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Philip K.

Dick

Os Três Estigmas de Palmer


Eldritch
Tradução de Ruy Jungmann.
Título do original norte-americano
THE THREE STIGMATA OF PALMER ELDRITCH
Philip K. Dick, 1964
Direitos adquiridos para a língua portuguesa, no Brasil, pela
LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA S.A.
Rua Marquês de Olinda, 12 - Rio de Janeiro, RJ — República Federativa do Brasil

ISBN 0-553-10586-8
(Edição original: ISBN 0-553-10586-8,. Doubleday & Co. Inc. New York)

Preparação de Originais HELOÍSA MENDES FORTES DE OLIVEIRA


Revisão Tipográfica ONÉZIO ALVES DE PAIVA HENRIQUE TARNAPOLSKY

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Dick, Philip K.
D543t Os Três Estigmas de Palmer Eldritch / Philip K. Dick ; tradução de Ruy
Jungmann. — Rio de Janeiro : José Olympio, 1985. (Coleção Asteróide)

1. Ficção científica estadunidense


I. Jungmann, Ruy II. Título III. Série

85-0697 CDD-813-0876

***

Quero dizer que, afinal de contas, todos reconhecemos que somos feitos
apenas de pó. Sabe-se que não é lá grande coisa, mas não devemos esquecer
esse fato. Ainda considerando-se que isto seja uma espécie de mau começo,
não estamos indo tão mal assim. De modo que, pessoalmente, acredito que,
mesmo nesta situação deprimente que ora enfrentamos, podemos ter
sucesso. Entenderam bem o que eu disse?

— Extraído de um audiomemo que circulou entre os consultores da


Perky Pat Layouts, Inc., num pré-lançamento, ditado por Leo Bulero
imediatamente após sua volta de Marte.
UM

COM A cabeça doendo horrivelmente, Barney Mayerson


acordou e descobriu que estava num quarto desconhecido,
num prédio de apartamentos desconhecido. Ao seu lado,
com as cobertas puxadas até os ombros nus e macios,
dormia uma moça desconhecida, respirando levemente pela
boca e seus cabelos pareciam uma cascata de algodão
branco.
Aposto que estou atrasado para o trabalho, pensou.
Deslizou para fora da cama, aprumou-se vacilante, com os
olhos fechados, fazendo força para não vomitar. Tanto
quanto sabia, estava a horas de distância de seu escritório,
talvez nem mesmo nos Estados Unidos. Estava na Terra,
porém: a gravidade que lhe fazia a cabeça girar era
conhecida e normal.
No cômodo vizinho, junto ao sofá, viu a valise conhecida
de seu psiquiatra, o doutor Smile.
Descalço, foi até a sala de estar e sentou-se junto à
valise. Abriu-a, apertou botões ligando para o doutor Smile.
Mostradores começaram a se movimentar e o mecanismo
zumbiu.
— Onde é que eu estou? — perguntou Barney à valise. —
E a que distância estou de Nova Iorque?
Este era o ponto mais importante. Nesse momento, notou
um relógio na parede da cozinha do apartamento. Marcava
7:30h da manhã. Não estava de modo algum atrasado.
O mecanismo, que era uma extensão portátil do doutor
Smile, ligado por microrrelé ao computador instalado no
subsolo do próprio prédio de apartamentos de Barney em
Nova Iorque, o famoso 33, respondeu com voz metálica:
— Ah, senhor Bayerson!
— Mayerson — corrigiu Barney, alisando os cabelos com
os dedos trêmulos. — De que é que você se lembra da noite
passada? — Nesse momento, com grande repugnância
física, viu as garrafas meio vazias de bourbon e água
mineral com gás, fatias de limão, bitters , os baldes de gelo
na bancada da cozinha. — Quem é essa moça?
— A moça que está na cama — respondeu o doutor Smile
— é a senhorita Rondinella Fugate, Roni, como ela pediu que
você a chamasse.
Aquilo parecia vagamente familiar e, o que era estranho,
ligado de alguma maneira a seu trabalho.
— Escute aqui — disse, dirigindo-se à valise, mas nesse
momento a moça no quarto começou a se mexer.
Imediatamente, desligou o doutor Smile e levantou-se,
sentindo-se encabulado e sem jeito só com as roupas de
baixo.
— Já acordou? — perguntou sonolenta a moça. Afastou as
cobertas e sentou-se, de frente para ele. Muito bonita,
pensou ele, olhos grandes e expressivos. — Que horas são, o
bule de café já está no fogo?
Barney foi até a cozinha, apertou um botão, e o fogão
começou a esquentar a água para o café. Enquanto
esperava, ouviu o ruído de uma porta se fechando. Água
correndo. Roni estava tomando um banho de chuveiro.
Voltando à sala de estar, tornou a ligar para o doutor
Smile.
— O que é que ela tem a ver com a P.P. Layouts? —
perguntou.
— A senhorita Fugate é sua nova assistente. Chegou
ontem da República Popular da China, onde trabalhava para
a P.P. Layouts como consultora de pré-lançamentos para
aquela região. A senhorita Fugate, porém, embora talentosa,
é muito inexperiente. O senhor Bulero chegou à conclusão
de que um curto período como sua assistente, eu diria, "sob
você", mas isso poderia ser mal interpretado,
considerando...
— Ótimo — comentou Barney. Voltou ao quarto e achou
suas roupas. Haviam sido lançadas numa pilha, sem dúvida
por ele mesmo, no chão do quarto. Começou a vestir-se,
com cuidado. Sentia-se ainda horrivelmente mal e
continuava a fazer um grande esforço para não entregar os
pontos e vomitar. — Muito bem — disse ao doutor Smile,
voltando à sala de estar, abotoando a camisa. — Lembro-me
do memo de sexta-feira sobre a senhorita Fugate. O talento
dela é instável. Escolheu mal aquele item na série de
amostras visuais da guerra civil americana... Você não
acreditaria, porém ela pensou que seria um sucesso
absoluto na China. — Riu em voz alta.
Abriu-se uma fresta da porta do banheiro. Barney teve
um vislumbre de Roni, rosada, macia, asseada, secando-se.
— Você me chamou, querido?
— Não — respondeu ele. — Estava falando com meu
médico.
— Todo mundo comete erros — disse o doutor Smile, um
pouco aereamente.
— Como foi que ela e eu... — começou Barney. Fez um
gesto para o banheiro. — Em tão pouco tempo?
— Química — explicou o doutor Smile.
— Ora, vamos.
— Bem, vocês dois são precogs. Previram que, no fim,
acabariam se gostando, se tornariam eroticamente
envolvidos. De modo que os dois resolveram — depois de
alguns drinques — por que isso deveria esperar? "A vida é
curta, a arte é..."
A valise calou-se porque Roni Fugate saíra do banheiro,
nua, passara por ela e Barney e voltara ao quarto. Possuía
corpo esguio, ereto, um porte realmente soberbo, notou
Barney, e seios pequenos e empinados, com bicos não
maiores do que ervilhas rosadas, combinando. Ou melhor,
pérolas rosadas combinando, corrigiu-se.
— Ontem à noite — disse Roni Fugate — eu quis
perguntar a você... Por que é que você está consultando um
psiquiatra? E, meu Deus, leva essa coisa a toda parte. Não a
largou nem uma vez... e deixou-a ligada até... — ergueu
uma sobrancelha e fitou-o, curiosa.
— Pelo menos, desliguei-a nessa ocasião — observou
Barney.
— Você acha que eu sou bonita?
Erguendo-se nas pontas dos pés, foi fazendo um
alongamento, ergueu os braços acima da cabeça e em
seguida, para espanto dele, iniciou uma movimentada série
de exercícios, saltitando e pulando, com os seios
balançando.
— Claro que acho — murmurou ele atônito.
— Eu pesaria uma tonelada — arquejou Roni Fugate — se
não fizesse estes exercícios marciais todas as manhãs. Sirva
o café, sim, querido?
— Você é mesmo minha nova assistente na P.P. Layouts?
— perguntou Barney.
— Sou, claro. Você quer dizer que não se lembra? Mas eu
acho que você é como muitos dos precogs realmente
superiores: vêem o futuro tão bem que têm apenas uma
vaga recordação do passado. De que é que você realmente
se lembra quanto à noite passada? — Interrompeu os
exercícios e respirou fundo para recuperar o fôlego.
— Ah — respondeu ele em tom vago — acho que de tudo.
— Escute aqui. A única razão para você andar carregando
um psiquiatra de um lado para o outro é que deve ter
recebido seu aviso de convocação. Certo?
Após uma pausa, ele confirmou com um aceno. Disso ele
se lembrava. O comprido e conhecido envelope azul-
esverdeado chegara uma semana antes. Na quarta-feira
seguinte faria seu exame de sanidade mental no hospital
militar da ONU, no Bronx.
— E ajudou? Ele deu um jeito...? — fez um gesto para a
valise — Conseguiu que você ficasse suficientemente biruta?
Virando-se para a extensão portátil do doutor Smile,
Barney perguntou:
— Conseguiu?
A valise respondeu:
— Infelizmente, o senhor continua ainda muito viável,
senhor Mayerson. Pode agüentar 10 freuds de tensão.
Lamento muito. Mas temos ainda vários dias. Apenas
começamos.
Entrando no quarto, Roni Fugate pegou a roupa de baixo
e começou a enfiar-se nela.
— Imagine só — disse ela, pensativamente. — Se o
senhor for convocado, senhor Mayerson, e enviado às
colônias... talvez eu fique com seu emprego.
Sorriu, mostrando dentes soberbos, regulares.
Aquilo era uma triste possibilidade. E, nesse particular,
não o ajudou sua capacidade precognitiva: o resultado
encontrava-se, na verdade, em perfeito equilíbrio, na
balança de futuras causas e efeitos.
— Você não conseguirá dar conta de meu trabalho —
retrucou ele. — Não conseguiu nem mesmo fazer isso na
República Popular da China, e aquilo foi uma situação
relativamente simples, no sentido de lidar com dados
elementares.
Mas algum dia ela conseguiria. Sem dificuldade, previa
isso. Ela era jovem e rica em potencialidades. Para igualar-
se a ele — que era o melhor do ramo — tudo o que
precisava era de alguns anos de experiência. Nesse
momento, ele acordou inteiramente, enquanto lhe voltava a
consciência da situação em que se encontrava. Havia forte
possibilidade de que fosse convocado e, mesmo que não
fosse, Roni Fugate podia muito bem surrupiar-lhe o ótimo e
desejável emprego, para o qual se preparara em lentas
etapas durante treze anos.
Uma solução peculiar para a gravidade da situação era a
de ter ido para a cama com ela A si mesmo perguntou-se
como chegara a isto.
Inclinando-se para a valise, falou em voz baixa ao doutor
Smile:
— Eu gostaria que você me dissesse por que diabo, com a
situação tão difícil assim, eu resolvi...
— Isso eu posso responder — gritou Roni Fugate do
quarto. Vestira um suéter verde-claro meio apertado e,
nesse momento, abotoava-o em frente ao espelho da
penteadeira. — Você me disse na noite passada, depois de
seu quinto bourbon com água. Você disse... — interrompeu-
se, com os olhos brilhando. — É deselegante. O que você
disse foi: "Se não pode derrotá-los, junte-se a eles." Apenas,
o verbo que você usou, lamento dizer, não foi "junte-se".
— Hummmm — disse Barney, e dirigiu-se à cozinha para
tomar uma xícara de café.
De qualquer modo não estava longe de Nova Iorque.
Evidentemente, se a senhorita Fugate era colega na P.P.
Layouts, ele se encontrava a uma distância razoável de seu
emprego. Poderiam ir juntos. Encantador. Perguntou-se se o
patrão de ambos, Leo Bulero, aprovaria aquela situação, se
soubesse. Haveria alguma norma oficial da companhia a
respeito de empregados dormirem juntos? Havia normas a
respeito de praticamente tudo... embora ele não pudesse
compreender como um homem que passava todo seu tempo
em praias de veraneio da Antártida e em clínicas alemãs de
terapia pudesse arranjar tempo para formular diretrizes
sobre todos os assuntos.
Algum dia, pensou, vou viver como Leo Bulero, em vez de
ficar sufocado na cidade de Nova Iorque, num calor de 80
graus.
Abaixo de seus pés, começou uma pulsação e o assoalho
vibrou. Entrara em funcionamento o sistema de ar
condicionado do prédio. Começara o dia.
Do outro lado da janela da cozinha, o sol quente, hostil,
tomava forma atrás dos demais prédios de apartamentos
que lhe eram visíveis. Fechou os olhos para proteger-se do
fulgor. Vai ser outro dia de calor de rachar, que chegará
provavelmente até a marca de 20 wagners. Não precisava
ser um precog para antever isso.

No CONDOMÍNIO de número miseravelmente alto, 492,


nos subúrbios de Marilyn Monroe, em Nova Jersey, Richard
Hnatt comia com indiferença o desjejum, enquanto, com
algo mais do que indiferença, considerava as condições do
tempo do dia anterior nas informações do jornal da manhã.
A principal geleira, a velha Ol' Skintop, recuara 4,62
grables nas últimas 24 horas. E a temperatura ao meio-dia
em Nova Iorque excedera em 1,46 wagners a do dia
anterior. Além disso, a umidade, à medida que os oceanos
se evaporavam, subira em 16 selkirks. De modo que as
coisas estavam mais quentes e mais úmidas. A grande
procissão da natureza continuava em sua barulhenta
marcha, dirigindo-se... para onde? Empurrou o jornal para
longe e apanhou a correspondência que fora entregue antes
do amanhecer...' Já se passara algum tempo desde que os
carteiros haviam saído para fazer a entrega durante as horas
do dia.
A primeira conta que lhe chamou a atenção foi a
roubalheira da taxa rateada de esfriamento do lugar onde
morava. Devia ao condomínio 492 exatamente dez e meia
peles, referentes ao mês anterior: ou um aumento de três
quartos de pele em relação a abril. Algum dia, disse a si
mesmo, vai fazer tanto calor que coisa alguma evitará que
este prédio se derreta todo. Lembrou-se do dia em que sua
coleção de discos se fundira e se transformara num bloco
sólido, lá por volta de '04, devido a um enguiço momentâneo
na rede de esfriamento do prédio. Agora, possuía fitas de
oxido de ferro. Elas não se derretiam. Naquela ocasião,
todos os periquitos e aves venusianas existentes no prédio
haviam caído mortos. E a tartaruga do vizinho cozinhara na
própria casca. Claro, aquilo acontecera durante o dia e todo
mundo — pelo menos os homens — estava fora,
trabalhando. As mulheres, contudo, haviam-se reunido no
último andar do subsolo (lembrava-se de que Emily lhe
contara isso), pensando que, finalmente, chegara o
momento fatal. E não seria dentro de um século a partir
daquele momento, mas naquele momento. As previsões da
Caltech estavam erradas... Apenas, claro, não estavam. Fora
apenas um cabo quebrado que vinha da usina de N.I.
Operários-robôs haviam aparecido rapidamente e
consertado o defeito.
Na sala de estar, usando o robe azul, sua mulher pintava
laboriosamente uma peça de cerâmica não vitrificada,
aplicando verniz. Com a língua de fora, os olhos dela
brilhavam... O pincel era passado com habilidade e ele já
antevia que dali sairia uma boa peça. Vendo Emily
trabalhando, lembrou-se da tarefa que o aguardava naquele
dia e que não encarava com prazer algum.
— Talvez a gente devesse esperar um pouco, antes de
procurá-lo — disse, mal-humorado.
Sem erguer a vista, Emily respondeu:
— Nunca teremos uma melhor amostra para apresentar a
ele do que agora
— E se ele disser que não?
— Continuaremos. O que é que você pensa? Que vamos
desistir porque meu ex-marido não consegue prever — ou
não quer prever — o sucesso que estas novas peças terão
finalmente, em termos de mercado?
— Você é que o conhece. Eu, não — retrucou Richard
Hnatt. — Ele não é vingativo, é? Você acha que ele é capaz
de guardar rancor?
E, afinal de contas, que tipo de raiva o ex-marido de
Emily poderia guardar? Ninguém fizera mal algum a ele. Se
alguma coisa acontecera, foi justamente o contrário, ou pelo
menos era o que deduzia do que Emily lhe contara.
Era estranho ouvir falar de Barney Mayerson o tempo
todo e nunca o ter encontrado, jamais ter mantido qualquer
contato direto com aquele homem. Mas essa situação ia
acabar, porque tinha hora marcada, às 19 h, no escritório
dele na P.P. Layouts. Mayerson, claro, estaria por cima.
Poderia lançar um curto olhar ao mostruário de cerâmicas e
recusá-las na hora. Não, ele diria que a P.P. Layouts não
estava absolutamente interessada em nada daquilo. Pode
acreditar na minha capacidade precognitiva, em meu talento
e habilidade de comercialização de pré-sucessos. E Richard
Hnatt voltaria para a rua, com a coleção de vasos nas mãos
e sem nenhum lugar para ir.
Olhando pela janela, notou aborrecido que o dia já se
tornara quente demais para a capacidade de suportar de um
ser humano. As calçadas rolantes haviam-se esvaziado de
repente, enquanto todos corriam em busca de abrigo. Eram
8:30h e tinha que sair. Levantando-se, foi até o armário do
corredor pegar o capacete isolante e o protetor de
esfriamento, de uso obrigatório. De acordo com a lei, esse
protetor tinha que estar afivelado às costas de todos os
transeuntes até o anoitecer.
— Adeus — disse para a mulher, parando à porta da
frente.
— Adeus e muita sorte para você.
Ela se absorvera ainda mais no complicado trabalho de
envernizamento. De repente, compreendeu como aquilo
mostrava a tensão dela. Não podia parar, nem mesmo por
um instante. Abriu a porta e saiu para o corredor, sentindo o
vento frio da unidade portátil, trabalhando colada às suas
costas.
— Ah... — disse Emily, no momento em que ele ia fechar
a porta. Nesse instante, ergueu a cabeça , afastando dos
olhos os longos cabelos castanhos. — Videofone logo que
sair do escritório de Barney, logo que souber a resposta,
qualquer que seja.
— Certo — respondeu ele, e fechou a porta.
Ao pé da rampa, no banco do prédio, abriu o cofre de
aluguel e levou a gaveta para uma sala privativa, onde
retirou o mostruário contendo as peças de cerâmica que iria
mostrar a Mayerson.
Pouco depois, encontrava-se num carro de
intercomunicação, termoisolado, que circulava entre os
prédios, a caminho do centro da cidade de Nova Iorque e da
P. P. Layouts Representações, o grande e claro edifício de
cimento sintético, onde Perky Pat e todas as unidades de
seu mundo de miniatura se originavam. A boneca, refletiu,
que conquistara o homem na mesma ocasião em que o
homem conquistara os planetas do sistema solar. Perky Pat
era a obsessão dos colonos. Que comentário sobre a vida
colonial... O que mais uma pessoa precisa saber sobre
aqueles infelizes que, de acordo com as leis de serviço
seletivo das Nações Unidas, haviam sido expulsos da Terra,
com ordem de iniciar nova e estranha vida em Marte, Vênus,
Ganimedes ou onde quer que os burocratas das Nações
Unidas imaginassem que eles podiam ser depositados e... de
certo modo, sobreviver?
E nós pensamos que as coisas são ruins por aqui, disse a
si mesmo.
O indivíduo sentado a seu lado, um homem de meia-
idade, usando o capacete isolante cinzento, a camisa sem
mangas e a bermuda de cor vermelho-viva, comuns na
classe dos homens de negócios, observou:
— Hoje vai ser outro dia de um calor daqueles.
— Vai mesmo.
— O que é que o senhor leva aí nessa grande caixa de
papelão? Uma cesta de piquenique para algum alojamento
de colonos marcianos?
— Cerâmica — respondeu Hnatt.
— Aposto que o senhor as vitrifica simplesmente
deixando-as ao ar livre ao meio-dia. — O homem de
negócios soltou uma risadinha, pegou o matutino e abriu-o
na primeira página. — Diz aqui que uma astronave de fora
do sistema solar fez um pouso de emergência em Plutão —
leu o homem. — Um grupo está sendo enviado para localizá-
la. O senhor acha que são coisas! Não consigo agüentar
essas coisas de outros sistemas estelares.
— É mais provável que seja uma de nossas próprias
astronaves voltando — sugeriu Hnatt.
— Já viu uma coisa de Próxima?
— Só fotos.
— Horripilantes — comentou o homem de negócios. — Se
encontrarem aquela astronave acidentada em Plutão, e for
uma coisa, tomara que a destruam com lasers. Afinal de
contas, temos uma lei contra a entrada delas em nosso
sistema.
— Isso mesmo.
— Posso ver suas cerâmicas? Eu trabalho com gravatas. A
gravata viva, simulada-artesanal Werner, numa grande
variedade de cores titanianas... Estou usando uma delas,
está vendo? As cores são, na verdade, uma forma de vida
primitiva, que importamos e cultivamos em plantações aqui
na Terra. A maneira exata como as induzimos a se
reproduzirem é segredo comercial, sabia? Exatamente como
a fórmula da Coca-Cola.
— Por motivo análogo — retrucou Hnatt — não posso lhe
mostrar essas cerâmicas, por mais que queira. São novas.
Vou mostrá-las a um precog de pré-sucesso da P.P. Layouts.
Se ele quiser miniaturizá-las para os acessórios da Perky,
estamos feitos. E simplesmente uma questão de mandar a
informação ao disc jockey da P.P. — qual é o nome dele? —
que está em órbita em torno de Marte. E assim por diante.
— As gravatas artesanais Werner fazem parte da coleção
de Perky Pat — informou-o homem. — O namorado dela,
Walt, tem um guarda-roupa cheio dessas gravatas —
continuou, radiante. — Quando a P.P. Layouts resolveu
miniaturizar nossas gravatas...
— Foi com Barney Mayerson que o senhor conversou?
— Eu não conversei com ele. Quem fez isso foi nosso
gerente regional de vendas. Dizem que esse Mayerson é um
tipo difícil. Age segundo o que parece um impulso e, logo
que decide, o que resolveu é irreversível.
— Ele se engana algumas vezes? Recusa itens que se
tornam moda?
— Claro. Ele pode ser um precog, mas é apenas humano.
Eu lhe digo uma coisa, que talvez ajude. Ele é muito
desconfiado de mulheres. O casamento dele acabou há uns
dois anos e ele nunca conseguiu se recuperar do trauma.
Entenda, a mulher dele ficou grávida duas vezes e a junta de
diretores do condomínio dele, acho que é um 33, reuniu-se e
votou pela expulsão de ambos, porque haviam violado o
código do prédio. Bem, o senhor sabe o que é um 33, sabe
como é difícil ser aceito como morador num prédio de
numeração tão baixa assim. De modo que, em vez de
desistir do apartamento, ele resolveu divorciar-se e mandá-
la embora, levando o filho de ambos. Mais tarde,
evidentemente chegou à conclusão de que cometera um
erro e ficou amargurado. Culpou-se, naturalmente, por ter
cometido um erro desses. Mas um erro natural. O que o
senhor e eu não daríamos para ter um apartamento num 33
ou mesmo num 34? Ele nunca mais se casou. Talvez seja um
neocristão. Mas, de qualquer modo, quando tentar lhe
vender a cerâmica, tome todo cuidado com a maneira de
abordar o ângulo feminino. Não diga "elas agradarão às
mulheres", ou coisas assim. A maioria dos itens de retalho é
comprada por...
— Obrigado pela dica — disse Hnatt, levantando-se do
assento. Carregando a caixa de cerâmica, desceu o corredor
em direção à saída. Suspirou. Ia ser difícil, possivelmente
irrealizável. Não poderia derrotar circunstâncias que haviam
ocorrido tanto tempo antes de seu relacionamento com
Emily e os vasos que ela fabricava, e essa era a situação.
Por sorte, conseguiu pegar um táxi. Enquanto era levado
pelo tráfego do centro da cidade, começou a ler seu próprio
matutino, especialmente a notícia principal, sobre a
astronave que se acreditava ter voltado de Próxima, mas
apenas para cair nos ermos gelados de Plutão... e que
eufemismo chamar aquilo de ermo! Já se conjeturava que a
nave talvez fosse a do conhecido industrial interplanetário
Palmer Eldritch, que seguira para o sistema de Prox uma
década antes, a convite do Conselho de Prox, de tipos
humanóides. Queriam que ele modernizasse suas fábricas
automáticas, de acordo com os princípios terráqueos. Desde
então, nenhuma notícia fora ouvida sobre Eldritch. E, agora,
isso.
Provavelmente, seria melhor para a Terra se não fosse
Eldritch voltando, concluiu. Palmer Eldritch era um
profissional solitário, maluco e ousado demais. Realizara
milagres implantando fábricas automáticas nos planetas-
colônias, mas, como sempre, fora excessivamente longe,
havia planejado demais. Bens de consumo haviam-se
empilhado nos lugares os mais estranhos, onde não havia
colonos para usá-los, transformando-se em montanhas de
sucata, enquanto as condições climáticas corroía-os aos
poucos, inexoravelmente. Tempestades de neve, se alguém
pudesse acreditar que elas ainda existissem em algum
lugar... Havia lugares onde fazia realmente frio. Frio demais,
para dizer a verdade.
— Seu destino, eminência — informou o táxi automático,
parando diante do grande edifício, embora na maior parte
subterrâneo, da P.P. Layouts, com acessos confortáveis para
os empregados pelas muitas rampas, dotadas de isolamento
térmico.
Pagou o táxi, saltou para a rua e correu por um pequeno
espaço aberto em direção a uma rampa, segurando a caixa
com ambas as mãos. Por um instante, a luz dardejante do
sol tocou-o e ele sentiu — ou imaginou — que estava sendo
frito, assado como se fosse um sapo, drenado de todos os
fluidos vitais, pensou, quando chegou em segurança à
rampa.
Pouco depois, já no subsolo, foi introduzido no escritório
de Mayerson por uma recepcionista. As salas, frias e na
penumbra, convidavam-no à relaxação. Empertigou-se e,
embora não fosse neo-cristão, murmurou uma longa prece.
— Senhor Mayerson — a recepcionista, mais alta do que
Hnatt e impressionante em seu vestido de corpinho aberto e
saltos afilados, dirigiu-se não a ele, Hnatt, mas ao homem
que se encontrava sentado à escrivaninha — este é o senhor
Hnatt — disse a Mayerson. — Senhor Hnatt, este é o senhor
Mayerson. — Atrás de Mayerson, ele viu uma moça usando
suéter verde-claro, com cabelos inteiramente brancos. Os
cabelos eram compridos demais e o suéter apertado demais.
— Esta é a senhorita Fugate, senhor Hnatt. Assistente do
senhor Mayerson. Senhorita Fugate, este é o senhor Richard
Hnatt.
A escrivaninha, Barney Mayerson continuou a estudar um
documento, sem atentar para a presença de pessoa alguma.
Richard Hnatt esperou em silêncio, experimentando uma
série de emoções variadas: a raiva apoderou-se dele e
alojou-se em sua traquéia e no peito e, naturalmente, a
angústia, mas depois, como que sobrepujando-as, um laivo
de curiosidade crescente. Então esse era o ex-marido de
Emily, o qual, a se dar crédito ao vendedor de gravatas,
ainda remoia triste e amargamente o arrependimento de ter
acabado seu casamento. Mayerson era um homem bastante
corpulento, já nos fins da casa dos 30, com cabelos — o que
não estava lá muito em moda — inusitadamente soltos e
ondulados. Parecia entediado, mas não demonstrava sinais
de hostilidade. Porém, talvez não soubesse ainda...
— Vejamos seus vasos — disse subitamente Mayerson.
Colocando o mostruário sobre a escrivaninha, Richard Hnatt
abriu-o e tirou, uma após outra, as peças de cerâmica,
colocando-as em ordem. Depois, recuou um passo.
Após uma pausa, Barney Mayerson disse:
— Não.
— Não? — repetiu Hnatt. — Não, o quê?
— Não servirão — disse Mayerson. Apanhou o documento
e voltou a lê-lo.
— O senhor quer dizer que já resolveu, tão rápido assim?
— perguntou Hnatt, incapaz de acreditar que tudo já
acabara.
— Exatamente assim — concordou Mayerson.
Não sentia mais interesse pela cerâmica. Quanto a Hnatt,
já devia ter guardado seus vasos e ido embora.
— Desculpe-me, senhor Mayerson — disse a senhorita.
Fugate. Erguendo a vista para ela, Barney Mayerson
perguntou:
— O que é?
— Sinto muito dizer isso, senhor Mayerson — disse a
senhorita Fugate. Aproximou-se dos vasos, pegou um deles
e segurou-o com as duas mãos, sopesando-o, alisando a
superfície vitrificada. — Mas estou sentindo uma impressão
inteiramente diferente da sua. Acho que essas peças de
cerâmica servirão.
Hnatt olhou para um e para outro.
— Deixe-me ver esse aí. — Mayerson apontou para um
vaso cinzento-escuro. Imediatamente, Hnatt entregou-lhe a
peça. Mayerson segurou-a durante um momento. — Não —
disse finalmente, agora com as sobrancelhas franzidas. —
Ainda não sinto a impressão de que esta mercadoria terá
sucesso. Na minha opinião, está enganada, senhorita
Fugate. — Repôs o vaso na mesa. — Contudo — disse,
dirigindo-se a Richard Hnatt — , tendo em vista a
discordância de impressões entre mim e a senhorita
Fugate... — cocou pensativo o nariz — deixe o mostruário
comigo durante alguns dias. Vou examiná-lo com mais
atenção. Estava claro, porém, que não ia fazer isso.
Estendendo a mão, a senhorita Fugate apanhou uma
peça pequena, de forma estranha, e aninhou-a no seio,
quase ternamente.
— Esta, em particular. Recebo dela emanações muito
fortes. Esta será a mais bem-sucedida de todas.
Com a voz tranqüila, Barney Mayerson disse:
— Você perdeu o juízo, Roni. — Nesse instante, parecia
realmente zangado, fisionomia crispada e sombria. — Eu lhe
videofonarei — disse a Richard Hnatt. — Quando tiver
chegado a uma decisão final. Não vejo motivo para mudar
de idéia, de modo que não fique otimista. Na verdade, não
se preocupe em deixar aqui suas peças.
E lançou um olhar duro e irado à assistente, senhorita
Fugate.
D OIS

EM SEU gabinete, às dez horas daquela manhã, Leo


Bulero, presidente do Conselho de Administração da P.P.
Layouts, recebeu uma videochamada — que estivera
esperando — da Vigilância Legal Triplanetária, uma agência
de detetives particulares. Contratara os serviços da agência
minutos depois de saber do pouso forçado em Plutão da
nave de intersistemas que voltava de Prox.
Escutou displicentemente a mensagem porque, a
despeito da momentosa notícia, estava preocupado com
outras coisas.
Era pura idiotice, em vista do fato da P.P. Layouts pagar
um tributo anual enorme às Nações Unidas, mas, idiotice ou
não, uma nave de guerra da Divisão de Controle de
Entorpecentes da ONU capturara um carregamento
completo de Can-D, valendo quase um milhão de peles,
perto da calota polar norte de Marte, que fora trazido das
plantações fortemente guardadas de Vênus. Evidentemente,
o dinheiro da extorsão não estava chegando às pessoas
certas na complicada hierarquia da ONU.
Mas não havia coisa alguma que pudesse fazer a esse
respeito. A ONU era uma mônada sem janelas, sobre a qual
não exercia influência.
Sem dificuldade, percebia as intenções da Divisão de
Controle de Entorpecentes. Queria que a P.P. Layouts
iniciasse um processo judicial para recuperar a carga.
Porque esse fato revelaria que a droga ilegal Can-D,
mastigada por tantos colonos, era cultivada, processada e
distribuída por uma subsidiária clandestina da P.P. Layouts.
De modo que, por mais valiosa que fosse a carga, melhor
seria dá-la como perdida do que tentar recuperá-la.
— As conjeturas do jornal domiciliar estavam certas —
dizia nesse momento, na tela, Felix Blau, chefe da agência
de detetives. — É mesmo Palmer Eldritch, e parece que ele
está vivo, embora muito ferido. Sabemos que uma nave de
linha da ONU o está levando para um hospital de base, cuja
localização, claro, não foi divulgada.
— Hummmm — murmurou Leo Bulero, balançando a
cabeça.
— Contudo, quanto ao que Eldritch descobriu no sistema
de Prox...
— Você nunca descobrirá isso — disse Leo. — Eldritch não
dirá coisa alguma e tudo terminará aí.
— Um fato de interesse — continuou Blau — foi
comunicado. A bordo da nave, Eldritch tinha — ainda tem —
uma cultura cuidadosamente conservada de um líquen
muito parecido com o titaniano do qual é derivada a Can-D.
Eu pensei que, em vista da... — Blau interrompeu-se,
diplomaticamente.
— Há alguma maneira de destruir essas culturas de
liquens? Foi uma reação instintiva.
— Infelizmente, os empregados de Eldritch já chegaram
aos destroços da nave. Indubitavelmente, resistiriam a
esforços nesse sentido. — Blau pareceu concordar. —
Poderíamos, naturalmente, tentar... não uma solução de
força, mas talvez pudéssemos entrar usando suborno.
— Tente — ordenou Leo, embora achasse que aquilo era,
sem dúvida alguma, um desperdício de tempo e esforço. —
Não há uma lei, aquele importante decreto da ONU, contra a
importação de formas de vida de outros sistemas? — Seria
realmente de grande utilidade se o pessoal militar da ONU
pudesse ser induzido a bombardear os destroços da nave de
Eldritch. No bloco de anotações, rabiscou um memorando
para si mesmo: chame os advogados, apresente queixa a
ONU contra a importação de liquens alienígenas. — Eu lhe
falo depois — disse a Blau, e desligou. — Talvez eu me
queixe diretamente — resolveu. Apertou um botão no
intercomunicador e deu instruções à secretária: — Ligue-me
com a ONU, alto escalão, em Nova Iorque. Chame o
secretário Hepburn-Gilbert, pessoalmente.
Logo depois, foi completada a ligação com o matreiro
político indiano que, no ano anterior, se tornara secretário
da ONU.
— Ah, senhor Bulero — disse Hepburn-Gilbert, sorrindo
astuciosamente. — Se deseja queixar-se do confisco daquele
carregamento de Can-D que...
— Eu não sei de coisa alguma a respeito de carregamento
de Can-D — cortou-o Leo. — Esta ligação diz respeito a um
assunto inteiramente diferente. Vocês aí compreendem o
que Palmer Eldritch está pretendendo fazer? Ele trouxe para
nosso sistema líquens que não pertencem ao sistema do Sol.
Isso poderia ser o começo de uma nova praga, como a que
tivemos em '98.
— Compreendemos isso. Contudo, o pessoal de Eldritch
está alegando que é um líquen de nosso sistema, que o
senhor Eldritch levou em sua viagem a Prox e que estava
trazendo de volta... Dizem que, para ele, era uma fonte de
proteínas. — Os dentes brancos do indiano faiscaram em
zombeteira superioridade. O tolo pretexto divertia-o.
— O senhor acredita nisso?
— Claro que não. — Abriu-se ainda mais o sorriso de
Hepburn-Gilbert. — Qual é o seu interesse nesse assunto,
senhor Bulero? O senhor tem algum interesse, ahn, especial
por líquens?
— Eu sou um cidadão do sistema solar, dotado de espírito
público. E insisto em que o senhor tome providências.
— Estamos tomando — retrucou Hepburn-Gilbert. —
Fizemos indagações... Designamos um funcionário, o senhor
Lark — o senhor o conhece — para esta missão.
Compreendeu?
A conversa arrastou-se até uma conclusão frustradora e
Leo Bulero finalmente desligou, furioso com os políticos. Eles
davam um jeito de tomar medidas rigorosas quando se
tratava dele, mas, no que dizia respeito a Palmer Eldritch...
Ah, senhor Bulero, disse para si mesmo, imitando o
interlocutor de minutos antes, isso, senhor, é um assunto
inteiramente diferente.
Realmente, conhecia Lark. Ned Lark era o diretor da
Divisão de Entorpecentes da ONU e o homem responsável
pela apreensão do último carregamento de Can-D. Fora um
estratagema do secretário da ONU trazer Lark para aquela
discussão a respeito de Eldritch. O que a ONU estava
pretendendo era chegar a um qüiproquó. Protelaria, não
tomaria providência alguma contra Eldritch, a menos e até
que ele, Leo Bulero, fizesse alguma coisa para reduzir seus
carregamentos de Can-D. Desconfiava que era isso, mas.
claro, não podia provar coisa alguma. Afinal de contas,
Hepburn-Gilbert, aquele politicozinho escorregadio, não
evoluído, não dissera exatamente isso.
E era isso que uma pessoa conseguia quando se dirigia à
ONU, refletiu Leo. Política afro-asiática. Dirigida, servida e
orientada por estrangeiros. Olhou aborrecido para a tela
vazia.
Enquanto se perguntava o que fazer, a secretária,
senhorita Gleason, chamou de seu lado no
intercomunicador, e disse:
— Senhor Bulero, o senhor Mayerson está na ante-sala e
gostaria de lhe falar por um momento.
Um instante depois, seu especialista em modas do futuro
entrou de cara feia. Em silêncio, Barney Mayerson sentou-se
de frente para ele.
— O que é que o está roendo, Mayerson? — perguntou
Leo. — Fale com franqueza. É para isso que estou aqui, de
modo que pode chorar no meu ombro. Diga o que é e eu
seguro sua mão. — Deu à voz um tom autoritário.
— Minha assistente, a senhorita Fugate...
— Sim, ouvi dizer que você anda dormindo com ela.
— Esse não é o problema.
— Oh, compreendo — disse Leo. — Esse é apenas um
pequeno aspecto secundário.
— Eu apenas quis dizer que estou aqui para falar a
respeito de outro aspecto do comportamento da senhorita
Fugate. Tivemos um grave desentendimento há alguns
minutos. Um vendedor...
— Você recusou alguma coisa e ela discordou. — disse
Leo.
— Isso mesmo.
— Vocês, precogs. — Notável. Talvez houvesse futuros
alternativos. — De modo que você quer que eu dê ordens a
ela para, no futuro, apoiar sempre suas decisões?
— Ela é minha assistente. Isso significa que,
supostamente, deve agir como eu mandar — lembrou
Barney Mayerson.
— Bem... dormir com você não é um belo movimento
nessa direção? — Leo soltou uma gargalhada — Contudo, ela
devia tê-lo apoiado, enquanto o vendedor estava presente.
Em seguida, se tivesse algumas reservas, poderia discuti-las
particularmente, mais tarde, com você.
— Eu nem mesmo aceito isso. — Barney fechou ainda
mais a cara
Agudamente, Leo observou:
— Sabe de uma coisa? Porque faço aquela Terapia E,
tenho um grande lobo frontal. Eu mesmo sou praticamente
um precog, de tão avançado. Foi um vendedor de vasos?
Cerâmicas?
Com evidente relutância, Barney concordou com a
cabeça
— Aqueles vasos são feitos por sua ex-esposa — disse
Leo. As peças de cerâmica dela estavam vendendo bem.
Vira anúncios delas nos jornais, eram vendidas por uma das
galerias de objetos de arte mais importantes de Nova
Orleans, e ali na Costa Leste e em São Francisco. — Elas
terão sucesso, Barney? — Examinou atentamente seu
precog. — A senhorita Fugate tinha razão?
— Elas nunca terão sucesso. Essa é a pura verdade. — O
tom de voz de Barney, porém, era indeciso. O tom errado,
pensou Leo, para o que ele estava dizendo. Sem vitalidade.
— E isso o que eu prevejo — continuou teimosamente
Barney.
— Muito bem. — Leo inclinou a cabeça. — Aceito o que
você está dizendo. Mas se os vasos dela se transformarem
nos sucessos do dia, e não tivermos miniaturas disponíveis
para as representações dos colonos... — Pensou um pouco.
— Você poderia, talvez, descobrir sua companheira de cama
ocupando também sua cadeira — concluiu.
— Levantando-se, Barney perguntou:
— O senhor então dará instruções à senhorita Fugate, a
respeito da posição que ela deve adotar? — Enrubesceu. —
Não foi isso o que eu quis dizer... — murmurou, enquanto
Leo começava a rir.
— Muito bem, Barney. Vou descer a lenha em cima dela
Ela é jovem. Sobreviverá. E você está envelhecendo, precisa
conservar sua dignidade, e não admitir que pessoa alguma
discorde de você. — Levantou-se também e, aproximando-se
de Barney, deu-lhe uma palmadinha nas costas. — Mas,
escute aqui. Deixe de andar remoendo o passado. Esqueça
aquela sua ex-esposa, sim?
— Eu já a esqueci.
— Há sempre outras mulheres — observou Leo, pensando
em Scotty Sinclair, sua amante do momento. Scotty, frágil e
loura, mas imensa de seios, encontrava-se nesse momento
em sua mansão-satélite, a 800 km de altura no apogeu, à
espera de que ele encerrasse o trabalho da semana — Há
uma oferta infinita delas. Não são como aqueles velhos selos
postais dos Estados Unidos ou as peles de trufas que
usamos como dinheiro. — Ocorreu-lhe nesse momento que
poderia facilitar as coisas cedendo a Barney uma de suas
abandonadas — mas ainda funcionais — ex-amantes. — Vou-
lhe dizer o que vamos fazer... — começou, mas Barney
cortou-o imediatamente com um gesto ríspido da mão. —
Não? — perguntou Leo.
— Não. De qualquer modo, estou envolvido até o pescoço
com Roni Fugate. Uma de cada vez é suficiente para um
homem normal. — Barney olhou severamente para o patrão.
— Concordo. Oh, Deus, eu mesmo só posso estar com
uma de cada vez. O que é que você pensa? Que eu tenho
um harém lá em cima? — Irritou-se.
— Na última vez em que estive lá em cima — lembrou
Barney — , na festa de seu aniversário, em janeiro...
— Oh, bem. Festas. Isso é diferente. A gente não conta o
que acontece em festas. — Acompanhou Barney até a porta
do gabinete. — Sabe de uma coisa, Mayerson? Ouvi um
boato a seu respeito, e não estou gostando nada. Alguém
viu você carregando por aí uma dessas extensões de valise
de um computador-psiquiatra de condomínio de
apartamentos... Você recebeu aviso de convocação?
Houve silêncio. Finalmente, Barney concordou com a
cabeça.
— E você não ia nos contar coisa alguma — comentou
Leo. — Nós iríamos descobrir quando? No dia em que
tomasse uma nave para Marte?
— Vou dar um jeito de escapar disso.
— Claro que vai. Todo mundo dá um jeito. Foi assim que a
ONU conseguiu colonizar quatro planetas, seis luas...
— Vou ser reprovado no teste mental — disse Barney. —
Meu dom de precognitivo me diz que eu vou. Está-me
ajudando. Não consigo suportar o número suficiente de
freuds de tensão para satisfazê-los... Olhe para mim. —
Estendeu as mãos. Elas tremiam visivelmente. — Veja só
minha reação à observação inócua da senhorita Fugate.
Veja...
— Tudo bem — acalmou-o Leo, mas continuava
preocupado. De modo geral, os avisos de convocação
concediam apenas um prazo de 90 dias antes da
incorporação e a senhorita Fugate dificilmente estaria apta
para assumir tão cedo assim o cargo de Barney. Claro,
poderia transferir Mac Ronston, de Paris... mas mesmo
Ronston, depois de 15 anos, não era do mesmo calibre de
Barney Mayerson. Tinha a experiência, mas talento não pode
ser armazenado: tem que existir como um dom de Deus.
A ONU está realmente dando nos meus nervos, pensou
Leo. A si mesmo perguntou se o aviso de convocação de
Barney, chegando nesse momento particular, era apenas
uma coincidência ou outra sondagem nos seus pontos
fracos. Se é, concluiu, é bem forte. E não há pressão alguma
que eu possa aplicar sobre a ONU para isentá-lo.
E simplesmente porque forneço a esses colonos a Can-D
que consomem, pensou. Quero dizer, alguém tem que fazer
isso. Eles precisam. De outra maneira, que utilidade tem
para eles Perky Pat Layouts?
E, além do mais, era uma das operações comerciais mais
lucrativas do sistema solar. Havia muito dinheiro envolvido.
E a ONU sabia disso, também.

