamanha aventura. Tinha índole independente, os pais para

sustentar e não aceitaria o risco e nem os custos financeiros para o amado. Por enquanto, ficaria na Espanha. Tereza Madrigal Cortez, seu nome. Tinha passado por outras experiências, mas nenhuma havia lhe trazido a felicidade que agora encontrava com Azatto. Por isso o encantamento que sentia era por todos percebido. Olhava-o com afeto e admiração, o que era perfeitamente retribuído pelo brasileiro. Após os estampidos, abraçaram-se todos na Plaza Mayor, desejosos de um Ano Novo de realizações. Curtiram champanhe, e se confraternizaram em votos mútuos de ventura. Em seu brinde, Douglas olhou profundamente a espanholinha nos olhos, dizendo a famosa frase de

Dom Péringon, o criador do champanhe: – “estou bebendo estrelas

– Após, apertou-a contra

seu corpo naquela noite festiva e fria, sentindo o calor dela lhe atravessar o sobretudo. Ergueu novamente a taça da bebida francesa. Tomado pela inspiração que o arrebatava inexplicavelmente ao se sentir amado por Tereza, disse, entre comovido e esperançoso – enquanto seus lábios não disfarçavam um certo sorriso de felicidade por aquele instante:

E principalmente ao nosso amor.

Que seja profundo e perene, vigoroso, como um rio que corre, incessante, para abraçar o mar. Ela, em resposta, sorriu e, no momento do tilintar dos copos, disse:

– Amor, que seus pensamentos reflitam o nosso futuro. Meu amado, meu poeta. Depois, bons vinhos foram saboreados pelo seleto grupo de amigos, já em um bistrô na

”.

– Às nossas realizações, juntos, nesse ano que se inicia

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mesma praça. A Plaza Mayor, apesar do nome, mais se assemelha a um átrio, com piso de calçamento, formando um quadrilátero com aproximadamente cem por cem metros. Em sua orla existe um imenso casario cujas paredes são coladas, cobrindo toda a sua borda, numa edificação de quatro pavimentos. São edificações antigas, datadas do século XVII. Num dos lados, há um prédio imponente cujo terço médio é ocupado por órgãos do governo e as pontas por acomodações residenciais, onde felizes moradores desfrutam daquela bela visão diariamente ao abrir as janelas. A disposição confere uma similitude com um imenso átrio encravado no interior de um quadrilátero, sendo os acessos feitos por arcos amplos no térreo. Seja praça ou átrio, o certo é que a Plaza Mayor é um dos pontos mais importantes da cidade. O clima naquele local é bastante agradável, transpirando história e cultura. Em seu centro se encontra a estátua do rei Felipe II. Quando a madrugada se aproximava, despediram-se. Alguns daqueles amigos seriam vistos pela última vez até o embarque de retorno às Américas, e cada um mereceu uma sincera e especial despedida, além do convite para conhecer seu apartamento no Brasil e lá ficar por uns dias. Em seguida, voltaram para casa onde, na intimidade do quarto, o jovem cavalgou, intrépido, acompanhado de sua amada, cruzando curvas e montes, buscando veredas perfumadas e vales, cuja beleza natural o extasiava mais a cada caminhada feita. E nos olhos entreabertos da jovem, a

volúpia se insurgiu. Ele, pacientemente, percorreu os alvos quadris, fazendo-a tremer

E a fez

sentir-se uma mulher distinta de todas as outras. E então cavalgaram, abraçados, pela estrada do enlevo. Ao som de mil suspiros e, por ínfimos segundos, foram um ser só. Após aquela noite não mais seriam os mesmos

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Já no final da manhã, admirando a amada que dormia, Douglas levemente acariciou as costas nuas da jovem debruçada sobre o leito, envolta, dos quadris para baixo, pelo lençol de cetim. As cortinas, semi-cerradas, guarneciam o quarto da maior parte da luz exterior, criando quase uma penumbra. Era um quadro lindo vê-la daquele jeito, na pureza e fantasia dos sonhos. Em homenagem àquele momento de amor e felicidade, o poeta, então, extraiu os seguintes versos das mãos que reconheceram e avançaram, felizes e velozes, sobre a geografia retilínea das linhas do papel:

QUANDO

Quando vejo teu rosto arquear-se de enlevo Respondendo ao compasso de meus movimentos; Quando vejo sem veste o encantado relevo Do teu corpo que assente tantos sentimentos;

Quando o odor que exala tua pele macia Faz mistura com o ar que envolve o ambiente Quando tornas reais mais de mil fantasias Fechados os olhos, suspiros ardentes

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Posso então dizer que são mistérios O que ganham em sentido esses momentos – Essa mágica que o amor tornou império.

Estando em ti eu sou mais vivo e mais amante. Quando enlaçados estão os sentimentos Quisera ter a eternidade em tais instantes

Tereza era uma mulher belíssima. Fisicamente, representava uma típica moça ibérica, estatura média, com corpo torneado, pele alva, longos cabelos negros e cacheados. Seus lábios eram macios e rubros. Tinha vinte e nove anos quando conheceu Douglas. Seu olhar era bastante

expressivo. Sempre que algo que a afetava acontecia, tornava-se indisfarçável no semblante da

espanhola, e o brasileiro dizia: – Bebé, tus ojos no me engañan

Bebé – bebê, em espanhol. Ele estava cumprindo um trato feito. Ela só falaria com ele em português e ele se dirigiria a ela em espanhol, tão somente para que um pudesse treinar o idioma nativo do outro. Era costume de Douglas fazer caminhadas e rápidas corridas ao final da tarde, sempre no Parque del Retiro. E foi isso que fez no primeiro dia do ano, a sua despedida da capital espanhola, quando rumaram, ele e a amada, até lá. Essa ilha verde no coração da capital madrilenha era um dos locais mais apreciados pelo jovem brasileiro. Tereza, bem agasalhada, levou um livro para ler,

Carinhosamente, ele a chamava de

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uma vez que não agüentaria correr naquele frio de inverno, enquanto Douglas fazia suas passadas rápidas pelas pistas, apreciando a paisagem. O local é bastante freqüentado pelos nativos que, no início do dia e nos fins de tarde, lá vão para praticar atividades físicas ou descansar a mente em um passeio. O parque também merece o nome que tem. Azatto, naquele dia, apreciou com gosto a paisagem, passando pelo Estanque, onde há um lago e um bonito monumento em homenagem a Afonso XII. Depois, contemplou o Palácio de Cristal, imponente construção em ferro e vidro que, mesmo em época de inverno, conserva inexplicável sensação de leveza. Mas à frente, a área da Rosaleda, um belíssimo jardim onde, na primavera, explode a beleza de incontáveis variedades de flores, cujos matizes diferentes formam uma aquarela natural que impressiona mesmo os já acostumados ao local. Mas, naquela tarde de inverno, só mesmo bem agasalhado poderia Azatto praticar sua corrida. Ficaram praticamente todo o tempo juntos nos últimos quatro dias. Tereza até descontou tal tempo de suas férias no trabalho. Foram para a costa mediterrânea curtir os momentos derradeiros antes do embarque. O destino foi Málaga, a principal cidade turística da chamada “Costa del Sol”. Visitaram a Catedral da cidade, o Alcázar, um palácio-fortaleza construído durante a idade média, século XI. Foram ainda ao Teatro Romano e às ruínas da Fortaleza de Gibraltar. Ficaram hospedados em pequeno, mas confortável e estilizado hotel. Com arquitetura antiga, remetia o casal a uma época remota. Numa das noites, desceram as escarpas numa longa escada de pedra esculpida na encosta,

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apreciaram o céu estrelado e exasperaram toda a emoção a dois, à beira mar, em longa toalha

estendida sobre a areia da praia. Juntos, inconfidenciaram três pedidos após a passagem de uma

estrela-cadente

As testemunhas estelares guardariam aquele segredo para sempre. O cantarilho das gaivotas

prenunciou os suspiros não ouvidos por ninguém além dos dois amantes que se entregavam

ondas quebravam com vigor a cada ida que davam, intrépidas, no rochedo que desejava incessantemente a volta das vagas espumantes. A gramínea, ao sopé das falésias, estremecia de enlevo com o vento que a acariciava de forma viril, tocando-lhe com intensidade cada parte de sua macia folhagem. Era um quadro natural, de inebriante beleza e harmonia. Enquanto isso, a orquídea perfumosa se abriu, sentindo a dor e o prazer daquele beija-flor noturno que lhe provava do néctar, no fundo do seu cálice. Balançava, estremecia e gemia baixinho a flor, compassadamente, ao bater de asas do colibri que, após um período, fez desaguar dentro dela um instante de tremor e luminosidade intensa, sentido por ambos no mesmo instante em que se olhavam, jubilosos, até que, saciados, puderam descansar – momento em que a avezinha repousou e dormiu, cobrindo com suas asas a leve e delicada flor.

As

Tiveram o tempo e o isolamento para aproveitar a praia deserta

Ao amanhecer, voltaram ao quarto do hotel com um sentimento de completude e união. Caiu uma leve orvalhada naquela madrugada, como se a praia tivesse chorado, junto com eles, emocionada

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Jonas e Magnólia se conheceram ainda adolescentes. Formavam um casal diferente – até porque ela era mais alta do que ele – mas muito unido. Ao contrário de Mariano, a origem do noivo era humilde. Seu pai, proprietário de uma oficina mecânica, trabalhou a vida inteira sacrificado. Mas conseguiu a formatura dos três filhos – maior orgulho que tinha na vida. Jonas, filho do meio, era bacharel em contabilidade. Apesar disso, o que mais chamava a atenção no rapaz era seu senso de responsabilidade. Trabalhava em uma grande empresa distribuidora de gêneros alimentícios. Era respeitado e querido por todos. Começou lá cedo, ainda como office-boy. Mostrou talento e competência para números e, ainda durante a faculdade, já respondia, na prática, pela contabilidade da firma. Sempre disposto a aprender novas tecnologias, utilizou-se dos recursos da informática e os aplicou na empresa. Ganhava um bom salário e com ele conseguiu, através dos anos, comprar um terreno e construir a futura moradia do casal. Era uma residência ainda modesta para os padrões que ansiavam, com

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apenas dois quartos, mas o terreno era espaçoso e os projetos estrutural e arquitetônico – elaborados pela futura nubente, é claro, que também fez o acompanhamento da obra – fora realizado com a possibilidade de rápida e fácil ampliação. Jonas era baixo, magro e tímido. Nas rodas de conversa sorria sempre e falava pouco. Mas era decidido no trabalho. O equilíbrio era o palmilhar de sua conduta em todos os sentidos. Amava Magnólia de maneira profunda. Não raras vezes, os parentes e amigos o pegavam, olhos brilhantes, admirando a noiva, que em comparação ao jovem se poderia considerar falastrona. Formavam, assim, um casal sólido. Uma escolha precoce no tempo e certa no tino. Os preparativos para o casamento estavam no final. Ela queria uma festa tradicional. Já ele se contentaria com um coquetel para os parentes e amigos mais próximos. – Jonas, deixe de besteira. Só vamos casar uma vez. Por isso tem que ser bem feito – costumava dizer a noiva. Mas chegaram a um consenso: diminuíram o número de convidados e as despesas com os enfeites da igreja, para que pudessem melhor mobiliar a casa e guardar uma reserva. Quem ajudou na arrumação da noiva foi a irmã.

– Papai deve estar feliz numa hora dessas, não é mesmo, Bela?

– Certamente, maninha.

Vinte e dois de dezembro era a data marcada. Oito da noite, numa tradicional igreja da região. Apesar de agnóstico, Jonas não questionou a cerimônia. A recepção se daria em local próximo. Eram cento e vinte convidados. E chegou o grande dia. Na casa das jovens o corre-corre era grande. Dona Raquel se

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emocionou e recordou o marido. Heloísa tinha organizado uma troca de plantão para prestar

melhor assistência à irmã. A cerimônia foi rápida, mas não tanto quanto queria o impaciente e nervoso Jonas. A noiva chegou no carro do tio Ivan, que viera de longe com a família para a cerimônia. Antes, ele, Abgail, Carlos e Marx, estiveram na casa da tia Raquel. Carlos, o metaleiro, desconfortavelmente enfiado em um terno azul marinho, não pôde deixar de perceber a pintura da tia Raquel, pendurada na parede da sala. Apontando para a tela e fazendo uma cara de asco, dirigiu-se a Heloísa, implacável, em voz alta:

– Prima, que coisa horrível é aquela? Parece que o pintor vomitou na hora em que estava fazendo! Na mesma hora Abgail beliscou o filho e disse baixinho:

– Carlinhos, é uma obra de arte feita pela sua tia

Cale a boquinha.

– Realmente é horrível. Mas o que fazer? Mamãe ganhou no grito para colocar esse quadro aí

– riu Heloísa, concordando com o primo. Voltando ao cenário da igreja de arquitetura barroca, bem decorada e arejada naquela noite, Jonas estava visivelmente tenso. Entrou apressadamente, apesar do treinamento feito antes. Era tímido e suava frio só em pensar naquela multidão toda olhando para ele. O fraque preto que usava deixou o rapaz ainda menor em relação à noiva. Magnólia entrou logo em seguida, acompanhada do tio Ivan, ao som das Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos – música escolhida pela irmã. Emocionada, borrou toda a maquiagem

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ainda na entrada. Chorou de alegria, pelo casamento, e de saudades do pai. – Tio, tão bom se papai estivesse aqui. – Sorria, Magui, ele está feliz por você nesta hora. – O vestido branco, repleto de detalhes, compunha um quadro muito bonito, dando maior brilho à beleza natural da noiva. Estava, realmente, deslumbrante. Heloísa também estava visivelmente emocionada, assim como dona Raquel. A jovem vestia um belíssimo longo vermelho, que realçava suas formosas curvas. Se já era uma jovem que não passava despercebida, àquela altura era alvo de cobiça dos solteirões de plantão na igreja. Mas seu pensamento estava direcionado apenas para a noiva, e seu coração ainda se recuperava das dores do passado. Uma lágrima desce do seu rosto e se precipita sobre o vestido. Lembrou o pai, Wilson, principalmente na entrada da irmã. Quase viu a figura paterna, sorridente, carregando a filha, orgulhoso. Quase pôde sentir a emoção que outrora desejava, de entrar numa igreja e celebrar a união com alguém que a amasse. Quem seria, àquelas horas? Ninguém. Ninguém mais a despertava. Seu coração ainda padecia de sofrimento. Por um bom tempo ela restaria ferida, incapaz de se entregar a um novo amor. Ao seu lado estava Alberto, escolhido como padrinho, também. O jovem, também distinto, vestia um bonito terno escuro sobre uma camisa branca e gravata discreta. Estava sereno. Raquel, assim como as filhas, também recordou Wilson naquela noite. Sua mente voltou trinta anos, quando da passagem lenta da filha pelo corredor da igreja. Viu-se naquele vestido branco, feliz, esperançosa, jovem e sonhadora. Logo puxou um lenço. Duas emoções se

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entrelaçavam: a felicidade do casamento da filha e a tristeza pela ainda forte presença em sua vida do seu grande amor, que partira meses antes para a imensitude O padre celebrou a missa rapidamente, para o alívio do noivo. Até na hora das juras, Jonas gaguejou. Mas ao final deu tudo certo. Após a cerimônia religiosa, dirigiram-se todos até o local da recepção, que não distava mais de cinco minutos da igreja. Lá chegando, houve um momento de descontração. Heloísa teve oportunidade de dançar não só com o amigo Alberto, como também com o primo Marx. Carlos, após insistência da noiva, dançou uma valsa, contrafeito. Os parentes riram daquela cena rara. Já de madrugada, Bela, exausta, voltou com Alberto. Ao chegar em frente de casa, estranhou uma luz acesa e pediu que ele fosse conferir. Não era nada. Ela havia se confundido. Como tinha sido a última a deixar a casa, pensara que tivesse apagado a luz da cozinha. Na volta, Alberto olhou para a pintura na parede com uma cara de interrogação.

– Já sei, achou horrível? – perguntou Bela.

“diferente!” – respondeu diplomaticamente. Viam-se as cores distribuídas

indistinta- mente. Parecia que o “artista” havia jogado colheres de sopa de tinta sobre o pano.

Qualquer um poderia pintar daquele jeito. Em alguns pontos da grande tela, que media

aproximadamente um por um metro, juntavam-se montes de tinta de quase um centímetro de altura. – Pelo menos deve ser pesada – disse, querendo rir.

– É arte da minha mãe – falou, tentando esconder com as mãos o riso. Dona Raquel fez um

curso de pintura de uma semana. O professor era adepto do dadaísmo, uma corrente da arte que

– Digamos que seja

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gosta de trabalhar com o aleatório. – Graças a Deus foi a sua primeira e última obra – riram juntos. Instantes depois Alberto se despediu. Após a recepção, o casal de nubentes saiu para uma suíte num hotel cinco estrelas. A lua-de- mel seria em terras ibéricas. A família de Jonas era de origem espanhola, e a de Magnólia, portuguesa. O pacote de viagem foi custeado pelo patrão de Jonas, o doutor Gualberto, também um dos padrinhos. Era o seu presente de casamento. Nem deixou que soubessem quanto custara. E não fora barato. Homem de pulso firme, sabia também reconhecer o valor dos que com ele administravam a empresa. Nada mais justo a quem lhe deu recíproca verdadeira na confiança depositada. Magnólia quis declinar do presente, não porque o considerasse em demasia caro, mas devido ao seu medo de voar, principalmente em se tratando de viagem transcontinental como a que fariam. A muito custo, Jonas, com a cooperação de Bela, conseguiu demovê-la. Falou da oportunidade de conhecer as terras dos seus antepassados paternos e de quantos em seu lugar não hesitariam em seguir viagem. Por outro lado, como era fã de números, buscou estatística recente, demonstrando que o vôo é mais seguro que o transporte terrestre. Mesmo assim, Jonas passou vergonha na hora das decolagens. Magnólia chorava baixinho, enquanto apertava seu braço com força:

– Amor, amor, tá doendo. Aperta mais devagar

– Não dá! Ai, meu Deus do céu

Foram primeiramente a Portugal. Passaram dois dias entre Lisboa e Porto. Depois desceram

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até o sul do País, região do Algarve. Para a recém-casada um misto de nostalgia a acolheu. A região possuía um clima ameno e de muito sol, com uma atmosfera mediterrânea temperada pelas brisas suaves que sopravam do Atlântico. Sua costa tinha uma grande extensão de praias de areia branca, com cenários compostos de falésias avermelhadas e rochedos de origem arenítica. Ficaram em um pequeno hotel entre os rochedos, local romântico, de bela vista por causa da altitude da pousada. Visitaram, ainda, as muralhas medievais de uma catedral construída sobre antiga mesquita, bem como a igreja de São Francisco, decorada com uma bela coleção de azulejos portugueses do século XVIII. Depois foram a Sagres, que ficava perto, local emblemático por ter sido ponto de partida dos navegadores dos séculos XV e XVI. Provaram da gastronomia da

Algarvia, composta basicamente de peixes e mariscos, como é o caso da famosa cataplana, elaborada com amêijoas – uma espécie de ostra. Não perdendo a origem dos otomanos que, na idade média, habitaram a região, os recém-casados provaram um doce de amêndoas como sobremesa.

O Natal foi passado em Algarve, num jantar romântico, à luz de velas.

