Vous êtes sur la page 1sur 17

PRIMEIRA PARTE

Aspectos Gerais
1 1
O Homem Bion:
Dados Autobiográficos

Os dados da vida de Bion provêm unicamente


de seus registros autobiográficos, que
estão contidos tanto sob uma forma ficcional e
metafórica na sua trilogia Uma Memória do Futuro
(1975-1977-1979) como na publicação,
post-mortem, de um manuscrito autobiográfico
que ele entregou à sua esposa Francesca, com
cartas a ela e a seus filhos. Esse manuscrito íntimo
foi postumamente publicado em dois volumes
e editado por Francesca, que reuniu escritos
esparsos de Bion, aos quais acrescentou fotos,
cartas, pinturas e seus próprios comentários
pessoais. Os dois volumes são: The long weekend
(1982); The other side of the genious: all my
sins remembered. O primeiro volume da autobiografia
de Bion, O longo fim de semana, abarca
até 1919, ano em que foi desmobilizado do exército
(aos 18 anos ele deixou os estudos para
alistar-se no exército e participar da I Guerra
Mundial) e se confrontou com a vida civil, sem
profissão nem qualquer trabalho com o qual pudesse
ganhar o sustento.
A vida de Bion, tal como foi por ele contada
nas obras mencionadas, é cheia de altos e
baixos e vem entremeada de passagens ora pitorescas
e bem-humoradas, ou reflexivas; ora
deprimentes, até mesmo trágicas, porém, sempre
tocantes e emocionantes, que permitiriam
uma descrição longa e rica. No entanto, para o
propósito deste livro, vamos adotar um estilo
simplificado e traçar umas largas pinceladas,
seguindo uma ordem linear e seqüencial.
Bion nasceu na cidade de Muttra, na Índia,
em 1897, filho de um britânico que, na condição
de engenheiro do serviço público inglês,
prestava um serviço de irrigação para o governo
indiano. O nome Bion provém dos
huguenotes franceses protestantes, calvinistas
que colonizaram algumas colônias da
América do Norte, de onde fugiram por serem
perseguidos, encontrando abrigo na Inglaterra.
Bion inicia a sua autobiografia, em The
long week-end, falando de sua mãe:
Minha mãe nos botava um pouco de medo.
Quando menos não fosse, pelo fato de que
ela podia morrer ela era muito velha...
O colo dela era esquisito; quando ela nos
pegava, ficava quentinho, seguro e confortável.
Então, de repente ele ficava frio
e aterrorizador.
Deste trecho, e de tantos outros mais,
pode-se depreender que sua mãe foi uma pessoa
simples, voltada às lides domésticas, e de
temperamento instável, com mudanças súbitas
de humor. Parece ter sido uma pessoa com
fases depressivas, tanto que o menino Wilfred
seguidamente lhe perguntava por que ela estava
tão triste e sofria muito com o sofrimento
24 DAVID E. ZIMERMAN
dela. Em outros trechos, ele descreve a mãe
como uma pessoa fria. Assim escreve Bion
com pesar , quando terminou o período escolar
e se alistou no serviço militar, seus pais ficaram
felizes em reencontrá-lo, porém a mãe
o beijou de forma impessoal, como se ele fosse
um outro rapaz que não o seu filho.
Já o pai é retratado por Bion como uma
pessoa que impunha uma imagem idealizada
dele próprio, ao mesmo tempo que se irritava
profundamente com tudo o que ameaçasse essa
sua imagem ilusória. Wilfred tinha uma relação
conflituosa com o pai: tanto o admirava
muito como recordava de algumas surras; e
conclui dizendo que o pai tinha por princípio
introduzir a sabedoria pelo traseiro .
Tinha uma única irmã, de nome Edna,
nascida pouco tempo depois dele, e com quem
brigava muito.
Bion, em algumas oportunidades, referiu-
se à sua família no sentido genérico como
sendo um conjunto de amalucados .
Ele viveu na Índia até a idade de 7 anos,
acompanhado dos pais e da irmã e sob os cuidados
de uma velha ama indiana a sua querida
Ayah ; esse fato exerceu uma significativa
influência em sua vida e obra, porquanto a
cultura indiana lhe ficou impressa de forma
permanente e construiu uma boa parcela de
sua cultura psicológica inconsciente. Este último
