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O FIM DO TRABALHO, UM MITO DESMOBILIZADOR

Publicado no CEPAT Informa nº 44/1998
O sociólogo Robert Castel, diretor de estudos do Centro de Movimentos Sociais na Escola de Altos
Estudos Sociais de Paris, é autor do livro As Metamorfoses da Questão Social. Uma crônica do
salário, Ed. Vozes, 1998.
Ele se posiciona contra os que diagnosticam o fim do trabalho e mostra como este constitui sempre o
modo dominante de inserção social. Segundo ele, é no quadro da renovação da sociedade salarial que
se deve pensar a luta atual contra o desemprego e a precarização.
O presente texto está sendo publicado num livro coletivo, Le Monde du Travail
e no Le Monde Diplomatique de setembro de 1998, p.24-25.
Os subtítulos são nossos.
Interrogar-se sobre a centralidade do trabalho, é, em grande parte, fazer um diagnóstico sobre a
mudança e o futuro da sociedade salarial. Pois é neste tipo de formação social que o trabalho, sob a
forma de emprego, tem ocupado uma posição hegemônica. Não somente porque o emprego
assalariado era largamente majoritário, Mas também porque ele era a matriz de uma condição social
estável que associava ao trabalho as garantias e os direitos.
Sociedade Salarial
Pudemos falar de "sociedade salarial" a partir do momento em que as prerrogativas prioritariamente
relacionadas com o trabalho salarial protegiam contra os principais riscos sociais, não somente os
trabalhadores e suas famílias, mas também os não-assalariados e a quase totalidade dos não ativos.
Este era o núcleo do "compromisso social" que culmina no começo dos anos 70, num certo equilíbrio,
certamente conflitual e frágil, entre o econômico e o social, isto é, entre o respeito das condições
necessárias para produzir as riquezas e a exigência de proteger aqueles que as produzem.
Que é feito disso, hoje? Todos estamos de acordo na constatação que assistimos, depois de vinte anos,
à degradação deste tipo de regulação. Mas qual é a amplidão desta degradação? Podemos afirmar,
como se tornou moda, que nós estamos quase "saindo" da sociedade salarial? (1)
Nestes últimos anos podemos e devemos falar de uma desagregação da sociedade salarial. Mas a
estrutura deste tipo de sociedade se mantém (ou se mantinha) enquanto que seu sistema de regulações
se fragiliza. Trata-se de uma conseqüência maior da prioridade que começa ser dada, a partir do
começo dos anos 70, aos imperativos da rentabilidade econômica e à apologia da empresa pensada
como a única fonte da riqueza social. Os direitos e a proteção do trabalho são, desde então, percebidos
como obstáculos ao imperativo categórico da competitividade.
Sociedade Salarial desestabilizada
A primeira conseqüência destas orientações não consiste, no entanto, no desmantelamento da
sociedade salarial. Pois a desagregação da sociedade salarial se caracteriza pelo aparecimento de
novos riscos tornando a relação de trabalho aleatória. Seguramente, o primeiro risco é o desemprego.
Mas há outros riscos que provêm da proliferação de contratos de trabalho "atípicos": de duração
limitada, de tempo parcial, interinos etc. O desemprego de massa e a precarização das relações de
trabalho que se agravam no decorrer da década seguinte, são as duas grandes manifestações de uma
desestabilização profunda das regulações da sociedade salarial.
É necessário, portanto, atualizar, hoje, esta avaliação, e talvez revisá-la. Duas características, pelo
menos, parecem atestar um agravamento da situação. Com a mundialização das trocas, está claro que a
hegemonia crescente do capital financeiro internacional ataque frontalmente os regimes de proteção do
trabalho construídos no quadro dos Estados-nação. Paralelamente, as mudanças tecnológicas em curso
parecem questionar a própria natureza da relação salarial. No limite, a figura do prestador de serviços
que negocia ele mesmo, com todos os riscos e perigos, suas condições de emprego, substitui aquela do
trabalhador assalariado inscrito em sistemas de regulação coletiva.

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Sobre esta discussão cf. CEPAT Informa no. 36/1998, p. 16-22.

