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MUHAMMAD YUNUS
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The Economist

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EDITORIAL PRESENCA

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Muhammad Yunus nasceu em Chittagong,
no Bangladeche. Estudou na Universidade de
Dhaka e recebeu uma bolsa Fulbright para
estudar Economia na Universidade de Vanderbilt. Tornou-se director do Departamento de
Econom ia da Universidade de Chittagong em
1 972. É o precursor do microcrédito a populações muito pobres e de muitos outros projectos de combate à pobreza e à fome. Yunus
recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2006.

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I :

MUHAMMAD YUNUS

I
A NOVA DIMENSÃO DO CAPITALISMO PARA FAZER FACE
ÀS NECESSIDADES MAIS PREMENTES DA HUMANIDADE

Tradução de Ana Saldanha

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........ 0 326 200/11 Capítulo 8 I Vislumbres do futuro 202 Capítulo 9 I O fim da pobreza 224 Arter Gráficas... presenca......................... 9 Capítulo 1 I Porquê a empresa social? ........pt Internet: http://www............. Lisboa..... 59 Queluz de Baixo 2730-132 Barcarena E-mail: info@presenca............................ Reservados todos os direitos para Portugal à EDITORIAL PRESENÇA Estrada das Palmeiras.... 29 Capítulo 2 I Os problemas do crescimento .... ..... 2011 Tradução: Ana Saldanha ' Revisão técnica: Eng.....The New Kind of Capitalism that Serves Humanitys Most Pressing Needs Autor: Muhammad Yunus Copyright © 2010 by Muhammad Yunus Tradução © Editorial Presença......... o Carlos Braga Capa: Vera Espinha I Editm·ial Presença Composição........... 61 Capítulo 3 I A criação de uma empresa social ... Lda....... 140 Capítulo 6 I A Grameen Veolia Water FICHA TÉCNICA 163 Capítulo 7 I Criar uma infra-estrutura global para a empresa social ... 182 Título original: Building Social Business. impressão e acabamento: Multitipo 1.• edição. Maio... ... 2011 Depósito legal n. 86 Capítulo 4 I Curar uma criança ..... ... ........ Lisboa........................ 124 Capítulo 5 I Enquadramento legal e financeiro da empresa social ........A todos aqueles que estão dispostos a dedicar-se a mudar o mundo ÍNDICE INTRODUÇÃO I A Empresa Social ..do sonho à realidade ..............pt 7 ......

Mas. no meu caso. consiste em criar e concretizar uma ideia para uma nova forma de capitalismo e um novo tipo de empreendimento baseado na abnegação das pessoas. encontrava-se numa situação terríveL As consequências da Guerra de Libertação . Desisti da minha carreira académica e fundei um banco. O estádio mais recente dessa jornada. Em situações de catástrofe.com a destruição causada pelo Exército paquistanês-. secas e monções. e depois pessoalmente. É uma experiência comum. como explicarei neste livro.a fome. a ignorância. além de professor. Envolvi-me. a doença. criaram uma situação desesperada para milhões de pessoas. No início da década de 1970. envolvi-me no problema da pobreza em termos académicos. a maioria das pessoas assume sem hesitação os papéis sociais que a compaixão humana impõe. económicos e ambientais que há muito atormentam a humanidade . o Bangladeche.INTRODUÇÃO A Empresa Social - do sonho à realidade Um minúsculo passo inicial Inicialmente. Foi o primeiro passo numa jornada que continua até hoje. um país recém-independente. a fome de 1974 empurrou-me para fora do campus universitário e obrigou-me a tornar-me activista social. o que começou num período de crise tornou-se uma vocação para toda a vida. claro. Eu sentia uma dificuldade crescente em ensi- 9 . porque a pobreza estava à minha volta por todo o Bangladeche.um banco para os pobres. a que chamo empresa sociaL É um tipo de empresa dedicada à resolução de problemas sociais. quase por acaso. a falta de habitação. a poluição. combinadas com inundações. Depois veio a fome. Em particular.

a localidade vizinha da Universidade de Chittagong. «banco da aldeia». Ofereci-me para ser fiador de empréstimos aos pobres. A primeira coisa que fiz foi tentar persuadir o banco do campus universitário a emprestar dinheiro aos pobres. emprestar dinheiro aos pobres não era tão difícil como geralmente se imaginava. 11 . Mas o gerente bancário recusou. Para avaliar a dimensão de~ta prática de empréstimos na povoação. Mas não. Mas o pior era a condição especial imposta com o empréstimo: a mulher teria de vender todos os seus produtos ao prestamista a um preço determinado por ele. Parecia absurdo que urna quantia tão pequena pudesse causar tanto infortúnio! Para libertar essas quarenta e duas pessoas das garras dos prestamistas. afinal. e de alguma forma encontrar maneira de a ajudar.chegava a atingir os 10 por cento por semana.ou seja. Parecia-me que. com o qual fabricava bancos que em seguida vendia. assinando todos os papéis que o banco me pedia para avalizar pessoalmente os empréstimos e desempenhar o papel de urna espécie de banqueiro informaL Como eu queria assegurar-me de que os contraentes de empréstimos não se deparariam com dificuldades para dirimir a sua dívida. fiquei a saber muitas coisas sobre Jobra. Finalmente. Ela precisava desta pequena quantia para comprar bambu.não são credores viáveis. meti a mão ao bolso e dei-lhes o dinheiro para pagarem o empréstimo. A taxa de juros desses empréstimos era muito elevada. Essas pessoas tinham pedido emprestado um total de 856 takas. apercebi-me da vacuidade dos conceitos económicos tradicionais em face de uma situação de fome e de pobreza avassaladoras.nar elegantes teorias económicas na sala de aulas enquanto urna terrível fome grassava lá fora. Em meados de 1976. decidi criar um banco autónomo para os pobres. na língua bengali.o equivalente a mais ou menos 27 dólares americanos à taxa de câmbio da época. Pensei: «Se este pequeno gesto fez tantas pessoas felizes. Ao tentar descobrir o que poderia fazer para ajudar. ela e a sua família jamais conseguiriam escapar à pobreza. A lista completa tinha quarenta e dois nomes. Mas. Foi um processo longo e árduo. porque não repeti-lo mais vezes?» 10 É o que tenho tentado fazer desde essa altura. Actualmente. Este processo desenrolou-se ao longo de meses. tais como a dívida ser paga em pequenas prestações mensais e o funcionário bancário visitar as pessoas em vez de elas serem obrigadas a deslocarem-se ao banco. Chocou-me particularmente o caso de uma mulher que conheci. A excitação causada na localidade por este pequeno acto tocou-me profundamente. Chamámos-lhe Banco Grameen . o Banco Grameen é uma instituição bancária a nível nacional ao serviço dos pobres em todos os povoados do Bangladeche. Aquele empréstimo de cinco takas transformou-a virtualmente numa escrava. Testemunhei os esforços dos pobres para arranjarem quantias irrisórias. Seria de esperar que um banqueiro esperto fosse capaz de reconhecer esta oportunidade mais rapidamente do que um mero professor de Economia sem qualquer experiência da banca. Por mais que trabalhasse. surgiu-me urna ideia. comecei a distribuir empréstimos aos pobres da povoação. Avistei-me com altos funcionários bancários a vários níveis para tentar encontrar alguém disposto a abrir as portas do seu banco aos pobres. Eu continuava a confrontar-me com dificuldades ao tentar expandir o programa de empréstimos através dos bancos existentes. Compreendi que tinha de estar com a população vitimizada de ]obra. necessárias para subsidiar as suas tentativas de ganhar a vida. que tinha pedido um empréstimo de cinco takas (o equivalente a sete cêntimos em divisa americana) a um prestamista e negociante. o banco aceitou esta minha proposta. Finalmente. sobre as pessoas que lá viviam e sobre a sua impotência perante a adversidade. Parecia-me até que servir as suas necessidades financeiras poderia ser um negócio viável. Após muitas hesitações. consegui criar um novo banco. instituí regras simples. Disse: «Os pobres não satisfazem os critérios necessários para terem acesso ao crédito .» Argumentei com ele. As pessoas pagavam sempre as suas dívidas dentro dos prazos estipulados. mas sem qualquer resultado. Subitamente. O que eu tinha a esperança de conseguir era apenas ser capaz de me tornar útil a pelo menos urna pessoa por dia. constatando que não havia outra opção. um banco ao serviço dos pobres. com o apoio do então ministro das Finanças do Bangladeche. elaborei uma lista com o nome das pessoas que tinham contraído empréstimo com os prestamistas. Estas ideias resultaram. mas não fui capaz de fazer com que mudassem de opinião.

Compreendemos que emprestar dinheiro às mulheres dos povoados pobres do Bangladeche era uma maneira eficaz de combater a pobreza em toda a sociedade. são mães solteiras a esforçarem-se por ganhar a vida com dignidade.não a dependência. institutos de engenharia e universidades com o apoio do financiamento do Banco Grameen. 12 O Banco Grameen também apoia os filhos dos seus clientes nos estudos. elegem nove dos treze membros do conselho de administração. em 2008. em vez de dependerem apenas da caridade dos outros. É propriedade dos seus clientes. Mas. por isso. Mas o trabalho do Banco Grameen no Bangladeche acabou por ser apenas o início. com a experiência. para providenciar pequenos empréstimos sem garantia (em média. utensílios domésticos. combinado com a prática da mendicidade. Constatámos também que as mulheres do Bangladeche tinham o talento e as capacidades necessárias para desenvolverem uma actividade rentáveL O nosso objecrivo inicial era assegurarmos a paridade do número de homens e de mulheres que contraíam empréstimos. não tardámos a descobrir que as mulheres que contraíam empréstimos traziam muitos mais benefícios às suas famílias do que os homens. O Banco Grameen tem ainda outras características pouco usuais. Contamos agora com mais de 100 000 pedintes neste programa. o Banco Grameen. Por si só. os pedintes apreciam a ideia de serem capazes de se sustentar através dessa actividade. não empregados. que se recusavam a conceder crédito a mulheres. Serão eles próprios criadores de emprego. a ideia de pequenos empréstimos sem garantia concedidos a mulheres pobres. enquanto accionistas. Nos quatro anos desde o lançamento do programa. mesmo que elas pertencessem a um estrato económico desafogado. em Nova Iorque. 97 por cento são mulheres.Dos oito milhões de clientes que pedem empréstimos. conhecida como «microcrédito» ou «microfinança». Ao contrário do que algumas pessoas esperariam. O Banco Grameen até empresta dinheiro a pedintes. os quais. A Grameen America está agora a abrir novas delegações em Brooklyn (Nova Iorque). Incentivamos estes jovens a comprometerem-se a não entrarem no mercado de trabalho à procura de emprego por conta de outrem. A maior parte dos pedintes vai já no seu segundo ou terceiro empréstimo. apesar de o Banco Grameen servir as pessoas mais pobres . No início da criação do banco. Explicamos-lhes: «As vossas mães são proprietárias de um grande banco. A primeira delegação abriu na zona de Queens. A taxa de pagamento dos empréstimos continua a ser muito elevada. Na maior parte dos casos. As mulheres estavam mais motivadas para ultrapassar a pobreza. tudo isto seria um feito admirável com origem na minúscula faísca que o despoletou. numa média de cerca de duzentos dólares por empréstimo. mais de 18 000 pedintes deixaram de se dedicar à mendicidade. O Banco Grameen é financeiramente auto-suficiente. cerca de 98 por cento. Temos um balanço de poupança colectiva de mais de 500 000 milhões de dólares americanos.brinquedos. de 1500 dólares cada) para que as mulheres dessa zona pudessem montar pequenas empresas ou expandir empresas já existentes. Mais de 50 000 alunos frequentam neste momento escolas médicas. a quem é solicitado que aforrem uma pequena quantia todas as semanas. para quê perder tempo à procura de um emprego por conta de outrem? Sejam empregadores. Actualmente. decidimos concentrar-nos deliberadamente nos empréstimos a mulheres . Têm dinheiro que chegue para financiar qualquer empreendimento que decidam iniciar. alimentos-. As crianças beneficiavam imediatamente do rendimento das suas mães. concedendo empréstimos com condições acessíveis para a frequência de cursos superiores.aquelas que os bancos convencionais ainda consideram credores não viáveis.» O Banco Grameen quer impulsionar o empreendedorismo e a auto-suficiência entre o povo do Bangladeche . Estes usam os empréstimos para entrar no negócio da venda de produtos porta a porta. O Banco Grameen disponibiliza mais de cem milhões de dólares por mês em empréstimos sem garantia.aqueles 27 dólares do empréstimo que eu paguei na vez dos pobres de J obra. Os seus fundos provêm exclusivamente de depósitos.inicialmente como forma de protesto contra a prática dos bancos convencionais. Há agora programas do tipo do Banco Grameen em quase todos os países do mundo. em Omaha (Nebrasca) e em São Francisco 13 . alastrou por todo o mundo. Mais de metade dos depósitos são dos próprios contraentes de empréstimos.

Ficarão horrorizadas ao verem o sofrimento e as indignidades por que inúmeras pessoas tiveram de passar sem qualquer culpa pró- 15 . por todo o mundo os programas de micro- 14 crédito. Cada ser humano vem ao mundo não só com a capacidade de cuidar de si próprio mas também de contribuir para o bem-estar do mundo na globalidade. as crianças farão visitas de estudo a esses museus da pobreza. remodelar e reconstruir. eu acredito vivamente que deveria ser atribuído ao crédito o estatuto de direito humano. Tem as mesmas capacidades que a filha ou o filho. enquanto a filha ou o filho são médicos ou engenheiros. Não deveríamos perder esta oportunidade de converter as nossas instituições financeiras em instituições inclusivas. pelas instituições que organizámos e pelos conceitos que formulámos. Passa-me sempre um pensamento pela cabeça: «Esta mãe também poderia ter sido médica ou engenheira. Que a pobreza não é criada pelos pobres mas pelas suas circunstâncias diz-nos algo importante . pode ser removida. Durante a crise financeira global que começou em 2008. Podemos criar um mundo no qual o único lugar onde a pobreza poderá ser vista será em «museus da pobreza». A única razão por que não conseguiu desenvolver o seu potencial foi o facto de a sociedade nunca lhe ter dado essa hipótese.» Quanto mais tempo passamos entre pessoas pobres. com todas as suas garantias. A pobreza não é criada pelas pessoas pobres. tanto mais nos convencemos de que a pobreza não é o resultado de qualquer incapacidade da parte dos pobres. Enquanto os grandes bancos globais. podemos voltar a conceber. O Banco Grameen questionou este pressuposto e demonstrou que não só é possível emprestar dinheiro aos mais pobres como também é lucrativo. entravam em colapso. E. nas instituições financeiras. é frequente conhecer pares constituídos por mãe e filho ou mãe e filha nos quais a mãe é analfabeta. A pobreza é criada por deficiências nas nossas instituições. Mas é também porque cada vez estou mais convencido de que a pobreza não é criada pelos próprios pobres. É criada pelo sistema que construímos. O acesso a serviços financeiros não deveria ser vedado a ninguém. Quando uma crise atinge o seu ponto máximo. Porque é que atribuo tanta importância à ideia de fornecer serviços bancários aos pobres? Em parte. Algumas pessoas têm a oportunidade de explorar o seu potencial. Morrem sem explorar esses dotes e o mundo fica privado do seu contributo. Ao longo de gerações. A pobreza é uma imposição artificial e externa sobre as pessoas. têm afirmado que não é possível emprestar dinheiro aos pobres e toda a gente aceita essa justificação. como é externa. Esta atitude criou as condições necessárias· para que os prestamistas sem escrúpulos prosperassem em todo o mundo. A Grameen deu-me uma fé inabalável na criatividade humana e a firme crença de que os seres humanos não nascem para sofrer os horrores da fome e da pobreza. continuavam a manter-se tão fortes como sempre. Um dia. Nem sequer pôde ir à escola para aprender o alfabeto. Será que esta demonstração irá fazer com que as instituições financeiras convencionais mudem de opinião em relação à sua definição tradicional do que constitui um contraente de empréstimo fiável? Abrirão finalmente as suas portas aos pobres? Faço esta pergunta com toda a seriedade (embora saiba muito bem qual é a resposta provável).por exemplo. Os bancos recusam-se a fornecer serviços financeiros a quase dois terços da população mundial. Quando as coisas se desmoronam.(Califórnia). Nós somos capazes de criar um mundo livre de pobreza se reformularmos o nosso sistema de modo a eliminar as graves falhas que geram a pobreza. é claro. a falsidade desses velhos pressupostos tornou-se ainda mais evidente. Quando me encontro com contraentes de empréstimos do Banco Grameen. devido à forma como descobri acidentalmente o papel que os prestamistas exploradores desempenhavam na manutenção das suas vítimas na pobreza. pode proporcionar uma enorme oportunidade. O seu sucesso demonstra que até mesmo no país mais rico e com o sistema bancário mais sofisticado do mundo há uma enorme necessidade de bancos dedicados ao serviço dos milhões de pessoas com um acesso limitado ou inexistente a serviços bancários. que não dependem de garantias. mas muitas outras nunca conseguem desenvolver os maravilhosos dotes com que nasceram.algo sobre o potencial dos próprios seres humanos. Como estes serviços são de importância vital para a auto-realização das pessoas.

Tem muitas facetas. dei comigo a passar de um nível do meu enquadramento conceptual para outro. do ponto de vista económico. aproximando-a de um enquadramento completo e satisfatório ao libertá- 16 -la das falhas básicas que conduzem à pobreza e a outros males sociais e ambientais. a cobertura dos meios de comunicação dá a impressão de que. A pobreza é um estado de vida. para ver se poderia abordar o problema da pobreza de forma sustentável.uma falha fundamental no nosso edifício teórico do capitalismo. Este novo conceito trará uma mudança fundamental à arquitectura da nossa economia capitalista. O conceito de empresa social Dei os primeiros passos no sentido de ajudar as pessoas pobres em meados da década de 1970. Pareceu-me que cada um deles poderia contribuir para ultrapassar a pobreza. da educação. Quando os pobres conseguirem libertar a sua energia e a sua criatividade. os economistas construíram toda a sua teoria de negócios assente no pressuposto de que. da tecnologia da informação. Responsabilizarão os seus antepassados por terem tolerado esta situação desumana durante tanto tempo. das energias renováveis. estas crises têm uma origem comum. Ao longo dos anos. dos têxteis artesanais. Para tirar as pessoas da pobreza basta criar um meio que lhes seja propício. Na actual interpretação do capitalismo. obtém-se uma réplica da árvore mais alta. o «negócio como de costume» não é realmente uma opção viável. mesmo que fosse desejável.une». uma crise de energia. não só da produção de riqueza. dos serviços de emprego e em muitos outros sectores e subsectores similares. Embora a pobreza tenha continuado a ser a minha principal preocupação desde então. Trata-se do conceito de empresa social. da saúde. Os pobres são pessoas bonsais. Criei uma empresa para cada sector e subsector. Todos nós estamos a sofrer uma crise global de alimentos. todos os nossos problemas acabarão: a economia começará a crescer de novo e poderemos regressar de modo rápido e confortável ao «negócio como de costi. os seres humanos não são robôs programados unicamente para fazerem dinheiro.. De facto. tenho-me envolvido nos sectores da agricultura. não é verdade. os seres humanos envolvidos em negócios são representados como seres unidimensionais cuja única missão é maximizar o lucro. os seres humanos tentam alcançar este objectivo económico de uma forma que exclui qualquer outro. quando resolvermos esta crise. os seres humanos não fazem mais nada a não ser tentar 17 . se concebido de forma correcta. Esquecemos que a crise financeira é apenas uma de várias crises que ameaçam a humanidade.e terão razão para o fazer. Permita-se-me voltar por um momento à crise financeira de 2008-2009. que também o inclui. Não há nada de errado na semente que lhes deu origem. a terra em que foi plantada é que é inadequada. Supostamente. Avancei do microcrédito para um conceito muito mais alargado. da pesca. que é o tópico deste livro. Estas crises são tão importantes como a crise financeira. A felicidade advém-lhes de muitas fontes. Mas. uma crise ambiental. avancei para outras questões por as considerar muito relevantes para a minha preocupação dominante. A maior falha na teoria vigente do capitalismo reside na sua representação incorrecta da natureza humana. Para mim. Não há nada de errado na semente que se plantou. Enquanto experimentava todas estas abordagens. que estão a ocorrer simultaneamente por mero acaso. Como um momento de reflexão bastará para demonstrar.pria. O facto essencial sobre os seres humanos é que eles são seres multidimensionais. embora não estejam a receber tanta atenção como ela. Pura e simplesmente. Quando se planta a melhor semente da árvore mais alta num vaso minúsculo. uma crise no sector da saúde e as crises sociais e económicas persistentes da pobreza mundial maciça. mas a sociedade nunca lhes proporcionou a terra adequada ao seu crescimento. no entanto. Tem de ser abordada a partir de muitas direcções e nenhuma abordagem deve ser menosprezada. Além disso. as pessoas pobres são como bonsais. Esta é uma imagem distorcida do que é realmente um ser humano. Infelizmente. a cobertura dos meios de comunicação pode dar a impressão de que estas crises não estão relacionadas. E. mas com poucos centímetros. a pobreza desaparecerá rapidamente.

sociais. A teoria conclui que o melhor resultado para a sociedade ocorrerá quando cada indivíduo tiver rédeas soltas para procurar benefícios pessoais. Neste tipo de empresa. Como a empresa está inteiramente dedicada à causa social.um indivíduo que tem. mas também são seres altruístas. chamei empresa social. no entanto. (É verdade que em muitos países os donativos para obras de solidariedade social desfrutam de benefícios fiscais.) No outro tipo de empresa. fundações ou organizações sem fins lucrativos. E. o objectivo é maximizar os lucros dos seus proprietários. simultaneamente. Numa empresa social. assente na parte altruísta da natureza humana. (De facto. investimos enormes quantidades de tempo. Demonstra-o a existência de um grande número de instituições de beneficência sustentadas pela generosidade das pessoas. Mas estes benefícios fiscais só afectam uma parte do capital doado. 19 . Esta interpretação dos seres humanos nega qualquer papel a outros aspectos da vida políticos. interesses egoístas e altruístas. as únicas instituições existentes seriam as concebidas para gerar o nível máximo de riqueza individuaL Não haveria igrejas. tudo se faz para o benefício dos outros e nada em benefício dos seus proprietários. Obviamente. muitas pessoas não se importam de causar conscientemente danos à vida de outras pessoas. a solução é óbvia.ou seja. os nossos sistemas educativos e as nossas estruturas sociais baseiam-se no pressuposto de que somente as motivações egoístas são «reais» e merecem a nossa atenção. Parte do superavit que a empresa social cria é investida na expansão da empresa e uma outra parte fica de reserva para cobrir imprevistos. Esta visão distorcida da natureza humana é a falha fatal que torna o nosso pensamento económico incompleto e impreciso. deve produzir um rendimento suficiente para cobrir os seus próprios custos. com pouca ou nenhuma consideração pelos outros. Vemos a necessidade de dois tipos de empresas: um para obter ganhos pessoais e um outro dedicado a ajudar as pessoas. dinheiro e outros 18 recursos no desenvolvimento e na manutenção de empresas com fins lucrativos.atingir os seus objectivos egoístas. a nossa imagem do mundo dos negócios muda imediatamente. ao longo de um determinado período. não haveria escolas.excepto o prazer de servir a humanidade. emocionais. na tentativa de obter o máximo lucro possível. A empresa social é uma empresa porque deve ser auto-sustentável . a quantia que investiu. É o que tem faltado à nossa teoria económica. esta dimensão de abnegação não desempenha qualquer papel nas teorias económicas. parques públicos. Mesmo assim. ambientais e outros. instituições como essas não fazem de ninguém um multimilionário!) Não haveria organizações de beneficência. O proprietário só pode retirar. (Ao fim e ao cabo. As nossas regulamentações governamentais. espirituais. Uma vez reconhecida esta falha na nossa estrutura teórica. Ao longo do tempo. mas muitas outras não fazem sentido quando vistas através desta lente deformadora. Num tipo de empresa. os seres humanos também são movidos por motivações altruístas. é necessária uma moti_vação altruísta para tornar possível uma atitude de solidariedade sociaL) E. mesmo quando os nossos problemas se agravam. Ambas as qualidades coexistem em todos os seres humanos. Ao segundo tipo de empresa. Assim. O interesse pessoal e a busca do lucro explicam muitas das nossas acções. Partimos do princípio de que as empresas com fins lucrativos são a principal fonte de criatividade humana e a única forma de abordar os problemas da sociedade. existe lucro mas ninguém fica com ele. a empresa social poderia ser descrita como «uma empresa sem prejuízos nem dividendos» dedicada inteiramente a atingir um objectivo sociaL Podemos pensar numa empresa social como um negócio abnegado cujo objectivo é pôr fim a um problema social. mesquitas ou sinagogas. Por consequência. Não há dúvida de que os seres humanos são seres egoístas. não questionamos os pressupostos subjacentes que contribuíram para criar esses problemas. a ideia de obter lucros pessoais está arredada da empresa. tem contribuído para criar as múltiplas crises com que nos deparamos actualmente. Temos de substituir o indivíduo unidimensional na teoria económica por um indivíduo multidimensional. energia. o investidor tem o objectivo de ajudar as outras pessoas sem obter qualquer contrapartida financeira para si próprio. museus. Se só o motivo do lucro controlasse todos os comportamentos humanos. Quando o fazemos. centros de saúde ou centros comunitários.

assim como nas organizações sem fins lucrativos que prosperam graças à generosidade de milhões de doadores. não transfeririam de bom grado cada vez mais os donativos que fazem a obras de beneficência para negócios sociais? Para além de filantropos ricos como Bill Gates e Warren Buffett. Pensemos nas grandes fundações. as suas aptidões tecnológicas. obterá todos os micronutrientes necessários e tornar-se-á uma criança saudável e activa. A este iogurte são acrescentados todos os micronutrientes de que carece a dieta normal das nossas crianças': ferro. pensarão em que tipo de empresa investirão e em que tipo de empresa quererão trabalhar. Como este montante sugere. as suas capacidades de estabelecer contactos. etc. experiência de vida e outros recursos para criar empresas sociais que possam mudar o mundo. A única coisa que teremos de fazer é libertá-los da atitude mental que põe a obtenção do lucro no centro de todas as empresas. o conceito de empresa social necessita de ser demonstrado na prática. as pessoas não se importam de dar dinheiro para apoiar organizações quando acreditam que elas estão a fazer do mundo um lugar melhor. Os fundos de responsabilidade social criados por empresas com fins lucrativos podem também ser disponibilizados para empresas sociais. Quando forem crescidos. Só nos Estados Unidos. Não um sonho. as receitas anuais das organizações sem fins lucrativos num ano recente atingiram mais de um bilião de dólares. A resposta não é tão misteriosa quanto poderia supor-se. Alguns dos fundos governamentais que são tradicionalmente aplicados em programas sociais serão usados em 20 empresas sociais. que todos nós conhecemos. Essa será uma outra fonte de capital para as empresas sociais. Algumas delas tornaram-se mais conhecidas porque foram criadas como joint ventures de empresas da Grameen e de grandes grupos económicos mundialmente famosos. a Grameen Danone segue o princípio básico de que deve ser auto-sustentável e de que os seus proprietários devem respeitar o compromisso de não retirar quaisquer divi21 . grandes e pequenos.Alguém no mundo real estará interessado em cnar empresas com objectivos abnegados? De onde viria o dinheiro para uma empresa social? Há seres humanos reais. Como empresa social. muitas outras pessoas investirâo em empresas sociais só para poderem partilhar a alegria de melhorar a vida dos seus semelhantes. Se uma criança comer dois boiões de iogurte por semana ao longo de um período de oito ou nove meses. iodina. mas uma realidade Tal como qualquer nova ideia. Uma vez divulgada a ideia da empresa social. Por isso. O primeiro empreendimento conjunto desse tipo foi criado em 2005 em parceria com a empresa francesa de lacticínios Danone e tem como objectivo reduzir os níveis de subnutrição das crianças do Bangladeche. Se as pessoas conseguirem ver que a empresa social pode atingir estes mesmos objectivos de uma maneira melhor. muitas pessoas reservarão algum do capital das suas empresas com fins lucrativos para empresas sociais. Quando a nossa teoria económica se ajustar à realidade multidimensional da natureza humana. zinco. As pessoas não só doarão dinheiro mas também a sua criatividade. que ficariam encantados por poderem criar empresas com objectivos abnegados. Quando ainda estiverem na escola. uma ideia que lhes impusemos através da nossa teoria económica defeituosa. comecei a criar empresas sociais no Bangladeche. Poderíamos perguntar-nos de onde virá o dinheiro para criar uma empresa que não tem qualquer intenção de produzir lucro. alguns jovens poderão começar a conceber empresas sociais e até mesmo a lançar empresas sociais individual ou colectivamente para exprimirem o seu talento criativo para mudar o mundo. os alunos aprenderão nas escolas e nas universidades que há dois tipos de empresas: as empresas tradicionais com fins lucrativos e as empresas sociais. E muitos jovens que sonham com um mundo melhor pensarão no tipo de empresa social que gostariam de criar. Uma das fontes será o dinheiro que actualmente se destina ao apoio a obras filantrópicas. A Grameen Danone produz um delicioso iogurte para crianças e vende-o a um preço acessível aos pobres.

dendos para além do montante original que investiram. O sucesso
da empresa é avaliado todos os anos, não pelo lucro gerado, mas
pelo número de crianças que escapam à subnutrição nesse ano.
Contei a história da fundação da Grameen Danone no meu
último livro, Criar Um Mundo sem Pobreza, e mais adiante neste
livro actualizarei os dados sobre ela. Como os leitores verão, tem
sido uma interessante experiência de aprendizagem, que proporciona muitas lições sobre como criar e desenvolver uma empresa
social bem-sucedida.
O que é mais importante ainda é que a Grameen Danone tem
servido como modelo a imitar, atraindo atenções por todo o mundo.
Muitas outras grandes firmas têm abordado a Grameen com propostas para criarmos empresas sociais conjuntas. Pretendem a colaboração da Grameen para garantirem que o processo se desenrola de
forma correcta, porque sabem que fomos os originadores deste novo
conceito. Quando adquirirem experiência na área da empresa social,
levarão o conceito aonde houver necessidade dele.
A nossa empresa social em parceria com a Veolia, uma grande
empresa francesa de água mineral, chama-se Grameen Veolia Water
Company e foi criada para fornecer água potável às zonas rurais do
Bangladeche, onde a contaminação por arsénico é um enorme problema. As pessoas compram a água à empresa a um preço acessível
em vez de beberem água contaminada. Ao longo do tempo, mediremos o impacto do fornecimento de água potável sobre a saúde
dos habitantes locais.
Uma outra grande empresa mundial, a BASF, da Alemanha,
assinou um acordo de joint venture com a Grameen para produzir
mosquiteiros no Bangladeche com um tratamento químico.
Quando estes mosquiteiros são usados sobre as camas, proporcionam protecção contra doenças transmitidas por mosquitos, como,
por exemplo, a malária. A joint venture BASF Grameen produzirá e
venderá estes mosquiteiros a um preço tão baixo quanto possível, .
para que os seus benefícios sejam acessíveis aos pobres.
A nossa joint venture com a Intel Corporation, a Grameen Intel,
tem como objectivo usar as tecnologias de informação e da comunicação para ajudar a resolver os problemas dos pobres das zonas
rurais - por exemplo, providenciando cuidados de saúde em áreas

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rurais dos países em vias de desenvolvimento, onde há falta de
médicos e de enfermeiras e existem poucas clínicas. Como explicarei mais adiante neste livro, o objectivo é criar novas tecnologias
de ponta que proporcionem o acesso aos conceitos de cuidados de
saúde mais avançados aos pobres de áreas rurais- e, em seguida,
criar um quadro de pequenos empresários que forneçam estes serviços vitais de um modo economicamente sustentável.
A nossa joint venture com a Adidas tem como objectivo a produção de calçado a preços económicos para pessoas de baixo rendimenta. O objectivo da Grameen Adidas é que ninguém, criança
ou adulto, ande descalço. Evidentemente, é mais agradável e confortável caminhar calçado em estradas de terra batida, mas, no
fundo, trata-se de uma intervenção ao nível da saúde pública que
visa contribuir para que os habitantes de zonas rurais, principalmente as crianças, deixem de sofrer das doenças que podem ser
transmitidas por parasitas quando se anda descalço. A Adidas está
a colaborar com a Grameen para trazer estes benefícios às pessoas
mais pobres dos países em vias de desenvolvimento usando um
modelo de empresa social economicamente viável.
Uma outra empresa alemã, a Otto GmbH, uma empresa líder
na área das vendas por catálogo, está muito interessada em criar
uma empresa social para fabricar têxteis e artigos de vestuário
para exportação do Sul da Ásia para países do mundo desenvolvido.
A Otto Grameen está a planear montar uma fábrica de confecções
no Bangladeche que envidará todos os esforços para empregar pessoas frequentemente tratadas como economicamente marginais,
como, por exemplo, mães solteiras e portadores de deficiência. Os
lucros serão aplicados no melhoramento da qualidade de vida dos
trabalhadores, dos seus filhos e dos pobres da zona.
Como estes exemplos demonstram, a empresa social não é só
uma ideia agradável. É uma realidade, uma realidade que já começou a provocar mudanças positivas na vida das pessoas, para além
de atrair verdadeiro interesse por parte de alguns dos grupos económicos mais avançados do mundo.
Muitas outras empresas sociais estão em marcha. Uma área
interessante será a criação de emprego em localizações específicas
ou para pessoas que se encontrem em condições particularmente

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I

desfavorecidas. Como os negócios sociais funcionam sem a pressão de gerar lucro para os seus proprietários, o leque de oportunidades de investimento é muito mais amplo do que no caso de
empresas com fins lucrativos. Antes de um empresário motivado
pelo lucro decidir fazer um investimento, tem de garantir um
mínimo predeterminado de retorno do seu investimento, digamos
25 por cento. Não fará o investimento se esse retorno não for possível, porque tem outras oportunidades de investimento que lho
proporcionarão. Como o investidor procura o lucro, será motivado
para certos projectos pela dimensão do lucro a obter.
Mas a decisão do investimento numa empresa social não se
baseia no lucro potenciaL Baseia-se na causa sociaL Se essa causa
for criar emprego, a empresa social avançará se houver garantias de
que pode ser auto-sustentáveL Este facto dá à empresa social um
enorme poder na criação de postos de trabalho. Podem até fazer-se
investimentos em projectos em que o retorno é quase nulo e, através deste processo, criar oportunidades de emprego para muitas
pessoas. Num mundo de negócios com fins meramente lucrativos,
estes empregos nunca seriam criados. Que lástima!
A saúde é um outro sector com um grande potencial para a
empresa sociaL A prestação pública de cuidados de saúde num
grande número de países é ineficiente e muitas vezes não chega às
pessoas que mais precisam deles. As clínicas privadas servem
as necessidades das pessoas com rendimentos elevados. O grande
fosso entre os dois tipos de serviço pode ser ocupado por empresas
SOClalS.

No Bangladeche, a Grameen Healthcare [Grameen Cuidados de
Saúde} está a desenvolver um protótipo de centros de gestão de cuidados de saúde nas zonas rurais que se concentrará na medicina
preventiva e disponibilizará serviços de diagnóstico e de check-ups,
seguros de saúde, sensibilização para questões de saúde e de nutrição, etc. A Grameen Cuidados de Saúde está a tentar explorar o
acesso generalizado aos telemóveis colaborando com empresas líderes de mercado na concepção de equipamento de diagnóstico que
permita transmitir imagens e dados em tempo real para técnicos
de saúde localizados nas cidades. Explorando a nova eficiência que
a tecnologia torna possível, acredito que a Grameen Cuidados de

24

Saúde conseguirá fazer baixar de tal forma os preços dos cuidados de saúde que até mesmo a zona rural mais desfavorecida poderá
ser servida, cumprindo simultaneamente o objectivo de auto-sustentabilidade económica que define a empresa sociaL
A empresa social pode também desempenhar um importante
papel no melhoramento das infra-estruturas do sistema de saúde.
A Grameen Cuidados de Saúde está já a criar escolas de enfermagem para formar as filhas das famílias clientes do Banco Grameen.
Há uma grande procura de enfermeiras qualificadas, tanto no Bangladeche como nos países ricos. Não vejo porque é que grandes
números de jovens hão-de ficar sem fazer nada nas zonas rurais
enquanto estas interessantes oportunidades de emprego ficam por
preencher. As escolas de enfermagem geridas como empresas sociais
podem ocupar esta lacuna.
A Grameen Cuidados de Saúde está a planear abrir centros de
prestação de cuidados de saúde a nível secundário e terciário, também concebidos como empresas sociais. (Mais adiante, contarei a
história de um desses centros, que está já em desenvolvimento,
uma unidade para realizar algumas das intervenções cirúrgicas mais
avançadas do mundo para tratar crianças que sofram de talassemia,
um distúrbio genético que, se não for tratado, é fataL) Para formar uma nova geração de médicos para esta unidade, a Grameen
Cuidados de Saúde está a planear a criação de uma Universidade
de Ciências e Tecnologia da Saúde.
Muitos outros segmentos do sector dos cuidados de saúde são
apropriados para criar empresas sociais bem-sucedidas: a nutrição,
o fornecimento de água, os seguros de saúde, os cursos superiores
e estágios na área da saúde, os cuidados oftalmológicos, os cuidados
materno-infantis, os serviços de diagnóstico, etc. Os protótipos
levarão algum tempo a serem desenvolvidos. No entanto, quando
mentes criativas concebem uma empresa social e um protótipo
é desenvolvido com sucesso, ele pode ser replicado vezes sem conta.
Conceber cada um dos pequenos negócios sociais é como desenvolver uma semente. Depois de a semente estar desenvolvida,
qualquer pessoa poderá plantá-la onde ela for necessária. Como
cada unidade é auto-sustentável, os fundos necessários não constituem uma limitação.
25

Entre outras coisas, a empresa social é uma maneira de dar aplicação às tecnologias mais potentes da actualidade.
O mundo actual dispõe de tecnologias incrivelmente poderosas.
O seu crescimento tem sido muito rápido e elas têm-se tornado mais
potentes a cada dia que passa. Quase toda esta tecnologia é propriedade de empresas com fins lucrativos que a controlam. As empresas
usam esta tecnologia somente para fazer mais dinheiro, porque é essa
a missão de que são incumbidas pelos seus accionistas.
No entanto, encarada de uma forma mais abrangente, a tecnologia é apenas uma espécie de veículo. Pode ser conduzida a qualquer destino que se queira. Como os actuais proprietários da
tecnologia querem deslocar-se para os picos mais altos do lucro,
a tecnologia leva-os até lá. Se outra pessoa decidir usar a tecnologia existente para pôr fim à pobreza, ela levará o seu utilizador a
esse destino. Se outra pessoa quiser usá-la para pôr fim à doença,
a tecnologia chegará lá. A escolha é nossa. O único problema é que
o enquadramento teórico actual do capitalismo não nos faculta esta
opção. Mas a inclusão da empresa social cria esta opção.
Um outro ponto a ponderar: de facto, não há necessidade de
escolher. Usar a tecnologia para um determinado fim não a torna
menos eficaz para servir um fim diferente. Na realidade, é precisamente o contrário. Quantos mais usos diversificados dermos à tecnologia, tanto mais potente ela se tornará. Usar a tecnologia para
resolver problemas sociais não reduzirá a sua eficácia na produção
de riqueza, aumentá-la-á.
Os proprietários de empresas sociais podem canalizar o poder
da tecnologia para a solução da lista crescente de problemas sociais
e económicos e obter resultados rápidos. Com este processo, possibilitarão o aparecimento de novas ideias, que futuras gerações
de cientistas e de engenheiros poderão desenvolver. O mundo da
empresa social beneficiará não só os pobres mas também toda a
humanidade.
Quando o conceito de empresa social se tornar amplamente
conhecido, aparecerão pessoas criativas com concepções atraentes
de novas empresas sociais. Haverá jovens que desenvolverão planos empresariais para abordar os problemas sociais mais difíceis
através de empresas sociais. As boas ideias, é claro, terão de ser

26

financiadas. É com prazer que posso dizer que existem já iniciativas
na Europa e no Japão para criar fundos de empresas sociais destinados a fornecer capital e empréstimos a empresas sociais.
A seu tempo, mais fontes de financiamento serão necessárias.
Cada nível de governo - internacional, nacional, estatal e local pode criar fundos de empresas sociais. Estes incentivarão os cidadãos
e as empresas a criarem empresas sociais concebidas para abordar
problemas específicos (o desemprego, a doença, o tratamento de
resíduos, a poluição, a velhice, as drogas, o crime, as carências de
grupos com necessidades especiais, como, por exemplo, os deficientes, etc.). Os doadores bilaterais e multilaterais podem também criar
fundos de empresas sociais. As fundações poderão reservar uma
percentagem dos seus capitais para o apoio a empresas sociais e
poderão usar os seus orçamentos de responsabilidade social para
financiar este tipo de empresas.
A certa altura, haverá a necessidade de criar uma bolsa de valores separada para facilitar o investimento em empresas sociais. Só
estas empresas serão listadas nessa bolsa social de valores e os investidores saberão desde o início que não receberão dividendos. A sua
motivação será desfrutar do orgulho e do prazer de contribuir para
a resolução de problemas sociais difíceis.
A empresa social dá a toda a gente a oportunidade de participar na criação do tipo de mundo em que todos nós queremos viver.
Graças ao conceito de empresa social, os cidadãos não têm de deixar
todos os problemas nas mãos do governo (e depois passar a vida a
criticar o governo por não os resolver). Agora, os cidadãos têm
acesso a um espaço completamente novo no qual podem mobilizar a
sua criatividade e o seu talento para resolver os problemas dos nossos tempos. Ao constatarem a eficácia da empresa social, os governos
poderão decidir criar as suas próprias empresas sociais, estabelecer
parcerias com empresas sociais dirigidas por cidadãos e incorporar
as lições destes projectos na melhoria da eficácia dos seus próprios
programas.
Os governos terão um importante papel a desempenhar na promoção das empresas sociais. Terão de aprovar legislação para conceder um estatuto legal à empresa social e criar entidades reguladoras
para garantir a transparência, a integridade e a honestidade do sec27

ela deveria ser capaz de pôr fim às crises de uma vez por todas. que geralmente descrevem algumas variantes de empresas com fins lucrativos. O carácter maravilhosamente promissor da empresa social torna ainda mais importante que redefinamos e alarguemos o âmbito do nosso enquadramento económico actual. Podem também conceder incentivos fiscais para o investimento em empresas sociais. em vez disso. É também bastante distinto de outros termos frequentemente usados. No resto deste livro. passando de uma mera ideia a uma realidade viva e em rápido crescimento. A BASF Grameen reduzirá a incidência de doenças transmitidas por mosquitos através da produção e comercialização de mosquiteiros com um tratamento químico. incluindo a produção e a venda de produtos ou de serviços. explicarei mais pormenorizadamente a teoria da empresa social.tor. outros em processo de criação. Um deles é uma empresa sem prejuízos (auto-sustentada) nem dividendos dedicada à resolução de um problema social. Temos necessidade de uma nova maneira de pensar a economia que não seja propícia à criação de uma série de crises. por exemplo. O seu objectivo é a resolução de um problema social usando métodos próprios das empresas.e temos de avançar depressa.alguns já em funcionamento. Existem muitos outros exemplos. assim como às próprias empresas sociais. cujos proprietários são investidores que reinvestem todos os lucros para expandir e melhorar a empresa. está a contribuir para resolver o problema da subnutrição vendendo iogurtes fortificados com micronutrientes a um preço acessível. Os 29 . É bastante distinto quer do de uma empresa com fins lucrativos (que descreve praticamente todas as empresas privadas do mundo actual) quer do de uma organização sem fins lucrativos (que depende de doações de caridade ou filantrópicas). A Grameen Danone. Em apenas alguns anos. a empresa social desenvolveu-se. tais como «empreendimento social». Chegou a hora de pensarmos de forma ousada e criativa . «empreendedorismo social» ou «empresa socialmente responsável». 28 CAPÍTULO 1 Porquê a empresa social? A empresa social é um novo tipo de conceito. contarei as histórias de vários exemplos concretos de empresas sociais que estão já em funcionamento e farei sugestões práticas para que os leitores possam envolver-se no apoio a este novo movimento. A Grameen Veolia Water contribui para resolver o problema da água contaminada com arsénico vendendo água pura a um preço acessível aos pobres. Está já a melhorar as vidas de muitas pessoas e está prestes a tornar-se uma das tendências sociais e económicas mais importantes do mundo. Uma empresa social não se integra no mundo dos negócios com fins lucrativos. Há dois tipos de empresa social. porque o mundo está também a mudar depressa. A primeira peça deste novo enquadramento deverá ser encontrar um lugar para a empresa social como parte integrante da estrutura económica.

31 . Somos bastante rigorosos quanto a esta regra. dediquei muito do meu tempo e da minha energia a defini-la com precisão e a conceber maneiras de comunicar a sua natureza ao público de forma clara e atraente. Um importante aliado neste meu esforço foi Hans Reitz. assim como ideias para novas empresas sociais que não foram ainda lançadas. Mantenha-os em mente ao ler o resto deste livro. 4. a contribuir para a resolução de um problema social. ou um período muito longo. essa empresa deixará de poder considerar-se uma empresa social. No entanto. Como a empresa social é uma nova ideia. que usará os lucros em benefício das pessoas da comunidade onde a fábrica se localiza. continuam a descobrir a alegria ilimitada que se obtém. Pode ser um período muito curto. Quando as empresas e os empresários têm reuniões connosco para se informarem sobre o conceito de empresa social e explorarem as hipóteses de se envolverem neste movimento. quer directamente quer através de um fundo dedicado a uma causa social predefinida. como explicarei mais adiante neste livro. Reitz colaborou comigo na formulação dos sete princípios da empresa social. A empresa atingirá a sua própria sustentabilidade financeira e económica. a fábrica têxtil Otto Grameen. partilhamos os sete princípios com eles. esquecemos que os negócios podem ter algo a ver com a alegria. de um ou dois anos.nem mais um cêntimo. com condições de trabalho acima da média. que condensam particularmente bem as principais características de uma empresa social do tipo I: 1. cujos proprietários são as pesso~ pobres que depositam o seu dinheiro e contraem empréstimos. um dólar é um dólar. 2. Nenhum dividendo é atribuído para além do reembolso da quantia investida originalmente. Numa empresa social. em Wies- 30 baden. Quando a quantia investida for reembolsada. na Alemanha.não maximizar o potencial de lucro. Mas. dividendos ou qualquer outra forma de benefício financeiro. um negócio desses. se os investidores receberem uma quantia que ultrapasse o investimento original. Chamamos a este tipo de negócio tipo II. São uma pedra-de-toque e um lembrete constante dos valores que subjazem à ideia da empresa social. O Banco Grameen. Como os lucros recebidos pelas pessoas pobres estão a aliviar a pobreza. Ao contrário de uma organização sem fins lucrativos. Os investidores só poderão reaver a quantia que investiram. de cinquenta anos ou mais. Chamamos a este tipo de empresa social tipo L O segundo tipo é uma empresa com fins lucrativos cujos proprietários são pessoas pobres. No ambiente agressivo do mundo dos negócios convencionais. porque queremos deixar bem claro que a ideia de benefício financeiro pessoal não tem qualquer cabimento na empresa social. A empresa social tem tudo a ver com a alegria. para a sua expansão e melhoramento. é um exemplo deste tipo de empresa social. 3. o lucro fica na empresa. uma empresa social tem investidores e proprietários. numa empresa social de tipo I. Os seus trabalhadores recebem um salário de mercado. por definição. Os sete princípios são o fulcro da empresa social. Notará que estes princípios se aplicam ao descrevermos empresas sociais específicas que estão já em funcionamento. O objectivo do negócio é ultrapassar a pobreza ou um ou mais problemas (nas áreas da educação. Esta regra aplica-se até a ajustamentos para ter em conta a inflação. A empresa é responsável do ponto de vista ambiental. do acesso às tecnologias e do ambiente) que afligem os indivíduos e as sociedades . será um segundo exemplo. estará. Os investidores de uma empresa social podem reaver a quantia que investiram inicialmente ao longo de um período de tempo definido por eles. Quem investir mil dólares numa empresa social poderá reaver mil dólares . 5. da saúde. o director do Grameen Creative Lab (GCL). 6. O seu proprietário será o Fundo Otto Grameen. E. actualmente em fase de planeamento.exemplos mencionados acima inserem-se nesta categoria. Faça-o com alegria! O último destes sete princípios foi uma sugestão de Reitz e devo dizer que gosto dele. os investidores e os proprietários não recebem lucros. Quando as pessoas se envolvem nela. 7.

Algumas pessoas pensam que uma empresa social é uma espécie de organização sem fins lucrativos. esse negócio poderia criar benefícios sociais ao mesmo tempo que geraria o rendimento necessário para se manter. de ligações entre pessoas de todo o mundo. por outro. algumas das características que distinguem uma empresa social das formas típicas das organizações sem fins lucrativos. quer no mundo dos negócios com fins lucrativos quer no sector das organizações sem fins lucrativos. com um objectivo social. na maior parte dos casos. No entanto. poderia expandir-se e espalhar a sua influência em círculos cada vez mais alargados por toda a sociedade. mas a estrutura de negócio específica da empresa social torna-a distinta e única.) No entanto. a ONG estará dentro de pouco tempo a solicitar novo subsídio para prosseguir o seu trabalho. que procura criar benefícios sociais através da sua actuação. Mas seria um erro associar o meu trabalho ao de todos os outros empreendedores sociais ou partir do princípio de que o «empreendedorismo social» e a «empresa social» são simplesmente duas expressões para designar a mesma realidade. ou uma iniciativa de negócio com ou sem lucro pessoaL Alguns empreendedores sociais albergam os seus projectos em organizações não governamentais (ONG). Ao longo do tempo. «empreendedorismo social» e muitos outros são frequentemente usados nos textos sobre as tentativas de contribuir para a resolução de problemas como a pobreza. por exemplo. que tornam o investimento numa empresa por parte de uma fundação uma iniciativa complicada. classificam o meu trabalho e o do Banco Grameen sob esta rubrica. educação e agricultura sustentáveL Espero que algumas das principais fundações existentes estejam a considerar essa possibilidade. se fosse bem dirigida. Uma empresa social pode ter objectivos similares aos definidos por alguns empresários sociais. uma fundação poderia ser proprietária de uma empresa sociaL De facto. por um lado. Não são efectivamente o mesmo que aquilo a que se chama empresa sociaL «Empreendedorismo social» refere-se a uma pessoa. 32 Uma fundação. sendo dirigidas por um conselho de administração segundo directrizes definidas pelo Estado. Mas. estabelecer empresas sociais dentro da esfera de interesses da organização poderia ser uma excelente maneira de usar o seu capitaL Quando uma fundação concede um subsídio a uma ONG tradicional.uma empresa sem lucros nem dividendos. as fundações e outras organizações sem fins lucrativos não são propriedade de ninguém. a empresa social é um tipo muito específico de empresa . se uma fundação concedesse um subsídio para lançar uma empresa social. uma obra de caridade. Embora estes termos sejam usados de formas variadas por diferentes autores. como a Fundação Ashoka.O que é a empresa social - e o que não é Termos como «empreendimento social». e a história do movimento Grameen e o conceito de microcrédito. existem regras legais e fiscais nalguns países. o que significa que a fundação recuperaria o seu dinheiro e poderia usá-lo para um outro objectivo válido. Algumas organizações que promovem o conceito de empreendedorismo social. de qualquer forma. por exemplo. incluindo os Estados Unidos. 33 . o investimento inicial poderia ser reembolsado. Notem-se. Eu não ponho objecções a que o façam e considero que a Fundação Ashoka tem feito um bom trabalho no estabelecimento . como é o caso da empresa sociaL (Ao abrigo das leis da maior parte dos países. Descreve uma iniciativa com consequências sociais criada por um empreendedor com uma visão sociaL Esta iniciativa pode ser não económica. referem-se geralmente a subconceitos. enquanto outros estão envolvidos em actividades com fins lucrativos. Entretanto. Em contraste com o empreendedorismo social. Uma fundação não é uma empresa social: não é financeiramente auto-sustentável. Como explicarei mais tarde. a empresa social continuaria a funcionar e. o dinheiro não tarda a ser gasto e. normalmente não é geradora de rendimento através de actividades de negócios e não tem um «proprietário». Em contraste. é uma organização de beneficência criada para distribuir fundos provenientes de um ou mais doadores. Eu gostaria de ver as fundações a usarem alguns dos seus fundos para estabelecer empresas sociais nas suas áreas de interesse: saúde. o dinheiro é aplicado na criação de programas de beneficência ou no seu apoio e espera-se que proporcione alguns benefícios à comunidade. Esta noção não é correcta. estes entraves poderiam ser ultrapassados.

já para não falar em expandi-los. quando um desastre natural como o tsunami de 2004 ou o terrível sismo que devastou o Haiti em 2010 destrói infra-estruturas e casas e cria uma necessidade premente de alimentos. Em contraste. Mas as situações de emergência passam rapidamente para uma fase em que as intervenções da empresa social podem ser muito apropriadas e imensamente úteis. a maior parte das ONG sofre de uma permanente falta de fundos e sente dificuldade em manter os seus programas mais eficazes. poderia também ser proprietária de uma empresa social. Mesmo quando estas iniciativas são bem-sucedidas. estão a participar activamente no sistema económico. Além disso. Depender de donativos não é uma forma sustentável de gerir uma organização. energia e dinheiro em iniciativas de angariação de fundos. uma empresa social é concebida para ser sustentável. medicamentos e vestuário. porque lhes é virtualmente impossível serem autónomas. Este facto proporciona um alto grau de autonomia e conduz muito mais directamente a soluções genuínas. Foi por essa razão que organizámos um Fundo de Empresa Social para o Haiti. potencialmente. Os pobres que se tornam dependentes da caridade não se sentem motivados para assumir o controlo da sua situação.De forma similar. fiscais e financeiros. que me levaram a criar o conceito de empresa social como alternativa. Há também alguns tipos de pessoas que. Evidentemente. a fim de criar uma série de empresas sociais como soluções sustentáveis a longo prazo para o povo do Haiti. nem todas as iniciativas de beneficência deveriam ser substituídas por empresas sociais. Contudo. As ONG fazem muito e bom trabalho em todo o mundo. da desigualdade e da opressão. há lugar no nosso mundo para a caridade. Como sociedade. gostaria de salientar que a esfera potencial da empresa social. Este programa demonstrou que mesmo as pessoas mais pobres . As famílias à beira da fome não podem esperar até lançarem as suas próprias empresas para se sustentarem . é essencial simplesmente ajudar pessoas em situações de grande carência. infelizmente. Refiro-me a pessoas que sofrem de extrema incapacidade física ou mental. Esta teria de ser autónoma em termos legais. Obriga os dirigentes das ONG a gastar muito tempo. Em contraste. Mas o modelo de beneficência tem algumas fraquezas intrínsecas. assim como aos muito idosos ou muito novos. têm de depender da caridade.por exemplo. a empresa social proporciona aos seus beneficiários uma dignidade pessoal e uma autonomia muito maiores do que as organizações de beneficência. um impacto muito maior do que até mesmo a organização de beneficência mais bem dirigida. de problemas como o da pobreza. Por vezes. Este facto permite aos seus proprietários não se concentrarem na angariação de fundos e dedicarem-se a aumentar os benefícios que podem proporcionar aos pobres ou a outras pessoas na sociedade.sem quaisquer aptidões ou recur- 35 . que é uma organização sem fins lucrativos de solidariedade social.precisam de comida e precisam dela rapidamente. A capacidade da empresa social de «reciclar» o dinheiro de modo permanente dá-lhe. Mesmo os programas de solidariedade social mais bem intencionados e bem concebidos têm o efeito inevitável de retirar iniciativa a quem recebe os seus benefícios. Por conseguinte. Já mencionei o programa através do qual o Banco Grameen proporciona aos pedintes a oportunidade de se transformarem em pequenos negociantes com o recurso a empréstimos mínimos. uma ONG tradicional. as pessoas que pagam um preço justo pelos bens e serviços que recebem estão a dar um passo gigantesco na direcção da autonomia. mas devemos compreender como e até que ponto cada um pode contribuir para reduzir o infortúnio das pessoas. Tanto a caridade como as empresas sociais são necessárias. tornando-se agen- 34 tes por direito próprio na nossa economia de mercado livre. em que os pobres podem tornar-se auto-suficientes. a longo prazo. é mais vasta do que muitas pessoas julgam. parece-me que esse investimento seria um instrumento inteligente e potencialmente importante para tentar atingir os objectivos de beneficência da ONG. simplesmente temos o dever de ajudar estas pessoas e seria cruel insistir com elas para que fossem auto-suficientes. desde que a empresa social partilhe os objectivos sociais da ONG. assim como há lugar para a empresa sociaL No entanto. A caridade é a única resposta imediata em tais casos. Em vez de aceitarem donativos passivamente.

