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15 de maio de 2010

ORDEM MULTILATERAL E O NOVO


PAPEL DOS ESTADOS UNIDOS NO
SISTEMA INTERNACIONAL

Prof. Dr. Paulo Fagundes Visentini

Apoio institucional: Apoio logístico:


Projeto “Relações Internacionais para Educadores” – 15 de maio de 2010
ORDEM MULTILATERAL E O NOVO PAPEL DOS ESTADOS UNIDOS
NO SISTEMA INTERNACIONAL

ORDEM MULTILATERAL E O NOVO PAPEL DOS ESTADOS


UNIDOS NO SISTEMA INTERNACIONAL1
Prof. Dr. Paulo Fagundes Visentini

Vinte anos se passaram após a queda do Muro de Berlim (1989). Um muro que
não dividiu apenas uma cidade; dividiu o mundo. O simbolismo da queda do muro, e o
posterior esfacelamento da União Soviética (1991), à primeira vista, marcavam a
derrota do socialismo para o neoliberalismo ocidental. A bipolaridade, ou seja, a
dicotomia de dois pólos de poder no planeta (EUA e URSS, capitalismo e socialismo),
teria dado lugar à supremacia de Washington.
No entanto, a queda do Muro, antes de fixar o início de uma Nova Ordem, é, em
realidade, a representação da transição de um arranjo mundial para outro, que desde a
década de 1970 já se vinha configurando. Os novos atores mundiais (União Europeia,
NAFTA, China, etc.), as novas organizações sociais (como as Organizações Não-
Governamentais, ONGs), as crises financeiras (México, 1994, Leste Asiático, 1997,
Rússia, 1998, Brasil, 1999), o desmembramento da Iugoslávia (1991-2008), entre
outros, configurariam um ambiente de indefinição quanto a esse novo ordenamento
(unipolaridade ou multipolaridade?) que ainda hoje, num período pós-11 de setembro,
não é claro.
Nesta seção, estudaremos a chamada Nova Ordem Mundial, ordem essa que se
estabelece a partir do declínio relativo do poderio norte-americano, aproximadamente
na década de 1970, e da dissolução do regime socialista soviético nos anos 90.

CRISE DO SOCIALISMO E O FIM DA GUERRA FRIA


O início do século XX é marcado pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a
Revolução Russa (1917), a Grande Depressão (1929) e, finalmente, a Segunda Guerra
Mundial (1939-1945). Este período foi caracterizado pela ausência de uma hegemonia
definida, ou seja, de um ator internacional predominante sobre os demais, dando lugar a
uma forte competição entre as potências.

1 Material elaborado por Aírton Martins, Ana Júlia Possamai e Joana Oliveira (alunos de Relações
Internacionais da UFRGS) com base em “VISENTINI, Paulo Fagundes. Dez Anos que Abalaram o Século XX
– da Crise do Socialismo à Guerra ao Terrorismo. Porto Alegre: Leitura XXI, 2002”.

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Selados os Acordos de Ialta2 (1945), proclamada a “cortina de ferro”3 sobre a


Europa (1946) e consagrada a divisão da antiga capital alemã Berlim (1948), instaurou-
se no mundo o período conhecido como Guerra Fria. O sistema internacional que se
sucedeu ficou dividido em dois grandes pólos de influência: por um lado, o capitalismo
dos Estados Unidos (o mundo ocidental), por outro, o socialismo da União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
Esta divisão concretizou-se com a
criação de alianças para a manutenção de Fig. 1: OTAN e Pacto de Varsóvia
zonas de influência no planeta, seja no
âmbito político-econômico, seja no
âmbito militar. Pela esfera econômica, os
EUA garantiram sua predominância na
Europa Ocidental financiando a
reconstrução com o Plano Marshall
(1947). Já o viés militar dessa aliança
realizou-se com a Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN),
criada em 1949, a qual previa a
mobilização de todos os membros em
conjunto no caso de agressão armada
contra qualquer um deles.
Por sua vez, a URSS também
mobilizou suas forças. Além do Conselho
de Assistência Econômica Mútua Fonte: Vestibular Unicamp.
(COMECON), a União Soviética formou o
Pacto de Varsóvia (1955), juntamente com os países socialistas do Leste Europeu.
Apesar das alianças militares, vale observar que o termo Guerra Fria deriva da
não ocorrência de choque frontal (guerra quente) entre as duas superpotências
combatentes. A possessão de vasto arsenal de bombas atômicas por parte dos dois
campos configurava uma situação de destruição mútua assegurada que refreou a

2 Durante a Conferência de Ialta (também conhecida como Conferência da Criméia), ocorrida no ano de
1945, encontraram-se os chefes de estado dos Estados Unidos da América, da União Soviética e da Grã-
Bretanha, numa tentativa de acordar sobre a reorganização dos territórios europeus após a Segunda
Guerra Mundial. Diversos pontos foram selados, entre eles a divisão da vencida Alemanha em quatro
zonas de influência.
3 Expressão primeiramente utilizada pelo então Primeiro Ministro do Reino Unido Winston Churchill, em

uma fala em 1946, referindo-se à barreira político-ideológica que separava a Europa em duas zonas de
influência (capitalista e socialista), onde cada potência desenvolveu alianças militares e econômicas.