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ameaçados de desemprego . mantendo-nos aos fatos e às cifras. Mas o custo disto não permite que se faça disso um modelo de um destino que desejaríamos partilhar com todos e que anteciparia um futuro melhor. e com justiça. na França. uma disposição constante e. enquanto que muitos empregos de tempo pleno são destruídos. Fazem biscate e alguns bicos daqui e acolá. ela é o contrário de um distanciar-se do trabalho. Os defensores destas posições juntam duas séries de afirmações que dão curto-circuito: a constatação. Outros. Procura desesperada pelo Trabalho Quanto à ausência de trabalho experimentado sob a forma de desemprego. Quanto ao investimento no trabalho. que na melhor das hipóteses é problemática e na pior das hipóteses é desesperadora". é verdade. que deveria ser contado já entre os lucros e as perdas da história.2% em um ano. justa. muitas vezes. Conseqüência prática e política: é tempo de se desfazer desta referência portadora de nostalgias passadas para começar a construir outros suportes de reconhecimento e de coesão sociais. que se tem ou que não se tem. mas – e esta transformação é decisiva – que aumentou enormemente o número de assalariados precários. em primeiro lugar. Esta formação social não teria sido mais do que um parênteses de algumas décadas. se refere ao livro Horror Econômico de V. O diagnóstico da desagregação da sociedade salarial teria que ser substituído pela constatação do seu desabamento. Basta escutar os desempregados cuja existência inteira é desestabilizada pela perda de um emprego. que continua a se jogar o destino da grande maioria de nossos contemporâneos. O desemprego não suprimiu as horas extraordinárias. A maioria. A proporção dos assalariados na população ativa é exatamente a mesma (86%) que na metade dos anos 70. representa. Mas é sempre sobre o trabalho. do ponto de vista quantitativo. Temos denunciado. Certamente. 2 Aqui o autor. e. Curioso "fim do assalariamento"! Igualmente é uma aventura afirmar que o tempo de trabalho e o investimento no trabalho têm substancialmente diminuído desde a "crise". 2 . 1997. de tempo parcial. no limite. especialmente entre os jovens que nunca chegaram a ter um emprego. Mas as situações de sobre-trabalho parecem se multiplicar. os empregos novos correspondem. que as relações de trabalho e as relações com o trabalho são cada vez mais problemáticas. portanto. falsa. uma conversão total à empresa.000 assalariados a mais que em 1997.Horror Econômico: discurso catastrofista Estas constatações alimentam desde algum tempo os discursos catastrofistas sobre o "horror econômico"2 e o fim do "trabalho assalariado". as formas novas de emprego exigem muitas vezes uma mobilização maior dos trabalhadores que a relação salarial clássica. Forrester. Melhor: em 1998. sobretudo os que já trabalharam. procuram desesperadamente um trabalho. ou mesmo de fim do assalariado. A "grande transformação" que aconteceu nos últimos vinte anos. ou seja. publicado pela Ed. um aumento de 1. e a extrapolação. com tantos assalariados quanto hoje. o trabalho assalariado. que é precário ou seguro. o trabalho. Unesp. O discurso empresarial moderno exige outra coisa e fortemente. Falar da perda da centralidade do trabalho repousa sobre uma enorme confusão que assimila o fato de que o emprego perdeu a sua consistência com o julgamento de valor de que ele perdeu importância. 86% de Assalariados na França Primeiramente. podendo acontecer que algumas vezes inovem. que a importância do trabalho se esfacela inelutavelmente. Fim do Assalariado? É uma contra-verdade. certamente. a "alienação" do trabalhador na relação salarial de tipo taylorista. uma pura contra-verdade. continua a ocupar o lugar central na estrutura social francesa. Falar de desaparecimento. um "emprego de verdade". não é que há menos assalariados. O medo ser demitido acentua ainda mais este tipo de sobredeterminação da relação com o trabalho. Sofrimento em relação ao trabalho e angústia de perder seu emprego são dois componentes atuais importantes da relação com o trabalho". Mas aqui há uma precipitação. mostra que a importância do trabalho é tanto maior quanto mais ele falta. Nunca se contou. A vida dos que "procuram um emprego. às ocupações frágeis. buscam "outra coisa". A relação com o trabalho também foi profundamente afetada. havia no setor privado 155.