Apesar da similaridade no nome. O termo é «marketing social». Os programas de RSE são principalmente usados para construir a imagem de uma empresa. é uma actividade socialmente benéfica.são capazes de se tornarem auto-suficientes quando os instrumentos de que necessitam para o fazer são postos ã sua disposição. o marketing social deste tipo não tem realmente nada a ver com o meu conceito de empresa sociaL Empresa social e responsabilidade social empresarial A responsabilidade social empresarial (RSE) é um outro conceito que por vezes é confundido com o de empresa sociaL A RSE designa frequentemente um fundo de beneficência reservado por uma empresa com fins lucrativos para o bem da comunidade locaL Por exemplo. pessoas fisicamente incapacitadas e pessoas com distúrbios mentais. Em vez disso. algumas cooperativas continuam a criar benefícios sociais. todos os lucros obtidos pela cooperativa se destinariam a sustentar os pobres e a ajudá-los a escapar da pobreza .e criam uma estrutura empresarial dentro da qual operam para aumentarem os seus lucros pessoais. Trata-se de um conceito que surgiu entre os sociólogos na década de 1970 para descrever as tentativas de modificar o comportamento humano de uma forma socialmente benéfica. permitam-me mencionar mais um termo sobre o qual as pessoas que querem saber o que é uma empresa social por vezes me interrogam. Criada em 1972 como um sindicato de operárias têxteis que trabalhavam em casa. Um exemplo é a Self-Employed Women's Association [Associação de Mulheres Empregadas por Conta Própria}. algumas cooperativas são geridas basicamente como empresas com fins lucrativos. a SEWA. Uma cooperativa é propriedade dos seus sócios. É gerida para fins lucrativos em benefício dos sócios-accionistas. poderiam ser menos bem servidos. Não nos apressemos a partir do princípio de que as pessoas só podem ser ajudadas através de esmolas. a SEWA conta agora com mais de 900 000 filiadas em toda a Índia. Não há nada de errado nesta opção. No entanto. um sindicato que ajuda as mulheres indianas que trabalham por conta própria a alcançar os objectivos do «emprego pleno>>: trabalho. a depoimentos de celebridades e a anúncios em revistas para veicular a sua mensagem.o que. Simplesmente. Mas não se pode considerar uma empresa social.agricultores que se dedicam ao cultivo de um determinado produto agrícola. se os sócios que são proprietários da cooperativa forem pobres. por exemplo . Quando o movimento cooperativo foi criado por socialistas como Robert Owen no início do século XIX. Actualmente. recorrendo a anúncios televisivos. Um exemplo que se poderia dar é o das campanhas antitabágicas que muitos governos e algumas ONG têm vindo a desenvolver. o departamento de RSE de uma empresa pode fazer donativos a um hospital ou a uma escola. Por exemplo. Finalmente. de outra forma. rendimento e alimentação assegurados. As sócias do sindicato elegem as suas dirigentes e efectivamente dirigem a organização para benefício de todas. Nesse caso. conceder bolsas de estudo a algumas crianças pobres ou apoiar uma iniciativa de limpeza da praia ou do parque locais. reúnem grupos de pessoas ou de empresas . tentemos usar a nossa criatividade para desbloquear o potencial oculto que quase toda a gente recebeu de Deus. a infantários e à habitação. existem cooperativas de habitação que disponibilizam casas a preços acessíveis a pessoas da classe operária. É possível que uma cooperativa seja uma empresa social? Sim. acesso a cuidados de saúde. tinha objectivos sociais claros: proporcionar aos pobres o controlo sobre as suas próprias vidas e promover a auto-suficiência e o desenvolvimento económico. Um outro tipo de organização que poderia ser confundido com uma empresa social é a organização de tipo cooperativo. para pro- 37 . usando instrumentos e técnicas de marketing de negócios. Há programas implementados por outras organizações que fizeram «milagres>> similares com outros tipos de seres humanos por vezes considerados casos perdidos: toxicodependentes.sos óbvios . cooperativas de alimentação que facilitam o acesso a uma nutrição saudável a populações urbanas e cooperativas bancárias que fornecem serviços financeiros a consumidores que. 36 por definição.

Na mi~ha opinião. onde poucas pessoas têm ligação à rede de energia eléctrica regional. uma empresa que se considere empenhada nos princípios da RSE deveria praticar pelo menos estas medidas mínimas. dos seus procedimentos e das suas práticas. está directamente dedicada a mudar a situação económica dos pobres ou a criar alguma outra melhoria social no mundo. não basta evitar poluir. Um desses sistemas seria sustentável do ponto de vista ambiental. trata-se de um benefício social para os pobres do BrasiL Mas O Sol Brilha para Todos não é uma empresa sociaL O plano de 39 . mais uma vez. neste contexto. Uma empresa social. por outro lado. seguindo os procedimentos necessários para evitar o risco de danos físicos aos seus trabalhadores. Nem todas as empresas são ou deveriam ser empresas sociais. à responsabilidade ambiental. Tal implica que o negócio funcione de forma segura.por exemplo. incluindo a instalação do equipamento. Mas até mesmo as empresas com fins exclusivamente lucrativos deveriam seguir alguns princípios básicos de responsabilidade sociaL O primeiro princípio de responsabilidade que todo e qualquer líder empresarial deve seguir é assegurar-se de que a sua empresa não põe em perigo a vida de ninguém neste planeta. O conceito de RSE pode também referir-se a certas regras de boa cidadania que alguns líderes empresariais esclarecidos tentam seguir. Significa fabricar produtos e disponibilizar serviços que sejam seguros. fundadà pelo empresário social Fábio Rosa.este tipo de empreendimento social faz todo o sentido do ponto de vista económico. Rosa estudou a situação dos habitantes do estado mais meridional do Brasil. Uma empresa social dedica 100 por cento dos seus recursos a tornar o mundo um lugar melhor.é também necessário criar produtos que tornem a vida dos seus consumidores mais fácil. A empresa de Rosa está agora a instalar este tipo de sistema de energia solar em povoações por todo o Sul do BrasiL Rosa espera chegar a 750 000 lares que actualmente não têm electricidade. podemos conceber empresas nas quais não exista conflito entre objectivos sociais e objectivos económicos. Não há qualquer razão para não concebermos negócios como esses. Esta empresa com fins lucrativos. que o negócio serve para beneficiar um grupo alargado de pessoas em vez de se concentrar exclusivamente nos ganhos monetários dos seus accionistas. mais saudável e mais versátil. Segundo este princípio. Implica que a empresa em questão contribua para tornar o nosso planeta mais seguro do que seria sem ela. o Rio Grande do Sul. «Social» significa. Eu gostaria que todos os directores de empresas se comprometessem pessoalmente a não tornar o mundo um lugar mais perigoso do que seria sem o seu negócio. tal implica cumprir leis e regulamentações relativas à segurança. não é o mesmo que a empresa social tal como eu a defini. deixando-os em melhor estado do que aquele em que os encontrámos.é também necessário ajudar a limpar a atmosfera.mover a ideia de que essa empresa é «um bom vizinho» ou «um bom cidadão». É a mesma quantia que gastariam para alugar um sistema doméstico de energia solar. contribuindo para fazer do mundo um lugar melhor através das suas políticas. Como exemplo. velas. E significa tomar medidas para evitar poluir o ambiente ou contribuir para o aquecimento global. Evidentemente. Não há nada de errado na ideia de RSE. as lâmpadas e as tomadas. Uma empresa com fins lucrativos que pratica a RSE pode dedicar 95 por cento dos seus recursos à obtenção de lucros e 5 por cento (ou menos) a tornar o mundo um lugar melhor. dedica-se ao fornecimento de energia solar a brasileiros de zonas rurais. Mas também implica contribuir activamente para iniciativas empresariais de apoio ao bem-estar da sociedade a nível local. Descobriu que quase 70 por cento das famílias gastavam pelo menos onze dólares por mês em fontes de energia como querosene. nacional e global. mas ela não tem nenhuma relação real com a empresa social. Não basta simplesmente fabricar produtos que não prejudiquem os consumidores . os mares e o solo. considere-se a empresa O Sol Brilha para Todos. mais segura e mais saudáveL 38 E o terceiro princípio de responsabilidade é que a empresa deve ser conduzida num enquadramento de responsabilidades sociais e políticas estabelecidas pelas autoridades estatais e globais. pilhas e gás GPL. Mas. O segundo princípio de responsabilidade vai um pouco mais longe. As empresas que acreditam na RSE deveriam tentar ser boas cidadãs empresariais. Claramente. à integridade financeira e outras. Baseados em princípios como estes.

Ninguém vos apontará um dedo acusador se optarem pela via das empresas convencionais. uma empresa social é concebida exclusivamente para proporcionar benefícios sociais. No actual enquadramento económico que define uma empresa com fins lucrativos. A empresa social é melhor do que uma empresa normal? Depende do que se considera melhor ou pior. Eu não me oponho por princípio à obtenção de lucro. Nem estou a pedir-lhes que convertam as suas empresas em empresas sociais. Não estipula o fim do modelo de empresa com fins lucrativos. podem dar um contributo significativo para a resolução desse problema através do mecanismo da empresa sociaL Cabe a cada pessoa decidir se o quer fazer. Lucro e empresa social Algumas pessoas perguntam: porquê excluir a ideia de combinar o poder do princípio do lucro com o objectivo do benefício social. Mas talvez se sintam mais felizes se seguirem a via da empresa sociaL Eu posso testemunhar que é uma via possível! 1 Resultados de uma empresa medidos em termos sociais. (Uso frequentemente a palavra «superavit» para fazer uma distinção mais clara entre este tipo de lucro e os lucros obtidos por negócios convencionais. Por consequência. não deveríamos ser pragmáticos em relação à forma de o atingir? Poderíamos também incluir ser pragmáticos quanto à questão do lucro. Em contraste. acrescentar-lhe características de intervenção social . por exemplo. É um equilíbrio difícil de atingir. Trata-se do conceito do resultado duplo (double bottom fine) ou do resultado triplo (triple bottom line) 1 de que falam alguns homens e mulheres de negócios bem-intencionados. como a ideia é por vezes 40 formulada? Se o único objectivo é erradicar a pobreza. Se pretendemos resolver os problemas das pessoas. O que quero dizer é que. então uma empresa com fins lucrativos é melhor. ambientais e económicos. em seguida.segundo os cálculos de Rosa.desde que estas não interfiram com a maximização do lucro.negocws prevê uma taxa interna de retorno do investimento de entre 29 e 30 por cento . Algumas pessoas argumentariam que uma organização com fins lucrativos é capaz de combater a pobreza com mais eficácia. proporcionando uma nova opção aos consumidores.ou «sair-se bem fazendo o bem». Não existe a intenção de criar lucros para quaisquer investidores. Até mesmo as empresas sociais podem ter lucro. a taxa necessária para atrair investidores estrangeiros motivados pelo lucro. é possível que o serviço à comunidade venha a ser prejudicado para manter os investidores satisfeitos. a empresa social é uma nova categoria de empresa. Esta é uma opção com que uma empresa social não se depara. aos trabalhadores e aos empresários. No entanto. da T) 41 . No entanto. Traz uma nova dimensão ao mundo dos negócios e um novo sentimento de consciencialização social ao seio da comunidade de negócios. o que acontecerá se um dia as condições económicas do Brasil obrigarem Rosa a escolher entre uma alta taxa de lucro para os seus investidores estrangeiros e mensalidades a preços acessíveis para os seus clientes das zonas rurais? Como a empresa de Rosa está organizada como um negócio tradicional com fins lucrativos. Por exemplo. têm de conceber a sua empresa em termos de lucros em primeiro lugar e. na condição de que ele fique na empresa e seja usado para expandir os benefícios sociais que proporciona. As empresas com fins lucrativos empenhadas na RSE tentam articular a sua procura de lucro com considerações sociais. Se a intenção é fazer dinheiro. se um problema social vos preocupa. Permitam-me que seja perfeitamente claro: não estou a pedir aos homens e às mulheres de negócios que desistam dos seus negócios. desse modo. a sua posição é inexpugnável e a sua dedicação à causa social absoluta.ou não tão bem. (N. que beneficiam os seus proprietários. A perspectiva de obter lucro poderia fazer com que atraísse mais capital. a empresa social é a via indicada. Antes alarga o mercado. expandisse o seu modelo mais rapidamente e. evidentemente. As empresas com fins lucrativos não conseguem fazê-lo. o seu compromisso de obter lucros condiciona inevitavelmente o seu contributo para causas sociais.) O lucro em si não é uma má coisa. afectasse positivamente um maior número de pessoas a curto prazo.

Já me manifestei contra estas cobranças excessivas. Mas as taxas de juros não deveriam exceder substancialmente a soma dos custos dos fundos e da gestão do empréstimo.à custa dos pobres. Mas gostaria de definir explicitamente a empresa social como um negócio que exclui a procura de lucro ou o pagamento de dividendos aos seus proprietários.seria correcto? Corno deveria ser avaliada a decisão? E em tempos de crise económica. é fácil imaginar que os subdirectores e os funcionários ficarão ainda mais confusos. vamos dar aos pobres o auxílio de que necessitam para escaparem à pobreza. por exemplo . numa recessão. que é conseguir o máximo de lucro possível . que violam o espírito no qual o microcrédito foi originalmente criado . O que acontece mais frequentemente é que o director da empresa. Deixa de ver claramente. trata-se de beneficiar com o sofrimento de seres humanos nossos irmãos.é correcto eliminar totalmente os benefícios sociais na esperança de ajudar a empresa a sobreviver? Porquê ou porque não? O conceito de urna empresa «mista» não oferece um guia claro em questões como estas. (No Banco Grameen. por vezes acima dos 80 por cento ou mesmo dos 100 por cento ao ano.» O meu segundo argumento para definir a empresa social como um negócio que evita rigorosamente a procura do lucro é pragmático. então aconselho-vos a venderem-lhes todos os bens e serviços que possam. Quando se mistura lucro e benefício social e se diz que a empresa procurará atingir ambos os objectivos. os objectivos sociais irão gradual- 43 . Mas. o argumento do lucro tende a vencer. Quando as mulheres e os homens de negócios nos perguntam que lucros se podem obter servindo os pobres do mundo. Em primeiro lugar. Há três grandes razões por que isto é importante. A questão é muito real no seio da comunidade do microcrédito. em dilemas deste tipo.talvez inconscientemente. algumas empresas com fins lucrativos no mundo do microcrédito obtiveram grandes resultados financeiros ao cobrarem taxas de juros muito mais elevadas. à medida que a importância do modelo do microcrédito do Banco Grameen foi sendo amplamente reconhecida. Substituir os tradicionais prestamistas exploradores das povoações e aldeias por uma nova forma de exploração não era o que eu tinha em mente quando fundei o Banco Grameen. para que lado devem tombar os pratos da balança? E se fosse possível aumentar substancialmente o lucro cortando os benefícios sociais só um pouco. Os seus processos mentais ficam confusos.incluindo praticar as taxas de juros mais baixas possíveis e dar aos clientes a oportunidade de se tornarem proprietários do banco. Defendem esta prática com o argumento de que emprestar aos pobres é muito caro. Quando eles acederem à classe média. Acredito que é imoral obter lucro. não tenho qualquer intenção de coagir seja quem for a lançar uma empresa social ou a associar-se a uma empresa social já existente. o lucro sobrepõe-se sempre aos outros tipos de resultados.se inclina para o lucro e exagera os benefícios sociais que estão a ser criados.o 42 espírito de servir os pobres. está-se a complicar a vida para o director da empresa. Essa é a única maneira correcta de agir.) No entanto. Parece-me que a comum decência humana proíbe tal atitude. E. o argumento moral. Ao longo dos últimos vinte anos. Ao longo do tempo.Por conseguinte. Em tempos de crise. Na prática. Muitas dessas organizações seguem de perto os métodos utilizados de forma pioneira pelo Banco Grameen . se o director não tiver ideias muito claras sobre a real prioridade. são avaliados a taxas significativamente mais baixas. um pouco por todo o mundo surgiram organizações a disponibilizar pequenos empréstimos a pessoas pobres. incluindo os empréstimos a estudantes e os empréstimos para aquisição de habitação. Numa situação particular em que o lucro e o benefício social tenham de ser pesados. eu respondo por vezes: «Não tenho nada contra a procura do lucro. Não se trata de um mero argumento teórico.e a tentarem obter grandes lucros! Mas esperem até eles deixarem de ser pobres para os explorarem. em primeiro lugar. a nossa taxa de juro mais elevada é de 20 por cento e muitos tipos de empréstimo. Efectivamente.e especialmente procurar atingir o objectivo usual dos negócios. É verdade que é mais dispendioso gerir pequenos empréstimos a pessoas pobres do que empréstimos convencionais.

Estes bancos alimentares. obrigado a fazer malabarismos com dois tipos de objectivos contraditórios. É como se a ideia de lucro fosse uma espécie de muleta que as pessoas envolvidas no mundo dos negócios receiam pôr de lado. ligeiramente danificados ou incorrectamente etiquetados. As empresas sociais dão uma missão clara e inequívoca aos seus gestores. o maior desafio parece ser o de ultrapassar o obstáculo da regra segundo a qual não pode haver lucro. Quando o lucro e as necessidades humanas entram em conflito. Considere-se a analogia com tentar deixar de fumar. Para muitas pessoas.mas significa que os alimentos anteriormente não vendáveis já não estão disponíveis para serem doados aos bancos alimentares. No Outono de 2009. No mês do Ramadão. Não há necessidade de qualquer tipo de compromisso.o que significa que as pessoas perdem. por seu turno. enquanto a necessidade de fazer dinheiro se entranhará cada vez mais na cultura da empresa. Eis um pequeno exemplo. o lucro geralmente vence. distinta tanto do tradicional mundo dos negócios como das organizações de solidariedade social. Mas. Sejamos francos: a motivação do lucro é extremamente potente. O terceiro argumento é sistémico. 45 . «Não podemos ao menos tirar um pequeno lucro?». é possível fazê-lo! Se conseguem aceitar um «pequeno» lucro (como quer que ele seja definido). dependem de dádivas de indivíduos e de empresas para disporem de alimentos para distribuir às famílias carentes. É uma nova fonte de lucro para os supermercados . Não posso culpar os donos' dos supermercados por tirarem partido desta nova forma de fazer negócio. jamais se descobrirá o poder da verdadeira empresa social. É um óptimo exemplo de como a responsabilidade social empresarial deveria funcionar. podem também persuadir-se a não tirar lucro nenhum. pelo menos. Porque não petiscar qualquer coisa ou beber um gole de água durante o dia? Porque essa acção destruiria a força do compromisso mentaL Da mesma forma. Estes intermediários. muitos bancos alimentares têm recebido o apoio de supermercados com donativos de produtos alimentares embalados que não conseguiram vender por estarem fora de prazo. vendem os produtos a lojas de desconto. Uma das razões foi o aparecimento de um novo negócio no qual a mercadoria «não vendável» é vendida pelos supermercados a 30 ou 40 por cento do seu preço a intermediários. redefinir estruturas económicas e incentivar novas formas de pensar. a ver e a fazer as coisas de uma maneira nova. o director da empresa não se vê. Todas as decisões que a empresa toma podem ser medidas segundo um só padrão: o que nos permitirá proporcionar o maior benefício 44 possível à sociedade? Tal não significa que as decisões sejam sempre fáceis . A sua missão é maximizar os lucros de todas as formas possíveis. A empresa social tem que ver com cortar os laços com o enquadramento das empresas em moldes tradicionais . Nos últimos anos. ou seria contraproducente. Quando o conseguirem. Até se cortarem totalmente estes laços com a noção de ganho financeiro pessoal. perguntam-me por vezes.não com incorporar novos objectivos no enquadramento existente. por seu turno.«uma pequena» cedência destrói a tentativa de deixar de fumar. no entanto. muitos bancos alimentares dos Estados Unidos registaram uma diminuição nos donativos recebidos. muitos pobres dependem de bancos alimentares para não passarem fome. apodera-se logo da casa toda. encontrar-se-ão num mundo novo. abdicar completamente da atitude de procurar o lucro cria uma diferença importante para a pessoa que realmente quer empenhar-se na mudança social através de empresas. Nos Estados Unidos. Ajudaria. os muçulmanos não podem comer nem beber até depois do pôr do Sol. As pessoas com fome ficam encantadas por receberem estes itens «não vendáveis» e os donos dos supermercados obtêm o benefício de serem considerados bons membros da comunidade.a resolução criativa dos problemas é tão difícil nas empresas sociais como em empresas com fins lucrativos. que os vendem aos consumidores a um preço muito inferior ao usual. permitir-se dar «SÓ uma passa»? A resposta é simples . É necessário criar a empresa social como uma alternativa claramente definida.mente perder a sua importância. para mudar mentalidades. Mas este exemplo ilustra bem o perigo de deixar que as necessidades dos pobres sejam supridas através da generosidade de empresas com fins lucrativos. Confiem em mim. Mal põe o pé na soleira da porta.

que tínhamos diagnosticado na nossa interacção com as populações pobres do Bangladeche. No entanto. por exemplo. a decisão número quatro afirma: «Cultivaremos vegetais ao longo de todo o ano. farei apenas uma breve exposição 47 . criámos empresa após empresa. Neste espaço. Por exem- 46 plo. é uma força para o bem. Acredito firmemente que deveria ser incluída nela.» A maior parte dos clientes do Banco Grameen vive em comunidades sem sistemas sanitários modernos. A empresa social pode ser esse mecanismo . Com o tempo. Estar na empresa social é como estar numa zona para não fumadores . As dezasseis decisões foram sendo elaboradas ao longo dos primeiros anos do Banco Grameen e o toque final foi-lhes dado em 1984. a educação e a saúde. como. Foi assim que as organizações Grameen se envolveram na resolução de questões sociais para além de simplesmente providenciarem serviços financeiros . os Estados Unidos. é necessário um novo mecanismo. E depois. Desde então.» Esta decisão tornou-se parte do programa Grameen porque reparámos que muitas das famílias nossas clientes sofriam de problemas de saúde como a cegueira nocturna. A peça que falta no enquadramento teórico é aquilo a que se chama empresa sociaL Tudo começou porque o meu trabalho com o Banco Grameen me proporcionou o contacto com um grande número de pessoas pobres. considerem-se as dezasseis decisões . Criou um conto de fadas de prosperidade para todos . muitas das quais tinham problemas que ultrapassavam uma simples dificuldade de acesso ao crédito bancário. criámos programas separados. limpeza. O capitalismo criou pobreza ao concentrar-se exclusivamente no lucro. convenci-me de que é uma excelente maneira de abordar problemas sociais e económicos. no mundo em vias de desenvolvimento. mas que não está contemplada na nossa teoria económica. água própria para consumo. etc. A origem da ideia da empresa social A origem da ideia da empresa social foi realmente bastante simples: quando eu queria abordar um problema social ou económico.até mesmo uma pequena «passa» anularia o conceito. As latrinas com fossa são uma forma simples e prática de reduzir drasticamente a incidência de doenças transmitidas pelo contacto com as fezes humanas. Para cada problema que identificámos. têm sido uma parte integrante da abordagem de negócios do Banco Grameen.É este o problema do capitalismo tradicional.a lista de compromissos que pedimos a cada contraente de empréstimo no Banco Grameen que assuma para consolidar a sua posição e a da sua família e o seu potencial de crescimento. que é devida à deficiência de vitamina A. Ao todo. as normas culturais e políticas impedem o governo de assumir aresponsabilidade de resolver os problemas sociais. Consumiremos o suficiente e venderemos o excedente.um sonho que estava condenado a nunca se realizar. Uma descrição completa de todas as empresas Grameen ocuparia muitas páginas. Por estas e por outras razões. Foram suficientemente espertos para prever a incapacidade do capitalismo tradicional de resolver estes problemas. Por exemplo. ao longo do tempo.e foi assim que começámos a pensar em criar programas para melhorar todos os aspectos da vida das famílias pobres. os governos carecem da capacidade de gestão e dos recursos materiais para criar o tipo de Estado-Providência de que os Europeus desfrutam. É essa a razão por que n~uitos países europeus decidiram atribuir aos seus governos aresponsabilidade da resolução de necessidades sociais como a pobreza. que. Este era um problema cuja resolução estava ao seu alcance -porque não resolvê-lo? A decisão número nove diz: «Construiremos e usaremos latrinas com fossa. Nalguns outros países. criativa e eficaz. tentava resolver o problema criando um negócio à sua volta. nove das dezasseis decisões estão relacionadas com questões de saúde: habitações seguras.desde que se mantenha completamente livre das complicações da procura do lucro. O que é importante salientar é que as dezasseis decisões não têm a ver com a actividade bancária. de muitas outras formas. cada uma delas dedicada a abordar um problema social diferente. planeamento familiar. o desemprego.

poderão ler Criar Um Mundo sem Pobreza. Como 49 . olhei para o que já tínhamos conseguido realizar e apercebi-me de que o grupo de empresas da Grameen era diferente das empresas tradicionais. 1997) existe para fornecer cuidados de saúde de boa qualidade e a preços acessíveis a clientes do Banco Grameen e a outros interessados. o fundo tinha já acumulado o suficiente para conceder bolsas de estudo a 2500 estudantes pobres. incluindo o ensino pré-primário. • A Grameen Fisheries and Livestock Foundation [Fundação Grameen para as Pescas e a Agro-Pecuária} foi lançada em 1986 para adf!!inistrar cerca de mil lagos de pesca no Norte e no Oeste do Bangladeche. à chamada. Continuamos a expandir o fundo para poder conceder um número cada vez mais elevado de bolsas de estudo em cada ano.) • A Grameen Telecom e a Grameen Phone disponibilizam meios de telecomunicação modernos às pessoas por todo o Bangladeche. A Grameen Uddog (Grameen Empreendimento) ajudou tecelãs locais a levar a mercados internacionais uma linha de tecidos nova uniformizada sob a marca Grameen Check. Cada um destes projectos foi refinado. E cada nova empresa beneficiou dos ensinamentos retirados das experiências anteriores. • A Grameen Shakti (Grameen Energia. cuidados veterinários e outros serviços de apoio a mulheres pobres que pretendam dedicar-se à produção de lacticínios e a serviços de assistência a ·outras na expansão e melhoramento dos seus empreendimentos na área da produção de lacticínios. • A Grameen Shikkha (Grameen Educação) foi criada em 1997 para proporcionar o acesso ao ensino aos filhos das nossas clientes. a Grameen Phone tornou-se a maior empresa tributada no Bangladeche. dei a esta nova forma de empresa uma definição precisa e um nome: empresa social. Tem em funcionamento cinquenta e quatro clínicas e um programa de seguro de saúde que proporciona. foi lançada em 1996 e rapidamente expandiu a sua rede por todo o país.de alguns dos exemplos mais importantes. O Banco Grameen concedia um empréstimo a uma cliente para ela comprar um telemóvel e se tornar a «Senhora do telemóvel» da sua povoação ou aldeia. A Grameen Phone. • A Grameen Kalyari (Grameen Bem-Estar. A seu tempo. adicionou-se um programa de pecuária que proporciona formação. ministrado em centros do Banco Grameen. 1995) tornou-se a empresa de sistemas domésticos de energia solar de mais rápido crescimento no mundo. melhorado e modificado com base na experiência crescente do que resultava. Em meados de 2009. Terá também meio milhão de fogões melhorados e 50 000 instalações de biodiesel em funcionamento. a sua organização. com a criação de um fundo para conceder bolsas de estudo a estudantes pobres. As empresas convencionais existem para fazer dinheiro. Vende 14 000 sistemas domésticos de energia solar por mês às populações rurais do Bangladeche. • A Grameen Uddog (1993) e a Grameen Shamogree (1996) são empresas têxteis que criámos para recuperar e modernizar a indústria tradicional de teares manuais para fabricar belos tecidos de algodão e vestuário. Estamos agora a criar um sistema de saúde a nível nacional através de uma série de empresas sociais especializadas na prestação de cuidados de saúde. estas existem para resolver problemas sociais usando técnicas e modelos empresariais. que tinham ficado praticamente esgotados durante o período em que foram geridos por uma agência governamentaL No final de 2009. vendendo um serviço telefónico. uma empresa de telemóveis. Em 2009. tínhamos já organizado mais de três mil pessoas pobres em grupos que produzem duas mil toneladas de peixe por ano. No final de 2010. com enormes benefícios económicos e sociais. Cada uma destas empresas Grameen foi criada com o seu próprio plano de negócios. sofreu uma expansão. Em 2003. Criaram-se mais de 400 000 «senhoras do telemóvel» através deste programa. trabalham na manutenção dos lagos e recebem quase metade 48 do peixe em troca de uma parte do rendimento bruto. a quem não tivesse telefone próprio. (Se os leitores quiserem obter mais informações sobre a família de empresas Grameen. a sua declaração de missão e estrutura financeira. A Grameen Shamogree (Grameen Produtos) dedica-se à venda local de vestuário Grameen Check. terá meio milhão de unidades de energia solar em funcionamento nas zonas rurais. passando a incluir um Programa de Gestão de Bolsas de Estudo. vacinação de animais. Por fim. com mais de vinte e cinco milhões de assinantes. Em 2002. cuidados básicos de saúde às famílias aderentes pelo equivalente a dois dólares por ano.

empresas. 51 . A empresa social oferece uma opção aos investidores. O resultado foi que o microcrédito se tornou um fenómeno global. Podem ver o impacto imediatamente não em toda a sociedade. Ninguém é excluído. Expus as minhas ideias sobre o assunto em Criar Um Mundo sem Pobreza. terão criado uma semente e poderão plantá-la um milhao de vezes. Refiro-me muitas vezes ao potencial da empresa social quando falo sobre o meu sonho de um mundo em que a pobreza já não exista. Não há praticamente concorrência entre empresas.ou a quinhentos milhões. Grandes parcelas da economia.a maior parte das empresas sociais que eu já tinha criado não se adequava exactamente à definição. As decisões económicas são tomadas com base em considerações políticas. toda a economia são mantidas sob o controlo dos burocratas governamentais ou dos políticos. Quem sabe como emprestar dinheiro a cinco pessoas. Todos os intervenientes no mercado podem criar as suas próprias empresas sociais . da falta de habitação e das doenças. perguntam-me se a empresa social tem alguma relação com o socialismo ou o comunismo. Funciona numa economia aberta em que existe liberdade de escolha. 50 Empresa social e governo Por vezes. Não é imposta a ninguém. as pessoas talvez partam do princípio de que quem nota as falhas na teoria e na prática do capitalismo tem de alguma forma de estar aliado com os socialistas. «Milhões» é um número muito grande. não sei quanto tempo a humanidade demorará a erradicar a praga da pobreza (embora acredite firmemente que pode acontecer antes do que muitas pessoas pensam.digamos. a eficiência e a inovação tendem a desaparecer. perguntam-me frequentemente: «Quanto tempo será preciso para que este novo movimento tenha impacto na sociedade global?» Honestamente. mas numa parte dela. da fome.. fundações ou qualquer outra entidade social ou económica. o governo) controla a economia. Em consequência. sabe como emprestá-lo a cinco mil . sendo os seus esforços complementados pelos da sociedade civiL Os governos podem colaborar com empresas sociais dirigidas pela sociedade civil e por outro tipo de empresas. Foi assim que o Banco Grameen começou . Compreendi que me bastava continuar a repetir o que tinha feito. Nunca me passou pela cabeça perguntar: «Será que isto vai resolver o problema de cinquenta milhões de pobres no Bangladeche?» Perguntei apenas a mim próprio: «Posso fazer alguma coisa para ajudar os pobres deJobra?» Quando resolvi o problema de algumas pessoas. No socialismo e no comunismo. ao mesmo tempo. Aconselho vivamente todas as pessoas que tenham uma ideia para uma empresa social a começarem a explorá-la logo que possível. comecei a criar novas empresas que se adequassem à definição que tinha desenvolvido. primeiro a pequena escala e por fim a uma escala maior. A empresa social permite aos cidadãos envolverem-se em actividades tradicionalmente consideradas responsabilidade do governo.ou. Com o tempo. Mesmo que só melhorem a vida de cinco pessoas -tirando-as da pobreza. senti-me animado. o Estado (ou seja. governos. porque elas próprias poderão descobrir formas de os resolver cria~do as suas próprias empresas. entre 2030 e 2050). Mas às pessoas que estão a pensar em envolver-se em empresas sociais digo que não têm de esperar. vale a pena. proporcionando-lhes uma habitação ou acesso a cuidados de saúde . visto que as empresas sociais não são geridas por entidades orientadas para o lucro. se o vosso trabalho tiver um impacto positivo em cinco ou dez pessoas. a sociedade civil e os indivíduos têm acesso a um formato de empresa que podem usar para abordar problemas sociais importantes. nalguns sistemas. Muitas pessoas responderam entusiasticamente e foi assim que a empresa social veio a ser um movimento social e económico em rápido crescimento. o fardo do governo é aliviado. Numa sociedade em que a empresa social seja uma força económica dinâmica. as pessoas já não terão de esperar pelo governo para abordar problemas como os da pobreza. indivíduos. Acostumadas durante muitos anos à rivalidade entre capitalismo e comunismo.com empréstimos que totalizavam 27 dólares. Mas. A existência da empresa social significa que as empresas. os governos podem criar as suas próprias empresas sociais. Talvez devido a este contexto ambicioso. Não é necessário esperar até poder ver o impacto em milhões de pessoas. e.

os problemas sociais atormentam a humanidade . Pensem por um momento nos programas governamentais na vossa comunidade ou no vosso país que tiveram resultados decepcionantes. Indivíduos inteligentes.Além disso. descontaminando-a e canalizando-a para onde é necessária. produzindo benefícios partilhados que nenhum dos sectores foi capaz de produzir antes. à semelhança dos sistemas de fornecimento de água que a Veolia Water e outras empresas similares operam por todo o mundo. muitas vezes. estas duas empresas sociais são como quaisquer outras. está limitado pela sua base de recursos. Quando o sector da empresa social prosperar a par das empresas tradicionais com fins lucrativos. o abastecimento de água e tratamento de resíduos. talentosos e criativos conseguem produzir inovações que os governos não são capazes de desenvolver. por consequência. Evidentemente. Em muitos casos. simplesmente significa entregar propriedade pública a indivíduos bem relacionados. degradação ambiental. na prát~ca. A Grameen Danone é uma empresa de iogurtes que produz. comercializa e distribui o seu produto como qualquer outra empresa de iogurtes com fins lucrativos. a rede de transportes. Daí a necessidade da existência da empresa sociaL Se os governos já tivessem resolvido os problemas mais prementes do mundo. Em contraste. nós os que advogamos a causa da empresa social não temos fórmulas mágicas para resolver todos estes problemas 52 nem nos gabamos de as ter. Até agora. a empresa social oferece uma alternativa promissora a programas governamentais fracassados.dependência da Segurança Social. a única alternativa às empresas estatais era a «privatização» . A empresa social reconhece que a responsabilidade de resolver os problemas de uma sociedade é partilhada entre o governo e os cidadãos. a empresa social promove a concorrência e a liberdade de escolha ao proporcionar mais opções de bens e serviços às pessoas. não necessitaríamos de empresas sociais. Em vez disso. O que é mais importante ainda é que reconhece as capacidades que os indivíduos possuem e os governos não. obesidade. falta de habitação e de acesso a cuidados de saúde. tanto nos países pobres como nos ricos. o governo deveria representar todas as pessoas e. Mas as similaridades entre ambas são igualmente importantes. deveria assumir a principal responsabilidade pela resolução dos problemas sociais que criam sofrimento humano. em todo o mundo. que passam a explorar as suas novas aquisições para a obtenção de lucro pessoal. os trabalhadores e os gestores terão mais opções de carreira. Nalguns países mais afortunados. por conseguinte. A Grameen Veolia Water é uma empresa que faz o tratamento da água. Mas. os consumidores terão mais oportunidades de escolha. os serviços de energia eléctrica.. Contudo. o sistema hospitalar. desemprego. Nestes aspectos.que. doenças crónicas . Nesse grupo. Em teoria. Mas o que sabemos é que os esforços dos governos não têm os resultados esperados e é necessária uma nova abordagem. E fazem-no sem impor qualquer fardo económico seja a quem for. O governo recorre ao dinheiro dos contribuintes para tentar resolver problemas sociais e. 53 . as redes viárias e outras áreas. talvez se incluam o sistema público de ensino. Ao mesmo tempo. porque não experimentar transformar algumas destas organizações estatais em empresas sociais com a missão explícita de servir as necessidades das populações? Poderia ser uma forma de combinar a criatividade e a energia do mundo dos negócios com o objectivo social declarado dos governos. A empresa social privilegia o desenvolvimento e a possibilidade de experimentação de milhares de milhões de indivíduos. que são livres para criar qualquer tipo de organização para atingirem os seus objectivos pessoais e sociais. os governos são muitas vezes controlados por interesses específicos. por partidos políticos interesseiros ou por indivíduos corruptos. os aeroportos e portos de mar. a lista é interminável. tenho sublinhado as diferenças entre a empresa social e a empresa tradicional com fins lucrativos. A empresa social como uma nova forma de capitalismo Até este momento.. crime. Voltemos a nossa atenção para dois dos primeiros negócios sociais que criámos no Bangladeche. é o que acontece em maior ou menor medida. não há limites para a capacidade de expansão de uma empresa social através de fundos de investimento provenientes das mais variadas origens.

por exemplo. usar a criatividade na empresa para resolver um desafio relacionado com a saúde. a empresa social representa uma nova forma de os seres humanos expressarem o seu espírito empreendedor. Tal como 'outros tipos de empresas. Neste caso.neste caso. disposição para trabalhar arduamente. desde que se saiba adaptar essa experiência aos objectivos da empresa social. das mesmas pressões e dos mesmos desafios do mercado que as empresas com fins lucrativos. Por outras palavras. praticar uma política de preços que torne os seus produtos acessíveis ao público-alvo e. Mais uma vez. sempre que possível. aproveitar todas as oportunidades para criar rendimentos adicionais através da venda dos seus produtos a preços mais elevados a consumidores em melhores condições financeiras. esperarão pelos 54 resultados com mais paciência e será menos provável que desistam do seu investimento devido a uns dias ou umas semanas de resultados decepcionantes. Como os investidores em empresas sociais não procuram o lucro pessoal. Acima de tudo. expansão. Mas o mais importante são as qualidades pessoais que distinguem o verdadeiro empresário. Um empresário é alguém que corre riscos. a capacidade de formar uma equipa de trabalho. Está disposto a lidar com as dificuldades. No entanto. gestão. Os iogurtes produzidos pela Grameen Danone são enriquecidos com micronutrientes. estará brevemente disponível. Fornecerei mais pormenores sobre os desafios com que estas duas empresas se defrontam mais adiante neste livro. É óbvio que quem tem experiência ou conhecimentos extensos das empresas em moldes tradicionais terá de estar disposto a reorientar-se. uma formação em termos de negócio convencional pode tornar-se um obstáculo. o que cria um desafio: como disfarçar o sabor das vitaminas e dos minerais para que as crianças gostem do produto e queiram consumi-lo. Uma formação na área dos estudos de gestão. têm também algumas características únicas. Tal como as empresas com fins lucrativos. o problema de saúde pública requer uma solução empresarial inteligente . As empresas sociais operam no seio do mesmo sistema capitalista das empresas convencionais. uma empresa social pode expandir-se ou contrair-se e deve estar preparada para se defrontar com muitos dos mesmos tipos de problemas: financiamento.ou seja. para ir ao encontro da necessidade social é necessário encontrar uma solução para a formulação do produto . A Grameen Veolia Water está a debater-se com o problema de convencer as populações rurais a gastar uma parcela do seu reduzido rendimento familiar em água. de se relacionar com os colaboradores e de avaliar os resultados das próprias acções e a honestidade para admitir que se errou e aceitar que tem de se começar de novo. porque o futuro da empresa não está dependente do preço das suas acções. uma empresa social tem uma vantagem. as empresas sociais estão sujeitas a muitos dos mesmos sinais. um produto que elas estão habituadas a obter grátis. recrutamento de novos talentos. caso contrário. Está menos exposta a riscos de quebras nos períodos de flutuação dos mercados. uma pessoa motivada pelo desejo ardente de aplicar a sua ideia a uma empresa. espero. etc. Não fica satisfeito até o seu projecto ser implementado com sucesso e produzir os resultados desejados . Tenho a certeza de que seria útil poder contar com a experiência do mundo das empresas convencionais. a fazer experiências ousadas. uma solução no âmbito do marketing.quer se trate de uma recompensa financeira (no caso de uma empresa com fins lucrativos) quer de uma melhoria social (no caso de uma empresa social). uma nova forma de educação que. têm de encontrar maneiras de vender os seus produtos que cubram todos os custos de produção e possam gerar fundos suficientes para subsidiar a expansão do negócio. Tenho a sensação de que o tipo especial de empreendedorismo exigido pela empresa social é bastante semelhante ao necessário para uma empresa com fins lucrativos. todos os cálculos terão uma finalidade diferente. um MBA. Continuará a ser essencial encontrar formas de reduzir os custos . Para se ser bem-sucedido numa empresa social é necessário possuir um bom sentido prático de negócio. Este facto facilita o desenvolvimento de planos sólidos a longo prazo para atingir os objectivos desejados. O mais apropriado seria tirar um «MBA social».mas não cortando nos salários ou nos benefícios 55 . No mundo da empresa social. Mas já é possível detectar a existência de um padrão. pode ser útil se os ensinamentos forem aplicados ao sucesso da empresa social.Evidentemente. a trabalhar longas horas e a sofrer retrocessos e decepções pessoais sem desanimar. como. Têm de dar respostas adequadas aos desafios do mercado.

executivos. Se já alguma vez deu consigo a pensar: «Não gosto das coisas como elas são à minha volta. quero ver desaparecer essas coisas terríveis» -então a empresa social pode ser uma parte da vocação da sua vida. A empresa social oferece muitas opções. Experiências passadas que quase tinham esquecido tornam-se subitamente relevantes e úteis.mas não se tal implicar uma diminuição da qualidade e. Surgem novos desafios que os obrigarão a exercitar as faculdades intelectuais e emocionais que há muito não usavam.e depois tentar fazê-lo. A empresa social oferece também uma oportunidade de renovação individual. é doloroso viver num mundo em 56 que a fome. gestores.mas sem usar o poder do mercado para extrair valor de um grupo de pessoas em benefício de outro. Pode ser tão simples como reparar num problema local e pensar: «Será que alguém já t. sem nunca deixarmos as quatro paredes do trabalho rotineiro e do consumismo irreflectido. pessoalmente?» Espero que estejam a fazê-lo.:entou resolver o problema fazendo isto?» . Muitos de nós sentimo-nos prisioneiros de vidas «seguras». por consequência. Continuar-se-á a tentar tornar o produto ou o serviço tão acessível quanto possível. Descobri que a empresa social é um processo de aprendizagem fantástico. Ao mesmo tempo. mas os objectivos e os valores a atingir serão diferentes. nunca conseguem vivê-la. Começa com o idealismo e a esperança que estão profundamente entranhados em todos os seres humanos. O empreendedorismo é uma parte integral da natureza humana. mas também para aquelas pessoas que se sentem bem no mundo dos negócios com fins lucrativos. porque um dos objectivos deste livro é ajudar as pessoas a ver que a empresa social pode ser uma maneira maravilhosa de enriquecer as suas próprias experiências de vida. criativos. 57 . a doença. Atrevam-se e rapidamente descobrirão que estão a agir e a pensar de maneiras totalmente novas. dando-nos a oportunidade de reformular a nossa vida ao mesmo tempo que melhoramos o planeta em que vivemos. agentes de serviços ou seja o que for. avançarão no sentido de se transformarem em pessoas multidimensionais. A empresa social é uma nova maneira de enquadrar a nossa existência. consultores. Toda a gente pode tentar encontrar o papel que melhor se adequa ao seu perfil como investidores.não só para as pessoas que talvez não se sintam à vontade com a procura limitadora e monolítica de lucro que caracteriza os negócios convencionais. Milhões de pessoas de todos os estratos sociais sonham com a mudança. Todos os conhecimentos desenvolvidos numa empresa convencional serão muito úteis. uma redução dos benefícios para o consumidor. O que a empresa social lhe oferece Neste momento. em vez de seres robóticos unicamente movidos pelo lucro. O que é importante é envolver-se e descobrir a sua própria maneira de fazer uma diferença positiva no mundo. Ninguém é excluído à partida da empresa social. Continuarão a procurar-se formas interessantes de segmentar a base de clientes . a pobreza. A empresa social proporciona uma maneira nova e excitante de o expressar. comerciantes.das pessoas pobres que constituem a força de trabalho. Quem não se acha capaz de criar uma semente pode pegar numa semente que já exista e semeá-la num outro local. talvez os leitores estejam a começar a perguntar-se: «0 que significa o c~nceito de empresa social para mim. Esse facto agrada-me. promotores. Mas nem mesmo a criatividade a esta pequena escala é um pré-requisito. gostaríamos de poder escapar para um tipo de vida diferente em que pudéssemos deixar uma marca pessoal no nosso planeta e descobrir os talentos inesgotáveis que existem dentro de nós. Lentamente. mas. de algum modo. o analfabetismo e o desemprego afligem tantas pessoas. Uma pequena solução local pode tornar-se a semente de uma solução global. A motivação para iniciar uma empresa social ou para se associar a uma empresa social já existente é simples. fornecedores. verão coisas que nunca viram antes. «Criatividade» não tem de significar algo de grandioso. Graças às «lentes da empresa social» que passaram a usar. A empresa social também proporciona um veículo para expressar a criatividade que milhões de pessoas têm dentro de si.

na realidade. flexível e adaptável. as artes. as crises interligadas da economia. a empresa social tem uma capacidade infinita de mudança. oferecendo a possibilidade de trazer milhões de novos consumidores para o mercado. Acham que o mundo sempre foi o que é e que não há maneira de mudar a natureza humana. da 58 saúde e da sociedade. os mercados livres prosperam em sociedades em tempos fechadas. Um conceito de empresa social pode ser desenvolvido numa base experimental e implementado de forma lenta ou rápida. Não temos escravatura. Uma ideia cujo moment~ chegou Vivemos em tempos excitantes. mesmo quando confrontados com a tirania e o egoísmo. acredito que ela é fundamentalmente boa. A empresa social não envolve qualquer tipo de coerção sobre seja quem for. não passam de agiotas disfarçados. Os governos podem então apoiar as empresas sociais em todas as direcções que pretendam. do ambiente. Mencionei já a crise económica global que começou em 2008 e desvendou os pontos fracos da teoria capitalista tradicional. porque o conceito é muito forte e. à espera do momento certo para proporcionar os seus benefícios à sociedade. Tal como a própria vida. planear e criar empresas sociais.assim como algumas pessoas equivocadas têm aplicado o termo «microcrédito» a empresas que. a de empresa social está sujeita a usos incorrectos e a deturpações. os valores sociais. Não temos apartbeid. Além disso. Não temos pestes. O mundo de hoje não é o mundo em que viveram os nossos antepassados. da agricultura. Alarga o legue de escolhas livres em vez de o restringir. a crise actual. Pode manter-se em estado latente durante algum tempo. ao assumir aresponsabilidade de uma acção social particular em benefício de toda a nação. para que os cidadãos tenham hipóteses de decidir que acção preferem sem se criarem crises políticas. desenvolvimento e crescimento. propõe uma forma de a revitalizar. o cumprimento dos direitos humanos é exigido por todo o mundo . Não temos monarquia. Quanto à natureza humana. o destino da empresa social dependerá da sua capacidade de tocar o coração das pessoas. É por essa razão que a religião. Os rebentos da justiça e da misericórdia estão sempre a tentar desabrochar por entre as fendas. Se cuidarmos deles e os fertilizarmos. A mudança acontece de facto e é moldada por nós.A empresa social é excitante e divertido. As mulheres têm direito ao voto.temos até um presidente negro nos Estados Unidos. Cabe aos indivíduos conceber. o mercado livre decidirá quais as empresas sociais que sobreviverão e quais as que fracassarão. A empresa social tem uma melhor hipótese de mudar o mundo do que algumas ideias passadas. Adequa-se perfeitamente ao sistema capitalista. Como qualquer outra ideia. Em seguida. Se a empresa social se 59 . a cultura e a caridade têm prosperado ao longo da História. para ser mais exacto. ou. no pessimismo e no desespero. Pode ainda acrescentar-se que a empresa social ajuda os governos a partilharem com a sociedade civil o seu fardo de responsabilidade pela mudança social. As pessoas bem-intencionadas terão de se precaver contra quem possa usar abusivamente o bom nome da empresa social. proporciona uma oportunidade para experimentar novas soluções com audácia. Muitas pessoas argumentam gue não vale a pena tentar mudar o mundo. Mas pode dizer-se o mesmo sobre gualguer conceito básico. Algumas pessoas com poder procurarão maneiras de distorcer o conceito e manobrá-lo para seu benefício . Para muitas pessoas. A crise da actualidade dá-nos uma oportunidade de remodelar a teoria económica para que ela reflicta a realidade multifacetada da natureza humana. Mas uma crise é também uma oportunidade para encetar reformas. ao mesmo tempo. da energia. a boa governação. É fácil voltar a cair na apatia. Não é verdade. quer através da empresa social quer através de qualquer outro meio. o principal obstáculo a empenharem-se numa empresa social é uma questão de atitude. Em vez de ameaçar a estrutura de negócios existente. Contribui também para que os governos evitem criar ou alargar quaisquer fossos políticos. poderemos transformar este planeta no jardim que todos os seres humanos sonham habitar.numa era em que o mundo está pronto para o tipo de inacreditável mudança positiva que a empresa social pode criar. Em última instância.

Na altura em que acabei de escrever esse livro. Em última instância. ninguém poderá detê-la.plantando árvores. 60 CAPÍTULO 2 Os problemas do crescimento Lições de adaptação e de mudança da história da Grameen Danone No meu último livro.para os indivíduos. Os primeiros boiões de iogurte Shokti Doi. Prosperará. estavam a ser produzidos e as senhoras da Grameen que tinham sido recrutadas como agentes de vendas locais estavam a começar a vendê-los a amigos e vizinhos. será em consequência das escolhas livres das pessoas. não vejo qualquer limite superior no papel da empresa social na economia global. Criar Um Mundo sem Pobreza. para a sociedade. A empresa tinha a esperança de em breve começar a construir uma rede de cerca de cinquenta pequenas fábricas que pudessem fornecer nutritivos iogurtes Shokti Doi às crianças de todo o país. Sentíamo-nos muito entusiasmados com este esforço pioneiro para demonstrar que uma empresa social podia ser auto-sustentável e ao mesmo tempo criar importantes benefícios para os seus clientes. O plano da Grameen Danone consistia em usar o sucesso da primeira fábrica de iogurtes como rampa de lançamento para expandir o conceito por todo o país.tornar parte do sonho de um mundo melhor. a fábrica de iogurtes da Grameen Danone em Bogra. para que ela possa rapidamente espalhar-se por todo o país e pelo mundo. a Grameen Danone obteve uma experiência valiosa neste negócio. Os pais que actualmente aconselham os filhos a ganhar uns trocos entregando jornais ao domicílio ou montando uma barraguinha para vender bebidas frescas em dias de Verão passarão a animá-los a criarem pequenas empresas sociais destinadas a resolver os problemas do seu bairro . Como acontece muitas vezes na vida. a experiência já está em curso. Pessoalmente. Se tal acontecer. estava a entrar em funcionamento. a humanidade vai envolver-se numa excitante experiência que revelará as respostas a questões como estas. a primeira empresa social concebida como tal. no início de 2007. Verificou-se um aumento cons- 61 . para o mundo? E até que ponto a empresa social pode conduzir-nos na via para um mundo mais perfeito. Em anos vindouros. Haverá um rácio ideal entre os dois tipos de empresas . fornecedores e outros membros da comunidade. o papel da empresa social dependerá do que todas as pessoas quiserem. não devido a qualquer coerção. no Bangladeche. Como o resto deste livro demonstrará. onde cada ser humano tenha a oportunidade de viver uma vida digna. fazendo recados aos vizinhos idosos. enriquecidos com nutrientes necessários para a saúde das crianças do Bangladeche. Chegará o momento em que a empresa social deixará de ser apenas uma parte aceite do sistema capitalista para passar a ser especialmente apreciada pela sua abordagem criativa e idealista do mundo. livre e em paz? Nas próximas gerações. sendo o primeiro prémio um subsídio generoso para a melhor ideia. Ao longo dos últimos três anos. talvez a empresa social passe a ocupar uma proporção significativa do mundo dos negócios em geral. Teoricamente. toda uma economia poderia ser constituída por empresas sociais. contei a história da Grameen Danone. não foi assim tão fácil. Os programas de televisão que actualmente privilegiam as oportunidades no mundo do espectáculo desafiarão os concorrentes a desenvolverem ideias de empresas sociais inovadoras. mesmo em circunstâncias adversas. cuidando de animais abandonados.

que esperamos seja duradoura. Esta área era. . 63 . reformular o seu modelo de empresa. mas cujo objectivo é criar benefícios sociais em vez de gerar lucros-.tante das vendas durante o ano que se seguiu ao lançamento do negócio . E todos eles nos ensinaram lições que. abordar novos grupos de clientes e introduzir novos produtos para segmentos diversificados de consumidores. Durante um almoço em Paris. A área de especialização da Danone significava que a nutrição seria um foco natural para o negócio. em Novembro de 2010. se conseguíssemos criar uma marca de iogurte que fosse enriquecida com vitaminas e outros nutrientes. frequentemente ur:p efeito secundário da subnutrição. é muito mais do que o ligeiro contratempo que constitui geralmente nos países desenvolvidos. muito popular entre todas as pessoas. apelativa para as crianças e acessível aos pobres. Riboud ficou intrigado. mostrou-se disposto a aderir ao projecto. incluindo as crianças. Outros são específicos do modelo da empresa social. Entre as deficiências nutricionais mais comuns contam-se as de ferro (que afecta 49 por cento das crianças mais pequenas). E. das vitaminas A. poderíamos proporcionar um importante benefício às famílias do Bangladeche. Poderíamos reduzir a taxa de doenças. perto de Daca. O iogurte não é só o produto que tornou a Danone famosa em todo o mundo. propus a Riboud: «Porque não criamos uma Grameen Danone no Bangladeche com a empresa social?» Ele gostou da ideia. B 2 e C. a nós e a outras pessoas que estejam interessadas em criar empresas sociais. indubitavelmente. O que é mais importante ainda é que o iogurte é um lacticínio natural rico em cálcio e proteína. evidentemente. Em Fevereiro. de cálcio. especialmente em zonas rurais. modificar a fórmula do produto.ao longo deste percurso. um colapso devido a factores económicos que ninguém tinha previsto. A empresa teve de reinventar o seu sistema de vendas e de distribuição. Metade das crianças do meu país sofre de subnutrição.um negócio que é auto-sustentável. E desse simples acordo nasceu a Grameen Danone. serão úteis no futuro. enérgicos e produtivos. em seguida.é muitas vezes fatal. voltámos a uma curva ascendente de crescimento. o presidente do conselho de administração e director-geral do Groupe Danone. Após uma série de debates. Alguns são problemas com os quais é provável que qualquer empresa se depare. do mau funcionamento do sistema imunitário a problemas de visão. Mas uma coisa é certa . Gestores talentosos das nossas duas organizações passaram o ano seguinte ou mais tempo ainda a desenvolver a ideia da nossa empresa social. A carência destes nutrientes causa uma série de problemas de saúde. O nascimento de uma empresa social A Grameen Danone nasceu numa conversa entre mim e Franck Riboud. uma daquelas em que se registavam maiores necessidades entre os pobres do Bangladeche. muito próximo do nível que precisamos de atingir para cobrir todos os custos operacionais e gerar um superavit para cobrir as despesas fixas. Mas queria saber: «0 que é uma empresa social?» Depois de eu lhe ter explicado o conceito . «Vamos fazê-lo». ambos nutrientes essenciais de que muitos jovens do Bangladeche carecem. ultrapassámos o número mágico das cem toneladas por mês. disse. Apercebemo-:-nos de que. Promete ser um ano excitante para a Grameen Danone. visto que as crianças que não são bem alimentadas mais dificilmente se tornarão adultos com estudos. melhorar os níveis de energia das crianças e fazer com que aumentasse a sua participação nas actividades escolares e noutras actividades importantes para o seu desenvolvimento. 62 Melhor ainda. aprendemos muitas lições sobre os desafios inerentes à construção de uma empresa social sustentável. de iodina e de zinco. Planeamos aumentar a capacidade de produção da fábrica de Bogra para duzentas toneladas por mês acrescentando alguns novos meios de produção e estamos a avançar a todo o vapor para iniciar a produção na nossa segunda fábrica. decidimos que a melhor maneira de dar início à nossa colaboração seria com um negócio de iogurtes. A diarreia. a longo prazo a subnutrição generalizada reduz as perspe~tivas de desenvolvimento económico.e. Em 2010. É por isso que eu penso que a história da Grameen Danone é uma história que vale a pena partilhar. É também um alimento tradicional no Bangladeche. acreditamos.