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escalada a uma nova guerra mundial – a qual, nestas condições, teria proporções
catastróficas. Foram as guerras localizadas, na periferia do planeta, que marcaram esse
período, como a Guerra da Coréia (1950-53), a Guerra do Vietnã (1959-75), a Guerra do
Afeganistão (1979-89), entre outras.
Esse estado de relativa détente4 entre as superpotências só viria a ser abalado
com a Crise dos Mísseis em Cuba (1962), quando os interesses de EUA e URSS chocaram-
se fortemente.
Para os Estados Unidos, a Crise dos Mísseis, aliada ao seu esforço despendido no
Ataque à Baia dos Porcos (1962), às perdas no Vietnã, e às duas crises de petróleo (1973
e 1979) acabou implantando um estado de crise e fraqueza no modelo fordista5 e
keynesiano6 que sustentava o capitalismo ocidental. Buscando fazer frente a essa crise,
os países capitalistas (EUA, países europeus e Japão, sobretudo) se veem engajados na
chamada Revolução Científico-Tecnológica, cujo objetivo era a busca por maior
produtividade através do uso de tecnologias e da redução de custos da matéria-prima e
da mão-de-obra. A sua consequência é a cada vez maior competitividade intercapitalista
– competitividade essa que passaria a ser o motor do processo de globalização.
Ao mesmo tempo, a crise econômica, a reestruturação do capitalismo e as
derrotas estadunidenses em regiões estratégicas do Terceiro Mundo (principalmente no
Vietnã) geraram inúmeras tensões sociais esquerdistas e nacionalistas. Diante dessa
situação de caos, a reação da Nova Direita nos países centrais é forte. A década de 1980
viria a assistir a ascensão da Primeira Ministra Margareth Thatcher na Grã-Bretanha e
do Presidente Ronald Reagan nos EUA, ambos com visões neoliberais7 e conservadoras.
Reagan lançou a mais ousada estratégia militar do país à época: a Guerra das Estrelas8 –
que muito lhe custaria, mas à qual o outro pólo (a URSS) não conseguiria fazer frente.
Por sua vez, na União Soviética a crise não se limitaria à esfera econômica,
atingindo a institucional. Durante os anos 1960, no começo do governo de Brejnev, o

4 Situação internacional em que nações que tinham anteriormente um relacionamento hostil (sem, no
entanto, estarem em um estado de guerra declarada) passam a restabelecer relações diplomáticas e
culturais, apaziguando seu relacionamento e diminuindo o risco de conflito declarado.
5 O fordismo é um modelo de produção em massa que revolucionou a indústria automobilística. Uma das

principais características do fordismo foi o aperfeiçoamento da linha de montagem.


6 Modelo econômico proposto por John Maynard Keynes, que defendia a intervenção estatal na economia a

fim de evitar ciclos econômicos e períodos de recessão.


7 O neoliberalismo baseia-se em visões clássicas do Liberalismo econômico. De maneira geral,

neoliberalistas defendem minimizar a intervenção estatal na economia e maximizar ações do setor


privado.
8 Guerra nas Estrelas era um plano militar de Reagan para criar um sistema de radares e satélites usado

para detectar o lançamento de mísseis inimigos.

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Estado socialista soviético manteve seus resultados satisfatórios e o progresso


econômico da região. Entretanto, já na década seguinte, a expansão econômica soviética
chegava a seu limite e não acompanhava a Revolução Científico-Tecnológica que se dava
do lado capitalista. O ritmo da economia soviética caiu drasticamente
A URSS passava também por conflitos políticos. Aspirações democráticas no Leste
Europeu estimularam movimentos de libertação. A Primavera de Praga, que ocorreu na
Tchecoslováquia em 1968, foi uma dessas tentativas, embora tenha sido reprimida por
forças soviéticas. Diferentemente, na Polônia, o Sindicato Liberdade conseguiria
derrubar o regime soviético no país e elevar-se ao poder em 1980.
Em 1985, Mikhail Gorbatchev assume o comando da URSS. Em meio à conjuntura
instável, Gorbatchev lança dois importantes programas de reforma: a Glasnost (medida
política de transparência) e a Perestroika (reestruturação econômica). No entanto, os
problemas encontrados na efetivação dos programas abriram espaço para a expansão de
movimentos anticomunistas na URSS, o que viria a deslegitimar o regime.
No plano internacional, o líder da URSS também promove reformas, propondo
uma nova détente com os EUA. Washington aceita a proposta, visto que, a essa altura,
considerava que a URSS já não mais oferecia grandes riscos. Em 1987, a União Soviética
e os Estados Unidos assinam o Tratado para Eliminação de Armas de Médio e Curto
Alcance, numa demonstração conjunta da busca pela paz e da nova etapa nas relações
entre os dois países.
Em 1989, finalmente cai o Muro de Berlim, símbolo da divisão do planeta em dois
pólos antagônicos. Logo, a Alemanha seria reunificada e o golpe de Boris Ieltsin daria fim
às políticas de Gorbatchev e, ao mesmo tempo, na URSS, ao passo que as repúblicas
federadas proclamariam sua independência. A transição e a reformulação do sistema
internacional eram evidentes. Os Estados Unidos despontam na cena internacional,
numa atmosfera de “paz, prosperidade e democracia”, mas logo seriam ofuscados pelos
novos atores. Seriam, enfim, os atentados de 11 de setembro o divisor de águas que
marca o declínio da hegemonia estadunidense e da expansão ocidental. Começa um novo
período histórico “cujos contornos ainda não são muito claros” (VISENTINI, 2002).