De Portugal partiram para a Espanha, mais precisamente Madri. Portal de entrada da Europa,

é uma imensa cidade para ser conhecida. Foram até a “Puerta del Sol”, onde havia um vaivém de

pessoas pela praça durante todo o dia e também à noite. A estátua de El Rey Carlos III marcava

o coração da praça.

A época era fria, final de ano. Estavam ambos bem agasalhados e vibravam com as novas

emoções. Fizeram um tour em frente ao Palácio Real, onde havia mais de quarenta estátuas de reis espanhóis pelos jardins que o cercam.

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Visitaram alguns museus da capital espanhola. No “Museo del Prado” tiveram a oportunidade de apreciar grandes obras dos clássicos espanhóis, entre eles Velázquez, Goya e El Greco. Magnólia sempre apreciou a pintura, uma vez que a arquitetura não deixa de ser, ao mesmo tempo, ciência, arte e estética. Emocionados, impressionaram-se com a força dos traços de Picasso na famosa tela “A Guernica”, no museu Centro de la Reina Sofía, que trata de um desumano bombardeio acontecido durante a Guerra Civil Espanhola, na cidade que intitulou a pintura. Para o agrado de Magnólia e decepção de Jonas, não era temporada de touradas na capital. O réveillon se passou em Madri mesmo. Não tiveram dificuldades em se comunicar com os parentes brasileiros, uma vez que o fuso horário local adiantava quatro horas ao do Brasil. Pouco depois das sete da noite, Ana atendeu à ligação telefônica. Era o casal em lua de mel. Os parentes se falaram emocionadamente, desejando um feliz Ano Novo. Romperam o ano na Plaza Mayor, talvez a mais importante das praças madrilenhas. Os cafés estavam abertos e lotados. As ruas se encontravam tomadas de gente, não obstante o frio. Comeram uma tapa – típica comida espanhola, assemelhada a um sanduíche – e tomaram, depois, alguns drinques. Na hora neutra, os estampidos de fogos irromperam na cidade. A prefeitura local organizou uma cerimônia especial na Plaza Mayor. O show pirotécnico foi grandioso. Milhares de pessoas acompanharam, emocionadas, irradiando uma energia positiva pelo ambiente. Fogos de todas as cores, formando cascatas de luz, desciam do firmamento sobre as cabeças dos presentes, enquanto

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chuvas de prata escorriam do céu reverenciando um novo ano. O casal se abraçou num apaixonado beijo em meio à multidão festejante. Os lábios dos dois recém-casados se encontraram ternamente, criando um instante de emoção e deslumbramento. Há noites que são mais radiantes que muitas manhãs. Era o que sentiam Jonas e Magnólia naquele instante. E ali, naquela cidade cosmopolita, dar-se-ia início a um novo, marcante e inesperado fato na vida de ambos. O que seria?

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A maioria dos pertences de Douglas, incluindo os livros, já tinha sido despachada para o Brasil com antecedência. O apartamento alugado fora entregue e, durante a semana anterior até o embarque, tinha ficado hospedado na casa de Tereza. Apenas uma mala o acompanhava, além da valise que sempre carregava consigo. A namorada o levou até o aeroporto. Era indisfarçável a comoção que aqueles últimos instantes causaram naqueles dois corações entrelaçados pelos laços da paixão. Na despedida, Tereza lhe entregou um presente. E em espanhol, quebrando o trato feito – olhos nos olhos – disse-lhe:

– Irá contigo meu coração, sabes disso. Deixo como última lembrança minha esse livro, para que possas lembrar de nosso amor durante a viagem e como ele se materializou em nossos corações. Douglas, meu amor partirá naquele avião – referindo-se ao jovem brasileiro, e apontando para a aeronave que acabara de ser conectada à área de embarque e desembarque – e não sei

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quanto tempo levarei para superar a perda dele, o maior que já tive.

– Tenhamos fé, Bebê. Quem sabe surja uma proposta no Brasil que lhe seja atraente.

– É

Quem sabe

– disse a catalã, com uma ponta de resignação.

E das mãos de Tereza surgiu um embrulho. Era um livro intitulado “El Escultor del Alma”,

ilustrado com belas esculturas fotografadas, contando a vida e a obra do famoso artista plástico espanhol Joan Miró. Douglas fez menção de desembrulhar o presente. No mesmo instante Tereza lhe tocou os lábios com o indicador e pediu:

– Não abra agora, por favor, meu amado. Deixe para quando estiver sobre o Atlântico – o

jovem consentiu, meneando a cabeça. Dos olhos de Tereza rolaram duas silenciosas e doloridas lágrimas, contrastando com o sorriso que exibia. Azatto disse a frase de sempre:

– Bebê, teus olhos não me enganam

Abraçaram-se forte. Sem pudor da multidão, enlaçaram-se em um longo e curtido beijo. Depois, permaneceram unidos durante uns instantes, silenciosos. Tereza, que abraçou Azatto por dentro do sobretudo aberto, estava quase que completamente envolta pelo tecido da veste dele. Afastaram-se, então, lentamente. Seus corpos tremiam de emoção, hesitantes em se separar. A jovem catalã não suportou e puxou um lenço, levando-o ao rosto. Dentro em pouco, a moça viu sumindo de sua vista, na rampa de embarque internacional do aeroporto Barjara, em Madri, um homem branco, alto, magro, de sobretudo cinza. A meio caminho,

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já a uma certa distância, ele olhou para trás e a buscou em meio à multidão. Fitaram-se por uns segundos, ele tentando sorrir. A longa escada rolante continuou o progresso lento rumo ao andar de cima. Enquanto isso, disseram tanto naquele olhar, apesar do silêncio que os guarnecia. Olhar daquele que partia com o coração partido; e daquela que ficava, em pedaços. E retornou Azatto às Américas, com os olhos rasos d’água

* * *

Dentro do avião, o jurista aguardou o início do vôo sobre o Atlântico, abriu o livro e encontrou belíssima dedicatória em português:

Meu amado Douglas, Contigo se vai a minha alma. Mas ela parte em boas mãos, nas mãos de um poeta. Agradeço a Deus por ter te conhecido e provado do teu jeito e gosto em todos os sentidos que pude assimilar. Sei que o que reside em nosso coração é um amor puro e sereno. Queira Deus que o destino tenha acertado, porque agora é tarde: tu resides em meu peito como nunca antes alguém bateu e entrou. Mas não quero te deixar triste, amor meu. Sorria, sorria sempre, porque teu riso será a redenção de todos os meus sonhos, e os recordando, esquecerei a profunda dor da saudade. Porém, saiba que és, e eternamente serás, meu poeta – o único capaz de esculpir no papel a própria alma.

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Por isso esse livro, “El Escultor del Alma”. É para que possas, sempre, sonhar comigo, lembrar de nós. Amo-te,

Da Espanha para o Brasil Tereza (Bebê).

O rapaz se emocionou com as palavras doces de Tereza e mergulhou no enredo da obra literária ganha de presente, apreciando as imagens das esculturas de Miró. A recordação da jovem ibérica era constante: a cada foto, um momento passado juntos; a cada página, um sorriso dela. Reconhecera, nos traços das esculturas do artista espanhol, a formosura dos contornos do corpo da sua amada, geografia já tão bem conhecida por ele. Tereza representava uma terra mítica, onde os mistérios do amor foram revelados em toda a plenitude. Ao seu lado, viajava um simpático casal de brasileiros que voltava de uma lua-de-mel de dez dias na Europa. Azatto até se divertiu por uns instantes com as trapalhadas da moça, que apertava vorazmente o braço do marido sempre que o avião passava por turbulências. Ela era arquiteta e ele contador. Falaram sobre trivialidades e descobriram que curtiram o réveillon bem próximos, na Plaza Mayor. – Como é pequeno o mundo, não é mesmo? – falou Douglas aos dois enamorados. Ele contou que estivera por mais de um ano na Espanha, capacitando-se em um curso de pós- graduação, mas já defendera sua dissertação e por isso voltava, definitivamente, ao Brasil. Perguntaram como era a vida na Ibéria, e se Douglas enfrentara alguma dificuldade com a

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língua. Azatto contou algumas passagens interessantes e engraçadas por causa da nossa falsa idéia de que podemos resolver tudo lá falando o “portunhol”.

Já para o final da viagem, pôs-se a meditar sobre os acontecimentos mais recentes na sua

vida. A temporada na Europa; a vitória no mestrado; a descoberta de um grande amor que, por

obra do destino, lhe escorria entre os dedos das mãos como se fosse uma substância etérea. Seria o destino assim tão cruel com ele e Tereza? De um bloco de anotações extraiu pensamentos e chorou, discretamente, levando um lenço ao rosto.

A jovem senhora apenas notou que algo ele estaria escrevendo em um bloco pautado de

folhas brancas, longe de perceber a comoção pela qual passava o discreto rapaz. Pelo contrário, imaginando que tudo não passava de uma alergia ou resfriado, falou de casos de pessoas que sofrem algum tipo de reação alérgica durante o vôo. Douglas amainou a cabeça, em sinal de concordância com a cordial e jovem senhora, disfarçando os sentimentos que o levaram de volta ao Velho Mundo. Mas, no íntimo, teve vontade de responder assim: – tenho alergia, mesmo, à solidão e à saudade de quem amo.

A moça viajou em uma poltrona que dava para a janela. Passado o susto inicial da decolagem

e das turbulências, até relaxou, contemplando as infindáveis formas que as nuvens criavam. Lá embaixo, o azul. O firmamento se curvava. Acima, também azul. Estava anoitecendo. No assento do corredor, Douglas, envolto em seus pensamentos, lamentava o destino. Por que comigo? Por quê?

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O escultor da alma

Durante o procedimento de aterrissagem, novamente a moça entrou em desespero, apertando

o braço do pobre e franzino marido que tentava, inutilmente, ser discreto enquanto reclamava

das unhas da mulher furando sua pele. Era uma situação inusitada e até, de certa forma, engraçada. Disse Azatto ao casal, dando mais ênfase à jovem que o olhava assustada e tentando manter

a calma sem muito sucesso:

– O vôo é várias vezes mais seguro que viajar em rodovias.

O marido, contrariado e percebendo que a situação já tinha sido perfeitamente assimilada

pelo vizinho de assento, afirmou em tom de agonia:

– Eu já mostrei a ela até estatísticas internacionais. Não adiantou.

Ela respondeu, tremendo:

– Eu sei que as estatísticas mostram que é muito mais seguro. Mas, e se ESTE vôo não for?

– riram os três. A moça, de nervosismo, também. Quando chegaram ao destino, já passava das nove horas da noite. Com pressa, Douglas se despediu e se foi, uma vez que sua bagagem de mão era apenas uma valise que carregou sob o assento durante a viagem. O casal tinha malas acima da poltrona e demorou mais para o

desembarque. Quando Magnólia ia saindo, percebeu que o companheiro de viagem tinha deixado seu bloco

de notas no assoalho da aeronave. Ainda tentou chamá-lo, mas sentiu vergonha. Ele ia longe, já se aproximando da saída principal do avião. Resolveu descer com o bloco de papel e tentar alcançar

o rapaz na área de bagagens, porém Jonas falou:

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– É só um bloco de papel. Não tem valia para ele, salvo se tiver alguma coisa importante escrita. Tem? Quando Magnólia o desvirou, pôde ler um poema datado do dia anterior:

DEVANEIOS

És a chama ardente. És o botão de rosa. És a beleza de um sol nascente. És a luz, a gloriosa.

No palco da vida sou um devaneio Que tem em ti a razão da existência.

Se um “não” cortar, num açoite, meus anseios.

Não terás, porém, em mim, ausência.

Neste instante que a vida enquadra, Mesmo sendo a solidão incerta, Resta dizer-te que tu és amada –

E eu sou poeta.

E ao virar a segunda folha do bloco, deparou-se com os chorosos versos de saudade intensa,

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O escultor da alma

feitos durante a viagem de volta ao País, pois embaixo havia, entre parênteses, a data do vôo e a

seguinte inscrição: “sobre o Atlântico

”:

DESATINO

Quando o silêncio irrompeu na noite No meu peito se cravou uma lança

E no futuro um imenso açoite.

Foi o vento quem levou o nosso amor.

Tantos altivos momentos passamos Nas nossas românticas andanças.

A nos separar hoje há um oceano

Foi o tempo quem levou o nosso amor.

“Senhor Deus dos desgraçados

Há somente desatinos e lembranças Pois muito amei e fui amado. Mas foi a sina quem roubou o nosso amor. Hoje, ela reside numa Europa fria,

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Já não me restam suas negras tranças, Nem no meu rosto antigas alegrias Por que, Senhor, separar o nosso amor?

Só a partir desse momento pôde Magnólia compreender quão dolorosa era aquela alergia durante o vôo

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É preciso abrir um parêntese e trazer à tona importante acontecimento na vida de Heloísa, ocorrido aproximadamente um mês antes do casamento da irmã, e que não poderia passar desapercebido. Portanto, faremos uma rápida digressão na ordem cronológica dos acontecimentos. Depois do tombo, o coice. Depauperada, mesmo assim Bela voltou ao trabalho e aos estudos. Continuou a rotina como pôde. Às vezes se perguntava do porquê daquilo tudo, uma vez que as quedas eram sucessivas: Meu Deus, o que fiz para merecer tamanho castigo? Naquele início de tarde, estava ela no hospital, fazendo o acompanhamento de pacientes. Foi até o apartamento onde estava internado o senhor Ângelo. Com o passar dos dias acabou firmando uma relação de amizade e respeito com o velho. Ao vê-la na primeira oportunidade após o rompimento com Mariano, o idoso logo deu conta da sua tristeza, indisfarçável para uma alma experiente. – Aconteceu algo, minha jovem?

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Heloísa, sem querer trazer seus problemas para quem já estava enfermo, disfarçou com um

leve sorriso. Fez o exame clínico do paciente e providenciou as anotações dos sinais vitais no prontuário médico. Naquela tarde havia um rapaz presente. Pela intimidade que demonstrava parecia ser íntimo do casal. Porém, fisicamente eram muito diferentes.

– Doutora, quero apresentar meu sobrinho, Diderot.

– Oi. Seu tio é uma pessoa muito simpática e agradável. Já dei boas risadas com ele.

– Titia já nem reclama das palhaçadas dele, não é, dona Maria? – A velha sorriu, aquiescendo.

– Agora preciso ir. Foi um prazer, doutora Heloísa.

– O prazer foi meu – e o jovem foi embora. Ângelo nem deixou a médica digerir as idéias e foi logo dizendo:

– Muito diferente, não é mesmo? É adotado. Meu sobrinho mais novo. Gosto dele como de

um filho. Mas a moça anda triste hoje? É saudade do papai ou problemas do coração?

– Os dois. Mas não vamos falar nisso porque o senhor já tem seus problemas para cuidar.

– Às vezes, a gente acha que tem problemas na vida. Vou lhe contar um que aconteceu com

o pai desse rapaz, meu irmão, Jeremias. Mas você precisa vir fora do horário de trabalho, porque

a história é longa, mas seria bom para você escutá-la. Poderia vir mais tarde?

– Hoje não, porque vim de carona. Mas amanhã, claro.

No fundo, Bela estava carente e necessitando conversar com alguém, uma vez que se sentia desvalorizada e bastante infeliz. O velho lhe servia de apoio pela serenidade que transmitia. Era

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uma pessoa de grande vivência, e talvez a empatia que sentisse com Ângelo fosse devido à lembrança de seu pai. Wilson também era alegre, divertido e contador de histórias. No dia seguinte, após o término do trabalho, foi ao apartamento onde o senhor estava

internado. Lá chegando, o velho sorriu como sempre. Não era o dia de Bela assistir o paciente e, portanto, sentia-se mais à vontade. Ali estava como amiga, apenas. Maria a saudou e foi logo indicando uma cadeira próxima ao acamado para Heloísa sentar. O senhor apertou as mãos da jovem e questionou, falando compassadamente:

– O que lhe causou tamanha tristeza, minha jovem?

Dirigindo-se ao velho e à esposa, respondeu:

– Fico envergonhada em dizer, mas estou muito triste porque fui traída por meu namorado

com minha melhor amiga. Sinto-me a mais infeliz das mulheres. Ângelo parou por um átimo e arrematou:

– Porém, o mais importante é você ter a sua consciência tranqüila. Deve estar se achando

injustiçada, não é mesmo? Mas há sofrimentos muito maiores do que o seu. Coloque-se no outro lado da moeda. Você não deve se sentir infeliz ou desvalorizada. Quem cometeu o erro foi o seu

ex-amado. Ele, sim, é quem deve estar, nesse momento, transtornado diante da possibilidade de perder uma coisinha tão linda e valorosa quanto você – disse sorrindo.

– Uma mulher com os seus atributos não se encontra por aí, sabia? – completou Maria.

E Ângelo continuou:

– Talvez ele não tivesse percebido isso porque estava cego. Mas a vida, às vezes, nos coloca

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em algumas situações extremas, mas que podem servir de lição para melhorarmos ou abandonarmos aquilo que não nos seria favorável. Pior seria se fosse você quem carregasse a marca do remorso de um erro. Seus problemas podem ter solução. Você ou poderá perdoá-lo ou encontrar outro alguém, desde que a respeite como merece. – E prosseguiu: – vou lhe contar a história do meu irmão – olhou-a com profundidade e parou por um instante, como que para organizar seus pensamentos:

“Cinco da tarde! Finalmente! Passos rápidos na escada. Era uma sexta-feira. Aquele poderia ser só mais um dia na vida de meu irmão. Mas não foi. Como era costume de há muito, após o fechamento do escritório, ele, um experiente contador, o primeiro dos filhos a se formar, morando naquela loucura de Rio de Janeiro, saía com destino certo: o bar “Bodeguito Cabarro”. “Tomar uma gelada pra relaxar”, era o que sempre dizia, referindo- se à bebedeira diária. Alheio aos apelos da família, que também viraram rotina, era sagrada sua visita ao Bodeguito. Chave do carro na mesa do bar, carteira, uma leve inclinação do tronco para trás da cadeira. Estava preparado.

– Clodoaldo, manda uma mofando!

– Doutor, e uma calabresa?

– Trás, trás.

Meu irmão sempre fora de pouco papo no próprio lar. Quando Jeremias se sentava a uma

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mesa de bar, após três ou quatro garrafas de cerveja, mudava de figura. Tornava-se falastrão, às vezes ensaiava até uma cantoria. Nunca admitira seu vício. Quanto aos apelos familiares, tinha sempre uma resposta pronta na ponta da língua: – não sou dominado. Bebo quando quero e paro quando quero! Sempre que perdia um cliente, bebia pra esquecer. Quando algo de bom acontecia, era o motivo que faltava. Era rotina chegar tarde em casa. Mas aquela noite seria diferente. Não porque fosse uma sexta-feira, dia dos mais esperados por todos os que passam uma semana na luta. Também não seria pelo fato de chegar sóbrio em casa. Depois de umas boas tragadas, pediu a conta e foi embora. O bar que freqüentava ficava no centro da cidade, numa rua paralela às principais avenidas comerciais. Seu carro, um Fusca 71, verde escuro, tinha sempre um albergue seguro sob as copas de uma castanheira. Sabe Deus quantas vezes esse homem conseguiu chegar a salvo, dado o estado de embriaguez. A esposa, revoltada, certa vez o deixou dormir na garagem mesmo, pois em algumas ocasiões era necessária a ajuda dos filhos ou dela mesma para retirá-lo do automóvel. – Tudo isso ele me contou – disse Ângelo.

mas que droga de

O caminho

câmbio

até em casa era de uns quinze minutos, mas àquela hora da noite (já passava das dez) havia poucos carros, o que ajudava sua chegada sem maiores percalços. Chovia. Sinal vermelho. Um estampido. Um vulto. O carro balança repentinamente. Pé no acelerador, foi a única coisa que veio à cabeça de Jeremias. Constatação: “Meu Deus, algo de grave

Volta para casa: Zuuum! Fachos de luzes. Vista nublada. “Vou conseguir

”.