ÀS 12:30H EM Nova Iorque, Leo Bulero estava almoçando


com uma nova moça que acabava de ser admitida na equipe
de secretárias. Pia Jurgens, sentada à frente dele num
compartimento reservado no "Raposa Púrpura", comia com
precisão, o queixo pequeno e bonito trabalhando de forma
correta. Era uma ruiva e ele gostava de ruivas. Elas eram ou
horrendamente feias ou quase sobrenaturalmente atraentes.
A senhorita Jurgens incluía-se nesta última categoria. Ora, se
ele conseguisse arranjar um pretexto de transferi-la para sua
mansão-satélite... supondo, porém, que Scotty não fosse
contra. E, no momento, isso não parecia lá muito provável.
Scotty tinha vontade própria, o que era sempre perigoso
numa mulher.
Que pena que não pudera passar Scotty para Barney
Mayerson, pensou. Simultaneamente, teria solucionado dois
problemas: tornaria Barney psicologicamente mais seguro, e
ficaria livre para...
Bolas!, pensou, Barney precisa sentir-se inseguro. De
outra maneira, é como se já estivesse em Marte. Fora por
isso que lhe alugara aquela valise falante. Obviamente, eu
não entendo o mundo moderno. Estou vivendo no século XX,
quando os psicanalistas tornavam as pessoas menos
sensíveis ao stress.
— O senhor nunca fala, senhor Bulero? — perguntou a
senhorita Jurgens.
— Não. — Será que eu poderia, pensou, interferir com
sucesso no padrão de comportamento de Barney? Ajudá-lo
a... qual é a palavra?... tornar-se menos viável?
Mas a coisa não era tão fácil como parecia.
Instintivamente, compreendeu isso com seu lobo frontal
ampliado. Não podemos fazer com que pessoas sadias
fiquem doentes, simplesmente lhes dando uma ordem.
Ou será que não?
Pedindo licença, procurou o garçom-robô e pediu que lhe
trouxesse um videofone à mesa.
Momentos depois, entrava em contato com a senhorita
Gleason, no escritório.
— Escute, quero falar com a senhorita Rondinella Fugate,
uma das auxiliares do senhor Mayerson, logo que eu voltar.
E o senhor Mayerson não deve saber disso. Compreendeu?
— Sim, senhor — respondeu a senhorita Gleason,
tomando nota.
— Eu escutei — disse Pia Jurgens quando ele desligou. —
O senhor sabe, eu poderia contar ao senhor Mayerson.
Encontro com ele todos os dias no...
Leo riu. Divertia-o a idéia de Pia Jurgens botando a perder
o florescente futuro que iria ter com ele.
— Ouça aqui — disse, dando uma palmadinha na mão
dela — , não se preocupe. Não é nada dentro do espectro da
natureza humana. Termine seu croquete de rã de
Ganimedes e vamos voltar para o escritório.
— O que eu quis dizer — retrucou a senhorita Jurgens
formalmente — , foi que me pareceu um pouco estranho que
o senhor se mostrasse tão franco na frente de uma pessoa
que mal conhece. — Fitou-o e os seios dela, já
superexpandidos e provocantes, tornaram-se ainda mais as
duas coisas. Expandiram-se de indignação.
— Obviamente, a solução é conhecê-la melhor — disse
avidamente Leo. — Você já mascou Can-D? — perguntou
com indiferença. — Pois devia. A despeito do fato de criar
hábito. É uma verdadeira experiência. — Ele, claro,
mantinha um suprimento da droga, gradação AA, em sua
mansão-satélite. Quando convidados se reuniam; a coisa era
trazida para acrescentar cor ao que poderia se tornar uma
ocasião monótona. — O motivo por que pergunto é que você
parece o tipo de mulher dotada de imaginação ativa e a
reação que a pessoa tem a Can-D depende, varia, com os
poderes imaginativos do tipo criativo da pessoa.
— Eu gostaria de experimentar, algum dia — respondeu a
senhorita Jurgens. Olhou em volta, baixou a voz e inclinou-se
para ele. — Mas é ilegal.
— É...? — Ele a olhou fixamente.
— O senhor sabe que é. — A moça pareceu aborrecida
— Escute aqui — disse Leo — , eu posso lhe arranjar um
pouco. Claro, mascaria a erva com ela. Em comunhão, as
mentes dos usuários fundiam-se, tornavam-se uma nova
entidade — ou pelo menos tal era a experiência Algumas
sessões de consumo de Can-D na intimidade, e saberia tudo
o que houvesse para saber a respeito de Pia Jurgens. Havia
nela alguma coisa — além das óbvias qualidades físicas,
anatômicas — que o fascinava Ansiava por tornar-se mais
íntimo dela.
— Nós não usaremos uma representação.
Por uma ironia da sorte, ele, o criador e fabricante do
micro-mundo de Perky Pat preferia usar Can-D num vácuo. O
que um terráqueo tinha a ganhar com um cenário, na
medida em que era uma miniatura das condições que
prevaleciam numa cidade típica da Terra? Para colonos
numa lua uivante e varrida por tempestades, amontoados no
fundo de um alojamento para se defenderem de cristais
congelados de metano e de outras coisas, a situação era
diferente. Perky Pat e seu cenário eram uma reentrada no
mundo em que haviam nascido. Mas ele, Leo Bulero, estava
muito cansado do mundo em que nascera e onde ainda
vivia. E mesmo na mansão-satélite, com todas as suas
esquisitas e não tão esquisitas diversões, não conseguia
preencher o vazio. Contudo...
— Essa Can-D — disse a senhorita Jurgens — é uma
grande coisa e não surpreende que tenha sido proibida. É
como uma religião. A Can-D é a religião dos colonos. —
Soltou uma risadinha. Um pedaço dela, mascado durante
quinze minutos, e então... — fez um gesto amplo —
desaparece o alojamento miserável. Desaparece o metano.
A coisa fornece uma razão para se viver. Será que não vale o
risco e a despesa?
Mas o que é que existe de igual valor para nós?,
perguntou Leo a si mesmo e sentiu-se triste. Fabricando os
cenários de Perky Pat e cultivando e distribuindo a base de
líquen para o produto final acondicionado de Can-D tornara a
vida suportável para mais de um milhão de expatriados
involuntários da Terra. Ma que diabo conseguia ele em
troca? Minha vida, pensou, é dedicada aos outros, estou
começando a ficar inquieto, não é suficiente. Havia seu
satélite, onde Scotty esperava, havia sempre os complexos
detalhes de suas duas grandes operações comerciais, a legal
e a outra que não era... Mas não haveria na na vida mais do
que isso?
Não sabia. Nem pessoa alguma sabia porque, como
Barney Mayerson, viviam todos ocupados nas várias
imitações que faziam dele. Barney, com sua senhorita
Rondinella Fugate, uma réplica medíocre de Leo Bulero e da
senhorita Jurgens. Para onde quer que olhasse, era a mesma
coisa. Provavelmente, até Ned Lark, o Chefe da Divisão de
Entorpecentes, levava esse tipo de vida... provavelmente até
Hepburn-Gilbert, que provavelmente mantinha alguma alta e
pálida sueca com seios do tamanho de bolas de boliche — e
igualmente firmes. Até mesmo Palmer Eldritch. Não,
compreendeu subitamente. Não Palmer Eldritch. Ele
descobrira alguma coisa diferente. Durante dez anos,
estivera no sistema de Prox, ou pelo menos indo e voltando
de lá. 0 que foi que ele descobriu? Alguma coisa que tivesse
compensado o esforço, compensado a queda final em
Plutão?
— Você leu os jornais? — perguntou ele a senhorita
Jurgens. — A respeito da nave que caiu em Plutão? Aquele é
um homem entre um bilhão, o Eldritch. Não há ninguém
igual a ele.
— Eu li — respondeu a senhorita Jurgens — que ele era
praticamente doido.
— Certo. Dez anos da vida dele, todo aquele sofrimento, e
para quê?
— Pode ter certeza de que ele conseguiu um bom
resultado pelos dez anos — comentou a senhorita Jurgens. —
Ele é doido, mas sabido. Cuida de si mesmo, como todo
mundo. Não é tão doido assim.
— Eu gostaria de conhecê-lo — disse Leo Bulero. — Falar
com ele, mesmo que fosse por um minuto.
Naquele momento, resolveu fazer isso, ir até o hospital
onde Palmer Eldritch estava internado, forçar a entrada no
quarto do homem ou comprá-la, descobrir o que ele
encontrara.
— Eu pensava antigamente — disse a senhorita Jurgens —
que, quando as primeiras naves deixaram nosso sistema a
caminho de outra estrela — lembra-se disso? — nós
ouviríamos dizer... — hesitou. — E uma coisa tão boba, mas
naquela ocasião eu era apenas uma criança, quando
Arnoldson fez sua primeira viagem de ida e volta a Prox. Eu
era uma criança quando ele voltou, quero dizer. Pensei
mesmo que, tendo ido tão longe, ele... — baixou a cabeça,
evitando o olhar de Leo Bulero — ele encontraria Deus.
E eu também pensei, lembrou-se Leo. E já era um adulto
na ocasião. Em meados dos 30. Como disse a Barney várias
vezes.
E ainda acredito nisso, mesmo agora, pensou. A respeito
da viagem de dez anos de Palmer Eldritch.
Depois do almoço, em seu gabinete na P. P. Layouts, viu
Rondinella Fugate pela primeira vez. Ela já estava à sua
espera quando chegou.
Nada feia, pensou, fechando a porta do gabinete. Bom
corpo e olhos lindos, luminosos. Ela parecia nervosa, cruzava
as pernas, alisava a saia, olhava-o de soslaio, enquanto ele
se sentava à escrivaninha de frente para ela. Muito jovem,
notou Leo. Uma criança que levantaria a voz e contestaria
seu superior quando achasse que ele estava errado.
Comovente...
— A senhorita sabe por que está aqui no meu gabinete?
— perguntou.
— Acho que o senhor está zangado porque contestei a
opinião do senhor Mayerson. Mas eu senti, realmente, que
havia futuro nas linhas vitais daquelas peças de cerâmica. O
que mais eu podia fazer? — Levantou-se parcialmente,
implorante, mas depois voltou a sentar-se.
— Eu acredito na senhorita — disse Leo. — Mas o senhor
Mayerson é sensível. Se está vivendo com ele, sabe que ele
tem um psiquiatra portátil, que carrega para toda parte. —
Abrindo a gaveta da escrivaninha, tirou a caixa de Cuesta
Reys, dos melhores. Estendeu a caixa à senhorita Fugate,
que aceitou satisfeita um dos charutos escuros e finos. Ele
também serviu-se de um deles. Acendeu o dela e em
seguida o seu, e recostou-se na cadeira. — Sabe quem é
Palmer Eldritch?
— Sei.
— Você poderia usar seus poderes precognitivos para
outra coisa que não previsão de pré-sucesso? Dentro de um
mês, mais ou menos, todos os jornais estarão informando
rotineiramente o paradeiro de Eldritch. Eu gostaria que você
se antecipasse aos jornais e me dissesse onde ele se
encontra neste momento. — Sei que pode fazer isso, disse a
si mesmo, se quer conservar seu emprego aqui. Esperou,
fumando o charuto, observando a moça e pensando, com
uma ponta de inveja, que se ela fosse tão boa na cama
quanto parecia...
Em voz baixa, hesitante, a senhorita Fugate começou:
— Estou obtendo apenas uma impressão muito vaga,
senhor Bulero.
— Bem, vamos ouvi-la de qualquer maneira. — Estendeu
a mão para uma caneta.
Ela precisou de vários minutos e, como repetiu, sua
impressão não era muito clara. Não obstante, logo depois,
ele tinha no bloco, anotadas, as seguintes palavras: Hospital
de Veteranos James Riddle, Base III, Ganimedes. Um
estabelecimento da ONU, claro. Mas esperara isso. Não era
decisivo. Ele ainda poderia descobrir uma maneira de
penetrar no local.
— E ele não está internado lá com este nome — disse a
senhorita Fugate, pálida e esgotada com o esforço de
previsão. Reacendeu o charuto, que se apagara. Espigada na
cadeira, cruzou mais uma vez as pernas flexíveis. — Os
jornais dirão que Eldritch foi internado no hospital sob o
nome de senhor... — Interrompeu-se, fechou os olhos com
força, e suspirou. — Oh, diabo — disse. — Não posso
descobrir qual é. Uma única sílaba. Frent. Brent. Não, acho
que é Trent. Sim, é isso, Eldon Trent. — Sorriu, aliviada Os
grande olhos faiscaram com prazer ingênuo, infantil. —
Fizeram um grande esforço para mantê-lo escondido. E
estão interrogado-o, é o que os jornais vão dizer. Assim,
obviamente ele está consciente. — De repente, franziu as
sobrancelhas. — Espere. Estou vendo uma manchete. Estou
no meu próprio apartamento de condomínio, sozinha. E de
manhã cedo e estou lendo a primeira página. Oh, meu Deus.
— O que é que está escrito? — perguntou Leo, inclinando-
se rígido para a frente. Podia notar facilmente o desalento
da moça.
— As manchetes dizem que Palmer Eldritch está morto —
murmurou a senhorita Fugate. Pestanejou, olhou em volta
espantada, focalizou lentamente os olhos nele, fitou-o com
uma confusa mistura de medo e incerteza, afastando-se
quase visivelmente, recuando para longe dele, colando-se à
cadeira, os dedos entrelaçados. — E o senhor é acusado de
ter feito isso, senhor Bulero. Honestamente, é isso o que a
manchete diz.
— Você quer dizer que eu vou assassiná-lo? Ela confirmou
com a cabeça
— Mas... não é uma certeza Capto apenas isso em alguns
dos futuros... O senhor compreende? Quero dizer, nós,
precognitivos, vemos... — fez um gesto vago.
— Eu sei. — Ele conhecia bem os precognitivos. Barney
Mayerson, afinal de contas, trabalhava há treze anos para a
P. P. Layouts, e outros por mais tempo ainda. — Poderia
acontecer — disse, rouco. — Por que faria eu uma coisa
dessas?, perguntou a si mesmo. Não havia maneira de saber
nesse instante. Talvez, depois de ter chegado a Eldritch, de
ter conversado com ele... como evidentemente faria
— Acho que o senhor não devia tentar entrar em contato
com o senhor Eldritch, tendo em vista esse possível futuro,
não acha, senhor Bulero? — perguntou a senhorita Fugate.
— Quero dizer, o risco existe... parece muito grande. Mais ou
menos... acho... de cerca de quarenta.
— Quarenta o quê?
— Por cento. Quase metade das possibilidades. — Nesse
momento, mais controlada, puxou a fumaça do charuto, de
frente para ele, os olhos escuros e sérios faiscando enquanto
o fitava, indubitavelmente especulando, com uma
curiosidade imensa, por que ele faria uma coisa dessas.
Levantando-se, ele se dirigiu à porta do gabinete.
— Obrigado, senhorita Fugate. Estou muito grato por sua
ajuda nesse assunto. — Esperou, indicando claramente que
aguardava que ela se retirasse.
A senhorita Fugate, porém, continuou sentada. Ele estava
descobrindo o mesmo traço peculiar de firmeza que
perturbara Barney Mayerson.
— Senhor Bulero — disse ela tranqüilamente — , eu acho
que devia realmente conversar com a polícia da ONU a este
respeito. Nós, precogs...
Ele fechou novamente a porta.
— Vocês, precogs — disse — , vivem preocupados demais
com a vida dos outros.— Mas ela o tinha nas mãos.
Perguntou-se o que ela faria com o conhecimento que
possuía.
— O senhor Mayerson pode ser convocado — continuou a
senhorita Fugate. — O senhor sabia disso, claro. Vai tentar
influenciá-los para que o dispensem?
Honestamente, ele respondeu:
— Eu tinha algumas intenções no sentido de ajudá-lo a
escapar da convocação, sim.
— Senhor Bulero — disse ela em voz baixa, firme — , eu
faço um trato com o senhor. Deixe que o convoquem. Em
seguida, eu serei sua consultora de pré-sucesso de Nova
Iorque. — Esperou. Leo Bulero continuou calado. — O que é
que o senhor diz? — perguntou.
Obviamente, ela não estava acostumada àquele tipo de
negociações. Contudo, tencionava levá-las a cabo, se
possível. Afinal de contas, refletiu ele, todo mundo, mesmo o
profissional mais hábil, tem que começar de algum lugar.
Talvez ele estivesse presenciando a fase inicial do que seria
uma carreira brilhante.
Mas, nesse momento, lembrou-se de uma coisa.
Lembrou-se do motivo por que ela fora transferida do
escritório de Pequim para Nova Iorque, a fim de tornar-se
assistente de Barney Mayerson. As previsões dela haviam-se
mostrado irregulares. Algumas delas — um número
excessivo delas, na verdade — tinham sido errôneas.
Talvez a precognição dela da manchete do jornal,
anunciando que ele fora acusado como suposto assassino de
Palmer Eldritch — na presunção de que ela estivesse sendo
honesta, que houvesse realmente experimentado aquilo —
fosse mais um de seus erros, a precognição defeituosa que a
trouxera para ali. Em voz alta, respondeu:
— Vou pensar a respeito. Dê-me uns dois dias.
— Até amanhã de manhã — retrucou firme a senhorita
Fugate. Leo soltou uma risada.
— Agora compreendo por que Barney ficou tão irritado. —
Barney provavelmente sentira, com sua própria faculdade de
precog, pelo menos nebulosamente, que a senhorita Fugate
ia tentar um golpe decisivo contra ele, colocar em risco toda
sua situação. — Escute aqui — aproximou-se dela — , você é
amante de Mayerson. Que tal desistir disso? Posso oferecer-
lhe o uso de todo um satélite. — Supondo, claro, que
pudesse tirar Scotty de lá.
— Não, obrigada — respondeu a senhorita Fugate.
— Por quê? — Ele estava espantado. — Sua carreira...
— Eu gosto do senhor Mayerson — disse ela. — E não
gosto especialmente de cabeças de bo... — controlou-se.
— ... de homens que evoluíram naquelas clínicas.
Mais uma vez, ele abriu a porta.
— Eu lhe darei uma resposta amanhã de manhã.
Enquanto a observava passar pela porta e entrar na sala
da recepcionista, pensou: Isso me dará tempo para chegar a
Ganimedes e a Palmer Eldritch. Nessa ocasião, saberei mais
a respeito da situação. Saberei se a previsão dela é falsa ou
não.
Fechando a porta às costas da moça, voltou novamente à
escrivaninha e apertou o botão do videofone que o ligava
com o exterior. A telefonista da cidade de Nova Iorque,
disse:
— Ligue-me com o Hospital de Veteranos James Riddle,
na Base III, em Ganimedes. Quero falar com o senhor Eldon
Trent, um paciente que se encontra internado lá. Uma
conversa pessoal. — Deu nome e número, desligou, e discou
para o Espaçoporto Kennedy.
Reservou passagem na nave expressa que partia de Nova
Iorque para Ganimedes naquela noite. Em seguida, andou de
um lado para o outro no gabinete, esperando a chamada do
Hospital.
Cabeça de bolha, pensou. Ela chegou a chamar até disso
seu empregador.
Dez minutos depois, recebeu a resposta.
— Sinto muito, senhor Bulero — desculpou-se a
telefonista. — O senhor Trent não pode atender, por ordens
médicas.
Então, Rondinella Fugate acertara. Havia, de fato, um
Eldon Trent no James Riddle e, com toda probabilidade, era
Palmer Eldritch. Certamente que valeria a pena fazer a
viagem. As probabilidades pareciam boas.
Pareciam boas, pensou ironicamente, de encontrar
Eldritch, ter uma altercação com ele, só Deus sabe sobre o
quê, e acabar por matá-lo. Um homem que, neste momento
do tempo, eu nem conheço. E se for acusado, não vou
conseguir me safar. Que perspectiva!
Mas a curiosidade fora despertada. Em todas as suas
múltiplas atividades, nunca sentira necessidade de matar
pessoa alguma, em nenhuma circunstância. O que quer que
fosse ocorrer entre ele e Palmer Eldritch tinha que ser
excepcional. Definitivamente, uma viagem a Ganimedes era
a coisa indicada a fazer.
Seria difícil recuar nesse instante. Porque sentia a aguda
intuição de que essa situação seria aquilo que esperava. E
Rondinella Fugate dissera apenas que ele seria acusado do
assassinato. Não havia dado algum a respeito de uma
condenação.
Condenar um homem de sua estatura por um crime
capital, mesmo através das autoridades da ONU, ia requerer
muito trabalho.
Estava resolvido a deixar que elas tentassem.
T RÊS

NUM bar perto da P.P. Layouts, Richard Hnatt sentou-se,


bebericando um Tequila Sour, com o mostruário na mesa à
sua frente. Sabia muito bem que não havia nada de errado
com os vasos de Emily. O trabalho dela era vendável. O
problema era o ex-marido dela e a posição de poder que ele
ocupava.
E Barney Mayerson exercera esse poder.
Tenho que ligar para Emily e contar a ela, pensou. Ia
levantar-se.
Um homem bloqueou-lhe o caminho, um espécime
redondo, peculiar, equilibrado sobre pernas esqueléticas.
— Quem é o senhor? — perguntou Hnatt.
O homem oscilou como um boneco à sua frente, enfiando
ao mesmo tempo a mão no bolso, como se cocasse um
microrganismo bem conhecido, possuidor de inclinações
parasíticas, que havia sobrevivido ao teste do tempo. Mas o
que ele exibiu finalmente, foi um cartão comercial.
— Nós estamos interessados em seus exemplares de
cerâmica, senhor Hatt, Natt, como quer que o senhor
pronuncie seu nome.
— Icholtz — disse Hnatt, lendo o cartão. O cartão dava o
nome, nenhuma outra informação, nem mesmo um número
de videofone. — O que tenho aqui são apenas amostras. Mas
posso lhe dar o nome de varejistas que vendem nossa linha
de produtos. Estas, porém...
— São para miniaturização — disse o homem que parecia
um brinquedo, o senhor Icholtz, inclinando a cabeça. — E é
isso mesmo o que nós queremos. Tencionamos miniaturizar
suas cerâmicas, senhor Hnatt. Achamos que Mayerson está
errado... que elas se tornarão um grande sucesso, e logo.
Hnatt olhou-o fixamente.
— O senhor quer miniaturizar e não é da P.P. Layouts?
Nenhuma outra firma, porém, miniaturizava. Todo mundo
sabia que a P.P. Layouts tinha um monopólio.
Sentando-se à mesa ao lado do mostruário, o senhor
Icholtz tirou a carteira do bolso e começou a contar peles.
— No começo, será muito pouca a publicidade a este
respeito. Mas no fim... — Estendeu a Hnatt a pilha de peles
pardas, enrugadas, de trufa, que serviam como moeda de
curso legal no sistema solar: a única molécula, um
excepcional aminoácido proteínico, que não podia ser
duplicada pelos impressores, as formas de vida Biltong,
usadas em lugar de linhas de montagem automatizadas, por
numerosas indústrias da Terra.
— Vou ter que consultar minha esposa — disse Hnatt.
— O senhor não é o representante de sua firma?
— S-sou. — Aceitou a pilha de peles.
— O contrato. — Icholtz exibiu um documento, alisou-o
sobre a mesa e ofereceu uma caneta. O contrato nos dá
exclusividade.
Inclinando-se para assinar, Richard Hnatt leu no contrato
o nome da firma de Icholtz. Indústrias Mascar-Z, de Boston.
Nunca ouvira falar na firma. Mascar-Z... o nome lembrava-
lhe outro produto, exatamente qual não conseguia lembrar-
se no momento. Só depois de ter assinado, e quando Icholtz
destacava sua cópia do documento, é que se lembrou.
A droga alucinógena Can-D, usada nas colônias
conjuntamente com Layouts de Perky Pat.
Teve uma intuição, agravada por profunda inquietação.
Mas era tarde demais para recuar. Icholtz já estava nesse
momento apanhando o mostruário. O conteúdo dele
pertencia agora à Mascar-Z, de Boston, Estados Unidos da
América, Terra.
— Como... como é que eu posso entrar em contato com o
senhor? — perguntou Hnatt no momento em que Icholtz ia
deixar a mesa.
— O senhor não entrará em contato conosco. Se
precisarmos do senhor, nós lhe telefonaremos. — Icholtz
sorriu por um instante.
Como diabo ia explicar a Emily? Hnatt contou as peles,
leu o contrato, e foi se conscientizando gradativamente da
soma que Icholtz lhe pagara. O suficiente para proporcionar
a ele e.a Emily umas férias de cinco dias na Antártida, numa
das grandes e frias estações de veraneio, freqüentada pelos
ricos da Terra, onde, sem dúvida alguma, Leo Bulero e
outros como ele passavam o verão... e estes dias de verão
duravam o ano inteiro.
Ou... pensou, poderia fazer ainda mais do que isso. Ele e
a esposa poderiam ser admitidos num dos estabelecimentos
mais exclusivos da terra.... supondo que ele e Emily
quisessem isso. Poderiam voar para as Alemanhas e se
internarem numa das clínicas de Terapia E, do doutor Willy
Denkmal. Ótimo, pensou.
Fechou-se na cabine de videofone do bar e ligou para
Emily.
— Faça as malas. Nós vamos para Munique. Vamos ... —
escolheu o nome da clínica ao acaso. Vira o nome de uma
delas anunciado em revistas exclusivas de Paris. — A
Eichenwald — disse à esposa. — O doutor Denkmal é...
— Barney aceitou-as — disse Emily.
— Não. Mas há outra firma no campo da miniaturização,
além da P.P. Layouts. — Sentia-se feliz. — Bem, Barney não
nos quis. E daí? Fizemos negócio melhor com essa nova
empresa. Ela deve ter dinheiro pra valer. Chego aí dentro de
meia hora. Vou fazer reservas no vôo expresso da TWA.
Pense só nisso: Terapia E para nós dois.
Em voz baixa, Emily respondeu:
— Pensando bem, não tenho certeza de que quero
evoluir. Desapontado, ele insistiu:
— Claro que você quer. Quero dizer, isso poderia salvar
nossas vidas, e se não as nossas, então as de nossos filhos...
nossos filhos potenciais, que poderemos ter algum dia. E
mesmo que a gente passe pouco tempo lá e evolua apenas
um pouco, lembre-se das portas que se abrirão para nós.
Seremos personae gratae em toda parte. Pessoalmente,
você conhece alguém que se tenha submetido à Terapia E?
O tempo todo a gente lê sobre fulano e beltrano nos jornais,
gente de sociedade... mas...
— Não quero aqueles cabelos todos em cima de mim —
retrucou Emily. — E não quero que minha cabeça seja
expandida. Não, não vou à Clínica Eichenwald. — Parecia
inteiramente resolvida, conservando plácido o rosto.
— Nesse caso, eu irei sozinho.
A decisão ainda teria valor econômico. Afinal de contas,
era ele quem tratava com os compradores. E poderia
permanecer na clínica por tempo duas vezes maior, evoluir
duas vezes mais... supondo que o tratamento pegasse.
Algumas pessoas não reagiam, mas isso dificilmente era
culpa do doutor Denkamalt: a capacidade de evoluir não era
distribuída igualmente entre as pessoas. A seu próprio
respeito, tinha certeza: evoluiria notavelmente, se
emparelharia com os tipos importantes, ultrapassaria
mesmo alguns deles em termos da conhecida aparência que
Emily, por preconceito equivocado, chamara de "cabelo".
— O que eu vou fazer enquanto você estiver fora?
Simplesmente fazer vasos?
— Exatamente.
Isso porque as encomendas viriam logo, e numerosas. Se
não fosse assim, as Indústrias Mascar-Z, de Boston, não
teriam demonstrado interesse em miniaturizar o produto.
Evidentemente, a firma empregava seus próprios precogs de
pré-sucesso, como a P.P. Layouts. Mas, nessa ocasião,
lembrou-se. Icholtz falara em muito pouca publicidade, no
começo. Isso significava, compreendeu, que a nova firma
não dispunha de uma rede de disc jockeys circulando em
órbita em torno das luas e planetas-colônias. Ao contrário da
P.P. Layouts, ela não tinha Allen e Charlotte Faine para
divulgar notícias nesses lugares.
Mas era preciso tempo para estabelecer uma rede de
satélites de disc jockeys. Era uma coisa natural.
Ainda assim, o negócio deixava-o inquieto. De repente
pensou, em pânico: poderia ela ser uma empresa ilegal?
Talvez a Mascar-Z, como a Can-D, seja proibida. Talvez eu
tenha nos metido em alguma coisa perigosa.
— Mascar-Z — disse ele em voz alta a Emily. — Já ouviu
falar nisso?
— Não.
Pegou o contrato e examinou-o mais uma vez. Que
confusão, pensou. Como foi que eu me meti nisto? Se
apenas aquele maldito Mayerson tivesse aceitado os vasos...

ÀS 10H DA MANHÃ, a buzina apavorante, muito


conhecida, arrancou. Sam Regan do sono, e ele amaldiçoou
a nave da ONU que se encontrava lá em cima. Sabia que a
barulheira era deliberada. A nave, circulando acima do
alojamento, queria ter certeza de que os colonos — e não
apenas os animais nativos — pegariam os pacotes que
seriam lançados.
Nós os pegaremos, murmurou Sam Regan para si
mesmo, subindo o fecho éclair do macacão de material
isolante. Calçou as botas de cano alto e, mal-humorado,
dirigiu-se com tanta lentidão quanto possível para a rampa.
— A nave apareceu cedo hoje — queixou-se Tod Morris.—
E aposto que só chegaram produtos comuns, açúcar,
alimentos básicos, como gordura... nada de interessante
como, digamos, doces.
Encostando os ombros na tampa, no alto da rampa,
Norman Schein empurrou. A fria e ofuscante luz do sol caiu
sobre eles, que pestanejaram.
A nave da ONU faiscou no alto, contra o céu preto, como
se pendurada de um fio balouçante. Bom piloto neste
lançamento, concluiu Tod. Conhece a área de Fineburg
Crescent. Acenou para a nave da ONU e, mais uma vez, a
imensa buzina estrugiu, fazendo-o tapar os ouvidos com as
mãos.
Um projétil soltou-se da parte inferior da nave, abriu os
estabilizadores e desceu em espiral para o chão.
— Merda — disse irritado Sam Regan. — São gêneros de
primeira necessidade. Não têm pára-quedas. — Afastou-se,
desinteressado.
Como as coisas pareciam horríveis ali em cima naquele
dia, pensou, estendendo a vista pela paisagem de Marte.
Desolada. Por que viera para ali? Fora obrigado, fora forçado
a vir.
O projétil da ONU já aterrara, o casco aberto, rompido
pelo impacto. Os três colonos viram os recipientes. Pareciam
ser uns 225 kg de sal. Sam Regan começou a sentir-se ainda
mais abatido.
— Ei — disse Schein, dirigindo-se para o projétil e olhando
para dentro. — Acho que estou vendo alguma coisa que
podemos usar.
— Parece que são rádios o que há nessas caixas —
sugeriu Tod. — Rádios transistores. — Pensativo, seguiu
Schein. — Talvez a gente possa usá-los para alguma coisa
nova em nossos cenários.
— O meu já tem rádio — disse Schein.
— Bem, com as partes a gente pode construir um
cortador de grama eletrônico auto-regulável — especulou
Tod. — Você não tem isso, tem?
Conhecia muito bem o cenário de Perky Pat dos Scheins.
Os dois casais, ele e a esposa, juntamente com Schein e a
dele, haviam-se fundido bastante, tornando-se compatíveis.
— Esqueçam os rádios, porque eu posso usá-los.
O cenário dele carecia do abridor automático de
garagem, que Schein e Tod possuíam. Estava muito
atrasado, em comparação. Claro, todos aqueles exemplares
podiam ser comprados. Mas estava sem peles. Usara todo
seu suprimento para atender a uma necessidade que
considerava mais urgente. Comprara a um traficante de
droga uma quantidade bem grande de Can-D. Estava
enterrada, longe das vistas, embaixo de seu compartimento,
no andar mais baixo do alojamento coletivo.
Pessoalmente, era um crente, confirmava o milagre do
traslado — o momento quase sagrado em que os artefatos
em miniatura do cenário não mais representavam
simplesmente a Terra, mas tornavam-se a Terra. E ele e os
outros, juntos na fusão da casa de boneca, graças a Can-D,
eram transportados para fora do tempo e do espaço local.
Muitos colonos ainda eram incrédulos: para eles, os cenários
eram meramente símbolos de um mundo que nenhum deles
poderia mais experimentar. Mas, um após outro, os
incrédulos eram convencidos.
Mesmo naquele momento, tão cedo assim pela manhã,
ansiava por voltar lá para baixo, mastigar uma fatia de Can-
D, tirada de seu depósito secreto, e reunir-se aos
companheiros no mais solene momento de que eram
capazes.
Voltando-se para Tod e Norm Schein, perguntou:
— Algum de vocês gostaria de fazer uma viagem? — Essa
era a palavra técnica que usavam, significando participação.
— Eu vou descer — continuou. — Podemos usar minha Can-
D. Eu divido com vocês.
Um convite como aquele não podia ser ignorado. Tod e
Norm pareceram sentir-se tentados.
— Tão cedo assim? — disse Norm Schein. — Nós
acabamos de sair da cama. Mas, de qualquer modo, acho
que não há nada mais a fazer..— Sombriamente, deu um
pontapé numa enorme escavadeira semi-automática. O
implemento estava estacionado há dias perto da entrada do
alojamento. Ninguém sentira energia suficiente para subir
até a superfície e reiniciar as operações de limpeza do
terreno, iniciadas no começo do mês. — Mas parece uma
coisa errada — murmurou. — A gente devia estar aqui em
cima, trabalhando nas hortas.
— E que horta a que você tem! — disse Sam Regan com
um grande sorriso. — Que troço é esse que você está
cultivando ali? A coisa tem nome?
Norman Schein, com as mãos nos bolsos do macacão, foi
andando pelo solo arenoso e frouxo, de escassa vegetação,
até sua horta, outrora cuidadosamente tratada. Parou para
olhar acima e abaixo dos leirões, na esperança de que
houvessem brotado mais algumas das sementes
especialmente preparadas. Nenhuma brotara.
— Acelga suíça — disse encorajador Tod. — Certo?
Embora transformada, ainda reconheço as folhas.
Arrancando uma folha, Norm mastigou-a e, em seguida,
cuspiu-a. A folha era amarga e estava coberta de areia.
Nesse momento, Helen Morris saiu do alojamento,
tremendo sob o frio sol marciano.
— Nós temos um problema — disse ela aos três homens.
— Eu disse que os psicanalistas lá na Terra estão cobrando
50 dólares por hora e Fran diz que é por apenas 45 minutos.
— E explicou: — Nós queremos incluir um analista em nosso
cenário, e queremos a coisa certa, porque é uma amostra
autêntica, feita na Terra e enviada para cá, caso vocês se
lembrem daquela nave de Bulero que apareceu por aqui na
semana passada...
— Nós nos lembramos — disse azedo Norm Schein. — E
dos preços pedidos pelo vendedor de Bulero. E durante todo
o tempo, lá no satélite, Allen e Charlotte Faine promoviam as
diferentes amostras, aguçando o apetite de todo mundo.
— Pergunte aos Faines — disse Tod, marido de Helen. —
Entre em comunicação pelo rádio com eles na próxima vez
em que o satélite passar lá por cima. — Lançou um olhar ao
relógio de pulso. — Dentro de mais uma hora. Eles dispõem
de todos os dados sobre as amostras autênticas. Na
verdade, esse dado particular devia ter sido incluído com a
própria amostra, dentro da caixa de papelão.
O caso perturbava-o porque, claro, fora seu dinheiro — o
dele e o de Helen, juntos — que havia custeado a pequenina
estatueta do psicanalista, incluindo o sofá, a escrivaninha, o
tapete e uma estante de tratados médicos, impressionantes,
incrivelmente bem miniaturizados.
— Quando ainda estava na Terra, você se tratava com um
analista — disse Helen a Norm Schein. — Qual era o preço
da sessão?
— Bem, eu fazia principalmente terapia de grupo —
explicou Norm. — Na Clínica de Higiene Mental da Berkeley
State, e eles cobravam de acordo com a capacidade de
pagar de cada um. E, claro, Perky Pat e seu namorado
tratam-se com analista particular. — Começou a percorrer
todo o comprimento da horta, que lhe fora solenemente
entregue, com escritura e tudo, por entre os leirões de
folhas denteadas, todas até certo ponto esfiapadas e
devoradas por pragas nativas microscópicas. Se pudesse
encontrar uma única planta sadia, que não houvesse sido
tocada, isso seria suficiente para lhe restabelecer o bom
humor. Inseticidas trazidos da Terra simplesmente não
haviam funcionado ali. As pragas nativas floresceram com
eles. Haviam estado à espera, por dezenas de milhares de
anos, marcando o tempo, até que alguém aparecesse e
tentasse iniciar culturas de alguma coisa.
— É melhor você aguar um pouco as plantas — sugeriu
Tod.
— Isso mesmo — concordou Norm Schein: Sombriamente,
dirigiu-se, fazendo voltas, para o sistema de bombeamento
de água do alojamento. O sistema era ligado à rede de
irrigação, nesse momento parcialmente tomada pela areia,
que servia a todas as hortas do alojamento coletivo. Mas,
antes de aguar, compreendeu, era preciso retirar a areia. Se
não pusessem logo em funcionamento a grande
escavadeira, antes de muito tempo não poderiam mais
molhar as plantas, mesmo que quisessem. Mas ele não
queria particularmente fazer isso.
Mas, ainda assim, não podia, como Sam Regan,
simplesmente voltar as costas para a cena ali em cima,
voltar ao subsolo para brincar com seu cenário, construir ou
inserir novos elementos, fazer melhoramentos... ou, como
sugerira Sam, pegar uma boa quantidade da Can-D
cuidadosamente escondida e iniciar a comunicação. Nós
temos responsabilidades, compreendeu.
Disse a Helen:
— Peça à minha mulher para vir até aqui em cima. — Ela
poderia orientá-lo, enquanto ele operava a escavadeira. Fran
tinha boa vista.
— Vou chamá-la — disse Sam Regan, iniciando a volta ao
subsolo. — Ninguém quer vir comigo?
Ninguém o seguiu. Naquele momento, Tod e Helen Morris
haviam se afastado para ir inspecionar a própria horta. Norm
Schein estava ocupado, tirando o envoltório protetor da
escavadeira, preparando-a para o início da operação.
Lá embaixo, Sam Regan começou a procurar Fran Schein.
Encontrou-a ajoelhada diante do cenário de Perky Pat, que
os Morrises e os Scheins mantinham juntos, muito atenta ao
que estava fazendo.
Sem levantar a vista, Fran disse:
— Levamos Perky Pat por todo o centro da cidade, no seu
novo conversível Ford de capota rígida, ela estacionou, pôs
uma moeda no medidor, fez compras e nesse momento está
no consultório do analista, lendo a Fortune. Mas quanto é
que ela paga?
Ela ergueu a vista, alisou para trás os longos cabelos
pretos e sorriu para ele. Além de qualquer dúvida, Fran era a
pessoa mais bonita e mais espetacular do alojamento. Ele
notou o fato nesse momento, que não era de modo algum a
primeira vez.
— Como é que você pode brincar com esse cenário e não
mastigar... — Olhou em volta. Os dois pareciam estar
sozinhos. Inclinando-se, ele disse baixinho: — Vamos comigo
e mascaremos um pouco de Can-D, de primeira. Como você
e eu fizemos antes. Certo?
O coração lhe bateu forte, enquanto esperava pela
resposta dela. Recordações da última vez em que os dois
haviam feito o traslado juntos fizeram-no sentir-se fraco.
— Helen Morris vai...
— Não, estão preparando a escavadeira, lá em cima. Não
voltarão antes de uma hora. — Segurou a mão de Fran e
ergueu-a do chão. — O que chega em papel de embrulho
pardo comum — disse ele, tirando-a do compartimento e
entrando no corredor — deve ser usado, e não apenas
enterrado. Fica velho e passado. Perde a potência.
E nós pagamos muito pela potência, pensou
morbidamente. Demais, para deixar que o material se
estrague. Embora algumas pessoas — não naquele
alojamento — alegassem que o poder de assegurar o
traslado não provinha da Can-D, mas da exatidão do cenário.
Na sua opinião, essa era uma idéia absurda, mas ainda
assim havia quem acreditasse nela.
No momento em que entravam apressadamente no
compartimento dele, Fran disse:
— Eu mascarei junto com você, Sam, mas não vamos
fazer coisa alguma enquanto estivermos lá na Terra que...
você sabe, nós não faríamos aqui. Quero dizer,
simplesmente porque somos Pat e Walt, e não nós mesmos,
isso não nos dá permissão... — Lançou-lhe uma carranca de
aviso, censurando-o pela conduta anterior e por tê-la levado
àquilo que ainda não fora pedido.
— Neste caso, você reconhece que vamos realmente à
Terra.
Haviam discutido esse ponto — era fundamental —
muitas vezes no passado. Fran tendia a assumir a atitude de
que o traslado era apenas na aparência, naquilo que os
colonos chamavam de acidentes — meras manifestações
externas dos lugares e objetos envolvidos, não a essência.
— Eu acho — disse Fran lentamente, enquanto soltava os
dedos dos dele e se colocava ao lado da porta do
compartimento que dava para o corredor — que se é ou não
um jogo de imaginação, uma alucinação induzida pela
droga, ou um transporte real de Marte para a Terra, como se
por intermédio de uma agência da qual nada sabemos... —
Mais uma vez, fitou-o severamente. — Acho que devemos
nos abster, a fim de não contaminar a experiência de
comunicação. — Enquanto observava-o remover
cuidadosamente a cama de metal da parede e estender o
braço, com um gancho alongado na mão, para a cavidade
que apareceu, continuou: — Deve ser uma experiência
purificadora. Perdemos nossos corpos de carne, nossa
corporalidade, como eles dizem. E, em vez disso, assumimos
corpos imperecíveis, pelo menos durante algum tempo. Ou
para sempre, se você acredita, como algumas pessoas, que
isso ocorre fora do tempo e do espaço, que é eterno. Você
não concorda, Sam? — Suspirou. — Sei que não concorda.
— Espiritualidade — disse ele com desprezo, puxando o
pacote de Can-D da cavidade embaixo do compartimento. —
Uma negação da realidade e, em troca, o que é que a gente
consegue? Nada.
— Reconheço — disse Fran, aproximando-se mais para
vê-lo abrir o pacote — que não posso provar que a gente
consegue alguma coisa em troca, em virtude de abstenção.
Mas sei o seguinte: o que você e outros sensuais entre nós
não compreendem é que, quando mascamos Can-D e
deixamos nossos corpos, nós morremos. E, morrendo,
perdemos o peso do... — Ela hesitou.
— Diga — insistiu Sam, abrindo o pacote. Com uma faca,
cortou uma fatia da massa de fibras pardas, duras, que
pareciam de vegetal.
Fran disse:
— Pecado.
Sam Regan soltou uma sonora gargalhada.
— Muito bem... Pelo menos, você é ortodoxa. — Isto
porque a maioria dos colonos concordaria com Fran. — Mas
— continuou ele, recolocando o pacote no esconderijo —
esse não é o motivo por que eu masco a coisa. Eu não quero
perder nada... Quero ganhar algo... — Fechou a porta do
compartimento, rapidamente tirou seu próprio cenário de
Perky Pat, estendeu-o no chão e colocou cada objeto em seu
lugar, trabalhando com ansiosa rapidez. — Algo a que
normalmente não temos direito — acrescentou, como se
Fran não soubesse.
O marido dela — ou a esposa dele, ou os dois, ou
qualquer pessoa do alojamento — poderia aparecer
enquanto ele e Fran estivessem em estado de traslado. E os
corpos de ambos estariam sentados a distância correta um
do outro, nenhuma transgressão poderia ser observada, por
mais pudicos fossem os observadores. Legalmente, houvera
uma decisão judicial a esse respeito: nenhuma coabitação
podia ser provada. Especialistas jurídicos, entre as
autoridades da ONU em Marte e em outras colônias, haviam
tentado — e fracassado. No traslado, a pessoa podia
cometer incesto, assassinato, qualquer crime, que este
permanecia, do ponto de vista jurídico, uma mera fantasia,
apenas um desejo irrealizado.
Esse fato altamente interessante havia-o viciado há muito
tempo no uso do Can-D. Para ele, a vida em Marte tinha
poucas compensações.
— Eu acho — disse Fran — que você está me tentando a
pecar.
Sentando-se, ela pareceu triste, os olhos grandes e pretos
fixados perdidamente num ponto no centro do cenário, perto
do imenso guarda-roupa de Perky Pat. Distraidamente,
começou a brincar com um casaco miniaturizado de
arminho, calada.
Ele lhe entregou meia fatia de Can-D, enfiou seu pedaço
na boca e começou a mastigar avidamente.
Parecendo ainda triste, Fran também mastigou.
Ele era Walt. Possuía uma nave esporte Jaguar XXB,
capaz de uma velocidade de cruzeiro de 25 mil quilômetros
por hora. Suas camisas vinham da Itália e seus sapatos eram
feitos na Inglaterra. Abrindo os olhos, procurou o pequeno
conjunto relógio-aparelho de televisão G.E., ao lado da
cama. Estaria ligado no automático, sintonizado para o
programa matutino do grande palhaço do noticiário, Jim
Briskin. Usando flamejante peruca vermelha, Briskin já
estava aparecendo na tela. Walt sentou-se, tocou um botão,
que girou a cama e alterou sua forma para colocá-lo
sentado. Recostou-se para assistir, durante um momento, o
programa em andamento.
— Estou aqui na esquina da Van Ness e Market, no centro
de São Francisco — disse Briskin em voz bem modulada — e
estamos prestes a assistir à inauguração de um novo e
interessante condomínio de apartamentos no subsolo, o Sir
Francis Drake, o primeiro a ser inteiramente subterrâneo.
Conosco, aqui, para inaugurar o edifício, à minha direita,
encontra-se a encantadora cantora de baladas e...
Walt desligou a tevê, levantou-se e foi descalço até a
janela. Afastou as cortinas e estendeu a vista para a quente
e faiscante rua de São Francisco no começo da manhã, para
os morros e casas brancas. Era uma manhã de sábado e não
tinha que ir para seu emprego, na Ampex Corporation, em
Paio Alto. Em vez disso — e o pensamento vibrou agradável
em sua mente — tinha um encontro com a namorada, Pat
Christensen, no pequeno e moderno apartamento dela na
Potrero Hill.
Era sempre sábado.
No banheiro, lavou o rosto com água, espremeu o creme
e começou a barbear-se. Enquanto se barbeava, olhando
para as feições conhecidas no espelho, viu uma nota presa
na moldura, com sua própria caligrafia.

Isto é uma ilusão. Você é Sam Regan , um colono em


Marte.
Aproveite seu tempo de traslado, meu chapa, telefone
logo para Pat, já!

E a nota era assinada por Sam Regan.


Uma ilusão, pensou, parando de barbear-se. De que
maneira? Tentou recordar-se. Sam Regan e Marte, um
pequeno alojamento de colonos... Sim, obscuramente podia
evocar a imagem, mas ela lhe parecia remota, distorcida,
nada convincente. Encolhendo os ombros, voltou a barbear-
se, perplexo nesse instante, e um pouco deprimido. Muito
bem, suponhamos que a nota fosse correta. Talvez ele se
lembrasse realmente daquele outro mundo, da sombria
quase-vida de expatriação involuntária, num ambiente
antinatural. E daí? Por que teria que arruinar a situação
presente? Estendendo o braço, puxou a nota, amassou-a e
lançou-a na calha de lixo do banheiro.
Logo que terminou de barbear-se, videofonou para Pat.
— Ouça aqui — disse ela imediatamente, fria e seca. Na
tela, seus cabelos louros brilhavam. Ela os estava secando.
— Não quero vê-lo, Walt. Por favor. Porque, agora, sei o que
você tem em mente e simplesmente não estou interessada,
compreendeu? — Seus olhos azuis-cinza eram frios.
— Hummm — respondeu ele, abalado, tentando pensar
numa resposta. — Mas está fazendo um dia maravilhoso... A
gente devia sair. Visitar o Parque do Golden Gate, talvez.
— Vai fazer calor demais para sair.
— Não — discordou ele, irritado. — Isso vai ser mais
tarde. Ei, a gente podia passear pela praia, brincar com as
ondas.
Ela hesitou, visivelmente.
— Mas aquela conversa que nós tivemos, imediatamente
antes...
— Não houve conversa. Eu não a vejo há uma semana.
Hummm — respondeu ele — desde o último sábado. — Deu
à voz um tom quanto possível firme e bastante convicto. —
Passo por aí dentro de meia hora e pego você. Vá com
aquele seu maio, você sabe, o amarelo. O espanhol, com
sutiã.
— Oh — retrucou ela desdenhosa — aquilo está
inteiramente fora de moda agora. Eu tenho um novo, da
Suécia. Você não o viu ainda. Vou usá-lo, se for permitido. A
moça da A & F não tinha certeza.
— Combinado, então — disse ele, e desligou.
Meia hora depois, dirigindo o Jaguar, aterrou no campo
elevado do condomínio de apartamentos dela.
Pat estava com um suéter e calças compridas. O maio,
explicou, estava por baixo. Carregando uma cesta de
piquenique, seguiu-o rampa acima até a aeronave
estacionada. Cheia de vivacidade e bonita, ela tomou logo a
frente, martelando com as sandálias no chão. Estava tudo
correndo como ele esperara. Afinal de contas, aquele ia ser
um bom dia, depois de desfeitas as apreensões iniciais...
como, graças a Deus, havia acontecido.
— Espere só até que você veja este maio — disse ela,
escorregando para dentro da aeronave estacionada, com a
cesta no colo. — E um modelo realmente ousado. É um
quase nada. Na verdade, é necessário que se suponha a sua
existência — Quando se sentou a seu lado, inclinou-se para
ele. — Estive pensando naquela conversa que tivemos...
Deixe que eu termine. — Pôs os dedos nos lábios dele,
calando-o. — Eu sei que houve essa conversa, Walt. Mas, de
certa maneira, você tem razão. Na verdade, basicamente,
sua atitude é a correta. Devemos tentar obter isto o máximo
que pudermos. Nossa vida já é curta demais... pelo menos é
o que me parece. — Sorriu languidamente. — Por isto dirija
com toda rapidez possível. Quero chegar ao oceano.
Quase imediatamente estavam aterrando no pátio de
estacionamento à beira da praia.
— Vai ficar cada vez mais quente — disse Pat com tristeza
— Cada dia mais, não é? Até que, finalmente, se torne
insuportável. — Tirou o suéter e em seguida, remexendo-se
no assento da nave, conseguiu sair de dentro das calças
compridas. — Mas nós não vamos viver tanto tempo assim...
Daqui a cinqüenta anos ninguém poderá mais sair à rua ao
meio-dia. Como dizem por aí, a rua poderá servir para cães
danados e para ingleses, mas não chegamos ainda a isso.
Abriu a porta e saiu, com o "maio". Ela dissera a verdade.
Era preciso fé em coisas invisíveis para ver "naquilo" algum
trajo. Mas, para os dois, era inteiramente satisfatório.
Juntos caminharam devagar pela areia úmida, compacta,
examinando as águas-vivas, conchas e seixos, os destroços
atirados pelas ondas.
— Em que ano estamos? — perguntou de repente Pat,
parando. O vento lançava para trás seus cabelos soltos,
erguia-os em massa, dando a aparência de uma nuvem
amarela, clara, brilhante, muito limpa, distinguindo-se fio
por fio.
— Bem, acho que é... — disse ele. Mas não conseguiu
lembrar-se. O ano lhe escapava. — Raios! — explodiu
irritado.
— Bem, não tem importância. — Enlaçando o braço no
dele, ela continuou a andar. — Olhe, há um pequeno lugar
protegido ali na frente, do outro lado daquelas pedras. —
Aumentou o ritmo da marcha e o corpo ondeou, forte, os
músculos rígidos forçando contra o vento, a areia e a velha e
conhecida gravidade de um mundo perdido há muito tempo.
— E eu sou o que... qual é o nome dela... Fran? — perguntou
de repente. Passou pelas pedras, a espuma e a água rolando
por cima de seus pés, cobrindo os tornozelos. Rindo, deu um
salto, estremecendo com o frio súbito. — Ou sou Patrícia
Christensen? — Com ambas as mãos, alisou os cabelos.
— Estes são louros, de modo que posso ser Pat. Perky
Pat. — Desapareceu por trás das pedras. Ele seguiu-a
rapidamente, tropeçando, no encalço dela. — Eu era Fran —
disse ela empertigando-se
— mas isso não tem importância agora. Eu podia ter sido
qualquer pessoa antes, Fran, ou Helen, ou Mary, e isso não
teria a menor importância agora. Certo?
— Não — discordou ele, emparelhando-se com ela. Arque-
jante, disse: — E importante que você seja Fran. Em
essência.
— Em essência. — Lançou-se no chão, apoiando-se num
cotovelo, e fez desenhos na areia com uma pedra preta
pontuda, em movimentos violentos que deixavam sulcos
profundos. Quase no mesmo instante, jogou fora a pedra e
sentou-se de frente para o oceano. — Mas os acidentes...
Eles são de Pat. — Pôs as mãos sob os seios, erguendo-os
languidamente, com uma expressão de perplexidade no
rosto. — Estes — disse — são de Pat. Não meus. Os meus
são menores, lembro-me.
Ele sentou-se ao lado dela, mas continuou calado.
— Nós estamos aqui — continuou ela imediatamente —
para fazer o que não podemos fazer no alojamento. Lá, onde
deixamos nossos corpos corruptíveis. Enquanto
conservarmos nossos cenários em condições de
funcionamento, isto... — fez um gesto para o oceano e mais
uma vez tocou em seu corpo, incrédula — isto não pode
desintegrar-se. Nós assumimos a imortalidade. — De
repente, deixou-se cair para trás, estirada na areia, e fechou
os olhos, com um braço sobre o rosto. — E uma vez que
estamos aqui, e que podemos fazer as coisas que nos são
negadas no alojamento, sua teoria é que devemos fazer
essas coisas. Devemos aproveitar a oportunidade.
Ele inclinou-se e beijou-a na boca.
Dentro de sua mente, uma voz disse: "Mas eu posso fazer
isso em qualquer ocasião." Nos membros de seu corpo, um
domínio estranho fez-se sentir. Voltou a sentar-se,
afastando-se da moça. "Afinal de contas", pensou Norm
Schein, "eu sou casado com ela." Riu, então.
"— Quem foi que disse que você podia usar meu
cenário?" — pensou zangado Sam Regan. — "Saia de meu
compartimento. E aposto que essa também é minha Can-D."
"— Você nos ofereceu a droga" — respondeu o co-
habitante de sua mente-corpo. — "De modo que resolvi
pegá-lo na palavra."
"— Eu também estou aqui" — pensou Tod Morris. — "E se
quer saber minha opinião..."
"— Ninguém pediu sua opinião" — pensou zangado Norm
Schein. — "Na verdade, ninguém pediu que você viesse
conosco. Por que você não volta lá pra cima e vai mexer
naquela sua horta ordinária e acabada, onde, aliás, devia
estar?"
Tranqüilamente, Tod Morris pensou: "Estou de acordo
com Sam. Não tenho oportunidade de fazer isto, exceto
aqui."
O poder de sua vontade combinou-se com o de Sam. Mais
uma vez Walt inclinou-se sobre a moça deitada. Mais uma
vez beijou-a na boca e, desta vez, com força, com agitação
crescente.
Sem abrir os olhos, Pat disse em voz baixa:
"— Eu também estou aqui. Sou eu, Helen" —
acrescentou. — "E Mary, também. Mas nós não estamos
usando seu suprimento de Can-D, Sam. Nós trouxemos um
pouco do que já temos."
Ela pôs os braços em volta dele, enquanto as três
encarnações de Perky Pat reuniam-se em uníssono num
único esforço. Tomado de surpresa, Sam Regan rompeu
contato com Tod Morris e associou-se ao esforço de Norm
Schein. Walt continuou sentado longe de Perky Pat.
As ondas do oceano lamberam os dois, deitados em
silêncio na praia, dois corpos abrangendo a essência de seis
pessoas. Duas em seis, pensou Sam Regan. O mistério se
repetia. Como era que aquilo se realizava? A velha pergunta,
novamente. Mas tudo o que me importa, pensou, é se eles
estão ou não usando minha Can-D. E aposto que estão! Não
me interessa o que eles digam. Não acredito neles.
Levantando-se, Perky Pat disse:
"— Bem, estou vendo que posso ir nadar um pouco. Não
há nada a fazer aqui." — Entrou chapinhando na água e se
afastou, enquanto eles continuavam sentados em seus
corpos, observando-a.
"— Perdemos nossa oportunidade" — pensou
ironicamente Tod Morris.
"— Culpa minha" — reconheceu Sam. Fundindo-se, ele e
Tod conseguiram levantar-se. Deram alguns passos
acompanhando a moça e, em seguida, com água pelos
tornozelos, pararam.
Sam Regan já podia sentir a potência da droga
diminuindo, e foi tomado de fraqueza, medo e amargura
doentia pela compreensão desse fato. Tão cedo, disse a si
mesmo. Tudo acabado, de volta ao alojamento, ao buraco
onde nos contorcemos e nos acovardamos como vermes
num saco de papel, escondidos da luz do sol, brancos,
pálidos, horrendos. Arrepiou-se todo.
Estremeceu e viu, mais uma vez, seu compartimento, a
minúscula cama, lavatório, escrivaninha, fogão... e
derreados como trouxas inertes, as cascas vazias de Tod e
Helen Morris, Fran e Norm Schein, sua própria esposa, Mary,
olhos fixando, vazios, o espaço. Consternado, desviou a
vista.
No chão entre eles, o cenário. Olhando para baixo, viu os
bonecos, Walt e Pat, colocados à beira do oceano, perto do
Jaguar estacionado. E, realmente, Perky Pat usava o maio
sueco quase inexistente. Junto a eles, viu uma pequenina
cesta de piquenique.
E, ao lado do cenário, um pedaço de papel pardo comum,
onde estivera embrulhada a Can-D. Juntos, os cinco haviam
acabado com a droga. Mesmo naquele momento, enquanto
olhava — contra sua vontade — viu um pequeno e fino
gotejamento de lustroso caldo marrom emergir das bocas
moles, abúlicas, de cada um deles.
À sua frente, Fran Schein mexeu-se, abriu os olhos,
gemeu, focalizou-se nele e suspirou cansada.
— Eles conseguiram nos encontrar — disse ele.
— Nós demoramos demais. — Ela levantou-se
cambaleante, tropeçou e quase caiu. Imediatamente, ele
ergueu-se também e segurou-a. — Você teve razão.
Devíamos ter feito aquilo imediatamente, se era nossa
intenção. Mas... — deixou, por um momento, que ele
continuasse a segurá-la — eu gostei dos preliminares.
Passeando pela praia, mostrando-lhe aquele maio que não é
maio. — Sorriu de leve.
— Eles vão ficar inconscientes por mais alguns minutos,
aposto — disse Sam.
Com os olhos arregalados, Fran concordou:
— Isso mesmo, você tem razão. — Esgueirou-se para
longe dele, dirigindo-se para a porta. Abrindo-a,
desapareceu no corredor. — Para nosso compartimento —
gritou de lá. — Depressa!
Satisfeito, ele seguiu-a. Era divertido demais, e ele teve
um acesso de riso. A sua frente, a moça subia correndo a
rampa em direção a seu nível no alojamento. Emparelhou-se
com ela e segurou-a quando chegaram ao compartimento
onde ela residia. Juntos, entraram atabalhoados, rolaram
rindo e lutando pelo duro chão de metal até se chocarem
com a parede distante.
Nós vencemos, afinal de contas, pensou ele, enquanto
habilmente soltava o sutiã dela, começava a desabotoar-lhe
a saia, baixava o fecho e lhe tirava os sapatos sem cadarços
numa única rápida operação. Fazia tudo ao mesmo tempo.
Fran suspirou, só que desta vez não de cansaço.
— E melhor eu fechar a porta.
Levantou-se, correu para a porta e fechou-a com
segurança. Fran, enquanto isso, saía de dentro das roupas
soltas.
— Volte — insistiu ela. — Não fique simplesmente
olhando. Arrumou as roupas numa trouxa apressada, e os
sapatos em
cima, como se fossem dois pesos de papel.
Ele voltou para o lado dela e os dedos inteligentes,
rápidos, da moça-começaram a trabalhar nele, com olhos
escuros brilhando, para deleite dele.
E ali mesmo, na lúgubre residência que possuíam em
Marte. Ainda assim... eles haviam conseguido isto da velha
maneira, da única maneira, graças à droga trazida pelo
furtivo traficante. A Can-D tornara aquilo possível.
Continuavam a precisar dela. De maneira alguma eles eram
livres.
E quando os joelhos de Fran apertaram seus flancos nus,
ele pensou: E de maneira alguma queremos ser. Na verdade,
acontece justamente o contrário. Enquanto suas mãos
desciam pelo estômago liso, trêmulo dela, ele pensou ainda:
Nós poderíamos mesmo usar um pouco mais.
Q UATRO