O FIM DA GUERRA FRIA E A NOVA ORDEM MUNDIAL


É no Natal de 1991, quando a bandeira com a foice e o martelo é retirada do
Kremlin e substituída pela bandeira da Federação Russa, que a última chama da Guerra
Fria se apaga. A desintegração da União Soviética deu origem a quinze novos países, que

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contaram com as mesmas fronteiras administrativas que lhe definiam aos tempos da ex-
URSS. Dito isso, não é difícil imaginar que tenham surgido inúmeros problemas de cunho
fronteiriço e migratório na região. Com os novos limites territoriais, e visto o vasto fluxo
migratório que ocorreu durante a União, da noite para o dia milhões de pessoas
tornaram-se estrangeiras dentro de seus próprios países.
Porém, a maioria dessas jovens nações carecia de quadros tecno-burocráticos e
estruturas político-administrativas para as novas tarefas de autogoverno – situação
agravada com o vazio político que se criara com a interdição do Partido Comunista na
região. Nesse vácuo, as máfias se consolidaram; a criminalidade generalizada trouxe
violência, roubo, prostituição e tráfico de drogas; cresceram a pobreza, a marginalização
e a taxa de mortalidade; até mesmo os níveis de educação e saúde, comparáveis ao
Primeiro Mundo noutros tempos, rapidamente regrediram aos do Terceiro Mundo9.
Face a essa realidade na antiga esfera de poder soviética, no princípio da última
década do século XX, os Estados Unidos tornam-se a única superpotência e, dessa forma,
precisavam reorganizar o sistema mundial para garantir sua hegemonia.
No entanto, há de se lembrar que o poder que Washington havia construído nas
últimas décadas tinha sustentação sobre a oposição que a URSS lhe fazia. Nesse novo
contexto, faltava-lhe um “competidor estratégico”. Assim, tão logo os EUA sentiram a
necessidade de pôr em ação uma série de instituições e práticas que legitimassem sua
posição superior no sistema mundial. Essas “estruturas hegemônicas de poder” visariam
a afirmar seus valores universais (de democracia liberal, economia de mercado, abertura
à globalização, defesa dos direitos humanos e das minorias e ambientalismo) através de
organismos e regimes internacionais.
Apesar de o prestígio dos EUA ter, em parte, diminuído no apagar do frio conflito,
o gigante do Ocidente ainda conservava a primazia militar e a ascendência sobre as mais
importantes organizações internacionais da esfera econômica e política. Com esse poder
de barganha em mãos, os EUA atuam de forma pontual através dos instrumentos
internacionais sobre os quais detêm expressiva influência no intuito de refrear a
ascensão de uma força que contrarie a lógica concebida por Washington.
Dentro desse raciocínio, por exemplo, nas zonas onde os EUA sofreriam maior
desgaste (sobretudo regiões de tensão social e política, como o Oriente Médio), o país dá
suporte a intervenções do Conselho de Segurança das Nações Unidas10, contando com o

9 No espaço da antiga URSS, surge a Comunidade de Estados Independentes – articulada por Bóris Ieltsin.

Dela fazem parte Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Armênia, Azerbaijão, Moldova, Cazaquistão, Quirguistão,
Tadjiquistão, Uzbequistão, Geórgia (até 2009) e Turcomenistão (como membro associado).
10 O Conselho de Segurança das Nações Unidas com responsabilidades sobre a segurança mundial. O órgão

tem o poder de autorizar uma intervenção militar em algum país, quando julgado necessária. O Conselho

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envolvimento de seus aliados locais – o que lhe permite redistribuir os custos das suas
iniciativas internacionais. Da mesma forma, faz-se uso do Banco Mundial, do FMI11 e das
Cúpulas do G-712 para impor uma política econômica mundial.
Ademais, neste novo cenário, a velha OTAN aparece como modelo ideal de
instrumento para a manutenção e expansão da supremacia norte-americana sobre a
Europa. Há de se observar que a Aliança permitia aos Estados Unidos não apenas
repartir os custos de defesa de um novo sistema com os aliados, mas também submeter
os membros europeus a uma estratégia geral formulada por Washington.
No entanto, a superpotência também tinha o dever de reconhecer que o cenário
internacional estava se reorganizando, e antigos jogadores ganhavam forte e renovado
papel. A Alemanha e a França lideravam o processo de criação da União Europeia
(através do Tratado de Maastricht, 1992), o Japão há muito vinha crescendo (baseado na
indústria de tecnologia de ponta) e a China socialista começava a despontar de
sobremaneira. Além disso, o excesso de desregulamentação financeira, promovida desde
o neoliberalismo de Reagan e expandida com a globalização, logo mostraria seus efeitos
na sequência de crises econômicas que assolaram a década de 1990. A Nova Ordem não
prometia ser um ambiente estável.

O papel da OTAN na Nova Ordem Mundial


Como forma de manter sua supremacia num contexto de ausência do inimigo
soviético e de criação de um bloco regional forte (a União Europeia), em fins de 1992 o
Pentágono13 recusa qualquer proposta de defesa do continente europeu fora da aliança
construída em 1947, a OTAN.
Para reafirmar sua relevância e poder dentro da Europa, os Estados Unidos
liderariam as forças da OTAN na Guerra do Golfo, que se sucedeu à invasão e à anexação
do Kuwait (região petrolífera) pelo Iraque, em 1990. No entanto, foi no processo de
desmembramento da antiga Iugoslávia que Washington impôs-se frente à União
Europeia, tomando conta dos assuntos nos Bálcãs.

de Segurança é composto por quinze membros, sendo cinco membros permanentes: os Estados Unidos, a
França, o Reino Unido, a Rússia (ex-União Soviética) e a República Popular da China.
11 O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma organização internacional que visa a assegurar o bom

funcionamento do sistema financeiro mundial, através de assistência técnica e financeira.