mas numa sociedade tornada mercado de cima abaixo. Vemos a multiplicação de formas degradadas de emprego e também a emergência de iniciativas muito interessantes no setor não mercantil ou à margem do mercado. inteiramente atravessada pelas exigências a-sociais do mercado. hoje. cruelmente. e isto por uma razão decisiva: a importância fundamental do mercado e o problema crucial que coloca a sua crescente hegemonia do ponto de vista da coesão social. então. se refugiam no futuro porque elas não esperam mais nada do presente. não vemos o que a poderia substituir na sua globalidade enquanto solução credível capaz de suportar os sistemas de regulação coletivos capazes de afrontar a desregulação imposta pelo mercado. o "sol de um mundo sem sol". Ela é inseparável do surgimento de uma sociedade de indivíduos e. A questão de fundo. Face a este cenário do pior. do trabalho a frente principal das lutas para promover amanhã um futuro melhor? A renúncia de fazer do trabalho um desafio estratégico representa um grave erro. que não estejam inscritas num regime geral de emprego? Não falta o discurso sobre a cidadania social. É possível construir ou reconstruir regulações coletivas não fundadas sobre uma organização coletiva do trabalho. espécie de reservas protegidas do mercado. renunciar de buscar articular esta cidadania com o trabalho. como o FMI e o Banco Mundial. sua hegemonia se impõe à medida do enfraquecimento das regulações do trabalho. A história social mostra com muitas evidências que foram as regulações sociais construídas a partir do trabalho que promoveram esta domesticação relativa do mercado cujo ápice foi o compromisso da sociedade salarial. Pelo contrário. que deixa o mundo como está. mas fazem. Mas o mercado não cria laço social e ele destrói as formas préindustriais de solidariedade. da utopia libertadora e da fixação sobre as constrições obsoletas e compreender que existem dois tipos de utopias. a hegemonia do mercado ameaça o laço social de maneira geral. torna-se a seguinte: é preciso ou não renunciar a fazer. ocupam cada vez mais o lugar das instituições jurídico-políticas dos Estados-nações. Ora. Ora não se pode pensar um futuro da civilização sem a presença do mercado. Mas não podemos relativizar a importância do mercado. Por isso. Pretender que as regulações do trabalho representem ainda a principal garantia da coesão social expõeme à crítica de permanecer cego às virtualidades esperançosas de um futuro livre das constrições que dominam a "civilização do trabalho". para viverem positivamente a modernidade continuando a "fazer sociedade" foram desafiados a aceitar o mercado procurando domesticá-lo. destruindo as relações coletivas de solidariedade. A utopia arrisca tornar-se.A Hegemonia do Mercado É em relação com um diagnóstico deste tipo que é preciso se confrontar. Podemos ser tentados a relativizar a importância do trabalho. Mas elas riscam constituir-se de caso isolados fora do mercado. Mas é preciso recusar esta oposição entre o futuro e o passado. Algumas utopias. Sociedade toda ela Mercado Abandonar a frente do trabalho é se arriscar a renunciar à possibilidade de regular o mercado e se encontrar não mais numa sociedade de mercado (onde nós estamos desde muito tempo). Isto explica porque os homens. é se arriscar de deixar o certo pelo incerto. por um lado. em vez de imaginar ou sonhar de qual será o lugar e natureza do trabalho em dez ou vinte anos. 3 . vemos que a relação salarial clássica está profundamente abalada. O Mercado não cria Laço Social A promoção do mercado é contemporânea da promoção da modernidade a partir do século 18. então. é necessário ousar dizer. para que ao menos se mantenha uma definição um pouco mais exigente da cidadania. mas sem influência sobre ele. como aquela do fim do trabalho. Isto se deu recusando a anarquia do liberalismo e a regressão às formas pré-modernas de Gemeinschaft (comunidade). quais são os possíveis suportes para domesticar o mercado? O certo e o incerto A extrema dificuldade da conjuntura é que se. faltam as práticas que lhe dêem um conteúdo real. no momento da saída de uma sociedade "holista" dominada por relações de dependência entre os homens. que ela teve uma função progressiva. É o que se observa todos os dias: as instituições do capitalismo financeiro internacional. pois seria necessário ser profeta para o saber.