As crianças dos arredores da fábrica provaram as amostras de iogurte e pediram mais . foi seleccionado para trabalhar com Faber. transmitindo-lhes os padrões de elevada qualidade em termos de produção. que tem um conhecimento profundo das necessidades dos pobres do Bangladeche e tinha colaborado de perto comigo em muitos projectos da Grameen. que uma empresa global como a Danone normalmente construiria. Uma delas foi a decisão de construir uma fábrica de iogurtes pequena em vez de uma fábrica de grandes dimensões. Contém equipamento para tratamento da água. por essa razão. especialistas de produção e outros para se reunirem e colaborarem connosco no Bangladeche ao longo de 2006. a cerca de 165 quilómetros de Daca. Esta escala teria vários benefícios. as equipas da Grameen e da Danone seleccionaram um local perto da cidade de Bogra. assim como painéis solares para minimizar o impacto sobre o ambiente. Noventa por cento do mercado do leite no Bangladeche funciona numa base que se pode considerar «informal>>. tratava-se apenas das linhas gerais da nossa ideia. os agricultores simplesmente levam o leite em carroças para os. Trabalhando em cooperação. terminasse o projecto e avançasse para o seu compromisso internacional seguinte. a nossa empresa social dedicada aos cuidados de saúde. A fórmula incluía também uma série de micronutrientes de que as crianças do Bangladeche necessitavam desesperadamente para serem saudáveis. à família e aos vizinhos.. Gavelle considerou a nova fábrica «gira>>. o meu bom amigo Imamus Sultan. trouxe uma equipa de nutricionistas. Nutricionistas.mercados locais ou vendem-no aos amigos. dispositivos de reciclagem e uma unidade de biodiesel que converte resíduos naturais em energia. para construir a primeira fábrica. consultores de negócios. Quando a fábrica estava a ser construída. Deu formação a uma equipa de trabalhadores do Bangladeche para gerirem a fábrica. para conceber o projecto da fábrica e supervisionar a sua construção. é pequena mas altamente eficiente e ecológica. a capital do Bangladeche.Evidentemente. O vice-presidente executivo para as operações na Ásia-Pacífico da Danone. eliminando a necessidade de dispendiosos camiões-frigorífico e armazéns. limitaria a área de distribuição. Foi também planeada uma rede de fornecimento local dos ingredientes. especialmente o leite. De facto. Por outras palavras. reduzindo os custos iniciais. Por fim. Eu tinha a esperança de que os habitantes das zonas vizinhas da fábrica da Grameen Danone viessem a considerá-la «a nossa fábrica>> e. actualmente co-director-geral do Groupe Danone. o director das operações na Ásia-Pacífico da empresa. tais como vitamina ·A. aceitou o desafio e abordou o projecto num espírito de experimentação. Emmanuel Faber. No entanto. cálcio.. foi desenvolvida uma fórmula em que se usava melaço de tâmara (um produto do Bangladeche) como adoçante. outras importantes decisões. ferro. mas nunca tinha construído uma fábrica minúscula. a fornecedores locais e os consumidores locais seriam os seus principais clientes. zinco e iodina. da China ao Brasil. segurança e pureza pelos quais a Danone se rege em todo o mundo. e simplificaria o problema de cont~atação de pessoal. espeCialistas de produção de alimentos e técnicos de marketing trabalhavam com as populações locais do Bangladeche para testar diversas· receitas para o iogurte. visto que uma pequena fábrica requereria apenas alguns trabalhadores e não dezenas ou mesmo centenas. empresari~tis estavam a ser tomadas ao mesmo tempo. Realizámos a cerimónia do início da construção em 14 de Julho de 2006 e em menos de sei_s meses Gavelle e a sua equipa de trabalhadores da construção civil e de engenheiros acabaram de construir fábrica. Da Grameen Kalyan. Uma meia dúzia de decisões foram especialmente cruciais. A Danone enviou Guy Gavelle. Com menos de 700m2 .. Era importante que a fábrica de Bogra estivesse pronta a funcionar sem supervisão externa_ quando Gavelle. a 65 . O desenvolvimento do plano de negócio completo revelou-se bastante complexo. Poderia adquirir a sua matéria-prim~. Minimizaria o risco do investimento da Danone. Um factor ainda mais importante é que uma fábrica pequena tornar-se-ia parte da comunidade e da economia locais. um só iogurte proporcionava 30 por cento da dose diária recomendada destes nutrientes cruciais. Satisfeito com o seu trabalho. a apoiassem. Gavelle ·tinha já estado envolvido na construção de instalações para a Danone por todo o 64 mundo.

com uma população de mais de 100 000 habitantes na cidade e cerca de 200 000 nas áreas circundantes (num raio de cerca de trinta quilómetros). Mas o número de lojas nas quais o Shokti Doi podia ser vendido era bastante reduzido. Bogra é uma cidade bastante grande. O segundo elo da operação de vendas da Grameen Danone eram as «senhoras da Grameen».ao cultivo de vegetais em pequenos terrenos. para decorar a tampa da embalagem de iogurte. os iogurtes produzidos localmente que podiam comprar-se nas lojas eram vendidos pelo equivalente a cerca de 30 cêntimos por boião . a Grameen Danone fez os possíveis por promover o produto junto dos proprietários das lojas e numa questão de meses ele estava disponível em pequenas mercearias na cidade e nos seus arredores. Como já mencionei. Em contraste.. A Grameen Danone recrutou uma série das nossas clientes bancárias de Bogra e arredores. Foi um momento de grande excitação e esperança para os membros da equipa Grameen Danone. Um deles era uma série de pequenas mercearias localizadas em Bogra e nos seus arredores. São empresárias que obtiveram empréstimos do Banco Grameen e usam o dinheiro para montar ou expandir pequenas empresas com as quais ganham o seu próprio sustento e o da sua família. O equipamento funcionava 66 bem. deu-lhes formação sobre os benefícios do Shokti Doi e forneceu-lhes sacos térmicos para transportarem os iogurtes na venda de porta em porta. A empresa criou o nome Shokti Doi. E. A ideia era que uma vendedora efi- 67 . a Grameen Danone teve de pensar na questão do marketing e das vendas. Com base numa sondagem realizada a crianças da zona. A razão é que o iogurte requer refrigeração e o abastecimento de energia eléctrica nas cidades de província do Bangladeche. Esta personagem tornou-se rapidamente uma das favoritas das crianças da zona. entre trezentas e quatrocentas. a flectir os músculos. à cestaria. Mas as vendas não estavam a aumentar muito rapidamente. mesmo numa cidade como Bogra. Se não resultar ao princípio . É o equivalente a cerca de sete cêntimos eni divisa americana. o iogurte era cremoso e delicioso e a maior parte das pessoas que o provavam gostava dele. mas demasiado caro para muitas famílias rurais do Bangladeche. o Banco Grameen tinha colaborado na criação da Fundação Grameen para as Pescas e a Agro-Pecuária. O objectivo. que usam o empréstimo do Banco Grameen para comprar telemóveis com os quais prestam um serviço telefónico aos vizinhos que não têm telefone próprio. tudo parecia correr sobre rodas. a criar galinhas e gado. como qualquer novo produto. A Grameen Danone pôde firmar contrato com a fundação para receber um fornecimento garantido de leite. As senhoras da Grameen dedicam-se a todo o tipo de negócio. evidentemente. Ao longo dos primeiros meses de funcionamento da fábrica de Bogra.. não é fiáveL No entanto. era fazer chegar o nosso iogurte muito nutritivo ao ~aior número possível de pobres. Em Fevereiro de 2007. A Grameen Danone dependia de uma «cadeia de dois elos» para distribuir e vender o Shokti Doi.Este mercado «atrasado» do leite poderia ter dificultado seriamente a garantia de fornecimento de matéria-prima à Danone.pouco dinheiro pelos padrões ocidentais. Quando lançámos a Grameen Danone. as primeiras embalagens comerciais de Shokti Doi saíam da linha de produção em Bogra. escolheu-se um leão como mascote para simbolizar o produto. seguro de animais. A Grameen Danone passou os meses da Primavera e do Verão de 2007 a tentar descobrir a razão. E foi então que as coisas começaram a ficar interessantes. O preço do iogurte foi fixado em cinco takas por um boião de 80 gramas. algumas são também «senhoras do telemóvel». acreditávamos que as senhoras da Grameen formariam uma importante rede de vendas do nosso iogurte. uma rede de pequenos agricultores a quem se proporcionam microcrédito. etc. A Grameen Danone tencionava pagar uma comissão de vendas de meio taka por cada boião vendido. Um artista desenhou um leão com um ar simpático. serviços veterinários e formação. que na língua bengali significa «iogurte para dar energia». à confecção e à venda de vestuário. Foi aqui que a nossa implantação na economia rural do país nos foi muito útiL Em 2000.

dedicam-se à tecelagem ou à cestaria. Seleccionam as senhoras. Mas não as treinam adequadamente em técnicas de vendas. Após sete meses de vendas praticamente estagnadas. a empresa tentou compreender o problema e discutiu-o com o pessoal da Grameen e de ONG. e assegurou-se de que cada vendedora contava com o apoio da sua comunidade. a Grameen Danone teve um período de seis meses consecutivos de aumento das vendas. É difícil para elas saírem de casa sem o apoio do marido. as vendas das senhoras da Grameen foram bastante reduzidas. uma mulher nunca é um ser isolado que vive e trabalha só para si. Os clientes queixavam-se de que o iogurte da Grameen Danone não era suficientemente doce. A Grameen Danone teve o cuidado de envolver as famílias das mulheres.especialmente o marido. as mulheres tendem a não se afastar de casa. O que é mais importante ainda é que não envolvem toda a comunidade das mulheres em questão. Na cultura rural do Bangladeche. O resultado foi que o número de vendedoras aumentou consistentemente. (Mesmo assim. a venda de Shokti Doi parecia ter estacionado nos três mil boiões por dia. Não era o suficiente para que a nossa bela fábrica fosse auto-sustentável nem para causar o impacto a nível da nutrição com que tínhamos contado. o processo de recrutamento. Um outro elemento ainda mais animador era o facto de 69 . A maior parte das mulheres que contraem empréstimo com o Banco Grameen tem um negócio em casa . Contudo. durante os primeiros meses de 2007. têm de conhecer a sua família também . A segunda coisa boa que aconteceu durante o Verão de 2007 foi a contratação de um director executivo a tempo inteiro. selecção e formação das vendedoras foi completamente reestruturado. dão-lhes formação sobre o iogurte e depois enviam-nas para o terreno para o venderem. Por vezes. Sob a nova liderança. Se querem criar uma parceria de sucesso com ela. entre Outubro de 2007 e Março de 2008. No final do Verão de 2007. Compreenderam que uma barreira cultural os tinha impedido de colaborar mais eficazmente com as mulheres das povoações uma barreira que era ainda mais forte por não ser explícita.) Os benefícios de todas estas alterações não tardaram a ser visíveis. vendiam iogurtes durante alguns dias e desistiam sem darem qualquer justificação. em Outubro de 2007 assistiu-se à maior subida de vendas da breve história da Grameen Danone. As vendas mensais de iogurte subiram vertiginosamente durante este período. Em primeiro lugar. De facto.» E explicaram: Fazem algumas coisas bem.cultivam produtos agrícolas. As tentativas de recrutamento da Grameen Danone não ganhavam um ímpeto próprio. Mas vender de porta em porta é outra coisa. Os especialistas locais consultados deram o seguinte conselho: «0 problema é da vossa gestão. especialmente os maridos. parecia estar a ganhar consistência. Esta regra aplica-se especialmente quando se fala de vendas de porta em porta. A Grameen Danone introduziu também uma pequena alteração na receita do iogurte. algumas mulheres inscreviam-se no programa. aconteceram duas coisas que tiraram a Grameen Danone do ponto de partida onde parecia ter ficado atolada.ciente poderia vender um número de iogurtes que lhe permitisse ganhar umas centenas de takas por mês . No Bangladeche.um rendimento extra bastante significativo para uma família rural do Bangladeche. A Grameen Danone acrescentou um pouco mais de aromatizante de melaço. Seleccionar um gestor local profundamente enraizado na cultura da comunidade foi um grande passo no sentido de tornar a Grameen Danone uma empresa que as populações locais podiam compreender e apo1ar. É parte de uma família. de apenas 29 em Setembro de 2007 para 270 em Março do ano seguinte. a mulher sentirá que não pode manter essa ocupação. O modelo de vendas com a colaboração das senhoras da Grameen. Este aumento das vendas ficou a dever-se quase por inteiro à rede rural de vendas em rápido crescimento. 68 Foi uma revelação para a equipa da Grameen Danone. Novembro foi melhor e Dezembro melhor ainda. O resultado era que a Grameen Danone nunca tinha mais de trinta vendedoras a tentarem vender o iogurte aos seus vizinhos. Se o marido não der a sua aprovação. Contando com as lojas em Bogra e a rede de vendedoras. que a empresa tinha concebido desde o início do projecto. o iogurte da Grameen Danone continuava a não ser tão doce quanto o produto tradicional vendido nas ruas de Bogra.

Entre elas. Assim. um mercado agrícola único. uma subida no preço dos alimentos é um mero inconveniente. Para as populações das nações pobres do Sul. que afectaram a produção de cereais de grandes exportadores como a Austrália e os Estados Unidos. O co. debateu-se com o problema durante mais de dois meses. No Bangladeche. o que não só aumentou a procura de produtos alimentares básicos mas também de produtos mais caros. ql. a subida dos preços dos cereais e de outros produtos 70 alimentares no mundo desenvolvido durante 2006 e 2007 foi acompanhada por igual subida nos países em vias de desenvolvimento. o mundo tornou-se. Contudo. É um problema que se tornará muito pior devido ao impacto crescente do aquecimento global e da subida do nível dos oceanos que está a provocar. contavam-se: • Secas imprevistas. os terrenos agrícolas e os· aglomerados populacionais são levados na enxurrada. em Março de 2008. os preços dos alimentos a nível global tinham começado a subir consistentemente. significa com frequência a diferença entre a vida e a morte. que levou ao aumento do preço dos transportes de produtos agrícolas.o ingrediente mais importante do iogurte duplicou. por sua vez.um estudo feito pela Grameen Danone durante o Inverno de 2007 indicar que. quando a natureza produz uma versão mais extrema da precipitação sazonal. 71 .J-e. os acontecimentos no mundo exterior começavam a ter um sério impacto na empresa. • Aumento do preço do p~Stróleo e derivados. Reagir a uma crise global Desde o início de 2006. embora as iniciativas de vendas e de marketing da Grameen Danone estivessem a obter resultados. nas povoações onde a rede de vendas estava mais desenvolvida. com a consequente escassez desses cereais. Juntamente com o preço do arroz e da carne. destruição de casas e muitas mortes. Estas inundações anuais são habitualmente um acontecimento benigno. o preço do leite . assim como dos custos dos fertilizantes derivados do petróleo. • Crescimento demográfico e aumento do poder de compra em países em vias de desenvolvimento como a Índia e a China. dependem do preço dos cereais e de outras rações para animais. Este facto significa que as tendências dos preços num mercado acabam por afectar todos os países. Para a Grameen Danone. Havia várias causas para esta subida. como a carne. Os títulos dos jornais e as notícias dos canais televisivos dando conta de motins de esfomeados. O custo mais elevado das matérias-primas absorveu completamente a pequena margem de lucro que a Grameen Danone tinha estabelecido quando fixou o preço do seu produto.. quando as vendas atingiram o seu pico. incluindo representantes do Groupe Danone e da Grameen especialistas de negócios franceses e especialistas em questões das mulheres e das crianças das zonas rurais do Bangladeche .nselho de administração da Grameen Danone. De facto. esta não era uma maneira sustentável de fazer negócio. todas estas tendências se combinaram para criar um sério desafio ao seu modelo de negócio. Esta elevada adesão do mercado dava razões à Grameen Danone para encarar com optimismo a possibilidade de o benefício nutricional que tinha a esperança de proporcionar às crianças ser um objectivo realista. Mas. Mas como reagir a este desafio? A resposta não era muito clara. Devido ao alastramento das políticas de comércio livre das duas últimas décadas. para a maior parte dos efeitos práticos. o problema foi exacerbado por dois anos consecutivos de inundações mais graves do que o normal durante a época das monções (de Junho a Outubro). • Uso crescence de trigo e de milho para produzir o combustível etanol (especialmente nos Estados Unidos). incluindo o Bangladeche. Para muitos americanos. davam a medida da gravidade do problema. Obviamente. No ano de 2007 assistimos a um aumento dramático do número de pessoas a passarem fome por todo o mundo. responsável pela extraordinária fertilidade das nossas terras de cultivo. causando terríveis provações. a Grameen Danone estava na realidade a perder dinheiro em cada boião de iogurte que vendia. do México e dos Camarões ao Senegal e ao Paquistão. entre 40 e 50 por cento das crianças estavam a consumir Shokti Doi.

Esta proposta era considerada uma opção mais humana e também uma forma de manter a rede de vendedoras intacta. Ambas as partes apresentavam argumentos inteligentes e ponderados. também foram afectadas. não há maneira de se manter no activo. visto que os seus clientes. já profundamente afectados pela crise económica global. O conselho de administração da Grameen Danone votou contra este plano pela mesma razão pela qual decidiu subir o preço do iogurte. simplesmente não tinham posses para comprar um produto cujo preço tinha subido 60 por cento. Assim.) Em segundo lugar. em Bogra e nos arredores. Pagar um salário que não fosse justificado pelas vendas efectuadas pelas vendedoras transformaria a empresa numa espécie de obra de caridade. O conselho de administração estava decidido a dirigir a Grameen Danone numa base sustentável. procedimentos ou métodos de negócio que não sejam realistas. E este plano acabou por ser adoptado. Por conseguinte. Aqueles que advogavam esta opção diziam: «Mudar o preço de um produto que está ainda em fase de lançamento poderia ser um erro fatal. a Grameen Danone subiu o preço de um boião de 80 gramas de cinco para oito takas. Eu contava-me entre os que defendiam a subida do preço do iogurte. mesmo se o volume de vendas descesse. Em Abril de 2008. Em vez de aumentar o preço do iogurte. acontecerá-. A Grameen Danone é uma empresa social.Havia duas linhas de pensamento no conselho de administração. E os resultados foram devastadores. Quando chega a altura em que se é forçado a mudar de rumo o que. é importante proporcionar os benefícios nutricionais aos seus clientes pobres de uma forma que lhes seja acessível. Com os clientes a desaparecerem. sugeriam estes elementos. (As vendas através de pequenas lojas. a Grameen Danone pode afastar os clientes. A Grameen Danone perdeu cerca de 80 por cento das suas vendas nas zonas rurais o que era compreensível. Evidentemente. o declínio das vendas nas lojas foi «apenas» de 40 por cento. não uma organização de caridade.» O debate entre Paris e Daca manteve-se aceso durante várias semanas. as vendedoras seriam protegidas do impacto negativo dessa descida. os benefícios para os pobres desaparecerão para sempre. quase com certeza. se as vendas de iogurte sofressem uma queda acentuada devido ao aumento do preço. O conselho de administração não queria abandonar o modelo de empresa social neste seu primeiro momento de crise. a Grameen Danone avançou com o aumento do preço ao consumidor. manter preços baixos que são artificiais e insustentáveis não vai ajudar os pobres a longo prazo. Um grupo insistia que a Grameen Danone tinha de subir o preço do iogurte para poder cobrir os novos custos mais elevados. como as populações citadinas são um pouco menos pobres do que as populações rurais. as vendas desceram a pique. se a Grameen Danone perder dinheiro todos os meses. Significa que os clientes. Em primeiro lugar. Em vez de se continuarem a pagar comissões. De outra forma. a empresa rejeitou uma segunda proposta . as vendedoras abandonaram o negócio. simplesmente. Assim. Mas. Ao mesmo tempo. independentemente do volume de vendas. A ideia era que.de alteração do sistema de remuneração das vendedoras. não funciona. corre-se o risco de antagonizar todas as pessoas de cuja boa vontade se depende. a minha voz era uma das que se erguiam para insistir que o preço de cada boião de Shokti Doi fosse aumentado o 72 necessário para cobrir os custos. os fornecedores e os trabalhadores se habituarão a uma estrutura económica que. A Grameen Danone não tinha forma 73 . Acredito firmemente que uma empresa social deve ser gerida numa base sustentável desd~ o primeiro dia. talvez permanentemente. O outro lado do debate defendia que o preço fixado pela Grameen Danone de cinco takas por boião de 80 gramas era necessário para manter o crescimento do seu negócio ainda recente. a Grameen Danone deveria pagar um salário fixo. a rede rural de vendas que a Grameen Danone tinha montado a tanto custo ao longo dos últimos seis meses desintegrou-se. a Grameen Danone precisa de encontrar uma maneira de reduzir as suas despesas. embora não tanto. É um erro estabelecer nos primeiros meses de actividade preços. Se as perdas crescentes acabarem por obrigar a Grameen Danone a fechar as portas. Seguir essa via é brincar com o fogo.

constituída por trinta e cinco senhoras que trabalhavam dezassete dias por mês e vendiam cerca de cinquenta boiões por dia cada. o boião de 80 gramas é vendido a oito takas. tinha agora um ano de experiência e de aprendizagem em que se alicerçar. vendas corrente utilizava apenas uma pequena fracção da capacidade total de produção da fábrica de Bogra.) Nestas lojas de «cidades locais». um preço que parece ser acessível aos clientes citadinos. apenas um taka mais caro do que o preço originaL o conselho de administração apoiou o lançamento desta nova embalagem reformulada com uma série de pequenos eventos promocionais e programas escolares de nutrição nas zonas rurais. assim como a liderança de uma sólida equipa de gestão. incluindo duas cidades mais pequenas. mesmo que alguns ainda quisessem comprar o produto. A manutenção de uma «rede de frio» para preservar a frescura do iogurte e manter o seu paladar ideal é um requisito dispendioso que a Grameen Danone tinha tentado evitar através do seu plano original de marketing «hiperlocal». Tratava-se de uma necessidade financeira. Assim. A curto prazo. É um preço que as populações rurais considerariam inaceitavelmente elevado. a Grameen Danone decidiu fazer esse investimento. Mas agora.uma base muito razoável para a expansão do negócio. 74 r A Grameen Danone compreendeu também que era importante continuar a promover o crescimento do mercado citadino. mas não mais pequeno do que os que a Danone comercializava noutros países. representando 30 por cento da dose diária recomendada para as crianças. mas que os habitantes da cidade poderiam 75 . as vendas tinham-se restringido a um raio de cerca de trinta quilómetros dessa cidade. a forma mais prática de o fazer era vender mais iogurtes nas cidades. de cinco para oito takas. Era um boião mais pequeno. Era evidente que o aumento súbito e acentuado do preço. num total de quase 30 000 boiões por mês nas zonas rurais. (Anteriormente. tinha sido um choque demasiado grande para o mercado ruraL A Grameen Danone compreendeu que tinha de desenvolver uma versão do produto a um preço mais acessíveL Os especialistas de desenvolvimento de produtos alimentares da Danone meteram mãos ao trabalho. Rajshahi e Pabna. a Grameen Danone começou a reconstruir a sua rede de vendedoras. Em primeiro lugar. como. comercializar o iogurte na maior cidade do Bangladeche. recorrendo a lojas com capacidade de refrigeração. mais pequena mas altamente eficiente. a Grameen Danone empenhou-se em acelerar os planos para uma iniciativa estratégica que tinha sido contemplada desde sempre . Felizmente. num boião de 60 gramas. Esta equipa começou a examinar todos os pressupostos do seu negócio. A Grameen Danone avançou em duas frentes. Realizaram mais experiências usando uma receita ligeiramente mais doce e descobriram que podiam incluir os mesmos nutrientes. Gradualmente. O aumento do volume de vendas reduziria o custo por unidade e faria a Grameen Danone aproximar-se de uma situação de equilíbrio financeiro. Daca. a Turquia. numa viagem com a duração de três horas. a empresa tinha uma equipa nova. exigia a criação de um centro de distribuição com um armazém refrigerado e a adaptação de um camião refrigerado para transportar os iogurtes da fábrica de Bogra para Daca duas vezes por semana. o que era intrinsecamente ineficiente e dispendioso. Tinham duvidado se seria possível manter o mesmo nível de micronutrientes num iogurte com um paladar agradável se a quantidade fosse inferior a 80 gramas. Esta iniciativa requeria uma mudança mais significativa no plano de negócios. Tinha chegado a altura de repensar o plano de raiz. por exemplo. Em segundo lugar. O seu nível de. com a necessidade premente de aumentar o volume de vendas para melhorar as margens de lucro. a Grameen Danone fixou o preço de um boião de 80 gramas em Daca em doze takas. em Junho de 2008. este boião tornou-se o novo padrão para o mercado rura~ . a começar pelo próprio produto. ambas a cerca de cinquenta quilómetros de Bogra.nomeadamente.de chegar aos seus clientes das zonas rurais. Uma descida de vendas na ordem dos 80 por cento transformou-se num fiasco totaL A Grameen Danone tinha agora um ano de idade e estava de volta à estaca zero. expandiu o programa de venda em lojas. Especificamente.60 gramas a seis takas. Em breve. Para cobrir os custos de distribuição mais elevados.

como a experiência nos dois anos anteriores demonstrou. todos os produtos da Grameen Danone têm o nome Shokti +(ou seja. mas. Numa análise retrospectiva. quando as receitas da Grameen Danone cobrirem as despesas. A fórmula vencedora? Actualmente. Entre 30 e 40 por cento das vendas da Grameen Danone registam-se na cidade de Daca. a Grameen Danone vende o seu iogurte através de uma rede de mais de 1600 lojas. usando sistemas e até produtos que são claramente diferentes. Actualmente. Como uma vendedora média distribui cerca de cinquenta boiões por dia e trabalha quatro dias por semana. A Grameen Danone conta atingir este objectivo durante o ano de 2010. A Grameen Danone introduziu um novo sabor ~e iogurte . «energia mais»). Algumas vão de porta em porta no seu povoado. a Grameen Danone começará a gerar um superavit. ganha uma média de oitocentos takas por mês. A Grameen Danone pensa que estes resultados representam apenas a ponta do icebergue. A Grameen Danone não tardou a conseguir que o Shokti Doi estivesse disponível num número substancial e crescente de bairros da cidade. o que é uma grande realização. Graças a esta abordagem dupla de vendas e de marketing. é a minha cidade natal). vende-o por seis takas e fica com um taka como comissão. Desde Setembro de 2008. se e quando ela fizer sentido do ponto de vista comerciaL Entretanto. o seu modelo de negócio parece estar a funcionar. Daca e as cidades circundantes.mantém essa opção em aberto. que é uma das linhas de produtos com mais sucesso da Danone 76 noutras partes do mundo. Para reflectir esta expansão da linha de produtos. onde vendem o iogurte às mulheres e às crianças presentes. A Grameen Danone começou também a diversificar a sua gama de produtos para atrair um número ainda mais elevado de clientes (adultos e criança:s). não há praticamente limite para a quantidade de iogurte que a Grameen Danone pode vender. Ao retirar a palavra «Doi» (iogurte) do nome da marca. é fácil ver que o aumento do preço do leite em 2007-2008 e o colapso das vendas que se verificou 77 . numa cidade com uma população de mais de doze milhões de habitantes. cerca de 175 vendedoras vendem o iogurte através de uma série de canais de distribuição. Em Novembro de 2008. a Grameen Danone começou a organizar uma rede de lojas em Daca (onde a refrigeração é comum) que quisessem vender o seu iogurte.manga . assim como um iogurte líquido a um preço acessíveL Os boiões de 60 gramas de iogurte de manga são vendidos a sete takas e os de 80 gramas a doze. a empresa introduziu uma nova marca. Tipicamente. apenas uma meia dúzia de lojas de Chittagong vende o iogurte. mais ou menos o equivalente a onze dólares. o negócio parece estar agora numa via de crescimento segura.mas. A empresa tentou implantar a sua marca na segunda cidade do Bangladeche. em consequência das experiências e das mudanças de rumo da Grameen Danone. O próximo marco importante será atingir o equilíbrio das contas. aumentar o seu volume de vendas e intensificar o funcionamento da sua fábrica de Bogra.suportar e estariam dispostos a pagar. por acaso. Nas cidades. Chittagong (que. na atmosfera económica imprevisível da actualidade praticamente qualquer coisa pode acontecer. ao usar o nome de marca Shokti +. uma vendedora compra cada boião de 60 gramas a cinco takas. E a empresa aumentou a utilização da fábrica de Bogra para a sua capacidade total. A Grameen Danone pode ou não vir a acrescentar esses produtos às suas linhas num futuro próximo.. a rede rural de vendas na região de Bogra continua a crescer. enquanto uma garrafa de 50 ml de iogurte líquido custa cinco takas e uma garrafa de 70 ml custa sete takas. outras vendem-nos em pequenas lojas montadas nas suas casas e outras ainda vêm às reuniões semanais das filiais do Banco Grameen. é um suplemento significativo para o rendimento da sua família. comida para bebés. Pouco depois. A empresa serve um mercado bipartido. Para uma mulher rural do Bangladeche. Até agora. incluindo Bogra. que poderá ser investido na expansão do negócio. mas com o tempo esse número aumentará. urbano e rural. a Grameen Danone está a aumentar a sua liberdade para se expandir para outros produtos no futuro -por exemplo.

É ainda .mais difícil conceber uma empresa social que faça as duas coisas ao mesmo tempo. compreender o cliente é um dos factores indispensáveis para ter sucesso. mas nunca perder de vista o objectivo central. uma nutrição melhor para os pobres. Como todos os homens e as mulheres de negócios sabem.por exemplo. Penso que as pessoas que estiverem interessadas em lançar empresas sociais acharão essas lições muito úteis. eu citava também as palavras do famoso arquitecto Mies van der Rohe: «Deus está nos pormenores. Eis algumas das muitas lições aprendidas durante os primeiros três anos da história da Grameen Danone. Da próxima vez que a Grameen Danone se depare com uma crise similar. os seus líderes tiveram de prestar muita atenção a uma série de pormenores. Lições de três anos tumultuosos Em Criar Um Mundo sem Pobreza escrevi: «Uma empresa social tem de ser pelo menos tão bem gerida como qualquer negócio com fins lucrativos. talvez se recorde do que aconteceu e reaja de uma forma ainda mais segura. especialmente às crianças. para evitar tornar-se puramente reactivo e saltitar de um programa para outro. Tal sig- 79 .de facto. qualquer alteração que a desviasse ou distraísse desse objectivo seria má. Na construção do sucesso da empresa. É bastante difícil conceber um negócio que consiga obter um nível elevado e crescente de vendas de um produto útil para que a empresa possa ser auto-sustentáveL É também bastante difícil conceber uma organização que proporcione um benefício claro e mensurável à sociedade ou a um segmento significativo da sociedade.mas manter o preço mais baixo.» Essas palavras revelaram-se aplicáveis à história da Grameen Danone. Transferir mais iniciativas de vendas e de marketing para as cidades seria uma decisão acertada? Sim. Ser flexível.apesar de a Grameen Danone ter passado meses em análises e planos cuidadosos antes de comemorarmos a aquisição do terreno para a construção da fábrica ou de produzirmos um só boião de iogurte. pensando cuidadosa e continuamente sobre como os pequenos pormenores têm um grande efeito sobre as vendas da Grameen Danone e sobre o sucesso de todo o empreendimento. a Grameen Danone encontrou esta solução criativa a tempo de salvar a empresa e encaminhá-la para uma via de novo crescimento. adaptando e modi- 78 ficando os seus planos de acordo com as circunstâncias.porque ajudaria a empresa a proporcionar o acesso aos seus produtos nutritivos a mais pessoas do que seria possível doutra forma. A vida é demasiado complicada para que alguém.» A nossa experiência com a Grameen Danone demonstrou-nos claramente a verdade dessa declaração. esse objectivo era proporcionar uma melhor nutrição ao povo do Bangladeche. Identificar-se com a cultura das pessoas que se tenciona servir. O desafio de criar a Grameen Danone não se tornou mais fácil por a empresa ter o estatuto de empresa social . Felizmente. por mais golpe de vista que tenha. Foi um erro subir o preço? Talvez . não era uma opção viáveL O que eu tenho pena de não ter compreendido inicialmente é que existia uma terceira opção: reformular o produto e criar um boião mais pequeno a um preço mais acessível. uma medida insustentável. Qualquer alteração do seu plano de negócio que tornasse mais fácil atingir esse objectivo seria boa. como a Grameen Danone acabou por fazer. foi necessário proceder a muitas alterações na concepção da empresa . é necessário ter sempre em mente o objectivo central para que se estabeleceu a empresa sociaL No caso da Grameen Danone. Esta pedra-de-toque tornava possível à empresa escolher entre várias opções ao longo dos seus primeiros meses. Contudo. não se deve recear fazer um ajustamento ao plano de negócio quando as circunstâncias o tornem necessário.quando a Grameen Danone subiu o preço do iogurte para cobrir os custos desse aumento representaram uma crise de negócios que poderia ter afectado gravemente a empresa. seja capaz de prever todas as contingências. Nesse livro anterior. Por conseguinte. verificou-se o contrário. Como vimos.

as suas aversões. o nosso banco só pode operar em zonas rurais. (De facto. as nossas duas organizações demonstraram-se altamente compatíveis graças aos nossos valores partilhados e às nossas capacidades de negócio . São «gente boa» com óptimas intenções. É uma força motivadora tão forte como o desejo de ter lucro. Emmanuel Faber e os 80 seus muitos executivos competentes. V sar o auxílio de aliados onde quer que os encontremos. pode vender o iogurte a um preço que é ligeiramente mais elevado (embora acessível aos pobres das zonas urbanas). Se. A Grameen Danone deve a sua própria existência a uma parceria entre aliados improváveis . entre outras coisas. mas complementares. os seus desejos.) E. a nossa experiência é exclusivamente de mulheres pobres de zonas rurais. uma grande empresa francesa de produtos de consumo. e o Groupe Danone.nifica. a Grameen Danone foi lançada com a intenção de servir principalmente um mercado rural.mas não da mesma maneira. como descobrimos na Grameen Danone quando nos debatemos com dificuldades para criar uma equipa de vendas eficiente para o Shokti Doi nas zonas rurais. Por conseguinte. se queremos servi-las eficazmente. nos termos da autorização governamental que recebemos. É ainda mais importante quando se está a tentar criar uma empresa social. como os piores problemas de pobreza e de subnutrição no Bangladeche ocorrem em zonas rurais e entre os pobres. quando as pessoas são atiradas para uma nova situação ou confrontadas com um novo desafio. os seus sonhos. Não nos devemos esquecer de que. Penso que é assim que os negócios sociais em toda a parte poderão resultar. fraquezas. interprete-o como um sinal de que está a enveredar pela via errada. Na prática. No entanto. os seres humanos têm um desejo natural de se ajudarem uns aos outros. dá por si a perguntar-se: «Mas o que é que se passa com esta gente? Porque é que não apreciam as coisas boas que estou a tentar fazer por eles?». demonstrar compreensão e empatia para com a cultura das pessoas que queremos servir: os seus valores. tanto melhores serão os resultados. Não estão «certas» nem «erradas». quanto mais depressa descobrirmos o que realmente as motiva.diferentes. contudo. aumentando as vendas e o volume de produção ao mesmo tempo que gera lucro para subsidiar o mercado rural. que querem tornar o mundo um lugar r. Como já disse muitas vezes. A Grameen Danone jamais poderia ter sido criada sem Franck Riboud. A empresa social explora e satisfaz este desejo de fazer o bem. A Grameen Danone está a caminho de alcançar esse objectivo. Tirar partido de diferentes oportunidades em diferentes mercados. nem o Groupe Danone poderia ter estabelecido uma ligação tão boa com o mercado rural do Bangladeche sem a rede da Grameen. a Grameen Danone descobriu que a melhor abordagem é servir os dois mercados simultaneamente. Por isso. são apenas diferentes. A capacidade de construir rapidamente uma base forte de vendas em zonas urbanas está a dar tempo à empresa para lidar com o desafio mais difícil de consolidar uma rede de vendas rural. é provável que se comportem de modo diferente do esperado. povoação a povoação e zona a zona. Como já salientámos.p_elhor. No Banco Grameen.o Banco Grameen. As pessoas que pretendem proporcionar um benefício social aos membros da sua comunidade têm por vezes tendência para a arrogância. é importante que uma empresa social seja auto-sustentável do ponto de vista financeiro. distribuindo o seu produto na cidade somente após ter lançado raízes no campo. uma instituição financeira rural para os pobres que é única. Pare e repense o seu plano! Os mal-entendidos culturais podem ocorrer mesmo quando as pessoas que estamos a servir são bem nossas conhecidas. Mas talvez não fosse esse o caso se tivesse insistido em olhar para todos os seus potenciais clientes através da mesma lente. podem por vezes ter pouca paciência para as «cegueiras». não nas cidades. menos próspero. como empresário de uma empresa social. 81 . Na cidade. os seus receios.e. defeitos ou falhas dos seus «clientes» e até mesmo para as simples diferenças culturais. as suas preferências e antipatias. quem está envolvido na construção de uma empresa social não deve surpreender-se quando encontra pessoas em locais improváveis que querem ajudar nem deve recear aceitar esse apoio quando ele é oferecido.

Estes investidores sabiam que não receberiam um retorno do seu investimento comparável ao que obteriam no mercado. foi um erro que atribuo à rapidez com que se desenrolou todo o processo de assinatura do acordo. Quando o fundo foi criado. Trata-se de um fundo de investimento lançado pelo Groupe Danone que é a origem do capital inicial usado para criar a Grameen Danone. Em anos vindouros. Até mesmo as ideias que foram sendo desenvolvidas com experiência prolongada e estudo atento podem precisar de ser questionadas de tempos a tempos.o que pode abrir novas oportunidades nunca sonhadas.as alternativas que se excluíram ou as opções que pareciam inevitáveis. os investidores foram informados de que recuperariam o dinheiro que tinham investido. o que pode ser tão excitante como a história da própria Grameen Danone é a história da Comunidades Danone. Embora os dois mercados sejam muito diferentes. o pessoal da Danone não estava disposto a recorrer à subsidiação cruzada. devido à satisfação pessoal que obtinham por saber que o seu dinheiro iria criar negócios que beneficiariam a humanidade. Acredita que pode existir uma dinâmica semelhante em muitos negócios sociais em vários países por todo o mundo. Contudo. Sempre me desagradou o facto de o nosso acordo com a Danone incluir inadvertidamente uma cláusula em que se prometia o pagamento de 1 por cento de dividendos pelo investimento na Grameen Danone. nos primeiros tempos. a paciência é frequentemente um ingrediente necessário! «Estar preparado é o essencial». 82 Capital inicial de um fundo para empresas sociais A longo prazo. Os investidores aceitavam de 83 . Foi só quando a crise do· preço do leite forçou a empresa a reexaminar esse pressuposto que ela descobriu que estava errada e que uma porção mais reduzida e menos cara de iogurte poderia conter o mesmo nível de suplementos nutricionais. Talvez se descubra que as circunstâncias mudaram ou que as crenças iniciais estavam pura e simplesmente erradas . Questionar os seus próprios pressupostos. A subsidiação cruzada parece estar a funcionar. concluiu que era necessária uma porção de 80 gramas para servir como veículo da alta dose de micronutrientes que queríamos fornecer. mas não receberiam juros nem dividendos ou ganhos de capital para além de uma taxa nominal de 1 por cento. 1 O por cento do capital do fundo seria investido em empresas sociais sem quaisquer fins lucrativos. à qual assistiram Emmanuel Faber e uma série de outros altos executivos. os investidores optaram por contribuir para o Fundo da Comunidades Danone em vez de investirem num outro fundo mais lucrativo. Nesta reunião. Quando a equipa de especialistas de nutrição altamente qualificados da Danone estava a formular o produto. Todo o dinheiro investido pela Comunidades Danone provém de accionistas e funcionários do grupo que optaram por contribuir para o fundo usando o rendimento do seu trabalho. como noutros tipos de negócio. Em Dezembro de 2009 realizou-se uma reunião do conselho de administração da Grameen Danone em Daca. Quando se está a tentar criar uma empresa social. Levou algum tempo até que os nossos parceiros compreendessem e apoiassem este conceito. sabíamos que resultaria. os seus pressupostas devem ser examinados periodicamente . Como mencionei em Criar Um Mundo sem Pobreza.e considerar se ainda serão válidos.Na verdade. Além disso. No entanto. apoiam-se um ao outro e colaboram para tornar a Grameen Danone um negócio mais forte e mais sustentável. Posteriormente. Receavam que uma quantidade menor fizesse com que os suplementos nutricionais conferissem um paladar desagradável ao iogurte que levasse as crianças a rejeitá-lo. Como já tínhamos utilizado a mesma abordagem para tornar o nosso hospital oftalmológico economicamente sustentável. recordei várias vezes a Emmanuel Faber que o acordo tinha de ser corrigido e ele sempre me assegurou que tal aconteceria. nós na Grameen sempre tencionámos usar a subsidiação cruzada como parte da nossa via para a estabilidade financeira. a Comunidades Danone será também uma fonte de capital de investimento para outras empresas sociais. Faber anunciou com orgulho que o Fundo da Comunidades Danone estava disposto a emendar o acordo de accionistas para eliminar o dividendo de 1 por cento. como escreveu Shakespeare. Na empresa social.

Depois de se provar que o modelo é eficaz. a Grameen Danone conta poder disponibilizar os seus produtos em muitas das maiores cidades do Bangladeche. Nessa altura. tornou-se operacionalmente viável e está quase a atingir a viabilidade financeira. Os desafios são muito recompensadores e sempre fascinantes. No dia seguinte. Eu fiquei extremamente satisfeito ao ouvir esta notícia. Entretanto. A empresa espera atingir o seu objectivo de ter em funcionamento cerca de cinquenta fábricas por todo o Bangladeche. não só no Bangladeche mas em todo o mundo. ! 85 . a Grameen Danone começará a aplicar o mesmo sistema de vendas e de distribuição a outras zonas rurais do país. pensei. o talentoso engenheiro e designer da Danone. Embora na sua breve história a Grameen Danone já tenha tido o seu quinhão de altos e baixos. Guy Gavelle. chegou o dia!» Toda a gente na sala desatou a dar vivas e a bater palmas quando esta notícia foi dada. mas também por ter concordado em prescindir do modesto dividendo de 1 por cento previsto no documento legal. «Que alívio!». Faber enviou-me o seguinte e-mail: Caro Yunus. já que os métodos que resultam num determinado momento podem ter de ser adaptados a outras circunstâncias. A empresa quer atingir um ponto em que todas as crianças que podem beneficiar dos nutrientes contidos no Shokti + tenham acesso ao produto. até nos povoados mais remotos. novo e ainda sem provas dadas. Deve começar a funcionar em 2010. testá-lo. onde existem as melhores condições. Em Fico profundamente impressionado não só com o facto de um terço dos funcionários da Danone ter optado por investir uma parcela do seu rendimento no Fundo da Comunidades Danone. A empresa ultrapassou o nível de produção de cem toneladas por mês. a experiência confirmou mais uma vez a minha crença no poder potencialmente transformador da empresa social. Franck Riboud tenciona estar presente na inauguração oficial. é necessário manter uma vigilância permanente dos resultados e estar-se preparado para efectuar as mudanças necessárias. mas muito importante. implementa-se em zonas sucessivas..mas prevejo que não tenha sido a última. sem quaisquer dividendos. semelhante à de Bogra. É um sina. Será uma fábrica pequena. a Grameen Danone continua a envidar esforços para reforçar e expandir o seu sistema de vendas rurais em Bogra.l notável de apoio a este conceito de investimento.. «Finalmente. servindo a totalidade da população do país. Foi um prazer renovado trabalhar consigo ontem . Recordarei este momento ÚNICO na história do capitalismo moderno de um conselho de administração cujos membros aplaudem e se congratulam uns aos outros por terem definitivamente conseguido evitar qualquer risco de receber dividendos no futuro!!! Obrigado!!! Cumprimentos cordiais. A segunda fábrica ficará localizada perto de Daca. Alguém observou: «É a primeira vez na história dos negócios que os proprietários estão a celebrar o facto de o pagamento de dividendos ter sido cancelado!» Foi a primeira vez. disse que poderá construir esta fábrica a um custo 30 por cento inferior ao da fábrica altamente eficiente e económica que construiu em Bogra. Os investidores da Grameen Danone sabem agora que o seu único benefício é o benefício psicológico e espiritual de ajudarem pessoas pobres do outro lado do mundo. afiná-lo e adaptá-lo de acordo com as condições que forem surgindo. e estão a fazer-se preparativos a alta 84 velocidade para lançar a segunda fábrica este ano.:i ! bom grado receber apenas o seu investimento inicial. Nos próximos anos. Esta experiência é similar à que tive com o Banco Grameen. O desafio inicial consiste em desenvolver um modelo que funcione. Um óptimo início em 2010 O ano de 201 O começou com várias boas notícias para a Grameen Danone. Em cada estádio do processo.

E esses sentimentos são tudo o que é necessário para querer criar uma empresa sociaL Evidentemente. começamos a procurar uma solução. A principal diferença entre criar uma empresa social e criar uma empresa convencional é a motivação de base do empresário. Em seguida. cobrindo os custos. iniciam a busca de uma ideia procurando um tipo de actividade com fortes hipóteses.qual é a necessidade crucial que tem de ser abordada? Defina-a com precisão e aprofunde a questão. porque alguns deles exigem coisas «que não é possível fazer>>. não desanime. Olhe para o mundo à sua volta e pergunte-se o que lhe causa perturbação? O que gostaria realmente de mudar? Identifique a origem do problema . Mas quando se cria uma empresa social não se começa por procurar um tipo de negócio de que resulte o máximo de lucro. procura-se a solução empresarial para ele. completamente diferente: dos nossos impulsos humanos de compaixão. Assim. No futuro. Pode começar por elaborar uma lista dos problemas do mundo. o empreendedorismo e o desejo de tornar o mundo melhor são sentimentos partilhados por milhões de pessoas. porque qualquer pequena dose de criatividade pode ser ampliada e transformada numa enorme criatividade com a ajuda da tecnologia. E. selecciona-se um problema social que se quer resolver e. Seria fácil encher um bloco de apontamentos com a lista desses problemas. temos sorte. em seguida.· dedorismo» num contexto tradicional de negócios. Como 87 . alguém com grandes sonhos. Como qualquer empresário. A ideia inicial vem. Mas na empresa social o impulso subjacente é diferente. Seleccione qualquer um deles e pergunte-se: «Serei capaz de conceber uma empresa social para resolver este problema?>> É o início. os impulsos por detrás da criação de uma empresa social são familiares a todas as pessoas. são economicamente sustentáveis. Use a sua criatividade. Talvez essas sejam precisamente as coisas que os seus talentos únicos lhe permitem fazer. Nos dias de hoje. A maior parte das pessoas que querem montar uma empresa com fins lucrativos concentra-se em ganhar dinhe_iro de preferência muito dinheiro. de um outro lugar. No entanto. Talvez presenciemos ou ouçamos falar de uma dificuldade com que certas pessoas se deparam e resolvamos mudar a situação. um nicho para um produto ou serviço que nenhuma outra empresa ocupou ainda. Por isso. e uma nova maneira de satisfazer uma necessidade pela qual muitas pessoas estejam dispostas a pagar bem. Coisas em que é difícil acreditar hoje acontecerão amanhã.CAPÍTULO 3 A criação de uma empresa social A empresa social é uma nova ideia. A criatividade. estarão disponíveis tecnologias ainda mais potentes. Não se está a tentar encontrar a combinação mais lucrativa entre uma dada necessidade do mercado e as próprias capacidades. não só teremos a certeza de que os nossos esforços perdurarão.um mercado de clientes com dinheiro para gastar que não estejam a ser completamente servidos. enérgica e criativa. porque. porque o montante do lucro é a medida do sucesso. mas daremos também às pessoas que queremos ajudar a dignidade e o respeito próprio que resulta de serem uma parte vital do sistema económico global em vez de meros recipientes de caridade. Se abordarmos o projecto com o modelo da empresa social. em primeiro lugar é necessário identificar uma necessidade e adaptá-la às capacidades e aos talentos que se possuem. quando passar em revista a sua lista de problemas a precisarem urgentemente de solução. Em vez disso.uma reacção muito natural à dor dos outros. 86 O lucro só é importante como uma condição necessária. não se limitando a arranhar a superfície. para criar uma empresa social. o criador de uma empresa social é uma pessoa ambiciosa. estamos habituados a usar a palavra «empreen. não como o objectivo máximo.

as crianças abandonadas. Se pode fornecer algo relacionado com esta necessidade. usando todas as capacidades. está só a aprender os rudimentos de como criar e dirigir uma empresa sociaL Comece onde está. Desde que esteja confiante de que pode vender o seu produto e cumprir o objectivo da sua empresa social. as pessoas à sua volta. o desemprego. Pode vir a envolver-se em muitos outros negócios sociais no futuro. tem uma série de capacidades que lhe são próprias. o problema da habitação. Comece onde se encontra neste momento. Não deixe que isso lhe aconteça. Não espere que a sua primeira concepção de uma empresa social seja um sucesso retumbante. O que pode então fazer? Tire partido do que conhece. Mais tarde. solicite a sua ajuda. mas não deixa de ser uma empresa sociaL O importante é que seja bem-sucedida.do cultivo da terra ao processamento. de esgotos. os cuidados de saúde. não se sentirá bem. A escolha certa é a de um problema com que possa lidar facilmente. a toxicodependência. no Japão ou na América do Norte. Primeiro. Mas. veja que coisas específicas poderiam ser transformadas numa empresa social e comece a trabalhar num desses itens. pense na sua empresa social de uma maneira flexíveL Em todos os negócios. quando não encontrar uma ligação entre o problema que quer abordar e os recursos que tem. vá para a frente. Prefira um bom terreno de aprendizagem. se alguém pode tornar o seu empreendimento mais fácil. manufactura. Sob cada cabeçalho. Pode até nunca ter viajado para essas nações do hemisfério sul. Pense no seu bairro para ver quais são os problemas prementes perto de si. não se envolva em argumentos complicados sobre o que passa na mente dos pobres ou o que estudos sociológicos ou económicos revelaram sobre a via para sair da pobreza.da empresa sociaL Muitos problemas estão à espera de ser resolvidos: a pobreza. de casa. de tecnologia da informação. Em seguida.e há pessoas pobres em todos os países. Faça uma lista de cabeçalhos gerais das questões que gostaria de explorar com mais profundidade. no Sul da Ásia. As primeiras tentativas usualmente fracassam. Assegure-se de que a ligação entre o produto e o objectivo é muito clara. É como lançar um foguetão para o espaço. Mas cada fracasso representava um passo no caminho para o sucesso. do ambiente. Finalmente. possivelmente num país desenvolvido. recolhendo informações sobre vários aspectos deste negócio. venda e por fim à compra do produto . a doença. sabe como criar um produto ou um serviço específicos. ~o entanto. E. É assim que funcionam as experiências. Toda a gente precisa de comida. todo o mundo assistiu ao primeiro passo de um astronauta na superfície da Lua. de cuidados de saúde. E. Se conceber um plano de empresa social altamente ambicioso e passar meses e anos a debater-se com dificuldades. por agora. Não se envolva num negócio altamente ambicioso ou no problema mais importante que possa imaginar quando planear o seu primeiro empreendimento. conceba um produto ou um serviço que sirva de veículo para atingir o seu objectivo. Os programas espaciais dos Estados Unidos e da União Soviética nas décadas de 1960 e de 1970 implicaram uma série de fracassos. Aposte na simplicidade. Tem de ter prazer com a sua empresa sociaL Um dos princípios básicos que tentamos cumprir é: «Faça-o com alegria. Então. na América Latina.» Não se esqueça desse lema. recursos e outras vantagens que já possui. na África. dos agricultores e dos artesãos do mundo em vias de desenvolvimento. Viva-o a cada dia. de água. ainda que de forma limitada. etc. Talvez não venha a ser a empresa social mais celebrada de sempre. de um rendimento. há pessoas envolvidas ao longo de toda a cadeia. Os foguetões explodiam na rampa de lançamento. clarifique o seu objectivo para garantir que obtém o resultado desejado do seu projecto. em 1969. da poluição. talvez se sinta preocupado com a situação dos pobres nos países em vias de desenvolvimento. Por exemplo.usar essa tecnologia para abordar problemas sociais é o grande desafio . poderá alargar os seus esforços para abranger um público mais vasto. a fome. 89 . encontre o grupo que quer 88 ajudar. Defina um plano de negócio à volta dele. Quanto a definir as necessidades dos pobres. Conhece o mercado do seu país. Não desanime. vá para a frente e faça-o. é provável que esteja longe dos trabalhadores. porque vive na Europa. de serviços financeiros. etc. use o seu engenho para forjar uma ligação. Depois.e a grande oportunidade . de electricidade.

A nutrição das crianças pobres das zonas rurais é uma questão de saúde pública . estamos a colaborar com a Adidas num plano para criar uma empresa social que comercializará calçado ao preço mais baixo possível. Por exemplo. a sua experiência. criámos uma empresa social para a abordar. Muitas jovens destas famílias poderiam ser candidatas a um lugar numa escola de enfermagem. É uma outra forma de erradicar a pobreza . Não comece por tentar reestruturar o sistema mundial de cuidados de saúde.um modelo clássico de empresa social. De um grandioso objectivo a um alvo específico Não se deixe encantar de tal forma por sonhos grandiosos que acabe por ignorar as oportunidades para começar a fazer o bem de imediato.por isso. Temos oito milhões de famílias que são clientes do Banco Grameen.Tome uma dessas peças e construa uma empresa social independente à volta dela. cinco pessoas pobres. abrimos dois hospitais geridos como empresas sociais e especializados em cuidados oftalmológicos.por isso. O problema global dos cuidados de saúde é demasiado grande para ser tratado todo de uma só vez -por isso. Por isso. pagarão um terço como prestação do pagamento do empréstimo. a intenção é criar emprego. A falta de calçado expõe milhões de pessoas no Bangladeche a doenças transmitidas por parasitas. os seus conhecimentos e os seus interesses apontam para os cuidados de saúde como área possível na qual lançar uma empresa social. e outra ali. mas voltará a cair. decompusemo-lo em parcelas mais pequenas e estamos a abordar cada uma delas individualmente.por isso. Ofereceremos garantia de emprego a cada uma destas jovens. Quando se cria uma empresa social. Deste salário.uma pessoa de cada vez. Tente decom- 90 por o problema em peças mais fáceis de abordar. pode erradicar a pobreza -pelo menos em pequena escal a . Não se desiste. Pode proporcionar o acesso ao microcrédito a pessoas pobres para lhes permitir iniciarem uma actividade por conta própria. Começa-se com uma ideia e continua-se a tentar até que ela resulte. Dentro da categoria genérica dos cuidados de saúde.por isso. Providenciar operações às cataratas a preços acessíveis às pessoas pobres é uma questão de saúde pública. Necessitará de uma correcção aqui. em colaboração com a Veolia Water. com um salário aliciante de 15 000 takas por mês (cerca de 220 dólares). terá resolvido o problema da pobreza. A microfinança é um outro tipo de empresa social através do qual se consegue erradicar pobreza. particularmente em operações às cataratas. Pode dizer: «Tenho a hipótese de criar emprego para. Este problema é uma oportunidade para nós.não em todo o mundo. qualquer empresa social bem-sucedida pode fazê-lo. Estas enfermeiras poderão também obter colocação noutros países. com salários a partir de 70 000 takas (cerca de mil dólares) por mês. erradicar a pobreza é um objectivo social grandioso. Há uma grande falta de enfermeiras no Bangladeche e no mundo. Continue a tentar. Por isso. Tente antes encontrar maneiras de traduzir esses sonhos grandiosos em alvos específicos e concretos. Algum dia o seu projecto voará. pensámos: «Porque não criar uma escola de enfermagem e conceder empréstimos do Banco Grameen a estas jovens?» As escolas de enfermagem ganharão o suficiente com as propinas para cobrir as suas despesas de funcionamento . mas dos seus cinco primeiros beneficiários. porque criou emprego para eles. até o redimirem.criando uma empresa_ social. não fazer fortuna.Do mesmo modo. 91 . É exactamente isto que estamos a fazer com os nossos parceiros das joint ventures no Bangladeche.» Como criará emprego para elas? Há mil e uma maneiras de o fazer. Depois de o fazer. digamos. se houvesse mais escolas de enfermagem. Suponha que os seus antecedentes. De facto. não espere que ele descole de imediato. estamos agora a avançar em várias outras frentes. O acesso à água potável é uma questão de saúde pública. Como poderá tentar alcançá-lo? Posso dar-lhe algumas sugestões sobre os passos a seguir. se conceber um projecto. associámo-nos à Danone para a abordar através de uma empresa social. Pense antes nas centenas de oportunidades de menor dimensão que existem no universo dos cuidados de saúde. Tenha fé na sua criatividade. o projecto descolará. A criatividade é assim mesmo. Mal obtenham o diploma. terão colocação na Grameen Cuidados de Saúde.

o preço dos medicamentos é demasiado elevado. A abertura de escolas de enfermagem proporcionará uma fonte de profissionais qualificadas que podem levar melhores cuidados de saúde a milhões de pessoas no país.só alguns cêntimos por vacina. Quem paga todas estas despesas são os doentes. Haverá outras dificuldades do negócio a serem resolvidas. O custo real da sua produção pode ser baixo. a imagem geral continuará a melhorar. mas em toda a parte. há desafios a enfrentar na concepção de um plano viável para este negócio. Não há nada que impeça uma pessoa interessada de lançar uma empresa social para produzir e vender vacinas a um preço acessível aos países em vias de desenvolvimento. produtora para obter as licenças das fórmulas das vacinas e as produzir. apesar de continuarem a morrer pessoas devido a elas. Mas algumas destas vacinas não são produzidas pelas empresas farmacêuticas. a doença poderia ser virtualmente eliminada através de uma vacina que já deu provas de ser eficaz. mas os seus produtores gastam muito dinheiro em embalagens ap'elativas e gastam ainda mais em iniciativas de marketing e de relações públicas. As partes interessadas levantarão questões sobre a qualidade dos medicamentos 92 baratos. porque o retorno do investimento não é suficientemente elevado. a falta de fundos impossibilita a contratação de uma enfermeira escolar para providenciar primeiros socorros. reduzindo assim a sobrecarga dos hospitais e das clínicas. À medida que formos acrescentando mais peças ao puzzle. as pessoas da classe média pagariam um preço um pouco superior ao do custo de produção da vacina para se obterem lucros que permitissem manter o preço cobrado aos pobres a níveis mínimos . se possíveL Mais uma vez. Uma empresa social dedicada à distribuição de medicamentos a preços acessíveis poderia evitar todas estas despesas extra e fazer baixar o custo do medicamento para os doentes. e uma empresa para vender as vacinas aos centros de saúde das cidades e das zonas rurais. uma empresa de marketing e distribuição para importar as vacinas para os países pobres. diz-me que sim. Obviamente. Uma melhor nutrição para as crianças e água potável para as zonas rurais reduzirão a incidência de doenças evitáveis. Há seis doenças conhecidas como «doenças órfãs». cuidados preventivos e educação para a saúde . Cada pequena peça do problema dos cuidados de saúde que estamos a abordar com uma empresa social específica está a começar a contribuir para uma solução global dos problemas dos cuidados de saúde do Bangladeche no seu todo. Há ainda muitas mais oportunidades para novos negócios sociais na esfera dos cuidados de saúde . Poder-se-ia criar uma lista muito mais longa de oportunidades para constituir empresas sociais na área dos cuidados de saúde. melhorarão as condições de saúde de muitas mais pessoas. A incidência da cólera.talvez se pudesse criar uma 93 . O calçado a preços acessíveis para as populações rurais protegê-las-á de doenças parasitárias. no entanto.não só no Bangladeche e noutros países do mundo em vias de desenvolvimento. Existem vacinas muito eficazes na protecção de doenças comuns como a cólera. Mas será que ultrapassá-las é demasiado difícil? Não me parece.Observe-s~ o que está a acontecer neste caso. as entidades reguladoras preocupar-se-ão. O fornecimento de vacinas poderia também ser uma empresa social atraente. Mas será concretizável? O meu instinto. Do ponto de vista económico.não através da criação de um gigantesco «plano grandioso» para corrigir o sistema. por exemplo. o tifo e outras. Uma espiral descendente foi transformada numa espiral ascendente . Em muitas escolas. é bastante elevada no Bangladeche e. mas melhorando uma peça de cada vez. a subsidiação cruzada seria provavelmente uma peça-chave para tornar este sistema sustentáveL Ou seja. Os medicamentos genéricos de baixo preço podem ser fornecidos praticamente a preço de custo aos pobres em África ou no Sul da Ásia. assim como produzir rendimentos que reduzirão a pobreza e. porque a produção da vacina para elas é muito baixa ou nula. há muitos elementos importantes de um negócio como esse que precisam de ser ponderados. baseado em décadas de experiência na criação de negócios para servir os pobres do Bangladeche. Teriam de ser desenvolvidos dois ou três elos da cadeia de fornecimento: uma empresa. Tornar os medicamentos acessíveis a toda a gente é uma grande oportunidade para uma empresa sociaL Em muitos casos. dessa forma.

onde cantavam. Mas. 94 Nos primeiros anos de funcionamento do Banco Grameen. para estas mulheres das zonas rurais. a pessoas com doenças crónicas e a pessoas demasiado incapacitadas para se deslocarem não há nenhuma razão que impeça que esses serviços sejam fornecidos por uma empresa social. alternativa.empresa social para colocar uma enfermeira em cada escola. Mais ainda. As pessoas criam a cultura. que providencie aconselhamento e formação culturalmente apropriada a jovens casais sobre as medidas de prevenção de tais doenças? Comece com uma paixão pessoal Se é médica. Com frequência. muitas mulheres hesitavam em aceitar os desafios que o microcrédito lhes lançava. 95 . Como na sua maioria eram analfabetas e.eu estou a criar uma contracultura. resolvemos estes problemas criando uma cultura nova. a cultura cria as pessoas. desenvolvendo e criando a sua própria nova cultura passo a passo. Não foi fácil provocar esta mudança cultural. mas não para a sociedade humana.uma mudança cultural dramática que não só as beneficia a elas mas também aos seus maridos. Nós desafiamos a cultura morta em nome de uma cultura viva que é dinâmica e auto-regeneradora. acredito vivamente que. bastantes clientes do Banco Grameen tornaram-se mulheres autónomas. De facto. literatura. Quando as pessoas se escondem por detrás de uma cultura. enfermeiro. dança ou teatro. gerida com a empresa social.será mesmo assim possível aplicar as suas aptidões à resolução dos desafios com que a humanidade se defronta? Em muitos casos. com engenho. Eu respondia: «Fiquem lá com a vossa cultura. Diziam-nos que estávamos a destruir a sua cultura. descobriram a força de uma comunidade partilhada com outras clientes do Banco Grameen que se apoiavam mutuamente. algumas receavam entrar num mundo que consideravam exclusivo dos homens. aos seus filhos e à sua comunidade. a sociedade humana tem de avançar.uma experiência extraordinariamente enriquecedora para elas. acredito vivamente que a cultura não faz sentido a não ser que seja constantemente posta em questão por uma contracultura. talvez sinta já bastante entusiasmo ao pensar nas muitas. as barreiras culturais constituem um obstáculo ao progresso social e podem usar-se forças culturais positivas para promover enormes mudanças para melhor. Suponhamos que se move no mundo da cultura . começando pelo seu nome . Os programas de informação sobre a prática de sexo seguro podem desempenhar um papel decisivo na prevenção do alastramento da sida e de outras doenças sexualmente transmissíveis .porque é que não há-de existir uma clínica em cada bairro. música.» Desde então. que as mulheres precisavam de ser mantidas em casa e que não deviam possuir dinheiro nem lidar com ele. Ensinámos milhares de mulheres a ler e a escrever. tinham vivido protegidas nas comunidades em que se inseriam. sabemos que é uma cultura morta. se envolviam em exercícios simples e partilhavam histórias sobre as suas famílias e sobre as pequenas empresas que tinham criado. Aprenderam a apreciar as reuniões semanais nos centros do Banco Grameen. as normas culturais arreigadas no Bangladeche tornavam difícil atrairmos clientes do sexo feminino. em grande medida. Para progredir. investigador na área farmacêutica ou está envolvido de qualquer outra forma no sector da saúde. É uma via de dois sentidos. Ao longo do tempo. e se trabalha numa área que não tem qualquer aplicação óbvia aos grandes problemas sociais do nosso mundo . fisioterapeuta. Há uma grande falta de profissionais de saúde que prestem serviços ao domicílio a idosos. Actualmente. Haverá alguma forma de usar os seus talentos para criar uma empresa social com grande poder de intervenção? Com certeza que há! O meu trabalho com as empresas Grameen tem-me demonstrado repetidamente o importante papel que a cultura desempenha na nossa sociedade. a resposta é um retumbante sim. boa para um museu. muitas maneiras como os cuidados de saúde poderiam ser transformados através da empresa social. Muitas mulheres das zonas rurais nunca tinham sequer tocado em dinheiro. praticamente qualquer paixão pessoal pode ser transformada num veículo para tornar o mundo um lugar melhor.artes visuais. empreendedoras e ousadas .

