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A Carteira de Meu Tio

Joaquim Manuel de Macedo

Síntese e Análise

Introdução

O narrador se autodenomina sobrinho de seu tio, pois seu tio é alguém importante
na sociedade, logo ser sobrinho de seu tio, era ter um nome: “... eu sou sem mais nem
menos o sobrinho de meu tio: não se riam, que não há razão para isso: queriam o meu
nome de batismo ou de família?... não valho nada por ele, e por meu tio sim, que é um
grande homem.”
Ele diz que é o avesso de seu tio que fala pouco e sabe muito, pois ele (narrador)
nada sabe e muito fala. Diz que se tivesse 40 anos estaria na lista tríplice do senador.
Ele passou 5 anos estudando em Paris, isso para seu tio que o bancava, pois na
verdade a única coisa que ele não fez foi estudar. Acabados os 5 anos foi a Alemanha,
conseguiu um diploma falto de qualquer coisa e voltou ao Brasil. Aqui chegando,
quando indagado pelo seu tio que carreira política seguiria ele se decidiu por ser
político. O tio aceita: “... tens as duas principais qualidades que são indispensáveis ao
homem que quer subir: és impostor e atrevido.”. Mas antes de seguir carreira, o tio lhe
diz que ele tem que fazer uma viajem pelo país no cavalo Russo-queimado
(aparentemente lerdo), para observar o povo brasileiro, e todas as observações deveriam
ser anotadas em uma carteira de viajem (caderneta).
Na manha de partir o tio foi com ele no quintal e desenterrou de um tumulo
(AQUI JAZ QUEM NUNCA NASCEU) pequeno um livro, que deveria lhe acompanhar
durante toda a viagem, a Constituição brasileira. O tio lhe explica: “...quando ela
nasceu, um povo inteiro saudou-a, como fonte inesgotável de toda a sua felicidade,
como o elemento poderoso de sua grandeza futura; saudou-a com o entusiasmo e a fé
com que os hebreus receberam as doze Tábuas da Lei: pobre mártir! Não a deixaram
nunca fazer o bem que pode: apunhalaram-na apunhalam-na ainda hoje todos os dias, e
entretanto cobrem-se com o seu nome e fingem amá-la os mesmos sacrílegos que a
desrespeitam, que a ferem, que a pisam aos pés.”. O tio pede que ele leve a Constituição
e mais alguns livros sobre as leis e que compare o que vê com o que diz os livros, e que
escreva então na Carteira, e quando ela estiver cheia e ele voltar, então terá aprendido
uma grande lição.
O sobrinho vai para a tal viagem, mesmo a contragosto. E a carteira na qual
deveria escrever suas impressões dá o titulo de “A Carteira de Meu Tio”.

Capitulo I

“Em que se prova (além de muita coisa, que quem lê saberá) que o cavalo de meu
tio é incompatível com algumas estradas provinciais do Rio de Janeiro, e quase que se
encontra um grande pensamento político chafurdado em um lamarão.”

Ele vai a contragosto e decide escrever na Carteira que o tio lhe confiou somente a
verdade.
Após partir a primeira coisa que ele checa é quanto dinheiro seu tio lhe deu e
descobre que foram 600 mil-réis, o equivalente ao salário de um membro da
temporária. Ele reflete e decide que terá gosto em fazer leis se receber 600 mil-réis, já
que “... antigamente os eleitos do povo tinham seu trabalho; o povo elegia e eles