aspecto se manifesta mais claramente durante
os anos 70, quando a sua produção científica
foi gradativamente adquirindo um cunho
de natureza místico-religiosa. Embora Bion
nunca mais tivesse voltado à Índia, ele manteve
indeléveis em sua memória os anos lá passados
e conservou o misticismo oriental e uma
certa veneração por aquele país, de forma tal
que costumava considerar-se como sendo um
anglo-indiano .
Perto dos 8 anos, com a finalidade de fazer
a sua educação escolar na Inglaterra, como
era um costume para os filhos de altos funcionários
britânicos que vivessem no exterior, o
menino Bion mudou-se para lá e morou sozinho
no colégio interno, onde recebia esporádicas
visitas de seus pais. Quando, em sua autobiografia,
Bion alude à sua separação da mãe,
por ocasião do seu internamento no colégio,
ele relata que não chorou, mas observou-a se
afastando, com um chapéu que parecia uma
espécie de bolo flutuando contra a paisagem
verde, e essa imagem ficou fortemente gravada
em sua memória. À noite, ao deitar-se, evocou
aquela cena, cobriu a cabeça com as cobertas
e só então chorou. Bion prossegue dizendo
que o seu único recurso para superar o
sofrimento era chorar silenciosamente, até que,
aos poucos, foi ficando parecido com a mãe,
que não ria e nem chorava .
Em suas confidências, Bion expressa, com
amargura, as marcas que lhe ficaram do rígido
e altamente repressor regime escolar da tradicional
escola pública em que foi matriculado.
Os primeiros anos, especialmente, foram muito
difíceis, porquanto se sentia muito sozinho,
saudoso dos pais e sofrendo uma certa discriminação
por parte dos colegas.
Além disso, embora conhecida como sendo
menos rígida que as demais, sua escola impunha
hábitos como a obrigação de freqüentar
a igreja todos os domingos, vestido com o
uniforme do colégio, com um barrete e um
pompom dependurado. Também aos domingos
havia um obrigatório passeio de cinco quilômetros
a pé, e os retardatários eram punidos
com uma escala crescente de castigos. Da mesma
forma, antes de os alunos poderem dormir,
havia a imposição de que rezassem ajoelhados
ao pé da cama.
O púbere Bion sentia-se atormentado pelos
ditames da religião, que predicava contra a
prática da masturbação, com ameaças de punição
divina, justamente no período em que
ele se masturbava intensamente. Além disso, a
sua escola mantinha uma espécie de rede de
espionagem, cujo alvo principal era a delação
do crime do onanismo.
Bion voltou a recuperar a segurança e a
integrar-se com os colegas quando se tornou
capitão de equipes desportivas de rugby, de
natação e de waterpolo, ao mesmo tempo que
conquistava as primeiras colocações em sua
atividade estudantil.
Aos 17 anos, manifestou uma séria crise
emocional, que descreveu como apresentando
um certo colorido autístico.
Algum tempo após ter saído do colégio,
aos 19 anos, Bion, espontaneamente, ingressou
nas forças armadas, onde se destacou dos
demais companheiros devido às suas qualidades
desportivas e intelectuais. No exército, ele
prestou serviço no batalhão de carros blindados
de combate.
Em certa ocasião, durante a I Grande
Guerra, Bion entrou em plena ação militar, com
a tarefa de, com seus tanques, ajudar a eliminar
os ninhos de metralhadoras inimigas. Nessa
perigosa ação bélica, Bion viu a morte de
perto; porém, ao término dela, acabou consagrado
como herói e foi condecorado no Palácio
de Buckingham com uma das mais prestigiadas
medalhas militares. Igualmente, foi homenageado
pelo aliado governo francês, que
lhe atribuiu a tão dignificante Legião de Honra .
Bion chegou a alcançar a patente de capitão,
porém, ao término da guerra, abandonou
o exército, seguindo para a Universidade de
Oxford, optando pelo setor dos historiadores.
No campo das ciências humanísticas, merecem
ser registradas as seguintes conquistas
de Bion:

Estudou História Moderna, em profundidade.