No entanto. gás para veículos . Plantar ~rvores em enormes parcelas de terreno poderia ser uma excelente oportunidade para uma empresa social. Podem ser convertidos em electricidade. dizem. Considere-se o problema da desflorestação global. combinando educação. O modelo desenvolvido poderá então ser reproduzido por todo o mundo. como muitas outras cidades em crescimento do mundo em vias de desenvolvimento.e presta-se a uma óptima empresa social.) Basta que um engenheiro civil interessado. porque a Grameen Shakti. biogás para cozinhar e aquecer as casas. tornando a vida de milhões de pessoas mais saudável e mais agradável.o tipo de pessoa que passa todo o seu tempo livre a fazer caminhadas. continuamos a defrontar-nos com desafios culturais semelhantes. Um exemplo: uma empresa social dedicada à transferência internacional de dinheiro seria uma excelente ideia. que precisa desesperadamente 'j ' I 97 ! . informação e entretenimento. está já a vender milhares de unidades de produção de biogás baseado na reciclagem de estrume nas zonas rurais do Bangladeche. a nossa empresa de ener- 96 gias renováveis. este problema é completamente controlável . Para muitas pessoas pobres. por empresas gananciosas e. Afinal. A destruição das florestas está a contribuir para acelerar as alterações climáticas e transformar o nosso planeta num lugar menos bonito. Essas ofertas poderiam abrir a milhões de habitantes das zonas rurais a perspectiva excitante de modificarem as suas vidas. em Acra. em Lagos ou em qualquer outra cidade do mundo em vias de desenvolvimento . «Eu fui criado com uma malga de arroz por dia». as remessas de dinheiro do estrangeiro são uma parte crucial da sua vida em termos económicos. a capital do Bangladeche. algumas pessoas das zonas rurais que têm a oportunidade de comprar o iogurte enriquecido com micronutrientes não compreendem o seu valor nutritivo ou a importância dos micronutrientes para a saúde dos seus filhos.Hoje em dia. Trabalhadores pobres atravessam fronteiras e cruzam até por vezes oceanos para encontrar trabalho. (Sei que é verdade. E se for fã das actividades ao ar livre . Haverá um espaço para si no mundo das empresas sociais? Na verdade. «Porque é que isso não basta para o meu filho?» Eis uma oportunidade para uma empresa social criada em torno de ofertas culturais. As florestas estão a ser desbastadas em todo o mundo por indivíduos irresponsáveis. nalguns casos.Íto interessante? Daca. danças e peças de teatro poderiam levar os habitantes das zonas rurais do Bangladeche a terem uma melhor compreensão das necessidades das suas famílias em termos de saúde. Eis um simples exemplo: porque é que a reciclagem de resíduos não poderia ser uma empresa social mu.e crie uma empresa social que se dedique ao tratamento dos resíduos urbanos de uma forma sustentável do ponto de vista económico e ambiental. Em seguida. as oportunidades são quase ilimitadas. poderiam criar-se aplicações culturais. Mesmo uma pessoa que trabalhe no sector bancário poderia encontrar oportunidades criativas de negócios sociais . É efectivamente possível mudar uma cultura com programas culturais. Suponhamos que tem formação em engenharia. A este pacote poderiam acrescentar-se programas de rádio e de televisão. os resíduos são um produto valioso.ou talvez em Tegucigalpa. têm de descobrir uma maneira de transferir o que ganham para a sua família. À medida que as pessoas vão adquirindo o seu próprio telemóvel. por funcionários governamentais que são pagos pelos contribuintes para protegerem as florestas. Programas culturais com canções.e não há nenhuma razão para que esses programas não possam ser organizados de acordo com um modelo de empresa social. Dezenas de milhões de pessoas por todo o mundo necessitam de melhor acesso a serviços financeiros e todos os serviços que poderiam ser-lhes facultados têm potencial para constituírem a base de uma empresa social de sucesso. que tenha sido mordido pelo «bichinho» da empresa social. tem graves problemas sanitários causados pelo influxo de milhões de pobres das zonas rurais. Por exemplo. se instale em Daca .e não me refiro apenas ao microcrédito. alpinismo ou a acampar na natureza? Haverá maneira de usar essa sua inclinação como base para uma empresa social? Sem dúvida.existem inúmeras possibilidades. que vivem em casas sem sistemas de esgotos adequados nem recolha de lixo. fertilizantes.

O objectivo é encontrar um produto ou criar um serviço que contribua para dar autonomia aos seus clientes. 99 . criar uma empresa social de produtos têxteis. agradável. os pobres têm de pagar taxas muito elevadas de cada vez que transferem o seu dinheiro. As pessoas que quer servir estão actualmente a trabalhar? Têm aptidões apreciáveis? Pode proporcionar-lhes um melhor acesso a mercados interessantes? Pode dar-lhes ferramentas. Pode também pensar-se numa empresa que contribua para a autonomia das pessoas. O meu trabalho no Bangladeche gira em torno das muitas necessidades dos pobres. deficientes. que poderia melhorar rapidamente a vida de um sem-número de pessoas. Frequentemente. pode vender a última moda a preços elevados a clientes ricos. Tente proporcionar-lhes algo que não seja exclusivamente de consumo. Pode ser o acesso a energia eléctrica. um desafio que nos faz sentir realizados. Ou um produto na área dos seguros. sem-abrigo. ex-prisioneiros. Não é obrigatório pensar numa empresa social em termos de venda de produtos. O verdadeiro objectivo poderia ser criar bons empregos para pequenos produtores de algodão e trabalhadores têxteis. mas esse será apenas um meio para atingir um fim. toxicodependentes ou pessoas que não têm acesso a cuidados de saúde. por exemplo. Criar uma empresa social deve ser divertido. Se. o que proporciona aos clientes a oportunidade de criar mais valor através das suas actividades económicas. bebés e crianças. Eis algumas outras ideias que talvez ache úteis para despoletar novos conceitos de empresa social para servir um grupo específico de pessoas que tenha escolhido como alvo. que os proteja de riscos sérios.por exemplo. Pode estar relacionado com os cuidados de saúde. Construir uma empresa social em torno das pessoas Se está a ter dificuldade em identificar um problema que quer resolver. aumentando assim o seu rendimento e proporcionando-lhes uma oportunidade de se tornarem financeiramente independentes. não importa realmente em que tipo de trabalho está envolvido. Infelizmente. a bons empregos ou a um rendimento através de um negócio próprio. Em rodos estes casos. É uma empresa social muito prática e extremamente necessária. mas que lhes dê a hipótese de ganhar mais ou de poupar mais do que gastam no 98 seu produto.e depois tente descobrir como poderia ajudá-las. permitindo-lhes trabalhar mais produtivamente. excitante. mães solteiras. desempregados. pode-se desenvolver uma óptima ideia para uma empresa social começando por definir os seus destinatários e retrocedendo a partir daí. a maquinaria ou a tecnologia moderna. Como vê. PQde optar por trabalhar também com os pobres ou por identificar algum outro grupo com necessidades importantes. O produto pode estar relacionado com as áreas da educação ou da informação. Basta que um bancário interessado. doentes mentais. em que área se especializou ou quais são as suas aptidões específicas. sugiro-lhe uma outra abordagem: procure um grupo de pessoas que precisem de ajuda. ajudando-as a ter melhor acesso aos mercados do mundo desenvolvido. a sua empresa social pode proporcionar a pessoas menos afortunadas a oportunidade de captar uma maior porção da cadeia de valor.talvez em parceria com um técnico de informática crie um negócio de transferência internacional instantânea e de baixo custo. Identifique a sua paixão especial e descubra uma forma de a relacionar com um problema com que alguém está a debater-se. Pode ser crédito para os seus clientes montarem a sua própria empresa. E esta despesa é desnecessária. Melhorar a produção e o acesso aos mercados. encontrando uma maneira de proporcionar a artesãos do mundo em vias de desenvolvimento o acesso a clientes no mundo desenvolvido. formação ou acesso a informação para aumentar o valor que conseguirão criar e o dinheiro que ganharão através do seu trabalho? A sua intervenção poderia ser na parte da produção ou do marketing .do dinheiro para sobreviver. Esforçar-se-ia por maximizar o número de beneficiários das operações da empresa e o benefício individual para cada um dos trabalhadores.idosos. especialmente com o potencial da moderna tecnologia para efectuar essas transferências electronicamente numa questão de segundos e com um custo insignificante.

Não se esqueça de que os pobres e os desfavorecidos são tão capazes. à semelhança do que fazem as companhias de seguros. orgulhar-se-ia de poder apontar uma série de empresas florescentes que ajudou a criar. tabacarias. e comercializando um iogurte enriquecido com micronutrientes que proporciona uma melhor nutrição. Para o seu negócio ser considerado uma empresa social. seja o que for . habilitando pessoas cegas a montar peças de mobiliário. Há muitas maneiras de o fazer. Estabeleça uma ligação com as pessoas que beneficiarão da empresa. Devem ser acessíveis às pessoas que mais necessitam deles. Outra hipótese seria trabalhar com pessoas portadoras de deficiência. É claro que um dos produtos mais potentes que se podem vender é a educação. Poderiam também fornecer-se tecnologias úteis. um acidente ou uma doença grave. pessoais e sociais. basta um pequeno embate para cair numa espiral descendente. a sua empresa social será muito mais eficaz se as pessoas que pretende ajudar participarem no seu desenvolvimento. muitas vezes. como uma espécie de cooperativa.Criar emprego. com planos de pagamento a longo prazo. 100 Facilitar o empreendedorismo.talvez tenha a criatividade necessária para inventar uma delas? Seja qual for a necessidade dos membros do grupo-alvb que pretenda servir. Ao fim de algum tempo. Poderia organizar as pessoas em grupos de apoio mútuo. Uma outra opção seria criar um fundo de investimento. Talvez possa criar uma empresa social que proporcione a pessoas vulneráveis um maior grau de estabilidade nas suas vidas. Proporcionar estabilidade. há ideias ainda melhores do que esta. a fazer melhor uso do mercado agrícola e outros. quer por terem um preço mais baixo ou por oferecerem condições de crédito favoráveis. Poderia criar um programa de acompanhamento para aspirantes a empresários ou apoiar concursos para seleccionar. Esse embate é por vezes uma só má colheita. Um dos principais problemas que os pobres têm é que a sua vida não está protegida contra choques económicos. convide-as a ser parte do processo. Poderia criar uma empresa comercial e empregar uma equipa de vendas constituída por ex-toxicodependentes ou mães solteiras (uma das mães poderia tomar conta dos filhos das outras enquanto elas trabalham). ou por existir um programa de subsidiação cruzada resultante da venda do mesmo produto a um preço mais elevado aos clientes com mais posses. Poderia criar uma cadeia de estabelecimentos comerciais barracas de venda de frutos. a propriedade destes pequenos negócios poderia ser transferida para os seus empregados. de informática e de formação em áreas tecnológicas. um programa de formação ou uma agência de marketing. que. redunda numa situação de extrema pobreza. É o que a Grameen tem feito: facultando o acesso ao crédito. Para quem mal consegue subsistir.e empregar pessoas desfavorecidas para trabalharem neles. um percalço económico ou uma crise familiar . Provavelmente. Poderia pensar em maneiras de repartir o risco por muitas pessoas. desde programas de alfabetização e formação vocacional básica até cursos de línguas. A sua empresa social poderia ser concebida de forma a ajudar as pessoas proporcionando-lhes um bom emprego. empreendedores e trabalhadores 101 . Se fosse conveniente. as aptidões. o que permite às pessoas participar em mercados locais. tais como o acesso à Internet ou aplicações para telemóveis que ajudem as pessoas. pizarias. A sua empresa social poderia ser criada de forma a fomentar o empreendedorismo. transformando-os em microempresários. que proporcionam um fornecimento sustentável de energia eléctrica. vendendo painéis solares. os produtos e serviços que vende devem gerar um valor para os clientes que ultrapasse o do seu custo. As pessoas podem beneficiar com a oportunidade de adquirirem produtos e serviços necessários a preços acessíveis. a coser peças de vestuário ou até a darem massagens). Uma das lições mais importantes que a vida me tem ensinado é que existe um enorme potencial criativo e empreendedor em toda a gente. por exemplo.um filho toxicodependente. Poderia criar um centro no qual os empresários tenham a oportunidade de se encontrar com outras pessoas com os conhecimentos. criando uma empresa social que use as suas aptidões e em que a sua deficiência seja irrelevante (por exemplo. as experiências ou as tecnologias necessárias para iniciar um negócio de sucesso. Ajudar consumidores. premiar e promover os melhores novos conceitos de empresa. por exemplo.

por exemplo. as infra-estruturas são um problema. poderia também abordar problemas de infra-estruturas mais substanciais. quem compreende as necessidades sociais dos pobres melhor do que eles próprios? Estabelecer essas ligações não só resultará num melhor plano de negócio como também criará uma atmosfera de respeito e fará com que as hipóteses de sucesso da sua empresa social aumentem substancialmente. e depois outro. é provável que as pessoas afectadas estejam dispostas a pagar pelo melhoramento da infra-estrutura. Algumas das tecnologias «fáceis de usar» produzidas para pessoas pobres podem revelar-se tão eficazes e atraentes que os ricos se apressarão a adoptá-las. de formas tremendamente positivas. a tecnologia que foi concebida para os ricos e se encontra disponível pode ser usada pelos pobres sem qualquer modificação. Em muitos lugares onde existe pobreza. Podemos melhorar dramaticamente o-ambiente através de empresas sociais. Melhorar as falh~s dessas infra-estruturas pode afectar directamente a capacidade das populações locais de aumentarem o seu rendimento. Incrementar o acesso a infra-estruturas. Basta que alguns empresários concebam modelos de empresas sociais viáveis para pôr estas tecnologias ao alcance de toda a gente. poderia avançar para outro projecto. por exemplo. 102 Se tem acesso aos recursos necessários. tentar ir ao encontro da necessidade de um porto de mar regional para apoiar o comércio. Aplicar a tecnologia às necessidades humanas Uma outra abordagem da questão de como desenvolver uma ideia para uma empresa social é pensar em tecnologias novas ou já existentes e perguntar-se: «Haverá uma maneira que não esteja actualmente a ser implementada de esta tecnologia servir alguma necessidade humana?» Eis algumas ideias específicas deste tipo que talvez lhe dêem pistas. produzindo benefícios com impacto na saúde humana e na economia. mobilidade. há muitas outras tecnologias que poderiam ter o mesmo tratamento: computadores. Por 103 . Em 1997. Em muitos casos. Promover a sustentabilidade e a defesa do ambiente através de soluções tecnológicas. organizar o empreendimento. Nalguns casos.como qualquer um de nós. O seu papel como dono de uma empresa social poderia ser. Um empresário de uma empresa social poderia seleccionar um desses problemas e criar uma empresa de pequena dimensão para o abordar . Talvez não exista um sistema de reciclagem em funcionamento ou qualquer outro tipo de tratamento de resíduos e se registe um alto grau de poluição. encontrar investidores e tecnologia. de um aeroporto para promover as viagens de longo curso ou de centrais eléctricas e linhas de transmissão. O telemóvel é um exemplo óbvio. Por exemplo. há uma necessidade de concepções criativas para desenvolver tecnologias completamente adequadas aos pobres. Internet. Talvez não exista acesso à rede pública de energia eléctrica ou a água potáveL O sistema de irrigação pode ser insuficiente para os agricultores locais. Actualmente. conceber um modelo de recolha e partilha de receitas ou ultrapassar obstáculos legais e burocráticos. Têm também o mesmo talento que todos nós para conceber ideias interessantes. Depois de este projecto se completar com êxito. até por fim lançar projectos cada vez mais ambiciosos. tornadas mais resistentes e acima de tudo mais baratas para que possam ser úteis aos pobres. quando montámos uma rede telefónica nas zonas mrais do Bangladeche e criámos uma rede nacional de «senhoras do telemóvel». Adaptar tecnologias usadas pelos ricos às necessidades dos pobres. Ao fim e ao cabo. Noutros casos. tecnologias na área dos cuidados de saúde e várias outras. o que fizemos foi simplesmente pegar numa nova tecnologia para os ricos e torná-la acessível aos pobres. energias renováveis.a Companhia de Melhoramentos dos Esgotos da Rua Principal. resolver as questões do enquadramento legal do negócio. Muitas das tecnologias que tornaram a vida melhor para os ricos estão agora prontas a serem adaptadas. Talvez haja necessidade de uma ponte ou de uma estrada para ligar uma pequena localidade a um mercado.

porque lhe permite obter uma noção clara da exequibilidade da sua ideia. Familiarize-se com os seus interesses. Precisa de abrir um estabelecimento comercial para vender os produtos? Hoje em dia. é preferível começar em pequena escala e logo que possível. A fase experimental proporcionará. as suas necessidades. Mal a sua ideia esteja formulada. dos conhecimentos e de 104 outros recursos específicos que podem ser necessários para que ela seja concretizada. na Índia. Considere soluções inovadoras para diferentes problemas sociais e pergunte-se: «Haverá alguma maneira de este sistema ser modificado e adaptado à resolução do problema que estou a estudar?» Talvez um conceito interessante da área dos transportes. Com o dinheiro contratou dois jovens surdos de escolas locais. Eu já contei como iniciei o projecto de microempréstimos com 27 dólares do meu bolso. usualmente. telefonou a alguns dos seus amigos e perguntou se queriam fazer a entrega de encomendas através do seu novo serviço de estafetas. as suas aptidões e os seus sonhos.muitos negócios podem ser conduzidos recorrendo apenas ao telemóvel que traz no bolso. com estes primeiros passos. Precisa realmente de gastar dinheiro no arrendamento de um escritório? Provavelmente não. Investigue e leia bastante. requer alguma criatividade. Algumas pessoas aceitaram contratar os serviços da minúscula empresa de Lakra. Por isso. todos surdos. a protecção de superfícies de captação. ao problema da habitação ou à educação. providenciar os conhecimentos e a tecnologia requeridos e organizar o acesso aos mercados. a gestão das pescas. ou da informática possa ser aplicado aos cuidados de saúde. em Mumbai (Bombaim). Como já sublinhei. que entregam encomendas por toda a cidade. os resultados da agricultura a longo prazo serão melhores e a vida das comunidades rurais muito mais próspera. Actualmente. Depois de ter a ideia para um modelo de empresa. dedique algum tempo a explorar ideias. é possível experimentar um novo modelo de negócio com um orçamento muito reduzido. Em parte graças à tecnologia moderna. comece a perguntar a si próprio e aos outros membros da sua equipa: «Como podemos pôr em funcionamento um pequeno projecto-piloto da nossa ideia? Haverá organizações ou membros da comunidade a que possamos recorrer imediatamente para nos ajudarem a começar a uma escala bastante pequena?» Tente usar um mínimo de recursos nesta fase. Em seguida. ele construiu um negócio que emprega pessoas portadoras de deficiência provenientes de meios desfavorecidos. Uma dessas pessoas pode ter uma ideia para a solução perfeita. o passo seguinte é testá-la. a Mirakle Couriers emprega trinta e cinco funcionários. fácil e barato montar um negócio na 105 :I J . E. silenciosamente mas com grande eficiência. O desafio para o empresário de uma empresa social será reunir o capital necessário para possibilitar uma transição para práticas sustentáveis. Dhruv Lakra. é rápido. se organizarmos empresas soctals em torno de actividades como a florestação. Examine as formas como outras pessoas tentaram resolver o problema social e tente identificar os motivos por que falharam e como poderiam ter tido sucesso. Passe também algum tempo com as pessoas que tenciona servir. Testar o modelo O objectivo do empresário de uma empresa social é criar um modelo de negócio que tenha uma relação custos-resultados positiva e que proporcione ao mesmo tempo um serviço de valor aos pobres ou a algum outro segmento mal servido da sociedade. O capital para o seu projecto-piloto talvez tenha de lhe sair do bolso. começou a testar a sua ideia de um serviço de estafetas em 2008 com trezentos dólares que tinha poupado da sua bolsa de estudos da Universidade de Oxford. o ecoturismo e a agricultura sustentável.ou v ICe-versa.se alguém se der ao trabalho de a OUVlr. dos seus pontos fortes e fracos e das aptidões. É típico de muitos empresários sociais de sucesso.exemplo. Esta fase experimental é crucial. Este passo.a oportunidade de desenvolver um modelo de negócio provisório e de calcular qual o capital de que virá a necessitar para montar uma operação à escala prevista. Os potenciais empresários sociais dos nossos dias têm muita sorte.

Evidemémente. muitas pessoas. Solicite um exemplar do plano empresarial muitas organizações terão todo o prazer em facultar-lho. Também o progresso da empresa social será assim. Pode come107 . porque os nossos sucessores terão aprendido muito com as nossas primeiras tentativas hesitantes. visto que demonstra se é possível. rivais e imitadores.. Se uma empresa social já existente obteve sucesso na resolução do problema que quer abordar -·. faça perguntas e aprenda tudo o que puder.uma fracção mínima da memória de qualquer brinquedo barato hoje em dia. Comece por investigar e estudar o historial das abordagens do problema em cuja resolução se quer concentrar. concebem melhoramentos inteligentes e encontram maneiras de tornar o sistema mais eficiente e melhor. Como se costuma dizer. adaptar o modelo a novas circunstâncias. em muitos casos.Internet. Até mesmo a reprodução de uma empresa social existente tem valor.a um contexto social diferente. E cada passo do processo tem o seu mérito. dos irmãos Wright. estabeleça contacto com ela. Este processo de imitação. reprodução. pode também poupar dinheiro durante a fase experimental iniciando o seu negócio em part-time. Modificar criaúvamente um modelo existente Se a ideia de lançar uma empresa social lhe interessa. e como. manteve-se no ar durante doze segundos e percorreu cerca de quarenta metros.ou se pedir a ajuda de um artista amigo. só tinha 256 Kb de memória. não desanime se o início lhe parecer pouco auspicioso. E. Precisa de contratar um artista gráfico e uma tipografia para criar folhetos informativos ou anúncios da sua empresa social? Provavelmente. que chega a um número de clientes maior do que uma boutique da rua principal de qualquer cidade. pas106 sando de uma prática obscura nas zonas rurais do Bangladeche a um movimento a nível mundial que melhorou a vida de pelo menos 150 milhões de pessoas em cinco continentes. muitas vezes. Existem já muitas organizações que desenvolveram abordagens criativas e eficazes dos problemas mais graves com que se defronta a nossa espécie. educação. em 1981. proporcionando postos de trabalho ou distribuindo produtos ou serviços que tornam melhor a vida dessas pessoas. uma simples reprodução pode transformar-se em algo mais. experimentação e aperfeiçoamento foi o que permitiu ao microcrédito desenvolver-se. Pode também aprender com as ONG e as empresas com fins lucrativos tradicionais. É assim que tudo começa. Para muitos empresários. «não deixe o emprego fixo». o dia mais excitante das suas vidas é aquele em que abandonam a sua carreira anterior e se empenham completamente numa nova carreira. pelo menos até ter a garantia. conseguirá obter resultados quase profissionais se usar um computador e uma impressora barata. Quando o primeiro computador pessoal apareceu no mercado. poluição ou qualquer outra área . Talvez exista até uma opção de <</ranchising social» que lhe permita simplesmente expandir o alcance de uma empresa social já existente. Há também grandes empresas com fins lucrativos que realizam um excelente trabalho com grupos desfavorecidos. O primeiro automóvel atingia a velocidade estonteante de oito quilómetros por hora. retirar o elemento de lucro pessoal e assim criar uma empresa sociaL Acima de tudo. Os êxitos incríveis que celebramos actualmente parecer-nos-ão pouco sofisticados e risíveis daqui a dez. de que o seu modelo de empresa social realmente resulta. cinquenta anos. Algumas organizações sem fins lucrativos têm grandes fontes de rendimento. o que poderá ultrapassar até o nível dos resultados que os profissionais obteriam. Cada estádio traz novos motivos de entusiasmo e abre novas possibilidades. através de testes e de experiências. As ideias vão-se acumulando até atingirem as alturas. vinte. Talvez encontre uma ideia inspiradora que possa reproduzir e adaptar a um contexto diferente. Pode copiar as suas melhores práticas. O primeiro avião.acrescentam novas características. a um sistema económico diferente. os seus modelos podem ser convertidos em negócios sociais. Partilhe as suas ideias. não é essencial conceber uma solução inteiramente nova para o problema social que quer abordar.colaboradores.quer se trate de cuidados de saúde. a um grupo de clientes diferem:e. Ao longo do tempo.

a empresa social produziria lucros.ou numa combinação de ambos os tipos de investimento. enquanto uma equipa profissional empenhada dirige as operações diárias do banco. Em breve veremos exactamente como uma empresa social deste tipo funcionaria. fundando uma nova escola ou um centro da terceira idade. criando empresas sociais que gerassem mais postos de trabalho para pessoas portadoras de deficiência e outros projectos similares. Os pobres poderiam também obter acções destas empresas sociais sob a forma de dádivas de doadores ou adquirindo as acções com o seu próprio dinheiro. a saúde ou o aumento do rendimento. Os doadores bilaterais e multilaterais a países em vias de desenvolvimento poderiam facilmente criar empresas sociais de tipo IL Por exemplo. que é constituído por contraentes de empréstimos do sexo feminino. Se bem gerida.çar por copiar uma empresa social já existente e um belo dia dizer: «Ora bem. É um momento excitante.tais como estradas. descobre que é um pioneiro da empresa social. auto-estradas. Contamos que ambas as empresas entrem em funcionamento no início de 2011 . Uma equipa de gestão empenhada poderia assumir a responsabilidade de dirigir a empresa. A propriedade da empresa poderia ser de uma instituição dedicada ao benefício das famílias desfavorecidas ou de todas as famílias que vivessem na zona. O Fundo Otto Grameen foi já criado e a fábrica está em construção. Essa instituição aplica108 ria o lucro na melhoria da qualidade de vida dos pobres da zona. Um modelo alternativo: a empresa social como propriedade dos pobres Até as empresas com fins lucrativos podem ser transformadas em empresas sociais. Assim. propriedade de uma instituição especialmente criada. aeroportos. da Alemanha. cuja missão seria assegurar-se de que a empresa da ponte operaria de maneira eficiente e teria lucro.co. quando se transfere a sua propriedade total ou maioritária para pessoas pobres. melhorando o sistema de abastecimento de água. A instituição poderia gerir a empresa directamente ou através de um contrato de gestão com outra empresa.e que comecem rapidamente a proporcionar benefícios sociais às pessoas das suas comunidades. Como explicarei num capítulo posterior. Este conselho define as linhas gerais de funcionamento do banco. a propriedade do Banco Grameen será sempre das pessoas pobres em cujo benefício o banco foi fundado. Os lucros gerados pela empresa poderiam também ser investidos na construção de. 109 . está já em decurso o processo de estabelecer este tipo de empresa social como joint venture entre a Grameen e a empresa comercial Otto. Os desempregados da zona poderiam ser contratados pela empresa e esta concorreria em pé de igualdade com empresas com fins lucrativos para obter contratos de construção. promovendo programas relacionados com a educação. poderia montar-se uma empresa de construção civil com o fim de criar emprego. mais pontes . tenho uma ideia para fazer isto melhor. Muitos projectos de infra-estruturas . O Banco Grameen integra-se nesta categoria. rendimento e crescimento económico numa cidade ou numa povoação que estivessem estagnadas do ponto de vista económico. As empresas convencionais existentes poderiam também ser convertidas em empresas sociais utilizando o mesmo modelo de propriedade. Este modelo constitui a empresa social de tipo II. em vez de um doador multilateral ou bilateral conceder um empréstimo ou um subsídio a um país em vias de desenvolvimento para construir uma ponte.poderiam ser construídos desta maneira. que poderiam ser usados em benefício da população local. portos de mar e empresas de serviços públicos .» Subitamente. o doador poderia criar uma «empresa da ponte». os proprietários do banco recebem dividendos dos lucros gerados pela actividade bancária. Por exemplo. Estamos também a finalizar os planos para uma outra empresa social deste tipo com a grande companhia japonesa de pronto-a-vestir Uniqlo. Os contraentes de empréstimos do Banco Grameen adquirem as acções com o seu próprio dinheiro. porque é propriedade dos pobres que são seus clientes. Estas acções não podem ser transferidas para quem não seja cliente do banco. através de pequenas deduções automáticas nas suas contas. Todos os anos. Os membros-proprietários votam também anualmente para eleger o conselho de administração do baq.

os problemas que surgem nos primeiros meses de uma nova empresa social são de um tipo que não é provável que qualquer estudo prévio.mas.al organizados pelo Grameen Creative Lab em várias cidades da Ásia e da Europa. Quando me envolvo numa nova iniciat:iva. Não deixe que esse facto faça parar o projecto! Olhe à sua volta para ver se encontra potenciais parceiros. A única forma de descobrir esses problemas é iniciar o 111 . Felizmente. precisa de algum tempo para pensar no assunto. debatemos um possível conceito de empresa em conjunto. ambas as partes avançam para o desenvolvimento de um plano de negócio completo. Usualmenre. Eu quero que os nossos parceiros. teremos todo o prazer em falar convosco. É importante que ambas as partes compreendam perfeitamente o que estão a prometer antes de assumirem quaisquer compromissos públicos. após essa fase inicial. geralment:e sob a forma de um memorando de ent:endimento não vinculativo. convidamos os executivos de topo das empresas parceiras para assistirem a seminários sobre a empresa soci. dizemos-lhes: «Se estão interessados em explorar a possibilidade de uma parceria com a Grameen para este tipo de actividade. geralmente baseado numa determinada área de especialização e de experiência em que o nosso parceiro pode dar o seu contributo. Frequentemente. a Veolia Water. consiga diagnosticar.mesmo nos casos em que sentiram que necessiravam de mais tempo para tomarem a decisão de envolverem a sua organização na criação de uma empresa social. Ao mesmo tempo. trata das visitas e das reuniões e promove sessões sobre a empresa social para clarificar todas as questões implicadas. os execut:ivos de topo das empresas parceiras. e antes que os executivos das nossas duas organizações se reúnam. Após o contacto inicial. É especialmente importante quando se está a lidar com um conceito completamente novo. pode não existir toda a especialização. O Yunus Centre em Daca organiza os debates. ideias e recursos necessários para tornar a ideia da empresa social uma realidade. a empresa 110 em questão fica rapidamente entusiasmada com o conceito.) É importante que as empresas parceiras tenham uma ideia muito clara sobre o que é a empresa sociaL Em seguida. de um modo geral. (Explicarei pormenorizadamente o funcionamento do Grameen Creative Lab num capítulo posterior. a BASF. estão t:ambém predispostos a avançar rapidamente. Estas joint ventures são verdadeiras parcerias que exploram o talento. na maior parte dos casos. experiência. Apraz-me poder dizer que. especialmente quando são do mundo das empresas com fins lucrat:ivos. Após os passos preliminares. enviamos uma descrição geral do conceito para que o potencial parceiro não fique confuso nem com ideias erradas sobre o que é a empresa social.Trabalhar com parceiros É provável que a maior parte das empresas sociais tenha origem numa só pessoa ou num pequeno grupo de pessoas amigos. Como já expliquei. Descobri que. vários dos primeiros negócios sociais criados pelo Banco Grameen envolvem parceiros que são de um modo geral entidades com fins lucrativos . outras vezes. são necessárias algumas viagens exploratórias dos seus especialist:as ao Bangladeche ant:es de finalizarmos um acordo de t:rabalho. acredito em avançar com relativa rapidez quando surge uma boa ideia. a elaboração de protocolos legais de incorporação e o investimento de fundos no novo negócio. compreendam claramente que a única recompensa que retirarão da nossa parceria será a satisfação por estarem a fazer algo para ajudar as pessoas. como é o caso da empresa social. as especializações e o entusiasmo de ambas as organizações. O nosso objectivo durante este processo é avançar a «um ritmo pausado».» Se os potenciais parceiros estiverem interessados. os executivos das empresas com quem me tenho avistado têm compreendido e apoiado este conceito. sinto que o melhor é avançar com uma ou duas experiências. É um modelo que usâmos já várias vezes e com grande êxito no Banco Grameen. Nunca acontece que uma das partes esteja de facto a fazer todo o trabalho enquanto a outra simplesmente empresta o seu nome para beneficiar a sua própria imagem pública ou aumentar o seu prestígio. colegas de trabalho ou pessoas que partilhem o interesse por um determinado problema sociaL Num desses pequenos grupos.empresas como a Danone. primeiro recolho a maior quantidade possível de informação . até ao momento. por mais exaustivo que seja. a Intel e a Adidas. Há uma certa verdade na frase «analisar demasiado por vezes leva a paralisar». Por vezes.

especialmente os conhecimentos no âmbito dos negócios que elas trazem consigo. As pessoas interpelam-nos nos corredores para lhes perguntarem corno vai a joint venture com a Grarneen. na forma corno a colaboração na empresa social afectou os funcionários da Danone e da Veolia Water. Urna parceria entre urna organização dedicada a ajudar os pobres e um grupo económico empenhado na obtenção do máximo lucro possível não é convencionaL Algumas pessoas vêem-na até corno um «casamento» esquisito. Os executivos dessas duas empresas dizem-nos que os seus colegas estão profundamente entusiasmados com o facto de as suas organizações estarem envolvidas nesta nova experiência empresarial progressista e reformista de negócio.» E a empresa social é essa causa. cumprir objectivos da responsabilidade social empresarial e fazer com que alguns executivos se sintam de bem com a sua consciência. Evito envolver-me em debates sobre esta questão. francamente.por urna boa causa... Ele pareceu-me genuinamente interessado na minha proposta de urna empresa social para ajudar as crianças do Bangladeche. ou talvez por urna combinação complexa de todos estes motivos? Ninguém sabe a resposta. Por isso.se a Danone está de facto a usar-me . o direc112 tor-geral executivo da Danone.e tudo o resto é de importância secundária. para perguntar quando será lançada a próxima empresa sociaL A empresa social é um dos tópicos de que os trabalhadores da Danone e da Veolia Water costumam gabar-se quando falam do seu trabalho a pessoas externas à empresa. O direc113 .negocw e dar-lhes tempo a que se tornem óbvios. ocasionalmente perguntam-me se existirá um genuíno entusiasmo pela empresa social por parte das empresas com fins lucrativos nossas parceiras . Por isso.» Est~ implícita a ideia de que há algo de desonesto no apoio dado ao conceito de empresa social pela Danone (ou pela Veolia Water. pela BASF. Urna das abordagens que utilizam é perguntar-me: «Dar-se-á o caso de a Danone estar a usar-vos? Talvez esteja a usar a imagem de Muharnrnad Yunus e do Banco Grarneen para fazer com que a sua empresa pareça amiga dos pobres do mundo. E. pelo desejo do público de um modelo de empresa excelente. é algo sobre o qual os recém-licenciados fazem perguntas quando concorrem a lugares nessas empresas. Evidentemente. tanto mais depressa poderemos começar a proceder aos necessários ajustamentos e aperfeiçoamentos do modelo de negócio. através deles. se o senhor tem razão . em parte. Será possível determinar exactamente o grau de entusiasmo dos executivos da Danone pela sua participação numa joint venture? Sentiram-se motivados por intenções sociais. no mundo dos negócios.. Este impacto está patente. pela Intel.o u se a joint venture não será meramente um truque destinado a melhorar a imagem da empresa em questão. talvez.. pelo orgulho que sentem na sua empresa . Quanto mais depressa metermos mãos ao trabalho. estas questões não me passaram pela mente quando me encontrei pela primeira vez com Franck Riboud.. a minha resposta quando os jornalistas me perguntam se a Danone me está a «Usar» é: «Acha que sim? Eu julguei que eu é que estava a usar a Danone! Porque o envolvimento de urna empresa assim tão importante transforma imediatamente a empresa social. usem-me! Quem quiser fazê-lo é mais do que bem-vindo. Os jornalistas fazem-me muitas vezes essa pergunta. Por consequência. É sem dúvida possível interpretar o comportamento dos grupos económicos nossos parceiros de muitas maneiras. Mas um outro benefício importante que resulta dessas joint ventures é o efeito que elas têm nos nossos parceiros empresariais e. as joint ventures Grarneen Danone e Grarneen Veolia Water tiram um enorme proveito dos recursos das grandes empresas que estão por trás delas. por urna crença pessoal na responsabilidade social empresarial. Essa disponibilidade entusiasmou-me . pela Otto. acho que sou eu que estou a usar a Danone para promover a minha ideia. fazendo-a passar de urna noção pouco importante a um conceito legítimo que o mundo de negócios da Europa quer conhecer.). para se oferecerem corno voluntários para o projecto. pode dizer ao mundo que estou aqui para ser usado. pelo desejo de realçar a sua reputação empresarial. que eu deveria sentir-me ofendido com a tentativa de «usar» o meu bom nome e o do Banco Grarneen para aumentar o prestígio de um grupo económico. Mas.e. Por favor. envolvendo parceiros com valores e objectivos muito diferentes. para manifestarem o seu apoio.

» O que aconteceria? Em primeiro lugar. Suponhamos que a Veolia Water anunciava: «Estamos demasiado atarefados para continuar a trabalhar no negócio Grameen Veolia Water.por exemplo. 115 . o Dr. urna universidade que permita criar ligações com professores ou estudantes especializados nas áreas que são relevantes para o seu negócio. aposto que alguns dos funcionários da Veolia Water com quem a Grameen trabalhou no projecto se ofereceriam para continuar a cooperar connosco. estamos também a mudar as pessoas dentro das empresas. mas são constituídas por pessoas. para além do potencial valor prático de uma parceria quando se lança uma empresa social. com ideias e auxílio prático. E a experiência das pessoas que integram as empresas nossas parceiras contribuirá para consolidar esse ímpeto. Parece-me provável que este efeito pessoal perdure para além dos negócios sociais específicos que lhe deram origem. Portanto. Além disso. • Um parceiro tecnológico .reproduzir. urna empresa tradicional com fins lucrativos (se quer vender um produto a clientes com mais recursos financeiros) ou um site da Internet (se quer vender um produto a clientes que usam essa tecnologia e estão dispersos por urna área geográfica vasta).tor-geral executivo da BASF. a iniciativa de fornecimento de água própria para consumo continuaria. o mundo tradicional dos negócios poderá começar a reflectir a influência da empresa sociaL 114 Não imagino o Groupe Danone a tornar-se uma empresa social. E convidou-me para proferir uma palestra nessa conferência e responder às perguntas da assistência.para vender ou conceder a licença de utilização dos produtos ou da especialização tecnológica necessária para garantir o sucesso da sua empresa social. Um dia. porque. Estamos a construir uma via paralela em colaboração com as empresas com fins lucrativos . ou para se associar ao projecto. • Um parceiro de produção . quando algumas dessas pessoas se aposentarem. • Um parceiro de recursos humanos. um fundo de investimento. urna empresa. mas não ficaria surpreendido se um dia aparecesse uma nova empresa talvez chamada Danone Social que se dedicasse inteiramente à empresa sociaL É o tipo de impacto a longo prazo que acredito que podem ter as nossas parcerias com as empresas. Não quero com isto dizer que a Veolia Water e a Danone se vão transformar em empresas sociais. E o mesmo pode dizer-se da Danone. • Um parceiro de distribuição . A Veolia Water e a Danone são empresas. adaptar ou expandir um modelo existente. Farão novas perguntas: «Ü que estamos a fazer pã:rã disponibilizar os nossos produtos às pessoas pobres?» «Como podemos tornar o nossos negócio mais sustentável dos pontos de vista social e ambiental?>> «Que benefício trará a nossa nova fábrica às pessoas da comunidade vizinha?>> Aos poucos. urna fundação filantrópica ou mesmo um organismo governamental que esteja à procura de urna forma de criar um efeito social positivo com os seus capitais de investimento. Jürgen Hambrecht.complementar e apoiar o trabalho de urna ONG com a sua nova empresa sociaL • Um investidor um indivíduo. mesmo que não fossem financeiramente apoiados pela empresa. urna agência que ponha a sua empresa social em contacto com pessoas talentosas. E outras que mantêm o seu posto na Veolia Water e na Danone (e nas outras empresas com quem estamos a associar-nos) aplicarão cada vez mais os valores e o pensamento criativo que definem a empresa social ao seu trabalho na sua empresa com fins lucrativos. há benefícios de grande alcance que se criam ao envolvermos outras organizações no desenvolvimento do conceito de empresa sociaL Eis alguns exemplos dos tipos de organizações que talvez queira considerar como possíveis parceiras quando lançar a sua própria empresa social: • Outras empresas sociais . exigiu até que os 245 gestores de topo do grupo em todo o mundo lessem o meu livro antes de comparecerem à conferência anual na sede da BASF em Setembro de 2008. sendo a tecnologia o seu contributo. • Uma ONG ou organização de beneficência . Não estamos só a mudar as coisas no mundo empresarial.que poderia ser urna ONG (se pretende vender um produto a consumidores pobres).uma via para a empresa sociaL Esta via ganhará o seu próprio ímpeto. na nossa cooperação com a Veolia Water. dispostas a dedicar parte da sua carreira a urna causa meritória. aprendemos muito sobre o que é necessário fazer. talvez decidam lançar um empreendimento no âmbito da empresa social.para lhe fornecer matérias-primas para a sua produção ou produtos finais para que possa vendê-los.

Defendo muitas vezes que causar um impacto na vida das pessoas é tão inspirador e gratificante como fazer dinheiro .uma organização que possa auxiliar o empresário a definir e a medir o efeito da sua empresa social. as suas capacidades e as suas circunstâncias se forem alterando. Suponhamos que um contabilista tem duas ofertas de emprego. poderia ser uma organização sem fins lucrativos. as recompensas pessoais proporcionadas por uma empresa social são efectivamente maiores do que as que as empresas tradicionais oferecem. A única diferença reside na definição de sucesso. um think tank ou uma equipa universitária especializada na área em questão. Experimente. que estão dispostas a sacrificar os seus próprios interesses em benefício da sociedade. Tal implica oferecer salários e condições competitivos. Ambas oferecem o mesmo salário. Se este requisito básico for cumprido. de homem de negócios que tem fundado. à medida que as suas necessidades. Talvez se deixe fascinar pela sua capacidade de mudar o mundo para melhor. Passará noites em branco a sonhar com as coisas incríveis que quer experimentar logo que chegue ao trabalho na manhã seguinte. a ideia da empresa social é ajudar as pessoas. expandido e dirigido empresas sociais. Quererá fazê-lo mais e mais depressa. uma empresa social tem de atrair pessoas talentosas do mesmo mercado de trabalho a que as empresas com fins lucrativos recorrem. O Banco Grameen e outras empresas sociais em que estou envolvido deparam-se há muito tempo com o desafio de contratar e manter nos seus quadros colaboradores inteligentes. benefícios semelhantes e uma posição na empresa e responsabilidades comparáveis.que ninguém deveria contar com 116 um bom salário se decidir trabalhar para uma empresa sociaL Ao fim e ao cabo. de outra forma. Sentir-me-ei bem por saber que estou a fazer a diferença. não menos. A aptidão para criar e manter relações positivas e criativas com as organizações parceiras é. trabalhadores e talentosos em competição com empresas que são líderes 117 . Se as recompensas financeiras são iguais. O que nos conduz à questão: numa empresa social estabelece-se um tipo de relação diferente com o talento humano do que se estabelece numa empresa com fins lucrativos? Parece-me que a resposta a esta questão depende da resposta a uma questão ainda mais profunda: o desejo de causar um impacto no mundo é tão forte como o desejo de fazer dinheiro? Essa é que é a questão. Em primeiro lugar. Regressarei a casa todos os dias com a satisfação de saber que estou a envolver-me na resolução de um problema que. uma das características mais salientes dos negócios sociais de maior sucesso. uma boa gestora de marketing ou um bom especialista de produção para a sua empresa social terá de oferecer o mesmo tipo de condições que um banco.ou ainda mais. Muitas pessoas partem do princípio de que quem trabalha numa empresa social não é bem pago . provavelmente." Um parceiro monitorizador. tanto mais fácil será convencer investidores e outros parceiros do valor do seu trabalho. Parece-me que a maioria das pessoas avaliará as duas ofertas da seguinte maneira: «Qual é a diferença entre estes dois empregos? A principal diferença é que a empresa social me oferece a oportunidade de mudar o mundo . Atrair pessoas talentosas Até mesmo a empresa social mais pequena precisará de contratar pessoaL Terá de contratar cada vez mais pessoas à medida que o seu negócio for crescendo. Se quiser um bom contabilista.de me tornar parte da solução em vez de ser parte do problema. Esta ideia sobre a empresa social está totalmente errada. É normal que o empresário de uma empresa social se sinta tão obcecado com o sucesso como o empresário de um negócio com fins lucrativos. uma de uma empresa com fins lucrativos e outra de uma empresa social. porque não aceitar o emprego na empresa social?>> Eu escrevo sobre esta questão de uma perspectiva prática. É claro que talvez acabe por trabalhar com vários destes parceiros. Quanto melhor for a monitorização. A empresa social paga mais. Portanto. a maneira de atrair candidatos é apelar às pessoas «boazinhas». continuaria por resolver. uma empresa da indústria automóvel ou uma empresa de informática ofereceriam.

o seu plano de negócios deve abordar todas as questões básicas de qualquer plano de negócios: • Que produto ou serviço oferecerei? • Como produzirei este produto ou serviço? 119 . Se não tem experiência de negócios. Copiar o plano de negócios de alguém que já deu provas de sucesso será uma tarefa relativamente fácil . Não precisa de saber «como fazer negócio». Tal como em qualquer outra empresa.não sinta que tem obrigação de inventar a pólvora sem fumo no seu primeiro empreendimento. pode ser necessário um plano mais longo. Todos estes parâmetros financeiros devem ser definidos de forma precisa e reflectida num plano . Tem funcionários e gestores. No entanto. Disponibiliza benefícios e serviços a um preço que espera que o mercado considere atraente. Só implica querer tornar o mundo num lugar melhor . a motivação certa e a dedicação necessária para fazer vingar a empresa são mais importantes do que possuir as ferramentas mais sofisticadas. compraram casa e pouparam dinheiro para a reforma. 118 Não é minha intenção ensinar aqui como é que se cria um plano de negócios. um plano de negócios é muito importante. mandaram os filhos para a universidade. Para uma empresa social pequena e simples. e assim por diante. um investidor ou um sócio que lhe dê motivação e apoio. Por esse motivo. mas não comece sem ele. nos seus primeiros passos no mundo dos negócios sociais. esmagar a concorrência ou expandir a empresa sem motivo.de preferência com um mentor. deverá criar um plano em que delineie os seus objectivos e defina os meios que empregará para os atingir. É claro que os conhecimentos práticos sobre a forma de fazer negócio serão úteis. como quaisquer outras pessoas. aprenderá com o tempo. Quer se trate de uma nova criação quer da reprodução do modelo de outra pessoa. E. Se não tiver experiência. Numa empresa social. não penso que ter conhecimentos extensos sobre negócios seja um requisito crucial para quem pretenda criar uma empresa social. Planear a empresa social Uma empresa social é. na altura em que emprestar aos pobres era apenas uma ideia esquisita em fase de experimentação. Se conta obter financiamento de um banco ou de um investidor externo. E. a vários títulos. Quase trinta anos depois. provavelmente será necessário elaborar um plano de negócios pormenorizado. Apraz-me poder dizer que não temos qualquer dificuldade em atrair pessoal de primeira. como publicitar de forma persuasiva um produto que talvez não seja de grande benefício para o consumidor. Antes de lançar o seu negócio. semelhante a planear um negócio com fins lucrativos. recomendo-lhe que. o objectivo não é obter o máximo de lucro. Mas os conhecimentos de negócios convencionais podem ser contraproducentes no contexto da empresa social.de negócios que seja realista e prático.e penso que essa motivação existe praticamente em todas as pessoas à face da Terra. Podem fazer com que o seu pensamento aponte para direcções erradas . são ainda membros da minha equipa. de qualquer forma. de muitas maneiras. reproduza um modelo já existente. planear uma empresa social é. pagamentos a fazer e rendas a pagar. talvez. Tem despesas a cobrir.dois ou três anos. Mas a maioria faz toda a sua carreira connosco. com políticas financeiras e de gestão adequadas como um meio para atingir esse fim. Trabalhar para uma empresa social não requer que se seja uma pessoa santa ou abnegada. mais pormenorizado. como qualquer outro negócio. Para uma empresa mais complexa. O objectivo é fornecer um bem social. algumas pessoas trabalham para nós durante um curto período de tempo . constituíram família. o plano de negócios pode ser muito básico.como reduzir custos e optimizar operações independentemente do benefício social dos processos.do mercado. Por conseguinte. clientes e fornecedores. O seu desejo de resolver um problema social é muito mais importante. Alguns dos funcionários de topo do Banco Grameen começaram a trabalhar comigo quando eram ainda meus estudantes nos cursos de Economia na Universidade de Chittagong. Pode ser revisto à medida que for avançando.apenas algumas páginas de notas e números a explicitarem o seu programa. como prejudicar a concorrência.

etc. na minha opinião.e. a responsabilidade inerente a uma empresa social é muito mais elevada do que a de uma empresa tradicionaL É ainda mais importante compreender os clientes e as suas necessidades. Talvez não resolva todo o problema. fornecimentos. são também mais importantes. água e luz. como poderá ser reproduzida ou expandida? • Existem benefícios sociais adicionais que possam ser acrescentados ao pacote de ofertas que criarei? 120 Como estas perguntas adicionais indicam. assim como padrões éticos (como a honestidade. Afinal. No entanto.• • • • • " " • • • " • Quem são os meus clientes? Quantos são? Como tomam a decisão de comprar? Como posso descobrir que preço estão dispostos a pagar pelo produto ou serviço que comercializarei? Quem são os meus concorrentes? Que métodos de marketing. uma empresa social deve ser mais bem dirigida do que uma empresa convencional com fins lucrativos. feitas as contas. mas não completamente satisfeito. A nossa fábrica de iogurtes em Bogra tem uma unidade de reciclagem. doença. subnutrição. Existem leis e regulamentos que todas as empresas têm de seguir. transportes."Tlos este princípio à joint venture Grameen Danone. Também insisti que os boiões do iogurte fossem biodegradáveis nada de plástico. que era completamente biodegradáveL Fiquei contente. todas as empresas têm responsabilidades sociais mínimas que devem cumprir. precisará também de responder a algumas questões adicionais. por exemplo) que todas as pessoas envolvidas em negócios deveriam seguir. Mas. falta de habitação. Evidentemente. salários.. mas 121 . os objectivos a atingir são mais complexos e mais difíceis. publicidade. como por exemplo: • Qual é o meu objectiv~ social: quem espero servir com a minha empresa social? • Que benefícios sociais tenciono fornecer? • Como é que os beneficiários da minha empresa participarão na sua planificação e na definição da forma que ela assumirá? • Como será medido o impacto da minha empresa social? • Que objectivos sociais conto atingir nos primeiros seis meses? No primeiro ano? Nos primeiros três anos? • Se a minha empresa social tiver êxito. Os especialistas da Danone debateram-se com esse desafio durante algum tempo e finalmente encontraram um fornecedor na China que fabricava um boião feito de amido de milho. o objectivo da empresa social é resolver um problema: pobreza. ignorância. descontos para a Segurança Social. Prevejo que o consigam . painéis solares e 'outras características «Verdes». como está a lançar uma empresa social.e que o resultado revolucionará um dia a embalagem de produtos alimentares. Olhei para aquele boião de amido de milho e perguntei: «É comestível? Porque é que as pessoas pobres hão-de pagar por um boião que é para deitar fora? Porque não fazer um boião comestível? As crianças comerão o boião depois de acabarem de comer o iogurte e dessa maneira obterão ainda mais nutrição. Existem algumas diferenças cruciais entre um plano de negócios convencional e o plano requerido por uma empresa sociaL Uma das diferenças é que o plano para uma empresa social tem de ser responsável.» A equipa de investigação da Danone em Paris está a trabalhar para atingir este objectivo. Afinal. Uma empresa social deve estar empenhada em atingir os seus objectivos sociais sem causar dano a ninguém e minimizando o seu impacto sobre o ambiente. distribuição. quando posso esperar atingir o ponto em que a empresa passará a evidenciar lucros? Ao longo de que período de tempo posso contar pagar o capital inicial (sob a forma de fundos de investimento ou de empréstimos) usado para lançar a empresa? Estas são as questões a que qualquer plano de negócios deve dar resposta. Aplicá. vendas e promoção do meu produto ou serviço utilizarei? Quais são as despesas iniciais que terei para lançar a empresa? Quais são as despesas mensais com que devo contar (aluguer.)? Como se alterarão as minhas despesas à medida que o volume de negócios for aumentando? Com que rendimento proveniente das vendas posso realisticamente contar durante o primeiro mês de negócio? Durante os primeiros seis meses? Durante o primeiro ano? Durante os primeiros três anos? Com base nos números apresentados acima.