12 O G-7 é uma iniciativa francesa de 1975 e composto pelos chefes de estado da França, dos Estados

Unidos, do Reino Unido, da Alemanha, do Japão, da Itália e do Canadá. A partir de 1997, a Rússia
formalmente começou a participar do grupo, dando origem ao G-8.
13 O Pentágono é a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

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Historicamente, a Iugoslávia Fig.2: Regiões da antiga Iugoslávia.


foi a união política dos eslavos do
sul, sendo os sérvios, os
montenegrinos, os croatas, os
eslovenos e os bósnios as etnias
mais numerosas. Durante a Guerra
Fria, sob a liderança de Josip Broz
Tito, a Iugoslávia transformou-se
em um bastião independente frente
a Moscou e ao Ocidente capitalista,
fazendo parte do Movimento dos
Países Não-Alinhados14.
A morte de Tito em 1980,
contudo, serviu como estopim para
o processo de enfraquecimento da
Iugoslávia, com o aparecimento de Fonte: Folha Online (2001).
ideologias nacionalistas. Enquanto
os socialistas sérvios buscavam manter a unidade federal, sob o ideal de criação da
Grande Sérvia, as repúblicas mais desenvolvidas (Eslovênia e Croácia), amparadas pelo
Ocidente, almejavam a separação. Assim, em 1991, Eslovênia e Croácia aproveitaram a
situação de caos e proclamaram suas independências.
A desintegração da Iugoslávia continuou com a independência da Macedônia15
em 1992. Nesse mesmo ano, a Bósnia-Herzegovina inicia seu processo de
independência, o mesmo feito pelo Kosovo em 1996. No entanto, como é de
conhecimento, ambas regiões sofreram violentas guerras civis, alimentadas pelo líder
sérvio Slobodan Milosevic.
A OTAN interveio na Guerra da Bósnia, em 1995, bombardeando os sérvio-
bósnios que faziam oposição a coalizão de croatas e muçulmanos, apoiada pela Europa
Ocidental. O mesmo sucedeu-se na Guerra do Kosovo (1996-1999), tendo a OTAN
lançado uma ofensiva aérea contra as forças sérvias em 1999. A OTAN ataca a Iugoslávia
sem consultar a ONU ou qualquer outro organismo internacional. Durante 78 dias, a

14 O Movimento dos Países Não-Alinhados teve sua primeira conferência realizada em Bandung, na
Indonésia, em 1955, e tinha como objetivo criar a possibilidade de uma posição de neutralidade, no
contexto do mundo bipolar da Guerra Fria.
15 Apesar desse processo em 1992, a Macedônia enfrenta até hoje dificuldades com seu reconhecimento

internacional devido à oposição grega à sua independência.

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Sérvia, Montenegro e Kosovo são bombardeados sem parar. Uma força de paz é enviada
para a província de Kosovo, que passa a ser administrada de fato pela ONU16.
Neste contexto, o que se deve ter em mente é que, ao ocupar Kosovo e mais tarde
fomentar a independência da região de Montenegro17 na Sérvia, as forças da OTAN – que
já possuíam tropas na Hungria, na Bósnia, na Albânia e na Macedônia – planejavam
engrossar sua presença na região e sufocar a Iugoslávia, cortando seu acesso ao mar.
Como Samuel Huntington (1996) ressaltou, a região é considerada ao mesmo tempo: a)
a fronteira entre o Ocidente e a religião ortodoxa, b) o limite da União Européia e da
OTAN expandidas, e c) a retaguarda da Turquia, entre Europa, Ásia e Oriente Médio. A
presença na Iugoslávia serviu como pretexto dos Estados Unidos para demonstrar à
Europa a necessidade de manutenção da OTAN, além de servir-lhe para fincar pé nessa
região geopolítica estratégica.
Além disso, a guerra “tratou-se também de uma política destinada a destruir uma
economia diferente da globalização capitalista e do neoliberalismo ou, ao menos, o que
resta dela” (VISENTINI, 2002). Uma vez que historicamente a Iugoslávia se negou à
submissão ao Ocidente, pode-se arguir que a estratégia da OTAN nos Bálcãs foi mais
uma parte de um longo plano para enquadrar o país eslavo à “Nova Ordem Mundial”. Ao
final, a Iugoslávia passa de um país soberano a um conglomerado de seis repúblicas
regionais e duas províncias autônomas, divididas em linhas étnicas e reduzidas à
pobreza e persistente instabilidade.

Globalização e regionalização
Como fruto da Revolução Científico-Tecnológica da década de 1970 e da lógica
neoliberal inaugurada por Reagan a Thatcher no mundo ocidental nos anos 1980, tão
logo se daria margem para o desencadeamento de um processo conhecido como
globalização.
O termo globalização está longe de ter uma definição única, mas nos
aproximamos da sua compreensão ao vislumbrar um ambiente de liberalização do
comércio internacional, extrapolação das fronteiras nacionais pelas empresas
capitalistas (transnacionais), ampliação da competição intercapitalista, interpenetração
das indústrias a nível global (cadeias de produção desterritorializadas, com peças

16 Em 2008, o Kosovo, unilateralmente, declarou-se independente da Sérvia sendo reconhecido pelos

Estados Unidos (entre outros), mas não pela Rússia (que teme que o exemplo kosovar possa vir a
incentivar levantes separatistas na região, como na Chechênia).
17 A independência de Montenegro foi consolidada em 2006, após plebiscito.

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produzidas na Ásia e finalização do produto na Europa, por exemplo), tudo em um