Obteve Licenciatura em Letras, tendo
conseguido a distinção B. A. (Bachelar
of Arts).
Fez estudos sobre Filosofia, mostrando-
se particularmente interessado em
Kant, que é bastante citado em sua
obra.
Foi um respeitável conhecedor de Teologia.
Tinha conhecimentos de Lingüística e
das línguas grega e latina.
Foi um amante da literatura, sendo
que os seus escritos estão recheados
de citações de Shakespeare.
Desde muito jovem, além de ser bem-
sucedido na prática de esportes, Bion
dedicou-se ao magistério, durante 22
anos, como professor de História e de
Literatura.
Revelou um inegável talento para a
pintura impressionista, tendo legado
alguns quadros a óleo de reconhecida
qualidade artística.
Ao entrar em contato com um livro
de Freud, ficou fascinado e decidiu
BION DA TEORIA À PRÁTICA 25

fazer Medicina e tornar-se psicanalista.

Graduou-se como médico com a idade


de 33 anos, e acabou ganhando
uma medalha de ouro em Cirurgia,
além de outros respeitáveis títulos
honoríficos em Medicina.
Trabalhou com Wilfred Trotter, notável
especialista e grande figura humana,
que também se interessava por psicologia
individual e grupal e escrevera
o livro Instintos de horda na paz e
na guerra. Trotter exerceu uma grande
influência sobre Bion, e é provável
que a leitura desse livro tenha contribuído
para estimular o seu interesse
pela área da psicologia.
Em pouco tempo, lançou-se à prática
da psiquiatria, tendo se empregado na
Tavistock Clinic, onde encontrou uma
maior afinidade com o grupo que se
interessava pela psicanálise.
Após uma experiência psicoterápica de
alguns anos de duração, iniciada quando, ainda
muito jovem, ele sofrera uma profunda decepção
amorosa, Bion começou a sua primeira
análise com Rickmann, um ex-analisando de
Freud e de Klein. Essa análise perdurou de
1937 a 1939, quando foi interrompida pela II
Grande Guerra. Os dois voltaram a se encontrar
e a trabalhar como colegas em atividades
pioneiras de psicologia de grupo, em um trabalho
de readaptação dos militares neuróticos
de guerra, no Hospital Northfield.
Bion ainda trabalhava na Tavistock quando
voltou ao exército, em 1940, em plena vigência
da II Grande Guerra, passando, então,
a dedicar-se à reabilitação dos pilotos da RAF.
Com o término da guerra, Bion voltou a trabalhar
na Tavistock, dedicando-se a grupos compostos
por pessoas que compunham a cúpula
diretiva e detinham funções de poder. Todos
esses trabalhos com grupos foram de grande
relevância para Bion, e suas experiências relativas
a esse período serão detalhadas em capítulo
específico deste livro.
A partir de 1945, com 48 anos, começou
uma segunda análise, dessa vez com Klein
nome que lhe foi sugerido por Rickman , que
26 DAVID E. ZIMERMAN
se prolongou por oito anos, ao mesmo tempo
em que retomou a sua formação, no Instituto
de Psicanálise de Londres.
Nesse período, produziram-se relevantes
mudanças em sua pessoa e em sua vida. Foi
aceito como membro da Sociedade Britânica
de Psicanálise e, desde cedo, foi considerado
pelos seus pares como um brilhante discípulo
de Klein. Em relação a ela, sua analista, mestra
e amiga, Bion transparecia uma certa ambigüidade:
assim como manteve uma eterna
fidelidade e gratidão a ela, em muitas oportunidades
evidenciava críticas e discordâncias,
como denotam estas passagens na tradução de
La otra cara del gênio. Cartas de familia (1999,
p. 54):
Tenho de encontrar uma maneira de dizer
a M. Klein que necessito dormir, e então
aproveitar para escrever! Psicanálise durante
o dia, e psicopolítica durante a noite,
preferentemente em peças com as janelas
fechadas, todos fumando e com fogo
aceso, é mais do que minha constituição
pode suportar. [...] M. Klein é muito exigente.
Suponho que é por ter sofrido tantos
ataques e tão poucas autênticas alegrias
em sua vida, porém o caso é que sempre
sinto que ela me deixa seco; não sei
exatamente como ela faz [...]
O primeiro casamento de Bion foi com
Elisabeth Jardine, uma ex-atriz que também
se dedicava à arte da fotografia e ao estudo de
línguas. Esse casamento terminou em 1945,
com a morte trágica de sua esposa, devido a
complicações com o parto de sua filha,
Partenope, enquanto Bion estava ausente, envolvido
nos compromissos com as forças militares
na Normandia. Em seus escritos autobiográficos,
transparece a dor que ele carregou
pelo resto da vida e o quanto esse acontecimento
influenciou sua pessoa.