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preparavam leis para o povo...”, “... agora aperfeiçoou-se a geringonça: o governo , que
ama o povo e que não o quer fadigar, nomeia os deputados em lugar deles” e “...para
não maçar os representantes escolhidos, arranja as leis lá consigo, e se contenta que, a
troco de 600 mil-réis, o deputado esgoele de vez em quando o seu apoiado!”.
Com todo esse dinheiro ele pensou em ir a corte, curtir a vida e inventar mentiras
para encher A carteira de seu tio, mas isso não teria nada de original, seria só mais uma
mentira, mas decide-se por fazer a vontade do tio: “ ... por ora não sou completamente
digno do século em que vivo: porque ainda me resta um átomo de consciência,
abandonei portanto o pensamento heróico de ir gastar os meu 600 mil-réis na corte...”
“... e resolvi-me a executar à risca a vontade de meu sábio e respeitável tio”.
Ele faz uma longa reflexão sobre a mentira: “Oh, a mentira! A mentira é um vasto
e longo capote, que serve para esconder a preguiça, o erro e toda a qualidade de
traficância...”, “A mentira se esconde por detrás dos reposteiros de todas as secretarias
de Estado, dentro da manga do frade,..., nos postiços da moça casquilha,..., nas
declarações dos candidatos às deputações, nos títulos de nobreza,..., no epitáfio dos
mortos.”, “A mentira é um grande verdade da vida humana!”, “A mentira é como o sol
cujos raios penetram em toda parte: o único lugar que ela não entra é no céu. No mundo,
não há casa em que seja hóspede nova...”.
Saindo de tal reflexão ele se enfoca em russo-queimado, “Maldito animal!”, “... é
uma preguiça-montro,..., é cavalinho que, se não anda pra trás como o caranguejo, está
pelo menos no caso da política do nosso país, pois que, suba quem subir, está sempre no
mesmo lugar.”. “O homem deve tirar partido de todas as coisas,..., ora, não há dúvida
alguma, eu sou um homem de portentoso gênio, e, portanto cumpre que me aproveite
deste cavalo mesmo, tal qual é, para demonstrar a superioridade do meu talento.”; “
Infame ruço-queimado! Juro por meu respeitável tio que hei de imortalizar-te.” Ele se
compara com dezenas de autores que através das palavras imortalizaram objetos por
eles amados e odiados. “... E, portanto, não há mais eu hesitar, imortalizarei também o
estacionário cavalo de meu tio”. Ele descreve o aspecto físico do cavalo e seus dotes:
“... é um animal de constância inabalável: tem um só andar, que não é passo, nem
marcha, nem trote: é um movimento inexplicável,..., que vascoleja os intestinos do
cavaleiro...”.
Saindo dessa reflexão ele percebe o quanto a estrada é ruim. Logo a frente ele
paga tributo da barreira, e paga feliz, pois pensa que a estrada estaria melhor daquele
ponto para frente. Engana-se, depois da barreira a estrada se torna bem pior e ele acaba
por atolar com o cavalo em um lamaceiro. Um homem de botas para ao seu lado e
zomba dele:
_ “Atolado em regra!”
_ “Atolei-me sim, meu caro; dou porém parabéns à minha fortuna, porque
descobri neste lamarão um grande pensamento político!” – responde o narrador.
O grande pensamento era: “... as assembléias provinciais é um traste de luxo, para
nada presta, e que de nada serve ao país...”, pois “...não abrem nem consertam estradas,
não levantam pontes, não valem decerto as despesas e os incômodos que se têm com
elas...”. O homem de botas discorda de seu pensamento e diz que as assembléias não
descuidam de seu dever, o problema é o presidente da província que tem por função não
executar as leis do Império e quando a executa o faz mau, e depois jogam a culpa nos
deputados que são uma instituição popular. Os deputados da assembléia não se queixam
de levar a culpa pois são escolhidos pelos presidentes provinciais. A solução para tudo
isso, para que o país passa a funcionar seria o governo se ocupar com suas obrigações e
não se envolver nas eleições. Com eleições livres os ministros andariam direito por ter
de prestar conta as câmaras; os deputados também por ter de prestar contar ao povo; e o

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povo votaria bem escolheria quem mais lhe agrada a demanda. O homem de botas diz
não ser republicano “...hoje em dia quem não jura nas palavras dos ministros e de seus
primeiros agentes recebe logo o diploma de republicano; a monarquia se resume
neles...”, o que não poderia acontecer, já que “...a monarquia brasileira é bela como uma
obra do céu, e não se pode por modo algum identificar com os tais manganões que, se
os julgáramos por suas obras, devem ser feios como o pé de pato.”. Conclusão: o
lamaceiro é um retrato do desleixo do governo pela Província.
Russo-queimado sai do lamaceiro.