Manter-se acordado era uma verdadeira batalha, já que os olhos pesavam

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aconteceu”. Tomado pelo susto, ficou desperto. Rodou por mais uns minutos, a esmo. Tentou passar pelo local do fato, mas teve medo de ser reconhecido. Resolveu então parar o carro em uma rua

deserta e verificar na lataria o ocorrido. Farol direito quebrado, o capô estava amassado e faltava

E agora? Será que anotaram a placa?

Foi na avenida tal. Ah, se eu tivesse vindo por outro caminho esta m. não teria ocorrido. E o pior, o que dirá minha mulher em casa? Já estou imaginado ela chorando, a me falar: ‘Jeremias, bem que eu te avisei. Isto ia acabar em problemas mais sérios.’ Se descobriram que fui eu, a polícia já deve estar indo para lá. Foi apenas a três quadras de casa. Muito perto. E ainda estou tonto”. Toda essa confusão aconteceu em meio à chuva. Jeremias estava que parecia um zumbi. Agora, o que fazer? Tentou raciocinar: “Vou dar um tempo. Não posso ficar andando com o carro amassado. Já devem ter passado a informação à polícia. Estão me procurando, com certeza”. Um sentimento de solidão surgiu nele. “Posso dizer que o sinal estava aberto, que o cara atravessou correndo para escapar da chuva, posso prestar queixa do roubo do carro. Mas se der errado?”. Apesar de se tratar de meu irmão, o que mais impressionava nele era sua própria ausência de

sentimento pelo atropelado. Naquele momento de aflição, toda a sua atenção estava em se safar.

Sua saída era pensar que “o que aconteceu, aconteceu”. A sensação era a de que o destino havia lhe aplicado uma peça. Por que ele e o atropelado estavam no mesmo local naquela noite fria e

Tudo aconteceu por acaso. “Foi um

um dos limpadores do pára-brisa. Já sabia: “Atropelei um sujeito

tempestuosa? O sinal, ah, verde, vermelho, não importa acidente. O destino. E aconteceu comigo”.

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Passou um casal se apertando sob um guarda-chuva preto. Houve uma breve troca de olhares desconfiados. Já era mais de meia-noite. O costumeiro para ele e a família era sua chegada por volta das dez da noite. A essas horas, a

família toda já estava preocupada. Tinha que fazer alguma coisa. Resolveu, passada boa parte do

Era melhor ficar de bico calado. Resolveu voltar sem fazer

chafurdo. O atropelamento poderia não ter sido visto por ninguém ou, com aquela chuvarada, quem estivesse presente não conseguiria ver a placa. Mas não custava nada chegar em casa de táxi. Não mostrar o amasso no carro era importante. Deixaria o fusca numa praça próxima à oficina de um velho conhecido dele; tomaria um táxi, e, ao chegar em casa, daria a desculpa de que o carro estava no prego. Não parecia tão difícil. Pôs, então, o plano em prática. Quando chegava em casa, quase a uma da manhã, percebeu a rua tranqüila. Por um instante, teve dúvidas sobre o ocorrido. “Pode ter sido um cachorro daqueles grandes, na vizinhança tem muitos daqueles cachorrões”. Ao entrar, dá de cara com nossa mãe – à época passeando, hospedada na casa do meu irmão

efeito do álcool, ligar para casa. Não

– que, em prantos, perguntou:

– Filho, filho, onde você estava?

– O carro quebrou.

– Meu Deus, você não sabe o que aconteceu

– Valha-me! O que houve?

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Saíram todos.

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– Há umas duas horas, quando sua filhinha Gabriela voltava da casa de uma amiga, um carro

desgovernado a atropelou, não prestou socorro e a deixou, agonizante, no asfalto! Meu Deus, a única netinha que eu tinha!”. Ângelo, após a narrativa, disse:

– Sua esposa não podia ter mais filhos. Por isso adotou Diderot, um garoto que estava abandonado em um orfanato. Depois do fato, realmente muito triste, deixou o vício da bebida e se tornou um homem mais voltado para a família. O jovem hoje é o orgulho da casa. Formado em coisas de computador, que não sei bem o que é.

– Computação, Ângelo – retrucou Maria.

– Isso mesmo! Está para ir aos Estados Unidos fazer um curso.

– Não há um mal que não traga um bem, doutora Heloísa. E sempre há casos piores do que

o da gente. O importante é saber que cumprimos a nossa parte no trato com aqueles que nos cercam. Meu irmão falhou nisso, o que é grave. Sequer pôde reparar o erro porque a vida que vai não tem mais volta. Já em seu caso não. Embora a vida não nos isente de sofrer com as mágoas causadas pelos outros, ela cuida de nos apresentar, depois, aquilo que merecemos realmente. Não

posso esquecer de dizer que até hoje meu irmão sofre, com remorso. E deve ser muito, mas muito doloroso. – Depois de um hiato, continuou:

– Não posso dizer o que você deve ou não fazer, minha filha. Mas lembre-se de que há

pessoas que precisam de uma sacudida da vida para poderem retomar o caminho. Talvez ele esteja nessa situação e só a partir de então se torne uma pessoa melhor. Pena que tivesse que

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magoar alguém para aprender. Mas faz parte da caminhada, não é mesmo? Toque sua vida em frente. Quem vive de passado é livro de história. E, além disso, a sua história pessoal é bonita porque você é uma jovem de valor – e concluiu – não se desespere com as dificuldades, minha jovem doutora. Lembre-se de que para se pegar impulso e melhor vencer um obstáculo, é preciso, antes, dar ao menos um passo atrás. O fazendeiro não parecia ser uma pessoa erudita. Mas por trás da singeleza daquele homem do campo se revelava um mestre na cátedra da vida. Disse, certa vez, o Dalai Lama: “Lembre-se que não conseguir o que você quer é algumas vezes um grande lance de sorte”.

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Na saída do salão de desembarque, familiares de Douglas o aguardavam, ansiosos. Há tempos

sem ver o filho, sua mãe o abraçou, saudosa. O pai, mais retraído, assistia feliz ao retorno de seu pupilo. Azatto o olhou e, sorridentes, abraçaram-se também. Até Julinha, a irmã caçula, estava presente. Juntos, foram para o automóvel de seu Eduardo, como era chamado o pai do rapaz.

– Filho, passe o final de semana lá em casa – rogou Eduardo.

– Claro, pai. Mas como está meu apartamento?

– Bem arrumado e limpo, graças à sua mãe – retrucou Doralice.

Durante o trajeto para a casa dos pais – que era razoavelmente longo, distante uns quarenta minutos do aeroporto, uma vez que Eduardo e Doralice moravam em uma cidade de médio porte perto da capital do Estado – deu para conversarem sobre as últimas novidades da família. Eduardo era apaixonado por futebol e o primeiro comentário que fez foi a respeito de Mauricinho, um garoto que residia próximo.

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– Filho, sabe Mauricinho, aquele garoto vizinho?

– Quem? Aquele bem danado, que adorava tirar jambos lá de casa?

– Sim, aquele mal-criado, mesmo – retrucou Doralice. Continuou seu Eduardo:

– Vai jogar em um time grande. São Paulo ou Botafogo, comentam.

Azatto, olhando para a mãe, que nada gostava do garoto traquinas, disse, então:

– Só assim mamãe poderá dizer na televisão, um dia, que foi muito amiga dele. Ela respondeu de pronto:

Seria mais fácil cobrar o pagamento de dois jarros que sei que foi ele

quem quebrou, caindo do jambeiro – todos riram dentro do automóvel. A casa dos pais de Douglas ficava em um bairro classe média da cidade. Era encravada em um terreno de boas proporções, com muitas fruteiras e um amplo gramado à frente da varanda. Possuía três quatros e uma pequena piscina. Lá residiam seus pais e a irmã caçula, de apenas quinze anos. Douglas era o primogênito de quatro irmãos. Eduardo Filho, vinte e cinco anos, tornara-se servidor público na capital. João, que sempre teve tino para o comércio, tinha uma

pequena fábrica de camisetas. Ao chegar em casa, uma surpresa: os amigos mais próximos e os parentes estavam todos reunidos, esperando sua chegada. Juntos, comemoraram a volta de Douglas. Havia uns trinta, ao todo. Douglas era uma pessoa de fácil convívio e formou um grande cabedal de amigos. Mas dois

– Era só o que faltava

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deles se destacavam: Jacinto, ou “Jaça”, como era mais conhecido, cirurgião-dentista, sempre bem-humorado, brincalhão e mulherengo, e Israel, mais introvertido, culto, tinha um bom caráter e era muito solidário. Os três eram companhia constante desde a infância. Essa amizade conseguiu vencer a barreira dos anos. Israel fez questão de saudar o companheiro que partira para “o além-mar” e voltava titulado. Todos escutaram as palavras exaltadas do discurso improvisado daquele gigante de quase dois metros de altura. Empolgado – copo de uísque às mãos – Israel fez uma contagem histórica da

Península Ibérica, desde a invasão árabe até os dias atuais. Uns, tediosos, olhavam para os relógios, após quase vinte minutos, perguntando-se se aquela ladainha teria fim ou não. Para o azar de Israel e felicidade geral, começou a chover, momento em que Jacinto, impaciente e irônico, juntou coro que dizia:

– Conclua! conclua! conclua!

Israel, intrigado com o temperamento do amigo, perguntou:

– Ô Jaça, você devia ser um pestinha quando era pequeno. Pare de perturbação, homem!

Jacinto, aproveitando a presença de Douglas e de outros amigos, chamou-os mais perto para

contar suas traquinagens:

– Caro amigo – olhando para Israel – meu pai ficou careca logo cedo, pois a cada aprontada

minha ele arrancava os heróicos fios de cabelo que ainda restavam da sua cabeleira de juventude. Mas era exagero de um pai neurótico. O máximo que fiz na minha infância foi atear fogo ao meu

A cozinha e o aquário da sala de estar ficaram

quarto. Só que as chamas se espalharam

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praticamente intactos, apesar dos peixes terem sido literalmente cozidos – ouviram-se lamentos

e risos. – Percebi que, desde a infância, tive tendência para a pesquisa, para a ciência. Lembro-me de uma vez em que coloquei em prática a grande descoberta de Isaac Newton: a lei da gravidade. Joguei um gato do terceiro andar. Realmente o gato tem sete vidas, mas este já devia ter gastado

– E agora, já se dirigindo a todos que formaram uma roda para ouvi-lo, continuou: –

eu era também muito motivado na arte futebolística. Podia não ser bom no ataque, mas na defesa era garantido: só a bola passava por mim intacta. Passei um tempo tomando aulas de caratê com

um amigo para melhorar meu desempenho dentro de campo

escolhi odontologia e não um curso da área de engenharia. Era ótimo em desmontar os brinquedos meus e dos amigos. Acho que nasci com esta qualidade. A natureza só não me deu a capacidade

– todos caíram na gargalhada. Animado, prosseguiu, risonho, enquanto mais

pessoas se aglomeravam para ouvi-lo: – depois, pensei em ser piloto de corridas. Adorava assistir

a Speed Racer na TV. Mas desisti quando meu pai deixou, um dia, a chave do carro na ignição.

Resultado: um muro derrubado. Na rua, sempre fui um garoto magricela e medonho. Adorava assustar as meninas quando saía com Manuela, minha rã de estimação que, por sinal, morreu de forma avassaladora: foi atropelada pelo caminhão do lixo. Tragédias à parte, eu era muito querido entre a garotada. Cheguei até a ser eleito, por méritos próprios, modéstia à parte, o “diabinho da rua”, pela facilidade que tinha em chamar os colegas da vizinhança para compartilhar das brincadeiras que inventava, tais como: ovo-no-ônibus, tica-e-cospe, lançamento de pedras que, aliás, foi extinta após dois pára-brisas de automóvel e uma vidraça quebrados; e a melhor e mais

de remontá-los

Às vezes, me pergunto por que

umas seis

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emocionante de todas: o “safári”. Saímos à noitinha, na hora do jantar, armados de espingardas de chumbinho, pulávamos o muro da casa de seu Manoel “Careca”, que criava galinhas soltas no seu imenso quintal. Có-co-ricó e penas pra todo lado. Era demais! Chegamos a matar cinco desses ferozes e destemidos animais em apenas uma investida! – o riso foi geral. Jacinto realmente era a descontração em pessoa. E depois da engraçada história, dirigiu-se a Douglas. Ao contrário de Israel, sem a mínima cerimônia, foi logo perguntando:

– Ei, amigo, e aquela espanholinha? Traçou? – Jaça sempre fora extrovertido e paquerador.

Tinha muitos namoricos e se gabava da ginástica que fazia para conseguir contornar as trapalhadas que causava.

– Que é isso, Jaça, você não tem jeito mesmo, não é? Depois fica se perguntando porque leva tantos foras

– É porque não sou tão bonitão quanto você – disse, rindo.

– É

– falou pensativo – Passamos oito meses juntos. Os últimos dias foram inesquecíveis,

na costa sul da Espanha. Certa noite tomamos vinho e nos amamos ao relento, em uma praia deserta próxima a Málaga, na região chamada “Costa del Sol”, no Mediterrâneo. Eu, ela, o vento,

a praia e a noite. Foi demais Nesse instante, recordou com toda a intensidade aquela alma grandiosa, aquela mulher graciosa, e renovou o profundo sentimento que lhe tomava sempre que sentia Tereza em sua vida. Uma vida de amor, de harmonia, de paz. Uma união que esperava ter continuidade pelo passar dos anos. E completou:

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– Estou apaixonado, irmão. Pena que ela não pôde vir comigo.

– Por que não?

– Problemas profissionais. Precisamos, antes, encontrar um bom lugar para que ela possa

trabalhar aqui. Mas vai ser difícil porque já fez carreira dentro da empresa onde está e sabe que no Brasil as coisas serão mais difíceis.

– Mas, para quem ama, vale o sacrifício – completou Jacinto.

Azatto se calou e baixou a cabeça. Jaça percebeu e foi logo dizendo:

– Mas não se preocupe. Eu tenho uma loiraça para lhe apresentar que é uma loucura. Foi

minha paciente. Que boquinha linda

entusiasticamente. Douglas riu da já conhecida irreverência do velho amigo. Porém, sabia que bom gosto não era o forte de Jacinto naquele quesito Quando o relógio se aproximava das duas da madrugada – todos já eufóricos – dona Doralice, com seu jeito franco, foi logo falando:

Ma-da-le-na! – disse, balançando as mãos de dentista,

– Está tudo muito bom, mas vamos fechar o “bar” porque os vizinhos vão reclamar do

barulho amanhã, e meu filho precisa descansar da viagem. – Todos reclamaram em vão.

Jacinto não perdeu a deixa e falou:

– Dona Doralice, concordo com a senhora, mas teremos que ouvir antes o discurso de

despedida de Israel. Ó Israel, venha aqui – chamou o amigo que se encontrava em outra roda. – Todos estamos esperando suas palavras. Mal chegou Israel, dona Doralice foi impagável:

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– De jeito nenhum, senão só iremos dormir de madrugada. – as risadas foram gerais. Israel fez cara de que não tinha compreendido. Mais risos.

Todos se despediram. Ainda restavam umas vinte pessoas. Azatto agradeceu aos pais a surpresa.

– Foi um prazer, meu filho. Você merece muito mais – respondeu seu Eduardo.

Já passava das três horas da madrugada quando Douglas foi se deitar, extenuado, porém contente com o retorno. Aproveitou para reconhecer seu antigo quarto. O mesmo da sua infância. Sentiu o conforto do lar que deixara há mais de dez anos. A senhora Doralice ainda conservara na parede alguns recortes colados em um quadro de avisos contendo fotos, entrevistas com Azatto, um convite da formatura dele e outras recordações. Após a saída de Douglas, o cômodo havia se transformado em quarto de hóspedes. Douglas, ao entrar e ver a cama limpinha, as cortinas bem cuidadas, o piso brilhando, recordou sua infância e adolescência, e pensou: “Nada melhor do que estar em casa, não é mesmo?”

* * *

Após o final de semana com a família, voltou para a metrópole onde trabalhava. A viagem durou apenas quarenta minutos, uma vez que a cidade onde seus pais moravam era considerada zona metropolitana. Seu automóvel ficara com os pais, que o ligavam semanalmente, pelo menos, e saíam vez ou outra.

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Antes de ter seu próprio apartamento, durante dois anos Azatto fazia aquele trajeto diariamente. Não estranhou o engarrafamento no caminho, já que o trânsito nas apertadas e centenárias ruas do centro de Madri também não era nenhuma maravilha. Na empresa, o doutor Azatto – como era chamado – lidava diariamente com os direitos internacional privado, alfandegário, tributário e comercial, atuando como consultor jurídico de uma grande multinacional. Mas não iria trabalhar imediatamente. Necessitava de uns três dias para reorganizar as tarefas pessoais pendentes. Ao chegar, e antes de ir para o seu lar, passou em um supermercado e fez compras, uma vez que a sua dispensa estava vazia. O que havia de perecível antes da viagem foi dado à arrumadeira e, nas três poucas e rápidas vezes que esteve no Brasil durante o curso, ficou na casa dos pais porque o apartamento se encontrava bastante empoeirado. Seu lar era bastante confortável e amplo, incrustado em área nobre. Gostava da altura, décimo- oitavo andar, o que lhe conferia uma excelente vista da cidade. Sua segunda paixão eram os vinhos. Não se considerava enólogo, mas apreciava a bebida. “O vinho esquenta a alma. É a bebida preferida dos poetas”, costumava dizer. A poesia era um outro caso de amor em sua vida. Tinha livros publicados e uma grande quantidade de versos inéditos. Por isso andava sempre com um bloco de notas à vista. E foi pensando no bloco de notas que revistou sua valise em busca da poesia feita durante o vôo. E pensou: “Devo tê-lo deixado sobre a poltrona na hora da saída. É uma pena ter perdido aquelas poesias. A que fiz no vôo era triste, mas verdadeira”.

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Nem desarrumou as malas. Lembrou-se de Tereza. O que estaria fazendo àquela hora? Os relógios já haviam batido vinte e duas horas, meia noite em Madri. Pensava nela. Mal se falaram após sua chegada. No único contato que tiveram após o retorno ao País, ocorrido naquela manhã, notou que ela parecia triste e distante ao telefone. Não era para menos. Contudo, valia a pena tentar um emprego no Brasil. Tereza precisava dar uma chance ao tempo para que as coisas dessem certo. Ambos mereciam isso. Com o currículo dela, algo de bom iria aparecer e Douglas tinha esperanças, acima de tudo. Já ela parecia menos confiante. Compreensível, uma vez que ele voltava ao seu ambiente natural e ela teria de largar tudo, ser a grande sacrificada. Certa vez, Tereza questionou por que ele não ficava na Espanha. Então Douglas contou do acordo que havia feito com a empresa para poder fazer o mestrado sem perder o vínculo e receber seus salários. Um ano é um prazo longo. Muita coisa pode acontecer e embora tivesse, à época, uma reserva para realizar o sonho da qualificação profissional, topou aceitar a proposta. A companhia custearia suas despesas durante todo o período do mestrado, lhe daria três viagens de ida e volta no período, e ele iria recebendo o salário básico. Porém, já que não estaria trabalhando normalmente, não faria jus aos bônus de produtividade e nem teria condições de acompanhar os processos que mantinha no Brasil de forma extraordinária. Eram aqueles que envolviam casos judiciais esparsos, geralmente ações individuais relacionadas à vida privada de empregados da empresa e amigos: questões de família, consumidor, trânsito, etc. Em vias gerais, teve uma redução de mais de um quarto nos seus ganhos mensais totais, o que era, entretanto, perfeitamente assimilável para manter um bom padrão de vida no continente europeu.

