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05/02/2016

AlgumasquestõessobreaTeologiadaRedenção,1995

COMISSÃOTEOLÓGICAINTERNACIONAL ALGUMASQUESTÕESSOBRE ATEOLOGIADAREDENÇÃO (1995) ÍNDICE Notapreliminar

COMISSÃOTEOLÓGICAINTERNACIONAL

ALGUMASQUESTÕESSOBRE

ATEOLOGIADAREDENÇÃO

(1995)

ÍNDICE

Notapreliminar

ParteI:Acondiçãohumanaearealidadedaredenção

a)Asituaçãoatual

b)Relacionamentocomasreligiõesdomundo

c)AdoutrinacristãdaRedençãoeomundomoderno

ParteII:Redençãobíblica:apossibilidadedeliberdade

ParteIII:Perspectivashistóricas

a)Interpretaçõespatrísticasdaredenção

b)Teoriasmaisrecentesdaredenção

ParteIV:Perspectivassistemáticas

a)AidentidadedoRedentor:queméoRedentor?

b)Ahumanidadecaídaeredimida

c)Omundosobagraçaredentora

Notapreliminar

OestudodateologiadaRedençãofoipropostoaosmembrosdaComissãoTeológica

InternacionalporSuaSantidadeoPapaJoãoPauloIIem1992.UmaSubcomissão,composta

peloProf.JanAmbaum,Prof.JosephDoré,Prof.AveryDulles,Prof.JoachimGnilka,Prof.

SebastíanKarotemprel,DomMíceálLedwith(Presidente),Prof.FrancisMoloney,Mons.

MaxThurianeProf.LadislausVanyo,foidesignadaparaprepararesteestudo.

AsdiscussõesgeraissobreessetemativeramlugarduranteváriasreuniõesdaSubcomissãoe nassessõesPlenáriasdaprópriaComissãoTeológicaInternacional,realizadasemRomaem

1992,1993e1994.EssetextofoiaprovadoemformaespecíficaporvotodaComissãoem29

denovembrode1994esubmetidoàapreciaçãodeseuPresidente,SuaEminênciaCardeal

JosephRatzinger,PrefeitodaCongregaçãoparaaDoutrinadaFé,queoaprovoupara

publicação.

Aoapresentaraquiumasíntesedeabordagensteológicascontemporâneas,aComissão

TeológicaInternacionalnãosepropõeaoferecernovoselementosteológicos,masumponto

segurodereferênciaparaacontinuidadedadiscussãoeinvestigaçãodessetema.

ParteI

Acondiçãohumanaearealidadedaredenção

05/02/2016

AlgumasquestõessobreaTeologiadaRedenção,1995

a)Asituaçãoatual

1.Umaconsideraçãoapropriadadateologiadaredençãonosdiasatuaistemdecomeçarcom

umsumáriodosautênticosensinamentoscristãossobrearedençãoesuainfluênciasobrea

condiçãohumana,conformeaIgrejatempropostoesseensinamentoduranteocursodesua

tradição.

2.Adeclaraçãobásicaqueprecisaserfeitaéqueadoutrinadaredençãodizrespeitoaoque

Deusrealizouparanósnavida,morteeressurreiçãodeJesusCristo,ouseja,aremoçãodos

obstáculosqueexistiamentreDeusenóseaofertaquenoséfeitadeparticipaçãonavidade

Deus.Emoutraspalavras,redençãodizrespeitoaDeus,comoautordenossaredenção,antes

dedizerrespeitoanós.Somenteporserassiméquearedençãopoderealmentesignificar

libertaçãoparanóseser,continuamenteeparatodosostempos,aBoaNovadaSalvação.

Issosignificaqueelasóéumarealidadelibertadoraparanóspordizerrespeito

primariamenteàgloriosabondadedeDeus,enãoànossanecessidade,emboraelavenha

satisfazeressanecessidade.Searedenção,aocontrário,devesseserjulgadaoumedidapela

necessidadeexistencialdossereshumanos,comopoderíamosevitarasuspeitadetermos

simplesmentecriadoumDeus­Redentoràimagemdenossasprópriasnecessidades?

3.Existeaquiumparalelismocomoqueencontramosnadoutrinadacriação.Deuscriou

todasascoisas,eossereshumanosàSuaprópriaimagem,eachouqueestava"muitobom"

(Gn1,31)oquehaviacriado.Tudoissoprecedeoiníciodenossahistória,naquala

atividadehumananãoacabasendotãoinequivocamente"boa"comoacriaçãodeDeus.No

entanto,apesardisso,oensinamentodaIgrejaaolongodosséculos—baseadonas

Escrituras—sempretemsidodequeaimagemdeDeusnapessoahumana,emboramuitas

vezesescondidaedesfiguradanahistóriacomoresultadodopecadooriginaledeseus

efeitos,jamaisfoicompletamenteerradicadaoudestruída.AIgrejaacreditaqueoshomens

pecadoresnãoforamabandonadosporDeus,masqueDeus,emseuamorredentor,querum

destinogloriosoparaaraçahumana,edefatoparatodaaordemcriada,umdestinocujas

sementesjáseencontrampresentesnaIgrejaepormeiodela.Partindodaperspectivacristã,

essasconsideraçõesfundamentamedãoapoioàcrençadequeavidaaquieagoravalea

penaservivida.Masqualquerconvocaçãogerala"afirmaravida"ou"dizer'sim'àvida",

emboraindubitavelmenterelevantenesseaspectoedignadeserincentivada,nãodeve

esvaziaromistériodaredenção,comoaIgrejaotentaviver.

4.Portanto,afécristãtemocuidado,porumlado,denãodivinizarouidolatrarosseres

humanosporcausadesuagrandeza,desuadignidadeedesuasrealizações,nem,poroutro,

condená­losouesmagá­losporcausadesuasfalhasoumausatos.Afécristãnãosubestima

opotencialeodesejohumanosdecrescimentoerealizações,easconquistasparaasquaisa

realizaçãodessepotencialedessedesejopodemefetivamentelevar.Essasconquistas,além

denãoseremconsideradasaprioripelafécomoobstáculosaseremvencidosouadversários

aseremcombatidos,são,aocontrário,positivamenteavaliadasdesdeoprincípio.Apartir

dasprimeiraspáginasdolivrodoGénesisatéasmaisrecentesencíclicasdosPapas,o

convitedirigidoaossereshumanos—e,naturalmente,emprimeirolugaraoscristãos—é

sempredeorganizaromundoeasociedadedemaneiraamelhoraremtodososníveisas

condiçõesdavidahumana.Alémdisso,somosconvidadosaampliarafelicidadedos

indivíduos,promoverajustiçaeapazentretodose,namedidadopossível,incentivarum

amorque,aosertraduzidoempalavraseações,nãoexcluapessoaalgumasobreafaceda

terra.

5.Quantoàmaldadeeaosofrimentohumanos,elesnãosão,emsentidoalgum,subestimados

pelafé:afénãoestá,sobopretextodeproclamarafelicidadeeternaemummundofuturo,

demodoalguminclinadaaignorarosmuitostiposdedoresofrimentoqueafligemos

indivíduos,nemaóbviatragédiacoletivainerenteamuitassituações.Apesardetudoisso,a

fétampoucosealegracomomaleosmomentosdetribulaçãoporsimesmos,comosenão

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existissesemapresençadeles.

6.Aqui,pelomenoscomoprimeiropasso,afécontenta­sesimplesmenteemtomarnotae

registrar.Portanto,nãoépermissívelacusarafédefecharseusolhos;maséigualmente

inadmissívelterressentimentoemrelaçãoàfé,acusando­adetrataromaleosofrimento

comofatosfundamentaissemosquaiselanãoteriafundamentodignodecrédito.Comose,

emresumo,afésópudessebasear­se,comocondiçãosinequanondesuaexistência,na

desgraçadacondiçãohumanaenoefeitoereconhecimentodessedesespero.

7.Defato,omaleosofrimentonãosão,emprimeirolugar,funçõesdenenhuma

interpretaçãoteológicadavidaemparticular,masumaexperiênciauniversal.Eoprimeiro

movimentodafé,diantedomaledosofrimento,nãoéexplorá­losparaosseusprópriosfins!

Seafécristãoslevaemconsideraçãoé,emprimeirolugar,simplesmenteparafazeruma

avaliaçãocoerenteesinceradarealeconcretasituaçãohistóricadaraçahumana.Eaúnica

preocupaçãodaféésaberse,comoeemquecondiçõesasuavisãodessarealsituação

históricaaindapodeconquistaraatençãoeaadesãodaspessoashoje—aomesmotempo

emquelevaemconsideraçãoasanálisesdasprópriaspessoasquantoàsuacondiçãoeas

atitudesqueadotamnasdiferentessituaçõesquetêmdeenfrentar.

8.Noentanto,afécristãdefatotemumaperspectivaespecíficasobreacondiçãohumana

que,emmuitosaspectos,iluminaaquiloquemuitasvisõesdemundonão­cristãsafirmamao

seuprópriomodo.Primeiramente,afédestacaqueomalaparececomoestandosempre

presentenahistóriaenahumanidade:omaltranscendeeprecedetodasasnossas

responsabilidadesindividuaiseparecesurgirde"forças"eatédeum"espírito"queestão

presentesantesdeagirmose,atécertoponto,sãoexternosaqualquerconsciênciaevontade

pessoalemaçãoaquieagora.

9.Emsegundolugar,aféobservaqueomaleosofrimentoqueafetamacondiçãohistórica

dossereshumanostambémtêm,emesmoemgrandeparte,suafontenocoraçãodosseres

humanos,nosseusreflexosegoístas,noseuapetitepeloprazerepelopoder,nasua

silenciosacumplicidadecomomal,emsuacovardecapitulaçãodiantedomal,emsua

terríveldurezadecoração.Mesmoassim,arevelaçãobíblicaeafécristãnãodesanimam

comapessoahumana;aocontrário,continuamaapelaraolivrearbítrio,aosensode

responsabilidade,àcapacidadedeadotaraçõesdecisivasnosentidodemudar—eàqueles

momentosdelúcidaconsciênciaemqueessasfaculdadespodemserefetivamente

exercitadas.Aféacreditadefatoquetodossãofundamentalmentecapazestantodese

distanciardetudooqueospredispõedeumaformanegativaquantodeabdicardeseu

próprioegoísmoepreocupaçãoconsigomesmosparasecomprometercomoserviçoao

próximoe,dessemodo,abrir­separaumaesperançavivaquepoderiaatéultrapassartodosos

seusprópriosdesejos.

10.Paraafécristã,portanto,ossereshumanos,porumaquestãodefatohistórico,estão

alienadosdasantidadedeDeusporcausadopecado,alémdesermosdiferentesdeDeusem

virtudedetermossidocriadosemvezdeserintrinsecamentedivinos.Essadupladiferença

entreDeuseahumanidadeencontratestemunhonasEscrituraseépressupostaportodosos

cristãosortodoxosqueescreveramnostempospós­bíblicos.Masainiciativadivinadese

aproximarcomamordahumanidadepecadoraéumacaracterísticacontínuadomodode

Deusnostratar,antesedentrodahistória,eéapressuposiçãofundamentaldadoutrinada

redenção.Portanto,adialéticadagraçaedopecadopressupõeque,antesquequalquer

pecadoentrassenomundo,agraçadeDeusjáhaviasidooferecidaaossereshumanos.A

lógicainternadavisãocristãdacondiçãohumanaexigetambémqueDeussejaoautorda

redenção,poisoqueprecisasercuradoesalvoénadamenosdoqueaimagemdoPróprio

Deusemnós.

11.Assim,paraafécristã,ovalordanaturezahumanacriadaégarantidodesdeoprincípio

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peloPróprioDeuseéindestrutível.Demaneirasimilar,arealidadedaredençãofoiobtidae égarantidaporDeuseporCristotambémparasempre.SegundooensinamentodaIgreja, tantoacriaçãocomoaredençãoestãoarraigadasnagraciosaeprofundabondadeeliberdade divinase,apartirdonossopontodevista,permanecemincompreensíveis,inexplicáveise maravilhosas.Abuscadoentendimentodessasrealidadessurgedeumatoouatitude anterior,indivisívele,portanto,irredutíveldeagradecimentoporelas. 1

12.Emboracertamentenossejaimpossívelumatotalcompreensãodaredenção,umcerto

entendimentodadoutrinanãoéapenaspossível,masexigidopelapróprianaturezada redenção,quesepreocupacomaverdade,ovaloreodestinosupremodetodaarealidade criada.Senãofossepermitidanenhumatentativadecompreenderaredenção,a aceitabilidadedaféseriaprejudicada,alegítimabuscadecompreensãoserianegadaàféeo resultadoseriaofideísmo.Alémdomais,jáqueapessoahumanacomoumtodoéredimida porCristo,essaverdadedevepoderserdemonstradanaordemintelectual. 2

13.Paraafécristã,averdadedaredençãosempreiluminouparticularmenteosaspectosda

condiçãohumanaqueapontamdemodomaisóbvioparaanecessidadehumanadesalvação. Ossereshumanosexperimentamfragmentação,inadequaçõesefrustraçõesnavida,em muitosníveis.Namedidaemqueossereshumanosfrequentementeconsideram­se responsáveispelafragmentadaeinsatisfatóriaqualidadedesuaexperiência,elesconfessam, emlinguagemtradicional,oseuestadodepecadores.Noentanto,parapintarumquadro completodacondiçãohumana,tambémdevemserlevadosemconsideraçãoosaspectosda vidaquedesfiguramedestroemaexistênciahumanaepelosquaisninguémtem, aparentemente,responsabilidadedireta.Porqueelestambémfalamdemodoeloquentesobre anecessidadehumanaderedenção.Realidadestaiscomoafome,apestilência,ascatástrofes naturais,asdoenças,osofrimentofísicoementaleaprópriamorterevelamqueomal— comoatradiçãocristã,claro,semprereconheceu—demodoalgumseesgotanoquese chamade"malumculpae"(malmoral),mastambémcompreendeo"malumpoenae" (sofrimento),sejaesteomalemsimesmooutenhaorigemnaslimitaçõesdanatureza. Tradicionalmente,noentanto—comorevelaoprópriotestemunhobíblico—,todo sofrimento,eatémesmoaprópriamorte,temsidoentendidocomoresultadodopecado,"o

mistériodaimpiedade",naspalavrasdeSãoPaulo(2Ts2,7).

14.Emboraosdesafiosqueacabamosdemencionarsejamasdificuldadesexistenciaismais

básicasenfrentadaspelohomem,hátambémtodaumasériedeoutrosproblemasmais

íntimoscomqueaspessoassedefrontam.Emprimeirolugar,elastêmdificuldadeem

atingir,comoindivíduos,oequilíbriopessoalinterior.Emsegundolugar,sentemdificuldade

emviveremharmoniacomosdemaissereshumanos,conformerevelaahistóriadasguerras

comtodaasuainerentecrueldadeehorror.Emterceirolugar,suaincapacidadedeviverbem

comanaturezanão­humanaédramaticamenterefletidanaquestãoecológicadomundo

contemporâneo.Emquartolugar,quandoaspressõesdavidasetornamintensasdemais,

podesurgirfacilmenteasuspeitadequeaexistênciahumanaestejacondenadaaomalogroe

àfaltacompletadesignificado.Portrásdasáreascríticascitadasacima,encontra­se,

finalmente,aquestãodabuscaaindanãoconcluídadahumanidadepelapazcomDeus,queé

frustradapelapoderosaepenetranterealidadedopecado.

15.Esteesboçopreliminardamaneiracomo,paraafécristã,averdadedaredençãoilumina

acondiçãohumanadevesercomplementadoporumaavaliaçãodecomooprópriohomem

vê,hojeemdia,suasituaçãohistóricaefetiva.

16.Noentanto,devemosprimeiroexaminarbrevementeacompreensãodaredenção

propostapelasgrandesreligiõesdomundo.Aofazerisso,podemosdeixardeladoaquinesta

seçãoderevisãoojudaísmo,noqualocristianismotemsuasraízesecomoqualcomungade

umavisãodaredençãobaseadanasoberanaboavontadedeDeus,oCriador,paracoma

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erranteraçahumana,conformeexpressonaAliança.

b)Relacionamentocomasreligiõesdomundo

17.Ohinduísmonãoéumareligiãomonolítica.Aocontrário,éummosaicodecrençase

práticasreligiosasqueafirmaofereceràraçahumanaaredençãoeasalvação.Emborao

hinduísmovédicoprimitivofossepoliteísta,atradiçãovédicaposteriorpassouafalarda

Realidadesuprema,tambémchamadade"Atmã"ou"Brama",comoUma,apartirdaqual

todasascoisasteriamsurgidocomummodoespecíficoetriádicodemanifestação.Opróprio

"Brama"éincompreensívelesemforma,mastambéméoserConscienteAuto­Existente,

queéatotalidadedaFelicidade.Emumnívelpessoalmaispopular,divindadescomoShiva,

destruidordaimperfeição,Vishnueseus"avatares"("encarnações")comoRã,oIluminado,

KrishnaeaMãeDeusaShakti—correspondemaosatributosdaRealidadeSuprema.As

"encarnações"doDeusdescemàterraparaenfrentaromalquandoestesetornapoderosono

mundo.

18.Dandoodevidodescontoàsimplificaçãoexagerada,pode­sedizerque,parao

hinduísmo,apessoahumanaéumafagulhadodivino,umaalma("atmã")encarnadapor

causada"avidya"(ignorância:umaespéciedeignorânciametafísicasobreaverdadeira

naturezadoindivíduo,ouumtipodeignorânciaoriginal).Comoresultado,oserhumano

estásujeitoàleido"carma",ourenascimento,ociclodenascimentoérenascimento

conhecidocomo"carma­samsara",oualeidaretribuição.Odesejoegoístaquelevaà

ignorânciaespiritualéafontedetodomal,misériaesofrimentonomundo.

19.Assim,paraohinduísmo,aredenção—expressaporpalavrascomo"moksha"e"mukti"

—éalibertaçãodaleido"carma".Emboraohomempossadaralgunspassosemdireçãoà

salvaçãodetrêsmaneiras(nãomutuamenteexclusivas)—­porintermédiodaação

desinteressada,daintuiçãoespiritualedodevotadoamoraDeus—,aetapafinalda

comunhãosalvíficacomDeussópodeseralcançadacomaajudadagraça.

20.Comrelaçãoaobudismo,podemoscomeçardizendoqueBuda,aolidarcomo

sofrimentodomundo,rejeitouaautoridadedosVedaseautilidadedossacrifícios,etambém

nãoviumotivoparaasespeculaçõesmetafísicassobreaexistênciadeDeusedaalma.