Os primeiros dias. dar autonomia às pessoas marginalizadas pela nossa sociedade. Assim. Dê esse primeiro passo! Não se preocupe demasiado com os passos seguintes . também as empresas sociais podem fracassar. criar novos problemas com os seus métodos de negócio. Não só mudará a vida de muitas pessoas como também poderá vir a mudar a própria constituição do nosso sistema social e económico. aplique à sua empresa social roda a inteligência. as primeiras semanas de trabalho numa empresa social abrir-lhe-ão os olhos para novas possibilidades.e mais ainda! O primeiro passo Geralmente. Pode facilmente mudar as coisas quando for necessário fazê-lo ou mesmo pôr a sua ideia de parte e começar de novo. encontrará muitos potenciais clientes que farão expandir a sua empresa e muitos outros empresários desejarão copiar o seu modelo e implementá-lo noutros locais. desde que tenhamos a coragem de dar o pnme1ro passo. Se a empresa só for sustentável em certas condições ou por um período limitado de tempo. poderá expandir a escala das suas operações rapidamente e criar um enorme impacto. acabar com as doenças. Mas vale a pena. Ao mesmo tempo. a solidariedade e o trabalho árduo que aplicaria em qualquer empresa onde estivesse a dar os seus primeiros passos . Juntar-se-á a muitas outras pessoas que estão a fazer a mesma coisa. Não vejo realmente qualquer limite às possibilidades existentes. Mas o mais importante é. Estão a fazer um trabalho muito difícil e podem dar consigo em situações completamente desconhecidas. E não deve.. Quando uma comunidade começa a depender de uma empresa social. Uma empresa simples é mais fácil de gerir e um projecto-piloto proporcionará revelações e experiências que poderão ajudar a aperfeiçoar o plano de negócios. Terá de dar um jeito aqui e outro ali ao 122 seu modelo de negócio até conseguir abordar o problema social de uma maneira que seja responsável e economicamente sustentável. toda a dedicação. terá de procurar soluções mais resistentes. E juntOs atingiremos os grandes objectivos que definimos: pôr fim à pobreza. Por isso. criar uma maneira sustentável de viver. Se desenvolver um modelo óptimo. todos os conhecimentos de gestão.. aconselho as pessoas que estão a criar uma empresa social a começarem em ponto pequeno. percorrerá o caminho .deve mover o mundo na direcção certa. de modo nenhum. Tente encontrar um modelo que funcione. Em conjunto com os seus seguidores. É provável que conheça a expressão «O primeiro passo é que custa». É necessário ser persistente e paciente e não perder o entusiasmo. Talvez precise de fazer muitas experiências.mo as empresas convencionais. Não se esqueça de que a empresa social é ainda uma ideia muito recente.mesmo que seja uma só pessoa. Mas uma empresa social tem uma responsabilidade especial. a última coisa que o empresário quer é decepcioná-la. Não se deixe dominar excessivamente pela frustração. pura e simplesmente. O processo de encontrar um modelo que resulte pode demorar anos. Há sempre uma curva de aprendizagem a negociar.desde que continue a pôr um pé à frente do outro. se uma empresa social explorar os seus trabalhadores. Tal co. As pessoas que se envolvem em empresas sociais são inovadoras. O seu objectivo é proporcionar benefícios duradouros às pessoas. Dar-lhe-ão um primeiro vislumbre da alegria que sentimos quando ajudamos as pessoas . 123 . começar. poluir o ambiente ou vender produtos com defeito ou perigosos será ainda pior do que se uma empresa com fins lucrativos cometer esses erros. Não há uma via directa para o sucesso. é essencial criar uma empresa social que seja sustentável a longo prazo. pioneiras.

empresas como a Danone. Esta impaciência verifica-se especialmente em relação aos enormes problemas globais que atormentam a humanidade há séculos: pobreza. «pensar em grande» pode resultar em fracasso. reformada. fome. Porque é que havemos de os suportar um só dia mais? Esta atitude é compreensível. muito dinheiro e outros recursos . Seja qual for o seu contexto pessoal ou profissional. terá uma empresa social extremamente eficaz na transformação da vida de algumas pessoas. Quem sabe? Um dia pode acabar por ser o embrião de uma mudança global que resolva um problema a nível mundial a centenas de milhões de pessoas. Depois de ter desenvolvido a semente. dona de casa. a desenvolvê-lo e a investir capital nele. as centenas de milhões de pessoas que passam fome ou sede ou estão doentes . a Veolia Water. Os planos gigantescos destinados a ajudar milhões de pessoas de uma só vez frequentemente descontrolam-se. estão a achar atraente a ideia da empresa sociaL Mas o verdadeiro poder da empresa social reside 125 ! . Quando falo com jovens sobre a empresa social.e quer criar um plano que resolva o problema de um dia para o outro. constitua um grande plano. Afinal. Mas sugiro um tipo diferente de impaciência. a Adidas e outras. É uma semente que pode ser reproduzida uma. pode expressar a sua criatividade concebendo um plano para uma empresa social a pequena escala e implementando-o com o apoio de algumas outras pessoas. Crie um plano 124 minúsculo para ajudar algumas pessoas de cada vez. Quem se preocupa com esses problemas por vezes faz as terríveis contas .e. vinte. poderá usar toda a experiência adquirida para aperfeiçoar o seu plano. Devemos ser impacientes com os terríveis problemas sociais que criámos e impusemos aos seres humanos. trabalhadora ou qualquer outra coisa. jovem executivo. ponha-o em prática imediatamente e aprenda com o processo de implementação. Em seguida. Queremos resolver as coisas depressa. falta de habitação. multiplicado. Talvez descubra até que está a acontecer alguma coisa no seu projecto com que nunca tinha sonhado. por razões práticas. a Intel. aconselho-os a «começar em ponto pequeno». mil vezes. directora-geral no activo ou aposentada. A não ser que nos preparemos passo a passo. enquanto outras não funcionam de todo e outras ainda parecem algo fracas. duas. por vezes é preferível reduzir um problema a uma dimensão manobrável em vez de tentar resolvê-lo todo de uma só vez. doença.CAPÍTULO 4 Curar urna criança Um caso de empresa social na área da saúde A maior parte das pessoas é impaciente por natureza. em vez de passar meses ou anos a aperfeiçoá-lo.os milhares de milhões de pobres. Desenvolver uma dessas sementes é de importância crítica para a resolução de megaproblemas. O segredo para atingir grandes objectivos é conceber um pequeno módulo básico. opressão. a Otto. que. não tento modificar a sua impaciência. Os exemplos apresentados neste livro talvez dêem a impressão de que uma empresa social só pode ser lançada através de uma parceria com um grande grupo económico que tenha imensa experiência. Um dos benefícios deste tipo de impaciência é que permite a toda e qualquer pessoa envolver-se numa empresa sociaL Pode ser estudante. Com um pequeno projecto. Ao fim de algum tempo. que cresça exponencialmente sem sobressaltos. até mesmo louváveL Mas. Em vez de tentar conceber planos gigantescos para mudar o mundo de uma só vez. poderá ver que algumas partes estão a funcionar lindamente. cem. desempregado. professor universitário. estes problemas existem há demasiado tempo. Estes exemplos revelam que até mesmo gigantescas empresas globais. o passo seguinte consiste em conceber uma estrutura de gestão para multiplicar a semente. que não se deixam dominar por sentimentalismos. dez.

todas as grávidas. são testadas. Uma empresa social em regime de joint venture começará a funcionar a partir da segunda metade de 2010. envolveram-se numa iniciativa destinada a abordar o problema de urna das doenças genéticas mais terríveis do mundo. 127 . contudo. Até certa altura. Essas crianças começam a sofrer de anemia com poucos meses de vida.e comece hoje. se tanto o pai como a mãe forem portadores desse gene. há 25 por cento de hipóteses de os seus filhos herdarem dois genes da talassemia. essa tradição aumenta significativamente a probabilidade de os dois progenitores serem portadores desse gene e o transmitirem aos filhos. esta doença encontra-se principalmente nalguns países em vias de desenvolvimento . Neste capítulo. os casais que estão a planear ter filhos têm acesso a um teste do gene da talassemia. A satisfação foi imediata. é causada por um gene recessivo. A sua sobrevivência está dependente de transfusões de sangue fre126 quentes. Os portadores de um só gene da talassemia não têm quaisquer sintomas e muitas vezes nem sabem que o são. a falta de acesso a cuidados médicos e a aconselhamento e uma simples falta de informação.e o potencial a longo prazo é enorme. Recorde-se que eu comecei o Banco Grameen não com um plano de negócios para servir milhões de pessoas. com recursos muito modestos e operando a pequena escala. estariam condenadas a uma vida muito curta e dolorosa. E. Agora que o rastreio genético praticamente eliminou a talassemia da Europa e da América. graças ao rastreio genético. Nas famílias em que a talassemia está disseminada. para cada urna das famílias que têm um filho com este problema. Evidentemente. com base numa parceria entre esta ONG e o Fundo de Cuidados de Saúde da Grameen. poucos doentes com talassemia nos países pobres sobrevivem muito para além dos dezoito anos. Os únicos obstáculos são a pobreza.em particular no Sul da Ásia. crie urna empresa que poderá um dia vir a ter um efeito positivo a nível global. Nalgumas partes do Sul da Ásia.nas oportunidades que proporciona para que urna só pessoa ou um pequeno grupo de amigos. Como a talassemia é transmitida geneticamente. a grávida pode optar por interromper a gravidez. É também um problema que pode resolver-se através do rastreio genético. mesmo com este tratamento. Todas estas barreiras podem ser ultrapassadas com esforços decididos. a tradição do casamento entre membros da mesma família agrava o problema. descreverei o exemplo de uma empresa social a uma escala modesta que está a ser desenvolvida por dois jovens inspirados e solidários de Itália . era frequente nos países do Mediterrâneo. Actualmente. a talassemia. mas com um empréstimo de urna quantia equivalente a 27 dólares a quarenta e duas pessoas da localidade de J obra. Por isso. Se o feto estiver afectado. E é impossível prever qual o ponto de partida que afinal produzirá o maior impacto. a talassemia é apenas um dos muitos problemas de saúde que afectam um número excessivo de crianças no Bangladeche. Como a doença pode ser detectada através de urna simples análise ao sangue. Vá aprendendo à medida que for avançando e não desista até ter encontrado· o modelo certo. registando-se entre 6000 e 7000 novos casos todos os anos. que. É um terrível problema genético que afecta o sangue das crianças suas portadoras. É-lhes proposto que considerem a alternativa da adopção. Mas. O projecto começou por providenciar a cura de um punhado de crianças.na Itália. Calcula-se que actualmente no Bangladeche cerca de 100 000 crianças sofram de talassemia. é mais comum entre certos grupos populacionais. incluindo o Sul da Ásia. onde urna percentagem significativa da população é portadora do gene. é uma tragédia terrível. na Grécia e na Espanha. Juntamente com um pequeno grupo de amigos e apoiantes. tanto na Europa como nos Estados Unidos. No entanto.um médico chamado Lawrence Faulkner e um empresário chamado Eugenio La Mesa. a talassemia quase desapareceu na Europa e noutros países ricos do mundo. Os casais cujo resultado seja positivo são aconselhados a não ter filhos. Esse programa deu bons resultados na Europa e na América do Norte e não há razão para duvidar que poderia resultar no resto do mundo. Talvez os leitores não estejam familiarizados com a doença que dá pelo nome de talassemia. comece em ponto pequeno. criando uma ONG chamada Cure2Children. de outra forma. Tal como a anemia de células falciformes. Até mesmo antes.

Faulkner às famílias dos seus doentes falecidos. embora trágicos para as famílias afectadas. É um verdadeiro milagre médico. ao mesmo tempo. Duas crianças pequenas morreram de uma forma rara de cancro. Faulkner não se baseava simplesmente no altruísmo. E estes casos. o paciente pode passar a ter uma vida normal e a sentença de morte é comutada.» «Se pudéssemos começar a alargar os cuidados médicos aos pobres dos países em vias de desenvolvimento. Só se registam cinquenta casos por ano neste país. havia um importante motivo científico por detrás dela. o Dr. explicou o Dr. Faulkner nasceu em Florença. Esse número reduzido torna muito difícil construir uma base de conhecimentos sólida para estudar maneiras de melhorar o tratamento. estudou na universidade dessa cidade e também no Long Island College Hospital. e disseram-lhe: «Doutor Faulkner. Em seguida. Poderíamos levar auxílio. Muitos dos cancros e das doenças do sangue raras que ceifam as suas vidas não são tratados e também não são estudados. gostaríamos de fazer algo para poupar a outras famílias aquilo por que nós passámos. tratou outros com divers~s doenças. em Nova Iorque. Não serão precisas mais transfusões de sangue. Mas estavam também decididos a fazer com que algo de bom resultasse da sua tragédia pessoaL Visitaram o Dr. Faulkner.Ao mesmo tempo. E se criássemos uma organização para providenciar cuidados médicos a crianças pobres afectadas por doenças raras do sangue nos países mais pobres do mundo?» A sugestão do Dr. «Tomemos o neuroblastoma como exemplo». são potencialmente preciosos para os médicos e os investigadores. criar-se-ia uma situação de que todos sairíamos a ganhar. em Brooklyn. onde colaborou na criação de um dos principais centros mundiais de transplante e de formação de médicos. Faulkner a perguntar-se se poderia aceitar o desafio de combater a talassemia nos países em vias de desenvolvimento. Lucarelli descobriu que podia realizar um transplante total de medula em certos pacientes com talassemia. também na cidade de Nova Iorque. De facto. se encontra em bom estado de saúde e há um dador compatível. Lucarelli. Tem alguma sugestão?» Ele tinha de facto uma sugestão. «Poderiam criar uma fundação para ajudar outras famílias aqui na Itália».» «No entanto. num bairro-de-lata do Bangladeche. os pais das crianças ficaram destroçados. «Mas eu quero dar-vos uma sugestão diferente. o paciente tem de permanecer em -recuperação no hospital uma média de quarenta e cinco dias. «Esta doença é muito rara na Itália.» 129 . especialmente leucemia e outras formas de cancro do sangue. na selva em África. Usando células estaminais adultas de um dador compatível. disse ele. A operação é demorada. Foi uma tragédia que se abateu sobre dois dos seus pacientes que levou o Dr. um brilhante médico italiano. por médicos em centenas de hospitais locais. e no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center. teríamos a oportunidade de adquirir uma vasta quantidade de conhecimentos sobre as doenças raras que actualmente são consideradas misteriosas. precisamos de providenciar uma cura para os indivíduos que já sofrem de talassemia. No entanto. Embora essas curas estejam a ser desenvolvidas experimentalmente por todo o mundo. espalhados por centenas de lugares e identificados. concebeu uma cura eficaz por volta de 1984. Existem milhares de crianças doentes nos países em vias de desenvolvimento que não têm acesso a cuidados médicos. o Dr. quando o são. O Dr. de quem se tinham tornado bastante 128 íntimos durante os meses que durou a tentativa de salvarem a vida dos seus filhos. o transplante geralmente tem como resultado a cura total da talassemia. incluindo curas. no pós-operatório. regressou a Itália. Para além de tratar doentes com talassemia. chamada neuroblastoma. acredita-se que ocorrem milhares de casos de neuroblastoma nos países em vias de desenvolvimento. a quem sofre dessas doenças e. Faulkner e pelos seus colegas. Lawrence Faulkner aprendeu este novo método de transplante directamente com o Dr. após meses de tratamento ministrado pelo Dr. quando o paciente é de baixo risco. Como se pode imaginar. que não têm forma de compararem as suas experiências e aprenderem com elas.uma cura que não se restrinja a cuidados paliativos sob a forma de transfusões de sangue. Guido Lucarelli. difícil e fisicamente traumática. visto que esses casos podem ocorrer em qualquer lugar numa aldeia remota da Índia. O Dr.

Mas o seu estágio nos Estados Unidos. cerca de 50 000 no Paquistão). Quando o Dr. o pai trabalha no Ministério do Interior do Paquistão. em vez de um irmão. em Islamabad. em colaboração com o Fundo de Cuidados de Saúde da Grameen e no enquadramento de uma empresa sociaL 131 . criou uma unidade dedicada ao transplante de medula no hospital de crianças do Pakistan Institute of Medical Sciences. o sistema privado da América em contraste com o sistema estatal da Itália. Sadaf Khalid. os programas da Cure2Children no Paquistão e no Kosovo não são geridos segundo o modelo da empresa sociaL A Cure2Children é uma ONG tradicional que está dependente de donativos. Até Dezembro de 2009.Os pais que tinham abordado o Dr. Neste momento. Faulkner obteve uma licença sabática de um ano para se ausentar do seu posto em Florença. nunca tinha efectivamente trabalhado num país em vias de desenvolvimento. No Hospital das Crianças de Florença.a «alta tecnologia» da América contrastada com o «alto contacto» da Itália. é a dadora.) 2 A difícil operação foi um sucesso totaL A vida da bebé foi salva e. abrirão mais unidades noutros hospitais no resto do país. Faulkner falou a estes pais sobre o seu plano de levar tratamento de primeira qualidade para doenças do sangue raras aos países em vias de desenvolvimento. a mãe da bebé era médica. Com a ajuda dos seus dois parceiros no Paquistão. tinha-lhe proporcionado uma percepção valiosa dos prós e dos contras dos diferentes tipos de sistemas de saúde . eles imediatamente concordaram que o Paquistão seria um lugar ideal para iniciar o projecto e que a talassemia poderia ser o principal alvo do seu trabalho. com resultados comparáveis aos obtidos em Itália. Para ser claro. As quinze pessoas empregadas pela unidade. os dois médicos criaram fortes laços pessoais com os seus pais. Faulkner e a sua equipa tinham já realizado vinte transplantes. a Cure2Children está a curar doentes com talassemia no Paquistão. especialmente se pensarmos nos muitos potenciais pacientes (segundo estimativas. Faulkner e outros médicos e investigadores em Florença têm continuado a desenvolver este novo procedimento e em 2010 publicaram um artigo pioneiro sobre o tópico em Blood. combinado com o trabalho de criar de raiz uma unidade de transplante e um laboratório de nível internacional em Florença. o Dr. Uma outra ligação pessoal desempenhou um papel na definição da missão específica do Dr. Em colaboração com um colega. Em Janeiro de 2007 começou a trabalhar na criação da ONG que veio a chamar-se Cure2Children. frequentemente tratava crianças de todo o mundo cujos pais as tinham trazido para ali para serem vistas pelos especialistas mais reputados. não existiam irmãos com as características compatíveis requeridas. estão-se a salvar vidas a um preço incrivelmente baixo. as operações para salvar vidas poderão estar disponíveis para todas as crianças do Paquistão que delas necessitem. Os custos inicias foram bastante modestos: 25 000 euros. o Dr. A mãe da menina. Por coincidência. sentia-se pronto a avançar. As despesas correntes são também bastante reduzidas. 130 um nível elevado de sensibilidade intercultural ao longo do período em que tratou doentes da Ásia e de outras partes do mundo no hospital de crianças em Florença. Por fim. Pietro Sodani. Assumir a responsabilidade deste projecto no Paquistão foi uma decisão ousada do Dr. Faulkner. Com fundos de doadores. Por conseguinte. Foram concedidos fundos adicionais por uma fundação associada a um grande banco italiano. O Dr. utilizando um método arriscado e inovador no qual a mãe. ganham um salário mensal total de cerca de 4000 euros. A seu tempo. o Dr. Mas agora a Cure2Children está a preparar-se para levar ao Bangladeche as suas técnicas e tecnologias que salvam vidas. Faulkner compreenderam esta mensagem e rapidamente concordaram em apoiar a sua ideia. Faulkner. Actualmente. desde enfermeiras a técnicos.uma organização sem fins lucrativos dedicada à investigação. a Dra. o projecto está a ser desenvolvido a pequena escala. ao longo deste período. ao desenvolvimento e ao tratamento de cancros e de doenças do sangue raras às crianças de todo o mundo. Embora ele tivesse desenvolvido 2 Sodani. é agora a directora da delegação da Cure2Children no Paquistão. Uma dessas crianças era uma menina do Paquistão que sofria de talassemia. a publicação médica da American Society of Hematology. Faulkner fez um transplante a esta criança. (Neste caso.

os salários de cinco enfermeiras e de outro pessoal de apoio..implementar o mesmo sistema a uma escala ainda maior na Índia. concebido por Eugenio La Mesa e pela equipa da Grameen liderada por Imamus Sultan. La Mesa escreveu: A Cure2Children não é uma empresa social. As famílias apastadas que tenham posses para pagar o preço normal de uma operação de transplante de medula ajudarão a pagar a despesa de famílias pobres que não podem contribuir com nada ou quase nada. entretanto. Esta soma deverá ser suficiente para cobrir as despesas da unidade. Actualmente. serão criadas mais unidades no Bangladeche. Por exemplo. a joint venture começará a planear o seu próximo grande salto . Como será possível identificar um número suficiente de pacientes com recursos para ocupar essas duas camas a um preço total e assim subsidiar o tratamento de uma criança pobre? A resposta envolve vários elementos. enquanto a terceira será ocupada por uma criança pobre cujos pais pagarão uma taxa simbólica ou mesmo nada. Mas sinto-me extremamente fascinado pela sua ideia de uma empresa social e comecei a pensar o que poderia fazer. A empresa conta poder cobrar aos seus pacientes mais abastados o equivalente a 20 000 dólares por cada transplante de medula. há o elemento do custo. Em primeiro lugar. A chave para tornar este serviço economicamente auto-suficiente será a subsidiação cruzada. Segundo os nossos cálculos dos rendimentos e das despesas. continuarei a pensar e a debater a questão. um jovem enérgico e persuasivo chamado Eugenio La Mesa. conversas e reumóes entre a organização de La Mesa e a minha equipa da Grameen. Seguiu-se uma série de e-mails. Numa parte desse e-mail.. não deve ser difícil encontrar entre oito e dez pacientes para as duas primeiras unidades. a Cure2Children começará por criar duas unidades de transplante em dois hospitais seleccionados no Bangladeche. leu Criar Um Mundo sem Pobreza. especialmente num país com muitas 132 pessoas pobres? É aqui que a criatividade e uma planificação CUIdadosa são necessárias.. Mas é só um décimo do custo usual de um transplante de medula nos Estados Unidos ou na Europa. De acordo com o plano de negócio actual. algo que me interessa muito . a unidade deverá ser auto-sustentável. Progressivamente. estamos em vias de lançar uma empresa social para o tratamento da talassemia no Bangladeche através de uma joint venture entre a Cure2Children e o Fundo de Cuidados de Saúde da Grameen. Cada uma dessas unidades possibilitará a realização de entre sete e dez operações por ano. Vinte mil dólares é muito dinheiro. por favor partilhe-a comigo. porque recebe dinheiro de doadores em Itália e gasta-o em países em vias de desenvolvimento para curar crianças pobres que sofram de doenças graves (principalmente de talassemia) . cada uma com três camas.A ideia de usar o modelo da empresa social surgiu quando o director-geral executivo da Cure2Children. a manutenção do equipamento. Estamos a encetar uma grande iniciativa no Bangladeche para organizar e prestar cuidados de saúde nos moldes de uma empresa sociaL A sua proposta de lançar uma iniciativa de tratamento da talassemia no Bangladeche adequa-se perfeitamente ao nosso projecto. Cada elemento deste plano resulta de um planeamento e de uma reflexão extremamente cuidadosos. Ao mesmo tempo. Há muitas famílias 133 ''i I . Mas como é que o transplante de medula pode tornar-se um negócio auto-sustentável. Respondi-lhe prontamente por e-mail: Fiquei encantado ao receber a sua mensagem. depois de o programa da empresa social ser testado e aperfeiçoado. escreveu-me um e-mail em que descrevia o trabalho da sua organização no Paquistão e solicitava a minha colaboração para o trazer para o Bangladeche com a empresa social. Duas dessas camas serão disponibilizadas para pacientes que paguem o preço total.. Fascinado pela nova ideia da empresa social. incluindo os honorários dos médicos. Gostaríamos de debater mais aprofundadamente a questão. Se o senhor ou um dos seus colegas tiver uma ideia de como a Cure2Children poderia tornar-se uma empresa social. especialmente na área dos cuidados de saúde em países em vias de desenvolvimento. etc.

Faulkner estava interessado em tratar doentes nos países em vias de desenvolvimento era o facto de assim poder criar uma base substancial de pacientes para estudar cancros e doenças do sangue raras. quando forem abertas mais unidades. concentrada tanto no desenvolvimento e na disseminação de. o mieloma múltiplo e a anemia das células falciformes. entre as quais a leucemia. Com este objectivo em mente. parece que este objectivo pode ser cumprido. Imaginem-se os custos para a família de uma estada de quarenta e cinco dias num hotel perto do hospital!) Uma alternativa atraente seria deslocar-se a um país como o Bangladeche. a Londres ou a Nova Iorque. Por consequência. o linfoma. Este facto faz também aumentar o número de pacientes para quem o tratamento no Bangladeche poderia ser uma opção viável. Há um número muito mais elevado de pessoas que teriam posses para se deslocar ao Bangladeche do que as que poderiam ir a Itália. Em Islamabad. Além disso. Sodani ensinaram a dois médicos as técnicas de transplante que tinham aprendido 135 . uma opção seria deslocar-se a Roma. Ninguém estaria disposto a prescindir da qualidade dos cuidados de saúde prestados a um filho doente. os pacientes poderão vir de outros países asiáticos ou africanos. para atrair pacientes de outros países. por esse motivo.a tecnologia do transplante de medula pode ser aplicada no tratamento de uma série de doenças para além da talassemia. Para uma família desafogada da Ásia ou da África com um filho a necessitar desesperadamente de uma operação para lhe salvar a vida. São usados outros programas para facilitar a gestão do projecto e a partilha de informações por todos os membros da organização. Uma das razões por que me sinto entusiasmado com esta joint venture entre a Cure2Children e o Fundo de Cuidados de Saúde da Grameen é que ela tem um imenso potencial para ajudar a melhorar os cuidados de saúde no Bangladeche. O Skype e o Yugma. (Recorde-se que uma criança em recuperação de um transplante de medula deve permanecer no hospital por um período de quarenta e cinco dias.tornam mais fácil a apresentação de comunicações e a condução de seminários a partir de localidades distantes entre si. Recorde-se 134 que uma das principais razões por que o Dr. nem mesmo para poupar dinheiro. por exemplo. Acrescente-se um outro factor importante . não por especialistas que tivessem caído aqui «de pára-quedas». cerca de um décimo. em Roma ou em Milão podem agora facilmente conferenciar diariamente sobre os pacientes com os médicos e as enfermeiras em Islamabad ou em Daca.dois instrumentos de telecomunicações através da Internet. Com o apoio da Cure2Children. quando estas unidades adquirirem uma reputação internacional.que estão a pagar o custo de transfusões de sangue mensais no Bangladeche e essa quantia não ultrapassa a sua capacidade financeira. incluindo as despesas da viagem e do alojamento. A Cure2Children quer ser uma organização de estudo e. Evidentemente. criou uma plataforma de fonte aberta na Internet especialmente concebida para proporcionar uma comunicação fácil e contínua entre as suas equipas profissionais na Itália. vindos da Europa ou da América do Norte. As vantagens destas unidades de transplante no Bangladeche serão com toda a certeza bastante evidentes. especialistas médicos de renome mundial sediados em Florença. Em segundo lugar. a joint venture poderá alargar os seus serviços a pacientes de países vizinhos. conhecimentos especializados como na prestação de cuidados de saúde a pacientes específicos. a Cure2Children privilegia a criação de um sistema de tecnologias de informação e de comunicação para estabelecer ligações entre profissionais de todo o mundo. cuja cultura lhes é familiar e onde a despesa seria muito menor. No início deste capítulo. a qualidade do serviço prestado deve ser tão elevada como a que se verifica na Itália ou nos Estados Unidos. As comunicações tecnologicamente sofisticadas e as tecnologias de informação serão um factor que o tornará possível. Faulkner e o Dr.e pagar entre 200 000 e 400 000 dólares. o Dr. Um dos factores deste potencial é o facto de a joint venture ser concebida como uma organização de investigação. Todos os transplantes realizados no Bangladeche serão feitos por médicos locais. no Paquistão e em breve no Bangladeche. Este é o mesmo modelo que a Cure2Children já usou com êxito no Paquistão. comparei uma empresa social de pequena escala a uma semente que pode ter um enorme impacto a longo prazo.

cerca de 30 por cento podem considerar-se de baixo risco. Com o tempo. Talvez venha a acontecer o mesmo no Bangladeche. a taxa de sucesso está mais próxima dos 50 por cento e a qualidade de vida expectável é relativamente baixa. tanto o objectivo da Cure2Children como o da sua joint venture com o Fundo de Cuidados de Saúde da Grameen é erradicar a talassemia. A longo prazo. usando o potencial para uma cura como instrumento de esclarecimento e de prevenção. mas muitos dos princípios subjacentes são os mesmos. os homens asiáticos têm o mesmo traço que os homens de outros países. Mas este sistema é muito eficaz. «Dantes». cuidados de saúde) a pessoas pobres no mundo em vias de desenvolvimento com o mesmo nível de qualidade daquele a que os ricos das nações desenvolvidas têm acesso? E ambos nos convencemos de que a empresa social fornece a resposta. No entanto. mas podemos consegui-lo. e confirmaram que a transmissão de competências foi bem-sucedida. Faulkner considera que a experiência de dar formação a médicos e a enfermeiras no Sul da Ásia é muito gratificante. «Por vezes.custa-lhes dizer coisas como "Não compreendo" ou "Fiz uma asneira". Faulkner sorri. Nos casos em que a operação não seja possível.que é uma questão de educação. Faulkner. Faulkner diz que no programa paquistanês da Cure2Children nem uma só enfermeira se despediu até ao momento (numa profissão em que a mobilidade é usualmente bastante elevada). quando os pais vierem pedir uma operação para o seu filho. enquanto um outro grupo de especialistas deu formação a um grupo de enfermeiras locais. Lucarelli. «costumávamos dar formação a médicos dos países em vias de desenvolvimento no nosso centro em Itália. o nosso pessoal aproveitará 137 . Atingir este objectivo dependerá da prevenção. anos mais tarde. Nem todas as crianças que sofrem de talassemia são candidatas adequadas a um transplante. Temos o mesmo objectivo para o Bangladeche.no Bangladeche e no mundo. Demorará algum tempo. o Dr. para observar e supervisionar as primeiras operações. a convergir para a mesma questão subjacente: como é que podem ser disponibilizados benefícios vitais (serviços financeiros. A partilha de conhecimentos prossegue.talvez quinze ou vinte anos-. Eis um exemplo da força da empresa sociaL Eu iniciei a minha vida profissional como professor de Economia. que poderão depois disseminar os seus conhecimentos a outras pessoas na comunidade. testes pré-natais e aconselhamento às famílias em toda a sociedade. Faulkner iniciou a sua como médico especialista em cancros infantis. As diferenças culturais são um problema quando um italiano dá formação a profissionais de um país asiático? O Dr. Permite-nos criar toda uma equipa de profissionais especializados. Os bons salários são um dos motivos. aqui estamos nós. interessa- 136 das e motivadas pelo alto nível de cuidados de saúde que conseguem proporcionar. Os pacientes de baixo risco têm uma hipótese de 90 por cento de sucesso e a expectativa de uma elevada qualidade de vida. através da nossa joint venture contamos poder chegar a todas as famílias com um paciente de talassemia.com o Dr.» Mas o mais importante é que trazer a tecnologia avançada dos transplantes de medula óssea para o Bangladeche representará um importante passo em frente para todo o nosso sistema de saúde. Eles estão muito motivados e reconhecem que a possibilidade de estudar com um especialista em transplantes de renome mundial representa uma grande oportunidade. É a estes que a Cure2Children sugerirá a possibilidade de um transplante. temos tido grande êxito na formação de médicas no Paquistão. Se o Bangladeche tem cerca de 100 000 casos de talassemia. para pacientes de alto risco. da actividade bancária para a medicina. Os centros de transplante que a nossa joint venture criará podem também desempenhar um papel crucial. Os italianos ficaram no Paquistão durante um mês. E. fácil para as mulheres. o nosso pessoal pode ajudar as pessoas a aprenderem as regras para cuidar devidamente do seu filho doente.» O Dr. É mais. Quando necessário. Faulkner e os seus colegas italianos organizam chamadas em conferência com os seus colegas no Paquistão para debater casos problemáticos ou complicados. o Dr. O Dr. Mas uma razão ainda mais importante é que as enfermeiras se sentem desafiadas. comunicação. A Cure2Children usa um programa especial para que as enfermeiras paquistanesas possam partilhar diariamente informações sobre os pacientes com os membros da equipa em Itália. um de cada vez. Os pormenores diferem. explica o Dr. Por isso.

esta oportunidade para divulgar o programa de rastreio genético.
«Faremos testes ao vosso filho para determinar se a cura é possível.
Mas, em troca, pedimos-vos que toda a vossa família participe no
rastreio genético.» Desta forma, a informação sobre a talassemia,
bem como as práticas aconselháveis para controlar a doença,
disseminar-se-á gradualmente por todo o país.

***

2Children tenciona divulgar os seus conhecimentos sobre a talassemia e sobre o papel da empresa social na área dos cuidados de
saúde a profissionais e a outros parceiros interessados em todo o
mundo.
Espero que todas as empresas sociais partilhem os seus conhecimentos neste mesmo espírito. Afinal, de que vale criar uma
semente maravilhosa se não estivermos dispostos a espalhá-la aos
quatro ventos?

Enquanto os preparativos para as nossas unidades de talassemia se encontram em curso, algo mais está a passar pela mente do
Dr. Lawrence Faulkner. Ele tem reflectido muito sobre a questão da empresa social. «Já reduzimos bastante o apoio financeiro
que temos de fornecer aos nossos centros no Paquistão», informa o
Dr. Faulkner. «Nos primeiros meses, tínhamos de lhes dar cerca de
dez mil euros por mês. Agora, a quantia necessária é só de cinco
mil euros. Com o tempo, estes centros poderão vir a ser totalmente
auto-suficientes. Seria maravilhoso se, por fim, todos os nossos
projectos em várias partes do mundo pudessem ser geridos como
negócios sociais.»
O objectivo de eliminar a talassemia é realista. Cerca de 80 por
cento dos pacientes ficam completamente curados após o transplante de medula óssea. Os resultados no Paquistão sugerem que
esta taxa pode ser atingida no mundo em vias de desenvolvimento,
tanto como na Europa ou na América, especialmente visto que a
criação e a manutenção de Upl centro de transplantes têm um custo
comportável.
Tanto o Dr. Faulkner como eu salientamos a importância de
gerir uma empresa social numa base de «fonte aberta». A empresa
social - como a própria arte da medicina - tem tudo a ver com
resolver problemas, auxiliar as pessoas e tornar o mundo um lugar
melhor. No seu fulcro está a qualidade humana da abnegação, em
vez do egoísmo que impulsiona o negócio convencional.
Assim, faz sentido que os proprietários de uma empresa social
procurem a oportunidade de partilhar informações, ideias e percepções, em vez de as guardarem ciosamente só para si. Através de
congressos, publicações e programas de formação e ensino, a Cure-

138

139

CAPÍTULO 5
Enquadramento legal e financeiro da empresa social

Como expliquei no capítulo 3, o passo inicial mais importante para
lançar uma empresa social é ter uma ideia. Usualmente, ela surge a
partir da observação de um problema social - algo que está errado
e causa sofrimento humano na nossa comunidade ou, talvez, numa
outra parte do mundo. A reacção natural é querer resolver o problema,
aliviar o sofrimento e tomar medidas para que não volte a acontecer.
E é aqui que a criatividade e o engenho entram em cena. Julga-se capaz
de conceber urna solução inteligente para o problema - uma solução
que seja auto-sustentável, confira autonomia e prometa uma cura permanente em vez de um penso rápido temporário? Se pensa que tem
este tipo de ideia- ou mesmo se tem apenas o embrião de uma ideia
que necessita de ser desenvolvida e aperfeiçoada - , talvez esteja em
condições de mergulhar no mundo da empresa social.
Quando chegar a este ponto, é a altura de pensar na forma de
financiar a sua empresa social. A obtenção de financiamento é, provavelmente, um dos principais obstáculos com que terá de se
defrontar no processo de criação e de gestão de uma empresa social
de sucesso. No entanto, com alguma criatividade, um pouco de
engenho e muita paciência será capaz de atingir os seus objectivos.
Neste capítulo encontrará sugestões para lidar com a multiplicidade de recursos disponíveis para resolver as suas necessidades
financeiras. Como explicarei, a questão do financiamento está intimamente ligada com a questão da estrutura da empresa. As empresas e outras organizações são governadas por vários regimes legais
e regulamentos, dependendo da forma e do objectivo exactos da
organização. E estes grupos de regras diversos, por sua vez, têm um
140

grande impacto na capacidade de angariar fundos de fontes específicas. Assim, uma parte da nossa discussão neste capítulo será
sobre as opções que terá de tomar na sua empresa social em termos
de estrutura legal. Como veremos, estas decisões terão um efeito
significativo sobre as maneiras como poderá angariar fundos para
lançar, manter e expandir o negócio.
Um passo importante no processo de obtenção de financiamento
consiste em criar um plano de negócios que lhe proporcione a
oportunidade de recrutar uma rede de investidores.

Criar um plano de negócio para atrair investidores
No capítulo 3, abordei vários aspectos do plano de negócios.
Como expliquei, é provável que o desenvolvimento do plano de
negócios seja um processo contínuo - um plano preliminar para
dar forma e pormenores à sua ideia de negócio e de empresa, destinado a si e aos seus parceiros iniciais, apoiantes e amigos; um
plano mais pormenorizado para potenciais fontes de crédito e
investidores; e versões revistas do plano à medida que a sua concepção for evoluindo devido a alterações das circunstâncias e ao que
for aprendendo. É natural e previsível que tenha de modificar e
reescrever o seu plano de negócios ao longo do tempo.
Como estamos a concentrar-nos na questão de atrair apoio financeiro, abordarei aqui algumas das questões importantes relacionadas com um plano de negócios para apresentar a investidores.
Quando estiverem reunidas as condições necessárias para lançar
efectivamente uma empresa social que requeira capitais externos
significativos, terá de elaborar um orçamento detalhado para operacionalizar o seu negócio. Pode fazê-lo elaborando uma previsão
financeira do seu negócio a cinco anos, que inclua uma estrutura
de custos sólida, desdobrada em várias categorias, entre as quais os
recursos humanos (geralmente a maior despesa), escritório/instalações necessárias, despesas de deslocação, preço de matérias-primas,
terrenos e recursos físicos e serviços profissionais.
O orçamento deve também indicar a estrutura das receitas,
incluindo a tabela de preços do serviço ou do produto fornecidos
141

pela sua empresa. Para que a sua ideia seja viável, deve prever no
orçamento que as receitas cubram as despesas - de preferência,
com uma margem de superavit que proteja a empresa de percalços
inesperados. É aqui que muitos potenciais empresários se deparam
com problemas. É fácil cair na tentação de ser demasiado optimista
em relação às receitas que obterá, especialmente durante o primeiro
e o segundo anos. Não se esqueça de que demora algum tempo até
os clientes ficarem a conhecer a sua nova empresa e mais tempo
ainda até que alterem os seus hábitos de consumo e passem a ser
seus clientes. E pode aparecer uma concorrência inesperada no mercado a qualquer momento. O mais seguro é calcular o nível de
vendas que tem a probabilidade de atingir durante os primeiros
anos e dividi-lo por dois. É muito provável que este número mais
baixo seja mais exacto. (E, se tiver a sorte de atingir objectivos
mais elevados, parabéns! Será um «problema» muito agradável.)
Na sua previsão a cinco anos, concentre-se na projecção do fluxo
de caixa. Este reflecte o movimento efectivo de fundos, os pagamentos e os recebimentos da sua empresa, semanal e mensalmente.
Alguns empresários cometem o erro de considerar que a sua situação financeira está equilibrada se o balanço do final do ano indicar
que os proveitos igualam os custos. Os resultados do final do ano
são importantes - mas, se tiver uma grande despesa em Abril e
não entrar dinheiro em caixa até Setembro, a sua empresa pode cair
por terra durante o Verão. Se não tem grandes conhecimentos de
contabilidade, consulte um profissional que lhe possa garantir que
as suas projecções de fluxo qe caixa são exactas.
Desenvolver um plano financeiro bem esnuturado e pormenorizado contribuirá para que seja capaz de identificar exactamente o
montante do investimento de que vai necessitar e a data em que
precisará dele. Para além disso, estará também a desenvolver uma
imagem apelativa quem é, quais são as suas aptidões, o seu
empenho e os seus antecedentes, e o impacto que a sua empresa
social terá na comunidade que pretende servir.
O seu orçamento deve permitir-lhe determinar quanto capital
precisa de angariar no início e de quanto precisará no total ao longo
dos cinco anos iniciais. Nos primeiros tempos de uma empresa,
particularmente nos primeiros dezoito meses, a norma é que se

142

gasta muito mais do que entra em caixa. O seu objectivo deve ser
atingir um ponto em que os proveitos igualem os custos, mas conte
com um fluxo de caixa negativo durante algum tempo, enquanto
procura fontes fiáveis para financiar futuras operações. A quantia
que gastará todos os meses (muitas vezes denominada fundo perdido, ou burn rate) determinará a quantia de que vai necessitar para
se manter à tona até que a sua empresa social seja auto-sustentável.

Recrutar uma rede de investidores
O acesso a capital inicial é de importância vital para lançar a sua
empresa. Nesta fase, algumas questões fulcrais a que o empresário
e a sua equipa devem responder são: corno estruturar a campanha
para obter o capital inicial? Deveriam considerar-se as hipóteses de
subsídios, endividamento, oferta de acções na empresa aos investidores ou uma mistura das três? Qual é a melhor abordagem para
informar os investidores sobre o valor social da sua empresa? Corno
demonstrará o impacto potencial ou pretendido da empresa social?
Corno ilustrará técnicas inovadoras ou novas ideias no seu modelo
de negócio?
Estas questões serão de grande utilidade no desenvolvimento de
uma estratégia para abordar potenciais investidores. Com base nesta
estratégia, terá de transformar o plano de negócios e o plano financeiro numa apresentação interessante que transmita as suas principais mensagens aos investidores de forma rápida e eficaz. Utilize
o máximo de criatividade possível. Na sua apresentação, não se
esqueça de demonstrar claramente a sua motivação e o seu entusiasmo. Quando estes ingredientes estiverem incluídos, tudo estará
a postos para começar a explorar o alcance da sua rede pessoal para
estabelecer contactos com os investidores adequados à sua causa.
Na maior parte dos casos, o investimento inicial para urna nova
empresa social virá directamente dos bolsos do seu fundador ou da
sua rede de amigos e família. Por vezes, alguns indivíduos desafogados, frequentemente apelidados de «business angels», providenciam o capital necessário. Contudo, noutros casos a sua capacidade
de angariar financiamento dependerá da construção de uma rede

143

Seria um uso mais socialmente produtivo do dinheiro. talvez venham a adoptar a prática de reservar uma parte dos seus fundos digamos. Com o tempo. escala e eficiência. Deve definir claramente os papéis a desempenhar pela dir. uma outra potencial fonte de financiamento para uma nova empresa social são os fundos de responsabilidade social empresarial (RSE) que muitas empresas mantêm.) Afinal. pela mesma razão que a empresa social em geral apresenta vantagens em relação às organizações de beneficência tradicionais. a sua rede alargar-se-á para além dos contactos pessoais e passará a incluir «amigos de amigos» e outros conhecidos. é importante que evidencie competência e uma sólida estrutura de gestão. Num capítulo posterior. o dinheiro investido nela tem a potencialidade de gerar benefícios 144 para a sociedade nos anos e nas décadas seguintes. os boletins online e outras formas de estabelecer contactos. Quando se avistar com investidores. tais como os sites da Internet. Como as empresas sociais se dedicam a resolver problemas sociais. é agora completa- 145 . membros da sua comunidade e pessoas que lhe pareçam interessadas no problema social que está a abordar.' ' 'i efectiva e diversificada de contactos e de recursos. Aceitar esses donativos desqualifica a empresa social? A resposta é não. antigos colegas de liceu. Ferramentas de comunicação. as redes sociais. Este processo de estabelecer contactos geralmente começa com pessoas que já conhece. 5 por cento . podem atrair subsídios de fundações. Um factor crucial que deve estar organizado antes de abordar estas redes é a equipa de gestão. os blogues. especialmente no Japão. prevejo que sejam os gestores dos fundos de RSE a irem à procura de empresas sociais promissoras para lhes oferecerem apoio financeiro. surgirão outras fontes de financiamento de empresas sociais. que são uma parcela do mercado de investimento com grande popularidade e em fase de crescimento. parceiros de negócios. mesmo sem lho pedirem. concessões de terrenos e contratos estatais favoráveis. No entanto.amigos. Por fim. Defendo vivamente a ideia de que as empresas deveriam usar pelo menos uma parte dos fundos de RSE para contribuir para a criação de empresas sociais.ecção e atribuir responsabilidades específicas de gestão aos vários elementos da sua equipa. Este facto não as desqualifica nem impede que sejam consideradas verdadeiras empresas. colegas ou outros conhecimentos relacionados com o trabalho. donativos e outras dádivas de organizações e de pessoas que queiram ajudar a criar um mundo melhor. Uma questão final sobre os fundos da empresa social. Com o tempo. o modelo de negócio é de importância vital para revelar o modo como a sua empresa social tenciona produzir benefícios sociais e os processos que seguirá. podem também contribuir para encontrar pessoas que possam estar interessadas em apoiar a sua iniciativa. os e-mails. descreverei os fundos específicos para empresas sociais que estão já a aparecer. o investimento socialmente responsável e os fundos de pensões. Como uma empresa social tem o objectivo de ser auto-sustentável. um subsídio concedido a uma organização de beneficência é geralmente gasto numa questão de meses e os seus benefícios. Para além disso. é provável que tenha de passar algum tempo a informar a empresa sobre este novo conceito. Além deles. em vez de os reservarem na totalidade para obras de beneficência (como usualmente acontece). Pode também reforçar a sua proposta apresentando resultados do programa-piloto e/ou das reacções dos clientes que indiciem um interesse pelos serviços prestados pela empresa. desde que se mantenha presente o objectivo de ele se tornar economicamente auto-suficiente num período de tempo razoável. por maiores que sejam. as empresas com fins lucrativos tradicionais também recebem subsídios de vez em quando. Para além da sua rede l?essoal. O próprio Banco Grameen recebeu alguns subsídios nos seus primeiros anos de funcionamento. à medida que um número cada vez maior de pessoas se consciencializar do poder da empresa social. (Uma organização que depende de subsídios para sempre não é. a fim de demonstrar o seu potencial impacto. Em contraste. o Twitter. evidentemente. uma empresa social. mas sim uma ONG. tendem a ser limitados. Se decidir apresentar a grandes empresas da sua comunidade a sugestão de que ponham a hipótese de investir na sua empresa social incipiente.para as empresas sooa1s. para que eles saibam que está em condições de conduzir a sua empresa na direcção certa. É perfeitamente correcto que uma empresa social aceite um subsídio. sob a forma de isenções fiscais.

Infelizmente. no entanto. explicarei em termos gerais as possibilidades existentes e indicarei o que julgo serem os prós e os contras de cada uma 146 delas. A estrutura das empresas com fins lucrativos. Utilizámos o enquadramento legal das empresas com fins lucrativos em todas as empresas sociais da Grameen. Até esta lacuna no nosso sistema legal ser colmatada.não atraem benefícios fiscais. As empresas com fins lucrativos têm de pagar impostos sobre os lucros. Assim como os muitos discursos. etc. estudantes. o objectivo social que é o fulcro da empresa.ma categoria de empresa reconhecida. gestores de ONG. dediquei muito tempo e energia a divulgar a ideia da empresa social a assistências por todo o mundo. se está a desenvolver um conceito de empresa social. tanto mais fácil será para empresários e grupos económicos criarem uma série de empresas sociais para abordar os problemas humanos que atormentam a nossa sociedade. que define linhas claras de poder e de responsabilidade.) Em muitos estados e países. Este livro é uma parte dessa iniciativa. Este tipo de empresa social tem uma estrutura de propriedade tradicional. as nossas leis e os nossos regulamentos actuais não definem a posição da empresa sociaL As empresas com fins lucrativos e as organizações sem fins lucrativos tradicionais (fundações. Tal significa aplicar muitos dos princípios de negócio que são usados na criação de uma empresa com fins lucrativos. Porém. estatuto fiscal. organizações de beneficência e ONG) são instituições reconhecidas e abrangidas por regras específicas relativamente à sua estrutura organizativa. Esta situação tem de mudar. que opções tem uma pessoa ou um grupo interessado em criar uma empresa social? Nesta secção. a outras empresas e a fundos de investimento ou pôr acções à venda.mente auto-suficiente e tem tido lucros todos os anos. uma empresa social organizada como uma empresa com fins lucrativos deve ser tão viável do ponto de vista financeiro como qualquer outra empresa com fins lucrativos. sem perder de vista.. deverá consultar um advogado competente que conheça bem os regulamentos nacionais e locais que se aplicam ao seu caso. entrevistas e fóruns que apresentei perante grupos dos mais variados tipos -líderes empresariais. A melhor opção actualmente é organizar a sua empresa social segundo a estrutura tradicional de uma empresa com fins lucrativos. Estou tão convencido de que a empresa social é uma solução para os problemas mais sérios com que a humanidade se debate que sinto que é urgente comunicar este conceito ao maior número possível de pessoas. As pessoas que estão a lançar empresas sociais neste momento e que estejam a ponderar aceitar subsídios para o seu investimento inicial deveriam seguir o mesmo modelo.de preferência com regras consistentes nos países de todo o mundo . existe uma regra explícita ou implícita segundo a qual as empresas com fins lucrativos têm a obriga- 147 . a empresa social não é ainda Li. algumas chegam ao ponto de renunciar à busca do lucro em benefício do seu proprietário . prestação de informações e transparência. responsáveis políticos. o sistema legal dá também às empresas com fins lucrativos uma maior liberdade e flexibilidade para explorar variantes do seu modelo de negócio. Quanto mais depressa surgir uma estrutura legal e reguladora definida para a empresa social .o que as coloca no limiar de serem consideradas verdadeiras empresas sociais. Naturalmente.ao contrário dos donativos a instituições de beneficência e a outros tipos de organizações sem fins lucrativos. acredito que as empresas sociais devem ser entidades tributadas. se exceptuarmos os primeiros três anos. comunicações. presidentes de fundações e cidadãos comuns de todos os estratos sociais. Pode solicitar investimento a indivíduos. Os investimentos em empresas com fins lucrativos . Do número crescente de empresas com fins lucrativos que reivindicam uma missão social. já que não beneficia de isenções fiscais. e pode contrair empréstimos com bancos e outras instituições de crédito (desde que seja capaz de fazer prova da sua estabilidade financeira e da sua fiabilidade). Assim. governação e princípios de tomada de decisão. Uma empresa com fins lucrativos tem uma série de opções para angariar capital. Na maior parte das jurisdições. (Por razões que explicarei mais tarde. V árias estruturas legais para a empresa social Ao longo dos últimos dois anos.

Por exemplo.ninguém os obrigou a tomá-la e são livres de mudar de ideia. podem recear investir alguns dos seus fundos numa empresa social que providencia cuidados de saúde aos pobres. quando a empresa estiver a registar lucros substanciais. (N. acrescentando-lhe as regras e os procedimentos para uma empresa com fins lucrativos passar a ser uma empresa sociaL Uma outra desvantagem da estrutura das empresas com fins lucrativos é que. mesmo que os investidores assinem um documento em que declarem que sabem que a empresa é uma empresa social e que não receberão dividendos para além da quantia que investiram. Em anos recentes. os governos podem e devem criar uma lei separada para a empresa social. na maior parte dos regimes legais. No futuro. De acordo com a lei dos Estados Unidos. por exemplo. definindo-a adequadamente para fins de regulamentação e explicitando as responsabilidades e as obrigações dos accionistas. Hospitais. Infelizmente. deveria emendar-se a lei existente. há organizações sem fins lucrativos que têm programas de microfinança nos 3 A sigla inglesa PRI é aqui adaptada à possível tradução portuguesa. o investimento em 148 em.presas com fins lucrativos por parte de organizações sem fins lucrativos. escolas. como por exemplo as fundações. continua sempre em aberto a possibilidade de os investidores mudarem de ideias a qualquer momento e decidirem que querem que a empresa deixe de ser uma empresa social e passe a pagar dividendos aos seus accionistas. criando produtos e serviços especificamente para beneficiar os pobres. A estrutura da organização sem fins lucrativos. É possível minimizar este risco se os accionistas assinarem uma declaração inicial em que renunciem ao seu direito a quaisquer dividendos para além da recuperação do seu investimento iniciaL No entanto. ou em épocas de prosperidade. Mas isto nem sempre é verdade. a decisão de criar uma empresa social foi dos accionistas . Existe uma longa tradição de certos tipos de organizações sem fins lucrativos venderem bens e serviços. da T) 149 . Ao mesmo tempo. as regras que definem um IRP são complicadas e violá-las pode acarretar sérios problemas fiscais para uma fundação.cial razão para não utilizar a estrutura legal concebida para empresas com fins lucrativos. proporcionarem auxílio aos pobres e a outras pessoas necessitadas e para produzirem outros benefícios sociais. Muitas pessoas me têm sugerido que talvez fosse preferível estruturar a empresa social como uma organização sem fins lucrativos. pode ser dificultado. instituições artísticas e organizações de habitação social são exemplos de organizações sem fins lucrativos que usualmente se envolvem em actividades geradoras de rendimentos. certas organizações sem fins lucrativos têm expandido este modelo. A lei deveria definir as regras e os procedimentos que uma empresa social tem de seguir para passar a ser uma empresa com fins lucrativos. por pagarem salários mais elevados do que a média a trabalhadores pertencentes a grupos sociais desfavorecidos ou por comercializarem bens e serviços a um preço inferior aos consumidores mais pobres. utilizando o rendimento obtido para manterem as suas operações. se os accionistas se virem em apertos financeiros. à semelhança das instituições de beneficência. as fundações podem investir em empresas com fins lucrativos somente se o investimento cumprir as condições de um «investimento relacionado com um programa» (PRI/IRP)3. (Afinal. não é provável que os seus gestores sejam incomodados por investidores irados a exigirem dividendos do seu capital. fundações ou ONG. Há a probabilidade de os responsáveis de uma empresa social serem processados por dedicarem alguns dos recursos da empresa a objectivos socialmente benéficos .por exemplo.) É fácil imaginar algo semelhante a acontecer numa época de recessão económica. A ideia de que uma organização sem fins lucrativos poderia envolver-se em actividades de negócios não é nova. Tal significa que as fundações especialmente interessadas em promover melhores cuidados de saúde. universidades. As pessoas que defendem as opções da via não lucrativa salientam que.ção legal de maximizar os lucros em benefício dos seus proprietários e accionistas. Este risco de os investidores decidirem abandonar a estrutura da empresa social em favor de uma estrutura tradicional de maximização dos lucros é uma potep. A consequência é que muitas fundações tendem a afastar-se deste tipo de investimento. como não se espera que uma organização sem fins lucrativos produza lucros.

incluindo o Bangladeche. Além disso. uma organização sem fins lucrativos não é concebida como uma empresa. Cada pedido de isenção que submeti em nome de uma organização cujo objectivo é produzir produtos ou desenvolver serviços para beneficiar os pobres foi recebido com várias rodadas de questões por parte do fisco.mesmo que as actividades em questão e os benefícios sociais criados sejam quase os mesmos. a utilização da estrutura das organizações sem fins lucrativos acarreta também sérias limitações para a empresa sociaL Talvez a mais significativa seja o rigoroso escrutínio legal e regulamentar a que as organizações sem fins lucrativos frequentemente são submetidas. têm mais facilidade em conceder subsídios a outras organizações sem fins lucrativos do que em investir em empresas com fins lucrativos. E organizações sem fins lucrativos como as fundações. No ano seguinte. Wexler.) O advogado Robert A. a produção e a venda de produtos e de serviços? Terá de responder a estas questões satisfatoriamente se quer que a sua empresa social adquira o estatuto de organização sem fins lucrativos. num artigo de 2009 sobre as opções organizacionais das organizações a que chama «empreendimentos sociais». Porquê? Na minha opinião. esta não se adequa à estrutura da organização sem fins lucrativos. deve preparar-se para responder a algumas perguntas difíceis. 0 6 (Junho de 2009): 565-576. o que pode contribuir significativamente para atrair esses donativos. Uma empresa social tem um ou mais proprietários e pode emitir. como por exemplo: como é que os fundadores desta organização beneficiarão dela? Pode demonstrar que as actividades da organização serão exclusivamente educativas ou de benefi4 Robert A. Envolvem-se pessoalmente na empresa. Assim. dada a falta de autoridade nesta área em desenvolvimento. Assim.quais instituições financeiras internacionais investiram. por exemplo. não é realista esperar que uma organização sem fins lucrativos siga consistentemente todas as regras de uma empresa. 150 cência ou os seus principais beneficiários serão indivíduos particulares? E porque é que o governo deveria considerar que a organização não é comercial quando ela vai envolver-se em actividades que são usualmente consideradas comerciais. as actividades lucrativas de uma organização sem fins lucrativos estão sujeitas a impostos. um conselho de administração com novos membros pode mudar as regras. «Effective Social Enterprise. Pelo contrário. Uma empresa social tem de ser em primeiro lugar uma empresa. No entanto. Nestas circunstâncias. o que elimina a hipótese de quaisquer benefícios fiscais especiais desta estrutura de negócio. comenta a dificuldade destas de obter isenções fiscais e o estatuto de organização sem fins lucrativos nos Estados Unidos. Ao contrário de uma organização sem fins lucrativos. uma empresa social tem sempre como objectivo a auto-sustentabilidade. n. A razão mais importante para não aplicar a estrutura legal da empresa sem fins lucrativos à criação de uma empresa social é o facto de uma organização sem fins lucrativos não ser propriedade de ninguém. nalguns países. como. as questões do fisco não são descabidas. Estes investidores esperam uma alta taxa de retorno do seu investimento.A Menu ofLegal Structures». As famílias orgulhar-se-ão do que os seus 151 . Somente pode imitar uma empresa até ao ponto desejado pelo seu conselho de administração. poderá haver benefícios fiscais associados a donativos ou ofertas recebidos. As acções de uma empresa social podem ser herdadas pelos familiares de quem as criou. à luz da minha definição de empresa social. Wexler. não pode emitir acções. Recorde-se que um negócio de tipo I é uma organização comercial em todos os sentidos. Os avaliadores dos pedidos de isenção têm em regra poucas directrizes concretas para os ajudar na avaliação deste tipo de pedido de isenção e não podemos culpá-los por serem cautelosos4 . por exemplo. O facto de ter proprietários é o que torna a empresa social tão especiaL Os seus proprietários orgulham-se do que estão a fazer. comprar e vender acções como qualquer outra empresa com fins lucrativos. se pretende lançar uma empresa social com o formato da empresa com fins lucrativos. Dependendo da natureza exacta da organização sem fins lucrativos. Exempt Organization Tax Review 63. do que estão a criar e dos resultados que estão a produzir.exceptuando o facto de que nenhum superavit (ou «lucro») reverte para os seus proprietários. que só é sustentável em casos muito raros. (É o preço que têm de pagar pelos benefícios fiscais de que desfrutam. excepcionais.