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Todavia, no contrato celebrado com a corporação, salvo ocorrência de força maior, não poderia deixar a empresa em menos de três anos após a defesa da tese, sob pena de incorrer em uma multa astronômica, que ultrapassava o equivalente a dois anos de remuneração. Também em contrapartida, faria alguns trabalhos extras nesse tempo, em áreas afins, dentro da Europa. Era o mínimo exigido pelo investimento feito no Diretor da Assessoria Jurídica Internacional e Extraordinária da empresa. Além disso, explicou que mesmo se resolvesse rescindir o contrato e pagar a multa equivalente a cento e sessenta mil dólares, sequer poderia advogar porque, ao contrário dos cursos tecnológicos, seu diploma brasileiro não conferiria poderes para atuar como causídico na nação ibérica, ainda mais sem conhecer a legislação interna como deveria e precisaria. Teria de começar do zero, fazer um novo curso de direito, talvez. Já no caso dela seria diferente. Os princípios da física e das correntes elétricas são imutáveis. O que sofreria diferenças seria apenas a estrutura elétrica das plantas de tensão de cada país, se muito. Naquele instante ela se calou e seus olhos transpassaram um ar pensativo. Possuía em seu apartamento uma pequena adega, que ocupava parte da dispensa. Abriu um Salton Classic, 1999, bom vinho e de preço acessível, ideal para ocasiões como aquela. Era elaborado com uvas cabernet sauvignon. Tal vinho é rico em tanino, uma substância da casca da fruta, o que lhe confere um sabor adstringente, ideal para a ocasião. Foi seu jantar, juntamente com umas fatias de queijo brie, um dos seus preferidos. Ao sabor da bebida, recordou das vezes que ensinou a Tereza os princípios da enologia, a

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arte de estudar e entender os vinhos e suas conformações. Com ele, aprendeu ela que o enólogo não bebe até ficar bêbado porque a essência desta arte está em conservar a lucidez para apreciar as variantes delicadas do gosto, do cheiro, da cor e da textura de cada bebida. Enumerou, ainda,

as principais uvas que originavam vinhos brancos, que para ele seriam as sauvignon blanc, chardonay

e gewürztraminer. As sauvignon blanc, também de origem francesa, mais precisamente Bordeaux,

dão origem a vinhos de acidez elevada e secos, porém bastante refrescantes. Já as uvas chardonay – ensinou Douglas –, são utilizadas na elaboração dos melhores vinhos brancos existentes no mundo. Originárias da região da Borgonha, na França, produzem vinho com um paladar predominantemente seco. Com elas são fabricados, ainda, os famosos espumantes da região da Champagne. As uvas gewürztraminer, de possível origem italiana, apesar do nome, elaboram vinhos encorpados, com teor etílico alto e pouquíssima acidez. Podem ser secos ou doces, desde que, neste caso, sejam colhidas mais maduras. Mas eram as uvas tintas que originavam os vinhos preferidos de Douglas. Entre elas estavam

a cabernet sauvignon, considerada por muitos a rainha das uvas tintas pela qualidade. Sua origem

é a mesma da maioria das uvas de qualidade: Bordeaux, França. As uvas merlot dão origem a

vinhos com acidez reduzida. São frutas que se destinam a bebidas encorpadas, que com o passar do tempo ficam mais suaves. Shiraz é outro tipo de uvas tintas. Remontam ao vale do Rhône, França. Vinhos produzidos com elas apresentam uma coloração mais escura, variando o aroma dos tânicos médios aos muito tânicos, com elevado teor alcoólico. Sentou ao computador e deixou sua mente divagar, tomando-se pela força indescritível da

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poesia. Suas mãos saltavam entre as peças do teclado. E escreveu poemas como quem se deleitava em uma música ao piano. Naquela noite, o poeta ouviu a melodia de cada verso escrito, sua cadência, seu compasso, como se estivesse compondo uma verdadeira canção de paixão; como se as notas musicais fossem, nada mais, nada menos, que as palavras e a obra musical, o poema. Lembrou-se novamente de Tereza. Não fizera muito, estiveram juntos em uma noite inesquecível na “Costa del Sol”, que merecia ser eternizada em poesia. E daquele instante nasceram versos como uma rosa rubra que desabrocha, regada e iluminada pelos mais verdadeiros sentimentos de paixão, saudade e arrebatamento:

AQUELA NOITE Aquela noite não esqueço Ficamos juntos em frente ao mar, Enquanto a lua, com apreço, No céu pairava a nos iluminar.

O vento sussurrava baixinho Como se nos quisesse implorar Para que ficássemos juntinhos, Olhando as estrelas a brilhar.

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Uma estrela-cadente cruzou

O céu como um risco brilhante.

Parecia que a noite a mandou

Só para nós, naquele instante.

Seu balé de ondas o mar dançava Pelo palco de areia branca e fina.

Escalava seu leito

Deixando-nos sua espuma albina.

E cansava

As gaivotas, que chegavam, Voavam rente à beira-mar

E

ao sol boas-vindas davam,

O

qual logo iria despontar

A

areia era nosso leito

Onde a natureza iria mostrar Que o amor acontece de um jeito Que não há palavras para explicar

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Ao irmos embora, de madrugada, Uma leve orvalhada caía, Como se a praia, emocionada, Chorando se despedia

Dentro em pouco, do outro lado do oceano, os versos seriam recebidos por Tereza em sua caixa de correio eletrônico. Douglas pensou: “Ah, Bebê, se eu pudesse verter minha angústia em suor, correria o mundo para encontrar teu colo e dormir o sono invejável dos que são amados”. Porém, para sua tristeza, o pobre Azatto adormeceu sozinho, abandonado e distante do seu amor naquela noite

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Bela colocou uma roupa leve e saiu para passear, levando o pequeno Snoopy. Estava particularmente mais bela naquela tarde de um domingo. Por que será que certas mulheres quando sérias ou retraídas apresentam um ar ainda mais especial e envolvente? Seu distanciamento aparente de tudo era um char me. Caminhava char mosamente, de camiseta e short, sem esquecer os óculos escuros. Acompanhada do cachorrinho, andou pelas veredas do parque da cidade. Gostava daquele passeio, pois era um momento de distração e alheiamento aos acontecimentos mais recentes em sua vida. Snoopy estava alegre. Era a primeira vez que saía a um lugar tão amplo. Tudo era novidade: as cores, os cheiros, o movimento de pessoas novas, adultas e idosas. Crianças passeavam de bicicleta. Havia jovens correndo de patins nas largas pistas asfaltadas, margeadas por gramados, jardins e clareiras do bosque. O ambiente transmitia paz. Ouviam-se, ao longe, cantos de pássaros silvestres, vindo das encostas até aquele oásis incrustado na grande cidade.

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Havia um velho tocando acordeão, gente vendendo bebidas isotônicas para atletas. Outros, óculos, bonés e sombrinhas. Mas tudo feito de forma discreta, de modo a não perturbar o silêncio e a individualidade dos que por lá passeavam. Era como um código de ética. E Heloísa precisava disso. Em sua cintura, pendurado, havia um disc-man, e do headfone ela ouvia uma boa trilha sonora. Se a morte do pai lhe doía, ainda mais recente era o rompimento com Mariano. E a todo instante recordava aquele que tinha sido seu grande amor por quase quatro anos. Ora era um casal passando, ora alguém fisicamente parecido. Aquele local não lembrava em nada seu pai, até porque era avesso a exercícios físicos. Os momentos que mais o recordavam se passavam em casa, e por isso mais um motivo para passar seu tempo livre fora. Tinha convidado Patrícia para acompanhá-la. Após os problemas com Dália, Heloísa se aproximou mais da amiga e chegaram a ir a outros locais juntas. Mas a companheira não pôde ir devido a uma viagem inesperada. Então, restava passear sozinha no parque. Ela não era de muitos amigos, por ser naturalmente tímida. Mas assim como tudo que fazia, suas amizades eram intensas. A mágoa de Dália resistia e lhe causava desconforto lembrá-la, ao contrário do que acontecia com Mariano, que trazia ira, mas saudade, também. E esse dilema a perseguia. Não poupara Mariano aos mais chegados. Contava a história. Como perdoá-lo depois de uma desfeita dessa? Seria melhor que todos soubessem para que conhecessem o que ele havia dado em troca da confiança, amor e dedicação dela. E como é perigoso o coração feminino ferido. Teve vontade de dar o troco na mesma moeda: uma das companhias constantes dele já

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havia se insinuado para ela quando ainda namoravam. Porém, não teve coragem de contar ao namorado com medo de estragar a amizade com Fábio. Era um jovem bonito, de olhos azuis penetrantes e que morava próximo, em um outro condomínio.

E eis que exatamente o rapaz lhe aparece naquele final de tarde. Estava correndo em sentido

contrário e olhou para Bela como um lobo, ansioso para provar aqueles lábios tão belos que o cumprimentaram discretamente em um quase inaudível “oi” e descobrir os encantos por trás daqueles óculos escuros. Ele acenou e acelerou o passo para, na próxima volta, parar um pouco e atraí-la. Fábio era um bon vivant, oriundo de família rica, gostava de badalações e adorava fazer charminho. Heloísa não podia negar que, fisicamente, ele era atraente. Alto, forte, de papo

envolvente, sempre sorridente, era alvo constante de comentários das amigas desde a época de colégio. Fazia o tipo conquistador. Por outro lado, ele não iria perder a oportunidade de se aproximar de uma gatinha sozinha e carente de afeto, ainda mais quando deixada de forma tão abrupta. Não a deixaria escapar. Tinha que ficar com ela, pelo menos

E se aproximou. Bela, por trás das lentes, disfarçou não ver a aproximação. Ele, experiente,

percebeu e foi logo elogiando:

– Obrigado, Heloísa.

– Oi, Fábio. Mas obrigado por quê?

– Ver você me faz sentir bem. Está cada dia mais encantadora.

– Você não sabe mentir.

– Realmente não sei. Só falo a verdade. E essa fofurinha, como se chama?

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– Snoopy.

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E a conversa rendeu uns vinte minutos. Seus olhos azuis, insistentemente, encaravam a jovem. Sentia-se estranhamente encabulada, talvez porque pensasse que ele pudesse extrair do seu olhar que havia imaginado um plano de vingança envolvendo-o. Como já era de se esperar, Fábio convidou-a para sair. A resposta foi negativa. Anoitecia e o parque estava ficando deserto. Fábio insistiu e se aproximou, aos poucos, sempre a encarando. Heloísa recuou. Nova aproximação. O rapaz não tinha limites e achava que qualquer uma cederia aos seus floreios e que não seria ela a resistir. Tomá-la-ia em seus braços ali mesmo, se pudesse. Em meio à conversa, que seguia descontraída, resolveu, inopinadamente, roubar um beijo de Bela. Ela, contrafeita, tentou evitar aquele ato desmedido de Fábio. Mas foi em vão. O cãozinho, inutilmente, latia, tentando compreender o que se passava. Entre surpresa e indignada com a audácia de Fábio, afastou-se e o viu, em fração de segundos, caído ao chão, após um barulho surdo. Fábio gemeu, com os sentidos abalados pela violência do soco que sofrera no rosto. Passaria uns dias com hematomas, resultado de sua arrogância e insensibilidade. Lá estava Mariano, que a salvara daquela criatura grotesca. Ela chorou com aquilo tudo. Mariano ainda esbofeteou e chutou o adversário novamente,

que ficou se contorcendo de dor no chão. Era o que podia fazer naquele instante. E nada mais merecido para o desmedido galã. Apenas um senhor idoso assistiu a tudo e compreendeu os fatos. Ninguém interveio.

– Você está bem?

Heloísa silenciou ao encarar o ex-namorado. Seu coração disparou. Teve ânsia de desmaio e

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a vista escureceu, repentinamente. As pernas ainda lhe faltaram por um instante e balançou. Estava tonta.

– Você está bem, Bela?

– Acho que sim, obrigada

– Vamos. Vou deixá-la em casa.

– Não

E começou a chorar.

Não precisa

É perto.

– Eu sei que é perto. Mas aquele imbecil pode voltar e tentar de novo. Não vou deixar você

voltar sozinha. Entre contrariada e encabulada, Heloísa quis insistir em voltar sozinha para casa. Mariano

até disse que entendia que ela não quisesse voltar no seu carro. Mas a acompanharia ao lado, com o veículo em movimento, enquanto ela caminhasse pela calçada até chegar em casa. E assim foi feito. Quando chegou no meio do trajeto, carente e comovida com o ato de bravura do antigo namorado, fez sinal de que iria entrar no veículo. Ele abriu a porta.

– E se Snoopy fizer pipi no banco do carro? – disse, preocupada com as travessuras do

cachorrinho.

– Bela, por você dou até a minha vida. Quanto mais uma molhadinha no assento. Você vale

tanto para mim.

– Os olhos da jovem brilharam naquele instante. Era como se aquele sentimento jogado pela

janela tivesse conseguido retornar, ainda que em parte. Mas a confusão agora é que se fazia

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presente em seu coração e mente. Teve o impulso de beijá-lo. Não era fácil. E pensava: “Não foram quatro dias. Foram quatro anos”. Mariano fora seu primeiro homem, aquele que descortinou sua intimidade. Para nenhum outro se entregara a não ser a ele. Estremeceu quando o jovem a pegou pelo ombro em sinal de defesa após a agressão de Fábio. Reconheceu o contato e o calor de Mariano, distinto de qualquer outro. Até o perfume que usava, já característico dele. Quando ele a deixou em casa não explicou nada. E nem era a hora. Mas há dias ansiava chegar perto daquela que fora o grande amor perdido e que lhe corroía o coração, repleto de desgosto e saudade. Não estivera no parque por acaso. Sempre que podia, seguia-a com discrição para, ao menos, vê-la. Ela sorriu timidamente e até pensou em lhe dar um beijo no rosto. Mas as lembranças foram mais fortes. Bateu a porta com força. A mesma pela qual Dália saíra, airosa, um mês antes. Havia dias em que sua mãe falava em Mariano, com saudades. Até contou que Wilson a traíra durante o casamento, dois anos depois que contraíram núpcias. Após uns meses de crise, e diversos pedidos de perdão do marido, dona Raquel o perdoou e nunca mais teve notícias de novo adultério. – Todo mundo é falível, minha filha. Mas o que vale é o sentimento – disse, tentando minorar a situação. A mãe de Mariano chegou a telefonar para Bela e lamentar o ocorrido, reconhecendo o erro do filho e apoiando Heloísa na decisão que tinha tomado. Mas reconheceu que ele andava muito abatido e retraído. Ficava no quarto correndo na esteira ou assistindo a filmes. Mal saía à noite. Tinha até vergonha de tocar no assunto com pessoas próximas. Ele dizia sempre: –pago pelo

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erro que cometi. Perdi meu grande amor por excesso de vaidade. Quis me sentir homem agindo como menino. – E teve mesmo que arcar com sérias conseqüências. Só quem já passou pelo peso desta dor sabe o que ela representa. Magnólia também quis apaziguar as coisas. Certa tarde, foi conversar com a irmã. O

acontecimento do parque havia ocorrido há poucos dias. Mariano estivera com a jovem senhora pedindo uma força para que pudesse voltar com a irmã. Sem que Bela soubesse, ele chegou a chorar copiosamente nos braços da antiga cunhada. Isso a comoveu. Sabia que quando um homem como ele chora, é porque se despiu de todo o orgulho que tinha. Ela, então, fez sua parte:

– Irmãzinha, é preciso encarar as circunstâncias. Mariano foi induzido por Dália. Ela o seduziu e ofereceu-se a ele. Pelo que falou, só ocorreu uma vez.

– Não acredito. É mentira. Há muito tempo que vinham saindo juntos.

– E como você sabe disso?

– Sabendo, ora.

– Mais alguém disse alguma coisa.

– Não. Mas nem era preciso. Dava pra notar que o esquema já era velho. Você não viu como

estavam confiantes? É típico de caso antigo. E eu, coitada, aqui ralando para dar um futuro melhor para os dois.

– Deixe de ser geniosa, Heloísa! Dê uma nova chance. Você sabia que há três coisas que não

voltam atrás? Flecha lançada, palavra pronunciada e oportunidade perdida. Dê uma chance não a ele, mas aos dois. Você ainda o ama, não é mesmo?

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– De que adianta amar um crápula?

– Pessoas boas, às vezes, fazem coisas ruins. Ele não pode ter mudado assim de uma hora

para outra. Não faz muito tempo que você foi comigo comprar o vestido de noiva e pediu que o tratasse com cuidado para quando você fosse usá-lo.

– É. Só que naquele tempo eu ainda não sabia do futuro que me aguardava.

– O futuro? Seu futuro ainda nem começou. Não o destrua antes do tempo por falta de

oportunidade para as coisas acontecerem. Bela se calou, pensativa, em dúvida. Estava certo Algel Gavinet quando disse: “O horizonte está nos olhos e não na realidade”.

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Douglas voltou ao trabalho satisfeito. Trouxe novas experiências e, durante o tempo do mestrado, auxiliou a empresa fazendo operações de divulgação e assessoramento técnico. Não era bem a área em que estava acostumado a atuar, mas tinha sido a forma de dar contrapartida ao investimento feito nele pela instituição, uma vez que não fora dispensado. Agora, mais qualificado e com os contatos feitos na Europa, poderia avançar nos seus projetos dentro do conglomerado, prestar melhor sua assistência e participar de processos de fusão que estavam por acontecer no Brasil. Seu grupo de trabalho era composto de dezenove pessoas, entre advogados, secretárias e estagiários. Havia uma área de assessoramento jurídico interno e outra de trato com o mercado externo e causas complexas. Na primeira, ficavam as questões de ordem trabalhista, comercial e de consumo. Na outra, as operações de natureza internacional e as que envolvessem grandes somas. Era esse o setor liderado por Douglas Azatto.

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– Seja novamente bem vindo, doutor Azatto. Como foi lá na Espanha? Como fez com

aquele novo amor que arranjou? Ao menos assim ficarei mais descansada daquelas impertinentes que ligavam sem parar – disse a doutora Otília, coordenadora administrativa do setor jurídico. Formada em Administração de Empresas, tratava da parte extrajudicial e administrativa da área, dando o aporte necessário e integrando o departamento com as demais instâncias do conglomerado. Era uma senhora de meia idade, pele alvíssima, baixa, gordinha, divertida e autêntica. Azatto tinha completa confiança nela. A senhora, por outro lado, nutria um carinho quase maternal pelo chefe e sempre se preocupava com a saúde dele. Era uma relação interessante. Não raras vezes, era consultada por Douglas e

dava idéias inovadoras. Já era avó três vezes. E a doutora Otília não estava lá há tantos anos por acaso: possuía grande experiência profissional, cultura, e tinha um sexto sentido bastante aguçado, muitas vezes imprescindível no jogo implacável dos negócios.