* Observações sobre o capítulo – o homem de botas tem um sentimento


nacionalista tipicamente romântico.

Capítulo II

“Como depois de se demonstrar que às vezes idéias muito feias se encapotam em


frases e palavras muito bonitas, e que às vezes se perde quem deixa o atalho para
seguir a estrada real, convém o homem das botas em dizer quem é e, metendo-se na
política geral, conta uma historia de porcos e de milho, que traz seu dente de coelho, e
no fim dela se vê arder a casinha de um pobre e logo adiante ouve-se um nenê, filho de
um inspetor de quarteirão, lendo um artigo da Constituição do Império.”

O homem de botas lhe aconselha a seguir por uma atalho já que russo-queimado é
ruim e a estrada é pior: “Olhe, ande umas quatro braças para trás, e tome por um atalho,
que fica ao lado esquerdo... ao lado esquerdo, ouviu?... não se meta pelo direito; lembre-
se bem disto: nada de direito; o direito é atualmente um anacronismo.”. Ele segue o
conselho, no entanto, o atalho que tomara era cerca de 20 vezes maior que a estrada
real. “ O homem das botas chamava atalho ao mais evidente e dilatado desvio.”. Tomou
uma coisa por outra. “quando se quer fazer admitir, ou pôr em ação um pensamento ou
sistema que convém aos nossos interesses,..., disfarça-se o bicho dando-se-lhe um nome
sonoro...”. “Ora se só os homem de botas fizessem isso,..., teria andando de botas os tais
frades da Inquisição, que ao mesmo tempo que assavam em crepitantes fogueiras os
pobres infelizes que lhes caíam nas unhas, desenrolavam ante a multidão os estandartes
do Santo Ofício...”. Conclui que “... disfarçar uma ação que os tolos consideram imoral
ou indigna, dando-lhe um nome de uma idéia generosa,..., é um fato que se vê
reproduzido todos os dias, não somente pelos homens de botas,...”, mas por todos.
O atalho que é desvio é bem grande, cabe-lhe muitas reflexões e ele começa com
os programas dos ministros. Ele descobre que se subisse ao ministério a primeira coisa
que pensa é em perseguir seus adversários e oposicionistas. Quando perguntado qual é
seu programa ele iria dizer que o “... Programa se resume em uma só palavra –
tolerância!”. Depois ele despediria alguns funcionários honrados que não pensam como
ele. Logo após ele pensaria como dar férias a Constituição já que suas leis incomodam,
mas percebe que para aprovar algo terá que segui-la. Conclui assim que um programa
ministerial é um monte de palavras que serve para exprimir o contraio do que os
ministros tem no pensamento. E assim deve ser já que o povo adora aparências.
Mas voltando ao primeiro assunto que era sobre atalhos e estradas reais, ele acaba
por concluir que mais vale os atalhos do que a estrada real, pois o trilhar desta ultima é
algo muito severo. Os pobres e honrados que escolhem essa estrada são burros,
morrerão pobres, sofrerão a vida toda, pois ser pobre e ainda honrado é pedir pra sofrer.
Com o rico, não aquele que já nasceu rico, ou aquele que lutou com honra e chegou lá,