Procuravaalibertaçãodosofrimentoapartirdoprópriohomem.Suavisãocentralédeque

odesejohumanoéaraizdetodomalemiséria—que,porsuavez,dãolugarà"ignorância"

("avidya")—eacausasupremadociclodenascimentoerenascimento.

21.DepoisdeBuda,aparecerammuitasescolasdepensamentoquetransformaramseus

simplesensinamentosbásicosemsistemasquetratamdadoutrinado"Carma"comoa

tendênciadenascerdenovo,inerentenaação.Avidahumanahistóricanãotemumfio

existencialunificador,pessoal,substantivo;éfeitasimplesmentedefragmentosexistenciais

nãovinculadosdenascimento,crescimento,decadênciaemorte.Adoutrinada"anicca",oua

"nãopermanência"detodarealidade,écentralparaobudismo.Aideiadeimpermanência

existencialexcluiapossibilidadedaexistênciadeuma"atmã",daíosilênciodeBudasobrea

existênciadeDeusouda"atmã".Tudoéaparência("maya").Nadapodeserditosobrea

realidade,sejademodopositivoounegativo.

22.Portanto,paraobudismo,aredençãoconsisteemumestadodelibertação("Nirvana")

destemundodeaparência,umalibertaçãodanaturezafragmentáriaedaimpermanênciada

existência,alcançadapormeiodasupressãodetododesejoedetodaconsciência.Mediante

umatallibertação,atinge­seumestadopuroeindeterminadodevazio.Sendoradicalmenteo

contráriodotormentotransitóriodestemundodeMaya,oNirvana—literalmente:

"extinção",ou"apagamento"(istoé,detodososdesejos),comoseapagaaluzdeumavela

quandoaceraacabadequeimar—fogeaumadefiniçãoterrena,masnãoéapenasum

estadodeextinçãocompletaouaniquilamentototal.Nirvananãoéumobjetivointelectual,

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masumaexperiênciaimpossíveldedefinir.Éalibertaçãodetodososdesejosevontades,a

libertaçãodocicloderenascimentoesofrimento("dukha").Omodomaisperfeitode

libertação,paraosbudistas,éocaminhodeoitoetapas—perfeitoentendimento,perfeita

intenção,perfeitafala,perfeitaconduta,perfeitaocupação,perfeitoesforço,perfeita

contemplaçãoeperfeitaconcentração("VinayanaPitaka")—quecolocatodasuaênfasenos

esforçoshumanos.Naperspectivabudista,todososoutroscaminhosreligiosossão

imperfeitosesecundários.

23.Comoojudaísmoeocristianismo,oislamismo("submissão")éumareligiãomonoteísta

baseadanaAliança,comfirmecrençaemDeuscomoCriadordetodasascoisas.Comoo

próprionomesugere,essareligiãovêachavedaverdadeirareligiãoe,portanto,dasalvação,

naFé,ConfiançaeSubmissãototalàvontadedeDeusmisericordioso.

24.Deacordocomafédosmuçulmanos,areligiãoislâmicafoireveladaporDeus,desdeos

primeirosinstantesdahumanidade,econfirmadapelassucessivasaliançascomNoé,Abraão,

MoiséseJesus.Oislamismoconsidera­seoacabamentoecumprimentodetodasasalianças

queexistiramdesdeoprincípio.

25.Oislamismonãopossuiaideiadopecadooriginal,eosentidocristãoderedençãonão

encontraespaçonopensamentoislâmico.Todosossereshumanossãoconsideradoscriaturas queprecisamdesalvação,aqualsópodemobtervoltando­separaDeuscomfétotal.O conceitodesalvaçãotambéméexpressopelaspalavras"sucesso"ou"prosperidade".Masa ideiadesalvaçãoémelhorexpressaporpalavrascomosegurançaouproteção:emDeus,a raçahumanaencontraasegurançadefinitiva.Atotalidadedasalvação—concebidaem termosdealegriasfísicaseespirituais 3 —éconseguidaapenasnoÚltimoDiacomoJuízo Finalenavidanoalém("Akhira").Oislamismoacreditaemumtipodepredestinaçãona questãodasalvação,sejarumoàfelicidadedoparaísoouaosofrimentonofogodoinferno ("Nar"),masohomempermanecelivrepararespondercomaféeasboasobras.Osmeios parachegaràsalvaçãoalémdaprofissãodefésão:aoraçãoritual,adoaçãolegalde esmolas,ojejumdoRamadãeaperegrinaçãoàcasadeDeus,emMeca.Algumastradições somamaessesmeioso"jihad",ou"luta",comoguerrasantaparaadifusãooudefesado islamismoou,maisraramente,comoconflitoespiritualpessoal.

26.Alémdasgrandesreligiõesclássicasdomundo,existemoutrasreligiões,chamadasde

Tradicionais,Primitivas,TribaisouNaturais.Asorigensdestasreligiõesperderam­sena

antiguidade.Suascrenças,cultosecódigoséticossãotransmitidospormeiodatradiçãooral

viva.

27.OsseguidoresdessasreligiõesacreditamemumSerSupremo,identificadosobnomes

diferentes,equeseacreditaserocriadordetodasascoisas,masElepróprionão­criadoe

eterno.OSerSupremodelegouasupervisãodosassuntosdomundoadivindadesmenores,

conhecidascomoespíritos.Essesespíritosinfluenciamobem­estarouasdesgraçashumanas.

Apropiciaçãodosespíritosémuitoimportanteparaobem­estarhumano.NasReligiões

Tradicionaistambéméimportanteosentidodecomunhãodeumgrupocomosancestraisdo

clã,atriboeafamíliahumanaemgeral.Osancestraisquemorremsãorespeitadose

veneradosdeváriosmodos,emboranãosejamadorados.

28.AmaiorpartedasReligiõesTradicionaistemmitosehistóriasépicasquefalamdeum

estadodefelicidadecomDeus,daquedadeumasituaçãoidealedaesperançaemalgumtipo

deredentor­salvadorquevirápararestabelecerorelacionamentointerrompidoetrazera

reconciliaçãoeacondiçãodefelicidade.Asalvaçãoévistaemtermosdereconciliaçãoe

harmoniacomosancestraismortos,osespíritoseDeus.

c)AdoutrinacristãdaRedençãoeomundomoderno

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29.Alémdeconsiderarasconcepçõesdaredençãopropostaspelasgrandesreligiõesdo

mundoeasmaislocalizadasreligiõestradicionaiseancestraisdemuitasculturashumanas,é

preciso,noentanto,dedicarumpoucodeatençãoaoutrosmovimentoseestilosdevida

alternativoscontemporâneosqueprometemasalvaçãoaseusseguidores(porexemplo,os

cultosmodernos,osdiversosmovimentosda"NovaEra"easideologiasdeautonomia,

emancipaçãoerevolução).Maséprecisotercautelanessaárea,eoriscodesimplificações

exageradasdeve,sepossível,serevitado.

30.Seriaenganososugerir,porexemplo,queospovoscontemporâneosseencaixamem

apenasduascategorias:ada"modernidade"autoconfiantequeacreditanapossibilidadede

auto­redenção,ouadeumapós­modernidadedesencantadaquenãoacreditaemnenhuma

melhoranacondiçãohumanaapartirde"dentro"econfiaapenasnapossibilidadedeuma

salvaçãoquevemde"fora".Emvezdisso,oquedefatoencontramoséumpluralismo

culturaleintelectual,umavastagamadediferentesanálisesdacondiçãohumanaeuma

variedadedemaneirasdetentarlidarcomela.Juntocomumtipodetrajetóriarumoà

diversãoeaoprazer,ouàsabsorventesepassageirasatraçõesdohedonismo,vemosuma

retiradarumoaváriasideologiasenovasmitologias.Juntoaumestoicismomaisoumenos

resignado,lúcidoecorajoso,percebemostantoumadesilusãoqueseconsiderapersistentee

realista,comoumprotestoresolutocontraareduçãodossereshumanosedeseuambienteà

condiçãoderecursoscomercializáveisquepodemserexploradosecontraacorrespondente

relativização,subestimaçãoe,enfim,trivializaçãodoladoobscurodaexistênciahumana.

31.Portanto,umfatoficaabundantementeclaronasituaçãocontemporânea:acondição

concretadossereshumanosestácheiadeambiguidades.Seriapossíveldescreverdevários

modososdois"pólos"entreosquaiscadaserhumanoemparticular,eahumanidadecomo

umtodo,seachamdefatodivididos.Porexemplo,existeemcadaindivíduo,porumlado,

umintensodesejodevida,felicidadeerealizaçãoe,poroutro,ainevitávelexperiênciade

limitação,insatisfação,fracassoesofrimento.Passandodoindivíduoparaaesferageral,

pode­severomesmoquadroemumatelamaior.Aquitambémépossívelapontar,porum

lado,oimensoprogressoquetemsidoconquistadopelaciênciaetecnologia,pela

disseminaçãodosmeiosdecomunicaçãoepelosprogressosalcançados,porexemplo,no

domíniodasleisprivadas,públicaseinternacionais.Mas,poroutrolado,tambémsedeve

apontarasmuitascatástrofesqueocorremnomundoe,entreossereshumanos,tanta

corrupção,comoresultadodequeumnúmeromuitograndedepessoassofremterrível

opressãoeexploraçãoetornam­sevítimasindefesasdaquiloque,naverdade,sópodelhes

parecerumdestinocruel.Estáclaroque,apesardasdiferençasdeênfase,qualquerotimismo

desanuviadosobreoprogressogeraleuniversalproporcionadopelatecnologiavem

claramenteperdendoterrenonosnossosdias.Eénocontextocontemporâneodainjustiçae

dafaltadeesperançageneralizadasqueadoutrinadaredençãodeveserapresentadahoje.

32.Maséimportanteobservarqueafécristãnãofazjulgamentosapressados:sejanosentido

derejeitarintotooudeaceitarsemfazercríticas.Procedendocomboavontadee

discernimento,elanãodeixadeobservar,nagrandediversidadedeanáliseseatitudesque

encontra,váriaspercepçõesfundamentaisquelheparecemcorresponder,emsimesmas,a

umaprofundaverdadesobreaexistênciahumana.

33.Afétambémobserva,porexemplo,que,apesardesuaslimitaçõesedentrodelas,o

homemassimmesmoprocuraumapossível"realização"emsuavida;queamaldadeeo

sofrimentosãoporeleexperimentadoscomoalgoprofundamente"anormal";queas

diferentesformasdeprotestolevantadasapartirdestaperspectivasãoemsimesmassinais

dequeossereshumanostêmanecessidadedeestarprocurandopor"algomais",ou"alguma

coisaamais","algumacoisamelhor".E,finalmente,comoconsequênciadisso,afécristãvê

queossereshumanoscontemporâneosnãoestãosimplesmenteprocurandoumaexplicação

desuacondição,masestãoaguardandoouesperando—reconheçamissoounão—poruma

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AlgumasquestõessobreaTeologiadaRedenção,1995

liberaçãoefetivadomaleumaconfirmaçãoerealizaçãodetudoqueépositivoemsuas

vidas:odesejodobemedomelhor,etc.

34.Mas,emboraaIgrejareconheçaaimportânciadetentarcompreendereavaliaros

problemasreaisdossereshumanosnomundo,asdiferentesatitudesporelesprovocadaseas propostasconcretasfeitasnosentidodeenfrentá­los,elatambémreconheceanecessidadede jamaisperderdevistaaquestãofundamentalqueestánabasedessesproblemase, necessariamente,tambémdequalquermodopropostoderesolvê­los,ouseja,aquestãoda verdade:qualéaverdadedacondiçãohumana?Qualéosignificadodaexistênciahumanae, naperspectivadoprópriomomentopresente,oquepode,enfim,ohomemesperar?Ao apresentaradoutrinadaredençãoaomundo,aIgrejatalvezpossaconsiderarvárias perspectivasdiferentessobreasquestõessupremas,concentrando­senoaspectodafécristã naredençãoquetalvezsejaomaiscrucialparaahumanidade:aesperança.Porquea redençãoéaúnicarealidadesuficientementepoderosaparasatisfazerasverdadeiras necessidadeshumanaseaúnicarealidadeprofundaobastanteparaconvenceraspessoas sobreoquerealmenteexistedentrodelas. 4 Essamensagemredentoradeesperançabaseia­se nasduasdoutrinas­chavedocristianismo,istoé,aCristologiaeaTrindade.Nessas doutrinas,encontra­seabaseracionalsupremaparaacompreensãocristãdahistóriahumana edapessoahumana,feitaàimagemdoDeusTrino,umaUnidadeemComunidade,e redimidaporamorpeloFilhoúnicodeDeus,JesusCristo,paraopropósitodeparticipação navidadivina,paraaqualfomosprimordialmentecriados.Estaparticipaçãoéindicadapela doutrinadaressurreiçãodocorpo,quandoossereshumanos,emsuarealidadetotal, compartilhamatotalidadedavidadivina.

35.Portanto,aavaliaçãocristãdacondiçãohumananãoéisolada,masumaspectodeuma

visãomuitomaisampla,emcujocentroencontra­seacompreensãocristãdeDeusedo

relacionamentodeDeuscomaraçahumanaetodaaordemcriada.Essavisãomaioréada

AliançaqueDeusdesejoueaindadesejaparaaraça.EumaAliançapormeiodaqualDeus

querassociarossereshumanosàSuavida,realizando—muitoalémdoqueelespossampor

simesmosdesejarouconceber—tudooqueépositivodentrodeleselibertando­osdetudo

oquehádenegativoemseuinteriorequeprejudicasuavida,felicidadeedesenvolvimento.

36.Maséessencialobservarque,seafécristãfaladessamaneirasobreDeuseSuavontade

deinstituirumaAliançacomossereshumanos,nãoéportermossido,porassimdizer,

apenasinformados(pormerosensinamentos)dasintençõesdeDeus.Eporque,deummodo

muitomaisradical,Deusliteralmenteinterveionahistóriaeagiunoprópriocoraçãoda

história;porseus"feitospoderosos",aolongodetodaaAntigaAliançaemprimeirolugar,

massupremaedefinitivamenteemepormeiodeJesusCristo,SeuúnicoeverdadeiroFilho,

queentrou,encarnou­se,nacondiçãohumana,emsuaformatotalmenteconcretaehistórica.

37.Estritamentefalando,segue­sedaíque,afimdeestabeleceroquetêmadizersobrea

condiçãohumana,osfiéisnãocomeçamquestionandoasimesmossobreisso,paradepois

indagarasiprópriosquetipodeesclarecimentoaindapodeserlançadosobreoproblema

peloDeusqueelesprofessam.Damesmamaneira,eaindaestritamentefalando,oscristãos

nãocomeçamafirmandoaDeuscombaseemumalinhadeargumentoou,pelomenos,não

combaseemumareflexãopuramenteabstrata,paradepois,apenascomoaçãosecundária,

passaremaexaminarquetipodeesclarecimentoesseconhecimentopréviodeSuaexistência

poderiatrazeraodestinohistóricodahumanidade.

38.Narealidade,paraarevelaçãobíblica,eportantoparaafécristã,conheceraDeusé

confessá­LocombasenaquiloqueElePrópriofezpelohomem,revelando­ototalmenteasi

mesmonopróprioatoderevelar­Seaele,precisamenteporentraremrelaçãocomele:

estabelecendoeoferecendoaohomemumaAliançaechegando,comessafinalidade,ao

pontodeviretornar­seencarnadonaprópriacondiçãohumana.

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39.E,finalmente,apartirdessaperspectivaqueavisãodapessoahumanaedacondição

humana,apresentadapelafécristã,adquiretodaasuaespecificidadeetodaasuariqueza.

40.Porfim,deve­sededicaralgumaatençãoaoquepoderiaserchamadodedebatecristão

internosobrearedenção,eespecialmenteàquestãodecomoosofrimentoeamortede Cristoserelacionamcomaconquistadaredençãodahumanidade.Aimportânciadessa questãoédestacadahojeemmuitossetores,porcausadaobservadainadequação—ou,pelo menos,daobservadaaberturaaumsérioeperigosomal­entendido—decertasmaneirasde compreenderaobraderedençãorealizadasporCristoemtermosdecompensaçãoou puniçãopornossospecados.Alémdomais,aseriedadedoproblemadomaledosofrimento nãodiminuiucomapassagemdotempomas,aocontrário,intensificou­se,eacapacidadede muitosacreditaremqueelepossaaomenosserapropriadamenteenfrentadofoiminadaneste séculopelosprópriosregistrosfactuais.Nessascircunstâncias,pareceriaimportanterepensar comoaRedençãorevelaaglóriadeDeus.Pode­seperguntarseumatentativade compreenderadoutrinadaredençãopoderiaser,nofundo,umexercíciodeteodicéia,uma tentativadesugerirumarespostadignadecréditoparao"mistériodainiquidade",nas palavrasdePaulo,àluzdafécristã.OmistériodeCristoedaIgrejaéarespostadivina.Em suma,seriaaredençãoajustificaçãodeDeus,ouseja,amaisprofundarevelaçãoDeleanós

e,portanto,adoaçãoanósdapazque"ultrapassatodaacompreensão"?(Fl4,7).

41.Afinalidadedestedocumentonãoéserumtratamentoabrangentedetodaaáreada

teologiadaredenção,masabordaralgumasquestõesselecionadasdateologiadaredenção

queseapresentamcomumaforçaparticulardentrodaIgrejadehoje.

ParteII

Redençãobíblica:apossibilidadedeliberdade

1.Osregistrosbíblicosrefletemumabuscaincessantepelosupremosignificadodacondição

humana. 5 ParaIsrael,DeussefazconhecerpelaToráe,paraocristianismo,Deussedáa conhecerpelapessoa,osensinamentos,amorteearessurreiçãodeJesusdeNazaré.Porém, tantoaLeicomoaEncarnaçãoaindadeixamahumanidadenaambiguidadedeuma revelaçãodada,contrapostaaumahistóriahumanaquenãorespondeàsverdadesreveladas. Ainda"gememos,interiormente,esperandoaadoção,alibertaçãoparaonossocorpo"(Rm

8,23).

2.Oserhumanoenfrentaumasituaçãodramática,emquetodososesforçosembuscadesua

libertaçãodaescravidãoedossofrimentosauto­infligidosestãodestinadosaofracasso. Finitosporcausadenossaorigemcomocriaturas,infinitoscomoresultadodenosso chamadoparasermosumcomoCriador,nãosomoscapazes,combaseemnossospróprios esforços,depassardofinitoparaoinfinito.Assim,ocristãoolhaparaalémdasconquistas humanas."Incansáveissãoosnossoscorações,atéquedescansememti"(Agostinho,

Confissões1,1).