– Pois é, Otília. Mas acredita que ela me descartou? Não quis vir comigo. Preferiu ficar lá.

Estou ainda tentando conseguir um bom emprego na área de atuação dela, engenharia elétrica.

– Meu Deus! Pode interná-la – disse quase sussurrando, enquanto olhava para os lados

verificando se ninguém mais a escutaria. – Acho que ela estava mesmo é com medo da concorrência aqui. Não vá ficar triste, hein? Você sabe que há candidatas sobrando. O sol que escalda o deserto é o mesmo que anima o bosque. Quando souberem que você está de volta, vou ficar com a mão doendo de anotar recados delas. Mas, falando sério, doutor Azatto, tenha paciência. O que tiver de ser, será. Lembrei-me de um pensamento que tenho guardado há muito, e que me serviu de

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lição. E não esqueça que já sou avó, viu? Certa vez, disse La Rochefoucaud que “A ausência enfraquece as paixões medíocres e inflama as grandes paixões, como o vento apaga a chama de uma vela e atiça as de uma fogueira”. Que tal dar tempo ao tempo? Douglas agradeceu:

– É verdade, obrigado – após uma pausa, perguntou, colocando a mão sobre o ombro da senhora e conduzindo-a respeitosamente pelo corredor em direção às alas do departamento. – Mas, diga-me, como estão as coisas por aqui? – e saíram de birô em birô, vendo as novidades e conhecendo as aquisições humanas do departamento, feitas no período de sua ausência e apresentadas pela cordata senhora. Em seu tempo livre, o doutor Azatto sempre ligava para os locais onde os currículos tinham sido deixados com vistas a saber de possíveis novidades. Mas havia uma oferta considerável de profissionais brasileiros na área. Não seria fácil. Educadamente, até seus head-hunters conhecidos desfaleciam as chances de colocação da jovem espanhola em um cargo promissor. Mas a tenacidade estava na alma daquele jurista respeitado, executivo de sucesso que, acima de tudo, sentia e enxergava o amor sob a inspiração e as cores vivas da poesia. Não podia desistir. Lutaria até o fim pela conquista de seus sonhos, pelo seu amor que por ora se encontrava distante. Lutaria até receber os beijos, acima de tudo merecidos, da vitória. Sempre que entrava em contato com Tereza passava as novidades e a estimulava a continuar com esperanças. Ela, por vezes, chorava de saudades. Num dos últimos contatos, programou uma viagem ao Brasil para dali a duas semanas. Era a grande oportunidade que Azatto estava

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esperando para mostrar-lhe o Brasil, solidificando a vontade de vir aqui residir. Em pouco tempo, deu uma reformada no apartamento com novas cores, todas bem escolhidas com a ajuda de profissionais. Instalou um home-theater e renovou a cozinha. Ademais, organizou

uma agenda de passeios pela cidade, onde mostraria os locais mais agradáveis, melhores restaurantes e centros de compras. Se ela quisesse, compraria uma boa casa em um condomínio fechado para que pudessem ter uma melhor qualidade de vida. – Não há o impossível para quem ama. Tereza vai adorar a cidade e concordar em ficar no Brasil – falou consigo mesmo. Programou, ainda, uma saída com os amigos para que ela os pudesse conhecer, bem como os pais dele. Para sua surpresa, na mesma semana recebe uma ligação de Sérgio, head-hunter amigo. A função de tal profissional – cujo termo significa caçador de cabeças, em inglês – é a de buscar executivos qualificados para exercerem funções de destaque em empresa de médio e grande porte.

– Azatto, tudo bem? É o Sérgio.

– Oi, amigo. Como você está?

– Tudo ótimo. Tenho uma excelente notícia para você. A Maurach & Brian, multinacional da

área de consultoria, gostou do currículo de Tereza Cortez, sua namorada. Querem uma entrevista urgente. Há como providenciarmos isso? – Que notícia boa, Sérgio! É o destino conspirando a nosso favor. Digo isso porque, exatamente nesse instante, ela está tomando os preparativos para vir me visitar aqui no Brasil. Está tudo se encaixando como pretendíamos.

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– O universo conspira em favor dos que amam.

– É verdade – respondeu, feliz com a boa nova.

Conversaram sobre assuntos pessoais. Sérgio era colega ainda da época de colégio, daquelas amizades antigas e sólidas e, por algumas vezes, ou foi cliente de Douglas, quando este ainda advogava isoladamente, ou os seus parentes o foram. Azatto nunca quis cobrar nada pelos seus honorários, e na hora de pagá-los era uma confusão. Nunca aceitou receber. Terminava a conta em um jantar ou numa viagem que faziam juntos, paga com muita satisfação e gratidão, apesar das reclamações do amigo advogado. Devia-lhe, portanto. E estava disposto a retribuir. Douglas sabia, apesar de ter ficado velado, o quanto era difícil conseguir um emprego com a faixa de salário esperada pela namorada, ainda mais em sendo estrangeira. Conforme tinham combinado, foi passado um e-mail com as especificações da empresa para Douglas. E ele cuidou de repassá-lo a Tereza, efusivamente. Tudo estava caminhando a passos largos, finalmente. Tereza se apressou em organizar sua agenda para poder visitar Azatto. Não teve problemas na empresa. Seus pais, embora tivessem conhecido Douglas e gostado dele, não ficaram contentes com a idéia de a filha residir no exterior. Mas o que se haveria de fazer? Ela era maior e capaz. Sabia onde seus passos iriam dar. Enfim, chegou o dia. Foi difícil para o jovem trabalhar naquela tarde. Houve uma reunião no turno da manhã com empresários chineses que estavam tendo problemas por causa da cobrança de taxas alfandegárias na importação de componentes para televisores. Era um caso no qual a ele

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foi incumbida a tarefa de encontrar a saída legal para a resolução do problema, afinal de contas envolvia uma operação de oito milhões de dólares. Mas, para Douglas, aquilo não tinha tanto valor porque não se pode mensurar os sentimentos. E pensou: “como todas as outras coisas se tornam pequenas e inúteis quando confrontadas com aquilo que nos é realmente importante, pois nunca haverá preço capaz de aquilatar os valores da honra, do amor ou da liberdade”. Após dar início à resolução do problema alfandegário, operou as demais pendências existentes e então, depois da conclusão delas, dirigiu-se ao aeroporto. Sempre ia para a empresa com bons ternos e gravatas. Fazia parte do staff. Porém, naquele dia, havia saído para o trabalho impecavelmente vestido com um terno de cor salmão, última moda, feito sob encomenda. Até os sapatos de cromo alemão foram escolhidos a dedo para a ocasião, bem como a camisa e a gravata italianas. Dentro do departamento onde trabalhava, viam-se as pessoas mais próximas olharem para ele no momento em que saía para apanhar sua amada, reconhecendo em sua fisionomia a felicidade. O vôo só iria chegar às 19 horas, porém foi com certa antecedência porque, em uma metrópole, pode-se ficar no trânsito por duas horas constantemente. Assim, antes mesmo do planejado, já estava à espera no saguão do aeroporto internacional.

O vôo 723 provinha de Paris, com escalas em Madri e Lisboa. Era uma viagem longa e

Tereza chegaria cansada. Por via das dúvidas, resolveu reservar dois lugares no Abacco, caso ela quisesse jantar uma comida leve e saborosa.

O vôo atrasou quase uma hora. Já lera os principais noticiários jornalísticos. Finalmente, foi

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anunciada a chegada da aeronave.

E no salão de desembarque aguardou a chegada de Tereza. Cada mulher que aparecia ao

longe, em meio aos carrinhos de bagagem e às esteiras rolantes lhe confundia. Será a de azul? Ou aquela lá por trás? Passados dez minutos, Tereza não saiu da sala de desembarque. Teriam ocorrido problemas com a bagagem? Esperava que não, uma vez que já ficara sem suas malas durante dois dias devido a um extravio. Foram mandadas para a África do Sul, ao invés dos Estados Unidos. Teve, então, que comprar, com urgência, roupas e até um terno. A companhia aérea pagou as despesas, mas o aborrecimento tinha sido grande. Poderia ter ficado na amostragem da Alfândega. A Receita e a Polícia Federal fazem fiscalização por amostragem na chegada de passageiros para ver se está ocorrendo descaminho, que é a entrada em nosso território de produto permitido mas sem o pagamento dos impostos de importação, ou o contrabando, a entrada de produtos ilegais, como armamento pesado. Porém, passado um tempo, perguntou se tinha ocorrido algum problema com passageiros a um funcionário da alfândega que atravessava a porta de desembarque naquele instante:

– Nenhum nesse vôo, senhor – informou o inspetor.

Resolveu, então, dirigir-se ao guichê da companhia aérea.

– Senhor, houve um problema: overbooking. Hoje é feriado na Espanha e por isso o vôo lotou. Infelizmente, sua noiva não embarcou nele.

O overbooking é uma prática condenável, utilizada por algumas companhias aéreas. Como as

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aeronaves transportam mais de uma centena de pessoas, é comum que sempre ocorram casos de impossibilidade de voar. Como visam o lucro acima de tudo, esperando a desistências de uma parte dos passageiros, seja porque não puderam viajar ou se atrasaram, vendem mais bilhetes do

que o número de assentos disponíveis. Quando a desistência é pequena então ocorre o overbooking, ou estouro do livro de reservas. Sempre saem passageiros prejudicados por isso, o que ocasiona, inclusive, responsabilização civil da companhia, para ressarcimento de danos de quem não embarcou.

– Não é possível. Que falta de respeito. E pensar que eu fiz das tripas coração para estar hoje com antecedência.

– Mas ela pode estar vindo no próximo vôo de uma outra companhia, senhor. Na escala de

overbooking para esse vôo nos utilizamos dela. Deixe-me consultá-la. Só um minuto, por favor.

– Pois não.

Após entrar em contato com a empresa coligada naquela operação, retornou com uma notícia esclarecedora:

– Senhor, fui informada de que automaticamente a reserva dela foi transferida para o vôo de

que lhe falei. Queira anotar, por gentileza.

– Sim.

– É o de número

790. Porém, só chegará às vinte e duas horas. Tenha uma boa noite. Mais

algum questionamento?

– Não, obrigado.

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As horas se passaram arrastadas. Tomou um café, comprou uma revista e esperou. Até lavou o rosto porque o cansaço do dia chegara. Há muito já havia cancelado a reserva no Abacco. Jantariam em qualquer lugar, ou comeriam algo em casa mesmo. Outro atraso. Às dez e meia da noite, os passageiros começaram a desembarcar. Em cada

rosto desconhecido que passava, procurava os traços de Tereza. Às vezes, assustava-se e o coração

disparava, em vão, pensando ser ela. Mas estava enganado

emoção dessas pelo menos uma vez na vida é porque nunca amou. Porém, depois que os passageiros desembarcaram e apanharam as malas, nada de Tereza. Não era possível aquilo. Voltou ao guichê e foi conduzido ao da outra companhia. Estava vazio. Não havia mais vôos dela naquela madrugada que se aproximava. Dentro em pouco ainda se via o rapaz, cabisbaixo, esperando o seu amor que deveria ter embarcado e partido no vôo 723 proveniente de Paris, com escalas em Madri e Lisboa, porém que não aparecera no desembarque Ao chegar em casa, decepcionado, teve por primeiro impulso ligar para a Espanha. Teria ocorrido uma tragédia? Um acidente? Algo com um familiar? Meu Deus, o que aconteceu? Porém,

E quem já não passou por uma

ao pegar o fone, viu um sinal na secretária eletrônica. Havia recados. Tentou ligar antes. Mas nada. Nem na casa dela, nem no celular. Aflito, restou escutar os recados. Passou o primeiro que tinha sido enviado por um dos pintores que não concluíra o serviço em tempo. Para sua alegria, ouviu a voz de Tereza no segundo. Estava bem, pensou. Mas o que teria

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acontecido?

– Douglas. Perdoe-me a fraqueza. Não pude embarcar. As coisas estão difíceis na minha

cabeça. Sempre me considerei independente, mas sair da Espanha, nunca cogitei. Não te disse antes, mas a empresa me fez uma contraproposta para não abandoná-la. Tenho um emprego que

me realiza, estou perto de todos os meus amigos e gosto do país onde nasci e vivo. Não sei se foi

devido à minha criação no campo, porém aprendi

Biiip. Acabou o tempo.

Imediatamente, Douglas passou para a próxima mensagem.

– Sou eu de novo. É difícil. Não é por causa do sentimento por você. Eu te amo. Mas é pelo

medo de não dar certo e sofrer por isso. E o pior é que me encontro em uma estrada que se divide em ruas outras, uma repleta de cacos de vidro, e a outra de espinhos. Sofro por não ter coragem de partir. Sofro por não poder estar com você. E tinha medo de ir e aprofundar ainda mais as

coisas

Nova mensagem: – dê-me um tempo para digerir melhor as coisas. Não quero apressá-las. Sei que não é justo pedir que venha viver aqui porque sei que suas dificuldades serão ainda maiores que as minhas, ainda mais em um momento não muito bom para a economia espanhola

e sendo você um profissional não comunitário (membro de qualquer país do mercado comum

europeu). Douglas, me perdoe, mais uma vez. Eu te amo

término do tempo da gravação). Douglas não se deixou abater. Insistiria na ligação para a casa de Tereza. Mas já era alta madrugada em Madri. Melhor parar um pouco para refletir. Porém não conseguiu conter a emoção

(ouve-se o choro dela ao longe, até o

Biiip.

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e se atirou ao sofá, cansado. Pouco depois, foi até o quarto e ligou seu microcomputador. Sequer havia jantado e nem sentiu mais fome. Pôs-se, então, a escrever uma mensagem eletrônica para a amada, já que precisava expressar seus sentimentos. Tereza necessitava de apoio e compreensão naquele momento de dúvida. Sentia-se fragilizada pela situação de amar alguém que se encontrava tão distante. E ninguém melhor do que ele para saber o que aquilo significava. De suas mãos ágeis saiu uma missiva de esperança e conforto. Falou a Tereza que não estava arrependido do sentimento que nutria por ela. Apenas lamentava o fato de ela não estar dando chance ao relacionamento. Em último caso até concordaria ele em voltar para a Espanha e, quem sabe, começar nova carreira por lá, uma vez que a oportunidade que tinha aparecido no Brasil ela, praticamente, abandonara antes mesmo de tentar. E, ao final, os seguintes versos foram recebidos pela espanholinha, com profunda emoção, via e-mail, no acordar do dia seguinte:

AS FLORES DO JARDIM

Não jogues fora as flores do Jardim. Não jogues fora. Elas são um pouco do que há em mim. Está na hora das flores do jardim.

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Deste jardim, Jardim que nasce, Jardim que cresce, Que vive em mim.

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Não ponhas dúvidas nas flores do jardim. Não ponhas dúvidas. São uma das poucas certezas em mim. Está na hora das flores do jardim.

Deste jardim, Jardim que nasce, Jardim que cresce, Que vive em mim. Não percas a fé nas flores do jardim. Não percas a fé. São uma prova de que Deus habita em mim. Está na hora das flores do jardim.

Deste jardim,

Jardim de rosas, Jardim de flores, De girassóis,

Jardim que nasce, Jardim que cresce, Que vive em nós.

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Aquele episódio no parque mexeu com os sentimentos de Bela. O rancor em relação a Mariano ora se transformava em um misto de pena e dúvida no futuro. Voltaria a acontecer aquilo? Não é fácil para a mulher esquecer seu primeiro homem. O mesmo que estreou sua intimidade, descobrindo seu corpo e sua alma juntamente com ela. Era inegável que tinham experimentado momentos memoráveis, como aquele em que, no dia do seu aniversário, subiu ele perigosamente em um morro de pedra próximo à sua casa e lá amarrou um estandarte de mais de três por cinco metros, com uma frase de amor para ela. Outro foi quando ele gastou parte de suas economias de estudante da época em uma festa surpresa para Heloísa. Vez ou outra, aparecia com seus doces preferidos: torta alemã e brigadeirão. Não era fácil esquecer esses e outros momentos bons, e do quanto se sentia protegida ao lado de Mariano. Não era um homem muito alto e forte, mas sabia se impor onde chegava e era corajoso em sua defesa. Certa vez tomou satisfações com um engraçadinho que falou alguma

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coisa dela quando passeavam juntos em uma festa de rua. Mesmo sendo mais alto que Mariano, o rapaz se afastou, intimidado com o ímpeto dele em defendê-la. Apesar de ter reclamado e dito que não precisava daquilo, no íntimo se sentiu orgulhosa da coragem em guarnecê-la, e valorizada por ele, que seria capaz até de dar seu sangue por ela, se preciso fosse, como já havia dito em outra ocasião. Além disso, reverberava em sua cabeça uma frase que sua irmã lhe tinha dito: “Pessoas boas, às vezes, fazem coisas ruins”. Alguns amigos chegaram para contemporizar a situação. Diziam, discretamente, que a culpada pela traição havia sido Dália. E Heloísa não a perdoava por aquilo. Mariano tinha sido infantil em cair no jogo de charme de uma menina malvada, capaz de seduzir o namorado da própria amiga. Realmente – pensava – a grande vilã tinha sido Dália. Como poderia trair a melhor amiga? E logo ela, Heloísa, que tinha feito tantos sacrifícios e depositado uma confiança extrema na pretensa amiga? Pediu ajuda a Deus para que a fizesse descobrir o caminho mais certo. Pediu até ao seu pai, estivesse onde estivesse, para que, naquela hora, a ajudasse a se decidir. Tentar de novo ou desistir – eis a grande dúvida que pairava na cabeça da moça. Na rotina do hospital, que abandonara por uns dias devido a um curso especial ministrado por pessoas de fora, específico para residentes em sua área, traumatologia, voltou a se entregar a seus afazeres profissionais. Bela terminou por criar um vínculo afetivo com o senhor Ângelo, que depois acabou percebendo que em muito lembrava seu avô materno.

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O idoso ainda continuava internado, o que já demandava um prazo razoável, agora para exames oncológicos pós-operatórios. Ao vê-lo depois de mais de uma semana sem acompanhá-lo, sentiu que o fazendeiro estava um pouco mais abatido. Notou que a esposa dele não se encontrava presente no quarto. Nem deu

tempo para analisar a ficha atualizada, que foi trazida depois por uma enfermeira, quando já estavam a conversar:

– Olá, senhor Ângelo, como está hoje?

– Forte

Interrompendo descontraidamente, ela foi logo completando:

– Já sei, forte como um touro?

– Isso mesmo, minha filha.

A doutora começou, então, a tomada do pulso, da respiração, aferição da pressão e da temperatura, além de verificar as suturas – já quase que completamente cicatrizadas – da cirurgia a que tinha sido submetido o paciente, com o fim de extração do tumor maligno na caixa torácica. Quando terminou, falou:

– Meu acompanhamento está perto de terminar. Mas o senhor ficará em boas mãos. E para

onde foi dona Maria?

