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Cultura

:
Metodologias e Investigação
coord, Maria Manuel Baptista

Coleção Estudos Culturais

Grácio Editor

Cultura:

Metodologias e Investigação
Coordenação: Maria Manuel baptista

Grácio Editor

Título
Cultura: Metodologias e Investigação
Coordenação
Maria Manuel Baptista
Coordenação Editorial
Rui Alexandre Grácio
Capa
Frederico da Silva
Design gráfico e paginação
Grácio Editor | Frederico da Silva
Impressão e acabamento
1ª edição Agosto de 2012
ISBN: 978-989-8377-34-0
© Grácio Editor
Avenida Emídio Navarro, 93, 2.o, Sala E
3000-151 COIMBRA
Telef.: 239 091 658
e-mail: editor@ruigracio.com
sítio: www.ruigracio.com
Reservados todos os direitos

Índice
Estudos Culturais: um campo gravitacional, uma tessitura
intelectual | Maria Manuel Baptista ............................................................................................................5

1. Metodologias em Estudos Culturais ........................................
O quê e o como da investigação em Estudos Culturais | Maria Manuel Baptista................15
Para um ‘politeísmo metodológico’ nos Estudos Culturais | Moisés de Lemos Martins...29
Para uma etnografia dos públicos em acção | João Teixeira Lopes........................................43
Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise | Rosa Cabecinhas ...53
Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística | Joaquim Barbosa ................................71
Research topics and methodologies in film studies | Anthony Barker .................................97
História oral? Dilemas e perspectivas | Maria Manuela Cruzeiro........................................113
O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica | Alba Carvalho.....125

2. Investigação em Estudos Culturais
Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita | Dália Dias ..............................................149
(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana
sobre o colonialismo | Maria do Rosário Girardier .................................................................177
La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico
de Miguel de Barrios | Miquel Beltran e Joan Llinàs...............................................................203
Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas | Jean-Marie Rabot ............235
O maior São João do Mundo em Campina Grande - João Pessoa - Brasil:
um evento comunicacional de interfaces culturais | Severino Alves Filho ........................267

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à valorização social crescente que tem sido concedida a esta área. quer enquanto factor de conhecimento e compreensão das novas dinâmicas sociais e culturais da contemporaneidade. metodológicos e académicos desta área do saber. práticos. em primeiro lugar. Acresce ainda a esta valorização académica e social. realidades cada vez mais presentes nos contextos universitários. uma tessitura intelectual A investigação e o ensino da Cultura tornaram-se. o presente trabalho procura fazer o levantamento dos principais desafios teóricos. tendo mesmo nascido recentemente uma área científica auto-designada por Economia da Cultura. o que se fica a dever. mas também assumindo as virtualidades que lhe são próprias e que se encontram ainda longe de estarem exauridas. 7 . Partindo deste reconhecimento.Estudos Culturais: um campo gravitacional. assumindo como ponto de partida para a reflexão a tradição anglo-saxónica dos Estudos Culturais. quer nos mais latos e clássicos domínios da formação humanística e artística. na última década. questionando as suas limitações e dificuldades epistémicas. a tomada de consciência generalizada do potencial económico que detém.

Procurando uma inserção na tradição nacional. academicamente ‘policiada’. com metodologias previamente determinadas e configurações interdisciplinares rígidas ou sequer estabilizadas. Do nosso ponto de vista. em nosso entender. mas também internacional. tal como os compreendemos e são apresentados neste volume. Mais do que uma disciplina científica clássica (modo de organização científica tipicamente Moderna). é pelo facto de os Estudos Culturais constituírem um lugar de prática intensa de interdisciplinaridade. métodos e experiências de investigadores de diversas áreas. mas. que têm em comum um interesse particular pelas questões culturais. trata-se de uma área ‘pós-disciplinar’. um lugar de encontros e partilha de saberes. que atrai investigadores de muitas áreas. os Estudos Culturais. representamse como um centro gravitacional (constituído em primeiro lugar pelo problema sob investigação). organizado pela linha de investigação ‘Cultura portuguesa: declinações latino- 8 . com os seus ‘especialistas’ e paradigmas consensualmente estabelecidos (a este propósito valerá a pena reler o já clássico livro de Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas). como núcleo original. estimulando a constituição de equipas muito heterogéneas que se formam a propósito de projectos específicos de investigação.Em primeiro lugar. gostaríamos de deixar claro ao leitor desprevenido o quanto esta área dos Estudos Culturais é menos uma disciplina. mais do que isso. as conferências apresentadas no Seminário IberoAmericano em Metodologias de Investigação em Cultura. frequentemente esgotando-se no terminus desse processo investigativo. cuja acção se encontra sobredeterminada por uma questão ou problemática científica concreta. que. esta área se apresenta fluida e instável. mas simultaneamente tão desafiante e intelectualmente estimulante. quer dizer. o conjunto de estudos que aqui se apresenta teve. interessados em participar na desafiante aventura de co-construção do conhecimento científico.

Moisés de Lemos Martins procura partir de um reflexão crítica sobre a imensa latitude do ofício do sociólogo. Num segundo texto. em diálogo intenso com a própria empiria. O que é a Cultura. reflectimos sobre o seu actual estatuto académico e disciplinar. As principais linhas que atravessam todos os textos que integram a primeira parte deste volume. em articulação com a teoria e as metodologias de investigação. rigorosos. quer intensivas e extensivas. para discorrer sobre a sua 9 . tratar. c) construção de metodologias abertas e críticas. num texto que sintetiza e discute as características comuns da investigação nesta área: abordámos a história da transformação deste campo em domínio científico. podem sintetizar-se do seguinte modo: a) procura sistemática da inter. apontando. dos públicos. teorias e metodologias das ciências sociais com as das ciências humanas. sobretudo daqueles que se debruçam essencialmente sobre os fenómenos da Comunicação (como é o seu caso). e) valorização da vida. quem a investiga e como é possível produzir resultados científicos. quer quantitativas e qualitativas. que temáticas analisa. num primeiro estudo de abertura deste volume procurámos apresentar o domínio de investigação dos Estudos Culturais. d) utilização reflectida de metodologias quer explicativas e compreensivas. do quotidiano. e abordam algumas das principais preocupações metodológicas dos Estudos Culturais. as principais linhas de desenvolvimento e metodologias de investigação usadas internacionalmente nesta área. fiáveis e relevantes neste domínio constitui o núcleo de questões cujas respostas este livro se propõe. do concreto e do senso comum. pluri e transdisciplinaridade. pelo menos em parte. Assim. b) articulação das temáticas. por fim.americanas’ do Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. em Novembro de 2008.

no contexto de um Departamento de Estudos Literários português. sublinha algumas das barreiras institucionais. referindo a importância de nos determos e meditarmos cuidadosamente na ambiguidade dos fenómenos de recepção cultural. tratando—se também aqui. mas também políticos e ideológicos do mundo contemporâneo. os elementos educacionais e de investigação que estão no centro da reflexão que Anthony Barker nos apresenta no domínio dos Estudos Fílmicos. apesar da apetência que os investigadores juniores revelam por este domínio dos Estudos Culturais. teóricas e técnicas em fazer avançar este género de investigação. de compreender as práticas individuais à luz de representações que são sociais e historicamente construídas. São. como refere Rosa Cabecinhas. Nesta senda de reflexão sobre a Cultura. É ainda tomando como central a temática da Cultura que Joaquim Barbosa nos introduz nos principais núcleos da investigação linguística. 10 .própria prática ao nível dos Estudos Culturais. no âmbito dos quais destaca o conjunto de estudos e preocupações da sociolinguística. articulando a diversidade e o grau de autonomia e crítica dos públicos com as formas de legitimação e imposição do poder (dos poderes). sublinhando não apenas a sua actual relevância na contribuição para a resolução de problemas educacionais. Apresentando um balanço detalhado e crítico da sua riquíssima experiência neste domínio. trabalho que o tem aproximado do labor de hermeneuta. as suas metodologias e a diversidade dos seus níveis de análise nos colocam de imediato no centro da investigação cultural. Um quarto texto parte do paradigma próprio da Psicologia Social e discute o quanto o domínio das representações sociais. da autoria de João Teixeira Lopes sublinha algumas das principais tensões e exigências no concreto fazer da Sociologia da Cultura. igualmente. por força da ‘cinética do mundo’. e partindo ainda do terreno próprio da Sociologia. o terceiro texto. hoje mergulhado numa ‘modernidade trágica’.

concluindo mesmo pela necessidade de articular os modos de produção da ciência e da arte. Sem pretender de modo nenhum encerrar as questões aqui levantadas (pelo contrário. em Portugal). sublinhando a articulação dos diversos modos de construção do conhecimento com a tradição do fazer científico e técnico. pretendemos abrir o debate sobre esta área. abandonando o pressuposto (culturalmente) muito disseminado de que se trata de um domínio sobre o qual tudo se pode dizer ou fazer. que procurámos recolher múltiplos olhares e reflexões. o livro que agora se apresenta inaugura uma discussão que se quer clara e assumidamente comprometida com a realidade cultural envolvente. buscando activamente uma diversidade considerável de pontos de focagem académica e disciplinar. centrando-se muito particularmente na discussão epistemológica e metodológica deste modo de construção. numa espécie de ‘tear reflexivo’ ou ‘tessitura intelectual’. e o seu contrário também. no seu conjunto. análise. E foi por sabermos o quanto os terrenos do ensino e da investigação em Cultura têm de potencialmente equívoco e pantanoso. julgamos que.De dilemas e perspectivas nos fala também Maria Manuela Cruzeiro numa reflexão sobre a sua já extensa prática de investigação no contexto da História Oral. tanto na Academia como na Polis. Em jeito de balanço e reflexão mais global acerca das principais características metodológicas que perpassam as diversas investigações da ‘galáxia’ ou ‘centro gravitacional’ que temos estado a designar por Estudos Culturais. explicação e compreensão cultural. Alba Carvalho encerra a primeira parte deste livro com uma profunda e instigante reflexão sobre o exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica. quisemos neste livro dinamizar uma área de discussão epistemológica em torno dos Estudos Culturais. defendendo uma rigorosa ‘ecologia dos saberes’. Partindo da Cultura (qualquer que seja o nível de análise ou o grau de implicação vivencial que com ela tenhamos) e procurando a ela voltar no final das nossas investigações. No ponto de cruzamento e intersecção destes múltiplos olhares 11 .

O primeiro. Linguística. na segunda parte (que apresentamos sob o título Investigação em Estudos Culturais) podem ser encontrados um conjunto de estudos que ilustram.quisemos situar a discussão em torno das metodologias que cada área utiliza para abordar as questões culturais. intitulado «Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita» procura colocar em diálogo os Estudos Literários e os Estudos Artísticos (especificamente a Música e a Pintura). Assim. morais e religiosos da humanidade: a questão do livre-arbítrio. mas também apresentar exemplos muito concretos de abordagem multi e transdisciplinar na investigação de um conjunto de questões muito diferentes. mas que podem inspirar outros investigadores que desejem praticar o desafiante ‘politeísmo metodológico’ (como lhe chama Moisés Martins) para que os Estudos Culturais. nas questões respeitantes ao colonialismo português. Literatura e História Oral). «(Inter)-Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo». Estudos Fílmicos. o terceiro texto apresenta-nos um estudo que mostra até à saciedade o modo como Literatura (e a Poesia em particular) e Filosofia concorrem para o estudo de um dos mais prevalecentes e importantes problemas éticos. Psicologia Social. Sociologia. por seu turno. embora oriundos de áreas científicas diversas (Filosofia. se na primeira parte deste volume (que intitulámos Metodologias em Estudos Culturais) apresentamos as diversas perspectivas epistemológicas e metodológicas de investigadores que. em primeiro lugar) das práticas individuais. recorrendo tam- 12 . estabelece inusitadas pontes de diálogo entre os pensamentos de Boaventura Sousa Santos e Eduardo Lourenço por um lado. e Eça de Queirós por outro. a prática científica geneticamente interdisciplinar desta área. no concreto. procurando o significado colectivo (histórico. usando como conceito-chave uma das questões centrais dos Estudos Culturais: a Identidade. pela sua própria natureza. enquanto o segundo. praticam de há longo tempo a investigação no domínio cultural. já o quarto texto cruza a análise sociológica com a filosofia da história e a fenomenologia da vida. nos convocam.

bém à Literatura no intuito de aprofundar criticamente os sentidos menos evidentes dos comportamentos de risco nas sociedades pósmodernas. Por fim. quer da Linguística e ainda do Marketing. que este livro pelo menos sirva para deixar claro o quanto a área dos Estudos Culturais revela uma importante fecundidade teórico-prática e uma evidente vitalidade académica. plena de potencialidades de trabalho em redes inter e transdisciplinares. quer no contexto nacional. de modo a compreender o campo hoje delimitado por um neologismo que sinaliza o nascimento de uma nova área no âmbito dos Estudos Culturais: o folkmarketing. refira-se o prazer que constituiu poder editar um livro com uma tal riqueza reflexiva e capacidade prospectiva. quer internacional. que recolhe contribuições nacionais e internacionais de grande relevo. acolhendo no seu seio um diálogo que em Portugal só agora verdadeiramente começa. 8 de Julho de 2009 Maria Manuel Baptista 13 . o quinto e último estudo articula paradigmas teóricos e instrumentos metodológicos oriundos quer da investigação em Cultura Popular. Aveiro. Se outras virtualidades não tiver. finalmente.

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1. Metodologias em Estudos Culturais .

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O quê e o como da investigação
em Estudos Culturais
Maria Manuel Baptista1

A área de Estudos Culturais é intrinsecamente paradoxal, objecto
de discussão e incerteza. Caracterizando-se por uma forte presença
académica nos discursos intelectuais, revela discórdias internas profundas em relação a praticamente tudo: para que serve, a quem servem os seus resultados, que teorias produz e utiliza, que métodos e
objectos de estudo lhe são adequados, quais os seus limites, etc.
Na verdade, se algum ‘método’ há nos Estudos Culturais ele consiste na contestação dos limites socialmente construídos (por exemplo, de classe, género, raça, etc.) nas mais diversas realidades
humanas. A ‘naturalização’ dessas categorias tem sido precisamente
objecto de grande contestação a partir dos Estudos Culturais. Não
admira, por isso, e desde logo pela marca da contestação e crítica
constantes com que nasceu e da qual se alimenta, que este domínio
científico tenha tantas dificuldades em auto-limitar-se.
A história dos Estudos Culturais, enquanto disciplina académica
está efectivamente marcada pela contestação, já que, aquando da sua
emergência nos anos 70 ela formula e procura corresponder a uma
‘viragem cultural’ das ciências sociais e humanas. Num mesmo movimento contribuiu, igualmente, para destabilizar as fronteiras de dis1

Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro – Portugal. Comunicação
apresentada ao Seminário Ibero-Americano em Metodologias de Investigação em
Estudos Culturais, Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro,
6 de Novembro de 2008.
Toda a correspondência relativa a esta comunicação deve ser enviada para Maria
Manuel Baptista, Departamento de Línguas e Culturas – Universidade de Aveiro,
3810 Aveiro – Portugal ou via e-mail: mbaptista@.ua.pt

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Maria Manuel Baptista

ciplinas já com longa tradição académica, como a História, a Sociologia, a Literatura, entre outras.
Com efeito, os Estudos Culturais têm funcionado como agente e
sintoma na reconfiguração da estrutura disciplinar quer das Humanidades quer das Ciências Sociais, num processo que ainda hoje está
em curso e se encontra longe de estar terminado.

1. Características comuns da investigação em Estudos Culturais
Na prática, os Estudos Culturais abrigam um conjunto múltiplo
de investigadores e investigações de formação muito diversa (nem
sempre compatível) e de origens académicas e geográficas muito diferentes. Muitos investigadores chegam a esta área por razões intelectuais e até políticas muito diferentes.
De qualquer modo, há traços distintivos na forma como é praticada a análise cultural e é sobre esses elementos, por vezes contraditórios, equívocos e polémicos, que procuraremos desenvolver a
presente reflexão.
A primeira característica que gostaríamos de destacar é a ideia
de complexidade (Morin, s/d) a qual se revela primariamente como
um profundo compromisso com a ideia de complexidade do fenómeno cultural. Para além disso, os investigadores desta área colocam
um particular ênfase na produção contextual, multidimensional e
contingente do conhecimento cultural, procurando reflectir nos resultados da sua investigação a complexidade e o carácter dinâmico e
até, frequentemente, paradoxal do objecto cultural que abordam.
Uma outra característica muito frequente na análise praticada
pelos Estudos Culturais consiste no compromisso cívico e político
(no sentido grego e mais radical de intervenção e envolvimento nos
assuntos da polis) de estudar o mundo, de modo a poder intervir nele
com mais rigor e eficácia, construindo um conhecimento com rele-

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O quê e o como da investigação em Estudos Culturais

vância social (Pina, 2003). Este compromisso político (no sentido
mais lato e profundo do termo) filia-se num contexto mais genericamente definido a partir dos princípios da democracia cultural.
Ou como afirma Barker, «(…) os estudos culturais constituem
um corpo de teoria construída por investigadores que olham a produção de conhecimento teórico como uma prática política. Aqui, o
conhecimento não é nunca neutral ou um mero fenómeno objectivo,
mas é questão de posicionamento, quer dizer, do lugar a partir do qual
cada um fala, para quem fala e com que objectivos fala»(Barker,2008).
Em suma, os Estudos Culturais (e já desde a sua génese com
Stuart Hall nos anos 60, no contexto britânico (Hall,1972)) estão geneticamente ligados a um modo de produção de análise cultural que
faz convergir princípios e preocupações académicas com uma exigência de intervenção cívica, ou seja, articula inquietações simultaneamente teóricas e preocupações concretas com a polis.
Na prática tudo isto apresenta um grande grau de variabilidade
nas investigações conduzidas no âmbito dos Estudos Culturais, pois
esta dupla atenção à teoria e à prática tem resoluções contextuais
muito diversas, apresenta implicações práticas e cívicas com focus
muito diferentes e revela estilos de actuação muito específicos.
Assim, enquanto para alguns, praticar a investigação em Estudos
Culturais é uma forma de política cultural que deve sempre resistir a
disciplinarizar-se no âmbito de uma instituição académica, para outros,
os Estudos Culturais devem legitimar-se precisamente no contexto académico, o que constitui por si só um objectivo político (Bennett,1998).
Mas até o aspecto mais estritamente cívico proclamado por muitos
investigadores na área dos Estudos Culturais pode surgir na academia
de diferentes formas: o elemento ‘político’ pode estar apenas implícito,
por exemplo, numa investigação que critíca os discursos dominantes,
usando toda a metodologia e modelos das ciências sociais mais objectivistas ou, num outro extremo, apresentar-se como pura desconstrução
crítica, mesmo que seja através de um acto performativo.

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Maria Manuel Baptista

2. História breve da origem e constituição dos Estudos Culturais
Vulgarmente a origem desta área de investigação é situada nos
finais da década de 50 do século XX, em Inglaterra, tendo-se posteriormente espalhado um pouco por todo o mundo este modo de análise cultural. A sua institucionalização pode situar-se a partir da
criação, em 1964, na Universidade de Birmingham do Center of Contemporary Cultural Studies (CCCS). Criado por um professor de Literatura Moderna (de língua inglesa), Richard Hoggart, o CCCS vem
a registar uma influência máxima quer em termos geográficos, quer
em impacto nos meios académicos e extra-académicos com Stuart
Hall, já nas décadas de 70 e 80 do século XX.
Do ponto de vista teórico, a inspiração destes estudos pode também situar-se nas obras de Roland Barthes (Barthes,1967, 1972, 1977)
e Henri Lefebvre (Lefebvre,1966,1970, 1975) (França), Fiedler (Fiedler,1955, 1996) (EUA) e Fanon (Fanon,1967) (Martinique/ França e
Norte de África), entre outros.
Para além disso, e embora sem que, numa primeira fase se tenha
usado a expressão ‘Estudos Culturais’, apareceu também na América
Latina sob designações mais genéricas como ‘Comunicação’, ‘História
Intelectual’, ‘Análise do Discurso’ e ‘Estudos Inter-Disciplinares’.
O impulso e a inspiração próprias da investigação em Estudos Culturais espalharam-se por todo o mundo, tornando-se uma área de estudos transnacional, da Suécia e Alemanha até à Austrália e ao Quénia. Em
consequência deste rápido e prodigioso desenvolvimento, os Estudos
Culturais passaram a apresentar-se como uma prática intelectual dispersa, cujo único centro talvez tenha passado a ser o de procurar articular
e fazer dialogar três nós problemáticos essenciais: cultura, teoria e acção
cívica. Não obstante esta dimensão de fragmentação e pulverização, foise assistindo, paralelamente, ao nascimento dos Estudos Culturais como
uma área mais circunscrita e institucionalizada e gozando de reconhecimento académico num número limitado, mas crescente, de países.

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O quê e o como da investigação em Estudos Culturais

Recuando ainda um pouco às suas origens, cabe sublinhar que,
inicialmente, a actividade do CCCS consistia em promover a cooperação entre as diversas áreas do conhecimento, procurando estimular a
investigação em interdisciplinaridade, ao mesmo tempo que enfatizava
a necessidade e importância de uma ligação prioritária a temas da actualidade. Para além disso, procurava, em primeiro lugar, dirigir a sua
atenção para o estudo das classes trabalhadoras, das culturas de juventude, das mulheres, da feminilidade, da raça e etnicidade, das políticas
culturais da língua e dos media, entre muitos outros. O que poderemos
sublinhar de interesse comum em todos estes objectos de investigação
é o facto de todos os estudos procurarem revelar os discursos marginais, não-oficiais, ou daqueles que propriamente não têm voz.
Em síntese, trata-se de estudar aspectos culturais da sociedade,
isto é, de tomar a cultura como prática central da sociedade e não
como elemento exógeno ou separado, nem mesmo como uma dimensão mais importante do que outras sob investigação, mas como algo
que está presente em todas as práticas sociais e é ela própria o resultado daquelas interacções.
Nos anos 70 do século passado, o CCCS integrava criticamente
contribuições teóricas diversas que iam desde o pós-estruturalismo
francês (a linguística estrutural de Saussure (Saussure,1960) e a semiótica social de Roland Barthes (Barthes,1972), bem como a psicanálise de Lacan (Lacan,1977) e o marxismo estrutural de Althusser
(Althusser,1969, 1971) e até Gramsci (Gramsci,1968, 1971), sintetizando o paradigma estruturalista e o culturalista.
O elemento central desta integração teórica e destes múltiplos
aportes metodológicos passou a ser a prática duma actividade crítica,
que se tornava apelativa porque abordava questões da experiência
quotidiana, esta que se constituía de modos cada vez mais complexos,
contraditórios e fraccionados. Por outro lado, recuperavam-se questões sobre a contemporaneidade que as academias haviam considerado triviais ou difíceis de estudar.

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mas por vezes participantes empenhados no desenvolvimento de projectos de investigação em Estudos Culturais encontram-se economistas. em vez de se compartimentarem os problemas. revistas. o que não podemos deixar de sublinhar é que daqui resulta um cruzamento disciplinar que não é só mistura caótica mas. Psicologia. Assim.1992). Antropologia. Será já nos anos 80 e 90 que se assiste à institucionalização dos Estudos Culturais em diversas partes do mundo. da complexidade multifacetada de um problema em particular. organizações profissionais. Entre as diversas formações dos investigadores que trabalham nesta área. Geografia. 3. Linguística. transformado em Department of Cultural Studies and Sociology) encerra as as suas actividades. menos presentes. entretanto. frequentemente. verdadeira interdisciplinaridade que 22 . Em 2002 o CCCS (que foi. etc. através do uso de diferentes perspectivas.Maria Manuel Baptista Metodologicamente. mais do que interdisciplinaridade tratavase essencialmente de reconhecer a complexidade e as limitações de objectividade no contexto dos Estudos Culturais. passou-se então a integrar diversos métodos capazes de darem conta. Estudos Fílmicos. Apesar desta diversidade. destacam-se aqueles que são oriundos dos Estudos Literários. desde a sua génese. apesar do crescente interesse pelos Estudos Culturais em todo o mundo. estabelecendo-se programas académicos e departamentos. juristas e peritos em relações internacionais. O estatuto disciplinar e académico dos Estudos Culturais Os Estudos Culturais apresentam-se. História. Sociologia. menos como uma disciplina e mais como um ‘campo gravitacional’ para intelectuais de diferentes origens (Bennett. centros de investigação. Educação e Filosofia. abandonando qualquer pretensão de encontrar explicações causais e definitivas para as realidades em estudo. Comunicação.

preconizada por Marx). de algumas discussões entre as áreas dos Estudos Literários e dos Estudos Culturais (Silvestre. Esta linha de investigação tem frequentemente conduzido os investigadores a desenvolverem os seus projectos centrando-se nas relações entre o poder e os mercados. Porém. todo um conjunto de trabalhos que se têm centrado no estudo dos fenómenos de mercantilização generalizada. em primeiro lugar. Uma outra vertente importante no âmbito dos Estudos Culturais tem aprofundado fenómenos ligados à noção de Estado nas sociedades 23 . Linhas de desenvolvimento da investigação em Estudos Culturais A propósito das linhas de desenvolvimento da investigação em Estudos Culturais. entre outros. também a educação e a formação nesta área apresenta conflitos teóricos e práticos. No entanto.1999)).1984). articulando-os com a cultura popular. ou desenvolvendo as relações entre textos e audiências. induzidos pela cultura contemporânea (sublinhe-se aqui a importância de uma postura crítica trazida pela Escola de Frankfurt. é mais difícil. quer ao nível metodológico quer teórico. é no ponto de convergência entre estas duas tendências que os Estudos Culturais são mais inovadores e podem trazer as mais importantes contribuições para o progresso e desenvolvimento científicos. metodológicos e estilísticos de origem diversa. onde o diálogo interdisciplinar.O quê e o como da investigação em Estudos Culturais procura resolver um conjunto de problemas culturais através do uso de paradigmas teóricos. refira-se. e de um modo um tanto paradoxal. na linha dos estudos de Pierre Bourdieu (Bourdieu. a maior clivagem nesta área diz respeito às diferenças entre a aproximação mais ‘textual’ (tipicamente das ‘humanidades’) e a mais ‘sociológica’ (tipicamente ligada às ‘ciências sociais’). mas também a consensos diversos (como é o caso. os quais têm conduzido a disputas. 4.1984) e Certeau (Certeau. Como se pode facilmente deduzir do que ficou dito. mas também a relevância da reflexão sobre a agenciosidade.

1980) até aos trabalhos sobre o poder e o micro-poder de Foucault (Foucault.1978) com consequências na produção do sentido e nas diversas representações (do Estado. articulando-a com questões de desterritorialização da cultura. diáspora. colonialismo e pós-colonialismo. os investigadores destas áreas têmse centrado no estudo dos fenómenos relacionados com a Globalização. dando origem a uma importante massa de resultados de grande qualidade e importância fora e dentro das academias.2003.1995) e pouca sobre métodos. choques civilizacionais. e mais recentemente. Mcguigan. movimentos transnacionais de pessoas. etc. raça.1987). bem como sobre a condição pós-moderna de abandono e descrédito das meta-narrativas (Lyotard. fenómenos de terrorismo.1995. Por fim. Já o estudo relativo aos modos de construção política e social das ‘identidades’.Maria Manuel Baptista capitalistas contemporâneas. de uma forma geral. Neste domínio tem sido ainda objecto de pesquisa a nova sociedade em rede. os estudos nesta área são predominantemente qualitativos e a verdade é entendida como relevando essencialmente do 24 . Gray. sexo e género. têm sido das temáticas mais investigadas nos últimos anos. a crise ambiental global.2008). Principais metodologias usadas nos Estudos Culturais Sublinhe-se que. tem havido muita produção sobre metodologia (Alasuutari. no âmbito dos Estudos Culturais. Um terceiro domínio de interesse no âmbito dos Estudos Culturais tem-se desenvolvido em torno do estudo sobre a luta pela hegemonia e contra-hegemonia (Gramsci. De qualquer modo. etnicidade. 5. entre outras temáticas. bens e imagens. mas também dos movimentos cívicos e sociais). Estes projectos têm ido desde os ‘aparelhos ideológicos do Estado’ de Althusser (Althusser. abordando as questões da nação.

por fim.2008). Todorov. mas a compreensão do significado mais profundo dos discursos e das representações sociais e culturais. procura articular de forma profunda e fundamentada a abordagem empírica e teórica.O quê e o como da investigação em Estudos Culturais campo da interpretação e do ensaio crítico. Sublinhe-se o quanto.1977).1980. Em todos os casos. Tem como elemento fundamental a concentração no detalhe do quotidiano enquadrandoo no todo da vida social. na linha de Derrida. a investigação em Estudos Culturais trabalha essencialmente com problemas de ‘tradução’ e justificação. 1991)ela designa essencialmente procedimentos de observação participante. nesta perspectiva. de entre as metodologias mais frequentemente usadas nos Estudos Culturais destacam-se as seguintes: a) Metodologia etnográfica. numa perspectiva essencialmente ligada à teoria narrativa os textos são vistos e compreendidos como histórias que procuram explicar o mundo e fazem-no de forma sistemática. a abordagem textual apresenta resultados diversos de acordo com os diferentes modos de tratar o texto: numa perspectiva semiótica o texto é visto como signo. pro- 25 . com uma estrutura frequentemente repetitiva (Neale. estilos de vida e identidades. que enfatiza o elemento vivencial da experiência b) Abordagem textual c) Estudos de recepção Quanto à metodologia etnográfica (Rorty. a vigilância auto-crítica e a reflexividade sobre os métodos a usar tem sido vista nesta área como o elemento crucial a garantir o rigor e a qualidade dos resultados. entrevistas em profundidade e grupos focais.1989. De acordo com Barker (Barker. não procurando propriamente a ‘verdade objectiva’. Para isso. Por seu turno. Compreende-se assim que esta metodologia se encontre particularmente apta para abordar questões de cultura. a abordagem desconstrucionista. procurando encontrar-se aí ideologias e mitos.

pois proporciona os instrumentos lógicos para pensar o mundo de um modo mais profundo.1981). quer nos campos da literatura quer no âmbito da teoria pós-colonial. distinguindo o que um texto diz daquilo que ele significa. e no que se refere aos estudos de recepção. a investigação parte da consideração de que o sentido do texto é activado pelo leitor. etc. o leitor também produz sentido não tanto a partir do sentido inicial. têm-se desenvolvido duas linhas fundamentais: a) o modelo ‘codificação/descodificação’ (Hall. Na verdade. em seguida. social. etc.Maria Manuel Baptista cura. preto/branco. Assim. mas das oscilações entre o texto e a sua própria imaginação. a partir dos quais as teorias seriam deduzidas para. Iser. No âmbito dos estudos de recepção. pelo que a descodificação da mensagem pode não coincidir com o sentido original. crítico e rigoroso. Finalmente. b) o modelo clássico da tradição hermenêutica e literária (Gadamer. 6.1976. serem elas próprias testadas e validadas pelos factos. que defende a perspectiva de que a compreensão depende sempre do ponto de vista daquele que compreende. que sublinha o facto de a codificação ser polissémica.1978). 26 . Conclusões A teoria ocupa um lugar central e determinante nos Estudos Culturais. sobretudo se uns e outros não partilharem o mesmo meio cultural. surpreender os pares hierárquicos clássicos da cultura ocidental (homem/mulher. audiência ou consumidor. económico. realidade/aparência.). os Estudos Culturais rejeitam a ideia empiricista de que o conhecimento é simplesmente uma questão de coligir factos. O modo como um tal processo se desenvolve em cada contexto histórico e social é o objecto destes estudos.

colaborando na construção do que pode-ríamos designar pela (inter)disciplina ou pós-disciplina que é hoje o domínio de investigação dos Estudos Culturais. nos Estudos Culturais a teoria está sempre implicada no trabalho empírico através de um conjunto de decisões metodológicas e posicionamentos epistemológicos presentes sobretudo nas fases de escolha do tópico a investigar. bem como pelo uso de paradigmas. as questões próprias da investigação em Estudos Culturais multiplicam-se e constituem focos problemáticos de luta intelectual contínua. 27 . Deste modo. como um desafio à construção de uma cultura de diálogo entre as diferentes disciplinas. na focalização da investigação. de definição. os investigadores têm revelado ao longo dos anos a invariável e persistente vontade em se comprometerem com a complexidade do fenómeno cultural. de predição e controlo das conclusões a que se chega. podendo complementar-se. bem como ter um papel desmistificante em face de textos culturalmente construídos e dos mitos e ideologias que lhes subjazem. Apesar disto. É precisamente este apelo à interdisciplinaridade que se constitui. equívoco e problemático. teses e conceitos através dos quais a empiria é interpretada e discutida. de Cultura. Sublinhe-se que nenhuma das linhas de investigação propostas no âmbito do Estudos Culturais se exclui mutuamente.O quê e o como da investigação em Estudos Culturais Pelo contrário. antes sugerem múltiplas possibilidades de cruzamentos. repensar mecanismos de descrição. que têm apenas como ponto unificador o conceito. até porque os métodos utilizados apesar de serem diversos. no âmbito dos Estudos Culturais. é objectivo primeiro dos Estudos Culturais construir um discurso crítico e auto-reflexivo que procure constantemente redefinir e criticar o trabalho já feito. Em síntese.

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Os historiadores utilizam fundamentalmente os arquivos. E também os cientistas políticos. Generalizando. Interpreto textos. e ainda textos pedagógicos e filosóficos. os meus caminhos. Mas foram os sociólogos quem mais fez pela popularidade dos inquéritos e das entrevistas. 1 Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho. Sabemos como os geógrafos e os demógrafos se tornaram especialistas na utilização dos inquéritos. Ora. todavia. não apenas com preocupações académicas.Para um ‘politeísmo metodológico’ nos Estudos Culturais Moisés de Lemos Martins1 1. Tenho passado quase toda a minha vida académica a ler e a interpretar textos. quem lê textos e se entrega à tarefa de os interpretar é um hermeneuta. Ofício de sociólogo Sendo eu um sociólogo. às escalas de atitudes. E é assim que me vejo. mas igualmente com preocupações cívicas. mas também textos de natureza religiosa.uminho. não têm sido estes. não são todavia as ferramentas-fetiche entre os cientistas sociais aquelas que por norma utilizo. aos estudos focais e às entrevistas. Os psicólogos sociais recorrem por regra a metodologias experimentais e empíricas. Sendo sociólogo. como um hermeneuta. e mesmo textos literários. moisesm@ics.pt 31 . E textos de variado tipo: textos de carácter político. Os antropólogos fazem da observação participante a sua ferramenta principal. E comparo-os. talvez não seja excessivo dizer que não existem cientistas sociais para quem o inquérito e o seu tratamento estatístico não sejam uma importante ferramenta de investigação. e utilizam com a mesma mestria e eficácia os inquéritos.

Quem se ocupa de literatura. nas palavras de Manuel Castells (2002). Mas que um sociólogo faça isso e que. que são. o aproximar do trabalho do filósofo e do crítico literário. sendo esta uma cultura de «comunicação generalizada». para mim. uma espécie de arqueologia do meu modo de trabalhar. instala uma dúvida teórico-metodológica. Para simplificar. Apenas de há meia dúzia de anos para cá. faça apenas isso. Instabilizando fronteiras entre disciplinas académicas. 2 O meu mais recente estudo: Martins.Moisés de Lemos Martins Se não falasse do interior do campo das Ciências Sociais. «Ce que peuvent les images. dado o facto de o trabalho do sociólogo. Les Cahiers Internationaux de l´Imaginaire. deste modo perspectivado. o género e a identidade ‘étnica’ afectam as relações que estabelecemos com a cultura. a idade. E apenas em meados dos anos oitenta. direi que o meu território é o dos Estudos Culturais. por norma não faz coisa diferente: lê e compara textos. nos exactos termos em que Armand Mattelart e Érik Neveu (2003) os concebem. o que sempre enformou o meu modo de trabalhar foi a produção de um olhar que questionasse as implicações políticas do cultural. E também Teoria da Cultura. 1: CNRS. me ocupo mais de imagens do que de discursos. 32 . depois de Olivier Donnat (1994: 284) lhe ter chamado «cultura do ecrã» e Lash e Urry (1994: 16) a terem caracterizado pelo «paradigma do vídeo». 158162. ou uma cultura da «rede». E sobretudo tenho-me interessado pela importância crescente das imagens tecnológicas na cultura2. Trajet de l´un au multiple». no dizer de Gianni Vattimo (1991: 12). é que trabalhei com o inquérito e a entrevista. pois. (2009). com o decorrer do tempo. M. ninguém veria nada de especial nesta minha estratégia de investigação. pp. Mas durante uma dúzia de anos ensinei Semiótica e Teoria do Discurso. mesmo no princípio da minha carreira académica. Hoje ensino e investigo Sociologia da Comunicação. Nos Estudos Culturais este propósito estende-se da interrogação sobre o modo como o meio social.

há tempos. Vou. Vou inspirar-me no texto de Roland Barthes (1987) «Ao Seminário / no Seminário» para dar o tom à proposta que entendo fazervos. sabem do seu ofício e têm um grande traquejo em estudos desta natureza. Está. desi-gnadamente crianças e jovens. Os investigadores são sociólogos experimentadíssimos na sua arte. etc). colocou-me a mim. que é feita a imigrantes e a idosos.Para um ‘politeísmo metodológico’ nos Estudos Culturais à indagação sobre o modo de compreender a recepção dos conteúdos dos média (programas televisivos. polvilhado de mapas e gráficos. falar do meu ofício e do modo como o exerço. O estudo deu conta de uma sondagem nacional feita sobre a recepção dos média. Foram seus autores principais os Professores José Rebelo. ciberjornalismo. Uma das questões que me tenho colocado tem sido a de interrogar a relação que os actores sociais têm com os média. blogues. Estive. na Fundação Calouste Gulbenkian. rádio e televisão). filmes. publicidade) pelos diversos públicos. próprios da sociedade de consumo. intitulado Estudo de Recepção dos Meios de Comunicação Social (2008). numa Conferência sobre «A Regulação dos Média». seja os novos média digitais (Internet. pois. pessoalmente. Apresentei e comentei um estudo feito por sociólogos. seja os média clássicos (imprensa. sendo eu um investigador da comunicação. passando pela larga indagação sobre os estilos de vida. E tem muitas observações de cariz etnográfico. E 33 . Este estudo sobre a recepção dos média pelos portugueses em geral. portanto. Aplicou inquéritos a alunos de escolas da grande Lisboa. Pus-me a pensar em algumas das conclusões a que tenho chegado em vinte anos de investigação sobre os média e confrontei-me com as conclusões do estudo. organizada pela Entidade Reguladora para Comunicação Social (ERC). e também por segmentos específicos da população. perante um aliciante desafio. matérias da imprensa. uma sociedade globalizada e marcada pela experiência electrónica. autorizadas pela utilização da metodologia dos grupos de foco. idosos e imigrantes. Cristina Ponte e Isabel Ferin. como aliás os autores do estudo que eu analisei.

que constituem outros tantos modos de inscrever as práticas no tempo da comunidade. que tantas vezes têm visto ser coarctada. embora pudessem e devessem saber coabitar pacificamente. A cinética do mundo e a construção do olhar Um dos modelos de acção social insiste na ideia de que o indivíduo é autónomo. somos por regra confrontados com dois modelos de acção social. com ideias próprias sobre a realidade social e como participantes e contribuintes na estruturação dessa mesma realidade. que pensam as práticas humanas por relação à temporalidade. o modelo adoptado pelos investigadores que referi. uma das questões que me colocava o estudo: que relação têm os distintos públicos com os distintos média? Que usos lhes dão? O que é que pensam deles? O que esperam deles? Como é que se sentem afectados por eles? Sentem-se muito ou pouco satisfeitos com eles? Tanto eu como os investigadores deste estudo interrogamos práticas sociais. a sua capacidade de acção autónoma. As práticas humanas têm um tempo local. Inscrevo-me na grande tradição historiográfica de Fernand Braudel (1985) e sociológica de Georges Gurvitch (1955). sem dúvida. que é na verdade o seu grande escultor. Mas existe um outro modelo de acção social. Mesmo «públicos sensíveis». como as crianças e os jovens. Quando falamos de práticas sociais. Esse modelo articula as nossas acções com um quadro de constrangimentos históricosociais que nos são impostos. Podemos 34 . como diria Marguerite Yourcenar. livre e racional. E tem sido esse o meu caminho. nem sempre são de bom convívio. em todo o caso diminuída. Mas não o fazemos da mesma maneira. são neste estudo perspectivados em termos activos.Moisés de Lemos Martins era essa. também. Por essa razão. ou então ignorada. que é o tempo da experiência. exactamente. os idosos e os imigrantes. E é este. 2. livre e racional.

No entanto. E no mesmo sentido abonam André Joly (1982: 117) ao considerar uma «consciência pragmática». o meu questionamento difere do dos autores do 35 . com relações de força que correspondem a posições sociais assimétricas dos actores sociais. As práticas humanas têm também um tempo contextual. que lhe chamou regras da prática: «“seguir uma regra” é uma praxis». ocupando os indivíduos determinadas posições de força. pensando agora no caso dos usos que fazemos dos média. é o conhecimento da natureza e do modo de funcionamento das instituições. Entre o tempo da experiência e o tempo contextual anda o tempo da prática. as práticas sociais ocorrem no interior de uma estrutura com uma lógica social específica. relações sociais assimétricas. que são forças sociais reificadas. com os outros e com nós mesmos. como já referi. o tempo da «intempestividade». Tenho seguido a hipótese de que as práticas são determinadas por um «campo de forças sociais» (Bourdieu). Ou seja. 1991: 45). de mais ou menos poder. e também por «estados de poder» (Foucault). 280) ao referir uma «consciência prática» e Pierre Bourdieu (1972) ao insistir num «sentido prático». o «inactual» (1988). Wittgenstein (1995: I 202). entre outros autores. assim como o conhecimento dos mecanismos que governam os fenómenos culturais. atitudes e práticas.-141) lhe é sensível ao assinalar a «prisão invisível» a que a prática está sujeita. ou seja. onde se jogam. Ou seja. o tempo que está em acto. Anthony Giddens (1990: 278.Para um ‘politeísmo metodológico’ nos Estudos Culturais dizê-lo com as palavras de Nietzsche. que dão aos actores sociais uma possibilidade real para modificarem as suas ideias. com as palavras de Foucault (apud Eribon. Também Jacques Bouveresse (2003: 140. os constrangimentos da prática. ou então. e também o tempo das micro-narrativas (Lyotard. 1979). o tempo de um dado campo social. dos modos como os imaginamos e das expectativas que temos relativamente a eles. a posições de mais ou menos poder num dado campo social. o tempo biográfico: o tempo do nosso embate com as coisas. a que se referem. forças sociais feitas instituição.

2. parte das regras da prática. como diz Giorgio Agamben (1995). por sua vez.2. 2004)). Somos hoje também uma sociedade de «meios sem fins». a importância crescente daquilo a que Mário Perniola chama «ordem sensológica». com a sensibilidade e as emoções a levarem a melhor sobre as ideias e com a bios a misturarse com a techné. uma vez que parte de uma interrogação sobre o quadro actual de constrangimentos que nos são impostos. num processo acelerado de estetização geral da existência humana. de uma pele tecnológica. o desejo. neste contexto. como se lhe refere Peter Sloterdijk. o tempo da «economia-mundo» (Wallerstein). 2. todavia: que quadro de constrangimentos globais são esses que enquadram a prática? Que regras são essas? Assinalo. depois do afundamento das verdades tradicionais. Derrick de Kherckhove (1997) fala mesmo. ou para o ecrã. Considero que a nossa prática social não é dissociável daquilo a que Mário Perniola chama a “ordem sensológica” (1993). ou seja. Este quadro de constrangimentos. que se impõe à antiga «ordem ideológica». 36 . podendo falar-se hoje.Moisés de Lemos Martins estudo. da quebra da confiança histórica e da deslocação civilizacional da palavra para a imagem. e assinalo ainda a actual cinética do mundo. um movimento de «mobilização infinita» para ao mercado global. por um lado. a sedução e a pele a constituírem-se como valores prevalecentes na nossa cultura. assinalo também a implantação de uma sociedade de «meios sem fins» (Agamben). que é o tempo da «sociedade em rede». com toda a experiência a constituir-se em «experiência sensível». não é dissociável daquilo a que chamo «tempo global». o tempo da globalização. por exemplo.1. com a emoção. Uma pergunta. A nossa atmosfera é cada vez mais sensitiva e libidinal. Passo a explicitar. no sex-appeal do inorgânico (Perniola.

Ulrich. a monumental obra de Robert Musil (2008). E Ulrich somos nós. a sua natureza. «história sem Génese nem Apocalipse». e os cidadãos surgem esgazeados pelo vórtice da velocidade e a funcionam cada vez mais como consumidores. de redenção.da eternidade (o tempo da promessa. tem consciência de que em nenhuma época como na nossa foi acumulado tanto conhecimento. pela Dom Quixote (com prefácio. em português. deste modo. A principal personagem da obra. A cota da cidadania baixou consideravelmente. uma história presenteísta. que já não caminha para um fim. o grave da historicidade (o tempo da nossa responsabilidade pela permanência do sentido de comunidade). Celan assinala que nós somos seres do tempo e que ao tempo três acentos lhe convêm: o agudo da actualidade (o tempo do nosso confronto como outro e com as coisas). o sentido de comunidade diluiu-se e perdeu para o tribalismo. Simplesmente. Em o Meridiano. em que a sociedade é de «meios sem fins». sem redenção. A segunda ilustração de que o nosso tempo deixou de ser o lugar da realização de um propósito narrativo. de uma estrutura dramática (de contradições com uma síntese reden- 37 . está bem explícito em O Homem sem Qualidades. A nossa época vê alterada. de um propósito de emancipação histórica.Para um ‘politeísmo metodológico’ nos Estudos Culturais «Meios sem fins». comentário e notas de João Barrento). ou seja. e o circunflexo que é um sinal de expansão tempo . o problema está em que nos encontramos hoje com todos os acentos em falta. Duas ilustrações sobre este constrangimento da prática. Mas igualmente em nenhuma época como na nossa os homens se sentem tão incapazes de intervir no curso da história. A primeira ilustração tomo-a do poeta austríaco Paul Celan (1996). uma história sem teleologia. e também uma história sem escatologia. que acaba de ser reeditada. que nos arranca à imanência).

para um mercado global. acelerado e mobilizado. pela tecnologia.3. ou seja. o mercado global e o pensamento da técnica. ou seja. A conjugação destas regras da prática. Entretanto. Peter Sloterdijk (2000) fala hoje de uma «mobilização infinita». E como consequência do entendimento que faço deste quadro de constrangimentos. Usava então uma metáfora bélica. e as consequentes crise da verdade e o “empobrecimento da experiência”. 38 . mobilização infinita do humano para o mercado) produz nos actores sociais o cérebro de indivíduos empregáveis. de que fala Michel Maffesoli (2000). ou por outra. Esta mobilização infinita para o mercado global. Existe ainda uma outra regra que se impõe à prática e que eu gostaria de convocar aqui. 2. vai colocar o humano numa crise permanente. e também a crise do narrador (Benjamin: 1992). sociedade de meios sem fins. concluo pela «crise permanente do humano». crise permanente da cultura. competitivos e performantes. É esse o sentido do «regresso do trágico». através da tecnologia. as grandes regras da prática são.Moisés de Lemos Martins tora) para uma estrutura trágica (de contradições sem happy end). com a crise da razão histórica. ordem sensológica. que o mesmo é dizer. em síntese. E eu diria que é essa hoje a nossa condição. Já nos anos trinta do século passado. em que as tecnologias da informação suportam o mercado global e as biotecnologias fantasiam melhorar a vida humana. destes constrangimentos (relembro-os. Ernest Yünger assinalara que a época estava a ser mobilizada pela tecnologia. a crise das grandes narrativas (Lyotard: 1979). Le retour du tragique dans les sociétés post-modernes. L’Instant éternnel. Refiro-me ao facto de o humano estar a ser investido. O «rei clandestino» da nossa época (Simmel). numa das suas obras recentes.

conduzem. na análise das expectativas que temos relativamente a eles. em quase quatrocentas páginas. Mas as minhas escolhas metodológicas. não faz dos «contextos sociais» o equivalente daquilo que eu considero como «regras da prática». nacionalidade…). uma distinção de monta na perspectivação da realidade social. por diferentes localidades. de idosos de mais de sessenta e quatro anos. Dado então o exemplo que eu tomo aqui. No estudo que eu analisei. a meu ver. que existe neste estudo. o estudo que analisei centra a atenção na capacidade de acção autónoma. Refiro-me à consideração do ‘tempo global’. uma temporalidade que caracteriza as estruturas económicas. como constrangimentos estruturais da acção humana. Eu entendo. simbólicas e culturais duráveis da sociedade e que afecta as regras da prática. livre e racional do actor social. que é o de a pesquisa dos média adoptar distintos modelos de acção social. a linha condutora dos autores do estudo. e mesmo por nacionalidade.Para um ‘politeísmo metodológico’ nos Estudos Culturais 3. a que Fernand Braudel e Georges Gurvitch chamaram “tempo longo”. É essa.-me a uma conclusão que também me parece importante. inquéritos. E está aí. Penso que a referência a «contextos sociais». vou levar um bocadinho mais longe as minhas considerações. assim nós estejamos a falar de jovens dos 14 aos 18 anos. como na análise das ideias que temos sobre eles. através de sondagens. tanto na análise do usos que fazemos dos médias. graus de escolaridade e diferenças de género. antes de concluir esta comunicação. género. e ainda. escolaridade. sem dúvida. que se distinguem por faixas de idade específicas. que são diferentes. A modernidade trágica Como já assinalei. ou de imigrantes. essa capacidade tem ainda outros cambiantes gradativos. 39 . entrevistas e grupos de foco. que as práticas dos indivíduos ocorrem e variam com específicas condições de tempo. lugar e interlocução (idade. Sem dúvida uma capacidade com gradações diversas. como aliás assinalei.

Penso que é. o sobreaquecimento do mundo pelo eco de um jornal. E é pela mesma razão. que vemos Guy Debord insistir no crescente processo de anestesiamento da vida. 1993. esgotando-se este em espectáculo e euforia. com o quotidiano transformado na presa fácil de uma transcrição ruidosa e incessante que o nega enquanto quotidiano em que arriscamos a pele. Quanto a Baudrillard. de simulacros. Também Norbert Elias viu na excitação uma característica da sociedade actual. um tempo sensológico. idosos e imigrantes. o ponto de partida é o ‘tempo global’. conhecemos o seu conceito de realização do real como simulacro (Baudrillard. um processo de congelação dissimulada do mundo (Debord. 2000: 20). quando se refere ao aquecimento e ao arrefecimento dos média. de facto. jovens. com o carácter de tipos ideais. ou para falar como Max Weber. 3 A ideia de “crise da experiência” começa por ser referida em Benjamin no seu texto sobre “O narrador” e parece hoje em fase imparável pela aceleração tecnológica do nosso tempo. por sua vez. pensamento que é. meros simulacros.Moisés de Lemos Martins Na perspectiva adoptada pelo estudo dos meus colegas sociólogos. que tem tanto de fascinante como de inquietante (Perniola. num tempo contextual. Nos termos da orientação que tem sido a minha. ao caracterizar a experiência contemporânea. o ponto de partida é a razão soberana de indivíduos autónomos e livres. o que torna “insuportável o nosso quotidiano” (Agamben. de mobilização infinita. que não passam de “guardiões do sono” da razão. retomado por McLuhan. pela consideração de um conjunto de constrangimentos globais que se aplicam às regras da prática. ou então de crianças. 1991: 16). 2004). um tempo trágico. Perniola. para falar ainda como Guy Debord (1991: 16)3. hoje. introduz o conceito de “já sentido” e interroga-se sobre o sex appeal do inorgânico. Agamben fala da impossibilidade em que nos encontramos. e ainda por Maffesoli. de nos apropriarmos da nossa condição propriamente histórica. 1981). depois de Nietzsche já haver assinalado. aliás. 40 . que existe em Walter Benjamin (1982: 173) essa ideia de que os média esgotam a actualidade em novidade. Utilizo estas metáforas com carácter heurístico. em simulacro do novo. de meios sem fins. seja de adultos. há mais de um século.

sabemo-lo desde Dilthey e Schleiermacher. que recita sempre o mesmo melancólico conto da permanente hemorragia do humano (Martins. 145-163. um aliciante desafio poder apresentar aqui. mais viradas para a estática social do que para a dinâmica. ainda que de forma sucinta. movimento. relação. podemos acentuar mais o processo explicativo. processo esse em que participam os média. para utilizar as clássicas categorias de Comte e Gurvitch. ou seja. É verdade que o meu entendimento é feito de convicções fortes. a verdade e o poder. O que não podemos nunca é dispensar um pólo do movimento hermenêutico em favor do outro4. desenvolvi este ponto de vista em A linguagem. Por opção metodológica. o meu ponto de vista sobre metodologias de investigação da cultura. é certo. mais interessadas por aquilo que no social é coisa e estado de coisa. ou seja instituição. 41 . mais explicativas do que compreensivas. como assinalei. Mas não fecha os olhos nem ignora outras ferramentas. corpo. formulei em tempos a ideia de que os média são «o pensamento da nossa modernidade trágica». especificamente nas pp. Para não concluir Foi para mim. do que o compreensivo.Para um ‘politeísmo metodológico’ nos Estudos Culturais ao assinalar a efervescência social. Ou então o inverso. vive da tenção que explicar e compreender estabelecem entre si. Mas todo o verdadeiro processo hermenêutico. e não tanto processo. Eu próprio. acentuar mais a compreensão do que a explicação. ao valorizar as regras da prática. 4 Em 2002. 2002 a). a euforia.

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. construir observatórios de públicos in situ. proceder à caracterização etnográfica dos modos antropológicos de recepção dos públicos em formação. seguindo o princípio defendido por Madureira Pinto: “procurar conciliar. para além do necessário mas insuficiente conhecimento sociográfico. capazes. regularidades e comparações. exigência. do próprio cariz relacional do objecto de estudo em causa. a etnografia dos públicos em acção permitirá. na organização global da pesquisa. Antes de mais. por esta ordem (e sublinho: “por esta ordem”) (.. particularmente 1 Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto 45 . 2004: 26).) acredito que a análise conduzida à escala macro e meso segundo procedimentos de natureza mais extensiva. apesar da grande vantagem de fazerem sobressair determinações. numa primeira fase. de construir tipos-ideais e perfis (como de resto já acontece entre nós. extensividade e intensividade. por generalismo. particularmente nos estudos do Observatório das Actividades Culturais). Dito isto. negligenciam. por conseguinte.Para uma etnografia dos públicos em acção João Teixeira Lopes1 No momento actual de desenvolvimento da Sociologia da Cultura exige-se o exercitar da imaginação metodológica no estudo dos públicos. tem precedência lógica e teórica sobre os procedimentos observacionais ditos «etnográficos» (Pinto. em todo o ciclo que vai da problematização teórica até à fase da observação. na conciliação entre quantitativo e qualitativo. numa segunda fase. as trajectórias individuais e dos micro-grupos. assim o creio. convencionalmente associados à sociologia. porque os instrumentos estritamente quantitativos. aliás. para. isto é. Importa. restituir à sociologia dos modos profanos de recepção.

é fundamental partirmos do conceito de art world para compreendermos a cadeia de implicados na produção da obra cultural. Aliás. Mais ainda: o facto de as obras culturais serem virtualmente ambíguas e plurívocas (tanto na forma como no conteúdo . tantas vezes mitigadas ou mesmo silenciadas. Reading the Romance (Radway. dos modos e perfis de recepção. consequentemente. A multiplicação de exemplos que esta autora fornece será de enorme utilidade para a dinâmica pedagógica (Press. Verdadeiro marco dos Cultural Studies. 1991). Andrea Press relaciona as mudanças na estrutura social com a diversificação dos públicos e. defendo o cariz incompleto. Por outro lado. Situemo-nos no já célebre estudo de Radway. 1994). emocionais e afectivas.. relembrar aos alunos a teoria da estruturação de Anthony Giddens e o próprio conceito de agência. pressupondo-se a existência de um agente social implicado na (re)produção das estruturas e não um reactor sonâmbulo.João Teixeira Lopes no que respeita às dimensões corporais.. Ao falarmos de apropriações e de modos de relação com a cultura entramos. já. possibilitando um enriquecimento do jogo de expectativas e dos próprios mapas culturais e simbólicos dos sujeitos. na rejeição do modelo behaviourista do estímulo/reflexo. na esteira de Umberto Eco (Eco.ou não fossem as grandes revoluções formais verdadeiras revoluções totais. em que a forma é conteúdo. indeterminado e aberto das obras culturais. permitiu um 46 . Pelo contrário. Assim. neste sentido. pretendo referir-me a uma das características ideais-típicas do sujeito social contemporâneo. a este respeito. um alegre robot ou uma marioneta. que fique bem claro: o receptor potencialmente apto a reinterpretar mensagens e seleccionar sentidos não é o «novo herói da cultura» de que nos fala Mike Featherstone. Será importante. é mais um praticante cultural do que um consumidor.) é uma das condições do próprio agir comunicacional. O receptor cultural. 1989). esticando tal pressuposto até ao receptor.

identificando-se com certas personagens.. De facto. os críticos e os públicos. criando espaços-tempos de maior autonomia. o ofício de receptor revela-se como um processo activo e criativo. apesar da importância da autoridade cultural na selecção de livros. a interpretação funciona claramente como resistência ao discurso pretensamente soberano dos críticos. Lichterman é outro dos mais conhecidos estudiosos da recepção cultural. acreditando. revelaram que os leitores avaliam os ensinamentos e conselhos de forma ambivalente e selectiva. 47 . já que. ligeira.. Em suma. etc. Os seus estudos no âmbito da thin culture (superficial. quer à fixidez de determinadas instâncias. mundos da vida e papéis sociais. os receptores acabam por circular entre várias comunidades interpretativas.). Apesar dos parâmetros pós-modernos destes últimos. em particular. criando repertórios sincréticos. por vezes. não raras vezes. a leitura do romance permitia uma fuga às rotinas dos modelos patriarcais de família. na mescla de experiências. os estudos de Long clarificaram o acto de recepção como terreno de luta simbólica. de filmes. de séries televisivas) tendem a organizar os seus universos de referência por coordenadas «pré-pós-modernas». mantendo uma relação complexa e ambivalente com as estruturas do poder. misturando tais sugestões com outras referências mediáticas e mesmo experiências pessoais.Para uma etnografia dos públicos em acção salto qualitativo no modo de entendimento de como os leitores interferem na determinação dos significados textuais. opondo resistência. Aliás. aos sentidos dominantes. De igual modo. os receptores (de livros. para nos situarmos em linha com Bourdieu. em particular no que respeita aos chamados livros de autosuporte. este estudo permitiu questionar o muito em voga conceito de comunidade interpretativa. na verosimilhança de cenários e ficções. apesar de fortes constrangimentos ligados quer à rigidez da doxa dos campos culturais. No caso das mulheres. maxime agências de consagração/legitimação arbitrária de um sentido único para as obras culturais. envolvendo complexas disputas entre as indústrias culturais.