NA RECEPÇÃO do Hospital de Veteranos James Riddle, na


Base III, em Ganimedes, Leo Bulero inclinou o caro chapéu-
coco de peles, feito a mão, na direção da moça de uniforme
branco engomado e disse:
— Eu vim aqui visitar um paciente, o senhor Eldon Trent.
— Sinto muito, senhor ... — começou a moça, mas ele
interrompeu-a:
— Diga a ele que Leo Bulero está aqui. Entendeu? Leo
Bulero.
Seis olhos deslizaram por trás 'da mão dela e chegaram
ao registro. Viu o número do quarto de Eldritch. Enquanto a
moça se virava para a mesa telefônica, ele foi se afastando
na direção daquele número. O diabo que levasse a espera,
disse a si mesmo. Viajei milhões de quilômetros e espero ver
o homem, ou a coisa, o que quer que seja.
Um soldado da ONU, armado de fuzil, barrou-lhe a
entrada à porta do quarto, um homem muito jovem, com
olhos claros e frios de moça. Olhos que diziam
enfaticamente não, mesmo a ele.
— Muito bem — resmungou Leo. — Entendo. Mas, se
soubesse que estou aqui, ele me deixaria entrar.
Ao seu lado, ao seu ouvido, sobressaltando-o, uma seca
voz feminina disse:
— Como foi que o senhor descobriu que meu pai está
aqui, senhor Bulero?
Ele virou-se e viu uma mulher bastante corpulenta, de
mais de trinta anos. Ela fitava-o com grande atenção. Ele
pensou: Esta é Zoé Eldritch. Eu devia saber. Ela aparece nas
colunas sociais dos jornais com muita freqüência.
Um oficial da ONU aproximou-se nesse momento.
— Senhorita Eldritch, se quiser, podemos expulsar o
senhor Bulero deste edifício. Depende da senhorita.
Sorriu cordialmente para Leo, que imediatamente o
identificou. Aquele homem era o chefe da Divisão Jurídica da
ONU, o superior de Ned Lark, Frank Santina. Olhos pretos,
alerta, somaticamente vibrantes, alternavam entre ele e Zoé
Eldritch, esperando a resposta dela.
— Não — disse finalmente Zoé. — Pelo menos, não neste
instante. Não, até que eu saiba como ele descobriu que
papai está aqui. Ele não pode saber. O senhor pode, senhor
Bulero?
— Através de um de seus precogs pré-sucesso,
provavelmente. Não foi assim, Bulero?
Agora relutante, Leo inclinou a cabeça.
— A senhora compreende, senhorita Eldritch — explicou
Santina — um homem como Bulero pode contratar quem
quer que queira, qualquer forma de talento. De modo que
estávamos à espera dele. — Indicou os dois guardas
uniformizados e armados à porta de Palmer Eldritch. — É por
isso que precisamos de dois deles, o tempo todo. Como eu
tentei explicar à senhorita.
— Não há nenhuma maneira que eu possa fazer negócio
com Eldritch? — perguntou Leo. — Foi para isso que vim
aqui. Não tenho coisa alguma de ilegal em mente. Acho que
vocês todos estão malucos, ou então tentando esconder
alguma coisa. Talvez vocês tenham a consciência culpada.
— Observou-os de soslaio, mas nada viu. — É realmente
Palmer Eldritch quem está aí dentro? — perguntou. —
Aposto que não é. — Mais uma vez, não conseguiu reação
alguma. Nenhum dos dois pegou a isca. — Estou cansado —
continuou. — Foi uma longa viagem até aqui. O diabo leve
tudo isto. Vou comer alguma coisa, arranjar um quarto de
hotel, dormir durante dez horas e esquecer tudo isto. —
Virando-se, afastou-se em passos duros.
Nem Santina nem a senhorita Eldritch tentaram detê-lo.
Desapontado, continuou a andar, sentindo uma repugnância
opressiva por tudo.
Obviamente, teria que chegar a Palmer Eldritch através
de algum intermediário. Talvez, refletiu, Félix Blau e sua
polícia particular pudessem varar o cerco. Valia a pena
tentar.
Mas logo que se tornava tão deprimido assim, coisa
alguma parecia importar. Por que não fazer como dissera,
comer alguma coisa e ter algum descanso necessário e, por
ora, esquecer de tentar entrar em contato com Eldritch? O
diabo leve todos eles, disse a si mesmo, quando deixou o
hospital e começou a descer a calçada, à procura de um
táxi. Aquela filha, pensou, de aparência dura, parecendo
uma lésbica, com os cabelos cortados curtos e sem
maquilagem. Arre!
Encontrou um táxi e ganhou os ares, pensando durante
algum tempo no que fazer.
Usando o videofone do táxi, entrou em contato com Félix,
na Terra.
— Que bom que você ligou — disse Félix Blau, logo que o
identificou. — Há uma empresa que surgiu em Boston, em
circunstâncias estranhas. Parece ter surgido da noite para o
dia, inteiramente formada, incluindo...
— O que é que ela está fazendo?
— Preparando-se para lançar alguma coisa no mercado. A
maquinaria já está instalada, incluindo três satélites de
publicidade, semelhantes aos seus, um em Marte, outro em
Io e o terceiro em Titã. O boato que ouvi é que está se
aprontando para entrar no mercado com uma mercadoria
que concorre diretamente com seus cenários de Perky Pat.
Será chamada de Boneca Companheira Connie. — Sorriu por
um instante. — Isso não é engraçado?
— O que é que você me diz... você sabe do aditivo? —
perguntou Leo.
— Nenhuma informação ainda sobre isso. Supondo que
haja um deles, seria, presumivelmente, fora do âmbito legal
das atividades de comercialização. Um cenário de miniaturas
serve para alguma coisa sem... o "aditivo"?
— Não.
— Então esse dado parece responder à sua pergunta.
— Liguei para saber se você pode dar um jeito de eu
poder conversar com Palmer Eldritch. Localizei-o aqui, na
Base III, em Ganimedes.
— Lembra-se de meu relatório, no sentido de que Eldritch
importou um líquen semelhante ao usado na fabricação da
Can-D? Já lhe ocorreu que essa empresa de Boston pode ter
sido criada por Eldritch? Embora pareça muito cedo para
isso. Ainda assim, ele poderia ter-se comunicado há dez
anos, a esse respeito, com a filha.
— Eu tenho que conversar com ele — disse Leo.
— É o Hospital James Riddle, acho. Nós pensamos que ele
poderia estar aí. A propósito, já ouviu falar em um homem
chamado Richard Hnatt?
— Nunca.
— Um representante dessa nova firma de Boston
encontrou-se com ele e os dois fizeram algum tipo de
negócio. Esse representante, Icholtz...
— Que confusão — disse Leo. — E não consigo nem
mesmo falar com Eldritch. Santina está montando guarda à
porta, juntamente com aquela filha sapatão de Palmer. —
Ninguém conseguiria passar por eles, concluiu.
Deu a Félix Blau o endereço do hotel na Base III, onde
deixara sua bagagem, e desligou.
Aposto que ele tem razão, pensou. Palmer Eldritch é o
concorrente. Que azar o meu. Estar logo nesta linha de
produtos que Eldritch, de volta de Prox, resolve explorar. Por
que é que eu não poderia estar fabricando sistemas de
orientação de foguetes e concorrendo apenas com a G.E. e a
General Dynamics?
Nesse momento, pensou seriamente no líquen que
Eldritch trouxera. Um melhoramento em relação a Can-D,
talvez. Mais fácil de produzir, capaz de gerar traslados de
maior duração e intensidade. Jesus!
Pensando no assunto, uma bizarra recordação surgiu em
sua mente. Uma organização, originária da República Árabe
Unida, assassinos treinados, de aluguel. Mas que não teriam
chance alguma contra um homem como Palmer Eldritch...
Um homem como aquele, uma vez tenha resolvido fazer
alguma coisa...
Ainda assim, a precognição de Rondinella Fugate
persistia. No futuro, ele seria acusado do assassinato de
Palmer Eldritch.
Evidentemente, encontraria um meio, a despeito de todos
os obstáculos.
Levava consigo uma arma tão pequena, tão
imperceptível, que nem mesmo a revista mais detalhada
podia descobri-la. Há algum tempo, em Washington, D.C.,
um cirurgião a costurara em sua língua: um dardo
envenenado auto-orientável, seguindo os modelos
soviéticos... mas muitíssimo aperfeiçoado. Uma vez
alcançada a vítima, obliterava-se, sem deixar vestígios. O
veneno também era original. Não cortava a ação cardíaca ou
respiratória. Na verdade, não era um veneno, mas um vírus
filtrável que se multiplicava na corrente sangüínea da
vítima, ocasionando a morte dentro de 48 horas. Era
carcinomatoso, importação de uma das luas de Urano e
ainda geralmente desconhecido. O implante lhe custara uma
fortuna. Tudo o que precisava fazer era colocar-se ao
alcance da vítima escolhida e, com a mão, apertar a base da
língua, estirando-a ao mesmo tempo na direção da vítima.
De modo que, se pudesse visitar Eldritch...
E é melhor eu providenciar isso, compreendeu, antes que
essa nova empresa de Boston inicie a produção. Antes que
possa funcionar sem Eldritch. Como qualquer erva daninha,
tinha que ser detida cedo, ou não se poderia detê-la mais.
Ao chegar ao quarto do hotel, ligou para a P.P. Layouts, a
fim de verificar se chegara alguma mensagem vital ou se
havia fatos importantes à espera de sua atenção.
— Ah... — disse a senhorita Gleason, logo que o
reconheceu. — — Recebemos uma chamada urgente de uma
certa senhorita. Impatient White... se esse é mesmo o nome
dela, se é que eu entendi bem. O número é este. Um
número de Marte. — Pôs um pedaço de papel diante da tela.
No início, Leo não conseguiu identificar mulher alguma
chamada White. Depois, soube quem era... e sentiu medo.
Por que ela telefonara?
— Obrigado — murmurou, e desligou imediatamente.
Deus, se a Divisão Jurídica da ONU monitorara a chamada...
Isto porque Impy White, operando a partir de uma base em
Marte, era uma das grandes traficantes da Can-D.
Com grande relutância, ligou para o número.
Rosto pequeno, olhos agudos, bonitinha no estilo
minúsculo, Impy White começou a aparecer na tela. Pensara
que ela fosse muito mais corpulenta. Parecia um duende,
embora feroz, duro.
— Senhor Bulero, logo que eu contar...
— Não há outra maneira? Nenhum outro canal?
Havia um método através do qual Conner Freeman, chefe
da operação venusiana, podia entrar em contato com ele. A
senhorita White poderia ter agido através de Freeman, que
era seu chefe.
— Esta manhã, senhor Bulero, visitei um alojamento mo
sul de Marte, levando um carregamento. O pessoal de lá
recusou, dizendo que gastara todas as suas peles num novo
produto. Da mesma classe que... que o que vendemos.
Marcar-Z — continuou — e...
Leo Bulero desligou e ficou tremendo, em silêncio,
pensando.
Não posso me deixar abalar, disse a si mesmo. Afinal de
contas, sou uma variedade humana evoluída. Então, é isso.
Esse é o novo D' duto daquela firma de Boston. Derivado do
líquen de Eldritch, tenho que supor isso. Ele está esticado
em sua cama de hospital, a não mais de quilômetro e meio
daqui, dando ordens, sem dúvida, através de Zoé, e não há
coisa alguma que eu possa fazer. A operação está toda
montada e funcionando. Já estou atrasado demais. Mesmo
esta coisa em minha língua, compreendeu. É inútil, agora.
Mas vou pensar em alguma coisa, sei. Eu sempre penso.
Aquele não era, exatamente, o fim da P. P. Layouts.
A única coisa era: o que era que ele podia fazer? A
solução lhe escapava e esse fato não lhe diminuía a
preocupação suada, nervosa.
Apareça, idéia de desenvolvimento cortical,
artificialmente acelerada, disse numa oração. Ajuda-me,
Deus, a derrotar meus inimigos, os filhos da puta. Talvez, se
eu usar meus precogs de pré-sucesso, Roni Fugate e
Barney... Talvez eles possam sugerir alguma coisa.
Especialmente aquele velho profissional, Barney. Ele ainda
não foi absolutamente envolvido nisto.
Mais uma vez, fez uma ligação para a P.P. Layouts, na
Terra. Desta vez, pediu que o ligassem com o departamento
de Barney Mayerson.
Lembrou-se nesse momento do problema de Barney com
a convocação, da necessidade dele de desenvolver
incapacidade de tolerar stress, a fim de não acabar num
alojamento em Marte.
Sombrio, pensou, eu darei essa prova. Para ele, o perigo
de ser convocado já passou.
Ao chegar a chamada de Leo Bulero, de Ganimedes,
Barney Mayerson encontrava-se sozinho em seu gabinete.
A conversa não durou muito tempo. Quando desligou,
lançou um olhar ao relógio e ficou atônito. Cinco minutos.
Aquilo parecera um grande intervalo em sua vida.
Erguendo-se da escrivaninha, apertou o botão do
intercomunicador e disse:
— Não deixe ninguém entrar, por algum tempo. Nem
mesmo... especialmente, nem mesmo... a senhorita Fugate.
— Foi até a janela e ficou olhando para a rua quente,
ofuscante, vazia.
Leo estava lançando todo o problema em suas mãos. Era
a primeira vez em que via o patrão entrar em colapso.
Imagine só, pensou, Leo Bulero confuso... com a primeira
concorrência que jamais enfrentara na vida. Ele,
simplesmente, não estava acostumado àquilo. A existência
da nova companhia de Boston havia, por ora, desorientado
inteiramente o chefe. O homem transformara-se em criança.
Eventualmente, Leo daria um jeito de escapar daquela
situação, mas, entrementes — o que é que eu posso tirar
disto? perguntou Barney Mayerson a si mesmo, e não obteve
imediatamente qualquer resposta. Posso ajudar Leo... mas,
exatamente, o que Leo pode fazer por mim? Esta era uma
pergunta mais de seu agrado. Na verdade, tinha que pensar
no caso dessa maneira. O próprio Leo lhe ensinara isso,
durante todos aqueles anos. O patrão não quereria a coisa
de outra maneira.
Durante algum tempo, ficou meditando. Em seguida,
conforme as instruções de Leo, voltou a atenção para o
futuro. E, enquanto fazia isso, explorou mais uma vez sua
própria situação de possível convocado. Tentou ver,
exatamente, como a situação se resolveria.
A questão de ser convocado, porém, era pequena demais,
uma insignificância microscópica, para estar registrada nos
anais públicos dos grandes. Não poderia vasculhar
manchetes de jornal, escutar noticiários... No caso de Leo,
porém, a situação era muito diferente. Porque preconheceu
certo número de artigos de primeira página a respeito de
Leo e Palmer Eldritch. Tudo, claro, era vago, e visões
alternativas apresentavam-se, num caos completo. Leo
encontrava-se com Eldritch. Leo não se encontrava. E —
nessa ocasião concentrou-se fortemente — Leo era acusado
do assassinato de Palmer Eldritch. Deus do céu, o que era
que aquilo significava?
Significava, descobriu com um exame mais atento,
exatamente o que a visão dizia. E se Leo fosse preso,
julgado e condenado, aquilo poderia significar o fim da P.P.
Layouts como empresa que pagava salário. E, com isso, o
fim de uma carreira à qual já sacrificara tudo mais na vida,
seu casamento e a mulher que ele — mesmo naquele
momento — amava.
Obviamente, era uma vantagem, uma necessidade, de
fato, avisar Leo. Mas mesmo esse dado podia ser
transformado em vantagem.
Ligou para Leo:
— Tenho notícias para você.
— Ótimo — respondeu Leo, radiante, com seu rosto
alongado e alargado, coroado com uma casca e
manifestando alívio. — Continue, Barney.
— Haverá dentro em breve — disse Barney — uma
situação que você poderá explorar. Conseguirá dar um jeito
de falar com Palmer Eldritch... não no hospital, mas em
outro lugar. Ele será retirado de Ganimedes, por ordem dele
mesmo. — E acrescentou cauteloso, não querendo revelar
demais a respeito dos dados que reunira: — Haverá um
rompimento entre ele e a ONU. Ele está usando a ONU
agora, enquanto está incapacitado, para protegê-lo. Mas,
quando ficar bom...
— Detalhes — pediu imediatamente Leo, inclinando com
atenção a cabeçorra.
— Há uma coisa de que eu gostaria, em troca.
— Pelo quê? — A face evoluída de Leo anuviou-se
visivelmente.
— Em troca de minha informação sobre a data exata e
local nos quais poderá, com sucesso, entrar em contato com
Palmer Eldritch.
— E o que é que você quer, pelo amor de Deus? —
resmungou. Olhou apreensivo para Barney. A Terapia E não
proporcionava tranqüilidade.
— Um quarto de um por cento de sua renda bruta. Da P.P.
Layouts... não incluída a renda de qualquer outra fonte. —
Referindo-se com essas palavras à rede de plantações em
Vênus, onde era obtida a Can-D.
— Deus dos céus — exclamou Leo, respirando com
dificuldade.
— E há mais.
— O quê, mais? Suponho, você vai ficar rico.
— Quero uma reestruturação da maneira como você usa
seus consultores de pré-sucesso. Todos permanecerão em
seus postos, desempenharão nominalmente os cargos que
ocupam, mas com a alteração seguinte: todas as decisões
deles serão submetidas a mim para a palavra final. Eu darei
a última palavra sobre o que eles sugerirem. De modo que
não representarei mais qualquer região em especial. Você
pode entregar Nova Iorque a Roni logo que...
— Sedento de poder — disse Leo, com a voz arranhando
na garganta.
Barney encolheu os ombros. Que lhe importavam os
qualificativos? Era o clímax de sua carreira e era isso o que
importava. E todos cooperariam para isso, Leo inclusive. Na
verdade, Leo em primeiro lugar.
— Muito bem — concordou Leo, inclinando a cabeça. —
Você pode mandar e desmandar nos outros consultores de
pré-sucesso. Isso não significa coisa alguma para mim.
Agora, diga-me como, quando e onde...
— Você pode encontrar-se com Palmer Eldritch dentro de
três dias. Uma das próprias naves dele, sem marca, vai tirá-
lo de Ganimedes depois de amanhã, levando-o para a
propriedade que ele tem em Luna. Ali ele continuará seu
processo de recuperação, mas não mais em território da
ONU. Frank Santina não terá mais nenhuma autoridade
neste assunto, de modo que pode esquecê-lo. No dia 23, em
sua propriedade, Eldritch receberá a imprensa e dará sua
versão do que aconteceu durante a viagem. Estará bem-
humorado... Pelo menos, é isso o que a imprensa dirá.
Aparentemente sadio, satisfeito por estar de volta,
convalescendo satisfatoriamente... Contará uma longa
história a esse respeito...
— Simplesmente diga-me como poderei entrar. Haverá o
sistema da própria segurança dele.
— A P.P. Layouts — entenda bem isso — publica um jornal
comercial, trimestralmente, A Mente da Miniaturização. E
uma atividade tão insignificante que você provavelmente
nem sabe que ela existe.
— Você quer dizer que devo ir como repórter de nosso
periódico de empresa? — Leo olhou-o fixamente. — Posso
entrar na propriedade dele nessa base? — Pareceu
aborrecido. — Diabo, eu não tinha que pagar a você para
obter esse lixo de informação. Isso teria sido anunciado no
dia seguinte, ou pouco depois... Quero dizer, se a imprensa
vai estar lá, o fato deve ser divulgado.
Barney encolheu os ombros. Não se incomodou em
responder.
— Acho que você me pegou — reconheceu Leo. — Eu
estava aflito demais. Bem — acrescentou mais calmo —
talvez você possa me dizer o que ele vai dizer à imprensa,
como explicação. O que foi que ele de fato descobriu no
sistema de Prox? Ele fala nos líquens que trouxe?
— Fala. Alega que são uma forma benigna, aprovada pela
Divisão de Controle de Entorpecentes das Nações Unidas,
que substituirá... — Hesitou. — ... certos derivados
perigosos, formadores de vícios, agora amplamente usados.
E...
— E — terminou Leo, com o rosto pétreo — ele vai
anunciar a formação de uma companhia para vender sua
mercadoria isenta de entorpecente.
— Isso mesmo — concordou Barney. — Chamada Mascar-
Z, com o slogan: Mude para Melhor. Mastigue Mascar-Z.
— Que coisa terrível!
— Tudo isso foi organizado através de radiolaser
intersistemas, há muito tempo, através da filha dele e com
aprovação de Santina e Lark, da ONU. Na verdade, com
aprovação do próprio Hepburn-Gilbert. Eles vêem nisso uma
maneira de acabar com o tráfico de Can-D.
Caiu um silêncio entre eles.
— Muito bem — disse Leo asperamente, após algum
tempo. — É uma pena que você não pudesse ter previsto
isso há uns dois anos, mas, diabo... você é um empregado e
ninguém lhe disse para fazer isso.
Barney encolheu os ombros.
Com a fisionomia sombria, Leo Bulero desligou.
Então é isso, disse Barney a si mesmo. Violei a regra
número um do funcionário orientado para a carreira: nunca
diga ao seu superior uma coisa que ele não quer ouvir. Bem
que eu gostaria de saber quais serão as conseqüências
disso.
De repente, o videofone iluminou-se. Mais uma vez,
formou-se na tela a fisionomia sombria de Leo Bulero.
— Escute aqui, Barney, um pensamento acaba de me
ocorrer. Isto vai magoá-lo, de modo que é melhor se
preparar.
— Estou preparado. — Barney preparou-se.
— Eu esqueci, e não devia ter esquecido, que falei antes
com a senhorita Fugate e que ela sabe a respeito de... certos
fatos no futuro relativos a mim e a Palmer Eldritch. Fatos
que, de qualquer maneira, se ela ficasse perturbada — e
tiranizá-la a perturbaria — poderia levá-la a ter um ataque
de raiva e nos fazer algum mal. Na verdade, comecei a
pensar que, potencialmente, todos meus consultores de pré-
sucesso descobririam essa informação, de modo que a idéia
de você supervisionar todos eles...
— Os "fatos" — interrompeu-o Barney — têm a ver com
uma acusação contra você, por assassinato, com
agravantes, de Palmer Eldritch, certo?
Leo grunhiu, arquejou e olhou-o inexpressivamente. Por
fim, relutante, inclinou a cabeça.
— Não vou deixar que você caia fora do acordo que acaba
de fazer comigo — ameaçou Barney. — Você me fez certas
promessas e eu espero que...
— Mas — grunhiu Leo — aquela moça tola... ela é
instável, irá correndo contar à polícia da ONU. Barney, ela
me tem nas mãos!
— E eu também — observou ele, tranqüilamente.
— Certo, mas eu o conheço há anos. — Leo parecia estar
pensando rapidamente, avaliando a situação com o que
gostava de chamar de estágio-seguinte-nos-poderes-
evoluídos-do-tipo-Homo-sapiens, ou alguma coisa nesse
sentido. — Você é meu chapa. Você não faria uma coisa
dessas, e ela faria. Mas, de qualquer modo, ainda posso lhe
oferecer a percentagem da renda bruta que pediu. Certo?
— Olhou ansioso para Barney, mas com uma firme
determinação. Já se resolvera. — Podemos dar o assunto por
encerrado neste ponto, então?
— Nós já encerramos.
— Mas, bolas, como eu disse, eu me esqueci...
— Se você não cumprir o trato — retrucou Barney — eu
me demito. E levarei minha capacidade para outro lugar. —
Trabalhara um número de anos grande demais para recuar
nessa altura.
— Você? — perguntou incrédulo Leo. — Quer dizer, você
não está simplesmente falando em ir procurar a polícia da
ONU. Está falando em trocar... trocar de lado e ir trabalhar
para Palmer Eldritch!
Barney ficou calado.
— Seu grandessíssimo patife — explodiu Leo. — É o que
chamam tentar sobreviver em tempos como estes em que
estamos. Escute aqui. Não estou lá muito certo de que
Palmer o aceitaria. Provavelmente, ele já organizou seu
grupo de pessoal de pré-sucesso. E se ele já não sabe da
notícia a respeito de minha... — Interrompeu-se. — Isso
mesmo, eu me arrisco. Acho que você sofre daquele pecado
grego... Como era que o chamavam? Hubris? Orgulho, como
Satã teve, querendo sobrepor-se demais. Vá em frente e
domine os outros, Barney. Na verdade, faça o que quiser.
Não me interessa. E toda sorte para você, cara. Mantenha-
me informado sobre como está indo na vida e, na próxima
vez em que sentir vontade de chantagear alguém...
Barney cortou a ligação. A tela tornou-se um cinzento
informe. Cinzento, pensou ele, como o mundo dentro de
mim e em volta de mim, como a realidade. Levantou-se e
andou duro de um lado para o outro, com as mãos enfiadas
nos bolsos das calças.
Meu melhor lance, concluiu, nesta altura dos
acontecimentos — Deus me perdoe — é aliar-me a Roni
Fugate. Porque é dela que Leo tem medo, e com toda razão.
Deve haver uma galáxia inteira de coisas que ela contaria,
mas eu, não. E Leo sabe disso.
Voltando a sentar-se, mandou localizar Roni e finalmente
trouxe-a ao seu gabinete.
— Oi — disse ela alegre, vistosa em seu vestido de seda
estilo Pequim, sem sutiã. — O que é que há? Tentei falar
com você há um minuto, mas...
— Você simplesmente nunca — disse ele — nunca está
com todas as suas roupas. Feche a porta.
Ela fechou.
— Contudo — disse ele — para lhe fazer justiça digo que
foi muito boa na cama na noite passada.
— Obrigada. — O rosto jovem e claro animou-se.
— Você previu claramente que nosso patrão vai
assassinar Palmer Eldritch? Ou há alguma dúvida?
Engolindo em seco, ela baixou a cabeça e murmurou:
— Você simplesmente transborda talento. — Sentou-se, e
cruzou as pernas que, notou ele, estavam sem meias. —
Claro que há dúvida. Em primeiro lugar, seria estúpido da
parte do senhor Bulero porque, claro, isso significa o fim da
carreira dele. Os jornais não dizem — não querem dizer —
quais os motivos dele para ter feito aquilo, de modo que não
posso adivinhar quais sejam. Mas deve ser alguma coisa de
muito importante e significativo, não acha?
— O fim da carreira dele — disse Barney — e também da
sua e da minha.
— Não — respondeu Roni — não acho que seja assim,
querido. Vamos pensar por um momento. O senhor Palmer
Eldritch vai substituí-lo no campo da miniaturização. Não
será esse o motivo provável do senhor Bulero? E isso não
nos diz alguma coisa a respeito da futura realidade
econômica? Mesmo com o senhor Eldritch morto, parece que
a empresa dele continuará...
— Então, nós nos passamos para Eldritch? Tão simples
assim? Contraindo o rosto num esforço de concentração,
Roni disse, com dificuldade:
— Não, eu não quis dizer exatamente isso. Mas temos
que tomar cuidado para não entrarmos pelo cano,
juntamente com o senhor Bulero. Não queremos ser
arrastados com ele... Tenho anos à minha frente e, um
pouco menos, você também.
— Obrigado — disse ele com amargura.
— O que temos que fazer agora é planejar com todo
cuidado. E se precogs não podem planejar o futuro...
— Eu dei a Leo informações que o levarão a um encontro
com Eldritch. Já lhe ocorreu que, juntos, os dois poderiam
formar uma sociedade? — Fitou-a atentamente.
— Eu... eu não vejo nada disso a frente. Nenhum artigo de
jornal nesse sentido.
— Deus — respondeu ele, desdenhoso — isso não vai
aparecer nos jornais.
— Oh... — Repreendida, ela inclinou a cabeça. — Acho
que é isso mesmo.
— E se isso acontecesse — continuou ele — não
conseguiríamos coisa alguma, logo que deixássemos Leo e
passássemos para o lado de Eldritch. Ele nos aceitaria de
volta, mas nas condições dele. Ficaríamos em melhor
situação abandonando inteiramente o negócio de pré-
sucesso. — Essa possibilidade era óbvia para ele e, pela
expressão de Roni Fugate, notou que também era óbvia para
ela. — Se abordarmos Palmer Eldritch...
— "Se..." Temos que abordar.
— Não, não temos — retrucou Barney. Podemos continuar
como estamos. — Como empregados de Leo Bulero, suba
ele ou afunde, ou mesmo desapareça inteiramente, pensou.
— Vou lhe dizer o que mais nós podemos fazer. Podemos
procurar todos os consultores de pré-sucesso que trabalham
para a P.P. Layouts e formar uma sociedade própria — Esta
era uma idéia com que ele andara brincando durante anos.
— Uma guilda, por assim dizer, com monopólio. Nesse caso,
poderemos ditar nossas condições a Leo e a Eldritch.
— A não ser que — lembrou Roni — evidentemente
Eldritch tenha consultores de pré-sucesso próprios. — Sorriu
para ele. — Você não tem uma noção clara do que fazer, não
é, Barney? Posso ver isso. Que vergonha. E trabalha há
tantos anos. — Sacudiu triste a cabeça.
— Mas posso entender — retrucou ele — por que Leo
estava hesitante com a idéia de traí-la.
— Por que eu digo a verdade? — Ergueu as sobrancelhas.
— Sim, talvez seja por isso. Todo mundo tem medo da
verdade. Você, por exemplo... Não quer enfrentar o fato de
que disse não àquele pobre vendedor simplesmente para se
vingar da mulher que...
— Cale a boca — ordenou ele, rispidamente.
— Sabe onde aquele vendedor de vasos se encontra neste
exato minuto? Foi contratado por Palmer Eldritch. Você fez a
ele — e a sua ex-esposa — um favor. Ao passo que, se
tivesse dito sim, teria aliciado os dois a uma companhia
decadente, cortaria aos dois a possibilidade de... —
Interrompeu-se. — Estou fazendo com que você se sinta
mal.
Gesticulando, ele disse:
— Isso simplesmente não é relevante para o assunto que
me levou a chamá-la aqui.
— Certo. — Roni inclinou a cabeça. — Você me chamou
aqui para combinarmos uma maneira de, juntos, trair Leo
Bulero.
Confuso, ele começou:
— Escute aqui...
— E isto mesmo. Você não pode dar conta da situação
sozinho. Precisa de mim. Eu não disse que não. Fique calmo.
Contudo, não acho que este seja o lugar ou a ocasião de
discutir isso. Vamos esperar até voltarmos para o
condomínio. Certo? — Dirigiu a ele aquele sorriso radiante,
aquele sorriso com imenso carinho.
— Certo — concordou ele. Ela tinha razão.
— Não seria triste — disse Roni — se houvesse aparelhos
eletrônicos de escuta instalados neste gabinete? Talvez o
senhor Bulero vá receber uma fita de tudo que acabamos de
dizer.
O sorriso dela continuou, aumentou mesmo, ofuscou-o. A
moça não tinha medo de gente ou de pessoa alguma na
Terra ou mesmo em todo o sistema solar, compreendeu.
Desejava sentir-se da mesma maneira. Isto porque havia
um problema que o obcecava, que não discutira nem com
Leo nem com ela, embora certamente estivesse
incomodando também a Leo... e devia estar, se ela fosse tão
racional como parecia, também a ela.
Tinha que ser verificado ainda se o que voltara de Prox, a
pessoa ou, coisa que fizera um pouso forçado em Plutão, era
realmente Palmer Eldritch.
C INCO

A SITUAÇÃO financeiramente resolvida com o contrato


com o pessoal da Mascar-Z, Richard Hnatt fez uma ligação
para uma das clínicas de Terapia E do doutor Willy Denkmal
nas Alemanhas. Escolheu a central, situada em Munique, e
iniciou os preparativos para si mesmo e para Emily.
Agora faço parte dos grandes, disse a si mesmo,
enquanto aguardava em companhia de Emily na sala de
espera luxuosamente decorada da clínica. O doutor
Denkmal, conforme seu costume, ia entrevistá-los
pessoalmente, embora, claro, o tratamento em si fosse
realizado por membros de sua equipe.
— Isso me põe nervosa — murmurou Emily. Estava com
uma revista no colo, mas não conseguia ler. — A coisa é
tão... antinatural.
— Bolas — retrucou violentamente Hnatt — isso é o que
não é. Trata-se de uma aceleração do processo evolutivo
natural que, de qualquer modo, ocorre o tempo todo.
Apenas, em geral, é tão lento que não o percebemos. Quero
dizer, veja nossos ancestrais nas cavernas. Tinham o corpo
coberto de pêlos, nenhum queixo, e uma área frontal muito
limitada em relação ao cérebro. E possuíam enormes
molares fundidos uns com os outros, a fim de mastigar
sementes cruas.
— Tudo bem — disse Emily, inclinando a cabeça.
— Quanto mais pudermos nos afastar deles, melhor. De
qualquer modo, eles evoluíram para enfrentar a Idade do
Gelo. Nós temos que evoluir para enfrentar a Idade do Fogo,
exatamente o oposto. De modo que precisamos daquela
pele do tipo quitinoso, daquela casca e daquele metabolismo
modificado que nos levarão a dormir ao meio-dia, e também
de uma ventilação melhorada e...
Do gabinete particular do doutor Denkmal emergiu uma
figura pequena, redonda, de alemão de classe média,
cabelos brancos. Acompanhava-o outro homem e, pela
primeira vez, Richard Hnatt viu de perto o efeito da Terapia
E. Não era de modo algum o mesmo que ver fotos nas
colunas sociais dos jornais.
A cabeça do homem lembrou-lhe uma foto que vira num
livro didático. Lembrava-se de que a foto tinha uma legenda:
hidrocéfalo. Havia o mesmo aumento acima da linha das
sobrancelhas, uma cabeça que parecia claramente um domo
e de aparência curiosamente frágil. Imediatamente,
percebeu por que essas pessoas abastadas haviam
desenvolvido o que era popularmente chamado de cabeças
de bolha. Parece que vai estourar, pensou, impressionado. E
a casca maciça. Os cabelos haviam cedido lugar ao padrão
mais escuro, mais uniforme, da casca quitinosa. Cabeça de
bolha? Lembrava mais um coco.
— Senhor Hnatt — disse o doutor Denkmal a Richard
Hnatt, parando no meio da sala. — E Frau Hnatt também.
Vou atendê-los dentro de um momento. — Virou-se para o
homem a seu lado. — Foi apenas por acaso que
conseguimos introduzi-lo hoje em nossa agenda, senhor
Bulero, com um aviso tão em cima da hora. De qualquer
modo, o senhor não perdeu terreno algum. Na verdade,
ganhou.
Bulero, porém, estava olhando para Richard Hnatt.
— Eu ouvi seu nome antes. Oh, sim, Félix Blau
mencionou-o. — Os olhos superiormente inteligentes
anuviaram-se e ele disse: — Lembra-se de ter assinado
recentemente um contrato com uma firma de Boston
chamada... — o rosto alongado distorceu-se, como se por
um efeito permanente e oticamente defeituoso, de imagens
distorcidas — a Mascar-Z?
— Diabos o levem — gaguejou Hnatt. — Seu consultor de
pré-sucesso recusou nosso oferecimento.
Léo Bulero olhou-o e, em seguida, com um encolher de
ombros, voltou-se para o doutor Denkmal.
— Voltarei daqui a duas semanas.
— Duas! Mas... — Denkmal fez um gesto de protesto.
— Não posso vir na próxima semana. Estarei fora da Terra
novamente.
Mais uma vez, Bulero olhou para Richard e Emily Hnatt,
demoradamente, e em seguida afastou-se.
Acompanhando-o com os olhos, o doutor Denkmal
observou:
— Muito evoluído, aquele homem. Tanto física como
espiritualmente. — Virou-se para os Hnatts. — Sejam bem-
vindos à Clínica Einchenwald. — Sorriu radiante.
— Obrigado — respondeu nervosa Emily. — A coisa... dói?
— Nossa terapia? — O doutor Denkmal soltou uma
risadinha divertida. — Em absoluto, embora possa — em
sentido figurado — chocá-la no começo. Quando
experimentar crescimento da área cortical. Muitos e novos
interessantes conceitos lhe ocorrerão, especialmente de
natureza religiosa. Oh, se apenas Lutero e Erasmo
estivessem vivos hoje. As controvérsias deles poderiam ser
resolvidas tão facilmente agora, graças à Terapia E. Ambos
veriam a verdade, como, zum Beiszspiel, considerar a
transubstanciação... vocês sabem, o Blut und... —
Interrompeu-se com uma pequena tosse. — Em inglês, o
sangue e a hóstia, vocês sabem, na missa. E uma coisa
muito parecida com os que tomam Can-D. Notaram essa
afinidade? Mas vamos, vamos começar.
Deu uma palmadinha nas costas de Richard Hnatt e levou
os dois para seu gabinete particular, dirigindo a Emily o que
pareceu ao marido um olhar nada espiritual, mas cobiçoso.
Entraram numa câmara gigantesca, cheia de aparelhos
científicos e duas mesas tipo doutor Frankenstein,
completas, com correias para braços e pernas. Ao vê-las,
Emily gemeu e encolheu-se toda.
— Nada há para temer, Frau Hnatt. Como o eletrochoque
convulsivo, causa certas reações na musculatura. Reflexos,
entendem? — Denkmal soltou uma risadinha. — Agora vocês
precisam, ah, tirar as roupas, entendem? Cada qual em
particular, claro. Em seguida, vistam batas e auskommen...
entenderam? Uma enfermeira os ajudará. Já recebemos suas
fichas clínicas, enviadas da Nord Amerika, conhecemos a
história médica de ambos. Os dois muito sadios, viris, boa
gente Nord Amerikanische.
Levou Richard Hnatt para uma sala lateral, fechada com
uma cortina, onde o deixou, voltando para o lado de Emily.
Entrando na sala, Richard Hnatt ouviu o doutor Denkmal
conversando com Emily num tom tranqüilizador, mas
autoritário. A combinação era uma boa exibição de negócio
prático e Hnatt sentiu-se invejoso e desconfiado e,
finalmente, apreensivo. Aquilo não era exatamente o que
imaginara, não suficientemente importante para agradá-lo.
Não obstante, Leo Bulero saíra daquela sala, o que
provava que a coisa era realmente importante. Bulero
jamais teria aceito menos do que isso.
Animado, começou a despir-se.
Em algum lugar, longe da vista, Emily soltou um gritinho.
Vestiu a bata e deixou a sala, cheio de preocupação.
Encontrou, porém, o doutor Denkmal à escrivaninha, lendo a
ficha clínica de Emily. Ela estava em outro lugar,
compreendeu, em companhia de uma enfermeira, de modo
que tudo estava bem.
Logo depois, estava amarrado a uma das mesas
geminadas, Emily em situação idêntica a seu lado. Ela
também parecia assustada, muito pálida e calada.
— Suas glândulas — explicou o doutor Denkmal,
esfregando jovialmente as mãos e olhando lascivamente
para Emily — serão estimuladas por isto, especialmente a
glândula de Kresy, que controla a taxa de evolução, nicht
Wahr? Claro, vocês sabem disso. Todo estudante sabe disso,
agora que é ensinado o que descobrimos aqui. Hoje o que
vão notar não é crescimento da casca quitinosa ou do
escudo cerebral, ou a perda das unhas dos pés e das mãos...
não sabiam disso, aposto, apenas uma mudança leve, mas
muito importante, no lobo frontal... uma sensação de
queimadura. Isto é uma espécie de trocadilho, sabiam?
Esquenta e vocês, ah, tornam-se quentes. — Mais uma vez,
aquela risadinha.
Richard Hnatt sentiu-se infeliz. Esperou, como um animal
amarrado para o sacrifício, aquilo que lhe estava reservado.
Que maneira de fazer contatos comerciais, pensou
tristemente, e fechou os olhos.
Um enfermeiro materializou-se ao seu lado, onde ficou,
parecendo um tipo louro, nórdico, e destituído de
inteligência.
— Nós tocamos Musik tranqüilizante — disse o doutor
Denkmal, apertando um botão. Um som multifônico, vindo
de todos os cantos, encheu a sala, uma versão orquestral
insípida de alguma ópera italiana popular, Puccini ou Verdi,
Hnatt não sabia. — Agora, höre, Herr Hnatt. — Denkmal
curvou-se ao lado dele, subitamente sério. — Quero que
compreenda o seguinte. Ocasionalmente, esta terapia —
como é que vocês dizem isso? — dá o revertério.
— O tiro sai pela culatra — disse Hnatt, com voz áspera.
Estivera esperando isso.
— Mas, na maior parte dos casos, temos sucesso. O tiro
pela culatra, Herr Hnatt, lamento dizer, consiste no seguinte:
em vez de evoluir, a glândula Kresy é muito estimulada
para... regredir. Isso está correto em inglês?
— Está — concordou Richard. — Regride até que ponto?
— Uma coisinha de nada. Mas poderia ser desagradável.
Nós notaríamos logo, claro, e interromperíamos a terapia. E,
de modo geral, isso detém a regressão. Mas... nem sempre.
Às vezes, logo que a glândula Kresy é estimulada a... — Fez
um gesto. — Continua sem parar. Tenho que lhe dizer isso,
no caso de o senhor ter escrúpulos, certo?
— Eu me arrisco — respondeu Richard Hnatt. — Acho...
Todo mundo se arrisca, não? Muito bem, vá em frente.
Contorceu-se, viu Emily, mais pálida ainda nesse
momento, inclinando quase imperceptivelmente a cabeça,
com os olhos vidrados.
O que provavelmente vai acontecer, pensou
fatalisticamente, é que um de nós evoluirá — provavelmente
Emily — e o outro, eu, regredirei ao Sinanthropus. De volta
aos molares colados um no outro, cérebro minúsculo, pernas
cambaias e tendências canibalísticas. Dessa maneira, vou
ter uma trabalheira dos diabos para fechar negócios.
Assoviando feliz a ópera que enchia a sala, o doutor
Denkmal baixou um interruptor.
Começara a Terapia E dos Hnatts.
No princípio pelo menos, ele achou que só sentia perda
de peso, nada mais. Depois, a cabeça doeu como se tivesse
recebido uma martelada. Com a dor surgiu quase no mesmo
instante uma nova e aguda compreensão: era um risco
pavoroso o que ele e Emily estavam correndo, não era justo
submetê-la àquilo, apenas para promover vendas.
Obviamente, ela não queria aquilo. Suponhamos que ela
regredisse apenas o suficiente para perder o talento para a
cerâmica? Ambos ficariam arruinados. Sua carreira dependia
de providenciar para que Emily continuasse a ser uma das
maiores ceramistas do planeta.
— Pare — disse em voz alta, mas aparentemente o som
não saiu, não o ouviu, embora o aparelho vocal parecesse
funcionar... Sentiu as palavras na garganta. Ocorreu-lhe,
então. Ele estava evoluindo. A coisa estava funcionando. A
introvisão que tivera devia-se à mudança em seu
metabolismo cerebral. Supondo que Emily estivesse bem,
então estava tudo bem.
Percebeu também que o doutor Willy Denkmal era um
pequenino pseudocharlatão, que toda esta coisa explorava a
vaidade de mortais que queriam se tornar mais do que
tinham direito, e de uma forma inteiramente terrena,
transitória. O diabo que levasse suas vendas, seus contatos.
O que era que aquilo importava, em comparação com a
possibilidade de fazer o cérebro humano evoluir para ordens
inteiramente novas de concepção? Por exemplo...
Embaixo estendia-se o mundo sepulcral, o mundo
imutável de causa e efeito do demoníaco. No nível médio,
ficava a camada do humano, mas, a qualquer instante, o
homem podia mergulhar — descer, como se afundasse —
para a camada do inferno, embaixo. Ou podia ascender para
o mundo etéreo, em cima, que constituía a terceira das
camadas trinas. No seu nível médio de humano, o homem
arriscava-se sempre a afundar. Ainda assim, tinha diante de
si a possibilidade de ascender. Qualquer aspecto ou
seqüência da realidade podia tornar-se uma coisa ou outra,
a qualquer instante. Céu e inferno, não depois da morte,
mas agora! A depressão, todas as doenças mentais, era o
afundamento. E a outra coisa... como era conseguida?
Através de empatia. Apreendendo o outro, não de fora,
mas de dentro. Por exemplo, jamais olhara realmente para
os vasos de Emily como algo mais do que mercadoria para'
mercado? Não. O que eu devia ter visto neles, compreendeu,
era a intenção artística, o espírito que ela está revelando
intrinsecamente.
E aquele contato com as Indústrias Mascar-Z,
reconheceu, assinei-o sem consultá-la... Até que ponto uma
pessoa pode tornar-se antiética? Associei-a a uma firma que
ela talvez não queira como miniaturizadora de seus
produtos... Não temos conhecimento algum do valor dos
cenários dessa empresa. Podem ser de segunda classe.
Subpadrão. Mas, agora, era tarde demais. A estrada para a
camada do inferno é pavimentada com segundos
pensamentos. E a firma pode estar implicada na fabricação
ilegal de uwi droga de traslado. Isso explicaria o nome
Mascar-Z... Corresponderia a Can-D. Mas o fato de ter
escolhido o nome abertamente faz supor que não há
nenhuma intenção ilegal.
Com um raio de intuição, percebeu: alguém descobrira
uma droga de traslado que satisfazia à divisão de
entorpecentes da ONU. A divisão já aprovara a Mascar-Z,
permitiria que fosse vendida livremente. Assim, pela
primeira vez, uma droga de traslado estaria à disposição de
todos na Terra rigorosamente policiada, e não apenas nas
colônias remotas, sem nenhuma polícia por perto.
E isso significava que os cenários da Mascar-Z — ao
contrário das de Perky Pat — seriam vendidos na Terra,
juntamente com a droga. E à medida que as condições
atmosféricas piorassem, enquanto o planeta natal se
transformava ainda mais num meio ambiente alienígena, o
cenários seriam vendidos cada vez mais. O mercado
controlado por Leo Bulero era ridiculamente pequeno em
comparação com o que se abria — mas não imediatamente
— para as Indústrias Mascar-Z.
Assim, afinal de contas, assinara um bom contrato. E não
era de espantar que a Mascar-Z lhe houvesse pago tanto
dinheiro. Era uma empresa grande, com grandes fábricas,
dispondo obviamente de capitais ilimitados.
E onde obteria esse capital sem limites? Em parte alguma
da Terra. Intuiu esse fato. Provavelmente, de Palmer
Eldritch, que voltara para o sistema solar depois de se ter
aliado economicamente ao pessoal de Prox. Eram eles que
estavam por trás da Mascar-Z. De modo que, pela
possibilidade de arruinar Leo Bulero, a ONU estava
permitindo que uma raça não-solar iniciasse operações no
sistema.
Era uma troca ruim, talvez final.

QUANDO MENOS esperava, o doutor Denkmal acordou-o


com palmadas.
— Como é que foi a coisa? — perguntou Denkmal,
observando-o atento. — Preocupações amplas, abrangentes?
— Sim — respondeu, conseguindo sentar-se. Não estava
mais amarrado.
— Neste caso, nada temos a temer — disse Denkmal, e
sorriu radiante, o bigode branco mexendo-se como antenas
de inseto. — Agora, vamos consultar Frau Hnatt. — Uma
enfermeira já a desamarrava. Emily sentou-se tonta e
bocejou. O doutor Denkmal parecia nervoso. — Como se
sente, Frau? — perguntou.
— Ótima — murmurou Emily. — Tive muitas idéias para
vasos. Uma depois da outra. — Timidamente, fitou-o e, em
seguida, olhou para Richard. — Isso significa alguma coisa?
— Papel — disse Denkmal, oferecendo um bloco. —
Caneta. — Estendeu-os a Emily. — Ponha no papel suas
idéias, Frau.
Trêmula, Emily esboçou suas idéias para os potes.
Parecia ter alguma dificuldade em controlar a caneta, notou
Hnatt. Mas, presumivelmente, isso passaria.
— Ótimo — comentou o doutor Denkmal quando ela
terminou. Mostrou os desenhos a Richard. — Atividade
cefálica altamente organizada. Inventividade superior, certo?
Os croquis dos vasos eram indubitavelmente bons,
mesmo brilhantes. Ainda assim, Hnatt sentiu que havia
alguma coisa errada. Alguma coisa nos esboços. Mas só
depois de deixarem a clínica, quando os dois juntos estavam
sob a cortina antitérmica do lado de fora do prédio, à espera
do pouso do táxi a jato, é que compreendeu o que
acontecera.
As idéias eram boas — mas Emily já as pusera em
prática. Anos antes, quando desenhara seus primeiros vasos
profissionalmente adequados: ela lhe mostrara os esboços e
depois os próprios vasos, mesmo antes de os dois se
casarem. Não se lembrava ela disso? Evidentemente que
não.
Perguntou-se por que ela não se lembrava e o que era
que aquilo significava. O fato deixou-o profundamente
inquieto.
No entanto, estivera em estado de contínua inquietação
desde que recebera o primeiro tratamento de Terapia E,
inicialmente sobre a situação da humanidade e do sistema
solar em geral e naquele momento a respeito da esposa.
Talvez isso seja apenas um sinal do que Denkmal chama de
"atividade cefálica altamente organizada", pensou.
Estimulação do metabolismo cerebral.
Ou... talvez não.