3.Jánasualegislaçãocivil,Israeltinhaconsciênciadeum"redentor"(go'el).Asfamílias

podiampagaroresgateporumparente,parapreservarasolidariedadedafamília. 6 A importânciadasolidariedadedafamíliaestánabasedeinstituiçõeslegaistaiscomoo casamentoporlevirato, 7 avingançadosangue 8 eoanodojubileu. 9 Aleiisraelitapermite queumapessoacondenadasejacompradadevolta. 10 Opagamentodokoferlibertaapessoa culpada,suafamília,afamíliavitimadaetodaacomunidade,poisoconflitoficaresolvido. HáalgumasnarrativasnoAntigoTestamentoemqueocorrematividadesredentorasquetêm suasraízesnestesistemalegal.Pormeiodaauto­oferendadeJudá,quereverteoseucrime contraJosé, 11 afamíliaéredimidadavingança.Domesmomodo,Jacó,quehaviaroubado Esaúdesuabênçãodeherança,compensaistooferecendoumagrandepartedesua

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propriedade. 12 Avingançaéevitada.

4.Areligiãoisraelitadesenvolveuumaliturgiadeexpiação.Eraoatosimbólicoda

homenagem,peloqualapessoaculpadacobreepagaumadívidaaYHWH.Eramos

seguintesoselementosessenciaisdessaliturgia:

a.Osrituaissãodeinstituiçãodivina(lugaressagrados,sacerdóciosagradoe rituaisditadosporYHWH). b.YHWHéquemperdoa. 13 c.Osritossãotodossacrificaise,emgeral,sãosacrifíciosdesangue,emqueé derramadoosanguequerepresentaavida.YHWHdáaohomemosanguepara oritodoperdão. 14 Osanguesacrificalexpressaagratuidadedoperdãononível daexpressãoritual.

5.Aspessoassantas,eespecialmenteMoiséseosprofetasqueoseguiram,tinhamgrande

valordiantedeDeus.Issoequilibravaodesvalordamaldadeedopecadodeoutros.Dessa forma,elesdavamgrandeimportânciaàintercessãoparaoperdãodospecados. 15 Afigura

doServoSofredordeIs53,4­12seriarepetidamenteusadanoNovoTestamentocomoum

modelodeCristo,oRedentor.

6.AsnarrativasdaaçãodeDeusnoÊxodo(Ex1­15)eoamorredentordeEstereRute 16 mostramcomoaliberdadevemdaentregadesinteressadadesimesmoporumanaçãoou umafamília.EssesmesmossentimentossãoencontradosnavidadeoraçãodeIsrael,que celebraoamorredentordeDeusporseupovonoÊxodo 17 eseucuidadoebondadeque trazemaliberdadeeaintegridadeparaavidadopovo. 18

7.Essestemasantigosdelibertaçãoeredençãosãofocalizadosdeformamaisintensaem

JesusCristo.Produtodestemundo,eumdomdeDeusaomundo,JesusdeNazaréapontao caminhoparaumafelicidadeautênticaeduradoura.Emsuapessoa,suaspalavraseseusatos, elemostrouqueapresençareinantedeDeusestavapróximaeconvocoutodosàconversãoa fimdepoderemserpartedesseReino. 19 JesusdeNazarécontouparábolasdoReinoque abalaramaestruturaprofundadenossavisãoaceitadomundo. 20 Elasremovemnossas defesasenostornamvulneráveisparaDeus.AquiDeusnostocaeseuReinochega.

8.Jesus,ocontadordasparábolasdoReinodeDeus,eraaParáboladeDeus.Suainabalável

aberturaparaDeuséencontradaemsuarelaçãocomoDeustradicionaldeIsrael,Deuscomo Abba. 21 Estapodeserobservadaemsuadisposição,comoFilhodoHomem,aenfrentar todosospossíveisinsultos,sofrimentosemorte,nacertezadeque,nofim,Deusteriaa últimapalavra. 22 Elereuniuseguidores 23 ecompartilhousuamesacompecadores, invertendovaloresaceitosaolhesoferecerasalvação. 24 Perseverouemseuestilodevidae emseusensinamentos,apesardatensãoqueissocriavaaoseuredor, 25 culminandocomsua

"destruição"simbólicadoTemplo(Mc11,15­19;Mt21,12­13;Lc19,45­48;Jo2,13­22),sua

últimaceiaqueprometiaseraprimeirademuitasceiassemelhantes 26 esuamortenaCruz. 27 JesusdeNazaréfoiomaislivredetodosossereshumanosquejáviveram.Nãotinhadesejo algumdecontrolarseufuturo,poissuaconfiançaradicalemseuAbba­Pailibertava­odetais preocupações.

9.AhistóriajoaninadaCruzfaladarevelaçãodeumDeusqueamoutantoomundoaponto

delhedarseupróprioFilho. 28 ACruzéolugarondeJesusé"elevado" 29 paraglorificara Deuse,assim,obterasuaprópriaglória. 30 "Ninguémtemmaioramordoqueaquelequese

despojadavidaporaquelesaquemama"(Jo15,13).ComoaCruzdátestemunhodeDeus,

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todososfiéissubsequentesdevem"olharparaaquelequetraspassaram"(19,37).

10.Boapartedabuscapelalibertação,liberdadeouqualqueroutradasexpressõesusadas

hojeemdiaparafalardoquepoderiaserchamadodeuma"redenção"dasambiguidadesda

situaçãohumanarepresentaumatentativadeevitareignorarosofrimentoeamorte.O

caminhodeJesusdeNazaréindicaquealivreentregadesimesmoaosdesígniosdeDeus,

sejaqualforocusto,trazglóriaparanósetambémparaDeus.AmortedeJesusnãoéoato

deumDeusimpiedosoqueexigeosacrifíciosupremo;nãoéum"resgate"pagoaalguma

potênciaalienadoraquenosescravizou.EomomentoeolugaremqueumDeusqueéamor

equenosamatorna­sevisível.JesuscrucificadocontaoquantoDeusnosamaeafirmaque,

nessegestodeamor,umserhumanodemonstrousuaconcordânciaincondicionalcoma

vontadedeDeus.

11.OEvangelhodeJesuscrucificadodemonstrouasolidariedadedoamordeDeuscomo

sofrimento.NapessoadeJesusdeNazaré,esseamorsalvadordeDeusesuasolidariedade paraconoscorecebesuaformahistóricaefísica.Acrucifixão,umaformadesprezívelde morte,tornou­se"Evangelho".EmboraboapartedoAntigoTestamentovejaamortecomo definitivaetrágica, 31 estaideiavaigradualmentedandolugaràconcepçãoemergentede umavidaapósamorte 32 eaoensinamentodeJesusdequeDeuséumDeusdosvivos,enão dosmortos. 33 MasosangrentoepisódiodoCalvárioexigiuqueaIgrejaprimitivaexplicasse, porsimesmaeporsuamissão,aeficáciaexpiatóriadeumamortesacrificaideJesusna Cruz. 34

12.ONovoTestamentousaimagenssacrificaisparaexplicaramortedeCristo.Asalvação

nãopodeserobtidapormeiodameraperfeiçãomoraleosacrifícionãopodeserconsiderado comoumvestígiodeumareligiosidadeultrapassada.Ojudaísmojáforneciaoparadigmada morteexpiatóriadomártirmodelo, 35 masissoéaindamaisacentuadonoNovoTestamento, porcausadaimportânciadecisivaatribuídaao"sanguedeCristo".AcruzdeJesus,que ocupouumaposiçãocentralnaproclamaçãoinicial,envolveuoderramamentodesangue.O significadosalvíficodamortedeJesusfoiexplicadoemtermosemprestadosdaliturgia sacrificaldoAntigoTestamento,emqueosanguedesempenhavaumpapelimportante. Continuando,porémtransformando,oentendimentodoAntigoTestamentoquantoaosangue comomarcaessencialdavida,alinguagemeateologiasacrificalapareceramnaIgreja primitiva:

I.Porumaargumentaçãotipológica,osanguedeCristofoiconsideradoeficienteno estabelecimentodeumanovaeperfeitaaliançaentreDeuseoNovoIsrael. 36 Mas,ao contráriodasrepetidasaçõesdossacerdotesdaantigaaliança,osanguedeJesus,oúnico meiodeobterremissãoesantificação, 37 correapenasumavez,emumsacrifíciooferecido deumavezportodas. 38

II.Porsisó,apalavra"morte"nãosignificariaumaobraredentora."Sangue"implicamais doquemorte.Temaconotaçãoativadevida. 39 Aaspersãodesanguesobreoaltareravista comoumatoessencialedecisivodeoferenda(Levítico)mas,paraPaulo,aeficiência atribuídaaosanguedeCristo(justificação,redenção,reconciliaçãoeexpiação)vaimuito alémdaextensãoreivindicadapelosangueemLevítico,emqueseuefeitoéapenasnegativo, acoberturaouneutralizaçãodaquiloqueimpedeocultoseguroouaceitáveldeDeus(Rm

3,24­25).Cristoéconsideradookaporeth:aomesmotempooferendaepropiciação.

III.Estaremaliançasignificaobedecer. 40 AideiadeobediênciaelealdadeàToráatéa morteerabastanteconhecidanojudaísmodoséculoIPauloconsegueexplicaramortede JesuscomoobediênciaàsexigênciasdeDeus. 41 Essaobediêncianãoéparaacalmarum

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Deusirado,masumalivreoferendadesi,quepossibilitaacriaçãodaNovaAliança.Os cristãosentramnaNovaAliançapormeiodaimitaçãodapaciênciaeobediênciadeJesus. 42

IV.ComotodaavidaterrenadeJesus 43 ,suamortenacruzocorreunapresençaecoma assistênciadoEspíritoSanto. 44 AquificaincompletaqualqueranalogiacomoAntigo

Testamento.FoiJesusCristo"quepeloespíritoeternoseofereceuaDeus"(Hb9,14).Tudoo

queacontecenacruzdátestemunhodoPaie,segundoPaulo,ninguémpodechamaraDeus dePaiexcetonoEspíritoSanto,eoEspíritodeDeusdátestemunhodelenosfiéis. 45 Parao QuartoEvangelho,oEspíritoSantoédadoàIgrejaquandoJesusgrita,"Tudoestá

consumado!",eentregaoespírito(Jo19,30:Paredokentopneuma).

V.AmortedeJesusfoilouvoreexaltaçãoaDeus.Elepermaneceufielnamorte; demonstrouoReinodeDeuse,assim,DeusestevepresentenamortedeJesus.Poressa razão,aIgrejaprimitivaatribuiuàmortedeJesusumpoderredentor:"EmborasendoFilho, aprendeuaobediênciapelosprópriossofrimentose,levadoatéaprópriaconsumação,veioa ser,paraquantoslheobedecem,causadesalvaçãoeterna,tendosidoproclamadoporDeus

sumosacerdoteàmaneiradeMelquisedec"(Hb5,8­10).OsacrifíciodeJesusnacruznãofoi

apenaspassio,mastambémactio.Esteúltimoaspecto,aofertavoluntáriadesimesmoao

Pai,comseuconteúdoespiritual,éoaspectomaisimportantedesuamorte.Oenredonãoé

umconflitoentreodestinoeoindivíduo.Pelocontrário,acruzéumaliturgiadeobediência,

manifestandoaunidadeentreoPaieoFilhonoeternoEspíritoSanto.

13.JesusressuscitadoafirmaarespostamisericordiosadeDeusaesseamordeauto­entrega.

Nofinal,ocristianismoolhaparaumacruzvazia.AaceitaçãoincondicionaldeJesusde

NazaréemrelaçãoatudooquelhefoipedidoporseuPailevouao"sim"incondicionaldo

PaiatudooqueJesusdisseefez.EaressurreiçãoqueproclamaqueocaminhodeCristoéo

caminhoquevenceopecadoeamorteemumavidaquenãotemlimites.

14.Ocristianismotematarefadeanunciar,compalavraseatos,oiníciodalibertaçãodas

inúmerasescravidõesquedesumanizamacriaçãodeDeus.ArevelaçãodeDeusemepor intermédiodeJesusdeNazaré,crucificadoporémressuscitado,convoca­nosasertudooque fomoscriadosparaser.ApessoaqueparticipadoamordeDeusreveladoemepormeiode JesusCristotorna­seoqueelafoicriadaparaser:aimagemdeDeus, 46 assimcomoJesuséo íconedeDeus. 47 AhistóriadeJesusmostraqueissovaicustarnadamenosdoquetudo.Mas arespostadeDeusàhistóriadeJesuséigualmenteintensa:amorteeopecadoforam conquistadosdeumavezportodas. 48

15.Opoderdedestruiçãopermaneceemnossasmãos;ahistóriadeAdãoaindaestá

conosco. 49 MasodomdaobediênciaaoestilodeCristoofereceaesperançade transformaçãoaomundo, 50 livredaLeiparaumauniãofrutíferacomCristo(Rm7,1­6).A

vidasobaLeitornaimpossívelaverdadeiraliberdade(Rm7,7­25),enquantoavidano

EspíritoSantopossibilitaumaliberdadequevemdograciosodomdeDeus(Rm8,1­13).

Mastalliberdadesóépossívelpormeiodamorteparaopecado,demaneiraquepossamos estar"vivosparaDeusemJesusCristo". 51

16.Avidaredimidadoscristãostemumóbviocaráterhistóricoeumainevitáveldimensão

social.Osrelacionamentosentresenhoreseescravosjamaispoderãoserosmesmosoutra vez 52 ;nãohámaisnemjudeunemgrego,nãohámaisnemescravonemhomemlivre,não hámaishomememulher. 53 Oscristãossãochamadosaserautenticamentehumanosemum mundodividido,amanifestaçãoúnicadeamor,alegria,paz,paciência,bondade,caridade, fidelidade,gentilezaeautodomínio,vivendopeloEspíritoecaminhandoaoladodo Espírito. 54

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17.NasoteriologiadaCartaaosEfésiosedaCartaaosColossenses,destacam­seostemas

depazereconciliação:"Ele(Cristo)éanossapaz"(Ef2,14).Aqui,paz(shalom)e

reconciliaçãotornam­seocentroeamelhorexpressãodaredenção.Masesseaspectoda

redençãonãoénovo.Apalavra"paz"deveserentendidaàluzdeseuricousoaolongoda

tradiçãobíblica.Elatemumadimensãotripla:

I.SignificapazcomDeus:"Assim,pois,justificadospelafé,nósestamosempazcomDeus,

pornossoSenhorJesusCristo"(Rm5,1).

II.Significapazentreoshomens.Compreendeaboadisposiçãodeunsparacomosoutros.

Apaz,queéCristo,destróiasparedesdoódio,dadivisãoedosdesentendimentoseé

construídacombasenaconfiançamútua.

III.Significaaimportantíssimapazinteriorqueoserhumanopodeencontrardentrodesi

mesmo.EsteaspectodapazdeCristotemconsequênciasabrangentes.Paulo(Rm7,14­25),

faladapessoahumanadivididacontrasimesma,cujavontadeeaçõesestãoemconflitoentre si.Essapessoa,semopoderlibertadorquevemdodomdagraçaedapazdeJesusCristo,só podegritar:"Infelizqueeusou!Quemmelivrarádestecorpoquepertenceàmorte?"(Rm

7,24).Pauloimediatamenteoferecearesposta:"GraçassejamdadasaDeusporJesusCristo,

nossoSenhor!"(Rm7,25).

18.NohinoaCristoqueabreaCartaaosColossenses(Cl1,15­20),aredenção

proporcionadaporCristoélouvadacomoumaredençãouniversal,cósmica.Todaacriação deveserlibertadadesuaescravidãoàdeterioração,paraobteragloriosaliberdadedosfilhos deDeus.EstetemadaintegridadeessencialmentevoltadaparaDeusdetodaacriação,já eloquentementeexpressoporPaulonaanteriorCartaaosRomanos 55 ,conscientiza­nosde nossasresponsabilidadescontemporâneasemrelaçãoàcriação.

19.NaCartaaosHebreus,encontramosaimagemdopovoerrantedeDeusemseucaminho

paraaterraprometidadorepousodivino(Hb4,11).OmodeloéodageraçãodeMoisés,que

viajapelodesertodurantequarentaanosembuscadaterraprometidadeCanaã.EmJesus

Cristo,noentanto,temoso"promotordasalvação"(Hb2,10)que,nasuaqualidadedeFilho,

émuitosuperioraMoisés. 56 EleéosumosacerdotedeacordocomaordemdeMelquisedec. SeusacerdócionãoapenasultrapassaosacerdóciodaAntigaAliança,masdefatooaboliu

(Hb7,1­28).JesusCristonoslibertoudenossospecadosporintermédiodeseusacrifício.Ele

nossantificouenostornouseusirmãos.Redimiuaquelesque,pormedodamorte,estavam

sujeitosàescravidãoduranteavidainteira(Hb2,10­15).Eleagoraaparececomonosso

advogado,diantedafacedeDeus(Hb9,24;7,25).

20.Assim,ajornadacristãaolongodahistóriaémarcadaporumainabalávelconfiança.É

verdadeque"veroqueseesperanãoémaisesperar:oquesevê,comoaindaesperá­lo?Mas

esperaroquenãovemoséaguardá­locomperseverança"(Rm8,24­25).Podemosnãovê­la,

masrecebemosapromessadaNovaJerusalém,olugaronde"Elehabitarácomeles.Eles

serãoseupovoeeleseráoDeusqueestácomeles.Eleenxugarátodalágrimadeseusolhos.

Jánãohaverámorte.Nãohaverámaisluto,nemclamor,nemsofrimento,poisomundo

antigodesapareceu

comoEspírito,aliberdadeeagarantia 57 quevemdamorteeressurreiçãodeJesus, caminhamosconfiantesnadireçãodofimdostempos,gritando:"Vem,SenhorJesus!"(Ap

22,20).

Eisqueeufaçonovastodasascoisas"(Ap21,3­5).Jápresenteados

ParteIII

Perspectivashistóricas

a)Interpretaçõespatrísticasdaredenção

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Introdução

1.OsPadrescontinuaramoensinamentodoNovoTestamentosobrearedenção,

desenvolvendoeelaborandocertostemasàluzdesuaprópriasituaçãoreligiosaecultural. Enfatizandoalibertaçãodopaganismo,daidolatriaedospoderesdemoníacos,edeacordo comamentalidadecontemporânea,elesinterpretaramaredençãoprincipalmentecomouma libertaçãodamenteedoespírito.Noentanto,nãoignoraramaimportânciadocorpo,emque ossinaisdadeterioraçãoedamorte,comoconsequênciasdopecado, 58 apareciamdeforma maisevidente.Fiéisaoaxioma“carocardosalutis",repudiaramaconcepçãognósticada redençãoapenasdaalma.

2.OsPadrestêmclaranoçãodaobra"objetiva"deredençãoereconciliaçãoquepropiciaa

salvaçãodomundocomoumtodo,edeumaobra"subjetiva"quedizrespeitoaosseres

humanosindividuais.Aobra"objetiva"estáintimamentepreocupadacomaencarnaçãoea

Cristologia,enquantoa"subjetiva"estáinteressadanossacramentosenadoutrinadagraça,

queacompanhamedirecionamahistóriahumanaparaoéschaton.