Não se coíbe. tidos como alienantes. as categorias que mobilizam perceptiva e cognitivamente os públicos. uma espécie de hermetismo ou gnosticismo contemporâneo para quem o essencial é não ter compreendido. o que evita abordagens ingénuas. 1993). Eco. pois. perdemos o sentido crítico e emancipador. nem. 1978). o seu habitus. caracteriza os novos gnósticos como aqueles que sentem que “cada camada removida ou cada segredo desvendado é sempre a antecâmara de uma verdade ainda mais ardilosamente oculta”. teórico da escola de Konstanz. por isso. assinala a necessidade de familiaridade com a estrutura da obra. Adorno é. que causa admiração. taxativo: “ a arte só é íntegra quando não entra no jogo da comunicação”. Ao percebê-la. Stefan Collini (Collini. mergulhar “ao nível da identificação (. corpo expressivo. dignifica a história de vida do sujeito. que perturba. 1978: 143). coloca-se nos antípodas de Adorno e Horkheimer. a este respeito.. ironicamente. 1993) fala mesmo nos «seguidores do véu». Por outro lado.João Teixeira Lopes Hans Robert Jauss. o autor em elogiar a experiência estética. as suas experiências e a própria fruição enquanto constitutiva da função social da arte. como defende Jauss (Jauss. tão-pouco. Ela deve. produtor de sentido e não apenas mera inscrição ou interiorização das marcas das estru- 48 . a recepção contemporânea de uma dada obra cultural acciona um conjunto de comparações com as obras anteriores. assente na comunicação e na Poiesis: “sentir-se deste mundo e em casa neste mundo” (Jauss. que faz chorar ou rir por simpatia e que apenas o snobismo pode considerar como vulgar” (Idem: 161). Defendo que esta definição permite uma dupla abertura: por um lado. à linguagem. já que é necessário um véu de resistência a qualquer mecanismo de empatia. verbal ou não-verbal. A experiência estética não renuncia. projecção ou identificação. bem como com a evolução do género em que se enquadra e com a experiência de vida do receptor.. na verdade. comunicante. Ora. Estes defendem claramente que a verdadeira arte é incomunicável (Adorno e Horkheimer.) espontânea que toca.

no entanto. enquanto inquietação. o choro.Para uma etnografia dos públicos em acção turas. conceito que Jauss utiliza para se referir ao “sistema de referências (do receptor) objectivamente formulável”. que qualquer abordagem sobre a recepção ficará incompleta sem uma teoria do habitus pessoal e de classe e sem uma sociologia dos públicos da cultura. sendo mobilizado em contextos e circunstâncias concretas e empiricamente observáveis.) nunca existe em si mesmo. então. ainda: “o público é uma estrutura social secundária ou dependente (. subversão e transcendência do que existe. Mas opõe-se. o olhar. E que lhe permite. Jacques Leenhardt coloca o dedo na ferida ao considerar: “os muitos parâmetros de um público dependem dos caracteres fundamentais dos grupos ou das classes a partir dos quais se definem”. sou contra a reificação do conceito. tecer duras críticas a um certo tipo de produção cultural que apelida de arte culinária. pois tem subjacente um a priori sobre a arte. Devo acrescentar. As disposições afectivas – a «estrutura de sentimento». já que um público existe. sinais dessa mobilização estética. a meu ver. com igual veemência. na expressão de Williams. por corresponder inteira e pacificamente ao horizonte de expectativas do receptor – consideração que. 1982:73). perceptivos e cognitivos. Se me parece correcto afirmar que um público não existe num vazio social mas sim em estreita conexão com a estrutura social e uma matriz de desigual distribuição de recursos linguísticos. agora. da Escola de Frankfurt. a meu ver. O gesto. igualmente.. existem.. a ampla vastidão do sensível e da exteriorização da subjectividade socializada são. virtualmente. aliás. cruzam-se com contextos mais vastos de constrangimentos e recursos. a sua história. tam- 49 . pessoal e social. duplica apenas um recorte sociológico de classes ou de grupos” (Leenhardt. O stock de aprendizagens do receptor. se. No entanto. o riso. o aproxima. como elementos constituintes do horizonte de expectativa. pois. Acrescenta. à arte que resiste à interpretação e à comunicação geradora de experiências sociais – socializadoras. como vimos. apenas posso concordar parcialmente com o autor.

João Teixeira Lopes bém me parece. em último lugar. 1992: 117). desprega-se a tela. no próprio corpo do receptor? Como entender. E a ênfase. se movam. que o “espectador é «actor» no seu corpo no próprio lugar do espectáculo” (Collet. esquece-se a música. o contexto de recepção. renovar a nossa abordagem metodológica no que se refere à observação dos públicos. de tipo preferencialmente não verbal e aparentemente não convencional” (Goffman. de “tipo mais teatral e contextual. O público é. como São Pedro. no poder (desigual) dos públicos: “É o público que o «faz» quando reconhece que este último responde às exigências requeridas pelo código. desaparece o livro. no domínio da arte. naturalmente. clara. de maneira a emitirem juízos de valor estéticos que remetem para uma concepção ampla e não pericial da estética. Se esta consagração não chega. Importa. mas a partir de um gosto” (Idem: 74). por isso. como com- 50 . sem esquecer. os canais e filtros institucionais intermediários (instâncias de difusão e de consagração). Jacques Leenhardt. uma vez mais: “é pois necessário interrogar os caracteres gerais do que é recebido pelo público se quisermos compreender a razão por que determinado objecto se torna assimilável como objecto de arte”. um quadro ou um livro. assim. todavia. nas palavras de Serge Collet. das especificidades estilísticas e dos códigos restritos dos iniciados? Ao invés. que a circulação reflexiva de sentido. dentro do seu «modo habitual de percepção» (Francis. 1993: 15)? Como apreender o espectáculo dentro do próprio espectáculo. 1984: 13) Como entender que. ignorante da história do género em causa. Como captar as diferentes atitudes estéticas e distintas representações simbólicas sobre um espectáculo. a instância social que decide. se se pode ou não entrar no Paraíso! Mas os paraísos são tão numerosos como os públicos! É que o público. não ajuíza a partir de uma faculdade de juízo estético motivado. alguns. nomeadamente nas suas componentes espaciais e interaccionais (indissociavelmente ligadas) e a própria estrutura semântica e estilística da obra constituem variáveis da maior importância.

ouviram. especialmente adequados à análise dos “modos de relação entre as pessoas e os seus contextos de acção”. na fotografia social. dos géneros. risos. gestos. as opções linguísticas dos públicos quando querem falar do que viram. no vídeo documental. com disposições fracas e fortes. Aos inquéritos e bases de dados urge acrescentar a maturação hermenêutica patente na interpretação das entrevistas.Para uma etnografia dos públicos em acção preender que estes se movam no terreno dos intermediários culturais. académico ou autodidacta. nos grupos de discussão. se reduzam. como refere Andrea Press. das classificações.. o modo como os públicos fazem e desfazem as telas. de cariz etnográfico. afirmações e contradições.António Firmino da Costa sugere os quadros de interacção como unidade de análise facilitadora do contínuo vaivém macro-micro. do interconhecimento pessoal ou mediado. nas várias formas de observação (do observador incógnito ao observador participante). para outros é. sentiram? E como relacionar a abertura ou fechamento desses possíveis com tendências e contratendências do processo de socialização. por exemplo. em particular no que se refere às aprendizagens «culturais». então. gritos. pausas. A etnografia. a partir das construções primeiras dos públicos. maxime as de matiz biográfico. nas deambulações. manifestas em textos. é sempre uma dupla construção (ou dupla hermenêutica). 1986)? A resposta passa pela imperiosa necessidade de complementar as análises extensivas quer com as análises históricas e institucionais.. dos rituais propriamente artísticos? Como interpretar. crenças e propensões para agir? Como se formam e quebram as «comunidades de código» ou «comunidades interpretativas»? O que explica a sintonia e a dissonância perceptivas? Como se expressam? Por que razão o que para uns é um prazer sofisticado.. posturas. nas vadiagens sociológicas de que nos fala José Machado Pais. quer com as análises intensivas. no entanto. os palcos. uma «agressão auditiva» (Menger.. silêncios. sendo infinitos os usos da língua. as partituras? Como explicar que. neste caso quer os 51 . falas.

(1993). não nos poderemos limitar às abordagens e conceitos de «experiência-próxima» (as rotinas. em qualquer procedimento etnográfico. o anedótico. Collet. Dialectic of Enlightenment. de um sobreobjecto. das pessoas singulares com os seus contextos imediatos de acção. 2004: 134-135). Le Rôle du Spectateur. à deriva para o outro extremo. o da «experiência-distante» (própria do trabalho intelectual de abstracção. Max 81993) . Collini. como. Públicos da Cultura. Costa. Lisboa: Editorial Presença. Lisboa: Observatório das Actividades Culturais. o vernáculo da vida quotidiana. Serge (1984). António Firmino (2004). in AA. Bibliografia Adorno. o anódino. tão-pouco. nº 55. “Dos públicos da cultura aos modos de relação com a cultura: algumas questões teóricas e metodológicas para uma agenda de investigação” in AA. Theodor e Horkheimer.. quer “os modos de relação concretos. ao contrário. menos do que a razão exigiria” (Geertz. no domínio das práticas culturais” (Costa. como diz Geertz: “no nosso caso (de antropólogos) o movimento é entre interpretar demais ou interpretar de menos. Ou. Neste esforço etnográfico e interpretativo importa nunca perder de vista um princípio de dupla recusa: a da sub-interpretação e a da sobre-interpretação. de resto. dir. ou. Assim. Para o estudo dos públicos em acção.João Teixeira Lopes modos de relação “com as artes e a cultura enquanto esferas institucionais especializadas”. 2003: 29). Stefan.). New York: Continuum. Théâtre Public. em situação. 52 . como diria Bachelard). nem. lendo mais coisas naquilo que observamos do que a razão recomendaria. isto é de selecção e construção da realidade.. VV.VV. é na conexão tensa das duas abordagens que poderá resultar o resgate dos tempos e modos da recepção cultural. Interpretação e Sobreinterpretação.

Para uma etnografia dos públicos em acção Eco. Roussel. Jauss. Paris : Musée du Louvre/La documentation Française. Lisboa: Difel. La Perception. Hans Robert (1978). Lisboa: Observatório das Actividades Culturais. Paris  : Presses Universitaires de France. Robert (1992). Umberto Eco (1989) Obra Aberta. Menger. Goffman..VV. Cambridge: Basil Blackwell. João Teixeira (2004). “The sociology of cultural reception: notes toward un emerging paradigm” in Diana Crane. A Estética e as Ciências da Arte. (1994). José Madureira (2004).VV. Clifford (2003). Lisboa: Relógio d’Água. Francoise e Kahane. Martine (2002) “Le progrès de la connaissance des publics” in AA. Públicos da Cultura. The University of North Carolina Press. Lisboa: Observatório das Actividades Culturais.) Interpretação e Sobreinterpretação.1 53 . A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias. « Experiência estética e formação de públicos” in AA. Lopes. (1991). O Saber Local. XXVII.VV. Pour une Esthétique de la Réception. Jacques (1982). “Recepção da obra de arte” in Mikel Dufrenne (org). Públicos da Cultura. Paris : Gallimard. Erving (1993). Francis. Janice A. Amadora: Bertrand. Press. Pierre-Michel (1986). Radway. “L’oreille spéculative. Petrópolis: Editora Vozes.. Andrea L. Umberto “Entre autor e texto” (1993) in Stefan Collini (dir. Reading the Romance. Geertz. The Sociology of Culture. Les Institutions au Plus Près des Publics. Leenhardt. Lisboa: Editorial Presença. “Para uma análise sócio-etnográfica da relação com as obras culturais” in AA. Consommation et perception de la musique contemporaine » in Revue Française de Sociologie. Pinto. Eco.

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ajudando-os a compreender e a agir. são teorias sociais práticas. 1 Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. mediáticos e informais. Esta obra lançou uma problemática específica – como é que o conhecimento científico é consumido. comunicação e cultura Em 1961 Serge Moscovici publicou a obra La Psychanalyse. na forma como determinado grupo social constrói a realidade (Moscovici. a teoria das representações sociais contribuiu para o reconhecimento da importância dos processos comunicativos. contribuindo para a percepção de uma realidade comum a um determinado grupo. son Image et son Publique. Estas problemáticas exigiram novas abordagens metodológicas no seio da disciplina e conduziram a uma articulação com outras ciências sociais e humanas. 1984). Universidade do Minho 55 . inaugurando um novo campo na psicologia social: o estudo das representações sociais. isto é. transformado e utilizado pelo “cidadão comum” – e uma problemática mais geral – como as pessoas constroem a realidade. as representações sociais constituem a forma como os indivíduos se apropriam do mundo que os rodeia. Representações sociais. No seio da Psicologia Social.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise Rosa Cabecinhas1 1. Tal contributo conduziu a um novo olhar sobre a forma de conceber a relação entre o indivíduo e a sociedade. através dos processos de comunicação interpessoal quotidiana. Segundo Denise Jodelet (1989). As representações sociais são conceptualizadas como uma modalidade de conhecimento socialmente elaborada e compartilhada.

sem tomadas de posição explícitas da parte do emissor. procurando organizar elementos divergentes de forma a torná-los compatíveis com valores mais centrais para os vários grupos implicados. Assim. Por sua vez.) e que prevalecem de forma implícita em todas as práticas simbólicas. etc. a visão clássica das representações peca por as considerar como pré-estabelecidas e estáticas. as representações hegemónicas dizem respeito a significados largamente partilhados pelos membros de um grupo altamente estruturado (uma nação. Em contrapartida. mas também sem sistematização das diferentes opiniões face ao tema. englobante e conciliadora. um partido. as representações sociais hegemónicas seriam o equivalente ao conceito de representação colectiva proposto por Durkheim (1898). Na difusão verifica-se distanciamento e diversidade no tratamento dos temas. Finalmente. as representações colectivas cedem o lugar às representações sociais uma vez que as primeiras não têm em conta a sua diversidade de origem e a sua transformação. na opinião do autor. não havendo espaço para nuances ou moderação. Isto é. As representações controversas ou polémicas são geradas no decurso de um conflito social ou luta entre grupos. Segundo Moscovici (1989). com ênfase na informação.Rosa Cabecinhas Moscovici estabelece a distinção entre três tipos de representações sociais. não sendo partilhadas pela sociedade no conjunto. parecendo ser uniformes e coercivas (1988: 221-222). existe uma ligação entre estes diferentes estádios de desenvolvimento das representações sociais e as modalidades comunicativas. Esta modalidade de comunicação ocorre quando há um conflito que ameaça 56 . A propagação visa produzir uma norma geral. na propaganda verifica-se um recurso a dicotomias redutoras. De acordo com Moscovici. as representações emancipadas são o produto da cooperação e da circulação de ideias entre sub-grupos que estão em contacto mais ou menos próximo. em que cada sub-grupo cria as suas próprias versões e partilha-as com os outros. em função do seu estádio de desenvolvimento e do seu modo de circulação na sociedade.

. 2008). permitindo a difusão de representações polémicas e contribuindo assim para a mudança social (Cabecinhas e Évora. É necessário. a relação entre as representações sociais e as configurações culturais dominantes. 2004: 366). separando «um nós que estamos certos. Embora todos os indivíduos sejam activos na construção das suas representações. Alguns autores têm sublinhado a influência das posições assimétricas dos grupos. Os meios de comunicação social contribuem para a consensualidade alargada de algumas representações sociais. de um eles que estão errados» (Castro.g. 57 . van Dijk. a estrutura social determina que nem todos têm igual margem de liberdade no processo de negociação das representações (e. Cabecinhas. Tais clivagens e diferenciações sociais reflectem-se na construção de diferentes representações sociais de um mesmo objecto. a dinâmica social no seu conjunto. Por outro lado. isto é. 1982). Lorenzi-Cioldi. para o seu carácter hegemónico. A perspectiva das representações sociais enfatiza o papel activo dos actores sociais na sua produção e transformação. 2002. 2007.g. contudo. A compreensão do conteúdo de uma representação exige a sua integração na estrutura social e esta remete para clivagens. A conjugação destes factores ajuda a compreender as pressões para a hegemonia e a consequente reificação de certas representações sociais. por um lado. Ferin. embora as representações estejam em permanente processo de mutação. 1998: 242). 1979. Cabecinhas e Cunha. diferenciações e relações de dominação (Bourdieu. 1992). e por outro. 1991). a apropriação do “novo” segue uma lógica profundamente “sociocêntrica” (Moscovici. 2006.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise a identidade do grupo. ter em conta. Deschamps. 2008). Amâncio. As relações entre as representações sociais e os processos intergrupais são bastante complexas (Doise. No entanto. 1997. os meios de comunicação social podem ser também excelentes instrumentos para a visibilidade das minorias activas.. tanto nos discursos como nas identidades sociais criadas por esses grupos (e.

Mas quais são as condições para que uma dada representação seja considerada uma “representação social”? Na acepção de Vala (2000). simultaneamente. As representações sociais estão ligadas a sistemas de pensamento mais largos. Enquanto fenómenos cognitivos. como processo de elaboração psicológica e social da realidade. 1984: 12). ideológicos ou culturais. 1989). Segundo Jodelet as representações sociais formam sistemas e dão origem a “teorias implícitas”. e a um determinado estado de conhecimentos científicos. ainda. versões da realidade que incarnam em imagens cheias de significação (1989: 35). Sintetizando. a construção de identidades pessoais e sociais. as representações sociais são conceptualizadas como saber funcional ou teorias sociais práticas. as representações sociais servem como guias da acção. quer ocorram entre dois indivíduos ou dois grupos. afirmar que uma representação é social envolve a utilização de três critérios. certas funções na manutenção da identidade social e do equilíbrio sociocognitivo (Jodelet.Rosa Cabecinhas Enquanto sistemas de interpretação. uma vez que modelam e constituem os elementos do contexto no qual esta ocorre (Moscovici. o comportamento intra e intergrupal. 1961) e desempenham. as representações sociais regulam a nossa relação com os outros e orientam o nosso comportamento. Os meios de comunicação social e as conversações interpessoais quotidianas intervêm na sua elaboração. por meio de processos de influência social. as representações sociais são consideradas como o produto duma actividade de apropriação da realidade exterior e. pressupõe tais representações» (Moscovici. as acções de resistência e de mudança social. As representações intervêm ainda em processos tão variados como a difusão e a assimilação de conhecimento. O critério quantitativo – uma representação é social na medida em que é partilhada por um conjunto de indivíduos – no 58 . Assim. Estas permitem a organização significante do real e desempenham um papel vital na comunicação: «todas as interacções humanas.

o critério funcional – as representações sociais constituem guias para a comunicação e a acção. mas esta construção é efectuada em rede. o paradigma da sociedade pensante assume que «os indivíduos pensam autonoma- 59 . este critério por si só é «insuficiente para dar conta do conceito de representação social porque nada diz sobre o seu modo de construção» (2000: 461). A sociedade pensante A expressão sociedade pensante foi proposta por Moscovici (1981: 182) para expressar a ideia de que o pensamento não pode ser considerado o produto de um “indivíduo só”. o paradigma da sociedade pensante questiona as teorias que consideram que os nossos cérebros são “caixas negras” que processam mecanicamente a informação em função dos condicionamentos exteriores e questiona igualmente as teorias para as quais os grupos e os indivíduos estão sempre sob o domínio das ideologias produzidas e impostas pela classe social. finalmente. pelo Estado. 2. o que torna o estudo das representações socais extremamente complexo. as representações sociais são organizadoras das relações simbólicas entre os diversos actores sociais.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise entanto. isto é. as representações sociais são o resultado da actividade cognitiva e simbólica de um grupo social. nas sociedades contemporâneas cada indivíduo pertence simultaneamente a várias redes sociais e tem contacto com diversos ambientes culturais. Em contrapartida. O critério genético – uma representação é social na medida em que é colectivamente produzida. isto é. Na opinião de Moscovici. no seio dos grupos sociais. uma vez que o conteúdo desse pensamento está em constante reelaboração através da comunicação quotidiana. Todos os indivíduos são activos na sua construção social da realidade. E. e que os seus pensamentos e palavras são meros reflexos dessas ideologias. Ora. pela Igreja ou pela Escola.

O estudo das representações sociais caracteriza-se por uma grande pluralidade temática. 1981: 183). opinião. cultura. habitus. constituindo-se de elementos informativos. estando constantemente a produzir e a comunicar representações» (Moscovici.Rosa Cabecinhas mente. as representações sociais são fenómenos complexos. A riqueza destes fenómenos torna difícil a construção de um conceito que. permanente activados na vida social. cognitivos. representa uma forma nova de olhar para a constituição das instituições sociais e para os comportamentos individuais e colectivos. esquema. relativamente aos quais o conceito de representação social «con- 60 . ideológicos e normativos (1989: 36). atribuição. Na mesma linha de ideias. e o estatuto epistemológico das representações sociais. a função social e a eficácia social das representações sociais. a ideia de que «os indivíduos e os grupos pensam. Vala (2000) agrupou as principais questões analisadas pela literatura nesta área nas categorias seguintes: a inscrição social e a natureza social das representações sociais. os conteúdos e a organização interna das representações sociais.) e conceitos de âmbito sociológico ou antropológico tão ou mais vastos do que o próprio conceito de representação (por exemplo. sistema de valores. os delimites e não esbata a sua multidimensionalidade» (2000: 464). crença.). Vala refere que «o conceito de representação social remete para fenómenos psicossociais complexos. atitude. Os indivíduos não se limitam a receber e processar informação. Tais definições incluem na maioria dos casos conceitos de âmbito psicológico ou psicossociológico (por exemplo. ideologia. são também construtores de significados e teorizam a realidade social» (2000: 457). Como refere Vala. Têm sido propostas inúmeras definições conceptuais das representações sociais. etc. simultaneamente. e de que as instituições e as sociedades são ambientes pensantes. etc. Na opinião de Jodelet. recortando-as em dimensões e aspectos específicos.

em que apenas uma parte da informação disponível é retida. Na primeira etapa. Moscovici recorre aos conceitos de esquema e nó figurativo para evocar o facto dos elementos da representação estabelecerem entre si um padrão de relações estruturadas. isto é. A última etapa da objectivação é a naturalização. Este processo de selecção e reorganização dos elementos da representação não é neutro ou aleatório. na formação das representações sociais intervêm dois processos: a objectivação e a ancoragem. Estes processos estão intrinsecamente ligados um ao outro e são modelados por factores sociais.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise fere novas acuidades e suscita a procura de novas pontes articuladoras do velho binómio indivíduo-sociedade» (Vala. A figuração diz respeito ao processo através do qual as imagens e metáforas substituem conceitos complexos. dependendo das normas e dos valores grupais assim como do contexto cultural. Na acepção de Wagner. O processo de personificação consiste em materializar num nome ou num rosto uma determinada ideia (por exemplo. isto é. a difusão de 61 . Gandhi como símbolo de luta pacífica ou Einstein como símbolo de genialidade). O processo de objectivação envolve três etapas: construção selectiva. esquematização estruturante e naturalização. Elejabarrieta e Lahnteiner (1995). Segundo Moscovici (1961). as informações e as crenças acerca do objecto da representação sofrem um processo de selecção e descontextualização. permitindo a formação de um todo relativamente coerente. os conceitos tornam-se equivalentes à realidade e o abstracto torna-se concreto através da sua expressão em imagens e metáforas. Os conceitos retidos no nó figurativo e as respectivas relações constituem-se como categorias naturais. 2000: 465). A segunda etapa da objectivação corresponde à organização dos elementos. são vistos como uma realidade natural. A objectivação corresponde ao processo de organização dos elementos constituintes da representação e ao percurso através do qual tais elementos adquirem materialidade.

Enquanto processo que segue a objectivação. por outro. precede a objectivação e. O processo de ancoragem. Vala refere que o conceito de ancoragem tem algumas afinidades com o conceito de categorização: ambos funcionam como estabilizadores do meio e como redutores de novas aprendizagens. isto é. a ancoragem referese à função social das representações. Neste contexto. o processo de ancoragem é mais complexo visto que a ancoragem leva à produção de transformações nas representações já constituídas. primeiro colocando-o num quadro de referência. 1981: 192). refere-se aos processos pelos quais uma representação. 1961). a um tempo. uma vez constituída. No entanto. um processo de redução do novo ao velho e reelaboração do velho tornando-o novo» (2000: 475). onde pode ser comparado e interpretado. ou seja. a ancoragem permite compreender a forma como os elementos representados contribuem para exprimir e constituir as relações sociais (Moscovici. «o processo de ancoragem é. 1989). A ancoragem serve à instrumentalização do saber conferindo-lhe um valor funcional para a interpretação e a gestão do ambiente (Jodelet. Os processos de objectivação e ancoragem servem para nos familiarizar com o “novo”.Rosa Cabecinhas uma nova ideia num dado grupo depende da sua figuração em imagens e metáforas que transmitam o essencial do seu conteúdo de uma forma compatível com o quadro de valores desse grupo. a ancoragem refere-se aos processos pelos quais o não-familiar se torna familiar. Isto é. situa-se na sua sequência. se torna um organizador das relações sociais. na opinião do autor. e depois reproduzindo-o e colocando-o sob controlo (Moscovici. a ancoragem refere-se ao facto de qualquer tratamento da informação exigir pontos de referência: é a partir das experiências e dos esquemas já estabelecidos que o objecto da representação é pensado. Enquanto processo que precede a objectivação. As dinâmicas de objectivação e de ancoragem são aparentemente opostas: «uma visa criar verdades evidentes para todos e indepen- 62 . por um lado.

se a especificidade da situação de cada grupo social contribui para a especificidade das 63 . e organizados por este. numerosos estudos têm sido realizados sobre a estrutura das representações. Desde o início dos anos oitenta. Este autor colocou a análise das representações sociais no quadro das relações intergrupais. salientando a mútua determinação entre estes dois fenómenos. estes estudos permitem reduzir consideravelmente a incerteza relativa às fronteiras entre os elementos constituintes e não constituintes das representações sociais. 1992: 15). estes desacordos inscrevem-se nos esquemas periféricos que se modificam protegendo durante algum tempo o núcleo central.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise dentes do determinismo social e psicológico enquanto a outra remete para a intervenção de tais determinismos na sua génese e transformação. Numerosos estudos têm demonstrado que um dado grupo social pode ter práticas em desacordo com as suas representações. Como Moscovici (1961) já tinha salientado. o que corresponde a uma mudança estrutural que dá origem a uma nova representação. Com o tempo. Clémence e Lorenzi-Cioldi. Doise (1992) considera que a significação de uma representação está sempre ancorada nas significações mais gerais que intervêm nas relações simbólicas próprias de um determinado campo social. devem também estudar as modelações em função da sua imbricação específica num dado sistema de regulação simbólica» (Doise. À volta do núcleo central. que conferem flexibilidade a uma dada representação. as contradições entre a realidade e a representação podem vir a alterar o próprio núcleo duro da representação. Por esse motivo os estudos sobre representações sociais não devem apenas inventariar os “saberes comuns”. encontram-se os elementos periféricos. Flament (1989) considera que o núcleo central de uma representação corresponde a uma estrutura que dá coerência e sentido à representação. Na opinião de Doise (1992). Na opinião de Flament (1989).

as representações assumem um lugar central nas relações intergrupais. por sua vez. as representações sociais têm uma função de justificação antecipada e/ou retrospectiva das interacções sociais. Doise (1976. 64 . A função justificativa revela-se nos conteúdos das representações que veiculam uma imagem do outro grupo que justifica um comportamento hostil em relação a ele e/ou a sua posição desfavorável no contexto da interacção. adaptando-se a ele. Mas as representações também imprimem direcção às relações intergrupais: previamente à interacção. as representações servem e justificam os comportamentos grupais. a função antecipatória manifesta-se na influência que as representações exercem no próprio desenvolvimento da relação entre os grupos: as representações não se limitam a seguir o desenvolvimento das relações intergrupais. as representações estruturam-se de acordo com as estratégias grupais e. desempenhando três tipos de funções: selecção. por outro. para a diferenciação dos grupos sociais. relativamente aos conteúdos irrelevantes.Rosa Cabecinhas suas representações. justificação e antecipação. mas também intervêm na determinação deste desenvolvimento. 1984) tem ilustrado de modo claro como a dinâmica das relações entre grupos conduz a modificações adaptativas nas representações e à atribuição ao outro grupo de características que permitem o desencadeamento de comportamentos discriminatórios e a sua justificação. Na acepção de Doise. isto é. a especificidade das representações contribui. cada grupo dispõe já de um sistema de representações que lhe permite antecipar os comportamentos do outro e programar a sua própria estratégia de acção. por um lado. Nos seus trabalhos. Por último. antecipando-o activamente (1976-84: 105). A função selectiva traduz-se numa centralidade dos conteúdos relevantes para as relações intergrupais. Assim.

). de modo que a preocupação com o rigor não submerja o interesse heurístico». sendo aplicado no estudo de questões muito diversas (ambiente. antropologia. a sociologia e as ciências vizinhas. saúde. Ásia. A investigação em representações sociais está bem consolidada como tradição de pesquisa na Europa e na América Latina e recentemente estabeleceu-se como área de pesquisa na América do Norte. Como afirma Jodelet. «Esta multiplicidade de relações com as disciplinas vizinhas confere ao estudo psicossociológico da representação um estatuto transversal que interpela os vários campos de pesquisa. discriminação social. mas uma real articulação dos seus pontos de vista. A sua reserva inicial face a métodos de pesquisa mais rígidos deveu-se ao 65 . Hoje em dia. É nessa transversalidade que reside uma das contribuições mais promissoras deste domínio» (1989: 40-41). etc. devemos confiar mais na criatividade dos investigadores do que em procedimentos bem estabelecidos» (1988: 239). constituindo um campo de investigação vivo e dinâmico. Moscovici (1988: 238) salienta: «a nossa estratégia tem sido sempre combinar abordagens mais flexíveis com abordagens mais estruturadas.). estudos literários. etc. não uma simples justaposição. relações internacionais. sociologia. o conceito de representação social é utilizado em diversas ciências humanas e sociais (psicologia. Metodologias e níveis de análise Actualmente o estudo das representações ”” constitui uma tradição de pesquisa diversificada e em plena evolução. Para alcançar este objectivo. No que diz respeito às metodologias. o conceito de representação social surge como reunificador das ciências sociais: situado na interface entre o psicológico e o social. geografia. Moscovici refere que o objectivo desta área de estudos é compreender «o que as pessoas fazem na vida real e em situações significativas. justiça. linguística. Oceânia e África.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise 3. Na opinião de diversos autores. o conceito oferece inúmeras possibilidades de articulação entre a psicologia. história. ciências políticas.

A Psicologia Social Crítica. o grau de cientificismo da cada disciplina» (2003: 9). Aquilo que chamamos de “Psicologia Social NorteAmericana” formatou-se a partir do ideal do método experimental que definia. o conceito de cultura é imprescindível para a Psicologia Social. O autor pretendia um distanciamento face à Psicologia Social mainstream na época.Rosa Cabecinhas facto de querer evitar «qualquer tipo de exactidão prematura» (1988: 239) que inibisse a criatividade dos investigadores. mas uma verdadeira “bricolage” na qual as diferentes disciplinas se mesclam (e. que utilizava quase exclusivamente o método experimental. que constituem uma área interdisciplinar por excelência. então. a Psicologia Social (especialmente a Psicologia Social Crítica) é uma das disciplinas científicas que se enquadra no seio dos Estudos Culturais. avaliação e 66 . No nível intrapessoal estão incluídos os modelos que descrevem o modo como os indivíduos organizam a sua percepção. O rompimento com a Psicologia Social normal continua a constituir um desafio considerável e de elevado potencial. Como refere Spink. tendo-se registado progressos notáveis ao nível metodológico. Guareschi e Bruschi. a história e a cultura.. pós-disciplinar. já que esta estuda as intersecções entre os indivíduos. na Psicologia Social. as estruturas sociais. ou como alguns referem. que abarcassem esses diversos níveis de análise. Na acepção de Guareschi. Medeiros e Bruschi (2003).g. conduziu a uma aproximação entre a Psicologia Social e os Estudos Culturais. por exemplo. «Já vivemos. Doise (1982) distinguiu quatro níveis de análise no seio da Psicologia Social e sublinhou a necessidade da criação de modelos integrados do comportamento social. Hoje em dia. uma vez que se tornou clara a necessidade de ter em conta não uma simples articulação de disciplinas. os grupos sociais. 2003). Nas últimas décadas verificou-se um incremento considerável do número e diversidade de investigações sobre as representações sociais. a “era do método único”.

isto é. é precisamente o trabalho de articulação de níveis de análise que constitui o objecto próprio da psicologia social. A pesquisa em representações sociais apresenta um carácter fundamental e aplicado e faz apelo a metodologias variadas: observação participante. descurando a interacção entre o indivíduo e ambiente social. frequentemente as posições dos indivíduos são consideradas como intermutáveis e simétricas. técnicas de associação livre de palavras. o nível ideológico integra os modelos que descrevem o modo como as representações e os comportamentos dos indivíduos. crenças e ideologias dominantes num dado contexto cultural. Moscovici salientou a importância 67 . segundo o autor. grupos focais. Na opinião de Doise (1984). Nenhuma metodologia por si só é suficiente para investigar estes complexos fenómenos. estudos de campo. O nível posicional integra os modelos que recorrem explicitamente às diferentes posições ou estatutos sociais que os indivíduos ocupam previamente a qualquer interacção para explicar as diferentes modalidades de interacção. mas também entre as diversas ciências sociais e humanas. análise de documentos e de discursos. não tomando em consideração as diferentes posições que estes ocupam fora dessa situação (os seus grupos de pertença e de referência). entrevistas.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise comportamento em relação ao meio social em que se inserem. etc. experimentação no laboratório e no terreno. No nível interpessoal ou situacional encontram-se os modelos que descrevem o modo como os indivíduos interagem numa dada situação. Estes modelos focalizam-se nos mecanismos internos que permitem ao indivíduo organizar as suas experiências. são modelados pelos sistemas de valores. Ora. O conceito de representação social tem permitido fazer a ponte não só entre várias áreas dentro da psicologia social. Finalmente. o estudo das representações sociais abarca diferentes níveis de análise e beneficia da sua articulação. inquéritos por questionário. numa dada situação.

diversos autores têm salientado a necessidade de triangulação de diferentes tipos de metodologias de recolha e de tratamento de dados (e. pela sua natureza. Oliveira. um problema importante nos estudos sobre as representações sociais é que a sua matéria-prima é constituída por recolhas de opinião e de atitudes individuais. Elas devem ser observadas “in situ”. Actualmente. 2007. Na mesma linha de ideias. 2008). que negligenciava completamente o contexto ideológico e cultural envolvente. Cabecinhas. numa publicação sobre as metodologias de investigação.Rosa Cabecinhas do “politeísmo metodológico” no estudo das representações sociais. estudando os indivíduos “fechados” no laboratório. uma vez que cada uma apresenta potencialidades e limites específicos. Na acepção dos autores. Na opinião do autor. Farr (1992 : 185) argumenta: «As representações sociais. considerava os processos cognitivos. devem estar situadas na cultura e na sociedade e não dentro do laboratório. isto é no terreno». uma vez consolidada essa demarcação face à Psi- 68 . alguns autores privilegiam os estudos de terreno em detrimento dos estudos de laboratório. despidos de emoção e num vacuum social (Tajfel. inicialmente os teóricos das representações sociais afastaram-se do laboratório como forma de demarcação face à pesquisa dominante em cognição social. as representações sociais não podem ser estudadas num “vazio” cultural e temporal. Trata-se de uma tradição de pesquisa muito heterogénea e não prescritiva no que respeito à metodologia. isto é. sendo necessário reconstituir os princípios organizadores comuns aos conjuntos de indivíduos. Esta tarefa exige o recurso a diferentes técnicas de análises de dados.g. 1972). Clémence e Lorenzi-Cioldi (1992). Um dos aspectos que caracteriza a pesquisa em representações sociais é o facto de não privilegiar nenhum método de pesquisa específico. Como já referimos. No entanto. Doise. oferecem análises bastante detalhadas sobre os laços privilegiados que existem entre os métodos de análise dos dados e os objectos teóricos no estudo das representações sociais.

em conjugação com outros métodos. é considerado como um método de pesquisa pertinente no estudo das representações sociais. Frequentemente. A comparação dos resultados convergentes e divergentes obtidos através de diversas metodologias permite averiguar as dimensões estruturantes de uma dada problemática e confere maior segurança ao trabalho interpretativo dos investigadores. experimentação em laboratório). e esse aspecto é de suma importância na interpretação dos dados recolhidos.). No entanto. os grupos focais constituem uma metodologia muito útil. o método experimental. convém não esquecer que por mais completo e sofisticado que seja o programa de pesquisa delineado. etc. entrevistas. Como refere Sousa Santos (2001). os investigadores recorrem novamente a metodologias menos estruturadas no sentido de encontrar possíveis respostas para aspectos que ficaram por esclarecer com as metodologias anteriores ou novas questões entretanto levantadas (por exemplo. num último momento. associação livre de palavras. as pesquisas seguem um percurso cíclico: num primeiro momento são especialmente úteis metodologias mais abertas (observação. toda a ciência é “datada e localizada”. mas como um dos métodos disponíveis para estudar fenómenos complexos. e. os resultados serão sempre contingentes a um determinado momento histórico e contexto cultural específico. quer nas fases iniciais quer nas fases derradeiras de uma determinada investigação). A pesquisa em representações sociais veio tornar clara a necessidade de se considerar o contexto histórico e social no qual a ciência é produzida. não como “método único e obrigatório”. seguidamente são usadas metodologias mais estruturadas que permitem aprofundar determinado aspecto da problemática em análise (inquérito por questionário.Investigar representações sociais: metodologias e níveis de análise cologia Social tradicional. Nesse sentido. pois permitem a confronto dos dados obtidos “aqui e agora” com os obtidos em outros momentos históricos ou em 69 . os estudos comparativos afiguram-se como particularmente relevantes.

S. 70 . Doise. os conceitos e as grelhas de análise dos investigadores não podem ser simplesmente extrapolados acriticamente de um contexto para outro.2685-2706). J. ‘Social identity and relations of power between groups’ in Tajfel.php/5sopcom/article/view/233/252]. M. L. Braga: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (pp. ‘Visões do Mundo e da Nação: jovens cabo-verdianos face à história’ in Martins. Cabecinhas. R. uminho. Cabecinhas. L’Explication en Psychologie Sociale. Porto: Campo das Letras.) Comunicação e Cidadania.Rosa Cabecinhas contextos culturais distintos. Amâncio. já que a linguagem. Actas do 5º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação. Esse é um dos grandes desafios com que se defrontam actualmente os investigadores na área dos estudos culturais. Dilemas e Desafios. & Évora. (1997) ‘The Importance of Being Male: Ideology and Context in Gender Bourdieu: (1979). P. os estudos comparativos levantam questões delicadas de “tradução” cultural. R. Castro. (eds.lasics. S. (Ed. Paris: Presses Universitaire de France. La Distinction. L´Articulation Psychosociologuique et les Relations entre Groupes. Bibliografia Abric. M. Bruxelles: Éditions A. Psicologia. e Cunha. Cabecinhas. W. L. R. Cambridge: Cambridge University Press. Paris: Minuit. Deschamps. (1976). W. (1982).) Social Representations. (2008). & Moscovici.pt/ojs/index. Porto: Campo das Letras. (2007) Preto e Branco. Cambridge: Cambridge University Press. No entanto. & Pinto. H. C. (1982). XVII (2): 363-380. J-C. (Org. [www. (1984).) (2008) Comunicação Intercultural: Perspectivas. de Boeck. (Eds. ‘A theoretical and experimental approach to the study of social representations in a situation of interaction’ in Farr R. Doise. ‘O descobrimento do Brasil na imprensa portuguesa: uma vontade de futuro’.) Social Identity and Intergroup Relations. L. A naturalização da discriminação racial. (2004).

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pour le meilleur ou le pire. tissu vivant du lien social. sempre a veremos ligada a aspectos sociais. Como lembram Boyer & Prieur (1996:56). 73 . l’unifient et le désagrègent. simultaneamente. “the ability [of language] comes so naturally that we are apt to forget what a miracle it is.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística Joaquim Barbosa1 1.pt A investigação para este trabalho teve o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia através do Projecto POCTI/CED/60786/2004 (Memórias do Trabalho: Processos de construção de uma identidade operária). porque é. participe dans sa structure même du jeu de forces qui. sabemos que esse momento é o resultado de uma série de mo(vi)mentos anteriores. ” (Pinker. A língua que falamos é. Ao olhar para o tabuleiro num determinado momento do jogo. em grande parte. um produto cultural e um instrumento de cultura. porque serve a comunidade que a usa e porque a forma como é usada influencia e determina a forma de desenvolvimento da mesma comunidade. Um produto cultural. apesar do seu papel fundamental na interacção humana. instrumento de cultura. Talvez porque. para falar da língua. “La langue.up.”. momentos que 1 Centro de Linguística da Universidade do Porto jbarbosa@letras. Todavia. o resultado da evolução de uma determinada comunidade linguística. Introdução Se percorrermos a história da reflexão humana sobre a linguagem. como lembra Steven Pinker. 1986). Seja-me permitido usar a metáfora do jogo de xadrez utilizada por Saussure (Saussure. a reflexão sobre a linguagem não é comum nos estudos sociais e culturais. 1994:15).

neutro. o conhecimento do outro tem de passar necessariamente pelo conhecimento da importância da sua língua. o Mirandês não é um dialecto do Português. pelo menos. A língua que falamos é o resultado de muitos estádios anteriores que se foram sucedendo diacronicamente. De qualquer modo. ser igno-rado. de que nos servimos. Ainda que o número de combinações seja. 74 . mas o seu papel na sociedade não deveria. sabemos que diferentes movimentos de uma das cores provocam diferentes respostas da outra. Ainda percebo que o estudo diacrónico da língua tenha pouca atenção. ou f/ei/ra pertencem aos dialectos do norte. porque a linguagem não pode ser encarada apenas como um instrumento transparente. mas é também um instrumento. podemos apontar algumas delas e. porque sabemos a forma como cada peça se move no tabuleiro. E porque as conhecemos. porque conhecemos as regras do jogo. estádios linguísticos que corresponderam a estádios sociais e culturais de quem a usou antes de nós. A forma como a utilizamos e o modo como a tratamos têm consequências. Dizemos que a realização de /b/inho. pertence ao dialecto da Estremadura e f/ê/ra pertence ao dialecto alentejano. entende-se uma variedade regional de uma língua. Já agora. enquanto /v/inho ou f/ai/ra. também podemos tentar calcular como se vão movimentar a seguir. 2 Por dialecto. porque o uso que dela fazemos tem influência no estádio sociocultural a que pertencemos. extraordinariamente elevado.Joaquim Barbosa podemos tentar reproduzir. tal como a forma de um machado e o modo como o usamos para cortar uma árvore têm como consequência um corte mais ou menos perfeito. Veremos mais adiante como problemas sociais ou socioculturais graves podem ter origem em diferenças linguísticas ou no desprezo dessas diferenças. penso. em alguns momentos do jogo. do seu dialecto2. mas uma língua distinta do Português. um desperdício maior ou menor de lenha e um maior ou menor esforço para conseguir obter o resultado pretendido. Sendo a fala uma marca identitária de cada ser humano. Por isso me parece estranho o alheamento que referi. apontar com segurança os movimentos impossíveis.

3 Começarei por. Falarei da sociolinguística. Mostrarei a seguir como o desejo de melhor conhecer a linguagem. abstracto. à ‘divisão’ entre a investigação linguística ‘pura’ e a linguística aplicada para responder à questão: pode haver uma linguística separada do uso da linguagem? 3 Embora corresponda. o uso efectivo da língua na interacção humana foi um pouco esquecido em favor da análise do sistema. por exemplo. primeiro.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística Por outro lado. e como. introduzir alguma reflexão acerca das relações entre a linguagem e o homem como ser cultural e. falar da disciplina cientifica – a Sociolinguística – que tem como objecto estudar o modo como a linguagem e a sociedade se influenciam mutuamente. e à organização do Encontro. na quinta. da língua. a presença de culturas diferentes. na secção seguinte falar de algumas das visões da linguagem manifestadas pelo homem ao longo dos tempos. não significa apenas a presença de línguas diferentes mas sim. na quarta secção. e sobretudo. o meu reconhecimento. voltando. dos seus métodos e dos seus campos de actuação. pela necessidade metodológica de isolar um objecto de estudo. sendo a língua o instrumento com que modelamos o mundo. ou mesmo dialectos diferentes. Contrariando a corrente dominante. à comunicação apresentada no Seminário. esta faculdade tão característica da espécie humana. das suas origens. quiseram os organizadores deste Seminário dedicado à Metodologia da Investigação em Cultura introduzir no debate a questão da linguagem. são o espelho de diferentes culturas. Com frequência. É com prazer que registo o facto e com prazer que aproveito esta oportunidade dada aos Estudos Linguísticos para. 75 . depois. A todos os intervenientes. na sala de aula. conduziu ao nascimento da linguística como disciplina científica. no essencial. línguas diferentes. as políticas educativas e culturais ignoram que o multilinguismo. são formas diferentes de ver o mundo. o texto deste artigo vai enriquecido pela reflexão suscitada pelo debate que então teve lugar.

que “é na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito. 1958/2007:39). O interesse pela fala. um homem falando a outro homem. “este fenómeno simultaneamente tão natural e tão estranho”. de facto. 1983:1). 1994). percorrer todos os povos e todos os tempos. parece. afirma Emile Benveniste. com quem se confronta. um eu que só se afirma na presença de um tu. “Quem fala” diz Óscar Lopes nessa magnifica oração de sapiência que é As Mãos e o Espírito. acrescentando.. os estudos antropológicos e etnográficos mostram-nos a importância da fala em sociedades ou culturas que não nos legaram registos escritos. “e nunca o veremos inventando-a. o conceito de ego” (Benveniste. porque só a linguagem funda realmente na sua realidade. à maneira humana pelo menos. fosse por razões de ordem filosófica relacionadas com a sua origem e natureza. que é a do ser. é atingir o mundo material através de um mundo de sinais sensoriais e verbais de que os nossos semelhantes comparticipam” (Lopes. fosse por razões de ordem prática.] O que encontraremos no mundo é um homem falando.Joaquim Barbosa 2. Dos gregos antigos. “Nunca encontraremos o homem separado da linguagem”. 2. que “tinham o dom de se admirarem com coisas que outras pessoas tomam como garantidas” (Bloomfield. Por outro lado. Steven Pinker afirma que nunca encontrou uma pessoa que não estivesse interessada na linguagem. visto que pensa – e pensar. e é a própria linguagem que ensina a definição do homem”. mais adiante. [. como lhe chama Herculano de Carvalho (Carvalho. 76 . “nunca está absolutamente só..1 Os registos escritos Os registos escritos que até nós chegaram mostram que nenhuma das culturas conhecidas se deixou de preocupar com questões ligadas à linguagem. 1976:50). O Homem e a Linguagem No prefácio de The Language Instinct (Pinker.

C. No Génesis.C. Dos gregos. com Protágoras.. 77 . ainda hoje é considerada como uma das mais conseguidas descrições fonológicas de uma língua. séculos V-IV a. e em algumas das obras de Aristóteles. como ficou conhecida –. E Deus chamou a luz dia.. que visava descrever a forma de pronunciar correctamente a língua sagrada para que as orações surtissem efeito.. E houve luz. considerar a descrição do Sânscrito feita. como são as de reconhecer e produzir raciocínios correctos. a linguagem aparece como figura principal do princípio dos tempos. I. chegou-nos também a notícia de reflexão sobre a linguagem com preocupações de ordem mais prática. pelo sacerdote hindu Panini. na Retórica. Nas religiões do Livro. a primeira tradução da Bíblia em português. de 1681. Com objectivos práticos podemos. e claramente inscritas no Crátilo.C. de Platão. de certo modo. Nesta passagem 4 Na tradução de João Ferreira Annes d’Almeida. o dia primeiro” (Gén.. século IV a. possivelmente.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística 1933:4). a partir do século V a. sobretudo com a Lógica e a Retórica de Aristóteles.C. 2. dois ou três séculos antes da reflexão grega. e as trevas chamou noite: e foi a tarde e a manhã. independentemente da especulação filosófica sobre a sua origem ou da sua utilização prática. ou de ordenar o discurso de forma a ganhar as discussões na Ágora de Atenas.2 Os Mitos As referências à linguagem aparecem também em livros sagrados.. século VI ou VII a. chegaram-nos as primeiras reflexões filosóficas sobre a natureza e a origem da linguagem – questões que continuam a preocupar-nos vinte e cinco séculos depois – produzidas. a Criação é descrita quase como um acto de fala: “E disse Deus: Haja luz. Objectivos práticos teriam também as descrições médicas de problemas da fala provocadas por lesões cerebrais encontradas num papiro egípcio de cerca de 1700 a. na Lógica. 3-5)4.C. Esta descrição – a Gramática de Panini.

e confundamos ali a sua língua. e sem ela se não fez coisa nenhuma do que feito foi. Esta estava no princípio a par de Deus. 1-4) A importância da linguagem. não haverá restrição para tudo o que intentarem fazer. 1-9) 78 . para que não entenda um a língua de outro. cujo cume toque nos céus. desçamos. e a Palavra estava a par de Deus.Joaquim Barbosa estão patentes o poder transformador. Nela estava a vida. onde o facto de todos os homens falarem a mesma língua se torna uma ameaça. (João I. porquanto ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra. da fala –“e houve luz” – e. […] E disseram: Eia. e façamo-nos um nome para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra. e a Palavra era Deus. XI. e agora. Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificaram. E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala. simultaneamente. e as trevas chamou noite” – Este fazer-dizendo e dando nome às coisas feitas continua até ao fim do sexto dia da Criação. Eia. João. e isto é o que começam a fazer. onde a palavra é identificada com o próprio Criador: No princípio era a Palavra. e a vida era a luz dos homens. E disse: Eis que o povo é um. nomeando-o. agora como elemento agregador/desagregador. aparece de novo no episódio da Torre de Babel. e dali os espargiu o Senhor sobre a face de toda a terra. A confirmação do papel da palavra na Criação é confirmada num dos últimos livros da Bíblia. transfigurador. (Gen. de dar forma. e todos têm a mesma língua. uma das primeiras funções da linguagem: a de modelizar. edifiquemos nós uma cidade e uma torre. ao mundo – “E Deus chamou a luz dia. o Evangelho de S. […] Por isso se chamou seu nome Babel. Por esta foram feitas todas as coisas.

” (Popol Vuh: 7-8) Foi só ao fim de várias tentativas que conseguiram criar o homem com a faculdade da linguagem para que pudesse invocar os seus Criadores. Umberto Eco (Eco. embora só para os discípulos de Jesus. e estava confusa. e assim são mortos e comidos todos os animais da terra. em princípio. a linguagem aparece referida como uma propriedade inata dos homens: havendo os Criadores criado todas as aves e animais ordenaram-lhes: “Falai segundo a vossa espécie e diferença.3 O Testemunho da Antropologia Os antropólogos que a partir do século XIX procuravam “um objecto susceptível de ser estudado e que permitisse. invocai-nos!”.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística A restituição da língua comum acontece no Pentecostes. Ao contrário do que acontece nos textos da Bíblia. como se o homem não pudesse ser criado sem linguagem. e é assim descrita nos Actos dos Apóstolos: “E foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas como o Espírito Santo lhes dava que falassem. como Pinker (Pinker. porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. II. ou mesmo. criada por Deus no Jardim do Paraíso – e mostra como este mito é transversal a várias culturas. no Popol Vuh. o Livro do Conselho. em que a fala aparece como força criadora. a língua de Adão. Mas os animais e as aves não o puderam fazer “e desta sorte o ultraje lhes cobriu o corpo. ajuntou-se a multidão.” (At. um dos poucos registos escritos que da civilização Maia nos chegou. 4-6). 1969:67) descobriram que podiam melhorar o seu conhecimento acerca das 79 . 2. Falai. louvai o nosso nome. dizei que somos Pais e Mães. um instinto. É curioso pensar na semelhança desta descrição com as concepções modernas que consideram a linguagem como uma faculdade inata do Homem. 1996:23 ss) dá conta dos esforços para encontrar ou (re)construir a língua perfeita – a língua adâmica. [… ] E feita esta voz. o acesso à cultura de uma sociedade “primitiva”“ (Kristeva. 1994). Num comentário mais desenvolvido ao Génesis.

marido ou mulher. o verbo sai sob a forma de vapor. os diversos elementos da fala estão difusos pelo corpo. os órgãos da fala são a cabeça. a boca – língua dentes. como dar à luz. 1969:77). “Quando o homem fala. por exemplo. por exemplo. saliva – em que cada elemento tem um papel específico na produção da fala. ou mesmo a bater na madeira. o resultado da acção. os órgãos sexuais. 1969: 67ss) dá conta dessas investigações. Também para os Dogons (Niger). Para que a fala seja sensata. visto que a água da fala foi aquecida pelo coração” (Kristeva. Em geral. Em alguns povos. Para eles. a terra e o fogo. Referirei apenas alguns casos para salientar a importância social da fala. a água. quando as ouvimos? Por que 80 . Este tabu permanece em fórmulas ainda usadas entre nós como a minha falecida. a garganta. Falar é fazer sair elementos do corpo. “o elemento linguístico é tão material como o corpo que o produz” (Kristeva. Na comunidade cigana é tabu. o meu falecido para evitar dizer o nome do familiar falecido ou sequer pronunciar o grau de parentesco. Essa é uma das razões para as palavras tabu: o nome dos mortos. a ideia da importância da fala na vida social é tão forte que frequentemente fala é sinónimo de acção ou obra. E não é verdade que continuamos a evitar certas palavras. geralmente. 1969:76). para a grande maioria dos povos então descritos. Júlia Kristeva (Kristeva. quase insultuoso. os órgãos que a produzem são preparados de forma especial: tatuagens nos lábios e dentes limados. Os Bambara (Sudão) consideram a fala como um elemento físico. o coração. a bexiga. lábios.Joaquim Barbosa sociedades consideradas selvagens analisando a linguagem e a consciência que delas têm os seus falantes e registaram informações extremamente úteis para a investigação linguística e para o conhecimento da cultura dos povos estudados. pronunciar o nome dos mortos ou o seu grau de parentesco com os vivos. por exemplo. tal como o ar. Para este povo. a linguagem é algo que se identifica com o próprio corpo ou com as coisas nomeadas. sobretudo na forma de água. a traqueia.

que é a de ser. encarada fundamentalmente como um instrumento normativo.. pessoa. toda uma maneira de conceber o mundo” (Lopes. Pa- 81 . “implies that can be a successful linguistic theory or practice which is not social. que “Através dos milénios. cancro. 1958/2007:38). e desde a Grécia antiga. Mas sendo tão clara e tão sentida. como lembrava Labov.] que o ser humano é ainda mais profundamente social do que parece à primeira vista. 1997:23)? 3. coisa. Ainda hoje dizemos dar pontapés na gramática. o estudo das línguas incidiu sobretudo sobre a gramática. já referida: “é na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito. com Óscar Lopes.” (Lopes. aprende ao mesmo tempo. que.” (Labov. O Estudo das Línguas Até ao século XVIII. até aí é apenas kintu. A importância da linguagem é tal que em alguns povos banto uma criança só se torna muntu.. o conceito de ego” (Benveniste.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística teimam os órgãos de comunicação social em dizer: morreu de doença prolongada em vez de dar o nome. a linguagem tornar-se-á um tão importante instrumento. quando a criança começa hoje a falar. segundo os diversos testemunhos que nos chegaram. a ligação da linguagem à sociedade. qual a necessidade de uma disciplina chamada sociolinguística. cujo nome. Compare-se com a afirmação de Benveniste. Resumirei considerando. 1976:50). sem que a gente dê por isso. à doença? Será que conseguimos separar completamente o nome da coisa nomeada? O que todos estes mitos sobre a linguagem nos revelam é a preocupação do homem em tentar explicar uma faculdade que não existe em mais nenhum animal. quando aprende a falar uma língua. 1958/2007: 33) e que “A análise do pensamento e da linguagem mostra-nos [. porque só a linguagem funda realmente na sua realidade. como a forma de usar ‘correctamente’ a língua.

a escola iniciada por Bopp “que teve o mérito incontestável de abrir um campo novo e fecundo. por Franz Bopp (17911867). a fala. conduzidas por William Jones (1746-1794) e. diz Saussure que “foi ele quem compreendeu que essas relações [entre o sânscrito. na literatura. o objecto de análise era o texto escrito. Todavia. o grego. 1986:42) Quando Ferdinand de Saussure inicia a investigação sistemática da linguagem humana. onde a análise das mudanças fonológicas era. Nos fins do século XVIII. 1986:22/23). explicar as formas de uma pelas formas da outra. consequentemente. o grego. que eles não entrem nos seus domínios. tem de escolher entre a parole. é.Joaquim Barbosa ralelamente foi-se desenvolvendo uma outra corrente. De Franz Bopp. Já não falamos as línguas mortas. comentar e fixar os textos antigos. o uso da língua na interacção verbal. estava fora das suas preocupações. hermenêutica. 82 . o latim e o germânico] podiam ser matéria para uma ciência autónoma. Iniciava-se. levou à conclusão de que tais correspondências não poderiam ser coincidências e. na história ou na diplomática. é um objecto que se pode estudar separadamente. para poder funcionar. Ora. (Saussure. 1986: 25) A língua. o do comparativismo. Ela nunca se preocupou com descobrir a natureza do seu objecto de estudo.” (Saussure. um novo ciclo no estudo das línguas. à hipótese da existência de uma língua-mãe comum: o chamado Indo-Europeu. individual. filológica. essencial. Ver uma língua à luz de outra. mas podemos muito bem assimilar o seu organismo linguístico. com o objectivo de interpretar. distinta da fala. a fala. Em qualquer destas correntes. a verificação de correspondências entre línguas como o latim. o germânico e o sânscrito. mais tarde. A ciência da língua não só pode passar sem os outros elementos da linguagem como exige. não soube tornar-se na verdadeira ciência linguística. assim. eis o que não tinha ainda sido feito” (Saussure. sem esta operação elementar uma ciência é incapaz de encontrar um método.

condição sine qua non para ser ciência. o sistema abstracto que é partilhado num determinado momento por toda uma comunidade linguística e que todos compreendem. A autonomia do sistema linguístico sairia reforçada a partir de meados do século XX com os trabalhos de Noam Chomski. Momento dramático este. Momento com várias consequências. 1969:14) A ideia saussuriana da língua como estrutura – um sistema em que cada elemento é definido pelas relações de equivalência ou de oposição que mantém com os restantes elementos – tornava a língua num objecto autónomo que podia ser estudado por si mesmo. a língua. a formulação que lhe está subjacente é distinta. a primeira das quais é permitir ao homem não se considerar já como uma identidade soberana e indecomponível. sobretudo a partir da publicação de Syntactic Structures (Chomsky. Este retorno paradoxal descola o sujeito falante (o homem) daquilo que o constitui (a linguagem). Opta pela langue. Para Chomsky. isolando-a das variações decorrentes do seu uso. consegue isolar um objecto específico. e obriga-o a dizer o modo como diz. independentemente da mudança e da variação. (Kristeva. pois só assim. 1957). Ainda que a dicotomia saussuriana língua-fala esteja próxima da dicotomia chomskiana competência-performance. O conceito de estrutura viria a ser utilizado por Claude Levi-Strauss nos estudos antropológicos alargando-se depois a outros ramos do conhecimento. e a langue.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística sujeita à interferência de imensos factores não controláveis. porque […] o acto de considerar a linguagem como um objecto específico de conhecimento – implica que ela deixe de ser um exercício que se ignora a si próprio para se pôr a “falar as suas próprias leis”: digamos que “uma fala se põe a falar o falado”. qualquer falante adulto de qualquer língua possui um conjunto de conhecimentos – uma gramática – que 83 . mas analisar-se como um sistema falante – uma linguagem.