CHEGANDO a Luna com seu crachá oficial de


representante do periódico da P.P. Layouts na mão, Leo
Bulero logo depois era espremido com um grupo de
repórteres de jornal a bordo de um trator de superfície,
cruzando a face oculta de Luna, a caminho da propriedade
de Palmer Eldritch.
— A identidade de seu jornal, senhor — rosnou-lhe
secamente um guarda armado, mas não usando as cores da
ONU, no momento em que ele se preparava para descer no
pátio do estacionamento da propriedade. Foi empurrado
contra a porta do trator, enquanto, atrás dele, jornalistas
autênticos faziam força e se mexiam inquietos, querendo
sair. — Senhor Bulero — disse indolentemente o guarda,
devolvendo-lhe o cartão. — O senhor Eldritch está à sua
espera. Por aqui.
O homem foi imediatamente substituído por outro
guarda, que começou a conferir os documentos de
identificação dos repórteres, um após outro.
Nervoso, Leo Bulero acompanhou o primeiro guarda
através de um tubo pressurizado e confortavelmente
aquecido até a propriedade propriamente dita.
A sua frente, bloqueando o tubo, viu outro guarda
uniformizado, da segurança de Palmer Eldritch. O homem
ergueu o braço e apontou alguma coisa pequenina e
brilhante em sua direção.
— Ei — protestou debilmente, paralisado onde se
encontrava. Girou sobre si mesmo, baixou a cabeça e
cambaleou alguns passos para trás, pelo caminho por onde
viera.
O raio — de uma variedade que desconhecia — tocou-o e
ele mergulhou para a frente, estirando os braços para tentar
amortecer a queda.
Quando deu conta de si, estava mais uma vez consciente
e amarrado — absurdamente — numa cadeira, numa sala
despojada. Com a cabeça zumbindo, olhou estonteado em
volta, mas viu apenas uma pequena mesa ao centro do
cômodo, sobre a qual havia uma engenhoca eletrônica.
— Deixem-me sair daqui — disse. Imediatamente, a
engenhoca respondeu:
— Bom dia, senhor Bulero. Eu sou Palmer Eldritch. O
senhor queria falar comigo, segundo sei.
— Isso é um comportamento cruel — protestou Bulero. —
Fez-me dormir e depois me amarrou desta maneira.
— Fume um charuto. — A engenhoca eletrônica lançou
uma extensão, que colocou a seu alcance um longo charuto
verde. A ponta do charuto acendeu-se automaticamente e a
longa pseudópode ofereceu-o a Leo Bulero. — Trouxe de
Prox umas 10 caixas destes, mas só uma caixa salvou-se do
acidente. Não é tabaco. É superior a tabaco. O que é, Leo? O
que é que você quer?
— Você está nessa coisa aí, Eldritch? — perguntou Leo
Bulero. — Ou está em algum outro lugar, falando através
dela?
— Contente-se — disse a voz que emanava do aparelho
de metal em cima da mesa. Continuou a oferecer o charuto
aceso, recolheu-o em seguida, apagou-o e fez desaparecer
os restos dentro de si mesma. — Gostaria de ver
diapositivos coloridos de minha viagem ao sistema de Prox?
— Você está brincando.
— Não estou — garantiu Palmer Eldritch. — Eles lhe darão
alguma idéia do que enfrentei. São dispositivos em 3-D, com
lapsos de tempo, muito bons.
— Não, obrigado.
— Nós — continuou Eldritch — encontramos aquele dardo,
implantado em sua língua. Foi removido. Mas você talvez
tenha mais alguma coisa, ou pelo menos é o que
suspeitamos.
— Você está me dando um largo crédito — disse Leo. —
Mais do que eu mereço.
— Nos quatro anos que passei em Prox, aprendi muitas
coisas. Seis anos em viagem, quatro como residente. O
pessoal de Prox vai invadir a Terra.
— Você está brincando comigo — disse Leo.
— Entendo perfeitamente sua reação — concordou
Eldritch. — A ONU, em particular Hepburn-Gilbert, reagiu da
mesma maneira. Mas é verdade... embora não no sentido
convencional, claro, mas de uma maneira mais profunda,
mais rude, que não entendi bem, mesmo que houvesse
passado tanto tempo entre eles. Tanto quanto sei, pode ter
alguma coisa a ver com o aquecimento da Terra. Ou pode
haver coisa pior a caminho.
— Vamos conversar a respeito do líquen que você trouxe.
— Eu o consegui ilegalmente. Os proximianos não sabem
que me apossei de um pouco da coisa. Eles próprios o usam,
em orgias religiosas. Como nossos índios usavam a
mescalina e o peyotl. Era sobre isso que você queria me
falar?
— Claro que era. Você está se metendo no meu negócio.
Sei que você já fundou uma empresa. Não fundou? Não dou
a mínima bola para essa história de proximianos invadindo
nosso sistema. É com você que estou zangado, com o que
você está fazendo. Você não pode arranjar outro campo para
explorar, além do de cenários de miniatura?
O cômodo explodiu em sua cara. Luz branca desceu,
envolvendo-o, e ele fechou com força os olhos. Jesus,
pensou. De qualquer modo, não acredito nessa a respeito de
proximianos. Ele está simplesmente tentando desviar nossa
atenção para o que tenciona fazer. Quero dizer, é uma
estratégia.
Abriu os olhos e notou que estava sentado num campo
relvado. Ao seu lado, uma garotinha brincava com um ioiô.
— Esse brinquedo — disse — é popular no sistema de
Prox. — Seus braços e as pernas não estavam mais
amarrados, notou. Levantou-se meio duro e mexeu os
membros. — Qual é o seu nome? — perguntou.
— Mônica — respondeu a menininha.
— Os proximianos — disse Leo — , os tipos humanóides,
pelo menos usam perucas e dentaduras postiças. — Segurou
os abundantes e luminosos cabelos louros da menina e
puxou-os.
— Ai — exclamou a menina. — O senhor é um homem
mau.
Ele soltou-a e ela recuou, brincando ainda com o ioiô e
olhando-o zangada e desafiadora.
— Desculpe — murmurou ele. O cabelo dela era
autêntico. Talvez ele não estivesse no sistema de Prox. De
qualquer modo, onde quer que estivesse, Palmer Eldritch
estava tentando dizer-lhe alguma coisa — Você está
planejando invadir a Terra? — perguntou à criança. — Quero
dizer, você não parece que está. — Será que Eldritch podia
ter entendido mal a coisa?, especulou. Entendido mal os
proximianos? Afinal de contas, tanto quanto sabia, Palmer
não evoluíra, não possuía a compreensão poderosa,
ampliada, que a Terapia E proporcionava.
— Meu ioiô — explicou a menina — é mágico. Posso fazer
com ele o que quiser. O que é que eu vou fazer? Digo, o
senhor parece um homem bondoso.
— Leve-me ao seu líder — disse Leo. — Isto é uma velha
brincadeira. Você não a compreenderia. Saiu de moda há
cem anos. — Olhou em volta e não viu sinais de habitação,
apenas a planície relvada. Fria demais para a Terra,
compreendeu. No alto, o céu azul. Ar bom, pensou. Denso.
— Você está com pena de mim — perguntou — porque
Palmer Eldritch está-se metendo no meu negócio e, se fizer
isso, eu ficarei provavelmente arruinado? Vou ter que fazer
algum negócio com ele. — Parece que, agora, matá-lo está
fora de cogitação, disse sombriamente a si mesmo. — Mas
— continuou — não consigo imaginar proposta alguma que
ele aceite. Parece que ele tem todas as cartas na mão. Veja
só como ele me trouxe até aqui, e eu nem mesmo sei que
lugar é este. — Não que isso tenha importância,
compreendeu, porque, onde quer que se localize, Eldritch o
controla.
— Cartas — lembrou-se a menina. — Eu tenho um baralho
em minha valise.
Ele não viu valise alguma.
— Onde?
Ajoelhando-se, a menina tocou na grama aqui e ali. De
repente, uma seção deslizou suavemente para trás. A
menina enfiou a mão na cavidade e tirou uma valise.
— Eu a mantenho escondida — explicou. — Dos
patrocinadores.
— O que é que você quer dizer com isso de
"patrocinador"?
— Bem, para estar aqui, a pessoa precisa de um
patrocinador. Todos nós temos um deles. Acho que eles
pagam por tudo, pagam até que ficamos bons e, depois,
podemos voltar para casa, se temos casa. — Sentou-se ao
lado da valise e abriu-a — ou pelo menos tentou. A
fechadura não funcionou. — Droga — disse ela. — Esta é a
errada. Esta é a do doutor Smile.
— O psiquiatra? — perguntou Leo, alerta. — De um
daqueles grandes condomínios de apartamento? Está
funcionando? Ligue-a.
Atenciosamente, a menina ligou o psiquiatra.
— Olá, Mônica — disse em voz metálica a valise. — Olá,
também, senhor Bulero. — Pronunciou o nome erradamente,
pondo o acento na última sílaba. — O que é que o senhor
está fazendo aqui, senhor? O senhor é velho demais para
estar aqui. Ou foi regredido, devido à desaconselhável
Terapia E em rggggg click! — A coisa girou, agitada. —
Terapia em Munique? — terminou.
— Eu me sinto muito bem — garantiu-lhe Leo. — Escute
aqui, Smile, quem é que você conhece, que eu também
conheça, e que possa me tirar daqui? Dê o nome de alguém,
qualquer pessoa. Não posso mais continuar aqui, entendeu?
— Conheço um certo senhor Bayerson — disse o doutor
Smile. — Na verdade, estou com ele neste exato momento,
graças a uma extensão portátil, claro, no escritório dele.
— Eu não conheço ninguém chamado Bayerson — disse
Leo. — Que lugar é este? Obviamente, é uma estação de
repouso de algum tipo, para crianças doentes ou alguma
outra droga de coisa. Eu pensava que isto aqui estivesse no
sistema de Prox, mas, se você está aqui, obviamente este
não é o caso. Bayerson. — Ocorreu-lhe, então: — Diabo,
você quer dizer Mayerson. Barney. Lá na P.P. Layouts.
— Sim, exatamente — confirmou o doutor Smile.
— Entre em contato com ele — ordenou Leo. — Diga a ele
para entrar em contato com Félix Blau, imediatamente, na
Agência Policial Triplanetária, ou qualquer que seja o nome.
Diga a ele para dizer a Blau que faça investigações,
descubra exatamente onde estou e que envie uma nave
para cá, entendeu?
— Tudo bem — respondeu o doutor Smile. — Vou entrar
em contato, imediatamente, com o senhor Mayerson. Ele
está conferenciando com a senhorita Fugate, assistente, que
é também amante dele e que hoje está usando... hummm.
Estão conversando a seu respeito neste exato minuto. Mas,
claro, não posso relatar o que estão dizendo, a ética médica,
o senhor compreende. Ela está usando....
— Tudo bem, mas quem é que quer saber disso? —
perguntou irritado Leo.
— Queira me desculpar por um momento — retrucou a
valise. — Enquanto eu desligo. — A voz parecia magoada.
Em seguida, silêncio.
— Tenho más notícias para o senhor — disse a criança.
— O que é?
— Eu estava brincando. Esse aí não é realmente o doutor
Smile. É apenas um fingimento, para evitar que a gente se
sinta solitária. E viva, mas não está ligada a coisa alguma
fora de si mesma. E o que chamam estar em intrínseco.
Ele sabia o que aquilo significava: a unidade era auto-
suficiente. Mas, neste caso, como poderia ter sabido a
respeito de Barney e da senhorita Fugate, descendo até a
detalhes sobre a vida pessoal de ambos? Até sobre o que ela
estava usando? A criança não estava dizendo a verdade,
obviamente.
— Quem é você? — perguntou. — Mônica de quê? Quero
saber seu nome completo. — Havia nela alguma coisa
conhecida.
— Voltei — anunciou de repente a valise. — Bem, senhor
Bulero — mais uma vez a pronuncia errada — discuti seu
dilema com o senhor Mayerson, e ele vai entrar em contato
com Félix Blau, como o senhor solicitou. O senhor Mayerson
acha que se lembra de ter lido certa vez num jornal alguma
coisa sobre um acampamento da ONU, muito parecido com
este que o senhor está experimentando, em algum lugar na
região de Saturno, destinado a crianças retardadas. Talvez...
— Droga — protestou Leo — , essa criança não é
retardada. No mínimo, ela era precoce. Aquilo não fazia
sentido. Mas o que de fato fazia sentido era a certeza de que
Palmer Eldritch queria alguma coisa dele. Aquilo não era
meramente uma questão de impressioná-lo, mas de
intimidá-lo.
No horizonte, uma sombra apareceu, imensa e cinzenta,
aumentando de tamanho, enquanto vinha em velocidade
apavorante na direção deles. Possuía feias suíças arrepiadas.
— Aquilo é um rato — disse calmamente Mônica.
— Desse tamanho? — pergunto Leo. Em nenhum lugar do
sistema solar, em nenhuma das luas ou planetas, existia
uma criatura feroz tão enorme.
— O que é que ele vai fazer com a gente? — perguntou,
espantado porque a garota não demonstrava medo.
— Oh — respondeu Mônica — acho que vai nos matar.
— E isso não a assusta? — Ouviu sua própria voz subindo
para as alturas de um grito. — Quero dizer, você quer
morrer assim, e agora mesmo? Comida por um rato do
tamanho de... — Pegou a menina com uma das mãos, a
valise do doutor Smile com a outra, e começou a afastar-se
pesadamente do rato.
O rato chegou até eles, prosseguiu em seu caminho e foi-
se embora; sua forma foi diminuindo até que finalmente
desapareceu. A menina soltou uma risadinha zombeteira.
— Ele fez medo a você. Eu sabia que ele não nos veria.
Não podem. Eles aqui são cegos para nós.
— Eles são?
Soube, então, onde estava. Félix Blau não o descobriria.
Ninguém descobriria, mesmo que o procurasse por todo o
sempre.
Eldritch lhe aplicara uma injeção intravenosa da droga de
traslado, sem dúvida a Mascar-Z. Aquele lugar era um
mundo inexistente, análogo à "Terra" irreal para a qual iam
os colonos trasladados quando mastigavam seu próprio
produto, a Can-D.
E o rato, ao contrário de tudo mais, era autêntico. Ao
contrário deles. Ele e aquela menina... Eles tampouco eram
reais. Pelo menos, não ali. Em algum lugar, seus corpos
vazios, silenciosos, estavam caídos como sacos,
abandonados, por ora, pelo conteúdo cerebral. Sem dúvida,
os corpos de ambos encontravam-se na propriedade lunar
de Palmer Eldritch.
— Você é Zoé — disse ele. — Não é? E assim que você
quer ser, uma menininha novamente, de uns oito anos de
idade. Certo? Com longos cabelos louros. — E mesmo,
compreendeu, com um nome diferente.
Secamente, a menina respondeu:
— Não há pessoa alguma chamada Zoé.
— Ninguém, apenas você. Seu pai é Palmer Eldritch,
certo? Com grande relutância, a menina confirmou com um
aceno.
— Isto aqui é um lugar especial seu? — perguntou ele. —
Ao qual vem com freqüência?
— Este é o meu lugar — disse categórica a menina. —
Ninguém vem aqui sem minha permissão.
— Se assim é, por que deixou que eu viesse aqui? —
Sabia que ela não gostava dele. Não gostara, desde o
começo.
— Porque — explicou a menina — nós pensamos que você
talvez possa impedir que os proximianos façam o que quer
que estejam fazendo.
— Isso, novamente — disse ele, simplesmente não
acreditando nela. — Seu pai...
— Meu pai — declarou a menina — está tentando nos
salvar. Não quis trazer a Mascar-Z para cá. Eles o obrigaram
a fazer isso. A Mascar-Z é o agente através do qual vamos
ser entregues a eles. Compreendeu?
— Como?
— Porque eles controlam estas áreas. Como esta, para
onde as pessoas vão quando tomam Mascar-Z.
— Você não parece estar sob nenhum tipo de controle
alienígena. Olhe só o que está me contando.
— Mas ficarei — retrucou a menina, inclinando séria a
cabeça. — Logo. Exatamente como meu pai está agora. Ele
foi obrigado a tomar a droga em Prox. Está tomando há
anos. E tarde demais para ele, e ele sabe disso.
— Prove-me tudo isso — ordenou Leo. — Na verdade,
prove qualquer parte, mesmo uma única parte. Dê-me
alguma coisa concreta com que eu possa trabalhar.
A valise, que ele ainda segurava na mão, disse nesse
instante:
— O que Mônica está dizendo é verdade, senhor Bulero.
— Como é que você sabe? — perguntou ele, aborrecido
com a valise.
— Porque — respondeu a valise — eu também .estou sob
a influência dos proximianos. E por isso que eu...
— Você não fez coisa alguma — queixou-se Leo. Pôs a
valise no chão. — O diabo leve aquele Mascar-Z — disse a
ambos, à valise e à menina. — Tornou tudo confuso. Não sei
que diabo está acontecendo. Você não é Zoé... nem mesmo
sabe quem é ela. E você... você não é o doutor Smile, não
ligou para Barney e ele não estava conversando com a
senhorita Fugate. Tudo isto é uma alucinação induzida pela
droga. São meus próprios medos de Palmer Eldritch que me
são devolvidos, esse lixo de ele estar sob a influência dos
proximianos, e vocês também. Quem foi que jamais ouviu
falar de uma valise ser dominada por mentes de um sistema
estelar alienígena? — Profundamente indignado, afastou-se
deles.
Eu não sei o que é que está acontecendo, compreendeu
ele. Esta é a maneira que Palmer está usando para obter o
domínio de minha mente. Isso é uma forma do que,
antigamente, chamavam de lavagem cerebral. Ele me botou
para correr, apavorado. Medindo cuidadosamente os passos,
continuou a andar, sem olhar para trás.
Foi um erro quase fatal. Alguma coisa — vislumbrou-a
pelo canto do olho — lançou-se contra suas pernas. Saltou
para um lado e a coisa passou por ele, dando a volta
imediatamente, enquanto se reorientava e via-o novamente
como presa.
— Os ratos não podem vê-lo — gritou a menina — mas os
glucks podem! E melhor você correr!
Sem ver claramente a coisa — vira o suficiente — ele
correu.
E o que vira não podia atribuir a Mascar-Z. Porque não
era uma ilusão, não um aparelho qualquer de Palmer
Eldritch para apavorá-lo. O gluck, o que quer que fosse, não
tivera origem na Terra ou numa mente terrena.
Às suas costas, abandonando a valise, a menina corria
também.
— E eu? — perguntou ansioso o doutor Smile. Ninguém
voltou para apanhá-lo.

NA VIDEOTELA, a imagem de Félix Blau disse:


— Processei o material que o senhor me forneceu, senhor
Mayerson. O conjunto resultou em indícios convincentes de
que seu empregador, o senhor Bulero — que é também
cliente meu — encontra-se atualmente num pequeno satélite
artificial em órbita em torno da Terra, legalmente intitulado
Sigma 14-B. Consultei os registros de propriedade e parece
que ele pertence a um fabricante de combustível para
foguetes de St. George, Utah. — Examinou os papéis à sua
frente. — A Robard Lethane Sales. Lethane é o nome
comercial da marca de combustível que a firma...
— Muito bem — cortou-o Barney Mayerson. — Entrarei em
contato com ela. — Como, em nome de Deus, Leo Bulero
fora acabar ali?
— Há mais um item de possível interesse. A Robard
Lethane Sales foi fundada no mesmo dia, há quatro anos,
que as Indústrias Mascar-Z, de Boston. Isso me parece mais
do que uma simples coincidência.
— Que tal tirar Leo do satélite?
— O senhor poderia impetrar um mandado de
segurança...
— Ia demorar demais — retrucou Barney.
Sentia um profundo e desagradável senso de
responsabilidade pessoal pelo que acontecera.
Evidentemente, Palmer Eldritch organizara a entrevista
coletiva como pretexto para atirar Leo para sua propriedade
lunar — e ele, o precog Barney Mayerson, o homem que
podia sondar o futuro, fora enganado e fizera habilmente sua
parte para botar Leo naquele lugar.
— Posso lhe oferecer — continuou Félix Blau — uns 100
homens dos vários escritórios de minha organização. E o
senhor deve poder conseguir mais uns 50 aí na P.P. Layouts.
O senhor poderia tentar invadir o satélite.
— E encontrá-lo morto.
— E verdade. — Blau pareceu fazer um muxoxo. — Bem,
o senhor poderia procurar Hepburn-Gilbert e solicitar ajuda
da ONU. Ou tentar entrar em contato — e isso é um osso
ainda mais duro de roer — entrar em contato com Palmer ou
quem quer que esteja ocupando o lugar dele, e tratar
diretamente com a coisa. Verificar se pode comprar Leo de
volta.
Barney cortou o circuito. Imediatamente, discou pedindo
uma linha para fora do planeta, dizendo:
— Ligue-me com Palmer Eldritch, em Luna. E uma
emergência. Gostaria que apressasse a ligação, senhorita.
Enquanto esperava que a ligação fosse completada, Roni
Fugate falou do outro lado do escritório:
— Aparentemente, não vamos ter tempo de nos vender a
Eldritch.
— É o que parece.
Tudo aquilo fora feito com extrema perfeição. Eldritch
deixara que seu adversário se encarregasse de todo o
trabalho. E nós, também, compreendeu, Roni e eu. Ele
provavelmente nos pegará da mesma maneira. Na verdade,
Eldritch poderia estar à espera de nosso vôo até o satélite.
Isto explicaria o fato de ele ter fornecido a Leo o doutor
Smile.
— Eu estou em dúvida — disse Roni, mexendo no fecho
da blusa — se gostaríamos de trabalhar para um homem tão
inteligente assim. Se é um homem. Acho cada vez mais que
não foi realmente Palmer quem voltou, mas um deles. Acho
que vamos ter que aceitar esse fato. A próxima coisa que
podemos esperar é a Mascar-Z inundando o mercado. Com a
sanção da ONU. — O tom de voz dela era amargo. — E Leo,
que pelo menos é um de nós e que simplesmente quer
ganhar algumas peles, será morto ou expulso... — Furiosa,
olhou diretamente para a frente.
— Patriotismo — comentou Barney.
— Autoconservação. Não quero me ver em alguma manhã
mastigando esse troço, fazendo o que quer que se faça
quando ele é mascado, em vez de Can-D. Indo... não para a
terra de Perky Pat, isso é certo.
A telefonista, no videofone, disse nesse momento:
— Tenho na linha uma certa senhorita. Zoé Eldritch,
senhor. Quer falar com ela?
— Tudo bem — concordou Barney, resignado.
Uma mulher elegantemente vestida, olhos vivos, cabelos
abundantes amarrados atrás, num coque, fitou-o da tela em
miniatura.
— Sim.
— Eu sou Mayerson, da P.P. Layouts. O que é que temos
que fazer para trazer Leo Bulero de volta? — Esperou.
Nenhuma resposta. — A senhorita sabe do que estou
falando, não?
No mesmo instante, ela respondeu:
— O senhor Bulero chegou aqui, à propriedade, e
adoeceu. Ele está repousando em nossa enfermaria. Quando
estiver melhor...
— Posso enviar um médico da companhia para examiná-
lo?
— Naturalmente. — Zoé Eldritch nem piscou.
— Por que não nos avisou?
— Isso só agora nos ocorreu. Meu pai ia ligar. Parece que
não é nada mais do que uma reação à mudança de
gravidade. Na verdade, isso é muito comum com as pessoas
mais idosas que aqui chegam. Não tentamos nos aproximar
da gravidade da Terra, como o senhor Bulero faz em seu
próprio satélite. De modo que, como o senhor vê, é um caso
realmente muito simples. — Sorriu de leve. — No mais
tardar, o senhor o terá de volta hoje, no final do dia.
Suspeitou de alguma outra coisa?
— Eu suspeito — retrucou Barney — que Leo não está
mais em Luna, mas num satélite da Terra chamado Sigma
14-B, que pertence a uma firma de St. George, da qual
vocês são os donos. Não é isso? E o que encontraremos em
sua enfermaria na propriedade não será Leo Bulero.
Roni olhou-o fixamente.
— Sinta-se à vontade para vê-lo pessoalmente — disse
Zoé, com a expressão pétrea. — É Leo Bulero, pelo menos
tanto quanto sabemos. Foi o que chegou aqui com os
repórteres dos jornais.
— Eu irei à propriedade — disse Barney. E sabia que
estava cometendo um erro. Era isso o que lhe dizia sua
capacidade de precognição. Na extremidade mais distante
do escritório, Roni Fugate levantou-se de um salto. Sua
capacidade captara também a coisa. Desligando o
videofone, ele disse: — Empregado da P.P. Layouts comete
suicídio. Correto? Ou alguma manchete parecida. Nos jornais
matutinos, amanhã.
— A manchete exata... — começou Roni.
— Não quero ouvir a manchete exata.
Mas seria por exposição aos elementos, sabia. Corpo de
homem encontrado na rampa de pedestres ao meio-dia,
morto por radiação solar excessiva. Em algum lugar, no
centro de Nova Iorque. Em qualquer lugar onde a
organização de Eldritch o tivesse deixado. Onde o lançaria.
Nesta coisa, bem que poderia ter dispensado sua
faculdade precognitiva. Uma vez que não tencionava agir
com base em sua previsão.
O que perturbava mais era a foto no jornal, uma vista em
close-up de seu corpo encolhido, sob efeito do sol.
A porta do escritório, parou, e ficou simplesmente ali.
— Você não pode ir — disse Roni.
— Não. — Não, depois de ter previsto a foto.
Compreendeu que Leo teria que cuidar de si mesmo.
Voltando à escrivaninha, sentou-se outra vez.
— O único problema — disse Roni — é que vai ser difícil
explicar a ele a situação. Que você não fez coisa alguma.
— Eu sei. — Mas aquele não era o único problema. Na
verdade, quase nem era um problema.
Porque Leo, provavelmente, não iria voltar.
S EIS

O GLUCK pegara-o pelo tornozelo e tentava sugá-lo:


penetrara na carne com minúsculo tubos que pareciam
cílios. Leo Bulero gritou... e, inesperadamente, ali estava
Palmer Eldritch.
— Você se enganou — disse Eldritch.— Eu não encontrei
Deus no sistema de Prox. Mas descobri algo melhor. — Com
um graveto, deu uma cutucada no gluck. Relutante, o bicho
retirou os cílios e contraiu-se até soltar Leo, caiu no chão e
se afastou, enquanto Eldritch continuava a espicaçá-lo. —
Deus — continuou Eldritch — promete vida eterna. Eu posso
fazer melhor do que isso: posso dar vida.
— Dar como? — Fraco e trêmulo de alívio, Leo arriou-se
no solo relvoso, sentou-se, arquejou, procurando recuperar o
fôlego.
— Através do líquen que estamos vendendo sob o nome
de Mascar-Z — explicou Eldritch. — Ele tem muito pouca
semelhança com seu próprio produto, Leo. A Can-D é
obsoleta. O que é que ela faz? Proporciona alguns momentos
de fuga, nada mais que fantasia. Quem quer isso? Quem
necessita disso, quando as pessoas podem obter de mim o
artigo autêntico? — E acrescentou: — Nós conseguimos
agora.
— Foi o que pensei. Mas se você pensa que pessoas vão
gastar dinheiro numa experiência como esta... — Fez um
gesto para o gluck , ainda à espreita, próximo, um olho nele
e o outro em Eldritch. — ...você não está simplesmente fora
de seu corpo, mas da mente, também.
— Esta é uma situação especial, a fim de lhe provar que
isto é autêntico. Nesse particular, coisa alguma excede a dor
e o pavor físico. O gluck lhe mostrou com absoluta clareza
que isto não é uma fantasia. Ele poderia tê-lo matado. E se
você morresse aqui, tudo acabaria. Diferente da Can-D, não?
— Eldritch estava visivelmente saboreando a situação. —
Quando descobri o líquen no sistema de Prox, não pude
acreditar. Já vivi 100 anos, Leo, usando-o no sistema de
Prox, sob a direção dos médicos de lá. Tomei-o oralmente,
intravenosamente, sob a forma de supositório... queimei-o e
inalei a fumaça, transformei-o em produto solúvel em água,
fervi-o e aspirei-lhe os vapores. Experimentei-o de todas as
formas possíveis e ele não me fez mal. O efeito sobre os
proximianos é pequeno, nada parecido com o que faz
conosco. Para eles, é um estimulante mais fraco do que o
fumo de melhor qualidade que possuem lá. Quer ouvir mais?
— Não, especialmente.
Eldritch sentou-se próximo, descansou o braço artificial
sobre os joelhos dobrados e, preguiçosamente, mexeu o
graveto de um lado para o outro, olhando para o gluck , que
ainda não fora embora.
— Quando voltarmos aos nossos antigos corpos — note o
emprego da palavra "antigo", um termo que não se aplicaria
com sua Can-D, e por uma razão muito boa — você
descobrirá que tempo algum passou. Poderíamos ficar aqui
50 anos e seria a mesma coisa. Emergiríamos de volta na
propriedade em Luna e descobriríamos que nada mudou e,
quem quer que nos estivesse vigiando não veria lapso algum
de consciência, como acontece com a Can-D, nenhum
transe, nenhum estupor. Oh, talvez, uma batida de
pálpebras. Uma fração de segundo. Estou disposto a
reconhecer isso.
— O que é que determina a duração do tempo aqui? —
perguntou Leo.
— Nossa atitude. Não a quantidade tomada. Podemos
voltar a qualquer momento que desejarmos. De modo que o
volume da droga não precisa ser...
— Isso não é verdade, porque já há algum tempo estou
querendo sair daqui.
— Mas — disse Eldritch — você não construiu isto... este
estabelecimento aqui. Eu o fiz e é meu. Criei os glucks, esta
paisagem... — fez um gesto com o graveto — cada droga de
coisa que você vê, incluindo seu corpo.
— Meu corpo? — Leo passou uma revista em si mesmo.
Era o corpo habitual, com o qual estava acostumado,
intimamente conhecido. Era seu, não de Eldritch.
— Com um ato de vontade, quis que você emergisse aqui
exatamente como você é em nosso universo — prosseguiu
Eldritch. — Compreenda, esse foi o aspecto que atraiu
Hepburn-Gilbert, o qual, naturalmente, é budista. Você pode
reencarnar em qualquer forma que desejar, ou que alguém
desejar para você, como nesta situação.
— Então foi por isso que a ONU topou a parada —
comentou Leo. Isso explicava muita coisa.
— Com o emprego de Mascar-Z, o indivíduo pode passar
de uma vida a outra, ser um inseto, um professor de física,
um falcão, um protozoário, um mofo na lama, um pedestre
em Paris em 1904, um...
— Até mesmo — observou Leo — um gluck. Qual de nós é
aquele gluck ali?
— Eu lhe disse: eu o construí de uma parte de mim. A
pessoa pode criar qualquer coisa. Vamos... projete uma
fração de sua essência e ela assumirá uma forma material
própria. O que você fornece é o logos. Lembra-se disso?
— Eu me lembro — disse Leo. Concentrou-se e logo
depois, não muito longe dali, formou-se uma massa
desajeitada de fios, barras e coisas parecendo longarinas.
— O que diabo é aquilo? — perguntou Eldritch.
— Uma armadilha para glucks.
Eldritch lançou a cabeça para trás e soltou uma
gargalhada.
— Muito boa. Mas, por favor, não construa uma armadilha
para Palmer Eldritch. Há ainda umas coisas que eu quero
dizer.
Ele e Leo observaram o gluck aproximar-se desconfiado
da armadilha, farejando. Entrou e a armadilha fechou-se
com um estrondo O gluck estava preso e naquele momento
a armadilha deu fim a ele: um chiado rápido, uma pequena
coluna de fumaça, e o gluck desapareceu.
No ar, à frente de Leo, uma pequena parte tremeluziu.
Dela saiu um livro preto, que ele pegou, folheou e, contente,
pôs no colo.
— O que é isso? — perguntou Eldritch.
— Uma Bíblia. Achei que podia servir para me proteger.
— Não aqui — declarou Eldritch. — Este domínio é meu.
— Fez um gesto para a Bíblia, que desapareceu. — Mas você
pode ter o seu, e enchê-lo de Bíblias. Como qualquer pessoa
pode fazer. Logo que nossas operações começarem. Vamos
ter cenários, claro, mas isso virá mais tarde, com nossas
atividades terrenas. E, de qualquer modo, isso será uma
formalidade, um ritual para facilitar a transição. A Can-D e a
Mascar-Z serão vendidas na mesma base, em concorrência
aberta. Não alegaremos coisa alguma em favor de nosso
produto que você não faça pelo seu. Não queremos assustar
as pessoas. A religião tornou-se assunto delicado. Só depois
de algumas experiências é que as pessoas compreenderão
os dois aspectos diferentes: a falta de um lapso temporal, e
o outro, talvez o mais vital: que não é fantasia, que elas
podem entrar em um novo e autêntico universo.
— Muitas pessoas sentem-se assim a respeito da Can-D —
observou Leo. — Sustentam, como se fosse um artigo de fé,
que estão realmente na Terra.
— Fanáticos — respondeu enojado Eldritch. —
Obviamente, trata-se de uma ilusão porque não há Perky Pat
alguma e nenhum Walt Essex e, de qualquer modo, a
estrutura do meio de fantasia delas é limitada pelos
artefatos instalados no cenário. Não podem operar um
lavador de pratos automático na cozinha, a menos que um,
miniaturizado, tenha sido instalado antes. E uma pessoa que
não participe pode observar e ver que as duas bonecas não
vão a parte alguma. Não há ninguém nelas. Pode ser
demonstrado...
— Mas você vai ter problemas para convencer essas
pessoas — retrucou Leo. — Elas permanecerão leais a Can-
D. Não há qualquer insatisfação real com Perky Pat. Por que
deveriam elas renunciar a...
— Eu lhe digo — cortou-o Eldritch. — Porque, por mais
que seja maravilhoso ser Perky Pat e Walt durante algum
tempo, no fim elas são forçadas a voltar a seus alojamentos.
Sabe como é que elas se sentem nessas ocasiões, Leo?
Experimente algumas vezes. Acorde num alojamento em
Ganimedes, depois de ter sido livre durante 20, 30 minutos.
É uma experiência que você nunca esquecerá.
— Hummmm.
— E há mais uma coisa... e você sabe o que é, também.
Quando passa o pequeno período de fuga e o colono volta...
ele não está em condições de reassumir uma vida normal,
diária. Está desmoralizado. Mas se, em vez de Can-D, ele
tivesse mascado...
Interrompeu-se. Leo não o estava escutando, mas
absorvido na construção de outro artefato no ar, à sua
frente.
Apareceu um curto lance de escada, levando a um arco
luminoso. A ponta mais distante do lance de escada não
podia ser vista. — Até onde vai isso? — perguntou Eldritch,
uma expressão irritada no rosto.
— Até a cidade de Nova Iorque — respondeu Leo. — Vai
me levar de volta à P.P. Layouts. — Levantou-se e dirigiu-se
para a escada. — Tenho um palpite, Eldritch, que há alguma
coisa errada, algum aspecto dessa Mascar-Z... E não vamos
descobrir qual é até que seja tarde demais. — Começou a
subir os degraus, mas nesse momento lembrou-se da
menina Mônica. Perguntou a si mesmo se ela estava bem, ali
no mundo de Palmer Eldritch. — O que é que você me diz da
criança? — Parou na subida. Embaixo dele, mas
aparentemente muito distante, via ainda Eldritch, sentado
na grama, com o graveto na mão. — Os glucks não a
pegaram, pegaram?
— Eu era a menininha — disse Eldritch. — E isso o que
estou tentando lhe explicar. É por isso que digo que isto é
uma reencarnação autêntica, uma vitória sobre a morte.
Pestanejando, Leo disse:
— Então, o motivo por que ela me pareceu conhecida... —
Calou-se e olhou outra vez.
Eldritch não se encontrava mais ali. A criança, Mônica,
com sua valise cheia de doutor Smile, estava sentada no
lugar que ele ocupara antes. De modo que, nesse momento,
a coisa era evidente.
Ele estava — ela, eles, estavam dizendo a verdade.
Lentamente, desceu a escada e pisou na grama mais
uma vez.

— ESTOU CONTENTE porque o senhor não vai-se embora,


senhor Bulero — disse Mônica, a criança. — E bom ter uma
pessoa tão sabida e evoluída como o senhor para conversar.
— Deu uma palmadinha na valise, que se encontrava sobre
a relva a seu lado. — Voltei e fui buscá-la. Ela estava
apavorada com os glucks. Estou vendo que o senhor
descobriu alguma coisa para acabar com eles. — Inclinou a
cabeça na direção da armadilha de glucks que, nesse
momento, vazia, esperava outra vítima. — Muito engenhoso
de sua parte. Eu não havia pensado nisso. Simplesmente,
fugi correndo de lá. Uma reação de pânico diencéfalico.
Hesitante, Leo perguntou:
— Você é Palmer, não é? Quero dizer, por baixo? De
verdade?
— Veja a doutrina medieval da substância versus
acidentes — respondeu cordialmente a criança. — Meus
acidentes são os desta criança, mas a minha substância, tal
como o vinho e a hóstia na transubstanciação...
— Muito bem — disse Leo. — Você é Eldritch. Acredito em
você. Mas continuo a não gostar deste lugar. Aqueles
glucks...
— Não culpe a Mascar-Z por causa deles — disse a
criança.— Bote a culpa em mim. Eles são produtos de minha
mente, não do líquen. Todo novo universo construído tem
que ser bonzinho? Eu gosto de glucks no meu. Eles atraem
alguma coisa que há em mim.
— Suponhamos que eu também queira construir meu
próprio universo — disse Leo. — Talvez haja também alguma
coisa má em mim, em algum aspecto de minha
personalidade. Não sei. Isso me levaria a criar uma coisa
ainda mais horripilante do que a que você criou.
Pelo menos no caso dos cenários de Perky Pat o indivíduo
era limitado pelo que se fornecia antes, conforme o próprio
Eldritch observara. E havia certa segurança nisso.
— O que quer que fosse, poderia ser abolido — respondeu
indiferente a criança. — Se descobrisse que não gostou de
sua criação. E se gostasse... — encolheu os ombros —
poderia conservá-la. Por que não? Quem seria prejudicado?
Você está sozinho no seu... — No mesmo instante, ela calou-
se e levou a mão à boca.
— Sozinho — repetiu Leo. — Você quer dizer que cada
pessoa vai para um diferente mundo subjetivo? Não é como
as representações, então, porque todas as pessoas do grupo
que tomam a Can-D participam do cenário, os homens como
Walt, as mulheres como Perky Pat. Mas isso significa que
você não está aqui. — Ou, pensou, eu não estou aqui. Mas,
nesse caso...
A criança observava-o atentamente, tentando avaliar-lhe
a reação.
— Nós não tomamos Mascar-Z — disse tranqüilamente
Leo. — Tudo isto é um pseudo-ambiente hipnogógico,
artificialmente induzido, sem dúvida alguma. Não estamos
em parte alguma, exceto no lugar onde começamos.
Estamos ainda na sua propriedade em Luna. Mascar-Z não
cria novo universo algum, e você sabe disso. Com a droga
não há uma reencarnação autêntica. Tudo isto é apenas uma
grande ilusão.
A criança ficou calada. Não despregara os olhos dele,
brilhantes, frios, ardentes, sem pestanejar.
— Ora, vamos, Palmer — disse Leo — o que é que a
Mascar-Z faz, realmente?
— Eu lhe disse. — A voz da criança se tornara áspera.
— Isto não é nem mesmo tão real como Perky Pat, como
o uso de nossa própria droga. E mesmo isso está sujeito à
dúvida no que interessa, à validade da experiência, sua
autenticidade versus estado puramente hipnogógico ou
alucinatório. De modo que, obviamente, não cabe qualquer
discussão a este respeito. Evidentemente, trata-se do último
caso.
— Não — protestou a criança — e é melhor acreditar em
mim porque, se não acreditar, não sairá vivo deste mundo.
— Ninguém pode morrer numa alucinação — respondeu
Leo. — Assim como ninguém pode renascer. Vou voltar para
a P.P. Layouts. — Uma vez mais, dirigiu-se para o lance de
escada.
— Pois vá em frente e suba — disse a criança às suas
costas. — Não me importa. Espere só para ver até onde essa
escada vai levá-lo.
Leo subiu a escada e passou pelo arco luminoso.
Ferozmente ofuscante, a luz quente do sol caiu sobre ele.
A toda velocidade, correu pela rua deserta até a porta de um
abrigo próximo.
Um táxi a jato, saído dos altos edifícios, desceu,
observando-o.
— Uma corrida, senhor? E melhor entrar. Já é quase meio-
dia. Arquejante, quase sem poder respirar, Leo respondeu:
— Quero, obrigado. Leve-me a P.P. Layouts.
Cambaleante, subiu no táxi e derreou-se imediatamente
no assento, resfolegando no frescor proporcionado pelo
escudo antitérmico do veículo.
O táxi decolou. Momentos depois, descia no campo
fechado do prédio central de sua companhia.
Logo que chegou à ante-sala de seu gabinete, ordenou à
senhorita Gleason:
— Procure Mayerson. Descubra por que ele não fez coisa
alguma para me salvar.
— Salvá-lo? — perguntou consternada a senhorita
Gleason. — O que foi que aconteceu, senhor Bulero? —
Seguiu-o até o gabinete privativo. — Onde foi que o senhor
esteve e de que maneira...
— Simplesmente, localize Mayerson. Sentou-se à velha
escrivaninha, satisfeito por estar de volta. O diabo levasse
Palmer Eldritch, disse a si mesmo e procurou na gaveta seu
cachimbo inglês predileto de raiz e a lata de 250 g de fumo
Sail, uma mistura premiada holandesa.
Estava acendendo o cachimbo quando a porta foi aberta
e Barney Mayerson surgiu, parecendo encabulado e
cansado.
— Então? — perguntou Leo, tirando uma vigorosa
fumaçada do cachimbo.
— Eu... — começou Barney. Virou-se para a senhorita
Fugate, que entrara atrás dele. Com um gesto, virou-se
novamente para Leo e disse: — De qualquer modo, você
está de volta.
— Claro que estou de volta. Eu mesmo construí uma
escada até aqui. Não vai responder por que não fez coisa
alguma? Acho que não. Mas, como você diz, você não foi
necessário. Tenho agora uma idéia do que é essa nova
substância, a Mascar-Z. É definitivamente inferior a Can-D.
Não temo dizer isto com toda a convicção. Pode afirmar,
sem a menor sombra de dúvida, que é meramente uma
experiência alucinógena. Agora, vamos tratar de negócios.
Eldritch conseguiu a aprovação da ONU para a Mascar-Z,
alegando que a droga induz uma autêntica reencarnação, o
que confirma as convicções religiosas de mais da metade do
Secretariado da Assembléia Geral, e mais aquele gambá
indiano, o próprio Hepburn-Gilbert. E uma fraude porque a
Mascar-Z não faz nada disso. Mas o pior aspecto da Mascar-
Z é sua qualidade solipsística. Com a Can-D, a pessoa passa
por uma experiência interpessoal válida, no sentido em que
as outras pessoas no alojamento são... — Parou, irritado. —
O que é que há, senhorita Fugate? Para o que é que está
olhando?
— Sinto muito, senhor Bulero — murmurou Roni Fugate —
mas há uma criatura sob sua escrivaninha.
Inclinando-se, Leo olhou embaixo da mesa. Uma coisa se
imprensara entre a base da escrivaninha e o chão, os olhos
fitando-o, verdes, sem piscar.
— Vá embora daqui — disse Leo à coisa. A Barney,
ordenou: — Pegue uma vara, uma vassoura, alguma coisa
para cutucar isso aí.
Barney saiu do gabinete.
— Droga, senhorita Fugate — disse Leo, puxando rápidas
baforadas do cachimbo. — Odeio pensar no que está aí
embaixo. E no que significa.
Porque poderia significar que Eldritch — dentro da
menininha Mônica — tivera razão quando dissera: Não me
importo. Espere só para ver até onde essa escada vai levá-
lo.
A coisa que estava embaixo da mesa deu um salto e
correu para sair. Espremeu-se por baixo da porta e
desapareceu.
Ela era ainda pior do que os glucks! Dera uma boa olhada
nela.
— Bem, então é isso. Sinto muito, senhorita Fugate, mas
pode voltar para seu escritório. Não adianta discutir que
medidas tomar contra o aparecimento iminente da Mascar-Z
no mercado. Porque não vou falar com ninguém. Vou ficar
aqui, conversando besteiras comigo mesmo.
Sentia-se deprimido. Eldritch tinha-o na mão e, além
disso, a validade ou pelo menos a aparente validade da
experiência com a Mascar-Z fora demonstrada. Ele mesmo a
confundira com a coisa real. Só o inseto maligno criado por
Palmer Eldritch — deliberada-mente — é que pusera a trama
às claras.
Não fosse isso, compreendeu, poderia ter continuado
iludido para sempre.
Passado um século, como dissera Eldritch, naquele
universo sucedâneo.
Jesus, pensou, estou liquidado.
— Senhorita Fugate — disse — , por favor, não fique
simplesmente aí. Volte para seu escritório. — Levantou-se,
foi até o refrigerador e serviu-se, com uma xícara de papel,
de água mineral. Bebendo água irreal para matar a sede de
um corpo irreal, disse a si mesmo. Na frente de uma
empregada irreal. — Senhorita Fugate — perguntou — , a
senhorita é realmente amante do senhor Mayerson?
— Sou, senhor Bulero — respondeu a senhorita Fugate
com uma inclinação de cabeça — , como lhe disse.
— E não quer ser minha. — Sacudiu a cabeça. — Porque
eu sou velho e evoluído demais. Sabe de uma coisa — ou
melhor, não sabe — que eu pelo menos disponho de poder
ilimitado neste universo? Eu poderia reformar meu corpo,
tornar-me jovem. — Ou, pensou, tornar você velha. O que é
que você acharia disso?, pensou. Bebeu a água e jogou a
xícara na calha de lixo. Sem olhar para a senhorita Fugate,
pensou: Você é da minha idade, senhorita Fugate. Na
verdade, mais velha. Vejamos, você tem mais ou menos 92
anos agora. Neste mundo, pelo menos. Envelheceu aqui... o
tempo acelerou-se para você porque você me rejeitou, e eu
não gosto de ser rejeitado. Na verdade, disse a si mesmo,
você tem mais de cem anos, está encarquilhada, seca, sem
dentes nem olhos. Uma coisa.
Às suas costas, ouviu um som seco, áspero, uma tomada
de respiração. E uma voz trêmula, aguda, como o grito de
uma ave assustada:
— Oh, senhor Bulero...
Mudei de idéia, pensou Leo. Você é como era. Retiro
tudo, certo. Virou-se e viu Roni Fugate ou, pelo menos,
alguma coisa ali, onde ela estivera antes. Uma teia de
aranha, fios cinzentos, fungóides enrolados um no outro,
formando uma coluna frágil que oscilava... Viu a cabeça, as
faces encovadas, olhos como pontos mortos de muco,
inertes, brancos, de onde escorriam lágrimas viscosas,
lentas, olhos que tentavam transmitir um apelo, mas que
não podiam porque não conseguiam ver onde ele estava.
— Você voltou a ser o que era — disse asperamente Leo,
e fechou os olhos. — Diga, quando acabar.
Som de passos. De homem. De Barney, reentrando no
gabinete.
— Jesus! — exclamou Barney, e parou. Olhos fechados,
Leo perguntou:
— Ela não voltou ainda a ser o que era antes?
— Ela? Onde está Roni? O que é isso? Leo abriu os olhos.
Não era Rony Fugarte que estava ali, nem mesmo uma
manifestação antiga dela, era uma poça, mas não de água.
A poça era viva e nela nadavam pedaços cinzentos,
pontudos, denteados.
O material grosso, pegajoso, da moça escorreu para a
frente, estremeceu, e recuou para dentro de si mesmo. No
centro, os fragmentos de matéria cinzenta solidificaram-se
numa forma aproximada, bola com fios emaranhados,
embaçados, de cabelos flutuando na parte superior. Fossas
oculares vagas, vazias, formaram-se. A coisa estava se
transformando num crânio, em alguma forma de vida ainda
por surgir: seu desejo inconsciente de que ela
experimentasse evolução no seu aspecto horripilante
transformara em realidade essa monstruosidade.
As mandíbulas estalaram, abrindo-se e fechando-se,
como se sacudidas por fios perversos, profundamente
implantados, flutuando à deriva ali no fluido da poça, e
grasnaram:
— Como está vendo, senhor Bulero, ela não viveu esse
tempo todo. O senhor esqueceu isso. — Aquilo era, remota
mas não absolutamente, a voz — não de Roni Fugate — mas
de Mônica, como se vibrando na ponta distante de um fio
encerado. — O senhor a fez ter mais de 100 anos, mas ela
só vai viver até os 70. De modo que ela está morta há 30
anos. Exceto que o senhor a reviveu, e foi isso o que quis
fazer. E, pior ainda... — A boca desdentada mexeu-se e as
fossas oculares desocupadas fitaram-no. — Ela evoluiu, não
enquanto viva, mas lá no chão. — O crânio deixou de sibilar
e, em seguida, aos poucos, desintegrou-se. Suas partes
componentes mais uma vez flutuaram, afastando-se, e a
aparência de organização dissipou-se novamente.
Após algum tempo, Barney disse:
— Tire-nos daqui, Leo.
— Ei, Palmer — disse Leo, a voz sem controle,
transformada em voz de bebê pelo medo. — Ei, quer saber
de uma coisa? Eu desisto. Mesmo.
O carpete do gabinete a seus pés apodreceu, amoleceu, e
em seguida brotou, cresceu, vivo, transformando-se em
fibras verdes. Notou que o carpete estava se transformando
em relva. Em seguida as paredes e o teto desmoronaram,
reduziram-se a fino pó, chovendo silenciosamente em
partículas, como se fossem cinzas. Acima, apareceu o céu
azul, frio, intacto.
Sentada na grama, com o graveto no colo e ao lado a
valise contendo o doutor Smile, Mônica disse:
— Você queria que o senhor Mayerson ficasse? Achei que
não. Deixei-o ir embora com o resto do que você fez. Tudo
bem? — Ergueu sorridente o rosto para Leo.
— Tudo bem — concordou ele, sufocando.
Olhando em volta, viu apenas a planície verde. Até
mesmo o pó que constituíra a P. P. Layouts, o prédio e seu
núcleo de gente havia desaparecido, exceto pela fina
camada que continuava recobrindo-lhe as mãos, o paletó.
Pensativo, sacudiu-a.
— Do pó vieste, oh, homem, e ao pó retornarás...
— Muito bem! — exclamou ele em voz alta — Entendi.
Você não precisa me martelar a cabeça com isso. Então, era
irreal. E daí? Quero dizer, você provou seu argumento,
Eldritch, você pode fazer aqui tudo o que quiser e eu não sou
coisa alguma, sou apenas um fantasma
Sentiu ódio de Palmer Eldritch e pensou: Se eu conseguir
sair daqui, se eu puder escapar de você, seu calhorda..
— Ora, ora — disse a menina, com os olhos irrequietos
— , o senhor não vai usar uma linguagem como essa.
Realmente, não vai, porque não vou deixar. Nem digo o que
farei, se continuar, mas o senhor me conhece, senhor
Bulero. Certo?
— Certo — concordou Leo.
Afastou-se alguns passos, tirou o lenço do bolso e
enxugou o suor do lábio superior, do pescoço e da depressão
sob o pomo-de-adão, onde era tão difícil barbear-se pela
manhã. Deus, pensou, ajude-me. Vai me ajudar? E se me
ajudar, se puder penetrar neste mundo, farei tudo o que
quiser. Estou com medo agora, estou doente. Isto vai matar
meu corpo, mesmo que este corpo seja apenas
ectoplásmico, do tipo fantasma.
Curvando-se em dois, ficou nauseado, vomitou na grama.
Durante muito tempo — pareceu muito tempo — continuou
vomitando. Depois, sentiu-se melhor. Pôde virar-se e voltar
em passos lentos para junto da menina sentada, com a
valise ao lado.
— Condições — disse categoricamente a menina. —
Vamos elaborar um relacionamento comercial exato entre
minha companhia e a sua Precisamos de sua soberba rede
de satélites de propaganda e das plantações que só Deus
sabe que tamanho têm lá em Vênus. Nós queremos tudo,
Bulero. Vamos cultivar o líquen nos lugares onde você
cultiva a Can-D, enviá-lo nas mesmas naves, chegar aos
colonos com os mesmos traficantes bem treinados e
experientes que usa, fazer a propaganda do produto através
de profissionais como Allen e Charlotte Faine. Can-D e
Mascar-Z não concorrerão porque haverá apenas um único
produto, o Mascar-Z. Você vai anunciar logo sua
aposentadoria. Entendeu o que eu disse, Leo?
— Entendi — respondeu Leo. — Eu ouvi.
— Vai fazer isso?
— Vou — disse Leo. E saltou sobre a criança.
Com as mãos fechadas em torno da traquéia dela,
apertou. Ela fitou-o bem no rosto, rígida, a boca contraída,
nada dizendo, nem mesmo tentando lutar, feri-lo com as
unhas, fugir. Ele continuou a apertar, por tanto tempo que
foi como se suas mãos houvessem se colado a ela,
prendendo-se ali para sempre, como raízes retorcidas de
alguma planta antiga, doente, mas ainda viva.
Quando a soltou, ela estava morta. O corpo tombou para
a frente, contorceu-se e caiu para um lado, ficando de
barriga para cima, na relva. Nenhum sangue. Nem sinal
mesmo de luta, exceto que a garganta dela estava
vermelha, mosqueada, enegrecida.
Ele levantou-se, pensando. Bem, será que fiz isso? Se ele
— ela, ou a coisa, o que quer que seja — morre aqui, isso
resolve a situação?
O mundo simulado, porém, permaneceu. Esperara que
fosse murchando e desaparecendo, enquanto a vida dela —
de Eldritch — ia se escoando.
Perplexo, ficou no mesmo lugar, sem mover-se sequer
um centímetro, cheirando o ar, ouvindo o vento distante.
Coisa alguma mudara, exceto que a menina morrera. Por
quê? O que viciara a base sobre a qual agira? Incrivelmente,
aquilo fora errado.
Curvando-se, ligou o doutor Smile.
— Explique-me isso — ordenou.
Prestativamente, o doutor Smile declarou em sua voz
metálica:
— Ela está morta aqui, senhor Bulero. Mas na
propriedade, em Luna...
— Muito bem — cortou-o bruscamente Leo. — Agora,
diga-me como é que eu posso sair deste lugar, como voltar a
Luna, como... — Fez um gesto vago. — Você sabe o que eu
quero dizer. Na realidade.
— Neste momento — explicou o doutor Smile — Palmer
Eldritch, embora muito perturbado e zangado, está lhe
aplicando intravenosamente uma substância que serve de
antídoto ao Mascar-Z injetável previamente administrado. O
senhor voltará logo. — E acrescentou: — Isto é, logo, mesmo
instantaneamente, em termos do fluxo temporal daquele
mundo. Quanto a este... — soltou uma risadinha — poderia
parecer mais demorado.'
— Quanto mais demorado?
— Oh, anos — disse o doutor Smile. — Mas, muito
possivelmente, menos. Dias? Meses? O sentido de tempo é
subjetivo, de modo que vamos ver como lhe parece.
Concorda?
Sentando-se cansado junto ao corpo da criança, Leo
suspirou, baixou a cabeça, queixo contra o peito, e se dispôs
a esperar.
— Eu lhe farei companhia — ofereceu-se o doutor Smile —
, se puder. Mas receio que, sem a presença animadora do
senhor Eldritch... — a voz da valise, notou Leo, tornara-se
fraca, bem como mais lenta. — ...coisa alguma possa manter
este mundo. — Continuou debilmente: — Só o senhor
Eldritch. De modo que receio...
A voz desapareceu inteiramente.
Restou apenas o silêncio. O próprio vento distante
cessara de soprar.
Quanto tempo?, perguntou Leo a si mesmo. Pensou então
se poderia, como antes, construir alguma coisa.
Gesticulando à maneira de um inspirado regente de
sinfonia, contorcendo as mãos, tentou criar no ar um táxi a
jato.
Finalmente, um fraco esboço apareceu. Sem substância,
permaneceu sem cor, quase transparente. Levantou-se do
chão, aproximou-se da coisa e tentou, com toda sua força,
mais uma vez. Por um momento, o veículo pareceu ganhar
cor e realidade, mas, de repente, tornou-se fixo. Como uma
dura e abandonada casca quitinosa, amoleceu e explodiu.
Suas partes, bidimensionais na melhor das hipóteses,
arrebentaram-se e flutuaram no ar, transformando-se em
peças denteadas. Leo deu as costas aos destroços e afastou-
se aborrecido. Que confusão, disse, abatido, para si mesmo.
Sem rumo certo, continuou a andar. Até que topou, de
repente, com uma coisa na relva, uma coisa morta. Viu-a
caída ali e aproximou-se, cauteloso. Isto, pensou. A prova
final do que eu fiz.
Com a biqueira do sapato, deu um pontapé no gluck
morto.
O sapato passou de um lado a outro da coisa e ele
recuou, repugnado.
Continuando, as mãos profundamente enterradas nos
bolsos, fechou os olhos e mais uma vez rezou, mas desta
vez vagamente, apenas um desejo inarticulado, mas que
depois se tornou claro. Vou pegá-lo no mundo real, pensou.
Não apenas aqui, como fiz, mas como os jornais domiciliares
vão noticiar. Não por mim, não para salvar a P. P. Layouts e
o tráfico de Can-D. Mas por... Ele sabia o que queria dizer
com isso. Por toda a população do sistema. Porque Palmer
Eldritch é um invasor e é assim que todos nós acabaremos,
aqui, deste jeito, numa planície de coisas mortas que se
transformaram em nada mais do que fragmentos soltos.
Esta é a "reencarnação" que ele prometeu a Hepburn-
Gilbert.
Durante algum tempo andou ao léu e finalmente, aos
poucos, voltou para a valise que fora do doutor Smile.
Alguma coisa estava curvada sobre a valise. Um ser
humano ou uma figura quase humana
Vendo-o, a coisa endireitou-se, com a cabeça calva
brilhando, quando o olhou, tomada de surpresa Em seguida,
deu um salto e fugiu correndo.
Um proximiano.
Achou, observando a coisa fugir, que aquilo punha tudo
em perspectiva. Palmer Eldritch povoara sua paisagem com
coisas como aquela. Ele continuava ainda profundamente
envolvido com elas, mesmo agora que voltara para seu
sistema natal. Aquilo que acabara de aparecer dava uma
introvisão da mente do homem, no seu nível mais profundo.
O próprio Palmer Eldritch talvez não soubesse que havia
povoado assim seu mundo alucinatório — e o proximiano
podia ter sido uma surpresa igualmente grande para ele.
A menos, claro, que este fosse o sistema de Prox.
Talvez fosse uma boa idéia seguir o proximiano.
Partiu na direção que ele tomara e andou penosamente
durante o que lhe pareceram horas. Nada viu, apenas a
relva sob os pés e o horizonte plano. Por fim, uma forma
surgiu à frente. Dirigiu-se para ele e chegou de repente a
uma nave estacionada. Parando, examinou-a espantado. Em
primeiro lugar, não era uma nave terrena, mas também não
era uma nave proximiana.
Simplesmente, ela não pertencia a qualquer dos dois
sistemas.
As duas criaturas que matavam o tempo perto da nave
não eram terráqueos nem proximianos. Nunca vira antes
formas de vida como aquelas. Altos, esguios, com membros
que pareciam caniços, grotescos, cabeças em forma de ovo
que, mesmo àquela distância, pareciam estranhamente
delicadas, de uma raça altamente evoluída, concluiu, mas,
ainda assim, relacionada com os terráqueos. A semelhança
era mais do que com os proximianos.
Dirigiu-se para eles, com a mão erguida numa saudação.
Uma das duas criaturas voltou-se para ele, viu-o, abriu a
boca e cutucou o companheiro. Olharam-no fixamente e a
primeira disse:
— Deus do céu, Alex, é uma das velhas formas. Você
sabe, os quase-homens.
— É mesmo — concordou a outra criatura
— Espere aí — disse Leo Bulero. — Vocês estão falando a
língua da Terra, inglês do século XXI, de modo que devem
ter sido terráqueos antes.
— Terráqueos? — disse o que se chamava Alex. — Nós
somos terráqueos. O que, diabo, é você? Uma anomalia que
desapareceu há centenas de anos, é isso o que é. Bem,
talvez não há séculos, mas há muito tempo.
— Um enclave deles deve existir ainda nesta lua — disse
o primeiro. A Leo, perguntou: — Quantos homens da aurora
da humanidade existem, além de você? Vamos, meu chapa.
Nós não vamos tratá-lo mal. Alguma mulher? Vocês podem
se reproduzir? — Virou-se para o companheiro: —
Simplesmente, parecem séculos. Quero dizer, você tem que
se lembrar de que estamos evoluindo, em termos de
centenas de milhares de anos, em frações de segundo. Se
não fosse Denkmal, esses homens da aurora da humanidade
ainda seriam...
— Denkmal! — exclamou Leo.
Então era este o resultado da Terapia E de Denkmal. Este
momento estava apenas um pouco à frente no tempo, talvez
apenas algumas décadas. Como eles, sentia um abismo de
um milhão de anos, mas, ainda assim, aquilo era na verdade
uma ilusão. Ele mesmo, quando terminasse sua terapia,
poderia parecer com um desses indivíduos. Exceto que o
couro quitinoso desaparecera e aquele era um dos principais
aspectos dos tipos em evolução.
— Eu freqüento a clínica dele — disse aos dois homens. —
Uma vez por semana. Em Munique. Estou evoluindo. A
terapia está funcionando no meu caso. — Aproximou-se
deles e examinou-os atentamente. — Onde está o couro? —
perguntou. — A fim de protegê-los do sol.
— Oh, aquele falso período quente passou — disse o que
se chamava Alex, com um gesto de pouco caso. — Aquilo foi
coisa dos proximinianos, trabalhando com o Renegado. Você
sabe. Ou talvez não saiba
— Palmer Eldritch — disse Leo.
— Ele mesmo — confirmou Alex, inclinando a cabeça. —
Mas nós o pegamos. Aqui mesmo nesta lua, na verdade.
Agora, este lugar é um santuário... Não para nós, mas para
os proximianos, que vêm aqui às escondidas para rituais de
adoração. Viu algum? Nós devemos prender todos os que
encontrarmos. Isto aqui é território do sistema solar,
pertence à ONU.
— A que planeta pertence esta lua? — perguntou Leo. Os
dois terráqueos evoluídos sorriram.
— Terra — explicou Alex. — E artificial. Chama-se Sigma
14-B, construída há muitos anos. Não existia no seu tempo?
Deve ter existido. E realmente velha.
— Acho que sim — disse Leo. — Neste caso, vocês podem
me levar para a Terra.
— Claro. — Os dois terráqueos evoluídos inclinaram as
cabeças. — Na verdade, vamos decolar dentro de meia hora.
Levaremos você... você e o resto de sua tribo.
Simplesmente, dê-nos a localização.
— Eu sou o único — disse Leo secamente — e dificilmente
seríamos uma tribo. Não somos recém-saídos dos tempos
pré-históricos.
Como teria chegado ele a essa época futura? Ou seria
isto uma ilusão também, construída pelo mestre das
alucinações, Palmer Eldritch? Por que deveria supor que isto
era mais real do que a criança Mônica, os glucks ou a P. P.
Layouts sintéticas que visitara? Visitara e vira se
desfazerem? Isto era Palmer Eldritch imaginando o futuro.
Estes eram os meandros de sua mente brilhante, criativa,
enquanto esperava, na sua propriedade em Luna, que
passassem os efeitos da injeção intravenosa de Mascar-Z.
Na verdade, dali onde se encontrava podia ver
obscuramente, através da nave estacionada, a linha do
horizonte. A nave era ligeiramente transparente, não
suficientemente substancial. E os dois terráqueos evoluídos
oscilavam numa leve mas total distorção que lhe lembrava
os dias em que havia sofrido de astigmatismo, antes de ter
recebido, por transplante cirúrgico, olhos inteiramente
sadios. Os dois não se fixavam perfeitamente no lugar.
Estendeu a mão para o primeiro terráqueo.
— Eu gostaria de trocar um aperto de mão com você —
disse. Alex, o terráqueo, estendeu também a mão, com um
sorriso.
A mão de Leo passou pela de Alex e saiu do outro lado.
— Ei — disse Alex, franzindo as sobrancelhas.
Imediatamente, como num movimento de pistão, retirou a
mão. — O que é que está acontecendo? — Virou-se para o
companheiro: — Esse cara não é real. Devíamos ter
desconfiado. Ele é um... como é que os chamavam
antigamente? Por mascarem aquela droga diabólica que
Eldritch descobriu no sistema de Prox. Um escolhedor, é
isso. Ele é um fantasma. — Olhou zangado para Leo.
— Eu sou isso? — perguntou debilmente Leo, mas
compreendeu logo que Alex tinha razão. Seu verdadeiro
corpo estava em Luna. Ele não estava realmente ali.
Mas o que aquilo fazia dos dois terráqueos evoluídos?
Talvez eles não fossem construções da mente ativa de
Eldritch. O que se chamava Alex olhava-o fixamente nesse
momento.
— Sabe de uma coisa? — disse Alex ao companheiro. —
Esse escolhedor me parece conhecido, Vi nos jornais uma
foto dele. Tenho certeza — Voltou-se para Leo: — Qual é o
seu nome, escolhedor? — O olhar tornou-se mais duro, mais
intenso.
— Eu sou Leo Bulero — respondeu Leo.
Os dois terráqueos evoluídos saltaram com o choque.
— Ei — exclamou Alex — , não é de espantar que eu
pensasse que o havia reconhecido. Ele é o cara que matou
Palmer Eldritch! — Dirigiu-se para Leo: — Você é um herói,
meu chapa. Aposto que não sabe disso porque você é
apenas um mero escolhedor, certo? E voltou aqui para
assombrar este lugar porque ele é, historicamente, o...
— Ele não voltou — interrompeu-o o companheiro — Ele é
do passado.
— Mas ele ainda pode voltar — insistiu Alex. — Isto é um
segundo advento para ele, depois de sua própria época. Ele
voltou... Muito bem, posso dizer isso? — Dirigiu-se a Leo: —
Você voltou a este lugar por causa de sua associação com a
morte de Palmer Eldritch. — Virou-se e começou a correr
para a nave estacionada. — Vou informar aos jornais —
gritou. — Talvez eles possam conseguir uma foto sua... o
fantasma de Sigma 14-B. — Gesticulou, animado.
— Agora, os turistas vão querer mesmo visitar este lugar.
Mas, cuidado, talvez o fantasma de Eldritch, o escolhedor
dele, apareça por aqui, também. Para se vingar. — Não
pareceu muito satisfeito com esse pensamento.
— Eldritch já fez isso — acalmou-o Leo.
Alex parou e, em seguida, voltou lentamente para junto
deles.
— Já? — Olhou em volta, nervoso. — Onde está ele? Perto
daqui?
— Está morto — explicou Leo. — Matei-o. Estrangulei-o.
Não sentia emoção a respeito do ato, apenas cansaço. De
que modo podia uma pessoa sentir-se jubilosa por ter
assassinado uma outra, especialmente uma criança?
— Eles vão ter que reencenar isso por toda a eternidade
— disse Alex, impressionado e com os olhos arregalados.
Sacudiu a grande cabeça ovóide.
— Eu não estava reencenando coisa alguma — protestou
Leo.
— Esta foi a primeira vez. — E depois pensou: E não a vez
real. Isso ainda está para acontecer.
— Você quer dizer — começou lentamente Alex — que o
assassinato...
— Ainda vou ter que cometê-lo — disse em voz áspera
Leo. — Mas um de meus consultores de pré-sucesso disse-
me que isso não vai demorar muito. Provavelmente.
Não era inevitável e jamais poderia esquecer esse fato. E
Eldritch sabia disso, também. Este fato ajudaria muito a
explicar o comportamento de Eldritch ali e naquele instante:
ele estava protelando — ou assim esperava — sua própria
morte.
— Venha comigo — disse Alex a Leo — dar uma olhada no
monumento que comemora o fato. — Ele e o companheiro
foram à frente. Leo, relutante, seguiu-os. — Os proximianos
— disse Alex empertigando-se — procuram sempre... você
sabe, dissecá-lo.
— Degradá-lo — corrigiu o companheiro.
— Isso mesmo — concordou Alex, inclinando a cabeça. —
De qualquer modo, ei-lo. — Parou.
À frente deles erguia-se uma imitação — mas que
impressionava — de um pilar de granito. Uma placa de
bronze fora pregada à altura dos olhos. Leo, a contragosto,
leu os dizeres:

In memoriam. 2016 a. D. Próximo a este local, o inimigo


do
sistema solar, Palmer Eldritch , foi morto em combate
leal
pelo paladino dos nossos nove planetas , Leo Bulero, da
Terra.
— Oh! — disse Leo, impressionado, apesar de tudo. Leu
mais uma vez a placai. E releu-a. — Eu gostaria de saber —
especulou para si mesmo — se Palmer viu isto.
— Se ele é um escolhedor — opinou Alex — ,
provavelmente viu. A forma original da Mascar-Z produzia o
que o fabricante — o próprio Eldritch — chamava de
"implicações temporais". E o seu caso, exatamente. Você
ocupa um local anos após sua morte. De qualquer modo,
acho que você agora está morto. — Virou-se para o
companheiro. — Leo Bulero está morto neste momento, não
está?
— Ora, claro — retrucou o companheiro. — Há várias
décadas.
— Na verdade, acho que li em algum lugar... — começou
Alex, mas parou e olhou para alguma coisa às costas de Leo.
Cutucou o companheiro. Leo virou-se para ver o que era.
Um cão arrepiado, magro, estranhamente branco,
aproximava-se deles.
— E seu? — perguntou Alex.
— Não — respondeu Leo.
— Parece um cão escolhedor — observou Alex. — Olhe, a
gente pode ver um pouco através dele.
Os três observaram enquanto o cão chegava até eles,
passava por eles e dirigia-se para o monumento.
Pegando uma pedra, Alex lançou-a contra o cão. A pedra
atravessou o corpo do animal e caiu no chão do outro lado.
Era um cão escolhedor.
Enquanto os três olhavam, o cão parou em frente ao
monumento, pareceu olhar por um curto momento para a
placa e em seguida...
— Defecação! — berrou Alex, com o rosto avermelhado
de raiva.
Correu para o cão, agitando os braços, tentando chutá-lo,
depois procurando pegar a pistola de laser que levava no
cinto, mas errando o cabo em seu nervosismo.
— Profanação — corrigiu o companheiro.
— É Palmer Eldritch — disse Leo.
Eldritch estava demonstrando seu desprezo pelo
monumento, sua ausência de medo em relação ao futuro.
Nunca haveria tal monumento. Sem pressa, o cão afastou-
se, enquanto os dois terráqueos evoluídos o acompanhavam
com uma torrente de palavrões.
— Tem certeza de que aquele cão não era seu? —
perguntou desconfiado Alex. — Tanto quanto posso saber,
você é o único escolhedor que anda por aqui. — E lançou um
olhar a Leo.
Leo começou a explicar a eles o que acontecera. Era
importante que eles compreendessem. Nesse momento,
porém, sem o menor aviso de qualquer tipo, os dois
terráqueos evoluídos desapareceram. A planície relvada, o
monumento, o cão que se afastava — todo o panorama
evaporou-se, como se o método através do qual fora
projetado, estabilizado e mantido, houvesse saído de
posição, Viu apenas uma extensão ampla e vazia, um
ofuscamento focalizado, como se naquele momento não
houvesse mais nenhum diapositivo em 3-D no projetor. A
luz, pensou, subjacente à interação de fenômenos que
chamamos de "realidade".
De repente, viu-se sentado no cômodo despojado da
propriedade de Eldritch em Luna, olhando para a mesa em
que estava a engenhoca eletrônica.
O aparelho, engenhoca, ou o que quer que fosse, disse:
— Sim, vi o monumento. Mais ou menos 45% dos futuros
o incluem. Prevalecem um pouco menos do
que'possibilidades iguais, de modo. que não estou tão
preocupado assim. Aceite um charuto. — Mais uma vez, a
máquina ofereceu um charuto aceso a Leo.
— Não quero — recusou Leo.
— Vou soltá-lo — disse o aparelho — por algum tempo,
por 24 horas, mais ou menos. Você pode voltar ao seu
pequeno gabinete, em sua minúscula companhia na Terra
Enquanto estiver lá, quero que medite na situação. Agora,
você conheceu a força da Mascar-Z. Compreende o fato de
que seu produto antediluviano, a Can-D, não pode nem
remotamente comparar-se com ela. E, além do mais...
— Conversa — retrucou Leo. — A Can-D é muito superior.
— Bem, pense bem no caso — aconselhou confiante a
engenhoca eletrônica.
— Muito bem — disse Leo.
Levantou-se, todo duro. Estivera realmente no satélite
artificial da Terra, o Sigma 14-B? Isso era trabalho para Félix
Blau. Especialistas podiam seguir a pista da coisa Não havia
proveito em se aborrecer com isso naquele momento. O
problema imediato era bastante sério: não conseguira ainda
livrar-se do controle de Palmer Eldritch.
Poderia escapar apenas quando — e se — Eldritch
resolvesse soltá-lo. Tratava-se de um dado cruel de
realidade concreta, embora difícil de aceitar.
— Eu gostaria de observar — recomeçou a engenhoca —
que tive compaixão de você, Leo. Eu poderia ter... bem,
digamos, posto um ponto final na frase que constitui sua
vida muito curta. E em qualquer ocasião em que quisesse
fazer isso. Por causa disso, espero — insisto — que pense
seriamente em fazer a mesma coisa
— Como eu disse, vou pensar no caso — respondeu Leo.
Sentia-se irritável, como se houvesse bebido um número
excessivo de xícaras de café e queria ir embora dali logo que
possível. Abriu a porta da sala e saiu para o corredor.
No momento em que ia fechar a porta, às suas costas â
engenhoca eletrônica avisou:
— Se resolver não se aliar a mim, Leo, eu não vou
esperar. Vou matá-lo. Tenho que fazer isso, para salvar meu
próprio ser. Entendeu?
— Entendi — respondeu Leo, e fechou a porta
E eu tenho que fazer aquilo também, pensou. Tenho que
matá-lo... ou será que poderíamos dizer isso de forma
menos direta, mais,ou menos como dizem a respeito de
animais: colocá-lo para dormir?
E tenho que fazer isso não só para me salvar, mas salvar
todos os habitantes do sistema, e essa é a minha motivação.
Por exemplo, aqueles dois soldados terráqueos evoluídos
que encontrei no monumento. Para que eles tenham alguma
coisa para guardar.
Lentamente, subiu o corredor. Na extremidade mais
distante, viu o grupo de repórteres dos jornais domiciliares.
Não haviam ido embora ainda, nem mesmo tinham obtido a
entrevista... praticamente tempo algum se passara. De
modo que, nesse ponto, Palmer tinha razão.
Reunindo-se aos repórteres, relaxou e sentiu-se muito
melhor. Talvez conseguisse escapar naquele instante, talvez
Palmer Eldritch estivesse realmente deixando que ele se
fosse. Uma vez mais, viveria para cheirar, ver, beber no
mundo.
Mas, bem no fundo, sabia que não seria assim. Eldritch
nunca o soltaria. Antes disso, um deles teria que ser
destruído.
Tinha esperança de que não fosse ele. Mas sentia uma
pavorosa intuição, a despeito do monumento, de que bem
poderia ser.
S ETE

A PORTA do gabinete privativo de Barney Mayerson foi


aberta de chofre e Leo Bulero entrou, encurvado de cansaço,
com as marcas da viagem.
— Você não tentou me ajudar.
Após um pequeno intervalo, Barney respondeu:
— É verdade.
De nada adiantava tentar explicar o porquê, não que Leo
não conseguiria compreender, ou acreditar, mas por causa
da própria razão. Ela, simplesmente, não era suficiente.
— Você está despedido, Mayerson — disse Leo.
— Tudo bem.
E pensou: pelo menos, estou vivo. Se tivesse ido ajudar
Leo, não estaria. Com os dedos duros, começou a pegar na
escrivaninha seus objetos pessoais, colocando-os numa
caixa vazia de mostruário.
— Onde está a senhorita Fugate? — perguntou Leo. — Ela
vai assumir seu cargo. — Aproximou-se de Barney e
examinou-o atentamente. — Por que você não foi me
buscar? De-me uma droga de razão, Barney.
— Preconheci o futuro. Isso teria me custado demais.
Minha vida.
— Mas você não tinha que ir pessoalmente. Isto aqui é
uma grande companhia... Você poderia ter formado um
grupo, aqui, e ficado na retaguarda, certo?
Era verdade. E ele mesmo pensara nisso.
— De modo que — continuou Leo — você deve ter
desejado que alguma coisa fatal me acontecesse. Nenhuma
outra interpretação é possível. Talvez fosse coisa
inconsciente, não?
— Acho que sim — reconheceu Barney.
Porque certamente não estivera consciente disso. De
qualquer modo, Leo tinha razão. Por que outro motivo não
teria assumido a responsabilidade, providenciado para que
um grupo armado, como sugerira Félix Blau, fosse reunido
na P. P. Layouts e enviado a Luna? Era tão óbvio naquele
instante. Tão simples de entender.
— Eu tive uma experiência terrível — disse Leo — na
propriedade de Palmer Eldritch. Ele é um mágico terrível,
Barney. Fez toda sorte de coisas comigo, coisas com que
você e eu nunca teríamos sonhado. Transformou-se, por
exemplo, numa menininha, mostrou-me o futuro, e talvez
isso tivesse sido sem intenção, construiu um universo
completo, incluindo um animal horrível, chamado gluck,
juntamente com uma cidade de Nova Iorque ilusória, onde
estavam você e Roni. Que confusão. — Sacudiu a cabeça,
com os olhos turvos. — Para onde é que você vai?
— Só há um lugar para onde posso ir.
— Onde? — Leo fitou-o, apreensivo.
— Uma única pessoa poderia usar meu talento para pré-
sucesso.
— Neste caso, você é meu inimigo?
— Já sou. No que interessa a você. — E estava disposto a
aceitar como justo o julgamento de Leo sobre sua omissão.
— Pois então, eu vou pegar você também — prometeu
Leo. — Juntamente com aquele mágico louco, o denominado
Palmer Eldritch.
— Por que denominado? — Barney ergueu rápido os olhos
e parou de guardar as coisas.
— Porque estou cada vez mais convencido de que ele não
é humano'. Nunca botei os olhos em cima dele, exceto
durante o período em que estive sob o efeito da Mascar-Z.
Nas outras ocasiões, ele me falou através de uma extensão
eletrônica.
— Interessante — comentou Barney.
— E, não é? E você é tão corrupto que vai se candidatar a
um emprego na firma dele. Mesmo que ele possa ser um
proximiano de peruca ou alguma coisa pior, alguma droga
de coisa que se meteu na nave dele, quando ele estava indo
ou voltando, lá no espaço profundo, comeu-o e tomou o
lugar dele. Se você tivesse visto os glucks...
— Neste caso, pelo amor de Deus — explodiu Barney —
não me obrigue afazer isto. Conserve-me aqui.
— Não posso. Não, depois de você ter faltado com a
lealdade. — Leo desviou a vista, engolindo em seco
rapidamente. — Eu gostaria de não estar magoando você
desta maneira fria, racional, mas... — Cerrou os punhos,
num gesto de inutilidade. — Foi horrendo, ele praticamente
conseguiu, quebrou minha resistência. Em seguida,
encontrei aqueles dois terráqueos evoluídos, e isso ajudou.
Até que Eldritch apareceu sob a forma de um cão que urinou
no monumento. — Fez uma careta de nojo. — Tenho que
reconhecer que ele demonstrou, de forma muito visível, sua
atitude. — E acrescentou, como para si mesmo: — A
convicção dele de que vai vencer, de que nada tem a temer,
mesmo depois de ter visto aquela placa.
— Deseje-me sorte — disse Barney.
Estendeu a mão. Por um curto momento, formalmente,
trocaram um aperto de mão. Em seguida, Barney deixou o
gabinete, passou pela mesa da secretária e saiu para o
corredor central. Sentia-se vazio, recheado com algum
material inútil de refugo, sem gosto, como palha. Nada mais.
Estava à espera do elevador quando Roni Fugate chegou,
arque-jante, o rosto franco cheio de preocupação.
— Barney... ele mandou você embora? Ele confirmou com
um aceno.
— Oh, meu Deus — disse ela — E agora, o quê...?
— Agora — respondeu ele — vou para o outro lado. Para o
que der ou vier.
— Mas como é que nós dois podemos continuar a viver
juntos, com você trabalhando lá e eu trabalhando para Leo...
— Não tenho a mínima idéia — reconheceu Barney.
Chegou o elevador auto-regulado. Entrou. — A gente se vê
— disse, e apertou o botão.
As portas se fecharam, cortando a vista de Roni. A gente
se vê no que os neocristãos chamam de inferno, pensou.
Provavelmente, não antes. A menos que isto já seja, e talvez
seja mesmo, o próprio inferno, agora.
Ao nível da rua, deixou o prédio da P. P. Layouts e
postou-se sob o escudo protetor antitérmico, procurando
sinais de um táxi.
No momento em que um táxi parou e ele ia dirigir-se para
o veículo, uma voz chamou-o urgente da entrada do prédio:
— Barney, espere.
— Você está louca — disse ele. — Volte lá para dentro.
Não abandone sua florescente e brilhante carreira,
juntamente com o que sobrou da minha.
— Nós dois íamos trabalhar juntos, lembra-se? —
recordou Rony. — Como eu disse, trair Leo. Por que não
podemos continuar cooperando?
— Tudo mudou. Devido à minha doentia e depravada
indisposição, ou incapacidade, ou o que quer que você
queira chamar a isso, de ir a Luna ajudar Leo. — Sentia-se
diferente a seu próprio respeito e não se considerava mais à
mesma luz ultra-simpática. Deus, você não vai querer ficar
comigo — disse à moça. — Algum dia você se meterá em
dificuldades, precisará de minha ajuda, e eu farei com você
exatamente o que fiz com Leo. Deixaria você afundar sem
mexer um dedo.
— Mas sua própria vida estava em...
— Sempre está — observou ele. — Quando a gente faz
alguma coisa. Esse é o nome da comédia em que estamos
presos.
Mas isso não o desculpava. Pelo menos não a seus
próprios olhos. Entrou no táxi, deu automaticamente o
endereço de seu condomínio de apartamentos e recostou-se
no assento, enquanto o veículo subia para o céu ígneo do
meio-dia. Muito embaixo, sob a cortina antitérmica, Roni
Fugate continuava protegendo os olhos com as mãos,
observando-o afastar-se. Sem dúvida esperando que ele
mudasse de idéia e voltasse.
Mas ele não voltou.
E preciso uma certa coragem, pensou, para o homem
olhar-se de frente e dizer com franqueza: Eu sou podre.
Procedi mal, e farei isso novamente. Não foi acidente. O que
fiz emanou do meu eu verdadeiro, autêntico.
Logo depois, o táxi começou a descer. Enfiou a mão no
bolso à procura da carteira e, nesse momento, descobriu
com um choque que aquele não era seu condomínio. Em
pânico, tentou descobrir onde se encontrava. Ocorreu-lhe
então que aquele era o condomínio 492. Dera ao táxi o
endereço de Emily.
Depressa! De volta ao meu passado, onde as coisas
faziam sentido, pensou, quando eu tinha minha carreira,
sabia o que queria do futuro, sabia mesmo, no fundo do
coração, o que estava disposto a abandonar, combater,
sacrificar... e pelo quê. Mas, agora...
Neste momento sacrificara a carreira a fim de, segundo
parecia, salvar a vida. De modo que, pela lógica, no passado
sacrificara Emily para salvar sua vida. A coisa era tão
simples assim. Nada mais poderia ser claro. Não era uma
meta idealista, não o dever puro, velho, puritano, calvinista
para com uma vocação. Nada mais era do que o instinto que
habitava e condicionava cada verme que rastejava. Cristo,
pensou, eu fiz isso, coloquei-me à frente de Emily e, agora,
de Leo. Que tipo de ser humano sou eu? E, como fui
suficientemente honesto para dizer a ela, a próxima seria
Roni. Inevitavelmente.
Talvez Emily possa me ajudar, pensou. Talvez seja por
esse motivo que estou aqui. Ela sempre foi esperta a
respeito de coisas como esta, sempre viu através das ilusões
autojustificadoras que eu construía para ocultar a realidade
interna. E, claro, isso me tornava ainda mais ansioso para
me livrar dela. Na verdade, isso apenas era razão suficiente,
dada a pessoa que sou. Mas... talvez eu possa suportar isso
melhor agora.
Momentos depois, chegava à porta de Emily e tocava a
campainha.
Se ela achar que devo entrar para a empresa de Palmer
Eldritch, é isso o que vou fazer, pensou. E se não, não. Mas
ela e o marido estão trabalhando para Eldritch. De que modo
podem eles, lealmente, me dizer que eu não trabalhe? De
modo que isso já estava antecipadamente resolvido. E talvez
eu soubesse disso, também.
A porta foi aberta. Usando uma bata azul manchada de
barro úmido e barro seco, Emily fitou-o, espantada, atônita.
— Oi — disse ele. — Leo me mandou embora. — Esperou,
mas ela continuou calada. — Posso entrar? — perguntou.
— Pode. — Deixou-o entrar no apartamento. No centro da
sala de estar, a conhecida roda de oleiro ocupava, como
sempre, um espaço enorme. — Eu estava trabalhando. E
bom vê-lo de novo, Barney. Se quiser uma xícara de café,
vai ter que...
— Eu vim aqui para lhe pedir um conselho — respondeu
ele. — Mas, agora descobri que isso é desnecessário.
Foi vagarosamente até a janela, pôs no chão a volumosa
caixa de amostras, olhou para fora.
— Você se importa se eu continuar trabalhando? Tive uma
boa idéia, ou pelo menos ela pareceu boa na ocasião. —
Esfregou a testa e massageou os olhos. — Agora, não sei
mais... Sinto-me tão cansada. Eu gostaria de saber se isso
tem alguma coisa a ver com a Terapia E.
— Terapia de Evolução? Você está se submetendo a isso?
— Virou-se para examiná-la. Teria ela mudado, fisicamente?
Achou — mas talvez isso fosse porque não a via há muito
tempo — que as feições dela tinham-se tornado grosseiras.
Idade, pensou ele. Mas... — Como está indo? — perguntou.
— Bem, eu tive apenas uma sessão. Mas, sabe de uma
coisa, estou com a mente muito confusa. Parece que não
consigo pensar direito, todas as minhas idéias se misturam.
— Acho que é melhor você interromper essa terapia.
Mesmo que seja moda, mesmo que seja o que todo mundo
que tem algum status anda fazendo.
— Talvez, sim. Mas eles parecem tão satisfeitos. Richard
e o doutor Denkmal. — Deixou pender a cabeça, na velha,
conhecida reação. — Eles saberiam, não?
— Ninguém sabe. E um terreno ainda desconhecido.
Suspenda isso. Você sempre deixa que as pessoas passem
por cima de você.
Deu à voz um tom autoritário. Usara-o com ela
incontáveis vezes nos seus anos juntos e geralmente
funcionara, mas nem sempre.
E desta vez, notou, era uma delas. Surgiu aquela
expressão teimosa nos olhos dela, a recusa em ser
habitualmente passiva.
— Eu acho que isso quem decide sou eu — disse com
dignidade. — E tenciono continuar.
Encolhendo os ombros, ele andou ao léu pelo
apartamento. Não tinha poder sobre ela, nem se importava.
Mas seria isso verdade? Não se importaria, realmente? Uma
imagem apareceu em sua mente, de Emily involuindo... e,
ao mesmo tempo, tentando trabalhar em seus vasos,
tentando ser criativa. Era engraçado... e horrível.
— Escute aqui — disse asperadamente — , se aquele cara
realmente a ama...
— Eu já lhe disse — insistiu Emily. — A decisão é minha.
Voltou à roda Um grande vaso estava sendo modelado.
Barney aproximou-se para olhar bem. Um belo trabalho,
pensou. Mas... conhecido. Ela já não fizera aquele vaso
antes? Não comentou, apenas estudou a peça.
— O que é que você acha que vai fazer? — perguntou
Emily. — Para quem você poderia trabalhar?
Parecia interessada em seu caso e isto fê-lo lembrar-se
de que, recentemente, impedira a venda dos vasos dela à P.
P. Layouts. Normalmente, ela poderia ter ficado com muita
raiva dele, mas era típico dela não ter essa reação. E, claro,
sabia que fora ele que dissera não a Hnatt.
— Meu futuro talvez esteja decidido — respondeu. —
Recebi um aviso de convocação.
— Que pena. Você, em Marte. Não consigo imaginar isso.
— Eu poderia mascar Can-D — disse ele — Apenas... —
Em vez de ter um cenário de Perky Pat, pensou, talvez eu
tenha um cenário de Emily. E passe o tempo num mundo de
fantasia, no passado, com você de volta à vida a que
deliberada e estupidamente dei as costas. O único período
realmente bom na minha vida, quando fui realmente feliz.
Mas, claro, não sabia, porque não tinha coisa alguma com
que compará-la... como tenho agora. — Há alguma
possibilidade — perguntou — de que você gostasse de ir?
Ela fitou-o, e ele retribuiu o olhar, ambos estarrecidos
com o que ele propusera.
— Estou falando sério — disse ele.
— Quando foi que você resolveu isso?
— Não tem importância quando decidi — respondeu ele.
— Tudo o que importa é como me sinto agora.
— Importa também como eu me sinto — disse
tranqüilamente Emily. Depois, voltou ao trabalho. — Eu me
sinto perfeitamente feliz, casada com Richard. Nós nos
damos muito bem.
Seu rosto estava plácido. Sem dúvida alguma, ela
acreditava em cada palavra que dizia. Ele estava condenado,
fora amaldiçoado, relegado ao vazio que escavara para si
mesmo. E merecia-o. Ambos sabiam disso, mesmo que
nenhum dos dois o dissesse.
— Acho que vou embora — disse ele.
Emily não objetou a isso, tampouco. Simplesmente,
inclinou a cabeça.
— Deus queira — disse ele — que você não esteja
involuindo. Pessoalmente, acho que está Estou vendo isso
em seu rosto, por exemplo. Olhe-se num espelho.
Com essas palavras, saiu e a porta foi fechada às suas
costas. No mesmo instante, arrependeu-se do que dissera,
mas, ainda assim, poderia ter sido útil... poderia ajudá-la,
pensou. Porque vi aquilo. E não quero aquilo. Ninguém quer.
Nem aquela besta do marido dela, que ela prefere a mim...
por razões que nunca saberei, exceto que, talvez, para ela,
casamento tenha o aspecto de coisa do destino. Ela foi
destinada a viver com Richard Hnatt, a nunca mais ser
minha esposa. Ninguém pode reverter o fluxo do tempo.
Pode, quando mascar Can-D, pensou. Ou o novo produto,
Mascar-Z. Todos os colonos fazem isso. Não existe na Terra,
mas existe em Marte, em Vênus, em Ganimedes, em todos
os mundos-colônias.
Se tudo mais falhar, há sempre aquilo.
E talvez aquilo já tenha falhado. Porque...
Em última análise, não podia procurar Palmer Eldritch.
Não, depois do que aquele homem fizera — ou tentara fazer
— com Leo. Compreendeu isso enquanto, do lado de fora,
esperava um táxi. Às suas costas, tremeluzia a rua do meio-
dia, e ele pensou: talvez eu vá para o meio da rua. Alguém
me encontraria, antes de eu morrer? Provavelmente, não.
Isso seria uma maneira tão boa como outra qualquer...
Assim, lá se vai minha última esperança de emprego. Leo
acharia divertido se eu esticasse as canelas aqui. Ficaria
surpreso e, provavelmente, satisfeito.
Só pelo prazer da coisa, resolveu, vou telefonar para
Eldritch, perguntar a ele, verificar se ele me ofereceria um
emprego.
Descobriu uma cabine de videofone e fez uma ligação
para a propriedade de Eldritch, em Luna.
— Fala aqui Barney Mayerson — explicou. — Antes,
consultor-chefe de pré-sucesso de Leo Bulero. Na verdade,
eu era a segunda pessoa da P. P. Layouts...
O gerente de pessoal de Eldritch franziu as sobrancelhas
e disse:
— Bem? O que é que o senhor quer?
— Eu gostaria de verificar a possibilidade de trabalhar
com vocês.
— Nós não estamos contratando nenhum consultor de
pré-sucesso. Sinto muito.
— O senhor poderia perguntar ao senhor Eldritch, por
favor?
— O senhor Eldritch já se manifestou sobre esse assunto.
Barney desligou. Deixou a cabine videofônica.
Na verdade, não estava surpreso.
Se ele houvesse dito "Venha a Luna para uma entrevista",
eu teria ido? Teria, compreendeu. Teria ido, mas, em algum
ponto, cairia fora.. Logo que estivesse plenamente
convencido de que me dariam o emprego.
Voltando ao videofone, ligou para sua junta de
convocação na ONU:
— Fala aqui o senhor Barney Mayerson. — Deu seu
número-código de identificação oficial. — Recebi meu aviso
há alguns dias. Gostaria de desistir das formalidades e ser
aceito logo. Estou ansioso para emigrar.
— O exame físico não pode ser dispensado — informou o
burocrata da ONU. — Nem o mental. Mas, se quiser, pode vir
quando desejar, agora mesmo, se preferir, e fazer os dois.
— Muito bem — disse. Vou fazer isso.
— E desde que o senhor está-se apresentando como
voluntário, senhor Mayerson, tem o direito de escolher...
— Qualquer planeta ou lua serve para mim — respondeu
ele. Desligou, deixou a cabine, pegou um táxi e deu o
endereço da junta de alistamento que ficava próxima de seu
prédio de apartamentos.
Enquanto o táxi sobrevoava, zumbindo, o centro de Nova
Iorque, outro táxi levantou vôo e tomou-lhe à frente,
inclinando os estabilizadores laterais num movimento
oscilante.
— Eles estão tentando entrar em contato conosco —
informou o circuito autônomo de seu táxi — Deseja
responder?
— Não — retrucou Barney. — Aumente a velocidade. —
Mas em seguida mudou de idéia: — Pode perguntar a eles
quem são?
— Pelo rádio, talvez — O táxi ficou silencioso durante um
momento e declarou em seguida: — Eles alegam ter uma
mensagem para o senhor, da parte de Palmer Eldritch. Ele
quer lhe dizer que o aceita como empregado e que o senhor
não deve...
— Repita isso — ordenou Barney.
— O senhor Palmer Eldritch, que eles representam, lhe
dará o emprego que o senhor recentemente solicitou,
embora tenham uma regra de aplicação geral...
— Deixe-me falar com eles — pediu Barney. Um
microfone lhe foi fornecido.
— Quem está falando? — perguntou Barney.
Uma voz desconhecida de homem respondeu:
— Fala aqui Icholtz. Da indústria Mascar-Z, de Boston.
Podemos aterrar e discutir a questão de seu emprego em
nossa firma?
— Estou indo para a junta de recrutamento, a fim de me
oferecer.
— Não há nada por escrito, há? O senhor não assinou
nada, assinou?
— Não.
— Ótimo. Neste caso, não é tarde demais.
— Mas em Marte eu posso mascar Can-D — disse Barney.
— Por que, em nome de Deus, o senhor faria isso?
— Porque assim eu poderia voltar para Emily.
— Quem é Emily?
— Minha ex-esposa. Que expulsei de casa porque ela
engravidou. Agora, compreendo que aquele foi o único
tempo feliz de minha vida. Para dizer a verdade, amo-a mais
agora do que nunca. O amor aumentou, em vez de
desaparecer.
— Escute aqui — disse Icholtz. — Nós podemos lhe
fornecer todo o Mascar-Z que quiser e o produto é superior.
O senhor poderá viver para sempre em um eterno imutável,
perfeito, com sua ex-esposa Assim, não há problema.
— Mas talvez eu não queira trabalhar para Palmer
Eldritch.
— O senhor pediu um emprego.
— Mas estou com dúvidas — respondeu Barney. —
Graves. Eu lhe digo uma coisa: não me ligue. Eu ligarei para
o senhor. Se não entrar para o Serviço. — Devolveu o
microfone ao táxi. — Tome. Obrigado.
— É patriótico ingressar no Serviço — comentou o táxi.
— Meta-se com sua vida — cortou-o Barney.
— Acho que o senhor está fazendo a coisa certa —
declarou o táxi, apesar de tudo.
— E se eu apenas tivesse ido a Sigma 14-B a fim de
salvar Leo — disse Mayerson. — Ou era Luna? Onde quer
que fosse. Não consigo nem mesmo me lembrar agora. Tudo
isso parece um sonho confuso. De qualquer modo, se eu
tivesse ido, ainda estaria trabalhando para ele e tudo estaria
bem.
— Todos nós cometemos erros — disse piedosamente o
táxi.
— Mas alguns — retrucou Barney — cometem erros fatais.
Em primeiro lugar com nossos entes queridos, esposa e
filhos, e
em seguida com nosso empregador, disse a si mesmo.
O táxi continuou a zumbir em seu vôo.
E depois, pensou ele, cometemos o último erro. Com toda
nossa vida, que engloba tudo. Devo aceitar um emprego
com Eldritch ou ingressar no Serviço? E qualquer que seja a
escolha, sabemos o seguinte:
Foi a alternativa errada.
Uma hora depois, concluíra o exame físico. Passou, e logo
em seguida o mental foi realizado por algo não muito
diferente do doutor Smile.
Passou, também.
Num estado de aturdimento fez o juramento ("Juro
considerar a Terra como a mãe e a líder", etc.) e em
seguida, com uma pasta de informações do tipo "Seja bem-
vindo", foi dispensado para voltar ao apartamento e fazer as
malas. Dispunha de 24 horas antes que sua nave partisse
para... para onde quer que o estivessem enviando. A ONU
não se pronunciara ainda sobre isso. A notificação de
destino, pensou, provavelmente começaria com Mene,
mene, teckel. Pelo menos devia, considerando as possíveis
opções a que se limitava.
Fui aceito, disse a si mesmo, sentindo todos os tipos de
reação: satisfação, alívio, medo e em seguida melancolia,
que surgiu com um esmagador sentimento de derrota. De
qualquer modo, pensou, voltando ao apartamento, isto é
melhor do que sair para o sol do meio-dia, tornando-me,
como dizem, um cão danado ou um inglês.
Ou era mesmo?
De qualquer modo, esta solução era mais lenta.
Demorava mais morrer dessa maneira, possivelmente uns
50 anos e esse fato agradava-lhe mais. Mas por quê, não
sabia.
Contudo, refletiu, posso sempre resolver acelerar o
processo. Num mundo-colônia há sem dúvida tantas
oportunidades para isso como aqui, talvez ainda mais.
Enquanto arrumava as coisas, saboreando pela última
vez o apartamento amado e pelo qual tanto trabalhara, o
videofone tocou.
— Senhor Bayerson... — Uma moça, alguma funcionária
subalterna de algum departamento subalterno da divisão de
colonização da ONU. Sorrindo.
— Mayerson.
— Sim. O motivo por que estou telefonando é para lhe
dizer que seu destino — sorte sua, senhor Mayerson — será
a área fértil de Marte conhecida como Fineburg Crescent. Sei
que vai gostar de lá. Bem, adeus, senhor, e boa sorte. —
Continuou a sorrir mesmo depois de ele ter desligado a
imagem. Era o sorriso de uma pessoa que não estava sendo
deportada.
— Boa sorte para você também — disse ele.
Fineburg Crescent. Ouvira falar no lugar. Relativamente,
era mesmo fértil. De qualquer modo, os colonos de lá
possuíam hortas. Não era, como algumas áreas, um ermo de
cristais congelados de metano e gás, descendo em
tempestades violentas, intermináveis, um ano sim, e o outro
também. Acreditasse ou não, ele, de vez em quando,
poderia subir à superfície, deixar o alojamento.
No canto da sala de estar, viu a valise do doutor Smile.
Ligou-a e disse:
— Doutor, o senhor vai ter dificuldade em acreditar nisto,
mas não preciso mais de seus serviços. Adeus e boa sorte,
como disse a moça que não está indo para fora. — E
acrescentou, numa explicação. — Apresentei-me como
voluntário.
— Cdryxxxxx — berrou o doutor Smile, soltando uma roda
denteado no subsolo do prédio. — Mas, para seu tipo... isso
é virtualmente impossível. Qual foi a razão, senhor
Mayerson?
— O desejo de morrer — respondeu, e desligou o
psiquiatra. Em silêncio, voltou à arrumação da mala. Deus!,
pensou. E há tão pouco tempo Roni e eu tínhamos aqueles
planos tão maravilhosos, íamos trair Leo em grande estilo,
passar sensacionalmente para o lado de Eldritch. O que foi
que aconteceu com tudo isso? Eu lhe digo o que foi que
aconteceu, pensou: Leo agiu antes.
E agora Roni tem meu emprego. Exatamente o que ela
queria.
Quanto mais pensava no caso, mais zangado ficava, de
maneira confusa Mas nada havia que pudesse fazer a esse
respeito, não neste mundo. Talvez, quando mascasse Can-D
ou Mascar-Z, pudesse habitar um mundo onde...
Ouviu uma batida na porta
— Oi — disse Leo. — Posso entrar? — Entrou, enxugando
a testa imensa com um lenço dobrado. — Dia quente.
Verifiquei no jornal e a temperatura subiu seis décimos de...
— Se veio aqui para me devolver o cargo — respondeu
Barney, interrompendo a arrumação — é tarde demais. Já
ingressei no Serviço. Vou viajar amanhã para Fineburg
Crescent.
Seria uma ironia última se Leo quisesse fazer as pazes, o
último giro nas rodas cegas da criação.
— Eu não lhe estou devolvendo o emprego. E sei que
você foi incorporado. Tenho informantes no serviço de
seleção, e, de qualquer modo, o doutor Smile me notificou.
Eu estava pagando a ele — você não sabia disso, claro —
para me informar sobre seu progresso em se desintegrar sob
tensão.
— O que é que você quer, então?
— Quero que você aceite um emprego na agência de Félix
Blau. Já está tudo combinado.
— O resto de minha vida — respondeu tranqüilo Barney —
será passado em Fineburg Crescent. Será que não entendeu
isso?
— Calma aí. Estou tentando tirar o máximo de uma má
situação e é melhor que você faça o mesmo. Nós dois
agimos precipitadamente demais, eu em despedir você, e
você em se entregar àquele serviço de seleção tipo Drácula.
Barney, acho que descobri uma maneira de atrair Palmer
Eldritch para uma armadilha. Conversei sobre o assunto com
Blau e ele gostou da idéia. Você deve passar como colono...
— Leo corrigiu-se — ou melhor, ir em frente, levar o tipo de
vida real de colono, tornar-se um do grupo. Bem, um desses
dias, provavelmente na próxima semana, Eldritch vai
começar a vender Mascar-Z em sua área. Podem abordá-lo
imediatamente. De qualquer modo, temos esperança de que
o façam. Estamos contando com isso.
Barney levantou-se.
— E eu devo agarrar logo a oportunidade e comprar?
— Isso mesmo.
— Por quê?
— Você apresenta uma queixa — nosso serviço jurídico
preparará a coisa para você — à ONU, declarando que o
maldito e nocivo lixo produziu efeitos colaterais altamente
tóxicos em você. Neste momento, não importa o quê.
Transformaremos você num caso-teste, obrigaremos a ONU
a proibir a Mascar-Z como danosa, perigosa... e a
manteremos completamente fora da Terra. Na verdade, é
um negócio, você se demitindo da P.P. e entrando para o
Serviço. A coisa não poderia ter acontecido em melhor
ocasião.
Barney sacudiu a cabeça.
— O que significa isso? — perguntou Leo.
— Estou fora disso.
— Por quê?
Barney encolheu os ombros. Na verdade, não sabia
— Depois da maneira como lhe faltei...
— Você entrou em pânico. Não sabia o que fazer. Não era
o seu trabalho. Eu devia ter mandado Smile entrar em
contato com o chefe da segurança de nossa companhia, John
Seltzer. Muito bem, você cometeu um erro. Acabou.
— Não — disse Barney. E pensou: por causa do que
aprendi sobre mim mesmo. Não posso esquecer isso. Essas
introvisões, elas só se desenvolvem numa direção, vão
diretamente ao coração. E são cheias de veneno.
— Não fique macambúzio, pelo amor de Deus. Quero
dizer, isso é mórbido, você ainda tem uma vida inteira pela
frente, mesmo que seja em Fineburg Crescent. Quero dizer,
você provavelmente teria sido convocado de qualquer
maneira, certo? Concorda? — Agitado, Leo andou de um lado
para o outro na sala. — Que confusão. Muito bem, não nos
ajude e deixe que Eldritch e aqueles proximianos façam o
que pretenderem, tomem o sistema solar ou façam coisa
ainda pior, tomem todo o universo, começando por nós. —
Parou e olhou zangado para Barney.
— Deixe-me... pensar um pouco nisso.
— Espere até tomar Mascar-Z. E vai descobrir. A coisa vai
contaminar todos nós, começando por dentro e subindo para
a superfície... E a desordem total. — Arquejando com o
esforço, Leo parou e tossiu violentamente. — Charutos
demais — disse debilmente. — Jesus! — Olhou para Barney.
— O cara me deu um dia, sabia? Devo capitular e se não
fizer isso... — Estalou os dedos.
— Eu não posso chegar a Marte tão cedo assim —
protestou Barney. — E ainda menos me preparar para
comprar um naco de Mascar-Z de um traficante.
— Eu sei disso. — A voz de Leo era dura. — Mas ele não
vai poder me destruir tão cedo assim. Precisará de semanas,
talvez mesmo de meses. E, nessa ocasião, teremos nos
tribunais uma pessoa que pode exibir lesões. Reconheço que
isso não lhe parece grande coisa, mas...
— Entre em contato comigo quando eu estiver em Marte
— disse Barney. — No meu alojamento.
— Eu farei isso! Farei isso! — E em seguida, meio para si
mesmo, Leo disse: — E isso lhe dará uma razão.
— Não entendi.
— Nada, Barney.
— Explique.
Leo encolheu os ombros.
— Diabo, eu sei em que enrascada você está metido. Roni
ficou com seu emprego. Você está certo a esse respeito. E
eu mandei segui-lo. Sei que foi direto visitar sua ex. Você
ainda a ama e ela não quer voltar para você," não é? Eu o
conheço melhor do que você se conhece. Sei exatamente
por que você não apareceu para me salvar quando eu estava
em poder de Palmer. Sua vida inteira orientou-se no sentido
de me substituir e, agora que isso desmoronou, você tem
que recomeçar com alguma coisa nova. E uma pena, mas foi
você quem fez isso consigo mesmo, ambicionando demais.
Escute, eu não penso em sair de cena, nunca pensei. Você é
competente, mas não como executivo, apenas como um
consultor de pré-sucesso. Você é vingativo demais. Veja só
como recusou aqueles vasos oferecidos por Richard Hnatt.
Aquilo foi uma terrível revelação, Barney. Sinto muito.
— Tudo bem — disse finalmente Barney. — Você,
possivelmente, tem razão.
— Assim você descobriu muitas coisas a respeito de si
mesmo. E pode recomeçar, em Fineburg Crescent. — Leo
deu-lhe uma palmadinha nas costas. — Tornar-se um líder
em seu alojamento, torná-lo criativo e produtivo, ou o que
quer que seja que os alojamentos fazem. E seria espião de
Félix Blau. Isso é importante.
— Eu poderia ter-me passado para Eldritch — lembrou
Barney.
— Podia, mas não passou. Quem quer saber o que você
podia ter feito?
— Você acha que agi bem, apresentando-me como
voluntário para o Serviço?
Leo respondeu tranqüilamente:
— Cara, o que diabo mais você podia ter feito?
Não havia resposta a isso. E ambos sabiam que era
assim.
— Quando surgir a ânsia de sentir pena de si mesmo —
disse Leo — lembre-se de que Palmer Eldritch quer me
matar... Estou numa situação muito pior do que a sua
— Acho que sim. — A coisa parecia autêntica e ele teve
mais uma intuição para acompanhá-la.
Sua situação se tornaria igual à de Leo, no momento em
que desse queixa de Palmer Eldritch. E não esperava isso
com prazer.