– Precisou ir ontem para resolver uns problemas urgentes e depois foi dormir em casa. Acho

mesmo é que foi fazer compras – disse, rindo – Mas vai voltar à tarde. Pelo menos foi o que a enfermeira falou, porque eu estava dormindo na hora em que Maria saiu. Aliás, ando com um

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sono ultimamente

perguntando. Heloísa não conseguia descobrir bem porque, mas se sentia à vontade para falar um pouco sobre sua vida pessoal. Não seria tecnicamente correta tal postura, mas acontece que ele não

Mas me diga: como está esse jovem coraçãozinho? – Ângelo foi logo

estava precisando de repouso e aquilo era importante para se sentir útil e melhorar a sua auto- estima. Sendo assim, aproveitou e contou para ele o acontecido. Falou do ataque de Fábio e a surra recebida de Mariano. O velho vibrou e disse:

– O rapaz gosta mesmo da doutora. Ele pediu uma nova chance?

– Não, mas nem era preciso. Bastava olhar nos olhos dele.

– E você gosta dele?

– Eu não sei mais, seu Ângelo. Fiquei meio confusa depois daquilo que aconteceu, juntando com a morte do meu pai. A situação está complexa aqui dentro – apontou para o peito.

– Não, minha filha, tá confuso é aqui, depois de quase oitenta anos – disse, sorridente,

Mas veja bem, se

sinalizando para o tórax. –Até meu problema de vista anda pior ultimamente

eu colocar uma laranja em sua mão você pode dizer a mim se ela é amarga ou doce?

Bela olhou para o teto, pensativa, depois, respondeu:

– Bem, externamente dá para ter alguns sinais. Se a casca for grossa, pode até ser sem gosto. Se for bem verde, a tendência é, na minha opinião, ser azeda. Mas não posso ter a certeza.

– Por quê?

– Senhor Ângelo, porque para se ter certeza é preciso provar!

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– arrematou com ênfase, meneando a cabeça com um

leve sorriso. – Sabe como escolhi minha esposa? Quando a conheci me apaixonei por suas perninhas.

Não diga a ela, mas não eram grossas, não. Pelo contrário, eram até fininhas. Mas, o jeitinho com

Foi uma novela namorar a danada. Seus pais eram

muito rigorosos. Com o tempo, aprendemos a nos conhecer. Meus sogros foram até ficando mais simpáticos à medida que meu rebanho foi crescendo e produzindo mais leite; meu roçado

E não era para menos. Eles estavam em seu papel: arranjar um bom

partido para a filha. Com o passar do tempo, veio a desilusão. Descobri que Maria era geniosa e teimosa e, se eu deixasse, mandava até em mim. Por vezes, ranzinza. Fiquei em dúvida quando o velho começou a dar indiretas sobre casamento, afinal de contas já namorávamos há uns dois

anos e nada de casar. Naquela época, era diferente de hoje, você sabe. Então, peguei uma folha de caderno e coloquei de um lado o que havia de bom nela; no meio o que não sabia ainda; e do

outro o que havia de ruim. Da primeira vez deu, me lembro bem

possível uma virada do “ruim” por sete a quatro. Então, procurei descobrir aquilo que tinha dúvida. Não sabia se ela era uma boa dona de casa. Comecei pedindo que engomasse uma camisa que trouxera porque estava com pressa e não tinha ferro quente em casa. Naquela época, era a carvão, sabia? A camisa voltou impecavelmente engomada. Depois, dei uma desculpa de que estava doido para comer um bolo de ovos e pedi que fizesse um para mim. Ela fez um bolo delicioso e o jantamos em sua casa. Depois, um almoço também aprovado. Não sabia se ela

Quatro, quatro e três. Era

dando uma safra maior

que ela andava, eu achava tão bonitinho

– Ah, muito bem, é preciso provar

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gostava de crianças, porque era filha única e não tinha ninguém pequeno em sua casa para que eu pudesse, no dia-a-dia, descobrir. Pedi, então, um sobrinho de dois anos “emprestado” e entreguei para ela tomar conta por um dia, também com uma desculpa bem montada. O menino ficou louco por ela e depois só falava em Malia, Malia. Outra vez, aproveitei uma viagem que fizemos para a capital e disse aos pais dela, à mesa de um bom e caro restaurante, que era uma questão de

honra pagar a conta da namorada. Então, entreguei o cardápio e falei para escolher o que quisesse, na quantidade que quisesse, e deixasse o resto comigo. Ela olhou para os pratos, olhou para os preços e, depois, escolheu um com preço mediano, até mais para barato. Descobri que não era esbanjadora e se interessava com minhas economias. É lógico que, de vez em quando, brigamos. Mas em geral até hoje estamos juntos, felizes.

– O senhor disse três. E a quarta dúvida?

– Ah, minha filha. Essa dúvida a gente não podia tirar antes do casamento, senão ou casava à força ou ia para a ponta da peixeira

– Senhor Ângelo, não tem jeito mesmo não é? – disse, colocando as mãos na cintura e sorrindo, surpresa com a espirituosidade do velho.

Depois de uma breve pausa, o senhor olhou com atenção para a jovem doutora e continuou:

– Faça isso também, minha filha. A hora de errar é agora. Ou de acertar, não é mesmo?

Depois, poderá descobrir se esta é realmente a escolha certa.

– Seu Ângelo, o senhor é dez.

– Não, minha filha, sou mesmo é setenta e oito, já beirando os oitenta, mas forte como um

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touro – arrematou, sorrindo. Após a divertida e construtiva conversa com seu Ângelo, resolveu, já no corredor, ver sua ficha individual. Para seu espanto, leu no prontuário que havia sido descoberto uma metástase no cérebro. Bela sentiu uma pontada no coração. Pediu mais detalhes. Uma tomografia apresentada pela enfermeira-chefe mostrava o avanço da doença. Quando olhou o prontuário, viu, assustada, a classificação TNM do tumor extirpado de Ângelo, recentemente anexada: T2N2M2. Significava, portanto, tamanho médio, grande propagação nos nódulos linfáticos e a existência de metástases. Espalhara-se para o cérebro, atingindo também o bulbo. O tumor maligno, tecnicamente conhecido como câncer, resulta do anormal crescimento de um tecido por causa da multiplicação desordenada e sucessiva de suas células. Surgiram tumores cerebrais secundários, ou metastáticos. Originaram-se do que já fora retirado da cavidade torácica durante a intervenção cirúrgica. Heloísa sabia que Ângelo estaria vivendo seus últimos momentos de lucidez. Sua função cerebral iria decair profundamente até perder a consciência. O lobo occipital já fora bastante atingido, o que explicava a dificuldade da visão. O Bulbo fora alcançado, e isso importaria na afetação dos centros nervosos da respiração, dos batimentos cardíacos e de outras atividades neurovegetativas. Em passos rápidos, foi ao oncologista responsável obter mais detalhes. – Doutor Mauro?

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– Pois não, o que a doutora deseja?

– Sou residente e estou acompanhado um paciente. Eis aqui o prontuário. Seu nome é Ângelo.

O médico-chefe responsável pelo doente olhou rapidamente os exames e disse:

– Ah, sim. Lembro-me do caso. Infelizmente há uma neoplasia metastática no cérebro, que

está comprometendo a visão, uma vez que atingiu o lobo occipital e se alastrou pelo bulbo. Em pouco tempo estará com as funções respiratórias comprometidas.

– Há como operar?

– De forma nenhuma, pelo menos em relação ao bulbo. O ponto central é inacessível. Veja

só – mostrando a intersecção dos tumores dentro da caixa craniana. – O que se pode fazer é dar

uma qualidade de vida satisfatória até lá. Com a idade dele, talvez não resistisse nem à intervenção para extirpar a metástase que atinge o lobo occipital.

A família já foi avisada?

– Sim. Eu mesmo dei a notícia à esposa. Como a praxe recomenda, pedi que não informasse

ao paciente. Só causaria mais sofrimento. Ele percebeu o abatimento da jovem médica, que baixou a cabeça, triste. Encorajou-a, dizendo:

– Doutora, a senhora está apenas começando. Lembre-se de uma coisa: a medicina é uma

guerra contra a morte. Não dá para vencer todas as batalhas. O mais importante é fazer o melhor que puder, pois só assim você terá, sempre, a consciência tranqüila. Às vezes, não depende só de nós.

– É verdade, doutor Mauro. Vamos seguir em frente. Obrigada pelo conselho.

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– Aliás, sua residência é em quê?

– Traumatologia.

– Muito bom, muito bom.

Bela então compreendeu a razão de Maria não estar no quarto com o marido. Estava em casa tentando se recuperar da notícia. Naquela mesma tarde, recebeu um recado. Estava na recepção do hospital uma encomenda para ela. Desceu, estranhando o fato, inusitado até então. Quando lá chegou, havia uma embalagem de conhecida loja de doces da cidade. Abriu o pacote e dentro encontrou uma torta alemã. Junto havia um pequeno bilhete, devidamente datado e assinado:

Bela,

Seu nome é SAUDADE, É assim que a recordo. Hoje sofro a solidão medonha e procuro, em tudo, o amor.

E me assusto! Seu nome é ESPERANÇA, é assim que a chamo. Quisera ter o

mundo para mim, mas não posso. Quisera ter meu sonho sendo nosso. Seu nome é AMOR, é assim que a chamo. Você é um labirinto por onde me perco. Não sei o que faça, só sei o que sinto. Sinto que ao vê-la um espiral de sonhos se levanta. A brisa rasga meu rosto de puro arlequim. O tempo passou, BELA, mas você não passou em mim

Mas só em você eu o vejo

Bom apetite. Um beijo.

Mariano.

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A torta foi repartida euforicamente pelo pessoal do trabalho, já enjoados da comida do

restaurante. Ela ficou surpresa e comovida com o bilhete e o gesto de Mariano. Estaria ali a resposta para seus questionamentos? Seu telefone, então, tocou. Era sua mãe.

– Bela, a que horas vai chegar?

– Mãe, estou na dependência dos horários de Alberto, hoje. Mas deve ser lá pras sete da noite. O que foi? Aconteceu alguma coisa?

E a senhora Raquel tratou de tranqüilizar a filha:

– É coisa boa, não se preocupe. Quando chegar, eu lhe contarei. Um beijo. Cuidado.

A doutora não fazia revezamento de carros nas idas e vindas do hospital somente em razão

da distância entre sua casa e o hospital – dezenove quilômetros – e do perigo de dirigir sozinha

em uma metrópole. Considerava tanto Patrícia quanto Alberto pessoas agradáveis e boas companhias. Ele, por sinal, era um amigo de muitos anos. Heloísa o tinha como uma pessoa de grande confiança. Discreto, embora soubesse de todo o acontecido entre ela e Mariano, jamais perguntara nada sobre o assunto. Isso lhe conferia um lugar especial dentre as poucas pessoas às quais poderia confidenciar seus sentimentos. Não podia negar que já tivera um carinho especial pelo rapaz antes de namorar Mariano, por conhecê-lo da vizinhança e por haverem sido contemporâneos no colégio e na faculdade. Fisicamente, era um pouco baixinho, não se podia negar. Mas ao mesmo tempo tinha as feições

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bonitas, um sorriso cativante e era inteligente, além de equilibrado. Conversavam, muitas vezes, sobre assuntos sérios. Alberto era uma pessoa erudita, acostumada à leitura não só de obras médicas técnicas, mas também da literatura clássica e contemporânea. Suas proposições sobre a vida e a forma de encará-la, às vezes, surpreendiam-na. Tinha uma mente aberta e sempre evitava fazer prejulgamento das questões que lhe apareciam. Mas aquela relação foi ganhando contornos de amizade, com o passar do tempo, e não mais viu Alberto de forma diferente. Certa vez até deu um “jeitinho” para uma menina que queria conhecê-lo. De outro lado, ele também nunca dera em cima de Heloísa. Por uma única vez algo ficou no ar do que ele falou para a amiga e colega de residência. Alberto teve um relacionamento duradouro com uma jovem que sentia muitos ciúmes de Bela. Depois do término, ele ainda chegou a contar a Bela que Ana não compreendia aquela amizade. E disse que, na verdade, não era fácil aturar uma amiga do namorado, tão bonita e inteligente. Heloísa corou naquele dia. Mas como a amizade, até aquele momento, prevalecia, na volta do hospital resolveu compartilhar com Alberto aquele fato que tanto mexera com ela.

– Alberto, recebi hoje uma torta alemã que Mariano me mandou.

– Que bom. É a sua preferida, não é?

– Sim. E mandou um bilhete. Vou lê-lo – e leu em voz alta para o amigo, enquanto voltavam

do hospital para casa. Alberto, que guiava o carro, escutou silenciosamente. Ao final, Bela arrematou:

Ele, tenho certeza, quer voltar. Você soube do que aconteceu

– Mas me sinto tão perdida

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entre mim e ele?

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– Perfeitamente.

– E o que acha?

– Que assunto delicado. Logo eu? Sou suspeito.

– Por quê?

– Porque sou seu amigo e tenderei a defendê-la.

– Mas me diga o que você acha.

– Promete nunca contar a ninguém? Não gostaria de causar polêmica com Mariano.

– Prometo.

– Bem, acho, antes de tudo, que você precisa ouvir seu coração, primeiro. Mas não assim, por

impulso. É natural que, quando se termina um relacionamento antigo, se abra aquele vazio. Estamos

acostumados a uma rotina estabelecida com a companheira, ou companheiro. O costume, muitas vezes, se confunde com o amor. A conveniência, com o sentimento. É preciso dar um tempo

para se situar

haja alguém que melhor se compatibilize com você em algum lugar. Apenas não houve o despertar.

Os fatos, em si, pelo menos do que ouvi, foram graves. Ele a traía com Dália. Não é mesmo? E não foram poucas vezes.

Eu sei que é muito fácil falar isso para você nesse momento. Mas pode ser que

– Ele falou que foi uma vez só.

– E você acredita nisso?

– Não sei.

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– Pois bem. A base de um relacionamento se faz com o respeito e o respeito vem da admiração.

Eu, particularmente, achei uma tremenda falta de respeito e uma grande leviandade. Ele a traiu

dentro do seu círculo de amizades. É grave. Não sei se é possível a fidelidade plena, mas desse jeito é demais. Porém, não quero falar mais sobre esse assunto. Deu para compreender o que acho?

– Sim. Na dúvida, não ultrapasse.

– Isso mesmo. Melhor aguardar um pouco até a situação aclarar. Lembre-se, você vai sofrer,

seja de um jeito ou de outro. Vai sofrer se ficar com ele, pois por muito tempo levará consigo esse fardo. Ele se sentirá em desvantagem e talvez isso cause problemas. Por outro lado, desistir dele se ainda o ama trará graves conseqüências, pois sempre restará uma dúvida. Deveria ter dado a segunda chance? Tudo na vida envolve escolhas. E caberá a você, depois de uma boa análise, decidir. Não deixe os outros decidirem por você. Disse Sartre, certa vez: “O que importa não é saber o que fizeram de nós, mas sim o que fizemos com o que quiseram fazer conosco”. Em seu futuro quem manda, lembre-se, é você.

– Mas me responda uma pergunta. Por que você terminou com Ana?

– Porque ela tinha mal hálito. – respondeu Alberto, descontraidamente, após breve silêncio.

– Por isso?

– Brincadeira – riram. – O tempo foi passando e descobri que não era ela

– Não era ela o quê? – interrompeu Bela.

Alberto, então, desviou os olhos rapidamente do volante e, mirando os de Heloísa, respondeu:

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– A mulher que eu desejaria que acordasse ao meu lado pelo resto da vida. Já imaginou o quanto isso é importante?

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Douglas chegou abatido pela manhã ao escritório. Otília percebeu, com toda a sensibilidade que tinha, que algo de errado havia ocorrido com o rapaz. Ele precisava de uma “carga” de ânimo. E nada melhor do que uma notícia agradável para se começar um bom dia.

– Doutor Azatto, parabéns! Ficou ótima a reportagem na Gazeta Econômica – referindo-se

a uma entrevista dada três dias antes pelo consultor a um jornal especializado em negócios, na

qual ele falava das tendências no direito internacional privado. Ele olhou a matéria forçando o ânimo para não parecer deselegante com a senhora, que efusivamente chegava para lhe mostrar o artigo de meia página.

– O que achou? – perguntou a senhora.

– Ficou legal, só não gostei desse feioso, estragou a folha – disse Azatto, rindo um pouco ao olhar a própria foto no jornal.

– Mas de jeito nenhum – retrucou Otília – vou guardar como lembrança. Pedi para que

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comprassem uma edição para você guardar também. – Vou pedir à minha secretária para arquivar em recorte.

Douglas não deixara transparecer muito no trabalho os problemas pessoais pelos quais passava. Os demais empregados da empresa não tinham culpa e cada qual já carregava o fardo de suas próprias preocupações. Resolveu, a partir de então, não contar o que havia ocorrido, até porque embora não esperasse

o

que aconteceu, pensando com calma se veria que Tereza estava em uma situação mais delicada.

O

que mais lhe doía era saber que, de todas as mulheres que havia conhecido, a espanholinha era

a que mais lhe impressionara. Quando somos jovens, agimos mais por impulso e por isso deixamos nos arrebatar mais

facilmente pela paixão. Porém o que vem fácil, fácil vai. Não é incomum, em relacionamentos entre pessoas imaturas, a descoberta de novas situações que mudam completamente o foco de

uma relação, fadando-a ao fracasso. Na juventude, tudo é muito rápido, com uma intensidade que

se pensa não mais existir em outras épocas, o que não é verdade. Nessa época, a paixão mais se

exprime do que o amor. Ela é como um lago amplo, mas raso, que tanto pode transbordar em uma única noite de temporal, quanto secar rapidamente ao calor do sol. À medida que vamos amadurecendo, perdemos ímpeto juvenil de ver tudo com superficialidade. Ganha-se profundidade. Assim, o amor é um sentimento que não muda, mas a forma de encará-lo é que amadurece com as experiências dos anos. Tornamo-nos qual um lago profundo, embora menos amplo, que custa para transbordar, mas que o conteúdo não se vai em um único verão. As paixões diminuem,

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o amor permanece e até se intensifica. Douglas tinha uma forma peculiar de enxergar o amor. Estava amadurecido pelos desafios da vida, com um vigor de juventude, com a liberdade de sempre e a independência financeira que não se obtém quando adolescente. Não lhe faltavam candidatas. Mas muitas que conheceu e até mesmo com quem se deitou, em grande parte das vezes, não passavam de um rostinho e corpinho lindo que, após os momentos de enlevo, se tornavam mais uma entre todas as mulheres. Tereza, pelo contrário, era bonita, inteligente e equilibrada, capaz de lhe dizer coisas interessantes e de fazê-lo refletir. Além disso, era uma boa amante. E, assim como ele, vencera na carreira pela competência. Tinham diversos pontos em comum e isso fortalecia os laços então existentes. Mas a dúvida o visitou pela primeira vez. A ave negra fez sombra em sua mente. Conseguiria Tereza se adaptar aos novos desafios? Passaram-se quatro meses do seu retorno ao País. Como estaria a cabeça dela quanto aos sentimentos? Talvez tivesse surgido alguém nesse período e sabemos que, quando estamos carentes, é comum acontecer. Mas não havia ocorrido um fato desse. Era apenas insegurança devido à distância e à dificuldade de acomodação da relação entre os dois. Pensou em ligar para ela com o fim de aprazar uma viagem à Espanha. Era melhor decidir de uma vez por todas e acabar com o impasse. Mas antes faria uma última tentativa. Ainda conversaram por alguns minutos ao telefone. Por instantes, teve receio de forçar a barra e depois assumir a responsabilidade pelo fracasso profissional da espanhola no Brasil. Ainda mais, tirando-a de um local em que adorava trabalhar e onde conhecia muito bem todas as instâncias da empresa.