O grau de cumprimento desses objectivos será a medida do sucesso da empresa social. No debate sobre as estruturas das organizações com e sem fins lucrativos vemo-nos sempre arrastados para a questão do estatuto fiscal. Muitas pessoas me têm sugerido que as empresas sociais deveriam também beneficiar de isenção fiscal. Tal como eu. há organizações sem fins lucrativos que criam parcerias com empresas com fins lucrativos obtendo assim fundos para aplicarem na sua missão social. Estruturas alternativas emergentes. Para promover as doações de indivíduos e de empresas. Tal situação permitiria aos governos conceder diversos tipos de apoio a diferentes tipos de empresa social. Um caso deste tipo de relação é. particularmente se esses incentivos beneficiam financeiramente o investidor. não condicionada por incentivos externos. Encaro a em- 152 presa social como uma expressão espontânea de abnegação. No entanto. os negócios sociais podem implementar os seus planos de investimento sem esperarem pelas decisões do governo em relação às isenções fiscais. registaram-se várias experiências com novas estruturas empresariais que diferem da estrutura da empresa com fins lucrativos tradicional e da estrutura das organizações sem fins lucrativos. Estas empresas passarão a integrar a herança familiar.antepassados fizeram para benefício do mundo. Suponhamos que o governo lhe permite pegar no dinheiro do imposto que deveria pagar e investi-lo numa empresa social. Noutros casos. só é possível um envolvimento como membro do conselho de administração ou funcionário. os governos podem decidir que os investimentos em determinados negócios sociais deveriam desfrutar do estatuto de isenção fiscal sob condições específicas e por um período de tempo predeterminado. dependendo da urgência social e da necessidade ·de captação de verbas do governo em questão. Por exemplo. Há uma categoria da empresa social de tipo II que é concebida desta forma. Em anos recentes. no entanto. os governos de todo o mundo criaram vários incentivos fiscais. Pela sua parte. Pretendo que esta questão seja seriamente debatida. esse capital voltará às mãos do investidor. um hospital de beneficência que seja proprietário e gestor de um centro comercial. Poderiam ser tomadas decisões semelhantes em relação à situação fiscal dos superavits obtidos por negócios sociais. atribuir um estatuto de isenção fiscal a uma empresa social pode ser excessivo. estes novos desenvolvimentos são uma resposta às forças sociais que me motivaram a criar o conceito de empresa social. O fundo investirá numa empresa com fins lucrativos de que é proprietário exclusivo ou quase exclusivo e cujos lucros. é importante criar fundos para negócios sociais que lhes proporcionem crédito e capital. por exemplo. Por todas estas razões. deixaremos a porta aberta para que os governos tomem medidas caso a caso. Sou a favor de criar um contexto favorável ao desenvolvimento da empresa social. mui- 153 . De acordo com os princípios da empresa social. que. criamos um fundo dedicado aos objectivos sociais que temos em mente. Quando o prazo de ocupação do cargo termina. são irrelevantes no investimento na empresa social. Não há um sentido de legado a conferir força e permanência à missão. o conceito de empresa social que tenho em mente não se adequa de modo nenhum ao formato legal de uma organização sem fins lucrativos. A qualquer momento. A organização sem fins lucrativos ligada com uma empresa com fins lucrativos. Não é pouco comum que organizações sem fins lucrativos criem subsidiárias com fins lucrativos que vendem produtos e serviços e assim produzem rendimentos que financiam o trabalho da organização principal. serão utilizados pelo fundo para atingir os seus objectivos sociais. deixa-se de pertencer à organização. o que significa que os objectivos sociais terão de ser formulados de modo a serem mensuráveis. Eu preferiria manter os negócios sociais como entidades tributáveis em vez de incluir cálculos egoístas na sua equação. não aos cofres do Estado. Em parte. Não posso concordar com esta ideia. Até se alcançar uma resolução satisfatória. Esse facto significa que o investidor beneficiará financeiramente com a empresa social. Numa organização sem fins lucrativos. Os indivíduos e as suas famílias têm prazer em criar e manter o legado. activando assim as suas motivações egoístas. supostamente. Nesta categoria. incluindo isenções bastante atraentes.

tas pessoas sentem-se frustradas pelas opções estreitas e limitadas que o nosso sistema económico e político actual nos proporciona. nenhuma das actuais experiências com novas estruturas de empresa corresponde exactamente ao meu conceito de empresa social -pelo menos. Uma das estruturas legais alternativas que estão a surgir é a empresa de interesse comunitário (EIC/CIC) 5 • Trata-se de um novo veículo legal de empresa.como. assume o compromisso de providenciar benefícios à sociedade sem contribuir para o enriquecimento dos seus proprietários ou dos seus accionistas.) 154 exclusivo (para garantir que não se trata de uma tentativa de fazer com que uma empresa com fins lucrativos seja considerada uma EIC. Uma entidade reguladora governamental é responsável por examinar cada proposta de EIC para verificar se ela passa no chamado Teste de Interesse para a Comunidade. o comércio justo. uma EIC tem um ou mais proprietários. O Teste de Interesse para a Comunidade a que uma EIC tem de se submeter é menos rigoroso do que as regras que uma organização de beneficência é obrigada a cumprir no Reino Unido.) Uma EIC pode solicitar fundos a investidores e até emitir acções. uma EIC também não desfruta dos mesmos benefícios fiscais que uma organização de beneficência. De certa forma.. sua possível tradução em português. na autonomização de comunidades locais e no fornecimento de serviços inovadores a nível local». a EIC funciona de modo semelhante a uma empresa social tal como eu a concebo. As empresas sociais estão a desempenhar um papel cada vez mais importante na regeneração de zonas desfavorecidas. ao contrário de uma empresa social. incluindo quaisquer proveitos que excedam as despesas. no entanto. tais como a defesa do ambiente. Tal como eu. para aquilo a que o governo britânico apelida de «empresas sociais». os transportes na comunidade.) No entanto. respectivamente. uma EIC pode pagar dividendos aos seus accionistas (esta é a excepção à regra da imobilização dos bens). Essa passagem implica convencer a entidade reguladora de que os objectivos da EIC «podem ser considerados por uma pessoa razoável como sendo do interesse da comunidade ou do público mais alargado». 155 . A EIC paga impostos sobre os seus rendimentos como qualquer empresa normal. da T. (N. que explicarei dentro de momentos. uma EIC assemelha-se a uma organização de beneficência tradicionaL Tal como ela. muitas pessoas andam à procura de uma nova forma de combinar a criatividade e o dinamismo da empresa com o idealismo e a abnegação da beneficência. Mas é útil comparar estas estruturas com as empresas sociais para compreender claramente as diferenças que existem. É um requisito legal que os bens da EIC sejam usados unicamente para benefício da comunidade. por exemplo. não podem ser proprietários de uma EIC. um grupo de pessoas ou uma empresa podem ser proprietários de uma EIC. Tanto uma organização de beneficência como um indivíduo.uma grande excepção . por exemplo. a família e os amigos do fundador da empresa). as «EIC serão organizações com objectivos sociais. como qualquer outra empresa convencionaL A este respeito. o dividendo máximo por acção é de 5 por cento acima da taxa de juro base para empréstimos do Banco de Inglaterra e o limite máximo para o dividendo total declarado em cada ano é de 3 5 por cento dos lucros da empresa. Actualmente. Podem.) Tal como qualquer empresa com fins lucrativos. alguns governos criaram novos formatos de negócio que tentam preencher a lacuna existente no sistema actuaL Infelizmente. declarando que foi criada para providenciar «benefícios sociais» a um círculo interno especificamente definido -. nenhuma que eu conheça. embora esses dividendos tenham um limite fixado por lei. (Os partidos políticos. Segundo as autoridades britânicas.. etc. ser usados para beneficiar directamente a comunidade. são ambas propriedade conjunta das empresas Grameen e dos grupos económicos Danone e Veolia Water. disponível desde 2005 no Reino Unido. Em resposta às exigências destas pessoas. por exemplo. Os bens detidos ou obtidos. No entanto. estão sujeitos à chamada imobilização dos bens. para expandir o trabalho da EIC ou como garantia de um empréstimo que seja necessário para manter ou prosseguir o trabalho da EIC (Há uma excepção à regra da imobilização dos bens . (A Grameen Danone e a Grameen Veolia Water. Os benefícios proporcionados pela EIC não devem restringir-se a um grupo muito pequeno ou 5 Passamos a designar a CIC inglesa pela sigla EIC.

que utiliza tecnologias sustentáveis para a produção de eventos para organizações que vão desde o Festival de Música de Glastonbury à Greenpeace. a Firefly Solar.por exemplo. Uma EIC é uma empresa com fins lucrativos restritos e. é a empresa de baixo lucro e de responsabilidade limitada. Embora os investidores tenham a possibilidade de obter um retorno moderado do seu investimento. Espero que este interesse pela EIC se traduza em apoio à empresa sociaL Uma outra estrutura empresarial nova. Mannweiler Foundation. O governo do Reino Unido explica a sua abordagem da seguinte maneira: «Pensamos que é possível estabelecer um compromisso entre a flexibilidade necessária às EIC para obterem financiamento e a necessidade de aplicar uma imobilização dos bens significativa. o ex-primeiro-ministro Paul Martin proferiu 156 uma palestra intitulada «Libertar o poder da empresa social» no Munk Centre for International Studies. tal como uma EIC. organizações de beneficência ou empresas com fins lucrativos. No final de 2009. pelo Council on Foundations. no Tennessee e em Montana. uma L3C pode pagar dividendos dos lucros obtidos. a Eco-Actif Services. de um modo geral. como tal. em Novembro de 2007. e a Zaytoun. Desde a sua criação. mães solteiras e outros indivíduos em risco. uma empresa comercial que colabora com cooperativas agrícolas na Palestina na produção de azeite e sua comercialização no Reino Unido com o certificado de comércio justo. que proporciona formação profissional e aconselhamento a ex-prisioneiros. no Dacota do Sul. tal como uma EIC. que podem ser indivíduos. bastante difícil de atingir.Poderia concluir-se que uma EIC é simplesmente um tipo especial de empresa cqm fins lucrativos. o director-geral executivo da Mary Elizabeth and Gordon B. A primeira lei a estabelecer a estrutura da L3C foi implementada pelo estado americano do Vermont em 2008. Algumas tornaram-se bastante bem-sucedidas e conhecidas. é fundamentalmente uma empresa com fins lucrativos que tem objectivos sociais. O conceito da EIC está a atrair grande interesse. E. Estes dividendos devem ser baixos. Como qualquer outra empresa. no Oregon. uma variante da estrutura de negócios a que se costuma chamar sociedade de responsabilidade limitada (SRL). do Wyoming e do Ilinóis e a legislação que possibilita a formação de grupos económicos L3C estava a ser considerada na Carolina do Norte.» Já expliquei noutro lugar as minhas razões para acreditar que é crucial que as empresas sociais não estejam sujeitas às expectativas e às pressões que surgem naturalmente quando o pagamento de dividendos está previsto no plano de negócios. da empresa social no seu sentido mais completo». conhecida habitualmente nos Estados Unidos pela sigla L3C. é da autoria de Robert Lang. Por exemplo. O «compromisso» a que as autoridades britânicas se referem é. que reflecte igualmente a busca de uma forma de canalizar a potencialidade da empresa para objectivos sociais. uma L3C tem um ou mais proprietários. Martin descreveu o potencial de intervenção positiva de empresas organizadas com objectivos sociais e debateu a necessidade de o governo canadiano reagir à «evolução no mundo real da economia social. sujeita a todas as limitações e desvantagens com que uma empresa dessas tem de se defrontar quando se envolve na resolução de problemas sociais. ' :i . uma EIC poderia tornar-se uma empresa social se os seus proprietários e accionistas explicitamente renunciassem de modo claro aos dividendos ou a qualquer outra forma de distribuição de lucros para além da quantia investida. Obviamente. pela Social Enterprise Alliance e por outras entidades que procuram formas criativas de combinar técnicas de obtenção de lucros e objectivos sociais. na Jórgia. não reúne as condições necessárias para ser o tipo de empresa social que eu promovo. Uma L3C. ele será restringido para garantir que o principal beneficiário da EIC é a comunidade mais alargada. A ideia da L3C. toxicodependentes em recuperação. o conceito tem sido desenvolvido e promovido pelas organizações Americans for Community Development. em Toronto. Há também um debate considerável sobre a possibilidade de criar uma estrutura legal semelhante no Canadá. No final de 2009 existiam já 3300 EIC registadas no Reino Unido. visto que as leis que regulamentam a criação de uma L3C especificam que «nenhum objectivo significativo da empresa será a produção de rendimento ou 157 . no entanto. As organizações índias Crow Indian Nation e Oglala Sioux Tribe também dão o seu reconhecimento à estrutura da L3C. o conceito tinha já sido reconhecido pelos estados do Michigan. do Utah.

como. por exemplo. dedicado a proporcionar à região de Chicago um serviço de notícias e comentários de alta qualidade editados profissionalmente. as L3C têm um estatuto de repassamento em relação aos impostos sobre rendimentos a nível federal nos Estados Unidos. as regras do Serviço de Receita Federal que definem os PRI são notoriamente complicadas e difíceis de seguir. todos os itens de rendimento. Peter Osnos. companhias de seguros ou fundos fiduciários de capitalização permanente. Um terceiro novo conceito de estruturação de uma empresa social é a chamada B corporation. já que as L3C foram especificamente concebidas para serem consideradas. como PRI legítimos em que as fundações podem investir. Uma das vantagens da estrutura da L3C é que os requisitos para a sua fundação . prescindindo simultaneamente. ao proporcionar um risco relativamente mais baixo e um maior potencial de retorno do investimento. se assim o decidir. as fundações que apoiam L3C podem também criar benefícios financeiros indirectos para essas empresas. and Catherine T. Isto significa que não é a própria empresa a pagar impostos sobre os seus rendimentos. visto que. bancos. Alguns esperam agora que L3C apoiadas por fundações se tornem uma forma de manter vivo o jornalismo tradicional. em termos legais e fiscais. Este facto é importante para as fundações. ganhos e perdas são «repassados» aos «membros» (ou seja. recebeu uma bolsa da John D. Algumas das pessoas que advogam o estabelecimento legal da estrutura da L3C acalentam a esperança de que esta forma de empresa social venha a obter apoio financeiro de fundações. Esta opção torna as restantes acções mais atraentes para outros investidores. Na realidade. Neste momento. conhecidos pela sigla PRI. Como outras sociedades de responsabilidade limitada. a rejeição do lucro como «objectivo significativo» e de «objectivos políticos ou legislativos» .são concebidos para reflectir as regras do Código de Receita Federal dos Estados Unidos que definem os chamados Program Related Investments [Investimentos Relacionados com Programas}. No entanto. é uma organização sem fins lucrativos. a grande diferença entre uma L3C e uma empresa social é a mesma que existe entre esta e uma EIC. ao passo que na empresa social são deliberadamente excluídos. Uma das áreas em qlJe tem sido debatido é a do jornalismo. aos proprietários) da L3C proporcionalmente às acções que detêm. a estação pública de televisão de Chicago. a designação B cor- ~- 158 159 . O equívoco entre o motivo do lucro e o motivo social introduz um ponto fraco que faz com que a L3C seja menos eficaz na prossecução de alvos humanitários do que a empresa social. No entanto. MacArthur Foundation e tem a esperança de obter mais investimentos de outras fundações. alguns jornalistas começaram a procurar novas maneiras de financiar organizações dedicadas à investigação jornalística e à educação para a cidadania.a dedicação a «fins de beneficência ou de educação». de qualquer outro retorno.a criação de lucro em benefício dos proprietários e o pagamento de dividendos desses lucros formam parte da missão da L3C. Dispor de uma estrutura empresarial previamente definida que possa ser considerada um PRI levaria as fundações a explorarem esta opção de investimento para alguns dos seus capitais. juntar o egoísmo e a abnegação no mesmo veículo não beneficia nem um nem o outro.a apreciação da propriedade». Para além de disponibilizarem financiamento.) A estrutura legal e financeira de uma L3C proporciona a possibilidade de uma organização do tipo de uma fundação investir capital numa empresa com fins sociais e recupere o seu investimento inicial. como já indiquei anteriormente. Um exemplo dessa tentativa é o Chicago News Cooperative. os investimentos podem ser estruturados de modo a que a fundação que faz um investimento assuma o maior risco financeiro em troca de um lucro mínimo ou nulo. O seu editor é o jornalista veterano James O'Shea e opera em parceria com a WWTW. Na minha opinião. despesas. Através de uma técnica que dá pelo nome de «tranching». mas está a estudar a nova lei do Ilinóis e talvez venha a transformar-se numa L3C. Com a imprensa local a deparar-se com sérios problemas financeiros devido à crescente popularidade da Internet e ao desvio resultante das receitas da publicidade. Será interessante ver como o conceito da L3C se desenvolverá nos próximos anos. Em vez disso. (O presidente do conselho consultivo da cooperativa. fundou a PublicAffairs e é meu editor e amigo. não há directrizes escritas que limitem o nível de lucro (como acontece no caso das EIC) e não há nenhuma entidade reguladora oficial que avalie se uma determinada L3C está a pagar dividendos «excessivos».

» DeBate prossegue. funcionários e o público em geral . Uma B corporation proclama a sua preocupação com objectivos sociais. A B Lab faculta ainda um sistema de classificação que permite às empresas medirem o seu próprio desempenho ambiental e social através da resposta a um questionário. Se a B corporation não tem um estatuto legal efectivo.representa antes «beneficente». o contrato de sociedade ou o regulamento interno) declarações específicas de que os directores da empresa estão autorizados a tomar em consideração. forem processadas por um investidor descontente que não aprova as suas prioridades sociais ou filantrópicas. o B de B corporation não se refere ao código fiscal . uma empresa que pretenda ser «oficialmente» considerada uma B corporation deve incluir nos documentos que a governam (por exemplo. por exemplo. 161 . a par da sua responsabilidade económica de criar lucro para os investidores e assim proteger os gestores e os directores da empresa de processos legais ou de revoltas dos investidores quando tomarem opções que beneficiem a sociedade e. ninguém sabe se o conceito da B corporation será eficaz para atingir o seu objectivo primário. para além dos interesses financeiros dos accionistas. não há uma lei que defina a B corporation ou que especifique quaisquer regulamentações especiais que se lhe apliquem. os gestores de uma B corporation têm a liberdade de pagar dividendos aos accionistas e de guardarem uma parcela dos lucros da empresa para 6 Ilana DeBate. fundada em Junho de 2006 por Coen Gilbert.clientes. sendo que apenas as empresas que obtenham uma 160 pontuação de «passagem» (actualmente. havia já mais de duzentas B corporation nos Estados Unidos. «"B Corporation" Plan Helps Philanthropic Firms». Neste momento. 80 em 200 pontos) podem ser designadas como B corporation. por exemplo. os clientes. como. qual é o objectivo de criar o termo? Gilbert e os seus sócios da B Lab estão a tentar reivindicar um espaço no sistema económico para empresas que dediquem a totalidade ou parte dos seus lucros a causas sociais. não têm leis que abordem essa questão explicitamente. Como afirma a jornalista Ilana DeBate. do San Francisco Chronicle: «É demasiado cedo para sabermos que cobertura legal a linguagem da B corporation realmente proporcionará às empresas . o contrato social. se. ao passo que outros estados. Em vez de renunciarem à obtenção de ganhos pessoais.mesmo uma empresa que obtenha uma pontuação elevada na sondagem ambiental e social criada pela B Lab não é o mesmo que uma empresa social.» 6 Apesar desta incerteza. E devo salientar ainda que uma B corporation . O· objectivo é reconhecer formalmente as responsabilidades da empresa para com a sociedade. A ideia da B corporation foi criada por uma organização chamada B Lab. De acordo com as regras estabelecidas pela B Lab. Gilbert inventou o termo B corporation usando a analogia dos grupos económicos C e S (C e S corporations). O objectivo é tornar a «marca» B corporation uma forma válida de reconhecimento que permita a toda a gente . alguns empresários adoptaram a ideia da B corporation. observando: «A situação complica-se ainda mais devido ao facto de alguns estados terem leis que permitem às empresas tomar em consideração os interesses de outros grupos além dos accionistas. investidores. estruturas legais cujos nomes derivam de provisões específicas do código fiscal americano. visto que uma B corporation se dedica a proporcionar benefícios à comunidade em que funciona. San Francisco Chronicle. tenham o efeito de reduzir os lucros. como os gestores de uma empresa social. Mas cada uma dessas empresas toma as suas próprias decisões sobre o papel que a obtenção de lucro desempenha. o que considero louvável. possivelmente. Os resultados traduzem-se numa pontuação.. entre os quais a Califórnia.poration não tem qualquer estatuto legal especial. um jovem empresário sociaL Identificando no pensamento económico e social corrente a falta de um termo descritivo para uma empresa que tenha simultaneamente objectivos sociais e financeiros. os funcionários da empresa. o bem de muitos outros «interessados». o valor desta designação continua a ser questionável. No entanto. 18 de Maio de 2008..conceder aos gestores e aos directores das empresas a liberdade de gerirem o seu negócio com objectivos simultaneamente sociais e financeiros. a comunidade e até mesmo o ambiente.reconhecer as empresas realmente empenhadas na sustentabilidade ambiental e sociaL Infelizmente. No final de 2009.

Podem experimentar-se diferentes meios para atingir essa finalidade. parece-me que este facto enfraquece o poder do conceito da B corporation. e tem como objectivo o fornecimento de água própria para consumo à população pobre da localidade de Goalmari. seguindo-se à da Grameen Danone.si próprios. Como já expliquei. O objectivo da empresa social é resolver problemas do mundo real e ajudar os seres humanos a viverem vidas melhores e mais realizadas. e o vazio no nosso sistema económico e legal. Podemos encontrar um exemplo muito interessante deste pendor para o pragmatismo na história da Grameen Veolia Water. abertura. no qual um terceiro tipo de entidade empresarial deveria ser reconhecido. à medida que as circunstâncias forem também elas mudando e novas ideias forem surgindo. só foi descoberta por cientistas em 163 . A existência destas novas estruturas empresariais alternativas . têm de beber água contaminada com níveis excessivos de arsénico. O objectivo do projecto é desenvolver uma forma de proporcionar o acesso a água própria para consumo a populações rurais do Bangladeche que. as pessoas interessadas em lançarem empresas sociais terão de usar as leis que regulamentam as empresas convencionais como base para criarem uma verdadeira empresa social tal como eu a defino.sempre foram elementos importantes na minha abordagem da empresa sociaL A parte mais importante do processo de criação de uma empresa social é definir a sua finalidade em termos claros. Que estas novas alternativas tenham sido concebidas e que tantas pessoas se apressem a experimentá-las indica-nos que há muita gente em todo o mundo que partilha o meu desejo de resolver estes problemas. 162 CAPÍTULO 6 A Grameen Veolia Water Um projecto social de I&D para abordar a crise mundial da água Pragmatismo. que ocorre naturalmente no solo aluvial dos Himalaias do Bangladeche.a EIC.e quanto mais cedo melhor. legais e legislativos têm muito trabalho a fazer. no Bangladeche. é a melhor maneira de completar a estrutura inacabada que é o capitalismo contemporâneo. o que é inaceitáveL A presença deste elemento tóxico na água. considero estas experiências um sinal de esperança. os nossos especialistas governamentais. Desde que a empresa social mantenha firmemente em vista este objectivo. com a sua clara demarcação de uma linha divisória entre a procura do lucro e objectivos sociais. pode-se esperar que os métodos específicos utilizados para atingir o objectivo evoluam e se modifiquem ao longo do tempo.talvez fatalmente. a L3C e a B corporation. neste momento.reflecte a situação global que tem impulsionado o meu trabalho nas últimas décadas: a persistência de problemas humanitários à escala mundial. Mas continuo convencido de que o conceito de empresa social. Nesse sentido. experimentação. Entretanto. que tanto as actuais organizações sem fins lucrativos como as entidades com fins lucrativos têm sido incapazes de resolver. Deveria ser criada uma nova estrutura reguladora especificamente adequada às necessidades da empresa social . É a segunda experiência em empresas sociais criadas por um grande grupo económico. Obviamente.

a Veolia Environment. Temos tentado abordar este problema através da implementação de vátios programas no âmbito da Grameen Shikkha (Educação). directora executiva da Grameen Shikkha. «Posso fazê-lo. E é aqui que entram as empresas como a Veolia Water. «Sim». incluindo filtragem. a maior parte deles de zonas rurais. Implica sérios riscos para a saúde a longo prazo. como acabou por se descobrir. Nos seus alicerces. bebem água contaminada com arsénico todos os dias. incluindo lesões cutâneas e cancros. Foi assim que nasceu a Grameen Veolia Water. estava contaminada com arsénico. construção e gestão de serviços de água e de tratamento de águas residuais para clientes municipais e industriais. a pessoas cujo rendimento não pode sustentar a despesa da infra-estrutura dispendiosa que é necessária? Como adaptar o novo serviço aos costumes e às expectativas que fazem parte do seu modo de vida tradicional? Estas questões e outras semelhantes revelam-se extraordinariamente importantes. veio falar comigo e colocou-me a seguinte questão: «Há uma empresa social que possamos criar juntos para melhorar a qualidade da água acessível aos pobres do Bangladeche?» Rejeitei a ideia imediatamente. Como fornecer água pura. disse. que já é popular no Bangladeche. Não somos a única organização a defrontar-se com este desafio. que usualmente são excluídos. Neste cargo. Actualmente. de eficiência energética. que afectam pelo menos 100 000 pessoas no meu país. Nenhuma destas abordagens resolveu o problema. Não se conhece o número exacto de pessoas afectadas por este problema. Mas Lesueur não desistiu. mas estima-se que se situe entre os 35 e os 80 milhões. Antoine Frérot. que foi acusada de ter aconselhado os habitantes do Bangladeche a deixarem de consumir águas de superfície poluídas e a passarem a consumir água de poços manuais. um executivo da empresa francesa Veolia Water. se ele achava que poderia fornecer água às zonas rurais ao preço de um taka por dez litros. em 2006. que opera sistemas de gestão de resíduos. tratamento de águas de superfície com sulfato de alumínio e abastecimento de água através de poços mais profundos. um aumento de quase 15 por cento em relação ao ano anterior.» Fiquei agradavelmente surpreendido e imensamente interessado em falar com ele. O Banco Mundial e outros doadores estudam este problema há anos e têm aplicado verbas consideráveis em tentativas de o resolver. segundo o director-geral executivo da empresa. Mas Lesueur voltou a contactar-me. a empresa social tem a ver com fazer com que a economia funcione para toda a gente. A tecnologia por si só não pode resolver os grandes desafios com que se defronta o mundo actual. A Veolia Water integra-se numa empresa de maior dimensão. Em 2007. Pensei que ele já tivesse partido. recolha de água da chuva. 164 Finalmente. aplicou todas as suas capacidades à !=>usca de uma solução. Eric Lesueur. mas é também muito cara. própria para consumo. incluindo os pobres na base da pirâmide. Antes de entrar para a empresa. interessou-se profundamente por sistemas de gestão ambiental e por questões de desenvolvimento sustentável. Lesueur era subdirector do departamento de I&D da Veolia Environment a nível global. Mas não conseguiu encontrá-la. Pensei que ele estava a falar de água engarrafada. eu estaria disposto a conversar com ele. Ficou no Bangladeche e continuou a tentar falar comigo. complexas e fascinantes. Não tive resposta durante dois dias. especialmente no que diz respeito ao abastecimento de água. Não seria uma solução viável para satisfazer as necessidades de consumo de água da enorme população rural do país.6 mil milhões de euros de receitas em 2008. de transportes públicos e de abastecimento de água. A empresa social pode desempenhar um papel importante na abordagem destes problemas. A selecção das questões sociais e a escolha das tecnologias adequadas à sua abordagem são igualmente importantes.1993. registou 12. tem-se empenhado no abastecimento de água própria para consumo às zonas rurais. A Veolia Water. Ela e a sua equipa recolheram amostras e estudaram mapas que revelam níveis variáveis de arsénico na água dos poços por todo o Bangladeche e experimentaram todas as soluções propostas pelos especialistas. A missão de Lesueur. A UNICEF. milhões de habitantes do Bangladeche. que. mandei dizer a Lesueur que. Nurjahan Begum. consistia em encontrar maneiras de a Veolia Water dar importan165 . que se dedica à concepção.

Quando Eric Lesueur: aceitou a nova missão de explorar formas de a Veolia Water desenvolver inovações sociais em torno do abastecimento de água. com sede em Paris (cujo acrónimo francês é ADIE). por acaso. entre as quais a Associação para o Desenvolvimento de Iniciativas Económicas. cheio com água. criar uma fonte de abastecimento de água potável é uma questão de saúde pública. uma questão de desenvolvimento económico e uma questão dos direitos das mulheres. é usualmente às mulheres e às crianças que cabe a tarefa de ir buscar água para a família. cerca de dois milhões de crianças morrem todos os anos devido a doenças relacionadas com a água. desde que prepare adequadamente o terreno . onde podem beber água potáveL Entretanto. a uma bomba ou a um rio e depois a transportar um recipiente ainda mais pesado. Os Objectivos do Milénio da ONU . cerca de 20 por cento da população mundial têm um acesso inadequado a água própria para consumo e para cozinhar. Nos povoados africanos. devido em parte ao aquecimento global. especialmente com Patrick Rousseau. particularmente 166 em países como o Bangladeche.o que inclui provocar noutras pessoas da empresa o entusiasmo pelo projecto desde o seu início. que é o director-geral executivo da Veolia Water no subcontinente indiano. que vão de diarreias graves à malária e à cólera. É já evidente há algum tempo que a água estará no centro das questões de sustentabilidade em todo o planeta nas próximas décadas. «Se eu estivesse sozinho». em 2025 metade da população mundial sofrerá de falta de água. é minha amiga e uma das pioneiras do microcrédito em França. 167 . na Índia. Para muitas mulheres.não só no mundo em vias de desenvolvimento mas em toda a parte. o Objectivo do Milénio número 7 compromete as nações do mundo a «reduzir a metade a proporção de pessoas sem acesso sustentável a água própria para consumo e a condições sanitárias básicas». Segundo os especialistas. Lesueur ficou a saber que eu iria deslocar-me a Paris em Março de 2007 para visitar a ADIE e participar num congresso. Analisando a sua experiência. Lesueur salienta a importância de obter alguns aliados de peso no início do processo de lançamento de uma empresa social no âmbito de uma grande empresa.>> Eis uma lição útil para quem queira lançar uma empresa social: um gestor de uma grande empresa pode lançar uma iniciativa de empresa social. Muitos cientistas prevêem que. Além disso. E em ~uitos locais onde o acesso a uma fonte de abastecimento de água não é fácil essa tarefa pode ocupar várias horas por dia a percorrer vários quilómetros com bilhas ou bidões pesados para chegar a uni poço. para muitas crianças. despertou em Lesueur a ideia de criar uma empresa social para levar água própria para consumo à população do Bangladeche. Actualmente. por exemplo.tes contributos para responder a este tipo de questões . com sede em Deli. o problema do acesso à água potável é pior para as mulheres e para as crianças do que para os homens. «mesmo com o apoio dos dirigentes máximos da empresa teria sido difícil fazer com que o projecto resultasse. E prevê-se que estes problemas se agravem. esta tarefa faz com que não lhes seja possível ir à escola. as mulheres e os filhos ficam em casa. Assim. A ADIE é dirigida por uma mulher extremamente talentosa e cheia de energia chamada Maria Nowak. A primeira iniciativa de Lesueur. diz ele. com acesso apenas à água contaminada do poço ou do ribeiro. criar um negócio familiar ou ter um emprego remunerado é completamente impossível devido à necessidade de passar metade do dia a transportar água.incluem a prioridade de proporcionar o acesso a água própria para consumo a toda a população mundiaL (Especificamente. Através de Nowak. Em muitos povoados do Bangladeche.oito objectivos internacionais de desenvolvimento que 192 Estados membros e pelo menos 23 organizações internacionais se comprometeram a atingir até ao ano de 2015 . foi partilhar a ideia com os seus colegas da Veolia Water. Este problema tem feito soar sinais de alarme por todo o mundo.) O acesso a água própria para consumo é também uma questão dos direitos das mulheres. ainda antes de consultar o Banco Grameen. onde os homens têm mais liberdade de movimentos devido a factores culturais. no regresso à roça ou ao povoado. que. onde me ouviu falar do conceito de empresa social. estabeleceu contactos com várias organizações. E assistir ao congresso. os homens passam parte do dia em lojas ou armazéns.

no Nilo ou no Bramaputra e tirar água. Lesueur recorda: «Fiquei extremamente admirado. para nos darem o seu apoio e até mesmo para oferecerem a sua colaboração voluntária no Bangladeche. visitaram também a fábrica de iogurtes da Grameen Danone em Bogra.Lesueur organizou uma viagem a Daca em Setembro de 2007. Em Dezembro de 2007. (Nesta mesma viagem. esta reacção não me parece surpreendente. o problema do arsénico na água para consumo do Bangladeche e o potencial para urna colaboração com a Grameen. concordámos provisoriamente que planearíamos uma joint venture da Grameen e da Veolia Water. Numa altura em que a escassez de água. e disse-lhe que a Veolia Water estava prestes a juntar-se à Danone no grupo de grandes empresas que apoiam o conceito de empresa sociaL Foi o primeiro contacto do que viria a tornar-se urna troca constante de ideias e de experiências entre estas duas empresas. Além disso.5 milhões de pessoas na Índia e em África. foi assinado um memorando de entendimento entre a Grameen Cuidados de Saúde e a Veolia Water durante a minha visita a Paris. Senti que a intenção de Lesueur de abordar os desafios sociais de fornecer água a populações pobres era séria e que a Veolia Water estava disposta a investir tempo. descreveu a proposta do projecto ao seu director-geral executivo. que reprimiram essa faceta altruísta da sua natureza por muitos anos devido à falha grosseira da nossa estrutura teórica. acompanhado por Rousseau e por Estelle Lasselin. as nações do mundo em vias de desenvolvimento são um importante mercado futuro para os seus serviços e a sua tecnologia especializada. O novo projecto estava agora oficialmente em curso. Qualquer pessoa pode pegar num balde. depois de Lesueur decidir que poderia aceitar o meu desafio de fornecer dez litros de água ao preço de um taka. Na Veolia Water. metê-lo no Sena. energia e capital a aprender este novo modelo de negócio e a experimentá-lo. Frérot deu ao projecto a sua bênção entusiástica. as pessoas ficaram entusiasmadas e motivadas com a ideia de colaborar com a Grameen neste novo tipo de empresa. O entusiasmo era extraordinário. O que nós 169 . Tiveram urna conversa de duas horas sobre o conceito de empresa social. Mas a realidade é muito diferente. as alterações climáticas e as controvérsias geradas pela globalização económica e pela privatização dos serviços de abastecimento de água estão a criar desafios políticos e económicos à Veolia Water. muitas vezes as pessoas perguntam-se como os seus colegas reagirão à ideia da empresa sociaL Afinal. Foi o início do que viria a revelar-se urna viagem conjunta interessante e complexa. da Danone. O desejo de contribuir para fazer do mundo um lugar melhor e para melhorar a qualidade de vida dos seres humanos nossos irmãos é um impulso da natureza humana tão forte como o de acumular lucros pessoais. urna sua colega do departamento financeiro da Veolia Water. fiquem entusiasmadas com a oportunidade de lhe darem expressão.» Na verdade. Muitas pessoas vieram ter comigo nos corredores para falarem sobre o projecto. tal como aconteceu na Danone. Lesueur telefonou tambéq:t a Emmanuel Marchant. o conceito de empresa social é especialmente importante para a Veolia Water devido ao lugar que a empresa ocupa na economia mundiaL Como a Veolia Water é responsável pelo abastecimento de água a mais de 6. Corresponde à que encontro sempre que falo sobre a empresa social. É natural que as pessoas do mundo dos negócios. é importante para a empresa desempenhar um papel positivo nas questões sociais em torno da água.) Assim. fiquei intrigado com a possibilidade de criar uma nova empresa social em colaboração com um grupo económico com a dimensão e a experiência da Veolia Water. *** Quando Lesueur regressou a Paris. evidentemente. poderia esperar-se que um profissional que passou muitos anos a aprender 168 como dirigir urna organização dedicada à maximização do lucro sentisse perplexidade ou até mesmo alguma hostilidade em relação à ideia de investir num projecto que é deliberadamente concebido para não produzir lucros para os seus investidores. Antoine Frérot. Nós não vendemos água. Nas palavras de Antoine Frérot: Muitas pessoas não compreendem bem o papel da Veolia Water. No mundo dos negócios. Tivemos uma reunião e.

Esta é uma diferença importante entre o projecto da Grameen Veolia Water e o projecto da Grameen Danone. Os clientes da empresa são usualmente entidades públicas. É também a mesma abordagem utilizada pela Grameen Danone. 171 . fazendo tudo. Uma outra solução consiste em subsidiar a distribuição da água em zonas pobres através dos lucros obtidos com a venda de serviços de electricidade.fazemos é o tratamento da água para que as pessoas possam bebê-la com toda a segurança. Este facto cria enormes questões e pressões políticas. sociais e económicas à Veolia Water. especialmente se a situação económica evoluir desfavoravelmente. A Veolia Water e o seu pessoal querem dar um contributo positivo para a resolução das questões sociais em t:orno da água e esta é uma maravilhosa oportunidade para o fazer. Mas. Quanto mais estreita for a relação da empresa social com os interesses mais básicos da empresa-mãe. Ao abrigo de vários contratos com entidades públicas na Europa. Se conseguirmos atingir estes objectivos. nós trazemo-la aos consumidores. na África e em outras regiões do mundo.. O nosso verdadeiro objectivo é criar um sistema de abastecimento de água própria para consumo que seja sustentável e financeiramente viável para um povoado mral no Bangladeche e aprender como esse sistema pode funcionar e corno poderá ser replicado. psicológicas. onde as 170 canalizações são novas e de boa qualidade.uma verdadeira lufada de ar fresco.>s de purificar a água até passar fins-de-semana a reparar bombas de água e fugas. Acredito que a Veolia Water espera obter conhecimentos e novas perspectivas com este novo projecto. Uma outra hipótese consiste em encontrar soluções técnicas que simplifiquem os sistemas de fornecimento e de pagamento . que trabalha arduamente para fornecer um bom serviço. o contrato da Veolia Water com a cidade de Tânger. Por exemplo. O sistema de fontanários para o abastecimento de água da Veolia Water. somos por vezes atacados pelos meios de comunicação. emprega esta solução com grande eficácia. É doloroso para o nosso pessoal. a Veolia Water tenta desenvolver soluções para o desafio do abastecimento sustentável de água a preços acessíveis a zonas carenciadas. de forma diferente. em Marrocos. como as pessoas não compreendem o que fazemos. que serão aplicáveis noutras partes do mundo em vias de desenvolvimento. desde desenvolver novos mei<. Portanto. no Sul da Ásia. tanto mais excitante e desafiador será a empresa sociaL Este facto garantir-lhe-á a atenção.por exemplo. em árabe . como as zonas pobres. Ambos os tipos de zonas têm de ser servidos. abrange tanto as zonas abastadas. não num negócio periférico. mas não é possível viver sem água. Esta é a abordagem da subsidiação cruzada que a Grameen Cuidados de Saúde emprega ao cobrar valores diferentes pelas mesmas operações nos seus hospitais oftalmológicos de acordo com a capacidade económica dos utentes. como fonte de inspiração. em vez de tentarmos resolver imediatamente o problema dos 3 5 milhões de pessoas que são vítimas do problema da água contaminada com arsénico no Bangladeche. comprometermo-nos a criar uma empresa social no Bangladeche foi um motivo de entusiasmo para os nossos funcionários . cartões electrónicos pré-pagos para o acesso a pontos de distribuição de água. Aqui temos mais uma lição para as empresas que estejam a pensar em iniciar uma empresa sociaL Pense no seu negócio de base. chamado Saqayti «a minha fonte>>. onde estão velhas e deterioradas. quando cobra um preço mais elevado pelos seus iogurtes em zonas urbanas do que nos povoados rurais. os recursos e o apoio de que ele necessita. Uma das soluções consiste em subsidiar o fornecimento do serviço às zonas pobres com os lucros obtidos com a prestação do serviço a zonas mais abastadas. por exemplo). quando não há fontes de abastecimento de água disponíveis. É possível viver sem iogurtes. Noutros casos. Nem foi por acaso que decidimos lançar em conjunto um projecto-piloto a uma escala modesta. que contratam a Veolia Water para fornecer água a todos os habitantes de uma cidade. tanto ricos como pobres. Um grande número de abordagens tem sido testado e aprovado em situações específicas. É mais do que evidente q~e o desafio de fornecer água àspopulações mrais pobres é de importância vital para o futuro do negócio de base da Veolia Water. em vez de ser negligenciado ou abandonado. Não foi por acaso que Lesueur veio da área I&D da empresa. o potencial de benefícios sociais é enorme. quando é a mesma empresa a operar os sistemas de abastecimento de energia eléctrica e de água (como é o caso da Veolia Water no Gabão.

pode-se começar rapidamente 173 . criam dificuldades técnicas sígnificativas para um projecto de abastecimento de água. incluindo impostos locais (que distribuem os custos por uma população mais alargada) e o recurso ao microcrédito para pagar sistemas locais de abastecimento.>> Após alguma discussão e algum debate internos. a Veolia Water e a Grameen Cuidados de Saúde colaboraram no desenvolvimento do modelo de negócio para o Bangladeche. O processo teve o seu início quando a Veolia Water veio ter com a Grameen e pediu: «Digam-nos onde deveríamos lançar o nosso projecto. Consideramos o investimento uma despesa de I&D e. requerendo apenas um pequeno investimento. as razões por que o nosso sistema de abastecimento de água era importante para eles e o papel da Veolia Water.desta empresa francesa que poucas pessoas no Bangladeche conheciam nessa altura. Pela sua parte. comprar o terreno e começar a trabalhar imediatamente. A densidade populacional é baixa e as mudanças sazonais entre a estação seca e a estação das chuvas. Trazer água à população de uma pequena localidade no Bangladeche coloca desafios muito diferentes. estamos dispostos a fazê-lo para adquirir conhecimentos. Em vez de gastar milhões de euros em instalações grandiosas e correr o risco de perder todo o investimento. porta a porta. onde uma população de cerca de 20 000 habitantes locais poderia ser servida: Como já mencionei. a Veolia Water avançou rapidamente. mas os contratos da empresa são quase todos em zonas urbanas. por consequência. decidimos começar em pequena escala e aprender no terreno. A GVW tinha de encontrar maneiras de 172 integrar o seu novo serviço de abastecimento de água na estrutura social da localidade. Antoine Frérot explica: Em vez de passar meses a estudar a questão económica do projecto e a planear as instalações. Esta abordagem de «aprender fazendO>> foi possível por o projecto inicial ter uma escala modesta. Acompanhado pelos membros da equipa da GVW. decidimos encontrar rapidamente um local.E a Veolia Water tem também colaborado com autarquias locais para desenvolver outros meios de financiar o abastecimento de água aos pobres. tradicionalmente. A natureza complementar da nossa joint venture era clara desde o início. É nesta tradição de experimentação económica e social que assenta o entusiasmo da Veolia Water por testar o novo modelo de empresa social. Precisamos de um local onde haja um verdadeiro problema de arsénico. A Veolia Water contribuiria com a sua experiência técnica e. obtêm sem pagar . recorrendo a um grupo de estudantes locais para conduzir uma sondagem muito simples. No entanto. pela sua parte. que transformam completamente a paisagem. apenas três meses após a assinatura do memorando de entendimento. visitei Goalmari várias vezes para me avistar com a população local e explicar o nosso conceito de empresa social. a Grameen providenciaria as relações com a população local e a compreensão das condições sociais e económicas. um local onde as pessoas tenham entusiasmo pelo projecto e nos apoiem. um local que não seja demasiado distante de Daca. *** Ao abrigo do acordo de criação da joint venture Grameen Veolia Water (GVW). o mais importante são os desafios sociais e económicos do Bangladeche rural. a Veolia Water tem uma experiência considerável no fornecimento de serviços de abastecimento de água a populações do mundo em vias de desenvolvimento. A GVW realizou também uma primeira avaliação do número de habitantes da localidade que estariam dispostos a pagar a água. lançando o projecto em Março de 2008. incluindo populações pobres.embora com pesados custos para a saúde da sua família a longo prazo. a Grameen sugeriu um local para o primeiro projecto-piloto: a localidade de Goalmari. a cerca de cinquenta quilómetros a leste de Daca. principalmente em zonas urbanas. Quando se começa em pequena escala. atraindo clientes numa área dispersa e de variados níveis económicos e convencendo as pessoas a gastar dinheiro num produto que. aprendendo à medida que íamos avançando. Todas estas soluções têm sido implementadas através de parcerias entre entidades públicas e privadas em várias partes de África. Eis uma lição importante para as pessoas interessadas em criar empresas sociais: há uma enorme vantagem em começar em pequena escala.

O novo elemento principal era a necessidade de adaptar este tipo de sistema a uma zona rural. O preço fixado para vender a água tratada era o que eu tinha inicialmente sugerido à Veolia Water. A GVW construiu a estação.o que proporciona urna oportunidade de aprender com os erros. actualmente onze. A minha experiência na criação das várias empresas da Grameen diz-me que esta é a forma mais eficaz de criar empresas verdadeiramente inovadoras. A Grameen Veolia Water calcula que o lar típico necessita de cerca de rrinta litros por dia para beber e cozinhar. Esta decisão foi tomada porque o tratamento da água subterrânea é consideravelmente mais dispendioso e cria problemas de eliminação de resíduos que não se colocam quando são usadas águas de superfície. É também muito criativo. O processo de purificação é conhecido. com urna estação de tratamento com pouca capacidade (apenas dez metros cúbicos por hora).uma quantia que não é insignificante para urna família pobre no Bangladeche. num raio de dois quilómetros. A estação entrou em funcionamento em Março de 2009 e a rede foi activada em Junho. as «senhoras da Grameen». mudar de direcção e melhorar consistentemente. Era operada por urna equipa de seis trabalhadores locais. A questão é: porquê? 175 . empregando urna filtragem de carbono activado e clorinação. Acreditando que a população local ofereceria resistência à ideia de diferentes preços cobrados pelo mesmo produto em diferentes localizações. a outra era recorrer a pequenas unidades móveis.um taka por dez litros. a equipa da GVW descobriu que muitos dos habitantes da povoação não estavam interessados em comprar água .) A Veolia Water avaliou dois modelos técnicos diferentes para a sua estação de tratamento de água. Do ponto de vista técnico. (A água contaminada com arsénico parece ser segura para lavar roupa e para outros fins de higiene. que a GVW contratou e a quem deu formação. a Grameen Veolia Water optou por um preço fixo de três takas por dez litros. a Veolia Water faz o tratamento de águas de superfície do rio Meghna em vez da água tradicionalmente obtida através de poços pouco profundos. tudo funcionava lindamente. mulheres e crianças da zona fazerem fila junto à estação e nos vários pontos de abastecimento com as suas bilhas e outros recipientes de barro ou de metal. A Veolia Water acabou por optar por construir urna estação fixa de tratamento de água. Era emocionante ver homens.apesar do entusiasmo que tinham manifestado. No caso de surgir qualquer problema. visto que a instalação e a manutenção de uma rede de canalizações para transportar a água agravam os custos. sem dúvida com sinceridade. No Bangladeche. já que as pessoas só têm de usar a água filtrada para beber e para cozinhar. para poder disponibilizar a água própria para consumo em cerca de catorze locais apropriados na povoação. e suplementada por um só técnico francês. Um deles consistia em construir uma estação fixa com urna base de cimento armado. que não a faria adoecer. Mas foi então que os verdadeiros desafios com que a Grameen Veolia Water se defrontava começaram a tornar-se claros. Ficámos todos muito entusiasmados quando o primeiro jacto de água pura filtrada começou a jorrar da estação de tratamento da GVW. quando tinham sido questionados pelos estudantes da nossa equipa de sondagem. os escritórios da Veolia Water na Índia estavam disponíveis para prestar aconselhamento e assistência.urna equipa de mulheres da zona. como as que são usadas em situações de emergência par~ o abastecimento de água a campos rurais de refugiados. *** Em poucos dias. quando adquiridos na estação de tratamento. excitante . Mas a água vendida noutros locais da povoação teria de ter um preço mais elevado. As vendas mensais revelam a verdade. mas que é comportável para a maioria. ansiosos por provar a nossa água mais saudáveL A população de Goalmari tinha finalmente acesso a água própria para consumo. Apresenta-se também a necessidade de prever urna margem de lucro para as intermediárias que vendem a água..e bastante divertido! A resolução dos problemas técnicos de abastecimento de água a urna zona rural revelou-se compatível com os sistemas que a Veolia Water tinha já desenvolvido previamente. o que se traduziria numa despesa diária de cerca de nove takas . que vendem a água aos amigos 174 e vizinhos da localidade. a rede de canalizações e os postos de abastecimento.

A equipa da GVW está a procurar uma resposta para estaquestão e a tentar desenvolver soluções. O que se segue são as explicações provisórias a que chegaram até ao momento.
Aparentemente, a resistência na localidade provém de uma série
de razões. O preço é um grande problema. Comercializar a água ao
preço mais elevado fixado pela GVW resultou em vendas diárias
de apenas cerca de 2500 litros, o que significava que só 10 a 15
por cento da população-alvo estava a ser servida.
Um segundo problema é que muitos dos habitantes da povoação
- mas não a totalidade - não estão acostumados a pagar a água.
Uma excepção é quando as pessoas- principalmente os homens
- compram água a copo nos restaurantes, nos cafés ou nas lojas.
O preço corrente é de um taka por copo, muito mais elevado do
que o preço praticado pela GVW. No entànto, no que diz respeito
ao consumo doméstico de água, a maior parte dos habitantes do
Bangladeche não reconhece a necessidade ou o sentido económico
de comprar água.
Em terceiro lugar, os riscos para a saúde do arsénico existente
na água são difíceis de reconhecer. Trata-se de um perigo a longo
prazo, não imediato, visto que demora anos até as pessoas desenvolverem lesões ou um cancro. As populações locais não vêem
ninguém a adoecer imediatamente depois de beber a água contaminada, que tem um sabor aceitável. A consequência é que as
pessoas não aceitam incondicionalmente que exista necessidade de
comprar água purificada. Mesmo as pessoas que compreendem que
o arsénico apresenta riscos para a saúde não encaram o problema
suficientemente a sério. Alglimas talvez pensem: «Bem, pode ser
que esta água me ponha doente daqui a vinte anos. Mas, quem
sabe? Daqui a vinte anos, de qualquer maneira, talvez eu já tenha
morrido. Portanto, para quê preocupar-me?»
Este problema não é exclusivo dos habitantes do Bangladeche.
É um problema da natureza humana. Um grande número de experiências realizadas por economistas, sociólogos e psicólogos tem
demonstrado que as pessoas de todas as culturas sentem muita dificuldade em encarar tão seriamente as implicações de algo a longo
prazo como as suas implicações a curto prazo. É por esta razão que
as pessoas com um bom nível económico e cultural, na Europa e na
176

América, frequentemente têm problemas resultantes do consumo
excessivo de alimentos e de bebidas alcoólicas e do tabaco. Muitas
vezes, as actividades «nocivas» proporcionam um prazer imediato,
ao passo que os danos para a saúde demoram anos a manifestar-se.
Finalmente, nem todos os habitantes da povoação são afectados
igualmente pelo problema do arsénico. Algumas pessoas com um
nível económico relativamente desafogado cavam poços a uma
profundidade de mais de cem metros, de onde obtêm água sem
arsénico. Só cerca de 25 por cento dos poços em Goalmari cumprem os padrões definidos pela Organização Mundial de Saúde,
mas estes poços existem, atenuando o problema da qualidade da
água para as pessoas que têm acesso a esta água descontaminada.
O que se pode fazer para abordar estas questões? É necessário
encontrar soluções para que a GVW se torne uma empresa social
bem-sucedida e auto-sustentável - e, o que é ainda mais importante, para que os hábitos de consumo de água da população de
Goalmari sejam melhorados e o arsénico deixe de provocar doenças
desnecessariamente.
A equipa da GVW tem-se empenhado na procura destas soluções. Em 2010, o conselho de administração da GVW aprovou
uma nova estratégia. Já que a procura da água fornecida pela estação de tratamento ao preço cobrado é i~significante e 95 por cento
da sua capacidade de produção continuam por utilizar, porque não
engarrafar a água em recipientes de vinte litros e vendê-la a clientes institucionais? O lucro obtido com esse segmento de mercado
poderia ser transferido para os consumidores locais através da prática de um preço mais reduzido. O nosso objectivo é baixar o preço
para um taka por dez litros, como originalmente tencionávamos,
e expandir a rede rural de modo a servir muitas mais localidades.
Uma segunda estratégia seria fornecer água a um grupo de lares
sem passar por intermediários. Uma outra estratégia ainda seria
proporcionar o abastecimento domiciliário de água aos habitantes
relativamente desafogados - ou seja, às pessoas que dispõem de
meios para pagar uma ligação directa à rede de canalizações instalada e o seu consumo mensal.
Temos a intenção de prosseguir com os nossos esforços para cumprir o plano de acção original - levar água às populações rurais
177

ao preço mais baixo possível, de modo a tentar resolver as questões
sociais e de saúde pública relacionadas com o consumo de água
purificada e saudáveL Entretanto, tornou-se óbvio que a subsidiação cruzada será uma parte importante da equação -vender água
a preços mais elevados às pessoas com mais posses como forma de
reduzir os custos para os pobres. À medida que formos desenvolvendo uma gama de programas de comercialização da água a variados tipos de clientes, talvez consigamos criar um sistema global
para o abasteciment~ sustentável de água que seja aplicável noutras
partes do mundo em vias de desenvolvimento.
É fácil identificar algumas similaridades com a história da Grameen Danone. Um dos desafios do negócio do iogurte foi encontrar
canais de distribuição do produto. Levou tempo e só após várias
experiências descobrimos como combinar diversos programas de
comercialização, incluindo a distribuição do iogurte porta a porta
pelas «senhoras da Grameen», vendas directas ao público na fábrica
e a sua comercialização em lojas locais e em lojas de centros urbanos. Provavelmente, terá de ser desenvolvida uma gama similar de
canais de distribuição da água, com preços adequados a cada um
deles, para tornar o negócio da água viável embora a GVW
esteja apenas na fase inicial do processo.
Evidentemente, existe uma grande diferença do ponto de vista
das empresas envolvidas. Como o Groupe Danone já vende os seus
produtos a clientes através de supermercados em todo o mundo, a
empresa tem óptimos conhecimentos de marketing. A Veolia Water,
por outro lado, não está acostumada a vender produtos ou serviços
directamente aos consumidores. Assim, alguns dos métodos de marketing a que Grameen Danone recorreu, desde criar uma rede de venda
a retalho até publicidade na televisão, são parte integrante do negócio
de base da Danone- mas completamente novos para a Veolia Water.
Mas a GVW aceita este desafio. O objectivo é desenvolver em
2010 um sistema viável de comercialização e de distribuição, através
de uma série de canais - um sistema que, esperamos, possa vir a
ser reproduzido noutras localidades. Nesta base, a GVW poderá
então começar a planear a sua expansão para outras partes do Bangladeche que têm igualmente necessidade de água própria para
consumo.

a

178

***
Como se pode constatar, a história da Grameen Veolia Water está
ainda a desenrolar-se. Na altura em que este livro for publicado, é
provável que tenham já ocorrido novos desenvolvimentos na história. Avistam-se vários marcos na estrada à nossa frente. Em 2011,
abrirá uma segunda estação de tratamento de água numa outra localidade. O objectivo é construir mais três estações até 2012, com um
público-alvo de 100 000 pessoas. De acordo com estimativas recentes, a longo prazo, um investimento total de 250 milhões de dólares
resolveria o problema do arsénico em todo o país - uma quantia
bastante modesta para um problema de saúde desta magnitude.
Ao mesmo tempo, a experiência com este modelo de negócio
prosseguirá. A minha regra é muito clara: mantenha sempre o objectivo
em mente, mas adapte os seus métodos de acordo com o que as circunstâncias
e as novas aprendizagens ditarem. Neste caso, desde que se mantenha
em mente o objectivo central de trazer aos pobres um abastecimento de água própria para consumo que seja sustentável e a um
preço acessível, não há problema em testar várias maneiras de tornar o projecto economicamente viável.
Tal como no caso da Grameen Danone, recorremos a auxílio
externo para estudar e medir o impacto social do projecto e, esperamos, validar os seus benefícios. Um laboratório, clínica e organização de investigação local, especializado em doenças diarreicas e
em contaminação por arsénico, o ICDDRB, está a colaborar com o
pessoal técnico da GVW no estudo dos hábitos de consumo de
água dos habitantes de Goalmari e a calcular os benefícios para a
saúde criados pelo projecto. Partilharemos os resultados deste
estudo à medida que eles começarem a surgir e, evidentemente,
tencionamos utilizá-los para orientar a nossa planificação de futuros
melhoramentos no negócio.
Em Paris, um dos desafios com que se deparam Eric Lesueur e o
director-geral executivo da Veolia Water, Antoine Frérot, consiste
em justificar a continuação do investimento na GVW Embora o
entusiasmo pelo conceito de empresa social continue a ser considerável, algumas pessoas na Veolia Water perguntam-se por que razão
a empresa está a apoiar uma empresa social que abdica do lucro no
179

Bangladeche, enquanto na vizinha Índia - outro país com milhões
de pessoas pobres - a Veolia Water opera numa base tradicional
de maximização dos lucros. Mas não há nada de surpreendente na
coexistência da _empresa social e do negócio com fins lucrativos
dentro da mesma empresa. Cada um destes negócios tem um objectivo diferente, mas aprendem continuamente um com o outro.
Tenho a certeza de que, depois de passarmos pelo nosso processo de
aprendizagem no Bangladeche, a Veolia Water lançará empresas
sociais também na Índia. O único problema para a empresa consiste
em desenvolver formas criativas de manter os dois mercados separados. Não há qualquer razão para que um segmento da população
tenha de ser totalmente ignorado para «proteger>> o potencial de
criação de lucro da empresa. Se as pessoas morrerem devido à poluição da água, ficarem doentes por causa da contaminação com arsénico ou continuarem a ser pobres devido às suas condições de saúde,
não haverá futuro para a criação de lucro. Quando a empresa social
pode abordar todos estes problemas, desenha-se também um melhor
futuro para a criação de lucro.
Tenho a certeza de que a Veolia Water leva o projecto da GVW
muito a sério. Não é simplesmente um capricho do director da
Veolia Water- a expressão de um interesse puramente privado,
como uma colecção de obras de arte ou uma coudelaria de cavalos
de corrida. É parte da visão a longo prazo para a Veolia Water a
nível mundiaL Como explica Lesueur:

todo o mundo. Eu quero apresentar a empresa social como uma
nova opção. Tanto as entidades públicas como as empresas com fins
lucrativos podem criar empresas sociais para tentar resolver o problema de fornecer água própria para consumo a pessoas que, de
outra forma, permaneceriam numa situação de vulnerabilidade,
sem acesso a água potáveL Necessitamos de toda a criatividade possível para resolver este tremendo problema sociaL Se a empresa
social criativa puder contribuir para abordar este problema de
forma positiva, será uma grande ajuda.
A nossa experiência no Bangladeche contribuirá para testar essa
ideia e, acreditamos, demonstrar o seu interesse. E, visto que a
questão do acesso à água vai ser um problema cada vez mais importante nas próximas décadas, experiências como esta são de importância cruciaL
É por esta razão que pretendemos prosseguir com o projecto
de Goalmari com tanta urgência- não só para benefício dos habitantes da povoação mas também para benefício do conceito de
empresa social, de que o mundo precisa tão desesperadamente.
Assim, o projecto de Goalmari é uma importante experiência
social- um projecto de I&D social, cujo sucesso inicial em termos
de inovação económica e de negócio abrirá a porta a muitos melhoramentos que darão fruto um pouco por todo o mundo em anos
vindouros.