[…] uma teoria da competência é uma teoria das frases de uma língua […] não tem de se ocupar com o papel que o contexto . adquirido de forma inconsciente a partir dos primeiros contactos com a sua língua materna. a dar mais atenção às investigações sobre a faculdade da linguagem e ao desenvolvimento de modelos formais do seu funcionamento. passou. diz Nicolas Ruwet. que se tornou dominante a partir dos anos sessenta. “Para Chomsky”. A Sociolinguística A abordagem ge(ne)rativista da linguagem – assim chamada por. prever a existência de regras formais capazes de gerar um número indefinido de frases bem formadas –. Chomsky dá o nome de competência. parece tê-la afastado da fala concreta. não sendo este o tempo ou o local para tentar descrever a revolução iniciada por Noam Chomsky no conhecimento da linguagem humana. Generative grammarians have largely ignored the problem of variation.seja ele linguístico ou de situação – desempenha na produção ou na compreensão efectiva das frases. simplificando. de facto. ou a forma como esse caminho foi percorrido.Joaquim Barbosa lhe permite produzir e compreender um conjunto indefinido de frases nunca antes ouvidas ou produzidas.” (Ruwet e Chomsky. penso ter conseguido mostrar que o caminho para a autonomia da linguística como ciência. A este conhecimento. e a teoria do contexto faz parte da teoria da performance. limita-se ao estudo das frases isoladas. 4. 1966:18) Em resumo. Ao uso que o falante faz da sua língua nos actos de fala concretos é dado o nome de performance. with a few notable exceptions and exclude all competing data 84 .

William Labov considera que embora algumas das diferenças entre linguistas sobre esta questão sejam de ordem retórica. como eu. 5 Para evitar a utilização de símbolos fonéticos uso as barras (/) para indicar o som. 4. Apertando a nossa busca encontraríamos entre nós diferentes realizações de alguns fonemas do Português: para alguns. Contudo. (Labov. 1975:13-14) Todavia isto não impediu que outras abordagens da linguagem e das línguas se desenvolvessem. marcando uma origem beirã. por exemplo – ou no léxico que usamos – café/bica. o /r/ de rato é velar. Possivelmente não precisaríamos de sair da sala onde decorreu este seminário para verificar a existência de variedades linguísticas ligadas à região de origem dos presentes ou mesmo variedades ligadas à sua idade. 1975:7). Reconhecemos facilmente os nossos colegas brasileiros. /j/. onde ainda aparecem vestígios de um sistema de seis fricativas que existiu no português até há pouco tempo e que dá origem à caricatura de ‘Vi/j/eu’. acrescentando que “the general program of all linguists begins with the search of invariance” (Labov. Encontraríamos variação não só na pronúncia – /v/inho. pela construção frásica. para outros será apical. e até. de facto. a busca da invariância implica entender e definir com clareza o que é e não é variação. pelo uso mais frequente do pronome pessoal sujeito nas formas verbais. mas também pelo léxico utilizado. e não a grafia. /b/inho5. “others seem to be real differences in working strategy” (Labov. com alguma atenção.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística except that drawn from their ‘dialect’: that is. their own judgments about sentences. sobretudo pela abertura das vogais. é possível até que estivesse alguém que realize de forma diferente o /s/ de con/s/elho e de con/c/elho. 1975:5). ainda que a fricativa produzida pelos beirões não seja. 85 . das vogais ou consoantes assim assinaladas. cimbalino/italiana.1 A variação linguística Todas as línguas variam no tempo e no espaço.

a nossa primeira gramática. (Coulmas. sua pileca!”6. tal como o musical. come como uma senhora e fala como um senhora – entusiasmada com a corrida solta um sonoro “Mexe-me esse cu. nacional. que.. No caso do Português. como Deus. mostra bem como a língua que falamos é tão identificadora como a cor dos olhos: nunca a podemos mudar completamente.Joaquim Barbosa Estas diferenças não prejudicam. a comunicação. etc. [.] E porém todas elas [as falas] ou são gerais a todos. Na adaptação cinematográfica. pão. recebeu o título de My Fair Lady. publicada em 1536. a cena da corrida de cavalos em que Eliza Doolitle – que já veste como uma senhora. A existência de uma relação entre a fala e a origem social ou geográfica dos falantes é reconhecida desde há muito. manner of pronunciation. trata bem o papel identitário da língua em Pygmalion. and education. em geral. age. occupation. é bem conhecida. aparece já descrito na Grammatica da lingoagem portuguesa. regional. mas algumas delas darão informações acerca da nossa formação cultural. ou são particulares e esta particularidade 6 Tradução mais ou menos livre de “C’mon horsie. move yer arse! 86 . Speech is socially emblematic in the sense that speakers by their choice of words. da nossa origem social. and other stylistics features identify with others with whom they share social characteristics. que conta a história de um professor de fonética que tenta transformar uma florista numa Lady. 2001: 567) George Bernard Shaw. gender. such as socioeconomic status.. céu e terra. but also place of residence. sobretudo sobre a escrita da língua inglesa.. cuja reflexão sobre a língua inglesa. vinho. de Fernão Oliveira. and ethnicity.

XXXVIII Apenas mais dois casos ilustrativos da variação no Português. Menos de uma geração mais tarde Gonçalves Viana dizia. que se recomenda. em 1739. descritos por Ana Maria Martins (Martins. não localizo com rigor cada uma das citações que se seguem. de 1883. l/e/nha”. como os cavaleiros que têm uns vocábulos e os lavradores que têm outros [. e os homens da Estremadura são diferentes dos de Entre Douro e Minho. 87 . p/a/nha como pertencentes à norma padrão do português. assim também as terras criam diversas condições e conceitos. Luís António Verney afirma. ii) Em 1671. /tch/umbo. /x/apeo. na sua Orthographia ou arte de escrever e pronunciar com acerto a língua portugueza. /x/umbo. ainda refere o “abuso de pronunciação” dos oriundos de Lisboa. l/a/nha por p/e/nha. João de Morais Madureira Feijó.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística ou se faz entre ofícios e tratos. João Franco Barreto na Ortografia da língua portuguesa. Jan. 1746. 1536: cap. que deve preferir-se a pronúncia dos mais 7 Por simplicidade. porque os da Beira têm umas falas e os do Alentejo outras.clul.pt/ equipa/ana_martins.php . no Verdadeiro método de estudar. está disponível em http://www. Ou também se faz em terras esta particularidade. co/a/lho. /tch/apeu.].ul. no seu ensaio de fonética e fonologia da língua portuguesa. dizia que “por ignorância” ou “por a língua os não ajudar” os “rústicos” do sul “pronunciam barbaramente” /x/ave. O texto integral. Actualmente.. José Inácio Roquete dizia que “É muito frequente entre a gente ordinária de Lisboa mudar o /e/ em /a/ nalgumas palavras: dizem p/a/nha. 2003)7 i) Em 1845. em vez de /tch/ave. (Oliveira. porque. que trocam o ch por x./2009). o Dicionário da Academia das Ciências regista as pronúncias cer/a/ja. no seu Código de Bom Tom (ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIXº Século). l/a/nha. que toda a gente em Lisboa fala assim e só “algum caturra velho” conserva a pronúncia antiga.. mas 7 (sete) anos mais tarde. assim como os tempos.

linguistic DIVERSITY is precisely the subject matter of sociolinguistics. In this and in still larger ways. 1977b:5). […] One of the major tasks of sociolinguistics is to show that such variation or diversity is not in fact “free”. Para William Bright. realizada para a sua tese de mestrado. Num trabalho sobre a unidade da sociolinguística. em 1963. 1977b:5) ou “the investigation of linguistic structure and change on the basis of data drawn from the use on language in every-day-life” (Labov. (Bright. but is correlated with systematic social differences. Esta definição é. redutora na medida em que perde a interacção. entre língua e sociedade.2 O campo da Sociolinguística Uma das definições actuais de sociolinguística diz que “Sociolinguistics is the empirical study of how language is used in society. Labov começa por perguntar se há questões específicas da sociolinguística. contudo. ou seja. 2001:563). William Labov mostrou que as 88 . The sociolinguist’s task is then to show the systematic covariance of linguistic structure and social structure – and perhaps even to show a causal relationship in one direction or the other. a mútua influência. “all the ways in which social factors influence language and linguistic factors influence society” (Labov.” (Coulmas.Joaquim Barbosa cultos e que falam bem na Estremadura. mas também as implicações que a língua tem na estrutura social e que a sociedade tem na estrutura da língua. aceitando que uma das mais comuns abordagens define esta disciplina como a intersecção da sociologia com a linguística. o objecto da sociolinguística não é apenas o estudo da forma como a língua(gem) é usada na sociedade. 4. e esses pronunciam o ch docemente como um x. 1966:11) Numa das investigações fundadores da sociolinguística.

os colarinhos-azuis (do fato—macaco) afastavam-se. enquanto os falantes das classes médias o pronunciavam como dental. estavam directamente relacionadas com a idade. Em The social stratification of English in New York City. 2008:16) Os aspectos políticos e ideológicos nunca estiveram muito afastados das investigações sociolinguísticos. The influence of gender and the impact of Spanish language fluency among the young generation are considered.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística mudanças que estavam a verificar-se na realização de alguns ditongos do dialecto inglês falado na pequena ilha atlântica de Martha’s Vineyard. mostly for political and ideological reasons. compara a fala de imigrantes cubanos que chegaram a Miami já adultos nos anos sessenta e setenta do século passado com a fala de jovens nascidos em Miami cujos avós chegaram a Miami antes de 1980. (Lynch. etc. Andrew Lynch. Ou seja. this. índios. 89 . Num estudo muito recente. a publicar num dos próximos números de Language Sciences. o sexo. (Lynch. e a atitude dos locais perante os veraneantes ‘invasores’. there. seguindo a norma padrão. a divisão linguística correspondia à divisão de classe: os colarinhos—brancos aproximavam-se da norma. 2008). as is the role of language internal factors. A ilha era habitada por descendentes de portugueses. ao contrário do que está a acontecer dialectos espanhóis das Caraíbas. por exemplo. This finding is attributed principally to the social need of the Miamiborn grandchildren of early exile Cubans to differentiate their speech from that of later Cuban immigrant groups. por veraneantes. próximo do /d/ de delta. Sociolinguistic analysis of final /s/ in Miami Cuban Spanish. Labov (1966) mostrou que as classes trabalhadores tinham tendência para pronunciar as consoantes iniciais de palavras iniciadas por th – then. no tempo das férias. Lynch verifica que nos jovens parece não se verificar o abrandamento do /s/ final. ingleses e. Massachusetts. – como um /d/ alveolar.

problemas tão sérios que ameaçavam a existência das próprias sociedades em que ocorreram. Quando o governo indiano decidiu lançar um programa para tornar o Hindi – uma língua da família indo-europeia. foi um dos factores motivadores da disciplina. Os estudos sociolinguísticos então realizados no sentido 90 . A necessidade de compreender o fenómeno do multilinguismo e a atitude dos falantes perante a língua foi. que terminou com “Vive le Quebec Libre! Vive le Canada français! Vive la France!”. pela Fundação Ford. em 1967. a questão linguística ameaçou a unidade do Canadá devido à rivalidade entre os falantes das duas línguas oficiais: o francês. o general De Gaulle. Alguns de nós talvez ainda se lembrem do discurso do então presidente da República Francesa. (Coulmas. mais tarde. Vou referir apenas dois casos ilustrativos: a Índia e o Canadá. nos anos setenta. dos primeiros colonos. Também no Quebec. aliada à presença no ensino superior da língua colonial. tornou-se um campo excelente para a investigação sociolinguística. o facto motivou violentas reacções dos falantes das cerca de setenta línguas da família dravídica. economicamente mais poderoso. e à complexa estrutura social Hindu. 2001:564) Labov (1977b: 7 ss) afirma mesmo que o reconhecimento da existência de problemas sociais decorrentes de questões linguísticas.Joaquim Barbosa […] sociolinguistics combines an interest in linguistic structures with the recognition that examining the societal dimensions of language requires interpretative methods allowing us to understand how language is reflective of social processes and relationships and what it contributes to making society work as it does. o Inglês. como lembra Labov (1977b:7) um forte estímulo para a investigação sociolinguística e para o apoio que lhe foi dado. e o inglês. primeiro pelo Governo Indiano e. a que pertence o português – língua oficial do Estado. A presença de línguas vernáculas regionais em confronto com uma língua padrão diferente. na Exposição Mundial de Montreal.

multiétnicas e multilingues são uma realidade.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística de encontrar os caminhos para a convivência linguística são considerados por Labov “Perhaps the most spectacular advance in our studies of sociolinguistics variation” (Labov. 1977a). Language in the Inner City: Studies in the Black English Vernacular (Labov. numa atitude quase de um activismo militante. We must then understand the way in which the vernacular culture uses language and how verbal skills develop in this culture. possivelmente. que eram “dolorosamente óbvios” nas escolas da cidade de Nova Iorque. Attempts have been and are being made 91 . Os investigadores procuravam saber se as diferenças dialectais tinham alguma coisa a ver com o problema. O papel da investigação sociolinguística na procura de soluções para problemas culturais e políticos está relatado numa das obras mais marcantes da sociolinguística. A ideia de que o conhecimento dos problemas pode conduzir à sua resolução tem acompanhado as práticas e as teorias no campo da sociolinguística. and dialect differences are important because they are symbols of this conflict. como admitia Norbet Dittmar num trabalho em que pretendia apresentar aos leitores alemães o estado da investigação e da teoria em sociolinguística. 1977a: xiv) As conclusões apontadas por Labov poderiam. One major conclusion of our work as it emerges in this volume is that the major causes of reading failure are political and cultural conflicts in classroom. numa tentativa para encontrar a origem dos problemas de escrita. 1977b:11). sobretudo na periferia da capital onde a existência de turmas multiculturais. aplicar-se a algumas das nossas escolas. brancos e negros. que dá conta da investigação levada a cabo por vários investigadores. (Labov. In the last decade sociolinguistics has become a powerful factor in promoting emancipation.

(Dittmar. van Dijk. 1977:1) Estão nesta linha as investigações no quadro da Análise Crítica do Discurso desenvolvida. de sexo e de características étnicas. 1999 e Wodak & Meyer. de raça. que pode servir de instrumento de reprodução ou de resistência a tais práticas. onde estão incluídas a desigualdade política. mostrar e. Dominação entendida como o exercício do poder social por elites. a desigualdade cultural e a que deriva da diferenciação e discriminação de classe. – e o discurso. considera-se que uma investigação dissidente deve tomar posição explícita no sentido de tentar compreender.Joaquim Barbosa to attenuate conflicts in schools and to remove the obvious inequality of opportunity of broad sections of the working classes and peripheral social groups by systematically exposing the connection between speech forms and class structure. os analistas críticos do discurso querem saber quais as estruturas. instituições ou grupos. por Fairclough. (1989. 1997:25) Neste quadro teórico. e Ruth Wodak (Wodak et al. 92 . diz Emília Pedro. and by application of the insights gained to specified social contexts. dominação e discriminação de género. nomeadamente. que assumem a existência de uma relação dialéctica entre certas práticas sociais – como abuso do poder. […] é o de analisar e revelar o papel do discurso na (re)produção da dominação. etc. Um dos objectivos da Análise Crítica do Discurso. da interacção verbal. 2001). que desempenham um papel nestes modos de reprodução. Especificamente. que resulta em desigualdade social. (Pedro. etnia. estratégias ou outras propriedades do texto. 1995). resistir às desigualdades sociais. falado ou escrito. 1998). até.. ou de acontecimentos comunicativos em geral. (1997.

Os investigadores têm muitas vezes de ‘forçar’ os dados empíricos. E isto não prejudicou em nada o conhecimento biológico nem a sua aplicação aos seres concretos. nem a linguagem é apenas um instrumento de comunicação – a investigação na área das ciências cognitivas e na neuropsicologia tem investigado o seu papel na formação do conhecimento e da memória. Charles Darwin conseguiu formular uma teoria extraordinária da evolução da vida na terra a partir da observação dos seres vivos e da sua capacidade de reflexão. quero abordar brevemente uma questão que foi colocada no debate: pode haver investigação linguística sem ligação ao social? A minha resposta é: pode e deve. de cada ser vivo. as investigações sociológicas têm dado luz sobre alguma investigação autónoma. Linguística e sociolinguística Antes de concluir. já referido. de a linguagem ser para os humanos algo adquirido e ser considerada essencialmente um instrumento de comunicação indissociável da interacção humana. por sua vez. Todavia. por exemplo. Consideremos a biologia. o código genético individual. de usar as suas intuições – método criticado por algumas cor- 93 . a chave de instruções. também é verdade que investigação autónoma do funcionamento da linguagem e os diversos modelos formais desse funcionamento que têm sido desenvolvidos permitem compreender melhor o uso da linguagem. foi preciso que alguns investigadores se fechassem em laboratórios assépticos para que fosse possível chegar ao Ácido Desoxirribonucleico (ADN). A divisão entre investigação pura e aplicação pode parecer estranha em linguística pelo facto. Todavia.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística 5. por exemplo – nem esta divisão é exclusiva das ciências da linguagem. Se é verdade que a necessidade epistemológica de isolar um objecto autónomo e um método de análise conduziu a algum afastamento do estudo da linguagem em funcionamento na interacção verbal humana.

mostrou que a análise estrutural pode ser separada da análise semântica. A conhecida frase “colourless green ideas sleep furiously”. para. em geral. como. a variável significado. que referem. de Chomsky. mas não é aceitável. interrogarmo-nos se o que descobrimos acerca do funcionamento da linguagem não será aplicável a outros aspectos do conhecimento humano. por exemplo. respectivamente. o {S} final. costumo usar para iniciar os meus alunos no conceito de conhecimento linguístico.Joaquim Barbosa rentes. 94 . pelo menos parcialmente9. como vimos – para perceber o funcionamento da língua ou o conhecimento linguístico das falantes. Seria possível encontrar um exemplo assim na interacção verbal corrente? Não me parece. ou o {VA} e o {M}. as combinações possíveis. o que permite colocar a questão da origem do conhecimento linguístico e. 8 9 8! (8 factorial) = 8x7x6x5x4x3x2x1=40320 Porque não consigo anular o significado de alguns dos morfemas que constituem as ‘palavras’ e participam na formação do seu significado. como consta do programa generativista. “Os niradavam minsicamente tovos as trolas da miradana”. impede-se o uso. de Lewis Carrol. hesitantes. Retirando o significado. ninguém tem dúvidas: isto não pode ser português! As reacções repetem-se quando exploramos algumas das 40320 combinações que aquelas 8 ‘palavras’ permitem. De facto. quando troco a ordem das ‘palavras’. Todavia. passado imperfeito e terceira pessoa do plural. porque se contradiz a si mesma.8 Ao anular. as combinações proibídas. que significa plural . da forma verbal. mas não se impedem as intuições. inspirado na Alice do outro lado do espelho. por exemplo. Há sempre um ou outro que pergunta se aquelas palavras existem mesmo em português. a construção está correcta do ponto de vista da organização sintáctica do inglês. porque não faz sentido. Quando lhes apresento esta construção e lhes pergunto se pode constituir uma frase do português ficam. que. como não me parece que fosse possível encontrar a ‘frase’ “Os tovos niradavam minsicamente as trolas da miradana”. as intuições só trabalham os padrões de ordem previstos em português.

que os investigadores do ADN desconheçam a História Natural. e porque. por sua vez. julgo ter mostrado que “a linguagem está não só efectivamente envolvida na produção e reprodução de outras práticas sociais. tal como qualquer outra marca cultural. 95 . O que poderá ser errado é os investigadores laboratoriais desconhecerem a prática. diria que não há mal em que a investigação linguística ´pura’. Ao apresentar a sociolinguística e alguns dos problemas que pretende analisar.Linguagem e culturas: o papel da Sociolinguística Resumindo. a investigação linguística por certo beneficiaria com os dados empíricos recolhidos nesta interacção. consequentemente. penso. já interdisciplinar. o grupo social em que estamos integrados influencia a língua ou a variedade da língua que falamos –. Por isso – porque a língua ou a variedade da língua que falamos nos caracteriza e nos integra num determinado grupo social. 6. bem como por outras práticas e categorias sociais. dos Estudos Culturais sairia enriquecida com a inclusão da reflexão sobre o papel da linguagem e que.” (Kress. não considere. tal como será errado. julgo que a investigação no campo. 1977:55). mas é ela própria produzida e reproduzida por práticas linguísticas. Conclusão Pretendi neste trabalho aproveitar a oportunidade que neste seminário sobre Metodologia da Investigação em Cultura me foi dada para i) manifestar o meu estranhamento por as questões da linguagem andarem arredadas dos estudos culturais e ii) apresentar a disciplina científica que estuda a interacção entre sociedade e a linguagem. a linguística aplicada. por razões metodológicas.

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Research topics and methodologies
in film studies
Anthony Barker1

Although film art has been with us for over 110 years, film studies have only been in the academy for a relatively short time. Here
I’m referring to the analytic study of film as a cultural product in universities rather than the distinguished work carried out in film
schools, which offer both a theoretical and a practical training for
people hoping to work in the various national film industries. Film
studies would have started up in the wealthier countries, those with
more established film industries, around 50 years ago, have consolidated themselves as independent departments 30-40 years ago and
begun to attract large numbers of students during the enthusiasm for
Media Studies which began around 25-30 years ago. In less well-funded and more academically conservative educational systems, film
studies will have only begun to break through 20 years ago, and often
in the face of considerable resistance. The traditionalist’s argument
against film studies taking its place in the academy, held in the teeth
of evidence that there is great popular demand for study programmes
and courses in this domain, is the same one which impeded the establishment of mother tongue/vernacular literature courses at the end
of the nineteenth century. This is what we might call the Philology
Fallacy: that only things which are difficult, linguistic in character,
often foreign and decently dead are deserving of serious study. When
my own University, Oxford, finally adopted courses in English over a
hundred years ago, it made sure that the degree was called “English
Language and Literature”, that it was made up mainly of the obligatory
1

Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro – Portugal.

99

Anthony Barker

philological study of Anglo-Saxon and Middle English (essentially
dead and different languages from modern English) and that, for
study purposes, all literature stopped in 1832. When I was a student
there in the mid-1970s, literature had managed to creep forward into
the twentieth-century but still came to rest in 1945. What of course
is at issue here is not the utility or even the complexity of the object
of study but its well-known capacity for giving pleasure. Pleasure is
something that the academy has always been deeply suspicious of.
English literary studies were dismissed by their opponents as “chat
about Harriet”2, as if the field were little more than gossip and incapable of any analytical or methodological rigour. All these suspicions
were reawakened when film studies came knocking on the university’s
door, only with two serious aggravating additions. Film had such a
short history that it did not need to be exhumed from an unfamiliar
past and it required no hard philological grind to come to grips with
it. It was like the poet Philip Larkin’s ironic prediction in “High Windows” of “everyone young going down the long slide to happiness,
endlessly” (Larkin, 1974: 17). It should create no surprise therefore
that it was resisted.
Once on the fringes of the academy, thinking and writing about
film had to make itself respectable as quickly as possible. This was no
easy matter for a debate has raged ever since the invention of cinema
about its nature as an art and what kind of art form it most closely
resembles. A narrative art like prose fiction, a pictorial art like painting/composition, a performance art like drama, or something more
akin to opera because of its use of accompanying music? Or perhaps
its origins in photography make it technological in character and the2

Harriet Shelley, née Westbrook, was the first wife of the poet Percy Shelley. Shortly
after the poet deserted her to elope with Mary Godwin, the future author of
Frankenstein, she threw herself in the Serpentine in London and drowned herself.
Citation of the incident is intended to encapsulate all that is sensational and unscientific about literary studies.

100

Research topics and methodologies in film studies

refore perhaps not an art at all? This stimulating contemplation of the
hybridity of cinema was all very well but it flew in the face of the academy’s love of established domains, tight boundaries and agreed methodologies. There was an additional problem as well, not unrelated
with the above issue of hostility to recent or non-canonical literature.
Cinema has been (not exclusively but to very considerable degree) a
highly commercialised and mass popular mode of expression in the
20th century. As big business, it was in no particular hurry to make a
claim for itself as art. These claims had been made earlier on behalf
of distinguished individual film-makers but only began to be made
on behalf of all cinema in France in the 1950s, thereafter forming the
basis for film studies’ pretension to a place in the academy. As I have
suggested, it was not difficult for the writers, critics, film-makers and
intellectuals of Cahiers du Cinema to make a case for the acknowledged European masters of film art from the first half of the century,
but they went further and attempted to recognise talent (and even genius) as it prospered in the commercial cinema, even or especially
under the American factory-like Studio System. In order to do this,
Truffault and his collaborators developed the idea of the film director
as an auteur, as a man (invariably a man) who “writes” his film using
his camera as his pen. The leading American advocate of this strategy
was Andrew Sarris, in his book The American Cinema: Directors and
Directions 1929-1968. The analogy to literary creation was full of almost wilful misrepresentation, if for no other reason than because
nearly every film had its own writer (or team of writers) and that person or persons was rarely the director. Nevertheless, the analogy was
necessary and immensely influential because it offered a paradigm
for research which could be accepted by people not engaged in film
studies. As soon as you try to apply it, you come up against the essentially collaborative nature of film making, with its division of responsibilities into different crafts at nearly every level above that of
the simple home-movie or the most rudimentary of documentaries.

101

Anthony Barker

Contrasted with the complexity of creation predicated on dozens of
different technical and artistic functions, pretending that a film was
“written” by its director was a reassuringly straightforward way to represent a critical approach to understanding film. So, to simplify, film
studies established itself upon the basis of a persuasive but erroneous
analogy, and then proceeded to branch out into more promising
areas. This is not to say that key individual figures in the film-making
process do not continue to exert an irresistible appeal for scholars, or
that the director does not still remains the most recognised and valued of creative figures.
The first serious challenge to traditional ways of practicing film
analysis came from the Humanities’ most palpably ‘scientific’ field,
Linguistics, and which led to the revolution of thinking about film pioneered by structuralists and semioticians in the late 60s and early 70s.
These scholars were quick to proclaim that all that had gone before
was evaluative “film criticism,” the totalising assumptions of which
were unfounded and the methods deployed little more sophisticated
than the old “belle lettres” approach. Film theory was rapidly in the
ascendant, and influential general theorists like Roland Barthes and
Umberto Eco, as well as film specialists like Christian Metz, began to
generate the new paradigms upon the basis of which a thorough-going
analysis of film signification could be practised. At the same time, a
further group of empiricists led by David Bordwell and Kristen
Thompson sought to establish the ‘grammar” of various bodies of film
art through detailed structural analysis of an extensive corpus of films.
These were intellectually turbulent years but Dudley Andrew (1984:
9) has neatly synthesised the situation when he writes that:
The film theory born in the world of humanities has been one based
on the efficacy and import of “metaphors” about the film phenomenon. Since metaphors are more readily generated than are computerized analyses of audience questionnaires or minute

102

the mirror (from psychology. where scholarship of an avowedly literary bent embraced the ideas of the socially-engaged left. Perhaps the three most potent metaphors remain those of the frame (from painting. where the camera is turned neutrally upon the external world) and. itself a non-traditional performance medium like television. Film had always had an uneasy positioning between traditional literature and culture fields on the one hand and recently emerged branches in the social sciences on the other. more recently. where all within is composed by the artist). could also bring something new to the table because structuralism and semiotics. while enlarging our capacity to ex- 103 . Media Studies began to establish itself in the newer universities and polytechnics of the west. the window (from documentary film-making. the establishment of the interdisciplinary fields of media studies and communications studies offered the prospect of a more ready acceptance of cinema. whose dependence on models of ‘the unconscious’ has licensed a tradition of theory that is “virtually self-sufficient”.Research topics and methodologies in film studies descriptions of hundreds of obscure films. Andrew also explains the neglect of and hostility towards empirical studies and social science methodologies by many cultural theorists. radio and TV naturally appealed to sociology because these were all near-contemporary mass cultural forms and therefore had an active and palpable role in new and measurable forms of social interaction and representation. where meaning is generated in the act of reception. In particular. in the minds of spectators). the discourse of film theory is destined to remain in this literary world. with its materialist emphasis. Towards the end of the 1970s. Research in cinema. The meeting ground between traditional humanities approaches and social science methods is the new Cultural Studies field. unlike the easier-to-accommodate field of theatre studies. Cultural studies. and began to analyse film from the point of view of the various dominant and resistant ideologies of social classes and racial and sexual groupings.

A film is not a product like a model of car or a burger: it cannot be wholly standardised (no film can be exactly like the one it follows in the cinema). and naturally enough in relation to cinema of the earlier part of the century. and how that signification had modified over time. So in the 1990s.” precise discrimination of cultural products is an advantage. They also neatly mirror industrial norms of production. In a world of ever greater competition for the “entertainment dollar. It also benefits audiences. historicism made something of a comeback. which once tried 104 .” This is why a film industry. Their forms and meanings are in a constant state of negotiation. interest in the classic auteurs of film art (and their modern analogues) was carried on up to the end of the 1970s and beyond in tandem with an emerging interest in genre cinema. who are no longer the multigenerational mass market of the 1930s and 1940s which went to the cinema once or twice a week irrespective of what was on. They had not succeeded in dispensing with the need for a historical and commercial context. in their virtual lab coats. yet standardisation is a desired end of industrial economics. had been notably less successful in explaining the why. so too are “Martin Scorsese” and “Leonardo di Caprio. were simply found to not know enough about the different contexts in which films came to signify. As I suggested above. Genres were of particular interest to cultural studies theorists because they seem to come into being in response to a zeitgeist (certain genres are more popular -hence more ubiquitous. Another important way in which the field changed was in the principles of selection governing which films were to get onto the syllabus and become the objects of study. Film analysts. The familiarity which genre identity brings to product is useful at the marketing stage. especially after the early 1980s when publicity and release costs came to match or even exceed production costs.Anthony Barker plain the how and the what of film art. It is not just that “sci-fi” is a brand.at certain times) and out of an unwritten contract between mass producers and mass consumers.

the focus is largely on the classics and the contemporary scene. have accordingly been those which have been from a feminist.Research topics and methodologies in film studies to deny creative talent any kind of public identity (Florence Lawrence was famously known as ‘The Biograph Girl’ for many years to prevent her from becoming what she eventually did become. there has been a shift of emphasis away from the films people ought to want to see to the films they do want to see. A good example of a methodology in operation in film studies which is perhaps not as frequently deployed elsewhere in the huma- 105 . and not merely. the processes of signification and the politics of representation in such films. academic opinion is being fed back into the film-making process.” Film studies departments are now a broad church. the first film star) is now happy to emblazon both film posters and credits with banner lines such as “A Martin Scorsese Film. One of the consequences of this (one might argue) new hegemony of thought is that film makers have become very much attuned to what the academy is saying about them. the film is reprised with the male malefactor hunted down and killed by his potential victims. postcolonial and gender orientation perspective. Immediately after the slaughter stops. Ann Kaplan (1983). Some of the most dynamic specialisations of film studies. and often function in conjunction with modern languages departments. Because many of these are formulaic. in response to negative critical reviewing or adverse market forces. In film degree courses. as in the past. teaching courses for those departments in specific target cultures. In these cases. certainly the most productive in terms of book-length studies. In other words. Even a film-maker like Quentin Tarantino. has released a film. which slaughters lightly-clad young women in awareness of and due deference to the feminist writings of critics like E. who began producing work soaked in genre violence. the subject has increasingly concerned itself with the commercial determinants of production. wit and machismo. Tania Modleski (1988) and Carol Clover (1992). Deathproof (2007).

in contrast. etc). has a more direct relationship with technology. the film cost six times as much to make as the actual ship. or drama moving indoors to customised theatres with curtains. The film Titanic (1997).Anthony Barker nities is that of attempting to understand film through the history of emerging technologies. for example. for example. has seen a vast amount of printer’s ink flow about it but very little of it has concerned itself with the film as narrative or art. stoppages in production caused by technical problems. artificial lighting and stage machinery. will find some kind of representation in the emerging art form itself. The Titanic. with his film The Abyss. and that technology. since it is totally predicated on machinery to give it form. there was still a tendency to dwell upon costs. Computer generated imaging has been the single biggest innovation in cinema since the addition of sound in 1927. the film’s director James Cameron had been one of the first to introduce CGI into feature-film production. This has a consequence in the film industry to the extent that the ability to do something frequently dictates that it is done. Instead it has dealt with the construction of special docks in Mexico for the filming. As early as 1989. The phrase “state of the art effects” might have been invented to describe this imperative. There is of course some form of technology at work in any given art form (production of the paperback book. without adjusting for inflation. when the film went on to break all box-office records. like the economic system that gave life to it. and polemical casting decisions. the funding bail-out of 20th Century Fox by Paramount. It has transformed an industry based on ever more sophisticated systems of moving photography 106 . Even after completion. as if a film so expensive had to be a moral embarrassment. Such is the case with the steam-powered presses producing the novels of Thomas Hardy in which apparently timeless 1840s characters watch the milk they have gathered into churns that morning be transported up to the city on steam-powered trains puffing through the countryside. the building of large-scale detailed models of the ship. As one critic remarked. Film.

Partly this interest has been covered by the sizeable presence of psychology and psychological theory in film analysis. For example. commerce has had an enormous impact on how that technology is developed and implemented. cable. who have now become mostly providers of disembodied voices.Research topics and methodologies in film studies into one where photography is just one of the battery of image-reproduction techniques available to the movie maker. If there is a principle to be relied upon. Various schools of psychology and psycho-analysis are thought to be uniquely placed to illuminate film texts. These two instance show that there are no immutable laws of survival of the fittest at work here – technologies come into being. is on the verge of victory. A similar format war is taking place between Blu-Ray and HD DVD. Freudian and Lacanian interpretations of Jane Campion’s The Piano (1993) vie for our attention and Jungian theories of a collective unconscious are often invoked to explain how we can have shared reactions to and reach shared interpretations of popular movies. If technology had and still has an enormous impact on the aesthetic development of film art. live-action figures have been wholly substituted by digital versions of the actors. however. VHS was not a better video-tape recording system than Betamax. In another sense. but it won out as a world-wide system because of the industrial interests arrayed behind it and the way they marshalled their resources to campaign for the system. it is that media businesses abhor nonstandardisation. according to economic contexts. the more expensive system. And in films like The Polar Express (2004) and the recent Beowulf (2008). and it appears that Blu-Ray. Film studies students have to school themselves in the realities of good business practice. Another interesting and dynamic area of film studies is the investigation of the viewing experience itself. just as the fragmentation of the television industry from its origins in free-to-all terrestrial broadcasting into satellite. and prosper or wither. pay-per-view and internet download has 107 . VHS was the cheaper system and it prevailed.

The average shot length of a film like Spartacus (1960). The ASL of Gladiator (2000) is just over three seconds. audience attention is harder to hold. since 1987). Now feature films are made with more than half an eye to their post-theatrical afterlives. calculated by dividing the total length of the film by the total number of shots in the film. As I mentioned before. dropping to significantly lower values than this for fight sequences (King. Once the Cinemascope and Vistavision systems ravished the eye with broad effects: now young directors are encouraged to concentrate the action centre-frame for fear that anything towards the margins will be cut off by adaptive pan-and-scan re-editings and reframings for TV screens. catchier editing styles now because. Thus the way an image is composed in the frame. and how long we are allowed to see it is often influenced and sometimes determined by the intended delivery system of the film. Similarly. In the 1950s cinema resented television with its small monochrome screen and did all it could to prevent the appearance of films in that medium. The many postgraduate students I have had the privilege of working with since 1995. My particular perspective on the subject is that of a teacher and scholar of film as part of the wider spectrum of Anglophone cultures. In the last part of my paper I would like to write about not what can be done or what should be done in film studies but was is being done in film studies in Portugal. particularly here in Portugal. 2002: 245-6).Anthony Barker transformed the way entertainment and news is consumed. the return of historicism has been a boon for many film researchers. is nearly eight seconds. when film studies became a significant part of the English Masters programme in the University of Aveiro (it had been a 5th year licenciatura seminar for much longer than this. what that image is. 108 . so the film viewing experience has been changed by the various delivery systems available to film consumers. it is argued. Films have faster. theatrical release presupposed levels of concentration and continuous viewing on the part of audiences which may now no longer be the case.

Research topics and methodologies in film studies with a handful of exceptions have not been natives of English-speaking countries. So. not always very well versed in the social realities and contexts out of which their chosen objects of study came. we are constantly being told that young people today are visually perspicacious in a way that older generations are not (an argument adduced to make educationalists feel better about declining habits of extensive reading). to conclude. Finally. Equally. This is reflected in a certain reluctance on the part of young film researchers to take on visual or compositional analysis and a clear preference for the discussion of narrative strategies. then they are largely self-taught for one finds very little attention to visual education in the programmes of schools and universities (other than those of schools and departments of Belles Artes). A cultural studies approach would therefore seem to be the most userfriendly alternative. for example. If this is indeed the case. I propose to look at the kinds of subject or topic that students have elected to work upon. as an indication of the platform upon which future postgraduate research projects here can be based. neither a very sociologically grounded nor a very structuralist approach seemed feasible. film semioticians might want to see practised. They neither knew the target culture very well. to put it another way. 109 . the study of film art in its own right and for its own sake). I naturally do not speak for the whole of European or world cinema (although it is worth saying that film research is most likely to be found going on within different language fields as an adjunct to the study of national cultures rather than as an independent field. They have therefore tended to approach the subject in the first instance as enthusiastic amateurs. nor had privileged access to primary research resources in the countries in question. For them. especially as it might serve as a general set of tools for unpacking film genres or investigating specific historical periods or social issues. few had the specialised background and training in the kinds of rigorous analysis that. Or. they are more comfortable with an art form measurable in conventions of time than one that achieves complex effects of and in space.

In these cases. In both types of endeavour. Tarantula and The Incredible Shrinking Man).Anthony Barker Casting my eye over dissertations completed during the last 12 years. relying on their prior training and knowledge in literary studies. 110 . the auteur was usually an established figure from the world of letters and the thesis consisted of either comparing how two or more filmmakers had adapted the same literary original at different times. Stephen King and Shakespeare. the student interested in film comedy wrote on art and autobiography in the films of Woody Allen and the student interested in science fiction wrote on the 1950s sci-fi films of Jack Arnold (such works as It Came from Outer Space. In most cases. a number of students opted for the subject of adaptation for the cinema. historical period and the prevailing attitudes of the times left a heavy imprint on the film adaptations in question. or how two or more different literary works by the same author had been adapted for different audiences at different times. Henry James. for example. Thus the student interested in the crime thriller wrote on Alfred Hitchcock and the art of murder. such an approach enabled the students to focus on a more limited and homogeneous sub-set of films. Agatha Christie. Even more anchored in the way culture is generally taught in Portugal. Those students who began with an interest in a film genre have felt more comfortable dealing exclusively with the work of a single acknowledged master in that area. interpretation of the finished films was guided by the presumed intentions of their directors and an assumption that their personal concerns were able to resonate through the collective creative process. Most critics would agree that Hitchcock and Allen had that kind of personal control. often from a well-defined historical period and reflecting only an aspect of the auteur’s range or craft. have all been selected for this type of analysis. I find that the old traditional categories still exercise sway over students’ choices. The Creature from the Black Lagoon. Generally. the argument was harder to make for an auteur in a popular genre form like low-budget science fiction.

then in stop-motion animatronics in the 1950s then made for television by Hallmark using CGI in the 1990s. no one in these circumstances is allowed to fall back on simplistic criteria of fidelity in dealing with these processes. the other on selected aspect of history and social change in the Irish Republic since 1922. Another thesis analysed the Beckett on Film project. one on the representation of “the Troubles” in the north. This is as much as to say that although the choice of literary originals might seem conservative. In this case. Both theses have had to wrestle with a highly politicised. the same work was not only adapted at different times but also for different expressive media. for example. often invoking historical events rendered in ways which have been the object of much controversy and polarisation.Research topics and methodologies in film studies and perhaps those historical shifts in taste and cultural value. which looked to adapt the entire works of Samuel Beckett for the medium of film. was originally made in a feature cartoon form in 1939. Two research students have successfully completed theses on Irish cinema. the diverse methodologies of cultural studies can be usefully deployed. Where cultural studies methodologies come into their own is in respect of thematic treatments of film topics. Another student concentrated on the representation of the Japanese in western film culture. became the real subjects of the theses. Jonathan Swift’s Gulliver’s Travels. the comparison of different types of films made at different times is fraught with complexity. Needless to say. we have a project based upon a policy of subsidy and of Irish national and cultural selfpromotion. beginning with some very crude stereotypical images from the early twentieth century and carrying the argument forward with more sensitive recent (but some would say still patro- 111 . complex and contested national cinema. In all those areas where theory tells us questions of identity largely have to do with processes of ideological construction over time. as well as the practical constraints under which film adaptations are made. in many ways the why of the project superseding its how and what elements. In one case.

Perhaps owing to my own interest in formalist issues. Perhaps it is not the central issue but it is nevertheless the case that film narratives and constructions of gender can have unintended ramifications in the real world. James Stewart and Clint Eastwood in western movies. however. Falling Down (1993) and A Perfect World (1993) were the main films analysed but a battery of twenty or so other films from the period 1985-95 were also used. Another student compared the formation and inflection of iconic images of masculinity in the roles of John Wayne. A further student explored that most American of genres. Because there are no simple and linear correspondences between the world of representation and possible effects. as the preferred aesthetic component of a revolution in working-class social mobility. systems of signification and shifting genre features (notably in the emergence of something called neo-noir and most conspicuously in the transition from black and white to colour). Parenthood (1989). exploring its symbols. methodologies have to be very supple and wide-ranging to deal with these topics. Two students have worked on film noir. a number of students were encouraged to look at technical aspects of film. In other projects. Another student looked The Silence of the Lambs (1990) and Cape Fear (1991) as imaginative studies in family dysfunctionality. studying it for the way that it usurps the techniques of stage melodrama. the Courtroom drama.Anthony Barker nising and reductive) representations. like those of The Last Samurai (2003) and Memoirs of a Geisha (2005). new critical perspectives on the construction of masculinity are available to the researcher from feminist and gender studies. A purely technical/histo- 112 . Another study looked at the adoption of a documentary realist style in British cinema of the early 1960s. in the light of statistics about the increasingly fragmented nature of the American family. One student looked at the representation of fatherhood in films of the late 1980s and early 1990s. as they arguably had in the case of the film The Matrix (1999) and the Columbine school shootings.

how the Hays or Production Code came into being. and its dependence on new technologies. In the 1960s. Film studies has been a very dynamic field in the last 20 years and a vast bibliography has grown up in support of it. A PhD study. since popularity has ensured a world-wide supply of film material which 35 years ago was simply not available for domestic consumption or academic analysis. a survey of evolving fantastical effects from Georges Méliès to Peter Jackson’s The Lord of the Rings trilogy. Film is fortunate in being such a popular form that there are extensive and well-informed databases available on the internet for people studying in this domain. Perhaps the most complex formalist study undertaken was that of the theory and history of film illusion. However the balance is definitely positive. for many of them contain the basic weaknesses of ‘fandom’ – inaccuracy and over-enthusiasm. What informed the study were potential real-world applications in video-gaming of film aesthetics. how it policed the American film industry and how it was progressively challenged until its abolition (or rather substitution by a rating system) in 1967. you would have to have been a metropolitan-dwelling active member of a film club or society to have access to a fraction of the sort of material that anyone can now purchase and view do- 113 . We have not been able to afford the full range of film journals on the market and so cannot consider ourselves to be very well-set for research purposes.Research topics and methodologies in film studies rical thesis that was written concerned itself with the establishment of film censorship in studio-era Hollywood. We have attempted to accompany most of the more significant movements in film analysis at the University of Aveiro by acquiring a decent library of books on English-language (and not only) cinema. popularity has also bred an uncritical spirit and we counsel people to use these sources with intelligence and caution. although our library resources certainly match or surpass those of any other university in Portugal. this was perhaps only feasible because the student in question was a computer science specialist with experience in video-gaming design. However.

Metz. P.Anthony Barker mestically anywhere in the world. Clover. hardly anyone could check an impression that they had of a film or enjoy the privilege of multiple viewings. Kaplan. London: Faber and Faber. London: British Film Institute. Larkin. (1983) Women and Film. New York: Columbia University Press. Women and Chainsaws: Gender in the Modern Horror Film. or perhaps. (1988) The Women Who Knew Too Much. C. (2002) New Hollywood Cinema: an Introduction. G. E. This perhaps more than anything else has made film studies viable. Without it. (1968) The American Cinema: Directors and Directions 19291968. Oxford: Oxford University Press. if they are lucky. Translated by Michael Taylor from the French Essais sur la signification au cinéma [1968] New York: Oxford University Press. King. Sarris. A. London: Methuen. London: Methuen. C. the sheer diversity and availability of recorded material and the circulation of critical opinion and analysis that has followed on from that availability. (1974) “High Windows” from High Windows. (1992) Men. 114 . How many scholars would be able to write literary criticism without being able to consult their texts beyond an initial reading. New York: Dutton. T. D. (1974) Film Language: A Semiotics of the Cinema. on the basis of a second one? Bibliographical References Andrew. Modleski. A. (1984) Concepts in Film Theory.

neutralidade. por um lado. Ou seja.Universidade de Coimbra 115 . por outro. nos quais o historiador tem necessariamente um papel activo e. mas como constante recriação de significados a partir daquilo que se viveu no passado e daquilo que desse passado interessa ao presente. de um modo geral. a que se passasse a entender a história como uma construção de modelos explicativos. A crescente chamada de atenção para o papel do sujeito na percepção do real levou. evidência e distanciamento. a considerar a memória não como um mero repositório de experiências. É já um clássico o estudo de Jacques Le Goff Documentum/Monumentum. em que se questionam os fundamentos de Historiografia Positivista. mas o que os deixa falar Paul Ricoeur 1.História oral? Dilemas e perspectivas Maria Manuela Cruzeiro1 Toute l´histoire du monde ne me paraît souvent rien d´autre qu´un livre d´images reflétant le plus violent et le plus aveugle des hommes: le désir d´oublier Herman Hesse O historiador não é o que faz falar os homens. de uma ciência histórica com base justamente no 1 Centro de Investigação 25 de Abril . à crise do modelo clássico de ciência e das noções inerentes de objectividade. A conquista da legitimidade epistemológica da História Oral está associada ao questionamento de uma concepção de história baseada no facto e.

ou mais precisamente. Em definitivo não existe um documento-verdade. Entre elas está a História Oral que se impõe pois. opaco ou mesmo falso (porque um documento falso é também um documento histórico) dos documentos. determinada imagem de si mesma. querendo-o ou não.Maria Manuela Cruzeiro documento escrito. o termo documento vem do latim documentum. É o resultado do esforço feito pelas sociedades históricas. Esta seria. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingénuo (Le Goff. e é utilizado pelo poder não como documento objectivo. a História Oral permite devolver vida à história e fazê-la mergulhar num ‘banho de realidade’ por certo mais com- 116 . avisar. que significa fazer recordar. pois. A tomada de consciência do carácter artificial do facto histórico. segundo a feliz designação de Paul Ricoeur e conduziu. garantida pelo documento. mas como intencionalidade. Segundo o autor. na medida em que se não apresenta a si mesmo. polimórfico. o carácter lacunar. O documento é. diplomacia. para impor ao futuro. 1984:95). se pretenda uma inocência que ele não tem. por um lado. erigido como prova de objectividade. o que o documento ensina é o fundamento ou a prova do facto histórico. lançou uma nova luz sobre a complexidade dos mecanismos de construção da história como disciplina científico-literária. monumento. pela técnica de leitura do mesmo (com base nas ciências auxiliares da paleografia. Daí que. quando se utiliza o documento. quando não imperialista. da não inocência do documento. Todo o documento é monumento. devido à inegável riqueza e complexidade das informações que só através dela podemos obter. instruir. Mais do que isso. epigrafia). derivado de docere que significa ensinar. iluminar. que provém do verbo monere. pois. Ao conceito de documento. Para o positivismo. ao reconhecimento de realidades históricas durante muito tempo secundarizadas ou mesmo ignoradas pelos historiadores. e por outro. antes contém uma intencionalidade que é pelo menos nacionalista. devido à dimensão ilusória do conceito de objectividade. por outro lado. Jacques Le Goff opõe o de monumentum. Todo ele é mentira.

diferente da verdade explicativa da ciência histórica. mas como aqueles cujo comportamento é exemplar ou representativo de muitos outros comportamentos) explica. uma vez que ambos se alimentam de um imaginário fundante que cria e recria o que denominamos real. Mas. Estes ocuparam-se do quadro. Por isso não tinham protagonistas. ou mesmo os heróis. o actual sucesso das memórias. 117 . ou mesmo da chamada escola dos Annales. como Alessandro Portelli. a explicação sem a compreensão é vazia. o registo memorialista e biográfico não deixa de encerrar um determinado grau de verdade. porque se ocupavam fundamentalmente das recorrências. a compreensão sem a explicação é cega. parafraseando ou adaptando Kant. É justamente a valorização da verdade. actuam nesse cenário. «os novos contributos que a História Oral traz respondem à insatisfação e a um certo cansaço que tantas vezes provocam as investigações conduzidas sob o signo do marxismo. Desprezavam as excepções. biografias e até do romance histórico.1988: 62). apenas figurantes. da paisagem humana. mas por factos. dos mecanismos da história e do seu funcionamento. continuadamente experimental. não existe uma diferença clara entre testemunhos ou ficção.História oral? Dilemas e perspectivas preensível para as gerações futuras do que a fria sequência de factos e datas. que contrapõe a uma ‘história-ciência’ exclusivamente dura e racional. Utilizando e combinando em diferente escala os testemunhos directos e a ficção. por certo. do estruturalismo. Segundo José Mattoso. pontualmente satisfeita com algumas verdades ou ‘quase certezas’ e uma ‘história narrativa’ apenas poética e emotiva. cuja composição e funcionamento se estudou» (Mattoso. ou do grau de verdade contida na ficção. Para os defensores desta posição extrema. assim como os protagonistas. Esse desejo de conhecer os acontecimentos. Não se interessavam por acontecimentos. ou mesmo os heróis (entendidos não como demiurgos que forçam o destino. Uma verdade compreensiva. não ‘descontaminados’. Pretendemos agora ver como é que os protagonistas.

mais importante ainda. tentação na qual. sem pretensão alguma de se tornar 118 . segundo a concepção de quem o viveu. ou mesmo o preenchimento de lacunas que lhe interessa.Maria Manuela Cruzeiro Para este autor. pois. a História Oral não é instrumento para fornecer informações sobre o passado. que viu um disco voador. Se o narrador diz. particularmente ao longo da década de 70. mas sem a anular . Não é. é documentado por aquela hesitação. como escreve Rui Bebiano. de uma história-ciência. este tipo de verdade constitui um dos eixos da nossa realidade social e. Esta fragmentação do trabalho do historiador e sua dissolução nos ilimitados terrenos da literatura leva a juntar os dois discursos sob a designação única de texto virtual. baseada na pura positividade dos factos.1996:63-64). E. de alguma forma. Entre a radical subjectividade desta posição e a defesa da posição extrema. em dada altura se ter feito crer que tal tinha acontecido. A dimensão poética da produção e da escrita da história. por exemplo. que é a encarnação de outra pessoa. não cabe duvidar. O que lhe interessa é a subjectividade dos narradores. mas sim a recuperação do vivido. insista-se. o ineditismo. não buscamos saber se existem ou não ovnis. o que apenas diminuiu o valor da sua presença.pode então assumir-se. de prevenir eventuais ímpetos de exclusão do outro. Consoante esta é valorizada ou rejeitada. A nossa busca implica entender a forma de organização mental dos colaboradores» (Meihy. Mas. em último caso. «um reconhecimento da dimensão plural das metodologias aplicáveis na prática historiográfica parece ser a forma de a retirar do impasse que. que esta de facto nunca perdeu» apesar de. «A questão da verdade neste ramo da história oral depende exclusivamente de quem dá o depoimento. Afinal. que esteve noutro planeta. assim se desenha uma síntese criativa ou uma radical oposição entre objectividade científica e criação literária. o resgatar da fala dos dominados ou dominadores. ou espíritos. se caiu em alguns momentos. se desenvolve um rico e apaixonante debate que tem como epicentro o conceito de narrativa.

que se oferece na sua essência. de celebrar ‘retornos’ ou ‘rupturas’ que excluam outras experiências. que é a única linguagem que a história conhece e que. les archives constituent la première écriture à laquelle l`histoire est confrontée.História oral? Dilemas e perspectivas única ou dominante. A este propósito. Se o processo epistemológico de maior alcance se passa na segunda fase. o evento em história não é um dado transparente. não cronologicamente distintas mas imbricadas umas nas outras. avant de s´achever elle-même en écriture sur le mode littéraire de la scripturalité. mas sim uma interligação ‘poética’ dos mesmos. que se faz e refaz pelo historiador. Paul Ricoeur escreve em La Mémoire l´Histoire l´Oubli: «À cet égard. ainda segundo P. une écriture d´amont et une écriture d´aval. como narrativa não pode ser uma enumeração fastidiosa de factos e dados. «A leitura da história consegue. como modelo plausível e capaz de seguir um caminho próprio?» (Bebiano. a chave de uma epistemologia coerente da história. e mesmo com a adopção de novas formas de linguagem. Porque o acontecimento. mas alguma coisa que se insere numa intriga. que rompam com a linguagem estereotipada e cheia de conceitos muitas vezes ininteligíveis para os leitores. o historiador não tem a mesma liberdade que o romancista. enquanto disciplina que procura não apenas o registo factual do que aconteceu. a história cumpre três fases. mas também o ‘porquê’ do que aconteceu. alargar-se e tornar-se mais estimulante. embora só tenha a ganhar com alguma dose de talento literário. 2000: 85/86) Portanto. Através. Para isso. Ricoeur. numa trama. a terceira é aquela em que se declara plenamente a intenção histórica de «representação presente das coisas ausentes do passado». que são: a fase documental. pois. a fase explicativa-compreensiva e a fase representativa. abrindo-se á possibilidade de ‘viajar’ atra- 119 . L´explication/compréhension se trouve ainsi encardrée par deux écritures. desta maneira.2000:170). precisamente da escrita. Elle recueille l´énergie de la première et antecipe l´énergie de la seconde» (Ricoeur. No binómio explicação/compreensão parece residir.

tem o inegável fascínio de ser mais próxima e mais viva. em contrapartida há outras esquecidas e excluídas de forma consciente ou inconsciente. que vivem quer indivíduos.2000:77). mais do que qualquer outro ramo da história. No caso concreto da HO o indivíduo que rememora ou evoca o tempo vivido. tensional e nem sempre pacífica. se comparada com qualquer das outras modalidades da memória. quer sociedades. que subverte essas estruturas. fá-lo sempre de forma selectiva. É claro que a memória (mental. porque pessoal e directa.2001:16). e não como as figuras de cera ou como as ‘não figuras’ em que o discurso científico as transformou» (Bebiano. Mas a memória oral. escrita ou oral) é a matéria principal da história. Que. nacionais) em permanente construção devido à incessante mudança do presente em passado e às consequentes alterações ocorridas no campo das re-presentações do presente» (Catroga. de várias memórias (pessoais. do que com o tempo de curta duração do acontecimento. mais preocupada com as impessoais estruturas económicas e sociais e a suas permanências seculares. Como escreve Fernando Catroga. grupais. vive na estreita dependência da memória. «a memória individual é formada pela coexistência. observar as personagens do passado como as pessoas que foram. de alguma forma curto-circuitando esse processo e invadindo a cena com protagonistas que improvisam e não são apenas figurantes que debitam um papel já conhecido. familiares. regionais. 2. no presente. 120 . o que a obriga a um confronto em permanência com o imenso processo dialéctico da memória e do esquecimento.Maria Manuela Cruzeiro vés da imaginação e de. além de ser absolutamente indispensável para todos aqueles acontecimentos que de uma forma ou outra surpreendem o normal curso da história de longa duração. tentando responder à angustiante e radical questão de Pascal «Qu´est ce qu´un homme dans l´infini?» é o apaixonante e arriscado desafio da História Oral (HO). Recuperar as pessoas através das suas próprias memórias. o que significa que se há lembranças resgatadas.

É justamente aqui que tem lugar um importante debate sobre o estatuto científico-académico da HO. sublinhando que «s´il veut dire par là que le recours à l´histoire orale. os sentimentos altruístas. «De même que le passé n´est pas l´histoire mais son objet. a honra. 1988:221). Mas. 1988:221).História oral? Dilemas e perspectivas São os momentos de crise como as revoluções. de novo Jacques le Goff. uma técnica. il a parfaitement raison. como lembra. que remetem a HO para o domínio da pura subjectividade. inventariação e utilização). modifie l´image du passé. de même la mémoire n´est pas l´histoire. mas elas parecem-me estranhamente sobrevalorizadas em relação às questões epistemológicas que deverão estar a montante. me parece desde o início desviado para questões acidentais ou periféricas. a sensibilidade democrática. tem plena legitimidade a constituir-se como uma nova disciplina académica? A que necessidades responde e como explicar que o seu êxito seja muito maior justamente fora dos meios académicos? Excluindo as correntes da historiografia mais conservadora. Mas acrescenta também que não se pode colocar no mesmo plano «produção autobiográfica» e «produção profissional». como as paixões políticas. momento ideal da gravação. O autor pretende assim chamar a atenção para ingénuos entusiasmos em relação à importância do testemunho oral. Não discuto a importância das questões técnicas que envolvem a produção e conservação do documento oral (natureza da relação entrevistador/entrevistado. que o mesmo 121 . ou mais do que isso. uma metodologia auxiliar das diversas áreas do conhecimento. a sua duração e frequência. apenas iniciado entre nós. em que a pura racionalidade abstracta dos conceitos e dos sistemas cede face à invasão de elementos supra ou infra racionais. formas de conservação. Um debate que. à l´histoire subjective élargit la base du travaille cientifique. o respeito ou desprezo pelas instituições. Isto é: a HO é tão somente uma ferramenta. a coragem. a fidelidade aos valores e aos ideais. donne la parole aux oubliés de l´histoire. mais à la fois un de ses objets et un niveau élèmentaire d´élaboration historique» ( Le Goff.» (Le Goff. aux autobiographies.

relativamente às técnicas de produção. poderia fazer. e apenas. uma versão consensual. ao mesmo tempo que se recusa a conceder dignidade histórica aos muito e muitos trabalhos nesta área. desenvolvidos dentro. mecanismo. falsificações ou manipulações. Seja qual for a designação. sintomaticamente. que. precisasse de um certificado de validade que nenhum dos dois está em condições de assegurar. Em paralelo cresce uma outra que se afirma defensora da HO como disciplina autónoma. instrumento. preferem a designação de testemunho oral (é o caso de José Mattoso). Não é. mas visam no fundo a grande questão do processo de validação e verificação dos documentos orais que a comunidade académica ainda encara como um monopólio seu. não é imune àquilo que tanto teme e pensa esconjurar: embustes. e que só uma entidade exterior. utilizando progressivamente nas suas obras a HO. da falsidade ou da invenção. que só se justifica enquanto instrumento ao serviço de uma interpretação histórica global. a ideia parece clara: não reconhecer dignidade e autonomia à HO. os historiadores começam a baixar o nível das resistências. o investigador e o entrevistado). a questão de saber por que razão a comunidade académica resiste ao reconhecimento da HO. Talvez que uma crítica alar- 122 . recurso.Maria Manuela Cruzeiro é dizer para um terreno demasiado exposto ao risco do embuste. É como se o documento resultante de uma entrevista (em que colabora naturalmente. trazer à luz do dia realidades ‘indescritíveis’ e dar testemunho das situações extremas de sofrimento ou exaltação. Muitas vezes essa desconfiança maior esconde-se por detrás de desconfianças menores. a única capaz de escutar a voz dos excluídos. mas sobretudo fora do seu contexto. como a própria história tem abundantemente provado. Não discuto que os documentos orais (exactamente como os escritos) têm que estar sujeitos à crítica. contudo. Finalmente. com uma importante ressalva: desde que entendida como meio e nunca como fim. ‘a academia’. à qual. arquivo e utilização. mas não apenas à crítica da comunidade científica. ou seja como ferramenta.

pour nous assurer que quelque chose s´est passé. nem a academia. sinon parfois le seul recours en déhors d´autres types de documents. mais avec le témoignage. mas parecem esquecer: o testemunho constitui a estrutura fundamental da transição entre memória e história. consequentemente. et que. responsável e democrática seja o que mais falta faz à história em geral. atingiremos o critério último de fiabilidade que incorpora. Este vínculo fiduciário estende-se a todas as trocas. de delação. E conduzem à manipulação da memória e. a HO longe de ser uma conquista das mais modernas 123 . corporizado afinal uma regra de prudência: primeiro confiar na palavra do outro. quer o procedimento técnico ‘artificial’ do arquivista. Para os mais relutantes em conceder dignidade histórica aos documentos recolhidos no registo único da oralidade. et que le principal. da história. O crédito dado à palavra do outro faz do mundo social um mundo intersubjectivamente partilhado. oral ou escrita. É ele que é duramente afectado quando as instituições políticas instauram um clima de vigilância mútua. quer o da investigação do juiz. à quoi quelqu´un atteste avoir assisté en personne. pois. nous n´avons pas mieux que le témoignage en dernière analyse. em seguida duvidar. nem o tribuna.História oral? Dilemas e perspectivas gada. de práticas mentirosas. quoi qu´il en soit du manque principiel de fiabilité du témoignage. O lugar da prova é. Afinal. o de uma outra instituição. Continuando na senda deste autor. mas ultrapassa. 3. e transforma-se num habitus da comunidade. reste la confrontation entre témoignages» (Ricoeur. que não é nem o arquivo. Por isso. não resisto em invocar o que todos sabem. É a segurança do vínculo social que repousa na confiança na palavra do outro. contratos e pactos.2000:182). E esta partilha é a componente maior do que podemos chamar ‘senso comum’. como nos lembra ainda Paul Ricoeur: «Il ne faudra toutefois pas oublier que tout ne comence pas aux arquives. que rompem pela base a confiança na linguagem. se fortes razões a isso obrigarem.