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“... faço o meu cumprimento a todos estes senhores...”, “... mas ponham-se de largo, que
o meu negócio agora não é com eles.”. “homens de bem, ricos e pobres... à retaguarda:
tratantes ricos – à frente!...” O homem vale o que tem; se dizem que é estúpido e o
elegem a senador, fica sábio; se é pecador faz-se juiz e fica santo. “A única coisa que se
não pode assegurar é como passará o tratante milionário na eternidade. Mas também
isso de religião, eternidade, pecado..., e o próprio céu são bruxarias do outro tempo, que
já não fazem mossa nos espíritos fortes...”. “Viva, pois o dinheiro, que é a única
realidade”. Ele cita vários exemplos de pessoas que foram honradas e acabaram mau:
Sócrates, Thomas Morus, Régulo... E cita vários que foram pelos desvios e acabaram
bem como Lícon, Dionísio, Henrique VIII...
No final do desvio ele vê que o homem de botas lhe espera. Este agora, se
apresenta formalmente como sendo compadre Paciência, um amigo do tio dele, enviado
para lhe fazer companhia durante a viagem. Compadre Paciência se autodenomina
“...roceiro ignorante e rústico, que ainda reza pela cartilha da independência: não faça
casa das minhas excentricidades; tenho a mania de ser homem de bem e de acreditar que
a base de toda a política deve ser a virtude: asneiras de homem da roça!...”
Há partidos político: O Saquarema e o Luzia. O sobrinho do tio decide se alistar
no que esta por cima (mesmo sem saber qual é) e pede que compadre Paciência lhe
explique os 2 partidos: “Distingamos os partidos como um animal: a cauda do partido é
o povo, os correligionários pensadores formam o corpo, e os chefes são a cabeça. A
cabeça do animal é sofrível, o corpo desproporcionalmente pequeno e a cauda comprida
demais. A cauda de qualquer um dos 2 partidos não sabe o que quer, segue o movimento
que lhe imprime a cabeça. O corpo são os pensadores que sustentam idéias que julgam
convenientes ao país, são idealistas, são poetas, e vitima dos velhacos. Os chefes dos 2
partidos (exceção de meia dúzia de homens honrados) tem os princípios políticos
resumidos pelo pronome EU. A cauda de qualquer dos 2 não sabe o que quer. O corpo
de um quer conservar, mesmo que destruindo coisa boa, não admitem progresso
político por temer ir longe demais; o corpo do outro quer progredir, e repele os erros do
passado. Os chefes de um partido dizem que querem conservar, e o fazem, pois quando
no poder tratam de se conservar nele; os chefes do outro se dizem progressistas e são já
que quando por baixo caminham diante com toda a pressa que podem a ver se nesse
progresso chegam ao poder. A verdade é que os conservadores no poder andam para
trás como caranguejos; os progressistas se no alto desenvolvem e mostram um tal
progresso da preguiça que chegam até a subir e descer sem jamais sair de um lugar.”
Para concluir compadre Paciência lhe conta a historia do milho e porcos.
Eles seguem a viagem juntos e pelo caminho eles encontram uma casa em um
vilarejo em chamas. Foram indagar o dono da casa o que havia acontecido e este lhe
explica que as eleições primarias já estavam por acontecer e ele negara votar no dono da
terra na qual ele morava, então este lhe incendiou a casa. O autor do crime é por acaso
delegado e chefe de uma chapa do governo. Paciência fica furioso com a situação. Já o
sobrinho do tio acha tudo muito natural, pois para pobres não havia o direito de voto,
pois se isso acontecesse não haveria estabilidade no governo, “... adeus minhas
encomendas.”. A idéia dele é que há supremacia do rico sob o pobre, pois é uma lei
natural que diz que todo homem tem que mandar em alguém e que isso segue uma
ordem: Homem rico manda no homem pobre; homem pobre manda no escravo; escravo
manda no cachorro.
Os dois deixam o vilarejo e seguem viagem, e quando passam em frente a casa do
tal delegado o vêem na porta, e ouvem a voz de uma criança que recita dentro da casa a
Constituição, o filho do delegado.

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Capítulo III

“Como depois de considerações transcendentes sobre a Constituição do Império,


prova-se até à evidência que é pela barriga que se governa o mundo: faço uma
conciliação , de que muitos nos aproveitamos, eu, o meu compadre Paciência, o cavalo
de meu tio, e a mula ruça; admiro as idéias políticas de um estalajadeiro que tem nariz
e barriga de estadista; vou deitar-me e tenho uma visão, que me deixa de boca aberta.”