Trata-se de atualizar o direito do trabalho para que a necessidade de aceitar uma maior flexibilidade dos empregos não seja pagada com uma maior precariedade. Enunciar estes imperativos é suficiente para ver que eles não se colocam na perspectiva da conservação do passado ou da gestão do existente. o presente é nosso único ponto de apoio para a nossa ação. Mas o futuro guarda uma margem de imprevisibilidade e o pior não é o que certamente acontecerá. a "utopia" daqueles que não se pretendem dobrar aos ditames dos fatos. de outra forma do que por meio do desemprego.Entretanto. inclusive dos novos riscos que são o risco-precariedade e o risco-desemprego etc. E se é verdade que o trabalho é sempre a casa que determina a configuração da existência social da maior parte de nossos contemporâneos. consolidar uma cobertura universal dos riscos sociais. 4 . Atualizar o Direito do Trabalho Não se trata de algo insignificante. É necessário antes temer que eles são muito ambiciosos se temos em conta o poder das estratégias de desregulamentação implementadas pelo capitalismo financeiro internacional. a exigência de combater a degradação do seu regime permanece o principal imperativo político. promover uma redução substancial dos tempos de trabalho afim de redistribuir o trabalho e a proteção social a ele relacionado. Daí que estas orientações são canteiros abertos aos quais podem se associar todos aqueles que diagnosticam que nossa sociedade está doente de trabalho. o melhor remédio não é prematuramente fazer o seu enterro.

9-12. seja na zona cinza da esfera individual ou familiar seja na zona negra onde predominam máfias e tráficos criminosos. 2. a generalização das relações monetárias e mercantis implica para cada um a obtenção de uma renda monetária. O trabalho permanece. que é trabalhada. no seu último livro Le Basculement du Monde. p. 1. nas engrenagens em que estão presos. inserção ou exclusão. não somente destruição. Toda mudança econômica significa. No CEPAT Informa no. o crescimento multiforme das necessidades renova sem cessar e reforça a submissão dos homens e das sociedades à economia. que engendra novas atividades e novos empregos. 1997. Nada permite entrever o fim do trabalho. Ed. ao contrário. mas também criação de empregos. Os países. Primeiramente. heterogênea e em movimento do capitalismo nacional/mundial. o fim do trabalho. Brasiliense. precisam da mobilização de milhares e milhares de trabalhadores. enquanto prossegue a multiplicação dos perigos e das necessidades num mundo mais e mais complexo. se modernizando. mais ainda para "subsistir". mas muitos aceitarão sacrificar uma grande parte de suas vidas para alcançar melhores condições de vida. acentuam a centralidade da necessidade econômica. páginas 212-224. longe de serem libertadores. é autor de inúmeros livros. nenhum país rico é capaz de assegurar ao conjunto (ou a uma grande parte) da sua população uma renda monetária ou uma renda garantida à altura das aspirações de consumo. La Découverte. Pois nossas sociedades são hoje integradas na maquinaria econômica. professor na Universidade de Paris-VII.1987.O INACESSÍVEL FIM DO TRABALHO CEPAT Informa nº 44/1998 Michel Beaud. salvo para os países que se resignam ao declínio. O próprio autor descreve o título dizendo que se trata do movimento pelo qual o mundo passa de um estado para outro). se industrializando. Enquanto se amplia o império da mercadoria e do dinheiro. enquanto nada é feito para limitar a destruição dos recursos essenciais e das produções não mercantis. (Basculer em francês significa passar bruscamente. Paris. uma componente maior das nossas sociedades. 3. ainda durante décadas e provavelmente gerações. a principal fonte de recurso. a emergência de novas tecnologias foi sempre acompanhada de uma acentuação da divisão do trabalho. ainda por longo tempo. os continentes que estão para emergir no campo da economia. (Hannah Arendt pressentia o risco de um "retorno da necessidade no seu nível mais elementar". entre os quais História do Capitalismo. curvar toda a 5 . com o paradoxo "de que a emancipação do trabalho na época moderna não somente fracassou em instaurar uma era da liberdade universal. desemprego. há três razões determinantes para que o trabalho permaneça. mas chega. Aqui sintetizamos a sua posição sobre a questão do fim da sociedade salarial. O Império da Mercadoria Num mundo onde a compra de mercadorias se tornou a maneira principal de responder à cada necessidade e onde o poder de compra monetário é a condição não somente para "viver" mas. Ora. opulência e pobreza. A maior parte destes trabalhadores não terão escolha. A imensa massa atual de necessidades não mercantilizáveis não satisfeitas e o incessante crescimento de todas as categorias de necessidades interdizem. Os homens e as sociedades conservam as margens de manobra e as possibilidades de escolha. Da mesma forma. Ao contrário. a maior parte das mudanças que fazem recuar as necessidades de trabalhar. há um grande perigo em apostar na utopia do fim do trabalho. publicamos as pistas de ação que o autor propõe para a construção de um projeto alternativo. E. 40/1998. existem os setores "informais" que se desenvolve. se os empregos oferecidos nos setores oficialmente patenteados não são suficientes para acolher todos aqueles que querem emprego. é nesta maquinaria que se criam e se distribuem os empregos e a renda. necessidades. Ed. mas. portanto.