Ligaos afinal. O regresso à dupla Homero/Heródoto.. os mistérios da realidade humana? E mais do que isso. quanto a mim. como os dois polos da vida individual e colectiva. tem. torná-la suportável. Porque.1995:58). é 124 . que. como matriz e horizonte da frágil fronteira entre história e literatura.. sinalização de um caminho que. ao humilde nível das felicidades e das penas quotidianas da espécie humana é a representação afectiva. o museu dos ícones e das estátuas. porque vivida. parece-me mais do que bloqueio. E. afinal. mas também no não menos célebre poeta Homero. a prática magistral da narrativa (factual ou poética) como tentativa de nos aproximar o mais possível da realidade. conta sempre uma história e nessa história os factos particulares perdem a sua contingência e adquirem um significado humanamente compreensível» (Arendt. Aquele que diz o que é. E não é afinal o fim último de toda a ficção. mesmo nos limites da dor extrema ou da suprema alegria? Como nos diz Karen Blixen «todas as dores podem ser suportadas se as transformarmos em história ou se contarmos uma história sobre elas». de qualquer modo não pode ser determinada. apontado desde a antiguidade. mesmo ao de leve. mas o que liga os homens entre si. cujo pai (Heródoto) transpõe para a narrativa factual o imenso legado da narrativa poética do seu antecessor Homero. como escreve Hannah Arendt. Como escreve Gilbert Durand: «A razão e a ciência só ligam os homens às coisas. «a realidade é diferente da totalidade dos factos e dos acontecimentos e é mais do que esta. (.Maria Manuela Cruzeiro correntes da historiografia. e após a longa deriva de séculos sob o império de um conceptualismo analítico redutor. abre para uma hermenêutica compreensiva como corolário de um pluralismo dinâmico que ligue ciência e arte. tocar. a chave para a compreensão da origem e verdadeira natureza do conhecimento histórico (às quais parece ser tão urgente regressar) reside não apenas no consagrado historiador Heródoto. grandes tradições: é tão velha como a própria história.) Depois do Museu Imaginário (de Northop) no sentido estrito.

História e Historiografia. vol. A Imaginação Simbólica. 2000. Lisboa. vol 21.História oral? Dilemas e perspectivas preciso apelar para um outro museu. Gilbert. Editorial Estampa 1988. São Paulo. Lisboa. RICOEUR. MEIHY. José Carlos Sebe Bom. CATROGA.1995. Manual de História Oral. 125 . 2001. BEBIANO. l´Histoire. Verdade e Política. 1984. Quarteto. Histoire et Mémoire. In Revista de História das Ideias. Lisboa. é preciso generalizar um outro museu mais vasto que é o dos ‘poemas’» (Durand. 1993 LE GOFF. Jacques. Bibliografia ARENDT. Jacques. Loyola. MATTOSO.Imprensa Nacional. Paris. Lisboa. Hannah. José. Éditions du Seuil.I. Sobre a ‘História como Poética’. Teoria e Métodos. LE GOFF. Edições 70. Paris. Relógio d´Água Editores. Paul La Mémoire. Rui. l`Oubli. Editions Gallimard. ‘Documento/Monumento’ In Enciclopédia Einaudi. A scrita da História. 1996. DURAND. Fernando Memória. Coimbra. 1988. Coimbra. 2000.1993:104).

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Bolsista CAPES/Brasil. É a expressão da diversidade epistêmica. hoje. Uma reivindicação central do nosso tempo é a afirmação da pluralidade e da diversidade que. 2000.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica Alba Maria Pinho de Carvalho1 1. fundantes que sempre provocam um tipo particular de perplexidade… Como bem demarca Boaventura de Sousa Santos (1995. em 1 Professora da Universidade Federal do Ceará – UFC – Brasil. expressam-se de forma inequívoca.as questões simples impõe-se como «perguntas fortes» que. Algumas demarcações de partida: à guisa de Introdução O que é pesquisa? O que é ciência? Quais as exigências do fazer científico?. em distintos contextos culturais e políticos.Estas são questões simples. Pós-Doutoranda CES – Universidade de Coimbra. 2008). no campo epistemológico. por se dirigirem às fundações. em tempos de transição paradigmática – como o nosso tempo . Comungo a tese de que «uma das batalhas mais importantes do século XXI é travada. passando por racionalismos de diferentes matizes. sem dúvida. alargando perspectivas e possibilidades da produção do conhecimento científico.dominante ao longo de quatro séculos – até perspectivas pós-modernas. 127 . aos fundamentos abrem um horizonte de possibilidades entre as quais é possível escolher… De fato. em tempos de crises e transição de paradigmas epistemológicos – que estamos a viver nessas três últimas décadas – tornam-se mais visíveis e delineadas as múltiplas possibilidades do «fazer científico» que vão desde as versões do paradigma positivista de ciência moderna . 2001.

proclamava-se única e universal. que. em 1982 e. a incidir em uma perspectiva de constituição de novos padrões de racionalidade científica. em 1988. no tempo presente. efetivando a supressão dos saberes circunscritos fora da rigidez dos seus cânones2. em inglês. em 1ª edição. 128 . com clareza. nos séculos seguintes – emerge no cenário dos anos 80. na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ e publicada no Boletim Carioca de Geografia.constituído a partir do século XVI e legitimado como «o padrão de Ciência». Esta dimensão do colonialismo mostra-se como uma das mais difíceis de se perceber. publicado. Analistas. em 2001. Revela-se. no Brasil. produzidos. no âmbito da modernidade. em Portugal. É a crítica contemporânea do colonialismo também como dominação epistemológica. pela Editora Cutrix. o esgotamento de uma epistemologia abstrata. Tal colonialismo epistemológico encarna uma relação «saber-poder» extremamente desigual e aniquiladora da riqueza da diversidade de saberes. por séculos de dominância da ciência moderna. inimaginável desenvolvimento científico-tecnológico e. descontextualizada. propostas de conhecimento que consubstanciam caminhos diversos do 2 Crítica contundente ao esgotamento deste padrão de racionalidade que preside a ciência moderna .Alba Maria Pinho de Carvalho torno do conhecimento» (Menezes. uma produção que se tornou «clássica» nas discussões de epistemologia e de metodologia é a da socióloga Miriam Limoeiro Cardoso. por outro. a sustentar o «mito do método científico» como a única via do fazer ciência.propicia a visibilidade de alternativas epistêmicas emergentes. destaco duas obras que bem encarnam uma ruptura epistemológica. radicalmente excluídos do padrão dominante de racionalidade. para além da crítica. com ampla repercussão no âmbito das comunidades científicas de diversos campos e áreas: O Ponto de Mutação de Fritjof Capra. assim. pesquisadores delineiam. produzida em 1971 para apresentação em Seminário de Metodologia. Como referências emblemáticas desta crítica.a revelar. na 12ª edição. então. Em verdade. crises dos padrões de racionalidade científica . como «não existentes» e. criticar e confrontar em uma perspectiva pós-colonial de emancipações em curso. em Julho de 1987. em 1976. Um discurso sobre as ciências de Boaventura de Sousa Santos. 2008). o adentrar no contexto paradoxal do final do século XX/início século XXI . por um lado. estando esta obra. No contexto brasileiro dos anos 70. intitulada O Mito do Método. cujo original The Turning Point foi publicado.

na concepção construtivista de verdade. delineia um paradigma emergente. ganha relevo. afirma que o modelo de racionalidade então dominante mostrava sinais evidentes de exaustão. em uma nova articulação entre conhecimento científico e outras formas de conhecimento. um paradigma científico – o paradigma de um conhecimento prudente – e um paradigma social – o paradigma de uma vida decente. Assim. designando-o de «ciência pós-moderna». 3 Em meados de 1980. Boaventura Santos tinha clareza que essa construção de uma outra racionalidade só podia ser completada a partir das experiências das vítimas. Boaventura Santos. nos anos 2000. aprender a partir do Sul e com Sul». insatisfeito com a designação pós-moderno e consciente da impossibilidade de afirmar a denominação de «pós-moderno de oposição». na complexidade da relação sujeito/objeto. 2008) de constituição de outra racionalidade. assente na superação da dicotomia natureza/sociedade. na aproximação das ciências naturais às ciências sociais e destas aos estudos humanísticos. Boaventura de Sousa (1995). assim. sustenta ser este «o paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente». outro padrão de pensamento. em uma nova relação entre ciência e ética. (Santos. para contrapor a sua concepção de pós-modernidade ao pós-modernismo dominante que circulava tanto na Europa como nos EUA.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica fazer científico. passa a propugnar uma «Epistemologia do Sul». Science and Politics in the Paradigmatic Transition. constituindo. ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Nesta perspectiva. Neste campo de construções epistemológicas emergentes. pautada na exigência de reinventar a emancipação social. Na formulação de Boaventura Santos «uma epistemologia do Sul assente-se em três orientações: aprender que existe o Sul. 129 . Em meados da década de 90. 2004. capaz de apreender a riqueza infinita da experiência social em todo o mundo. aprender a ir para o Sul. dos grupos sociais que tinham sofrido com o exclusivismo epistemológico da ciência moderna e com a redução das possibilidades emancipatórias da modernidade ocidental. em sua obra referência Um discurso sobre as ciências (1987). Trata-se de um paradigma a encarnar uma outra racionalidade. a proposição de Boaventura de Sousa Santos (2000. Boaventura de Sousa Santos. Nova Iorque Routledge). No início dos anos 90. O seu apelo é «aprender com o Sul». entendendo o Sul como uma metáfora do sofrimento humano. No contexto deste debate epistemológico. causado pelo capitalismo e pela colonialidade do poder. 2007b. concebendo a superação da modernidade ocidental a partir de uma perspectiva pós-colonial e pós-imperial. nos termos do que hoje denomina de «Epistemologia do Sul»3. configurando uma crise paradigmática. uma racionalidade mais ampla. a consubstanciar um padrão de racionalidade ampla e ampliada. Toward a New Common Sense: Law. Boaventura Santos passa a denominá-la de «pós-modernismo de oposição».

o pensar complexo e relacional exige. produção de Fevereiro de 2004 intitulada «Tú me ensinas a fazer renda que eu te ensino a namorar…: tecendo descobertas do mundo nosso de cada dia – reflexões sobre o ofício da pesquisa».Alba Maria Pinho de Carvalho 2. A rigor. em sua complexidade. comprometido radicalmente com a crítica. em nosso tempo presente. no âmbito do racionalismo. em sua riqueza inesgotável. no curso da História. 2000. em sintonia vigilante às provocações do mundo. Ver especificamente: produção de Novembro de 2000. o Racionalismo Aberto e Crítico (Carvalho. denominada «Texto Síntese de Estudos – problematizando: resgatando pistas e apontando vias para deflagar a aventura da produção do conhecimento». a ciência é a realização do racional. 2005)4. 5 Estou convicta de que. 2004. produção de junho de 2005. Enfim. na busca incessante de descobertas na produção do conhecimento5. como «dever de ofício». como perspectiva de produção científica. se faz necessário e imperativo. 130 . nos anos 2000. na diversidade de contextos. O pressuposto fundante é a tese de que o vetor epistemológico na construção científica vai «do racional ao real». a construção de diálogos e interlocuções entre perspectivas e vertentes que tem fundamentos comuns e/ou lógicas que se comunicam e complementam-se reciprocamente. o diálogo crítico. sempre em aberto às interpelações da realidade. ou seja. vivenciado nos percursos da minha trajetória acadêmica. denominada «Referências teóricas e metodológicas em questão: linhas Epistemológicas do Conhecimento». a interlocução entre diferentes vias do fazer científico como caminho de produção do conhecimento. circunscrevo. aberto às interpelações da realidade. delineio esta alternativa do «Racionalismo Aberto e Crítico» como via do fazer científico. construo um diálogo crítico. É uma configuração epistemológica gestada no diálogo entre distintas vertentes racionalistas que tem em comum o exercício da razão crítica. Tessituras de um diálogo crítico: uma alternativa do “fazer científico” em processo No âmbito do debate epistemológico em curso no presente. ao longo das três últimas décadas. fundado na epistemologia de Gaston Bachelard e inspirado em concepções do «fazer científico» de Karl Marx e dois pensadores contemporâneos: Pierre Bourdieu e Boaventura de Sousa Santos. com potencial investigativo para responder às provocações do mundo. No meu caso específico. 4 Em produções na década de 90 e. é uma articulação de racionalismos. a mobilizar o entrecruzamento de concepções de ciência/pesquisa que permeiam às minhas reflexões epistemológicas. de modo particular.

Gaston Bachelard constitui-se como um dos teóricos da descontinuidade. Gaston Bachelard (1984-1962) – Filósofo francês. 6 7 Aqui resgato a expressão «artesanato intelectual» cunhada por Wright Mills. (Japiassú. A filosofia do não. que seria a do pleno dia e a que aceita o lado noturno da alma”. a consubstanciar. de 1940. em um esforço didático de compreensão. 1976:47).a obra bachelardiana. demolindo velhas concepções cristalizadas e propondo novas e. (Bachelard. consubstancia uma tessitura que estou a empreender. no interior do pensamento filosófico contemporâneo. como o próprio autor expressa no seguinte trecho da obra Poética do Espaço: “Demasiadamente tarde. surpreendentes soluções para os problemas. «Apoiado numa interpretação do desenvolvimento histórico das doutrinas científicas. Hilton Japiassu . duas boas consciências. Com o título «Imaginação Sociológica». em sua obra referência «The Sociological Imagination». sobremodo no campo da filosofia científica. revoluções. A poética do espaço. historiador das ciências e epistemológo. No âmbito da história de ciências. Suas obras repercutem nos mais diversos campos da investigação. o retomar desta ideia do artesanato intelectual quer sublinhar o caráter de criação processual desta alternativa do «Racionalismo Aberto e Crítico». qual tessitura de ideias.dentre eles. no Brasil. expressa esta sua ótica da descontinuidade na constituição de uma nova concepção de construção científica. que propugno como via fecunda do «fazer científico». Bachelard formulou seu lema de inconformismo intelectual através do que ele denominou de ‘filosofia do não’». recolho e trabalho. Dentre as obras diurnas destacam-se O novo espírito científico. no trabalho alternado das imagens e dos conceitos. Segundo os especialistas . de forma ativa. de intuições que. A terra e os devaneios da vontade. com profunda influência nos pensadores contemporâneos. Dentre as obras noturnas destacam-se A psicanálise do fogo. 1978: VI). Para ele. de 1949 e O Materialismo Racional. em português. de pistas de indicações. como o fazem os artesãos no exercício do seu ofício. A água e os Sonhos. O racionalismo aplicado. de 1948. pela Zahar Editores. pode ser dividida em duas: a obra diurna e a obra noturna. mas através de rupturas. mobilizando saberes e imaginação. esta obra foi publicada. o Racionalismo Aberto e Crítico. não se faz por evolução ou continuismo. de 1938. «cortes epistemológicos». A formação do espírito científico. mesclando fios de diferentes texturas e tonalidades que me parecem fortes e resistentes na produção do «artesanato intelectual» da ciência6. o conhecimento ao longo da história.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica Em verdade. a consubstanciar-se no que. O ar e os sonhos. com persistência e paciência. às vezes. Com efeito. de 1957. de 1938. 131 . de 1952. Em verdade. passando a constituir um «clássico» no pensamento das Ciências Sociais. conheci a boa consciência. A base fundante da tessitura é a Epistemologia Histórica de Gaston Bachelard7 que viabiliza uma revolução no âmbito da história da ciência. de 1934. na linguagem bachelardiana. de 1943. publicada em 1959. em 1980. de 1942.

se a forma de manifestação e a essência das coisas coincidissem imediatamente»8 (Marx. as formas tradicionais de ensino. Este racionalismo bachelardiano. este novo espírito científico. sempre em movimento. 1978:116-123). 1978: VI). eminentemente contemporânea. propondo. Na ótica bachelardiana. constitui uma nova concepção de racionalismo: o racionalismo aberto. na dinâmica da dialética marxiana. a propugnar o trabalhar tensões e erros. No meu trabalho de tessitura epistemológica. Na sua preocupação em delinear os fundamentos e os requisitos para o desenvolvimento de um «novo espírito científico». necessitando de uma conversão. Esta Epistemologia Histórica de Bachelard propicia-me os fundamentos para constituir um racionalismo amplo e aberto às interpelações do real. Assim. 1983).Alba Maria Pinho de Carvalho então. 132 . 8 Estou inteiramente convencida de que uma das dimensões insuperáveis de Marx são as suas configurações metodológicas que permeiam o seu pensamento. o racionalismo aberto é essencialmente crítico. Sustenta a tese de que a «filosofia científica deve ser essencialmente uma pedagogia científica» (Bachelard. resgato em Karl Marx uma das suas marcas por excelência: o exercício radical da razão crítica. então. especificamente. nos marcos do empirismo e de racionalismos fechados. como via fecunda para adentrar na complexidade do real. sustenta Bachelard (1976). «O mundo é a provocação do homem». uma pedagogia nova para uma ciência nova. em um esforço de desvendamento. oferece-me uma demarcação epistemológica fundante: «… e toda ciência seria supérflua. em um contundente movimento de ruptura com o racionalismo fechado e linear da modernidade. pressupõe uma reforma subjetiva total. nas suas reflexões metodológicas. como encarnação de uma ruptura com os padrões de racionalidade então vigentes. materializado neste racionalismo aberto. denominou de «um novo espírito científico». Marx. Assim. Bachelard combate as formas tradicionais de filosofia científica e. apresentado na Introdução à Crítica da Economia Política (Ver Marx. insere-me nos circuitos de uma nova racionalidade. fundado na «Filosofia do Não». Algumas dessas preciosas indicações estão no texto de O Método da Economia Política.

Apreendo em Bourdieu a «pesquisa como um ofício» a constituir «habitus» no campo da produção científica. com o título «Um olhar sobre o Pensamento de Boaventura de Sousa Santos – em busca de vias investigativas». De fato. Jean Claude Chamboredon. nos marcos de uma ruptura radical e constituição de um racionalismo aplicado. 10 Uma tentativa de circunscrever um momento desta minha recolha está em um ensaio – ainda em processo de construção – que comecei a elaborar. processualmente. de autoria de Pierre Bourdieu. faço-me vigilante para a «razão indolente». este desenho metodológico bem configura a dinâmica racionalista marxiana. 1978:117). não é senão a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto. o pensar relacional. trabalho fios resistentes resgatados do racionalismo aplicado de Pierre Bourdieu. mobilizando. a confecção do Racionalismo Aberto e Crítico ganha amplitude e multicores com o material epistemológico-político que recolho de Boaventura de Sousa Santos e seu «pensamento sempre em aberto. inconcluso que não visa a completude»10. em 2008. Especificamente. a produção do conhecimento como um processo da razão aberta e crítica. Jean Claude Passeron. ver análises de Bourdieu na obra A Profissão de Sociólogo – Preliminares epistemológicas. atada e domesticada nas armadilhas e reducionismos da racionali9 A configuração dessa investida de Pierre Bourdieu contra o empirismo. Com este mestre. pela Editora Vozes. No meu tear reflexivo. no esforço de apropriar-se do concreto que desafia o sujeito que busca conhecer a realidade. Explicita Marx:… «o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto. para reproduzi-lo como concreto pensado» (Marx. 133 .O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica O Método de Marx «Do Abstrato ao Concreto» é fonte de inspiração no delineamento dos percursos da razão em seu movimento dialético. Na processual tessitura de fios. perpassa a sua construção epistemológica/metodológica no âmbito da sua obra. com clareza. constituído na sua contundente investida contra o empirismo e suas apartações e reducionismos9. A idéia-chave é a de construção racional e criativa do sujeito que assume o desafio do conhecer e. em 1999. afirmando. desvendando-a para além das aparências. opera recortes no chamado objeto real a gestar «objetos científicos». nestes percursos. publicada em português.

É a busca permanente de fazer presente as ausências e de vislumbrar as emergências. constituindo uma ecologia de saberes11. o «sentido do percurso». 1995. descontente com o pensamento abstrato recorre à intuição. nas suas infinitas conexões de espaço e tempo. ao longo de mais de duas décadas. aprender a partir do Sul e com o Sul». 134 . Este diálogo. nas Teses contra Feubarch. fornece-me uma indicação preciosa no sentido de circunscrever sensibildiade como dimensão humana decisiva na busca do conhecer. 2004. é nesta perspectiva que sustento que a Ciência pressupõe exercício da Sensibilidade. 2007b). (Santos. em articulação com a Razão e a Imaginação (Marx. humana e sensível». 2008.Alba Maria Pinho de Carvalho dade moderna e alço voos em busca de uma racionalidade abangente e ampla – «racionalidade cosmopolita» – a perseguir a riqueza infinita da experiência social. Diz ele na Tese 5: «Feubarch. 1976). No caso dos racionalismos. aprender a ir para o Sul. em sintonia com as interpelações de distintos mundos sociais. em resposta às interpelações da realidade. amplia horizontes e alarga caminhos do «fazer científico». 2009). o Racionalismo Aberto e Crítico – aqui delineado – é por excelência. 13 Karl Marx. mas não capta a sensibilidade como atividade prática. (Santos. este racionalismo concebe a ciência como uma criação da razão crítica. produto do diálogo entre estas distintas vertentes racionalistas que se encontram no «vetor epistemológico» da razão crítica12. Fundado nesta interlocução de matrizes. em articulação com a imaginação e a sensibilidade13. 2006. em nosso tempo histórico presente. ou seja. Sinto-me interpelada a «aprender que existe o Sul. ao resgatar e articular aportes epistemológicos-medotológicos de cada uma das matrizes racionalistas constitutivas da tessitura reflexiva. em sintonia vigilante 11 A busca de uma outra racionalidade perpassa as obras de Boaventura de Sousa Santos. Tal perspectiva ganha corpo nos marcos de uma «razão cosmopolita». 12 «Vetor Espistemológico» é uma categoria da Epistemologia Histórica de Gaston Bachelard que significa a direção de onde parte a construção científica. 1978). na sua produção contemporânea Sociologia das Ausências e Sociologia das Emergências que delineia procedimentos sociológicos de exercício deste novo padrão de racionalidade. o sentido do vetor epistemológico é nítido: do racional ao real (Bachelard. De fato. É a afirmação da ciência como realização criativa do racional. Assim.

15 Nesta perspectiva do reconhecimento da diversidade de experiências e epistemologias. publicada em Janeiro de 2009. Como perspectiva epistemológica. Logo. bem explicita os dois pressupostos fundantes da obra: «primeiro. O Prefácio que abre esta produção. 135 . 1978 ). a perspectiva da incerteza e da busca no horizonte da ciência. em sua diversidade e complexidade de experiências. reconhecendo a diversidade de experiências e epistemologias15. o Racionalismo Aberto e Crítico encarna como princípios norteadores: Construção processual do conhecimento: a produção do conhecimento é um processo que se faz em um percurso infinito de aproximações que não pretende a completude. 2007a). Por consequência. rom14 Karl Marx delineia uma tese a constituir um pressuposto epistemológico: «A realidade é sempre mais rica que qualquer teoria» (Marx. tendo em vista o processo sempre em aberto da História… É a convicção de que a realidade. segundo que a reflexão epistemológica deve incidir não nos conhecimentos em abstracto. que se pretende ampla e ampliada. a interpelar o processo do conhecer… Contextualização cultural-política do conhecimento: a produção do conhecimento científico efetiva-se sempre em espaço e tempo específicos. estando. 2009:7). no seu movimento incessante e em sua complexidade. inclusive as ciências (Santos. organizada por Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Menezes. Perspectiva da incerteza e da busca na aventura do conhecer: em tempos contemporâneos afirma-se. que não há epistemologias neutras e as que reclamam sê-lo são as menos neutras. eminentemente contemporânea. cabe destacar a obra Epistemologias do Sul. nos diferentes campos científicos. circunscrita em um contexto sócio-político-cultural. assim. mas nas práticas de conhecimento e nos seus impactos noutras práticas sociais» (Santos e Meneses. Propugna Boaventura de Sousa Santos que todo saber é local. é sempre mais rica do que qualquer conhecimento que possamos construir e sistematizar14.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica às provocações do real. a reflexão epistemológica precisa incidir nas práticas de conhecimento devidamente contextualizadas. o real está sempre a provocar. 1987.

Tal complexidade do real exige um «pensar complexo»16 que se materializa em distintas alternativas: a dialé16 Configurações conceituais como «pensar complexo»/ «pensamento complexo» remetem.Alba Maria Pinho de Carvalho pendo radicalmente com o «paradigma da ciência moderna» que se pretendia fundada em certezas. Em verdade. imbricados nesta trama histórica da vida. Assim. que problematiza. Dentre a multiplicidade de suas obras. abdicando de qualquer pretensão passiva de mero coletador de provas sobre um real considerado já dado e previsível. A cabeça bem-feita: repensar a reforma. 136 . no esforço de descobrir. em um esforço de reflexão problematizadora e analítica a adentrar nas tessituras do real. no pleno sentido do termo latino «complexus»: aquilo que é tecido em conjunto. representações que interpelam o/a pesquisador/pesquisadora estão entrelaçados. assim. em detrimento da lógica da prova: no horizonte das incertezas e da imprevisibilidade. situações. a exigir opções. circunstâncias. a encarnar a postura da busca. destacam-se no âmbito da formulação do pensamento complexo: Introdução ao Pensamento Complexo (1995). fenômenos. um dos principais pensadores da complexidade. Para o(a) pesquisador/pesquisadora é o assumir. a produção científica consubstancia a aventura do conhecer. reformar o pensamento (2003). como caminho único e linear. fatos. a «cultuar» o mito do «método científico». necessariamente. da condição de sujeito do conhecimento que interpela. são complexas. Lógica da descoberta. Bourdieu sustenta: «o real é relacional»(1989:28). Ciência com Consciência (1998). a exigir transdisciplinaridade e articulação de saberes: as tramas da realidade. sem as amarras da prova. E. Os sete saberes necessários à educação do futuro (2001). O racionalismo marxiano circunscreve a realidade na ótica dialética da totalidade. Ótica da complexidade. decisões face à pluralidade de caminhos e alternativas. embora possam aparecer separados. ao sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. em plenitude. em princípio. no sentido de resgatar sentidos e significados. conhecer implica desvendamento. a dinâmica processual do conhecimento é movida pela lógica da descoberta.

todos os conhecimentos tem um elemento de «logos» e um elemento de «mythos». pressupõe trabalhar pluralidade de perspectivas. no pleno exercício da razão crítica. destacamse ciência e arte. Em verdade. a infindável riqueza da experiência social no mundo contemporâneo é um permanente desafio ao diálogo crítico no campo da epistemologia. configurando a produção científica como «locus de criação». «despertam o mundo» – aqui tomando a elaboração poética de Bachelard (1976). o exercício deste pensar complexo para apropriação da complexidade do real. circunscritos nos percursos de desvendamentos de objetos de investigação. da metodologia. da teoria. música. Assim. E. a partir de dilemas analíticos. no «despertar do mundo». enfim. A rigor. É o esforço de romper as fragmentações de toda ordem. como campos de descobertas e revelações. a conjugação de disciplinas. construindo diálogos entre diferentes pensamentos. a consubstanciar uma dimensão racional e uma dimensão mítica dos saberes (Santos. o pensamento relacional de Bourdieu. na superação de parcialidades e isolamentos. poesia. estabelecendo interlocução com literatura. Trânsito Ciência/Arte: homens e mulheres. mas com um imenso potencial de relação.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica tica na lógica marxiana. a articulação. inclusive as disciplinares… Assim. em qualquer de suas vertentes. Em verdade. 2007a). Logo. O conhecimento complexo ultrapassa as fronteiras da ciência. ciência e arte tem lógicas distintas de criação. ciência e arte aproximam-se no exercício do pensar complexo. Dentre esses domínios de criação. com as artes. A rigor. teatro. o exercício da racionalidade ampla e 137 . impõe-se a articulação de saberes como condição do «pensar complexo em sintonia com a complexidade do real». A «pedra-de-toque» é fazer a devida interlocução. em sua humanidade. exige a transdisciplinaridade. respondem às suas provocações pela criação em diferentes domínios. Diálogo crítico/interlocução entre diferentes pensamentos e vertentes analíticas: o fazer ciência no âmbito de uma racionalidade ampla e abrangente. resgatando os seus saberes e descobertas. ou seja. assim.

em articulação com a imaginação e a sensibilidade. 1989). Rigor criativo: o exercício da ciência como criação da razão crítica. 2004. em sua ciência reflexiva. estabelecendo o permanente movimento do abstrato ao concreto. em sua trama complexa de relações. nas aventuras do fazer científico. Boaventura de Sousa Santos sustenta a exigência de outros critérios de rigor que rompam com a monocultura do saber e do rigor científico da ciência moderna (Santos. constituir nexos fundamentais entre o plano teórico das ideias. empiria como «pedra de toque» nos processos de construção do objeto e no seu desvendamento analítico. como consequência e exigência. com pluralidade de recursos e estratégias: o rigor criativo implica. conceitos. Liberdade metodológica de constituição de caminhos. exige movimentar teorias para pensar objetos de investigação. a liberdade da criação. Tessitura teoria/empiria na construção do conhecimento: o exercício do racionalismo aberto e crítico em resposta às interpelações do real. fatos e representações. Assim. o processo de construção do conhecimento pressupõe a tessitura teoria/empiria. Implica a liberdade metodológica de constituir caminhos. 138 . ou seja. da pluralidade de instrumentos e 17 Essa tessitura teoria/empiria no movimento dialético abstrato/concreto é trabalhado por Marx. em seu método de investigação. sabendo apropriar-se das potencialidades de vias investigativas. no esforço da busca e da descoberta. Assim. a propiciar inesgotável fonte de inspiração. Bourdieu. impõe-se o rigor criativo. Bourdieu sublinha a relação teoria. demarca a exigência de distinguir rigidez – que é o contrário da inteligência e da invenção – e rigor (Bourdieu. alargando horizontes analíticos e vias de acesso à complexidade da vida. na plenitude da condição do ser sujeito de conhecimento. na permanente vigilância da crítica. libertos de toda e qualquer rigidez. 2006. É o fecundar a teoria a iluminar o mundo aparentemente caótico da realidade. categorias e o plano empírico dos fenômenos. Em outra configuração metodológica racionalista. delineia uma amplitude de horizontes. com novos cânones do fazer científico. na perspectiva do concreto pensado17. 2007a).Alba Maria Pinho de Carvalho abrangente exige reconhecer e trabalhar o trânsito ciência/arte.

Boaventura de Sousa. ao longo dos últimos séculos. liberta da rigidez. De fato. é esta uma produção epistemológica que afirma a natureza política da ciência. em um tempo histórico específico. 2004.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica recursos. pelo padrão epistemológico dominante. levada a cabo. Em verdade. de modo particular. a ciência é uma forma de conhecimento e uma prática social que encarna compromissos. 2004). no pleno exercício da vida18. implica a plenitude de uma ecologia de saberes. domínio de recursos. Ver Santos. sem as amarras de hierarquias classificatórias e excludentes e sem as violências de supressão dos saberes. a exigir a radicalidade do diálogo horizontal entre eles. dois tipos de conhecimento: o conhecimento de regulação e o conhecimento de emancipação. É a construção da coerência criativa. fundada no diálogo horizontal de conhecimentos. É o que propugna Boaventura de Sousa Santos: ecologia de saberes. como uma prática que se institui e se desenvolve na teia das relações sociais de um dado espaço. Em ver18 É na convicção da natureza política da ciência como forma de conhecimento e prática social que Boaventura de Sousa Santos circunscreve. Ecologia de Saberes: o encarnar de uma racionalidade aberta e crítica. a demandar esforço. na obra Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social. das parcialidades e das fragmentações. 1987. ao longo de séculos e. 139 . de campos. 2006. um dos desafios centrais na reinvenção da emancipação no século XXI é o assumir do desenvolvimento científico-tecnológico pela humanidade. 2007a. nos circuitos da mundialização do capital. É inconteste o caráter decisivo da ciência na civilização capitalista. competência. invenção. na matriz da modernidade ocidental. de monoculturas de qualquer espécie (Santos. E. 2007a). investimento. mais especificamente. para além de fronteiras. com nítidas expressões sócio-político-culturais (Santos. em meio à pluralidade de possibilidades e alternativas. na perspectiva da sua autonomia. de classificações e hierarquizações. o capítulo «Uma cultura política emancipatória». imaginação. fundada na convicção da incompletude de todos os saberes. dos reducionismos. Na conjugação desses princípios norteadores delineia-se a perspectiva do Racionalismo Aberto e Crítico como alternativa de produção científica no debate contemporâneo.

Hoje. tempo de vertigem de mudanças e crises que se entrecruzam. a obra é um «clássico» da «crítica do sistema do capital». Hilton 1991:77). na sua obra A Sociedade do Espetáculo. como explicita Boaventura de Sousa Santos. por aproximações sucessivas… É uma construção processual do pesquisador. impõe-se como questão-chave o «ser pesquisador nas circunstâncias do nosso tempo histórico»: tempo de incertezas e instabilidades no âmbito de inimaginável avanço científico-tecnológico. a «tensão política é também epistemológica» (Santos. eis a coragem da existência. o mobilizam a fazer descobertas… Afirma Bachelard: …Vivemos num mundo em estado de sono[…]despertar o mundo. 140 . a pesquisa é um trabalho racional de criação. tempo de reflexões minimalistas e ausência de pensamento crítico. 3. 2007a:52). Assim. E esta coragem é o trabalho da pesquisa e da invenção… O essencial é que permaneçamos sempre em estado de apetite (Gaston Bachelard. tempo de profusão ilimitada de informações e imagens na chamada «sociedade do espetáculo»19. tempo de embates e lutas por um «outro mundo possível». em Paris.Alba Maria Pinho de Carvalho dade. na ótica desta do Racionalismo Aberto e Crítico. 19 Aqui. O ofício da pesquisa: aventuras de percurso No âmbito do Racionalismo Aberto e Crítico. a partir das provocações do mundo que. lançada na França. na mais plena dimensão da crítica. no esforço de desvendamento da realidade. em 1967 e que se tornou livro de referência da ala mais extremista de Maio de 1968. In: Japiassu. tempos de renascimento da crítica na mais genuína matriz marxiana. de descoberta. tempos em que se impõe a reinvenção da emancipação social como exigência histórica… A questão do “ser pesquisador» está posta como desafio à reflexão epistemológica que se reconhece política. ao despertar seu apetite de conhecer sempre mais. resgato a configuração de Guy Debord.

exercitase no fazer. Em verdade. nas evidências. do «pesquisador como 20 Nas explicitações metodológicas de Bourdieu. representações. classificações. 1989)20… Cai por terra o mito do «dom da pesquisa». assim. é desconstruir o que se apresenta como construído (Carvalho. é um «locus» de criação e invenção que amplia suas potencialidades. fatos. um ´modus operandi` científico que funciona em estado prático. fenômenos. mobilizando razão. A rigor. como «ciência em ato». representações circunscritos no real. A pesquisa. buscando delinear relações e determinações. no processo de produção do conhecimento. Esta apropriação do objeto. melhor. 1989:23). pesquisar é aventurar-se nos caminhos íngremes e apaixonantes do conhecimento do que está escondido e/ou disperso nas aparências. no seu método «do abstrato ao concreto» (Marx. «habitus científico é uma regra feita homem ou. apartações arbitrárias. reconstruir mediações que conferem sentido e significado aos fenômenos. 141 . versões… é desnaturalizar o que é dado como «natural». 2004. tornando-o. demarcações institucionalizadas. conforme a configuração de Marx. a regra que permite gerar a conduta adequada” (Bourdieu. É pôr em questão fatos. 2005). sensibilidade. os homens – na plena vigência da sua humanidade – são os únicos «despertadores do mundo» pela criação e invenção. a pesquisa encarna a busca do pesquisador/pesquisadora de apropriação do concreto. alarga horizontes ao superar fronteiras rígidas. 1978). e menos ainda. Nesta perspectiva de construção processual. segundo as normas da ciência sem ter essas normas na sua origem: é esta espécie de sentido do jogo científico que faz com que se faça o que é preciso fazer no momento próprio. no pleno exercício da ecologia de saberes. a pesquisa «é um ofício» que implica um «modus operandi» que se aprende. incorporando o «habitus científico»(Bourdieu. sem ter havido necessidade de tematizar o que havia que fazer. um «concreto pensado». como «concreto pensado».O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica Na reflexão bachelardiana. no plano do pensamento. imaginação. explicando-o ao pensá-lo. exige um esforço de reflexão.

cabe uma primeira demarcação: a operação decisiva é a construção do objeto. antes de tudo. Questionar e questionar-se sem cessar é «dever de ofício». ao ensinar o ofício da pesquisa. muitas vezes ignorada ou desconsiderada em outras tradições de pesquisa. ao discutir o que denomina de «dimensão empirista». devendo «estar orientada para a maximização do rendimento dos investimentos e para o melhor aproveitamento possível dos recursos. movida pela lógica da descoberta. delineiam-se exigências básicas a serem trabalhadas pelo(a) pesquisador/pesquisadora. E configura o «objeto real» como objeto pré-construído pela percepção e o «objeto científico» como uma construção do sujeito pesquisador a efetivar recortes. mecanismos. no sentido de uma avaliação crítica que mantém o(a) pesquisador/pesquisadora em estado de alerta e de vigilância. a pesquisa é uma atividade racional que exige investimento e esforço. estratégias. configura-se a exigência da reflexão epistemológica como um «habitus» do campo científico. Assim. de natureza racional a demandar prática efetiva do pesquisar. trilhas abertas a orientar o processo de criação. 142 . 1989: 18). é fundamental a reflexão permanente sobre o processo e o produto. 1999). Na vivência deste ofício. O fundamental é constituir uma discussão epistemológica da questão metodológica. Nesta perspectiva de refletir a dinâmica metodológica. O exercício da pesquisa. configurando um sistema de relações a investigar (Bourdieu. no sentido da demarcação de caminhos na aventura do conhecer. O adentrar neste campo metodológico exige discutir estas exigências. recursos e instrumentos. Sustenta Bourdieu. 21 Em uma de suas reflexões epistemológicas mais instigantes. a começar pelo tempo que se dispõe» (Bourdieu. nos marcos do Racionalismo Aberto e Crítico.Alba Maria Pinho de Carvalho um gênio excepcional»… De fato. Pierre Bourdieu estabelece uma distinção fundamental na dinâmica do fazer científico: a distinção entre objeto real e objeto científico. que «o que conta. A partir de cânones amplos do fazer científico que constituem. materializadas em operações. implica uma dinâmica metodológica. na realidade é a construção do objeto […] sem dúvida a operação mais importante»…(1989:20)21.

a construção do objeto faz a diferença. As observações. a exigir uma vigilância atenta e permanente do(a) pesquisador/ pesquisadora. no objeto em construção. Esta construção do objeto é eminentemente processual e vai se aprimorando. (1999) «a realidade não fala por si». o seu «fio condutor». ao longo da qual o pesquisador. esse conjunto. por uma espécie de ato teórico inaugural […] é um trabalho de grande fôlego. numa «sintonia fina». imprevisto que delineia e estrutura o eixo da investigação. assim configura este esforço processual de construção: A construção do objeto não é uma coisa que se produza de uma assentada. vai transformando uma temática. em um processo de aproximações sucessivas. quer dizer. é a tarefa fundante da investigação. Enfim. que se realiza pouco a pouco. resultante do trabalho reflexivo do sujeito pesquisador/pesquisadora a interrogar o real que lhe interpela… Assim. reflexões e análises. Bourdieu. Como bem destaca Bourdieu. o(a) pesquisador/pesquisadora vai efetivando seu recorte peculiar de estudo. problematizar… De fato. sugeridos por o que se chama o ofício. desconstrói-se o «fetiche da evidência». por meio das quais se efetiva esta decisiva operação de construção do objeto. tão caro a determinadas vertentes epistêmicas. constituindo o ângulo novo. um fenômeno em objeto de estudo: é o objeto científico. exige um tipo de pensamento que é inerente ao esforço sistemático do conhecer: é o «pensamento relacional» de Bourdieu (1989). oferecendo respostas quando sabemos colocar questões. ao longo de toda a pesquisa. por retoques sucessivos. a constituir a dimensão original da produção do sujeito pesquisador. de emendas.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica Em verdade. em uma lição de mestre. por toda uma série de correções. é a «perspectiva de 143 . de princípios práticos que orientam as opções ao mesmo tempo minúsculas e decisivas (1989:27) . ou seja.

Para melhor visualizar essa trama reflexiva. a partir das interpelações do real. portando. de aportes. no sentido de uma postura ativa do pesquisador/pesquisadora a tecer «fios da teoria» e «fios da realidade». estas formulações postulam a exigência do «pensar relacionalmente». sensibilidade. entrecruza teoria e empiria. no esforço de configurar um sistema de relações a investigar. os da teoria e. sublinho a importância crucial desta tessitura teoria/empiria. O exercício do pensar relacionalmente. recorro a uma metáfora. a colocar dilemas e questões.Alba Maria Pinho de Carvalho Totalidade». em um efetivo trabalho de reflexão. explorando potencialidades explicativas. artesã que tece rendas. os da empiria. a complexidade da realidade contemporânea. No âmbito dessa tessitura teoria/empiria é preciso avançar no diálogo entre teorias. reconstituindo as vinculações geral/particular. na outra. domínio teórico-empírico. estabelecendo mediações. Com configurações conceituais distintas. constituindo a «pedra-de-toque» nos percursos investigativos22. da imaginação e da sensibilidade. no esforço permanente de contextualização e de especificação…É o assumir de uma postura ativa e sistemática do sujeito do conhecimento. exige a tessitura teoria/empíria: movimentar teorias para pensar dimensões e questões da realidade. À semelhança da rendeira. consubstanciada no método marxiano (1978). em permanente movimento. adentrando nos interstícios do objeto. É o movimento contínuo das mãos no jogo dos bilros. o(a) pesquisador/pesquisadora joga «bilros». com a perícia do saber e a arte do ofício. na sua almofada. Tal tessitura exige competência analítica. no processo de delineamentos processuais do objeto. em uma mão. resgatando a tessitura das relações constitutivas do objeto. É um processo de (re)construção teórica. a partir das demandas do objeto. constituindo o desafio das teorizações nas «fronteiras disciplinares». de um lado para o outro. exige a articulação de enfoques. 144 . em um movimento incessante da razão. a jogar os seus bilros. de forma artesanal. Nesse sentido. no âmbito de teorias de diferentes disciplinas. na direção da «transdisciplinaridade». E na perícia do saber e na arte do ofício. eminentemente brasileira e nordestina: o trabalho da rendeira. na direção da produção do «pensa22 Nas minhas reflexões epistemológicas no âmbito da metodologia. em sua teia de relações.

como uma relação fundante.O exercício do ofício da pesquisa e o desafio da construção metodológica mento complexo»23. na busca de caminhos. delineando os percursos metodológicos. o desenho metodológico é um esforço de construção. se impõe… (1989:24) Nesta ótica. exigindo uma radicalidade no repensar a reforma do pensamento. A perspectiva é eminentemente plural. o(a) pesquisador/pesquisadora vai. nas suas teorizações do pensar complexo. Em verdade. capazes de atender às demandas do objeto. 145 . em sua instigante obra «A cabeça bem-feita. em suas reflexões sobre o “modus operandi” no exercício do “ofício da pesquisa”: … as opções técnicas mais ‘empíricas’ são inseparáveis das opções mais ‘teóricas’ de construção do objeto. em estreita articulação com a lógica da construção teórico-conceitual. já enuncia a exigência de estudos de caráter «inter-poli-transdisciplinar» diante da complexidade das sociedades contemporâneas. impondo a recusa de qualquer «monoteísmo metodológico». dadas as condições práticas 23 Edgar Morin. então. Repensar a reforma. Sustenta Bourdieu. em uma perspectiva ampla e plural. a enfrentar dilemas e problemas. trata-se de uma «tessitura teóricoconceitual» que impõe o exercício do «rigor criativo». É em função de uma certa construção do objeto que tal método de amostragem. Assim. dada a definição do objeto. etc. possam parecer pertinentes e que. reformar o pensamento». Com efeito. necessário se faz a superação de dicotomias e sectarismos de qualquer espécie… É o desafio da construção metodológica. a pressupor a estreita vinculação teoria/metodologia. aproveitando potencialidades de diferentes alternativas metodológicas. Ver Morin (2003). em cada contexto particular de pesquisa. rompendo com dogmatismos e formalismos que empobrecem o processo do pensar… A partir das exigências do objeto. faz-se necessário tentar «mobilizar todas as técnicas que. tal técnica de recolha ou de análise dos dados. superando qualquer resquício de «rigidez disciplinar».

vivencia sempre dúvidas.é permeado por dificuldades e tensões… Na intimidade do «laboratório». na aventura do conhecer. mais uma vez. não se aplica a descobrir outras formas de racionalidade. em sua análise da indolência da razão. Nos rumos desta construção aberta e plural. em nossa trajetória na «aventura do desvendar». impõe-se a articulação de saberes de natureza distinta. criatividade. construindo a sua não-existência. Por fim. da «oficina» ou do «escritório de trabalho». a efetivar a «Ecologia de Saberes». no seu processo de criação.como um campo de permanente tessitura . 146 . Nesta operação de construção metodológica. Nesta perspectiva é que a racionalidade da ciência moderna efetivou a supressão de saberes. angústias. o «rigor criativo». vigilância permanente… Em verdade. Na verdade. por séculos.Alba Maria Pinho de Carvalho de recolha dos dados. 24 Boaventura de Sousa Santos (2004. capaz de ampliar os horizontes do conhecimento. em um diálogo eminentemente horizontal. dentro dos padrões dominantes da Ciência Moderna que. demarca. 1987:26). as dificuldades complexificam-se a exigir do(a) pesquisador/pesquisadora competência analítica. o(a) pesquisador/pesquisadora. cabe destacar que o processo de pesquisa . É a articulação da ecologia de saberes. 2006. entra em cena. a cada experiência de pesquisa. nos marcos da modernidade ocidental. esforço sistemático e disciplina. hesitações. para além da ciência e da técnica24. Assim. vivenciamos a grande lição de Bourdieu: «Nada é mais universal e universalizável do que as dificuldades» (1989:18). o que chama de «razão metonímica» que se reivindica como uma única forma de racionalidade e. por conseguinte. rompendo com a hierarquização arbitrária. conjugando a «liberdade extrema» com uma «extrema vigilância» das condições de utilização de diferentes estratégias metodológicas. como uma das encarnações desta razão indolente. inseguranças. são praticamente utilizáveis» (Bourdieu. propõe a «Sociologia das Ausências». produziu a «não-existência de outros saberes». 2007a).

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2. Investigação em Estudos Culturais .

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o linguista esclarece especificamente a origem da palavra ritmo. 1972.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita Ruben A.pt/bib/sirius. por via latina. e que consistia na satisfatória e simples noção de que ao homem bastaria imitar o movimento das ondas. Nessa obra fundamental. Refutando a ideia de que a linguagem fosse fruto dessa imitação da natureza. uma questão pacífica no domínio da poética. 46-48. Convém lembrar que a etimologia da palavra ritmo. p. 2 Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro 151 . para a origem da lingua1 “La respectueuse allumeuse” / Ruben A. Daqui em diante referidos como RA (Ruben A. Trata-se de uma palavra que. com as inevitáveis consequências nos estudos literários. Ficção. de há muito. . A tese então refutada por Benveniste foi aquela que há mais de um século fazia escola. de há muito. até na etimologia. a crença enraizada no fundamento.º 10. foi já debatida e colocada nos seus termos mais rigorosos por Émile Benveniste em Problèmes de linguistique général (Benveniste. Nov. 66: 327-335). como ponto de partida para uma maior dilucidação do conceito.La respectueuse allumeuse1 Dália Dias2 A delimitação conceptual da noção de ritmo não se afigura.gulbenkian.exe/issueContentDisplay?n=10&p=46&o=r).) e LRA (La Respectueuse Allumeuse. In: Revista Colóquio/Letras. por um processo de apropriação mimética de movimentos característicos da natureza. falsificava o tratamento linguístico do conceito. desde os primórdios da gramática comparada. o fluxo e refluxo das águas do mar. para fazer nascer no seu espírito a ideia de ritmo.. (http://coloquio. vem já do grego carregada semanticamente de tal modo que desmente. n. o autor parte da fundamentação etimológica para expor o equívoco que.

Quando se parte da história do conceito de ritmo e da evolução que teve. as segundas não sugerem nenhum movimento cadenciado por síncopes isócronas. mas antes as dos rios e nascentes. a dificuldade consiste. ele designa um movimento dos átomos. 152 . como diz Benveniste. Ao contrário das primeiras. a mesma palavra virá a carregar sempre. fora da inexacta atribuição de etimologia até então aceite. em consequência da sua história etimológica e filosófica. um feixe de significações contraditórias que deverão ser compreendidas em conjunto. ritmo exprime mais a paragem. se a arte for concebida como imitação da natureza. para os atomistas. Se. A palavra ritmo deverá ser relacionada. a relação semântica entre a palavra ritmo e a ideia de movimento contínuo decomposto em tempos alternados.Dália Dias gem. tornam-se evidentes inúmeras implicações. do fenómeno da imitação. na sua origem etimológica. a palavra ritmo passa a conter não só a ideia de modo de viver mas até a de visão paradoxal do mundo. com a ideia de curso contínuo. Hoje essa noção compreende-se como tão necessariamente inerente às formas do movimento articulado que se torna difícil acreditar que disso não tenha havido consciência desde o início. como Demócrito. Apreciada em função dos pressupostos para os quais Benveniste chamou a atenção. a limitação trazida ao movimento. poesia ou música. tal como acontece de facto com o movimento das águas. Tal como em outras questões que envolvem grandes problemas de linguagem. não as do mar. de acordo com a física materialista de que esses filósofos são precursores. uma vez que nela se foi inscrevendo semanticamente a valorização dos sentidos correspondentes quer ao eixo da fixidez quer ao eixo do movimento. nos campos da filologia e da filosofia. pelo esforço de pensadores. será necessário procurar. de fluxo ininterrupto. Tal como nos exemplos precedentes. Portanto. em Arquíloco. de uma noção como a de ritmo. ainda que ela seja empregue quando se trata de dança. preferencialmente. em aceitar que nada terá sido menos natural do que a elaboração lenta.

1982). não corresponda apenas a um outro nível linguístico. do que se mantém imóvel. se justifica que a análise do ritmo não possa ser confinada a um aspecto da linguagem. E por essa mesma razão. 1988) Das abordagens. de algum modo herdeiras de Benveniste. ( Sauvanet. o que corre no tempo. entendido como configuração particular do movimento (Benveniste).1999:6) Talvez pela sua dimensão temporal. de acordo com o pensamento de Demócrito. o fenómeno rítmico possa ser entendido sobretudo como a marca de uma voz que organiza subjectivamente o discurso. Diversamente. Pierre Sauvanet. convém reter que o conceito grego de ritmo se refere. la forme telle qu’elle est transformée par le temps. de um modo geral. o ritmo pode ser compreendido como estruturação conjunta de todo o sentido a partir dos significantes. à forma ou figura na sua relação com o tempo. e sobretudo dos trabalhos mais recentes de Pierre Sauvanet (Sauvanet. c’est à dire la forme que prend quelque chose dans le temps. participa ao mesmo tempo da ordem da forma. por ser traço da voz enunciadora. em Le rythme grec d’Héraclite à Aristote explica claramente a relação entre ritmo e temporalidade: Le rythme grec est en quelque sorte ‘une forme spatialle temporalisée’. e da ordem do fluxo. A mesma palavra tem jogado com esta dimensão paradoxal desde a tradição grega e por isso tem sido usada para abordar quer o pensamento de Heraclito quer para designar a forma singular dos átomos em movimento. ritmo tomará depois o sentido musical e poético que vai permanecer no futuro.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita O ritmo. É precisamente esta ideia que sustenta Meschonnic no fundamental e completo trabalho Critique du rythme (Meschonnic. como seria a sintaxe ou o léxico. Apesar destas profundas variações. inscrevendo assim o sujeito na obra como sistema de valores da linguagem. Para Platão e Aristóteles. mais recentemente reiterada em Modernité modernité (Meschonnic. 153 .