NAQUELA NOITE, tomou um transporte da ONU que se


destinava ao planeta Marte. A poltrona ao seu lado era
ocupada por uma moça morena, bonita, assustada, mas
incrivelmente calma, com feições finamente cinzeladas,
como as de um modelo de revista. Ficou sabendo o seu
nome logo que a nave alcançou velocidade de escape — ela
estava evidentemente ansiosa para romper a tensão
conversando com alguém, sobre qualquer assunto — era
Anne Hawthorne. Poderia ter evitado a convocação,
explicou, um pouco ofegante, mas não fizera isso, acreditava
que era um dever patriótico aceitar o duro convite da ONU.
— Como você podia ter evitado isso? — perguntou ele,
curioso.
— Alegando sopro cardíaco — explicou Anne. — Arritmia,
taquicardia paroxística.
— Que tal contrações prematuras, tais como taquicardia
auricular, nodal, ventricular, palpitação e fibrilação cardíaca,
para nada dizer de cãibras? — perguntou Barney, tendo ele
mesmo — sem resultado — examinado o assunto.
— Eu podia ter arranjado laudos com hospitais, médicos e
companhias de seguro, atestando meu estado de saúde. —
Ela examinou-o de alto a baixo, e em seguida disse, muito
interessada. — O senhor dá a impressão de que poderia ter
escapado, senhor Payerson.
— Mayerson. Eu me apresentei como voluntário,
senhorita Hawthorne.
Mas não podia ter escapado, não por muito tempo,
pensou.
— O pessoal é muito religioso, lá nas colônias. Pelo
menos, é o que ouço dizer. Qual é a sua seita, senhor
Mayerson?
— Hummmm — respondeu ele, sem saber o que
responder.
— Acho melhor descobrir antes de chegarmos lá. Vão lhe
perguntar e esperar que o senhor compareça aos serviços
religiosos. — E acrescentou: — Trata-se, principalmente, do
emprego daquela droga... o senhor sabe, Can-D. Ela
ocasionou muitas conversões às igrejas tradicionais...
embora alguns colonos encontrem na própria droga uma
experiência religiosa que é adequada para eles. Tenho
parentes em Marte. Eles me escrevem e eu sei. Vou para
Fineburg Crescent. E o senhor?
Tudo combinando, pensou ele.
— Para o mesmo lugar — respondeu.
— Possivelmente, o senhor e eu ficaremos no mesmo
alojamento — disse Anne Hawthorne com uma expressão
pensativa no rosto talhado com perfeição. — Eu pertenço ao
Ramo Reformado da Igreja Neo-americana, à Nova Igreja
Cristã dos Estados Unidos e Canadá Na verdade, nossas
raízes são muito antigas: em 300 a.D., nossos antepassados
já tinham bispos, que compareceram a um sínodo na França.
Não nos separamos das outras igrejas tão tarde, como todo
mundo pensa. Sabe, nós temos Sucessão Apostólica. —
Sorriu-lhe, solene e cordial.
— Honestamente — disse Barney — acredito. O que quer
que seja.
— Há uma missão neo-americana em Fineburg Crescent
e, em conseqüência, um vigário, um sacerdote. Espero
poder receber a santa comunhão pelo menos uma vez por
mês. E me confesso duas vezes por ano, como devemos
fazer, como fazia na Terra. Nossa igreja tem numerosos
sacramentos... O senhor recebeu os dois grandes
sacramentos, senhor Mayerson?
— Hummmm... — hesitou ele.
— Cristo especificou que devíamos receber dois
sacramentos
— explicou paciente Anne Hawthorne. — O Batismo, pela
água, e a Sagrada Comunhão. Esta última, em memória
Dele... Foi iniciada na Ultima Ceia.
— Oh, você quer dizer o pão e o vinho.
— O senhor sabe que mascar Can-D traslada — como eles
dizem — o participante para outro mundo. E uma
experiência secular, portanto, no sentido de ser temporária e
apenas para um mundo físico. O pão e o vinho...
— Sinto muito, senhorita Hawthorne — interrompeu-a
Barney
— mas lamento dizer que não consigo acreditar nisso,
nesse negócio de corpo e sangue. E místico demais para
mim.
Muito calcado em premissas não comprovadas, pensou.
Mas a moça tinha razão: a religião tradicional, por causa da
Can-D, tornara-se comum nas luas e planetas-colonias e ele
iria encontrá-la por lá, como dissera Anne.
— O senhor vai experimentar a Can-D? — perguntou
Anne.
— Claro.
— O senhor tem fé nisso — observou Anne. — Ainda
assim, sabe que a Terra, para onde a droga o leva, não é a
real.
— Eu não quero discutir esse ponto — respondeu ele. —
Ela é experimentada como real. Isso é tudo o que sei.
— Os sonhos também.
— Mas essa é mais forte — lembrou ele. — E mais clara. E
é experimentada em... — ia dizendo comunhão — em
companhia de outras pessoas que realmente participam. De
modo que não pode ser inteiramente ilusão. Sonhos são
privados. Esse o motivo por que os consideramos como
ilusões. Perky Pat, porém...
— Seria interessante saber o que as pessoas que fabricam
os cenários de Perky Pat pensam de tudo isso — opinou
pensativa Anne.
— Isso eu lhe posso dizer. Para elas, é apenas negócio.
Como, provavelmente, a fabricação de vinho sacramentai e
de hóstias é para os que...
— Se o senhor vai experimentar Can-D — disse Anne — e
pôr nela sua fé numa nova vida posso convidá-lo a tentar o
batismo e o crisma na Igreja Cristã Neo-americana? Ou na
Primeira Igreja Cristã Reformada da Europa, que também
observa os dois grande sacramentos? Logo que o senhor
tiver participado da sagrada comunhão...
— Não posso — disse ele.
Eu acredito na Can-D, disse a si mesmo, e, se necessário,
na Mascar-Z. Pode-se ter fé em alguma coisa que tem 21
séculos de idade. Eu prefiro algo de novo. E esta é uma
opção.
— Para ser franca, senhor Mayerson, tenciono tentar
converter tantos colonos quanto possível, afastando-os da
Can-D e trazendo-os para os costumes cristãos tradicionais.
Esse foi o principal motivo por que resolvi não apresentar
razões que me isentariam da convocação. — Sorriu-lhe, um
sorriso lindo que, a contragosto, aqueceu-o. — Será isso
errado? Eu lhe digo com toda a franqueza. Acho que o uso
da Can-D indica uma fome autêntica da parte dessas
pessoas de encontrar um caminho de volta para o que nós,
na Igreja Neo-americana...
— Eu acho — interveio suavemente Barney — que a
senhorita devia deixar essas pessoas em paz.
E a mim também, pensou. Já tenho problemas demais,
não acrescente a eles seu fanatismo religioso e não agrave
ainda mais as coisas. Mas ela não transmitia a idéia que ele
fazia de uma fanática religiosa, nem falava como elas. Ficou
confuso. Como chegara ela a essas convicções tio fortes, tão
firmes? Podia imaginá-las existindo nas colônias, onde era
muito grande a necessidade, mas ela as adquirira na Terra.
Por conseguinte, a existência da Can-D e a experiência de
traslado coletivo não as explicavam inteiramente. Talvez,
pensou, tenha sido a transição gradual da Terra para o
deserto infernal, crestado pelo calor, que todos eles podiam
prever — diabo, experimentar! — que fora responsável por
isso, a esperança de uma nova vida que ressurgira em
termos diferentes.
Eu mesmo, pensou, o indivíduo que fui, Barney Mayerson,
da Terra, que trabalhou para a P.P. Layouts e viveu num
prédio de apartamentos com o baixo e inacreditável número
33, estou morto. Essa pessoa acabou, como se fosse
apagada com uma esponja.
Goste eu ou não goste , renasci.
— Ser colono em Marte — disse — não vai ser igual a
viver na Terra. Talvez, quando eu chegar lá...
Calou-se. A intenção fora dizer: Talvez eu fique mais
interessado em sua igreja dogmática. Mas ainda não podia
dizer isso honestamente, mesmo como conjetura. Rebelava-
se contra uma idéia que continuava estranha à sua
constituição. Ainda assim...
— Continue — pediu Anne Hawthorne — , termine sua
frase.
— Fale-me novamente — sugeriu Barney — quando eu
tiver vivido por algum tempo no fundo de um alojamento,
num mundo alienígena. Quando eu tiver iniciado minha nova
vida, se pode chamá-la de vida, como colono.
O tom era amargo e surpreendeu-o. A ferocidade...
chegando quase perto de angústia, compreendeu
envergonhado. Placidamente, Anne respondeu:
— Muito bem. Terei prazer em fazer isso.
Depois disso, ficaram os dois em silêncio. Barney lia um
jornal familiar enquanto, a seu lado, Anne Hawthorne, a
fanática jovem missionária que ia para Marte, lia um livro.
Lançou um olhar ao título e viu que era o grande texto de
Eric Lederman sobre a vida colonial, Peregrinos sem
Progresso. Só Deus sabia onde ela conseguira o exemplar. A
ONU condenara o livro, tornando extremamente difícil sua
obtenção. E ler um exemplar ali, numa nave da ONU... era
um ato ímpar de coragem. Ficou impressionado.
Examinando-a pelo canto do olho, descobriu que ela lhe
era extraordinariamente atraente, salvo o fato de ser um
pouco magra demais, não usar maquilagem, e ter seus
abundantes cabelos negros quase totalmente cobertos por
uma espécie de boina branca e um véu. Parecia, concluiu,
que ela estava vestida para alguma longa cerimônia que
acabaria na igreja. De qualquer modo, gostava da maneira
como ela falava, da voz compassiva, modulada. Voltaria a
encontrá-la em Marte?
Descobriu que estava com esperança de que isso
acontecesse. Na verdade — seria isso impróprio? — tinha
mesmo esperança de participar com ela do ato coletivo de
tomada de Can-D.
Sim, pensou, é incorreto porque sei o que tenho em
mente, o que a experiência de traslado com ela significaria
para mim.
Mas, de qualquer maneira, alimentou a esperança.
O ITO

ESTENDENDO a mão, Norm Schein disse calorosamente:


— Oi, Mayerson. Eu sou o recepcionista oficial de nosso
alojamento. Bem-vindo... ahan... a Marte.
— Eu sou Fran Schein — disse a esposa dele, apertando-
lhe também a mão. — Nós temos aqui um alojamento muito
organizado, muito estável. Acho que você não vai achá-lo
horroroso demais. — E acrescentou, como para si mesma: —
Apenas muito horroroso. — Sorriu, mas Mayerson não
retribuiu o sorriso. Estava sombrio, cansado e deprimido,
como a maioria dos novos colonos ao chegarem para iniciar
uma vida que, sabiam, era difícil e basicamente sem
sentido. — Não espere que a gente o convença das
qualidades disto aqui — continuou ela. — Isso cabe à ONU.
Nós nada mais somos do que vítimas, como você mesmo.
Exceto que estamos aqui já há algum tempo.
— Não torne as coisas assim tão feias — disse Norm
repreendendo-a
— Mas elas são — insistiu Fran. — O senhor Mayerson
está enfrentando a situação. Não vai aceitar histórias
enfeitadas, certo, senhor Mayerson?
— Nesta altura dos acontecimentos, eu poderia usar um
pouco de ilusão — respondeu Barney, sentando-se num
banco de metal, do lado de dentro da entrada do
alojamento. Enquanto isso, o trator limpa-areia que o
trouxera descarregava-lhe a bagagem. Sombriamente,
observava a operação.
— Desculpe — disse Fran.
— Posso fumar? — Barney tirou do bolso um maço de
cigarros terrenos. Os Scheins olharam fixamente para os
cigarros. Sentindo-se culpado, Barney ofereceu a ambos a
oportunidade de se servirem.
— Você chegou numa ocasião difícil — explicou Norm
Schein. — Estamos bem no meio de uma discussão. — Olhou
em volta para os demais. — Uma vez que você agora é
membro de nosso alojamento, não vejo por que não deva
ser incluído nela. Afinal de contas, interessa também a você.
— Talvez ele... Você sabe. Diga.
— Podemos exigir que ele faça um juramento de sigilo —
disse Sam Regan, e a esposa dele inclinou a cabeça,
concordando. — Nossa discussão, senhor Geyerson...
— Mayerson — corrigiu-o Barney.
— ... tem a ver com a droga Can-D, que é o velho e
confiável agente de trasladação de que temos dependido, ou
a nova e não experimentada droga, a Mascar-Z. Estamos
discutindo se abandonamos a Can-D, de uma vez por todas,
e...
— Espere até que estejamos lá embaixo — avisou Norm
Schein, fechando a cara.
Sentando no banco ao lado de Barney Mayerson, Tod
Morris recomeçou:
— A Can-D está acabada. E difícil demais de obter, custa
um número grande demais de peles e, pessoalmente, estou
cansado de Perky Pat — ela é artificial demais, superficial
demais, e materialistática demais... perdão, esta é a palavra
que usamos aqui para... — Pareceu em dificuldade para
achar uma explicação. — Bem, são os apartamentos, os
carros, os banhos de sol na praia, as roupas
deslumbrantes... Apreciamos isso durante algum tempo,
mas não é o suficiente em alguma forma de
imaterialistaticidade. Entendeu, finalmente, senhor
Mayerson?
Norm Schein tomou a palavra:
— Tudo bem, mas talvez Mayerson não tenha ainda
experimentado, não está embotado. Talvez aprecie passar
por tudo isso.
— Como nós passamos — concordou Frank. — De
qualquer modo, não votamos ainda Não decidimos o que
vamos comprar e usar de agora em diante. Acho que
devemos deixar o senhor Mayerson experimentar ambas as
coisas. Ou já tentou a Can-D, senhor Mayerson?
— Experimentei — confessou Barney. — Mas há muito
tempo. Tempo demais para que eu me lembre claramente.
— Leo lhe dera o produto e ainda lhe oferecera grandes
quantidades, tudo o que ele quisesse. Mas declinara. A
droga não o atraíra.
— Esta é uma maneira muito desagradável de dar-lhe as
boas-vindas em nosso alojamento, lamento dizer, envolvê-lo,
logo no começo, numa controvérsia como esta — disse Norm
Schein. — Mas estamos sem Can-D. Ou reestocamos ou
mudamos. Claro, o traficante de Can-D, Impy White, está
atrás de nós, querendo que façamos nossos novos pedidos a
ela... Até o fim da noite decidiremos de uma maneira ou de
outra E a decisão afetará todos nós... pelo resto de nossas
vida.
— De modo que, dê-se por feliz por não chegar amanhã
— comentou Fran. — Depois de feita a votação.
Sorriu encorajadora, tentando fazê-lo sentir-se em casa,
mas eles pouco tinham a oferecer, exceto o laço mútuo, o
fato do relacionamento recíproco, e isto lhe chegava naquele
instante.
Que lugar!, pensava nesse momento Barney Mayerson. 0
resto de minha vida... Parecia impossível, mas o que haviam
dito era verdade. Não havia cláusula na lei de serviço
seletivo da ONU prevendo a baixa de um convocado. E não
era fácil enfrentar aquele fato. Aquelas pessoas eram para
ele, a partir daquele instante, o corpo coletivo, mas... ainda
assim poderia ser muito pior! Duas das mulheres pareciam
fisicamente atraentes e ele podia dizer — ou acreditava que
podia — que elas estavam, por assim dizer, interessadas.
Sentiu a interação sutil das múltiplas complexidades dos
inter-relacionamentos interpessoais que surgiam nos confins
apertados de um único alojamento. Mas...
— A solução — disse Mary Regan, dirigindo-se a ele,
sentando-se no lado do banco que ficava em frente a Tod
Morris — será através de uma ou outra das drogas de
translação, senhor Mayerson. A não ser assim, como o
senhor pode ver... — Pôs a mão em seu ombro. O toque
físico já estava ali. — ... seria impossível. Em nossa dor, nós
simplesmente acabaríamos nos matando.
— Sim — disse ele — eu entendo.
Mas não descobrira isso por ter vindo para Marte. Como
todos os demais terráqueos, ouvira muito cedo na vida a
respeito da vida de colônia, a luta contra a atração interna
da imolação, o término de tudo aquilo num único e rápido
gesto de rendição.
Não era de espantar que a convocação fosse combatida
com unhas e dentes, como acontecera inicialmente com ele.
Era uma luta para apegar-se à vida.
— Hoje à noite — disse-lhe Mary Regan — vamos obter
uma droga ou a outra. Impy vai passar por aqui por volta de
7 h da noite, hora de Fineburg Crescent. A decisão terá que
ser tomada até lá.
— Eu acho que podemos votar agora — sugeriu Norm
Schein. — Penso que posso dizer que o senhor Mayerson,
embora tenha apenas chegado, está preparado. Tenho razão
ou não, Mayerson?
— Tem... — respondeu Barney.
A terraplenadora completara sua tarefa autônoma: seus
poucos pertences formavam uma pequena trouxa e a areia
solta já começava a cobri-los... Se não fossem levados para
baixo, em pouco tempo acabariam soterrados. Diabo,
pensou ele, talvez tanto faça... Laços com o passado...
Os outros moradores fizeram fila para ajudá-lo, passando
as valises de mão em mão para a correia transportadora que
servia ao alojamento abaixo da superfície. Mesmo que ele
não estivesse interessado em preservar seus antigos bens,
eles estavam. Possuíam um conhecimento superior ao seu.
— Você vai aprender a sobreviver de um dia para o outro
— consolou-o com pena Sam Reagan. — Aqui ninguém
pensa em termos mais longos. Simplesmente, até a hora do
jantar ou até a hora de dormir. Intervalos, tarefas e prazeres
bem definidos. Fugas.
Lançando fora o cigarro, Barney estendeu a mão para a
mais pesada das valises.
— Obrigado. — disse. Aquilo era um conselho profundo.
— Desculpe-me — disse Sam Regan, com polida
dignidade, e foi apanhar, para terminá-lo, o cigarro jogado
fora.

SENTADOS na câmara do alojamento que tinha espaço


suficiente para abrigar a todos, a coletividade, incluindo o
recém-chegado, Barney Mayerson, preparou-se para votar
solenemente. Hora: 6h, hora de Fineburg Crescent. O jantar,
em comum, como era habitual, terminara, os pratos já
ensaboados e enxaguados pela máquina apropriada Naquele
momento, pareceu a Barney, ninguém tinha coisa alguma a
fazer.
Fazendo a apuração dos votos, Norm Schein anunciou: •
— Quatro para Mascar-Z, três para Can-D. É essa a decisão,
então. Muito bem, quem quer a missão de dar a má notícia a
Impy White? — Olhou em volta para cada um deles. — Ela
vai ficar zangada. E melhor esperarmos por isso.
— Eu conto a ela — ofereceu-se Barney.
Atônitos, os três casais que compreendiam a população
do alojamento, além dele, olharam-no fixamente.
— Mas você nem mesmo a conhece — protestou Fran
Schein.
— Eu direi que foi culpa minha — prometeu Barney. —
Que inclinei a balança aqui em favor de Mascar-Z.
Eles concordariam, sabia. A tarefa seria desagradável.
Meia hora depois, matava o tempo na escuridão
silenciosa à boca do alojamento, fumando e escutando os
sons estranhos da noite marciana.
Muito distante, algum objeto lunar riscou o céu, passando
entre sua vista e as estrelas. Um momento depois, ouviu o
som de retrofoguetes. Logo depois, teve certeza. Esperou,
com os braços cruzados, mais ou menos relaxado, ensaiando
o que tencionava dizer.
Um momento depois, uma corpulenta figura feminina,
usando grosso macacão, apareceu.
— Schein? Morris? Bem, Regan, então? — Olhou-o através
das frestas dos olhos, usando uma lanterna infravermelha —
Eu não o conheço. — Cautelosamente, parou a meio
caminho. — Tenho uma pistola laser. — A pistola apareceu,
apontada para ele. — Fale.
— Vamos nos afastar para fora do alcance da audição do
alojamento — propôs Barney.
Com grande cautela, Impy White acompanhou-o, ainda
apontando-lhe, ameaçadora, a pistola laser.
Recebeu a carteira de identidade dele e leu-a com ajuda
da lanterna.
— Você trabalhou para Bulero — disse, erguendo para ele
um olhar inquisidor. — E daí?
— Daí — respondeu ele — vamos mudar para Mascar-Z,
nós do alojamento.
— Por quê?
— Simplesmente aceite o fato e não tente mais passar a
droga aqui. Você pode checar isso com Leo na P.P. Ou
através de Conner Freeman em Vênus.
— Farei isso mesmo — disse Impy. — Mascar-Z é lixo.
Provoca dependência, é tóxica e, o que é pior, leva a sonhos
de fuga letais, não com a Terra, mas com... — Fez um gesto
com a pistola — Fantasias grotescas, barrocas, de natureza
infantil, totalmente desequilibradas. Explique o motivo dessa
decisão.
Ele não respondeu. Simplesmente encolheu os ombros.
Era interessante, contudo, a devoção ideológica dela,
divertia-o. Na verdade, refletiu, o fanatismo dela contrastava
violentamente com a atitude que demonstrava a moça
missionária a bordo da nave Terra-Marte. Evidentemente, o
tema não tinha importância. Jamais compreendera isso
antes.
— Eu virei aqui amanhã à noite à mesma hora — resolveu
Impy White. — Se você estiver contando a verdade, ótimo.
Mas se não estiver...
— O que é que acontece, se eu não estiver? — perguntou
ele lenta, deliberadamente. — Você pode nos obrigar a
consumir seu produto? Afinal de contas, ele é ilegal. Nós
poderíamos pedir proteção à ONU.
— Você é novato. — Manifestou seu imenso desprezo. —
A ONU nesta região está perfeitamente a par do tráfico de
Can-D. Pago uma soma regular ao pessoal, a fim de evitar
interferência. No que interessa a Mascar-Z... — Gesticulou
com a arma. — ... se a ONU vai proteger o pessoal dela e se
ela é a coisa do futuro...
— Você passará para eles — disse Barney.
Ela não respondeu. Em vez disso, deu-lhe as costas e
afastou-se. Quase imediatamente, sua forma baixa
desapareceu na noite marciana. Ele permaneceu durante
algum tempo no lugar onde se encontrava e, em seguida,
voltou ao alojamento, orientando-se pela forma volumosa,
opaca, de uma máquina agrícola enorme, parecida com um
trator, estacionada nas proximidades.
— Então? — perguntou Norm Schein para surpresa dele,
recebendo-o à entrada. — Eu vim até aqui em cima para ver
quantos buracos ela abriu com o laser em seu crânio.
— Ela recebeu a decisão filosoficamente.
— Impy White? — Norm riu secamente. — O negócio que
ela tem aqui é de um milhão de peles... "Filosoficamente",
uma ova. O que foi que aconteceu, realmente?
— Ela vai voltar, depois de receber instruções lá de cima
— explicou Barney. Começou a descer para o interior do
alojamento.
— Isso, sim, faz sentido. Ela é piaba. Leo Bulero, lá na
Terra...
— Eu sei. — Não viu razão para ocultar sua carreira
anterior. De qualquer modo, constava dos registros públicos.
No fim, o pessoal do alojamento acabaria dando com a
informação. — Eu.fui o consultor de pré-sucesso de Leo
Bulero em Nova Iorque.
— E você votou para mudar para Mascar-Z? — Norm
estava incrédulo. — Você teve uma briga com Bulero, é isso?
— Um dia eu lhe conto. — Chegou ao fundo da rampa e
entrou na câmara comunal, onde os outros estavam à
espera.
Aliviada, Fran Schein disse:
— Pelo menos, ela não assou você com aquela pequena
pistola laser que anda mostrando por aí. Você deve ter
obrigado aquela mulherzinha a baixar a vista.
— Estamos livres dela? — perguntou Tod Morris.
— Essa notícia eu saberei amanhã à noite — respondeu
Barney.
Mary Regan virou-se para ele.
— Nós achamos que o senhor é muito valente. O senhor
vai dar uma grande contribuição a este alojamento, senhor
Mayerson. Barney, quero dizer. Fazendo uma metáfora, deu
um bom empurrão em nossa moral.
— Meu Deus — zombou Helen Morris. — Nós não estamos
sendo um pouco deselegantes, em nossa agitação, para
impressionar o novo cidadão?
Enrubescendo, Mary Regan replicou:
— Eu não estava tentando impressioná-lo.
— Lisonjeá-lo, então — sugeriu baixinho Fran Schein.
— Você também — retrucou zangada Mary. — Você foi a
primeira a bajulá-lo quando ele desceu daquela rampa... ou,
de qualquer modo, quis fazer isso. E teria feito, se nós todos
não estivéssemos aqui, especialmente se seu marido não
estivesse aqui.
Tentando mudar o assunto, Norm Schein disse:
— E uma pena que não possamos fazer o traslado hoje à
noite, tirar o bom e velho cenário de Perky Pat pela última
vez. Barney poderia apreciar. Ele poderia, pelo menos,
compreender o que votou para acabar. — Intencionalmente,
olhou de um para o outro, dando o recado a cada um deles.
— Agora, vamos... certamente um de vocês tem ainda um
pouco de Can-D guardada, enfiada numa rachadura na
parede ou sob o tanque séptico, para se garantir num ano de
vacas magras. Ora, vamos, seja generoso com o novo
cidadão, mostre a ele que não é...
— Muito bem — explodiu Helen Morris, enrubescida, com
um súbito ressentimento. — Eu tenho um pouco, o suficiente
para três quartos de hora. Mas isso é absolutamente tudo, e
agora suponhamos que a Mascar-Z não esteja ainda pronta
para distribuição em nossa área?
— Vá buscar sua Can-D — disse Norm. Quando ela saiu,
ele continuou: — E não se preocupem. A Mascar-Z está aqui.
Hoje, quando fui apanhar um saco de sal no último
lançamento da ONU, encontrei um dos traficantes da droga.
Ele me deu o cartão dele. — Mostrou o cartão. — Tudo que
precisamos fazer é acender um sinal luminoso comum, de
nitrato de estrondo, às 7:30h da noite e eles descerão do
satélite...
— Satélite! — gritaram todos, cheios de espanto.
— Neste caso — disse excitada Fran — a droga deve ter
aprovação da ONU. Será que eles têm um cenário e disc
jockeys no satélite para anunciar suas novas miniaturas?
— Não sei ainda — reconheceu Norm. — Quero dizer, a
esta altura ainda há muita confusão. Vamos esperar até que
a poeira assente.
— Aqui em Marte — comentou em voz sepulcral Sam
Regan — ela nunca assentará.
Sentaram-se formando um círculo. Diante deles, o
cenário de Perky Pat, completo e refinado, chamava-os.
Todos lhe sentiam a atração, e Norm Schein refletiu que
aquela era uma ocasião sentimental porque nunca mais
fariam aquilo... a menos, claro, que fizessem... usassem o
cenário... mas com Mascar-Z. O que aconteceria?, perguntou
a si mesmo. Interessante...
Teve uma sensação, inexplicável, de que não seria a
mesma coisa.
E... talvez não gostassem da diferença.
— E preciso que você saiba — disse Sam Regan ao novo
membro, Barney Mayerson — que nós vamos passar o
período de traslado escutando e observando o novo
animador de Grandes Livros, de Pat... você sabe, o aparelho
que acabam de lançar na Terra.. Você certamente o conhece
mais do que nós, Barney, de modo que bem que podia nos
explicar como é a coisa.
Obedientemente, Barney começou:
— A gente insere um dos "Grandes Livros", por exemplo,
Moby Dick, no receptáculo. Em seguida, ajustamos os
controles para longa ou curta. Em seguida, para a versão
divertida igual ao livro, ou triste. Depois, ajusta-se o
indicador de estilo para o Grande Artista clássico que
queremos que faça a animação do livro. Dali, Bacon,
Picasso... O animador de "Grandes Livros" de preço médio é
preparado para mostrar, em forma de cartuns, os estilos de
uma dezena de artistas famosos em todo o sistema. A gente
especifica qual o que quer, quando compra a coisa. E há
opções que podem ser acrescentadas mais tarde, que
proporcionam ainda maior variedade.
— Maravilhoso — disse Norm Schein, transbordando de
entusiasmo. — De modo que a gente obtém divertimento
para uma noite inteira, digamos uma versão triste, no estilo
de Jack Wright, de Vanity Fair. Oh!
Suspirando, Fran disse, sonhadora:
— Como deve ter ressoado em sua alma, Barney, ter
vivido até tão pouco tempo na Terra. Você parece que
carrega ainda as vibrações.
— Diabo, nós todos as conseguiremos — lembrou Norm —
quando fizermos o traslado. — Impaciente, estendeu a mão
para o escasso suprimento de Can-D. — Vamos começar. —
Pegando sua própria fatia, começou a mastigar
vigorosamente. — O. "Grande Livro" que vou transformar
num cartum engraçado, sem faltar nenhuma parte, no estilo
de De Chirico será... — pensou um pouco — ... hummm, As
Meditações de Marco Aurélio.
— Muito espirituoso — comentou mordaz Helen Morris. —
Eu ia sugerir as Confissões, de Santo Agostinho, no estilo de
Lichtenstein... engraçadas, naturalmente.
— Estou falando sério! Imaginem só: a perspectiva
surrealista, prédios desertos, arruinados, com colunas
dóricas tombadas, cabeças ocas...
— E melhor que todo mundo comece a mascar —
aconselhou Fran, pegando sua fatia — para ficarmos em
sincronia.
Barney recebeu a sua O fim do antigo, refletiu, enquanto
mastigava. Estou participando do que, para este alojamento
particular, é a noite final, e em seu lugar chega o quê? Se
Leo estiver certo, será intoleravelmente pior. Na verdade,
não há termo de comparação. Claro, Leo está pouco
interessado nisto. Mas ele é evoluído. E sábio.
Objetos miniaturizados que, no passado, aprovei, pensou
ele nesse instante. Dentro de um momento, estarei imerso
num mundo composto deles, reduzido às suas dimensões. E,
ao contrário dos outros moradores deste alojamento, posso
comparar minha experiência entre este cenário e aquilo que
tão recentemente deixei.
E daqui a pouco tempo, compreendeu sombriamente,
serei chamado a fazer a mesma coisa com o Mascar-Z.
— Você vai descobrir que é uma sensação estranha —
disse-lhe Norm Schein — sentir-se num corpo com três
outras pessoas. Todos temos que concordar com o que
queremos que o corpo faça, ou pelo menos tem que se
formar uma maioria dominante, pois de outra forma ficamos
simplesmente entalados.
— Isso acontece — avisou Tod Morris. — Na verdade, na
metade das vezes.
Um após outro, começaram todos a mascar suas fatias de
Can-D. Barney Mayerson foi o último, e mais relutante. Ah,
diabo, pensou de repente, e cruzou a sala até uma pia, onde
cuspiu a Can-D meio mastigada, sem tê-la engolido.
Os outros, sentados diante da representação de Perky
Pat, já haviam caído numa espécie de coma e nenhum deles
pôde lhe prestar a menor atenção. Para todos os fins e
finalidades, de repente ele ficou sozinho. O alojamento,
durante algum tempo, era todo seu.
Circulou pelo local, consciente do silêncio.
Eu simplesmente não posso fazer isso, compreendeu. Não
posso tomar a maldita droga como eles. Pelo menos, ainda
não.
Soou uma campainha.
Alguém se encontrava à porta do alojamento, pedindo
permissão para entrar. Cabia-lhe receber quem quer que
fosse. Começou a subir, na esperança de que estivesse
fazendo a coisa certa, que aquilo não fosse uma das batidas
periódicas da ONU. Não havia muito o que pudesse fazer
para evitar que o pessoal da ONU descobrisse os residentes
do alojamento, inertes diante do cenário, e o flagrante
delicio , como usuários da Can-D.
Lanterna na mão, encontrou na entrada ao nível do solo
uma moça usando um volumoso macacão de retenção de
calor e, evidentemente, pouco acostumada com o traje.
— Olá, senhor Mayerson — cumprimentou ela. — Lembra-
se de mim? Vim procurá-lo porque me sinto horrivelmente
solitária. Posso entrar? — Era Anne Hawthorne. Surpreso,
fitou-a. — Ou o senhor está ocupado? Eu poderia vir em
outra ocasião. — Deu uma meia-volta, preparando-se para ir
embora.
— Estou vendo — comentou ele — que Marte foi um
grande choque cara você.
— É um pecado — disse Anne — mas já o odeio. Odeio,
realmente... Sei que devia adotar uma atitude paciente de
aceitação de tudo isto, mas... — Iluminou com a lanterna a
paisagem por trás do alojamento e com voz trêmula, de
desespero, disse: — Tudo o que eu quero agora é encontrar
uma maneira de voltar à Terra. Não quero converter
ninguém nem mudar coisa alguma, quero simplesmente ir
embora daqui. — Mas acrescentou sombriamente: — E sei
que não posso. De modo que, em vez disso, pensei em
visitá-lo. Entendeu?
Segurando-lhe a mão, ele levou-a pela rampa abaixo para
o compartimento que lhe fora designado.
— Onde estão seus outros companheiros de alojamento?
— Ela olhou alerta em volta.
— Fora.
— Lá fora? — Abriu a porta para a sala comunal e viu o
grupo estirado em volta da representação. — Oh, "fora"
dessa maneira. Mas não o senhor. — Fechou a porta, cenho
franzido, obviamente perplexa. — O senhor me deixa
espantada. Eu teria com prazer aceito um pouco de Can-D
hoje à noite, da maneira como me sinto. Olhe só como o
senhor está agüentando bem a situação, em comparação
comigo. Eu sou tão... inadequada.
— Talvez eu tenha uma finalidade mais forte para estar
aqui do que você — disse Barney.
— Eu tinha finalidade de sobra. — Ela tirou o desajeitado
macacão e sentou-se, enquanto ele começava a preparar
café para os dois. — As pessoas no meu alojamento — fica a
uns 800 m ao norte deste — também estão fora da mesma
maneira. O senhor sabia que eu estava tão perto? Teria me
procurado?
— Claro que teria. — Achou xícaras e pires plásticos de
formatos comuns, colocou-os sobre a mesa dobrável e
pegou cadeiras igualmente dobráveis. — Talvez — disse —
Deus não chegue até Marte. Talvez, quando deixamos a
Terra...
— Tolice — disse Anne secamente, levantando-se.
— Eu achei que isso conseguiria fazer você ficar zangada.
— Claro que conseguiu. Ele está em toda parte. Mesmo
aqui. — Olhou para os pertences parcialmente abertos dele,
as valises, as caixas de papelão fechadas. — O senhor não
trouxe muita coisa, não foi? A maior parte de minhas coisas
ainda está a caminho, a bordo do transporte autônomo. —
Dirigindo-se para um dos lados, parou diante de uma pilha
de brochuras. — De Imitatione Christi — disse, atônita. — O
senhor está lendo Thomas a Kempis? Este é um grande e
maravilhoso livro.
— Comprei-o — confessou ele — mas nunca o li.
— Tentou? Aposto que não. — Abriu-o ao acaso e leu para
si mesma, movendo os lábios: — "Pensa que é grande a
menor dádiva que Ele te deu e considera as coisas mais
desprezíveis como dádivas especiais e grandes sinais de
amor." Isso incluiria a vida aqui em Marte, não? Esta vida
desprezível, fechados aqui nestes... alojamentos. Bons
nomes têm eles, não? Por que, em nome de Deus... — virou-
se, num apelo — não se poderia pôr um ponto final aqui e
todos nós voltarmos para casa?
— Uma colônia, por definição, tem que ser permanente.
Pense na Roanoke Island, onde Sir Walter Raleigh tentou
fundar uma colônia, de 1585 a 1587.
Anne inclinou a cabeça.
— Eu já pense;. Eu gostaria que Marte fosse uma grande
Roanoke Island, com todo mundo voltando para casa.
— Para ser cozinhado lentamente.
— Nós podemos evoluir, como fazem os ricos. Isso podia
ser feito em base de massa. — Bruscamente, pôs de lado o
livro de Kempis. — Mas eu tampouco quero isso. Uma casca
quitinosa e o resto. Não há solução alguma, senhor
Mayerson? Sabe de uma coisa? Os neocristãos são
ensinados a crer que são viajantes numa terra estranha.
Estranhos de passagem. Agora, nós somos realmente isso. A
Terra está deixando de ser nosso mundo natural e,
certamente, este aqui nunca será. Não temos mundo algum
de sobra! — Olhou-o fixamente, com as narinas dilatando-se.
— Nenhum lar, absolutamente!
— Bem — disse ele contrafeito — há sempre Can-D e
Mascar-Z.
— O senhor provou alguma?
— Não.
Ela inclinou a cabeça.
— De volta a Thomas a Kempis, então. — Mas não voltou
a pegar o livro. Ficou de cabeça baixa, perdida em tristes
pensamentos. — Eu sei o que vai acontecer, senhor
Mayerson. Barney, eu não vou converter ninguém ao
neocristianismo. Em vez disso, eles me converterão a Can-D
e Mascar-Z e a qualquer outro vício que seja corrente aqui, a
qualquer rota de fuga que se apresente. Sexo. Eles são
terrivelmente promíscuos aqui em Marte, sabia? Todo
mundo vai para a cama com todo mundo. Eu mesma
tentarei isso. Na verdade, já estou pronta para isso agora...
Eu simplesmente não consigo suportar as coisas como são...
Você deu realmente uma boa olhada na superfície, antes do
anoitecer?
— Dei...
Não o perturbara muito ver as hortas semi-abandonadas,
o equipamento inteiramente descuidado, os grandes montes
de suprimentos que apodreciam. Sabia através de fitas
educacionais que a fronteira era sempre assim, mesmo na
Terra. O Alaska fora assim até tempos bens recentes e
também, exceto pelas cidades de veraneio, era a Antártida
neste exato momento
Anne Hawthorne continuou:
— Estou pensando nos outros residentes deste
alojamento, lá na outra sala. Suponhamos que tirássemos
Perky Pat do tabuleiro e a reduzíssemos a pedacinhos. O que
aconteceria com eles?
— Eles continuariam com a fantasia. — Era um fato agora
comprovado. As peças não eram mais necessárias como
focos concentradores da atenção. — Mas por que você
quereria fazer isso? — Havia nessa idéia da moça uma
característica decididamente sádica e estava surpreso de ela
não lhe ter causado essa impressão no primeiro encontro de
ambos.
— Iconoclastia — respondeu Anne. — Quero esmigalhar
os ídolos e é isso o que Perky Pat e Walt são. Eu quero
porque eu... — ficou em silêncio por um momento e depois
continuou: — ... porque tenho inveja deles. Não é fervor
religioso. É apenas um traço muito ruim, cruel. Reconheço.
Se eu não posso me aliar a eles...
— Você pode. E se aliará. E eu também. Mas não
imediatamente.
Serviu-lhe uma xícara de café, que ela aceitou pensativa,
esguia nesse momento sem a pesada vestimenta de uso
externo. Notou que era quase tão alta quanto ele. De
sapatos altos seria, talvez, mais alta. O nariz dela era
estranho. Terminava quase numa bola, não engraçadinho,
mas, antes... terra-a-terra. Como se prendesse ao solo. O
nariz dela fê-lo pensar em camponeses anglo-saxônicos e
normandos, cultivando seus pequeninos campos
retangulares.
Não era de espantar que ela odiasse a vida ali em Marte.
Historicamente, sua gente amara, sem dúvida alguma, o
solo autêntico da Terra, o cheiro e a contextura real e, acima
de tudo, as recordações que continha, os restos de formas
transmutadas, a miríade de criaturas que andara por ali e
finalmente a morte tragara, e no fim perecera e voltara —
não como pó — mas como humo fecundo. Bem, ela podia
iniciar uma horta ali em Marte, talvez conseguisse que uma
prosperasse onde os colonos haviam visivelmente
fracassado. Como era estranho que ela estivesse tão
deprimida! Seria isso o normal com os recém-chegados? Por
algum motivo, não achava que era isso. Talvez, em algum
nível mais profundo, imaginasse que descobriria uma
maneira de voltar à Terra. Caso em que era ele quem estava
mentalmente desequilibrado. Não Anne.
— Eu tenho um pouco de Can-D, Barney — disse Anne
subitamente. — Enfiou a mão no bolso do uniforme fornecido
pela ONU, calças compridas de trabalho, de pano lonado, e
tirou um pequeno pacote. — Comprei-a há pouco tempo, em
meu próprio alojamento. O residente que me vendeu acha
que a Mascar-Z tornará isto sem valor e me fez um bom
preço. Tentei tomá-la... praticamente coloquei-a na boca.
Mas, finalmente, como você, não pude. Uma horrível
realidade não é melhor do que qualquer ilusão interessante?
Ou será uma ilusão, Barney? Não sei nada a respeito de
filosofia. Explique-me por que tudo que conheço é fé
religiosa e por que isso não me dá meios de compreender
esta coisa. Essas drogas de traslado. — Imediatamente,
abriu o pacote, mexendo desesperadamente os dedos. — Eu
não posso continuar, Barney.
— Espere — disse ele, pondo de lado a xícara e dirigindo-
se para ela. Mas foi tarde demais. Ela já tomara a Can-D. —
Nenhuma para mim? — perguntou, um tanto divertido. —
Você está perdendo a parte mais importante: não vai ter
ninguém com você no traslado. — Segurando-a pelo braço,
tirou-a do apartamento, empurrando-a apressado pelo
corredor até a grande sala comunal, onde os demais se
encontravam estirados no chão. Sentando-a entre eles, disse
cheio de pena: — Pelo menos, desta maneira, será uma
experiência compartilhada e, segundo penso, isso ajuda.
— Obrigada — respondeu ela, sonolenta. Os olhos
fecharam-se e gradualmente o corpo amoleceu.
Agora, compreendeu ele, ela é Perky Pat. Num mundo
sem problemas.
Curvando-se, beijou-lhe a boca.
— Eu ainda estou acordada — murmurou ela.
— Mas, de qualquer maneira, não vai lembrar-se — disse
ele.
— Oh, sim, eu me lembrarei — retrucou debilmente Anne.
E partiu em viagem. Ele deixou-a ir. Encontrava-se
sozinho com as sete conchas desabitadas, físicas.
Imediatamente voltou para seus próprios cômodos, onde
fumaçavam ainda as duas xícaras de café.
Eu poderia me apaixonar por aquela moça, disse a si
mesmo. Nada parecida com Roni Fugate ou mesmo com
Emily, mas algo novo. Melhor?, perguntou-se. Ou será que
isto é desespero? Exatamente o que vi Anne fazer agora
mesmo com a Can-D, engoli-la de vez, porque não há nada
mais, apenas escuridão. Será isto ou o vazio. E não por um
dia ou uma semana... mas para sempre. De modo que tenho
que me apaixonar por ela.

SOZINHO, SENTOU-SE em meio às suas coisas


parcialmente retiradas das malas, bebendo café e
meditando, até que ouviu gemidos e sons de pessoas
mexendo-se na sala comunal. Seus co-residentes estavam
voltando à consciência. Pôs de lado a xícara e dirigiu-se ao
encontro deles.
— Por que foi que você recuou, Mayerson? — perguntou
Norm Schein. Esfregou a testa, franzindo as sobrancelhas. —
Deus, que dor de cabeça estou sentindo. — Notou Anne
Hawthorne nessa ocasião, ainda inconsciente, de costas na
parede, a cabeça caída para a frente. — Quem é ela?
Levantando-se cambaleante, Fran respondeu:
— Ela se juntou a nós, no fim. É amiga de Mayerson. Ele
conheceu-a durante o vôo. E boa pessoa, mas maníaca
religiosa. Você vai ver. — Criticamente, examinou Anne. —
Nada má de aparência. Eu estava realmente curiosa para vê-
la. Imaginei-a como sendo bem mais austera.
Aproximando-se de Barney, Sam sugeriu:
— Convide-a a morar com você, Mayerson. Nós teremos
prazer em votar a admissão dela aqui. Temos muito espaço
e você precisa de... digamos... uma esposa. — Ele também
examinou atentamente Anne.— Isso mesmo — disse. —
Bonitinha. Cabelos pretos compridos. Gosto disso.
— Você gosta, não? — disse-lhe Mary Regan secamente.
— Isso mesmo, gosto, e daí? — Sam Regan olhou zangado
para a esposa.
— Ela disse que queria isso.
Todos eles olharam-no curiosamente.
— Isso é estranho — comentou Helen Morris — porque,
quando nós todos estivemos juntos com ela há pouco tempo,
ela não nos disse isto, e, tanto quanto pudemos entender,
você e ela apenas se...
Interrompendo-a, Fran Schein disse a Barney:
— Você não vai querer uma maníaca neocristã para viver
com você. Nós tivemos experiência com isso. Expulsamos há
um ano um casal deles. Podem causar problemas terríveis
aqui em Marte. Lembre-se, nós compartilhamos da mente
dela... Ela é membro devotado de alguma igreja tradicional,
com todos os sacramentos e rituais, todo aquele velho lixe
ultrapassado. Ela acredita realmente nisso.
— Eu sei — respondeu Barney.
Falando de maneira despreocupada, Tod Morris explicou:
— O que ela disse é verdade, Mayerson. Honestamente.
Temos que viver em intimidade demais e não podemos
importar qualquer tipo de fanatismo ideológico da Terra. Isso
aconteceu em outros alojamentos. Nós sabemos do que
estamos falando. Aqui a pessoa tem que ser viva e deixar os
outros viverem, sem credos e dogmas absolutistas. Um
alojamento é simplesmente pequeno demais. — Acendeu um
cigarro e lançou um olhar a Anne Hawthorne. — Estranho
que uma moça bonita caia por essa coisa Bem, há gente de
todo tipo. — Parecia perplexo.
— Ela pareceu gostar de ser trasladada? — perguntou
Barney a Helen Morris.
— Pareceu, até certo ponto. Claro, a experiência
perturbou-a... Na primeira vez, é de se esperar isso. Ela não
sabia como cooperar no trato do corpo. Mas estava ansiosa
para aprender. Agora, obviamente ela entendeu por si
mesma, de modo que se tornou mais fácil para ela. Isto é
bom treinamento.
Inclinando-se, Barney Mayerson pegou a pequena
boneca, Perky Pat, usando bermudas amarelas, camisa
olímpica de listras vermelhas e sandálias. Esta era agora
Anne Hawthorne, compreendeu. Num sentido que ninguém
entendia bem. Ainda assim, poderia destruir a boneca,
esmagá-la, e Anne, em sua vida artificial de fantasia, não
seria afetada.
— Eu gostaria de me casar com ela — disse em voz alta,
de repente.
— Com quem? — perguntou Tod. — Com Perky Pat ou
com a nova moça?
— Ele se refere a Perky Pat — disse zombeteira Norm
Schein.
— Não, não se refere — contestou severamente Helen. —
E acho que está tudo bem. Agora podemos ser quatro
casais, em vez de três casais e um homem, um homem de
sobra.
— Há alguma maneira — perguntou Barney — de a gente
tomar um pileque por aqui?
— Claro — garantiu Norm. — Temos bebida... um gim
sucedâneo, sem gosto, mas com teor alcoólico de 80°. Faz o
trabalho.
— Arranje-me um pouco — pediu Barney, procurando a
carteira no bolso.
— E gratuito. As naves de suprimento da ONU lançam-no
em garrafões. — Norm foi até um armário fechado, tirou
uma chave do bolso e abriu-o.
— Diga-nos uma coisa, Mayerson, por que é que você
sente necessidade de embriagar-se? — perguntou Sam
Regan. — Por nossa causa? Do alojamento? Do próprio
Marte?
— Não.
Não era por nenhuma dessas razões. O motivo tinha a ver
com Anne e a desintegração da identidade dela, o emprego
súbito da Can-D, o sintoma da incapacidade dela de crer ou
de enfrentar a situação, de entregar os pontos. Aquilo era
um sinal que lhe dizia respeito também. Viu-se o que
acontecera.
Se pudesse ajudá-la, poderia, talvez, ajudar a si mesmo.
E se não pudesse...
Teve uma intuição de que, se não pudesse, estariam
ambos acabados. Marte, para si próprio e para Anne,
significaria a morte. E provavelmente dentro de pouco
tempo.
N OVE

EMERGINDO da experiência do traslado, Anne Hawthorne


tornou-se soturna e melancólica. Aquilo não era bom sinal.
Ele achou que ela, também, tivera uma premonição
semelhante à sua. Mas ela nada comentou a esse respeito.
Foi apenas até o compartimento dele pegar seu volumoso
traje de uso externo.
— Tenho que voltar ao meu alojamento — explicou. —
Obrigada por me deixarem usar o cenário de vocês — disse
aos outros residentes, que se encontravam por perto,
observando-a vestir-se. — Sinto muito, Barney. — Baixou a
cabeça. — Não foi nada atencioso de minha parte deixá-lo
daquele jeito.
Ele acompanhou-a a pé pelas areias planas, noturnas, até
o alojamento onde ela residia. Nenhum dos dois falou,
enquanto continuavam a andar, mantendo os olhos bem
abertos para se precaverem do predador local, uma forma
de vida marciana telepática, parecida com um chacal. Não
viram, porém, coisa alguma.
— Como foi a experiência? — perguntou ele finalmente.
— Você quer dizer, ser aquela despudorada boneca de
cabelos louros, com todas aquelas drogas de roupas e o
namorado, o carro dela e o... — Anne estremeceu. —
Horrível. Bem, não foi isso. Apenas... inútil. Não encontrei
coisa alguma lá. Foi como voltar à minha adolescência.
— Isso mesmo — concordou ele. Havia isso a respeito de
Perky Pat.
— Barney — disse ela tranqüilamente — , tenho que
descobrir alguma outra coisa, e logo. Pode me ajudar? Você
parece inteligente, maduro, experiente. Ser trasladada não
vai me ajudar... Mascar-Z não vai ser melhor porque alguma
coisa em mim se rebela, não quer aceitá-la... entendeu?
Sim, você entendeu, posso ver isso. Diabo, você não quis
experimentar nem uma única tez. De modo que você tem
que entender. — Apertou-lhe o braço e agarrou-se
fortemente a ele na escuridão. — Eu sei de mais uma coisa,
Barney. Eles também estão cansados disso. Tudo o que
fizeram foi brigar enquanto eles... nós ... estávamos dentro
daqueles bonecos. Não gostaram da coisa nem por um
segundo.
— Poxa! — disse ele.
Iluminando o caminho à frente com a lanterna, Anne
continuou:
— É uma pena. Eu gostaria que apreciassem. Sinto mais
pena deles do que sinto por... — Calou-se, andou durante
algum tempo em silêncio e depois disse bruscamente: — Eu
mudei, Barney. Sinto isso dentro de mim. Quero me sentar
aqui... onde quer que estejamos. Você e eu, sozinhos, na
escuridão. E depois, você sabe o quê... Não preciso dizer,
preciso?
— Não — reconheceu ele. — Mas a coisa é: você se
arrependeria depois. Eu também, por causa de sua reação.
— Talvez eu reze — disse Anne. — Rezar é difícil. A
pessoa tem que saber como. Não rezamos por nós. Rezamos
o que chamamos de uma oração intercessora, pelos outros.
E o ente a quem rezamos não é o Deus que está no céu, em
algum lugar lá no alto... é ao Espírito Santo, que está dentro
de nós. Isso é diferente, é o Paracleto. Você já leu Paulo?
— Que Paulo?
— No Novo Testamento. As epístolas dele, por exemplo,
aos coríntios ou aos romanos... você sabe. Paulo diz que
nosso inimigo é a morte, o inimigo final que derrotamos, de
modo que acho que é o maior de todos. Somos todos
empestados, segundo Paulo, não só no corpo, mas também
na alma, de modo que temos que morrer e, então, podemos
renascer, com novos corpos, não de carne, mas
incorruptíveis. Entendeu? Sabe, quando fui Perky Pat ainda
há pouco... eu tive a sensação muito esquisita de que
estava... é errado dizer isso ou acreditar nisso, mas...
— Mas — acabou Barney para ela — pareceu como um
sabor daquilo. Mas você o esperava. Conhecia a
semelhança... você mesma falou nisso a bordo da nave. —
Muitas pessoas, refletiu, notaram isso também.
— Isso mesmo — reconheceu Anne — , mas o que não
compreendi foi... — Ma escuridão, ela virou-se para ele, que
mal conseguia vê-la. — Ser trasladada é a única indicação
que podemos ter deste lado da morte. De modo que é uma
tentação. Se não fosse por aquela boneca pavorosa, aquela
Perky Pat...
— Mascar-Z... — disse Barney.
— Era nisso que eu estava pensando. Se fosse assim,
como Paulo disse a respeito do homem corruptível
revestindo-se de incorruptibilidade... eu não poderia me
controlar, Barney. Eu teria que experimentar Mascar-Z, não
poderia esperar até o fim de minha vida... poderiam ser 50
anos vivendo aqui em Marte... meio século! — : Estremeceu.
— Por que esperar, quando poderia ter isso agora?
— A última pessoa com quem falei — disse Barney — , e
que tomou Mascar-Z, disse que foi a pior experiência de sua
vida
Essas palavras surpreenderam-na:
— De que modo?
— Ela caiu sob o domínio de alguma pessoa ou de alguma
coisa que considerava extremamente má, de alguém de
quem sentia pavor. Teve sorte — e soube disso — por ter
conseguido escapar.
— Barney — perguntou ela — , por que você está aqui em
Marte? Não me diga que é por causa da convocação. Uma
pessoa tão esperta como você poderia ter procurado um
psiquiatra...
— Eu estou em Marte — disse ele — porque cometi um
erro. Na sua terminologia, pensou, seria chamado de
pecado. E na minha também, concluiu.
— Você magoou alguém, não? — quis saber Anne. Barney
encolheu os ombros.
— De modo que, pelo resto da vida você vai ficar aqui —
disse Anne: — Barney, você poderia me arranjar um pouco
de Mascar-Z?
— Conseguirei logo. — Não demoraria muito a topar com
um dos traficantes da droga de Palmer Eldritch. Tinha
certeza disso. Pondo a mão no ombro dela, disse: — Mas
você mesma poderá obtê-la com igual facilidade.
Ela encostou-se nele enquanto andavam e ele abraçou-a
com força. Ela não resistiu... na verdade suspirou de alívio.
— Barney, tenho uma coisa para lhe mostrar. Um folheto
que um dos moradores de meu alojamento me deu. Disse
que uma grande quantidade fora lançada do alto um dia
desses. E do pessoal da Mascar-Z. — Enfiando a mão no
pesado casaco, procurou e, à luz da lanterna, ele viu um
papel dobrado. — Leia isso, Você vai entender por que eu
me sinto assim a respeito de Mascar-Z... por que é um
grande problema espiritual para mim.
Segurando o papel sob a luz da lanterna, ele leu a
primeira linha, com as palavras destacadas em caracteres
imensos, em negrito:

DEUS PROMETE A VIDA ETERNA.