Casou-se pela segunda vez, em 1951, com
Francesca, pesquisadora e sua assistente na
Tavistock. Ela era moça, também viúva, e manifestava
talento para a música e para o canto.
Francesca Bion tornou-se uma companheira
dedicada e inseparável até o fim da vida de
Bion, que com ela gerou mais dois filhos: Julian
(atualmente médico anestesista) e Nicola (atualmente
lingüista), nascida quando Bion já tinha
58 anos.
Bion era respeitado pelos colegas e, por
muitos anos, ocupou importantes cargos na
Sociedade Psicanalítica Britânica, tendo exercido
a função de diretor da Clínica da Sociedade
Britânica de Psicanálise, de 1956 a 1962, e
de presidente dessa Sociedade, de 1962 a 1965.
Não obstante, no final da década de 60, mais
precisamente em 1968, apresentava visíveis sinais
de desgaste com a maioria de seus pares,
que de uma forma ou outra lhe temiam e, por
isso, mostravam uma certa indiferença pelo seu
pensamento psicanalítico. O amargor de Bion
em relação a seus colegas está expresso nessa
confidência (1999, p. 174):
Nunca discuto as opiniões de outras pessoas:
1) não te fazem caso; 2) tomam o
que dizes para demonstrar que estás equivocado;
3) se aborrecem muito e não te
perdoam nunca; 4) se apossam de tua idéia
quando escutam de que se trata, ou 3 e 4
de uma só vez.
Provavelmente devido a esse desgaste,
Bion aceitou o convite de um grupo de psicanalistas
da Sociedade Psicanalítica de Los
Angeles para lá se radicar e dedicar-se prioritariamente
à continuação de seus estudos teóricos.
A origem desse convite é que alguns analistas
de Los Angeles, com o propósito de conhecer
a obra de Klein, convidavam alguns dos
seus mais ilustres seguidores. Bion foi o terceiro,
e sua visita despertou tal fascinação que
originou o convite para uma permanência definitiva
em Los Angeles. No entanto, a aceitação
de suas idéias nos Estados Unidos ficou
restrita a um círculo de poucas pessoas interessadas
em Klein, permanecendo praticamente
ignorado pelo restante dos psicanalistas. Um
desses fiéis discípulos foi Grotstein, em cujo
testemunho, publicado na Revista Gradiva (n.
43, Nov-Dez, 1988, p. 10), diz:
Bion foi muito maltratado aqui em Los
Angeles, como todos os kleinianos, porque
Klein foi muito desrespeitada e desconsiderada
devido a Anna Freud, sua enorme
influência em nosso país e também pela influência
da Psicologia do Ego. De qualquer
modo, Bion nunca foi convidado a entrar
para o Instituto de L. A. Susan Isaacs chegou
a se candidatar a membro da Sociedade
Psicanalítica de L. A., mas também foi
recusada. Estes foram períodos realmente
ruins. Meu próprio treinamento analítico
ficou em risco. Eu e mais dois analistas
kleinianos tivemos que ameaçar processálos,
para podermos manter nossas posições,
o que acabamos conseguindo. Foram tempos
ruins. Eles se acalmaram um pouco, mas
Klein não é bem-vinda em nosso país.
Esses conflitos com seus pares, tanto em
Londres como em Los Angeles, estão, como tudo
leva a crer, bem expressados nos seus textos
sobre o místico e o establishment .
Foi justamente na última década de sua
vida que Bion visitou a América Latina. Primeiramente
a Argentina, em 1968, a convite
de Grinberg, tendo realizado uma calorosa programação
científica na Associação Psicanalítica
Argentina, a qual resultou na formação de
um grupo de estudo de psicanalistas liderados
por Grinberg, que estudaram Bion em profundidade,
e cujo fruto mais importante foi a publicação
do consagrado Introdução às idéias de
Bion. Um pouco mais tarde, inicialmente a convite
de Frank Philips, seu ex-analisando e discípulo,
Bion visitou o Brasil em diversas oportunidades:
em 1973 (São Paulo), em 1974 (São
Paulo e Rio de Janeiro), em 1975 (em Brasília,
por incentivo de Virgínia Bicudo) e em 1978
(São Paulo). No Brasil, ele desenvolveu uma
atividade científica tão intensiva e profícua
como altamente controvertida e polemizadora.
Desses debates, gravados e transcritos,
resultaram excelentes livros, conhecidos como
Conferências brasileiras, que hoje são reconhecidos
internacionalmente e ocupam
lugar de alta relevância no acervo psicanalítico
de Bion.
Através de um porte físico de alta estatura,
uma aparência de forte segurança, uma
certa áurea mística, um jeito algo abrutalhado
e com colocações surpreendentes e muito apartadas
da ortodoxia formal, Bion encantou a
muitos e certamente decepcionou a outros tan-
BION DA TEORIA À PRÁTICA 27