45. nem se consegue delimitar na história das ideias. Orientando a observação no sentido da detecção de analogias. Editorial Tecnos. como um fenómeno transversal e interdisciplinar. que não se fecha num campo do saber. não de traços que se possam dizer comuns e capazes de identificar um determinado ritmo. Estrutura. A edição utilizada é a versão castelhana. periodicidade e movimento Um ponto fulcral para aprofundar a noção de ritmo encontra-se perseguindo a tensão existente entre ritmia e arritmia. Oxford. Basil Blackuell & Mott. no tratamento da questão da analogia 3. Ltd. Madrid. a parecença que relaciona todos os membros de um mesmo grupo. Segundo o filósofo.Dália Dias 2000) sobressai a ideia principal de que o ritmo surge. Segue-se assim a indicação. Essa é a proposta da abordagem que se vai seguir. e para que não se renuncie a uma abordagem racional dos fenómenos rítmicos. Tal aproximação não resulta da efectiva existência de um “ponto” comum a todos os elementos mas antes à detecção de uma espécie de cadeia de sinais variamente repetidos em 3 Veja-se sobre este assunto Wittgenstein The blue and brown books. segue-se um caminho de busca. de facto. Los cuadernos azul y marron. a partir da segunda edição inglesa. tal como Sauvanet sugere. Tenta-se apreender o que vai sendo pensado acerca do ritmo como confronto entre presença e ausência. encontrando um “ar de família” realiza-se um processo de generalização que deixa reconhecer a semelhança. numa espécie de quadro gradativo que irá do máximo ao mínimo ritmo. mas tenta-se antes o reconhecimento de um certo “ar de família” entre várias entidades. p. No entanto. sempre tentando outras diferentes e esclarecedoras travessias da escrita de Ruben A. podem seguir-se alguns caminhos metodológicos capazes de colocar em debate o problema estético. 154 . 1984.

em função de analogias. que os relaciona a todos sem que eles se relacionem obrigatoriamente um a um. mas tão somente descrever uma experiência rítmica particular. o “ar de família” reconhecível entre diversas realidades. aspectos da antropologia ou uma dança como fenómenos rítmicos que podem ser análogos. Quer-se ainda tentar responder. sobretudo.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita cada um desses membros. partindo ainda da proposta do autor de Rythmologiques (Sauvanet. se consegue tratar teoricamente como rítmica. entendidos como problemáticas abertas. do ritmo de uma fachada ou do ritmo cromático de uma tela e aproximá-los. consentem que se trabalhe em torno do ritmo de um modo mais sistematizado e. de forma a que a sua apreciação não o faça parecer um aspecto parcelar da escrita. neste caso é “conto de Ruben A. A busca de tais traços de analogia. pode permitir falar do ritmo de um texto. Permite também que se pense uma música ou um batimento cardíaco. Há três critérios distintos. perante este texto e as suas hipóteses de leitura. cujo título – La respectueuse allumeuse – se faz seguir da já habitual indicação genológica que. à questão fulcral: “quando é que há 155 . de limitadas consequências interpretativas.” O conto oferece uma oportunidade de observação bastante fecunda do que poderá ser considerado como uma abordagem rítmica. a periodicidade e o movimento. por analogia. 2000) capazes de dar conta de uma realidade que não se deixa reduzir a nenhum deles mas que. reconhecido facilmente como um aspecto crucial da construção de sentido no universo da escrita de Ruben A. Tais critérios. O corpus seleccionado para desenvolver a observação é formado por um dos seus últimos textos publicados (Colóquio Letras nº10. Não se deseja adoptar uma definição do conceito que tenha a pretensão de ser “perfeita”. Novembro 1972). Eis pois o método que neste trabalho se pretende seguir para pensar o problema do ritmo. Para tratar deste modo a questão rítmica estabelecem-se critérios. destacados por Pierre Sauvanet: a estrutura.

compor e imbricar. ajustar. no parágrafo de abertura. de facto. a primeira observação suscitada remete para o desvio a aspectos da convenção gráfica. O primeiro de entre eles surge imediatamente no início do texto. Tal observação tornará ainda mais oportuna a reflexão sobre o valor que aqui possa ter o jogo com a convenção gráfica e tipográfica. pontuando a leitura ainda pelo próprio ritmo do pensamento. A estrutura rítmica. se for aproximado o início do final. omitido em todos os segmentos que antecedem a mudança de linha. do tempo e do modo verbal. só deverá ser entendida enquanto ressonância de conjunto. valorizando a ideia de construção no sentido mais literal (con – struction). doravante. assim se procede à travessia da unidade formada pelo conto La respectueuse allumeuse. em função do modo de agenciar. Neste conto de Ruben A. Na verdade. marcar a reversibilidade entre a abertura e o fecho.. Neste conto que parece não ter uma marcação clara do primeiro parágrafo. formando com a indefinida formulação do sujeito gramatical. uma espécie de motivo e suas variações que darão ao texto uma configuração própria. (doravante designado como LRA). No restante texto isto não se repete. Por isso ele evidencia a dependência entre os vários elementos. percorrendo a distância que vai do enunciado à enunciação. o de estrutura. uma abertura consagrada pela tradição narrativa. que não respeita o espaçamento normalmente deixado para iniciar a primeira linha. Na obra de Ruben A. embora essa convenção seja respeitada apenas no espaçamento. compreende-se que se leia a última frase. nesta frase reconhece-se o generalizado início de todas as histórias. situação que no autor é já recorrente. o andar para trás e andar para a frente. pois verdadeiramente o sinal de ponto parágrafo é. “era uma vez uma menina.”.Dália Dias ritmo?” Vivendo entre a complexidade das definições de ritmo. nesta linha de pensamento. O primeiro critério. a sua relação com o conjunto do sistema. 156 .. entende-se como princípio de unidade e organização. como ponto de partida e verdadeiro princípio. o princípio e o fim.

infinitamente… Um elemento estruturante assinala ainda claramente as narrativas de RA. um agora que possibilitasse definir um eixo de organização. arquitectado sob a epígrafe/epílogo das palavras de Hamlet – like a crab -. que reescreve o seu arquivo frágil. a sua posição e movimento. dir-se-á.. da escrita da sua escrita.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita constitui uma temática forte e um recorrente princípio de unidade e organização. sem que nada se possa saber sobre a sua trajectória. A metáfora desenvolvida a partir da figuração do caranguejo representa não apenas a paradoxal arquitectura desta narrativa. o que determina essa mesma realidade. E de que outro modo se pode pensar o movimento atribuído ao acto de leitura reflexo. uma sempre incerta configuração que decorre da inexistência de um lugar unificador para a enunciação..” Ambas as referências formulam uma relação com o tempo cronológico dominada pela indeterminação. lendo-se e relendo-se num movimento regressivo que será já memória da escrita.. Trata-se do modo de construção da temporalidade. mas afinal o próprio movimento da rememoração. neste caso. empregues exactamente para sugerir a possibilidade de andar para trás. a notação temporal assinala em LRA um importante princípio de composição e ajustamento. O restante texto não contém outras referências que permitam determinar um tempo narrativo ou cronológico. imaginar o autor que lê o registo das suas memórias. por algo equivalente a um princípio de incerteza no quadro das notações temporais. Dois dos três (?) parágrafos iniciam-se com as expressões “Pouco depois. Apenas se sabe 157 . a partir de uma unificada presença do eu. Surpreende-se então. ainda assim confundidos pelo emprego amalgamado de verbos no presente e no pretérito imperfeito ou perfeito. uma certa realidade (um tempo que deveria estruturar a narração). enfim. insistindo nesta regularidade patente na obra do autor de Kaos.. primeiro romance do autor.” e “Um dia. para além de um vago antes ou depois. de toda a escrita. De facto. da escrita autobiográfica ou até. O caso mais destacado é nitidamente o de Caranguejo.

partindo de um incompleto “eu”. essas palavras ou partes de palavras conduzirão ao que se pode chamar uma alucinação de leitura capaz de efeitos de sentido que resultam da insistente presença de elementos lexicais. gráficos ou prosódicos. a sobreposição de perspectivas cria uma impossibilidade de representação que estabilize formas reconhecíveis. como em outras narrativas do autor. estruturados ritmicamente. imediatamente associada à experiência musical do jazz. um tempo que se possa identificar cronologicamente. como se viu. o efeito desta indeterminação torna-se claro no tocante também à construção da personagem e à arquitectura da acção narrativa. sejam espaços ou personagens.. Quando é estilhaçada a perspectiva única. tal como acontece quando se diz “era uma vez. sucessivamente cindido. o modo de conceber a personagem e as definições de espaço e tempo alteramse profundamente. quer da sintaxe mais geral do conjunto da narrativa. fluindo numa saturada catadupa de imagens acústicas que comunicam estranhas relações entre as palavras e os sentidos que elas produzem. Neste conto. Será antes a partir do ritmo instaurado pelo devir da própria linguagem que se estabelece um modo possível de significação. Como se formasse uma blue note. e se acede portanto a uma realidade que passou a ser múltipla e dinamicamente simultânea. assim se deverá ler LRA: 158 . que como ela flutuasse no intervalo do que normalmente seria a sintaxe da frase e as suas consequências semânticas. A partir desse fragmentado enunciador resta conceber então um tempo que se dissolva numa indeterminável cadeia de possíveis. partindo da “escuta” de uma escrita feita com sobrecarga de palavras. quer da sintaxe da frase..Dália Dias que ela é observada a partir de um ponto de vista errante. aglutinadas em frases e sequências com erráticos sinais de pontuação. A existência simultânea de várias perspectivas dá sentido a uma leitura que não pode ser ordenada pelas relações lógicas normais. Repetidas. uma acção definida ou. quando ela deixa de ser concebida a partir de um ponto de vista narrativo estável.” Do mesmo modo que em outros textos de RA.

de que lado? O exemplo torna-se eloquente no que diz respeito ao modo de criar efeitos de leitura que se tem vindo a debater. Parece assim encontrado o “ar de família” wittgensteiniano. a relação com que o critério 4 Sobre a questão musical e as definições de “blue note” confronte-se Stephan. deste texto que funciona no limite do que já se considerou uma alucinação de leitura. mais não está tudo encaracolado. tanto quanto o ponto de onde irradia aqui a perspectivação e a voz narrativa. quando cantadas. consequência de uma dissonância não resolvida. a ligação para uma analogia com a experiência do jazz4. para que o fluxo verbal construa possíveis sentidos. Essa mesma tensão dissonante pode ser pensada analogamente a propósito da obra de RA e. algures na região dos terceiro e sétimos graus da escala diatónica. Ed. Veja-se. tendo uma localização vaga. em particular. 1978 (2ª ed. É patente que. se valorizam estratégias de improvisação a partir de um escasso manancial de estruturas fixas e reconhecíveis. como se sabe pela história do jazz. veja como eu estoumesmo boa não faz mal.202-211. Lisboa. é preciso deixar que as palavras “flutuem” num intervalo obtido pela suspensão da articulação lógica que a sintaxe normalmente produz.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita Ela sabia sábia que sabia a rosas rosas com melancia água péde um só gesto e golo engolo também diz ela.). traga-me o pente. 159 . Musik. Por isso se pode encontrar uma analogia rítmica com as “blue notes” quer pelo modo como elas fazem a fuga à sintaxe normalizada quer porque. pp. Frankfurt am Main und Hamburg. Rudolph (coordenação). Incerto portanto o seu lugar. utilizada: Música. com o recurso a essas notas musicais intermédias que a voz humana desenvolveu. É também característico das “blue notes” o facto de. Fischer Bücherei KG. também ele matéria de improvisação. é-me igual. A nota intermédia é possuidora de um ritmo deslizante. sente-se ali em frente ao pé de toda a gente. criando uma tensão de forte poder emocional. editora Meridiano. em especial. não chegarem a constituir notas exactas..

as repetições ou as partes que compõem o texto e equacionem as consequências que daí podem advir para uma leitura mais complexa. reiterando o mais permanente traço da assinatura de Ruben A. a partir do antagonismo trazido pelo recorte semântico das duas palavras. efeito de um ponto de vista não unificado. cadências. justifica-se que se observe a mancha gráfica e o que nela se salienta como cíclico. desenvolve-se numa tensão dissonante que dá lugar a simultâneas falas. (“de que lado?”). f. repetições. De facto. Deste modo se inscreve no 5 Allumeuse: n. deve ser tido em conta na abordagem do problema rítmico. o período valoriza prioritariamente um movimento duplo. o de periodicidade. múltiplo e instável para a voz narrativa. Uma vez que em LRA se está perante uma organização textual que apresenta uma espacialização de inegável importância.Dália Dias da estrutura rítmica se deixa pensar neste texto: como uma presença. semelhantes. em parte. Inseparável da anterior noção. A repetição fonética que aproxima e faz rimar respectueuse e allumeuse funciona de modo contraditório. que decorre da esperada repetição. O emprego de allumeuse classifica uma figura feminina que não é caracterizada pela respeitabilidade social5. 160 . Femme coquette. Começando precisamente por observar o título. O reforço que a repetição das sílabas finais de ambas provoca. de vai-vem. partes.como respectueuse. segundo a definição do dicionário enciclopédico Petit Larousse. por sua vez. falar de períodos remete com facilidade para uma associação de noções a que pertencem palavras como ciclos. de estrutura. tudo isso é contradito porque as duas palavras constituem uma antinomia. já referido para o critério de estrutura. aguichante. e a subsequente aproximação que entre elas se gera pelo facto de serem. por isso. cuja origem é indeterminada e contraditória. não se apresentando. haverá que interrogar os efeitos da rima bem como o valor do emprego da língua francesa. de acordo com o intervalo regular que pelo movimento se estabelece. Esta. Fam. Um segundo critério. seguindo o mesmo conceito de analogia. alternâncias.

. assente numa patente “diglossia”. as frases em francês são todas de uma importância crucial. respectivamente.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita título uma imediata divergência que resulta da contradição entre as duas palavras. “Les cris aigus des filles mouillées” e “la source ardente” são duas frases. o que de acordo com a convenção tipográfica permite interrogar a sua origem a partir de fora do texto. A primeira encontra-se na vigésima linha e a segunda está a vinte e duas linhas do fim. Em LRA as outras duas frases nominais em língua francesa incluídas no texto correspondem a períodos identificáveis. São ambas marcadas por idênticos 161 . de referência a um título ou o sinal de uma deslocação de sentido. Elas surgem em itálico. quer no sentido de uma presença “bífida”. distribuídas com regularidade no texto. Para RA a questão da língua dupla. LRA adquire uma repartição em segmentos aproximadamente equidistantes. do bilinguismo.”). é muito importante. quer no sentido mais restrito do uso de duas línguas. Para além do título. se for aceite a leitura circular proposta (a partir da ligação com o final “era uma vez uma menina. eventualmente. Embora em evidente minoria. Há portanto duas partes em LRA. cuja força dissidente se manifesta reforçada pela rima. em si mesmo sempre relevante e neste caso mais ainda.. que se julgaria aqui não ter outra função que não fosse a de obter efeitos fónicos e propiciar a referida rima. Ora. que são pontuados pela alternância do português e do francês: “Les cris aigus des filles mouillées” e “la source ardente”. uma leitura mais rica. que separa cada uma delas do início ou do fim. as duas outras frases pertencentes ao texto reiteram e expandem os traços contraditórios de respectueuse e allumeuse. Entre ambas há cinquenta e oito linhas de distância. dando-lhes um estatuto de eventual citação. o itálico assinala na vigésima e na septuagésima oitava linhas. Neste título fica também marcada uma aparentemente gratuita presença da língua francesa. o que vem a ser um intervalo de aproximadamente o dobro da distância. essa presença tem um efeito mais vasto e. pontuados em termos rítmicos pela emergência da língua francesa que. de facto. Mas. em linhas. quando se segue um movimento circular de leitura. graficamente.

como uma hipótese interpretativa forte. presente na arte do renascimento. vol. A ideia de um fogo que não consome o objecto que arde está relacionada com o tema dito da maternidade virginal. a apropriação da simbólica de origem cristã torna-se aqui evidente.70 a 86. já mais distantes. o que dá à emergência do bilinguismo um carácter cíclico dentro do próprio texto. consequência da sua ocorrência espacialmente mesurável. que é equivalente de um ponto de vista quantitativo. o tumular e o ventre materno. II. O território do sagrado. quer da sua Ressurreição. em que o elemento continente não é afectado pelo facto de o conteúdo ser expulso do seu interior. que na arte francesa se identifica como buisson ardent. trata-se de um buxo. representado como uma chama que não consome o objecto em combustão. sugerido pela natureza contraditória dos possíveis sentidos a percorrer. Existem. Simbolicamente esta representação coloca em presença o Mistério quer do nascimento de Cristo. misteriosamente mantida após a saída do corpo da criança ou do adulto. p. que fundamenta a tradição cristã da crença na virgindade da mãe de Cristo após o seu nascimento6 A iconografia cristã representa esse mistério sob a forma de um arbusto em chamas. novas relações a estabelecer com outras frases do texto. Eis como surge o tema no texto de RA. Iconographie de l’art chrétienne. 162 . É deveras relevante que “la source ardente” remeta para um precioso elemento da simbólica da iconografia cristã. A cada uma destas frases em itálico pode ser atribuída uma marcação periódica no texto. correspondendo ao equivalente português sarça ardente. Assim se entenderia a inviolabilidade de dois invólucros. por isso mesmo. Na verdade. cadáver ressuscitado. do mistério e do milagre. ambos entendidos como um movimento de dentro para fora. que podem suscitar uma divergente leitura 6 Para este assunto pode consultar-se a obra de Louis Réau. No caso da representação da Virgem. com um intervalo regular entre si. associados à questão da maternidade afigurase ainda. suscitando a leitura que agora se propõe: “olhos saídos de labaredas la source ardente assim se diz quem acredita no cariz do milagre”. ou do clauso utero. O autor trata a questão do chamado fogo do Espírito Santo. Será também possível fazer corresponder-lhes uma leitura que instaure semanticamente um batimento em ciclo e contraciclo. contudo.Dália Dias períodos. auxiliada pela presença quase contígua da palavra “milagre”.

)”. Louis. Les onze mil verges. nomeadas neste contexto. a importante presença desta torre na pintura de Marc Chagall e Robert Delaunay. com referência à iconografia cristã.. Pelo mesmo processo de associação que permite relacionar a frase de RA. pelos Hunos. fica com os dedos em pó de pedra.1296-1301). A obra de Apollinaire. no sec. há uma evidente proximidade de sugestão. como sejam as eminentes fálicas presenças da Torre Eiffel7. da autoria de Hans Memling. a propósito. as “mil e quinhentasl virgens da aventura”. 7 Refira-se. Iconographie des saints. como é narrado na lenda de Santa Úrsula. sobretudo como indício de uma fricção de corpos em contacto: O fogo queima a gente sua. 163 . título dado no sec.não assinada. no caso de l’allumeuse a ideia de “queima” está muito mais próxima da consagrada explicação de Bachelard. do Big Ben ou da Torre de Pisa. Aparentemente bem diverso do universo sacralizado que em “la source ardente” pareceu aflorar. ainda mais acentuado pelo facto de as narrativas medievais não serem unânimes na atribuição de um número exacto de donzelas martirizadas (cf. a frase pode sugerir também o título de Apollinaire.C. 8 De novo se pode estabelecer uma aproximação. Outros sinais ainda admitem ser lidos simbolicamente. A sua história encontra-se em Jacobus de Voragine ( La Legende Dorée. Embora o número de virgens seja bem diferente na referência do texto de RA. do desejo e da sua negação. que o título do conto já prefigurara. a combustão. da Academia de Veneza. também refere – como o título indicia – um suplício de morte. Todos eles enfatizam o mundo obscuro e misterioso do desejo e da negação do desejo. Réau. composta por Voragine cerca de 1260 ). Uma vez que a proximidade do autor de Alcools se evidencia em vários momentos de LRA. com a Lenda das Onze Mil Virgens. mas desta vez infligida por vergastadas e não por flechas. Apollinaire colocara também no início de Alcools (1913). da figura feminina pronta para a maternidade. o poema Zone. jogo que não joga nem ela nem ninguém das mil e quinhentas virgens da aventura8.IV ou V d. A lenda está também resumida nos onze quadros de Vittore Carpaccio. XV à recolha de Vidas de Santos. tal ligação é aceitável. Trata-se da lenda de Santa Úrsula e das Onze Mil Virgens. a filha de um rei Bretão martirizada em Colónia. tomo III.. cujos dois primeiros versos são: “À la fin tu es las de ce monde ancien/ Bergère ô tour Eiffel le troupeau des ponts bêle ce matin (. cit. op. como texto de abertura. neste texto. e nos painéis da célebre cena de caça de Bruges (Hôpital de Saint Jean). pp.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita em torno da questão do amor. que sublinha o sentido que adquire. normalmente incluída na classificação de literatura erótica. de inspiração nas narrativas hagiográficas medievais. da posse.

Talvez por isso se admita que estas duas frases possam ser pensadas como presença de dois quadros – “Um dia foi passear. que transita de modo muito claro para a pintura do sec. Uma vez que o conceito de período levou a relacionar as duas frases de língua francesa no texto de LRA. cris aigus tem um poder evocativo especialmente forte. conforme se pensasse em termos de nascença de águas doces e de campos metafóricos a elas associados desde a literatura medieval. também a figuração da fonte – la source – seria ainda uma outra hipótese contraditória. configurando a existência verbal do autor autobiográfico. Também a presença de filles mouillées repõe o mesmo quadro de sugestão erotizada já antes identificado e profusamente assinalado em todo o texto. que trabalham analogias diversas. ou fosse entendida nos sentidos bíblicos de fons vitae. a presença das artes plásticas não se limita a cumprir qualquer função de ilustração simples. A associação à pintura é pertinente. mas constitui fundamentalmente um dos grandes eixos da sua criação de escrita. ora como verbo. Aqui. Num texto em que as sensações auditivas são preteridas em favor das visuais. ora sob a forma do nome olhos. compondo o seu idioma e a sua paradoxal figuração. A frase “Les cris aigus des filles mouillées” encerra uma multiplicidade de sugestões de sensações.XX. e pelos sentidos de palavras que lhe estão associadas. água purificadora e baptismal. como em toda a obra de RA.Dália Dias Na senda de uma leitura orientada para a exploração deste tipo de símbolos. a partir da imensa tradição das banhistas. neste texto dominado pela repetição do campo semântico instaurado pela palavra olhar. ver quadros num jardim” – ou como referência a duas séries de quadros que comportam analogias próprias – as banhistas/les filles mouillées. auditivas. fonte da vida. muito significativa. tácteis e visuais. o lugar das imagens de pensamento já anteriormente referidas. justifica-se que sejam ainda observadas nas suas relações semânticas. O tema das donzelas molhadas é recorrente em toda a pintura europeia e vem a ser mais modernamente representado. ora como substantivo regressivo. a virgem/la 164 . destacando-se as repetições e ciclos estabelecidos por essas mesmas relações.

que no entanto a produz (Sauvanet. incluído numa estruturação ternária de que faria parte. resultado de uma perfeição mecânica formal. na cronobiologia ou nos impulsos eléctricos detectados no cérebro humano. talvez ainda mais claramente. pela presença regular do ritmo distinto da língua francesa. Na verdade. Déjouer é a acção inversa. o critério do movimento representa o próprio ritmo. jouer tem o sentido musical. pertence à ordem da morte. a maneira própria de fluir. Este autor considera que o movimento é o critério que resiste mais a uma análise racional do ritmo (Sauvanet. assim entendido. As tematizações deste modo sugeridas estabelecem ciclos de repetições. não constitui um elemento suplementar. junto com os outros dois critérios – estrutura e periodicidade. Compreendendo-se por isso que a essa negação se associe a isoritmia. no sentido que decorre do grego metabolè. marcação que é acentuada neste texto. nas suas configurações particulares. Um certo grau de arritmia do movimento assinalará 165 . Um último critério para a abordagem da questão ritmológica em LRA é o que Pierre Sauvanet distinguiu como movimento. entendida como a morte do ritmo. aquilo pelo qual a coisa é. 2000: 192) – que permite entender o movimento como o que faz viver o ritmo. 2000: 191). intervalos quantificáveis. uma cadência de movimentos que se reconhecem como sendo semelhantes. seja na música. é um sinal vital dado pelo movimento. O movimento. 2000: 188 e ss). um princípio de auto-diferenciação ritmológica. na senda do que já dissera Benveniste. O movimento deixa-se descrever a partir da metáfora do jogo. Sauvanet dirá por isso que a diferença é que é rítmica e não a repetição. lúdico e mecânico – “le mouvement donne du jeu au rythme” (Sauvanet. A presença de síncopes. no sentido que a língua francesa melhor exprime quando emprega a palavra jouer e o seu correlativo oposto déjouer. Na mesma linha de Deleuze.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita source ardente. pois vem a ser. A falta de diferenças rítmicas anula o movimento. que o título do conto tão bem salientou. não um acaso de segunda ordem mas antes o primeiro princípio errático. esse fluxo rítmico. Assim. da ideia de auto-transformação e de mudança de forma.

Nas três páginas de LRA a escrita de RA é levada a um máximo de experimentação. para prosseguir o traçado do mapa de leituras do conto LRA.Dália Dias portanto. Ao nível macrotextual. ao lê-lo deste modo procura-se ainda um caminho rítmico para a leitura mais global do idioma do autor e em especial para a complexidade dos seus textos autobiográficos. Está-se pois perante uma situação de extrema dificuldade porque se pretende interpretar o conto e lidar com uma construção verbal de cujos sentidos possíveis a 166 . Veja-se então como há ritmo dado pelo movimento da linguagem em LRA. sabendo que uma certa dose de arritmia se torna indispensável a uma ordem rítmica de conjunto. a vida do ritmo associada à desordem. a sintaxe narrativa não se faz no sentido de poder criar um universo determinado para o conto. o modo como nela se inscreve uma certa arritmia que se pode considerar gramatical. A maior resistência do texto à leitura resulta de uma impressão de agramaticalidade que cria uma permanente impossibilidade de fixação da sintaxe da frase. A arritmia ocorre quando há uma presença ou uma ausência excessiva do irregular no regular ou do regular no irregular. capaz de construir os seus pressupostos de legibilidade. é precisamente assinalar a oscilação. Uma vez que este texto repete e radicaliza os traços mais marcantes da assinatura da escrita de RA. O que se pretende fazer. De arritmia se fala igualmente quando se detecta uma ausência ou presença excessiva do contínuo no descontínuo ou do descontínuo no contínuo. Observa-se o modo como esse movimento se joga entre fixação e perda de sentido. Observe-se. ainda segundo Sauvanet. resultante de uma parte de caos sem a qual a ordem não existe. entre ordem e caos. entre fluxo e paragens. uma vital capacidade de diferenciação na repetição que possuem as realidades estruturadas. entre ritmia e arritmia. antes de mais alguns aspectos do funcionamento da linguagem. entendida essa diferenciação como movimento vital da construção narrativa. não forçosamente isócrona. com evidente perda de legibilidade imediata. a uma espécie de princípio de entropia.

190). Iluminações e Uma cerveja no inferno. Novalis. Fourré.)”. Com um certo valor autojustificativo. Péret. A confirmar o carácter infractor da escrita de La respectueuse allumeuse. fora da ordem normalizadora. Escreveu o poeta surrealista: “Verbo mercurial que rouba à linguagem o que devolve à língua. negra ou branca . 1999.. Lautréamont. depois Marcel Duchamp Breton. tornando-se cada vez mais forte a opacidade da narrativa. depois de destruída duas vezes – na extrapolação e na primeira tradução – é reconduzida à constelação mítica a que pertence mesmo quando afirme o oposto da expressão inicial: Elle est retrouvée Elle erre. a partir do emprego de um verbo formado provavelmente a partir da palavra estribo – estribicou – deixando assim a sugestão de transgressão associada ao gesto de inventar novas derivações.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita cada momento vão irradiando novas condições de impossibilidade. rompendo a progressão narrativa com esta frase exemplarmente caótica. de raiz medieval e instalada com grande voga na literatura profana a partir do sec. Rimbaud. de que Rimbaud será um exemplo maior. assenta no princípio cabalístico da magia. afirma a certo ponto o narrador. depois Alfred Jarry. o efeito das letras que se sucedem para trás (o anagrama).(… ) A palavra. A esse propósito. à revelia da gramática10. Nerval.. Assírio & Alvim. mais exactamente. que não consente a reordenação gramatical pois o feminino “cansada” perverte qualquer hipótese de solução que decorresse da lógica da sequência sujeito-predicado (que resultaria em “Eles não estão cansada”). Mário Cesariny escreveu. que só significam quando lidas ao revés. no jogo fónico obtido pela frase.XIX. levanta-se outra vez o problema do tropeção na gramática. 9 Sublinhados nossos. recordando. Kleist. p. ou. Estes jogos de sentidos ocultos a partir da relação entre a fonética e a grafia são reconhecidos como uma prática associada aos chamados poetas visionários. como a confirmar o fundamento das construções agramaticais: “Ele estribicou tropeçando na gravata na gramática na grama da encosta dos vestígios de um polícia chamado consciência (.a que fazem não pequena chamada o primeiro romantismo alemão (Hölderlin. “Cansada não eles estão”. Trouvez Au soleil Eau sol oeil” 10 167 . surge a cadeia de palavras “na gramática na grama”9 que em parte se lê como a na grama.189. Ou ainda quando diz. nas notas à sua tradução de Illuminations e Une saison en enfer (Arthur Rimbaud. que em tais jogos se revela uma Cabala fonética. Lisboa. Arnim) e o romantismo francês com Baudelaire.

do limiar mais baixo de legibilidade. algo próximo de uma pulsação das frases. complementar da primeira. independente da primeira. Assim se poderá atestar a presença excessiva do irregular no regular. Eis uma frase que. jogar (contraditoriamente jouer e déjouer) com a possibilidade de obter efeitos de sentido. embora se mantenha a aparente regularidade sintáctica e o movimento da frase não pareça sofrer qualquer alteração. Será este o sinal de um segundo modo de arritmia. O nome. Os inúmeros exemplos que podem ser colhidos em LRA reiteram uma contínua dissidência sempre que se tenta fixar um possível narrativo. sem qualquer sinal diacrítico que a pontue no final. que é subjacente à formulação o seu a seu dona. será “Desejo adulto de posse o seu a seu dona” (l. Destaca-se o proverbial “o seu a seu dono”. pode ser lida imediatamente como não terminada. na frase que vem a ser duplamente formada por duas metades distintas (desejo adulto de posse e o seu a seu dona). uma vez que a linguagem faz aqui uma permanente negação de sentido. animada pelo movimento que advém da repetida 168 . de novo o feminino (dona) torna irregular a frase conhecida. presente no limite do que pode ainda ser legível com uma certa ordem rítmica.Dália Dias Um outro exemplo de frase agramatical. com efeito. Há uma clara irregularidade no sentido obtido. e que pode ser referida como narrativa. Tal como no caso de cansada. de modo que ela deixa de poder funcionar como simples repetição do provérbio. Trata-se. apenas interrompida ao ser iniciado o parágrafo seguinte. que constitui a segunda metade. não deixará contudo de propor uma leitura mais profunda da estranha frase em que os elementos parecem não jogar entre si.25). no feminino no final. instaurando o que se chamou arritmia gramatical como claro traço de escrita. entre muitos que este texto fornece. ordenado em função de frases que permitam a instauração de um mundo pensável a partir delas. que irradie nexos como se se tratasse do ritmo de uma respiração. Da leitura do mesmo texto decorrerá uma outra arritmia. quando ainda se consente interrogar.

Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita

separação da palavra de si mesma. Tal dissidência no interior da matéria narrada é instaurada desde o início por uma voz narrativa que
sempre se divide e aparta, nascendo da fractura ininterrupta do lugar
de origem da própria escrita. Tal será a causa efectiva do estilhaçar
da sintaxe que não admite a direcção única, para passar a conter inúmeras perspectivas simultâneas e, por isso mesmo, não unificadas e
sintacticamente discordantes. Por este processo se vai desenhando
um movimento contínuo de dissipação do que mesmo ao nível da
frase parecia único, desencadeado pela acumulação dos sucessivos e
díspares fragmentos com que cada uma delas se compõe.
Admite-se portanto uma presença excessiva do descontínuo no
contínuo, do que seria a continuidade e complementaridade das vozes
narrativas, abandonada a fim de aceder a uma sincopada polifonia narrativa, multiplicada em segmentos mínimos dentro de cada frase, cada
voz desdobrada em pequenas vozes também díspares, que compõem
uma ruidosa massa verbal apenas capaz de significar em função do movimento do conjunto, sem que as partes apresentem continuidades nítidas ou se completem de alguma maneira. Por analogia, poder-se-ia
falar de uma imensa desafinação que produzisse alguma harmonia poderosa, quando ouvida sem a pretensão de isolar partes significativas.
Ao aproximar a leitura de LRA do critério rítmico do movimento, valerá a pena estabelecer uma última analogia, que introduz
a ideia contraditória da de movimento, a ideia de paragem. Aparece
aqui a paragem como se fosse uma espécie de meio-dia solar, quando
se verifica um máximo de verticalidade da luz, um prumo de momentâneo equilíbrio, que logo desaba no movimento de queda em
direcção ao ocaso, desenhando a parábola da sua inexorável transformação. Esse momento de paragem ocorre, numa clara quebra do
ritmo vertiginoso de todo o conto, quando é dita a frase final (“era
uma vez uma menina”). Tal remate, que representa o mínimo ritmo,
o menor movimento e o verdadeiro início do movimento catastrófico
em sentido contrário, instaura um outro ciclo rítmico. Ele está no li-

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Dália Dias

mite de maior lentidão, na quase paragem que, qual zénite do arco
do movimento cónico, retoma o caminho descendente, invertendo o
seu sentido. O ponto de equilíbrio, a paragem do meio-dia encontrase por ventura no fim/início deste conto que se vem a revelar exemplar quanto aos aspectos pertinentes de excessiva descontinuidade e
irregularidade, os seus modos de arritmia patentes quer na sua quase
agramaticalidade, quer na extrema desfiguração narrativa a que ele é
submetido.
O conto LRA serve ainda para apoiar uma última reflexão em
torno do ritmo. A construção interpretativa sugerida pela personagem protagonista, a virgem sedutora que possui o fogo incorruptível
e que simultaneamente age como incendiária do desejo, resulta numa
composição de fortes referências sexualizadas. A insistência numa
ritmia que se diria à bout de souffle, em acumulação de palavras que
se jogam numa aparentemente gratuita associação, desenha uma leitura que pode fazer-se no território bem explorado por Bachelard
com o seu conceito de “dynamogénie”: o fogo material da madeira, o
fogo corporal do aquecimento do músculo e o fogo simbólico do
sonho sexual. A aproximação à metáfora do fogo, lida ainda como resultado simbólico da fricção de dois corpos, já antes foi feita a propósito do recorrente recurso à ideia de queima, várias vezes presente
nos escritos autobiográficos de RA e na sua auto-justificação. Assim
surge o retrato feminino da respectueuse allumeuse, nova la bella
emoldurada numa pose estática de que sobressai “a canícula do pescoço”. Assim é a enigmática figura que
discreta quieta inquieta provoca voca por ali acima sem chegar a
tocar com a luz que deita para o sinal vermelho se ver no olhar que
desperta e aperta.
Ao propor esta leitura, de que resultam sugestões interpretativas
que reenviam sempre para sentidos construídos em função do movi-

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Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita

mento do fluxo verbal, propõe-se enfim uma analogia com a respiração, o movimento duplo de inspirar e expirar. Tal respiração não é
tanto pensada como origem mas antes como rasto de movimento de
um texto invisível subjacente ao próprio texto que se procura interpretar. Será esse invisível texto a marca da evanescente presença do
eu que de si mesmo se aparta de cada vez que se enuncia. Em consequência dessa cisão, a língua será sempre bífida e todas as histórias
surgem com um carácter bilingue. A ideia da respiração permite então
encontrar uma analogia para o critério do movimento que levará a
conceber o ritmo como fenómeno vivo. Nessa medida, a noção de
ritmo surge ainda como um fundamento estético para a escrita, capaz
de dar conta do que nela há de mais inexplicável, de mais poderoso e
mais profundo:
O ritmo da palavra é como se pode ver uma expressão musical –
quanto mais afinado está o ritmo harmónico mais sensível aparece
o estado de alma dado em pormenor pelo som silábico. Os meus
estudos imaginativos têm-me levado a estas novas possibilidades
onde a alma consegue definir-se estaticamente, o verbo é a criação
e o ritmo é a necessidade de agitação para o homem – As palavras
são a essência da vibração como folhas de árvore são necessidades
de vento – Toda a religiosidade da natureza é dada pela interpretação ritmada do verbo – o verbo divino nada mais é do que a possibilidade vocálica de Deus! (A. Ruben, 1949: 133 e 134)

Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo
Para seguir na via proposta e, consequentemente, alargar o trabalho
de analogia, não poderá deixar de se fazer uma aproximação aos movimentos e correntes estéticas que dominaram as artes plásticas na primeira
metade do século XX. P e MMP, os textos autobiográficos tão claramente

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Dália Dias

embricados em profícuas relações com as artes plásticas e com os ecos
do que, também no campo literário, se vinha pensando e produzindo em
Portugal, em Inglaterra ou França nesse mesmo período, porventura consentirão ainda outras inquietantes propostas interpretativas.
Parece sustentável a ideia de que a escrita de Ruben A, embora a
uma distância de mais de trinta anos, pode ser colocada numa relação
de grande proximidade com alguns pressupostos ou manifestações
identificadas habitualmente com os movimentos dadaísta e surrealista. Admite-se que ela ainda se reveja em correntes mais circunscritas ao primeiro quartel do século, para a qual a crítica e a história de
arte aceitaram os nomes de orfismo, ou ainda o movimento mais conhecido por cubismo. Algumas das suas características permitem observar ainda, concomitantemente, afinidades com o grande
movimento que se designa globalmente como expressionista que, por
sua vez, também se relacionou com todos os anteriores.
A escrita de RA não se confina a uma poderosa afinidade com
as concepções de espiritual na arte, de Kandinsky, alguma relação
com o expressionismo alemão, o surrealismo ou as práticas do movimento dada. Tal escrita afirma-se de modo determinado também
em sintonia com as ideias defendidas nos primeiros anos do século
passado pelo poeta Guillaume Apollinaire a propósito da pintura cubista11 e, em particular, da corrente que ele veio a designar em 1912
por “cubismo órfico”. Referia-se, em Les peintres cubistes12, o poeta de
Calligrammes, a uma arte que dispensava o reconhecimento de temas
para valorizar preferencialmente formas e cores capazes de comunicar
emoções e sentidos. Desenvolvida tão precocemente por um autor
11

Sobre este tema, confronte-se Apollinaire, Les peintres cubistes: Méditations Esthétiques, Paris Figuières, 1913; ed. ut, Paris, Hermann, 1965. Sobre o assunto, vejase também Chipp, H.B, Theories of Modern Art, University of California, 1968, ed.
ut. Teorias da Arte Moderna, Editora Martins Fontes, 1988, pp.218-222.
12
Sobre o assunto veja-se Stangos, Nikos (org.), Concepts of Modern Art – from Fauvism to Postmodernism, Thames and Hudson, Ltd, Londres, 1994, pp.85-95.

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Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita

fundamental como Apollinaire, que conviveu com todas as experiências do modernismo europeu no primeiro quartel do século XX, esta
reflexão estética em torno da identificação do cubismo e dos caminhos da abstracção merece ser relacionada com o campo da literatura.
A importante corrente que veio a designar-se como orfismo teve
como principais representantes, de acordo com o agrupamento pensado por Guillaume Apollinaire, Robert e Sónia Delaunay, Francis Picabia, Fernand Léger e Marcel Duchamp. Apenas Robert Delaunay e
Francis Picabia aceitam sem reservas a classificação, o que não obsta
a que se retenha a importância do conjunto de pintores e a evidente
sobreposição deste orfismo a outros ‘ismos’ que posteriormente se
fazem notar, tal como aconteceu com o dadaísmo ou o surrealismo.
A aproximação aqui proposta entre a pintura dos Delaunay, representantes maiores do orfismo, e a escrita de Ruben A tem razões
de vária ordem. Em primeiro lugar, deve-se a características marcantes da pintura de Robert e Sónia Delaunay, que se desenvolve na busca
constante de formas e cores capazes de comunicarem sentidos e emoções (cubismo órfico), sem contudo perseguir deliberadamente a abstração, como veio a fazer Mondrian, pouco depois. O recurso aos
famosos “círculos órficos” para representar estruturas dinâmicas não
naturalistas evidencia a sua crença na geração circular da luz como
princípio de toda a criação. Precisamente porque adoptam um paradigma de filiação cubista, os quadros de Robert têm títulos como, por
exemplo, Janelas simultâneas ou Sol, Lua. Simultâneos. Os vestidos
criados por Sónia são também chamados Simultanées.
Uma vez pensadas estas afinidades, é importante acentuar que
não se esgotam no chamado cubismo órfico os pontos de contacto patentes entre a obra de RA e os movimentos de vanguarda dos primeiros anos do século passado. Observe-se mais de perto o que se passa
com o movimento dada, talvez o decisivo eixo de aproximação à excêntrica obra de RA, que viu a luz do dia quase meio século depois
da eclosão do grupo dadaísta.

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quer em relação à política dos estados beligerantes. que inclui o primeiro Manifesto Dada (Manifeste de monsieur Antipyrine). je vous assure”. quer em relação aos mais consensuais valores estéticos e ao pensamento sobre a arte então mais aceite. é o poema dramático La Première aventure céleste de monsieur Antipyrine (1918)13. O texto inaugural de Tzara. dirá o mesmo Tzara. usando diferentes línguas (de que sobressaem o alemão e o francês). La pensée se fait dans la bouche. 1975. 174 . sugerindo que as palavras serão agrupadas ao sabor do acaso.Dália Dias Coincidindo com os anos da Primeira Guerra. 2001: 247). “car l’art n’est pas sérieux. Flammarion. mantendo a principal sede num país neutral. diz o Manifeste. Ao criar efeitos de surpresa e inesperadas associações. no caso de Tzara. na cidade de Zurique. tomo I. A experimentação poética. uma ideia de facilidade e de algo de pouco sério de que se reivindicaria a arte dada.” 13 O texto encontra-se reproduzido em Oeuvres complètes de Tristan Tzara. esta escrita vai afirmando um dos propósitos essenciais da arte dadaísta que será o de dar prioridade à palavra sobre a ideia (Fauchereau. autores de várias nacionalidades. Mais tarde. insistindo na paradoxal afirmação do artista que garante seriamente que a arte não é coisa séria. Tanto os textos produzidos como a conhecida dramaturgia que os acompanha nas apresentações públicas acentuam a vertente de uma certa clownerie agressiva. As apresentações no Cabaret Voltaire (fundado por Hugo Ball na mesma cidade em 1916) e sobretudo o Manifeste Dada de 1918 clarificaram essa rebeldia artística à cabeça da qual se reconhece o romeno Tristan Tzara (1896-1964). insistindo no primado do modelo da improvisação e dos jogos fonéticos para a criação de uma arte assente em novos pressupostos (em Dada manifeste de l’amour faible et de l’amour amer): “Le grand secret est là. desenvolveram actividades artísticas de características rebeldes. “Nous extériorisons la facilité”. surge marcada por uma prática de desarticulação de linguagem que assenta em rupturas de sentido e de sintaxe.

Do ponto de vista cronológico. Não se pretende apreciar a vasta obra de Tzara e ainda menos convirá tirar qualquer conclusão acerca das polémicas com André Breton e o posterior regresso ao debate em torno do surrealismo. provocadas pelas associações automáticas. portanto. uma vez que ainda partilham um tempo comum. a tutela do acaso (o hasard) e o especial gosto pelas desordens na distribuição sintáctica. de modelo dadaísta. dando assim sinais de uma vitalidade que interessa reter. como seria de esperar. Tzara fixou-se em Paris em 1919 e manteve-se activo em França até ao ano da sua morte. como é o caso de L’Antiphilosophe. tendo sido sempre reconhecidamente influente14. em homenagem a Louis Armstrong. publicado um dia depois da sua morte. quando convive e trabalha com o grupo que dará início ao movimento surrealista em França – o mesmo grupo responsável pela publicação de Littérature – insistirá numa criação poética fiel aos princípios do dadaísmo de Zurique. no início do ano de 1920. o jogo da improvisação. O poeta judeu romeno. integrado no Deuxième manifeste de Monsieur Anripyrine (1920). Mas não serão as razões de 14 Tzara foi fazendo durante vários anos traduções de poetas turcos e húngaros. tidos por mais programáticos. em outros textos de Tzara. depois de se instalar em Paris. Este tipo de escrita é característico dos poemas e textos dramáticos do autor romeno e a sua explicitação é feita. tendo em conta o âmbito deste trabalho. 175 .Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita Tzara. 1928). a sua prodigiosa e multiforme capacidade criativa. 1964. sempre o principal rosto conhecido do dadaísmo. Escreveu o último texto. é normalmente referido como integrando os grupos de vanguarda mesmo depois da eclosão do surrealimo (Manifeste surréaliste. após a Segunda Guerra. Sobressai nessa criação. nem sequer é muito estranho que se aproxime o autor de Caranguejo do autor de L’Antitête. prefaciou edições de François Villon e Apollinaire e apresentações de livros de arte de Picasso. a 18 de Julho de 1964. Mais do que os seus importantes textos teóricos e as polémicas em que se envolveu merece atenção.

compreensívelmente. Guy. incluído em L’Antitête : “Je me. Sobre esta questão. O verso apresenta. sublinhados nossos. Pertence a Tzara este verso do poema “Les écluses de la pensée”. tratada mais profundamente. com evidente contenção de palavras. editor. a multiplicidade de significações que decorre da ideia central de “decomposição do horror”. separados por vírgulas. 1988. 15 16 Confronte-se Les Cahiers libres. O que não quer dizer que seja menos livre por isso. 1933. No que se refere a esta última questão. tem rupturas que perturbam a ideia de fluxo interior. João Azevedo. uma escrita talvez mais rasurada e menos automática do que veio a ser a pretensão surrealista de escrita automática.46. très tard” 15. o núcleo de Tzara prefere recusar-se a adoptar teorias que conduzam a fórmulas que ameacem transformar-se num novo academismo. Pratica antes um lirismo torrencial. na linha do pensamento de Baudelaire. Parece que neste rigoroso verso se pode encontrar uma marca profunda da arte dada. decorrente dos modos de conceber a arte. pois compreendeu o carácter paradoxalmente transitório da modernidade. mas cumpriu um percurso que pode pensar-se como mais rebelde ou até mais cosmopolita do que o movimento surrealista16. nem moderna. en décomposant l’horreur. “Je me” e “trés tard”. p. Há. do carácter inovador das linguagens que usam e sobretudo da relação que estabelecem com a tradição e as vanguardas. que sendo embora próximo da prática de escrita automática dos criadores de Champs magnétiques.Dália Dias época a sustentar o argumento que pretende aproximar a escrita de Ruben A da corrente dadaísta e das ideias que acabariam também por ser fundadoras do movimento surrealista. Tal como aconteceu com o dadaísmo. é evidente que a arte dada não se quer nem antiga. expondo uma procura não automática de novas relações sintácticas. que terá sido menos forte em termos programáticos. 176 . uma aproximação a estabelecer entre estes movimentos e o autor de Kaos. pode ler-se Scarpetta. dada pelo predicado que sustenta equilibradamente os dois extremos da frase. Fala-se de désespoir e de dégoût no Manifeste dada 1918 e. Elogio do Cosmopolitismo. de facto.

falando a nossa época. em que é exposta a desordem da linguagem e se arrisca avançar para o desconhecido. a falha. faz sentido retomar o que disse Maurice Blanchot em L’entretien infini. 1970: 195) Por tudo o que se vem concluindo. bem mais tarde. o hasard. na medida em que com esse descrédito recusa a ideia do real como uma plenitude homegénea que ela seria capaz de transportar. O movimento deve principalmente ser observado. entre raison et déraison”). Seguindo a lição de Tzara. no capítulo intitulado “Le demain joueur” (Blanchot.como o único elemento sério (sérieux) a designar. descoberta de caminhos interpretativos e mundos possíveis. tanto mais quanto se desacredita. tal como aqui se tentou fazer ao relacioná-lo com a obra de Ruben A. recusando o saber prévio ao acto da escrita. Fá-lo. O jogo. na 177 . A leitura. a uma série de características mais ou menos comuns a um conjunto de autores relacionados em grupo. de qualquer poeta moderno: A língua cansada. (A. manifestando uma aguda consciência do que terá estado sempre em questão na busca do seu idioma. Ruben. O texto de Blanchot obriga a pensar a experiência do surrealismo (e. a ruptura assim definidas compõem a trama textual que a linguagem dá efectivamente a ler. A lacuna. como uma libertadora experiência de déseuvrement. quando salienta o jogo desinteressado do pensamento – “présence fortuite qui joue et permet de jouer”. o aleatório (“l’aléa. da escrita de cada poeta. é assim proposta. incondicionalmente procurados. 1969: 597-619). com as inquietações próprias a um sentir desarticulado.Ritmo e dissidência: uma experiência de escrita Ruben A afirma. não evoluída. são os criadores da descontinuidade. impede-se de nos dar coisa nova. a propósito da escrita automática surrealista. neste caso também o dadaísmo) como algo muito mais alargado do que o movimento circunscrito a um tempo e lugares determinados. reconhece-se que nesta experiência de escrita “la pensée se fait dans la bouche”.

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Narrativas queirosianas que abordam a temática do colonialismo Esperemos que o método e a filosofia de montagem literária preconizados por Walter Benjamin impregnem esta análise. mas também espiritualmente. Eduardo Lourenço. passou a ser dois. colonização e povoamento do Brasil. em Malaca. Em sentido próprio e figurado.8 Com os Descobrimentos e as suas consequências – estabelecimentos na costa da Índia. mais tarde. fragmento N1a. Apenas para mostrar. Walter Benjamin. povoamento de ilhas atlânticas. mas aqueles a 1 Universidade de Aveiro – Departamento de Línguas e Culturas 179 . entre outros. o que cai dos dias: esses não vou inventá-los. ou simultaneamente. não usaremos os nossos. não apenas empiricamente. presença em Angola. Vou deixar que afirmem os seus direitos da única forma possível: dando-lhes uso. Não escamotearei nada de valioso nem me apropriarei de formulações espirituosas. Portugal entrou num tempo histórico que lhe alterou não só o antigo estatuto de pequeno reino cristão peninsular. Das Passagenwerk. mas a totalidade da sua imagem. Mas os farrapos. Quanto aos «farrapos» benjaminianos. Guiné.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo Maria do Rosário Girardier1 O método deste trabalho: montagem literária. Não tenho nada para dizer. Moçambique -. Portugal como Destino 1. na China.

2 Na crónica «Lisboa». 2004: 16) em 1871 -. Textos de Imprensa VI (da Revista de Portugal). 3 QUEIRÓS. Op. Cf. 2008: 24) no sentido de realçar a descoberta e a ocupação de territórios africanos por portugueses6. Singularidades de uma Rapariga Loira) e romances (O Primo Bazilio. A Cidade e as Serras) de forma mais ou menos explícita. o que indicia a presença de africanos em Lisboa e remete para uma imagem de África como lugar de abundância. «Introdução» in As Minas de Salomão . Na mesma Revista. África é também o espaço onde se desenvolve o enredo de King Solomon’s Mines. já depois da Conferência da África Ocidental. 4 Estes artigos foram assinados com o pseudónimo de João Gomes. A Correspondência de Fradique Mendes. Cit. 5 Relativamente à polémica sobre o grau de participação de Eça de Queirós na tradução ou revisão. ou seja. A Relíquia. 6 A tradução da primeira parte do romance As Minas de Salomão apareceu no quarto número da Revista de Portugal. Quatermain: 15-91. Eça de (2008) in Cartas de Inglaterra. mas antes do Ultimato Britânico (1890). As Farpas – as primeiras referências directas às colónias surgem nesse «livrinho» (Queirós. em 1889.: QUEIRÓS. Cf.Maria do Rosário Girardier que Eça de Queirós deu uso e que afirmaram os seus direitos em diferentes narrativas. o narrador transcreve alguns versos cantados por uma personagem: «O preto que vem d’Angola/ Traz a bordo fava rica». A questão da partilha de África e a ameaça aos direitos históricos sobre as colónias é matéria da actualidade. nas várias «Notas do Mês». de Rider Haggard. Eça de Queirós não resistiu a corrigir o que via como uma representação literária adversa aos interesses de Portugal: Cf. Eça de (1995). tais como: os folhetins publicados entre 1866 e 1867 na Gazeta de Portugal2. Apesar de céptico relativamente ao poder colonizador de Portugal.Edição Crítica: 15-20.: QUEIRÓS.» (Queirós. Eça evoca frequentemente a tensão nas relações anglo-lusas: «… colocaram a actividade colonizadora da Inglaterra face a face com a nossa propriedade histórica. ler: QUATERMAIN. Allan (2008). Eça de (1999) in Prosas Bárbaras: 183. acolhida por Bismarck em Berlim (realizada entre 15-11-1884 e 26-02-1885). as cartas que enviou de Bristol à Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro (entre Setembro de 1880 e Outubro de 1882)3. O Mandarim. o relatório A Emigração como Força Civilizadora (elaborado a pedido do ministro Andrade Corvo em 1874). Os Maias. único livro que Eça traduziu5 e onde introduziu algumas alterações «subversivas» (Quatermain. 1995: 70). 180 . A Ilustre Casa de Ramires. os artigos na Revista de Portugal (entre 1889 e 1890)4 e vários dos seus contos (Civilização.

No século das Luzes. «Canto I» in O Reino da Estupidez: 3. 2. O Reino da Estupidez. Contudo. de forma objectiva ou simbólica. cronista e escritor7 . Portugal era «um país que tinha um império» (Lourenço. que convida Luís António Verney. urge enquadrar o homem nos tempos e na geração que com ele partilhou o cair dos dias. autor do famoso Método de Estudar. poema satírico («A mole Estupidez cantar pretendo/Que distante da Europa desterrada/Na Lusitânia vem fundar seu reino»8) que valerá o encarceramento ao seu autor. não afastamos a possibilidade de sermos surpreendidos por especialistas queirosianos com a revelação de outros textos/narrativas que evoquem.: 22). 8 FRANCO. abandonam-se os pontos fortes em Marrocos. 181 . Em 1785 corre o manuscrito de Francisco de Melo Franco. «cede Bombaim. holandeses e ingleses vão conquistando o monopólio comercial do Oriente. e com o apoio de várias fontes documentais. embora enfraqueça gradualmente ao longo do século XVIII. a temática do colonialismo. para colaborar no processo de Reforma Pedagógica. o esforço do rei João V. Tânger e a mão de uma princesa à aliada e. O passado e o futuro do presente do presente de Eça de Queirós Dado o objectivo do estudo – a compreensão dos sistemas de representação inter-identitários através da exegese textual –. não é suficiente para 7 Dada a leitura atenta das várias obras de Eça de Queirós. Durante séculos.: 23). decidimos apoiar-nos nas reflexões de Eduardo Lourenço. sempre protectora Inglaterra» (ibid. só em 1821 é extinta formalmente numa sessão das Cortes Gerais.onde podemos encontrar referências e/ou discursos alusivos à questão do colonialismo português -. julgamos poder afirmar que este levantamento é exaustivo. Não obstante. 2001: 16). com a Restauração. desde então. no século XVII.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo Feito o levantamento dos textos do diplomata. Dáse então uma «translação do sonho imperial português do Oriente para o Brasil» (ibid. A Inquisição. nos meados do século XVI. Francisco de Melo.

«L’identité narrative».). 182 . «Nós adaptámos o romantismo a uma cultura e a um país que não tivera Luzes». O carácter revolucionário da mensagem é mais abrangente. (…) Portugal acede um pouco ao coração da Europa. remitificam Portugal.) a memória de Portugal. Também Herculano se reapropria do passado e inventa uma nova História de Portugal. no sentido em que ela implica acusação. industrial. Entre 1851 e 1890. Garrett recria Camões. mas também. aristocrática e política. Sobre este acto ainda neutro do ponto de vista moral enraíza se o acto de imputação que reveste uma significação explicitamente moral. afirma Eduardo Lourenço (ibid. Ricoeur9 diria que se enraíza o acto de imputação nas Causas da Decadência 9 «A acção é a posse daquele que a pratica. censura ou louvor. Antero de Quental é a figura de proa da plêiade de jovens que se tornou conhecida por Geração de 70. Garrett escreve o poema Camões. em suma. desenvolve-se entre membros do Cenáculo e afirma-se nas Conferências do Casino Lisbonense (1871). a sua escassa classe financeira. Mas. Esprit. em 1864.: 37). a sua classe intelectual. então capital cultural da Europa. Portugal. isto é. Não está só em causa uma nova estética literária. Na década de 60.Maria do Rosário Girardier aproximar Portugal dos ventos do progresso cultural que anima a Europa. «Portugal discute-se» (ibid.: 26). fica ligada a Lisboa. É nesse momento exacto que uma nova geração (…) descobre que não é europeia» (ibid. estimação segundo o “bom” ou o “justo”. Julho-Agosto: 298. onde ambos estudam Direito. «Paris. O movimento de renovação ideológica que protagonizam tem início com a Questão Coimbrã (1865). Conhece Antero em Coimbra. Paul (1988). Almeida Garrett e Alexandre Herculano refundam. que lhe pertence propriamente. Eça de Queirós acompanha-o e cria a sua própria aura.» in RICOEUR. com o romantismo. foi ele que «salvaguardou» (ibid. que é sua. Camilo Castelo Branco escreve mais de duzentas obras: sentimentaliza a vida portuguesa e naturaliza a ficção entre nós.) e «de certa maneira. Portugal e a sua cultura nunca mais deixaram de se discutir» (ibid. «é ele o verdadeiro rei Sebastião» (ibid. paradoxalmente. pela primeira vez. desculpa ou absolvição. Cinco anos depois da Revolução Liberal.: 32).

Na verdade. logo no primeiro fascículo. (…) era uma espécie de sacrilégio cultural sem precedentes e. é submeter-nos. durante uma conversa com Ramalho Ortigão.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos. as Conferências têm início em Maio de 1871 e o primeiro número de As Farpas é datado do mesmo mês/ano – apesar de o fascículo só ter sido posto à venda a 17 de Junho. apesar de ter ficado classificado em primeiro lugar nas provas para cônsul que prestou a 1 de Outubro de 1870. mais tarde teria sido preterido para um lugar vago na Baía porque «o sr. um parricídio» (ibid. intitulada «A Literatura Nova ou o Realismo como Nova Expressão de Arte». a ideologia – sob a roupagem do socialismo proudhoniano – ocupava e reclamava para si o estatuto de legitimação cultural. Ministro dos estrangeiros declarara que eu não poderia nunca entrar na carreira consular. lança a ideia de escreverem uns opúsculos semelhantes aos de Alphonse Karr («Les Guêpes»). Eça de Queirós é o autor da 4ª Conferência. Uma nova mitologia é proposta. improrrogável e fatal. Eça revela o seu imaginário sobre a posição de Portugal na Europa: Portugueses – pequenos. e aceitá-la. 183 . de um certo modo. Cit. o nosso juízo ou a nossa vontade! A nossa única missão. «Introdução»: 4).de escrita de As Farpas – pelo facto do escritor se encontrar sem emprego (Queirós. Pouca importa o nosso voto. até então desempenhado pela religião» (ibid. evocado e condenado sem apelo. 2004. obscuros. desprovida de justificações de ordem transcendente: «Pela primeira vez entre nós. (Queirós. 2004: 52) 10 Maria Filomena Mónica estabelece uma relação de causa-efeito entre a participação de Eça nas Conferências do Casino e a sua exoneração da Administração do concelho de Leiria. porque eu era… O Chefe do Partido Republicano em Portugal!» (Op.: 250). A investigadora justifica ainda a proposta de Eça a Ramalho Ortigão . Depois do ministério do Duque de Ávila o exonerar das suas funções de Administrador do concelho de Leiria10. «essa visão do passado nacional. Existe contudo uma falta de coerência nas datas. Para Eduardo Lourenço. sem nenhuma espécie de significação ou de influência no movimento das ideias ou no movimento dos factos universais (…).: 39).: 40). O que o próprio Eça escreve no fascículo 7 (Novembro de 1871) é que. proferida a 12 de Junho de 1871. As Farpas são escritas e.

apropriando-se o escritor e ideólogo da negritude. faz Prospero encarnar o colonizador europeu e simboliza em Caliban o povo colonizado e oprimido. sobretudo as que se cristalizaram no Estado liberal a partir de meados do século XIX» (ibid.: 23-24). por sua vez. Para efeitos da presente análise centrámo-nos neste último artigo e. «desde o século XVII um país semiperiférico no sistema mundial capitalista moderno» (Santos: 23). «semiperiférico. nunca assumiu plenamente «as características do Estado moderno dos países centrais. Sendo Portugal. 2002: 46). um colonialismo subalterno. ele próprio. das personagens de Shakespeare na peça homónima The Tempest.Maria do Rosário Girardier Boaventura de Sousa Santos bem poderia intitular esta passagem de Portugal.: 24). o colonialismo português foi. na problematização relativa ao colonialismo (pondo de lado as implicações do colonialismo no pós-colonialismo português). ii. «um Caliban na Europa» (Santos. mais especificamente. Entre Prospero e Caliban – a tese de Boaventura de Sousa Santos sobre colonialismo e inter-identidade O nosso corpo teórico fundamenta-se essencialmente nas hipóteses de investigação formuladas originalmente na obra de Boaventura de Sousa Santos. 3. Foram resgatadas as seguintes hipóteses: i. 184 . Sendo protagonizado por um país semiperiférico. Pela mão de Alice: O social e o político na pós-modernidade (1994). pós-colonialismo e inter-identidade» (2002)11. Essas hipóteses e novas reflexões foram desenvolvidas posteriormente no artigo do mesmo autor: «Entre Prospero e Caliban: Colonialismo. «a relação colonial impregnou de modo particular e 11 O par conceptual Prospero e Caliban é inspirado na peça Une Tempête de Aimé Césaire em que. iii. Tendo em consideração as suas características e a sua duração histórica. o que fez com que as colónias fossem colónias incertas de um colonialismo certo» (ibid.

Sem um Estado forte.» (ibid.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo intenso as configurações de poder social. analisámos o uso que Eça de Queirós deu aos «farrapos» de discursos e práticas da época em que viveu. O poder. Cartas de Inglaterra. cujo título per se elucida sobre o ambiente político vivido na 185 . «a cultura portuguesa é uma cultura de fronteira» (ibid.: 25). Guerra Junqueiro escreveu nesse ano o opúsculo Finis Patriae. apesar de satírico e (sempre) subjectivo. As Farpas. político e cultural. incluindo As Farpas. o discurso é mais directo -. Parte dos artigos publicados na Revista de Portugal são escritos no ano que antecede o Ultimato Britânico de 11 de Janeiro de 1890. 4. não só nas colónias como no seio da própria sociedade portuguesa. Emigração como Força Civilizadora. tendo sempre dificuldade em se diferenciar de outras culturas e mantendo. no sentido de aferir as (suas) representações inter-identitárias do país e (em menor grau) das colónias. foi sempre mais colonial do que capitalista. o produto histórico de uma tensão entre universalismo e particularismo gerido pelo Estado.). Identidade «dupla» A escrita de Eça de Queirós percorre os anos que vão de 1866 a 1900. O Mandarim e A Relíquia são também anteriores ao Ultimato. iv. a nível interno. obra sobre a qual mais incidimos a nossa análise – pela quantidade de referências ao tema e porque. Partindo deste corpo teórico. em Portugal e nas colónias. As culturas nacionais são uma criação do século XIX. o conto Singularidades de Uma Rapariga Loira e os romances O Primo Bazilio. Temos pois que. Os restantes textos (artigos e romances) nasceram ou foram revistos depois de 1890. todas as obras. são urdidas já depois da Conferência de Berlim (18641865). uma forte heterogeneidade.