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Quanto ao futuro profissional dela no Brasil, a firma da qual o amigo houvera arranjado uma proposta de emprego, já tinha preenchido o lugar. Só se surgisse uma nova oportunidade. O telefonema foi frio. Tereza estava apática. Agradeceu o poema recebido e falou que o guardaria para sempre. O tom era de despedida. Douglas percebeu que o rompimento seria uma questão de tempo.

– Estou pensando em ir até aí.

– Por favor

– Por que não, Bebê?

– Vai doer mais. Dê-me uma semana para decidir o que fazer, só sete dias.

– Está bem. Cuide-se, tá?

– Você também. Um beijo.

– Um beijo.

Melhor não

Aquele foi o instante da queda. E ao colocar o fone no gancho sentiu, como há muito não sentira, uma profunda solidão. Apesar de não anunciado o término do relacionamento, olhara para os lados e se via, agora, sozinho.

Em Madri, dos olhos de Tereza uma lágrima verteu, indo de encontro ao plano. Não tardou

e o pranto teceu seu negro manto de desenganos. Logo quis se recompor. Enxugou o rosto no travesseiro, pegou o telefone e ligou para Douglas:

– Não suporto mais isso. É um pecado o que estou fazendo conosco, Douglas. E você é uma

pessoa muito especial, mas as circunstâncias da vida selaram nossos destinos. Não posso dizer

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que não queria ir ao Brasil para morar com você. Estou com vinte e nove anos e, às vezes, penso que posso estar perdendo o grande amor da minha vida. Mas algo me diz que não seria bom, nesse momento, largar tudo aquilo que conquistei durante anos. Você sabe o quanto batalhei, indo do zero até onde estou, as dificuldades durante a faculdade e outras coisas mais. Não é justo deixá-lo ligado a mim por mais uma semana, tenso e aflito por uma resposta. Sei que o telefone não é o melhor meio de terminarmos o que começou de uma forma comum e se transformou num fato que levarei para o resto da minha vida com um carinho especial. Mas não suportaria vê- lo pessoalmente. E sei que, para você, também seria terrível. Também não posso dizer que não o amo porque falaria uma inverdade. Mas talvez devesse amar mais, porque só assim teria coragem de largar tudo e caminhar ao seu lado onde estivesse. Não sei se foram as inúmeras decepções da vida que me deixaram precavida. Mas saiba que mesmo quando conheci você e me apaixonei, sabia dos riscos dessa empreitada. Lembra-se daquela antologia poética de Fernando Pessoa que você me deu? Eu terminei de ler nos últimos dias. Jamais esquecerei o que ele disse: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Valeu ter conhecido você. Valeu ter me apaixonado por você. Valeu ter me entregado a você. Só o que não vale é o que o destino fez conosco. Mas foi um risco assumido. Acho melhor não nos falarmos por um tempo porque só irá nos fazer sofrer mais. Mas, quem sabe, um dia você não resolva vir fazer um doutorado aqui, não é? Um frio percorreu o corpo de Douglas. Tinha feito de tudo para trazer o seu amor para o Brasil. Os meses de angústia se estenderam. Foi um lutador. Mas a situação já era realmente insustentável:

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– Tereza, muito obrigado pela acolhida e por tudo, por tudo mesmo. Você é uma mulher

fenomenal e lhe desejo tudo de bom. Estou sofrendo – engole o choro por uns instantes – mas agora sei que não seria justo exigir tanto de você. Seja feliz porque você merece. E concordo:

valeu a pena. E obrigado por essa ligação, pois você sabe o quanto tentei arranjar uma solução e que sofreria mais uma semana de expectativas. Mas por você não teria problemas. Sei que esse não era um dos caminhos que queria. Mas terminou por se tornar “o caminho”. E quem sabe? – fez uma pausa – como dizemos aqui no Brasil, o futuro a Deus pertence. Um beijo – silenciaram por um pouco.

– Um beijo

– respondeu Tereza, com tristeza.

Desligaram. Após a ligação, caneta e papel nas mãos, Tereza e ele seriam o palco de um poema que a jovem jamais receberia:

SONETO DO AMOR PERDIDO

Perdeu-se o nosso amor assim tão de repente, Veloz, em meio às lágrimas em nosso rosto, Alheio a tudo que sonhamos, simplesmente, Caiu na correnteza de um rio de desgostos.

Perdeu-se o nosso amor assim de forma rude,

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Qual o vento que devasta uma plantação de sonhos

E nós, que devotávamos a ele mil virtudes

Sofremos do destino o golpe mais medonho.

Perdeu-se o nosso amor definitivamente,

O elo se rompeu, embalde a chama ardente,

Mas foi o melhor pra nós o que a distância quis?

Perdeu-se o nosso amor por falta de ousadia… Passando o breu da noite… no raiar do dia Irei na eterna busca para ser feliz.

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Bela havia saído com a empregada para fazer compras no supermercado. Ao retornar, acompanhada de Ana, deparou-se com a mãe, eufórica:

– Filha! Que coisa boa! - disse dona Raquel, enquanto segurava Snoopy nos braços.

– O que foi, dona Raquel? – perguntou Ana, curiosa.

– Bela será titia em breve. A empregada falou, surpresa:

– Não acredito. Mas como? Snoopy ainda é quase um bebê

– enquanto olhava o cãozinho

que queria brincar com ela, remexendo-se nos braços da senhora Raquel.

– Estou falando de Magnólia, sua tonta! Veja só, veja só –mostrando às duas o original do teste de gravidez, onde se via em destaque a palavra “positivo”. Bela vibrou de alegria e quis logo falar com a irmã:

– Onde ela está?

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– Foi até a casa da sogra dar a boa notícia. Mas já deve ter voltado para casa. Vamos até lá?

– Vamos, sim! – nem sequer trocou de roupas. Queria o quanto antes felicitar a irmã que tanto amava. Dentro em pouco, Bela e a mãe chegaram à casa de Magnólia. Quando se viram, abraçaram-se, felizes.

– Devo ter engravidado ainda na viagem. Já estava desconfiada com o atraso. Às vezes, sou

tão alvoroçada com bobagens que esqueço coisas importantes. Quando fui conferir, já estava

com uns três meses

Bela sorriu com as já conhecidas confusões da irmã e foi logo dizendo, enquanto levantava o indicador:

– disse Magui.

– Vou fazer o parto.

– Se Deus quiser. Só assim poderei dizer que a tia é tão brava que foi a primeira a lhe dar

umas palmadas – referindo-se às tapinhas dadas para que o recém-nascido expila pela boca os líquidos amnióticos por ventura existentes nas vias respiratórias, logo após o parto.

– E Jonas?

– Está superfeliz. Parece até que adivinhou porque estava juntando um dinheirinho para eventualidades.

– Como comemoraremos?

– Amanhã, à noite, faremos um jantar aqui em casa. Só virão os pais dele e os irmãos. Será uma comemoração reservada, bem ao estilo de Jonas.

as três sobre suas vidas. Magnólia contou que o escritório de

E passaram a conversar

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O escultor da alma

arquitetura ia de vento em popa. Estava repleta de projetos, o que garantiria trabalho até o período próximo do nascimento da criança. Dona Raquel não deixou de relembrar Wilson e o quanto ele ficaria feliz com a notícia. Quanto a Bela, disse que estava em dúvida se reatava ou não com Mariano e que, há poucos dias, recebera uma torta lá no hospital.

– E ele continua ligando para você? – perguntou Magnólia.

– Ligando, não. Mas seus amigos de vez em quando ligam. Sempre alguém vem me falar dele.

E o pior é que não o esqueci. Olha aqui o que ele me escreveu – disse, tirando o bilhete de dentro

da bolsa, que havia sido dado junto com a torta alemã. As duas outras leram silenciosamente. Por fim, Magnólia exclamou:

– Belíssimo! Por falar nisso, vi uma declaração de amor linda quando voltávamos da lua-de-

mel. Não contei para vocês porque Jonas estava perto e iria ficar enciumado. Depois, esqueci. Foi

de um bonitão que sentou ao nosso lado. Durante a viagem, ele até chorou. E eu, de boba, pensei que era um resfriado. Quando ele saiu com pressa, deixou cair o bloco de notas que continha umas poesias escritas. Pelo jeito ele deixou um amor na Europa e estava triste, com saudades. Um momento que vou pegar lá dentro. Quando voltou, mostrou a Heloísa e à mãe. Leram com cuidado. Ficaram tocadas com as palavras.

– Que poesias profundas! – exclamou a jovem doutora. – E como ele era?

– Alto, bonitão, charmoso. Mas nem olhei direito porque Jonas fez marcação cerrada. Só me

lembrei de você. Tive vontade de dizer: coitado, não se preocupe, eu tenho uma irmãzinha que é

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uma fofura para lhe apresentar. Garanto que vai esquecer em pouco tempo sua européia – após isso, riram e brindaram com felicidade a boa nova.

* * *

Três dias depois, Mariano ligou para Heloísa, convidando-a para jantar. Disse que precisava falar com ela. Combinaram às oito da noite. Heloísa procurou não pensar muito no assunto até

o momento do encontro. Melhor não gerar expectativas e ver no que ia dar. Pontualmente, Mariano chegou. Havia trocado de carro, estava mais magro e lhe deu um beijo no rosto. Foram a um bom restaurante de cozinha italiana. Pediram ao garçom uma lasanha ao molho de quatro queijos, bem ao gosto de Bela. No início, a jovem ainda parecia bastante retraída e constantemente baixava a vista, evitando encarar o rapaz. Depois de um tempo se descontraiu um pouco e puderam conversar trivialidades e as novidades nas famílias. Na dela, a gravidez de Magnólia. Na dele, um novo posto de gasolina que estavam montando em um bairro mais afastado e que ficaria sob a responsabilidade do rapaz. Não falaram logo sobre o problema da traição. Após um tempo, de olhos marejados, o rapaz destilou seus sentimentos sem orgulho, falando

do que sentia por ela e do arrependimento pelo que tinha causado. Disse que havia sido a primeira

e única aventura no relacionamento e que nunca tinha passado pela sua cabeça fazer uma coisa

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O escultor da alma

daquela, ainda mais com uma amiga da jovem médica. Falou que a família adorava Heloísa e

sempre perguntavam por ela; que a sua mãe estava do lado dela e, mesmo que não tivesse o amor

da

jovem de volta, pelo menos que ela o perdoasse, para ele poder, então, seguir seu destino. Mas,

se

o amava, que desse uma nova chance aos dois, porque sentia que teriam um grande futuro

juntos. De seus olhos uma solitária lágrima escorreu, enxugada pelas mãos da já comovida jovem, com um lenço de papel. Heloísa se sentiu tocada com a sinceridade do rapaz e não suportou ter seu objeto de desejo à sua frente, olhando-a nos olhos. Quando veio o jantar sequer com fome estavam. Tinha sido muito mais um pretexto de ambos para o reencontro. Após saciados, foram embora. Já no automóvel, no trajeto, conversaram timidamente até chegar à residência da moça. Na volta, Heloísa ainda estava em dúvida sobre o reatamento. Mariano parou o carro em frente à casa da médica e pediu uns minutos. Ela parou por uns segundos, fez menção de sair, mas de súbito o olhou e lhe deu um beijo na boca, que o fez saltar de susto e de júbilo. Ficaram ofegantes de emoção e prazer. Seus corpos se pediam naquele instante, saudosos que estavam do contato um do outro. Era madrugada, e se amariam ali mesmo, no carro, em frente à casa da jovem, guarnecidos, tão

somente, pelos vidros escurecidos do veículo, não fossem as mãos de Heloísa que conduziram o jovem até uma entrada lateral da casa. E tudo aconteceu na garagem

Pela manhã, passada a emoção e o arrebatamento, Bela sentiu uma certa angústia. Não sabia

se tudo aquilo tinha sido certo. Pairava a dúvida: deveria ou não ter aceitado o convite de Mariano?

A perfídia não fazia muito tempo e ainda se sentia magoada. Talvez devessem esperar a ferida

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O escultor da alma

cicatrizar antes de tentar novamente. Porém, Mariano conseguira reatar o namoro e, temendo exatamente o que Heloísa sentia, ligou logo cedo para desejar um bom dia. Naquela manhã, era Alberto quem estava de carona com ela. Por isso saiu no carro até a residência do amigo. No caminho foi logo confidenciando a ele, que estava absorto com uns papéis:

– Reatamos.

– O quê?

– Desculpe. Eu e Mariano reatamos.

– Foi mesmo?

– O que tem a dizer? Você é o meu melhor amigo.

– Desejo-lhe sorte.

– Oh! Albertinho! Por que reage assim?

– Assim como?

– Com desprezo. Estou falando que renovamos o namoro. Mas não contei ainda em casa. Saímos para jantar ontem e terminamos ficando.

– Não entendi. Ficaram ou estão namorando mesmo?

ficamos. Depois vou ver o que acontece. Preciso de mais opiniões.

Estou me sentindo meio perdida

estivesse vivo. Era a ele que recorreria. Tinha uma vivência muito grande, sabe? Agora, sem aquela presença importante e que Heloísa julgava até insubstituível, tudo se

Sempre me lembro de meu pai nessas horas. Ah, se ele ainda

– Bem, não sei

Acho que

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tornara mais confuso. Wilson era o refúgio e o pilar de sustentação em casa. Mesmo após passados tantos meses, sua ausência ainda era dolorida. E os olhos de Heloísa marejaram. Ainda se sentia

órfã daquela perda. Silenciou por alguns instantes e olhou, indistintamente, a paisagem urbana do trajeto até o hospital.

– Desculpe-me, Albertinho. Lembrei-me de meu pai, disse, enxugando as lágrimas do rosto.

Era comum pedir conselhos a ele. Antes de responder, ele sempre fazia uma pausa e dizia: “é para digerir melhor os acontecimentos e tomar o caminho certo. Filha, nunca haja por impulso porque

ele pode levar você além do desejado

– Concordo com o que seu pai dizia, mas você pode conversar com sua mãe e sua irmã,

também. E tem que se acostumar com a ausência de seu Wilson, embora saiba que é difícil. Se outras opiniões são importantes para você nessa hora, o que elas acham?

– Não dá para conversar com as duas. Conhecem Mariano, e se sentiram ofendidas com o

que aconteceu. No fundo, mesmo, acho que mamãe é a favor da volta e Magnólia contra. Porém, preciso de uma opinião isenta.

”.

– Opiniões isentas

isso mesmo. É disso que você precisa

– Está pensando em quê? Não quero divulgar esse fato no hospital com ninguém. Já basta ter me aberto com um paciente.

– Só não me diga que era da ala psiquiátrica – disse rindo, tentando reanimar a amiga.

– Você sabe que lá não há essa ala. Na verdade, conheci um senhor muito bacana. Um homem simples, do campo, mas com grande sabedoria. Conversava com ele também para

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melhorar-lhe a auto-estima. E confesso que foram ótimos encontros. Você se lembra daquele dia em que decidi ir de carro também?

– Lembro-me. Foi só para conversar com ele? Então deve ser uma pessoa especial mesmo. Gostaria de conhecê-lo.

– Será um prazer apresentá-los.

E procurando auxiliar a amiga em tão importante decisão, falou:

– Bela, eu sei de um lugar em que você poderá conversar com pessoas que possam ajudá-la.

– Não venha com outra piadinha

– Sério. É um site na internet. Na verdade é, também, uma sala de bate-papo.

– Eu, hein?! Se for do estilo das que conheci, não quero. Só falavam besteiras. Tinha inclusive um engraçadinho cuja curtição era dizer pornografias. Minhas experiências em salas de bate- papo não foram lá construtivas.

– Mas nessa eu tenho certeza de que você vai se sentir bem. Trata-se de um site especial, onde

o acesso é restrito. Exige-se uma senha que somente quem é associado pode fornecer. Por isso é bem escolhido. Chama-se “Coração do Mundo”, o site dos amigos eletrônicos.

– E o que é que se faz nesse site?

– Há informações importantes relativas a vários assuntos, desde problemas pessoais até

ecologia, mas sempre com um fim construtivo. Há páginas dedicadas a artes, cotidiano, filosofia, viagens e educação. Curiosidades e informações culturais também são destaques. Mas sempre com um conteúdo que vise, antes de tudo, informar e ajudar as pessoas a melhor compreender o

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mundo. E sabe quem coloca tais informações? Os próprios usuários. O conteúdo é todo disponibilizado aos membros.

– E quanto custa?

– O custo é zero. Mas quem quiser ajudar pode contribuir. Mensalmente os balancetes são

divulgados por uma firma de auditoria. Eu mesmo nem contribuí porque não estão necessitando. O que recebem já é suficiente.

– Tem alguém conhecido lá?

– Eu só conheço uma pessoa. A que me associou. Lá, recebemos um nickname, e a partir daí

é só o que usamos. É recomendada a não identificação real porque o lema é fazer o bem sem

olhar a quem. Isto se aplica às salas de ajuda. Como a finalidade é aconselhar e ajudar pessoas em dificuldades, e muitas vezes surgem assuntos que podem comprometer várias pessoas, ou mesmo causar constrangimentos, todos agem anonimamente. Sim, e as salas são divididas por região geográfica. A sala 241, por exemplo, é da nossa região.

– Que coisa sinistra, Albertinho, parece uma maçonaria.

O jovem a olhou e completou:

– Não seja preconceituosa, amiga. Eu não sou maçom. Mas você sabia que a finalidade da

maçonaria é a mesma, fazer o bem? Pois, sempre que posso, acesso a página “Coração do Mundo” porque lá encontro discussões interessantes, além de matérias com um ótimo conteúdo. Mas do que eu mais gosto é exatamente a sala de bate-papo onde pessoas vão tentar obter ajuda para resolver seus problemas. É uma oportunidade de dar um conselho desinteressado. Há mães que

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chegam pedindo uma ajuda porque descobriram que o filho está usando drogas. Outro está

pensando em suicídio. Vale tudo, indicações de locais, orientações técnicas, jurídicas, médicas. Só não vale rolar dinheiro, para evitar explorações.

– E quais são as regras?

– Não se pode discutir política, religião e esportes, salvo nas salas específicas para esses

temas. No mais, pode tudo, desde que tenha um conteúdo construtivo. Tudo que for leviano é, desde logo, descartado. Quem quebra a regra pode ter sua senha suspensa por um tempo. Se reincidir, é excluído.

– Fiquei curiosa. Você me dá o acesso?

– Bem, às salas de bate-papo o acesso é irrestrito. Mas para o restante do conteúdo, não.

Como nós recebemos duas senhas, chamadas elos, estava guardando meu segundo elo da corrente

para alguém como você. O lema para cessão do elo é “gente como a gente”. Devemos escolher pessoas que possam ajudar também a fazer crescer a finalidade construtiva da página.

– É uma página elitista.

– Depende do ângulo que você olhar. Se for apenas pelo padrão de renda dos membros,

poderá ter surpresas. Mas se palmar pelo perfil pessoal, certamente tenderá a ser elitista, porque as pessoas são escolhidas com base em valores legítimos como caráter, honradez, honestidade, responsabilidade, etc, pelos próprios membros.

– E há alguma sala dedicada a dar conselhos sobre relacionamento amoroso?

– Basta fazer o convite.

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– Como assim?