O sobrinho do tio reflete sobre o acontecimento e confessa que a casa em chamas


e as lágrimas das mulheres quase o comoveram. Ele tinha lido um trecho da
Constituição após o incidente e conclui que a Constituição é como um sorvete para os
dias quentes, a diferença é que sorvete só não se tem quando falta gelo e a Constituição
é o oposto, é uma “... coisa que raramente dá sinal de vida entre nós, pois é uma defunta
que os ministros de Estado temem...”. Ele diz detestar a Constituição por três razões: “...
primeiro, porque assim me assemelho a muitos dos grandes homens da minha terra;
segundo, porque a Constituição do Império é um poema, e eu abomino a poesia;
terceiro. Porque ou ela há de ser sempre letra morta, e em tal caso é melhor enterrá-la
que é obra de caridade dar sepultura aos mortos, ou tem de ser letra viva algum dia, e
por isso mesmo é muito conveniente acabar com ela quanto antes...”. Falam asneiras os
que dizem que “... adoram a Constituição pelo que era devia ser, e não pelo que a fazem
ser...”, “Asneira pois as coisa são boas ou más segundo a natureza dos efeitos que
produzem...”; falam burrice os que dizem que “... a Constituição não pode ser a causa
dos males do país, devidos somente aos maus ministros que a não querem executar, e
que governam no sentido oposto do que ela determina.”, “Eu entendo que é muito mais
cômodo lançar a culpa de tudo na tal Constituição, que é muda, e portanto não se pode
defender, do que nos ministros de Estados, que em regra geral são uns papagaios que
falam até demais.” Ele diz que a Constituição é um livro que serve para o que mais
convém e na “época do vintém” é o próprio.
Os dois estão com fome e irão parar em uma estalagem. Paciência pede que ele
não fale de política na estalagem, pois o dono é governista é não admite ser contrariado.
O narrador, para se divertir resolve que irá contrarias o dono da estalagem só para testar
a fúria do homem.
O nome do estaleiro é Constante e é governista desde sempre, mais um adepto da
política do EU, um Marca-de-judas. Eles sentam-se à mesa e dizem que estão vindo do
Rio de Janeiro. Sr. Constância pergunta como anda o governo. Conversa vai e vem, o
narrador começa falar mal o governo de todos os modos como pode e faz Senhor
Constante ficar furioso. Paciência e o narrador estão mortos de fome e a comida demora
horas para chegar e quando chega não se pode tocar na comida de tão ruim que estava;
era a vingança de Sr. Constante. Os dois saem da estalagem e momentos depois, quando
a fome realmente aperta o narrador resolve pedir desculpas ao estaleiro, resolve
conciliar-se com ele. Ele diz que o culpado do seu ato é a política da barriga: quando o
homem tem fome aceita e supera tudo, até a vergonha. Ele finaliza sua reflexão que
todo o homem tem uma alma e esta tem um centro que se localiza em algum lugar do
corpo; nos vencedores esta alma se centraliza na barriga. Quando a necessidade aperta,
não existe homem que não se dobre.
Ele entra e se reconcilia com Senhor Constante, pois resolve mudar de partido
político. O estaleiro fica feliz, e quando indaga Paciência de que lado está ele diz que é
o que era antes (pressuposto que ele era oposicionista), mas Constante reflete e decide
que “Às vezes uns comem por causa dos outros”. Eles se sentam, a comida não demora