contexto desregulamentado, que impõe desafios à atuação dos Estados-Nacionais.
Ao mesmo tempo em que ocorre essa reestruturação econômica num mundo pós-
Guerra Fria, era de se esperar que a concorrência entre as regiões do planeta (sobre
tudo América do Norte, Europa e Ásia) desse lugar a manifestações de protecionismo
regional, caracterizadas pela regionalização e integração. O Tratado de Livre Comércio
da América do Norte (TLCAN, ou NAFTA) e a União Europeia (surgida do
aprofundamento da Comunidade Europeia em 1992) inserem-se nesse processo. Trata-
se de processos de integração de países desenvolvidos, com capacidade de projetar sua
influência política e econômica sobre as demais regiões do planeta.
O NAFTA começou a desenhar-se como tal a partir do já estabelecido Tratado de
Livre Comércio (FTA) entre os Estados Unidos e o Canadá, o qual entrou em vigor em
1988. Em 1992, México se junta aos outros dois norte-americanos para assinar o
Tratado de Livre Comércio. De fato, é em 1º de janeiro de 1994 que o NAFTA entra em
vigor.
No momento em que foi firmado seu acordo o NAFTA contou com a congruência
de interesses dos três governos de orientação conservadora. Tal congruência, porém,
não existia no campo econômico – onde o México, a menor parte, possuía à época apenas
3% do PIB regional total, enquanto Canadá detinha 10% do montante e os EUA, 87 %.
Esse fato impõe restrições para a distribuição equilibrada de seus benefícios.
Para os EUA, além do óbvio aspecto econômico, o Acordo traz consigo duas
importantes questões: a reforma do relacionamento hemisférico (com a criação de um
bloco de influência direta) e o maior controle de suas fronteiras meridionais, seja para o
combate ao tráfico de drogas, seja para maior contenção da imigração clandestina. O
caso mexicano, porém, é distinto, sofrendo hoje o país com condições de emprego abaixo
do desejado nas maquilladoras18 e com a conseqüente pobreza e alastramento da
criminalidade.
A União Europeia, por sua vez, constitui-se a partir do aprofundamento de um
processo de integração iniciado pelo Tratado de Roma em 1950 – surgindo, portanto,
antes mesmo do processo de globalização. O Tratado de Maastricht, muito além de
batizar a integração com o novo nome de União Europeia, determina a formação de um
mercado comum (ou seja, a eliminação das barreiras para o livre trânsito de bens,
pessoas e serviços) e determinou o ano de 2002 para o princípio da vigência da moeda

18
Empresas que importam peças e componentes de suas matrizes estrangeiras para que os produtos
sejam manufaturados (montados) e depois exportados de volta para o país de origem da empresa ou para
outros países em que o produto seja competitivo.

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única comum, o euro19. Além de questões econômicas, o bloco passou a tratar, de forma
conjunta, importantes temas como migrações, conflitos, narcotráfico, instabilidade
financeira, segurança, etc. Sobre esse último tema, o questionamento sobre a
permanência ou não na OTAN ainda está em pauta – já que a Aliança, criada num
ambiente totalmente distinto do atual, pode ser considerada um entrave à maturidade
político-institucional do bloco europeu.
Em 1995, o bloco iniciou seu processo de alargamento com a entrada da Áustria,
Suécia e Finlândia. Hoje, conta com vinte e sete países20. Nesse estágio, o bloco conta
com a terceira maior população mundial (atrás apenas da China e da Índia) e um
Produto Interno Bruto (PIB)21 equivalente ao dos Estados Unidos.
A Turquia e Croácia começaram negociações em 2005 para compor o bloco. Vale
notar que Albânia, Bósnia-Herzegóvina, Kosovo, Montenegro e Sérvia (ou seja, as
províncias da ex-Iugoslávia) já declararam interesse em fazer parte da UE. Entretanto, o
debate sobre a expansão do bloco não é tranquilo, uma vez que se trata da incorporação
de países com economias relativamente débeis que dependerão de fortes investimentos
do bloco para se enquadrarem dentro da economia liberal. O exemplo da Grécia neste
ano de 2010 é emblemático desta situação.
Lado a lado a esse processo de regionalização, a globalização e a abertura de
mercado permitiram a ascensão de uma nova potência econômica (e, a que tudo indica,
militar): a China. Na década de 1990, no pós-Guerra Fria, a promessa asiática recaía
sobre o Japão. O crescimento acelerado da China não era visto como sustentável. No
entanto, após a forte recessão que atacou Tóquio em no final da década de 1990, o
quadro atual vê voar o dragão chinês.
A economia chinesa tem se destacado quando comparada com as demais
economias emergentes e em desenvolvimento, no que tange às elevadas taxas de
crescimento verificadas no período pós-reforma, que se inicia a partir do final dos anos
70. O líder Deng Xiaoping, que viria a suceder Mao, transformou o país comunista de
uma economia planificada em uma economia mista. Através da abertura do país ao
mercado externo, pela criação de Zonas Econômicas Especiais junto ao litoral Ocidental
do país, a China tornou-se uma das economias com mais rápido crescimento, sendo o
maior exportador mundial da atualidade.

19 O euro (€) é a moeda oficial de 16 dos atuais 27 países da União Européia.


20 Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária. Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia,
Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos
(Holanda), Polônia, Portugal, Reino Unido, República, Romênia e Suécia. Ainda, encontra-se em fase de
negociação o ingresso de Macedônia, Cróacia e Turquia.
21 O Produto Interno Bruto (PIB) representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços

finais produzidos numa determinada região, durante um período determinado.

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A importância da China no mundo de hoje como uma grande potência é refletida


através de seu papel como terceira maior economia do mundo e como membro
permanente do Conselho de Segurança da ONU, bem como sendo um membro de várias
outras organizações multilaterais, incluindo a OMC22, APEC23, G-2024 e da Organização
para Cooperação de Xangai25. Além disso, é uma potencia nuclear e possui o maior
exército do mundo em número de tropas e o segundo maior orçamento de defesa.
No entanto, antes de representar uma ameaça, a China é um grande parceiro
comercial e financeiro dos Estados Unidos – os quais dependem amplamente do capital
chinês para financiar seus déficits econômicos. O debate, no entanto, é muito mais amplo
que apenas questões econômicas26.