OsPadresApostólicoseosApologistas

3.InáciodeAntioquiausaotítulosoteriológicoChristosiatros(Christusmedicus)."Existe

ummédicoqueédecarneeespírito,criadoenãocriado,Deusfeitocarne,verdadeiravida namorte,(nascido)tantodeMariacomodeDeus,primeiropassíveledepoisimpassível, JesusCristo,nossoSenhor". 59 Cristonãosócuraasdoenças,mastambémabraçaamorte,na medidaemqueelaévida;defato,averdadeiravidaéencontradanamorte.Suaatividadede cura,queépartedesuaobraredentoranosEvangelhos,expressa,antesdetudo,suadivina bondade:elequeriaquesuascuraseexorcismosfossemboasobras,pelasquaisaspessoas dariamlouvoraoPai.Suascurasbasearam­seemseupoderdivinodeperdoarospecados, paraoqueaúnicacondiçãoexigidaeraafé.Estalinhadepensamentopodeserencontrada naPrimeiraCartadeClemente 60 naCartaaDiogneto 61 eemOrígenes. 62

4.OpensamentodeJustinoestáintimamenteligadoaocredo.SuacompreensãodoChristós

didaskalosedoLogosdidaskaloslembraoensinamentodeJesussobPôncioPilatos.Os ApologistasenfatizamafiguradeChristusMagister(Christosdidaskalos)eaindatêmo interessecentralizadoemseusensinamentoseexorcismos,masJustinoapóia­se principalmentenatradiçãodapráticasacramentaldaIgrejaenasformulaçõesdeféparasua explicaçãodapresençacuradoradeCristo.AspalavrasdoLogoschegamcomforçadivina;

elastêmopoderlibertador.Gênesis6,1­4colocaemaçãoasforçasdomal,eahistóriada

salvaçãoémarcadapelosconfrontosentreCristoeosdemóniosemumalutacontraasempre

crescentedepravação,conformeéensinadonaApologiadeJustino(II,5,1­6;6)eem

Atenágoras(Supplic.25,3­4).OartigodoCredodosApóstolos " descenditadinferos" descreveaculminaçãodessabatalhapormeiodobatismo,datentação,dosexorcismoseda ressurreiçãodeJesus.Demaneirasemelhante,ousoqueJustinofazdesotérparafalarda continuaçãodaobraredentoradeCristovemdasfórmulasdaliturgiaedocredo.Omesmo podeserditosobresuaideiadeJesuscomoRedemptoreauxiliador,FilhodeDeus, primogénitodetodacriação,nascidodeumavirgem,quesofreusobPôncioPilatos,morreue ressuscitoudosmortosesubiuaoscéus,expulsando,derrotandoesubjugandotodosos demónios. 63 EmboradêcontinuidadeaopensamentodosPadresApostólicos,Justinoapóia­ setambémnoscredosbatismais,noNovoTestamentoenasoteríavivenciadanos sacramentosdaIgreja.

Ireneu

5.NoiníciodeAdversushaereses,Livro5,Ireneuexplica:Cristo,omestre(Christus

Magister)éoVerboencarnado,queestabeleceuacomunhãoconosco,demaneiraqueo

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pudéssemosver,entendersuapalavra,imitarseusatos,obedecersuasordensevestira incorruptibilidade.Nisto,somosrefeitosàimagemdeCristo.Aomesmotempo,Cristoéo Verbopoderosoehomemverdadeiro(Verbumpotensethomoverus)que,demaneira inteligível(rationabiliter),redimiu­nosporseusangue,entregandoasimesmocomoresgate (redemptionem)pornós.ParaIreneu,aredençãofoirealizadadeummodoqueoserhumano pudessecompreender(rationabiliter):oVerbo,queéabsolutoempoder,tambéméperfeito emjustiça.Portanto,oVerbopodeopor­seaoinimigo,nãocomaforça,mascompersuasão ebondade,assumindotudooquepordireitolhepertence(suaproprieetbenigneassumens). IreneunãoadmitequeSatanástenhaqualquerdireitodedominaçãosobreahumanidade depoisdaQueda.Aocontrário,Satanásgovernainjustamente(iniuste),porquenós pertencemosaDeussegundoanossanatureza(cumnaturaessemusDeiomnipotentís).Ao nosredimirporseusangue,Cristoinaugurouumanovaetapanahistóriadasalvação, enviandooEspíritodoPaiparaqueDeuseahumanidadepossamunir­seeestarem harmonia.Pormeiodesuaencarnação,eleconcedeudeformaverdadeiraeseguraa incorruptibilidadeàhumanidade. 64 ORedentorearedençãosãoinseparáveis,porquea redençãonadamaisédoqueauniãodoredimidocomoRedentor. 65 Amerapresençado Logosdivinonahumanidadetemumimpactocuradoreenobrecedorsobreanatureza humanaemgeral.

6.Aideiade"recapitulação"(anakephalaíosis)emIreneucompreendearestauraçãoda

imagemdeDeusnohomem.EmboraaexpressãovenhadeEfésios5,10,opensamentode

Ireneutemumaamplabasebíblica.Oterminusaquodaredençãoéalibertaçãododomínio deSatanásearecapitulaçãodahistóriaanteriordahumanidade.Oterminusadqueméo aspectopositivo:arenovaçãodaimagemesemelhançadeDeus.OprimeiroAdãocarrega emsiasementedetodaaraçahumana;osegundoAdão,pormeiodaencarnação,recapitula cadaindivíduoqueviveuatéentãoedirige­seatodosospovoselínguas.Aredençãonão olhaapenasparaopassado;elaéumaaberturaparaofuturo.Paraarecapitulaçãodaimagem esemelhançadeDeus,tantooVerbumcomooSpiritusdevemestarpresentes.Oprimeiro AdãoprenunciaoVerboencarnado,em.vistadequemoVerbumeoSpiritushaviam formadooprimeirohomem,maseleficouestacionadona"infância",porqueoEspíritoque dáocrescimentoodeixou.AconcessãodasemelhançadoEspíritoSantointroduzoperíodo novoefinalda"oeconomía",quefoicompletadonaressurreição,quandotodaaraçahumana recebeuaformadonovoAdão. 66 Oaspectoespiritualdaanakephalaíosiséimportante porqueapossepermanentedavidasóseconcretizapormeiodoEspírito. 67 Emboraa encarnaçãoresumaopassado,condensando­onarecapitulação,emcertosentidoelalevao passadoaumfim.OderramamentodoEspíritoSanto,quefoiinauguradonaressurreição, direcionaahistóriaparaoéschatonetornaaanakephalaíosisrealmenteuniversal.

Tradiçõesgregas

7.Atanásionuncamenosprezouosignificadodopecado,masviuclaramentequeoredentor

tinhadecurarnãoapenasarealidadedopecadoemsi,mastambémassuasconsequências:a perdadasemelhançacomDeus,acorrupçãoeamorte. 68 Atanásioafirmavaque,seDeussó precisasselevaremcontaopecado,poderiaterrealizadoaredençãodealgumoutromodo quenãopelaencarnaçãoecrucifixão.ElenãonegavaqueCristotivesseentradoemcontato imediatocomopecado,masafirmavaque,emboraopecadonãoafetasseanaturezadivina deCristo,eleexperimentouemsuanaturezahumanaasconsequênciasdopecado.Eleentrou nomundodopecadoedacorrupção,porqueacorrupçãoeamortesão,elasmesmas,o pecado. 69

8.GregóriodeNazianzoensinaqueaencarnaçãoocorreuporqueahumanidadeprecisavade

umaajudamaior.Antesdaencarnação,apedagogiadeDeustinhasidoinsuficiente. 70 Cristo assumiutodaacondiçãohumanaparanoslibertardodomíniodopecado, 71 masafonteda

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salvação,possibilitadapelaencarnação,éacrucifixãoeressurreiçãodeCristo. 72

9.GregóriorejeitatotalmenteasuposiçãodequeDeusteriaentradoemnegociaçãocom

Satanás,easugestãodequeumresgateteriasidopagoaoPai.Qualquercoisaquefosse tocadapeladivindadeerasantificada. 73 EstaideiaédesenvolvidaporGregóriodeNissa,que combinaimagensjoaninasparaafirmarqueoVerbo,comoumpastor,uniu­seàcentésima ovelha.Estabelecendoumaanalogiacom"oVerbosefezcarne",eleafirmaque"opastorse fezovelha". 74 AmesmaideiaretornaemAgostinho:"Ipseutproomnibuspateretur,ovisest factus". 75

Tradiçõeslatinas

9.Natradiçãolatina,AmbrósioeAgostinhofundamentaram­senariquezados"mistérios"da

Igreja,navidalitúrgica,naoraçãoeespecialmentenavidasacramental,quefloresciamna IgrejalatinadoséculoIV.Ambrósio,cujosconhecimentosdoidiomagregolhepermitiram trazerboapartedatradiçãoorientalparaoOcidente,baseouseusensinamentosnos sacramentosdoBatismo,PenitênciaeEucaristia.Issonãosónosproporcionaumtestemunho inestimáveldavidasacramentaldaIgrejalatina,mastambémdamaneiracomoaEcclesia oransentendiaomistériodaaçãoredentoradeDeusnoacontecimentodeCristo,passado (redençãoobjetiva),presenteefuturo(redençãosubjetiva). 76

10.Agostinhonãoéuminovadornopensamentocristãoquantoàredenção.Noentanto,com

profundidadeevisão,eleelaboraesintetizaastradições,aspráticaseasoraçõesdaIgreja querecebeu.SóDeuspodeajudarahumanidadeemsuaimpotência. 77 Agostinhorevelao profundoabismoentrenossoestadorealenossavocaçãodivina.Nãopodehavernegociação entreDeuseSatanás.Aredençãosópodeserumaobradagraça. 78 Noplanodivinoda salvação,amissãodeCristorestringe­seaumcertoperíododetempomas,aindaassim,é umarealidadesupraterrestre:oamordoDeusiradoparacomahumanidade.Esteamor eternoproduz,pormeiodacrucifixãoemortedeCristo,areconciliaçãoeacondiçãode Filho. 79 AobraderedençãotemdeserdignatantodeDeusquantodohomeme,assim,Deus perdoaeesqueceopecadoapenasseapessoahumanasearrependereexpiá­lo.Quandoisso acontece,Deusrevogaopecadoeamorte.Assim,areparaçãoeareconciliaçãobaseiam­se najustiça,jáquesomentedessemodoahumanidadepodeparticiparcomresponsabilidade dahistóriadasalvação.Ahumanidadeédetalmaneiraatraídaparaareconciliaçãoque aceitaativamenteasalvaçãoearedenção.

11.Aredençãonãoéumeventoquesimplesmenteaconteceaoserhumano.Estamos

ativamenteenvolvidosnela,pormeiodenossacabeça,JesusCristo.Osacrifícioredentorde Cristoéoápicedaatividadecultualemoraldahumanidade.Éoúnicosacrifíciomeritório (sacrificiumsingulare).AmortedeJesusCristoéumsacrifícioperfeitoeumatode adoração.AcrucifixãoéumresumodetodosossacrifíciosanteriormenteoferecidosaDeus. AceitapeloPai,elaobtémasalvaçãoparaosirmãoseirmãsdeCristo.Repetindoumaideia que,comonocasodeAmbrósio,estavaassociadaàsuacompreensãodoefeitoredentorda vidasacramentaldaIgreja,especialmenteoBatismo,Agostinhoensinouquetodosos sacrifícios,inclusiveodaIgreja,sópodemseruma"imagem" 80 dosacrificiumsingulare,o sacrifíciodeCristo. 81

12.Emborasejapuragraça,aredençãocompreendeasatisfactioobtidapelaobediênciado

FilhodeDeus,cujosangueéoresgatepormeiodoqualelemereceueobteveajustificaçãoe alibertação. 82 JesusCristorealizasuabatalhacomoserhumanoe,dessemodo,salvaa honradahumanidadeemsuaperfeitarespostaaDeus(o"factio"exigidodahumanidade)e tambémrevelaamajestadedeDeus(o"satis"deDeus,quecompletaa"satisfactio").Assim,

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Cristonãoéapenasaquelequecura,mastambémosantificador,quesalvapelasantificação.

ContinuandoumatradiçãodosPadresanteriores,AgostinhoinsistequeCristoéacabeçada

humanidademas,comotambémjáeraoSalvadordahumanidadeantesdetodotempoe

antesdesuaencarnação,Cristoinfluenciatodososindivíduos,assimcomoahumanidadeem

geral.

Conclusão

13.Ostemasquechegamaténóspelatradiçãobíblicaformamabasedareflexãopatrística

sobrearedenção.Oabismoentreacondiçãohumanaeaesperançadeliberdadeparasermos

filhosefilhasdoúnicoDeusverdadeiroéclaramentecompreendidoeapresentado.A

iniciativadeDeuscriaumapontesobreoabismopormeiodosacrifíciodeJesusCristoede

suaressurreição.Dentrodasdiferentesescolasdepensamento,esseselementosformama

basedareflexãopatrística.IgualmenteimportanteparaosPadreséaassociaçãodahistória

humanaedosindivíduoshumanoscomamorteeressurreiçãodeJesusCristo.Umavidade

amoreobediênciarefletee,decertomodo,envolve­nosnosignificadoperenedesuavidae

morte.Emborafalassemdemaneirasdiferentes,refletindosuasprópriasvisõesdemundoe

seusprópriosproblemas,osPadresdaIgrejaelaborarammaisprofundamente,combaseno

NovoTestamentoenoscrescentes"mistérios"davida,oraçãoepráticadaIgreja,umsólido

corpodetradiçãosobreoqualpoderiaserconstruídaareflexãoteológicaposterior.

b)Teoriasmaisrecentesdaredenção

14.AsSagradasEscrituraseosPadresdaIgrejaproporcionamumabasesólidaparaa

reflexãosobrearedençãodaraçahumanapormeiodavida,doensinamento,damorteeda

ressurreiçãodeCristocomooFilhodeDeusencarnado.Proporcionamtambémuma

abundânciademetáforaseanalogiasparailustrarecontemplaraobraredentoradeCristo.

FalandodeCristocomoconquistador,mestreemédico,osPadrestenderamadarênfaseà

ação"descendente"deDeus,masnãomenosprezaramaobradeCristocomoaqueleque

oferecesatisfação,pagandoo"resgate"devidoeoferecendooúnicosacrifícioaceitável.

15.Estariaforadoâmbitodopresentedocumentoumaretomadadahistóriadateologiada

redençãoaolongodosséculos.Paraonossopropósito,serásuficienteindicaralgunspontos

dedestaquedessahistória,afimdeexporasprincipaisquestõesquedevemserconsideradas

numaelaboraçãocontemporânea.

IdadeMédia

16.AcontribuiçãomedievalàteologiadaredençãopodeserestudadaemAnselmo,

AbelardoeTomásdeAquino.EmsuaobraclássicaCurDeusHomo,Anselmo,sem esquecerainiciativa"descendente"deDeusnaencarnação,colocaaênfasesobreaobra "ascendente"derestituiçãolegal.ElecomeçacomaideiadeDeuscomoSenhorsoberano, cujahonraéofendidapelopecado.Aordemdejustiçacomutativaexigereparaçãoadequada, quesópodeserdadapeloDeus­homem."Estadívidaeratãograndeque,emboraninguém alémdohomempudessesaldá­la,ninguémalémdeDeuseracapazdefazê­lo;detalmaneira quequemorealizatemdeserambos,Deusehomem". 83 Aooferecerasatisfaçãoadequada, Cristolibertaahumanidadedapenadevidapelopecado.Emboraenfatizeamortesatisfatória deCristo,AnselmonãofalanadaarespeitodaeficiênciaredentoradaressurreiçãodeCristo. Preocupadocomalibertaçãodaculpa,eledápoucaatençãoaoaspectodadivinização. Concentrandosuaatençãonaredençãoobjetiva,Anselmonãoseestendequantoà apropriaçãosubjetivadosefeitosdaredençãopelosredimidos.Elereconhece,porém,que Cristodeuumexemplodesantidadeparatodosseguirem. 84

17.EmborasemnegarovalorsatisfatóriodamortedeCristo,PedroAbelardopreferefalar

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deCristocomoaquelequeensinapormeiodoexemplo.Nasuaconcepção,Deuspoderiater satisfeitosuahonrasemacruzdeCristo,masDeusqueriaqueospecadoresse reconhecessemcomoobjetosdoamorcrucificadodeJesuse,assim,seconvertessem. AbelardovênapaixãodeCristoumarevelaçãodoamordeDeus,umexemploquenosincita

àimitação.Comoseulocusclassicus,elerecorreaJo15,13:"Ninguémtemmaioramordo

queaquelequesedespojadavidaporaquelesaquemama". 85

18.TomásdeAquinoretomaoconceitodesatisfaçãodeAnselmo,masinterpreta­ode

maneirasemelhanteaAbelardo.ParaAquino,asatisfaçãoéaexpressãoconcretadatristeza pelopecado.EleafirmaqueapaixãodeCristocompensouopecadoporser preeminentementeumatodeamor,semoquenãopoderiahaversatisfação. 86 Emseu

sacrifício,CristoofereceuaDeusmaisdoqueeraexigido.Citando1Jo2,2,Aquinodeclara

queapaixãodeCristoprestouumasatisfaçãosuperabundantepelospecadosdomundo inteiro. 87 AmortedeCristofoinecessáriaapenascomoresultadodeumadecisãoautónoma deDeusderedimirahumanidadedeummodoapropriado,quemostrasseaomesmotempoa justiçaeamisericórdiadeDeus. 88 ParaAquino,Cristoredentorcuraedivinizaosseres humanospecadoresnãoapenasporsuacruz,mastambémporsuaencarnaçãoeportodosos seusactaetpassaincarne,inclusivesuagloriosaressurreição.Emseusofrimentoemorte, Cristonãoéummerosubstitutodepecadorescaídos,masacabeçarepresentativadeuma humanidaderegenerada.Aquinodeclara"queCristoéacabeçadaIgrejaequeagraçaque elepossuicomocabeçaépassadaparatodososmembrosdaIgreja,porcausadaconjunção orgânicaobtidadentrodoCorpoMístico". 89

Reformaecontra­reforma

19.Osreformadoresprotestantesadotaramateoriaanselmiana,masnãodistinguiram,como

elehaviafeito,entreasalternativasdesatisfaçãoecastigo.ParaLutero,asatisfaçãotem lugarprecisamentepelocastigo.CristoestásobairadeDeuspois,comoPauloensinana

CartaaosGálatas3,13,eleassumiunãoapenasasconsequênciasdopecado,masopróprio

pecado. 90 DeacordocomLutero,Cristoéomaiordetodososladrões,assassinos,adúlteros eblasfemosquejamaisviveram. 91 Emalgunspontos,LuterofalaparadoxalmentedeCristo comosendototalmentepuroe,aindaassim,omaiordetodosospecadores. 92 ComoCristo pagouporcompletoacontadevidaaDeus,estamosdispensadosdequalquercompromisso. Ospecadorespodemcompletara"transaçãobem­sucedida"separaremdeseapoiarem quaisquerméritosprópriosevestirem­sepelafécomosméritosdeCristo,assimcomoelese vestiucomospecadosdahumanidade. 93 Ajustificaçãoocorreapenaspormeiodafé.