O escultor da alma

– Há um local reservado para escolha de assuntos, dentro do conteúdo aberto, isto é, as salas

de bate-papo. Sempre que alguém está precisando de ajuda, de um conselho ou mesmo querendo debater um tema, ao selecionar o assunto dispara um sinal em sua região. As pessoas que estão

cadastradas naquela janela de assunto, desde que conectadas, automatica- mente recebem o pedido de ajuda e podem ingressar na sala para discutir o tema, em separado ou em conjunto com você. Eu, por exemplo, estou em quase todas as janelas. Se em dois minutos ninguém atender, o apelo é enviado a outras regiões, sucessivamente.

– E qual a senha de acesso?

– Haverá duas. É melhor você anotar. A primeira é a tecla ALT pressionada, mais os números

0230 do teclado numérico. A segunda é a sua, dada por mim. Essa só fornecerei a você quando chegar em casa. Mas para acessar as salas de bate-papo é só entrar na página principal.

– E como se chama, mesmo?

– Vou anotar em sua agenda, ok? Vou colocar na data de hoje.

Heloísa ficou intrigada com aquilo tudo e, principalmente, curiosa.

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No hospital, havia um tumulto na entrada. Repórteres anunciavam o óbito de alguém famoso.

Era comum ocorrer aquilo porque o centro médico era referência em algumas áreas, e em razão disso muita gente de destaque, lá, era tratada.

– O que está acontecendo? – perguntou a doutora.

– Faleceu uma pessoa importante – respondeu a ascensorista.

Um repórter que estava no interior do elevador completou: – O ex-embaixador Costa Brava. Foi diplomata do Brasil em Londres e na ONU, em Nova Iorque. Heloísa pensou: “quantos milhares não morrem anonimamente todos os dias

As aulas eram realizadas no quarto andar. Após isso faziam refeição na cozinha reservada ao corpo médico e iam ao trabalho. Pela primeira vez participou como líder de equipe em um procedimento cirúrgico mais complexo. Era um caso de fratura de fêmur, em um jovem de dezessete anos, Marcílio, vítima de acidente automobilístico, que exigia a implantação de pinos

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para poder corrigir o rompimento do tecido ósseo.

Conversou com o jovem que já se encontrava deitado sobre a mesa de operações:

– Tudo bem, Marcílio?

– Está doendo muito, doutora

– Mas logo você vai ficar bem e voltar a fazer tudo o que gosta. Joga futebol?

– Sim.

– Pois, dentro em breve, vai poder ser o artilheiro do seu time – disse, sorridente. O jovem deu um leve sorriso, também.

– E a raqui? – perguntou Heloisa à anestesista.

Ela meneou a cabeça e ergueu o tronco do garoto, que gemeu de dor. Pegou a injeção e escondeu da vista do jovem. Tateou um espaço entre as vértebras e a aplicou. Dentro em pouco, a anestesia faria efeito. A raquidiana é administrada na região pós-dura- mater, a principal camada que recobre a medula espinhal, atingindo o líquor, o líquido existente no canal medular central. O efeito foi imediato. A insensibilidade, total. O rapaz parou de gemer. Depois, foi sedado.

Começado o procedimento cirúrgico, sentiu pena do ainda garoto e lembrou-se das inúmeras mortes e lesões graves ocorrentes diariamente em virtude da imprudência ao volante. O automóvel é uma arma nefasta quando entregue a quem não sabe dominá-lo da forma correta. E os pais, muitas vezes, são co-autores inconscientes da morte dos próprios filhos. Ela mesma recordou que só depois do terceiro ano de medicina é que foi possuir um carro.

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Durou cerca de três horas a intervenção cirúrgica. O seu fêmur foi rompido no terço médio superior, tendo sido implantado um fixador externo, através de hastes metálicas. O paciente

ainda sofreria um bocado com aquela grade metálica em sua coxa. Mas a imobilização era necessária para que o osso cicatrizasse. E o único meio disponível para o caso era aquele. Ao final, estava exausta. Não devido ao esforço físico, mas à concentração, pois deveria permanecer alerta aos detalhes ou provocaria sérios problemas ortopédicos no rapaz. Pensou: “não vão ficar nenhuma maravilha as vinte e duas suturas na coxa. Mas, pelo menos, poderá praticar todas as atividades normalmente, depois do prazo de convalescença”. Terminada a cirurgia, descansou alguns minutos e passou ao plantão. Por volta das cinco e trinta da tarde é que foi fazer o trabalho de acompanhamento de doentes. Já na ala de oncologia, pediu os prontuários dos pacientes por ela acompanhados. Naquele dia, iria chamar Alberto para conhecer o senhor Ângelo. Ao final, disse à enfermeira:

– Sandra, e o paciente do 38?

– Não soube?

Heloísa gelou, pensando no que acontecera e perguntou em seguida:

– Não, o que houve com ele?

– Veio a óbito hoje de madrugada. Parada respiratória devido ao tumor no bulbo. Morreu dormindo.

– O Sr.Ângelo!?

– Ele mesmo. Teve muita gente aqui hoje de manhã. Seu corpo vai ser embalsamado porque

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os filhos moram no exterior e vêm para o enterro. Nunca tinha ouvido falar dele? Era o doutor Ângelo Nelson da Costa Brava. Foi embaixador. Um conhecido me disse que era um homem rico, mas de muita simplicidade, e que depois que se aposentou voltou ao Brasil para cuidar de suas terras. É uma pena. Mas é a realidade de um hospital. Heloísa foi tomada pela emoção, mas se conteve. Sabia da gravidade do quadro e de sua irreversibilidade. Pelo menos ele não sofreu, pois morreu dormindo – raciocinou. Realmente, em muitos casos oncológicos o doente sente dores imensas, terebrantes, só minoradas por sedativos potentes como a morfina. Sentiu-se reconfortada por ver que pelo menos essas dores não consumiram o amigo. Apesar disso, foi até o alojamento dos médicos e lá chorou baixinho por uns instantes. Quem se importa em mostrar o que tem é porque esconde o que é. Heloisa aprendeu a admirar o velho fazendeiro Ângelo, humilde e valoroso. Por trás havia uma figura importante, um homem do mundo, um diplomata, que jamais precisou usar sua posição para cativar aqueles que dele se aproximavam. Em nenhum momento, nas conversas com Heloísa, deixou transparecer o seu passado de destaque e nem a sua fortuna presente. O enterro foi bastante concorrido. Somente naquele instante veio a saber que o velho tivera três filhos, todos residentes no exterior. Maria lá estava e reconheceu Heloísa:

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Nos últimos dias ele sempre perguntava por você, gostava de sua companhia – disse a

velha.

Ele era um homem incomum, vou sentir saudades – falou Bela.

A grandeza de alguém está, acima de tudo, na simplicidade e não na ostentação. Ângelo se tornara um exemplo disso. Era um anjo, como o próprio nome dizia.

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Os dias foram se passando e os sentimentos de Heloísa ficando cada vez mais confusos. Mariano tentava, a todo custo, reconquistar a jovem, mas sentia que a queda havia sido grande. Embora Alberto tivesse falado da página da internet, devido à morte de Ângelo sequer estava se lembrando de matar a sua curiosidade. Havia se passado uns dias. Resolveu acessá-la naquela noite. E digitou o endereço fornecido. Segundos depois, apareceu a página principal. O site era discreto. Havia os acessos às salas de ajuda e à área restrita. Para sua surpresa, o primeiro caractere da senha tinha tudo a ver com o lema amigos eletrônicos. Foi só deixar a tecla ALT pressionada enquanto digitava 0230. Apareceu o caractere mestre. Mas como não tinha os demais números da senha, resolveu entrar nas salas de bate-papo. Como Alberto havia dito, as salas eram abertas e divididas por regiões. Pôde, então, Heloísa entender porque tinha tal divisão: eram muitas pessoas conectadas, senão não haveria como conversar direito. Seria um tumulto.

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Foi olhar, então, os temas. Havia vários: Amor; Saudade; Tristeza; Perdas; Saúde; Boa forma; Cultura Popular; Pintura; Poesia; Cinema; Aviação; Tecnologia, e assim por diante. Resolveu pedir ajuda no tema amor. Primeiro lhe pediram para digitar um apelido. Colocou Tâmara. Foi então direcionada a uma nova janela. Foi dado o aviso de que ela estava querendo conversar sobre amor. Dentro de poucos segundos, chegou a notícia:

<Querubim entrou na sala>. Olá, Tâmara. Quer conversar sobre amor? <Tâmara>. Sim. Estou com uma dúvida. Namorei um rapaz durante quase quatro anos e, depois disso, flagrei-o com a minha melhor amiga. Terminamos e depois ele me pediu para voltar. Ficamos uma noite, mas perdi a confiança e o gosto pela relação. Porém não quero perdê- lo.

<Querubim >. Primeiro, qual a sua idade? E depois, o que é que você sente quando está com

ele?

<Tâmara>. Tenho vinte e quatro. Não consegui definir ainda o que estou sentindo. Mas alguma coisa mudou para pior. Quando o beijava antes, sentia algo especial, mas agora não é mais o mesmo. <Querubim >. Talvez você tenha avançado o sinal. Acho que melhor seria esperar mais um pouco. Por que não pede um tempo?

Afinal, estamos ficando, e tenho receio dele arranjar

outra e não conseguir mais voltar. <Querubim >. A vida é feita de riscos. Não dá para conseguir tudo de uma vez. Veja bem, já

<Tâmara>. Não sei se teria coragem

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passei por uma situação parecida e percebi que a melhor escolha foi ter dado um tempo. Se ele está querendo voltar, é porque gosta de você. Ele não iria deixar de gostar assim, de uma hora para outra. Outras pessoas entraram e deram suas opiniões. Mas Querubim foi quem lhe chamou mais a atenção. Houve uma empatia mútua entre os dois. Depois de uns quarenta minutos, Heloísa se despediu. E se dirigiu a Querubim:

<Tâmara>. Obrigado pelo conselho. Já vou. Como se chama? <Querubim >. Eu sou apenas um querubim querendo ajudá-la. Isso é o que importa, tá? <Tâmara>. Tá certo. Tchau. Heloísa gostou. Mas era estranho. Sentiu-se um pouco encabulada em se abrir com uma pessoa que jamais conhecera. Porém, resolveu que aquela tinha sido a primeira experiência no site “Coração do Mundo”. Mas não seria a última. Ligou imediatamente para o celular de Alberto e pegou o seu elo com a finalidade de ter acesso ao conteúdo restrito, também. O que mais a impressionou foi a sinceridade com que as pessoas falavam sobre os problemas e tentavam auxiliar. E era preciso superar suas dificuldades. O que viesse a somar, seria bem vindo.

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Com o passar dos dias, porém, foi voltando a adquirir confiança no jovem. Sequer acessou mais que quatro vezes o site. Contou em casa que estavam apenas conversando, mas o envolvimento já era total com Mariano. Passaram um final de semana juntos em um hotel-fazenda. Desfrutaram da companhia um do outro e se soltaram às emoções. Mariano não podia ser tão ruim quanto ela havia pintado. É que quando estamos magoados, tendemos a transformar os sentimentos. Quanto maior o amor, maior a desilusão. Não podemos ter uma decepção de quem não gostamos. Mas ao mesmo tempo, é preciso saber perdoar. E era isso que Heloísa estava tentando fazer. A viagem de volta transcorreu em harmonia. Dialogaram alegremente durante o percurso, cada um falando dos planos futuros. Finalmente Bela estava disposta a recomeçar com Mariano. Durante a viagem, ele até tinha dito que sairia de casa e essa seria uma boa oportunidade de morarem juntos no apartamento que estava adquirindo:

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– Que tal? Poderíamos fazer um test-drive.

– Nem pensar, Mariano. Dona Raquel iria ter um ataque cardíaco. Mas nada impede que

façamos boas visitas a ele Ao chegarem, beijaram-se e ela entrou rapidamente em casa. Mariano estava apressado porque tinha perdido a hora de fechar o balanço de um dos postos de gasolina. Heloísa contou para a mãe do reatamento. Ela se mostrou receptiva à notícia. Porém, quando já estava para se deitar, ouviu o barulho de um celular tocando. Ao abrir a bolsa, percebeu que Mariano havia esquecido o aparelho celular com ela. Como tinham ido nadar em uma lagoa ainda pela manhã, o telefone tinha lá ficado e, na pressa para ir embora, nem se lembrou de pedir de volta. Ao atender, uma voz feminina foi logo perguntando, chateada: – Mariano, cadê você? Está atrasado mais uma vez. Estou aqui já toda arrumada esperando você. Heloísa desligou, assustada. Não acreditou no que tinha ocorrido. O número chamado era desconhecido. Quem estaria ligando para ele às dez da noite? Certamente não seria nenhuma empregada porque antes diria “doutor Mariano”. O tom com que falou denotava intimidade. O

Resolveu, portanto, ligar para o número que originou a

certo é que a desconhecida o esperava

chamada. Mas eis que antes seu telefone toca. Era Mariano de um dos postos de gasolina. Aflito, lembrou-se de que esquecera o celular em sua bolsa e pediu-lhe que desligasse o aparelho porque iria sair no outro dia cedo e não teria tempo de recarregar a bateria que já estava baixa. Perguntou ainda se alguém havia ligado.

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– Não, meu amor, ninguém ligou – desconversou a jovem.

Teve vontade de explodir. Entretanto, nessa hora, lembrou-se do conselho de Ângelo. Resolveu

testar antes de decidir alguma coisa. Poderia ser só um mal-entendido. Ou mesmo ser uma parente que não conhecia. Ligou para Alberto e pediu um favor:

– Alberto, desculpe-me ligar a essa hora, mas eu preciso de um favor seu.

– Pois diga, Bela.

– Você poderia ligar para um número de celular e perguntar a quem pertence?

– Só isso?

– Só. Mas é muito importante. Se você conseguir mais alguma coisa sobre essa pessoa, melhor ainda.

– Está certo.

Após uns vinte minutos, Heloísa já ansiosa, Alberto dá a resposta.

– O nome dela é Gabriela, mora distante, é comerciária, tem dezenove anos e é de escorpião.

– Como você conseguiu isso tudo?

– Foi fácil. Fingi ser ligação errada e puxei assunto. Até combinamos de nos conhecer –

respondeu Alberto, airoso. Heloísa ferveu. Daquela vez, não haveria mais perdão. Todavia, resolveu aguardar o dia seguinte. Nem saiu do quarto, chateada. Ele ligou logo pela manhã. Agora ela descobrira o porquê. Sentia o peso na consciência e por isso a agradava logo na manhã seguinte. Depois de ouvir seus galanteios, ela lhe pediu para pegá-

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la no hospital após o trabalho, no início da noite.

Como já tinha sofrido muito da primeira vez, o impacto foi muito menor. Sentiu-se usada, é verdade, mas decidira que Mariano não mais estaria em seu futuro. Após o trabalho, como combinado, Mariano a esperava à entrada do hospital. Ela nem entrou no carro e foi logo dizendo, ainda da janela:

– Posso ir dirigindo?

Mariano estranhou. Mas como ela ainda não havia dirigido seu carro novo, prontamente

deixou, passando para o banco do passageiro. Ela abriu a porta do lado do motorista e entrou. Logo que saíram, ela foi dizendo:

– Sabe quem me ligou hoje? Gabriela. Conhece?

O rapaz ficou pálido e engoliu seco. Sem nenhuma convicção respondeu:

– Não

– É uma gatinha, não é mesmo, Mariano?

– Deixe-me lhe explicar

– Pois pode começar agora mesmo.

– Eu a conheci quando terminamos. Ficamos algumas vezes, mas hoje iríamos terminar.

– Mentira. Iam mesmo era para um motel. Foi ela quem me contou – blefou.

– Mas eu iria acabar.

– Nem adianta mais. Espero que seja feliz. Vocês se merecem. Agora nunca mais me procure, nunca mais!

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E, enquanto dirigia, falou a ele da sua falta de sensibilidade. Que a tinha feito sofrer e que mesmo assim ainda teve coragem de continuar enganando-a. Ele só ouviu, apático. Durante esse monólogo, o telefone de Heloísa tocou:

– Alô! Chicão? Está chegando? Eu também, dentro de dez minutos. Pagarei o tempo extra, não se preocupe.

– Para aonde estamos indo, Heloísa?

– Para a beira-mar da praia do Barro Seco – um local que costumavam freqüentar, porque

fora da época de estação ficava praticamente deserto, bom para namorar

uma coisa. Garanto que não vai esquecer, pois tenho certeza de que vai ajudá-lo a saber o que estou sentindo e o quanto sofri. Eu também preciso disso. Mariano não estava em condições de exigir nada. Era até melhor deixá-la desabafar, só assim a raiva dela passaria e talvez até conseguisse contornar a situação. Gabriela era uma relação que mantinha, há alguns meses. Dália não tinha sido a única, mas tão somente a ponta do iceberg. O problema foi que Heloísa a descobriu. Nesse caso, ele realmente se arrependeu, mas não pela traição e sim pela escolha que havia feito. Tinha sido muita ousadia ficar saindo logo com Dália.

– Quero lhe mostrar

Era lógico que alguém, senão ela mesma, iria deflagrar a história. Desconfiava de Dália mesma, até porque, nas semanas anteriores, ela o havia pressionado para largar Heloísa. Ele era do tipo machista. Daqueles homens que queriam a sua mulherzinha em casa guardada para ele e as outras para sua satisfação. Estava fora do seu tempo sem saber, embora não tivesse se apaixonado por nenhuma daquelas que fizeram parte de suas aventuras.

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Em todo caso, sua situação não era nada confortável àquela altura dos acontecimentos.

Preocupava-se com sua imagem porque, desta vez, a revolta de Heloísa poderia ser muito maior. Portanto, o melhor foi fazer o recuo estratégico e esperar para ver o que acontecia.

– Esse carro é muito bom. Você gosta dele? – perguntou Heloísa com uma ponta de malícia.

– Claro, me custou uma nota – respondeu, contrariado.

Ao chegarem no local, subitamente ela acelera e entra em um acesso para bugres da praia típica de veraneio que, em face de não ser estação de férias, encontrava-se deserta – tudo isso em meio aos gritos de Mariano, que se preocupava com seu carro, que não fora concebido para andar naquele tipo de terreno. Já na areia, próximo à arrebentação, pára o veículo.

Você está louca? O carro vai atolar!

E

atolou mesmo.

Heloísa mira os olhos dele e fala, séria:

– Lembra-se de que você disse que uma molhadinha no seu carro não era nada? Como nunca

gostou de mim, resolvi tirar algo de que amasse realmente, seu conversível novinho. Essa é para que saiba que não pode brincar com os sentimentos alheios e o quanto dói perder algo de que se

gosta.

Ele, não acreditando na ousadia da namorada, fica atônito. Nem responde. Apenas os olhos se arregalam e a boca se entreabre.

E Bela arremata:

– São sete e meia da noite – disse, olhando para o relógio. – A maré está subindo

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– ela abriu

O escultor da alma

a porta do veículo e saiu calmamente. Ele, então se deu conta da cilada, saiu contrariado do veículo, vendo as ondas já alcançando

os pneus dianteiros. Foi para o banco do motorista, desesperado, tentando salvar o carrão esportivo. O automóvel estancou porque o motor já estava todo molhado, enquanto a espuma das ondas explodia na grade dianteira. Precisava de socorro urgente.

– O celular, o celular, Heloísa!!! – esbraveja, em estado que beirava o caos. Sem, sequer, olhar para trás, responde:

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