A água tem de ter um preço, se queremos que o seu abastecimento
seja sustentáveL As questões que se põem são: qual deveria ser esse
preço? Como deveria ser determinado? Como pode a sociedade organizar o abastecimento de água para se assegurar de que é acessível a
toda a gente, incluindo os mais pobres? Queremos abordar estas
questões de uma forma muito pragmática, não de uma forma ideológica. E acreditamos que a empresa social pode ser uma patte importante da resposta.
A empresa social e a empresa com fins lucrativos podem ambas
desempenhar um papel essencial e benéfico na satisfação das necessidades de água do mundo. As parcerias entre empresas privadas e
entidades públicas que representam as populações são comuns em
180

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São pessoas e organizações dedicadas ao estudo e à exploração das ideias por detrás da empresa social e à divulgação do conceito ao resto do mundo. Um dos grupos de apoiantes era constituído por líderes de negócios que se sentiam intrigados pelo conceito de empresa social e desejosos de o experimentarem. pormenor e perspectiva ao meu conceito original e abordando muitas das questões e dos desafios que ele suscita. estudantes e empresas e à ligação do domínio das ideias e das visões com o domínio da acção. comecei a receber apoios de muitos quadrantes. Esta localização proporciona-lhe a oportunidade de utilizar os recursos da Grameen para ajudar a estabelecer empresas sociais. e partilharei algumas outras mais adiante neste livro. Agrada-me sobremaneira a rapidez com que a ideia da empresa social penetrou no sector do ensino superior e da investigação. Formam uma espécie de «infra-estrutura intelectual» da empresa social. Estão a ser catalisadores vitais da experimentação da empresa sociaL O Yunus Centre O Yunus Centre foi estabelecido em Agosto de 2008 para servir como âncora a todas as empresas sociais relacionadas com a Grameen e também a muitas instituições de empreendimento social por todo o mundo.CAPÍTULO 7 Criar uma infra-estrutura global para a empresa social Depois de eu ter formulado a ideia da empresa social e de ter começado a intuir o seu potencial para mudar o mundo. No entanto. O Yunus 183 . Já contei as histórias de algumas dessas experiências. o livro foi um sucesso de vendas. Criar Um Mundo sem Pobreza tomou-se um instrumento de grande utilidade para explicar o conceito mais pormenorizadamente. à investigação e à divulgação de ideias sobre a empresa social. Um outro grupo importante de apoiantes é constituído por pessoas do mundo das organizações sem fins lucrativos. O mundo dos negócios acha mais fácil adoptar o conceito devido à respeitabilidade que os estudiosos lhe conferem. Muitas delas acabaram por encarar a empresa social como um novo e importante instrumento para promover a mudança global de uma forma sustentável e multiplicáveL O Dr. das ONG. Estas iniciativas são significativas porque indicam que existe um reconhecimento imediato de um novo conceito aos mais altos níveis académicos.. a atenção que foi concedida ao Banco Grameen e ao rnicrocrédito a nível mundial proporcionou-me uma plataforma que pude usar para explicar o conceito de empresa social a um público muito vasto. entre as quais a Grameen Danone e a Grameen Veolia Water. compreendi que precisava de aliados e de apoios para transformar essa ideia em realidade. Várias instituições criaram já postos académicos e departamentos dedicados ao ensino. para além daqueles a quem poderia chamar «praticantes da empresa social» pessoas e organizações que estão 182 efectivamente a lançar empresas sociais . Por sorte. começa a surgir um grupo importante de pessoas que podem ser descritas como «pensadores da empresa social». das fundações e das organizações de beneficência. já que a maior parte das empresas Grameen está a uma curta viagem de elevador! O Yunus Centre é um centro de processamento de toda a informação e de todos os recursos relativos às ideias e às actividades da empresa sociaL Quase todas as empresas sociais que criámos formularam o seu conceito inicial de empresas no Yunus Centre antes de estabelecerem parcerias com outras organizações Grameen. Lawrence Faulkner e Eugenio La Mesa são um exemplo deste grupo. O centro. acrescentando profundidade. ao estabelecimento de pontes entre professores. À medida que as pessoas um pouco por todo o mundo o iam lendo. Felizmente. dirigido por Lamiya Morshed. está instalado na sede da Grameen em Daca. no Bangladeche.

O GCL é também dirigido por Saskia Bruysten. em 2008. Na brincadeira. incubar as suas próprias empresas sociais. e apoiar a criação de novas empresas sociais por outras entidades. uma ex-consultora do Boston Consulting Group. Reitz estava familiarizado com os problemas da pobreza . O GCL tornou-se gradualmente a «casa das máquinas» para todos os nossos projectos de empresas sociais fora do Bangladeche.passou vários anos em zonas rurais da Índia. Apelida-se de «action tank» (inspirado pela expressão usada pelo empresário social americano Alan Khazei. de publicações e de sites da Internet. com fotografias comoventes da autoria do fotógrafo Roger Richter. dos meios de comunicação social. facilita e apoia as relações entre iniciativas sociais em todo o mundo e promove o espírito do movimento da empresa social através de eventos. para além de observar mais de perto a Grameen. Recentemente. que já se envolveu numa série de empresas. O GCL aceita até três meses de trabalho 185 iJ . The Power ofDignity. Reitz utilizou a viagem para escrever um livro sobre as diversas actividades da Grameen. Organiza também grupos de discussão para explorar novas fronteiras da empresa social. sendo ele próprio economicamente sustentável. Com o seu aspecto físico pouco comum (tem o cabelo comprido e costuma usar um chapéu de aba larga. o fundador da City Year): um centro em_que se combina o tipo de estudo e de análise a que um think tank se dedica com os passos práticos necessários para transformar conceitos em realidades. Reuniu uma equipa altamente qualificada e motivada para ir ao encontro da procura crescente de serviços necessários para criar empresas sociais de nível mundial. uma cadeia de cafés na Alemanha. Demorou quase um ano a tornar-se operacionalmente sustentável. Entre muitos outros contributos. atraía as atenções nas nossas povoações. particularmente sob a forma de joint ventures com grandes empresas. que é uma pessoa encantadora e cheia de energia. Nesta visita. Reitz decidiu converter a sua empresa circ responsibility numa empresa social. Ele apresentou-me uma série de importantes líderes de negócios alemães e a sua criatividade causou-me uma viva impressão. perto de Frankfurt. O GCL foi criado por iniciativa pessoal de Hans Reitz.Centre monitoriza o desenvolvimento dos negócios sociais. roupas desleixadas e sapatos «futuristas»). Com sede na cidade alemã de Wiesbaden. Pouco depois. Comecei por nomear Reitz director criativo do Yunus Centre. 184 Conheci Reitz numa viagem a Berlim em 2007. decidimos criar o Grameen Creative Lab como uma joint venture entre a circ responsibility e o Yunus Centre. ajudou-me a apresentar as características básicas da empresa social sob a forma dos sete princípios que passámos em revista no capítulo 1. O Grameen Creative Lab O Grameen Creative Lab (GCL) tornou-se o motor de desenvolvimento de iniciativas de empresa social. incluindo um empreendimento agro-florestal em Kerala. a equipa de jovens de diversos países e com diversas competências que trabalham no GCL continua a tornar-se melhor e maior. Ao longo dos últimos três anos tornou-se meu amigo e meu conselheiro. o GCL defende a causa da erradicação da pobreza. promove workshops e laboratórios de ideias sobre o conceito e a prática da empresa social e oferece estágios de voluntariado a jovens de todo o mundo que pretendam ter uma experiência prática da empresa social que possam depois aplicar nos seus países de origem. o GCL assume três tarefas principais: prestar informações sobre a empresa social. Ao mesmo tempo. Depois. chama ao nosso trabalho «disseminar o vírus YY» (derivado de «Yunus»). um empresário com aquela combinação de garra para o negócio e sentido de solidariedade que é tão importante para sermos bem-sucedidos na luta contra a pobreza. mas na segunda metade de 2009 conseguiu atingir o ponto de equilíbrio entre receitas e despesas. Reitz é um empresário compulsivo. na Índia. veio visitar-nos ao Bangladeche pela primeira vez e visitámos juntos muitas das empresas da Grameen. uma agência de comunicações criativas (que se chama circ) e um gabinete de consultaria de responsabilidade empresarial (circ responsibility). Como passou também sete anos a estudar a música clássica do Sul da Índia. é um profundo conhecedor da arte e dos estilos de vida da região. Ele estava muito interessado na nossa actividade e colocou imediatamente algumas questões penetrantes. Com a empresa social.

Em termos de interacção e de difusão da ideia de empresa social. todos os apoiantes. incluindo joint ventures com a BASF. por iniciativa do GCL. Durante a segunda metade de 2010. Para difundir o mais possível o conceito de empresa social.l voluntário de estagiários que pretendam adquirir conhecimentos sobre a empresa sociaL Posteriormente. tais como a prestação de serviços de consultaria a grandes empresas. Eu próprio sinto uma grande admiração pelo seu dinamismo. realizar-se-á no centro dessa cidade. a Grameen é um parceiro potencial da joint venture. por exemplo. no seu centro em Autostadt. O GCL organiza também cursos intensivos sobre o conceito e a prática da empresa social para executivos. A data do evento foi marcada para coincidir com o vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim e para amplificar o nosso apelo à demolição do «próximo muro a cair» . na qual professores. estudantes. professo186 res e outras pessoas interessadas. Os custos da gestão do GCL são cobertos por actividades geradoras de rendimento. parceiros e amigos da empresa social se reuniram. empresas interessadas em criar empresas sociais e todas as pessoas interessadas serão bem-vindos. se forem capazes de identificar ou desenvolver projectos que permitam ao GCL expandir-se e contratá-los como colaboradores normais. onde. A presidente da Câmara de Milão. Inicialmente. workshops nos quais as pessoas interessadas na empresa social têm a oportunidade de se encontrar para partilharem as suas ideias e experiências. o GCL já fez enormes progressos. Nas três áreas que escolheu. a Volkswagen será anfitriã da cimeira. Está a auxiliar-nos na nossa colaboração com a Unicredit para criar a Grameen Italia e dará destaque à empresa social na Expo 2015 em Milão. Em 2011. não foi fácil encontrar uma forma de rentabilizar os serviços de consultaria. o GCL cria também eventos de grandes dimensões com o forte apoio da equipa de gestão de eventos da circ. como praticamente todas as coisas que valem a pena. estudantes. podem tornar-se efectivos na empresa. com a empresa de comércio Otto e com a empresa de artigos desportivos Adidas. activistas sociais.realizar-se-á também um evento a grande escala. Em 2010. fundações. O GCL reúne muita da experiência e dos conhecimentos de empresas sociais já existentes. para celebrar as realizações da empresa social. o GCL organizou o primeiro Encontro Global da Grameen em Wolfsburg. empresários. Muitas vezes. a governos. Organiza Creative Labs regularmente em diversos países. ao longo do tempo. Apoiado pela cidade de Milão.e que. (Fornecerei mais informações sobre estes projectos no capítulo seguinte. apresentando o conceito de empresa social a uma parte substancial do mundo que está ainda pouco familiarizada com ele. Estes workshops são muito inspiradores e formativos para todos os participantes. o GCL funciona a vários níveis.nomeadamente os que se concretizam no Bangladeche . A partir desta data haverá uma Cimeira da Empresa Social todos os anos em Novembro. pela primeira vez.o primeiro Dia da Empresa Social anual. Contudo. Em 1 O de Julho de 201 O . será promovida uma série de workshops em países da Europa de Leste. estes serviços especializados têm de ser pagos para poderem continuar disponíveis para futuros beneficiários. a fundações e a outras instituições ou indivíduos que pretendam criar negócios sociais e a organização de seminários e de outros eventos em que os participantes paguem para assistir. na Alemanha.) Nalguns projectos. não compreendiam porque é que haviam de pagar a uma organização da Grameen pelos seus conselhos e pela sua orientação. onde se espera que cerca de 20 000 pessoas se juntem para desfrutar da música e do espectáculo da cerimónia de abertura do evento. o GCL conseguiu convencer uma série de empresas de que faz sentido aproveitar os seus serviços especializados . Em Novembro de 2009. As empresas interessadas em montar uma empresa social encaravam o seu investimento no projecto como um acto de generosidade que a Grameen deveria apreciar e partiam do princípio de que ela tinha a obrigação de avançar prontamente com todas as soluções para os seus problemas sem cobrar pelos seus serviços. Letizia Moratti. A principal realização do GCL até este momento tem sido o apoio a novas iniciativas de empresa social de grandes dimensões. a cimeira realizar-se-á em Paris e o seu anfitrião será o Crédit Agricole. tornou-se uma importante aliada da empresa social. investidores. faculta apoio profissional ao processo e proporciona impulsos criativos cruciais para o desenvolvimento de ideias de empresas sociais. 187 . funcionários governamentais..o muro da pobreza. na Alemanha.

por exemplo. e tive o apoio dos meus alunos. O meu trabalho na criação do Banco Grameen processou-se num contexto universitário. que entrara em funcionamento oficialmente na Primavera de 2010. expandindo os seus conhecimentos sobre a empresa social e o seu envolvimento nela. É também uma cidade com problemas sociais e económicos significativos. a plantar pomares por todo o mundo. em tempos. O laboratório de ideias. dos serviços sociais. que não tardarão a ficar carregados de frutos deliciosos. as dos chamados estados Rust Belt do Upper Midwest americano). do governo. na Escócia. várias universidades por. que. Estes problemas económicos tiveram um impacto social significativo . Não pude deslocar-me à Escócia para receber essa distinção na altura.com. então os colaboradores do GCL são outros tantos hortelãos. o GCL transfere os conhecimentos da Grameen para novas empresas sociais independentes da Grameen. da engenharia. de idealismo e de curiosidade. em Novembro de 2008. cujo endereço electrónico é www. resultando num grupo de iniciativas que ilustram o modo como uma universidade pode contribuir para disseminar e desenvolver uma nova abordagem dos problemas da sociedade. difundindo o conceito para ajudar a erradicar a pobreza e a resolver os outros problemas económicos e sociais que vemos à nossa volta. Frequentemente descrita como «pós-industrial>>. muitos dos quais acabaram por construir as suas carreiras no Banco Grameen.noutros casos. Uma empresa social pode ser criada por qualquer pessoa em qualquer parte. das t~cnologias de informação. organizações de beneficência. Em primeiro lugar. Actualmente. todo o mundo estão a assumir o papel de catalisadoras e de intermediárias na fase seguinte da empresa social. Glasgow sofre as consequências do êxodo de muitas empresas.grameencl. enquanto noutras zonas ronda os cinquenta. a universidade decidiu criar o Grameen Caledonian Creative Lab. sediado no seu Institute of Health and Wellbeing [Instituto de Saúde e Bem-Estar}. Glasgow regista algumas das maiores disparidades da Europa em termos de saúde. Pamela Gillies. Finalmente. São centros onde se localizam enormes reservatórios de conhecimentos especializados professores e investigadores competentes que estudam e participam em praticamente todas as áreas imagináveis. quando eu era professor de Eco188 nomia na Universidade de Chittagong.na área da saúde. fui receber o grau honorário e proferir uma palestra pública. albergará o novo Yunus Centre for Social Business and Health [Cen189 . muitos deles ansiosos por explorarem novos conceitos na esperança de provocarem um impacto substancial no mundo que em breve herdarão. fundações e grupos de cidadãos. tal como muitas cidades (por exemplo.) Se uma empresa social bem-sucedida é como uma semente. A vice-reitora. não se poupou a esforços para rentabilizar a minha visita à universidade. E as universidades são instituições cívicas não partidárias muito respeitadas. proporcionavam um modo de ganhar a vida a milhares de famílias. inclui uma página da comunidade onde as pessoas interessadas podem contactar-se. O Yunus Centre e o Grameen Creative Lab prestarão apoio a quem pretenda criar uma empresa social. Um exemplo interessante das várias formas como as instituições académicas estão a promover esta causa é o da Glasgow Caledonian U niversity. Apercebi-me destes problemas depois de ser convidado pela Glasgow Caledonian University para receber um grau honorário. Os estudantes são um outro recurso valioso jovens cheios de energia. Centros universitários para explorar e apoiar empresas sociais As universidades podem desempenhar um importante papel no desenvolvimento do futuro da empresa social. etc. E. Glasgow é uma cidade histórica com uma população altamente diversificada. desde os negócios e a economia às áreas da saúde. empresas com fins lucrativos. Seguiram-se vários encontros e várias conversas frutuosas. o que lhes confere a capacidade de estabelecer ligações frutuosas entre muitos tipos de organizações: agências governamentais. Há zonas da cidade onde a esperança de vida dos homens é superior a oitenta anos. (0 site do GCL. cheia de potencial de crescimento. está a debater-se para encontrar novas oportunidades de emprego para a sua população em indústrias do século XXI.

o Dr. Inicialmente. os investigadores examinarão questões como: o estado de saúde das famílias dos contraentes de empréstimos melhorou ao longo do tempo? Sofrem de menos incapacidades. Donaldson é um professor universitário respeitado. constituirá um forte argumento 190 para incluir o microcrédito.rro Yunus para a Empresa Social e a Saúde}. sobre os efeitos sociais e económicos do microcrédito. anteriormente directora da escola de enfermagem da universidade. às suas famílias e às suas povoações. A Riqueza das Nações. com um primeiro grupo de quase quarenta alunas. a Grameen e a universidade colaborarão na criação de um programa adequado às necessidades e à cultura locais. conduzido por investigadores da universidade (e talvez de outras instituições em Glasgow e noutras partes da Escócia). Logo que se formem terão um lugar garantido na Grameen Cuidados de Saúde. Assim. com um salário mensal de 15 000 takas (cerca de 215 dólares). a Grameen Cuidados de Saúde ajudá-las-á a encontrar uma colocação no estrangeiro e o Banco Grameen conceder-lhes-á empréstimos para subsidiar a sua instalação noutro país. Usando a zona degradada de Sight Hill como laboratório. Se pretenderem trabalhar fora do país. Será especialmente salientado o seu impacto sobre a saúde.é economista e dirigiu um instituto de estudos de saúde e da sociedade na escola de estudos empresariais da Universidade de Newcastle. Se for esse o caso. em Inglaterra. com antecedentes pouco comuns e muito apropriados . O que é excitante é que este novo programa Grameen será objecto de um estudo pormenorizado a longo prazo. Latifee. A Dra. regiões e municípios. dirigido por Cam Donaldson. Em segundo lugar. para conceder empréstimos que permitam às pessoas estabelecerem-se por conta própria. Finalmente. 191 . doenças crónicas e doenças graves? Verifica-se algum impacto sobre a esperança de vida? As taxas de mortalidade infantil e de doenças infantis graves foram afectadas? Qual é o resultado dos indicadores de saúde mental? Temos a esperança de que este estudo. o primeiro do seu tipo. já visitou Glasgow e está a preparar uma série de planos pormenorizados para o lançamento deste programa de microcrédito em 2010. Barbara Parfitt. especialmente entre jovens desempregados. a universidade convidou o Banco Grameen para colaborar no lançamento de uma organização de microcrédito que se chamará Grameen Scotland. poderá reunir perspectivas de todas estas áreas. transformando-se a si próprias. demonstre uma forte ligação entre a saúde pública e o acesso ao microcrédito.e talvez a empresa social em geralna lista dos instrumentos a serem usados por governos e organizações sociais que estejam a tentar melhorar as perspectivas de desenvolvimento de países.saúde. Esta abriu em 1 de Março de 2010. H. economia e negóciosno desenvolvimento. I. Um dos grandes desafios do programa será atrair famílias desempregadas há três gerações para actividades empresariais apoiadas pelo programa de crédito. Talvez esta mesma cidade venha agora a desempenhar um papel central no avanço para um novo estádio de desenvolvimento do sistema capitalista. teria compreendido e apoiado.um estádio que acredito que Smith. Estas condições tornarão uma carreira na enfermagem mais atraente para as jovens das famílias da Grameen. na implementação e no ensaio de novas ideias de empresa social. O director-geral executivo do Fundo Grameen. que dará formação a raparigas das famílias das contraentes de empréstimos do Banco Grameen para se tornarem enfermeiras de nível mundial. Todas têm empréstimos do Banco Grameen para cobrir as suas despesas durante o período de estudo. que ocupará uma cátedra com o meu nome. Em vez de terem uma vida rotineira nas suas povoações. a Glasgow Caledonian University associa-se também à Grameen num projecto de empresa social destinado a melhorar os cuidados de saúde no Bangladeche. com a sua profunda preocupação pelo bem-estar da sociedade e a sua confiança no poder da empatia entre seres humanos para produzir comportamentos morais. Barbara Parfitt aceitou o cargo de directora da escola. a Dra. ao longo de um período de dez anos. podem tornar-se profissionais de saúde respeitadas e trabalhar tanto no país como no estrangeiro. a cidade onde Adam Smith ensinou «filosofia moral» e escreveu a sua obra sobre mercados livres que marcou uma época. veio ao Bangladeche com o objectivo de passar cerca de um ano a preparar o lançamento da Grameen Caledonian N ursing College [Escola de Enfermagem}. que é um salário muito atraente para um recém-licenciado. No início de 2010. É notável que este estudo pioneiro vá realizar-se em Glasgow.

partilha o meu entusiasmo.» Este programa é apenas um dos vários projectos concentrados na empresa social em vários locais por todo o mundo. Do outro lado do Pacífico. Richard R. corno forma de facilitar a reflexão e o planeamento criativos que conduzam a soluções sustentáveis para problemas sociais. que o considera uma parte muito importante da sua nova universidade. O instituto foi finalmente inaugurado em Fevereiro de 2010 com uma série de actividades. o instituto está a explorar o desenvolvimento do currículo. Um Portal} um programa experimental de utilização de sistemas de informação de alta tecnologia para coligir e organizar todo o tipo de informações sociais. o Dr. Foi criado através dos esforços determinados do reitor da universidade. Masaharu Okada. As novas tecnologias serão propriedade conjunta das empresas associadas e das empresas da Grameen e. tanto para os cursos de bacharelato e de licenciatura como para a Martin V. realizou-se uma grandiosa cerimónia de abertura do instituto. Em parceria com várias empresas japonesas. em Fukuoka.loraria ver concursos semelhantes a tornarem-se um acontecimento regular em escolas de estudos empresariais de universidades por todo o mundo. Entre eles: • One Village. Sob a direcção do Dr. Vários projectos estão já em curso na Universidade de Kyushu. o que significou que os 4100 alunos e as centenas de docentes partilharam a experiência de ler e debater o livro. • Um sistema E-Passbook [E-Caderneta} que possa ser usado pelas clientes do Banco Grarneen para gerirem as suas poupanças. diz. Smith School of Business and Economics da universidade. os empréstimos contraídos e outros serviços financeiros. O novo California Institute of Social Business está sediado no campus das Channel Islands da California State University. ~<tem o potencial de produzir percepções e abordagens que podem vir a ser significativas não só para Glasgow e para a Escócia mas também para toda a Europa. o povo do Bangladeche e o povo da Escócia estão prestes a envolver-se numa parceria multifacetada e biunívoca para benefício de ambos. Hilton. O pró-vice-reitor da universidade. agrícolas e culturais sobre urna localidade específica do Bangladeche. a que assistiram cerca de 1500 dignitários locais e outras individualidades. Rush. incluindo uma série de palestras sobre microfinança e o desenvolvimento de currículos ambiciosos centrados na empresa social. Em seguida. a analisar conceitos e oportunidades de investigação na área da empresa social e a estudar a possibilidade de lançar um empreen- 192 dimento para apoiar empresas sociais que se encontrem na sua fase inicial. Para o sexto projecto anual de Campus Reading Celebration [Celebração . a Universidade de Kyushu. realizando-se o primeiro já em Setembro de 2010. com o tempo. serão fornecidas sob licença a empresas sociais por todo o mundo. educacionais. um advogado especializado em questões de propriedade intelectual e de empreendedorismo na área da alta tecnologia. Mike Smith. o director-geral executivo e presidente da Conrad N. em seguida. Actualmente. económicas. Criar Um Mundo sem Pobreza foi o livro escolhido. no Japão. com a universidade a contribuir com a liderança intelectual e a investigação que validam os benefícios a serem produzidos. parece claro que o California Institute of Social Business se prepara para se transformar num centro importante para a inovação no domínio da empresa social nos próximos anos.da Leitura no Campus}. 193 . o laboratório identificará e desenvolverá utilizações de tecnologia para solucionar_ alguns dos problemas sociais que são visados pela família de empresas da Grameen. Eu a<. • E-Health [E-Saúde} e E-Agriculture [E-Agricultura} projectos de gestão de fichas de saúde e informação agrícola que tornem os dados imediatamente acessíveis aos indivíduos e às instituições que os servem. Com tanta energia a impulsioná-lo. criou um Grameen Technology Lab. que é um fllantropo muito conhecido. Talvez o mais interessante seja o facto de estar a desenvolver um concurso anual para planos de empresas sociais. expandiremos a nossa parceria de modo a incluir outras formas de empresa social. está a ser desenvolvido um programa de empresa social igualmente interessante. assim como muitos alunos e professores. Hilton Foundation. através da Glasgow Caledonian University. One Portal [Urna Localidade. A cerimónia incluiu a entrega da primeira medalha Yunus Social Innovation a Steven M. Acredito que. «0 nosso projecto com a Grameen».Como se pode constatar. O terreno foi sendo preparado ao longo de quase um ano de planeamento intensivo.

a prestigiada escola internacional de estudos empresariais com sede em Paris. criou uma cátedra de empresa social. Os alunos deveriam poder obter um MBA com uma especialização em empresas sociais. Contamos atrair a este programa vários tipos de candidatos pouco habituais. Um outro programa universitário centrado na empresa social é o Yunus Center no Asian Institute ofTechnology (AIT). com um currículo ambicioso sobre a empresa social e a redução da pobreza.solar. será importante criar uma série de fundos de investimento dedicados ao apoio às empresas sociais. «Empresas e pobreza nos países desenvolvidos» e «Financiar a empresa social». Prevejo que as primeiras universidades a acrescentarem esta componente ao seu currículo atraiam muitos dos alunos mais dotados e mais idealistas. 195 . o Yunus Center no AIT ministrará regularmente cursos de curta duração sobre a empresa social. financiar e implementar com êxito uni projecto de empresa social numa comunidade à sua escolha. Tenho a esperança de que nos próximos anos a empresa social se torne uma parte integrante do currículo de todos os institutos. oficiais do Exército. armazenar. o microcrédito. funcionários governamentais e outras pessoas que tragam uma experiência de vida valiosa ao contexto académico. na Europa e na América do Norte estarem envolvidas no desenvolvimento de concepções da empresa social não pode deixar de contribuir para acelerar a disseminação da empresa social em todas as partes do mundo. Sinto entusiasmo ao ver a forma como o conceito de empresa social tem sido acolhido por alguns dos principais pensadores mundiais. Frédéric Dalsace. para que os capitais de investimento possam ser canalizados para os empreendimentos mais promissores. inclui módulos interessantes. planear. universidades e escolas de gestão do mundo. Analisarão e avaliarão empresas sociais na sua fase inicial. Para obter esse título. cuidados de saúde para os pobres. um estudioso de renome. O curso de cem horas. a HEC. ensaiando novas formas de produzir. os estudantes terão de desenvolver. marketing ou empreendedorismo. transmitir e utilizar fontes sustentáveis de energia . todas as universidades do mundo quererão seguir-lhes o exemplo. Finalmente. Fundos de investimento social Para apoiar o crescimento da empresa social. eólica. uma distinção atribuída a um grupo exclusivo de estudantes altamente qualificados provenientes de uma série de áreas de conhecimento. os candidatos serão mais do que estudantes serão praticantes efectivos da empresa social. que está a empreender iniciativas para compreender e ajudar a resolver os problemas da pobreza através de várias formas de empresa sociaL Inaugurado em Agosto de 2009. etc As soluções concebidas pelos estudantes e pelos seus professores na Universidade de Kyushu serão aplicadas inicialmente no Bangladeche e em seguida adaptadas para serem utilizadas noutros países em vias de desenvolvimento. O facto de universidades na Ásia. Em breve. «Novos modelos empresariais na base da pirâmide». biogás. O primeiro titular desta cátedra é o Dr. com realizações concretas que beneficiem os pobres. anunciada pelo presidente Sarkozy em Abril de 2008. incluindo donas de casa. por exemplo. Esses fundos facultarão vários serviços. questões ambientais e de igualdade de géneros e outros tópicos de importância para o desenvolvimento económico. assim como podem já especializar-se em finanças. como. O comité é dirigido por mim e por Martin Hirsch. medindo a sua eficácia no cumprimento de objectivos sociais e a sua eficiência do ponto de vista financeiro e de gestão. o alto-comissário para o alívio da pobreza do governo de Sarkozy. A faculdade associada a este programa começou já a cooperar com várias empresas em projectos de empresas sociais. Dizem que não ficarão satisfeitos até terem provas de que as actividades do aaion tank da HEC contribuem para uma diminuição mensurável da pobreza em França. Assim.• Experiências de fontes alternativas de energia. em Banguecoque. Serão uma espécie de câmara de compensação. O Yunus Center no AIT promoverá ainda um programa educativo especial para conferir o título de Yunus Fellow of Social Business. Onze professores universitários de uma série de disciplinas dedi- 194 cam parte do seu tempo a este programa.

desde bens e serviços de consumo até serviços empresariais. sob os auspícios do príncipe Alberto. O Fundo da Comunidades Danone tornou-se rapidamente bastante popular e. assim como fontes de informação que se concentrem em notícias e análise da empresa sociaL 197 I !! . incluindo os seus funcionários. fixado em cerca de cem milhões de dólares. Os fundos de investimento vocacionados para a empresa social continuarão a multiplicar-se. assim como os fornecedores de serviços e de produtos de apoio a este universo em expansão . ao lado do universo familiar das empresas com fins lucrativos. de abastecimento e de contratação externa. A solução seria uma taxa anual de gestão que o fundo teria autorização para cobrar às empresas que recebam capitaL As condições desta taxa teriam de ser negociadas como parte do acordo entre o fundo e cada empresa sociaL É importante que esta taxa seja mantida a um nível moderado (cerca de 1 por cento. O fundo inicial será. depreciação e amortizações) definem o sucesso financeiro de empresas com fins lucrativos. E providenciarão também um veículo para uma diversificação instantânea do investimento em empresas sociais: ao passar um só cheque a um fundo de investimento social. seria possível apoiar dezenas ou mesmo centenas de negócios sociais que obtêm capital desse fundo. na Arábia Saudita. provavelmente. com o influxo de capitais de accionistas entusiásticos da Danone. e desde o mundo das finanças e das actividades bancárias até às tecnologias de informação e à indústria pesada.processando informações e ideias. o fundo investiu mais de 50 milhões de euros na criação da Grameen Crédit Agricole Microfinance Foundation. Tornarão mais fácil a potenciais investidores em empresas sociais identificarem as empresas em que vale a pena investir. É caucionado e gerido pelo Crédit Agricole. e reservou uma parte dos seus fundos para o investimento em empresas sociais. Um deles está a ser desenvolvido no principado do Mónaco. Esta fundação está a fornecer serviços de financiamento e outros em países em vias de desenvolvimento 196 por todo o mundo. há uma componente de fundo de empresa social no Fundo da Comunidades Danone. Para além de gerir o Fundo da Comunidades Danone.de identificar outras empresas sociais que sejam potenciais recipientes de financiamento. Um outro fundo está a ser planeado na Alemanha. O passo seguinte - uma bolsa de valores sociais Nos próximos anos. formando gradualmente um mundo paralelo. com os seus responsáveis a tornarem-se rapidamente especialistas de nível mundial das soluções que resultam na área da empresa sociaL Contribuirão para criar um vocabulário e um grupo de instrumentos de medição para definir o sucesso na empresa social. dada a condicionante de os investimentos em empresas sociais não poderem produzir dividendos para os investidores. o Mali.e a necessidade. Como já mencionei. a empresa social continuará a crescer.por exemplo. em Jeddah. empresas de gestão de investimentos que se especializem em empresas sociais. o governante hereditário. anunciou planos para lançar a IDB Grameen Social Business Initiative. criou-se a oportunidade. será uma joint venture entre o Yunus Centre e a Monaco Venture Capital and Private Equity Association. que foi lançado na Primavera de 2007 primariamente como um veículo para permitir aos accionistas da Danone. do mesmo modo que instrumentos consensuais como o ROI (retorno sobre o investimento) e o EBITDA resultados antes de juros. E o Islamic Development Bank (IDB). Surgirão empresas sociais em todos os países onde existe liberdade de iniciativa empresarial e operarão em quase todos os mercados e áreas de negócios. o maior banco comercial da França e o segundo maior da Europa. incluindo a Etiópia. com um investimento inicial de mais de dez milhões de dólares. Vários outros fundos de empresas sociais estão já em preparação. o Kampuchea (anteriormente Camboja) e o Kosovo. por exemplo) e poderiam verificar-se situações em que os fundos isentassem determinada empresa dessa taxa até que ela atingisse~ balanço positivo. Algumas pessoas têm levantado a questão de como os fundos de empresas sociais custeariam as suas próprias despesas. aplicar uma parte do seu capital de investimento pessoal no apoio à Grameen Danone. Dando pelo nome de Yunus Monaco Fund. impostos.

então. será importante definir claramente o conceito de empresa social para determinar quais as empresas habilitadas a participar na bolsa de valores sociais. orgulho social. existe sempre a opção de simplesmente fazer um donativo para uma causa meritória. de investimento recuperável. quantidades diferentes de acções serão vendidas. A preços diferentes.Parece inevitável que acabe por surgir uma bolsa de valores paralela. incluindo as seguintes: para recuperar o seu investimento antes de a empresa ter condições para proceder ao reembolso. Como observei nesse livro. quem vende procurará obter o melhor preço possível pelas suas acções. E. talvez assinaladas por uma designação especial que indique o seu estatuto de investimento não recuperável. Por outro lado. o comprador de uma determinada acção teria as suas próprias razões para efectuar essa aquisição. por analogia com as obrigações quando estas atingem a maturidade. Porque é que.:ra empresa social ou num fundo de empresa social. não conta receber qualquer dividendo da empresa. No entanto. haverá dois tipos diferentes de acções transaccionadas na bolsa de valores sociais: acções em que o capital investido já foi reembolsado e acções em que ainda não tenha sido pago. Esta é uma das razões por que precisamos de uma bolsa de valores sociais. escolhendo acções de classe B. Os preços das acções na bolsa de valores sociais reflectirá o consenso dos investidores sociais quanto ao valor a longo prazo da exnpresa cuja propriedade representam. o mercado determinará o preço de ambos os tipos de acções e cada categoria terá a sua própria curva de procura e de oferta.acções de classe B. Quando um investidor compra uma acção «madura» de uma empresa social. de investimento não recuperável. por seu turno. por exemplo. o detentor de uma acção não deve aceitar qualquer ganho pessoaL Assim. dedicada a angariar capital de investimento em empresas sociais e a facilitar a compra e venda de acções de empresas sociais. ela facilitará a determinação do preço de mercado das acções numa dada transacção. ou acções convencionais.vez em Criar Um Mundo sem Pobreza. O doador/investidor poderá vender estas acções na bolsa e investir o capital obtido na mesma empresa de empresa social ou numa outra. como. Sob outros aspectos. este ofereceria um preço relativamente elevado ou relativamente baixo. uma acção que ainda não tenha atingido a maturidade apresentará a expectativa de reembolso. Como em qualquer mercado. Evidentemente. afectari o seu valor. se a empresa estiver disposta a aceitar esse donativo como «invesrimento não recuperável». para investir num fundo de empresa social. o vendedor será obrigado a investir essa quantia nout. Na minha perspectiva. que. ou para criar o seu próprio fundo particular de empresa social para um futuro investimento em empresas sociais. o que. Essa pessoa poderia também especular em empresas sociais. visto que é esse o objectivo primário que buscam os investidores sociais. O doador/investidor terá direito a acções da empresa. mas antes em termos do benefício social produzido. para angariar o capital necessário para comprar acções noutra empresa social. investindo em acções que aparentem ter boas hipóteses de aumentar de valor. não empresas com fins lucrativos ou empresas de lucro limitado que aleguem ser empresas sociais. O benefício dererminante seria a possibilidade de vender essas acções posteriormente e receber uma quantia mais elevada. o preço de mercado da acção será decidido no dia da transacção com base na procura e na oferta desse dia específico. Um 199 . evidentemente. alguém quereria vender as suas acções de uma determinada empresa social? Há várias razões possíveis. Apresentei esta ideia pela primeira. Contudo. Os investidores têm de ter a garantia de que as empresas listadas na bolsa de valores sociais são realmente empresas sociais. tantas mais acções serão oferecidas. uma ligação sentimental e o desejo de ter voz na gestão da empresa. poderia ser investida nalguma outra empresa sociaL Dependendo da urgência do investidor. 198 De acordo com o princípio da empresa social. por exemplo. ou a comprar uma obrigação de empresa social. porque a quantia originalmente investida foi integralmente reembolsada. se da venda de uma acção resultar uma quantia superior à investida. As acções cujo capital já foi parcialmente reembolsado terão as suas próprias calendarizações de oferta e de procura. Quanto mais elevado for o preço. esse valor não será medido em termos de expectativas de lucro. Poderíamos chamar à primeira categoria de acções «maduras». como em qualquer mercado que funcione bem.

os jovens poderiam não só ver o problema ultrapassado da pobreza de outras eras mas também a história por detrás do mecanismo que desempenhou um papel central na sua abolição. as cotações das acções em permanente mudança poderiam passar em ecrãs electrónicos suspensos. Ao mesmo tempo. Como accionista. a existência da bolsa de valores sociais proporciona indicações valiosas. tanto às empresas sociais como aos seus investidores.a empresa social. o preço das suas acções subirá. e numa sala nas imediações poderia estar exposta uma série de peças que contassem a história da empresa social. é provável que não haja necessidade de a bolsa de valores sociais ter uma localização física. nas quais investidores. Sempre que um investidor compra uma acção de uma empresa social estará a contribuir para que o seu preço suba. o investidor não deu «de mão beijada» o seu dinheiro. Será antes um mercado virtual de valores no qual todas as transacções se processarão electronicamente. Por fim.investidor poderia ainda optar por doar as suas acções a um fundo para empresas sociais (tornando o fundo proprietário dessas acções) ou até a uma organização de beneficência ou fundação escolhida por SL O preço de uma acção de uma empresa social reflectirá a eficácia reconhecida da empresa. Numa só visita. Tenho a esperança de que em breve a bolsa de valores sociais seja uma realidade. cuja existência já previ muitas vezes. Os especuladores que pretendam gerar mais capital para o seu próximo empreendimento pôr-se-ão em campo. A consequência é que a empresa pode facilmente expandir o seu negócio angariando mais capital. Os visitantes poderiam assistir da galeria à compra e venda de acções por especialistas de empresas sociais nos ecrãs dos computadores. corretores e especuladores pudessem operar e que turistas e estudantes pudessem visitar. O número de empresas sociais que emitem acções transaccionáveis terá de aumentar significativamente para que se faça sentir a necessidade de um mercado formal onde essas transacções se possam processar. Nas condições existentes no século XXI. à semelhança do que se passa actualmente com a bolsa NASDAQ. Assim. 201 . Por consequência. detém uma quota da empresa e está sempre em aberto a possibilidade de voltar a vender as suas acções se não apreciar o desempenho da empresa ou se aparecer no mercado uma empresa mais interessante do ponto de vista social. Se a empresa social demonstrar a capacidade de causar um impacto social positivo. o orgulho dos investidores na sua empresa aumentará e as acções terão muita procura no mercado. quanto à eficácia reconhecida das empresas na prossecução dos seus objectivos sociais in~icações que não existem no universo actual das organizações sem fins lucrativos e de beneficência. A empresa terá as condições necessárias para expandir o seu negócio e os incentivos para a criação de novas empresas na mesma área aumentarão. talvez houvesse vantagens do ponto de vista das relações públicas em criar uma ou mais delegações da bolsa de valores sociais. poderia ficar instalado num edifício adjacente. ao indicar à empresa que o trabalho desta está a ser apreciado pelo público. 200 Por outro lado. o museu da pobreza.

Quando adquirimos essas patentes. actualmente. think tanks. aos proprietários da BASE Sei que isto é verdade porque me foi explicado pelo director-geral executivo da BASE Numa das nossas primeiras conversas sobre o conceito de empresa social. organizações sem fins lucrativos. É detentora de centenas de patentes de produtos químicos.tecnologias essas que poderiam revolucionar a vida dos pobres. quando acabar de o escrever. têm por base patentes que estão em uso comercial activo. o mundo dos negócios dispõe de um incrível arsenal de po. Se puder usá-las para criar empresas sociais que ajudem os pobres. Jürgen Hambrecht disse-me: «Na BASF temos milhares de patentes. como em muitos outros países em vias de desenvolvimento. universidades. essa informação estaria já desactualizada. No outro negócio. muitas delas não têm praticamente nenhuma utilidade para nós. No entanto. construção civil e agricultura à produção de petróleo e de gás. Uma delas consiste em fabricar e vender no Bangladeche mosquiteiros com um repelente químico. restringi-me a alguns dos projectos mais excitantes que começam a ganhar: forma e tentei utilizá-los para ilustrar lições importantes sobre a natureza e o potencial da empresa sociaL Espero que os leitores tenham achado estas histórias instrutivas e inspiradoras. A necessidade dos mosquiteiros no Bangladeche. Um desses casos é o da BASF.» A Grameen e a BASF estão actualmente a colaborar em dois projectos de empresa sociaL Ambas as empresas. teremos todo o prazer em ceder-lhas. Indivíduos. o Dr. Nos dois anos desde que o conceito foi tornado público. Descreverei também alguns vislumbres do futuro da empresa social através de histórias seleccionadas de indivíduos. profundamente envolvida em indústrias que vão dos plásticos. grupos económicos. produzimos e comercializamos pequenas saquetas contendo os micronutrientes necessários para melhorar a saúde das crianças do Bangladeche. E nem todas essas patentes estão actualmente a criar riqueza para os accionistas da BASE Algumas das patentes da BASF que não estão a ser utilizadas representam uma oportunidade incrível para a empresa proporcionar benefícios que podem salvar a vida a milhões de pessoas desfavorecidas em todo o mundo e fazê-lo de uma forma que não custará nada. de empresas e até de organismos governamentais que estão a criar as empresas sociais interessantes do futuro. por acaso. cada uma delas tinha o potencial de criar um negócio interessante. incluirei de forma abreviada alguns exemplos adicionais para ilustrar a variedade de iniciativas que estão a surgir por todo o mundo. No espaço deste livro. por várias razões. o mundo da empresa social é um mundo cheio de vida. está relacionada com um problema de saúde de importância vitaL A malária e outras doenças 203 . 202 Como tenho salientado ao longo deste livro. não me é possível abordar todas as iniciativas actualmente em curso ou em fase de concepção e. recorrendo a uma tecnologia patenteada da BASF para produzir esses mosquiteiros.tentes tecnologias . uma empresa alemã que é uma das maiores empresas químicas do mundo.Tecnologia e empresa social: a história da BASF Grameen CAPÍTULO 8 Vislumbres do futuro Mais empresas sociais estão na forja Como vimos. Neste capítulo. processos industriais e outras técnicas de grande valor. fundações. tal como muitas outras empresas industriais. atraiu já interesse concreto de centenas de direcções. ou quase nada. Por esta razão. agências governamentais e outras organizações de todos os continentes têm-me contactado e a outras pessoas da família de empresas da Grameen para se informarem sobre a empresa social e perguntarem como podem dar o seu contributo.

a produção das saquetas será transferida para o nosso país. Soluções digitais para os pobres do mundo: os projectos da Grameen Intel Uma outra importante empresa com uma enorme quantidade de incríveis tecnologias ao seu dispor é a InteL Quando. As vendedoras que necessitem de capital para iniciar a sua actividade poderão recorrer a microempréstimos do Banco Grameen. enquanto a venda de saquetas ultrapassará os dez milhões de unidades por ano. Em 2013. que serão ambas organizadas sob a designação de BASF Grameen Ltd.) Como seria de esperar de um grupo económico global de grande sucesso. Este proporciona protecção mesmo após vinte lavagens. na África e na América Latina não têm acesso a esta solução simples. 50.. a BASF Grameen começará a produzir os mosquiteiros durante o ano de 2010. que transmitem sangue infectado de indivíduo para indivíduo. Assim. um produto de acabamento têxtil com características únicas. (Quando desenvolvemos empresas sociais. Craig Barrett. É aqui que entram às patentes da BASE Com a marca Interceptor. Deverá conseguir equilibrar as contas em 2011 e o reembolso do capital inicial de investimento à BASF começará em 2015. a BASF é um dos principais fabricantes de suplementos vitamínicos necessários para a saúde. dependendo das condições em que são usados. O Fendona é libertado lentamente e mata rapidamente ou repele os mosquitos que entrem em contacto com o mosquiteiro. as vendas anuais de mosquiteiros Interceptor deverão ultrapassar as 200 000 unidades. a serem enviados dos seus fabricantes na Tailândia para distribuidores no Bangladeche.' fatais são transmitidas predominantemente através da picada dos mosquitos. Descrevi anterior~ente os sérios problemas de subnutrição de que sofrem milhões de pessoas no Bangladeche.275 milhões de casos da doença. Na área da nutrição. os mosquiteiros da empresa utilizam o Fendozin. expressou interesse em lançar uma empresa social 205 . Essa característica significa que os mosquiteiros têm um prazo de utilização de três ou quatro anos. incluindo as já nossas conhecidas «senhoras da Grameen» e as suas filhas crescidas. especialmente mulheres.e é exactamente isso que estamos a fazer. o então director da Intel. a drenagem de pântanos. É óbvio que estes suplementos poderiam ser úteis na abordagem deste desafio e planeamos lançar uma campanha de informação no Bangladeche sobre os seus benefícios. As saquetas que a BASF produz destinam-se a serem incorporadas na alimentação normal uma a três vezes por semana. o expediente mais directo de fornecer coberturas à prova de insectos nos locais onde as pessoas dormem pode reduzir drasticamente a incidência destas doenças. Está previsto nos planos actuais que a BASF providencie o capital inicial para estas duas empresas. especialmente para a saúde das crianças. especialmente as mulheres. este projecto criará também oportunidades de negócio para os habitantes das zonas rurais do Bangladeche. numa camada especial. para além de proporcionar benefícios para a saúde aos utilizadores dos mosquiteiros. a BASF desenvolveu um plano de negócios pormenorizado e exaustivo para esta joint venture. às fibras do mosquiteiro. De acordo com estimativas actuais. que fixa o insecticida Fendona. Logo que seja construída uma unidade de produção no Bangladeche.6 milhões de pessoas no Bangladeche correm o risco de contrair a malária e só em 2008 registaram-se 1. No entanto. estamos constantemente à procura deste tipo de oportunidade dupla. O fornecimento inicial de saquetas de micronutrientes será produzido em fábricas da BASF no Sudeste asiático. de lagos abandonados e de outras fontes de água estagnada que fomentam a reprodução dos mosquitos é um objectivo importante. 204 uma joint venture entre a BASF e a Grameen Cuidados de Saúde. A venda e a distribuição de ambos os produtos nas zonas rurais ficarão a cargo de empresários locais. mas é também um processo dispendioso e difíciL A curto prazo. O departamento de produtos agrícolas da BASF fornecerá uma primeira remessa de cerca de 100 000 mosquiteiros. A longo prazo. durante uma visita a Daca em Setembro de 2007. Os benefícios para o povo do Bangladeche serão enormes. Segundo um relatório de 2009 da OMS. dezenas de milhões de pessoas na Ásia. A abordagem lógica é aplicar os conhecimentos científicos da BASF a duas empresas que trarão soluções extremamente válidas às pessoas que delas necessitam desesperadamente .

que foi lançado no Verão de 2009. Daca. A acrescentar a esta situação. a Grameen Kalyan. o país sofre de uma grave carência de enfer~eiras em especial. resolver estes problemas não é fácil. cerca de 12 000 grávidas morrem devido a complicações da gravidez. analisam posteriormente os dados recolhidos.mulheres que contraíram empréstimos no Banco Grameen. carências de vitaminas e de minerais e outros problemas que deveriam ser remediáveis. assim como nos países em vias de desenvolvimento em todo o mundo. os resultados têm salientado a gravidade do problema. Das primeiras noventa e duas grávidas sondadas. a visitar grávidas e a fazer questionários com vinte perguntas concebidas para distinguir entre uma gravidez de risco moderado e uma gravidez de alto risco. em 2010. foi concebido para averiguar se as tecnologias de informação podem desempenhar um papel significativo na melhoria das estatísticas abismais da saúde materno-infantil. O objectivo final é uma combinação de produtos e de serviços com base nas tecnologias de informação que possa ser usada por um empresário local para proporcionar um benefício social à população do Bangladeche. para estabelecer a ligação com o acompanhamento da paciente. muitas das quais estão à procura 207 . de dois para dez centros. É especialmente difícil proporcionar cuidados de saúde melhorados aos bebés e às suas mães em zonas rurais antes. Munidos destes telemóveis. e. Estes números são obviamente inaceitáveis e no sector da Grameen dedicado aos cuidados de saúde têm recebido uma atenção significativa. convencer médicos e outros profissionais de saúde a abandonarem as grandes cidades do Bangladeche e a viverem e trabalharem nas zonas rurais empobrecidas é um enorme desafio. A informação é o primeiro passo vi tal. eu concordei imediatamente.utilizando alguma da tecnologia de informação da Intel para beneficiar as pessoas mais carentes. têm andado de porta em porta nas povoações. A Grameen Intel está actualmente a construir um serviço de cuidados de saúde para os pobres no Bangladeche com uma base informática. através de um projecto-piloto que privilegia a saúde materno-infantil. O passo seguinte. que a Grameen Intel contratou e a quem deu formação. durante e depois do período da gravidez. muitas delas devido a deficiências de nutrição. Estas grávidas precisam de ir a um centro de saúde para se realizar um diagnóstico complementar e lhes providenciar cuidados de saúde. software especial concebido pela equipa da Grameen Intel para medir o nível de risco de cada gravidez. O projecto-piloto tem a sua base em duas localidades de Savar. que podem estar em qualquer parte do país. Até ao momento.anemia. É complicado para os médicos e as enfermeiras percorrerem grandes distâncias em estradas em mau estado. quarenta e oito foram classificadas como sendo de alto risco. Também esta fase será integrada no projecto-piloto da Grameen Intel. identificando potenciais perigos para os bebés e as suas mães.as medidas para melhorar efectivamente a saúde materno-infantil têm também de ser parte da equação. Este é um problema sério no Bangladeche. Esta iniciativa assemelha-se à triagem por uma enfermeira altamente qualificada que é feita em países como os Estados Unidos antes de os doentes serem vistos pelo médico. será desenvolver um programa através da nossa empresa de cuidados de saúde. Todos os anos. sustentável e um benefício para a comunidade local». No nosso programa. uma zona semi-rural nos arredores da capital. evidentemente. A Grameen Intel tem em mente dois grupos de pessoas dos quais poderiam surgir estes empresários. procurando-se simultaneamente melhorar a provisão de cuidados de acompanhamento às grávidas que deles necessitem. Será que os métodos electrónicos de recolha e comunicação de dados podem ajudar a encurtar a distância entre uma mulher grávida numa aldeia remota e um médico experiente a muitos quilómetros de distância? É o que a Grameen Intel espera determinar. mais de 120 000 crianças morrem desnecessariamente no Bangladeche. O programa-piloto Grameen Intel. Evidentemente. mas não é suficiente . Está planeada a expansão do projecto. o papel da enfermeira profissional é desempenhado por trabalhadores de saúde auxiliados por uma tecnologia de ponta. trabalhadores de saúde itinerantes. A solução tecnológica que está a ser testada recorre a telemóveis equipados com 206 um. A Grameen Intel foi concebida como uma empresa social que é «empreendedora. Dois médicos. globalmente. Um deles é o das «Senhoras da Grameen» .

O outro grupo é aquilo a que chamamos Grameen Novos Empresários (GNE). Cada uma delas tem o potencial de trazer enormes benefícios para a saúde da população do Bangladeche. o famoso grupo económico farmacêutico e de cuidados de saúde. • A empresa farmacêutica Johnson & Johnson está a colaborar com a Grameen para desenvolver protocolos eficazes de gestão de centros de saúde materno-infantil nas localidades e está também a dar forma- 209 :.de novas oportunidades de negócio. novas ferramentas tecnológicas estão a proporcionar a pessoas pobres uma maneira de montar uma empresa socialmente :útil que. simultaneamente. O primeiro programa-piloto concentrar-se-á nos cuidados de saúde materno-infantil. que consideramos a questão mais importante para as famílias do Bangladeche com baixo rendimento. este projecto tem a seu cargo a concepção de equipamento portátil de ultra-som a utilizar em zonas rurais para prestar este serviço ao domicílio. Vamos desenvolver um modelo de empresa social que permitirá a jovens das pequenas localidades realizarem esta tarefa de diagnóstico. • A Grameen e a Pfizer. instalação e manutenção de painéis solares e de sistemas de biogás em comunidades locais no Bangladeche. estão a colaborar num projecto para avaliar e melhorar a prestação de cuidados de saúde em centros de saúde de zonas rurais da Grameen Cuidados de Saúde. actualmente. Provêm de famílias pobres e analfabetas de zonas rurais que se debatem com dificuldades económicas. como um estetoscópio.uma apresentação admiráveL O equipamento foi já testado no terreno por trabalhadores da saúde treinados para o operarem. . É interessante observar que. mesmo depois de obterem o seu grau académico. Assim. um importante fornecedor de tecnologia e de serviços médicos. a Grameen Shakti. Estão profundamente ligadas às comunidades em que vivem e podem usar essas ligações sociais para encontrar clientes para a nova empresa baseada nas tecnologias de informação que a Grameen Intel promoverá. Após os técnicos e os engenheiros da GE terem passado alguns meses no Bangladeche a trabalhar neste projecto. não só para estes indivíduos inteligentes e motivados mas também para as suas famílias. Dar-lhes a oportunidade de criarem um modo de ganhar a vida tornando-se empresários de TI pode fazer uma enorme diferença.por exemplo. São filhos de clientes do Banco Grameen que frequentaram o ensino superior com o auxílio de empréstimos a estudantes facultados pelo banco. que são crucialmente importantes. Quando o programa da Grameen Intel estiver completamente implementado. a empresa social Grameen Intel deverá. é provável que tenham dificuldade em encontrar emprego. a comparação com as «senhoras do telemóvel» da Grameen é apropriada: em ambos os casos. está a colaborar com a Grameen Cuidados de Saúde no desenvolvimento de sistemas de prestação de cuidados de saúde melhorados nos nossos centros de cuidados primários no Bangladeche. 208 Outras colaborações em empresas sociais na área da saúde As joint ventures com a BASF e com a Intel centram-se em questões de cuidados de saúde. com especial destaque para a prestação de cuidados na gravidez. Neste sentido. • A GE Healthcare. a nossa empresa de energias renováveis. ajudando assim a salvar a vida das grávidas e dos seus bebés. promoverá o crescimento da economia local e proporcionará um rendimento ao empresário. mais de mil e quinhentos estudantes no Bangladeche estão inscritos em escolas médicas e em programas de engenharia. Muitos desses GNE estão já a trabalhar em empresas montadas através da família de empresas da Grameen . Esse facto significa que. tanto no Bangladeche como em todos os países em vias de desenvolvimento. emprega muitos jovens com formação em engenharia na construção. Mencionarei agora resumidamente vários outros projectos de empresas sociais relacionadas com a saúde que estão actualmente a ser desenvolvidos. muitos destes GNE poderão tornar-se empresários de tecnologias de informação. Entre outros elementos. ao longo do tempo. AGE Healthcare fez também uma demonstração de um aparelho de ultra-som compacto que produz imagens a cores e pode ser usado ao pescoço dos médicos. dar origem a muitas mais empresas locais de pequena dimensão que permitirão a milhares de pessoas saírem da pobreza através do trabalho. fizeram a demonstração do primeiro modelo em Março de 2010.