20.CalvinoapresentaumacompreensãoimputáveldapecaminosidadedeCristo.Dizeleque

Cristoestavacobertopelasujeiradopecadomediantea"imputaçãotransferida". 94 Aculpa quenostornavapassíveisdepuniçãofoitransferidaparaacabeçadoFilhodeDeus.Acima detudo,devemoslembraressasubstituição 95 afimdesermoslibertadosdaansiedade.Jesus nãosómorreucomomalfeitor;eletambémfoiparaoinfernoesofreuasdoresdos condenados. 96

21.NoséculoXVII,HugoGrotiusformulouasoteriologiadeCalvinoemumaformamais

jurídica,explicandodemododetalhadocomooderramamentodosanguedeCristomostrao ódiodeDeuspelopecado. 97

22.OConcíliodeTrentoapresentaumabrevediscussãodaredençãonoDecretosobrea

Justificação.Baseando­seemAgostinhoeAquino,oConselhoafirmouqueCristo,pormeio deseugrandeamor,mereceuanossajustificaçãoesatisfezpornósnomadeirodacruz. 98 A doutrinadasatisfaçãoéintegradaporTrentoemumquadromaisamplo,queincluia

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divinizaçãoconferidaaospecadoresjustificadospormeiodoEspíritoSanto,queostorna membrosvivosdocorpodeCristo. 99

Protestantismoliberal

23.Emalgumasversõesdapregaçãoprotestante,emesmocatólica,ateoriadasubstituição

penalapresentavaDeusquasecomoumsoberanovingativoexigindoreparaçãoporsuahonra ofendida.AideiadequeDeuspuniriaosinocentesemlugardosculpadosparecia incompatívelcomacertezacristãdequeDeuséeminentementejustoecheiodeamor.É compreensível,portanto,queoscristãosliberaisadotassemumaabordagembemdiferente, emqueajustiçavingativadeDeusnãotinhalugar.RetomandoAbelardoemcertosaspectos, algunsteólogosdoséculoXIXderamênfaseaoamorexemplardeJesus,queevocauma respostadegratidão,permitindoqueoutrosimitassemsuasaçõesamorosase,assim, alcançassemajustificação.SobainfluênciadeKant,adoutrinadaredençãofoipurificadade suassupostas"corrupçõessacerdotais",inclusivedosconceitosdesacrifícioesatisfação penal.AlbrechtRitschl,comodevidocréditoaKant,redefiniuaredençãoemtermosde liberdadeparacolaboraremumaassociaçãodevirtude,comvistasao"ReinodeDeus". 100

24.UmavariaçãodateorialiberalpodeserencontradaemSchleiermacher,queafirmavaque

Jesusnoslevaàperfeiçãonãotantoporaquiloqueelefaz,maspeloqueeleé,comoo exemplosupremodeconsciênciahumanatransformadapelauniãocomodivino.Aoinvésde falarapenaseminfluênciamoral,Schleiermacherusoucategoriasdecausalidadeorgânicase mesmofísicas."Aolhesconferirumnovoprincípiovital,oRedentorassumeosfiéisna comunidadedeSualímpidabem­aventurança,eestaésuaatividadereconciliadora." 101

MovimentosdoséculoXX

25.VáriasnovasteoriasdaredençãosurgiramnoséculoXX.Nateologiaquerigmáticade

RudolfBultmann,Deusredimeahumanidadepormeiodaproclamaçãodacruzeda ressurreição.ParaBultmann,osignificadoredentordacruznãoresideemqualquerteoria "ascendente"desacrifícioousatisfaçãovicária(ambasasquaistêmsabordemitologia),mas nojulgamento"descendente"domundoesualibertaçãodopoderdomal.Amensagem paradoxaldasalvaçãopormeiodacruzprovocanosseusouvintesumarespostadeamorosa submissão,pelaqualelessãolevadosdaexistêncianãoautênticaparaaautêntica."Acreditar nacruzdeCristonãosignificavoltar­separaumprocessomíticoforjadoforadenósede nossomundo,paraumacontecimentoobjetivovisívelqueDeusreverteparanossobem,mas significacrernacruz,asaber,assumiracruzdeCristocomosua,deixar­secrucificarcom Cristo". 102

26.PaulTillichtemumateoriaexistencialsemelhante,excetopelofatodeatribuiropoder

desuperaçãodaalienaçãohumanaàimagembíblicadeJesuscomooCristo,eespecialmente aosímbolodaCruz."ACruznãoéacausa,masamanifestaçãoefetivadeDeusassumindo sobresiasconsequênciasdaculpahumana". 103 ComoDeusparticipadosofrimento humano,assimsomosredimidosaoparticiparespontaneamentedessaparticipaçãodivinae permitirqueelanostransforme". 104

27.Emqualquerumadesuasformas,ateoriaexistencialatribuiaredençãoaopoderdeDeus

operantepormeiodaspalavrasousímbolosquetransformamaautocompreensãohumana.

UmaatençãoapenassecundáriaédedicadaaopróprioJesus,queéconsideradoumafigura

históricaobscuraeenvoltapelomito.

28.ReagindocontraodescasopeloJesushistóriconateologiaquerigmáticaecontraa

piedadecentralizadanaIgrejadosúltimosséculos,algunsteólogosmaisrecentestêmse

esforçadoparareconstruirahistóriarealdeJesusetêmenfatizadoomodocomosuamorte

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resultoudesualutacontraestruturasopressivaseinjustas,tantopolíticasquantoreligiosas. Jesus,afirma­se,defendeuosdireitosdospobres,dosmarginalizadosedosperseguidos. Seusseguidoressãoconvocadosademonstrarsolidariedadeparacomosoprimidos.Avidae mortedeJesussãovistascomoredentoras,namedidaemqueinspiramoutrosaentrarnaluta porumasociedademaisjusta.Essetipodesoteriologiaécaracterísticodateologiada libertaçãoedealgumasversõesdateologiapolítica. 105

29.Ateologiadalibertaçãopodeparecerunilateralemsuaênfasenasreformassociais.

Comoconcordamalgunsdosseusdefensores,asantidadenãopodeseralcançada,nemo

pecadovencido,porumameramudançanasestruturassociaiseeconómicas.Jáqueomal

temsuafonteemgrandemedidanocoraçãohumano,oscoraçõeseasmentesprecisamser

transformadoseimpregnadoscomavidadecima.Osteólogosdalibertaçãodivergementre

siquantoàênfasequedãoàesperançaescatológica.Algunsdelesafirmamdemaneira

explícitaqueoReinodeDeusnãopodesertotalmenteestabelecidopelaaçãohumanadentro

dahistória,masapenaspelaaçãodeDeusnaParousia.

30.Entreosteólogosmodernosquedesejamrestaurarosentidodaação"descendente"de

Deusembenefíciodesuascriaturasnecessitadas,KarlRahnermerecemençãoespecial.Ele colocaJesuscomoosímboloinsuperávelquemanifestaavontadesalvíficauniversale irreversíveldeDeus.Comorealidadesimbólica,Cristoefetivamenterepresentatantoa autocomunicaçãoirrevogáveldeDeusnagraçacomoaaceitaçãodessaautocomunicação pelahumanidade. 106 Rahnerébastantereservadoemrelaçãoànoçãodesacrifício expiatório,quedescrevecomoumaideiaprimitivaqueeraaceitacomoválidanostemposdo NovoTestamento,masque"nãooferecemuitaajudahojeparaacompreensãodaquiloque estamosprocurando",ouseja,osignificadocausaldamortedeJesus. 107 Nateoriade causalidadequasesacramentaldeRahner,avontadesalvíficadeDeusproduzosinal,no casoamortedeJesusesuaressurreição,enosinalepormeiodelefazaconteceraquiloqueé significado. 108

significado. 1 0 8

31.Pareceque,paraRahner,osbenefíciosessenciaisdaredençãopodemserobtidospela

aceitaçãodaautocomunicaçãointeriordeDeus,queédadaatodos,comoum"existencial

sobrenatural",antesmesmodeaBoaNovadeJesusCristoserouvida.Amensagemdo

Evangelho,quandosetornaconhecida,permitecompreendermelhoroquejáestáimplícito

napalavrainteriordagraçadeDeus.Todosqueouvemeacreditamnamensagemcristã

obtêmagarantiadequeapalavrafinaldeDeusparaossereshumanosnãoédeseveridadee

julgamento,masdeamoremisericórdia.

32.AteoriadeRahnerédeinquestionávelvalorporcolocaraênfasesobreainiciativa

amorosadeDeusesobrearespostaapropriadadeconfiançaegratidão.Elaseafastadas

limitaçõeslegalistasemoralistasdealgumasteoriasanteriores.Noentanto,alguns

questionaramseateoriadeixariaespaçosuficienteparaaeficáciacausaldoeventodeCristo

eespecialmenteparaocaráterredentordamortedeJesusnacruz.Poracasoosímbolo­

Cristosimplesmenteexpressaecomunicaoqueédadoanteriormentepelavontadesalvífica

universaldeDeus?ApalavrainteriordeDeus(como"revelaçãotranscendental")é

enfatizadaaexpensasdapalavraexteriordadanaproclamaçãodoevangelhocomoBoa

Nova?

33.IndoalémdeRahner,váriosteólogoscontemporâneosintroduziramumadistinçãomais

radicalentreosaspectostranscendentaisepredicamentaisdareligião.Paraeles,arevelação,

comoorientaçãotranscendental,édadaaoespíritohumanosempreeemtodaparte.Nas

váriasreligiões,inclusivenojudaísmoenocristianismo,elesencontramsimbolizações

históricaeculturalmentecondicionadasdeumaexperiênciaespiritualcomumatodaselas.

Todasasreligiõessãoconsideradasredentoras,namedidaemqueseus"mitos"provocama

consciênciadotrabalhointeriordagraçaeincitamseusseguidoresàaçãolibertadora.Apesar

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desuasdivergênciasdoutrinárias,afirma­se,asváriasreligiõesestãounidasemsua orientaçãoparaasalvação."Aconfiançacomum,noentanto,permanecesoteriológica,sendo apreocupaçãodamaiorpartedasreligiõesalibertação(vimukti,moksa,nirvana)", 109 Com baseemraciocínioscomoesse,umteólogocontemporâneosugereumatransiçãodo teocentrismoouCristocentrismoparaoqueelechamade"soteriocentrismo". 110

34.Essasabordagensinter­religiosassãotentativaslouváveisdealcançarumaharmonia

entreasdiferentesconcepçõesreligiosasereafirmarocentralismodasoteriologia.Masas

diferentesidentidadesdasreligiõesficamameaçadas.Ocristianismo,emparticular,é

desfiguradoseforprivadodesuadoutrinadequetodaredençãonãoocorresimplesmentepor

intermédiodeumaobrainteriordagraçadivinaoupormeiodocompromissohumanocoma

açãolibertadora,masmedianteaobrasalvadoradoVerboEncarnado,cujavidaemortesão

acontecimentoshistóricosreais.

35.Partindo­sedateologiatranscendentaldasreligiões,restaapenasumpequenopassopara

asteoriasdaNovaEra,jámencionadanaprimeiraparte.Nasuposiçãodequeodivinoseja umconstitutivointrínsecoinerentedanaturezahumana,algunsteólogosargumentamem favordeumareligiãodecelebraçãocentralizadanacriação,emlugardaênfasecristã tradicionalnaquedaenaredenção.Asalvaçãoévistacomosendoadescobertaeatualização dapresençadivinaimanentepormeiodaespiritualidadecósmica,daliturgiadojúbiloede técnicaspsicológicasdeelevaçãodoníveldeconsciênciaoudeautodomínio. 111

36.Osmétodosdeconscientizaçãoedisciplinaespiritualqueforamdesenvolvidosnas

grandestradiçõesreligiosaseemalgunsmovimentoscontemporâneosde"potencial

humano"nãodevemsernegligenciados,masnãopodemserequiparadosàredençãono

sentidocristãodapalavra.Nãoháumabasesólidaparaseminimizarosefeitosinsidiososdo

pecadoeaincapacidadedahumanidadepararedimirasiprópria.Ahumanidadenãoé

redimida,nemDeuséapropriadamenteglorificado,anãoserpelaaçãomisericordiosade

DeusemJesusCristo.

Recuperaçãodatradiçãoanterior

37.Diversosteólogoscatólicoscontemporâneosprocurammanteremtensãoostemas

"descendente"e"ascendente"dasoteriologiaclássica.Inclinando­semuitasvezesnadireção

deumateologianarrativaoudramáticadaredenção,essesautoresrecuperaramtemas

importantesdasnarrativasbíblicas,deIreneu,AgostinhoeTomásdeAquino.Opanoramaa

seguirfoibaseadoemmateriaistiradosdeumasériedeautoresrecentes.

38.Sendodistintasdasteoriaslegalistasderestituiçãoousubstituiçãopenal,essasteorias

colocamaênfasesobreoquepoderíamoschamardeliderançarepresentativa.Emboranão

desconsideremaoposiçãoentreoRedentoreosredimidos,essasteoriasenfatizamamaneira

comoCristoseidentificacomahumanidadecaída.EleéonovoAdão,oprogenitordeuma

humanidaderedimida,aCabeçaouaVideiraaqueosindivíduosdevemserincorporados

comomembrosouramos.Aparticipaçãosacramentaléamaneiranormalpelaqualos

indivíduostornam­semembrosdoCorpodeCristoecrescememsuauniãocomele.

39.AteoriadarepresentaçãoentendearedençãocomoaintervençãomisericordiosadeDeus

nasituaçãohumanadepecadoesofrimento.OVerboencarnadotorna­seopontodeunião

paraaconstituiçãodeumahumanidadereconciliadaerestaurada.TodaacarreiradeJesus,

inclusiveosmistériosdesuavidapúblicaeprivada,éredentora,masatingeaculminaçãono

mistériopascal,pormeiodoqualJesus,pelasuasubmissãoamorosaàvontadedoPai,

estabeleceumanovarelaçãodealiançaentreDeuseahumanidade.AmortedeJesus,que

resultainevitavelmentedesuaoposiçãocorajosaaopecadohumano,constituioseuato

supremodeauto­entregasacrificale,nesteaspecto,éagradávelaoPaieproporcionauma

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satisfaçãonotávelparaadoençadopecado.Semserpessoalmenteculpadonempunidopor Deuspelospecadosdeoutros,Jesusamorosamenteidentifica­secomahumanidadepecadora eexperimentaadordesuaalienaçãodeDeus. 112 Emsuahumildade,Jesuspermitequeseus inimigosdescarreguemseuressentimentosobreele.Dandoamoremtrocadoódio,e consentindoemsofrercomosefosseculpado,Jesustornapresentenahistóriaoamor misericordiosodeDeuseabreumcanalpeloqualagraçaredentorapodefluirsobreo mundo.

40.Aobraderedençãocompleta­senavidaressuscitadadoSalvador.AoressuscitarJesus

dosmortos,Deusoestabelececomofontedevidaparamuitos.Aressurreiçãoéo

derramamentodoamorcriativodeDeusnoespaçovaziocriadopelovácuodaauto­

abnegaçãodeJesus.PorintermédiodoCristoressuscitado,agindonoEspíritoSanto,o

processoderedençãocontinuaatéofimdostempos,comnovosindivíduossendo,porassim

dizer,"enxertados"nocorpodeCristo.Ospecadoressãoredimidosquandoseabremparaa

auto­entregagenerosadeDeusemCristo;quando,comaajudadessagraça,imitamsua

obediênciaequandodepositamsuaesperançadesalvaçãonacontinuadamisericórdiade

DeusemseuFilho.Emsuma,serredimidoéentraremcomunhãocomDeuspormeioda

solidariedadecomCristo.NocorpodeCristo,asparedesdedivisãosãoprogressivamente

demolidas;areconciliaçãoeapazsãoalcançadas.

ParteIV

Perspectivassistemáticas

a)AidentidadedoRedentor:queméoRedentor?

1.Apartirdasprópriasideiasdepecadoouqueda,porumlado,edegraçaoudivinização,

poroutro,pareceevidentequeanaturezahumanacaídanãoeraporsisócapazderestaurar seurelacionamentorompidocomDeusevoltarateramizadecomele.Portanto,um verdadeiroRedentorteriadeserdivino.Eraaltamenteapropriado,noentanto,quea humanidadedesempenhasseumpapelnareparaçãodesuaprópriafaltacoletiva.Nas palavrasdeTomásdeAquino,"Ummerohomemnãopoderiaprestarsatisfaçãoportodaa raçahumana;masDeusnãoprecisavaprestaressasatisfação;portanto,eranecessário (oportebat)queJesusCristofossetantoDeusquantohomem". 113 Deacordocomafécristã, Deusnãocancelouaculpahumanasemaparticipaçãodahumanidadenapessoadonovo Adão,emquemtodaaraçahaveriadeserregenerada.

2.Assim,aredençãoéumprocessoqueenvolvetantoadivindadequantoahumanidadede

Cristo.Seelenãofossedivino,nãopoderiapronunciarojulgamentodeperdãoefetivode

Deus,nempoderiaterpartenavidaTrinitáriainteriordeDeus.Mas,senãofossehomem,

JesusCristonãopoderiafazerareparaçãoemnomedahumanidadepelospecadoscometidos

porAdãoeseusdescendentes.Somenteporterasduasnaturezaséqueelepôdeseracabeça

representantequeoferecesatisfaçãoportodosospecadoreseaelesconfereagraça.