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a chegar e eles comem ate não poder mais. Enquanto eles comiam o estaleiro fazia um
longo discurso sobre progresso material. O narrador vai tomar uma fresca e refletindo
sobre os últimos fatos, decide que “Pela barriga que melhor se governa o mundo”.
O sobrinho do tio vai dormir ainda pensando no discurso do estaleiro sobre
progresso material e tem uma visão. Ele se vê no alto do Corcovado, se vê como
ministro e vê lá embaixo o Império do Brasil em toda sua miséria, corrupção e
desordem. Viu o progresso sendo levado pelo Engodo, que levava a bandeira o
progresso material. Atrás do Engoda vinham mulheres chamadas Empresas e cada uma
levava sua bandeira. O povo vinha logo atrás festejando tais empresas. Mas ao mesmo
tempo alguns figurões roubavam das mãos do povo um menino instruído chamado Júri
e colocavam em tortura sua irmã, a Guarda Nacional. Tais manganões arrancaram do
povo um escudo chamado Direitos. Os chefes da procissão vinham na frente de todos;
eles tinham rabos e na ponta de tais estava a Constituição, e as vezes quando ela os
atrapalhava a andar eles a rasgavam E de tempo em tempo ressoava um contigo que
mostrava a submissão do pobre ao rico. No meio do povo havia Exma. Sra. Agiotagem
que vendia ações ao povo, depois voltava as empresas festejando os bens dos outros. As
vezes ouvia-se também gritos de desespero daqueles que foram logrados pela
Imoralidade, que vestida em trajes indecentes vinha sussurrando nos ouvidos: “ouro!
Ouro! Ouro!”. Viu também a Hipocresia, o Escândalo, a Corrupção, a Intriga, a Traição,
a Covardia, o Egoísmo. Havia um outro canto também, este exaltava o dinheiro. E em
meio a tudo isso a multidão era pobre e triste, com fome e furiosa e o seu canto não se
podia ouvir. E assim como veio, a visão se foi e o narrador decide no outro dia
conversar com compadre Paciência sobre tal visão.

Capítulo IV

“Como o compadre Paciência fez-me levantar da cama ao romper do dia:


despedimo-nos do Marca-de-judas, continuamos a nossa viagem; dou conta da visão
que tive ao meu companheiro, que a explica como a cara dele; chegamos a uma vila
(cujo nome deixo no tinteiro), onde, depois de tropeçar em uns artiguinhos
constitucionais, que estavam na cadeia rolando pelo chão de envolta com os tamancos
do carcereiro, subimos à casa da câmara e assistimos a uma sessão de júri, que fez o
compadre Paciência ter ocasião de dizer cobras e lagartos contra os sábios patriotas
adversários dessa instituição perigosa.”

No outro dia compadre Paciência o acorda antes do sol, ele paga a conta caríssima
e se vão. No caminho ele conta seu sonho a Paciência que ouve e diz que o sonho dele é
só o retrato da atualidade. Paciência lhe explica como o sonho mostra que o progresso
material não esta a par do progresso moral do povo, sendo que o primeiro só vale
quando está a par com o progresso moral e político. Diz que a vida devassa não leva a
felicidade, ao contrário. Diz que as sanguessugas estão sugando a nação, que o sistema
desacredita o povo que cairá ao desespero e que nesse momento se dará uma revolução.
Logo, de que adianta melhoramentos públicos se não há moral política? Diz que a
moralização da nação só pode ser feita através do patriotismo, honra e boa vontade. O
progresso material é só uma forma de tampar os olhos do povo para a corrupção e
desonestidade. Daí o governo se desmoraliza e com ele o povo, infringindo assim, as
leis da Constituição. E para finalizar Paciência diz querer progresso material desde que
ele venha junto com o progresso moral.

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O narrador se sente insatisfeito e desiste de ter sua visão explicada. O sobrinho do
tio começa a refletir sobre o governo e resolve que muitos dizem asneiras sobre o
governo, mas que todos tem respostas para tais asneiras:
IOP – Inimigos da ordem publica
RSR – Resposta sem réplica

IOP - 1 – Há despesas ilegais no governo, como por exemplo, as que se gastam


com imprensa. O governo não pode gastar tanto somente com a imprensa.
RSR – As despesas com imprensa são para a promoção do fim do trafico negreiro.

IOP - 2- A lei deveria ser igual para todos, mas isso não acontece, pois honra os
ricos e trucidam os pobres.
RSR-“... o artigo da defunta, que diz que a lei é igual para todos, acaba dizendo
que recompensará em proporções os merecimentos de cada um, e portanto o governo
esta na letra da Constituição recompensando com a impunidade o merecimento da
riqueza da influencia eleitoral.”