Segundo Santos. Os Inglezes que desde o século XVI se derigiam à America não eram conquistadores. O colonialismo anglo-saxónico assenta numa polarização extrema entre colonizador e colonizado. nem negociantes. «se alguma vez Prospero se disfarçou de Caliban. O que lemos em Eça – desde As Farpas – é que o colonialismo português subverteu essa polarização. nem missionários. 2001: 19). acordámos para o império africano (…) e aí buscámos uma imagem de nós próprios» (Lourenço: 55). 186 . Portugal é Prospero e Caliban. nós.Maria do Rosário Girardier época. Afirma Jaime Cortesão que «a intimação brutal da Inglaterra imperialista impressionou vivamente Eça de Queiroz. como aliás os espíritos mais nobres e lúcidos de Portugal» (Cortesão. o segundo corresponde ao período do 25 de Abril e a adesão à EU: Op.: 75).» (Queirós. assim. «de súbito. com o Ultimato de 1890. Estas considerações prévias tornam-se relevantes. eram verdadeiros colonisadores. que já não tínhamos nem verdadeiro império nem imaginário imperial desde os princípios do século. É um pensamento que vai ao encontro do que Eça de Queirós escreve em A Emigração como Força Civilizadora (1874): «[a Inglaterra é] a raça a quem cabe o privilégio de primeiro no mundo ter colonisado por systema (…). foi com a máscara dos portugueses. 1979: 23).: 26). A tese do investigador assenta no pressuposto de que «a norma é dada pelo colonialismo britânico e é em relação a ele que se define o perfil do colonialismo português. Para Eduardo Lourenço. tanto mais que Boaventura de Sousa Santos identifica o final do século XIX (e primeiras décadas do século XX) como um dos raros momentos de Portugal Prospero12 (Santos: 65). enquanto colonialismo subalterno» (ibid. Cit: 65. Semicolonizadores e semicolonizados (…) os portugueses não puderam regular eficazmente as suas colónias» (ibid. duplamente 12 Boaventura de Sousa Santos distingue apenas dois momentos de Prospero: o período referido é o primeiro. seguindo a reflexão de Boaventura de Sousa Santos: «A identidade do colonizador português é. Ou. com a natural independência do Brasil.

Como veremos. do ponto de vista cultural e identitário um forte hibridismo ou. É constituída pela conjunção de dois outros: o outro que é o colonizado e o outro que é o próprio colonizador enquanto colonizado» (Santos: 42). uma forma diferente de ser e estar face aos «binarismos próprios da modernidade ocidental: natureza/cultura. Em nenhuma outra parte há tantos pequenos escrofulosos. (Queirós.: 479) 187 . morre. mais do que exemplo de prosper(o)idade. a metrópole é espelho e reflexo das colónias (ou póscolónias. Hibridismo Centremo-nos na primeira hipótese. faz uso de recursos estilísticos variados. No jogo de representações. tanta gente como aqui. 1. Eça de Queirós revela claramente esse hibridismo n’ As Farpas referentes à cidade de Lisboa e à sociedade lisboeta finissecular. as famílias pobres de Lisboa não se banham nunca. A fragilidade do nosso liberalismo vai gerar um estado de desenvolvimento económico «intermédio» e. 2004: 478) Lisboa é a cidade mais suja da Europa. tantas mulheres cloróticas. A narrativa. raquíticos. tradicional/moderno» (Santos: 24). realista (com pendores naturalistas).(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo dupla. (ibid. Em África. apenas. selvagem/civilizado. (ibid. criando uma magnificação disfémica do lugar e das suas gentes. ilustrando-a de maneira quase perfeita. as representações queirosianas vão ao encontro desta tese. tantos homens oftálmicos. 5. (…) A indiferença municipal colabora no raquitismo e na bestificação do município. pequenos e feios. Em nenhuma outra cidade da Europa a mortalidade se pode comparar à de Lisboa. se quisermos. nas regiões mais insalubres.: 290) Por não haver onde. o Brasil).

compenetrada da necessidade iniludível de melhorar as condições da cidade trata com toda a solicitude de fazer a aquisição – de um leopardo. A má fama do barroco. (… ) A religião ficou sendo um artigo de moda. (ibid. (ibid.talvez porque.: 289) A burguesia é.). «deseja fundamentalmente a humilhação da razão» (D’Ors. Offenbach. A hibridação está na sugestão da «regeneração» exótica: A câmara municipal de Lisboa. numa gargalhada europeia. com a tua mão espirituosa.Maria do Rosário Girardier Durante os últimos dois meses foi tão grande o número de recémnascidos abandonados em diferentes pontos da cidade. pelo que aponta «o que poderíamos chamar – o progresso da decadência» (ibid. é manipulada por Eça contra a Câmara Municipal de Lisboa. fez-se “livre pensadora”. as burguesias enriquecidas tomaram-na sob sua protecção: 188 .: 17). Em As Farpas. deste nesta burguesia oficial – uma bofetada? Não! Uma palmada na pança. «que de uma vez se ponha a galhofa ao serviço da justiça!» (ibid. Ela que tão raramente se comove! (…) em benefício dos direitos humanos nada por certo mais eficiente do que a medida que acabamos de ver decretada: um bico de gás em cada escada! Um porteiro em cada prédio! (ibid. para Eça. afirma. Expulsa da consciência liberal. o alvo é a elite política do país. que Lisboa comoveu-se. Diz-se ainda que depois procurará alcançar – para completar a obra de regeneração municipal – araras do Brasil. diz-se.: 29) A burguesia desprendeu-se da crença. ao alegre compasso dos “cancans”.).: 337-339) Eça não quer ser cúmplice na «indiferença universal» (ibid. como dirá Eugeni D’Ors. 1964: 102) -. uma constante do século XIX . uma «caricatura» sob as roupagens de uma aspirada modernidade: Sim. E.

para o hibridismo. Não há indústria. Particularidade notável: Não há em Portugal operários velhos.tiram comovidos o seu chapéu. há ofícios honrados.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo é um bom-tom aristocrático. então . caçando codorniz nos restolhos. (ibid. na estação do campo. É o janota barato e em terceira mão. No parque. o socialismo proudhoniano subjaz às suas considerações sobre o estado da agricultura em Portugal – a começar pela sátira à estrutura social. e coçam reconhecidamente na cabeça. como actividade económica. A única referência indirecta revela-se nos tipos que compõem a «sombria e triste multidão lisbonense» (ibid. ou pescando a truta em algum ribeiro. (ibid. mais uma vez. cuja hierarquia tem laivos feudais. Um dos tipos é «O operário» (ibid. falam aos agricultores com quem se encontram (…).: 364). (ibid. a indústria.: 251).) Não sendo Eça de Queirós «um cabide onde se ponha um “bonnet rouge”» (ibid. algumas senhoras fazem partidas de “croquet”. alguns sócios da real associação (…). A sua caracterização remete.: 366). Detesta blusa e prefere parecer um fidalgo indigente e desmoralizado a representar um honrado sapateiro ou um digno tecelão. sob as árvores.: 440) 189 . assim como é o janota “dandy” de pouco preço. sendo o operário um escravo dos modismos da civilização: Tipo incaracterístico.: 19) Na narrativa queirosiana. (…) De quando em quando. e os lavradores. A real associação central da agricultura portuguesa é uma sociedade que tem casa e um parque no pátio do Duque de Cadaval… Na casa quatro cavalheiros jogam o “whist”. afirma-se pela sua ausência. (…) Aceitam Deus como um “chic”.

montes de melancias. 2.Maria do Rosário Girardier O influente ordinariamente é proprietário. com um colonialismo subalterno. que cacarejavam (…) Os homens eram magros. que a iniciativa é excelente mas só pode desenvolver-se num país bem policiado: que nas colónias não há garantias de segurança. Dispõe de 200 ou 300 votos: são os seus criados de lavoura. quer ser da junta de paróquia. requeimados do sol.: 61) Vejamos a província! (…) estendiam-se pirâmides de púcaros e panelas de barro. a bolsa do aumento de décima. que não há melhoramentos. sem estímulo. foi cavador de enxada. com as mucosas desbotadas e os beiços lívidos. percebemos a impossibilidade de emergir um Prospero. nem instrução. Tinham o olhar triste e dilatado dos convalescentes. nem exército. mesmo que imaginário.: 148) 5. enriqueceu. os seus empreiteiros. e mais tarde num futuro glorioso. os seus devedores. cabazes de pêssegos e canastras com galinhas. (…) As suas fazendas não são colectadas à justa: “é o influente”! (ibid. Subalternidade Portugal é um país semiperiférico. ou o corpo da cadeia. e a situação da «dupla colonização das colónias». sem protecção. Que o país despreza as colónias. vereador! (…) Na véspera das eleições todos o vêem montado na sua mula (…). sem tranquilidade. (ibid. nem protecção ao comércio. aqueles a quem livrou os filhos do recrutamento. da junta dos repartidores. nem higiene. que elas estão abandonadas a uma frouxa iniciativa particular. que 190 . Se lermos a narrativa queirosiana como uma auto-representação do colonizador. o que se traduz no domínio das práticas e dos discursos. pálidos. tem ambições. nem tranquilidade.

nem nas colónias africanas. a partir da Conferência de Berlim. a) Oriente. Eça salienta essa condição e a sua impossibilidade. 2004: 117) A exploração capitalista das colónias pressupõe capacidade política.Quando tínhamos navegadores… . Eduardo Lourenço fala de criticismo patriótico na Geração de 70 e As Farpas de Eça assumem nestes trechos todo esse sentido. Ele suspirou também. 2003:72-73) 191 . por polidez. É o nome que no século XVI os navegadores do seu país. 1999:139). na desorganização. Antes de tudo. Mesmo se. nós não temos marinha. Singular coisa! Nós só temos marinha pelo motivo de termos colónias – mas justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos marinha! (… ) Das 8 corvetas que temos – são inúteis para combate ou transporte – todas as 8. (Queirós. no desleixo. não é palavra chinesa. e ninguém a entende na China. 2004: 117) Eça de Queirós acusa e resiste com a arma da ironia a um défice claro de colonização portuguesa. a pressão para uma ocupação efectiva dos territórios aumentara. meu amigo. e numa antiquíssima rotina: e que o único movimento que há é o do estrangeiro que as explora de facto – apesar de nós as possuirmos de direito.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo tudo ali vive na desordem. (Queirós. general inglês:] Mandarim. Prospero não se afirma nas possessões do Oriente.murmurei. (Queirós. O que dói é «o presente diminuído à espera de redenção» (Lourenço. do seu belo país… .(…) Há ideia de as alugar – como hotéis! A nossa esquadra é uma colecção de jangadas – disfarçadas! Este grande povo de navegadores acha-se reduzido – a admirar o vapor de Cacilhas. administrativa e militar. [Camiloff. suspirando.

O naturalista britânico viajou pois em cesto (…). de que têm saído inumeráveis sábios. apeou-se do caminho-de-ferro que serpenteia naquela região torcendo-se por fora das nossas possessões (…). na sua História de Portugal. 2003: 189). em viagem nas Índias. 2004: 191) Há na Índia portuguesa uma escola de Medicina. Há pouco tempo um naturalista inglês. Quando o estrangeiro curioso pergunta à Índia pelos melhoramentos materiais que se sucederam ao empréstimo colonial contraído por D. nem edifícios. O viajante foi introduzido. de uma rara erudição e elevado talento. cita uma expressão que atribui a Afonso de Albuquerque: «As coisas da Índia fazem grandes fumos!» (Martins.não é positivamente pela razão humilhante de falta de homens. nem pontes.). cheios de energia – e de rabicho! (…) As nossas colónias são originais neste sentido: que o único motivo por que elas são nossas colónias – é o não estarem situadas na Beira. a Índia orgulhosa manda pôr os bigodes da sua engenharia pela ordem pomposa das respectivas habilitações. era naquele 192 . e achou-se frente a frente e a sós com o nosso antigo e ilustrado amigo João Stwart da Fonseca Thorie.: 115) Oliveira Martins. acha-se estabelecida em Goa. dizia-se tinham intimado modestamente a evacuação. O mesmo autor remata: «em fumo se havia de tornar o império efémero que [Albuquerque] construía na sua mente» (ibid. João de Castro sobre os cabelos da sua barba. nem calçadas . e não tem soldados. (Queirós. nem estradas. Esta escola. É deste último fumo que Eça de Queirós dá conta: O corpo de engenheiros na Índia é de vinte oficiais. Nem precisa! (…) se ela não tem canais. Porque não nos dão rendimento algum: nós não lhes damos um palmo de melhoramentos: é uma luta… de abstenção! (ibid. Por fim despejaram-no em Goa (… ). Este homem.Maria do Rosário Girardier Houve este mês um pânico patriótico: julgou-se que íamos perder Macau. Os chins.

: 195-197) b) África. 2002: 57). O colo13 Em 1872 o dembo Caculo Cahenda. 193 . O que emana desse episódio é a existência de uma subalternidade invertida . O que Eça delata é que a prática persiste no fim do século XIX. Boaventura de Sousa Santos defende que para «a desqualificação e estigmatização de Prospero cafrealizado contribuiu também a origem dos portugueses que povoaram os territórios» (Santos. revoltou-se.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo estabelecimento o lente proprietário e substituto de todas as cadeiras. Para mais informações. ter sondado com navalha de ponta as entranhas de um amigo querido! Nobre solicitude! (Queirós. Desde o início do século XV que cada navio que partia para a exploração de África levava o seu contingente de degredados. Para se ser remetido como mimo da Metrópole – é necessário pelo menos.derivada da forte disjunção entre colonizado e Estado colonial. Há ocasiões em que (…) além de fazer as vezes de todos os lentes. 2004:116) O relato seguinte é mordaz: um erro diplomático do governador geral de Angola origina uma guerra (1871-1872)13. ler: MARRACHO. Um sujeito que tenha tido a baixeza de roubar 5$000 reis nunca poderá aspirar a fazer parte da sociedade de Luanda. o director. verdadeiras e legítimas colónias. os dembos. o conselho e o secretário da escola. [é obrigado] a fazer igualmente as vezes de todos os discípulos. que não há. Igual zelo pelas possessões do África. que também não há! (ibid. No período de 1890 a 1907. essas! Para aí o país é inesgotável… de celerados! Mas são escolhidos com inteligência. entraram em conflito com os portugueses três vezes. A resposta militar portuguesa foi materializada através do envio de uma coluna comandada pelo Tenente-Coronel Gomes de Almeida. António Machado (2008). Revoltas e Campanhas nos Dembos (1872-1919) 47 Anos de Independência às Portas de Luanda. O aparente sucesso militar traz consigo uma paz negociada com a manutenção do Status Quo.

sacode o facho homicida ao rosto lívido e maternal da pátria confrangida. a crua guerra. que os naturalistas pesquisaram. ninguém trabalha menos do que nós na Europa. Daqui o despeito. (…) Respondeu-se-lhe que o preto se achava na sala de espera. (…) que somos o país dos tristes. ó leitor pacífico. os arquétipos são importados . profunda (…) ninguém na Europa sabe menos. como qualquer outro nativo.: 571-572) Na metrópole. 2004: 113-114) 194 . A guerra.da Inglaterra (em termos de política colonial) e da França (em termos ideológicos. Na Europa.Maria do Rosário Girardier nizador não compreende que não é Senhor mas vassalo. em século tão instruído como o actual a ignorância não pode deixar de produzir uma tristeza desconsolada. dos piegas. (Queirós. todos os viajantes consi-gnam. (…) A questão foi a seguinte: Um régulo africano apresentou-se a prestar homenagem ao governador geral de Angola. ou ao nível dos modismos). que os filósofos averiguaram! (…) aproveitamos apenas binóculos para as toilettes de S. Há um risco trágico na história do corrente mês: temos a guerra dos Dembos. a animadversão e a guerra. obviamente. (…) e sua excelência em nome da praxe e do pudor recusou a audiência ao negro. de tanga. que os químicos descobriram. de um rei local. Todos os estrangeiros notam. dos choramingas. Carlos e lunetas para as fisionomias do Passeio Público. Portugal é um pequeno Caliban. Este preparou-se para a entrevista vestindo o grande uniforme. abatida. Parece que só não foi para nós que os pensadores meditaram. que os historiadores escreveram. pregando as suas condecorações e calçando luvas cor de pérola. (ibid. dos cismáticos. Isto procede de sermos o país dos mandriões e dos ignorantes: a mandriice é a mãe do tédio. Temos pois que a subalternidade não se afirma apenas face à Europa central.

uma ideia.: 76-77) É com efeito mais importante para Portugal possuir vida. cultivado e organizado como Programa Nacional (e assim o apregoam os manifestos) que significa? (…) Mas que esse sentimento seja secundário na vasta obra que temos diante de nós. Portugal toma consciência de que é um verdadeiro Caliban face ao Prospero Inglaterra. nacional riqueza? São influências da política inglesa? (ibid. Mas o ódio fixo. agora que acordámos. como um instrumento de construção da consciência nacional: afirmando a diferença face ao Outro (opressivo). não podemos abençoar quem nos brutalizou. como Paris é uma cidade revolucionária. (ibid. (ibid. energia. [Ingleses:] O povo duro que britanizou a Índia. por muito cristão que se seja (e nós somos inteiramente pagãos).(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo Lisboa é uma cidade gulosa. Paris cria a ideia e Lisboa o pastel. Eça de Queirós afirma então o direito (de colonizado) a uma expressão de auto-significação.: 415) Que significa a construção do período à inglesa – adoptada pelo discurso da coroa? Que britânico furor a tomou de colocar adjectivos antes dos substantivos? É uma adulação à pérfida Albion? (…) Que significam as expressões repetidas repetidas de pública fazenda. A sua escrita passa a revelar-se.: 97) Com o Ultimato de 1890. (Queirós. um propósito – do que possuir a terra de Mas- 195 . em perpetuidade. mais do que nunca. mas sem deixar de aceitar as premissas intelectuais da modernidade (fundadas na forma de ser do Outro). 1995: 69) Odiar a Inglaterra? Sentimento bem legítimo – porque. calor.

que razão tem a nossa tutela? Por consequência – sejamos vilmente agiotas. Vasco da Gama. Podem-nos ser expropriadas por utilidade humana. sim! Bem sabemos. o que condiciona as representações inter-identitárias. O deficiente desenvolvimento interno do país inviabiliza o controlo das colónias.Maria do Rosário Girardier hona: mesmo porque.. Nós temo-las aferrolhadas na nossa miséria: no nosso cárcere privado de civilização.) – Vendamo-las! Sim. etc. com elementos de riqueza não querem sofrer as fatalidades do nosso aniquilamento. Santa cordialidade de relações! Às vezes a Metrópole remete-lhe um governador. 2004: 115) Por que temos colónias? E em primeiro lugar não as teremos muito tempo. província próxima mais abandonada que uma colónia distante. Afonso Henriques.! (…) Dilema pavoroso! (…) – porque não teríamos governo que administrasse o produto! Miserere! (ibid..: 120-121) 196 . (…) nós somos o pai pródigo. (…) Elas mesmas o sentem. agradecidas as colónias mandam à mãe pátria uma banana.) Tirar-nos as colónias é conquistá-las para a riqueza e para o progresso. (. Mais colonial que capitalista Esta hipótese remete para um modo estar da sociedade portuguesa per se e para o tipo de poder exercido nas colónias. (ibid. sem as qualidades próprias de dominar.Que riqueza a das nossas colónias! Positivamente. de nada serve ter domínios. toda a sorte de frases ocas! A honra nacional. etc. E têm razão. Que prestígio. sentem-no os Açores sobretudo. 3. É vendo este grande movimento de interesses e trocas que Lisboa exclama: . somos um povo de navegadores! (Queirós.: 73) 5. como compete a uma nação do século XIX – (vide Alemanha. Povos novos e fortes não querem estar presos à nossa decadência.

(Ibid. Pedro II do Brasil que reinou de 1841 até à instauração da República (15-11-1889). Foram simples commerciantes: as suas viagens são commerciaes: os seus estabelecimentos não são colónias propriamente ditas de criação agrícola e in14 Eça refere-se a D. «os portugueses não foram nunca emigrantes colonos. que Deus pelo menos te abençoe e te faça santo! (Queirós. Eça de Queirós é claro. 197 . 2004: 275-276) O imperador14 com a sua vontade ilimitada e pessoal impõe moralmente ao Brasil a colónia portuguesa – que por outro lado a indústria. neste sentido. quase tão solícito como o nosso pela instrução do povo. Brasileiros depois de serem célebres pela sua bonomia aspiravam a serem gloriosos pela sua ensanguentada ferocidade. Cultura de fronteira Em 1874. afirmando que. em A Emigração como Força Civilizadora. Teria que ver se os srs.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo A expressão do colonialismo no Brasil criou um habitus que acabou por perpetuar o poder. acaba de dotar uma verba de cem contos de reis destinados a dotar cada uma das escolas do império com um crucifixo. o comércio. apesar da independência em 1822. Eça de Queirós vai ao encontro deste pensamento. manifestado por agressões e pancadas (…). (…) Brasil! Terra fenomenal da cachoeira e do mato virgem! Pátria ditosa de Magalhães e do Sabiá! Se não conseguir ensinar-te a ler. No Brasil.4. a importação de braços lhe impõem socialmente. ao colonialismo externo sucede o colonialismo interno: O governo do Brasil.: 508-509) 5. historicamente. (…) Esse ódio comercial a uma colónia [em Pernambuco].

nomeadamente a diplomática. As elites.). E não é apenas o emigrante comum que não possui predisposição para aculturar os povos com os quais estabelece contactos. 2002: 26). 1979: 22). Eça não deixa de indagar os mesmos diplomatas sobre «Que relações sólidas. não do trabalho colonisador» (Queirós. certamente. Em Lisboa «aparece vestido com uma cabaia chinesa» (Queirós.: 225-226). Temos «Raposo. Ou seja. Fradique é todas as civilizações reunidas. sendo o babismo uma seita religiosa que agrega o melhor de todas as religiões cristianismo. Declara-se Bab. E o laço da gravata de cetim negro representava bem.). maometismo (ibid. nasceram do instincto commercial. convive com a resignação de Caliban. de Aquém e de Além-Mar» (Queirós. o objectivo da presença portuguesa não era «o povoamento civilizador da terra» (ibid. da nossa ciência?» (ibid. capaz de promover 198 . em As farpas. guebrismo. Carlos Fradique Mendes. naquela terra de roupagens soltas e rutilantes. são uma série de comptoirs defendidos por fortalezas. a precisão formalista das ideias ocidentais» (ibid. Português. Serão contudo alguns dos seus personagens quem melhor ilustram esta dificuldade de diferenciação face a outras culturas nacionais. 2002b: 71) mas o mais paradigmático é. são acusadas de «oferecer como resultado dos seus trabalhos há vinte anos o seu papel almaço – em branco.: 46). no Cairo veste «uma larga quinzena preta e um colete branco fechado por botões de coral.: 15). que em persa quer dizer porta .«a única porta através da qual os homens poderiam jamais penetrar na Absoluta Verdade» (ibid. A frustração do escritor face à nação que parece empenhada em não querer ser Prospero. (…) Que conhecimento têm dado a esses países das nossas instituições.: 35).Maria do Rosário Girardier dustrial. que protecções valiosas têm obtido para a nossa pequenina nação? Que estudos têm feito sobre a organização e instituições desses países? Em que sábios relatórios as têm aconselhado para nosso progresso?» (ibid. do nosso comércio. judaísmo. Boaventura de Sousa Santos justifica também essa «cultura de fronteira» com a inexistência de um Estado forte.

no conto citado. servindo esta imagem. em A Ilustre Casa de Ramires). Eça. Gonçalo Ramires).(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo homogeneidade cultural no interior do território. Muito sucintamente. . Gracinha Ramires e José Barrolo. de Singularidades de uma rapariga loira. Jorge. Gouvarinho. Noronha e Casco em A Ilustre Casa de Ramires). identificamos os seguintes eixos identitários: [conotação negativa] . centrando a acção da maior parte dos seus romances em Lisboa e sobretudo. Assim. Imagens associadas a África Portugal Caliban (re)produz outras identidades subalternas – a das colónias.Terra de escravos/indígenas sem cultura (Primo Bazilio. não nos dá fundamentos para confirmar esta valência da tese de Santos. . em Os Maias.Local de abundância (Macário.Local de degredo/punição. Gonçalo Ramires e Titó em A Ilustre Casa de Ramires). Carlos da Maia. de Os Maias. numa análise que se centrou no imaginário de África presente na ficção queirosiana. criando uma dicotomia rígida entre personagens do campo e da cidade. 6. 199 . se por um lado não existem elementos que permitam uma diferenciação positiva face ao estrangeiro. foram sujeitos a esta ameaça: Juliana.Refúgio face a humilhação/insucesso na Metrópole (Macário. internamente existiria uma grande heterogeneidade. Palma Cavalão. de Primo Bazilio. simultaneamente. em Os Maias. de Primo Bazilio. [conotação positiva] . para afirmar o poder de quem ameaça (em diferentes contextos.

Ao longo de As Farpas. não chegando ao ponto de afirmar. já «maldizia» a colonização inglesa em Cartas de Inglaterra. o seu discurso tende a ser menos corrosivo com a pátria e mais feroz para com o agressor15. após o Ultimato de 1890. litteraturas. Pedro II e contra os brasileiros em geral.Se associada ao negro leal e digno.Maria do Rosário Girardier .Natureza luxuriante e selvagem/paraíso (Gonçalo Ramires). Da mesma forma. não parece ter sido bem assimilado pelo escritor. O destino do refúgio da família real portuguesa aquando da invasão francesa em 1807. onde existem artes. é violentar culturas como as do Egipto. Colocava o seu enfoque no modo «como eles trabalham sobre as antigas civilizações como a Índia. transformado depois em nação irmã. e em particular no Fascículo nº 10. Índia ou China. Conclusão As identidades são sempre relacionais.2000: 105). Fradique Mendes é o personagem que melhor representa esta postura de respeito face à diferença do Outro). em que uma grande raça pôs todo o seu génio» (in Cartas de Inglaterra: 63). que vive na Europa (Bento. Através de uma argumentação objectiva ou pelo uso da sátira e da 15 Eça de Queirós. instituições. 2008: 39). Eça revela uma grande animosidade contra D. 2004: 358-395). 200 . Eça nunca sanciona o despotismo e violência dos Europeus em África (os textos mais esclarecedores são os de Cartas de Inglaterra. que «Africa had no history» (Merrington. contudo. Contudo.» (Queirós. de Civilização e A Cidade e as Serras). muito pior. costumes. cria uma hierarquia entre civilizações: «Pior. Grilo. completamente dedicado aos «Fastos da Peregrinação de sua Majestade o Imperador do Brasil por estes reinos» (Queirós. como Hegel. É nesse sentido que a narrativa queirosiana representa um ‘Portugal Caliban’. . em A Ilustre Casa de Ramires.

nos convencem da perda da sua capacidade de subversão. que deverá ser um Sísifo feliz. Integra a obra QUEIROZ. nem o romance de que constitui a génese. E entristeceu . A Cidade e as Serras. e que foi o último que escreveu. Allan (2008) «Introdução» in Queirós. Eça de (2001) A Cidade e as Serras. Francisco de Melo (s/d) Reino da Estupidez. QUEIROZ. Jaime (2001) Eça de Queiroz e a Questão Social. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. face a uma ameaça ou facto (histórico) real. FRANCO. Walter (2006) Passagens. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo ironia. 201 . CORTESÃO.por causa da sua imensa civilização» (Queirós. São Paulo: IMESP. Em 1891 Eça escrevia no artigo «A Decadência do Riso»16 que «a humanidade entristeceu. e a disputar uma elevação (ou superioridade) na identidade. tende também a negar o outro. Mas a decadência do riso queirosiano impregnou sempre todos os tempos e lugares. Bibliografia BENJAMIN. W.Edição Crítica. Eça de (2008) As Minas de Salomão. Eça (s/d). por vezes. Eduardo Lourenço leria aqui um «regresso à casa lusitana» (Lourenço: 55) motivado pela humilhação simbólica que a Europa tão admirada perpetrara. nem o conto Civilização. à imagem do herói absurdo Sísifo. Belém-Pará: Universidade da Amazônia. s/d: 165). 16 Foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses. Na nossa opinião. Concordamos com a sua ideia de um Eça fascinado-decepcionado com a Europa mas. A sua escrita torna-se assim uma forma de subversão da subalternidade. QUATERMAIN. ou um futuro do futuro da Pátria. Eça projecta sempre um destino. o autor afirma sempre uma atitude de resistência. Org. Ler-se-á. Mas. Notas Contemporânea: 162-167. Bolle.

Eça de (s/d) O Primo Bazilio. Lisboa: Editorial Presença. QUEIROZ.Maria do Rosário Girardier QUEIROZ.pt:8080/ dspace/bitstream/10071/1444/1/Revoltas+e+Campanhas+nos+Dembos+_1872-1919. Eça e Ramalho Ortigão. Peter (2000) «A staggered orientalism: the Cape-to-Cairo idea» in Seixo. MARRACHO. QUEIROZ. Lisbon: Edições Cosmos. Lisboa: Livros do Brasil. Project Gutemberg: Base Directory: http://www. Eça de (2003) O Mandarim. Eça de (2002) Contos. QUEIROZ. Lisboa: Livros do Brasil. MERRINGTON. Lisboa: Principia. Lisboa: Livros do Brasil. QUEIROZ. Imprensa Nacional . LOURENÇO. Lisboa: Perspectivas & Realidades. 202 . QUEIROZ. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. John Noyes e Isabel Mouinho. António Machado (2008) Revoltas e Campanhas nos Dembos (1872-1919) . Lisboa: Guimarães Editores. QUENTAL. Edição Crítica. Eça de (2004) e ORTIGÃO. Eça de (2008) Cartas de Inglaterra. MÓNICA.47 Anos de Independência às Portas de Luanda (Tese de Mestrado em História. Eça de (1995) Textos de Imprensa VI (da Revista de Portugal). Lisboa: Livros do Brasil.gutenberg. Antero (2001) Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Lisboa: Livros do Brasil. Eça de (2002) A Correspondência de Fradique Mendes. ISCTE:http://loki. Eça de (s/d) Notas Contemporâneas.iscte. Maria Alzira. Eça de (2002) A Relíquia. QUEIROZ. Maria Filomena Mónica. QUEIROZ. QUEIROZ.org/files/25641/ QUEIROZ. Lisboa: Gradiva. Maria Filomena (2004) «Introdução» in QUEIRÓS. Ramalho As Farpas.pdf MARTINS. QUEIROZ. Lisboa: Guimarães Editores. Lisboa: Principia. As Farpas. Eduardo (1999) Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade. Lisboa: Livros do Brasil. QUEIROZ. Eça de (1999) A Ilustre Casa de Ramires. Oliveira (2003) História de Portugal.Casa da Moeda. QUEIROZ. Graça Abreu. The Paths of Multiculturalism – Travel Writings and Postcolonialism. Eça de (1999) Prosas Bárbaras. Defesa e RI). Eça de (s/d) Os Maias. Eça de (1979) A Emigração como Força Civilizadora. Coord. Lisboa: Livros do Brasil.

Porto: Afrontamento. Madrid: Aguilar. pós-colonialismo e inter-identidade» in RAMALHO. SANTOS. London: Lawrence & Wishart. 203 . Boaventura de Sousa (2002) «Entre Prospero e Caliban: Colonialismo. RICOEUR. Paul (1988) «L’identité narrative» in Esprit 7/8. Eugeni (1964) Lo Barroco. RUTHERFORD. Maria Irene António Sousa Ribeiro (org. Jonathan (1990) Identity – Comunity. Culture.(Inter-)Identidade portuguesa na narrativa queirosiana sobre o colonialismo D’ORS. Difference.) Entre ser e estar.

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para dar cuenta de la validez. respondiendo à las objeciones que se le oponen”. más que cualquier otra época en Occidente – excepción hecha de los primeros siglos de literatura latina en nuestra era – la posibilidad de tratar los más sutiles asuntos metafísicos bajo la compleja forma métrica impuesta por la poesía. en el orden de la especulación. un estudio del ‘Esfuerço Harmonico’ de este último autor considerando las fuentes de su argumentación. 205 . por parte del capitán Miguel (Daniel Leví) de Barrios. Desde Calderón a Sor Juana Inés de la Cruz. forma parte de la 1 Universitat de les Illes Balears La investigación previa a la redacción de este artículo ha sido posible gracias a la participación de sus autores en el proyecto titulado “La comunidad judía de Ámsterdam y Spinoza” (HUM 2006-11468) financiado por el MEC y cofinanciado por el FEDER. de estos versos destinados a esclarecer la naturaleza del arbitrio. Lo mismo ocurrió entre los más renombrados poetas judíos. creemos que por primera vez. El Esfuerço Harmonico. poema del capitán Don Miguel de Barrios en el que éste “descrive. En las páginas que siguen intentamos. defiende. cuestiones como la de la libertad del albedrío o la posibilidad de acercamiento a la divinidad fueron tratadas en obras teatrales o en poemas filosóficos de tanta envergadura estética como intelectual. Baste recordar el Poema de la Reyna Ester de João Pinto Delgado. pero también los numerosos textos poéticos dedicados a elucubrar sobre nociones que los filósofos esclarecían en prolijos tratados.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs1 Observación liminar El barroco atendió. y prueva la verdad del libre Alvedrio.

206 . sino también desde el literario. pero se trata de ediciones falsificadas. 9). Boer 1996. habrá que admitir que el texto carece todavía de un examen crítico pormenorizado. En Casa de Baltasar Vivien’. en la ara de su divina carroça2. le hicieron detenerse en aspectos de aquella problemática que se alejan del empeño que. de 1680. p. fue donde Barrios “fue circuncidado y abrazó plenamente la religión de sus antepasados” (Scholbert 1962. Tal como indica la descripción de su cometido que subtitula el poema. en su edición de la poesía religiosa de Miguel de Barrios. publicada en 1688. 55). p. Dirigido. al infinito creador.con las anotaciones al margen. En realidad imprimió la obra David de Castro Tartás.4 habría debido ocuparle en el propósito de consolidar dicha religión). Queremos aquí ahondar en la consistencia filosófica de los argumentos que Barrios esgrime en defensa del albedrío libre. y en nada difiere de otra con la que la cotejamos. En ambas se lee que ha sido ‘impresso en Brusselas. incluía fragmentos del Libre Alvedrio -entre los cuales el Esfuerço Harmonico en su totalidad -y observó en su prólogo que la obra no había recibido hasta entonces la atención crítica que sin duda merece. en Ámsterdam (cf. 2 La primera edición del Livre Albedrio es. a donde llegó procedente de Niza. Casi medio siglo después. que data de 1962. y no sólo desde el punto de vista filosófico. La que nosotros estudiamos. como post-marrano3 que había abrazado el judaísmo en tierras italianas. La propensión que Scholberg demostró hacia la producción religiosa del poeta de Montilla no parece haber sido ampliamente compartida por los diferentes estudiosos que se han dedicado con algún afán al examen de la poesía de Barrios después de él. 1978a y b. éste trata de la cuestión del albedrío libre en el hombre. es ésta. y fue publicado por vez primera en 1680. que tuvieron lugar en la España de su tiempo. También Méchoulan 1991). Scholberg. en efecto.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs compilación de obras del autor intitulada Libre Alvedrio y Harmonia del Cuerpo por disposición del alma. 3 Es ésta una expresión acuñada por Méchoulan (Cf. y explicar en parte las razones de su directo interés por tan ardua cuestión (en particular de cómo el conocimiento que el poeta pudo poseer de las acerbas controversias en torno a la cuestión de la predestinación y la gracia. 4 En Liorna.

de modo indirecto. un poema de cuarenta versos6 que se erige como prólogo a los distintos textos que comprende la obra. e incluso un único texto en prosa. que. sin embargo. ya en las primeras décadas del siglo XVII. como son Harmonia del Cuerpo o Real Consideración del hombre5. además. que se querrá probar con argumentos filosóficos en el poema Harmonia del cuerpo. En el Esfuerço Harmonico se presentan trece objeciones a la naturaleza del albedrío libre. las relaciones político-religiosas que se habían establecido con la mayoría protestante que dominaba en el ámbito político los Países Bajos. y algunas de ellas tratan también. Lo precede. En tierras holandesas. y se concretó en la pugna por afianzar ciertas creencias teológicas en torno a una muy peculiar recuperación de aquélla. a la propia inteligibilidad de la noción –dado que el discurrir de las leyes de la naturaleza podría coartar su posibilidad. El Esfuerço Harmonico está compuesto por 612 versos y se halla dividido en trece secciones. los judíos no se atrevieran a contravenir ciertos dogmas que el calvinismo holandés pretendía incontrovertibles como fundamento de toda religión permitida. una descripción de la visión mística de Ezequiel intitulada Carroça de Ezequiel. Quadriga de Amor Celestial. a través de la misma.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios En sus versiones completas el Libre Alvedrio comprende diez composiciones distintas. y en él se afirma la inmortalidad del alma. algunas de las mismas. al emprender la recuperación de los principios de su fe. esto ocurrió ya desde el inicio bajo la constante preocupación de no poner en peligro. Los dirigentes religiosos de las Provincias Unidas habían aceptado el establecimiento de los primeros miembros de la comunidad imponiendo.que se contestan en 5 Lo completan. concernientes. La consideración del alma como inmortal y la recurrente defensa del arbitrio libre parecen correr parejas en la vindicación que hicieron de su religión los pensadores de la comunidad judía de Amsterdam. Creacion del Universo y algunos poemas breves. además. 6 Antes aún hallamos un soneto titulado Sol y Escudo es el Señor Dios. la cuestión de la libertad humana. 207 .

9 La fuente directa de estos símiles es la cuarta parte del Conciliador o de los lugares de la S. hasta hazerlo su Phaëton’8 o un ‘camino de vida. inversamente. y el transgressor que vá à la Corte gloriosa. Entre las cuestiones que hallan en distintos lu7 En nota marginal se remite el símil a Isaías 54:11. 8 208 . lleva al que mal lo govierna. obra publicada en Amsterdam en 1651. Menasseh había querido en aquella ingente obra conciliar –de ahí el títulola aparente contradicción entre pasajes de la escritura que parecen refutarse mutuamente. El símil se remite en la nota al margen a Daniel 8:25. sigue al Norte de la gloria en olas de tentacion’7 un ‘cavallo que quando corre sin la rienda del temor. tras ser presentada cada una de aquéllas. Al inicio del poema se describe el albedrío libre comparándolo con ‘Un bagel que si lo rige de la virtud el timon. 9 En nota al margen se remite el símil a Jeremías 21:8 y Eclesiastés 15:17. y muerte para el fiel. su existencia e idoneidad. se destinan a probar. y à la carcel de Pluton’. de Menasseh ben Israel.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs estrofas que. Scriptura que repugnantes entre si parecen.

Job 34:11. 45:7. 209 . por un lado. y no se fuerce la voluntad’11. por ejemplo. ya la defensa que Barrios perpetra.:19. En Dios es lo mismo decir que sabe que decir que supo. la preordenación con la que Dios establece el devenir de las cosas10. 12 Conciliador tomo iv. no como contingentes. Salm. Dios como autor y los hombres como actores de la comedia de la vida. 104:29.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios gares del Testamento una aparentemente irreconciliable justificación están. porque la hora y punto de la eternidad no admite diferencias de tiempo. y Prov. La primera objeción contra la que Barrios aducirá sus peculiares argumentos se halla en la parte segunda del poema. Tomas o Suárez. de modo que su presciencia no fuerza las acciones humanas. 1 Sam 2:6. Entre los que podría sospecharse que se vindica el albedrío libre se hallan. 19:3. porque no las ve futuras. Menasseh había establecido su solución a aquella presunta incompatibilidad en estos términos: ‘Otras vezes sin forçar el libre alvedrio. y ‘obradas con el libre alvedrio que concedió a los hombres’12. Job 34:29. de Gregorio a Luis de León. p. recurriendo también sin embarazo a fuentes y argumentos católicos. y por el otro. a su vez. inclina el coraçon de los reyes. 11 Conciliador tomo iv. 10. sino como infalibles. Barrios. La edición del Esfuerço Harmonico que pretendemos examinar se halla cuajada de anotaciones al margen en las que se detallan los pasajes de las obras en las que se halla ya sea la objeción a la que el poeta quiere oponerse. Entre los que inducen a creer en la preordenación de las cosas citaremos Salm. sino presentes. poniendoles tales raçones delante que se persuadan. En las seis primeras secciones de la parte iv del Conciliador se compendian argumentos de Agustín. 127. elabora los argumentos en los que se divide el Esfuerço a partir de aquéllos. 30. Is. 1:9. Leemos que en 10 La enumeración exhaustiva de pasajes de la Escritura que parecen defender ambas nociones sería una tarea ingente. Mal. el arbitrio humano libre. Además. 8. Salm. 135:6. p. Deut 30:15. Dios vio desde su eternidad todos los futuros sucesos. además de las numerosas fuentes hebreas que ben Israel utiliza. De Cicerón a Quevedo.

de modo que en efecto parece lícito concluir con Barrios que el hombre peca cuando yerra. 14 En cursiva en el original. no lo fuerça pues el propio Rey mostrò que no haziendo lo que deve. de modo que la culpa del obrar mal recae sólo en el agente. de este modo ‘sin voluntad divina ninguno el passo moviò’15 13 En cursiva en el original. y se basa también en los Proverbios de Salomón (Prov. que ‘à todo lo que Dios quiere inclina al regio valor’13 En primera instancia. Proverbios 21:4 reza: “Ojos altivos. y 16:5). es yerro su ostentacion’14 No hacer lo que se debe. 21:4. Salomón sostiene. En Proverbios 21:1 leemos: “Arroyo de agua es el corazón del rey en mano de Yavé. la objeción segunda incide en que sin que Dios lo quiera. corazón soberbio. Sin embargo. También en Proverbios 16:5: “Aborrece Yavé al de altivo corazón. son pecado’. luz de los impíos. lo contrario. de modo concluyente. parecería no dejarse lugar a la libre elección humana. 15 En cursiva en el original. es yerro. pero la defensa de Barrios sostiene.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs Proverbios 21. pronto o tarde no quedará sin castigo”. la voluntad humana no podría moverse sólo por sí misma. ‘Si lo inclina. según los versos en los que Barrios la compendia. 210 . que Él dirige a donde le place”.

y según la inmediata defensa. no un rigor que fuerça’. sin que tenga privación ‘que le impida andar al Austro. que esto no cabe en la bondad superior. No injusta. y lo malo no’ El hombre hace lo que quiere del poder que Dios les da. que depende de él mismo. si no lo hiciera. ò echar al Septentrion’. no obstante. en el sentido de que. pero tan solo una vez Dios consiente en moverla. y dirigirla ‘una à donde le encamina la bondad del Promotòr. Así. Barrios da el siguiente ejemplo: Un bajel ‘llevado del soplo aereo’ puede sin embargo ir a la parte opuesta. siguiendo la Ley. y otra à donde el mal dictamen lo lleva à su inundacion’ 211 . aunque Dios ‘como primer moviente’ concurre en el acto. movido por su propia deliberación. ‘es un querer. nunca hacia el mal ‘porque à forçar diera justa ocupación. supuesto que solo quiere lo bueno.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios Esta voluntad. hacer lo correcto. el hombre puede ‘seguir ò al supremo impulso ò al movimiento inferior’ Puede el hombre así inclinar su voluntad a cada uno de los dos extremos. pues si forzara sería necesariamente hacia el bien. nadie podría poner en acto su propia voluntad. y puede.

p. tal versículo no existe. 243. algo cuyos precedentes cabría rastrearlos en la tratadística judía medieval acerca de la cuestión. Cómo. también es conservaba por el concurso de Dios: ningún hombre quiere o ejecuta nada. donde se lee: “Por Yavé se afirman los pasos del varón cuyo camino le place”. En la edición canónica de Gebhardt se halla en el tomo I. como si ambas ocurrieran en dos planos diferentes que no se interrelacionan entre sí. pueda tener lugar ese concurso sin menoscabo de la libertad humana. supera nuestra capacidad. deliberamos acerca de ello. Y si prestamos atención a la naturaleza de Dios…también percibimos clara y distintamente que todas las cosas dependen de él y que sólo existe lo que él decretó ab aeterno que existiera”17. Capítulo 3). y que el camino que quiere el hombre. Mas no por ello vamos a rechazar lo que percibimos claramente a causa de lo que ignoramos. que dijimos que es libre. 212 . líneas 25-37. sin embargo. p. Parte Primera. Aunque la nota al margen remite. Pues. Con probabilidad Barrios pensaba en Salmos 37:23. a Salmos 36:23. incluso. 17 La cita se halla en CM 1/3 (Cogitata Metaphysica. fuera de lo que Dios decretó ab aeterno que quisiera o ejecutara. si prestamos atención a nuestra naturaleza. línea 1. según la cual aquello que en el plano divino es preordenación de las cosas es en el del hombre libertad. precisamente porque queremos algo. entendemos clara y distintamente que…somos libres en nuestras acciones y que. en los Cogitata Metaphysica de Spinoza: “Por lo que respecta a la libertad de la voluntad humana. como decimos en el texto. 1325. 244. siempre siguiò’16 Aquí Barrios parece no contemplar incompatibilidad alguna entre la ordenación previa de Dios y la libertad humana. insólita solución que podemos hallar. 16 En cursiva en el original. p. donde David canta ‘que ordena los passos Dios. n.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs Refiere Barrios Salmos 36:23. La traducción al castellano es de Atilano Domínguez (Alianza Editorial. 242).

20 En cursiva en el original. La nota al margen remite a Deut. 19 213 . no tiene por si poder para pedirle perdon’20 18 En cursiva en el original.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios En la parte tercera del Esfuerço Harmonico. La nota al margen remite a Gen. remite a Romanos 8:7. Barrios concede la natural disposición del inicuo a decidirse por el mal ‘Porque desde su niñez tuvo perversa intencion’18 Con todo. en efecto. Barrios describe el parecer de Pablo en la Epístola a Romanos. 8:21. que en su poética interpretación compendia así: ‘era el saber de la carne enemistad contra Dios’19 De modo que ‘el hombre está por la privacion de la original justicia. 5:22. La nota al margen. y llamándolo ‘el adversario’. En cursiva en el original. pronto à siguir lo peor Que pues por naturaleza ofende al que todo obró.

el querer de Dios puede reconducir el alma ‘Si de la carne el saber haze à Dios oposición. pues solo es capàz del premio quien es del merecedor’ Y aunque la carne se ve inclinada a los bajos deseos. para que el mi Ley guardasse.’ Pues. de espiritus quebrantados es su querer el crisol.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs Tras exponerla en los versos anteriores. 214 . Barrios emprende un ataque contra la tesis de la naturaleza corrupta de los hijos de Adán. según Barrios ‘el pensamiento veloz se dirige libremente’ ‘à donde lo lleva el peso del uno ò del otro amor’ La parte cuarta del Esfuerço Harmonico trata de dar solución a la célebre cuestión del endurecimiento del corazón del faraón por 21 En cursiva en el original. y le diesse el premio yò!21 ‘Vesse aquí que por si puede admitir la correpcion. que el poeta establece en los siguientes términos ‘A esto el mismo Dios responde Quien le influyera temor.

no quiso dejarnos pasar por su territorio. Se trata de Deut 2:30.en que se lee: “Pero Seón. tu Dios. cuando extienda mi mano sobre Egipto y saque a los hijos de Israel de en medio de ellos” (Ex. pues si Dios se lo quitó. el episodio de Balaam se resume en que éste no pudo decir ante Balac. 33. con respecto a Sihón. rey de Hesebón. hizo inflexible su corazón. como Barrios señala. comporta que el faraón no carecía del mismo antes del endurecimiento de su corazón. y sacaré a mis ejércitos. 7:3-5). de la tierra de Egipto. dada la amenaza que parecía representar para el albedrío libre. los hijos de Israel. 4:21. porque Yavé. Num. Más yo pondré mi mano sobre Egipto. en circunstancias insólitas. con grandes juicios. Por otro lado. que Maimónides al igual que otros exégetas medievales se esforzaron por solventar. inclinando la voluntad hacia el mal. Escribe Barrios: ‘Si el haver endurecido el pecho de Pharaòn de Balaam abierto el lavio. Alguna señal descubre de que el Summo Proveedor23 les quitò el libre Alvedrio por la elegida nacion. Y sabrán los egipcios que yo soy Yavé. Pero ello. como hoy lo está”. mi pueblo. ergo que antes lo tenian para su condenacion’ 22 Durante siglos los sabios del Talmud intentaron interpretar el pasaje según el cual la actitud del faraón se halla en apariencia determinada. 23 En cursiva en el original. quien le había mandado llamar para maldecir al pueblo de Israel. Barrios remite estos episodios a Ex. y no de Deut. el albedrío libre. 215 . Pruevo mas esta verdad. Dios dice: “y yo endureceré el corazón del Faraón y multiplicaré en la tierra de Egipto mis señales y mis maravillas. y empedernido à Sihòn. Parece indudable que Dios tiene el poder de cancelar. para entregarle en tus manos. Barrios no cita correctamente. 33. Y Faraón no os escuchará. sino lo que Dios ‘ponía en su boca’. El significado de ‘endurecer el corazón del faraón’ ha desconcertado a los exégetas hasta nuestros días. de modo que estaba determinado lo que dijera. 22:37 y Deum. como anota el poeta al margen. Por último.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios parte de Dios22.

Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs Pero el haber sido libre hasta entonces no obsta para que la imposibilidad efectiva del faraón de dejar partir el pueblo se dé. antes lo tenían. 26 La anotación al margen remite a Salmos 146:5: “Bienaventurado aquel cuyo auxilio es el Dios de Jacob. y Sab. El hombre aunque no conoce como es la alta perfeccion. de modo que no tendría tampoco poder para poner su afición en ellas. la ama con ciego fervor’26 24 Como decíamos en una nota anterior. y Sihón en Deum 2:3024 Sin embargo. proporcionalmente se puede contemplar a su Hacedor original” 25 216 . La defensa de Barrios procede del modo siguiente ‘Si aquello que se cree haver por bueno se desseò. por naturaleza. Lo mismo ocurriría con los episodios de Balaam en Números 22:37. claro està que influye amor. cuya concesión depende de Él mismo en inmediata instancia. viendo en sus obras que es buena. ‘porque ninguno lo que no supo no amò’25. en el momento en que lo fuerza Dios probaría su poder. si Dios se lo quitó. 2:30 y no de Deut. desde una férrea determinación causada por Dios. se trata de Deut. tan sólo arrebatándoles el auxilio necesario para realizar el bien. aunque se ignore lo que es. las cosas divinas. En la parte quinta del Esfuerço se plantea otra interesante objeción: El hombre no puede conocer. En cursiva en el original. cuya esperanza es Yavé. 13:5: “Pues en la grandeza y hermosura de las criaturas. y este albedrío los inclinaba de modo persistente hacia el mal. su Dios”. en ese preciso momento. 33. Por lo demás.

Será la disposi-ción iniciática de la criatura la que propiciará que el auxilio divino le sea otorgado. será posible amarlo. Si éste nos es dado.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios Y más adelante. aunque no lo es conocerlo en Sí mismo. ‘Dios es fuego. y ésta es la diferencia crucial por la cual la necesidad de su asistencia no implica que sea Él quien decide qué hombre inclinará su voluntad hacia el bien. aunque nacieran vendados. encuentran con su favor. la controvertida creencia protestante que los judíos de Amsterdam no podían en modo alguno admitir. Así lo expresa Barrios. del poder asistido de Dios para amarlo. La parte sexta expone que debe sin embargo iniciarse en el hombre el movimiento de amor a Dios que hace que Éste le otorgue su gracia. y cuál no lo hará. por si en su investigacion. và donde considerò Los que à Dios assi caminan. ‘Del poder propio assistido tras de su imaginacion con no ver por donde và. y no calienta sino al que busca su ardor. con respecto a quien ama a Dios por conocer su bondad a través de sus obras ‘No atendiò à cosas del siglo sino à las que empyreas son. porque ciega para el Mundo el que mira para Dios’ Se precisa. 217 . asistiéndole. sin embargo.

ni de piadoso. y el vicio nunca huviera distincion. argumento a posteriori harto usado por los defensores del albedrío libre. es 27 En cursiva en el original. si careciera de libertad. la culpa del juzgador. y pena para el juzgado. es violentado en la obra27.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs porque de uno es dar la luz. Quexarse el mortal deviera. Si Dios es justo. La objeción a este punto es la siguiente ‘Si en el presidio del Mundo el que llorando naciò. como es libre en la eleccion?’ En primer lugar. Entre la virtud. no sería justo castigarlo. si para su destruccion. pecar fuera institucion. 218 . ni recto tuviera Dios el blason. y de otro la aceptacion’. ¿como puede criar al hombre para el error? ¿O condenarlo al castigo si el que peca no hace otra cosa sino obedecerlo. yerros forçado arrastrara en la carcel del dolor’. ‘Si libertad le faltara.

ser autor de los hombres para que lo ofendieran. Y esto fue así porque Dios le había entregado ‘en su bien y mal dictamen la vida. y la perdicion’ De modo que ocurrió que ‘De su creacion con el malo no hay duda que delinquió. ya que su naturaleza era inmortal. La objeción siete postula ‘que el mortal’ no comete los delitos por la creación. Barrios arguye ‘Diré que antes del pecado el hombre que Dios formó no podìa corromperse.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios decir. no incurriera en el error. de modo que Adán pecó ‘por la parte apetitiva’. En cursiva en el original. De modo que éstos en modo alguno pueden carecer de la libertad para amarle y obedecerle. 219 . Sería ignorancia o desesperación en Dios –aduce Barrios. pues si Dios se lo negara. sino por la corrupción. sino con su execucion’ Esto es. Y si huviera 28(como quiere el tenaz contraditor) perdido el libre Alvedrio en los laços del dragon’29 28 29 En cursiva en el original. seguir la inapelable inclinación de su voluntad preordenada por Dios ab initio?. sólo sus actos podían corromperlo.

y contra lo anterior. de nuevo. bien por haber vivido entre españoles gran parte de su vida anterior a la llegada a Amsterdam. Se trata. primero. 220 . La noción del concurso divino en forma de auxilio recuerda a Báñez. el gran adversario de aquél. ‘No Dios entonces mostrando casi especie de temor lo echara del Paraiso. primero que el sacro auxilio es la humana conversion’30 30 En cursiva en el original. En su defensa. que negaría que el hombre corrupto tuviera la posibilidad de elegir el bien tras la caída. la objeción en el poema de Barrios ‘Si dize que para errar con la libertad quedò. bien por la lectura de los textos de ben Israel u otros conocedores de las mismas que en la comunidad judía de esta ciudad escribieron con respecto a la cuestión de la predestinación divina y la libertad humana. y de las que Barrios podía saber. pues ésta habría corrompido para siempre su naturaleza. y en ella es donde se vislumbran los diferentes influjos de las controversias sobre la gracia y el auxilio divino que se produjeron en tierras ibéricas a lo largo de los siglos XVI y XVII. Barrios escribe. La parte séptima del poema resulta ser la crucial desde el punto de vista filosófico.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs El ‘tenaz contraditor’. Leamos. de Pablo. mas no para hazer lo justo sin la gracia superior Aquello. porque segun viendo estoy. conociendo su ambicion’. y no esto concedo. pero se da una diferencia fundamental que inclina su versión de la gracia hacia la posición de Molina.

que por su naturaleza tiene una infalible conexión con el efecto. originaria. en virtud de la premoción física que determina a la voluntad en la realización de toda acción. puede probar por sí mismo la magnitud político-religiosa de la polémica. y que habría sido decretada por Dios en términos abso31 32 Scholberg 1962. podrá decirse en efecto que aquella gracia es insuficiente. pues se da una libertad prístina.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios Scholberg escribía en su prólogo a la edición que preparó de la poesía religiosa de Barrios que ‘cabe decir que la posición del poeta sobre la gracia…está más cerca de la ‘gracia eficaz’ de Molina que de la ‘gracia suficiente’ de Báñez’31. A Barrios le interesa ante todo destacar una absoluta responsabilidad del hombre frente a Dios. que haga tanto comprensible como justa la eventual imposición de un castigo divino posterior a la muerte. algo de cuya importancia para la comunidad judía de Amsterdam le es imposible dudar a quien conozca las fervorosas controversias mantenidas en torno a esta cuestión en el seno de la misma. ésta se define por oposición a la teoría bañeziana del auxilio divino ab intrinseco. sin embargo. dado lo cual se da también una diferencia capital entre lo que defiende Barrios y la libertad que los molinistas vindicaban. 92. La vindicación de la gracia eficaz perpetrada por Molina tenía. El que Dios la otorgue depende de la natural inclinación que se halle en el hombre de pedirla. en la década de los treinta del siglo XVII32. un cometido algo distinto. como es el caso de Isaac Aboab de Fonseca y otros cabalistas seguidores de Herrera. que puede querer libremente rogar por obtener el auxilio divino antes de la decisión divina de otorgarlo. esto es. Altmann describió magistralmente dichas controversias en su artículo de 1972. p. 221 . Los versos anteriores. y puesto que éste es el requisito previo para dicha obtención. El modo realmente disuasorio en el que rabinos como Saul Leví Morteira combatieron las opiniones de quienes se negaban a creer en un castigo eterno posterior a la muerte. en efecto. muestran la decisiva inclinación hacia posiciones molinistas de Barrios. en el hombre.

El propósito de Barrios. en lo tocante a los designios de la voluntad humana y a las acciones que se siguen de ella. pero sabiendo Él las circunstancias en que cada uno de nosotros se hallará en todo momento. Molina reduce así la predestinación. esto es. que tiende infaliblemente a un efecto contemplado por Dios no en función de que Él mismo lo haya decretado. Molina defendió contra Báñez una consideración de la gracia eficaz ab extrinseco. y no a los medios usados para que ésta se produzca.34. la ciencia media. cuáles serán los actos que cada uno de los hombres realizaría bajo la incitación o el auxilio de cierta gracia particular. cabe decir que desde el punto de vista teológico. Cf. y también lo que cada uno haría con su libertad en éstas o aquéllas circunstancias. aunque no predeterminándolos causalmente. cuyas decisiones se hallan fuera del ámbito del conocimiento divino. Bañez 2002.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs lutos33. La libertad de indiferencia que Molina se obceca en vindicar era extraordinariamente importante para los jesuitas dadas sus pretensiones pedagógicas y de expansión político-religiosa. Las razones políticas que llevaron a la acerada controversia entre Molina y Báñez están en la base del posterior enfrentamiento teológico entre sus seguidores. Luis de Molina 2007. 222 . en particular. que les aterrorizaba de modo especial pues éste era un dogma que se les había impuesto man33 34 Cf. gracias a la cual Dios conoce todos los futuros contingentes con una suerte de anterioridad lógica con respecto a Sus propios decretos. Con todo. a la presciencia de Dios. Conoce. De este modo Molina salvaguarda la libertad de elección humana. No ha lugar para considerarla aquí. puede prever qué actos libres acometerá el hombre a lo largo de su vida. el de los tratadistas judíos que se ocuparon de la cuestión del arbitrio en el Amsterdam del XVII era distinto: asegurar la justicia de Dios en el juicio de las almas. y por extensión. sino por medio de un elemento externo. a saber.

y sin embargo el uno convertirse. sin embargo –lo mostraremos a continuación. viene otro a ayudarle. La Certeza del Camino. p. autor de La Certeza del Camino.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios tener por parte de los dirigentes religiosos de Holanda. En Méchoulan 1987. echando a perder. la gracia concedida. aducía que si el hombre no quisiese previamente el auxilio de Dios. 109. y assi la pone al ombro’36. Cf. Al igual que Barrios. en virtud de que Dios sabe que su auxilio llevará a tal resultado. por el buen uso que hace del mismo en virtud de su libre decisión. No hay distancia. 223 . al contrario. pero que no formaba parte de su dogmática originaria. en ese acto. la gracia precedería a los méritos de aquél. a través de la Remonstrantie de Grocio. En Méchoulan 1987. que ‘este auxilio presupone haver antecedido la obra. La obra capital de Molina asegura que el inapelable dogma de la predestinación es compatible con la libertad de indiferencia de la voluntad humana. lo que es decir que está presente. también Abraham Pereyra. para el autor del Concordia. Pero la gracia eficaz de Molina se supone in actu primo en la predefinición virtual de toda buena acción. 109. dos hombres pueden recibir de Dios el mismo auxilio interior. por la voluntad que tiene natural cooperacion’ 35 36 Cf. mas ayuda al que sale del error. Sucede. En el poema de aquél ‘Dios no fuerça. como quando un hombre quiere levantar una carga y no puede solo. La Certeza del Camino. pero no tiene como objetivo primordial garantizar la absoluta responsabilidad del hombre frente a Dios. por así decirlo. lo que sería lo mismo que conceder arbitrariedad a su concesión35. p. y el otro sin embargo no hacerlo. desde el inicio.con respecto al molinismo en el hecho de que.

Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs Y apelando. ò con ella hazer bueno el mal humor Impide el Rey soberano por ser triaca interior. 37 En cursiva en el original 224 . pues que puede no admitir la aplicacion medicinal. en ningún caso. mas es un acto prudente que anhela su proteccion’37 Y compara ‘Puede con la medicina quedar sano el que enfermò: mas como podrà curarse si el tomarla despreciò?’ Así. al De natura deorum ciceroniano ‘Por lo qual pedirle deve (narra el docto Ciceròn) el bien de seguir lo justo Tal necesidad de ayuda no coarta. tal como en la parte octava del poema Barrios se esfuerza por probar: ‘No es falta de libertad estar atado al Criador. el poder del albedrío humano consiste en lo siguiente: ‘Poder tiene. la libertad. esta vez.

probarían que si existe el mérito. pues el sacro Emperador à Sodoma perdonava por el que en diez no se halló’ Para concluir: ‘Solo el humano por si adquiere el glorioso honor. según Barrios. salvado de ser destruidos por la lluvia de azufre y fuego si en ella hubiera hallado diez hombres justos. que no debe al nacimiento. ciudad que Dios habría. a los requerimientos de Abraham. fuera indigno de galardon: y pues es digno. Escribe el poeta ‘Que hay merito se conoce. porque en el querer del hombre està el que lo sane Dios’ En la parte novena Barrios aduce que los episodios de Sodoma. a la que perdonó. Salomón afirmó 225 . sino à su especulacion Si obrara forçado. Dios otorga su auxilio. o Nínive.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios que el veneno del pecado le penetre el coraçon Queda à su arbitrio el curarse con tal celestial doctor. se prueva que de su obrar es Señor’ La parte décima del poema se ocupa de la cuestión de la predestinación. y remite a Proverbios 16:4 donde.

Pero Barrios replica que – e importa reproducir aquí varias estrofas del poema ‘Si no le puede faltar lo que Dios predestinó. esto es prever su accidente. 226 . ó no’39. aun al impio para el día malo”. 39 En cursiva en el original. Concluye que el Rey Supremo. 38 En cursiva en el original. no màs que por la razon de haverlo determinado se condena el hombre. no amonestara que dexando el agressor la culpa. en efecto: “Todo lo ha hecho Yavé para sus fines. pero no ser su ocasion. merecimiento la harìa en su reducion. Porque à ser. Proverbios 16:4 reza.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs ‘que Dios todo lo criò por si propio. y al impìo para el dia del horror’38 La objeción plantea nuevamente el decreto de la naturaleza corrupta del hombre ‘Quiere el Contrario que sea este. el hombre pecador que dexar de ser no pudo por alta disposicion.

y este.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios Ni al justo lo amenaçara. y la iniquidad de Edom’ La objeción que Barrios entiende enfrentar es la siguiente: 227 . laurel vencedor. De aquí pruevo que à forçar el saber del Causador. de Jacob la rectitud. Previò ab eterno en su idea lo que en tiempo prorumpiò. diziendo que si traydor le ofendia. ni a uno llamara à la enmienda ni a otro diera su temor. Del acto condicional se hallara en el formador si mentida la amenaça. que Agustín eligió también en algunas de las cartas en las que expuso su visión de la preordinación de las cosas. falsa la amonestacion. que su muerte seria su obstinacion. azote funesto. en su rectitud innata. Pues si previò que hallaria en su mano y su mansion aquel.’ También la parte undécima se ocupa de la predestinación. y toma el ejemplo de Jacob.

para que éste no arguyese que pecó necesariamente. ni aquel negar su amor pudo.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs ‘Si como juzga el Sectario por la predestinacion. y al hacerlo. a Adán.40 Dicho saber. ni este omitir su rencor’. contra el Señor que lo pune conforme ab eterno vio. Dios dio ‘forma y ley’ al Pueblo de Jacob. tras haber éste pecado. 228 . avisándole ‘de que serìa su premio conforme su observacion’ La teoría de Barrios acerca de la preordenación divina se resume en las siguientes estrofas ‘Mirase en esto que el hombre puede por si ser Nembrot. Dios previno al hombre. en el paraíso. Del mismo modo. 40 En cursiva en el original. según Barrios ‘no es violencia antes si una aspectacion que vè en sus contrarios fines la enemistad de los dòs’ En versos sucesivos el poeta expone cómo Dios llamó. Pero no le indujo a caer. como sin saber lo que había hecho el primer hombre. este último se vio tentado a comer del árbol.

y castigo a la estorcion.’ En la duodécima parte del poema se esfuerza Barrios en seguir probando que ‘el saber superior no fuerça’. Para que resplandeciera su clemencia. 229 .La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios Mas no por querer punirlo hizo que fuesse. por su libre arbitrio. expressò no ser el divino lavio del bien ni el mal productor’. Y más adelante: ‘Todo estó considerando Jeremias. ‘Porque su inmenso poder de todo conocedor. única entre las criaturas que escapa. con varios modos de metros alaban al Hazedor. dando premio à la observancia. sino porque assi lo havia mirado desde su eterna atencion. antes falta à lo que anuncia que obliga a su execucion’. de aquello que dictamina Dios: ‘Todas las cosas criadas en el corò de la union. Y en la última parte se ocupa Barrios de exponer la privilegiada condición del hombre. y su rigor.

Pruevase el libre Alvedrio pues si tuviera prision.’ De modo que. y obrar. ò traydor. ‘solo el mixto humano con imperio. por la parte razional.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs Desto. es imagen del Criador. excepto el hombre. à ninguna es possible dexar la continuacion. Por otro lado ‘El Angel sin alvedrio siempre à Dios obedecio: y a no tenerlo. que puede serle leal. tambien le obedeciera el varon Solo entre los animales el hombre le venerò. mas discuerda en quanto son voluntarias las acciones de ser ó no su loor’. y cognocion en el entender.’ Y algo más adelante: ‘El hombre con el conviene. 230 . que tiene la religión.

ni fuera imagen de Dios’ El poema acaba con estas tres estrofas ‘Y assi Aristoteles dize que pues nada en vano obrò. Rosenbloom 1992. milenaristas. la consideración del albedrío en el Esfuerço Harmonico reposa sobre una hábil variación de las teorías sobre el auxilio divino y la gracia cuyo auge tuvo lugar en la península ibérica durante el XVI. no le diera activa industria si le forçara la accion. el autor del Conciliador mantuvo con hebraístas cristianos. el señorio del Sol. el fermento teológico que las diversas sectas en Holanda mantuvieron vivo en la época de Barrios tuvo un influjo directo sobre el devenir de la polémica. descriviendo como el hombre tiene de todo porcion. Del bruto lo sensitivo. la razon del Seraphin. leer a la luz de la controversia teológica en el milieu calvinista las 41 Cf. Con que juzgo que atropello la fanatica opinion. 231 . Por lo demás. Al igual que en ciertas obras capitales de Menasseh ben Israel o Abraham Pereyra.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios quando quisiera no obrara. dados los permanentes contactos que. y el Alvedrio de Dios’. por ejemplo. Tal como Rosenbloom41 sugería. remostrantes.

148. libremente. 44 Ex. Menasseh elige los versos en los que se relata el endurecimiento del corazón del faraón. 7:3. Como leemos en los versos de Barrios. Menasseh se atreve a discutir la relación entre la gracia divina y las acciones humanas. mas el hombre no haze lo que quiere. Menasseh se distancia claramente de la opinión de aquéllos para quienes la gracia de Dios precede a los méritos. como sabemos por pasajes de su Conciliador y por los argumentos contenidos en De la fragilidad humana (1642) es. Para situar la misma. la predicción de Ezequiel acerca de Dios ‘ofreciendo un nuevo corazón al hombre’ implica que el destino humano no se halla predeterminado. Esta opinión. la muerte con el mal”.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs discusiones de Menasseh acerca de la predestinación –que no es. segun consta de los versos de nuestra contradiccion”43. que en el Conciliador reza: “Y yo endureceré á coraçon de Parhó” y Ex 10:1: “Ven á Parhó que yo he endurecido á su coraçon” (Conciliador v. por un lado44. p. El profeta no restringe la concesión de un nuevo corazón sólo a los elegidos. I. pues quienes no recibieran aquélla estarían justificados en sus acciones malvadas y no podrían ser castigados por perpetrarlas. y. una temática judía. hoy pongo ante ti la vida con el bien. a todo hombre. se lee: “quien tiene libre alvedrio haze lo que quiere. contraria a la lógica humana y a la ética judía. Y en Ezequiel 36:26: “Os daré un corazón nuevo y pondré en vosotros un espíritu nuevo”. p. negada por el calvinismo. i. 148). sino que es un ofrecimiento al hombre. 232 . según Menasseh. la disposición humana precede al auxilio. a su defensa del albedrío libre. 43 Conciliador vol. en esencia.asume una significación especial. en la obra capital de Menasseh. en la exposición de la contradicción que da paso. para la vindicación 42 En Ezequiel 18:31 leemos: ‘Arrojad de sobre vosotros todas las iniquidades que cometéis y haceos un corazón nuevo y un espíritu nuevo”. y se da así una primigenia inclinación en el hombre que puede decantarle. Al citar los versículos de Ezequiel acerca de Dios forjando un nuevo corazón42. Así. como Deut 30:15 pone en claro:” Mira. De acuerdo con Menasseh. hacia el bien o hacia el mal.

es del hombre. que en el Conciliador rezan: “Vé di delante ti oy la vida y el bien. Y más adelante: “He aquí claro. 45 Deum 11:26. 46 233 . Y ansi los Antigos en el tratado de Sucá cap. El apetito del hombre.La defensa del libre albedrío en el Esfuerço Harmonico de Miguel de Barrios del albedrío libre: “Vé yo dan delante de vos oy bendicion y maldición”45 y los más arriba citados de Deut 30:15. Y es este. que el hombre precisará. quando el hombre ha empeçado a hazer alguna obra meritoria.. p. sin embargo. Assi lo pondera doctamente R. para que Dios.y si el Dio bendito. que ven hazer por la virtud. quien plagia casi palabra por palabra este pasaje de Menasseh en el capítulo I del Tractado Primero de La Certeza del Camino. 69-70. que el primero movimiento. 47 Ibid. Justamente perguntaríamos: este auxilio. profieren esta sentencia. Eliahu Haim en su Ressit Hochma… con estas palabras: “¿Diráse por ventura que Dios da al hombre desde luego el auxilio para vencer su mala inclinación? Esto sería lo mismo que quitarle totalmente el mérito. 5. En De la fragilidad humana queda claro. pp. no pudiera contra el”46. titulado ‘Del auxilio divino’: “Opinión es de algunos autores tratando de la materia de auxilios que la gracia del Señor precede a los méritos del hombre. De la fragilidad humana 1642. y al bien. la muerte y el mal”. 70. una vez muestra su originaria impulso hacia el bien. Algo parecido leemos en Abraham Pereyra. un cierto premio justo: como suelen los hombres ayudar a aquellos. por esa mismo razón. Pero de muy contrario sentir son los nuestros porque ellos dizen haver…dos modos de auxilio: el primero. procura vencerlo cada dia. acabe. y entonces usa Dios De su justiça. ¿lo da Dios a particulares o a todos? Si a todos. ve aplicados a la virtud. no lo ayudara. y conspira en su muerte…. que en tal cazo le ayuda el Señor para que la perfeccione y acabe. más adelante. que es necessario principiar el hombre. ayudando a aquellos que con sumo affecto. del auxilio que Dios. y misericordia. le concede: “Nota. y aplicarse a buscar la vida”47.

109-110. Y Pereyra concluye: “Assi que es nesseçario que el hombre empiesse para que Dios acabe. y despeza del Autor. Bibliografia Altmann. El original es de 1595.Miquel Beltrán y Joan Lluís Llinàs ¿por qué no son todos justos? Si a particulares. vieno otro a ayudarle y assi la pone al ombro.prencipiando el hombre la buena obra y aviendo dificultades por parte de la materia. (1541) Institution de la Religión Chrétienne. o de la inclinación del hombre al pecado. en la ara de su Divina Carroça. Bruselas. Dirigido. Biblioteca Filosofía en español. En Méchoulan 1987. Auctoris impensis. Ben Israel. Se ha cotejado con la edición de 1688. Ben Israel. Alexander (1972): “Eternality of Punishment. Hevia Echevarría. I. como prefieren nuestros antiguos”49. 110.. A. pp. Bañez. Instituto Internacional de Estudios Sefardíes. como quando un hombre quiere levantar una carga y no puede solo. Scriptura que repugnantes entre si parecen. Boer. Traducción de J. ¿por qué cauza haze esta distinción de personas? Que parece es querer que hunos se salven y otros no. A Theological Controversy within the Amsterdam Rabbinate in the thirties of the 17th Century”. le ayuda para que la ponga por acto””48. Universidad de Alcalá. Luego diremos que este auxilio presupone haver antecedido la obra. Barrios. 1-88. al infinito Creador. p. Proceedings of the American Academy for Jewish Research 40. Por industria. Francofurti. Menasseh (1642): De la fragilidad humana. Ibid. Vols III y IV de su 48 49 La certeza del camino. Domingo (2002): Apología de los hermanos dominicos contra la Concordia de Luis de Molina. Calvini. Menasseh (1632) Conciliador o de la conveniencia de los lugares de la S. Harm der (1996): La literatura sefardí de Amsterdam. Miguel de (1680): Libre Alvedrio y Harmonia del Cuerpo por Disposicion del Alma. siendo que no puede aver en Dios excepción de personas. Fundación Gustavo Bueno. Oviedo. En Amsterdam. Baltasar Vivien. 234 . Del mismo modo Dios….

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que pode ter por nome a morte. já que os hábitos extremos. propomo-nos compreender os comportamentos de risco que desabrocham na pós-modernidade. Os riscos que nos ameaçam por toda a parte confrontam-nos com uma experiência do absoluto. em particular nos meios juvenis. uma alimentação descuidada causam inúmeras estragos. «a pensar um ideal comunitário em gestação» (Maffesoli. ao excesso de energia que todo o organismo possui face à exigência de sobrevivência pura e simples» (Empoli. são as adversidades da vida com que nos deparamos ao longo da nossa existência. Tal como o mostrou Nietzsche. 2003: 10). os deuses e os diabos. do mesmo modo que rotinas mais suaves. Adversidades essas que têm como origem a pró1 Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho 237 . e quiçá sobretudo.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas Jean-Martin Rabot 1 1. essa mesma experiência obriga-nos também. 2006: 18). como a absorção de drogas ou as tentativas de suicídio. Inúmeras como as estrelas. a experiência da radicalidade leva-nos a compreender «que o único meio de dar mais solidez aos fundamentos da sociedade consiste em tornar a dar um papel ao lado obscuro que está na base de todas as coisas humanas. 2006: 88). como o tabagismo. Se a experiência da radicalidade levanta «a hipótese não negligenciável de morrer» (Le Breton. com a sensação do irremediável. Os comportamentos de risco como antídotos ao processo de «securização» e de «providencialização» da vida Neste texto.

Em todo o caso.. nas condições habitacionais. usar de tudo sem abusar de nada. da saúde ou ainda do mundo do trabalho. uma panaceia de múltiplas aplicações. nos ritmos de trabalho. à promoção da saúde. 2006: 16).Jean-Martin Rabot pria mão do Homem e que. do reforço de políticas sociais mais justas. como por exemplo nos domínios da educação. ao combate à ignorância e ao obscurantismo. constatamos também que a própria família se tornou no principal eixo de uma política de higienização do mundo ou. Assim. a doença da SIDA ou ainda a de Kreutzfeld-Jacob. melhor dito. Nessa linha de acção. Do mesmo modo. muitas vezes. Muito em voga está o termo de qualidade. de programas educacionais mais adaptados aos costumes do tempo e vocacionados para as camadas mais vulneráveis da população. consumo de álcool ou outras drogas. muitos advogam a favor da implementação de campanhas de prevenção. 2006: 186). de «medicalização da sociedade» (Leandro et al. Basta recordar Chernobyl. Em suma. resultam dos progressos científicos e técnicos. no ambiente afectivo. às práticas alimentares saudáveis. condu- 238 . Contra o carácter inevitável da ocorrência de acidentes e contra o carácter irremediável do surgimento contínuo de novas doenças. e mesmo. de determinados agrupamentos sociais. à luta contra as discriminações sociais. poder-se-ia alcançar a generalização de padrões culturais orientados pelos exclusivos critérios da razoabilidade e da temperança. na coesão familiar. no investimento na saúde preventiva através da formação das atitudes e dos comportamentos a esse propósito (tabaco. foram avançadas várias propostas que insistem sobre o papel eminentemente salutar de certas organizações. Assim. foi avançado que as organizações de saúde «deverão adoptar práticas e comportamentos pautados pela defesa intransigente da vida humana e da pessoa» (Costa. existe um consenso geral para reconhecer que uma boa «gestão da saúde tem que ver com a organização da vida quotidiana no seio da família que se traduz nas práticas alimentares e higiénicas. Particular ênfase é dada à educação sexual. na flexibilidade de uns em relação aos outros.

advogando a favor da plena integração no todo social «por meio da tomada de consciência pelos indivíduos do seu interesse» (Horkheimer. Será que as ditaduras de antanho que se exerceram em nome da soberania dos povos não se exercem hoje em nome da salubridade pública e do respeito da integridade física e psíquica da pessoa? Em todo o caso. Uma análise perspicaz da realidade mostra-nos precisamente que estes programas e estas propostas. educação sexual…).. Contra o moralismo ambiente. a sociologia não terá que se associar às campanhas profilácticas orquestradas pelos profissionais da saúde com o seu chorrilho de litanias higienistas destinadas aos indigentes. correlativo dos progressos da medicina em matéria de «prolongamento muitas vezes artificial da 239 . por mais legítimos que sejam de um ponto de vista moral. horários de sono. orientada para a acção. em 1999.: 189). não passam de meros rituais encantatórios. PerettiWatel: «inúmeras experiências anteriores sublinham que a difusão do saber não modifica forçosamente os comportamentos ditos “de risco”» (cf. 1979: 203). entre outros aspectos» (ibid. mostraram os seus limites. como se dizia antigamente. pela Missão interministerial de luta contra a droga e a toxicomania.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas ção rodoviária. por esse motivo. à semelhança da campanha de informação lançada em França. as campanhas de prevenção. como no-lo recorda P. e que. no recurso periódico ao médico e a exames de rotina. intitulada «saber mais para correr menos riscos». Talvez fosse mais oportuno e judicioso compreender que os comportamentos de risco não são mais do que o remanescente do processo de «apagamento da experiência do eu». 2001: 84). não tem que se pronunciar judicativamente sobre os perigos que os comportamentos de risco constituem para o indivíduo e para a sociedade. partimos do pressuposto de que a sociologia não tem uma vocação prática directa. na prevenção dos riscos. Por conseguinte. por mais justos que pareçam do ponto de vista de uma razão burguesa que zela pela exclusiva «conservação de si».

Estas anedotas são. em que o risco profissional. correlativo do direito constitucional.: 84). ou ainda por causa de um cancro pulmonar contraído por um fumador qualquer. Fernando Sebastián Aguilar. 1998: 72). 240 . é interessante constatar que a tomada imponderada de riscos a nível pessoal não abrandou com o aumento das tragédias sociais. Sociologicamente falando. podemos dizer que não são tão irrisórias quanto podem parecer à primeira vista. no entanto. ou por causa da queda de uma chávena de café que atiçou uma queimadura na perna de uma outra. ao sustentar que a morte de Jesus Cristo na cruz «foi uma morte digna». como as guerras. as elucubrações proferidas na véspera da Páscoa de 2008 pelo arcebispo emérito de Pamplona. a pobreza. Essa praga da propagação da ideologia do risco zero tem influenciado a própria vida doméstica. Vemos os acidentes domésticos transformarem-se em riscos domésticos. a invalidez. os acidentes nucleares. por causa de uma garrafa que caiu. o desporto. ao processo de «providencialização» da existência por parte de sistemas de protecção que estenderam os seus tentáculos à sociedade no seu todo. Já nada escapa ao domínio dos seguros que banalizaram a noção de risco.Jean-Martin Rabot vida» (Gadamer. não faltam processos intentados contra marcas famosas de refrigerantes. o empreendedorismo. É mesmo o contrario que se verifica. com a proliferação de sistemas de segurança. em matéria também de tratamento das doenças. e mais particularmente da utilização generalizada de cuidados paliativos que alienam a «consciência da existência da nossa corporeidade» (ibid. é transferido para o risco social. mas também a velhice. bem representativas do sentido da evolução do Estado-providência. como no-lo mostrou magistralmente François Ewald no estudo sobre a sócio-génese do Estado-providência: o trabalho. em parte. A esse propósito. e a própria vida. apesar de não ter tido o auxílio de «cuidados paliativos». partiu e provocou um corte no pé de uma consumidora. as epidemias. dependente do direito civil. Isso deve-se. em primeira instância. de café ou ainda de cigarros. Nos Estados Unidos.

E. com este deslize produzia-se também a passagem da problemática do delito para a problemática do contrato. «o seguro torna-se obrigatório: asseguramos os indivíduos e. pelos presságios. 1994: 332).: 342). o mar e as estrelas. Por outras palavras. foi negada e recalcada. O reconhecimento do “risco social” institui a racionalidade do risco e do seguro ao nível de uma norma fundamental. anunciaram o juízo final. as fomes e as guerras. etc. os judeus. seguramo-los» (ibid. mediante a ajuda divina. com o consequente alastramento dos seguros: «a relação social iria agora revestir a forma de seguro» (ibid. por meio da designação de responsáveis bem mais visíveis e palpáveis: «os turcos. o seguinte: os lobos. pelo mar. os homens do período medieval tentaram superar o medo ocasionado pelas fomes.: 334). Esta enunciação nomeava perigos e adversários contra os quais o combate. mas “designados” e explicados. e a morte do corpo é menos temível que a 241 . Podemos destas reflexões tirar a ilação de que os medos atávicos e ancestrais foram sublimados e que a violência que era natural. na medida em que eram reflectidos e clarificados pelos padres da Igreja. socialmente reconhecida e aceite. assistimos à generalização da noção de risco. Deste ponto de vista. as pestes. Mais. o risco «passava de um eixo delituoso para um eixo nitidamente contratual. prova terrível de facto. era possível. com o consequente alastramento de uma política da prevenção de todos os riscos. mas que significaria o fim do mal na terra. O discurso eclesiástico reduzido ao essencial foi. as sociedades sofrem do mesmo mal que os nossos antepassados de finais da Idade Média e dos primórdios do Renascimento: a denegação do mal por procedimentos de substituição.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas Como assinala Ewald. deveras ameaçadores. as mulheres (nomeadamente as bruxas). como uma fonte própria de jurisdição» (cf. [Os ecle-siásticos] foram à procura do Anticristo. ao mesmo tempo. que se reveste de contornos claramente totalitários. os heréticos. pelo diabo. embora difícil. com efeito. Uma ameaça global de morte foi assim segmentada em vários medos.. também. Assim.. são menos temíveis que o demónio e o pecado. guerras e peste.

que podemos dominar tudo pela previsão» (Weber. mas os problemas permaneceram intactos.: 40). em princípio. como destino» (ibid. em diminuir na terra a dose de desgraças de que eram a verdadeira causa» (Delumeau. Continuamos a esconder a face ao iludirmos a questão premente do mal. mas pela intromissão da ciência e da técnica nas nossas vidas. 1997: 19). Ora. O problema de fundo reside no facto de que a tomada de consciência dos riscos. esses processos não protegem o indivíduo contra as «escórias da psique» (Maffesoli. Desmascarar Satã e os seus agentes e lutar contra o pecado. violência.: 152). pensamos conjurar esses males que se chamam doença. desde que o desejássemos. entra num mundo para o qual não é feito. Em todo o caso. Levou-nos a acreditar «que em cada instante poderíamos. consistia. 1974: 158-159). provar que não existe. nenhum poder misterioso e imprevisível que interfira no curso de nossa vida. Já não por meio da «intrusão maciça da teo-logia na vida quotidiana da civilização ocidental» (ibid. em suma. 1985: 39-40). Os tempos mudaram. mediante uma ideologia da «securização» e da «providencialização» da vida. Hoje em dia. Em suma. morte. os comportamentos de risco conduzemnos a pensar a vida. mas sim «como existência. não nos premunem contra a procura deliberada «destes estados próximos da vertigem. não resolveram a questão da sua proliferação em sociedades altamente seguras e asseguradas. mediante sistemas de protecção e de prevenção eficientes. carnificina. 1976: 155). Se é verdade que boa parte dos problemas actuais estão directamente relacionados com estilos de vida instilados por determinados 242 . não como um simples «devir mercadoria». contra a sua insaciável vontade de se confrontar com a experiência. em parte desapossado de si. o seu controlo por sistemas sofisticados de protecção.Jean-Martin Rabot morte da alma. crime. onde o corpo. e que prefigura as ligeirezas glaciais da morte» (Yourcenar. O racionalismo destronou a teologia cristã e assumiu o mesmo papel de «velamento» e de alienação da experiência. além disso.

hipoglicemiante. morrer jovem e fazer um belo cadáver». A verdade é que os homens podem preferir uma existência mais curta. a funcionária das calorias fez-me uma conferência sobre os méritos dos cremes aligeirados. Na véspera do acidente cardíaco. Fora os molhos crepitantes e as ligações farinhentas! Tinha que me converter às ervas e aos legumes verdes… Num sobressalto heróico declarei. de citar um excerto elucidativo do filósofo Michel Onfray. aos vinte e oito anos: «Entre dois electrocardiogramas. que a manteiga e a margarina eram a mesma coisa. Existencialmente falando. exclamou. Mais umas tantas intimações para trocar os meus livros de cozinha por um dicionário de medicina ou um Vidal. Era retórica a menos… Visto que se distinguia mais no domínio do 243 . dos leites desnatados e das cozeduras com água. e uma análise de sangue. vítima de um enfarte do miocárdio em 1987. não é menos verdade que os valores que os indivíduos seguem são raramente o objecto de um consenso. à guisa de exemplo. Gostaríamos. o adestramento dos seres é deveras irrealizável. Psicóloga endiabrada. como se fosse a minha última palavra antes do trespasse final. uma refeição para seis ou sete pessoas permitiu-me confeccionar os quartos dianteiros de um borrego à base de cogumelos e de aipo. Austera e de uma magreza pouco convidativa – sinal. parece-nos ser um exemplo paradigmático da filosofia de vida da juventude oriunda da geração de James Dean. com prejuízo de toda a lógica elementar. já que embate contra a infinita variedade das sensibilidades humanas. mas ao mesmo tempo mais intensamente vivida: «Viver depressa. de consciência profissional – fez-me um discurso maçador sobre o bom uso de uma alimentação para monge do deserto. o destino manifestou-se sob a forma de uma dietista com ar de anoréxica. mas péssima dialéctica. e hipocolesterolemiante. Pálida e enfezada.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas valores sociais e culturais. no entanto. que preferia morrer comendo manteiga do que economizar a minha existência à base de margarinas. E tinha que abdicar de tudo isso para me lançar às cegas no regime hipocalórico. uma injecção de Calciparina.

Jean-Martin Rabot

oligoelemento do que no da dialéctica, disse-lhe então, do fundo da
minha cama, que preferia a manteiga…, já que se tratava da mesma
coisa. Ai! A conversa estava a azedar. Declarou que me abandonava à
obesidade – quando acabava de perder sete quilos – ao colesterol, à
morte próxima. Tornou a empacotar as suas falsas receitas de falsos
molhos para falsos pratos e deixou-me marinar na secção da pós-reanimação» (Onfray, 1994: 17-18). De notar que em 2008, Michel Onfray continua a desprezar os regimes dietéticos!
Este texto mostra bem que as campanhas de profilaxia contra os
males que assolam o nosso quotidiano e que dizem respeito à protecção do ambiente, à luta contra o terrorismo, ao impedimento dos
comportamentos desviantes, à semelhança dos consumos de droga,
têm os seus limites. A despeito de toda a boa vontade contida nessas
profissões de fé, é forçoso reconhecer que o Homem é feito de madeira nodosa, como o refere Kant. Diríamos mesmo que o Homem
tem razão em preferir o bom senso à imposição normativa da normalidade, por parte de uma razão imperiosa que se pretende universal. O bom senso, pelo qual prima a ideia de que uma certa
insegurança constitui «o preço a pagar pela liberdade», segundo a expressão do filósofo francês Élie Halévy (cf., citado por Ortega y Gasset, 1967: 175). O bom senso, pelo qual as premissas de uma vida sã
residem na aceitação do destino. O bom senso, pelo qual «o que não
tem remédio remediado está», seguindo o provérbio português. De
facto, não será que a existência consiste em pôr a morte a ridículo?
Em resistir aos estragos que o tempo exerce infalivelmente em nós?
Em gozar, inclusive de forma perigosa, excessiva e violenta, cada instante que passa? Em desafiar a morte, integrando-a na vida de todos
os dias? Por meio de actos perpetrados por sua conta e risco; pela intercessão de gestos tão inúteis como absurdos; pela mediação de excessos de toda a ordem, de violências gratuitas cometidas sobre os
outros como sobre os próprios. Em suma, trata-se de submeter toda
a existência ao sentimento trágico da vida. Neste desafio metafísico

244

Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas

o que está em jogo é tudo o que se joga no erotismo: «a aprovação da
vida até na própria morte» (Bataille, 1985: 17).
O tema dos comportamentos de risco parece-nos particularmente interessante numa altura em que as divisões têm tendência em
apagar-se. Já não existe uma linha de demarcação nítida que possa
separar categoricamente o normal do patológico, o permitido do proibido, o sensato do insensato, o racional do irracional. Basta recordar
que os pais fundadores da sociologia tiveram em conta essa dimensão
indomável do homem que é a irracionalidade. Assim, Vilfredo Pareto
sublinhou o carácter altamente relativo da lógica do social. O que é
lógico de um ponto de vista, pode não o ser de outro ponto de vista.
O monge que se enclausura no seu convento, vivendo uma vida de
privações e de abnegação, não age logicamente se o nosso ponto de
vista for a «normal» racionalidade produtivista e consumista, induzida pela economia de mercado, ou então se o nosso ponto de vista
for a sobrevivência da humanidade, que implica a necessidade da reprodução biológica entre os seres humanos. Age todavia logicamente
na medida em que segue coerentemente os desígnios ditados pela sua
crença na redenção pessoal.
Também Max Weber nos ensinou que o conceito de racionalidade não pode ser encarado univocamente, já que «contém toda a espécie de oposições» (Weber, 1964: 81-82). Por outras palavras, não
existe padrão único e comum de «razoabilidade» para todos, contrariamente ao que pensa Jürgen Habermas, que acredita nas possibilidades de um consenso social na base de uma discussão argumentativa
racional entre os homens. Ora, o que é tido como razoável para uns,
não o é para outros. Não existe simplesmente processo de igualização
dos costumes, crenças e mentalidades por meio da discussão, por
mais racional que esta seja. O grande humanista e ensaísta francês,
Michel de Montaigne, tinha certamente razão e continuará a tê-la por
muito tempo, ao afirmar que «cada um chama barbaridade ao que
não é do seu próprio hábito».

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Jean-Martin Rabot

Não podemos pois, falar dos comportamentos de risco sem nos
referirmos às duas maneiras que existem de conceber a sociedade: a
sociedade pode, de facto, ser concebida do ponto de vista linear da
filosofia da história; ou então do ponto de vista cíclico de uma fenomenologia da vida.

2. Os comportamentos de risco na perspectiva da filosofia da
história
A seguirmos o primeiro ponto de vista, a sociedade tem que ser
aperfeiçoada (Condorcet), desalienada (Marx), regenerada (Comte).
O que deve ser combatido é a desorganização, que se declina de muitas
maneiras: a pobreza em Saint-Simon; a anomia em Durkheim, a anarquia da produção em Marx, as disfunções em Merton ou em Crozier.
Estas concepções omitem por completo que o ser humano é plural e
que os valores que dão vida aos grupos raramente são consensuais.
A maior parte dos autores que enveredaram pela perspectiva do
«endireitamento» do homem esqueceram-se da sua complexidade.
Esqueceram-se de que o processo de domesticação do homem de que
falavam Nietzsche, Foucault, Marcuse e Elias nunca podia ser total.
Aliás, só podemos concordar com Norbert Elias quando este afirma
que o processo civilizacional, que consistiu em recalcar a vida pulsional, em aquartelar a vida afectiva, em adocicar os costumes e em instaurar toda uma série de controlos e de autocontrolos interiorizados,
a ponto de se tornarem uma «segunda natureza» (Elias, 1973: 197)
para os homens, não pôs fim às múltiplas incarnações do mal: loucuras, barbaridades, violências, insanidades, à semelhança dos comportamentos de risco. Até porque estes constituem muitas vezes uma
maneira de opor uma resistência sã e serena à asseptização prometeica da vida, imposta pela trindade laica referida por Michel Maffesoli: «o Progresso, o Trabalho e a Razão» (cf., 2002: 63).

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Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas

Resistência, portanto, ao «fantasma da assepsia social que nos
embala na fantasia do “risco zero”: segurança e bem-estar plenos, nas
estradas, nos campos e nas cidades, na vida de todos os dias. “Se conduzir, não beba”. “Não à droga, sim à vida”. “Mais esquadras e mais
polícias”. “Sexo seguro”. “Liberdade duradoura”. Tudo operações de
caça ao animal que vive no humano, exorcismos para enxotar as sombras (medos e angústias) que possuem o corpo individual e colectivo»
(Martins, 2002: 1). Resistência também à tentativa obsessiva de minimizar e de controlar, a todo custo, por meio da previsão e da profilaxia, os riscos reais e vir-tuais, uma tentativa que, por um lado,
acaba por alimentar ainda mais os nossos medos, e, por outro, suscitar
um controlo cada vez mais apurado da nossa existência. Zygmunt
Bauman assinalou-o bem: «Mergulhamos na busca dos “sete sinais
do cancro»” ou dos “cinco sintomas da depressão”, ou no exorcismo
do espectro da tensão arterial e da taxa de colesterol elevadas, do
stress ou da obesidade. Por outras palavras, procuramos alvos de
substituição sobre os quais podemos despejar o excedente de medo
para o qual já não se encontra saída natural, e encontramos estes expedientes nas precauções refinadas tomadas em relação ao fumo do
cigarro, à obesidade, ao fast-food, à sexualidade sem preservativos ou
à exposição ao sol» (cf., 2006: 92). Resistência ainda às diversas paranóias psiquiátricas e higienistas que pretendem «constituir a loucura
como doença e a perceber como perigo» (Foucault, 1999: 110). Resistência, por conseguinte, aos desígnios da modernidade, para a qual
os comportamentos de risco em particular, e a loucura em geral, significam, antes de mais, como o sublinhou Roger Bastide, uma «forma
de improdutividade», já que «a nossa sociedade é uma sociedade industrial, a nossa ideologia é uma ideologia da produção, e o desvio é
definido pelos nossos modos de produção» (cf., 1977: 276).
Por mais que a loucura e os comportamentos de desvio tenham
sido ocultados, afastados, banidos, sendo rejeitados na esfera do sobrenatural pelos antigos, enquanto marca do sagrado, ou rejeitados

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Jean-Martin Rabot

na ordem da alienação pelos modernos, enquanto carência de consciência, de liberdade e de responsabilidade individual, mais ninguém,
melhor do que Michel Foucault, mostrou que o louco interpela o
Homem, mantém com ele uma relação de reciprocidade e, finalmente, o obriga a confrontar-se com ele próprio, com a sua verdade
mais essencial: «O louco revela a verdade elementar do homem: redulo aos seus desejos primitivos, aos seus mecanismos simples, às determinações mais urgentes do seu corpo. (…) Mas o louco revela a
verdade terminal do homem: ele mostra até onde puderam conduzilo as paixões, a vida da sociedade, ou seja, tudo aquilo que o afasta
de uma natureza primitiva que desconhece a loucura. Esta está sempre ligada a uma civilização e ao seu mal-estar» (Foucault, 1976: 538).
As loucuras societais constituem, por outras palavras, uma denegação radical dos ideais da modernidade, e correspondem a uma redescoberta das paixões, enquanto verdadeiro motor dos comportamentos
e das acções humanas. Em todo o caso, representam uma refutação categórica dos desígnios da filosofia da história para a qual «o instinto de
razão encontra na sua procura apenas a própria razão» (Hegel, 1987:
219). E, em consequência, representam uma relativização da «propensão
do nosso mundo para racionalizar tudo, tanto quanto possível, para
moldar todas as coisas num modelo administrativo e em absorver a
parte de irracional» (Mannheim, 2006: 95). Ao restabelecerem a espontaneidade e a efervescência da irracionalidade, ao valorizarem a arquitectónica das paixões, os comportamentos de risco contrapõem-se a essa
preocupação «com a unidade da história universal e com o seu progresso no sentido de um fim derradeiro ou pelo menos no sentido de
um “mundo melhor”», que se materializa e se concretiza no «esquema
de ordem e sentido progressivos, um esquema que tem sido capaz de
vencer o medo antigo pelo fado e pela fortuna» (Löwith, 1991: 31).
Da mesma forma, os comportamentos de risco impugnam a
ideologia burguesa alicerçada no substancialismo da consciência. Esse
substancialismo implica a dominação do mundo e de si, a prevalência

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Assim. a demonstrá-lo como idêntico à razão. é um ser dotado de uma fraca vitalidade. 1976: XV). assustado por todo o abandono. medroso. a esta tendência opõe-se o sentido da lealdade e a vontade de desafio. que apenas existe em estado rudimentar). e até. É precisamente essa propensão tipicamente humana em manifestar de forma ostensiva a irracionalidade da sua conduta que caracteriza os comportamentos de risco. em detrimento da intensidade. pelo contrário. Todo o ser deve tornar-se ordem ou lei. «A pesquisa filosófica tende a captar o irracional e o anti-racional. uma temperatura agradável. Hermann Hesse: «Só podemos viver intensamente se for em detrimento do eu. em vez do ardor mortal. o que aprecia mesmo é o eu (um eu. de submeter o acaso à necessidade. É por essa razão que colocou a maioria no lugar da potência. Estes reconhecem e afirmam o irracional como sendo inultrapassável» (Jaspers. 1987: 9). tende a elaborá-lo através da razão. de sujeitar a fatalidade à liberdade. As filosofias da história primam pela obsessão compulsiva em querer conferir uma unidade a tudo: à história. a propósito. o bem-estar. em virtude da sua natureza. o conforto. a transformá-lo num modo da razão. Lembramos. O burguês. é verdade. fácil de governar. O burguês. quer económico (capitalismo). sob a forma de uma aniquilação do eu. obtém a conservação e a segurança. quer religioso (protestantismo). em vez da loucura em Deus. em sociedades que privilegiam o individualismo. podemos ler uma contestação das normas estabelecidas. em vez da liberdade. de fundir o real no racional. o direito de voto no lugar da responsabilidade» (cf. Têm a pretensão de absorver as trevas na luzes. quer político (democracia). finalmente. Podemos dizer que os comportamentos de risco redescobrem a animalidade que existe em nós. ao homem. Nestes. à existência.. em vez da volúpia. Mas. a lei no lugar da força. recolhe a tranquilidade da consciência. na medida em que instrui uma dialéctica entre o individual e o colec- 249 . O caso dos comportamentos de risco parece-nos paradigmático.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas do livre arbítrio ou aquilo a que Hans Jonas chamou o princípio de responsabilidade.

. nas religiões instituídas. As bacantes. Convocamos Max Scheler: «Em todas as excitações colectivas. Edgar Morin recorda-nos que os gregos antigos acolheram e incorporaram Dionísio no seu panteão: «O politeísmo grego acolheu um deus aparentemente bárbaro. que pode ser o ambiente de uma cervejaria. Não se trata da barbaridade que se enraíza nas próprias civilizações. Os comportamentos de risco.Jean-Martin Rabot tivo. Já Durkheim nos tinha incentivado em apreender o suicídio. porque não as “quis”. que apela ao reconhecimento da complementaridade entre a ponderação e a imoderação. Mesmo assim. é sobretudo a reciprocidade deste contágio cumulativo que provoca o movimento emocional colectivo e produz esta situação singular em que a “massa” age. Trata-se antes de um retorno ao arcaico no homem. e que deu origem aos genocídios que conhecemos. o próprio processo de contágio que produz os fins e os objectivos de cada um dos indivíduos que compõem a massa» (cf. No entanto. mostra a chegada destruidora e louca desse deus. onde se processa um movimento de amplificação induzido por uma manifestação colectiva. Dionísio não deixou de ser 250 . violento. da irrupção da selvajaria dionisíaca nas manifestações societais pós-modernas. um deus da embriaguez. O que está em jogo na compreensão sociológica dos comportamentos de risco é a presença do mal e da barbaridade no homem. sofrida ou deliberadamente provocada. nos Estados-nações. propagam-se na sociedade sob a forma do contágio. tanto para a vida dos outros como para a própria vida. A peça extraordinária de Eurípides. É. sem ter em conta as intenções dos indivíduos que a compõem e realiza coisas relativamente às quais nenhum destes indivíduos quer reconhecer-se “responsável”. devem ser compreendidos no prisma do colectivo. da hybris: Dionísio. como uma manifestação do colectivo. de facto. ou ainda a partilha de emoções comuns numa situação de perigo. 2003: 66). que emana de uma vontade e de uma decisão individuais. e mesmo aquando da formação daquilo que se chama a “opinião pública”. Os comportamentos perigosos. parecem conter a marca do individualismo moderno.

Somos possuídos por demónios que lançam sobre nós «o sangrento aparelho da destruição» (Baudelaire. eu busco o vazio. 251 . 1973. Em plena era produtivista. Esta procura do vazio caracteriza inúmeras obras literárias deste século. O suicídio. jorrando do meu olho aos milhares / Seres desaparecidos com olhares familiares» (ibid. Jean—Jacques Rousseau. no século XIX. um mal apodera-se dos homens. poema Obsession: 203). E os poetas gostaram particularmente destes seres. poema La destruction: 116). ó noite! sem essas estrelas / Cuja luz fala uma linguagem conhecida! / Pois. o gosto pelo desgosto. assumindo várias formas.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas integrado à sociedade dos deuses gregos» (cf. dela acabando por morrer.. e o escuro. conjugando os estados doentios com a graça divina e a delicadeza humana. é nele que o poeta encontra os pontos nodais do emaranhado da sua vida. Mas o desesperado. a exacerbação da sensibilidade. a união mística com o universo que nos rodeia. por D’Alembert. Alfred de Musset. Hoje em dia. naturalmente. inclusive a da morte e a da aniquilação. na maior parte das vezes. «Como me serias agradável. ou seja. por Montesquieu. Ora. Alfred de Vigny. Wilhelm Goethe. 2005: 15). e. priva-se antes de tudo. «Para todos eles. um mal que tem por nome a melancolia. assistimos ao retorno em força da fúria dionisíaca. mas nunca desapareceu do mapa da condição humana. fonte de volúpia. por Diderot. George Sand. o acesso voluptuoso à árvore do conhecimento através do mal. é nesse desgosto que Baudelaire encontra as sensações agudas que lhe conferem a convivência com as coisas. são os autores mais representativos desta corrente. o spleen. a morte está presente no meio da vida. e o despido! / Mas as próprias trevas são teias / Onde vivem. descobrindo na sua fraqueza fisiológica o sinal de uma qualidade espiritual excepcional» (Hillemand e Gilbrin. Benjamin Constant.. já admitido por Voltaire no L’Ingénu. Esta fúria podia ter sido momentaneamente asfixiada. não se desfaz brutalmente da vida. 1980: 375). abandona-se e evolui para a tísica. torna-se mais frequente e traz aos contemporâneos um arrepio mórbido.

. nem redenção) – nem para nós. só poderá mostrar que se afasta moralmente dele se dele se aproximar fisicamente» (cf. nem ressurreição. Portanto. «Je suis en guerre contre moi-même». para se poder manter distante dele.Jean-Martin Rabot A fúria dionisíaca pode portanto exprimir-se perfeitamente na aceitação do destino. na confrontação com a morte. na procura deliberada dos perigos. ou seja tudo aquilo que afecta o comum dos homens. Deverá. Este paradoxo é constitutivo tanto da moral estóica. Quanto mais o adversário estiver próximo do seu corpo. Ora. Na arte de tourear. abertas pelo individualismo civilizacional moderno. 2007: 142). Estamos diante de vivências diárias de pequenas mortes que nos preparam para a ideia da «mortalidade absoluta (sem salvação. Passamos a citar Francis Wolff: «Ser toureiro. para colmatar as brechas do sofrimento e da frustração. ou seja. que permitem insuflar a morbidez no seio da vida. uma ética do ser. famosa na Antiguidade pelos seus paradoxos. na realidade.. para deles se poder mostrar desprendido. para lhe dar um sentido. joga-se. melhor poderá mostrar que ele próprio mantém uma distância em relação ao adversário. onde o toureiro parece partilhar os mesmos valores que o touro. nem para os outros» (cf. e padecer dos mesmos males. em suma. in Le Monde do 19 de Agosto de 2004). consiste em tratar com desprezo – ou com indiferença – tudo aquilo que nos deveria afectar. e experimentar a partilha de emoções comuns. manter-se o mais próximo que puder dele. nos comportamentos de risco. uma ética do desprendimento. forçoso é reconhecer que esta ética do 252 . por conseguinte. a saber o confronto com a incerteza do resultado do combate. É nesse contexto que devemos compreender as motivações dos aficionados das corridas de touros em voga na Espanha. a saber as virtudes heróicas do combatente. Há aqui um paradoxo essencial: a distância moral do herói ou do Sábio em relação à adversidade é tanto maior quanto menor é a distância física relativamente ao adversário. como da ética “torera”: O toureiro tem de tocar no touro ou na morte. tal como ser Sábio. Jacques Derrida.

(. O excerto citado entre aspas é de Émile Durkheim)... / Se a tanto me ajudar o engenho e arte» (Camões. É nesse contexto que devemos compreender também o espírito aventureiro dos portugueses na sua conquista dos mundos. como expressão de «um “mal do infinito” inerente a todo o conjunto social. 1972. contra a tolerância zero nas estradas aparecem os «malucos do volante» e os «rodeios» motorizados aos fins-de-semana. recorrendo «à arte dionisíaca e ao seu simbolismo trágico… que força eternamente o ser à existência e se satisfaz eternamente da inesgotável variedade dos fenómenos» (Nietzsche. / E aqueles que por obras valorosas / Se vão da lei da Morte libertando: / Cantando espalharei por toda a parte. Do que se trata sempre é de experimentar com outras sensações fortes como remédio ao irremediável desgaste do tempo. 1976: 112). é que produz beleza na base de um risco de morte. 2002: 83). elevar-se acima da vida: apresentar a sua vida ao touro para poder representá-la para nós. Sem falar 253 . o excesso nas experiências de toda a ordem (sexualidades. a sede daquilo que não existe. Assim.. o império.) [O toureiro] parece pôr o seu corpo entre parênteses. Libertar-se do carácter inelutável do finito. O desprendimento da sua própria vida permitenos vislumbrar na sua pureza a beleza sem o medo» (ibid.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas ser desemboca numa ética da estética. É nesse contexto que devemos compreender ainda «a eficácia da errância».. Estrofe Um: 4). Daí que Simmel tenha dito que «o encanto da aventura reside quase sempre na intensidade da tensão através da qual ela nos faz sentir a vida» (cf. corrida ao prazer) baseia-se na “incerteza do futuro.: 310 e 312). Canto Primeiro. à semelhança de Luís de Camões que cantou o génio heróico dos descobridores: «E também as memórias gloriosas / Daqueles Reis que foram dilatando / A Fé. acrescentada à própria indeterminação”» (Maffesoli. Retomamos Wolff: «O que é próprio da emoção taurina.. A aspiração desmedida. e as terras viciosas / De África e de Ásia andaram devastando. própria do espírito cavalheiresco. 1984: 158. a não satisfação pontual. modos de viver.

que emite a hipótese de um instinto 254 . cruel e louco. que as julgam perigosas para os indivíduos. seitas. Assim. Contra a «sociedade de vigilância» (Foucault). que admite que o homem possa não desejar a sua redenção. Contra o despotismo impessoal dos peritos e dos pedagogos. droga. as filosofias da história mostraram-se incapazes de entender os autores que perscrutaram as profundezas da natureza humana.Jean-Martin Rabot daqueles que andam em contramão nas estradas. que admite que o homem possa negligenciar a riqueza. Contra o consenso social de obediência racional e contra «o adestramento tecnocrático. 1996: 39). Deus. etc. É preciso acrescentar que a noção de risco pode ser uma «arma política» (Pourtau. lembramos Nietzsche. funcional. já que a emancipação é a palavra-chave do Ocidente.. Miguel de Unamuno. e submetem a evolução da natureza e o destino do homem aos desígnios de uma razão soberana. aparecem os malucos de Deus. as emoções. Basta referir a concepção de John Stuart Mill. 2002: 71). na sequência de uma aposta. vivendo-a no quotidiano. existem os comportamentos de risco: condutas pelas quais os jovens desafiam e exorcizam a morte. pragmático. Freud. a glória e a felicidade. burocrático» (Durand. as paixões. surgem as mais variadas perversões. ou ainda. todos aqueles que erigem o excesso em regra de vida recordam-nos que as campanhas de luta contra toda a forma de dependência (tabagismo. Entre estes. Contra os princípios laicos garantidos pela Constituição. alcoolismo. As filosofias da história excluem precisamente os sentimentos. ansiolíticos. de continuamente se aperfeiçoar.) se fazem em vão. Ao pressupor um indivíduo desejoso de se emancipar. Internet. Assim. assistimos ao desabrochar de uma violência gratuita a que Julien Freund deu o nome de «violência dos sobrealimentados» (cf. dispondo de um direito de controlo para proteger as pessoas contra si próprias. a proibição das raves ou free parties por parte das autoridades estatais e administrativas. que advogava em favor de uma «polícia moral». 1972). sexo. fechamse à possibilidade de compreender o mundo e a existência no que estes têm de contraditório.

Ela desempenha o mesmo papel que uma válvula de segurança de uma panela de pressão: permitir ao vapor escapar-se em pequenas doses para evitar a explosão. mas de gozar cada instante que passa. muitas vezes. as loucuras societais e as manifestações ritualizadas da fúria são saudáveis. Mas sobretudo Dostoïevski. segundo o princípio do diferimento evidenciado por Jean Baudrillard (projectar o melhor para a frente. De facto. Não se trata de inventar paraísos celestes ou terrestres. com todas as suas incoerências. É assim que devemos compreender os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas e a mudança de sensibilidade que estas induzem. ao escalar as montanhas. mas aceite como é. por exemplo. A violência nos estádios de futebol. imperfeições e loucuras. adiar o prazer). as múltiplas violências e transgressões do interdito contribuem.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas de morte no homem. que admite que o homem possa preferir a «volúpia no sangue» ao bem-estar. É nesse preciso sentido que Durkheim afirma que a violência que se exprimiu historicamente nas revoluções ou nas cruzadas não devia ser julgada do ponto de vista moral. mas compreendida do ponto de vista dos seus efeitos sobre a moral. capaz de se sobrepor ao instinto de vida. por exemplo. à escalada. O mundo não é denegado. diremos que os comportamentos de risco. serve de exutório à irreprimível agressividade que está em nós. onde «o alpinista. os riscos ligados. 3. participa no movimento “colo- 255 . Deste ponto de vista. Os comportamentos de risco na perspectiva da fenomenologia da vida O segundo ponto de vista que atrás referimos parte daquilo a que Pierre-Joseph Proudhon chamou «o bom génio da experiência». Hoje em dia. já não são sintomáticos da «simbólica ascencional» do prometeísmo. que dão vida e consistência aos diferentes grupos sociais. para o fortalecimento dos sentimentos comuns.

isso sim.: 111). que consiste em tornar-se “mestre e possuidor da natureza”» (Corneloup. entre a destruição e a construção. 2005: 96). é o pretexto para uma participação em rituais que propiciam aos jovens a «encenação social da sua personalidade» (Jeffrey.: 110). para decidir da sua sobrevivência. Deste ponto de vista. entrar em comunidade. a promover condutas onde a totalidade do grupo ou uma parte dos seus membros se entrega ao acaso. Em todo o caso. ao juízo de Deus. são.). o consumo 256 . Essa socialização pode enveredar pela via do desvio ou da perversão. ao destino. na potencialização dos mesmos através dos processos de modernização e de crescimento. o homem continuará a promover atitudes relacionadas com o ordálio. fazer corpo com os membros da sua tribo.Jean-Martin Rabot nialista” característico da modernidade. ou seja. isto é. uma vez desprovido do ritualismo da comunidade. Os comportamentos de risco assumem as formas mais variadas: a recusa deliberada do preservativo nas relações sexuais. a verdade é que ele contribui igualmente. para restaurar «uma relação mais propícia com o mundo» (ibid. afigura-se como a condição da sobrevivência individual e da reprodução social: «A actuação do ordálio convoca estruturalmente um intercâmbio simbólico com a morte para que seja garantido o facto de viver» (ibid. a dialéctica entre a ordem e a desordem. Mesmo que dos nossos dias o ordálio se revista de uma forma essencialmente individualista e constitua «um acto solitário e imprevisível no seu surgimento» (Le Breton. à semelhança do que ocorria nas sociedades primitivas. 2001: 35). Estes riscos. à fortuna. entre a perda de si e o reencontro com os outros. Os comportamentos de risco constituem outras tantas formas de ritualização por meio das quais o indivíduo procura socializar-se. 1997: 25). como no-lo testemunham os comportamentos de risco. sintomáticos da socialidade pós-moderna. simultaneamente científico e patriótico. Mesmo que a sociedade industrial avançada seja centrada no princípio da «repartição dos riscos» (Beck. 2004: 113). «procurando os alpinistas antes de mais o ludismo e o contacto “simpático” com a natureza» (ibid.

em instituições detentoras e dispensadoras do moralismo mais afinado. o canyoning. como o afirma Ruwen Ogien. e que permitem às crianças compensar a imposição de um mundo que lhes escapa por completo pela sensação de dispor livremente do seu corpo. de jogar com os seus movimentos e. mas também por causa dos vossos pensamentos. a prática imponderada do mergulho em apneia. que consiste em descer os rios que serpenteiam entre as falésias escarpadas.. indícios de uma socialidade intensamente vivida no quotidiano: «As micro-utopias são utopias do corpo. a prática compulsiva de desportos radicais (desde a prática da break dance até à escalada em condições extremas). com a própria vida.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas de drogas. (…) Quem gostaria de viver num tal mundo. Parece mesmo que o corpo condensa em si as novas modalidades das utopias. desejos. quando esta se ocupa dos danos causados a si próprio. as bebedeiras (que são o objecto de concursos organizados). por via de consequência. provocam efeitos desconhecidos e incontroláveis. com conhecimento de causa. que consiste em lançar-se equipado de um pára-quedas do alto de um imóvel. não só por causa das vossas acções. pensamos ou sentimos. fosse ela a mais solitária. sendo misturas. mas também por causa daquilo que fazeis a vós próprios. mas também por causa daquilo que vos acontece um tanto por acaso. a tomada de substâncias neurotóxicas que. 2007: 11): «Imaginai um mundo no qual seria possível julgar-vos “imorais”. Podemos afirmar que estes comportamentos representam outras tantas formas de resistência ao delírio do imperialismo da moral. o base-jump. escaparia ao juízo moral?» Particularmente sintomáticos do imoralismo ético e estético são os jogos que se difundem nas escolas. fantasmas ou traços de “carácter”. e o espaço em 257 . onde nada daquilo que somos. em vez de se limitar a tratar dos prejuízos provocados aos outros. ou seja. com o seu burburinho de cascatas e obstáculos. o salto ao elástico. onde nenhuma actividade. Não só por causa daquilo que fazeis aos outros. Retomamos Ogien (cf. que começa precisamente. Não só por causa daquilo que fazeis de maneira deliberada.

Podemos recensear várias formas de jogo. afinal. que tem por finalidade deformar a voz ao inalar o produto contido num aerossol qualquer. Está visto que a vítima de um dia poderá tornar-se no carrasco do dia seguinte. aliás. é fustigada nas partes genitais. é logo espancada. É certo que tais “micro-utopias” mal são reconhecíveis. os sapatos. os paraísos artificias do Prozac. O recenseamento destes artifícios dá conta. em primeiro lugar. de forma gratuita. do «jogo de Beirute»: uma criança pergunta a uma outra qual a capital do Líbano. sonho azul. devido à falta de irrigação de oxigénio no cérebro. Este jogo goza. que em boa medida nem recorrem à palavra utopia. temos o jogo do tomate. tem várias designações: o bode expiatório. Este jogo. os atletas de alta performance. Se não for capaz de responder. 2002: 179). no qual um bando de jovens se atira de cabeça contra uma criança isolada. à semelhança dos outros. cujo objectivo reside na procura de sensações eufóricas e cujo princípio consiste em provocar um desmaio por estrangulação. molestam.Jean-Martin Rabot que se desdobram é o espaço de um “corpo utópico”. que consiste em surrar um colega. o jogo do julgamento. Se a criança não for capaz de a apanhar. com o intuito de bloquear a respiração por compressão do tórax. com a agravante de poder criar um edema pulmonar. em segundo lugar. É o caso também do «jogo da bolinha». de jogos de ataque. É o caso ainda do «jogo do pulverizador». Os jogos de desoxigenação. Como variante dessa brincadeira. jogo do pano. É o caso do «jogo da lata». É o caso. os cyborgs ou a estranha “física” da virtual reality» (Miranda. o jogo do esterno (ou da rã). É ela que alimenta os bodybuilders. É o caso do «jogo do lenço». que tem por motivo a comprovação da sua força e que se processa da seguinte forma: as crianças formam um círculo e uma lata de soda ou de cerveja é lançada na direcção de um dos participantes. transfiguram os corpos. em que o jovem tapa o nariz até ficar vermelho. de inúmeras denominações. para testar os limites da sua resistência. que variam em função da terra: cosmos. jogo da corrente. 258 . É o caso ainda do «jogo do touro». jogos esses que trabalham. verão indiano.