tos. No entanto, dentre os que o assistiram, a


ninguém ele foi indiferente ou passou despercebido.
Pelo contrário, sempre gerou frutíferas
polêmicas.
Para caracterizar melhor o seu jeito de
ser e de expor suas idéias, vale recordar com
brevidade algumas passagens ilustrativas que
ocorreram de forma algo pitoresca.
Bion, por exemplo, iniciou uma conferência
dizendo: estou curioso para saber o
que vou dizer esta noite . Poderia parecer uma
brincadeira sua, mas não era; pelo contrário,
ele demonstrava como construía o seu pensamento
de uma forma livre e sem a saturação
de sua mente por conceitos já firmemente estabelecidos.

Assim, em mais de uma ocasião, Bion fez


questão de se posicionar como um cientista
descomprometido com as verdades definitivas
e que, portanto, postulava o seu direito de modificar
os seus prévios pontos de vista e, até
mesmo, o direito de cair em eventuais contradições.

Outra passagem que vale a pena ser mencionada


é aquela em que Bion começa a sua 5a
Conferência em São Paulo (1973, p. 73), segurando
uma xícara na mão e perguntando:
Qual é a interpretação desta xícara que seguro
em minha mão? . Após um silêncio de perplexidade
geral, o público presente passou a
participar ativamente, e daí podemos inferir
algumas particularidades características de
Bion. Assim, em momentos sucessivos, ele assinalou,
entre outros, os seguintes aspectos: 1)
a interação do grupo com ele; 2) os diversos
vértices de cada participante separadamente
(a xícara com o significado de continente; a
sua categorização na grade; as impressões visuais;
uma tentativa de adivinhar o que Bion
tinha em mente, etc.); 3) a formulação de conceitos
como o da intuição; 4) a função da verdade
na determinação de quando as respostas
são verdadeiras ou falsas; e 5) a profunda reflexão,
à guisa de conclusão, que ele lançou no
auditório: vocês são capazes de ver? .
Pode-se dizer que esse jeito questionador
e instigante de Bion data desde sua meninice,
e é ele próprio quem confirma isso na sua 1a
Conferência em Nova Iorque (1992, p. 72-73):
28 DAVID E. ZIMERMAN
Voltando à minha vida privada: quando eu
era pequeno, costumava ser visto pelos
adultos como uma criança ímpar, que estava
sempre fazendo perguntas. Fizeram-
me recitar um poema:
Eu mantenho seis empregados honestos
Que me ensinaram tudo que sei;
Seus nomes são: O que; Por que e Quando
Como, Onde e Quem
Enviei-os para Leste e Oeste,
Enviei-os por terra e mar;