O 11 DE SETEMBRO E O NOVO ATOR INTERNACIONAL: O TERRORISMO


No final de 2000, o republicano George W. Bush foi eleito presidente dos EUA.
Desde logo, o novo governo adotou atitudes unilaterais, o que fez com que analistas
afirmarem estar diante da inauguração de um novo “século americano”, marcado pelo
unilateralismo e pela atuação independente face às organizações internacionais,
particularmente a ONU. Bush põe fim a oito anos de governo democrata, interrompendo
o trabalhode estruturação de uma ordem mundial centrada na priorização de grandes
organizações multilaterais, monitoradas pelos Estados Unidos.
Sem embargo, para outros analistas, esse unilateralismo estadunidense trata-se
de uma reação para evitar uma tendência histórica que emergia lentamente, qual seja: a
de construção de um sistema mundial multipolar, num quadro de equilíbrios entre EUA,
União Européia, Rússia, Japão/Tigres Asiáticos, China, Índia, África do Sul e Brasil.

22 A Organização Mundial do Comércio, criada em 1994 na Rodada do Uruguai do Acorde Geral de Tarifas
e Comércio (GATT), trata das regras sobre o comércio entre as nações. A China entrou na OMC em 2001.
23 Interligando o Ocidente ao hemisfério Oriental, a Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC),

fundada em 1989, é um grande bloco de articulação econômica.


24 Grupo formado pela vinte maiores economias do mundo: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China,

França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Coréia do
Sul, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia.
25 A Organização para Cooperação de Xangai é um organismo internacional fundado em 2001 por China,

Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. A OCX visa à cooperação em matéria de


segurança (em especial, quanto a terrorismo, separatismo e extremismo), embora também trate de temas
de cooperação econômica e cultural.
26
Na palestra do dia 12 de junho do Projeto “Relações Internacionais para Professores”, o Professor Dr. Marco
Cepik estará falando mais sobre a China no cenário internacional, atual.

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É nesse contexto confuso, de tentativa de estabelecimento de um governo


republicano cuja legitimidade vinha sendo contestada27, que ocorrem os atentados
terroristas de 11 de setembro de 2001.
A data representa um divisor de águas na Ordem Mundial. Isso porque, depois de
Pearl Harbor (1941), pela primeira vez o território americano fora atingido e, desta vez,
justamente em seus maiores símbolos econômico-financeiros e militares. O atentado
golpeou não apenas a maior potência do planeta, mas o centro econômico e simbólico do
Ocidente capitalista28.
Dessa forma, o fim da Guerra Fria, ao contrário de muitas previsões apressadas,
acabou criando um mundo de instabilidade, ao privar os Estados Unidos de um inimigo
definido contra quem suas forças eram mobilizadas. Diferentemente, o terrorismo é hoje
um inimigo sem rosto e sem endereço. O inimigo está diluído, e dificilmente será batido
por meios militares convencionais. Nesse contexto, o poderio americano está, em certo
sentido, impotente.
As evidências encontradas pela CIA (agência de inteligência estadunidense) sobre
os mentores do 11 de setembro apontaram para a organização Al Qaeda, liderada pelo
saudita Osama Bin Laden29, e para o regime talibã do Afeganistão. A reposta de
Washington foi a guerra ao terror e a Doutrina Bush. Os principais alvos da chamada
"Guerra ao Terror" passaram a ser os Estados apoiadores de movimentos ou grupos
terroristas, chamados de "Estados-bandido" ou "Estados-pária", os mesmos que
inicialmente eram chamados de "Eixo do Mal".
A Doutrina Bush mudou a direção das relações internacionais dos Estados
Unidos, substituindo os princípios da contenção da época da Guerra Fria – baseada na
persuasão e dissuasão – pelo de ataques preventivos. Além disso, estabeleceu o
unilateralismo como princípio norteador da política externa, indiferente aos tratados e
instituições internacionais.
Segundo Paulo Visentini (2002; 2009), o 11 de setembro marcou o início do
século XXI e do Terceiro Milênio, e fez com que a obra O choque de civilizações, de

27 Em 2000, Bush havia perdido as eleições na contagem do voto popular, vencendo apenas nos colégios
eleitorais.
28
A cidade de Nova York é símbolo do American way of life, e, igualmente, trata-se de uma cidade
internacional, centro do poder financeiro mundial e das Nações Unidas. Washington, particularmente o
Pentágono, alvo dos ataques terroristas, constitui o núcleo e o ícone do poder político-militar da grande
potência do século XX.
29 Osama Bin Laden está longe de ser um camponês afegão. É um multimilionário saudita e

fundamentalista que vive no Afeganistão, e que estaria entre os mentores de anterior ataque ao World
Trade Center e a embaixadas americanas na África. Este homem, que já trabalhou para a CIA durante a
guerra contra os soviéticos em 1979, e possui recursos necessários para as ações terroristas.

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Samuel Huntington (1996), viesse a expressar o sentimento generalizado de um


confronto entre Oriente e Ocidente. A conjunção da civilização confuciana
(predominante na China) com a islâmica seria, segundo Huntington, a maior ameaça ao
Ocidente, cuja instituição unificadora seria representada pela OTAN.
A ocupação do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003 reforçou tal percepção.
As guerras têm sido um conflito oneroso em termos diplomáticos, militares e
econômicos. De certa forma, a falta de adversários à altura levou os EUA a uma perda de
parâmetros, sobrevalorizando o emprego da força sem a necessária mediação político-
diplomática e, com isso, atraindo contra si um ressentimento generalizado e difuso.
O sentimento de humilhação frente à arrogância da grande potência foi
substituído pela percepção de que os Estados Unidos não são mais inatingíveis. Daí ser
necessário repensar o perfil político e econômico da ordem mundial, o que pode vir a ser
positivo.