NÓS PODEMOS PROPORCIONÁ-LA.

— Entendeu? — perguntou Anne.


— Entendi. — Nem se importou em ler o resto. Dobrou o
papel e devolveu-o a ela, sentindo o coração pesado. — Um
slogan e tanto.
— Verdadeiro.
— Não a grande mentira — disse Barney — mas, ao
contrário, a grande verdade.
Qual, perguntou a si mesmo, seria a pior? Era difícil
saber. Idealmente, Palmer Eldritch cairia morto por causa da
blasfêmia contida no panfleto, mas evidentemente isso não
ia acontecer. Um visitante perverso, estendendo-se como
gosma por cima de nós, vindo do sistema de Prox, pensou,
oferecendo-nos aquilo pelo que rezamos há 2000 anos. E por
que isso é tão palpavelmente mau? É difícil dizer, mas, em
todo caso, é. Porque talvez signifique escravidão a Eldritch,
como Leo experimentou. A partir de agora, Eldritch ficaria
constantemente conosco, infiltrando-se em nossa vida. E
Ele, que nos protegeu no passado, permanece simplesmente
passivo.
Todas as vezes que formos trasladados, pensou, veremos
— não Deus — mas Palmer Eldritch.
Em voz alta, disse:
— Se a Mascar-Z decepcioná-la...
— Não diga isso.
— Se Palmer Eldritch decepcioná-la, então, talvez... —
interrompeu-se, porque à frente surgiu o alojamento dela,
com a luz da entrada brilhando fracamente na escuridão
marciana. — Você está em casa. — Não queria deixá-la ir
embora. Colocando a mão no ombro dela, segurou-a,
lembrando-se do que dissera sobre ela a seus companheiros
de alojamento. — Volte comigo — disse. — Para meu
alojamento. Casaremos formalmente, legalmente.
Ela olhou-o fixamente e depois — incrivelmente —
começou a rir.
— Isso significa não? — perguntou ele, desapontado.
— Desculpe, Barney. Eu não quis rir. Mas a resposta,
claro, é não. — Afastou-se dele e abriu a porta externa da
antecâmara do alojamento. Pôs a lanterna de lado e deu um
passo para ele, com os braços estendidos. — Faça amor
comigo — disse.
— Aqui, não. Está perto demais da entrada. — Ficou com
medo.
— Onde você quiser. Leve-me para lá. — Envolveu-lhe o
pescoço com os braços. — Agora — disse. — Não espere.
Ele não esperou.
Erguendo-a nos braços, levou-a para longe da entrada.
— Meu Deus! — disse ela, quando ele a depositou no
chão. Arquejou, talvez por causa do frio súbito que os
envolveu, penetrando nos trajes pesados que não mais
serviam, e que, na verdade, eram obstáculos ao verdadeiro
calor.
Uma das leis da termodinâmica, pensou ele. A troca de
calor, moléculas passando entre nós, as dela e as minhas
misturando-se em... entropia? Ainda não, pensou.
— Oh, meu Deus — disse ela na escuridão.
— Magoei-a?
— Não. Desculpe. Por favor.
O frio entorpecia-lhe as costas, as orelhas, irradiando-se
do céu. Ignorou-o como pôde, mas pensou num cobertor,
numa grossa camada de lã... Estranho, preocupar-se com
isso numa ocasião como essa. Sonhou com a maciez do
cobertor, no roçar de suas fibras na pele, no peso. Em vez
disso, o ar ralo, frio, fraco, que o fazia arquejar em grandes
haustos, como se estivesse acabado.
— Você... está morrendo? — perguntou ela.
— Simplesmente não consigo respirar. Este ar...
— Pobre, pobre... Deus do céu, esqueci seu nome.
— Que droga.
— Barney!
Ele agarrou-se a ela.
— Não! Não pare! — Ela arqueou as costas. Os dentes
chocalharam.
— Eu não ia parar — disse ele.
— Uaaaaaaaau!
Ele riu.
— Por favor, não ria de mim.
— Não foi por maldade. Um longo silêncio. Então:
— Ooooh!
Ela saltou, galvanizada, como se cedendo ao choque de
um experimento formal. Sua pose séria, pálida, despida: ela
tornou-se o alto e muito magro sistema nervoso de uma rã,
reagindo a estímulos externos, vítima de uma corrente que
não era sua, mas contra a qual de modo algum protestava.
Lúcida e real, aceitando. Pronta depois da longa espera.
— Você está bem?
— Estou — respondeu ela. — Estou, Barney. Estou
certamente, muito bem. Estou!

MAIS TARDE, voltando sozinho e cansado para seu


alojamento, disse a si mesmo: Talvez eu esteja fazendo o
trabalho de Palmer Eldritch. Demolindo-a, desmoralizando-
a... como se ela já não estivesse.
Alguma coisa bloqueou-lhe o caminho.
Parando, sacou do casaco a arma portátil que lhe fora
fornecida. Havia, especialmente à noite, além dos terríveis
chacais telepatas, perigosos organismos nativos que
picavam e comiam... Girou cauteloso a lanterna, esperando
ver alguma bizarra criatura com multibraços, feita talvez de
matéria pegajosa. Em vez disso, viu uma nave estacionada,
do tipo pequeno, rápido, de peso leve, com as turbinas ainda
fumegando, de modo que, evidentemente, acabara de
aterrissar. Devia ter descido com os motores parados,
compreendeu, uma vez que não ouvira som algum de
retrofoguetes.
Um homem saiu da nave, sacudiu-se, acendeu sua
própria lanterna, viu Barney Mayerson e grunhiu:
— Eu sou Allen Faine. Ando à sua procura por toda parte.
Leo quer manter-se em contato com você por meu
intermédio. Vou teletransmitir em código para seu
alojamento. Tome aqui seu livro de cifras. — Faine
apresentou um volume fino. — Você sabe quem eu sou, não?
— O disc jockey. — Estranho esse encontro ali à noite no
descampado deserto marciano com esse homem do satélite
da P.P. Layouts. A coisa parecia irreal. — Obrigado — disse,
recebendo o livro. — O que é que eu faço? Anoto, como
vocês dizem e depois me escondo para decifrar a
mensagem?
— Há um receptor particular de tevê no seu
compartimento, no alojamento. Nós providenciamos isso
alegando que, sendo novo em Marte, você anseia...
— Muito bem — disse Barney, inclinando a cabeça.
— De modo que você já arranjou uma pequena —
continuou Faine. — Perdoe-me por ter usado meu holofote
infravermelho, mas...
— Eu não perdôo.
— Você vai descobrir que, em assuntos dessa natureza, é
muito pouca a privacidade em Marte. Aqui é como uma
pequena cidade e todos os moradores dos alojamentos
vivem famintos de notícias, especialmente de qualquer tipo
de escândalo. Eu devo saber. Meu trabalho é manter-me
informado e passar adiante o que posso... Naturalmente, há
muita coisa que não posso. Quem é a pequena?
— Não sei — retrucou ironicamente Barney. — Estava
escuro. Não pude ver. — Começou a afastar-se, dando a
volta em torno da nave estacionada.
— Espere. Você precisa saber do seguinte: um traficante
de Mascar-Z já está operando nesta área e achamos que ele
procurará seu alojamento já amanhã pela manhã. De modo
que, fique de sobreaviso. Certifique-se de que compra a
droga na frente de testemunhas. Elas devem presenciar toda
a transação e, quando a mastigar, providencie para que elas
identifiquem claramente o que você está consumindo.
Entendeu? — Faine fez uma pausa e acrescentou: — E
procure tirar informações do traficante, consiga que ele lhe
dê, verbalmente, claro, todas as garantias possíveis. Faça
com que ele o convença a comprar o produto. Não peça o
produto, entendeu?
— E o que é que eu ganho por fazer isso? — perguntou
Barney.
— Perdão?
— Leo nunca se importou em...
— Eu lhe digo o quê — respondeu tranqüilamente Faine.
— Nós o tiraremos de Marte. Esse é o seu pagamento.
Após um momento, Barney perguntou:
— Você está falando sério?
— Será ilegal, claro. Só a ONU pode legalmente
retransportá-lo para a Terra, e isso não vai acontecer. O que
vamos fazer é pegá-lo aqui alguma noite e transferi-lo para o
satélite particular de Leo.
— E lá eu ficarei.
— Até que os cirurgiões de Leo possam lhe dar um novo
rosto, impressões digitais e pedais, padrão de ondas
cerebrais, uma identidade inteiramente nova. Em seguida,
você voltará à cena, provavelmente no seu antigo emprego
na P.P. Layouts. Sei que você era o homem da empresa em
Nova Iorque. Daqui a dois anos, dois anos e meio, a contar
de hoje, você será a mesma coisa novamente. De modo que,
não renuncie às esperanças.
— Talvez eu não queira isso — disse Barney.
— O quê? Claro que quer. Todos os colonos querem..
— Vou pensar no caso — prometeu Barney — e depois lhe
digo. Mas talvez eu queira outra coisa.
Estava pensando em Anne. Voltar à Terra, recomeçar
tudo, talvez mesmo com Roni Fugate — em algum estrato
profundo, instintivo, isso não tinha para ele o interesse que
teria esperado. Marte — ou a experiência de amor com Anne
Hawthorne — haviam-no modificado muito mais, agora:
Perguntou-se o que fora. As duas coisas. E, de qualquer
maneira, pensou, eu pedi para vir para cá... não fui
realmente convocado. E nunca devo me permitir esquecer
isso.
— Eu conheço algumas das circunstâncias, Mayerson —
disse Allen Faine. — O que você está fazendo é expiando um
pecado, certo?
Surpreso, Barney perguntou:
— Você, também?
Inclinações religiosas pareciam saturar todo o ambiente
ali em Marte.
— Você pode ser contra a palavra — justificou-se Faine —
mas é a apropriada. Escute aqui, Mayerson: quando o
levarmos para o satélite de Leo você já terá expiado o
suficiente. Há uma coisa que você não sabe ainda. Olhe para
isto. — Relutante, mostrou um pequeno tubo plástico. Um
recipiente.
Com um calafrio, Barney perguntou:
— O que é isso?
— Sua doença. Leo acha, seguindo conselhos
profissionais, que não é suficiente que você meramente
alegue na justiça que foi lesionado. O pessoal vai insistir
num exame completo.
— Diga, especificamente, o que é que há nessa coisa.
— Epilepsia, Mayerson. A forma Q, o tipo cuja causa
ninguém conhece ao certo, se é devida a lesão orgânica que
não pode ser localizada com o eletroencefalógrafo ou se é
psicogênica.
— E os sintomas?
— É o "grande mal" epiléptico. — Depois de uma pausa,
disse: — Sinto muito.
— Entendo — disse Barney. — E por quanto tempo terei
as convulsões?
— Nós podemos aplicar o antídoto depois do litígio
judicial, mas não antes. Um ano, no máximo. De modo que
pode agora entender o que eu quis dizer quando falei que
você ia mais do que expiar sua culpa por não ter salvo Leo
quando ele precisou. E pode ver como essa doença, alegada
como efeito colateral do Mascar-Z, será...
— Claro — concordou Barney. — Epilepsia é uma dessas
palavras assustadoras. Como o câncer foi, antigamente. As
pessoas têm um medo irracional dela porque sabem que a
coisa lhes pode acontecer, a qualquer hora, sem aviso
algum.
— Especialmente a forma Q mais recente. Diabo, não há
nem mesmo uma teoria a respeito. O importante é que, com
a forma Q, não há qualquer alteração orgânica no cérebro, e
isso significa que podemos recuperar você. Esse tubo aí
contém uma toxina metabólica, semelhante em ação ao
metrazol. Semelhante, mas diferente do metrazol no sentido
de que continua a produzir os ataques — com o padrão de
EEG caracteristicamente desequilibrado durante esses
intervalos — até que seja neutralizada — , o que, como eu
disse, estamos em condições de fazer.
— Uma hemocultura não indicará a presença dessa
toxina?
— Indicará a presença de uma toxina e é isso exatamente
o que queremos. Porque vamos pegar os documentos
relativos aos exames de saúde, físico e mental, que fez
recentemente antes de vir para cá... e poderemos provar
que, quando chegou a Marte, você não tinha epilepsia do
tipo Q e nenhuma toxidez. E a alegação de Leo — ou melhor,
sua — será de que a toxidez revelada no sangue é uma
conseqüência de Mascar-Z.
— Mesmo que eu perca o processo... — começou Barney.
— Ainda assim prejudicará muito as vendas da Mascar-Z.
A maioria dos colonos tem uma impressão persistente, afinal
de contas, de que as drogas de trasladação são, a longo
prazo, bioquimicamente prejudiciais — acrescentou Faine. —
A toxina que há nesse tubo é relativamente rara. Leo
obteve-a através de canais altamente especializados. Tem
origem em Io, acho. Certo médico...
— Willy Denkmal... — disse Barney. Faine encolheu os
ombros.
— Possivelmente. De qualquer modo, ela está aí, em sua
mão. Logo que experimentar a Mascar-Z, deve tomá-la.
Procure ter sua primeira grande convulsão num lugar onde
seus companheiros de alojamento o vejam. Não vá para
algum lugar no deserto, trabalhar no campo ou
supervisionar escavadeiras autônomas. Logo que se
recuperar do ataque, pegue o videofone e peça assistência
médica à ONU. Deixe que os desinteressados médicos da
organização o examinem. Não solicite tratamento particular.
— Provavelmente seria uma boa idéia — sugeriu Barney
— se os médicos da ONU fizessem um eletroencefalograma
em mim durante um ataque.
— Exatamente. De modo que tente, se possível, ser
internado num hospital da ONU. Aqui em Marte há três
deles. Você poderá apresentar um bom argumento nesse
sentido porque... — Faine hesitou ... — francamente, com
essa toxina seus ataques serão acompanhados de grande
destrutividade, contra você e contra os demais.
Tecnicamente, serão da variedade histérica, agressiva,
culminando com a perda de consciência mais ou menos
completa. Desde o começo será óbvio o que é, porque — ou
pelo menos foi o que me disseram — você revelará o típico
estágio de tonicidade, com grandes contrações musculares,
e em seguida o estado de clonicidade, de contrações
rítmicas alternando-se com relaxação. Depois do que, claro,
declara-se o coma.
— Em outras palavras — resumiu Barney — , a clássica
forma convulsiva.
— Isso o assusta?
— Não vejo no que é que isso importe. Devo a Leo
alguma coisa. Você, eu e Leo sabemos disso. Não gosto
ainda da palavra "expiação", mas acho que ela é a
apropriada.
A si mesmo perguntou-se como essa doença
artificialmente provocada afetaria seu relacionamento com
Anne. Provavelmente, isso acabaria com a ligação. De modo
que estava renunciando a muita coisa por Leo Bulero. Mas,
também, Leo estava fazendo alguma coisa por ele. Tirá-lo de
Marte não era nenhuma pequena façanha.
— Nós consideramos como certo — continuou Faine —
que eles farão uma tentativa de assassiná-lo no momento
em que você contratar um advogado. Na verdade, eles...
— Eu gostaria de voltar para meu alojamento agora. —
Afastou-se. — Tudo bem?
— Tudo bem. Encaixe-se na rotina de lá. Mas deixe que
eu lhe dê um conselho a respeito daquela moça. A Lei
Doberman — lembre-se, ele foi a primeira pessoa a casar-se
e a divorciar-se em Marte — estabelece que, em proporção
direta à ligação emocional com alguém neste maldito lugar,
o relacionamento deteriora-se. Eu lhe daria duas semanas
no máximo, e não porque você vai adoecer, mas porque é o
padrão. E a ONU encoraja isso porque significa, se posso ser
franco, mais crianças para povoar a colônia. Compreendeu?
— A ONU — respondeu Barney — talvez não sancione
meu relacionamento com ela porque se faz numa base algo
diferente da que você está descrevendo.
— Não, não é — disse tranqüilamente Faine. — Pode lhe
parecer assim, mas eu observo todo o planeta, dia e noite.
Estou apenas citando um fato, e não sendo crítico. Na
verdade, pessoalmente eu simpatizo com você.
— Obrigado — disse Barney.
E afastou-se, varrendo o chão com a lanterna, na direção
do alojamento. Amarrado em volta de sua garganta, o
pequeno emissor de sinais que lhe dizia quando estava se
aproximando — e mais importante, quando não estava — de
seu alojamento, começou a produzir sons mais altos, uma
poça de uma única rã de conforto perto de seu ouvido.
Vou tomar a toxina, disse a si mesmo. Irei aos tribunais e
processarei os calhordas, por causa de Leo. Porque devo isso
a ele. Mas não vou voltar à Terra. Ou consigo ter sucesso
aqui, ou em nenhum lugar, absolutamente. E com Anne
Hawthorne, espero, mas, se não, então sozinho ou com
alguma outra pessoa. Sobreviverei à Lei de Doberman, como
previu Faine. De qualquer modo, será aqui neste miserável
planeta, nesta "terra prometida".
Amanhã pela manhã, resolveu. Começarei removendo a
terra de 50.000 séculos para fazer minha primeira horta.
Esse é o passo inicial.
D EZ

No DIA seguinte, Norm Schein e Tod Morris passaram as


primeiras horas da manhã ensinando-lhe o jeito de operar os
bulldozers, terraplanadeiras e pás mecânicas, que haviam
caído em vários estágios de ruína. A maior parte do
equipamento, como os velhos gatos, ainda tinha um último
fôlego e podia ser induzida a mais um esforço. Mas os
resultados não chegavam a grande coisa. Haviam estado
abandonadas por tempo longo demais.
Ao meio-dia, sentiu-se exausto. Em vista disso, concedeu-
se uma folga, descansando à sombra de um gigantesco e
enferrujado trator, comendo o almoço de rações frias e
bebendo o chá morno de uma garrafa térmica que Fran
Schein tivera a bondade de lhe levar.
Lá embaixo, no alojamento, os outros faziam o que
costumeiramente faziam. Não lhes deu atenção.
Por toda parte em volta dele podiam ser vistas as hortas
abandonadas, em decadência, e ele se perguntou se, muito
em breve, não esqueceria também a sua. Talvez todos os
colonos começassem dessa maneira, numa agonia de
esforço. Em seguida, o torpor, a desesperança, tomavam
conta deles. Mas, seria tão irremediável assim? Não,
realmente.
É uma questão de atitude, concluiu. E nós — todos nós
que formávamos a P.P. Layouts — contribuímos
voluntariamente para isso. Demos a eles uma forma de
escape, uma coisa indolor e fácil. E agora Palmer Eldritch
chegou para pôr o toque final no processo. Desbravamos o
caminho para ele, eu inclusive, e agora o que vai acontecer?
Há alguma maneira através da qual eu possa, como diz
Faine, expiar minha culpa?
Aproximando-se dele, Helen gritou alegremente: — Como
é que está indo o cultivo da terra? — Sentou-se ao lado dele
e abriu um grosso catálogo de sementes, com o brasão da
ONU gravado abundantemente em todas as páginas. — Veja
só o que eles fornecem gratuitamente: todos os tipos de
sementes que se sabe que prosperam aqui, incluindo nabos.
— Encostada nele, passou as páginas — Contudo, há um
pequeno mamífero que vive em tocas, parecido com um
rato, que sobe à superfície no fim da noite. Prepare-se para
isso. Ele come tudo. Você tem que instalar algumas
armadilhas autopropulsadas.
— Tudo bem — concordou Barney.
— É um espetáculo extraordinário, uma dessas
armadilhas homeostáticas correndo pela areia, perseguindo
um rato marciano. Deus, como correm! Tanto o rato como a
armadilha. Você pode tornar a coisa mais interessante
fazendo uma aposta. Eu, geralmente, aposto na armadilha.
Admiro-as.
— Acho que, provavelmente, vou apostar também na
armadilha.
Eu tenho grande respeito por armadilhas, pensou. Em
outras palavras, uma situação na qual nenhuma porta dá
para fora. Não importa como elas estejam marcadas.
Helen continuou:
— Além disso, a ONU lhe fornecerá para seu uso,
gratuitamente, dois robôs. Por um período não superior a
seis meses. Assim, é melhor planejar bem como vai querer
empregá-los. O melhor é botá-los para trabalhar na abertura
de valetas de irrigação. As nossas quase não servem mais
para nada. Às vezes, as valetas têm que se estender por 300
km ou mais. Ou você pode entrar num chaveco...
— Nada de chaveco — disse Barney.
— Mas estes são bons chavecos. Descubra alguém por
aqui, em um dos outros alojamentos, que iniciou seu próprio
sistema de irrigação e depois abandonou-o. Compre-o a ele
e explore-o. Sua pequena do outro alojamento vai vir para
cá, morar com você? — Olhou-o atentamente.
Ele não respondeu. Estava observando, no preto céu
marciano, constelado de estrelas ao meio-dia, uma nave que
descrevia círculos. Seria o homem da Mascar-Z? Chegara
então a hora de envenenar-se, de modo que um monopólio
econômico pudesse ser mantido, um vasto império
interplanetário do qual ele agora nada tirava.
É espantoso, pensou, como pode ser forte o impulso
autodestrutivo.
Helen Morris, forçando a vista para ver melhor, disse:
— Visitantes! E não é uma nave da ONU. — Afastou-se
imediatamente na direção do alojamento. — Vou dizer a
eles.
Com a mão esquerda, Barney tocou o tubo aninhado nas
profundidades de um bolso interno, pensando: Posso,
realmente, fazê-lo? Não parecia possível. Historicamente,
nada havia em sua constituição mental que explicasse isso.
Talvez, pensou, seja uma forma de desespero, por ter
perdido tudo. Mas não achava que fosse. Era alguma outra
coisa.
Quando a nave pousou no deserto plano, num local não
muito distante, pensou: Talvez o motivo seja eu revelar
alguma coisa a Anne sobre a Mascar-Z. Mesmo que a
demonstração seja uma impostura. Porque, refletiu, se
introduzir a toxina no meu sistema, ela não experimentará a
Mascar-Z. Tinha uma forte intuição nesse sentido. E ela era
suficiente.
Da nave desceu Palmer Eldritch.
Ninguém poderia deixar de identificá-lo. Desde seu
acidente em Plutão, os jornais domiciliares haviam publicado
foto após foto dele. Claro, as fotos estavam dez anos
desatualizadas, mas aquele homem ainda era o mesmo.
Cabelos grisalhos, ossudo, mais de 1m92 de altura, braços
balouçantes e uma andadura peculiarmente rápida. E o rosto
dele: tinha um aspecto de coisa devastada, comida, como
se, conjeturou Barney, a camada de gordura houvesse sido
consumida, como se Eldritch, em alguma ocasião, houvesse
se alimentado de si mesmo, devorado, talvez com prazer, as
partes supérfluas do próprio corpo. Possuía enormes dentes
de aço, implantados antes de sua viagem a Prox por
cirurgiões-dentistas tchecos. Soldados às mandíbulas, eram
permanentes. Morreria com eles. E... o braço direito era
artificial. Há vinte anos, num acidente de caça em Calisto,
perdera o original. Este, claro, era superior no sentido de
que permitia a instalação de uma grande variedade de
especializadas mãos intercambiáveis. No momento, Eldritch
usava a extremidade manual humanóide de cinco dedos.
Exceto pelo brilho metálico, dir-se-ia que era orgânica.
E ele era cego. Pelo menos, do ponto de vista do corpo de
nascimento natural. Mas substituições haviam sido feitas —
a um preço que Eldritch pudera e quisera pagar, pouco antes
de sua viagem a Prox, por oculistas brasileiros. Os médicos
haviam feito um trabalho soberbo. As peças de substituição,
encaixadas nas fossas ósseas, não tinham pupilas, nem
esfera alguma movia-se por ação muscular. Em vez disso,
visão panorâmica era fornecida por uma lente de largo
ângulo, uma fresta horizontal permanente que corria de uma
borda a outra. O acidente com os olhos originais não fora
acidente. Ocorrera em Chicago, um ataque deliberado de
lançamento de ácido por pessoa desconhecida, por razões
igualmente desconhecidas... pelo menos no que interessava
ao público em geral. Ele, contudo, nada dissera, nenhuma
queixa apresentara. Em vez disso, procurara imediatamente
a equipe de oculistas brasileiros. Os olhos artificiais com
aberturas horizontais pareciam agradá-lo. Quase
imediatamente ele aparecera nas cerimônias de inauguração
do novo Teatro de Opera St. George, em Utah, e se
misturara sem embaraço com seus quase iguais. Mesmo
agora, uma década depois, a operação era rara e essa era a
primeira vez que Barney via os olhos Jensen de luxvid e
amplo foco. Os olhos e o braço artificial com seu repertório
manual imensamente variável impressionaram-no mais do
que teria esperado... ou havia mais alguma coisa em
Eldritch?
— Senhor Mayerson — disse Palmer Eldritch, e sorriu,
com os dentes de aço brilhando ao fraco e frio sol marciano.
Estendeu a mão e, automaticamente, Barney fez o mesmo.
A voz dele, pensou Barney. Ela tem origem em outro
lugar qualquer que não... Pestanejou. Todo o corpo de
Eldritch era insubstancial. Vagamente, através dele, via-se a
paisagem. Era uma criação de algum tipo artificialmente
produzido, e percebeu a ironia. Uma grande parte daquele
homem já era tão artificial como, nesse instante, também o
eram as partes de carne e sangue. Foi isso o que voltou de
Prox?, perguntou a si mesmo Barney. Se foi, Hepburn-Gilbert
foi enganado. Isso não é um ser humano. Em nenhum
sentido. '
— Eu ainda estou na nave — disse Palmer Eldritch, com a
voz ressoando de um alto-falante montado no casco do
veículo espacial. — Uma precaução, considerando que o
senhor é empregado de Leo Bulero.
A mão imaginária tocou a de Barney, que sentiu um frio
geral envolvê-lo, obviamente uma reação de aversão
psicológica, uma vez que coisa alguma havia ali para
produzir sensação.
— Ex-empregado — corrigiu-o Barney.
Às suas costas, nesse momento, emergiram os outros
membros do alojamento, os Schein, os Morrises e os Regans.
Aproximaram-se como crianças cautelosas, enquanto um
após outro identificava a nebulosa figura que se encontrava
à frente de Barney.
— O que é que está acontecendo? — perguntou nervoso
Schein. — Isto é um simulacro. Não estou gostando nada. —
Colocando-se ao lado de Barney, continuou: — Estamos
vivendo no deserto, Mayerson, vemos miragens o tempo
todo, naves e visitantes, formas de vida antinaturais. É isso
o que está aí. Esse cara não está realmente aí nem aquela
nave parada ali.
— Eles estão provavelmente a 900 km daqui —
acrescentou Morris. — E um fenômeno ótico. Você se
acostumará a isso.
— Mas vocês podem me ouvir — observou Palmer
Eldritch, pelo alto-falante que soava e ecoava. — Estou aqui,
certo, para fazer negócios com vocês. Quem é o líder deste
alojamento?
— Eu... — respondeu Norm Schein.
— Meu cartão. — Eldritch estendeu um pequeno cartão
branco. Pensativo, Norm Schein estendeu a mão para pegá-
lo. O cartão flutuou entre seus dedos e caiu na areia. Ao ver
isso, Eldritch sorriu. Foi um sorriso frio, vazio, uma implosão,
como se houvesse puxado para dentro de si tudo o que
havia por perto, mesmo o ar rarefeito. — Examine-o —
sugeriu Eldritch. Norm Schein curvou-se e estudou o cartão.
— Isso mesmo — disse Eldritch. — Estou aqui para assinar
um contrato com seu grupo. A fim de lhes dar...
— Poupe-nos o discurso sobre dar o que Deus apenas
promete — retrucou Norm Schein. — Diga-nos,
simplesmente, o preço.
— Cerca de um décimo do preço do produto de nosso
concorrente. E muito mais eficaz. Vocês nem mesmo
precisam de um cenário. — Eldritch parecia falar
diretamente com Barney. Seu olhar, porém, não podia ser
localizado devido à estrutura da abertura das lentes. — Está
gostando daqui de Marte, senhor Mayerson?
— É muito divertido — respondeu Barney.
— Ontem à noite — continuou Eldritch — quando Allen
Faine desceu de seu pequeno e monótono satélite a fim de
conversar com o senhor... o que foi que discutiram?
Formalmente, Barney respondeu:
— Negócios.
Pensou com rapidez, mas não com rapidez suficiente. A
questão seguinte já era berrada pelo alto-falante:
— Neste caso, o senhor ainda trabalha para Leo. Na
verdade, foi deliberadamente arranjada sua vinda aqui para
Marte, antes de nossa primeira distribuição de Mascar-Z. Por
quê? Tem alguma idéia para bloqueá-la? Não havia
propaganda em sua bagagem, nenhum folheto ou material
impresso, além de livros comuns. Um boato, talvez.
Transmitido verbalmente. Mascar-Z é... o quê, senhor
Mayerson? Perigoso para o usuário habitual?
— Não sei. Estou esperando para experimentar um pouco
do produto. E chegar a uma conclusão.
— Nós todos estamos esperando — disse Fran Schein.
Trazia nos braços um pacote de peles de trufa,
evidentemente para pagamento imediato. — Pode fazer a
entrega agora mesmo, ou vamos ter que continuar
esperando?
— Posso entregar logo o primeiro pedido — respondeu
Eldritch.
Abriu-se com um estalo uma vigia na nave. Dela emergiu
um pequeno trator a jato, que correu na direção deles. A um
meio metro de distância do grupo, parou e ejetou uma caixa
de papelão, embrulhada no conhecido papel pardo. A caixa
caiu aos pés de Norm Schein, que se curvou e apanhou-a.
Aquilo não era uma ilusão. Com toda cautela, ele rasgou o
envoltório.
— Mascar-Z! — disse arquejante Mary Regan. — Oh, um
bocado! E o preço, senhor Eldritch?
— In totum — respondeu Eldritch — cinco peles. — O
trator estendeu uma pequena gaveta, do tamanho exato
para receber as peles.
Depois de uma pequena discussão, os moradores do
alojamento chegaram a um acordo. As cinco peles foram
depositadas na gaveta. Recolhida esta imediatamente, o
trator deu a volta e disparou para a nave-mãe. Palmer
Eldritch, insubstancial, grisalho e enorme, permaneceu. Ele
parecia estar se divertindo, concluiu Barney. Não o
incomodava saber que Leo Bulero tinha uma carta
escondida. Eldritch dominava nesse clima.
A compreensão desse fato deprimiu Barney, que se
afastou sozinho para o lugar estéril e limpo que
eventualmente seria sua horta. De costas para os
companheiros do alojamento e Eldritch, ativou a unidade
autônoma, que começou a arquejar e a zumbir, e a areia ia
desaparecendo nela, enquanto a sugava barulhentamente,
com dificuldade. Gostaria de saber por quanto tempo a
máquina continuaria a trabalhar. E o que se fazia ali em
Marte para obter serviços de reparação. Talvez a pessoa
desistisse; talvez não houvesse consertos.
Às suas costas, soou a voz de Palmer Eldritch:
— Agora, senhor Mayerson, pode começar a mascar pelo
resto de sua vida.
Ele virou-se, involuntariamente, porque desta vez não era
uma ilusão. O homem finalmente viera para o claro.
— É isso mesmo — disse. — E coisa alguma poderia me
deixar mais satisfeito. — Continuou a mexer na pá mecânica
autônoma. — O que é que a gente faz para conseguir um
conserto de equipamento aqui em Marte? — perguntou a
Eldritch. — A ONU cuida disso?
— Como eu poderia saber? — retrucou Eldritch.
Um pedaço da pá autônoma soltou-se nas mãos de
Barney. Ele sopesou-a. A peça, com a forma de um ferro de
tirar pneumático, era pesada, e ele pensou. Eu poderia
matá-lo com isto. Aqui mesmo, neste lugar. Isso não
resolveria tudo? Nada de toxina para produzir grandes
convulsões, nenhum litígio judicial... mas haveria retaliação
da parte deles. Eu sobreviveria a Eldritch apenas por
algumas horas.
Mas... não valeria ainda a pena?
Virou-se. E a coisa aconteceu com tal rapidez que não
formou um conceito válido, nem mesmo teve dela uma
percepção exata. Da nave estacionada projetou-se um feixe
de laser e ele sentiu o impacto forte no momento em que o
raio tocou o objeto de metal que tinha nas mãos. Ao mesmo
tempo, Palmer Eldritch saltou para trás, agilmente,
elevando-se no ar na leve gravidade marciana. Como um
balão — Barney olhou fixamente, mas não acreditou — ele
flutuou para longe, rindo-se abertamente com os grandes
dentes de aço, agitando o braço artificial, o corpo magro
girando lentamente. Em seguida, como se puxado por uma
linha transparente, dirigiu-se numa onda sinoidal irregular
para a nave. Imediatamente, desapareceu. O nariz da nave
fechou-se sobre ele. Eldritch estava lá dentro. Em
segurança.
— Por que foi que ele fez isso? — perguntou Norm Schein,
cheio de curiosidade, do lugar em que ele e os outros
moradores do alojamento se encontravam. — O que, em
nome de Deus, terá acontecido ali?
Barney ficou calado. Trêmulo, pôs no chão os restos da
peça de metal, restos que pareciam apenas cinzas,
quebradiços e secos, que se desfizeram em pó no momento
em que tocaram o solo.
— Eles tiveram uma discussão — disse Tod Morris. —
Mayerson e Eldritch. Mão se entenderam nem um
pouquinho.
— De qualquer modo — consolou-os Norm — nós
conseguimos a Mascar-Z. Mayerson, é melhor você ficar
longe de Eldritch no futuro. Deixe que eu cuido da transação.
Se eu tivesse sabido que você é empregado de Leo Bulero...
— Fui... — lembrou pensativo Barney e voltou a mexer na
pá autônoma defeituosa. Fracassara na primeira tentativa de
matar Palmer Eldritch. Teria porventura outra oportunidade?
Tivera ele, realmente, uma oportunidade momentos
antes? A resposta às duas perguntas, concluiu, era não.
EM FINS daquela tarde, os moradores do alojamento
reuniram-se para mascar. Num clima de tensão e
solenidade, quase sem nenhuma palavra trocada, os pacotes
de Mascar-Z foram abertos, um após outro, e distribuídos.
— Hummm — disse Fran Schein, fazendo uma careta. —
O gosto é horroroso.
— Provem, colegas — disse impaciente Norm. Mastigou
em seguida. — Parece cogumelo podre. Você tem toda
razão. — Estoicamente engoliu e continuou'a mastigar. —
Arrrhhh — disse, e vomitou.
— Fazer isto sem um cenário... — começou Helen Morris.
— Aonde é que nós iremos, simplesmente a qualquer lugar?
Estou com medo — disse de repente. — Vamos ficar todos
juntos? Tem certeza disso, Norm?
— Quem dá bola? — disse Sam Regan, mastigando.
— Olhem para mim — disse Barney Mayerson.
Eles o fitaram, curiosos. Alguma coisa no tom dele fez
com que o olhassem.
— Eu ponho a Mascar-Z na boca — disse Barney, e o
gesto seguiu as palavras. — Estão me vendo fazer isto,
certo? — Mastigou. — Agora, estou mastigando a coisa. — O
coração bateu forte. Deus, pensou, será que posso levar isto
adiante?
— Sim, estamos vendo você — disse Tod Morris,
inclinando a cabeça. — E daí? Quero dizer, vai explodir ou
flutuar para longe, como Eldritch, ou fazer alguma outra
coisa? — Começou também a usar seu pacote. Todos eles
estavam mascando, todos os sete, compreendeu Barney.
Fechou os olhos.
QUANDO MENOS esperava, a esposa estava debruçada
sobre ele.
— Eu disse — repetiu ela — , você quer um segundo
Manhattan ou não? Porque, se vai querer, tenho que pedir
ao refrigerador mais gelo picado.
— Emily — disse ele.
— Sim, querido — respondeu ela, secamente. — Todas as
vezes em que você pronuncia meu nome dessa maneira, sei
que está prestes a começar um de seus sermões. O que é,
desta vez? — Ela sentou-se no braço de um sofá em frente a
ele, alisando a saia. Era a bela peça de enrolar azul e
branca, mexicana, pintada à mão, que lhe dera de presente
no Natal. — Estou pronta — disse ela.
— Nada... de sermão — respondeu ele. Sou realmente
assim?, perguntou a si mesmo. Sempre despejando tiradas?
Levantou-se cambaleante e, sentindo-se tonto, segurou-se
na coluna de um abajur próximo.
Fitando-o, Emily disse:
— Você está alto.
Alto. Não ouvia aquela palavra desde os tempos da
faculdade. Há muito tempo era caretice e, naturalmente,
Emily ainda a usava.
— Essa palavra — disse ele com toda clareza que lhe foi
possível — é agora dita pileque. Pode lembrar-se disso?
Pileque. — Em passos trôpegos, dirigiu-se para o aparador,
na cozinha, onde se encontrava a bebida.
— Pileque — repetiu Emily, e suspirou. Parecia triste. Ele
notou esse fato e perguntou-se por quê. — Barney — disse
ela — , não beba tanto, sim? Chame a isso tocado ou
pileque, ou o que quiser, continua a ser a mesma coisa.
Acho que isso é culpa minha. Você bebe tanto porque sou
muito inadequada. — Com o dedo enxugou o olho direito,
num gesto irritante, conhecido, que parecia um tique.
— Não é que você seja tão inadequada — respondeu ele.
— Acontece, simplesmente, que eu tenho padrões altos.
Fui ensinado a esperar muito das outras pessoas, pensou,
a esperar que fossem tão confiáveis como eu, e não tão
emocionalmente piegas o tempo todo, sem nenhum controle
de si mesmas.
Mas, uma artista!, compreendeu. Ou melhor, uma
pretensa artista. Boêmia. Isso é mais próximo da verdade. A
vida artística sem o talento. Começou a preparar um novo
drinque, desta vez de bourbon e água, sem gelo. Serviu-se
diretamente da garrafa de Old Crow, ignorando o medidor.
— Quando você se serve dessa maneira — disse Emily —
sei que está zangado e que vamos ter uma briga. E eu
simplesmente odeio isso.
— Neste caso, vá embora — disse ele.
— Diabos o levem — explodiu Emily. — Eu não quero ir
embora. Você não poderia apenas... — fez um gesto de
desânimo, de desesperança— ... apenas ser um pouco mais
atencioso, mais caritativo, mais alguma coisa? Aprender a
perdoar... — a voz sumiu e quase inaudivelmente, ela disse:
— ... minhas deficiências?
— Mas — observou ele — elas não podem ser ignoradas.
Eu gostaria de fazer isso. Você pensa que eu quero viver
com alguém que não consegue terminar nada que começa
ou conseguir socialmente coisa alguma? Por exemplo,
quando... ah, o diabo leve isto.
O que adiantava? Emily não podia ser reformada, era
pura e simplesmente uma porcalhona. A idéia dela de um
dia bem aproveitado era espojar-se, mexer e brincar com
uma mistura de tintas sebosas, que pareciam excrementos,
ou enterrar os braços durante horas sem fim numa tina de
barro cinzento e úmido. E, enquanto isso...
O tempo estava fugindo deles. E todo o mundo, inclusive
todos os empregados do senhor Bulero, especialmente seus
consultores de pré-sucesso, evoluíam e prosperavam,
floreciam em maturidade. Eu nunca serei o consultor de pré-
sucesso de Nova Iorque, disse a si mesmo. Ficarei para
sempre entalado aqui em Detroit, onde coisa alguma, coisa
alguma de novo acontece.
Se pudesse conseguir o cargo de consultor de pré-
sucesso de Nova Iorque... minha vida teria algum
significado, compreendeu. Eu me sentiria feliz porque estaria
desempenhando um cargo que utilizaria plenamente minha
capacidade. Do que mais precisaria eu? De nada mais, isso é
tudo o que peço.
— Vou sair — disse a Emily, pondo o copo de lado.
Dirigindo-se ao armário, pegou o casaco.
— Você volta antes de eu ir dormir? — Tristemente, ela
seguiu-o até a porta do apartamento, ali no prédio 11139584
— a contar de dentro para fora a partir do centro de Nova
Iorque — onde viviam há dois anos.
— Veremos — respondeu ele, e fechou a porta.
No corredor viu um vulto, um homem alto e grisalho, com
dentes de aço grandes, olhos mortos sem pupilas, e uma
brilhante mão artificial projetando-se da manga direita. O
homem disse:
— Olá, Mayerson. — Sorriu. Os dentes de aço faiscaram.
— Palmer Eldritch — disse Barney. Voltou-se para Emily.
— Você viu as fotos dele nos jornais familiares. Ele é aquele
incrivelmente famoso grande industrial. — Naturalmente, ele
reconhecera Eldritch, e imediatamente. — Queria falar
comigo? — perguntou, hesitante. Aquilo tudo tinha um
aspecto misterioso, como se, de alguma maneira, tudo
houvesse acontecido antes, mas de maneira diferente.
— Deixe-me conversar por um momento com seu marido
— disse Eldritch a Emily numa voz estranhamente gentil. Fez
um movimento e Barney saiu para o corredor. A porta
fechou-se atrás deles. Emily fechara-a, obedientemente.
Nesse momento, Eldritch ficou sério. Sem mais gentileza ou
sorriso, disse: — Mayerson, você está usando muito mal seu
tempo. Não está fazendo coisa alguma, salvo repetir o
passado. De que adiantou eu lhe vender Mascar-Z? Você é
anormal. Você nunca viu nada parecido com o meu produto.
Eu lhe darei dez minutos e depois levo-o de volta ao
alojamento, que é o seu lugar. De modo que é melhor
descobrir com a maior rapidez o que quer e, se entende
alguma coisa, de uma vez por todas.
— O que diabo — perguntou Barney — é Mascar-Z?
A mão artificial levantou-se no ar. Com enorme força,
Palmer Eldritch empurrou-o e ele cambaleou.
— Ei — disse Barney debilmente, tentando reagir, anular
a pressão da força imensa daquele homem. — O que...
Logo depois estava caído de costas no chão. A cabeça
latejava, doía. Com dificuldade, conseguiu abrir os olhos e
focalizá-los no cômodo em volta. Estava acordando.
Descobriu que usava pijama, mas não o conhecia, nunca o
vira antes. Estaria no apartamento de alguma outra pessoa,
usando as roupas dela? De algum outro homem?...
Em pânico, examinou a cama, as cobertas. Ao seu lado...
Viu uma moça desconhecida, que continuava a dormir,
respirando de leve pela boca, os cabelos pareciam uma
cascata branca de algodão, os ombros nus e macios.
— Estou atrasado — disse ele, e a voz saiu distorcida e
rouca, quase irreconhecível.
— Não, não está — murmurou a moça, com os olhos
ainda fechados. — Relaxe. Saindo daqui, podemos chegar ao
trabalho dentro de... — bocejou e abriu os olhos — ... quinze
minutos. — Sorriu-lhe. Seu embaraço divertia-a. — Você
sempre diz isso, todas as manhãs. Vá preparar o café. Eu
preciso tomar café.
— Certo — respondeu ele e deixou apressado a cama.
— Senhor Coelho — disse ela, zombeteira, — você está
tão assustado. Com medo de mim, com medo por causa de
seu cargo... e sempre fugindo.
— Meu Deus — exclamou ele. — Dei as costas a tudo.
— Tudo o quê?
— Emily. — Olhou fixamente para a moça, Roni Alguma
Coisa ou Outra, para o quarto dela. — Agora, não tenho mais
coisa alguma — disse.
— Oh, ótimo — respondeu Roni com amargo sarcasmo. —
Agora talvez eu possa lhe dizer algumas coisas agradáveis,
para você sentir-se melhor.
— E eu me senti, há alguns momentos. Não, há anos.
Exatamente antes de Palmer Eldritch aparecer.
— Como é que Palmer Eldritch podia 'aparecer'? Ele está
num leito de hospital, na área de Júpiter ou Saturno. A ONU
levou-o para lá, depois que o tirou dos destroços da nave. —
O tom de voz dela era desdenhoso, mas havia nele uma nota
de curiosidade.
— Palmer Eldritch acabou de me aparecer — respondeu
ele, teimosamente. Pensou: Tenho que voltar para Emily.
Escorregando, curvando-se, pegou as roupas e foi
cambaleando para o banheiro, fechando a porta com um
estrondo. Rapidamente, barbeou-se, trocou-se, saiu e disse
à moça, que continuava na cama: — Vou ter que ir. Não
fique zangada comigo. Tenho que fazer isto.
Um momento depois, sem ter tomado o desjejum, descia
para o térreo e, em seguida, postou-se sob o escudo an ti
térmico, procurando para cima e para baixo um táxi.
O táxi, um modelo bom, faiscante e novo, levou-o quase
sem demora ao prédio de apartamentos de Emily.
Rapidamente, pagou a corrida, correu para dentro e, em
questão de segundos, estava subindo. Parecia que nenhum
tempo passara, como se o tempo houvesse parado e tudo
estivesse à espera, imobilizado para ele..Num mundo de
objetos fixos, ele era a única coisa que se movia.
A porta, tocou a campainha.
A porta foi aberta e um homem disse:
— Sim?
O homem era moreno, passavelmente bonitão, bastas
sobrancelhas e cabelos meio ondulados, penteados com
cuidado. Tinha um jornal domiciliar na mão. Às costas dele,
viu a mesa de desjejum cheia de pratos.
— Você é Richard Hnatt — disse.
— Eu mesmo. — Perplexo, o homem examinou-o
atentamente. — Eu o conheço?
Emily apareceu, usando suéter cinzento de gola rulê e
jeans manchados.
— Deus do céu. E Barney — disse ela a Hnatt. — Meu ex.
Entre. — Abriu a porta de par em par e ele entrou no
apartamento. Ela parecia satisfeita em vê-lo.
— Prazer em conhecê-lo — disse Hnatt num tom neutro, e
ia estendendo a mão, mas depois mudou de idéia. — Aceita
café?
— Obrigado. — Sentou-se à mesa de desjejum, num lugar
qualquer. — Escute aqui — disse a Emily. Não podia esperar.
Tinha que ser naquele momento, mesmo com Hnatt
presente. — Eu cometi um erro, divorciando-me de você.
Gostaria de voltar a casar com você. De continuar nos
antigos moldes.
Emily, de uma maneira que ele recordava muito bem, riu-
se deliciada. Estava aturdida e se afastou para pegar xícara
e pires, incapaz de responder. Ele se perguntou se ela iria
dar uma resposta. Era mais fácil para ela — mais
interessante para a pateta preguiçosa que ela era —
simplesmente rir. Cristo, pensou, e olhou fixamente para a
frente.
Sentado à sua frente, Hnatt disse:
— Nós somos casados. Você acha que estamos
simplesmente vivendo juntos? — Seu rosto estava sombrio,
mas ele parecia controlar-se.
Dirigindo-se a Emily, não a Hnatt, ele disse:
— Casamentos podem ser desfeitos. Você volta a casar
comigo? — Levantou-se e deu uns poucos passos hesitantes
na direção dela. Nesse momento, ela virou-se e calmamente
entregou-lhe a xícara e o pires.
— Oh, não — respondeu ela, ainda sorrindo.
Os olhos dela transbordavam de luz, a luz da compaixão.
Ela sabia como ele se sentia, que aquilo não era apenas um
impulso. Mas a resposta continuava a ser não e, sabia ele,
seria sempre não. Ela nem mesmo resolvera... Para ela,
simplesmente, não havia a realidade à qual ele estava se
referindo. Ele pensou: eu a demoli, outrora, amputei-a,
desmembrei-a, com inteiro conhecimento do que estava
fazendo, e este é o resultado: estou vendo o pão, como
dizem por aí, que foi lançado à água e que volta boiando
para me sufocar, um pão inchado de água que se alojará na
minha garganta, que nunca será engolido ou vomitado, nem
uma coisa nem outra. E exatamente o que eu mereço, disse
a si mesmo. Eu fiz esta situação.
Voltando à mesa da cozinha, sentou-se como que
entorpecido, esperou, enquanto ela enchia a xícara, e ele
olhava fixamente suas mãos. Outrora eram as mãos de
minha esposa, pensou. E renunciei a elas. Autodestruição.
Eu queria me ver morrer. Essa é a única explicação
satisfatória possível. Ou fui tão estúpido assim? Não, a
estupidez não abarcaria essa enormidade toda, tão completa
e voluntária...
— Como estão indo as coisas, Barney? — perguntou
Emily.
— Oh, diabo, simplesmente maravilhosas. — A voz lhe
tremia.
— Ouvi dizer que você está vivendo com uma bonita
ruivinha — disse Emily. Sentou-se em seu lugar e voltou à
refeição.
— Aquilo acabou — disse Barney. — Tudo esquecido.
— Quem, então? — O tom era apenas de conversa.
Passando o tempo comigo como se eu fosse um velho amigo
ou talvez uma vizinha de outro apartamento neste prédio,
pensou. Loucura! Como pode ela — será que pode? — sentir-
se assim? Impossível. Isso é uma representação, cobrindo
alguma coisa mais profunda.
Em voz alta, disse:
— Você tem medo de que, caso se envolva comigo
novamente eu... eu a mande embora outra vez. Gato
escaldado, de água fria tem medo. Mas não farei isso. Nunca
mais farei uma coisa daquelas.
Em seu tom plácido, de conversa, Emily respondeu:
— E uma pena que você se sinta tão mal assim, Barney.
Não está fazendo tratamento com um analista? Alguém me
disse que o viu carregando por aí uma maleta de psiquiatra.
— O doutor Smile — reconheceu ele, lembrando-se.
Provavelmente, deixara-o no apartamento de Roni Fugate. —
Eu preciso de ajuda — disse a Emily. — Não há alguma
maneira... — Interrompeu-se. Será que o passado não pode
ser mudado?, perguntou a si mesmo. Evidentemente, não.
Causa e efeito funcionam apenas numa direção e a mudança
é real. De modo que o que passou, passou, e eu bem que
posso ir embora daqui. Levantou-se. — Eu devo estar
maluco — disse aos dois e, dirigindo-se a Richard Hnatt: —
Sinto muito. Estou apenas meio acordado... Esta manhã
estou desorientado. A coisa começou quando eu acordei.
— Beba seu café. Por que não bebe? — sugeriu Hnatt. —
Que tal alguma coisa sólida para acompanhá-lo? — O ar
sombrio desaparecera de seu rosto. Como Emily, ele estava
nesse momento tranqüilo, desligado.
— Eu não compreendo isto — disse Barney. — Palmer
Eldritch me disse para vir aqui. — Ou dissera mesmo? Fora
alguma coisa parecida, disso tinha certeza. — Isto devia dar
certo, pensei — concluiu, desalentado.
Hnatt e Emily entreolharam-se.
— Eldritch está num hospital em algum lugar em... —
começou Emily.
— Há alguma coisa errada — queixou-se Barney. —
Eldritch deve ter perdido o controle. É melhor eu ir procurá-
lo. Ele pode me explicar isso. — Sentiu pânico, rápido como
mercúrio, fluido, um pânico saturante, que o encheu até as
pontas dos dedos. — Adeus
— conseguiu dizer, e dirigiu-se para a porta, tentando
encontrar um meio de fuga.
Às suas costas, Richard Hnatt disse:
— Espere.
Barney virou-se. A mesa de desjejum, Emily continuava
com um sorriso fixo, vago, bebericando o café. A frente dela,
Hnatt olhava para Barney. Hnatt possuía uma mão artificial,
com a qual segurava o garfo, e, quando levou uma porção
de ovo à boca, Barney viu enormes e protuberantes dentes
de aço inoxidável. E Hnatt era grisalho, encovado, olhos
mortos, muito maiores do que antes, e parecia encher a sala
com sua presença. Mas era ainda Hnatt. Eu não compreendo
isso, pensou Barney, à porta, nem deixando nem voltando
ao apartamento. Fez o que Hnatt sugeria: esperou. Esse
homem não se parece com Palmer Eldritch:', perguntou a si
mesmo. Nas fotos... ele tem um membro artificial, dentes de
aço e olhos Jensen, mas aquele não era Eldritch.
— E apenas justo lhe dizer — começou Hnatt com voz
natural
— que Emily gosta muito mais de você do que deixa
transparecer. Sei porque ela me disse. Muitas vezes. —
Lançou um olhar a Emily e recomeçou, dirigindo-se a ela: —
Você é um tipo com forte noção de dever. Acha que, nesta
altura, a coisa moralmente certa a fazer é reprimir suas
emoções em relação a Barney. De qualquer modo, é o que
vem fazendo o tempo todo. Mas esqueça seu dever. Não se
pode construir um casamento nessa base. Num casamento
tem que haver espontaneidade. Mesmo que você pense que
é errado... — fez um gesto vago — bem, digamos, desminta-
me, se puder... Não obstante, você deve encarar
honestamente seus sentimentos e não cobri-los com uma
fachada de auto-sacrifício. Foi isso o que você fez com
Barney aqui. Deixou que ele a chutasse porque achou que
era seu dever não interferir na carreira dele. — E
acrescentou: — Você continua a comportar-se da mesma
maneira e isso ainda é um erro. Seja honesta consigo
mesma. — E, de repente, sorriu para Barney, sorriu — e um
olho morto brilhou, como se desse uma piscadela mecânica.
Era Palmer Eldritch naquele instante. Inteiramente.
Emily, contudo, não pareceu notar. O sorriso
desaparecera e ela parecia confusa, perturbada, e cada vez
mais furiosa.
— Você me fez ficar furiosa — disse ao marido. — Eu
disse como me sentia e não sou uma hipócrita. E não gosto
de ser acusada disso.
A frente dela, o homem disse:
— Você só tem uma vida. Se quer vivê-la com Barney, e
não comigo...
— Eu não quero — respondeu ela, olhando-o zangada.
— Vou indo — disse Barney. Abriu a porta para o
corredor. Era inútil.
— Espere. — Palmer Eldritch levantou-se e dirigiu-se em
passos lentos para ele. — Vou descer com você.
Juntos, os dois desceram o corredor em direção à escada.
— Não desista — aconselhou Eldritch. — Lembre-se do
seguinte: esta é a primeira vez em que você usa Mascar-Z.
Mais tarde, terá outras ocasiões. Você pode continuar a
insistir até conseguir o que quer.
Barney perguntou:
— O que, diabo, é Mascar-Z?