Mas depois de todo este trabalho para mim,


Mandei-os descansar.
Bion esclareceu ao auditório que a frase
final mandei-os descansar deve valer para os
psicanalistas, porque quando estamos no nosso
consultório com um paciente, temos que ter
a ousadia de descansar .
Tudo leva a crer que Bion sentiu-se atraído
e apaixonado pelo Brasil, tanto que teria
confidenciado a alguns dos seus mais íntimos
psicanalistas brasileiros que tencionara fixar
residência em Brasília, o que só não foi concretizado
devido à oposição de sua inseparável
Francesca.
Como já foi referido no Prólogo, os seus
conceitos são muito controvertidos. Alguns deles
são lógicos e de fácil entendimento, enquanto
outros são muito instigantes para que se façam
reflexões, embora sejam, de início, de difícil
assimilação por terem base em paradoxos,
enigmas e linguagem incomum; também aparecem
outras concepções de natureza mística,
que exigem uma disposição muito especial por
parte do leitor.
Tudo isso, somado à sua personalidade
invulgar e imprevisível, justifica por que Bion
deixou diversas imagens no mundo psicanalítico:
para muitos, ele é o terceiro gênio da psicanálise,
completando a galeria com Freud e Klein.
Para outros, em um extremo oposto, ele não
passa de um tautólogo, algo esquizóide e místico,
que não teria feito mais do que revestir com
uma roupagem nova e esquisita os mesmos conceitos
que já estavam bem definidos.
Essa imagem controvertida, aliás, não é
exclusividade do meio psicanalítico brasileiro.
Virgínia Bicudo (Revista Alter, n. 1/2/3. 1980,
p. 161) uma importante e respeitada psicanalista
brasileira conheceu-o pessoalmente e
relata que testemunhou vê-lo
sendo agredido em reuniões da Sociedade
Britânica de Psicanálise. Após a apresentação
de um de seus trabalhos, seguiu-
se uma discussão em termos fortemente
agressivos, na qual ele era qualificado de
esquizofrênico. A reação de Bion foi a de
permanecer calado e somente retomar a
palavra quando um questionamento sobre
as suas idéias era colocado.
É necessário registrar que as pessoas que
o conheceram mais de perto testemunham que
era de muito bom trato e um profundo respeitador
das posições e opiniões divergentes da
sua, embora manifestasse irritação em alguns
momentos.
Particularmente, situo-me entre os que o
consideram como um gênio, tomando essa palavra
no sentido com o qual ele próprio a definiu:
um portador de idéias novas e revolucionárias,
que ameaçam a estabilidade do establishment de
determinadas épocas e culturas .
A propósito disso, vale a pena completar
o perfil biográfico de Bion com uma pequena
história que ele gostava de contar e com
a qual iniciou seu contato com os psicanalistas
brasileiros na abertura da primeira das oito
palestras que proferiu na sua primeira visita
a São Paulo. Trata-se da fábula, disfarçada em
relato histórico, acerca dos funerais do rei da
cidade de Ur e dos profanadores do cemitério
real. Nesse conto, o rei morreu e foi enterrado
juntamente com todos os membros de sua
corte, e com todos os tesouros. Somente 400
anos mais tarde, os túmulos foram saqueados.
Segundo Bion, foi um ato corajoso dos
saqueadores, porque a tumba havia sido santificada
pela morte e pelo enterro do rei. Dessa
maneira, sem considerar a pilhagem em si,
ele diz que os profanadores do santuário devem
ser considerados como os precursores do
método científico, os primeiros que enfrentaram
e ousaram transpassar as fantasmagóricas
sentinelas dos mortos e dos maus espíritos.
Ele utilizou esse modelo como uma forma de
enfatizar aos seus ouvintes o quanto é importante
a coragem do psicanalista em se aprofundar
no santuário do inconsciente, e que
essa experiência emocional deveria ser feita
com algum grau de medo em ambos, no
paciente e no analista.
Como se vê, Bion foi uma personalidade
invulgar, sendo que a originalidade e o alcance
de suas postulações, paradoxos e reflexões
provocaram um profundo impacto nos psicanalistas
e na psicanálise moderna, de sorte que
ele pode ser considerado legitimamente como
um dos inovadores da moderna prática psicanalítica.