A Guerra do Afeganistão (2001 - )


A invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos iniciou-se em outubro de 2001,
em resposta aos atentados de 11 de Setembro, com o Fig. 3: Afeganistão.
objetivo declarado de encontrar Osama Bin Laden e
outros líderes da Al-Qaeda, e varrer o regime talibã do
mapa. Essa guerra marca o início da guerra contra o
terrorismo. Para tanto, os Estados Unidos contaram
com o apoio tanto da OTAN como da Aliança do Norte
(Frente Islâmica Unida para a Salvação do
Afeganistão)30.
A investida estadunidense deu-se à margem da
ONU, ou seja, a Organização das Nações Unidas não
autorizou a invasão do Afeganistão. Fonte: Folha Online (2003).

Duas operações militares no Afeganistão procuraram estabelecer controle sobre


o país. A primeira envolve os Estados Unidos e seus aliados (sobretudo a Grã-Bretanha)
na luta contra a coalizão que opera principalmente nas fronteiras com o Paquistão. A
segunda operação é a Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF),

30 Organização político-militar criada pelo Estado Islâmico do Afeganistão em 1996, com o fim de unir
diversos grupos demográficos afegãos que vinham combatendo uns aos outros para lutarem juntos contra
o Talibã.

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inicialmente criada pelo Conselho de Segurança da ONU em Dezembro de 2001. A OTAN


assumiu o controle da ISAF em 2003.
O ataque inicial removeu o Talibã do poder, mas forças talibãs já recuperaram
sua força no Afeganistão. A guerra tem sido pouco bem sucedida na consecução do
objetivo de restringir o movimento Al-Qaeda. Desde 2006, o Afeganistão tem sofrido
com o aumento da atividade insurgente e experimentado recordes nos níveis de
produção de drogas ilegais (o ópio é o principal produto da economia afegã). O país
busca estabilidade sobre um frágil governo, com controle limitado, fora de Cabul – essa
que seria a capital oficial.
Até Dezembro de 2008, a ISAF possuía cerca de 51.350 soldados de 41 países (os
Estados Unidos têm cerca de 19.950 tropas na ISAF). No entanto, diante da situação cada
vez mais fora do controle, o novo governo Obama tem-se visto obrigado a realocar
tropas da OTAN no Iraque (sobretudo estadunidenses) para o Afeganistão.

A Guerra do Iraque (2003 - )


Desde logo após ocupar o posto de Presidente dos EUA, George W. Bush buscava o
afastamento do chefe de estado iraquiano Saddan Hussein. A preocupação com a
instabilidade política do Oriente Médio, com o desenvolvimento de armas nucleares na
região e com o acesso ao petróleo eram suas principais motivações.
Com o passar do tempo, o fracasso na captura de Bin Laden no Afeganistão
direcionou atenção do governo estadunidense contra outros inimigos do chamado “eixo
do mal” – dentre os quais,
Irã, Coréia do Norte e Fig. 4: Iraque
Iraque.
Quando em 1998
inspetores da Agência
Internacional de Energia
Atômica (AIEA), sob
autorização da ONU, foram
impedidos de verificar as
instalações iraquianas,
Bush expressou suas
suspeitas de que o
governo iraquiano estaria
desenvolvendo armas
Fonte: Folha Online (2008).

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nucleares e afirmou que, se a ONU não tomasse nenhuma atitude, os Estados Unidos o
fariam.
Em fevereiro de 2003, os delegados da ONU chegaram à conclusão que não havia
nenhum tipo de arma de destruição em massa no Iraque. Contudo, contrariando o
Conselho de Segurança da ONU, o presidente George W. Bush formou uma coalizão
militar e, em março de 2003, contando com o apoio de tropas britânicas, italianas,
espanholas e australianas, os deram início à Operação Iraqi Freedon, atingindo o Iraque
com um intenso bombardeio.Em pouco tempo, a força de coalizão conseguiu derrubar o
governo de Saddam Hussein e instituir um governo de natureza provisória.
Após eleições e o estabelecimento de uma nova constituição no país, o
restabelecimento da soberania política do país era esperado, bem como o fim do
processo de ocupação das tropas norte-americanas. No entanto, o cenário político
iraquiano esteve longe de uma estabilização. Os grupos políticos internos, sobretudo
dominados por facções xiitas e sunitas31, enfrentam-se em diversos conflitos civis. Ao
longo desses anos de ocupação, os Estados Unidos vêm empreendendo uma batalha que
não parece ter fim. Em 2008/09, com o fim da era Bush e o novo governo Obama, existe
uma grande expectativa sobre o fim da presença militar dos EUA no Iraque.

UNIPOLARIDADE E MULTIPOLARIDADE NA NOVA ORDEM MUNDIAL


Diante dessa Nova Ordem Mundial, onde a URSS não mais existia – e os países
que a constituíam enfrentavam queda brusca do padrão de vida e da sua influência
internacional – os Estados Unidos não encontram adversário à altura que lhe fizesse
frente. Assim, o tema da unipolaridade vem à tona. Estariam os EUA em condições de
dominar e orientar sozinhos a política e a economia mundial?
Se analisadas as tendências emergentes e os avanços econômico-tecnológicos, o
novo cenário apresentava e apresenta características de multipolaridade. Desde a
década de 1970, os Estados Unidos não apresentaram nova fórmula de produção
industrial. Enquanto a globalização lhes garantiu que suas empresas atingissem as mais
longínquas fronteiras, o desemprego no país aumentou. Por outro lado, é evidente que o

31 Xiitas e sunitas são as duas correntes predominantes do Islã, que se diferenciam em relação ao profeta
Maomé e sua descendência. Os Sunitas consideram os sucessores diretos do profeta Muhammad Maomé,
já os Xiitas acreditam que o sucessor deveria ser Ali, genro do profeta. Os Sunitas correspondem a 85% de
todos os adeptos da região islâmica do mundo, com uma grande maioria em países como Arábia Saudita,
Egito e Indonésia, enquanto os Xiitas predominam em países como Irã e Iraque. De um modo geral, os
Xiitas correspondem à ala mais conservadora do Islã.