3.ComoumaobraadextradeDeus,aredençãoéatribuívelatodasastrêspessoasdivinas,

maséatribuídaacadaumadelasemdiferentesaspectos.AiniciativapelaqualoFilhoeo EspíritoSantosãoenviadosaomundoéatribuídaaoPai,afonteoriginaldequemfluem todasasbênçãos.OFilho,namedidaemquesetornaencarnadoemorrenaCruz,produza reversãopelaqualsomostransformadosdainimizadeparaaamizadecomDeus.OEspírito Santo,enviadoparaamenteeocoraçãodosfiéis,permite­lhesparticiparpessoalmentedos benefíciosdaaçãoredentoradeDeus.DepoisdaAscensãodeCristo,oEspíritoSantotorna presentesosfrutosdaatividaderedentoradeCristonaIgrejaepormeiodela. 114

4.QueméoRedentor?EstaperguntasópodeserrespondidadedentrodaIgrejaepela

Igreja.ConheceroRedentorépertenceràIgreja.Agostinhodeuênfaseaessepontoemseu

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ensinamentosobreoCristototal,Christustotus,CabeçaeMembrosjuntos.Comodisse Gregório,oGrande,"NossoRedentoréconsideradoumasópessoacomasantaIgreja,que elecrioucomosua". 115 AvidadaIgrejacomoocorpodeCristonãopodeseramputadada vidadaCabeça.JoãoEudesofereceumaabordageminicialparaumadescriçãoda individualidadedoRedentor:"Devemosiradianteecompletar,emnósmesmos,as disposiçõesemistériosdeJesusepedirfrequentementeaelequeosrealizeeaperfeiçoeem nóseemtodaasuaIgreja OFilhodeDeusdefatodeseja nosfazercompartilhardosseus mistérios,desenvolvê­losecontinuá­losdealgumaformaemnóseemtodaasuaIgreja". 116

Gaudiumetspesn.22expressaestaabrangenteindividualidadedoRedentor:"Naverdadeé

apenasnomistériodoVerbofeitocarnequeomistériodohomemdefatosetornaclaro. PorqueAdão,oprimeirohomem,foiumarepresentaçãodaquelequedeveriavir,Cristo,o Senhor.Cristo,onovoAdão,naprópriarevelaçãodomistériodoPaiedeseuamor,revela inteiramenteoserhumanoasimesmoetrazàluzoseumaisaltochamado Anatureza humana,peloprópriofatodetersidoassumida,enãoabsorvida,porele,tambémfoielevada emnósaumadignidadealémdetodacomparação.Pois,porsuaencarnação,ele,oFilhode Deus,decertomodoseuniuacadapessoahumana.Eletrabalhoucommãoshumanas, pensoucomumamentehumana.Agiucomvontadehumanae,comumcoraçãohumano,ele

amou".JoãoPauloIIfazecoaissoemRedemptorhominis13,3:"Cristouniu­separasempre

acadahomempormeiodomistériodaRedenção".

5.PelaencarnaçãodoVerbo,aindividualidadedoRedentortorna­sediscernívelparanósjá

comtodaasuaforçaredentora.Nomistériopascal,oRedentorpôsasalvaçãoàdisposição detodos:"Quantoamim,quandoeuforelevadodaterra,atraireiamimtodososhomens"

(Jo12,32).AdádivadePentecostespermitiuqueseusapóstolosediscípulosfinalmente

reconhecessemquemeoqueeraJesus,quando,nacomunidadedaIgreja—noensinamento,

nafraçãodopãoenasorações(At2,42)—,elestomaramconsciênciadoqueJesushavia

feitoporeles,oquelheshaviaensinadoeordenado.EstaéprecisamenteafunçãodoEspírito

Santonateologiajoanina(cf.Jo16,13­15).

6.Poressarazãonós,comosereshumanos,podemosficarconhecendoqueméoRedentor,

masapenasdentrodacomunidadedaIgrejaepormeiodela.Cristonãopodeserisoladoda

Igreja.CristoéprecisamenteaquelequealimentaseucorpocomoIgrejae,assim,atraia

comunidadedefiéisparaaobraderealizaçãodaredenção.Tambémseriaumerro

sobrecarregaraIgrejacomumaautonomiaqueelanãopoderiasuportarsozinha.

7.AindividualidadedeCristodeveserentendidadentrodesta"constelaçãocristológica"que

tomaformaconcretanaIgreja.OmistériodaPáscoaformaocontextoparaoanolitúrgicoda Igreja. 117 Oscristãossãoconvidados—pormeiodaobjetividadedesuafé(fidesquae)e tambémdeacordocomsuasprópriaspossibilidadesdentrodacomunidadedaIgreja—a confessarepregarCristocomooúnicoRedentordestemundo,demodoqueaIgrejaéo sacramentodaSalvaçãouniversal.OeventodeCristoestaráacessívelpormeiodaIgrejana medidaemqueaIgrejapercebe,explicaepregaaindividualidadedoRedentor.

8.AIgrejatornapresenteoúnicoRedentornosentidodeque,comoumacomunidade

(koinonía)queviveomistériodaPáscoa,eladáasboasvindasatodosqueexperimentarem ajustificaçãoemCristonoBatismoounosacramentodareconciliaçãoequedesejarem vivenciararedenção.Emboradevamoslevaremconsideraçãoqueacomunhãonosacrifício deCristo("prosphorá")tambémimplicaaparticipaçãonosseussofrimentos, 118 este sofrimentocomCristoqueéexpressosacramentaleefetivamentenavidacristãcontribui paraaconstruçãodaIgrejae,portanto,éredentor.

9.OsignificadodaredençãoeaindividualidadedoRedentorsãoreveladosnasatividades

queconstituemaIgrejanestemundo:martyriadiakoníaeleitourgía.Comoakoinoníado

Senhor,aIgrejaconvocaahumanidadeaumestilodevidaaltruísta(prosphorá),quetemsua

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baseprincipalmentenaEucaristia,mastambémnacomunhãodossantos—emqueMaria

desfrutadeumlugarespecial.Esteconhecimento,adquiridoapartirdafévividadaIgreja,de

queexisteumainter­subjetividadeentreosredimidoseoúnicoRedentor,podeser

objetivadaemdeclaraçõesteológicasgenuínas.Taisdeclarações,quandopartemda

objetividadedoRedentor,podemreforçaravidadefédoindivíduo,dando­lheumaforma

precisa.Porexemplo,ébastanteantigaeinseparavelmenteunidaaoconhecimentoda

individualidadedoRedentoracelebraçãododomingocomooDiadaRessurreiçãodaquele

quefoicrucificado.

10.AassociaçãodaIgrejanaobraredentoradeCristoéeminentementeconfirmadana

pessoadeMaria,MãedaIgreja.Porumagraçasingular,elafoipreservadadetodopecadoe suaassociaçãocomaobraredentoradeCristochegariaaseupontomaisaltonaCrucifixão, quando,"sofrendoprofundamentecomseuFilhounigénito elaseuniucomcoração maternalaosacrifíciodelee,amorosamente,consentiunaimolaçãodestavítimaqueela

mesmatrouxeraaomundo 119 NaspalavrasdeJoãoPauloII,"Comamorteredentorade

seuFilho,amediaçãomaternaldavirgemdoSenhorassumiudimensãouniversal.Emseu

carátersubordinado,acooperaçãodeMariacompartilhadauniversalidadedamediaçãodo

Redentor,oúnicoMediador". 120

"

11.OPainosfezseusfilhosaonosredimirpormeiodavontadehumanadeCristo.Pelofato

deCristoterobedecidoavontadedoPaiedadosuavidapormuitos, 121 suapessoaesua obradeRedençãoemnossomundoadquiremumsignificadoeumadignidadesingularese incomparáveis.AcondiçãodeCristovirdoPaicontinuanasuaentregapornós.Este relacionamentoúnico,porsuapróprianatureza,nãopodeserteologicamenteintegradoa nenhumaoutrareligião,emboraaobraderedençãosejaacessívelatodos.Ofatodea vontadehumanadeCristocomoRedentorserhistoricamentecondicionadanãoexclui,porsi só,apossibilidadedeelaserhumanamentesuigeneris,oqueé,talvez,oqueaCartaaos Hebreuschamade"obediênciaaprendida",umaobediênciaqueCristocumprirá radicalmentenomistériopascal.ComoestavontadehumanadeCristocomoRedentorestá totalmentedeacordocomavontadedivina("Masnãosefaçaaminhavontade,masatua!"), Cristotambémé,comomediadorencarnado,nossoadvogadonosantuáriocelestial. 122

12.Semdúvidaalguma,aideiadoRedentorqueseentregaportodosdepende,semdúvida,

domistériodaPáscoa,mastambémdomistériodaencarnaçãoedosmistériosdavidade Cristoquesão,paraoscristãos,umconviteeumexemploparaviveremsuavidacomo"filii inFilio" 123. AquificaclaroqueavidacristãtemumadimensãoTrinitária.Nocursoda justificaçãoqueofielpoderecebernaIgreja,aexperiênciacristãpassa,comoRedentor, paraumasantificaçãodavidaredimida,queéorientadaeaperfeiçoada—maisintensamente doquenajustificação—peloEspíritoSanto.Issosignificaquesomosconvidados,por intermédiodeCristonoEspíritoSanto,acompartilhar,jáagora,avidadivinadaTrindade.A dádivadoPai,ouseja,apessoadeseuFilhoeacomunhãonoEspíritoSanto,impossibilita dessaformaumpelagianismoquetentassejustificaranaturezahumanapelosseuspróprios recursos,eexcluiigualmenteumquietismoqueenvolvessepoucodemaisapessoahumana.

13.Avidacristãécorretamenteconsideradanatradiçãocomoumapreparaçãoparaa

comunhãoeternacomDeus.Nessesentido,estamosviajando"nacarne"emdireçãoaonosso

únicoSenhor,oRedentor,demaneiraa,umdia,estarmosmaiscompletamenteunidosaele.

Noentanto,aindividualidadedoRedentoréreveladanavidadosfiéisaquieagora.Neste

mundo,marcadocomoépelabondadedacriaçãoepelopecadodaQueda,oscristãos

procuram,porsuaimitaçãodeCristo,vivenciarepropagararedenção.Umprocedimento

virtuosoeoexemplodeumestilodevidacristãotornampossívelparaaspessoasdetodasas

épocassaberqueméoúnicoRedentordestemundo.Evangelizaçãoéprecisamenteisso.

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b)Ahumanidadecaídaeredimida

14.AfécristãnaRedençãoé,acimadetudo,aféemDeus.EmJesusCristo,SeuúnicoFilho

Encarnado,"aquelequeoshomenschamamdeDeus"(SãoTomé),revela­serevelandoasi

mesmocomooúnicoeverdadeirosalvador,emquemtodospodemconfiar.Aomesmo

tempo,noentanto,devemosobservarqueesteDeus­salvadortambémrevelaahumanidade

paraelamesma,eaprópriacondiçãodestafica,assim,radicalmentesituadae

constantementechamadaaseautodefiniremrelaçãoàsalvaçãoquelheéoferecida.

15.ComoéacondiçãohumanailuminadapelasalvaçãoqueDeuslheofereceemJesus

Cristo?Comoahumanidadeseapresentadiantedaredenção?Arespostapoderiaesclarecera

históricasituaçãohumanamas,comoobservamosnoCapítuloI,tambémémarcadapor

importantescontrastes.

16.Seriapossíveldizerque,diantedaredençãoqueJesusCristooferece,ahumanidade

descobrequeéfundamentalmenteorientadaparaasalvaçãoeprofundamentemarcadapelo

pecado.

Humanidadeparaasalvação

17.AprimeiraluzquearedençãodeCristolançasobreahumanidadeéqueElearevelapara

simesmacomosendo,aomesmotempo,destinadaàsalvaçãoecapazdeaceitá­la.

18.TodaatradiçãobíblicaestácheiadesituaçõesemqueopovodeIsrael—ouosgrupos

depessoaspobresquesãochamadosaformaropovodeIsrael—foilevadoaprocurare

confessarseuDeuspormeiodeintervençõespelasquaisDeusosalvadaafliçãoeperdição.

DesdeasaventurasdoÊxodo,ondeoSenhorinterferiucommãoforteebraçosestendidos,

atéoperdãodadoaoscoraçõessofridosearrependidos,ficaclaroque,paraopovodeDeuse

paracadafiel,Deusrevela­senamedidaemqueofereceasalvação.

19.Mas,demaneiraanáloga,ficaclaroqueDeusintervéme,assim,revela­seemrelaçãoa

umanecessidadedesalvaçãoclaramentemanifestadaemsuasverdadeirasdimensõespara

aquelesquesebeneficiamdasalvaçãoqueDeuslhesoferece.Essacaracterísticageralda

revelaçãobíblicaserásalientadanoNovoTestamento.

20.DeusfoitãofielaoSeu"compromisso"comahumanidade,aSeuplanoparaumaaliança

comahumanidade,que,"nomomentoindicado",mandouaomundooSeuúnicoFilho.Em

outraspalavras,Deusnãosesatisfezapenasemintervir"defora",pormeiode

intermediários,ouseja,permanecendoàdistânciadaquelesqueEledesejavasalvar.Em

JesusCristo,Deuscolocou­senomeiodoshomens,Deustornou­seumdeles.OPaimandou

SeuúnicoFilho,noEspíritoSanto,paracompartilhardacondiçãohumana(emtodasas

coisas,excetoopecado),demodoaestabeleceracomunicaçãocomahumanidade.Issofoi

feitoparapermitirqueoshomensrecuperasseminteiramenteofavordeDeuseentrassem

porcompletonavidaDivina.Oresultadoéqueacondiçãohumanasevênumaperspectiva

completamentenova.

21.Acondiçãohumanaaparece,acimadetudo,comooobjetodeumamorquepodeir"aos

extremos":aprovadequeDeusnosamaéque"Cristomorreupornósquandoaindaéramos

pecadores"(Rm5,8),e"seDeusépornós,quemserácontranós?Ele,quenãopoupouoseu

próprioFilho,masoentregoupornóstodos,como,juntocomoseuFilho,nãonosdaria

todasascoisas?"(Rm8,31­32).

22.Eexisteaindaatotalidadedodestinoqueesperaahumanidade,deacordocomavontade

salvíficaqueDeusmanifestouaesterespeitoemseuFilho,queseencarnou,morreue

ressuscitoudosmortos.HátambémanaturezaradicaldasalvaçãoqueDeusdestinaà

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humanidadeemJesusCristo:elaéconvidadaaentrar,porsuavez,nodinamismodo

mistériopascaldeJesus,oCristo.Porumlado,estasalvaçãoassumeaformadeumafiliação

noEspíritodeCristo,oFilho.AtraídoseapoiadospeloEspíritoSanto(participantespor

meiodossacramentos),oshomenssãochamadosaviverpelaféenaesperançaasua

condiçãodefilhosdoPaiqueestánoscéus,mascomaresponsabilidadedecumprirSua

vontadenaterra,amandoeservindoaosseusirmãosnoamor.

23.Poroutrolado,senãolhessãonegadasasexperiênciasdeesperançaetristeza,defatoos

sofrimentosdestemundo,elessabemqueagraçadeDeus—apresençaativanelesdoSeu

amoremisericórdia—iráacompanhá­losemtodasascircunstâncias.E,setêmde

experimentartambémamorte,elessabemqueelanãoselaráoseudestino,poistêma

promessadaressurreiçãodocorpoedavidaeterna.

24.Emboraahumanidadepareçaserpobreeindigna,nãodevemosconcluirqueelaé

totalmentesemvaloraosolhosdeDeus.Pelocontrário,aBíblianosrecordaotempotodo que,seDeusintervémemfavordahumanidade,éprecisamenteporqueDeusconsideraos sereshumanosdignosdesuaintervenção.Devemoslembrar,porexemplo,agarantiadadaa Israel,nomomentodeseumaisprofundosofrimento:"pelofatodevaleresmuitoaosmeus

olhos,deterespesoedeeuteamar"(Is43,4).

25.Emoutraspalavras,deacordocomafébíblicaecristã,apesardetudooqueénegativo

nahumanidade,existealialgumacoisaqueé"capazdesersalva",porqueelaécapazdeser

amadapeloPróprioDeuse,consequentemente,éamadaporEle.Comopodeserisso,e

comoapessoahumanaseapercebedisso?

26.Arespostabíblicaecristãédadanadoutrinadacriação.Segundoestadoutrina,a

humanidadeeomundonãotêmdireitoaexistirmas,apesardisso,nãosãoresultadodo

"acasoedanecessidade".Existemporqueforamesãochamadosaexistir.Foramchamados

quandoaindanãotinhamexistência,demaneiraqueviessemaexistir.Sãochamadosdanão­

existênciaparaserdadosasimesmose,assim,existiremsimesmos.

27.Masseéestaacondiçãonativadohomemnestemundo,acondiçãoqueodefine

precisamentecomoumpregador,háconsequênciasimportantesqueafétornaexplícitas.

28.Deusnãocriaahumanidadesemterumaintenção.Eleacriapelamesmarazãorevelada

nasintervençõesdivinasnahistória:poramorpelahumanidadeeparaoseubem.Deforma

maisprecisa,elecriaapessoahumanaparafazerumaaliançacomela,comvistasatorná­la

participantedasuaprópriavida.Ouseja,seexisteacriação,éporgraça,pelavidadeDeus,

comDeuseparaDeus.

29.SeDeusnoschamaparaumdestinoqueclaramenteultrapassanossacapacidadehumana,

jáquesópodeserpuragraça,tambéméverdadequeessedestinodevecorresponderaoque

apessoahumanaécomotal.Casocontrário,seriaumaoutrapessoaquenãoaquelaqueé

chamadaparasersalvaquereceberiaodomdeDeuseseriabeneficiáriadagraça.Neste

sentido,emborarespeitandoagratuidadedagraça,anaturezahumanaéorientadaparao

sobrenatural,erealiza­seneleepormeiodele,detalmaneiraqueanaturezadahumanidade

ficaabertaparaosobrenatural(capaxDei).

30.Noentanto,comoissosótemsignificadonocontextodeumaaliança,deve­setambém

observarqueDeusnãoimpõeSuagraçaàhumanidade;Elesimplesmenteaoferece.No

entanto,issoenvolveumrisco.UsandoaliberdadequeDeuslheconferiu,oserhumanopode

nemsempreagiremharmoniacomasintençõesdeDeus,maspodeusarmalostalentosque

Deuslheconferiuparaseusprópriosfinsesuaprópriaglória.

31.Deusconcedeuessesdonsparaqueodesejoquelevariaahumanidadeaprocurarea

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encontrarDeuscomosuaúnicarealizaçãoviessedaprópriapessoahumana.Masohomem

semprepodereorientarodinamismodesuanaturezaeomovimentodeseucoração.Apesar

disso,permaneceverdadeiroofatodequeoserhumanofoiconstituídoecontinuarácomotal

peloamordeDeus:pelagraçaesalvaçãoqueDeuspretendeparaele.

Ahumanidadeempecado

32.AredençãodeCristonosdáumsegundopontodevistacomrelaçãoàhumanidadeem

suacondiçãohistórica:osaspectosnegativosqueacaracterizamtambémsãoresultadodo

pecadohumano,masistonãocolocaemdúvidaafidelidadedeDeusaoSeuamorcriadore

salvador.