Para além do Banco Grameen. Ao mesmo tempo. o diagnósrico e o tratamento de doenças parasíticas. a BASF Grameen e a Grameen Intel. Uma empresa social que seja propriedade de pessoas pobres traz-lhes benefícios. através dos cheques do dividendo anual que recebem. Os empréstimos que o banco concede providenciam o capital necessário para que pessoas pobres iniciem ou expandam uma empresa e assim consigam sair da pobreza. É essencial que o fundo escolha as pessoas certas para integrarem o seu conselho de administração e que ele funcione com total transparência. Tem um papel importante no mercado porque contribui para a definição dos padrões 211 .criando produtos ou serviços que contribuem para resolver um problema social e proporcionando um rendimento aos seus proprietários. beneficia-os ao dar-lhes voz na gestão do banco e. • A Mayo Clinic. uma forma de dar todos os benefícios de uma empresa com fins lucrativos aos pobres ou a grupos com carências especificas é considerá-la propriedade de um fundo que transfere estes benefícios para os grupos visados. A empresa de tipo r fornece bens ou serviços para atingir um 210 objectivo social e é propriedade de pessoas que não são pobres ou carentes. Os sistemas e modelos que desenvolverem serão reproduzidos em muitos outros locais. mas a firma japonesa UNIQLO está a planear abordar a manufactura de vestuário no Bangladeche corno urna empresa social com benefícios para a saúde. um problema comum nos países em vias de desenvolvimento. evidentemente. um dos principais centros mundiais de conhecirnenros e de práticas médicas. ao gerar rendimento directamente para elas.ção aos nossos médicos e pessoal paramédico para melhorar a sua efi- ciência. Estão permanentemente a surgir novos projectos de empresas sociais relacionadas com a saúde. não há outros exemplos de empresas sociais de tipo II . a UNIQLO acredita que disponibilizar as suas peças de vestuário específicas Heat-Tech e polares a um preço mínimo protegerá as pessoas pobres do mau tempo e reduzirá o alastramento da malária e de outras doenças infecciosas. é deste tipo. está a colaborar com a Grarneen Cuidados de Saúde num projecto para melhorar a prevenção. A Otto GmbH é uma empresa comercial e de venda por catálogo que comercializa têxteis e outros produtos. como apropriedade individual ao abrigo do actual sistema legal levanta questões legais complicadas. que descrevi neste livro. Nesta variante da empresa social de tipo II. Dentro de um ou dois anos. que são pobres. No entanto. Depois de visitar as zonas rurais e de ter estudado as condições vigentes. Não produz quaisquer lucros ou dividendos para os seus proprietários: todo o superavit é reinvestido para financiar o crescimento da empresa e expandir os benefícios que proporciona à sociedade. Uma empresa social de tipo II é propriedade de pessoas pobres (o caso do Banco Grameen) ou de um fundo especialmente criado para proporcionar benefícios aos pobres. A maior parte destas empresas. Com o tempo. " Talvez não se pense que urna empresa t:êxtil pode envolver-se na área dos cuidados de saúde. Estes dois tipos de benefício reflectem os dois tipos de empresa social. talvez eu tenha de escrever mais um livro para os descrever a todos! A empresa social de tipo n: a Otto Grameen O Banco Grameen demon~tra que é possível uma empresa social proporcionar benefícios sociais de duas maneiras ao mesmo tempo . Estamos neste momento a colaborar com a empresa alemã Otto para criar uma empresa social de tipo II. a eficácia da organização e a sua capacidade de levar benefícios sociais aos pobres depende muito do talento e da integridade dos membros do conselho de administração do fundo.até agora. Chamar-se-á Otto Grameen Textile Company [Empresa Têxtil Otto Grameen}. quando as infra-estruturas da empresa social se expandirem e incluírem uma bolsa de valores sociais com muitos investidores activos. a Grameen Veolia Water. estas organizações providenciarão uma fiscalização adicional que garanta que os fundos gerem as empresas sociais de tipo II com um alto nível de integridade e de eficácia. As pistas sobre rnét:odos barat:os e mais eficazes de prestar estes serviços aos pobres que obrerernos com este projecto poderão vir a ser aplicadas pela Mayo Clinic para rratar populações carentes nos Estados Unidos. agências de avaliação de acções e numerosos fundos de investimento em empresas sociais. incluindo a Grameen Danone. rrazendo beneficias a milhares de pacientes. como o banco é propriedade dos pobres.

que se especializa em projectos de energia sustentável. Pelo menos inicialmente. optarão por fabricar produtos que empresas clientes possam comercializar com a sua própria marca. da cultura e das questões sociais locais. que é uma 212 joint venture entre o Otto Group (que detém 90 por cento das acções) e o Fundo Grameen (com 10 por cento). O desenvolvimento do conceito do projecto avançou sob a direcção de Hassan Ashraf. Os lucros da empresa têxtil irão para o Fundo Otto Grameen. Otto concordou com a ideia numa reunião posterior. uma empresa social de tipo II. o objectivo é estabelecer uma fábrica para produzir vestuário para o mercado de exportação. incluindo a utilização de tijolos de adobe altamente isoladores e de canas de bambu para a estrutura. Da parte da Otto. Ele mostrou-se muito interessado em ajudar a criar uma empresa social em parceria com a Grameen. manufacturando entre 200 000 e 250 000 peças de vestuário por mês e empregando entre duzentos e quinhentos trabalhadores. Otto. pessoas sozinhas com crianças a seu cargo e analfabetos. a Otto Grameen é propriedade de uma entidade chamada Otto Grameen Trust [Fundo Otto Grameen} cujo objectivo é utilizar o seu rendimento em benefício de um grupo definido de pessoas pobres. «Condições de trabalho dignas. o Dr. De acordo com o memorando de entendimento não vinculativo assinado pela Otto e pelo Fundo Grameen. o Dr. O Fundo Otto Grameen criou uma empresa com fins lucrativos chamada Empresa Têxtil Otto Grameen. à medida que a Otto Grameen for desenvolvendo experiências e criando uma reputação própria e as condições do mercado forem evoluindo. A Otto concederá ao Fundo Otto Grameen dois empréstimos sem juros. Michael Otto . que serão o seu capital inicial. a Otto Grameen estará continuamente em busca de oportunidades de mercado interessantes de que possa aproveitar~se para sustentar a sua missão de base: gerar lucros e benefícios para os pobres. serão adaptados métodos de construção locais comuns. suplementados por um gerador a gás ou uma outra fonte convencional de energia. O primeiro empréstimo será usado como capital para lançar a empresa e o segundo para criar um fundo para os serviços sociais que a empresa providenciará.está profundamente empenhada na criação de uma indústria sustentável de algodão em África.mas que tipo de empresa haveria de ser? Em reuniões posteriores. serviços sociais e perspectivas de rendimento e de propriedade» serão concedidos a todos ostrabalhadores e privilegiar-se-á a contratação de trabalhadores «desfavorecidos».ou seja.fundada pelo proprietário da Otto GmbH. surgiu a ideia de uma empresa têxtil que fosse propriedade de um fundo dedicado a ajudar os pobres . a quem caberá garantir que o rendimento e os capitais gerados pela Otto Grameen serão aplicados de acordo com o previsto . Sempre que possível. incluindo mulheres. A Aid by Trade . Ashraf e os dirigentes da Otto estão a explorar ideias para uma linha de produtos e um plano de marketing. o Fundo Grameen contribuirá com os seus conhecimentos das condições. Otto tem dado um enorme contributo para o conceito de sustentabilidade. A ideia da Otto Grameen começou a tomar forma durante uma reunião em Fevereiro de 2009 entre mim. não contam produzir vestuário ou têxteis que sejam comercializados com a marca Otto Grameen. que incluirá os trabalhadores da empresa. Serão usados painéis solares para contribuir tanto quanto possível para a satisfação das necessidades energéticas da fábrica. em vez de esperar que a empresa obtenha lucros para subsidiar os serviços. um profundo conhecedor da indústria têxtil do Bangladeche que foi director-geral executivo da Grameen Knitwear [Grameen Malhas}. Saskia Bruysten (a directora do Grameen Creative Lab) e o Dr. Neste seu papel. (Como quàlquer outra empresa. a Systain. A ideia é começar a disponibilizar esses serviços sociais tão rapidamente quanto possível. A fábrica será também sustentável em termos ecológicos e económicos. A loca213 .para beneficiar os pobres.) De acordo com a sua estrutura legal actual. de consumo energético e de gestão da cadeia de abastecimento. contaremos com o aUX11io de uma sua subsidiária. A equipa encarregada da sua planificação está actualmente envolvida na investigação das melhores opções de materiais de construção. as suas famílias e as comunidades em que a empresa opera. Mas esta abordagem poderá modificar-se com o tempo. em Abril. Depois de debatermos e explorarmos as suas implicações. A Otto contribuirá também com os seus conhecimentos técnicos e de criação de mercado.de produção de muitos dos produtos que comercializa.

individual ou virtual. Se a Otto Grameen conseguir ter sucesso nesta experiência. na ocupação de tempos livres e no entretenimento. poderão passar a abranger outros elementos da comunidade. Em 214 última instância.destinar-se-á a providenciar serviços sociais às pessoas pobres que forem designadas como principais beneficiárias da Otto Grameen. O início da produção está provisoriamente marcado para o primeiro trimestre de 2011. Acesso ao crédito.que é usado por atletas. a orientação e a concepção da fábrica serão cuidadosamente planeadas para tirar o máximo partido possível das forças naturais no controlo da temperatura na fábrica (por exemplo. É fácil pensar nesta indústria como algo centrado no glamour. com pouca relevância directa para as necessidades das pessoas pobres. Dantes. A empresa compete neste mercado lucrativo e de grande visibilidade com rivais famosas como a Nike. Cuidados de saúde. recorrendo a estilistas famosas como Stella McCartney e a heróis do desporto como a lenda do futebol David Beckham. na qual toda a população desfrute de um padrão de vida mais elevado graças à presença da empresa na comunidade. Indubitavelmente. Como se pode ver. a constmção da primeira fábrica está prevista para 2010. a grande tenista Ana Ivanovic e a estrela do basebol Chase Utley. posicionando as janelas de modo a permitirem a circulação de ar e a excluírem o mais possível a absorção de calor durante os períodos de intensidade solar no Verão). era assim que eu a considerava e nunca pensei que a Grameen ou eu viesse a ter qualquer tipo de relação com a Adidas. Mas estranhas circunstâncias fizeram com que nos aproximássemos. os benefícios sociais a serem providenciados pela Otto Grameen incluem: • • • • • • Acesso a uma alimentação saudável e nutritiva. Com o tempo. Quando visi:. Assistência na educação e formação dos trabalhadores. Para além de salários decentes e dos benefícios normais de um emprego.. Perspectivas de propriedade da empresa. que não foram ainda determinados. tais como a exequibilidade e o custo dos sistemas de energia solar e dos materiais de constmção sustentáveis. Segundo os planos actuais. Temos a esperança de conseguir pôr em funcionamento uma fábrica que seja verdadeiramente neutra em termos de carbono e que possa servir como modelo para outras instalações fabris similares por todo o Bangladeche e no resto do Sul da Ásia. à medida que for descobrindo o que resulta e o que não resulta e for desenvolvendo novas soluções para problemas inesperados que possam surgir. É um projecto excitante. com muitas características sem precedentes. (A estimativa actual é que este processo de reembolso demore pelo menos dez anos. Os lucros que a empresa gerar serão distribuídos por três canais. Inicialmente. jogadores de futebol.e a que será distribuída em primeiro lugar. providenciará um modelo para muitas outras empresas no futuro. quando se fizerem as contas todos os meses . Estão também a ser exploradas as opções de transporte das matérias-primas e dos produtos confeccionados que maximizem a eficiência e minimizem as emissões de carbono. dependendo de uma série de factores. Mas a parte mais importante . a Reebok e a New Balance.) Uma outra parte será posta de lado como um fundo de reserva para a empresa em caso de dificuldades económicas e de uma eventual e"xpansão. para os seus trabalhadores. 215 . profissionais de ténis e muitos outros desportistas de renome mundial. a equipa da Otto Grameen terá necessidade de proceder a ajustamentos e a modificações ao longo do seu percurso. é possível que cada fábrica da Otto Grameen venha a ser o centro de uma «povoação Otto Grameen». com um orçamento calculado entre um e dois milhões de euros. Assistência na questão da habitação. estes benefícios sociais serão proporcionados aos trabalhadores da Otto Grameen e às suas famílias. Calçado para todos: o objectivo da Grameen Adidas A Adidas é uma marca bem conhecida de calçado desportivo . Uma parte será para reembolsar os empréstimos sem juros concedidos pela Otto. os planos da Otto Grameen são bastante ambiciosos.lização.

prioridades de consumo. A empresa social tem a ver com alegria não com pessoas obrigadas pelas suas circunstâncias a contentar-se com o menos bom. Mas eles não vão desistir. As pessoas que usarem estes sapatos devem poder orgulhar-se deles. encontrando-se com homens. estavam todos dominados por uma enorme quantidade de energia e de entusiasmo. este projecto é para «fazer o bem>>. «Mas estou a tentar compreender as suas implicações. Queria anunciar um<~. etc. As doenças parasíticas atacam o corpo humano através da pele dos pés. Ele queria compreender o conceito de empresa sociaL Num encontro na sede da Adidas. A Adidas quer criar 217 . Desde o início de 2010. Enquanto comíamos. Eu escutei os seus planos. é nossa responsabilidade tornar o calçado acessível até mesmo às pessoas mais pobres. Muitas empresas teriam prescindido deste último requisito ao tentarem lançar uma empresa de calçado com a empresa social. mas quase. mesmo que seja feio? Esse seria o espírito errado a aplicar ao projecto. Os colegas de Hainer juntaram-se a nós para o almoço. acho eu. Nós esquecemo-nos de que. Hainer surpreendeu-me. tentando criar um calçado que não só tenha um preço extremamente acessível mas que seja também reciclável e agrade aos seus clientes. os sapatos estão intimamente relacionados com a saúde humana. fui convidado para conversar com o director-geral executivo da Adidas. é uma necessidade importante em termos de saúde. Ao fim e ao cabo.tei a Alemanha em Novembro de 2008. Finalmente. Compreenderam muito rapidamente que disponibilizar calçado aos pobres no Bangladeche não é só uma questão de conforto. Como empresa de calçado.>> Voltámos a encontrar-nos à hora do almoço.não exactamente o mesmo que um dólar.esperemos que o primeiro par de sapatos a menos de um euro. rendimento disponível. Herbert Hainer. do departamento financeiro e do desenvolvimento de negócios para estudarem possíveis projectos de empresas sociais. «Faz>>. disse: «Talvez a Adidas possa começar por uma declaração de empenhamento. Eu pensei que era o fim da nossa conversa sobre a empresa social. respondi a uma avalanche de perguntas e senti-me maravilhado com o poder que a empresa social tem de transformar as pessoas tão rapidamente! 216 A Adidas está agora a trabalhar a todo o vapor para cumprir o desafio assinalável que decidiu aceitar: conceber e comercializar calçado que seja acessível a praticamente todas as pessoas do planeta . mulheres e crianças pobres e estudando as suas preferências. Têm andado a visitar localidades do Bangladeche. para quê preocupar-se com questões estéticas? Os pobres não ficarão gratos por terem qualquer tipo de calçado. não só protecção. De repente. Eles devem trazer-lhes respeito e dignidade. Respondi de imediato: «Talvez menos de um dólar.» Perguntei a Hainer se uma declaração daquelas fazia sentido para ele. necessidades. O projecto do calçado de um euro é impulsionado por Herbert Hainer. os engenheiros da Adidas têm andado a trabalhar arduamente. coisa. Hainer perguntou-me discretamente que preço teriam de ter os sapatos para serem acessíveis aos pobres. padrões de despesas. incluindo o desafio do calçado a um euro. Doenças como a ancilostomose estão disseminadas no Bangladeche porque milhões de pessoas andam descalças. A Adidas persiste. O desafio parece ser bastante difícil de cumprir. Declarou que a Adidas se associaria à Grameen para lançar uma empresa social para produzir calçado para os pobres no Bangladeche. Mas. tentei explicar-lhe a ideia o melhor que me foi possíveL E então surgiu naturalmente a questão: o que poderia a Adidas fazer na área da empresa social? Eu não fazia ideia do que deveria sugerir. Organizou uma equipa de oito gestores de «alto potencial» provenientes de vários departamentos da Adidas do departamento de marketing. disse-me ele. Podemos fazer uma pausa durante algum tempo? Os meus colegas far-lhe-ão uma visita guiada à nossa sede e ao seu museu fascinante enquanto eu ausculto a opinião dos meus colegas da direcção sobre a nossa conversa. de facto. Eu nem queria acreditar que estava a ouvir uma declaração assim tão ousada do director-geral executivo da Adidas! Os seus executivos de topo tiveram imediatamente uma reunião de negócios comigo para chegarmos a acordo sobre um plano de acção. Esses sapatos seriam vendidos a um preço de cerca de um euro .>> Hainer parou de comer durante uns momentos e manteve o olhar fixo em mim. As crianças são o grupo mais vulnerável a esta doença. quando acabámos de almoçar. algo como: ninguém no mundo deveria andar descalço.

deslocam-se para longe de casa para trabalhar onde seja prec~so. E ser «fixe» não é só algo que seria bom alcançar-se. No entanto.e tanto mais baixo poderá ser o preço. A GES ajudará a fazer chegar este fluxo vital de dinheiro às famílias e às povoações que dependem dele. a GES seguirá procedimentos destinados a proteger os trabalhadores e a ajudá-los a incrementar o seu valor no mercado de trabalho. são vulneráveis a graves explorações. ONG. Ao mesmo tempo. Organizará cursos de línguas (para que os trabalhadores migrantes possam dar um contributo mais eficiente no seu trabalho . como a procura varia com a idade e o sexo. Salários justos.tem importantes benefícios práticos. os trabalhadores de outros países deixam muitas vezes de ser pagos ou ficam subitamente sem emprego e sem meios de regressar a casa. o mesmo se passando em muitas outras partes do mundo em vias de desenvolvimento. e prestará serviços como a obtenção de passaportes.assim como manifestar-se em defesa dos seus próprios interesses). empresas particulares e cidadãos individuais -para criar programas de alívio da pobreza de grande impacto centrados na força propulsiva da empresa sociaL O primeiro projecto ambicioso 219 . as suas preferências.por exemplo.e de outros pontos do Sul da Ásia. Quando as empresas se deparam com dificuldades financeiras ou vão à falência. (Foi o que aconteceu a milhares de trabalhadores da construção civil originários do Bangladeche quando a crise económica de 2008-2009 fez parar subitamente o boom da construção no Médio Oriente. De acordo com os planos actuais. estamos a desenvolver uma empresa social a que chamaremos Grameen Employment Services (GES) [Grameen Serviços de Emprego}. Representará também os interesses dos trabalhadores nas suas relações com os empregadores . Existe o potencial para reunir recursos de muitos intervenientes agências governamentais. estamos também a fazer preparativos para montar uma unidade de produção local no Bangladeche. Em seguida. condições de trabalho adequadas. tanto maior será o volume de produção . vistos e atestados médicos. Assim. os engenheiros e os estilistas da Adidas voltarão às suas mesas de trabalho para conceberem melhores produtos a melhores preços. vivendo em barracas ou noutro tipo de alojamento temporário e enviando dinheiro para matar a fome às suas famílias. protegendo simultaneamente a dignidade humana dos trabalhadores cujo trabalho o cria. Ficaremos a saber quais as reacções dos seus utilizadores.) 218 Para atenuar as provações destes trabalhadores. Nestas circunstâncias. À semelhança das agências de empregos convencionais. alojamento condigno e cuidados de saúde frequentemente não existem ou são difíceis de fazer cumprir. assegurando-se de que as condições de alojamento e de segurança no trabalho são adequadas e garantindo que os trabalhadores recebem o pagamento que lhes é devido. bem como formação em aptidões básicas. com a empresa social.são frequentemente vítimas de exploração. do Sul da Ásia e da América Latina considerem sinal de bom gosto e de respeitabilidade. na Albânia e no Haiti Uma das áreas mais desafiadoras e potencialmente mais excitantes para a empresa social será a revitalização de economias que se debatem com o fardo da pobreza. Usar a empresa social para rejuvenescer as economias regionais: projectos na Colômbia. a GES prestará serviços de subcontratação a grandes empresas que procurem uma fonte fiável de trabalhadores competentes. 1 O 000 pares de sapatos da Adidas deverão chegar ao Bangladeche até Junho de 2010 para se fazer um teste de marketing. Como necessitam desesperadamente de trabalho. As remessas dos trabalhadores do Bangladeche que estão a trabalhar no estrangeiro dão um significativo contributo à economia do país. Quanto maior for a procura desse calçado. etc.calçado a preços acessíveis que seja «fixe» que os pobres das zonas rurais de África. moda e marketing no projecto dos sapatos a um euro e tenciona atingir essa barreira de preço em grande estilo. Criar empregos: a Grameen Serviços de Emprego Os emigrantes do Bangladeche . a Adidas está a usar os seus melhores recursos em termos de design.

com o governo da Albânia. Estas empresas sociais criarão emprego. veio perguntar-me se poderia ajudá-lo a reactivar a economia da sua região. das quais será proprietário. Aristizábal Muõ. na Colômbia. em Caldas.oz. quando estiver a ler este livro. para visitar os seus colaboradores em Caldas.oz em linha. no Congresso Grameen da Empresa Social. Penso que poderemos lançar estas iniciativas se conseguirmos encontrar um capital de investimento de cerca de dezasseis milhões de dólares. Se o fizerem. dei seguimento a esta proposta. 0 220 Posteriormente. Em meados de 2009. vários outros estarão já em curso. Este é um desafio que eles talvez achem que vale a pena aceitar.oz. E em 7 de Novembro de 2009. em Wolfsburg. dos seguros. e. à semelhança do que tinha acontecido em Caldas. lugar nas listas de desenvolvimento global. Recordando imediatamente a minha conversa com o governador Muõ. O GCL não tardou a desenvolver uma proposta pormenorizada para aquilo a que chama uma Iniciativa Balística de Empresa Social.porque não lançar uma série de empresas sociais para abordar esses problemas? Descrevi a Muõ. Embora tenha sido em tempos um dos maiores produtores de café do país. O governador Muõ. levando mais jovens brilhantes a permanecer no país e a trabalhar para construir o seu futuro. o que provocou um aumento acentuado de desemprego. em Wiesbaden. Enviei Reitz e a sua equipa à Albânia para explicarem o conceito de empresa social aos líderes governamentais e de negócios. A própria Colômbia é um país com sérias perturbações a nível económico. um dos países da Europa com maiores perturbações económicas. enquanto um quarto da população vive com menos de um dólar por dia.s gerais o que estava disposto a fazer se lhe agradassem as minhas ideias e concordasse em apoiá-las financeiramente. tendo o sexto maior nível de desigualdade de rendimento do mundo e registando o segundo maior número de pessoas deslocadas (devido aos conflitos entre cartéis da cocaína e à opressão de grupos de milícia locais). de que serão proprietários fundos que administrarão os lucros para benefício da população local. na Alemanha. Enquanto o ouvia descrever os problemas da região.oz convidou a nossa equipa de preparação do projecto. respectivamente. cerca de 62 por cento da população vivem com menos de dois dólares por dia. quando eu estava a assistir à Cimeira Regional do Microcrédito para a América Latina e as Caraíbas. está a atravessar um período de depressão devido ao colapso do mercado do café na zona. Existe um programa similar. Caldas é uma província economicamente subdesenvolvida da região de Paisa. na Colômbia. da Grameen Creative Lab. que poderá ajudar a 221 .que segue estas linhas será lançado em Junho de 2010 em Caldas. Caldas está a planear investir dezasseis milhões de dólares num fundo inicial para o programa de microcrédito e de empresas sociais. Os programas de empresas sociais em Caldas incluirão tanto negócios de tipo I como negócios de tipo II.oz para implementar projectos de microfinanças e de empresas sociais. Actualmente. propondo-lhes que regressem ao seu país para trabalhar nas empresas sociais que estamos a criar em Caldas. propus um programa similar a Sali Berisha e ele concordou imediatamente.oz escutou-me atentamente e concordou em princípio. tive uma ideia . Prometeu apoiar qualquer programa de redução da pobreza que eu queira lançar na Albânia. Disse-lhe: «Criarei um fundo a que chamaremos o Fundo de Empresa Social de Caldas. haverá um outro benefício para a Colômbia. assim como um fundo de empresas sociais que criará empresas sociais na província.» Muõ. estamos a recrutar jovens colombianos que se encontram neste momento a trabalhar na América do Norte e na Europa. o governador da província de Caldas. em fase de planeamento. chefiada por Hans Reitz. foi assinado um memorando de entendimento entre mim e Muõ. ocupando o 77. Trabalhámos arduamente no aperfeiçoamento das nossas ideias para este projecto. da comercialização de produtos agrícolas e outras. primeiro-ministro da Albânia. encontrou-se comigo em Nova Iorque em Outubro de 2009 e descreveu-me a terrível situação em que se encontram os pobres no seu país. Sali Berisha. Inserido neste programa. em Cartagena.as quantias que definem a pobreza e a pobreza extrema. providenciarão microcrédito e prestarão serviços nas áreas da saúde.

a nível nacional ou subnacional. Temos já um escritório local para organizar a iniciativa do Haiti e uma equipa liderada por Hans Reitz está a elaborar o nosso plano de acção. No encontro anual em Davos. etc. o co-director-geral executivo da SAP. de ONG. o emprego.» Eu disse: «Porque não? Vamos a isso. parece provável que a empresa social venha a tornar-se um instrumento importante para os responsáveis políticos e outras pessoas que estão à procura de maneiras de acelerar o ritmo do desenvolvimento económico em países por todo o mundo. a criação de emprego. Criaremos também um fundo para empresas sociais do Haiti que prestará apoio a empresas de todas as partes do mundo que pretendam criar empresas sociais no Haiti. de fundações e de indivíduos de todo o mundo. a microfinança. a minha preocupação por esta grande quantidade de auxílio financeiro ao Haiti poder vir a não ser utilizada adequadamente devido à sua concentração exclusiva no alívio imediato em vez do desenvolvimento a médio e a longo prazo. Se estes projectos corresponderem às nossas expectativas. Estas iniciativas nestes três países abordam um novo desafio para a empresa social. Talvez devêssemos investir o nosso contributo neste fundo para empresas sociais. disse eu. Como milhões de outras pessoas. do ensino superior. também em Janeiro de 2010. de empresas. Representam um teste importante do poder da 222 empresa social para ajudar a desencadear um processo de desenvolvimento económico centrado nos pobres. muitas pessoas e empresas responderam favoravelmente. mencionei a Léo Apotheker.desencadear o crescimento económico do país. numa reunião em Tirana em que estiveram presentes o primeiro-ministro e líderes do mundo dos negócios. Será fascinante observar os resultados e potencialmente muito significativo para outras economias no resto do mundo.» Apotheker respondeu imediatamente: «Nós próprios vamos enviar uma grande quantia. a formação. «Talvez devêssemos criar um Fundo de Empresa Social para o Haiti». integrado nas iniciativas de reconstrução encetadas na sequência do sismo devastador que atingiu aquela nação insular em Janeiro de 2010. o marketing. a agricultura. da sociedade civil. A proposta foi apresentada em 22 de Janeiro de 2010. Contamos que o programa seja oficialmente lançado na segunda metade de 2010. assisto à incrível avalanche de solidariedade e de apoio às vítimas do sismo por parte de governos. 223 . «ao qual 10 por cento ou mais de todo o capital doado fosse reservado. a silvicultura.» Após ter anunciado a criaç~o do fundo nessa mesma semana. do sector da microfinança e do governo. Um terceiro projecto deste tipo está também a ser desenvolvido no Haiti. Planeamos iniciar uma série de empresas sociais no Haiti em áreas como a habitação.

As causas deste trágico acontecimento foram variadas. continua a cair cerca de 2 por cento por ano. O Bangladeche é um país que tem feiro progressos tremendos no sentido de atingir os Objectivos do Milénio. tornaram-se proibitivas para as pessoas pobres em todo o mundo. Em geral. Mas estes tipos de subsídios tiveram consequências ecológicas. foi responsável pela subida acentuada dos produtos alimentares. milhares de milhões de pessoas em rodo o mundo foram deixadas para trás. Por um lado. muitos outros países da Ásia revelaram um índice de sucesso similar. Chegaram a um acordo sobre oiro importantes objectivos que queriam alcançar até 2015 . As economias da América do Norte. as coisas começaram a melhorar lentamente. O número de pessoas que vivem com menos de 1. tudo devido a uma crise global pela qual. Os preços dos alimentos. Esta crise atingiu-nos inicialmente em 2008 sob a forma de uma crise de alimentos. da Europa e do Japão prosperaram de uma forma sem precedentes e milhões de indivíduos tornaram-se extremamente ricos. 225 . o crescimento constante da população mundial.CAPÍTULO 9 O fim da pobreza Chegou a hora Desde o fim da Segunda Guerra Mundial. agrícola e sociaL Segundo estimativas recentes.económica. temos assistido ao avanço triunfal do sistema capitalista. O país está bem encaminhado para atingir o objectivo de reduzir a pobreza a metade em 2015.embora este número represente ainda cerca de um quarto da população mundial. os povos do mundo reuniram-se numa sessão nas Nações Unidas em Nova Iorque em 2000.8 mil milhões para 1. Decididos a reduzir o trágico fosso entre o Norte Global e o Sul Global. milhões de pessoas que estão a melhorar a sua condição económica estão a consumir mais alimentos do que antes. A acrescentar a esta situação. O que é ainda mais notável é que o rápido crescimento económico do Bangladeche foi acompanhado por um aumento relativamente pequeno da desigualdade interna (segundo revelam indicadores estatísticos como o coeficiente Gini. Mas. Este facto está a causar enormes dificuldades e até mesmo fome extrema a milhões de pessoas. com cada ponto percentual a representar uma melhoria significativa na vida de milhões dos seus habitantes. o pequeno fogacho de esperança acendido pela Declaração do Milénio tem vindo a ser extinguido por uma complexa crise global . Mas. financeira. Embora seja ainda demasiado elevado.4 mil milhões de 1990 até 2005. Só o preço do trigo subiu 200 por cento desde o ano 2000. A sua taxa de pobreza desceu de cerca de 57 por cento em 1991 para 40 por cento em 2005. especialmente de produtos básicos como o trigo e o arroz. ao mesmo tempo. ambiental. Destinados a incentivar o cultivo do milho e da soja para substituir parcialmente os combustíveis de origem fóssil na gasolina. acompanhado por um declínio da quantidade total de terra arável. tornaram o uso do biogás economicamente viável como substituto parcial da gasolina. com toda a certeza.25 dólares por dia desceu de um valor calculado em cerca de 1 . Ao longo de vários anos. Os mais importantes implicavam reduzir a taxa de pobreza para metade. as distorções dos mercados globais provocaram uma subida dos preços e destruíram até sistemas agrícolas nacionais e regionais que em tempos registavam uma enorme produção excedentária. entre 55 e 90 milhões de pessoas vieram engrossar as fileiras da extrema pobreza. 224 ( l uma medida de «dispersão estatística>> utilizada habitualmente para definir graus de desigualdade no seio de uma dada população). desde então. sociais e económicas imprevistas. Ao mesmo tempo.o s chamados Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.. não foram responsáveis. em muitos países em todo o mundo. Os subsídios ao etanol em países como os Estados Unidos são um exemplo deste problema.

se a tendência do aquecimento global se mantiver. Todos estes problemas económicos estão a piorar. que usaram mercados de futuros de trigo. Em vez disso. Mas o capitalismo tradicional exige lucros cada vez mais elevados e cria poderosos incentivos para que as pessoas mais espertas usem a sua criatividade para o tornar possíveL Ao longo do tempo. soja e outros produtos meramente como bens transaccionáveis. o país mais densamente povoado do mundo. É um exemplo trágico. É um desastre ambiental com o potencial de se tornar imediatamente um desastre humanitário. milho. Os especuladores talvez tenham lucrado com estas transacções. Em seguida. as secas e a desflorestação estão a transformar vastas áreas. A crise financeira tem também causado terríveis danos. os investidores empenhavam-se em fazer subir os preços. Transformaram o crédiro à habitação e outros tipos de empréstimo em instrumentos sofisticados cujo nível de risco e outras características eram ocultados ou disfarçados. que é um país 226 pouco montanhoso. principalmente nos países desenvolvidos. Mas foi. em tempos terras férteis de cultivo. As alterações climáticas. É fácil imaginar o que acontecerá ao Bangladeche. compravam e vendiam estes produtos simplesmente para realizar lucros monetários. Os empréstimos aos estudantes subsidiavam os estudos de milhões de pessoas. os mercados financeiros permitiam aos especuladores transaccionar quantidades incrivelmente elevadas de matérias-primas numa questão de segundos. o castelo de cartas desmoronou-se com um tal ímpeto que 227 . agora que as tendências ambientais globais ameaçam o futuro da agricultura em todo o mundo. em verdadeiros desertos. Graças ao crédito à habitação. A crise financeira demonstrou-nos mais claramente do que nunca onde é que o capitalismo fracassou. mas as pessoas cujas vidas dependiam do acesso aos produtos transaccionados sofreram as consequências. Os bancos que concediam este crédito obtinham um lucro razoáveL Toda a gente beneficiava. com cerca de 20 por cento da sua terra a menos de um metro acima do nível do mar. Para salvaguardar a segurança alimentar global. quando os bancos deixam de emprestar dinheiro. graças ao desvio de terras de cultivo e de outros recursos àgrícolas para a produção de combustíveis em vez de alimentos. Mais preocupante ainda é que.incluindo pressões sobre o preço de produtos alimentares básicos. instituições financeiras rivais foram visando lucros cada vez mais elevados no mercado do crédito. Estes especuladores não tinham um verdadeiro interesse pelas matérias-primas que transaccionavam nem qualquer intenção de as usar de facto. Milhões de pessoas em todo o mundo estão a sofrer porque alguns especuladores agarram cegamente todas as oportunidades de lucro. Graças aos sistemas electrónicos de transacções dos nossos dias. Originalmente. o mercado do crédito foi concebido para servir as necessidades das pessoas. com apenas alguns cliques nos seus computadores. Destinava-se a providenciar capital para criar ou expandir empresas. Entretanto. as pessoas podiam comprar a sua casa e pagar os custos ao longo de um período prolongado de tempo. envolvendo-se num crescimento insustentáveL Cegos por estas taxas de retorno irrealistas. é óbvio que esses subsídios deveriam ser retirados tão rapidamente quanto possíveL Agravando esta situação. são os pobres quem mais sofre. Apostaram na hipótese de a fraqueza subjacente ao sistema jamais vir a ser revelada. Estou a referir-me a grandes investidores. os especuladores fizeram subir os preços das matérias-primas. venderam e revenderam esses instrumentos. nunca fizeram um esforço para questionar os riscos ocultados nestes instrumentos financeiros. de como o nosso sistema económico falha na sua missão de servir as necessidades de toda a humanidade. Mas não são só a crise alimentar e a crise ambiental que têm causado o agravamento das condições de vida dos pobres do mundo. Quando o crédito fica paralisado. mas óbvio. Com o colapso do mercado imobiliário nos Estados Unidos. recorrendo a truques de engenharia financeira. A ONU avisa que todos os anos se perde para a agricultura uma área equivalente à ocupada pela Ucrânia devido às alterações climáticas. arrecadando uma parcela do lucro em cada transacção. milhares de empresas vão à falência e os programas de auxílio dos governos entram em colapso devido à queda de rendimentos. ao longo do próximo século podemos contar que a subida do nível dos oceanos cause inundações em cerca de um terço das terras de cultivo do mundo.

A globalização pode ser uma grande força para o bem. incompleta. da falta de habitação. Até agora. Apoiaria e enalteceria a globalização assegurando-se de que ela funciona também para os povos e os países pobres através da introdução da empresa social no enquadramento global. o capitalismo fracassou rotundamente em termos da sua responsabilidade social. no mercado global. É necessário e importante que se melhorem os sistemas nacionais e internacionais de regulamentação dos negócios. o mundo não está ainda a prestar atenção a este aspecto da crise. Por consequência. Mais importante ainda é que a nossa nova estrutura económica internacional assente na ideia de que dispomos já dos instrumentos necessários para ultrapassar os nossos problemas sociais. poderá desempenhar um papel muito importante na resolução da crise financeira. No entanto. As empresas sociais darão aos pobres o direito à propriedade e manterão os lucros dentro dos países pobres. é possível criar poderosas empresas sociais multinacionais que multiplicarão os benefícios da globalização para os povos e os países pobres. Nos próximos anos. da crise alimentar e da crise ambiental. não foi ainda debatido nenhum pacote de medidas de auxílio às vítimas da crise: os três mil milhões na base da pirâmide e o próprio planeta. uma força que trará mais benefícios aos pobres do que qualquer outra alternativa. A nova arquitectura económica que proponho não faria retroceder a globalização. estão a sofrer as consequências. da fome e da doença. tem desempenhado um papel de grande importância no crescimento económico da última década. Estão a ser gravemente afectados pelos efeitos combinados da crise de alimentos.especialmente os «três mil milhões da base da pirâmide» que estavam já a viver a um nível mínimo de subsistência. Quando a empresa social se tornar um elemento reconhecido nesse enquadramento. tirando milhões de pessoas da pobreza na China. para providenciar uma alternativa à antiquada forma de globalização imperialista. A crise dos nossos dias teve o mérito de nos recordar que todas as pessoas de todo o mundo estão inegavelmente ligadas. pode providen228 ciar o mecanismo institucional mais eficaz para resolver as questões da pobreza. Construir economias fortes nos países pobres protegendo os seus interesses nacionais do saque de empresas estrangeiras será uma das principais áreas de interesse para a empresa social do futuro. A empresa social pode ser um elemento-chave desta mudança. Além disso. uma grande crise proporciona uma grande oportunidade. na Índia e no Bangladeche. Mas deve ser o tipo certo de globalização. tenho insistido repetidamente que esta megacrise seja tomada como uma oportunidade para ~eformular os sistemas económico e financeiro existentes. A regra de «O mais forte leva tudo» tem de ser substituída por regras que garantam que os mais pobres têm direito ao seu quinhão sem serem escorraçados pelos mais ricos. O destino da Lehman Brothers e o das pobres trabalhadoras de uma fábrica de confecções no Bangladeche estão ligados. O comércio global. reduzir os seus excessos. a empresa social.surpreendeu até aqueles de nós que vinham mostrando-se cépticos em relação ao sistema financeiro. A globalização não deve tornar-se imperialismo financeiro. Na sua forma actual. os mais atingidos são os pobres. da crise ambiental e da crise financeira. por exemplo. como as personalidades mais sábias ao longo da História demonstraram saber. No entanto. Como sempre. A empresa social pode abordar todos estes problemas ignorados pelos negócios com fins lucrativos e. Infelizmente. Infelizmente. Chegou a hora de aproximar todo o mundo e de mudar a nossa arquitectura económica para que este tipo de crise não volte a ocorrer nunca mais. A característica mais importante desta nova arquitectura económica global será completar o enquadramento teórico do capitalismo incluindo um segundo tipo de empresa. que não tinham feito nada de mal. ao mesmo tempo. usemos também o potencial criativo da empresa social. os governos que se esforçam por atenuar os efeitos das crises combinadas de 2008-2010 têm-se mantido ocupados com pacotes de medidas de auxílio às instituições responsáveis pela criação da crise financeira. Milhões de pessoas em todo o mundo. em vez de os desviarem para enriquecer ainda mais os ricos. 229 .

um mundo no qual o desequilíbrio foi corrigido. que postula uma economia operada por seres humanos unidimensionais.um bolo sempre em crescimento. sabemos como curar ou prevenir a maior parte das doenças que afectam os pobres do mundo. Na realidade. O problema não é de falta de recursos . Quando todas as pessoas tiverem posses para adquirir uma casa em condições. Num mundo de pessoas multidimensionais. As empresas de tecnologia têm tecnologia da informação e ferramentas de comunicação que poderiam transformar a vida das pessoas mais pobres do mundo. As despesas governamentais com programas de solidariedade social passarão a ser desnecessárias. as empresas de construção civil. No total. os arquitectos e os fabricantes de móveis terão de trabalhar horas extra. Quando todas as pessoas tiverem acesso a excelentes cuidados de saúde. a economia é . O resultado é que a economia mundial tem continuado a crescer de forma desigual e esse desequilíbrio torna-se pior à medida que vai aumentando. Os meus leitores talvez se encontrem nesse grupo. Porquê desperdiçar essa oportunidade? Algumas pessoas parecem acreditar que. talvez irresolúveis. Todos os habitantes do nosso planeta sofrem pessoalmente quando a vida de alguém é desperdiçada. tudo muda. Toda a gente tem um forte impulso de abnegação -um desejo de ajudar os outros que é tão forte como o desejo de obter lucros pessoais. a procura de médicos e de enfermeiros altamente qualificados disparará. As vidas relativamente privilegiadas de que muitos de nós desfrutamos são uma prova inegável de que sabemos como providenciar o acesso à educação e aos cuidados de saúde. Mais importante ainda é que os instrumentos para alargar essas soluções a todas as nações da Terra estão disponíveis. não há qualquer conflito de interesses. Mas considere-se o seguinte: problemas como as terríveis doenças infecciosas. Neste enquadramento. a água contaminada e a falta de acesso a cuidados de saúde e à educação foram já todos resolvidos em certas partes do mundo. Parte do princípio de que o bolo total de riqueza tem uma dimensão fixa. Parte do princípio de que os ricos enriquecem à custa dos pobres. se optarmos por os utilizar com bom senso.é da incapacidade do nosso sistema económico para tornar esse auxílio acessível às pessoas que mais necessitam dele. Não será só um mundo muito melhor para os que eram pobres. Esta é uma ideia ultrapassada e incorrecta. dá enorme poder e incentivos aos ricos para acumularem riqueza sem limites. sabemos como fornecer água própria para consumo e alimentos saudáveis. se existem ricos. Esse enquadramento proporciona apenas uma medida de sucesso . a maioria das outras pessoas terá de se contentar com as migalhas. Na verdade. Os ricos podem ficar mais ricos e os pobres menos pobres ao mesmo tempo.r À primeira vista. Os especialistas em agricultura das grandes universidades e laboratórios de investigação do mundo desenvolvem técnicas que poderiam facilmente produzir alimentos em quantidade suficiente para toda a gente. 230 Imaginem um mundo sem pobreza. também tem de haver pobres.a quantidade de dinheiro que se possui. Mas o capitalismo tradicional nunca se deu ao trabalho de fazer uso deste forte impulso dos seres humanos. centenas de milhões de pessoas tomam essa solução como um dado adquirido. A empresa social pode torná-lo acessível. 231 . O enquadramento actual. toda a gente beneficiará. a vida que é desperdiçada poderia ter o potencial de sobreviver e tornar-se no médico que salva a vida do meu neto. Tem a ver com o enquadramento conceptual no qual perspectivamos a economia. E até os recursos económicos estão disponíveis. no cientista que descobre a solução para o problema do aquecimento global ou no artista que cria uma magnífica obra de arte que irá enriquecer a minha velhice.ou deveria ser. o sucesso será medido primariamente pelo contributo que cada pessoa dá para o bem-estar do mundo. a subnutrição crescente. A economia atingirá níveis inacreditáveis quando a dimensão do mercado para cada produto duplicar e triplicar. As empresas farmacêuticas detêm patentes de um número incontável de medicamentos que têm o potencial de ajudar milhões de pessoas. Se algumas pessoas poderosas tirarem uma grande fatia. os problemas mais urgentes do nosso mundo parecem avassaladores. Afinal. as nações ricas do mundo dão mais de 60 mil milhões de dólares tod?s os anos para combater a pobreza.

necessitamos não só de garantir que o bolo cresce mas também que a fatia que vai para os pobres cresce ainda mais depressa. a educação de alta qualidade e às tecnologias de informação modernas. 232 Ao trazer os pobres para o sistema económico instituído. Na primeira. com mais pessoas a terem a capacidade de consumir e de poupar. as empresas com fins lucrativos terão mercados maiores e lucros aumentados. <? mercado livre tem uma tendência intrínseca para criar problemas sociais e ambientais. encaramo-nos como observadores passivos de acontecimentos a desenrolarem-se à nossa frente. 233 . Em vez disso. conhecimentos e experiência. Poderá também libertar e aproveitar o poder da criatividade. de outra forma. Uma porta para um novo mundo Como será o mundo daqui a vinte ou a cinquenta anos? É fascinante especular. porque aborda a questão dos pobres de modo directo e deliberado. E. criando muitos tipos de empresa social. tradicionalmente recorremos à redistribuição da riqueza. quando as pessoas estão motivadas. Na segunda. o crescimento abrandará. continuamos a não conseguir imaginar as mudanças incríveis com que a História continua a presentear-nos. E. Numa economia povoada por seres multidimensionais. em que os ricos assumirão a responsabilidade de erradicar problemas sociais. gastarão mais e pouparão mais. visto que o bolo cresce mais rapidamente do lado dos ricos do que do lado dos pobres. Penso que chegou a hora de assumir o controlo do nosso futuro em vez de o aceitar passivamente. em vez de usarem o dinheiro dos impostos para gerir soluções provisórias e outros programas ineficientes de serviços públicos. Mas o efeito conta-gotas que o «negócio como de costume» pode ter sobre a pobreza é um processo pouco fiável e dolorosamente lento. a uma melhor alimentação. cobrando impostos aos ricos e usando esses recursos para ajudar os pobres. os pobres tornar-se-ão mais produtivos. É verdade que o crescimento económico global pode em última instância beneficiar as pessoas pobres. A empresa social tem o potencial de inverter esta disparidade. Através do acesso ao crédito. vemo-nos como criadores activos de um resultado desejado. A empresa social tem de ser uma parte essencial da fórmula de crescimento porque beneficia as massas que. se sentem excluídas. Quando grandes números de pessoas saírem da pobreza graças ao sucesso das empresas sociais. o funcionamento natural do mercado livre pura e simplesmente não aborda os problemas sociais. o efeito sobre a economia faz-se sentir. A empresa social pode transformar a sociedade muito rapidamente. as disparidades acentuam-se em vez de diminuírem. mesmo assim. Para nos assegurarmos de que os pobres beneficiam do crescimento económico. Esta situação dinamizará a economia e ajudará os pobres a transitarem gradualmente para o mundo da classe média. tanto dos ricos como dos pobres. porque aplicará o poder incrível e crescente da tecnologia para melhorar as condições de vida dos pobres e o ambiente. Mas penso que uma questão ainda mais importante é: como queremos que o mundo seja daqui a vinte ou a cinquenta anos? A diferença de formulação tem um enorme significado. porque o objectivo das empresas sociais não é produzir grandes lucros. como o nosso sistema actual. Não considero este argumento válido.para benefício de todos. contribui para que a sua porção do bolo cresça independentemente. Num mundo de pessoas unidimensionais.Para reduzir a miséria da pobreza. Muitas pessoas argumentam que. a cuidados de saúde melhorados. ocorrerá uma redistribuição voluntária. o sentido de empenhamento da nova geração de jovens deste novo século e o poder da abnegação que põem em questão todos os preconceitos anteriores sobre o comportamento humano no mundo económico. Quando o sistema económico cria barreiras que reduzem as oportunidades acessíveis aos pobres. Desperdiçamos demasiado tempo e talento a fazer previsões e muito pouco a imaginar o futuro que gostaríamos de ver. Ganharão mais. num mundo de dois tipos de empresa. Com toda a nossa sabedoria. não somos lá muito bons a prever o futuro. Talvez os governos considerem mais fácil e mais eficaz conceder incentivos aos ricos para estes resolverem problemas sociais através de iniciativas próprias.

provavelmente há duas maneiras de proceder. e Um mundo em que os oceanos. mas os acontecimentos no mundo real são impulsionados pelos sonhos das pessoas. Mesmo há vinte anos. Uma outra seria pedir aos autores de ficção científica mais brilhantes do mundo para imaginarem o mundo de 2030. Quanto mais impossíveis parecerem os nossos objectivos. abala a estrutura e cria um efeito de dominó. tanto mais excitante será a tarefa de os atingir. Em relação à tecnologia. é para tal que se deve preparar. Se me perguntarem quem tem a melhor hipótese de imaginar a realidade de 2030. • Um mundo em que as guerras serão uma coisa do passado. É o que os últimos cinquenta anos nos ensinaram. Os especialistas são treinados para fazerem previsões com base no passado e no presente. os rios e a atmosfera estarão livres de poluição. técnicos e económicos do mundo para nos darem as suas melhores projecções a vinte anos. significa que é provável que venham a concretizar-se. Mal um impossível se torna possível. • Um mundo em que as riquezas da cultura global estarão disponíveis para toda a gente. os iPods. os lagos. Confessemo-lo: não poderíamos ter previsto o mundo de 2010 nem mesmo em 1990 . entrámos numa era em que os sonhos têm grandes hipóteses de se tornarem realidade. Estas mentes estão equipadas com luzes vermelhas para nos alertarem para os obstáculos com que podemos deparar-nos. Não podemos alcançar os impossíveis recorrendo a mentes analíticas treinadas para abordar a informação concreta actualmente disponível. . Não podemos permitir que o nosso passado nos barre o caminho. preparando o terreno para tornar possíveis muitos outros impossíveis. A razão é muito simples. • Um mundo em que ninguém será analfabeto e em que toda a gente terá acesso fácil à educação através da aplicação de novas tecnologias milagrosas.a uma distância de apenas vinte anos. Os nossos sonhos soam a utopia? Nesse caso. os palm-tops. a Europa se tornaria uma entidade política sem fronteiras e com uma moeda única. Ninguém previu que os portáteis. Temos de organizar o presente para facilitar a entrada no futuro dos nossos sonhos. nem mesmo no dia anterior à sua queda. ninguém previa que os telemóveis se tomariam uma parte integrante da vida em todos os cantos do mundo. dado que a cada dia que passa aumenta a velocidade da mudança no mundo? Se tivermos de fazer previsões. Felizmente para nós. Podemos descrever o mundo de 2030 preparando uma lista de desejos para descrever o tipo de mundo que gostaríamos de criar até 2030. 235 .-1 Pensemos na década de 1940. Os sonhos são feitos de impossíveis. sem hesitações direi que os escritores de ficção científica estaria_m muito mais próximos da verdade do que os especialistas. instituições. Teremos de adoptar um modo diferente de funcionamento da nossa mente quando pensamos no nosso futuro. tecnologias e políticas apropriadas para atingir os nossos objectivos. assistimos ao mesmo fenómeno. se acreditarmos neles e nos empenharmos. Uma delas seria convidar os melhores analistas científicos.. Teremos de nos atrever a dar saltos audazes para tornar o impossível possível. Ninguém previu que a União Soviética se desintegraria e que surgiriam tantos novos países independentes tão rapidamente. Teremos de acreditar na nossa lista de desejos se queremos manter a esperança de os concretizar. Teremos de criar conceitos. Este facto dá alguma credibilidade à nossa capacidade de prever hoje o mundo de 2030. Na década de 1960. Ninguém previu que o Muro de Berlim cairia. O que quer que a sua lista pessoal contenha. É provável que consiga acrescentar dezenas de belos desejos. os iPhones e os Kindles estivessem na mão de milhões de pessoas.· Um mundo em que as pessoas poderão atravessar fronteiras livremente.. numa questão de cinquenta anos. Ninguém nessa altura previu que. Esta lista poderia incluir: • Um mundo sem uma só pessoa a viver na pobreza. 234 • Um mundo em que nenhuma criança irá para a cama com fome. " Um mundo em que ninguém morrerá prematuramente devido a uma doença evitável. ninguém previa que uma rede global de computadores chamada Internet não tardaria a estender-se por todo o mundo. os BlackBerrys.

Terrorismo.As Duas Grandes Potências Emergentes. Tim Harford 8.ose às pessoas em todo o mundo que estão já a começar a transformar os seus sonhos em realidade através de empresas sociais . Anthony Giddens 22. Sull 27. Escassez de Recursos Naturais.A Importância da Economia no Nosso Dia-a-Dia. A Índia no Século XXI. Suzanne Berger e o Industrial Performance Center do MIT 14. O Mundo Digital. Vanessa Farquharson 36. Sucesso Made in China . John Kay 15. 3.O Impacto do Homem nas Alterações Climáticas e no Futuro do Planeta. Marginalização. Se quer partilhar estes sonhos comigo . Globalização e Desenvolvimento. Como a Economia Ilumina o Mundo. 2. O Economista Disfarçado. Federico Rarnpini Viver Mais e Melhor.Ou a Guerra da Prosperidade. Femando Braga de Matos 30. China e Índia. 4. Globalização. Seth Godin 20. Steven D. David A.O Estranho Mundo da Economia. O Medo e a Esperança. François de Closets e Dominique Simonnet 6. A Economia não Mente. Philippe Presles e Catherine Solano 31. O Lado Obscuro da Economia. O Homem Que Trocou a Casa por Uma Tulipa. Federico Bonaglia e Andrea Goldstein Freakonomics . Giuseppe Granieri 10. Joel de Rosnay. As Ameaças do Mundo Actual. Femando Trías de Bes . A Bolsa Para Iniciados. Pavan K. Ideias Que Vencem.. A Estrela-do-Mar e a Aranha. Chip Heath e Dan Heath 18. Paul Krugman 37. Objectivos e Princípios. Chris Abbott. Tim Harford 29. Dormir Nu É Ecológico. Pietra Rivoli 9. Varma 12. Patel 7. Beckstrorn 26. As Viagens de Uma T-Shirt no Mercado Global. Federico Rampini 16. Guy Sorman 35. Militarização. Dubner Ordem e Caos no Século XXI. Paul Rogers e John Sloboda 19. 5. Loretta Napoleoni 32.Como Criá-las com Sucesso. Ori Brafman e Rod A. Os Senhores do Tempo. David M. Eric Hobsbawrn 24. Gabo r Steingart 34. Jean-Louis Servan-Schreiber.O Fenómeno das Organizações sem Líder. Robert Cooper O Século Chinês. Tyler Cowen 25. Geração Blogue. empreendamos esta excitante viagem juntos.O Que os Gestores Ocidentais Podem Aprender com a Liderança dos Empreendedores Chineses. A Era da Turbulência. Democracia e Terrorismo.. O Mundo É Curvo. Levitt e Stephen J. O Mestre em Estratégia . concordemos em acreditar nestes sonhos e dediquemo-nos a tornar estes impossíveis possíveis.Alterações Climáticas. Paul Krugman 33. O Regresso da Economia da Depressão e a Crise Actual. A Consciência de Um Liberal.e juntar. A Europa na Era Global. O Conflito Global . Giulio Trernonti 28.Poder. Vzttorino Andreoli 23. Donald N. O Economista Que Há em Si. Torne-se Pequeno e Pense em Grande. A Competividade e as Novas Fronteiras da Economia. Seth Godin 13. Alan Greenspan 21.Por isso.O Fenómeno Que Está a Mudar o Mundo. Google. As Doenças do Nosso Tempo. As Mentiras do Marketing.Uma Longevidade Activa na Sociedade Actual. Vise e Mark Malseed 17. Tim Flannery 11. Ketan J. 236 • SOCIEDADEGLOBAL 1. Smick 38.Europa: A Crise Global e as Medidas Necessárias para a Ultrapassar. A Lógica Oculta da Vida.

Steven D. 42. Richard Wilkinson e Kate Pickett Socialnomics. 46. 40. SOCIEDIDEGlOBAl Parentonomics. Levitt e Stephen J. 43. 41. Muhamad Yunus .• 39. Dubner O Valor do Nada. 47. Annie Leonard A Empresa Social. Loretta Napoleoni Superfreakonomics. Joshua Gans O Espírito da Igualdade. Erik Qualman O Fim de Um Mundo. Raj Patel República imPopular da China. Fabio Cavalera A História das Coisas. 45. 44.

que tem vindo a ser experimentado com sucesso em diversas áreas de activid ade e que aponta para uma dimensão nova e visionária do capitalismo.i ncipal . » The Washington Post Esta obra profundamente inspiradora tém como pr. C onstitui-se também como um incentivo aos leitores a lançar iniciativas análogas e como uma introdução prática à construção desse tipo de empresas.· nar e difundir um novo conceito de empresa. e de que modo tem vindo a transformar as vidas de milhões de pessoas em todo o mundo.objectivo expia. a empresa social. ISBN 978-972-2 3-4529. a empresa social cria empreendimentos comerciais viáveis capazes de gerar crescimento económico enquanto produ zem bens e serviços que fazem do mundo um lugar melhor.• SOCIEDAD GLOBAL «As ideias de Yunus têm t ido um grande impacto no Terceiro Mundo.3 911llll~ll~lii i31 JJ11 JIJI . como se difundiu e foi adoptada por empresários e activistas sociais na Ásia. na Europa e nos Estados Unidos. e ouvir o seu ape lo para um "mundo isento de pobreza" d ire ctamente da fonte pode ser tão inspirador como o m ito int rinsecamente americano do sucesso conseguido através do esforço própr io. Ao subordinar a energia da obtenção de lucro à provisão das necessidades humanas. Muhammad Yunus mostra-nos como a empresa social evoluiu da teoria para a prática. na América do Sul.