grupos. porque o mundo em que vivemos é um mundo duro e que vai ainda mais se endurecer. mas muito a perder. não há nada a ganhar. Caminhando pela via atual. caminhamos para um mundo e sociedades profundamente fraturadas. deixando tempo para outra ordem de atividade. Rio de Janeiro. Forense Universitária. mas também do trabalho. Para eles. e. Como Desintoxicar os que vivem para Consumir? É falso. é a generalização do império da mercadoria. a renúncia a um certo número de necessidades supérfluas. Apartheid ou Mundo mais Humano No entanto. não somente moderar nossas necessidades. mais do que um revelador. das relações de dinheiro e da lógica do lucro. a bifurcação existe. com as dinâmicas de desigualdade e da criação de necessidades para os detentores do poder de compra. Mas. A Condição Humana. do dinheiro e do capitalismo que está na origem da nova necessidade econômica. do desemprego. como perspectiva última. menos desigual. aqui. se ele existe. 6 .) Fim do Trabalho?!? Para falar seriamente do fim do trabalho. muito vigorosamente sua multiplicação. sociedades) que vivem para consumir (em vez de consumir para viver). Este caminho. isto implica uma forte redução das desigualdades. parar com a proliferação das necessidades.humanidade pela primeira vez sob o jugo da necessidade"3. não dominado pelo dinheiro e a mercadoria: o tempo consagrado ao trabalho reduzido. O outro caminho é aquele de um mundo mais humano. Supondo que sejamos capaz de o abrir e que nele queiramos seguir. pensar que o caminho de uma sociedade onde o tempo consagrado ao trabalho fosse fortemente reduzido para deixar mais lugar ao tempo de viver é um caminho de rosas. este caminho implicará muitas décadas de sacrifícios e de desintoxicação para aqueles (indivíduos. e que seria necessário se engajar num processo durável de redução das desigualdades sobre uma base que assegure a satisfação das necessidades fundamentais: o que implica se desengajar da empresa quase total da mercadoria. portanto menos agressivo e menos violento. Mas ele oferecerá. as destruições e a degradação dos recursos e a multiplicação das ameaças e os perigos ligados à fuga para frente da sociedade tecno-industrial. não é suficiente dizer que com os meios técnicos disponíveis está ao alcance de nossas mãos a abundância sob a base de uma frágil duração do trabalho. Percebe-se a amplidão do que está em causa quando se discutem tais escolhas. mas cortar. do bem-estar e da segurança. ao se engajar em tal caminho. será difícil. repetimos. Além disso. com a perspectiva última de um novo apartheid. da exclusão. cessar com o desperdício . As classes ricas e muito ricas se beneficiam da abundância fundada sobre a partilha desigual dos recursos. como primeira perspectiva. 5ª ed. 3 O autor se refere à importante obra de Hannah Arendt. portanto. Segundo nós.1991. Convinha também dizer que é necessário. ele será árduo. a emancipação do trabalho não é. as chances de aceder a um novo desabrochar dos homens e da Humanidade. Dividendos certamente bem longínquos para os poderes míopes e indecisos colocados diante de decisões difíceis para tomar. um mundo menos fraturado.