33.Comoéocasoemqualquerexperiênciacomum,aféprecisalevaremconsideraçãoos

aspectosnegativosdacondiçãohumana.Elanãopodeignorarque,nahistória,nemtudo

ocorredeacordocomasintençõesdeDeus,oCriador.Noentanto,istonãoinvalidaafé:o

Deusqueaféprofessaédignodeconfiança.Deusnãosómanteve­sefirmeemSuaprimeira

intenção,comotambémprocurouosmeiosderestaurar,deummodorealmenteadmirável,

aquiloquehaviasidoprometido.IntervindoemJesusCristo,elemostrou­SefielaSimesmo,

apesardainfidelidadedohomem,Seuparceironaaliança.

34.AomandarSeuúnicoFilhoemformahumana,Deus,ocriadoresalvadordomundo,

removeutodajustificativaquepusesseemdúvidaoplanodivinodeumaaliançasalvadora.

35.EstamanifestaçãodafidelidadedeDeusàsuaaliançamostraosaspectosnegativosda

condiçãohumanae,consequentemente,aextensãoeprofundidadedanecessidadede

salvaçãonoseiodaraçahumana.

36.SedefatoDeustevedemandarSeuúnicoFilhopararestaurarSeuplanodesalvação

fundamentadonopróprioatodacriação,éporqueesseplanohaviasidorealmente

comprometido.Seusucessoestárelacionadocomesse"reinício",queIreneuchamade

"recapitulação".SeoFilhotornou­seencarnadopararestabeleceraaliançadeDeus,é

porqueaaliançafoirompidanãopelavontadedeDeus,maspelavontadedoshomens.Ese,

parapoderrestabelecê­la,oFilhoEncarnadotevedefazeravontadedoPai,seEletevede

serobedienteatéamorte,mesmoamortenacruz,éporqueaverdadeirafontedoinfortúnio

humanoestánasuadesobediência,noseupecado,nasuarecusaemcaminharpelastrilhasda

aliançaoferecidaporDeus.

37.Assim,aencarnação,vida,morteeressurreiçãodoFilhoúnicodeDeus,alémderevelar

oamordeDeus,oSalvador,aomesmotemporevelaacondiçãohumanaàprópria

humanidade.

38.SeJesusaparececomooúnicocaminhoparaasalvação,éporqueahumanidadeO

necessitaparasuasalvação,eporque,semEle,elaestaráperdida.Portanto,devemos reconhecerquetodasaspessoas,eomundointeiro,estavam"submetidosaopecado"(Gl

3,22),equeissotemsidoassim"desdeoprincípio".Portanto,pode­sedizerqueJesus

apareceupara"restaurar"acondiçãohumanadeummodoradical,ouseja,comumnovo

começo.

39.Pode­sedizerqueCristorepresentamaisum"começo"doqueopróprioAdão.Oamor

"original"émaisimportantedoqueopecado"original",jáquearaçahumanasótomou conhecimentocompletodaextensãoeprofundidadedopecadoquecaracterizasuacondição nomomentoemque,emJesusCristo,foramrevelados"alargura,ocomprimento,aaltitude

eaprofundidade"(Ef3,18)doamordeDeusportodaaraçahumana.

40.SeDeusmandouSeuúnicoFilhoparareabrirasportasdasalvaçãoparatodos,éporque

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ElenãomudouSuaatitudecomrelaçãoàhumanidade;amudançafoiporpartedaraça humana.AaliançadesejadadesdeoprincípiopeloDeusdeamorficoucomprometidapelo pecadohumano.Consequentemente,haviaumconflitoentreoplanodeDeus,deumlado,e

ocomportamentoeosdesejoshumanos,deoutro(Rm5,12).

41.AorecusaroconvitequeDeusfezdesdeoprincípio,ahumanidadedesviou­sedeseu

verdadeirodestino,eosacontecimentosdahistóriasãomarcadosporumaalienaçãoem

relaçãoaDeuseaSeuplanodeamor;defato,ahistóriaémarcadaporumarejeiçãode

Deus.

42.AvindadoFilhoúnicodeDeusparaoseiodahistóriahumanarevelaavontadedivina

deinsistirnaaplicaçãodeseuplanoapesardaoposiçãoenfrentada.Alémdelevaremcontaa

gravidadedopecadoedesuasconsequênciasporpartedahumanidade—o"mistério"da

iniquidade—,omistériodeCristo,eparticularmenteSuacruz,éarevelaçãoclarae

definitivadanaturezamisericordiosa,radicalmenteclementeeescatologicamentevitoriosa,

doamordeDeus.

43.Aquipodemosnotarotradicionaltemapatrísticoeagostinianodosdois"Adãos".Nãose

observaumatentativadecriaressaequivalênciamas,mesmoassim,asuaaproximação tradicionaléricaemsignificado.Asprincipaispassagenspaulinasquetraçamoparalelo(Rm

5,12­15e1Cor15,21­22;45­47)usam­noparacolocaremdestaqueadimensãouniversaldo

pecado,porumlado,edasalvação,poroutro.Emsuaaplicação,esseparaleloédominado

pelaideiado"muitomais"queabalançapendeemfavordeCristoedasalvação:seo

primeiroAdãotemumadimensãouniversalnaordemdaQueda,muitomaisosegundo

adquiriuessadimensãouniversalnaordemdasalvação:emoutraspalavras,pormeioda

dimensãouniversaldeSuaoferendaedaeficáciaescatológicadesuacomunicação.

44.Portanto,éassimqueapareceacondiçãohumana:divididaentredoisAdãos.Eéassim

queafécristãinterpretaestasituação"decontraste"quequalquerpessoa,mesmoforado contextodafé,podereconhecercomoumacaracterísticadacondiçãohistóricadapessoa humana.Mergulhadaemumahistóriadepecado,desobediênciaemorte,comoresultadode suasorigensemAdão,ahumanidadeéchamadaaentraremsolidariedadecomonovoAdão queDeusenviou:SeuúnicoFilho,quemorreupornossospecadoseressuscitouparanossa justificação.Afécristãdeixaclaroque,comoprimeiroAdão,houveumaproliferaçãode pecado,ecomosegundoAdão,umasuperabundânciadegraça. 124

45.Todoocursodahistóriahumanaeocoraçãodecadapessoaconstituemopalcoemqueo

dramadasalvaçãoedavidadetodosossereshumanos,edagraçaeglóriadeDeus,temsido

encenadoentreessesdoisAdãos.

c)Omundosobagraçaredentora

Ahumanidadesobosinaldaredenção

46.FoiprincipalmenteparasalvarossereshumanosqueoFilhodeDeustornou­senosso

irmão(Hb2,17),comonósemtodasascoisas,excetoopecado(Hb4,15).Deacordocom

certosautorespatrísticos(inclusiveIreneueAtanásio,conformemencionadonaParteIII,

acima),pode­seafirmarque,emboranãopossahaveruma"encarnaçãocoletiva",a

encarnaçãodoLogosafetatodaanaturezahumana.Namedidaemqueummembroda

famíliahumanaéopróprioFilhodeDeus,todososoutrossãoelevadosaumanova

dignidade,comoseusirmãoseirmãs.PrecisamenteporqueanaturezahumanaqueCristo

assumiumantevesuaidentidadedecriatura,apróprianaturezahumanafoierguidaauma

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humanos". 125 Como"segundoAdão",CristorecapitulaahumanidadediantedeDeus, tornasseacabeçadeumafamíliarenovadaerestauraaimagemdeDeusàsuaverdade original.RevelandoomistériodoamordoPai,Cristomostratotalmenteahumanidadeasi mesmaerevelaosupremochamadoacadaindivíduo. 126

47.Emsuarelaçãocomodestinofinaldoshomens,aobraredentoradeCristoafetatodosos

sereshumanos,jáquetodossãochamadosparaavidaeterna.Aoderramarseusanguena cruz,Cristoestabeleceuumanovaaliança,umregimedegraça,queédirigidoatodaa humanidade.Cadaumdenóspodedizercomoapóstolo:"(Ele)meamoueseentregoupor

mim"(Gl2,20).Todossãochamadosaparticipar,poradoção,daprópriafiliaçãodeJesus.

Deusnãofazestechamadosemnosdaracapacidadederesponderaele.Assim,oVaticano IInosensinaquenenhumserhumano,mesmoalguémquenuncatenhaouvidooevangelho, deixadesertocadopelagraçadeCristo. 127 "DevemosacreditarqueoEspíritoSanto,deum modoconhecidoapenasporDeus,ofereceatodosapossibilidadedeseassociaraeste mistériopascal". 128 Emborarespeitandototalmenteosdesígniosmisteriososdadivina Providênciacomrelaçãoaosnãoevangelizados,aatençãofocaliza­seaquinoplanorevelado desalvação,quemostraasdeliberaçõesmisericordiosasdeDeuseamaneiracomoDeusé devidamenteglorificado.

Arespostadafé

48.Aprimeiracondiçãoparaseentrarnanovaaliançadagraçaéterumafémodeladanade

Abraão(Rm4,1­25).AfééarespostafundamentalàBoaNovadoevangelho.Ninguém

podesersalvosemfé,queéofundamentoeraizdetodajustificação. 129

49.Paraavidadefé,nãobastaconcordarmentalmentecomoconteúdodoevangelho,ou

depositarconfiançanamisericórdiadivina.Aredençãosótomacontadenósquando adquirimosumanovaexistência,fundamentadanaobediênciaamorosa. 130 Umatal existênciacorrespondeàconcepçãoclássicadaféreavivadapelacaridade. 131

50.Pelobatismo,osacramentodafé,ofieléinseridonoCorpodeCristo,libertadodo

pecadooriginal,erecebeagarantiadagraçaredentora.Ofiel"veste"Cristoecaminhacom

vidarenovada(Rm4,6).Umaconsciênciarenovadadomistériodobatismo,comomorte

paraopecadoeressurreiçãoparaaverdadeiravidaemCristo,podepermitiraoscristãos

experimentararealidadedaredençãoeconquistaraalegriaealiberdadedavidanoEspírito

Santo.

Libertação

51.Obatismoéosacramentodalibertaçãodopecadoedorenascimentonaliberdaderecém

escolhida.LibertadodopecadopelagraçadeDeus,quedespertaarespostadafé,ofiel

começaajornadadavidacristã.Pormeiodafédespertadapelagraça,ofielélibertadodo

domíniodomaleconfiadoaJesusCristo,omestrequeoferecealiberdadeinterior.Nãose

tratadeumameraliberdadedeindiferença,queautorizaqualquerescolhapossível,masde

umaliberdadedeconsciênciaqueconvidaaspessoas,iluminadaspelagraçadeCristo,a

obedeceramaisprofundaleidoseusereobservararegradoevangelho.

52.Eapenascomaluzdoevangelhoquepodeserformadaaconsciênciaparaseguira

vontadedeDeussemnenhumarestriçãoàsualiberdade.ComoensinaoVaticanoII,"todos

sãoobrigadosaprocuraraverdade,especialmentenoquedizrespeitoaDeuseàsuaIgreja,

eumavezqueelasejaconhecida,abraçá­laeserfiéisaela.Estesínodoproclamaaindaque

estasobrigaçõestocamecomprometemaconsciênciahumana,equeaverdadeimpõe­se

apenaspelaforçadesuaprópriaverdade,queentranamenteaumsótempocomsuavidadee

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força". 132

53.OsmembrosvivosdocorpodeCristosãofeitosamigosdeDeuseherdeirosem

esperançadavidaeterna. 133 ElesrecebemasprimíciasdoEspíritoSanto(Rm8,23),cuja caridadeéderramadaemseuscorações. 134 Talcaridade,transbordandoemobediênciae boasobras, 135 renovaosfiéisapartirdedentro,tornando­oscapazesdeaderir espontaneamenteànovaleidoevangelho. 136 AgraçadoEspíritoSantooutorgapazinterior eproporcionaalegriaefacilidadeparaacreditarnosmandamentoseobservá­los.

Reconciliação

54.AlibertaçãodopecadopelaredençãoemCristoreconciliaapessoacomDeus,como

próximoecomtodaacriação.Comoopecadooriginaleopecadoatualrepresentam essencialmenteumarebeliãocontraDeuseavontadedivina,aredençãorestabeleceapazea comunicaçãoentreoserhumanoeoCriador:DeuséexperimentadocomooPaiqueperdoa erecebeseufilhodevolta.SãoPaulofalademodobastanteeloquentesobreoaspectoda reconciliação:"SealguémestáemCristo,éumanovacriatura.Omundoantigopassou,eis queaíestáumarealidadenova.TudovemdeDeus,quenosreconciliouconsigopelo Cristo PoiseraDeusqueemCristoreconciliavaomundoconsigo,nãoimputandoaos homensassuasfaltas,epondoemnósapalavradereconciliação EmnomedoCristo,nós

vossuplicamos,deixai­vosreconciliarcomDeus"(2Cor5,17­20).

55.ApalavradoevangelhoreconciliaaquelesqueserebelaramcontraaleideDeuseaponta

umnovocaminhodeobediênciaparaasprofundezasdeumaconsciênciailuminadapor Cristo.Oscristãosdevemreconciliar­secomseupróximoantesdeseapresentaremdiantedo altar. 137

56.Osacramentodapenitênciaereconciliaçãopermiteumretornosantificadoraomistério

dobatismoeconstituiaformasacramentaldereconciliaçãocomDeusecomarealidadede

seuperdão,graçasàredençãodadaemCristo.

57.DentrodaIgreja,oscristãosexperimentamcontinuamenteomistériodareconciliação.

RestabelecidosnapazcomDeuseobedecendoaosmandamentosdoevangelho,eleslevam

umavidareconciliadacomosoutros,comquemsãochamadosaviveremcomunidade.

Reconciliadoscomomundo,nãomaisprofanamassuasbelezasnemtememassuasforças.

Aocontrário,procuramprotegerecontemplarsuasmaravilhas.

Comunhão

58.Alibertaçãodopecado,fortalecidapelareconciliaçãocomDeus,comopróximoecoma

criação,permiteaoscristãoschegaràverdadeiracomunhãocomseuCriador,quesetornou

seuSalvador.Nestacomunhão,elesrealizamsuaspotencialidadeslatentes.Pormaioresque

sejamospoderesintelectuaisecriativosdanaturezahumana,elesnãopodemproporcionara

realizaçãotornadapossívelpelacomunhãocomDeus.Acomunhãocomapessoado

Redentortorna­secomunhãocomoCorpodeCristo,istoé,acomunhãocomtodosos

batizadosemCristo.Portanto,aredençãotemumcarátersocial:énaIgrejaepelaIgreja,o

CorpodeCristo,queoindivíduoésalvoeentraemcomunhãocomDeus.

59.Unidoaosfiéisbatizadosdetodosostemposelugares,ocristãovivenacomunhãodos

santos,queéacomunhãodaspessoassantificadas(sancti)pormeiodarecepçãodecoisas

santas(sancta):apalavradeDeuseossacramentosdapresençaeaçãodeCristoedo

EspíritoSanto.

Lutaesofrimento

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60.TodosaquelesquevivememCristosãoconvocadosasetornarparticipantesativosdo

processocontínuoderedenção.IncorporadosnoCorpodeCristo,eleslevamadianteasua obrae,assim,entramemuniãomaisestreitacomele.Domesmomodocomoelefoiumsinal decontradição,tambémocristãoindividualetodaaIgrejatornam­sesinaisdecontradição aolutarcontraasforçasdopecadoedadestruição,emmeioaosofrimentoeàtentação.Os

fiéissãounidosaoSenhorporsuasorações(2Cor1,11;1Tm2,1­4),suasobras(1Cor3,9­

14)eseussofrimentos, 138 quetêmvalorredentorquandounidoseassumidosnaaçãodo próprioCristo.Comotodaaçãohumanameritóriaéinspiradaedirigidapelagraçadivina, AgostinhopôdedeclararqueDeusdesejaquesuasdádivassetransformememnossos méritos. 139

61.Acomunhãodossantosimplicaumintercâmbiodesofrimentos,honrasealegrias,

oraçõeseintercessões,entretodososmembrosdoCorpodeCristo,inclusiveaquelesque passaramantesdenósparaaglória."Seummembrosofre,todososmembrosparticipamdo seusofrimento;seummembroéglorificado,todososmembrosparticipamdasuaalegria.

Ora,vóssoisocorpodeCristo,esoisosseusmembroscadaumnoquelhecabe"(1Cor

12,26­27).

62.EmvirtudedareconciliaçãomútuadoscristãosnoCorpodeCristo,osofrimentodecada

uméumaparticipaçãonosofrimentoredentordeCristo.Sofrendonoserviçodoevangelho, ocristãocompletanasuacarneoquefaltaàstribulaçõesdeCristo,"emfavordoseuCorpo

queéaIgreja"(Cl1,24).Osfiéisnãodevemfugirdosofrimento,masencontrarneleum

meioeficientedeuniãocomacruzdeCristo.Paraeles,istotorna­seumaintercessãopor

intermédiodeCristoedaIgreja.Aredençãoenvolveumaaceitaçãodosofrimentocomo

Crucificado.AstribulaçõesexternassãoaliviadaspeloconfortodaspromessasdeDeusepor

umantegozodasbênçãoseternas.

Solidariedadeeclesial

63.AredençãotemumaspectoeclesialnamedidaemqueaIgrejafoiinstituídaporCristo

"paraperpetuaraobrasalvadoradaredenção". 140 CristoamouaIgrejacomosuaesposaese

entregouparasantificá­la(Ef5,25­26).PormeiodoEspíritoSanto,Cristofaz­sepresentena

Igreja,queé"asementeeocomeçodoReino(deDeus)naterra". 141 Emboraprejudicada pelospecadosedivisõesentreseusmembros,quefrequentementedeixamderefletiro verdadeirosemblantedeCristo, 142 aIgrejapermanece,emsuarealidademaisprofunda, comootemplosantodoqualosfiéissãoas"pedrasvivas". 143 Procurasemprepurificar­se parapodersemostrarmanifestamentecomoo"sacramentouniversal"dasalvação, 144 osinal einstrumentodauniãoentreossereshumanosedelescomDeus. 145 AIgrejatematarefade proclamaramensagemsalvadoraeatualizaroeventosalvadorpelacelebraçãosacramental.

64.Asdiferentesfasesdaredençãorevelam­sedentrodaIgreja,ondealibertação,a

reconciliaçãoeacomunhãojádescritasdevemseralcançadas.AvidanaSantaIgreja,o

corpodoRedentor,permiteaoscristãosobteracuraprogressivadesuanatureza,feridapelo

pecado.EmsolidariedadecomosdemaisfiéisnaIgreja,ocristãoexperimentauma

libertaçãoprogressivadetodasasescravidõesalienanteseencontraumaverdadeira

comunidadequevenceoisolamento.