No entanto, nem tudo é laudatório em


sua vida, e é o próprio Bion que, em sua autobiografia,
faz questão de se desmistificar e de
expor alguns aspectos de sua intimidade que
provocam no leitor um misto de perplexidade,
respeito e estado de choque. Transcrever todas
essas situações, que são algo chocantes,
implicaria nos alongarmos em demasia; no
entanto, vale a pena reproduzir umas três ou
quatro delas, muito resumidamente.
Bion relata ter atravessado uma séria crise
emocional em sua adolescência, refugiando-
se em uma espécie de autismo e recorrendo
a uma masturbação intensiva. Ele também
surpreende o leitor quando confessa que a
medalha D. S. O. (Distinguished Service Order)
que recebeu do governo britânico, como herói
da I Guerra, lhe teria sido imerecidamente outorgada,
pois o seu ato de bravura não teria
sido mais do que um erro na condução do seu
tanque blindado, erro este que acabou dando
certo e que possibilitou a salvação da vida dele
e dos seus companheiros. Além disso, continua
Bion, teria feito um uso indevido dessa
medalha, para conferir vantagens pessoais, daí
decorrendo um sentimento de culpa e de vergonha.
Ademais, ele nunca se perdoou por ter
participado dos horrores da guerra e, pior ainda,
intimamente assumiu a responsabilidade
pela morte de um amigo que, por tentar imitar
o seu heroísmo, acabou sendo uma presa fácil
para a força alemã inimiga. Por tudo isso, ele
desqualificou a medalha D. S. O. e a rotulou
como sendo sua marca da vergonha .
BION DA TEORIA À PRÁTICA 29

Antes de ser desmobilizado, com a patente


de capitão, Bion já divulgava algumas de
suas originais observações sobre as mudanças
sociais, nos homens e nas idéias, ao finalizar o
horror da grande guerra.
Um outro trecho impactante é aquele em
que ele relata a morte de sua esposa, Betty,
não se perdoando por não ter estado presente
nem no nascimento da filha nem na morte da
esposa. Especialmente comovedor, nesse implacável
desnudamento de Bion, é o trecho em que
ele admite as terríveis dificuldades de aproximação
com essa filha; em certa passagem contida
no último capítulo da primeira parte do
segundo volume, ele chega a confessar que a
meninazinha se arrastava em sua direção à espera
de colo, enquanto ele se mantinha impassível,
imobilizado. O nome dela, Partenope
recentemente falecida num trágico acidente de
automóvel , foi escolhido por Bion e, em grego,
alude à figura mítica de uma das Sereias,
meio mulher e meio pássaro, que gostava de
música. Ela trabalhou como psicanalista na Itália,
onde se casou com um músico italiano. Foi
particularmente emocionante para mim quando,
ao estudar o maior número possível de textos
acerca de Bion, me deparei com um artigo
de Partenope Bion Talamo na Rivista di Psicanalisi
(1987, p. 133-135), no qual ela defendia o
pai a respeito de uma crítica de Meltzer referente
ao processo da interação oscilatória entre
a posição esquizoparanóide e a depressiva
formulada por Bion, crítica esta que ela julgava
improcedente.
Nos últimos anos, já alquebrado pela velhice,
Bion sofreu uma fratura no fêmur. Quanto
mais pressentia o término de sua vida, mais
foi se tornando um místico em busca da realidade
última , e os seus escritos, muito centrados
nos problemas relativos ao tempo e à morte,
foram adquirindo um estilo que lembra a
linguagem esquizóide, embora preservem o
mesmo fascinante desafio de sempre. Aliás, essa
preocupação com a relação inexorável que há
entre a passagem do tempo e a morte pode ser
depreendida pelos simples títulos de sua trilogia
ficcional: Uma memória do futuro: O sonho, O
passado apresentado, A aurora do esquecimento.
30 DAVID E. ZIMERMAN
É interessante registrar que seu primeiro
artigo foi publicado em 1940 com o título de
A guerra dos nervos , enquanto o seu último
trabalho publicado enquanto vivo Como tornar
proveitoso um mau negócio encerra com
a frase essa guerra ainda não terminou .
Em novembro de 1979, em meio a uma
viagem de saudosismo à Inglaterra, da qual
estava afastado há 11 anos, Bion veio a falecer
após algumas poucas semanas de evolução de
uma leucemia mielóide aguda, na cidade de
Oxford, aos 82 anos de idade.