IOP - 3- A Constituição diz que nenhum cidadão pode ser obrigado a fazer nada se
não em virtude da lei, mas atualmente se obriga o pobre a votar sob pena de demissão.
RSR- O governo não sabe nada sobre isso e me tempos de eleição certas garantias
de honra são dispensadas.

IOP - 4 – A Constituição diz que ninguém pode ser preso sem motivo, mas a
policia o faz.
RSR – Quando a policia prende o cidadão, não o esta prendendo, esta o
recolhendo, o mantém lá de molho, não preso, por isso não desrespeita a defunta.

IOP- 5 – Todo cidadão pode ser aceito para cargos públicos de acordo somente
com suas virtudes, mas hoje só vai para esses cargos quem é parente de alguém
importante.
RSR – Virtude é algo relativo, o que pode ser para um não é para outro. Já que os
ministros consideram seus parentes cheios de virtude, o que tem que eles os coloquem
lá?

IOP – 6 – Direito constitucionais não podem ser tirados, mas hoje me dia qualquer
um do governo revoga direitos.
RSR – Petas da vida!

Assim, depois de todas as afirmativas e respostas, o narrado considera provado


que nenhum outro governo respeita tanto as leis como o nosso. Mesmo porque há um
artigo da Constituição que diz que “o cidadão tem por direito a liberdade, a segurança
individual e a propriedade.” e o governo é o primeiro a dar exemplo quando, pois zela
tanto pela liberdade que faz pouco caso das leis, pondo e dispondo muito livremente dos
limites marcados; desvela-se tanto da segurança individual que tem uma policia que
conserva o cidadão na cadeia sem culpa formada para segurar os indivíduos mais
completamente; e por fim venera tanto a propriedade privada já que o tesouro público
tem contribuído não poucas vezes, para o engrandecimento de fabulosas propriedades.
O sobrinho do tio diz que a culpa das algazarras e revoluções são os outros
governos que permitem que em seus países se fale em Constituição.Ele diz que por ele
já tinha implantado a muito tempo o absolutismo dos ministros no país, “... mas , dizem