O que está em questão em todos estes jogos. “mortes” e “ressurreições”» (Eliade. pretexto de uma ingerência. à comercialização e à programação.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas Em terceiro lugar. 2002: 91). Nestes jogos.. a cada instante. mesmo assim. nessa trama do mundo feita de «“provas”. dos retiros na Amazónia. como o jackass. uma prática importada de Inglaterra. Por mais individuais e individualistas que possam parecer os comportamentos de risco. para o gozo que confere a revivescência de ocorrências extraordinárias. de um significado colectivo. Mesmo que os perigos sejam minimizados. revestem-se. Mesmo provar à custa da própria pele. como o afirmou Dostoïevski. são recenseados jogos de pura violência sobre si próprio. desemboca na «formação de uma comunitas. e não um mecanismo. e por fim. na realidade. quando partilhado por muitos. já que. Não existe incompatibilidade entre a desinibição individual e a busca de relacionamentos. que não remete para a morbidez de instintos sádicos ou sadomasoquistas. que. O valor altamente societal destes jogos é comprovado pela prática do happy slapping. entre a lógica de um mercado ávido em comercializar as mercadorias oníricas e as lógicas hedonistas 259 . Trata-se de uma encenação colectiva da violência. e que consiste em gravar em filmes as diferentes agressões físicas para difundi-las na Net e projecta-las nas sessões reservadas aos iniciados. que mais não seja às escondidas. 2004: 179). 1975: 244). como no caso das maratonas no deserto sariano. «toda a questão humana consiste. à semelhança daquele jovem americano que colou o ânus com uma cola extra-forte. trata-se de viver «um acontecimento de excepção». 2001: 158). do trekking nos Himalaias. por meio da selvajaria. mas provar» (cf. trata-se de promover «uma forma de jogo deliberado com a morte» (Le Breton. para dar um sentido à vida e fortalecer os laços comunitários. cujas acções recíprocas são edificadas sobre um risco iniciático» (Barthelemy. mas antes para a partilha de emoções comuns. que é homem. é poder tocar na morte para se sentir todo-poderoso. condenados à banalização. em o homem provar a si mesmo.

os comportamentos pós-modernos «não autorizam a erigir Dionísio num mito emblemático da nossa época» (cf. Já David Le Breton se mostra mais circunspecto.. sendo multiformes e tornando-se fragmentados deixam instalar. da prática desportiva radical. nos seus estudos sobre os sofrimentos infligidos ao corpo. quando todos os outros se afastam» (cf. de uma cada vez maior desresponsabilização das famílias nos domínios da transmissão de valores educacionais. Lembramos. escarificações. os “bad trips”. Tão-pouco. por vezes. Em todo o caso. [a] experiência do transe. não podemos circunscrever a explicação dos comportamentos de risco ao mal-estar individual. os universos de sentido para a existência. onde grande parte dos participantes se encontram sob o efeito de drogas» não nos podem fazer esquecer «o clima de “multidão solitária”. ao reconhecer que o homem «pode caminhar para o pior com toda a lucidez» e que «a própria vida quotidiana está repleta de ambivalência. de obstinação. Alguns fazem dessa incompatibilidade uma petição de princípio.. Para Lipovetsky. 2003: 10). mesmo que essa tendência se verifique nos nossos dias de forma inegável. como os valores espirituais. de incerteza. Maria Engrácia Leandro: «os sistemas de valores. “hic et nunc”. uma certa sensação de vazio e as pessoas sentem-se. marcado pela ausência de comunicação verbal. o «gozo de “sair de si”. orientando-se mais para o material e o bem-estar pelo bem-estar. 2006: 227). [as] emoções colectivas na efervescência das raveparties. a este propósito. das ligações perigosas. de atalhos que. como consequência da falta de valores susceptíveis de agregar os indivíduos em sociedades altamente individualizadas. poderíamos recorrer à explicação unilateral de uma desagregação da estrutura familiar. a prova da angústia frente ao vazio e à fusão social impossível» (ibid. como é o caso dos piercings. Por outras palavras. morais ou cívicos.. lacerações. incisões. muitas vezes. são os únicos a poderem ser percorridos. multiplicam-se mas tornam-se efémeros.: 228). 2001: 85). frequentemente à deriva» (cf. escoriações.Jean-Martin Rabot que resultam do consumo de drogas. Na explicação dos riscos assumidos pelos jo- 260 .

as sensações de auto-realização são desmultiplicadas ao contacto dos outros e acabam por fundir-se em relações sociais caracterizadas pela intersubjectividade e pela intercorporalidade. se for recalcado? Mais vale dar uma possibilidade de expressão à irreprimível violência antes que esta degenere em mal absoluto. no sentido em que Santo Agostinho afirmava que «nascemos entre as fezes e a urina» (citado por Vaneigem. De facto. No grupo. aos jogos perigosos. e que poderá manifestar-se de maneira desenfreada. mais vale pequenas loucuras.Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas vens. pequenas violências (sobre si e sobre os outros). podemos perfeitamente interpretar estes últimos como o resultado do processo de racionalização levado ao paroxismo. Mais vale reconhecer a debilidade congénita do homem. segundo a expressão de Max Weber. 1993: 233). Por outras palavras. o indivíduo sente-se estimulado e invencível. para não dizer inconciliáveis. O fenómeno da imitação diz respeito aos suicídios. Em suma. do que ter que suportar a posteriori as nefastas consequências do racionalismo exacerbado. O grupo social constitui simultaneamente um factor de emulação para os comportamentos de risco e um elemento de protecção para os indivíduos. ao consumo de drogas. não podemos deixar de ter em conta também o mimetismo inerente a esses comportamentos. e que permite aos grupos interagirem segundo o esquema da conjunção e da disjunção (Octavio Paz). que permitem exprimir a infinita complexidade e diversidade dos caracteres (Nicolau Maquiavel). dos humores (Julien Freund) e dos temperamentos humanos (William Sheldon. Mais vale acomodar-se a uma «guerra dos deuses». Será necessário repetir que o irracionalismo pode manifestar— se de maneira sã. Assim. ou no sen- 261 . do que os delírios assassinos dos totalitarismos do século XX. Aldous Huxley). pequenos males. se for reconhecido e integrado pela sociedade. a experiência vivida do risco contribui para a valorização social do indivíduo e reforça a sua integração no grupo. que permite à sociedade constituir-se a partir de uma rivalidade entre valores antagónicos.

uma sobre-natureza. que no firmamento comunista o nível base da humanidade corresponde ao de Miguel Ângelo? Não podemos esquecer nunca que os maiores crimes contra a humanidade foram cometidos em nome da perfectibilidade humana. fazendo deste um destino. uma transcendência laica. afinal aquele 262 . e muitas vezes ilegal. à semelhança do chicken game. acabamos por fazer a besta. e optar pela «astúcia metafísica que consiste em livrar-se de uma parte da responsabilidade do mal.. aliás. ensina-nos que a vida se basta a si mesma. por ela nutrido e voltando a ela para a nutrir» (cf. se acreditássemos. cuja ilustração mais famosa é a corrida de dois carros para o precipício com a finalidade de revelar o condutor mais corajoso.Jean-Martin Rabot tido em que Karl Popper construiu uma teoria do reconhecimento da falibilidade do homem como condição da existência da sua liberdade. o adágio popular segundo o qual «o óptimo é inimigo do bom» tem toda a razão de ser. 2005: 27). pela pluma de Ricardo Reis. Ora. Ao querermos fazer o anjo. levaram aos genocídios que conhecemos. 2003: 280). Fernando Pessoa. à imagem de Michel Serres. como dizia tão bem Pascal. que organizam de maneira selvagem. uma entidade pendente sem malignidade. Nós sabemos que são inevitáveis os comportamentos de risco deliberadamente assumidos nas estradas. tal como o observamos no seu dia-a-dia. «definem o homem pelo Húmus: autóctone. como uma manifestação necessária do acaso ou do acidente. Mais vale concebermos os males morais do mesmo modo que concebemos os males naturais. «raves» nas quais pisam a terra barrenta horas a fio ao som da música «tecno». mas extremamente perigosa. exprimiu essa ideia de maneira mais erudita: «O ideal é a noção de que a Vida não basta» (cf. 2003: 191). Pelo menos. a sabedoria instintiva dos jovens. à semelhança de Trotsky. que pode deixar-nos em paz enquanto não a desafiamos» (Dupuy. Deste ponto de vista. que. Que se poderá pensar de um homem. do que nutrir acerca dele esperanças demasiadamente elevadas. vindo da terra.. podemos afirmar que esta sabedoria está em consonância com todos aqueles que.

no qual se alicerçam todos os poderes. Como o sublinha ainda Olivier Sirost no seu comentário à relação estudada por Alain Corbin entre o mar e a costa. a costa é um território que se constitui durante os séculos XVIII e XIX. uma procura hedonista do «supra-terrestre no infraterrestre» (cf. Doravante. passando do estatuto de abismo dos medos ao de praia dos prazeres. O que implica a aceitação da crueldade e. 1986: 893). a aceitação do destino. o mar é apreendido a partir desse ponto fixo e tranquilizante que é a costa. a sublimação do medo.. onde o medo e o arrepio se integram com o sublime. É este o sentido que Rüdiger Safranski dá à obra literária e poética do Marquês de Sade: uma aspiração à liberdade.). como o poder dos gestores. «Qual é então a mais “abominável” inclinação que a natureza colocou manifestamente em nós. verificou-se. mais vale ficarmos pelo aspecto contraditório. A mudança opera-se por meio de uma reorientação estética dos sentimentos. nos últimos séculos. com as suas árvores que parecem precipitar-se sobre o párabrisas antes de desaparecerem no retrovisor. 2005: 141). 2000: 184). Da mesma forma. enquanto que..Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas que salta do carro em último. tanto o poder dos médicos. Em suma. A cena marítima que aviva estas emoções muda o seu quadro de percepção. sem nos deixar a possibilidade de a satisfazer como o queríamos? É o 263 . heterogéneo. uma mudança de paradigma na apreensão dos perigos ligados às aventuras náuticas. 2002: 6). Perante estes comportamentos. uma consagração da estética no acto de destruição. como formas perversas de escapatória aos desígnios racionais da natureza e de Deus. na realidade. Rebel without a Cause (A fúria de viver). Diz Sirost: «em relação ao mar. constitui claramente um «ponto de inflexão do sentimento de “risco”» (Sirost. é o contrário que acontece» (Virilio. mais vale então adoptar o ponto de vista da «dromoscopia – este fenómeno óptico de desenrolamento que inverte as margens das estradas. e já não enquanto “mobilis in mobile”» (ibid. correlativamente. por aquilo que Fernando Pessoa chamou a «ebriedade do Diverso» (cf. múltiplo de toda a realidade. no filme protagonizado por James Dean.

«um abandono ao que 264 . ruptura» (Badiou. no final. A vontade do mal é. a liberdade moral elege o dever absoluto. Se pudesse. brusquidão. da autoria de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). já não serve a própria conservação. simplesmente. À semelhança de Kant. Encontramos um gosto antecipado dessa libertação na ebriedade sexual. romperia com a natureza. Em Kant. também para Sade. a renúncia a toda a ideia subjectiva».Jean-Martin Rabot desejo da destruição total. em Sade actua o desejo da destruição para com a destruição. somos aparentemente cúmplices do nada. no final.: 180-181). uma submissão «que não é mais do que a dissolução do “eu”. Em Sade. Sade exige uma dissidência com o que é fundamental. No entanto. Não esqueçamos que esta ruptura com a natureza em jogos de fantasia é um excesso de liberdade. 2005: 165). o que está em jogo é o triunfo da liberdade sobre a natureza. escorraçar qualquer coisa do nosso pensamento. tal como rompeu com Deus. E a paixão mais profunda de Sade é libertar-se do ser em geral. No cume do prazer sensual perdemos os sentidos. palpável na «aliança (mais uma correlação anti-dialéctica) entre a ferocidade mais extrema e a submissão absoluta». a liberdade apropria-se da negação absoluta: quando existe. É neste sentido também que Alain Badiou interpretou o poema A ode marítima. Um poema que exprime também um nomadismo ontológico. Já não é útil. ou. Já que podemos dizer “não”. patente na metáfora da pirataria que nos penetra. um consentimento «ao que advém». deveria deixar de existir» (ibid. poema que exprime um lirismo da barbárie. Mas nunca estamos fundidos na experiência do nada ao ponto de podermos desprender-nos totalmente de algo. já que podemos pensar a nossa morte. Esta perda aponta para a grande desvinculação a que Sade aspira ardentemente nos seus sonhos e fantasias. é contradição. se encontra numa escala oposta. já que «a relação com o real nunca é dada como harmonia. trata-se de um triunfo que. E este desprendimento é a grande obsessão de Sade. Não se trata do dever do bem para com o bem. (…). tão “pura” como havia também de o ser a vontade kantiana do bem. tornou-se num fim em si mesma.

violência. / Os nossos nervos femininos e delicados. além de representarem uma das únicas fontes de liberdade numa sociedade que invariavelmente tende para a uniformização. longitude. E a arte do saber consiste claramente em ajustar-se à arte de viver que se alicerça numa tal dialogia» (Maffesoli. / Queria eu que fosse em seu Todo meu corpo em seu Todo sofrendo. Badiou. Dois excertos de Pessoa comprovam o seu estetismo da violência e a sua paixão pela despreocupação: «Os piratas. / Brisa. a pirataria. evadir-se.. Toda a questão que se levanta aos sociólogos consiste então em saber integrar nas suas reflexões a realidade indelével da vida. fúria. / E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios! / (…) Tomar sempre gloriosamente a parte submissa / Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas!» (Pessoa. 265 . Destruições e construções andam de mãos dadas. cf. essa parte maldita que se chama mal. / E o terror dos apresados foge pra loucura – essa hora. cortejar a morte. patente nas expressões do tipo viver nos limites. ir até às entranhas. 1986: 908. terror. / Aquela hora marítima em que as presas são assaltadas. céu. / Que fosse meu corpo e meu sangue. cf. loucura: «Dialogia da pars destruens e da pars construens. gente. uma alteridade que está em nós e à nossa volta. têm o mérito de nos confrontar com a questão da alteridade. compusesse meu ser em vermelho. 2005: 159-160). bater no fundo.: 178). Badiou. nuvens. os barcos. estoirar. latitude. Os comportamentos de risco. por meio da aceitação do destino. eis os segredos do bom uso dos riscos. 2007: 30). mar. domesticar o desejo de morte pela ritualização festiva. 1986: 905. / Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma!» (Pessoa. essa alteridade..Os comportamentos de risco nas sociedades pós-modernas acontece» (ibid. Apaziguar os inúmeros perigos induzidos por esse indomável «querer-viver» (Maffesoli). «Ah. / A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis. barcos. crueldade. a hora. confrontar-se com os extremos. expor-se. os piratas! Os piratas! / A ânsia do ilegal unido ao feroz. / Que rói como um cio abstracto os nossos corpos franzinos. 2005: 168-169). / No seu total de crimes. vozearia.

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muitas pessoas que residiam nas áreas urbanas se deslocavam para o campo. pais de Maria. como também nas festividades populares em homenagem a Santo Antônio e São Pedro. também guardam o costume de acender fogueiras em homenagem não apenas a São João. que aqui comemora especialmente a colheita do milho. no Estado da Paraíba. esposa de Joaquim. cuja plantação coincide. o catolicismo comemora. Letras e Humanidades da Universidade Federal da Paraíba .O maior São João do Mundo em Campina Grande . 269 . para celebrar os Santos de Junho cujas datas comemorativas têm 1 Departamento de Comunicação e Turismo do Centro de Ciência. tanto por razões econômicas quanto por razões lúdicas. ainda. com o dia 19 de Março.Brasil: um evento comunicacional de interfaces culturais Severino Alves Filho1 Historicidade No Nordeste do Brasil as festas juninas sempre estiveram associadas ao mundo rural. no qual o catolicismo homenageia a São José e se estende até o final do mês de Julho. no Nordeste. João (24 de Junho) e Pedro (29 de Junho).João Pessoa . A tradição de acender fogueiras. as comemorações do ciclo junino aportaram e se enraizaram nas cidades.Brasil 2 As pessoas. mais ou menos. na cidade e no campo. principalmente na véspera do dia 24 de Junho2. a reunião das famílias em seu entorno. mãe de Jesus. quando os católicos homenageiam Santa Ana. como em Campina Grande. os santos Antônio (13 de Junho). Com o tempo. É um ciclo de festas transposto da Europa. Nesse período. Nesse período.

As festas juninas são festas agrárias ligadas aos ciclos naturais que marcavam a passagem do tempo. em especial nas culturas populares. sob a invocação ou não de Santo Antônio. o uso dos fogos de artifício produzidos artesanalmente. São trinta dias de festa . a pamonha e o munguzá e os bolos como o pé-de-moleque. culturais e turísticas do Estado com a localidade e com os demais municípios da região. as ocorrências da arte divinatória (voltadas. as festas populares do ciclo junino transformaram-se em eventos culturais com características mercadológicas. No próximo item relataremos o processo metodológico de investigação em culturas. o manuê e uma enorme variedade preparada com a massa-da-mandioca. nessa esteira. também. preparadas – quase sempre – com leite-de-coco. Hoje.um empreendimento público de caráter massivo e promocional para o turismo cultural da região. principalmente. os municípios vizinhos realizam festas juninas que tentam copiar o modelo de sucesso do evento em foco. considerada um megaevento na localidade e na região. em Campina Gande na Paraíba.Severino Alves Filho coincidência com a colheita do milho. políticas. A festa de “O maior São João do Mundo” teve sua institucionalização e seu início na década de 1980. tido como ‘santo casamenteiro’). para especulações em torno do casamento das pessoas. 270 . tais como a canjica. passaram a ser atração turística e fonte geradora de renda para a comunidade local e para a região. com feições de espetáculo com marcas profanas e. A realização dessa festa. É todo um conjunto de tradições que ainda se conserva. motivaram o desenvolvimento de uma série de festejos populares onde predominam: uma gastronomia própria3. além de brincadeiras onde a religiosidade popular deu ênfase. No início dos anos 1980. tendo origem anterior ao cristianismo. que re3 As comidas estão relacionadas com a abundância do milho-verde e da massa-damandioca. A Igreja Católica as transformou em manifestações cristãs. os costumes da dança e música que se adaptaram às condições do clima (principalmente a quadrilha). passou a estabelecer novas relações econômicas.

quando realizámos coleta de dados. o marketing. como panfletos. enfocando as especificidades conceituais e perspectivas analíticas que orientaram o processo de construção e análise do problema proposto. bandeirolas. camisetas e embalagens dos produtos das empresas participantes do acontecimento. o que possibilitou analisar a sua iconografia e captar seus múltiplos sentidos. produzidos pelos órgãos gestores da festa e por outras empresas. a comunicação organizacional integrada. A segunda etapa foi a da pesquisa de campo. coletámos vários instrumentos de comunicação dirigida. folhetos. que registram marcas de apropriação do uso dos símbolos da tradição junina em sua programação visual. gerador de discursos 271 . O Norte e A União. Percurso metodológico O caminho percorrido na condução da pesquisa foi dividido em duas etapas: a primeira concerne à revisão bibliográfica. O objetivo da pesquisa foi analisar a festa junina do “O maior São João do Mundo” como um evento comunicacional. cartões telefônicos. Durante a pesquisa.Brasil querem do pesquisador sensibilidade na escolha dos múltiplos caminhos a serem percorridos para que as pedras de toque construtoras desse processo respeitem as fronteiras simbólicas das culturas locais em contextos globalizados. com objetivos comunicacionais. onde examinámos a literatura sobre a festa. a teoria da Folkcomunicação e a teoria da análise do discurso. nos periódicos Jornal da Paraíba. Diário da Borborema e nos veículos impressos de circulação em João Pessoa.O maior São João do Mundo em Campina Grande . pesquisa na imprensa local. que forneceram não apenas as matérias jornalísticas mas também material iconográfico. boletins. cartazes e folderes da programação da festa. Pesquisámos ainda em sites ligados ao evento. O Correio da Paraíba. através de entrevistas e registros fotográficos das principais imagens dos cenários da festa.João Pessoa . a cultura massiva.

272 . isto é. [. apresentar contribuições no processo de mudança. pela qual optámos.. com objetivos comunicacional. de nossa mente. compreensão e busca de solução do referido problema.Severino Alves Filho organizacionais. É de Rúdio (1992) o seguinte conceito amplo de método: É o caminho a ser percorrido. analisar a interação de certas variáveis. a interpretação das particularidades dos comportamentos ou atitudes dos indivíduos. em ciências humanas e sociais. O material.] possui a facilidade de poder descrever a complexidade de uma determinada hipótese ou problema. A pesquisa de caráter qualitativo. nos anos de 2001 a 2003. já que a coleta de dados é executada sem considerar como cerne a quantificação. cujo objeto é trabalhado de maneira holística. foi coletado durante os meses de Junho. Examinando mais atentamente. a operação discursiva. utilizámos dados dos anos anteriores e posteriores a essas datas.. ou seja. do começo ao fim. no contexto do marketing. demarcado. O método qualitativo. compreender. mercadológico e institucional. criação ou formação de opiniões de determinado grupo e permite em maior grau de profundidade. uma vez que nosso interesse era também alcançar a contextualização de toda a promoção. é um trabalho intelectual empírico. o método da pesquisa científica não é outra coisa do que a elaboração. consciente e organizada. classificar processos dinâmicos e experimentados por grupos sociais. por fases ou etapas. através da apropriação de elementos da cultura popular pelas instituições públicas e privadas. que compõe o corpus da pesquisa. segundo Oliveira (2002). Na condução das análises do corpus. o método serve de guia para o estudo sistemático do enunciado. dos diversos procedimentos que nos orientam para realizar o ato reflexivo. E como a pesquisa tem por objetivo um problema a ser resolvido.

nasce em 1969 através da Análise Automática do Discurso (AAD). é com a Teoria do Discurso. político. surge no final dos anos 60 e firma-se nos anos 70. a saber: 4 A análise do discurso. filosofia e linguagem e propor uma perspectiva materialista das práticas da linguagem. envolvendo produtos culturais originários das manifestações da cultura popular. passando por uma revisão crítica em 1975. A nossa visão de discurso contempla os diferentes tipos de linguagem usadas em distintas situações sociais. organizacional. como as múltiplas marcas visibilizadas nos diversificados campos discursivos: jornalístico. no seio de uma conjuntura intelectual que procurava refletir criticamente as relações entre lógica. Tratava-se de uma prática e um campo da lingüística e da comunicação especializado em analisar construções ideológicas. na medicina. fundada por Michel Pêcheux. Considerações sobre análise do discurso A escola de análise do discurso francesa.Brasil Recorremos ao suporte conceitual da teoria da análise do discurso na condução do procedimento analítico da pesquisa. históricos e ideo-lógicos e suas condições de produção. acessar o discurso. 273 . A preocupação em A Propósito da Análise Automática do Discurso: atualização e perspectivas (1975). Optámos pela Análise do Discurso (escola francesa). também em 1975. por ser uma proposta teórico-metodológica que busca. do século XX. bem como em Semântica e Discurso. em especial da formação dos processos discursivos4.João Pessoa . o quadro epistemológico da análise do discurso configura-se na articulação de três regiões do conhecimento científico. publicitário. Conforme Pêcheux e Fuchs (1975).O maior São João do Mundo em Campina Grande . por meio dos sentidos do texto. religiosa e outras práticas discursivas que integram cenários multiculturais. seus sujeitos sociais. com essa especificidade.

A análise do discurso não trabalha especificamente com textos. está sempre em movimento. segundo constatamos nas referências bibliográficas. ele é um processo. como teoria das formações sociais e de suas transformações. Deste modo. a região do conhecimento evidenciada. 274 . 5 A data da tradução brasileira é de 1997. considerando a opacidade dos sentidos. é a teoria do discurso. as orientações de Michel Foucault.Severino Alves Filho a) o materialismo histórico. Michel Pêcheux desenvolveu seus estudos estabelecendo referências conceituais para os estudos da análise do discurso. O discurso não é um sistema fechado. ela substitui a análise de conteúdo. como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação. Portanto. mas uma prática lingüístico-social. pois considera os textos como materialidade destes discursos. para codificá-lo. Por isso. que apenas percorre o texto. como a teoria da determinação histórica dos processos semânticos. é encarado no âmbito das práticas que edificam a sociedade. não pode ser visto como um mero conjunto de textos. na sua historicidade. Influenciado pelas idéias de Foucault. materializadas na obra Arqueologia do Saber5 (onde se destaca a noção de formação discursiva). como teoria da determinação histórica dos processos sociais segundo o olhar semântico. E eles são defendidos como efeito de sentidos entre enunciadores. de natureza psicanalítica. Na análise do discurso faz-se uma leitura capaz de ir além de um sentido único. Pêcheux e Fuchs registram que essas três regiões são atravessadas e articuladas por uma teoria da subjetividade. Os conceitos basilares da análise do discurso que marcam e caracterizam a corrente francesa para esse estudo são. Na condição deste estudo. mas com discursos. c) a teoria do discurso. b) a lingüística. pelo lado do discurso. compreendida aí a teoria das ideologias.

e nem mesmo que o sentido possa ser qualquer um. mas por repensá-los. Atualmente. 275 . já que toda interpretação é regida por condições de produção. É evidente que.] a análise do discurso trabalha com as relações de contradição que se estabelecem entre as disciplinas lingüísticas e as ciências das formações sociais.Brasil Nos conceitos e releituras de Michel Pêcheux. e os interesses dos analistas.João Pessoa . e que são usados como estudo no contexto da análise do discurso. não pelo aproveitamento de seus conceitos. têm como base os conceitos oriundos das correntes francesa e anglo-saxã. que nutrem essas pesquisas. No Brasil. na lingüística. com o decorrer do tempo.O maior São João do Mundo em Campina Grande .. nas ciências das formações sociais. aproximações teóricas e novos olhares se agregaram a esses conhecimentos. Os referenciais teóricos.. caracterizando-se. os trabalhos da análise do discurso não estão centrados em um único modelo ou corrente. [. históricos e culturais. mudanças. em que as análises são resultados dos momentos e dos lugares de enunciação em que se inserem os discursos a serem estudados. Segundo Ferreira (2001). os trabalhos de pesquisa acadêmica são desenvolvidos com base na multiplicidade dos corpora que espelham as práticas sociais vivenciadas em diferentes momentos políticos. Ela defende que a análise do discurso francesa permite trabalhar em busca dos processos de produção de sentido de suas determinações histórico-sociais. questionando. a negação da historicidade inscrita na linguagem e. a noção de transparência da linguagem sobre a qual se assentam as teorias produzidas nestas áreas. já posto. Isso implica o reconhecimento de que há uma historicidade inscrita na linguagem que não nos permite pensar na existência de um sentido literal. os estudiosos têm a referência basilar dos estudos da análise do discurso. Predomina uma combinação.

Severino Alves Filho Análise do discurso: conceitos-chave Os conceitos escolhidos para essa abordagem são pautados no caráter heterogêneo do objeto em estudo: os discursos organizacionais no contexto do folkmarketing. bandeiraços e outros cenários. grafitos. possíveis conforme as condições em que os enunciados deste discurso são re- 276 . não dos seus produtos. Para (Pêucheux. O cotidiano promove encontro diário com uma multiplicidade de discursos originados pelos panfletos. sobre os quais foram procedidas as análises em busca de múltiplos sentidos. que se produz socialmente através de sua materialidade específica (a língua) é uma prática social cuja regularidade só pode ser apreendida a partir da análise dos processos de sua produção. banners.1969). discurso é efeito de sentido entre interlocutores. objeto teórico da análise do discurso (objeto históricoideológico). Ou seja. pois integram as práticas cotidianas no contexto social. Apresentamos a noção de “discurso”. todo discurso produz diferentes sentidos. malas-diretas. segundo Ferreira (2001): O discurso. produzindo múltiplos sentidos. catálogos. Esses instrumentos de comunicação são objetos de estudo na análise do discurso. relatórios empresariais. É importante ressaltar que essa noção de discurso nada tem a ver com a noção de parole/fala referida por Saussure. Tais objetivos reunidos constituiram nosso corpus da análise. guias turísticos. folderes. global e local. outdoors. entendendo corpus como um conjunto finito de materiais coletados. cartazes. faixas. produzidos pelas organizações públicas e privadas que participam do evento em análise. O discurso é dispersão de textos e a possibilidade de entender os discursos como prática derivada da própria concepção de linguagem marcada pelo conceito de social e histórico com a qual a análise do discurso trabalha.

promovem várias ressemantizações dos mesmos. os sentidos são produzidos com base no universo simbólico do ciclo junino e à medida que os públicos entram em contato com estas produções.. moventes. mas. Nos cenários do evento em estudo. combinam sentido de acordo com as posições assumidas por aqueles que as empregam. é determinado pelas suas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras. Eles nunca estão dados. reproduzidas). econômicas e políticas daqueles que as produzem/reproduzem. não interessa 277 . a saber: [. as proposições. que aproveitam as suas histórias de vida e as suas convivências e trocas em âmbito rurbano. etc. de uma proposição. etc. social.João Pessoa . econômico e cultural. Pêcheux (1995) afirma que [. originam discursos fundamentados e orientados segundo a historicidade de um contexto social. não existem como produto concluído. Dessa forma..] o sentido de uma palavra. sempre em curso.] historicidade é modo como a história se inscreve no discurso. bem como de quem os interpreta (reprodutores). produzem-se e se modificam em um determinado contexto histórico.. entende que as palavras.. que se explica segundo o entendimento de Ferreira (2001). de uma expressão. em sua relação transparente com a literalidade do significante). sendo a historicidade entendida como a relação constitutiva entre a linguagem e história.Brasil produzidos e a formação ideológica do sujeito que os produz. Os produtos culturais dos acontecimentos ou eventos comunicacionais.O maior São João do Mundo em Campina Grande . Para o analista do discurso. Em Semântica e discurso. não existe em si mesmo (isto é. expressões e proposições são produzidas (isto é.. Os sentidos são intervalares e mutantes.. Essa mudança vincula-se também às relações culturais. Os sentidos são sistemas abertos. as imagens. ao contrário.

278 . essas marcas se fazem presentes nas danças. Os enunciadores dos discursos organizacionais. gerando um conjunto de discursos. o lugar de produtor físico do enunciado». apresentam fronteiras fluídas. na música. No Nordeste do país.um espaço de constituição de sentido. marcada pelo legado cultural do colonizador português e da mistura das etnias autóctones e/ou transatlânticas que integram a paisagem híbrida cultural brasileira. permitindo o deslocamento das significações. Para ele. bem como nas festas populares. que ocupa. Orlandi (2001) defende que a noção de formação discursiva «permite compreender o processo de produção dos sentidos. no contexto do folkmarketing.Severino Alves Filho o rastreamento de dados históricos em um texto. durante os 21 anos de sua realização. nas vestimentas. Segundo Charadeau (2004). dela participam. com fronteiras permeadas por deslocamentos nas suas relações com a exterioridade. . a sua relação com ideologia e também dá ao analista a possibilidade de estabelecer regularidades no funcionamento do discurso» Sendo elas . mas a compreensão de como os sentidos são produzidos. a posição do enunciador coincide com aquela de produtor do enunciado. embora haja casos do ‘eu’ não ser empregado para fazer referência ao produtor. de modo que uma formação discursiva pode. nos rituais de celebrações religiosas. na produção. no acontecimento em foco. aberto e com marcas heterogêneas. nas comidas típicas.as formações discursivas . então. «o enunciador é aquele que diz ‘eu’. ser entendida como uma unidade heterogênea. são as instituições públicas e privadas que. A esse trabalho dos sentidos no texto e à inscrição da história na linguagem é que se dá o nome de historicidade. É assim que se dá com “O maior São João do Mundo”: um produto cultural constituído de discursos cujos sentidos vinculam—se à historicidade. visibilizando o universo simbólico da festa junina com objetivo comunicacional.

] a apropriação do conceito e a desidentificação de que essa apropriação necessita se efetuam. segundo a posição e a condição que cada enunciador ocupa no espaço onde atua. materializada através de símbolos. perspectivas [. 279 . que a fazem adquirir a condição de presentificação. no contexto do folkmarketing. culturais. ao mesmo tempo. de dominação. de aliança e/ou de contemplação. assim. diagramas. políticas. com objetivos comunicacionais mercadológicos e institucionais que. nos seus discursos organizacionais. para constituírem os discursos folkcomunicacionais. são apropriadas dos saberes populares da tradição junina. mitos. impõem à apropriação uma identificação. garantias. Para Pêcheux (1997). [. a heterogeneidade discursiva destaca que todo discurso é atravessado pelo discurso do outro ou por outros discursos. etc). Estes diferentes discursos mantêm entre si relações de contradição. Não se dá de maneira diferente com os enunciadores dos discursos organizacionais.. através de uma identificação-presentificação que coloca inevitavelmente em jogo conveniências. numa mise-en-scène (ficção realizante) do conceito ou do dispositivo experimental como ‘coisas’ (figuras. cenários e figuras do cotidiano rural e religioso com que se constrói o universo simbólico dessa formação discursiva heterogênea que é a festa do ciclo junino.].. esquemas.Brasil No caso da festa junina do “O maior São João do Mundo”. em seqüência. as marcas que os enunciadores visibilizam.O maior São João do Mundo em Campina Grande .. posto que eles promovem uma apropriação dos conhecimentos e dos saberes da cultura popular.. Diz o autor que essa identificação e presentificação se apoiam. Para Ferreira (2001). E são marcas contaminadas por características sociais.João Pessoa . de confronto. paradoxalmente.

A interpretação dos processos comunicacionais envolve uma visão holística dos discursos analisados. que para este escrito tem a mesma acepção de “evento” ou “fato”. também. política. [. Mais ainda. quanto. demonstrando que os fatos sociais são sempre complexos. instaurando um novo processo discursivo. as condições de produção dos discursos tanto são responsáveis pela viabilização do acontecimento em que um discurso é originado. cultural. como no caso em estudo. as variáveis sócio-culturais e políticas. 280 . O acontecimento inaugura uma nova forma de dizer. por trás dos discursos. simbólicos e polissêmicos. para Ferreira (2001). dinâmicos e estruturais. Nas relações de edificação das condições de produção. históricos. partindo-se do pressuposto de que. podendo ser feito a partir de uma ênfase sociológica. sócio-histórico ou sócio-cultural. mercadológica. o acontecimento deve ser focado como um evento que produz um fato físico. filosófica ou folkcomunicacional. Na concepção da análise do discurso. estabelecendo um marco inicial de onde uma nova rede de dizeres possíveis irá emergir. trata-se de uma visão que defende que o todo não é a mesma soma das partes e que tem propriedades que faltam aos elementos individuais que o constituem. psicológica. existem sentidos para serem mobilizados e interpretados. enquanto um fato discursivo dinâmico. Pode ser observado e estudado pela análise do discurso. ‘Acontecimento’. também.Severino Alves Filho Noutras palavras. são de fundamental importância para a sua constituição. um processo gerador de novas maneiras de dizer.. o enfoque da interpretação varia. desde o lugar onde os discursos são gestados. O acontecimento é um processo comunicacional que veicula um conjunto de significações de um emissor para um destinatário.. Daí. pelas suas contestações. heterogêneos.] é o ponto em que um enunciado rompe com a estrutura vigente.

e que proporcionam ao analista interpretações e re-interpretações. segundo a percepção dos sistemas de conhecimento e crença dos intérpretes e dos pressupostos que orientam as relações sociais e as identidades. para quem a «análise de discurso procura descrever. arrumados ou rearrumados. provocando diferentes interpretações. e/ou de outros sistemas semióticos. os produtos culturais devem ser entendidos como textos. então. tornando-a visível através de cenários e programação com discursos elaborados. re-elaborados e apresentados pelos meios de comunicação massivos.O maior São João do Mundo em Campina Grande . clube social de militares que serviam na cidade. porém restrita ao âmbito do Gresse. teria ocorrido pela primeira vez em Campina Grande no ano de 1966.João Pessoa . circulação e consumo dos sentidos vinculados àqueles produtos na sociedade». convertendo-se num mega-evento ao redor dos anos 80 do século passado. 281 . A ser seguida a compreensão de Pinto (1999).tem procurado resgatar da memória do público uma cultura tradicional rural. Essa estruturação pode ser ampliada ou reduzida. vestígios ou marcas deixadas pelos processos sociais de produção de sentidos. O acontecimento cultural aqui estudado. na sua superfície é possível encontrar pistas. que se encontram depositadas na memória. explicar e avaliar criticamente os processos de produção. como formas empíricas do uso da linguagem verbal. A festa.Brasil A construção dos discursos consiste na maneira e na ordem em que os elementos ou eventos são combinados. Na festa junina de Campina Grande ocorre um entrecruzar dos 6 Há informações de que a festa. que vem se realizando há mais de duas décadas – embora sua origem histórica efetiva seja ainda mais remota no tempo6 . Poder-se-ia. oral ou escrita. no interior de práticas sociais contextualizadas. afirmar que os produtos culturais dos eventos comunicacionais originam os textos/discursos que podem ser verbais e não-verbais e que. com a duração de 30 dias. histórica e socialmente. para se constituírem e serem visibilizados na sociedade. desde então. não foi descontinuada.

das vivências rurais e urbanas.. os ensinamentos do cotidiano rural para os públicos que buscam recordar fatos ligados aos festejos juninos que estavam guardados na memória.de geração em geração . referida por Grigoletto (2003): «a concepção de memória coletiva. a se situar. o qual passa. os seus ensinamentos». Durante a realização do evento junino de Campina Grande. é preciso que ele seja reconstruído a partir de dados e de noções comuns aos diferentes membros da comunidade social.Severino Alves Filho símbolos do passado e do presente.] a publicidade utiliza a imagem em complementaridade com o enunciado lingüístico para apresentar .. a se representar esse lugar. musicais. sobretudo.] lembrar um acontecimento ou um saber não é forçosamente mobilizar e fazer jogar uma memória social. das diferentes organizações... do global e local. religiosas. através da história . as suas crenças. Os condutores dos processos de comunicação organizacional. os costumes. seus gestores promovem programações gastronômicas. no contexto midiático na contemporaneidade. Segundo Davallon (1999). sublinha que. enquanto constitutiva de um determinado grupo social. Achard (1999). se apropriam desses conhecimentos populares para dinamizar suas campanhas publicitárias junto aos seus públicos de interesse. presentes no mosaico de imagens originadas pelas apropriações do universo simbólico da festa junina.as qualidades de um produto e conduzir assim o leitor a se recordar de suas qualidades.tornar presentes . [.os seus dogmas. com objetivos mercadológicos e institucionais. É a memória coletiva. apresentações e representações que visibilizam e retomam as crenças. Os processos polissêmicos. mas também fazê-lo se posicionar em meio ao grupo social dos consumidores desse produto. do “O 282 . [. e. Há necessidade de que o acontecimento lembrado reencontre sua vivacidade.

ou seja. Da primeira delas. A segunda. A formação discursiva institucional é um processo produtor de sentidos orientadores da construção.do “O maior São João do Mundo” – que se assenta em um espaço discursivo permeado por sentidos edificados a partir e formações discursivas religiosa. mitos e celebrações. com o direito de visibilizar e vender os produtos e serviços nas localidades onde atuam as empresas. Esse espaço discursivo é o lugar de mostrar os discursos. fazem parte ritos. construídas com objetivo de mobilizar sentidos e lembranças que permanecem guardados na memória do público rurbano.João Pessoa .O maior São João do Mundo em Campina Grande . O evento comunicacional gerador de discursos organizacionais folkcomunicacionais . permitem. 283 . que serão analisadas e que comporão a operação analítica. resultado da multiplicidade de sentidos vivenciados nessa rede discursiva. permitindo reenquadrá-las no discurso concreto no qual nos encontramos. tanto as de cunho eclesial quanto as provenientes da cultura popular. na próxima etapa desse estudo. onde o passado e o presente se entrecruzam e são operacionalizados em cenografias. pelas instituições públicas e privadas.Brasil maior São João do Mundo”. devido à presença variada de símbolos e métodos de significação e de re-significação. nos lugares onde atuam. exibição e da solidificação da imagem das organizações. materializados pelas imagens publicitarías e cênicas da festa junina. mesmo que realmente memorizado. no contexto do folkmarketing. atua como mediador de reformulações. a formação discursiva religiosa. mercadológica e institucional. constituídas pela apropriação dos saberes da cultura popular por parte das instituições públicas e privadas que agem na região e na localidade da festa junina do “O maior São João do Mundo”. formação discursiva mercadológica uma ação mercadológica projetada para ser operacionalizada nas comunidades de consumo. O passado. As formações discursivas integram as condições de produção do discurso comunicacional organizacional.

como significantes da vida social. patrocinadoras e/ou apoiadoras. considerando sua amplitude. A constituição do corpus é um mosaico construído pelo analista e com o qual ele irá proceder à análise. tecendo algumas considerações sobre o material que compõe nosso corpus de estudo. o qual é orientado pelos questionamentos abaixo. por parte das empresas enunciadoras dos discursos. ao analisar textos. no âmbito da comunicação organizacional. na construção das formações discursivas. de um texto. estende a noção de corpus. compreender o funcionamento dos discursos folkcomunicacionais gerados pelas empresas públicas e privadas que participam do evento em foco. Segundo Barthes (1976). com recorte para o folkmarketing? b) quais os símbolos mais usados da festa junina. em especial. na condição de gestoras. em nível de trocas simbólicas. na modalidade comunicativa do folkmarketing? c) quais os sentidos mais evidenciados. música e outros materiais. para qualquer outro material. Barthes. que permitirão visualizar e compreender a festa junina do “O maior São João do Mundo” . no contexto da modalidade comunicativa do folkmarketing. imagens.como um evento comunicativo gerador de discursos organizacionais. no âmbito do folkmarketing: a) de que forma ocorre a relação de apropriação e materialização por parte das empresas do universo simbólico da festa popular do ciclo junino do “O maior São João do Mundo”. promovendo apropriações do universo simbólico da manifestação da cultura popular. na ação comunicacional do folkmarketing? Buscamos.Severino Alves Filho Análises dos blocos imagéticos discursivos-BID Iniciamos a análise. 284 . a homogeneidade da materialidade e a temporalidade. «o corpus é uma coleção finita de materiais determinada de antemão pelo analista com (inevitável) arbitrariedade e com a qual ele irá trabalhar».

BID. bonecos de milho. babados e rendas. Os elementos que integram o símbolo artesanal são: o sabugo de milho. segundo o contexto cultural. transformações radicais de sentidos. buscamos. O milho. durante a festa e por todo o mês de junho. o chapéu de palha.Brasil Apresentamos os BIDs. objetivos mercadológico e institucional. o triângulo e a zabumba.João Pessoa . o forró.Programação da Festa Folder da programação de 2000. Nessa apropriação. As espigas de milho verdadeiras são transformadas em representações de figuras humanas. pela primeira vez no ano de 1984. historicidade. mas reaparece em todas as programações como uma das referências do evento. o símbolo sofre uma transformação radical. produto agrícola básico. e que serão distribuídos. pois este é a base das comidas típicas que se encontram presentes no banquete junino. a chuta estampada e colorida. e o instrumento musical referencial da música regional . histórico e comunicacional da festividade. BID . 285 . são produzidos artesanalmente. O Sabogildo e Milharilda. executam páginas musicais do ritmo identitário da região Nordeste. com bico. (Fonte: arquivo do pesquisador) O casal de bonecos de milho foi o símbolo da festa.O maior São João do Mundo em Campina Grande . com suas respectivas nomeações. na seguinte seqüência: BIDProgramação da festa . registrar e analisar os seguintes níveis de apropriação:manutenção da identidade cultural. através destes. adquire um novo sentido: passa a ser o casal ”embaixador do forró”. presente nas comidas típicas da festividade. para a análise.Embalagens juninas. junto com o pandeiro.O milho é o símbolo que representa os traços e os valores da cultura rural e da festividade junina.a sanfona que. nos lares do nordestino.

como: água. 1991. que almeja aproximarse do rural.Severino Alves Filho A construção de sentidos mobilizados pelos personagens. em uma dança com evoluções. baseadas na necessidade física e material do seu cotidiano. evidencia que o milho é o elemento mediador entre a cultura rural e urbana. o milho perde a generalização de produto a ser consumido para se transformar em personagem com o qual o receptor se identifica. Os balões coloridos conduzem os nossos sonhos. Ao adquirir personalidade e identidade. além de tantas outras solicitações. 286 . Segundo essa perspectiva. transformados em um casal de matutos estilizado. Outdoor da empresa de telecomunicções BCP (Fonte: arquivo do pesquisador . além de telefones celulares. pois é no ar que os nossos pensamentos voam. o imaginário é composto por imagens oriundas de variados materiais da natureza. por graças alcançadas junto aos santos juninos para fazerem um bom casamento. 1993) em suas obras. ele pode tanto manter-se fiel a sua origem rural quanto identifica-se com o receptor urbano. bem como bandeirolas em cores variadas. para chover ou por obterem uma boa colheita. Neles também são levados os pedidos e agradecimentos dos devotos. sem formas definidas e sem fronteiras.Assim. os principais símbolos evidenciados são os balões coloridos. Nesse bloco imagético discursivo. ar. Junho/2001/2002) O balão é um engenho humano que simbolicamente representa o elemento ar. a partir dessa condição de produção. dos quatro elementos mencionados por Bachelard (1990. fogo e terra.

aqui. como marcam identificadora da vestimenta. A festividade junina. na medida em que se transforma o casal de matutos. um casal simpático e sorridente. em princípio frio e distante. em sua dimensão cultural. que é a venda de telefones celulares. são adicionados acessórios diferenciados. combinados com os da cultura de massa: o balão que leva mensagens é o celular que também permite transmitir mensagens. A BCP agrega no seu discurso a mensagem . Nele.O maior São João do Mundo em Campina Grande . Assim. a de que no “O Melhor São João do mundo a gente só pode falar bem”: da festa. das conquistas. Falar para os amigos que não vieram e não conhecem a festa. gera. usados nas danças típicas juninas. e o segundo o celular é personalizado. Em especial. religiosa e turística. dois níveis de discurso: primeiro a apropriação imediata. como chapéu de palha e uma trança. a apropriação mostra uma transformação em nível radical do sentido principal do aparelho de telecomunicação. no evento do “Maior São João do Mundo” transitam no céu estrelado de Campina Grande e da região. levando mensagens para os seus públicos consumidores. Combinam-se. imediato. os sentimentos de pertencimento e valoração da cultura junto ao objetivo mercadológico. onde o celular aparece simulando um casal de matutos estilizado. são sentidos nas condições de produção dos discursos não-verbais/verbais organizacionais O outdoor da BCP.João Pessoa . de símbolos da cultura popular. os “balões coloridos” que.Em cada lugar de Campina Grande você vê a alegria do São João.Brasil As empresas de telecomunicação em foco agregam ao seu discurso publicitário tradicional. um elemento não elimina nem diminui o outro. há complementação. da alegria de estar junto e comemorar a manifestação popular mais significativa da região. do “orgulho” de pertencer à região do país em que a tradição da festa junina é o referencial da cultura regional e local. da viagem de um amigo. em qualquer es- 287 . aproximando efetivamente o objeto. na atualização do suporte balão para celular.

amigos e visitantes. o lugar da festa do “Maior São João do Mundo”. foi morto na Itália. Nascido em Portugal. em 1231.Severino Alves Filho paço da região e da cidade. Nela. BID – Embalagens Juninas A celebração dos santos juninos se constitui numa marca dessa formação discursiva religiosa. Na materialidade destacada para análise. in- 288 . Santo Antônio é celebrado e considerado como milagroso pelas graças. ao seu discurso os símbolos fundadores da festividade junina. além de muitos outros pedidos. no Nordeste do país. além de descoberta de objetos. a reforçarem o orgulho de ser campinense. Nesse discurso. especialmente. os santos juninos comemorados são Santo Antônio (dia 13). envolvendo. São João (dia 24) e São Pedro (dia 29). A popularidade do santo. Santo Antônio é padroeiro dos pobres. agregando. o casamento. a alegria da celebração e da comemoração dos santos juninos com os familiares. é uma realidade. a imagem de Santo Antônio. A embalagem do cartão telefônico de 30 unidades da empresa de telecomunicações TELEMAR se apropria do símbolo da formação discursiva religiosa da festa do ciclo junino. a identidade cultural é uma marca significativa. de nome Francisco de Bulhões. que mobilizam sentidos e evidências financeiras para as empresas que participam desse projeto cultural. em 1195. É a alegria de se ver as coisa da terra sendo preservadas e valorizadas. obtenção de empregos e aprovações em exames escolares.

Na comunidade religiosa. em especial. quando a modalidade comunicativa do folkmarketing atua com objetivo institucional na divulgação da lo- 289 . em louvor ao santo. O “Casamento Coletivo” é uma atração com as seguintes condições de produção: o caráter religioso em torno do santo é fruto das crenças populares. relacionadas ao casamento. também é dedicado ao “Dia dos Namorados”. que presenteia aos nubentes com o bolo. para alcançarem bons casamentos rezam à trezena. para conseguir marido. uma das atrações é o “Casamento Coletivo” que ocorre. na maioria das vezes. No evento “O maior São João do Mundo”. a realização do casamento civil coletivo. penteado.João Pessoa . a institucional laica e a popular. No mês de junho. colocar a imagem dentro de uma cacimba. que edifica o discurso com sentido institucional. as despesas de cartório. “era uma vez”. cuja anunciadora é a gestora do evento. Assim. retirar-se o esplendor. fragmenta-se em uma ação turística. Essa atração se constituiu numa ação de folkmarketing. as moças casadeiras e as mães. à véspera da data de comemoração da festa do santo. marcada pelas crenças religiosas populares. Se o Santo não atender. 44 cidades da Paraíba realizam festas religiosas em louvor a Santo Antônio. mescla-se a perspectiva religiosa.O maior São João do Mundo em Campina Grande .Brasil vocado para achar objetos perdidos e promover casamentos. Segundo a crença popular. no Parque do Povo. dia 12 de Junho. garantindo colocá-la na posição certa assim que seus pedidos sejam atendidos. num afogamento deliberado. amarrada pelas pernas. as devotas promovem advinhas e rituais. orações que se iniciam no dia 1º e duram até o dia 13 de junho. a Prefeitura Municipal de Campina Grande. dentro da formação discursiva religiosa. A atração cultural. ele é o santo padroeiro. maquiagem e fotografias. que acontece em frente à cenográfica Catedral de Nossa Senhora da Conceição. e em três dessas. colocando sobre a tonsura uma moeda pregada com cera. É um evento promovido pela Prefeitura Municipal de Campina Grande. é o lugar da festa. como: por a imagem de cabeça para baixo.

lojas de jóias e perfumarias. floriculturas. O símbolo religioso em foco. para a dinamização do processo comunicacional nas comunidades de consumo regional e local. do desfrute de uma mesa com abastança. de renovação. lojas de confecções. dia de Cartões telefônicos da empresa Brasil Telecom (imagens de comidas típicas) (Fonte: arquivo do pesquisador . o locus de nosso estudo. da “conquista” e do “desejo”. No período da manifestação popular da Festa Junina. mais precisamente 12 de Junho.Severino Alves Filho calidade. de gratidão.se a canjica. No período junino.as advinhas . em Campina Grande. evidenciando símbolos do saber popular . que foi plantado em março. pela colheita. no dia 19. Santo Antônio. o bolo pé-de-moleque. restaurantes. consagrado ao “Dia dos Namorados”. pratos que compõem o cardápio básico da mesa junina. Junho/2003) São José. em especial do milho. a pamonha. também é apropriado com a função comunicativa mercadológica. gerando discursos no contexto do folkmarketing. compartilhada com os familiares. pelas empresas privadas. o comércio formal e informal. As comidas que integram a culinária da festa junina é uma miscelânea da temperança da cultura nordestina. e colhido no mês de junho. como: shopping centers. que constituem a nossa história e uma das referências identitária da região. vizinhança e amigos. motes usados nos discursos publicitários.vinculadas ao “Santo Casamenteiro”. Nas imagens estampadas nos cartões telefônicos evidenciam. motéis. o milho cozido ou assado. o banquete tem os sentidos de alegria. indígena e dos dominadores portugueses.Além 290 . promove o calor do “fogo da paixão”. onde encontramos traços culturais das raças negra.

amendoim e especiarias como cravo e canela. pães. no dia 24 de junho. A arte de fazer essas comidas típicas saboreadas na época junina é um legado cultural transmitido pelas “pretas velhas”. suflês. macaxeira. constituindo a memória coletiva. produzindo efeitos simbólicos. pelas avós para as mães. vizinhos e amigos. Enquanto come e bebe para celebrar as festividades. junto com o açúcar. papas. segundo a concepção rabelaiseana do mundo (Bakhtin. sopas.O maior São João do Mundo em Campina Grande . As comidas típicas da festividade junina são objetos culturais. como fato social. via caderno de receitas. pudins. na consciência do grupo. da concepção e do nascimento de São João Batista. Esse conhecimento culinário passou. o homem engole o mundo e não é engolido por ele. as netas e as amigas. Para Achard (1999). castanhas. «a imagem atua como operadora da memória social no seio de nossa cultura e convida para poder dar sentido ao que ele tem sob os olhos. do passado. As imagens visibilizadas nas embalagens dos cartões telefônicos em análise mobilizam os sentidos constitutivos da cultura nordestina como traços identitários. da comemoração do encontro e dos desencontros com a alegria e a tristeza. da alegria de estar junto dos familiares. de geração em geração. retendo. 291 . cuscuz. broas. respectivamente. através de ícones que operam acordos com a capacidade dos olhares. através da história oral e escrita. As imagens rabelaiseanas de banquete na festividade junina mobilizam os sentidos de celebração da vitória da colheita. dessa região. fazem do banquete de São João uma festa de prazer à mesa. permite criar de uma certa maneira numa comunidade um acordo de olhares». abriga uma dimensão simbólica que é apropriada pelas empresas que participam do evento em foco. da ressonância histórica e das lembranças. A memória. operadores da memória social nordestina. 1999). com milho se fazem bolos.João Pessoa . Propiciam o intercruzamento entre a memória coletiva e a história. côco. as filhas. o que dele ainda é vivo ou capaz de viver. fubás e pipoca. ovos.Brasil dos já mencionados pratos típicos do ciclo junino.

a função ou o consumo são exacerbados pelos objetos e pelas imagens apresentadas ao consumidor. em contexto conflituoso e de hibridez cultural. Essa estratégia comunicativa diferenciada. a ênfase quantitativa sobre a comida! De um ou de outro modo.que está ligado ao sentido da audição . alguns dos pratos preferidos. solidifica a imagem e os níveis de relacionamento dessas organizações com seus públicos que. da preferencialidade qualitativa. agregam. Nas celebrações da festividade junina. em ambos os casos. num local em que a festa é vendida e consumida como mercadoria. ou seja. Pode-se imaginar que. além de perseguirem um serviço de qualidade. Por isso. também valorizam a cultura onde atuam. seja favorecida a idéia da característica individual.Severino Alves Filho Observe-se que. enquanto que. objetivam o lucro. Concluímos que a festividade em estudo é um evento gerador de discursos em que as relações sociais entre as pessoas são mediadas em parte por imagens. à sua formação discursiva. no caso em estudo. enquanto a Brasil Telecom preferiu destacar um a um. além da prestação de serviços. a Telemar optou pela fotografia de conjunto. elementos da cultura popular que fazem parte da construção cotidiana nordestina. 292 . propriamente dito. da memória social do nordestino e dos campinenses. sugere-se o banquete coletivo. os espaços da festa agem como uma vitrine para essas empresas que. com base nos saberes locais. pelo projeto do modo de produção da classe dominante e pelo modelo atual da vida predominante na sociedade local. em especial. o que chama a atenção é a vinculação do cartão telefônico . Os discursos são constituídos por marcas da produção reinante e da mistura de símbolos culturais do passado e do presente. no primeiro caso.ligadas ao sentido do paladar.às imagens das comidas . na segunda.

H. mídia e cultura regional. a presença do velho: análise de funcionamento da repetição e das relações divino/temporal no discurso da Renovação Carismática Católica.(1969) Folclore do Brasil. Lopes.Tratado de metodologia científica:projetos de pesquisa. São Paulo: Hucitec.Porto Alegre:Armazém Digital.(2001) Glossário de termos do discurso.(2002). P. JoãoPessoa: Editora Universitária/UFPB Maingueneau.R. Brasília: Ed.C. Porto Alegre: Comissão Gaúcha de Folclore.(1992) A fala dos quartéis e as outras vozes.C.Fragmentos de uma poética de fogo.São Paulo: Pioneira. Morigi.(2003) Sob o rótulo do novo. Oliveira. Grigoletto. monografias.E. p.L.74.(1998) Termos-chave da análise do discurso.G.(1994) Introdução à análise do discurso.São Paulo: Brasiliense Bakhtin.L. Rio de Janeiro: Forense Universitário. Orlandi. et al. Bachelard. Porto Alegre: Ed.(2004) Folkcomunicação na sociedade contemporânea.V. Cascudo.(2003) ‘A força d’O Maior São João do Mundo’. S. (Turismo e Eventos) Lucena Filho.O maior São João do Mundo em Campina Grande .A. 25 maio de 2003. Campina Grande. C. Uma análise do Discurso Presidencial da Terceira República Brasileira (1964-1984). M. da UFRGS. Papel da Memória. Tese originalmente apresentada ao Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da linguagem como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Ciências. M. dissertações e teses. da Universidade de Brasília. Campinas: UNICAMP. E.S. Porto Alegre: Instituto de Letras/UFRGS. Campinas. Indursky. SP: Pontes. Benjamin. Diário da Borborema.(1999)Papel da memória. Ferreira.(1997) Arqueologia do saber. 293 .(2001) Interpretação: autoria e efeitos do trabalho simbólico.F. Brasil/Portugal: Fundo de Cultura. D. Davallon.S.Brasil Bibliografia Achard.(1999) A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Belo Horizonte: UFMG. Campinas: Pontes. uma arte de memória? In: ACHARD.L. Campinas . Campinas: Pontes.M.E. J. A (1999) Imagem. P.J.(1990).(2007)Narrativas do encatamento: o maior São João do mundo.(1998) A Festa Junina em Campina Grande-PB:uma estratégia de folkmarketing.João Pessoa . Brandão. N. Foucault. P.

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tendo mesmo nascido recentemente uma área científica autodesignada por Economia da Cultura. na última década.com . assumindo como ponto de partida para a reflexão a tradição anglo-saxónica dos Estudos Culturais. a esta valorização académica e social. quer nos mais latos e clássicos domínios da formação humanística e artística. questionando as suas limitações e dificuldades epistémicas. Acresce ainda. www. realidades cada vez mais presentes nos contextos universitários. a tomada de consciência generalizada do potencial económico que detém. Partindo deste reconhecimento. metodológicos e académicos desta área do saber. mas também assumindo as virtualidades que lhe são próprias e que se encontram ainda longe de estarem exauridas. o presente trabalho procura fazer o levantamento dos principais desafios teóricos. em primeiro lugar. o que se fica a dever. práticos. à valorização social crescente que tem sido concedida a esta área.A investigação e o ensino da Cultura tornaram-se. quer enquanto fator de conhecimento e compreensão das novas dinâmicas sociais e culturais da contemporaneidade.ruigracio.