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vácuo deixado pela URSS representa a possibilidade de expansão econômica estratégica


não só do capital estadunidense, mas de outros países capitalistas, europeus e asiáticos.
Há uma diluição do poder mundial entre vários atores. Além dos blocos regionais
apresentados (NAFTA e União Europeia), novas potências de poder econômico e, quanto
muito político, vêm emergindo nesta segunda década do século XXI: Brasil, Rússia, Índia
e China (que configuram o acrônimo BRICs,) e a África do Sul.
O terrorismo também se apresenta como força combatente nesse novo cenário,
sobretudo após o 11 de setembro. E o que é pior, trata-se de um inimigo invisível, que
obrigou a grande potência estadunidense a rever todo seu sistema de segurança,
levando à criação da Homeland Security.
Apesar dos novos desafiantes, é inegável que os Estados Unidos continuem tendo
vantagem significativa sobre seus aliados da OTAN e parceiros do G-8, embora
apresentem um declínio relativo. O país segue mantendo vantagem militar considerável
e o predomínio sobre organizações internacionais de peso. Além disso, no que tange à
realidade, nenhum país ensaia hoje a construção de uma nova hegemonia mundial32.
Os EUA reconhecem, sim, os novos pontos de emergência de poder na cena
internacional, tal que o país mesmo manifesta interesse de um rearranjo internacional
que distribua melhor o poder (seja através de uma possível reforma do Conselho de
Segurança da ONU, seja pelo aumento progressivo do então G-7 para o atual G-20) e
assiste à organização e manutenção de sistemas regionais de equilíbrio de poder.
Enfim, hoje vivemos num mundo consagrado por um sistema multilateral, que, no
entanto, ainda não cansou de ser debater a dicotomia entre multipolaridade e
unipolaridade. Vivemos numa realidade de um novo período histórico “cujos contornos
ainda não são muito claros” (VISENTINI, 2002).

32Embora a China venha despontando como o grande ator do século XXI e venha investindo em matéria
militar e econômica, ainda não assumiu o perfil de grande ator político no sistema internacional.

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LEITURAS COMPLEMENTARES33
Leitura obrigatória
VISENTINI, Paulo Fagundes. De Berlim a Nova Iorque, 1989-2009: a queda do muro
socialista e do muro financeiro (Wall Street). Ciências & Letras, Porto Alegre, n. 46, p.
51-71, jul./dez. 2009.
Leitura complementar
VISENTINI, Paulo Fagundes. O sistema global 20 anos após a queda do Muro de Berlim:
entre as realizações e o desencanto. Cadernos Adenauer, Rio de Janeiro, v.2, p. 111,
nov. 2009.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO


1. Como pode o atual sistema funcionar, sendo ele liderado por um país em declínio
relativo (Estados Unidos)?
2. De que forma novos temas (como questões ambientais, energéticas e de direitos
humanos) impactam a compreensão das Relações Internacionais?
3. A ONU tem poder para ser a base da transformação da ordem mundial ou é ela uma
instituição falida?

LINKS ÚTEIS
1. Geografia Geral e do Brasil
Site com artigos e questões de vestibular.
Disponível em <http://www.geografiaparatodos.com.br/>.

2. Relações Internacionais – Artigos por Paulo Fagundes Vizentini


Site com artigos de história e relações internacionais, escritos pelo Professor Paulo
Vizentini.
Disponível em <http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/index.htm>.

3. Correio Internacional
Blog de notícias nacionais e internacionais, voltado para o público jovem brasileiro.
Disponível em <http://www.correiointernacional.com/>.

33Disponível no site do Projeto “Relações Internacionais para Professores”:


http://www.cursoripe.blogspot.com/.

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4. NERINT (Núcleo de Estratégia e Relações Internacionais)


Site do NERINT, com artigos, resenhas, indicação de publicações e divulgação de cursos
e eventos da área.
Disponível em <http://www6.ufrgs.br/nerint/php/home.php?lang=br>.

FILMES
Adeus, Lenin (2003), de Wolfgang Becker.
Resenha disponível em <http://migre.me/EH3m>.

Soldado Anônimo (2005), de Sam Mendes.


Resenha disponível em <http://migre.me/EH3B>.

Bem-vindo a Sarajevo (1997), de Michael Winterbottom.


Resenha disponível em <http://migre.me/EH3M>.

Guerra ao Terror (2009), de Kathryn Bigelow.


Resenha disponível em <http://migre.me/EH4b>.

Zona Verde (2010), de Paul Greegrass.


Resenha disponível em <http://migre.me/EH4t>.

LEITURAS SUGERIDAS
ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon. Relações Internacionais Contemporâneas: a
ordem mundial depois da Guerra Fria. Petrópolis: Vozes, 2005.
HALLIDAY, Fred. Repensando as relações internacionais. Porto Alegre: Ed. da
Universidade, UFRGS/FAPA, 1999.
HUNTINGTON, Samuel. O choque de civilizações e a recomposição da ordem
mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.
KENNEDY, Paul. Preparando para o Século XXI. Rio de Janeiro: Campus, 1993.
PECEQUILO, Cristina Soreanu: A Política Externa dos Estados Unidos: mudança ou
continuidade? Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 2003.
SANTOS, Milton, e outros (Orgs.). Fim de século e globalização. São Paulo:
HUCITEC/ANPUR, 1993.
VISENTINI, Paulo Fagundes. Dez Anos que Abalaram o Século XX – da Crise do
Socialismo à Guerra ao Terrorismo. Porto Alegre: Leitura XXI, 2002

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