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os meus amigos que é melhor um absolutismo encapotado do que um absolutismo nu e
cru...” já que “...sem o proclamar como eu o quisera...” “... eles vão calcando aos pés a
Constituição e todas as leis, e fazendo tudo quanto poderiam fazem em um governo
despótico e arbitrário como o da Turquia ou Rússia.” “ E pensando bem na nossa
geringonça política, é precisa confessar que para termos a glória de viver debaixo de um
governo absoluto, só falta dar o nome de absoluto ao nosso governo”. “A polícia não
trancafia na cadeia, quando isso lhe apetece virtuosos súditos do Império?”, “A
imprensa não está cheirando a azinhavre?”, “A magistratura não é, salvo as exceções
revolucionárias, uma espécie de relógio eu anda conforme a corda que lhe dá o poder
executivo?”, “O júri não está com uma corda ao pescoço, e cai não cai de cima do
patíbulo, e debaixo do aos pés de seus algozes?”. Logo o Brasil tem constituição no
nome, e absolutismo na prática.
Ele e compadre Paciência entram em uma vila e ficam em uma estalagem. Eles
ficam sabendo que no mesmo dia se abrirá na vila um júri. O compadre Paciência cisma
que quer ir ver as dependências da cadeia e o narrador vai junto.
O sobrinho reflete e conclui que ladrão é aquele que rouba uma galinha e esse
deve ir para cadeia; já aquele que rouba muito, esse tem bom gosto e deve ir a palácios,
pois assim não se compara o rico e pobre, já que isso sim seria um verdadeiro absurdo
nacional.
Eles entram na cadeia e vão a sala dos carcereiros, onde o narrados encontra
algumas paginas da Constituição no chão da cadeia, ele vê escritas nelas algumas leis
que vem a calhar com a cadeia imunda em que estavam quase como um ironia: “As
cadeias serão seguras, limpas e bem arejadas...”.
Compadre Paciência decide ir ver o júri e o narrador tem de ir junto, já que
Paciência é um velhinho liberal e como tal não tem papas na língua, então ele foi junto
por considerá-lo doido e defensor do júri.
“O júri é um tribunal, para ser membro do qual baste ter bom senso, segundo diz a
lei, e por conseqüência não há bicho careta que não se suponha com direito de ser
jurado!...”. “Veja que lei estúpida, ou antes que excelente lei e que estúpida
interpretação se lhe dá. Bom senso! Pois deveras o bom senso é coisa que se ache por aí
assim com tanta facilidade, que não há freguesia que não dê cinqüenta ou cem
jurados?”. “Bom senso muitas e muitas vezes não se encontra no s atos dos próprios
diretores do governo do país”. “Há deputados que pelo simples prazer de agredir
ministros comprometendo o governo: terão bom senso tais deputados?”, “Há jornalistas
que defendem os atos mais revoltantes e atacam os mais justos só pelo prazer de
defender ou atacar: terão bom senso tais jornalistas?”, “Terão bom senso os que gastam
tanto com teatro italiano que daria para abrir uma estrada?”.
Ele interrompe sua reflexão pois já estão perto do júri e diz que perdera seu bom
senso e deu pra falar asneiras.
Ele entram no tribunal e vêem que tem pouquíssima gente, apesar do tribunal ser
gigantesco. Compadre Paciência fica decepcionado. Pouco tempo depois os dois ficam
sabendo o que se passava: alguns jurados faltavam, mas eram pessoas importantes,
então a sessão foi adiada e por isso o tribunal estava uma algazarra.
O escrivão que estava muito nervoso começou a xingar o júri e o compadre
Paciência foi ficando irritado. O narrador tentou segura-lo mas não conseguiu escapar e
começou a discutir fortemente com o escrivão, quase que desacatando-lhe, e o escrivão
diz que irá confundir tal roceiro. No entanto compadre Paciência argumenta tão
fortemente que o escrivão não consegue e chega a ponto de perder a paciência e partir
para a porrada e começou uma pancadaria só dentro do tribunal entre Paciência e o
escrivão. Conclusão: compadre Paciência foi preso, o escrivão não.

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Assim o sobrinho do tio conclui que a policia é o 6° e o penúltimo poder do
Império, pois alem dos 4 já conhecidos pela defunta ainda há 3 dos quais ela não fala:
5° O patronato
6° A policia
7° O fisco
Final das contas: o narrador terá que livrar seu compadre da cadeia e depois
continuar sua viajem.

Observações pertinentes sobre o Livro


* O livro “A carteira de meu tio” não é considerado um típico romance. É um
romance de costumes, que critica a sociedade.
* O contexto histórico é o 2° reinado.
* Um dos costumes que o romance aborda é o de estudar fora do país ( o autor é
de origem burguesa), e os que voltavam traziam consigo idéias liberais e questionadoras
dos costumes que encontravam aqui.
* O autor acima de tudo faz uma critica a si mesmo, um burguês.
* O costume político é o mais abordado no livro. Toca-se em assuntos importantes
como a crença do eu, particularismo e política.
* O sobrinho divide na introdução a sociedade em 3 partes nos(elite), vos(puxa
sacos) e eles(povão).
* O livro enfatiza os hábitos e as questões históricas são implícitas, subentendido.
* O individualismo é uma característica romântica, assim como a quebra de status
e ausência de posição revolucionária. Ele critica as coisas erradas, mas faz o mesmo,
compactua. Ele trata da Constituição legal, mas que ninguém obedece.
* Postura não romântica – ele obedece aos “grandes mestres” que fazem quebra de
lei no pais; valoriza mais dinheiro que o resto, é um anti-herói
* O narrador é personagem logo o que passa a nos pode não ser confiavel.
* ele afirma que independente de quem estiver no poder no país a situação não
muda.
* O livro, de certa forma trata de assuntos bem atuais.

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