65.ÁvidadeféfortificaoscristãosnagarantiadequeDeusperdoouosseuspecadosede

queelesencontraramacomunhãoeapazunscomosoutros.Avidaespiritualdoindivíduoé

enriquecidapelointercâmbiodeféeoraçãonacomunhãodossantos.

66.NacelebraçãodaEucaristia,ocristãoencontraatotalidadedavidaeclesialeacomunhão

comoRedentor.Nessesacramento,osfiéisdãograçaspelasdádivas«deDeus,unem­seà

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auto­entregadeJesuseparticipamdomovimentosalutardesuavidaemorte.NaEucaristia, acomunidadeélibertadadopesodopecadoerevivificadanaprópriafontedesuaexistência. "Nafrequênciacomqueosacrifíciodacruz,peloqual'Cristo,nossaPáscoa,foiimolado' (1Cor5,7),écelebradonoaltar,aobradenossaredençãoérealizada". 146 Participandoda Eucaristia,ocristãoindividualénutridoetransformadonoCorpodeCristo,sendoinserido maisprofundamentenacomunhãolibertadoradaIgreja.

67.AcomunhãoEucarísticaconcedeoperdãodospecadosnosanguedeCristo.Como

remédiodaimortalidade,essesacramentoremoveosefeitosdopecadoeconfereagraçade umavidamaiselevada. 147

68.AEucaristia,comosacrifícioecomunhão,éumaantecipaçãodoReinodeDeuseda

felicidadedavidaeterna.EstejúbiloéexpressonaliturgiaEucarística,quepermiteaos

cristãos,noníveldacomemoraçãosacramental,viverosmistériosdoRedentorqueliberta,

perdoaeuneosmembrosdaIgreja.

Santificação

69.Libertadodopecado,reconciliadoevivendoemcomunhãocomDeuseaIgreja,ofiel

passaporumprocessodesantificaçãoquecomeçacomobatismoeseguecomamortepara

opecadoeanovavidacomCristoressuscitado.EscutandoapalavradeDeuseparticipando

dossacramentosedavidadaIgreja,ocristãoégradualmentetransformadodeacordocoma

vontadedeDeuseconfiguradoàimagemdeCristo,paraproduzirosfrutosdoEspírito

Santo.

70.AsantificaçãoéumaparticipaçãonasantidadedeDeusque,pelagraçarecebidanafé,

progressivamentemodificaaexistênciahumanaparamoldá­ladeacordocomopadrãode

Cristo.Essatransfiguraçãopodepassarporaltosebaixos,dependendodeoindivíduo

obedeceràaçãodoEspíritoSantoousubmeter­sedenovoàsseduçõesdopecado.Mesmo

depoisdopecado,ocristãoéerguidodenovopelagraçadossacramentoseconvocadoa

seguiradiantenasantificação.

71.Todaavidacristãestácompreendidaeresumidanacaridade,noamordesinteressadopor

Deusepelopróximo.SãoPaulochamaacaridadede"frutodoEspírito"(Gl5,22)e

apresentaasmuitasimplicaçõesdestacaridade,tantoemsualistadosfrutosdoEspírito

Santo(Gl5,22­23)comonoseuhinoàcaridade(1Cor13,4­7).

Sociedadeecosmos

72.Aredençãotemefeitosqueseestendemmuitoalémdavidainterioredasrelações

mútuasdoscristãosnaIgreja.Eladisseminasuainfluêncianamedidaemqueagraçade Cristotendeaaliviartudooquelevaaoconflito,injustiçaeopressão,contribuindoassim paraoqueoPapaPauloVTchamoudeuma"civilizaçãodeamor".As"estruturasdo pecado"erigidaspelasededelucroepoderpessoalnãopodemsersuperadasanãoserpor meiode"umcompromissocomobemdopróximo,comumadisposição,nosentido evangélico,de'perder­se'pelobemdopróximo". 148 OamordesinteressadodeCristo,ao transformaravidadosfiéis,rompeocírculoviciosodaviolênciahumana.Averdadeira amizadeestabeleceumclimafavorávelàpazeàjustiça,contribuindodestemodoparaa redençãodasociedade.

73.Continuasendoverdadeque,comováriospapasjáadvertiram,aredençãonãopodeser

reduzidaàlibertaçãodaordemsócio­política. 149 Assituaçõesdepecadosocialsãoresultado doacúmuloeconcentraçãodemuitospecadospessoais. 150 Asmudançasnasestruturas sociais,mesmomelhorandoasortedospobres,nãopodemporsimesmasvenceropecado

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ouincutirasantidade,queresidenocentrododesígnioredentordeDeusetambémé,em certosentido,seuobjetivo. 151 Poroutrolado,aspessoasquesofremcomapobrezaea opressão,malesdequenemopróprioCristoescapou,podemreceberabundantementea graçaredentoradeDeusesercontadosentreospobresqueCristochamoudebem­

aventurados(Mt5,3).

74.Aredençãotemumaspectocósmico,porqueDeussealegra,porintermédiodeCristo,

em"tudoreconciliarpormeiodeleeparaele,naterraenoscéus,tendoestabelecidoapaz

pelosanguedesuacruz"(Cl1,20).Paulopodedizerqueacriaçãointeirageme

interiormente,comoqueemdoresdeparto,enquantoesperaporumaredençãoquea

libertaráparacompartilhardagloriosaliberdadedosfilhosdeDeus(Rm8,19­25).Olivrodo

Apocalipse,seguindoIsaías,falade"umcéunovoeumanovaterra"comoresultadofinalda redenção. 152 NasualiturgiadaSexta­feiraSanta,aIgrejacantaoscéusemarespurificados pelosanguedeCristo("terra,pontus,astra,mundus,/quolavanturflumine"Pange lingua).

Perspectivasescatológicas

75.Orecebimentodaredençãonavidapresenteéfragmentadoeincompleto.Temosas

primíciasdoEspírito,masaindagememoscomtodaacriação,"esperandoaadoção,a libertaçãoparaonossocorpo.Poisnósfomossalvos,masofomosemesperança.Ora,vero queseesperanãoémaisesperar:oquesevê,comoaindaesperá­lo?Masesperaroquenão

vemoséaguardá­locomperseverança"(Rm8,23­25).

76.Emboraosfiéiscristãosrecebamoperdãodospecadoseainfusãodagraça,demaneira

queopecadonãoreinemaisneles, 153 suastendênciaspecaminosasnãosãototalmente vencidas.Asmarcasdopecado,inclusiveosofrimentoeamorte,permanecerãoatéofinal dostempos.AquelesquemodelamsuasvidasdeacordocomadeCristonafétêmagarantia deque,pormeiodesuaprópriamorte,receberãoumaparticipaçãodefinitivanavitóriado Salvadorressuscitado.

77.Oscristãosdevemcombaterconstantementeapresençadomaledosofrimento,

manifestadadetantasmaneirasnomundoenasociedade,promovendoajustiça,apazeo

amor,numatentativadegarantirafelicidadeeobem­estardetodos.

78.Aredençãotornar­se­ácompletaapenasquandoCristoreaparecerparaestabelecerseu

Reinofinal.Então,eleapresentaráaoPaiosfrutosduráveisdesualuta.Osabençoadosno céucompartilharãodaglóriadanovacriação.Apresençadivinamanifestar­se­áemtoda realidadecriada;todasascoisasbrilharãocomoesplendordoEterno,deformaque"Deus

sejatudoemtodos"(1Cor15,28).

sejatudoemtodos"(1Cor15,28). Notas 1.cf. "fidesquaerensintellectum".

Notas

1.cf."fidesquaerensintellectum".

2.cf.2Cor10,5.

3.cf.oJardim("Genna")dasupremafelicidade.

4.cf.Jo2,25.

5.cf.,p.ex.,Gn1­11;Mc13,1­37;Ap22,20.

5.cf.Ex21,2.7;Dt25,7­10.

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6.cf.Dt25.

7.cf.Lv25;Nm35,9­34.

8.cf.Ex21,2;Lv25;Jr34,8­22;Dt15,9­10.

9.cf.Ex21,2;Lv25;Jr34,8­22;Dt15,9­10.

10.cf.Ex21,29­30(hebraico:kofer,grego:lytron).

11.cf.Gn37,26­27;44,33­34.

12.cf.Gn32,21.

13.cf.Lv17,10.12.

14.cf.Lv17,11.

15.cf.Ex32,7­14.30­34;33,12­17;34,8­9;Nm14,10­19;Dt9,18­19;Am7;Jr15,1;Is

53,12;2Mc15,12­16.

16.cf.especialmenteEst14,3­19;Rt1,15­18.

17.cf.,p.ex.,SI74,2;77,16.

18.cf.,p.ex.,SI103,4;106,10;107;111,9;130,7.

19.cf.Mc1,5.

20.cf.,p.ex.,Lc15.

21.cf.Mc14,36.

22.cf.Mc8,31;9,31;10,32­34.

23.cf.Mc1,16­20.

24.cf.Mc2,15­17;14,17­31;Lc5,29­38;7,31­35.36­50;11,37­54;14,1­24;19,1­10.

25.cf.Mc2,15­17;Lc5,27­32;15,2;19,7.

26.cf.Mc14,17­31;Mt26,20­35;Lc22,14­34.

27.cf.Jo19,30.Consummatumest!

28.cf.Jo3,16.

29.cf.Jo3,14;8,28;12,32­33.

30.cf.Jo11,4;12,23;13,1;17,1­4.

31.cf.,p.ex.,Jo2,4;Qoh9,4;Is38,18;SI6,5;16,10­11;73,27­28.

32.cf.Dn;Sb.

33.cf.Mt22,31­32.

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34.cf.1Cor1,22­25.

35.cf.4Mc

36.cf.Ex24;Mt26,27­28;ICor11,23­26;Hb9,18­21.

37.cf.Hb9,22.

38.Ephapax:cf.Rm6,10;Hb7,27;9,12;10,10.

39.cf.Rm5,8­10.

40.cf.Sl2,8.

41.cf.Rm5,13­18;Fl2,8.Cf.tambémHb10,5

42.cf.também1Pd1,18­20.

43.cf.Mt1,21;3,17;4,1.10;Lc1,35;4,14.18;Jo1,32.

44.cf.Lc23,46.

45.cf.Rm8,15;Gl4,6.

46.cf.Gn1,26­27.

47.cf.Cl1,15.

48.cf.Rm6,5­11;Hb9,11­12;10,10.

49.cf.Rm5,12­21.

50.cf.Rm6,1­21.

51.cf.Rm6,10­11.

52.cf.Rm,esp.vv.15­17.

53.cf.Gl3,28.

54.cf.1Cor13;Gl5,22­26.

55.cf.Rm8,18­23.

56.cf.Hb3,5­6.

57.cf.2Cor1,22;5,5;Ef1,13­14.

58.cf.Rm5,12.

59.Efésios7,2:SC10bis,74­76(Funk1,218).

60.cf.59,4:SC167,196(Funk1,176).

61.cf.9,6:SC33,74(Funk1,406­408).

62.cf.ContraCelsum2,67:SC132,442­444(PG11,901).

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cf.Justino,DiálogocomTrifão,30,3:PG6,540.

64.Adversushaereses5,1,1:SC153,16­20(PG7,1120­1121).

65.Adversushaereses5,praef.:utinosperficeretessequodestipse:SC153,14(PG

7,1120).

66.Adversushaereses1,10,1:SC264,154­158(PG7,550­551);Ibid.3,16,6:SC211,310­

314(PG7,925­926).

67.Adversushaereses5,7,2:SC153,90(PG7,1141).

68.DeIncarnationeVerbi7,editadoetraduzidoporR.W.Thomson(Oxford,1971),148­50

(PG25,108­109).

69.OrationescontraArianos68­69:PG26,292­296.

70.Oratio38,13:SC358,130­132(PG36,325);Id.Epistola101,13­15:SC208,40­42(PG

37,177).

71.Oratio30,21:SC250,272(PG36,132).

72.Oratio12,4:PG35,848;Id.Oratio30,6:SC250,236(PG36,109).

73.Orationes12,4:PG35,848.

74.74.AntirrheticusadversusApolinarium16:GregoriiNysseniOpera,ed.W.JAEGER,t.

3/1151­152(PG45,1152­1153).

75.InJohannisEvangelium­Tractatus123,5:CCL36,680(PL35,1969).

76.cf.,p.ex.,DeIncarnationisDominicaeSacramento,DeMysteriis,DeSacramentis,De

Paenitentia, DesacramentoRegenerationissivedePhilosophia.

77.DegratiaChristietdepeccatooriginali25,29:CSEL42,188­190(PL44,399­400).

78.Denaturaetgratia23,5;30,34(PL44,259e263);DeTrinitate14,16,22:CCL50A,451­

454(PL42,1052­1054).

79.Enchiridion10,33(PL40,248­49).

80.Latim:figura;grego:hetérosis.

81.cf.Enchiridion10,33;13,41(PL40,248­49e253).

82.cf.DeTrinitate13,14,18­15,19:CCL50A,406­408(PL42,1027­1029).

83.CurDeusHomo2,18a;S.N.Deane,BasicWritingsofSt.Anselm,279.

84.Ibid.,18b;Deane,op.cit.280.

85.Sermo9,PL178,447.

86.S.Theol.III.14.1ad1;cf.Supl.14,2.

87.S.Theol.III.48.2c.

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AlgumasquestõessobreaTeologiadaRedenção,1995

88.S.Theol.III.46.lcead3.

89."SelectQuestionsonChristology",inInternationalTheologicalCommission:Textsand

Documents1969­1915(SanFrancisco,Ignatius,1989),185­205,aqui201.

90.CommentaryonGalatians(1535);WA40/1,434,7­9.

91.Ibid,433,26­29.

92.Ibid,435,17­19.

93.Ibid.,434,7­9.

94.InstitutesoftheChristianReligion,11.16.6.

95.Ibid.,16.5.

96.Ibid.,16.10.

97.DefensiofideicatholicaedesatisfactioneChristi(1617);Cf.Sesbouë,Jésus­Christ,

l’uniquemédiateur(Paris,Desclée,1988),1,71.

98.Sessão6,cap.7.

99.Ibid.,tambémcânon11.

100.AlbrechtRitschl, DiechristlicheLehrevonderRechtfertigungundVersöhnung,III,

Bonn,1874.

101.Schleiermacher,DerchristlicheGlaubenachderGrundsätzenderevangelischen

KircheimZusammenhangdargestellt,II,Berlim,1960,97.

102.R.Bultmann,"NeuesTestamentundMythologie,in:H.W.Bartsch(ed.)Kerygmaund

Mythos,Hamburg­Berstedt196015­48,aqui42.

103.PaulTillich,SystematicTheology,2,176.

104.Idibid,2,176.

105.Adoutrinadaredençãonateologiadalibertaçãopodeserestudadaemobrascomo

Teologiadelaliberación,deGustavoGutierrez(1971),JesusCristoLibertador,de

LeonardoBoff(1972),eCristologíadesdeAméricaLatina,deJonSobrino(1976).

106.KarlRahner,CursoFundamentaldaFé,SãoPaulo,1989,233­235.

107.Idibid,334.

108.Id.ibid.,336.

109.AloysiusPieris,"ThePlaceofNon­ChristianReligionsandCulturesintheEvolutionof

ThirdWorldTheology",inIrruptionoftheThirdWorld:ChallengetoTheology,Virgínia

FabellaeSérgioTorres(eds.)(Maryknoll,N.Y.,OrbisBooks,1983),p.133.

110.Paul.F.Knitter,"TowardaLiberationTheologyofReligions",inTheMythofChristian

Uniqueness:TowardaPluralisticTheologyofReligions(ed.JohnHickePaulF.Knitter),

pp.178­200,aqui187.

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AlgumasquestõessobreaTeologiadaRedenção,1995

111.MuitosdestestemassãoexemplificadosnasobrasdeMatthewFox,notadamenteseu

OriginalBlessing:aPrimerinCreationSpirituality(SantaFé,NovoMéxico,Bear&Co.,

1983;ediçãoampliada,1990).

112.Cf.CatecismodaIgrejaCatólica,SãoPaulo,1993,§603.

113.5.S.Theol.III.1.2c.

114.OsvínculosentreasmissõesdoFilhoedoEspíritoSantonomistériodaredençãosão

exploradosporJoãoPauloIIemsuaEncíclicade1986,Dominumetvivificantem,

especialmente§§11,14,24,28e63.

115. Mor.praef;cf.CatecismodaIgrejaCatólica(CIC)§795paraulterioresreferências.

116.CitadoemCIC521;paratodaestaquestão,cf.CIC512­570.

117.cf.SacrosanctumConcilium,102­104.

118.cf.Cl1,24.

119.Lumengentium.,58.

120.RedemptorisMater(1987),§40.

121.cf.Mc14,24;10,45;CTI1985(AconsciênciadeCristosobresimesmoesuamissão)

tese2.

122.CartaaosHebreus5,8;OraçõesEucarísticas.

123.cf.Rm8,15­17.

124. cf.CIC412,citandoRm5,20eAquino,S.Theol.III.1.3ad3.

125.Gaudiumetspes,22;cf.Redemptorhominis,nn.8,13etpassim.

127.Lumengentium,16.

128.Gaudiumetspes,22.

129.ConcíliodeTrento,Sessão6,cap.8,DS1532.

130.Rm16,26;cf.Veritatissplendor66,88.

131.cf.ConcíliodeTrento,Sessão6,caps.7­9;DS1530­1534.

132.Dignitatishumanae,1;cf.10.

133.ConcíliodeTrento,Sessão6,cap.7,DS1528­1531.

134.Rm5,5;cf.Gaudiumetspes,22.

135.ConcíliodeTrento,Sessão6,caps.7­10,DS1530­35.

136.Ibidem­cap.11,DS1536.

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AlgumasquestõessobreaTeologiadaRedenção,1995

137.cf.Mt5,24.

138.cf.2Cor4,10­11;Cl1,24.

139.Agostinho,DeGratiaetliberoarbitrio,c.8,20,PL44,893;cf.ConcíliodeTrento,

Sessão6,cap.16,DS1548.

140.Pastoraeternus,DS3050.

141.Lumengentium,5.

142.Gaudiumetspes,19.

143.1Pd2,5;cf.Lumengentium,6.

144.Lumengentium,48.

145.Lumengentium,1.

146.Lumengentium,3.

147.InáciodeAntioquia,Efésios20,2.

149.PauloVI,EvangeliiNuntiandi,nn.32­35.

150.JoãoPauloII,Reconciliatioetpaenitentia,16.

151.cf.1Ts4,3;cf.Ef1,4.

152.Ap21,1;cf.Is65,17;66,22.

153.Rm5,21;cf.8,2.

Reconciliatioetpaenitentia ,16. 151.cf.1Ts4,3;cf.Ef1,4. 152.Ap21,1;cf.Is65,17;66,22. 153.Rm5,21;cf.8,2.

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