Ao SEU LADO, bem perto, uma voz de mulher repetia:


— Barney Mayerson, acorde. — Ele estava sendo
sacudido. Pestanejou, contorceu-se. Ajoelhada ao seu lado,
com a mão em seu ombro, viu Anne Hawthorne. — Como foi
a coisa? Passei por aqui, não consegui encontrar ninguém,
depois dei com vocês todos, formando um círculo,
inteiramente inconscientes. E se fosse um funcionário da
ONU?
— Você me acordou — queixou-se ele, compreendendo o
que Anne fizera. Sentia-se pesado, ressentido, desapontado.
O traslado, contudo, estava terminado por ora e não havia o
que fazer. Mas experimentava dentro de si o anelo, a ânsia.
De fazer a mesma coisa novamente, e logo que possível.
Nada mais tinha importância, nem mesmo a moça ao seu
lado e os companheiros de alojamento, todos inertes,
estirados aqui e ali.
— Foi tão bom assim? — perguntou ela, intuitivamente.
Tocou o próprio casaco. — Ele visitou também nosso
alojamento. Eu comprei. Aquele homem de dentes e olhos
estranhos, aquele homem de cabelos grisalhos, grandalhão.
— Eldritch. Ou um simulacro dele. — As articulações lhe
doíam, como se ele tivesse ficado dobrado em dois durante
horas, mas, examinando o relógio, notou que apenas
segundos, um minuto no máximo, haviam transcorrido. —
Eldritch está em toda parte — disse ele a Anne. — Dê-me
seu Mascar-Z.
— Não.
Ele encolheu os ombros, ocultando o desapontamento, o
impacto forte, físico, da privação. Bem, Palmer Eldritch
voltaria. Conhecia muito bem os efeitos de seu produto.
Possivelmente, mais tarde naquele mesmo dia.
— Conte-me como foi — disse Anne.
— É um mundo ilusório, no qual Eldritch ocupa as
posições mais importantes, como se fosse um deus. Dá à
pessoa uma oportunidade de fazer o que, na realidade,
jamais poderá fazer... reconstruir o passado como ele
deveria ter sido. Mas mesmo para ele é
difícil. Leva tempo.
Calou-se e continuou sentado, esfregando a testa
dolorida.
— Você quer dizer que ele não pode — você não pode —
simplesmente estender os braços e pegar o que quer? Como
pode num sonho?
— Não é absolutamente igual a um sonho.
Era pior, compreendeu. Muito mais como estar no
inferno, pensou. Sim, é assim que deve ser o inferno:
repetitivo e inamovível. Mas Eldritch pensava em termos de
tempo. Com paciência e esforço suficientes, o tempo podia
ser mudado.
— Se você voltar... — começou Anne.
— Se... — Ele fitou-a. — Tenho que voltar. Desta vez, não
consegui realizar coisa alguma. — Centenas de vezes,
pensou. Isso talvez fosse necessário. — Ouça aqui. Pelo
amor de Deus, dê-me esse seu pacote de Mascar-Z. Eu sei
que posso convencê-la, tenho o próprio Eldritch do meu
lado, trabalhando por mim. Neste exato momento ela está
furiosa, peguei-a de surpresa...
Calou-se e olhou fixamente para Anne Hawthorne. Há
alguma coisa errada, pensou. Porque...
Anne possuía braço e mão artificiais. Os dedos de metal e
plástico encontravam-se a apenas centímetros dele e podia
vê-los claramente. Quando ergueu os olhos para ela, viu o
encovamento, o vazio, tão vasto como o espaço
intersistemas, do qual emergira Eldritch, os olhos mortos,
cheios de um espaço além dos mundos conhecidos,
visitados.
— Você pode arranjar mais depois — retrucou
calmamente Anne. — Uma sessão por dia é suficiente. —
Sorriu para ele. — Se não fosse assim, acabariam todas suas
peles, você não poderia comprar mais e que diabo, então,
faria você?
O sorriso dela brilhou, faiscando no aço inoxidável.

OS DEMAIS moradores do alojamento, por toda parte em


volta dele, gemeram, acordando, recobrando-se em lentos e
sofridos estágios. Sentaram-se, murmuraram, tentaram se
orientar. Anne fora a algum lugar. Sozinho, ele conseguiu
levantar-se. Café, pensou. Aposto que ela está fazendo café.
— Uau — disse Norm Schein.
— Aonde foi você? — perguntou Tod Morris, com a língua
engrolada. Tinha os olhos vermelhos, levantou-se com ajuda
da esposa, Helen. — Voltei à adolescência, à escola
secundária, quando tive meu primeiro encontro amoroso... o
primeiro, entenda, que teve o maior sucesso, entendeu? —
Olhou nervoso para Helen.
— E muito melhor do que Can-D — disse Mary Regan. —
Infinitamente. Oh, eu podia dizer a vocês o que estive
fazendo... — Soltou um risinho, embaraçada. — Mas
simplesmente, não posso. — O rosto dela brilhou, quente e
vermelho.
Dirigindo-se sozinho ao seu compartimento, Barney
Mayerson fechou a porta, pegou o tubo de toxina que lhe
fora fornecido por Allen Faine e segurou-o na mão,
pensando. Agora, chegou a ocasião. Mas... estamos de
volta? Será que não vi nada mais do que uma imagem
residual de Eldritch, superposta sobre Anne? Ou talvez
tivesse sido uma introvisão autêntica, uma percepção da
situação real, sem reservas, em que se encontrava, não
apenas da sua, mas de todas as demais, juntas.
Se é assim, aquela não era a ocasião de tomar a toxina.
O instinto oferecia-lhe aquele ponto de observação.
Não obstante, desatarraxou a tampa do tubo.
Uma voz muito fina, frágil, saiu do tubo aberto, dizendo
em tom agudo:
— Você está sendo vigiado, Mayerson. E se está
pretendendo adotar algum tipo de tática, teremos que
intervir. Você será severamente controlado. Sinto muito.
Com os dedos trêmulos, ele repôs a tampa no tubo,
apertando-a com força. E o tubo estivera... vazio!
— O que é? — perguntou Anne, surgindo na sala. Estivera
na cozinha de seu compartimento. Usava um avental, que
descobrira em algum lugar. — O que é isso? — indagou,
vendo o tubo na mão de Mayerson.
— Fuga — disse ele em voz áspera. — Disto.
— De exatamente o quê? — Restabelecera-se a aparência
normal dela e, naquele momento, nada havia de errado. —
Você parece realmente doente, Barney, mesmo. Será isso
um efeito secundário da Mascar-Z?
— Ressaca. — Palmer Eldritch está realmente dentro
disto?, perguntou-se, examinando o tubo fechado. Rolou-o
na palma da mão. Há alguma maneira da gente entrar em
contato com o satélite dos Faines?
— Oh, acho que há. Provavelmente, basta dar uma
videotelefonada ou qualquer que seja o meio deles de...
— Peça a Norm Schein para fazer o contato para mim —
disse ele.
Obedientemente, Anne saiu, fechando-se a porta às suas
costas.
Imediatamente, tirou do esconderijo, embaixo do fogão
da cozinha, o livro de código que Faine lhe dera. A
mensagem teria que ser codificada.
As páginas do livro estavam em branco.
Então, a mensagem não irá em código, disse a si mesmo,
e está resolvido. Vou ter que fazer o melhor que puder e
enviar a mensagem, por mais insatisfatória que seja.
Aparecendo à porta, Anne disse:
— O senhor Schein está fazendo a chamada para você.
Elas exigem sintonias especiais em todas as ocasiões,
segundo ele.
Seguiu-a pelo corredor até uma pequena sala cheia de
utensílios, onde encontraram Norm ao transmissor. No
momento em que entraram, ele virou-se para Barney e
disse:
— Consegui ligar para Charlotte... Isso serve?
— Allen — respondeu Barney.
— Muito bem. — Logo em seguida, Norm disse: — Agora,
peguei o velho Al. Tome. — Entregou o microfone a Barney.
Na pequena tela apareceu o rosto alegre e profissional de
Allen Faine. — Um novo cidadão quer falar com você —
explicou Norm, retomando por um momento o microfone. —
Barney Mayerson, apresento-lhe metade da equipe que nos
mantém vivos e mentalmente sãos aqui em Marte. — Para si
mesmo, murmurou: — Deus, que dor de cabeça. Desculpe-
me. — Deixou a cadeira em frente ao transmissor e
desapareceu cambaleando no corredor.
— Senhor Faine — disse Barney, escolhendo as palavras,
— falei com o senhor Palmer Eldritch hoje cedo. Ele
mencionou a conversa que nós dois tivemos. Sabia os
termos dela. Tanto quanto posso entender não há...
Friamente, Allen Faine perguntou:
— Que conversa?
Durante um momento, Barney ficou em silêncio.
— Evidentemente, eles estavam usando uma câmera
infravermelha — continuou, finalmente. — Provavelmente,
instalada num satélite que estava passando por cima. Não
obstante, o conteúdo de nossa conversa, ao que parece,
ainda não seria...
— O senhor está maluco — cortou-o Faine. — Não o
conheço. Nunca tive conversa alguma com o senhor. Bem,
homem, tem um pedido a fazer ou não? — O rosto estava
impassível, desligado, e não parecia haver simulação.
— O senhor não sabe quem eu sou? — perguntou
incrédulo Barney.
Faine cortou a ligação no seu lado e a pequena tela de
vídeo apagou-se, mostrando naquele momento apenas o
vazio, o vácuo. Barney desligou o transmissor. Nada sentia.
Apatia. Passou por Anne e saiu para o corredor. Parou, tirou
um maço — seria o último? — de cigarros da Terra e
acendeu um, pensando. O que foi que Eldritch fez com Leo
em Luna ou Sigma 14-B, ou comigo também, onde quer que
tenha sido? No fim, ele agarrará todos nós. Exatamente
como agora. Isolado. O mundo comunitário, desaparecido.
Pelo menos para mim. Ele começou comigo.
E espera-se, pensou, que eu lute com um tubo vazio que
antes poderia ou não ter contido uma toxina rara, cara,
perturbadora do cérebro... mas que agora contém apenas
Palmer Eldritch, e nem mesmo todo ele, apenas sua voz.
O fósforo queimou-lhe os dedos. Ignorou-o.
O NZE

CONSULTANDO pilhas de notas, Félix Blau declarou:


— Há quinze horas, uma nave da Mascar-Z, com sanção
da ONU, pousou em Marte e distribuiu os pacotes iniciais nos
alojamentos de Fineburg Crescent.
Leo Bulero inclinou-se para a tela, cruzou as mãos e
perguntou:
— Incluindo o de Barney?
Felix inclinou levemente a cabeça.
— Por esta altura — disse Leo — ele devia ter consumido
a dose daquela sujeira apodrecedora de cérebro e nós já
termos recebido notícias dele via sistema de satélites.
— Compreendo perfeitamente isso.
— William C. Clark está de prontidão? — Clark era o
principal advogado da P.P. Layouts em Marte.
— Está — confirmou Felix — , mas Mayerson tampouco
entrou em comunicação com ele. Não entrou em contato
com pessoa alguma. — Empurrou para um lado as notas. —
Isso é tudo, absolutamente tudo, de que disponho no
momento.
— Talvez ele tenha morrido — comentou Leo. Estava mal-
humorado. Aquela coisa toda deprimia-o. — Talvez ele tenha
sofrido uma convulsão tão forte que...
— Mas, nesse caso, teríamos sabido, uma vez que seria
notificado um dos três hospitais da ONU em Marte.
— Onde está Palmer Eldritch?
— Ninguém em minha organização sabe — respondeu
Félix. — Deixou Luna e desapareceu. Simplesmente
perdemos contato com ele.
— Eu daria meu braço direito — disse Leo — para saber o
que está acontecendo naquele alojamento onde está Barney.
— Vá o senhor mesmo a Marte.
— Oh, não — respondeu imediatamente Leo — , não vou
deixar a P.P. Layouts, não depois do que me aconteceu em
Luna. Você não pode infiltrar lá um homem de sua
organização, que nos informe diretamente?
— Nós temos aquela moça, Anne Hawthorne. Mas ela
tampouco entrou em contato. Talvez eu mesmo vá a Marte...
se o senhor não for.
— Eu não vou — repetiu Leo.
— Isso lhe custará... — começou Félix.
— Eu sei — respondeu Leo. — E pagarei. Mas, pelo
menos, teremos alguma chance. Quero dizer, da forma como
está a situação, não temos coisa alguma. — E estamos
liquidados, disse para si mesmo. — Simplesmente apresente
a conta.
— Mas o senhor tem alguma idéia do que lhe custaria, se
eu morresse, se eles me pegassem em Marte? Minha
organização...
— Por favor — pediu Leo — , não quero falar a esse
respeito. O que é Marte, um cemitério que Eldritch está
cavando? Provavelmente, ele engoliu Barney Mayerson.
Muito bem, vá. Vá até o alojamento dele.
Às suas costas, Roni Fugate, sua consultora de pré-
sucesso interina de Nova Iorque, escutava atenta.
Absorvendo tudo, pensou Leo.
— Encheu bem os ouvidos? — perguntou ele
asperamente.
— O senhor — disse Roni — está fazendo com ele a
mesma coisa que ele fez com o senhor.
— Quem? O quê?
— Barney teve medo de segui-lo quando o senhor
desapareceu em Luna. Agora, o senhor tem medo...
— Simplesmente não é prudente. Muito bem — confessou
— , estou com medo demais de Palmer para botar o pé fora
deste edifício. Claro que não vou a Marte e o que você está
dizendo é a pura verdade.
— Mas — disse suavemente Roni — ninguém vai despedi-
lo. Como o senhor despediu Barney.
— Eu estou me despedindo. Por dentro. E dói.
— Mas não o suficiente para fazê-lo ir a Marte.
— Muito bem! — Rispidamente, religou o videofone e
discou Félix Blau. — Blau, retiro tudo o que disse. Eu mesmo
vou. Embora seja uma loucura.
— Para ser franco — disse Félix — , em minha opinião o
senhor está fazendo exatamente o que Palmer Eldritch quer.
Todas essas questões de bravura versus...
— O poder de Eldritch se exerce através daquela droga —
lembrou Leo. — Enquanto ele não puder administrá-la em
mim, estarei bem. Vou levar alguns seguranças da
companhia para evitar que me apliquem sorrateiramente
uma injeção, como da última vez. Ei, Blau, você ainda vai,
certo? — Virou-se para Roni. — Tudo bem assim?
— Tudo bem. — Ela inclinou a cabeça.
— Está vendo? Ela diz que está tudo bem. De modo que
vai comigo a Marte e, você sabe, segurará a minha mão?
— Claro, Leo — respondeu Félix Blau. — E se você
desmaiar, eu o abanarei até você recuperar a consciência.
Eu o encontrarei em seu escritório dentro de... — examinou
o relógio — ... duas horas. Combinaremos os detalhes.
Mande aprontar uma nave rápida. Levarei comigo uns dois
homens de confiança, também.
— É isso aí — disse Leo a Roni, depois de desligar. — Veja
só o que você me obrigou a fazer. Tomou o cargo de Barney
e, se eu não voltar de Marte, talvez você pegue o meu,
também. — Olhou-a, zangado. As mulheres podem conseguir
que um homem faça qualquer coisa, compreendeu. Mãe,
esposa, mesmo empregada. Giram a gente na mão como se
fôssemos bolinhas de termoplástico.
— Isso aconteceu, realmente, porque eu falei, senhor
Bulero? O senhor, realmente, acredita nisso?
Ele dirigiu a ela um longo e atento olhar.
— Acredito. Porque você é insaciavelmente ambiciosa.
Acredito realmente nisso.
— O senhor está enganado.
— Se eu não voltar de Marte, você irá me procurar? —
Esperou, mas ela não respondeu. Notou hesitação na face da
moça e riu alto. — Claro que não.
Com a fisionomia pétrea, Roni Fugate respondeu:
— Preciso voltar ao meu escritório. Tenho que julgar uma
nova partida de louça rasa. Padrões modernos, de
Capetown.
Levantando-se, ela deixou o gabinete. Ele acompanhou-a
com os olhos. Ela não é o verdadeiro motivo. Nem Palmer
Eldritch. Se eu voltar, tenho que descobrir uma maneira de
me livrar suavemente dela. Não gosto de ser manipulado.
Palmer Eldritch, lembrou-se de repente, apareceu sob a
forma de uma menininha, uma criança... para não
mencionar a vez que surgiu sob a forma daquele cão. Talvez
não haja uma Roni Fugate. Talvez ela seja Eldritch.
O pensamento gelou-o.
O que nós temos aqui, compreendeu, não é uma invasão
da Terra pelos proximianos, seres de outro sistema. Não,
uma invasão pelas legiões de uma pseudo-raça humana.
Não. Não. E Palmer Eldritch que está em toda parte,
crescendo, crescendo como erva daninha. Haverá um ponto
em que ele explodirá, crescerá demais? Todas as
manifestações de Eldritch, por toda a Terra, Luna e Marte,
Palmer inchando e explodindo — pô, PÔ, PÓ! Como
Shakespare disse, alguma droga de coisa simples a respeito
de enfiar um simples alfinete numa armadura, e adeus rei.
Mas, pensou, qual, neste caso, é o alfinete? E há um
espaço aberto onde possamos enfiá-lo? Não sei, nem Félix,
nem também Barney. Aposto que ele não tem a mais vaga
idéia de como enfrentar Eldritch. Seqüestrar Zoé, a feia e
velha filha dele? Palmer não daria a mínima bola. Talvez
nem haja uma Zoé independente dele. E é assim que nós
todos vamos terminar, se não descobrirmos uma maneira de
destruí-lo. Réplicas, prolongamentos do homem, povoando
três planetas e seis luas. Aquele homem é um protoplasma,
espalhando-se, reproduzindo-se, dividindo-se, e tudo através
daquela maldita droga derivada de um líquen, extraterrena,
aquela horrível, miserável Mascar-Z.
Uma vez mais no videofone, discou o satélite de Allen
Faine. Logo em seguida, um pouco insubstancial e fraca,
mas apesar de tudo presente, a face de seu principal disc
jockey apareceu.
— Sim, senhor Bulero.
— Tem certeza de que Mayerson não entrou em contato
com você? Ele recebeu o livro de código, não?
— Recebeu, mas ainda nada dele. Estamos monitorando
todas as transmissões do alojamento dele. Vimos a nave de
Eldritch pousar perto — isso foi há horas — e Eldritch sair e
dirigir-se aos moradores. Embora nossas câmeras não
tivessem registrado o fato, tenho certeza de que a transação
foi concluída naquele momento. — E Faine acrescentou: —
Barney Mayerson foi um dos moradores que receberam
Eldritch na superfície.
— Acho que sei o que aconteceu — disse Leo. —
Obrigado, Al.
Desligou. Barney desceu com a Mascar-Z. E,
imediatamente, todos se sentaram e começaram a mascar.
Isso foi o fim, exatamente como foi comigo em Luna. Nossa
tática exigia que Barney mascasse para valer, compreendeu
Leo, e assim caímos feitos uns patinhos nas sujas mãos
semimecânicas de Palmer. Logo que ele conseguiu introduzir
a droga no sistema de Barney, fomos liquidados. Porque, de
alguma maneira, Eldritch controla todos os mundos
alucinatórios criados pela droga. Sei — tenho certeza! — que
aquele gambá está em todos eles.
Os mundos de fantasia que a Mascar-Z cria, pensou,
estão na cabeça de Palmer Eldritch. Foi isto que descobri
pessoalmente.
E o problema é, continuou a pensar, que logo que a
pessoa entra num deles, não consegue sair inteiramente. A
coisa permanece, mesmo quando a gente pensa que está
livre. É um portão que só dá entrada e, tanto quanto sei,
ainda estou lá agora.
Contudo, isso não parecia provável. Ainda assim, pensou,
mostra como estou amedrontado — como disse Roni Fugate.
Com medo suficiente (reconheço isso) para abandonar
Barney lá, como ele me abandonou. E Barney estava usando
sua capacidade precognitiva, de modo que tinha visão
antecipada, quase no ponto em que agora tenho visão
retrospectiva. Ele sabia antecipadamente o que eu tinha que
aprender com a experiência. Não era de espantar que ele
refugasse.
Quem é que vai ser sacrificado?, perguntou a si mesmo.
Eu, Barney, Félix Blau — qual de nós vai ser derretido para
Palmer engolir? Porque é isso o que, potencialmente, somos
para ele: alimento a ser consumido. Foi uma coisa oral que
chegou do sistema de Prox, uma grande boca, aberta para
nos receber a todos.
Mas Palmer não é um canibal. Porque eu sei que ele não
é humano. Não há um homem naquela pele de Palmer
Eldritch.
Mas não tinha concepção alguma do que pudesse ser.
Tanta coisa podia acontecer na vasta extensão de espaço
entre o Sol e Próxima Centauri, tanto na ida como na volta!
Talvez tenha acontecido, pensou, na ida de Palmer. Talvez
ele tenha comido os proximianos naqueles dez anos,
enxugado o prato lá, e voltado para nós. Poxa. Estremeceu.
Bem, pensou, mais duas horas de vida independente,
mais o tempo que leva a viagem a Marte. Talvez dez horas
de existência privada e, em seguida... engolido. E por toda
Marte aquela droga horrenda está sendo distribuída. Pense,
imagine, no número de pessoas confinadas nos mundos
ilusórios de Palmer, nas redes que ele lança. O que é que
esses budistas da ONU, como Hepburn-Gilbert, chamam a
isso? Maya. O véu da ilusão. Droga, pensou desalentado, e
estendeu a mão para o intercomunicador, a fim de requisitar
uma nave rápida para o vôo. E eu quero um bom piloto,
lembrou-se. Ultimamente, um número grande demais de
pousos autônomos têm acabado em acidentes. Não quero
ser espalhado por todo aquele campo — especialmente
aquele campo.
— Qual é o melhor piloto interplanetário que temos? —
perguntou à senhorita Gleason.
— Don Davis — respondeu ela imediatamente. — Ele tem
uma ficha perfeita em seus... o senhor sabe, os vôos dele
procedentes de Vênus. — Ela não se referia explicitamente
aos negócios de Can-D da empresa. Até mesmo o
intercomunicador podia estar grampeado.
Dez minutos depois, todos os preparativos de viagem
haviam sido feitos.
Leo Bulero recostou-se, acendeu um grande charuto
verde claro Havana, que estivera guardado numa caixa de
umidade, cheia de hélio, provavelmente durante anos... O
charuto, quando mordeu a ponta, pareceu-lhe seco e
quebradiço. Estalou sob a pressão dos dentes e ele se sentiu
desapontado. Parecia tão bom, tão perfeitamente
preservado em sua caixa. Bem, nunca se sabe, disse a si
mesmo. Até que se experimenta.
A porta do gabinete foi aberta nesse instante e entrou a
senhorita Gleason, trazendo os documentos de requisição da
nave.
A mão que segurava os papéis era artificial. Notou o
brilho do metal claramente exposto e imediatamente ergueu
a cabeça para examinar o rosto da mulher. Dentes de
Neanderthal, pensou, é isso o que parecem esses
gigantescos molares de aço inoxidável. Uma reversão a 200
mil anos. Revoltante. E os olhos eram de luxvid ou vidlux,
sem pupilas, apenas frestas, de qualquer modo produtos do
Laboratório Jensen, de Chicago.
— Diabos o levem, Eldritch — disse ele.
— Eu também sou seu piloto — respondeu Palmer Eldritch
de dentro da forma da senhorita Gleason. — Eu estava
pensando em cumprimentá-lo quando você pousasse, mas
isso é demais, cedo demais.
— Dê-me os papéis para assinar — disse Leo, estendendo
mão.
Surpreso, Palmer Eldritch perguntou:
— Você ainda pensa em fazer a viagem a Marte? —
Parecia realmente atônito.
— Penso — respondeu Leo, e esperou paciente que ele
lhe entregasse os papéis.

QUANDO EXPERIMENTA Mascar-Z, a pessoa é entregue


de uma vez por todas. Pelo menos era assim que a
dogmática, devota, fanática Anne Hawthorne diria. Como o
pecado, pensou Barney Mayerson. E o estado de escravidão.
Como a Queda. E a tentação é semelhante.
Mas o que está faltando aqui é uma maneira através da
qual possamos ser libertados. Teríamos que ir a Prox para
encontrá-la? Mesmo há, talvez não exista. De qualquer
modo, não existe no universo.
Anne Hawthorne apareceu à porta da sala de transmissão
do alojamento.
— Você está bem?
— Claro — respondeu Barney. — Sabe, nós nos metemos
nisto. Ninguém nos obrigou a mastigar a Mascar-Z. — Jogou
o cigarro no chão e apagou-o com a ponta da bota. — E você
não quer me dar sua porção.
Mas não era Anne que se recusava a fazer o que ele
pedia. Era Palmer Eldritch operando através dela, resistindo.
Mesmo assim, posso tomar-lhe a droga, compreendeu.
— Pare — disse ela. Ou melhor, a coisa disse.
— Ei! — berrou Norm Schein da sala de transmissão,
levantando-se de um salto, espantado. — O que é que você
está fazendo, Mayerson? Deixe-a...
O forte braço artificial atacou-o. Os dedos de metal
fecharam-se e quase chegaram ao que se propunham.
Sondaram o pescoço com mestria, procurando o local onde a
morte podia ser administrada mais eficiente. Mas ele pegara
o pacote e isso era o que interessava. Soltou a criatura.
— Não a tome, Barney — disse ela tranqüilamente. — É
cedo demais, depois da primeira dose. Por favor.
Sem responder, ele se afastou na direção de seu
compartimento.
— Você faria uma coisa por mim? — gritou ela às suas
costas. — Divida-a em dois, deixe-me tomá-la com você.
Assim, posso acompanhá-lo.
— Por quê? — quis saber ele.
— Talvez eu possa ajudá-lo, estando lá.
— Eu posso fazer isso sozinho — respondeu Barney. Se
puder chegar a Emily antes do divórcio, antes que Richard
Hnatt apareça... como fiz da primeira vez, pensou. Esse é o
único lugar onde tenho alguma possibilidade real.
Repetidamente, pensou: tente! Tente até ter êxito.
Fechou a porta.
Enquanto devorava a Mascar-Z, pensou em Leo Bulero.
Você fugiu. Provavelmente porque Palmer Eldritch era mais
fraco do que você. Foi isso? Ou Eldritch estava simplesmente
lhe dando corda, deixando que você estrebuchasse? Você
podia vir aqui e me deter. Agora, porém, não há jeito de
fazer isso. O próprio Eldritch me avisou, falando por
intermédio de Anne Hawthorne. Era demais, mesmo pára
ele, e agora, o que estava acontecendo? Fui tão longe que
mergulhei até o fundo, longe mesmo da vista dele. Aonde
nem mesmo Palmer Eldritch pode ir, onde coisa alguma
existe? E, claro, pensou, não posso voltar.
Com a cabeça doendo, fechou involuntariamente os
olhos. Era como se seu cérebro, vivo e assustado, tivesse se
mexido fisicamente. Sentiu-o tremer. Metabolismo alterado,
compreendeu. Choque. Sinto muito, disse a si mesmo,
pedindo desculpas à sua parte somática. Tudo bem?
— Socorro — disse em voz alta.
— Ah, socorro... pois sim! — rangeu uma voz de homem.
— O que é que você quer que eu faça, que segure sua mão?
Abra os olhos ou caia fora daqui. Aquele período que você
passou em Marte, ele acabou com você e estou cheio até
aqui. Vamos!
— Cale a boca — gritou Barney. — Estou doente. Fui
longe demais. Você quer dizer que tudo o que pode fazer é
me insultar?
— Abriu os olhos e viu-se em frente a Leo Bulero, sentado
à sua grande e atravancada escrivaninha de carvalho. —
Escute aqui — continuou — , estou sob o efeito da Mascar-Z.
Não posso deter isso. Se você não puder me ajudar, estou
liquidado.
As pernas fraquejaram nos joelhos, como liquefazendo-
se, enquanto ele chegava a uma cadeira próxima e se
sentava. Olhando-o pensativo, fumando um charuto, Leo
disse:
— Você está sob o efeito de Mascar-Z agora? — Fechou a
cara.
— Como há dois anos...
— Foi banida?
— Isso mesmo, banida. Meu Deus, não sei se vale a pena
falar com você. O que é que você é, algum tipo de fantasma
do passado?
— Você ouviu o que eu disse. Eu disse que estou sob o
efeito da droga. — Cerrou os punhos.
— Muito bem, minto bem. — Agitado, Leo puxou grandes
baforadas de fumaça. — Não fique nervoso demais. Diabo,
eu fui em frente e vi o futuro também, e isso não me matou.
E, de qualquer maneira, pelo amor de Deus, você é um
precog... devia estar acostumado a isso. Afinal de contas...
— recostou-se na cadeira, girou nela e cruzou as pernas
— ...eu vi aquele monumento, entendeu? Imagine em
homenagem a quem. A mim. — Olhou para Barney e, em
seguida, encolheu os ombros.
— Eu não tenho coisa alguma a ganhar, absolutamente
nada — disse Barney — neste período de tempo. Quero
minha vida de volta. Quero Emily. — Sentiu-se enfurecido,
transbordando de amargura. Com a bile do desapontamento.
— Emily — repetiu Leo Bulero, inclinando a cabeça. Falou
no intercomunicador: — Senhorita Gleason, por favor, não
deixe que coisa alguma nos incomode por algum tempo. —
Voltou a atenção para Barney, passando minuciosa revista
nele. — Aquele cara, Hnatt
— é esse o nome dele? — foi preso pela polícia da ONU,
juntamente com o resto do pessoal da organização de
Eldritch. Hnatt tinha um contrato assinado com o agente de
Eldritch. Bem, deram a ele a opção de uma pena de prisão
— tudo bem, reconheço que foi injusto, mas não me culpe —
ou emigrar. Ele emigrou.
— E ela?
— Com aquele negócio de vasos? Como diabo podia ela
continuá-lo num alojamento do deserto marciano?
Naturalmente, ela chutou aquele palhaço estúpido. De modo
que, você vê, se tivesse esperado...
— Você é realmente Leo Bulero? — perguntou Barney. —
Ou é Palmer Eldritch? E está dizendo isso para me fazer
sentir ainda pior... é isso?
Erguendo uma sobrancelha, Leo respondeu:
— Palmer Eldritch morreu.
— Mas isto não é real. E uma fantasia induzida pela
droga. Um traslado.
— O diabo que não é real. — Leo fitou-o, zangado. — No
que é que isso me transforma, então? Escute. — Apontou
iradamente o dedo para Barney. — Não há nada de irreal a
meu respeito. Você é que é uma droga de fantasma, como
você mesmo disse, saído do passado. Quero dizer, você tem
a situação inteiramente atrasada. Está ouvindo isto? —
Bateu na superfície da mesa com toda a força das mãos. —
O som que a realidade produz. E eu digo que sua ex-mulher
e Hnatt se divorciaram. Sei porque ela vende seus vasos a
nós para miniaturização. Na verdade, na última quinta-feira,
ela estava no escritório de Roni Fugate. — Mal-humorado,
continuou a fumar o charuto, olhando ainda zangado para
Barney.
— Neste caso, tudo o que eu tenho que fazer é procurá-la
— disse Barney. A coisa era bem simples.
— Oh, sim — concordou Leo, inclinando a cabeça. — Mas,
apenas uma coisa. O que é que você vai fazer com Roni
Fugate? Você está vivendo com ela neste mundo, que
parece gostar de imaginar que é irreal.
Espantado, Barney perguntou:
— Depois de dois anos?
— E Emily sabe por quê, uma vez que está vendendo seus
vasos a nós através de Roni. As duas se tornaram grandes
amigas. Contam uma à outra todos seus segredos. Olhe o
caso do ponto de vista de Emily. Se ela deixasse que você
voltasse para ela, Roni provavelmente deixaria de aceitar os
vasos dela para miniaturização. É um risco, e aposto que
Emily não quer corrê-lo. Quero dizer, demos a Roni
autoridade absoluta, como você tinha no seu tempo.
— Emily nunca colocaria a carreira à frente de sua própria
vida — protestou Barney.
— Você colocou. Talvez Emily tenha aprendido com você.
Entendeu o recado. E, afinal de contas, mesmo sem aquele
cara, Hnatt, por que Emily quereria voltar para você? Ela
está levando uma vida bem-sucedida em sua carreira, é
famosa em todo o planeta, e tem muito dinheiro guardado...
Quer saber a verdade? Ela tem todos os homens que quer. A
qualquer momento. Emily não precisa de você. Enfrente a
realidade, Barney. Afinal de contas, o que é que falta em
Roni? Para ser franco, eu não me importaria...
— Eu acho que você é Palmer Eldritch — disse Barney.
— Eu? — Leo bateu no peito. — Barney, eu matei Eldritch.
Foi por isso que ergueram um monumento a mim. — A voz
era baixa e tranqüila, mas ele estava vermelhíssimo. — Eu
tenho dentes de aço inoxidável? Tenho braço artificial? —
Leo ergueu as mãos. — Bem? E meus olhos...
Barney dirigiu-se para a porta do escritório.
— Para aonde vai você? — perguntou Leo.
— Eu sei — disse Barney, abrindo a porta — que se puder
conversar com Emily apenas por alguns minutos...
— Não, você não pode, cara — disse Leo, sacudindo com
firmeza a cabeça.
Esperando pelo elevador, Barney pensou: Talvez fosse
realmente Leo. E talvez seja verdade.
De modo que não posso ter sucesso sem Palmer Eldritch.
Anne tinha razão. Eu devia ter dado a ela metade do
pacote e nós dois poderíamos ter tentado isto juntos. Anne,
Palmer... é tudo o mesmo, tudo a mesma coisa para ele, o
criador. É isso quem e o quê ele é, compreendeu. O dono
desses mundos. O resto de nós apenas habita esses mundos
e, quando quer, ele pode viver neles, também. Pode
derrubar com um pontapé o cenário, manifestar-se,
empurrar as coisas na direção que escolher. Mesmo ser um
de nós, se quiser. Todos nós, na verdade, se desejar. Eterno,
fora do tempo e dos segmentos justapostos de todas as
outras dimensões... ele pode mesmo penetrar num mundo
onde está morto.
Palmer Eldritch fora a Prox como homem e voltara como
um deus.
Em voz alta, enquanto esperava pelo elevador, disse:
— Palmer Eldritch, ajude-me. Consiga-me minha esposa
de volta. — Olhou em torno de si, mas não havia ninguém
para ouvi-lo.
Chegou o elevador. As portas deslizaram para os lados.
Dentro havia quatro homens e duas mulheres, calados.
Todos eles eram Palmer Eldritch. Homens e mulheres
iguais: braço artificial, dentes de aço inoxidável... rosto
lívido, encovado, com olhos Jensen.
Virtualmente em uníssono, mas não inteiramente como
se competindo entre si pela oportunidade de falar, os seis
disseram:
— A partir daqui você não vai poder voltar ao seu próprio
mundo, Mayerson. Desta vez, você foi longe demais, tomou
uma superdose maciça. Como lhe avisei quando a tomou de
mim no alojamento.
— Você não pode me ajudar? — perguntou Barney. —
Preciso voltar.
— Você não compreende — disseram todos os Palmer
Eldritches, sacudindo coletivamente a cabeça. Era o mesmo
movimento que Leo acabara de fazer e o mesmo firme não.
— Como lhe foi observado: desde que este é seu futuro,
você já está firmemente instalado aqui. De modo que não há
lugar para você. Isto é uma questão de lógica simples. Para
quem devo capturar Emily? Para você? Ou para o Barney
Mayerson legítimo que viveu naturalmente até este
momento? E não pense que ele não tentou levar Emily de
volta. Você não acha — e obviamente não achou — que
quando os Hnatt se separaram ele fez seu movimento? Fiz o
que pude por ele. Isso aconteceu há muitos meses, pouco
depois de Richard Hnatt ter sido enviado para Marte,
debatendo-se e protestando o caminho todo. Pessoalmente,
não culpo Hnatt. Foi uma sujeira o que fizeram com ele, tudo
tramado por Leo, claro. E olhe só para você mesmo. — Os
seis Palmer Eldritch fizeram um gesto de desdém. — Você é
um fantasma, como Leo disse. Literalmente, podemos ver
através de você. Numa terminologia mais exata, vou dizer o
que você é. — Dos seis partiu a calma, fria, declaração: —
Você é um espectro.
Barney olhou-os fixamente e eles olharam-no fixamente,
plácidos, insensíveis.
— Tente construir sua vida sobre essa premissa —
continuaram os Eldritch. — Bem, você conseguiu o que São
Paulo promete, aquilo sobre o que Anne Hawthorne esteve
dissertando. Você não está mais revestido de um corpo
perecível, corporal... em lugar dele, vestiu um corpo etéreo.
Que tal acha ele, Mayerson? — O tom era zombeteiro, mas a
compaixão transpareceu nos seis rostos, mostrou-se nos
estranhos olhos estriados, mecânicos, de todos eles. — Você
não pode morrer. Não come, nem bebe, nem respira... mas
pode, se desejar, atravessar paredes, na verdade qualquer
objeto material. Aprenderá isso com o tempo.
Evidentemente, na estrada para Damasco, Paulo
experimentou uma visão relativa a esse fenômeno. Isso e
muito mais. — E os Eldritches acrescentaram: — Estou
inclinado, como você vê, a demonstrar alguma simpatia pelo
ponto de vista dos primitivos e dos neocristãos, como o que
Anne sustenta. Ajuda a explicar diversas coisas.
— E o que me diz de você, Eldritch? — perguntou Barney.
— Você está morto, foi assassinado há dois anos por Leo.
E eu sei, pensou, porque você está sofrendo a mesma
coisa que eu, o mesmo processo deve ter-se emparelhado
com você, em algum ponto do caminho. Você mesmo tomou
uma superdose de Mascar-Z e agora não há tampouco para
você a volta ao seu próprio tempo e mundo.
— Aquele monumento — disseram os seis Eldritches,
murmurando juntos como o cicio de um vento muito distante
— é altamente inexato. Uma de minhas naves teve uma
troca de tiros com uma das de Leo nas imediações de Vênus.
Eu estava a bordo, ou supunha-se que eu estivesse, da
nossa. Leo estava a bordo da dele. Ele e eu simplesmente
tivemos uma conferência com Hepburn-Gilbert em Vênus e,
na volta à Terra, Leo aproveitou a oportunidade para atacar
nossa nave. Foi com base nessa premissa que se construiu
aquele monumento... devido à hábil pressão econômica de
Leo, aplicada em todos os apropriados organismos políticos.
De uma vez por todas, ele entrou para a História.
Duas pessoas, um jovem cavalheiro bem vestido, tipo
executivo, e uma moça que era possivelmente secretária,
desceram o corredor. Olharam com espanto para Barney e
em seguida para as seis criaturas no elevador.
As criaturas deixaram de ser Palmer Eldritch. A mudança
ocorreu diante de seus olhos. De repente, eles eram seis
indivíduos, homens e mulheres comuns. Inteiramente
heterogêneos.
Barney afastou-se do elevador. Durante um intervalo
imensurável vagueou pelos corredores e, tomando uma
rampa, finalmente desceu para o térreo, onde ficava a lista
de pessoal da P.P. Layouts. Lendo-a, localizou seu nome e
número de telefone. Ironicamente — e isto chegava quase a
ser demais — tinha o título que tentara extrair deles à força,
há não tanto tempo. Era mencionado como Supervisor de
Pré-Sucesso, superior em graduação a todos os consultores
individuais. Assim, mais uma vez, se apenas tivesse
esperado...
Sem dúvida alguma, Leo conseguira tirá-lo de Marte,
salvá-lo do mundo do alojamento. E isso implicava muita
coisa.
A planejada ação judicial — ou alguma tática diferente —
tivera sucesso. Teria, melhor seria dizer. E talvez dentro em
breve.
O véu de alucinação lançado por Palmer Eldritch, o
pescador de almas humanas, era imensamente eficaz, mas
não perfeito Não a longo prazo. De modo que ele deixara de
consumir a Mascar-Z, após a dose inicial...
Talvez a porção em poder de Anne Hawthorne houvesse
sido um ato deliberado. Uma maneira de manobrá-lo para
que a tomasse novamente, e logo. Se foi assim, os protestos
dela haviam sido falsos. Fora intenção dela que ela a
tomasse e, como um animal num labirinto, ele correra para
a rota de fuga vislumbrada. Manipulado por Palmer Eldritch
em cada centímetro do caminho.
E não havia uma estrada de volta.
Se fosse acreditar em Eldritch, este estaria falando
através de Leo. Através de suas múltiplas personagens, em
toda parte. Mas essa era a palavra-chave... se.
Tomando o elevador, subiu ao andar onde se localizava
seu próprio escritório.
Quando abriu a porta o homem sentado à escrivaninha
ergueu a cabeça e disse:
— Feche essa coisa. Nós não temos muito tempo. — O
homem, e era ele mesmo, levantou-se. Barney examinou-o
atentamente e, em seguida, pensativo, fechou a porta como
ele mandara. — Obrigado — disse friamente seu futuro ser.
— E pare com essa de preocupar-se em voltar ao seu próprio
tempo. Você voltará. A maior parte do que Eldritch fez — ou
faz, se preferir considerá-la dessa maneira — consiste em
produzir mudanças superficiais: ele faz com que as coisas
pareçam o que ele quer, mas isso não significa que elas são.
Entendeu o que eu disse?
— Eu... eu entendo o que significam suas palavras. Seu
futuro ser continuou:
— Reconheço que é fácil para mim dizer isso agora.
Eldritch ainda aparece de tempos em tempos, às vezes
mesmo publicamente, mas eu sei e até os leitores mais
ignorantes dos jornais de nível mais baixo sabem que ele
nada mais é do que um fantasma. O homem real encontra-
se numa sepultura em Sigma 14-B, e isso foi comprovado.
Você está num local diferente. Para você, o Palmer Eldritch
real pode aparecer a qualquer minuto. O que seria real para
você seria um fantasma para mim, e a mesma coisa vai ser
verdade quando você voltar a Marte. Encontrará um Palmer
Eldritch autenticamente vivo e, francamente, não o invejo.
— Diga-me apenas como voltar — pediu Barney.
— Não se importa mais com Emily?
— Estou com medo. — Sentiu seu próprio olhar queimá-lo,
a percepção e a compreensão do futuro. — Muito bem —
explodiu — o que é que devo fazer, fingir que não para
impressioná-lo? De qualquer modo, você saberia.
— O ponto em que Eldritch tem vantagem sobre todos os
que consumiram Mascar-Z é que a recuperação dos efeitos
da droga é excessivamente lenta e gradual, numa série de
níveis, cada um deles progressivamente menos uma ilusão
induzida e mais composto de realidade autêntica. Às vezes,
o processo leva anos. Foi por isso que a ONU proibiu,
tardiamente, a droga e virou-se contra Eldritch. Hepburn-
Gilbert aprovou-a no início porque acreditava sinceramente
que a droga ajudava o usuário a penetrar na realidade
concreta, mas depois tornou-se óbvio para todos os que a
usaram ou a viram ser usada que ela fazia exatamente o...
— Neste caso, eu nunca me recuperei de minha primeira
dose.
— Exato. Você nunca voltou à realidade concreta, nítida.
Como teria acontecido, caso houvesse se abstido por mais
24 horas. Aqueles fantasmas de Eldritch, gravados na
matéria normal, teriam desaparecido inteiramente e você
teria ficado livre. Mas Eldritch conseguiu que você tomasse a
segunda e mais forte dose. Sabia que você fora enviado a
Marte para trabalhar contra ele, embora não tivesse idéia de
que maneira. Ele estava com medo de você
Era estranho ouvir aquilo. Não soava certo. Eldritch, a
despeito de tudo o que fizera e podia fazer... Mas Eldritch
vira o monumento no futuro e sabia que, de algum jeito, de
alguma maneira, iam finalmente matá-lo.
A porta do escritório foi aberta bruscamente. Roni Fugate
olhou para dentro e viu os dois. Nada disse, simplesmente
olhou, boquiaberta. Mas, finalmente, murmurou:
— Um fantasma. Acho que é o que está de pé, o que está
mais perto de mim. — Trêmula, entrou, fechando a porta.
— Isso mesmo — disse seu futuro ser, examinando-a
atentamente. — Pode verificar passando a mão através dele.
Foi o que ela fez. Barney Mayerson viu a mão dela
atravessar-lhe o corpo e desaparecer.
— Eu vi fantasmas antes — disse ela, retirando a mão.
Estava nesse momento mais calma. — Mas nunca o seu,
querido. Todos os que consumiram aquela abominação
transformaram-se em fantasmas numa ou noutra ocasião,
mas, recentemente, eles se tornaram menos freqüentes.
Certa ocasião, mais ou menos há um ano, a gente os via em
toda parte. — E acrescentou: — Hepburn-Gilbert finalmente
viu um de si mesmo. Exatamente o que ele merecia.
— Você compreende — disse seu futuro eu a Roni — que
ele está sob o domínio de Eldritch, mesmo que para nós o
homem esteja morto. De modo que temos que trabalhar
com cautela. Eldritch pode começar a afetar a percepção
dele a qualquer momento e, quando isso acontecer, ele não
terá outra opção do que reagir nessa conformidade.
Dirigindo-se a Barney, Roni perguntou:
— O que podemos fazer por você?
— Ele quer voltar para Marte — explicou seu futuro eu. —
Eles têm um plano imensamente complicado, todo elaborado
para destruir Eldritch nos tribunais interplanetários. A coisa
envolve tomar um epilepsigênico ioniano, KV-7. Ou suas
recordações não retroagem a esse ponto?
— Mas o caso nunca chegou aos tribunais — disse Roni.
— Eldritch entrou num acordo. A queixa foi retirada.
— Nós podemos transportá-lo para Marte — disse a
Barney seu futuro ser — numa nave da P.P. Layouts. Mas
isso não adiantará coisa alguma porque Eldritch não só o
seguirá e irá com você na viagem: estará lá para recebê-lo
— o que é um dos esportes ao ar livre favorito dele. Jamais
esqueça que um fantasma pode ir a qualquer lugar. Não é
limitado por tempo ou espaço. É isso o que o transforma em
fantasma, isso e o fato de que ele não tem metabolismo,
pelo menos não como entendemos essa palavra.
Estranhamente, contudo, o fantasma é afetado pela
gravidade. Ultimamente, surgiram numerosos estudos sobre
esse assunto. De qualquer modo, não se conhece muita
coisa a esse respeito. — Intencionalmente, concluiu: —
Especialmente sob o subtópico de como trazer um fantasma
ao seu próprio espaço e tempo... como exorcizá-lo.
— Você está ansioso para se livrar de mim? — perguntou
Barney. Sentiu frio.
— Exatamente — respondeu com toda calma seu futuro
ser. — Tão ansioso como você está por voltar. Você sabe
agora que cometeu um erro, você sabe que... — Lançou um
olhar a Roni e imediatamente calou-se. Não queria referir-se
a Emily na frente dela.
— Foram feitas algumas tentativas com eletrochoque de
alta voltagem e baixa amperagem — lembrou Roni. — E com
campos magnéticos. A Universidade de Columbia...
— O melhor trabalho até agora — disse seu futuro eu —
foi feito no Departamento de Física da Caltech, na Costa
Oeste. O fantasma é bombardeado com partículas beta, que
desintegram a base proteínica essencial do...
— Muito bem — disse Barney. — Vou deixá-lo em paz.
Vou procurar o Departamento de Física da Caltech e verificar
o que eles podem fazer. — Sentia-se inteiramente derrotado.
Fora abandonado até por si mesmo, é o cúmulo, pensou,
tomado de uma fúria impotente, selvagem. Deus!
— Isso é estranho — comentou Roni.
— O que é que é estranho? — perguntou seu eu futuro,
inclinando a cadeira para trás, cruzando os braços e fitando-
a.
— Você indicar a Caltech — respondeu Roni. — Tanto
quanto sei, eles nunca realizaram lá trabalho algum com
fantasmas. — A Barney, tranqüilamente: — Peça para ver as
duas mãos dele.
— Suas mãos — obedeceu Barney. Já começara, porém, a
sorrateira alteração no homem sentado, na boca
especialmente, na protuberância característica que
reconhecia com tanta facilidade. — Esqueça — disse em voz
abafada. Sentia-se tonto.
Zombeteiramente, retrucou seu futuro ser:
— Deus ajuda a quem se ajuda, Mayerson. Você acha,
realmente, que vai ajudar em alguma coisa andar batendo
em portas por aí, tentando criar alguém que tenha pena de
você? Diabo, eu tenho pena de você. Eu lhe disse para não
consumir aquela segunda porção. Eu o livraria disso, se
soubesse como, e conheço mais a respeito da droga do que
qualquer outra pessoa.
— O que é que vai acontecer a ele? — perguntou Roni ao
seu futuro eu, que não era mais seu futuro eu. A
metamorfose se completara e Palmer Eldritch estava
reclinado para trás na escrivaninha, alto e grisalho,
balançando-se de leve na cadeira de rodinhas, uma grande
massa de teias de aranha imemoriais, quase num gesto de
arrogância, numa forma quase humana. — Meus Deus, será
que ele vai vaguear por aqui para sempre?
— Boa pergunta — concordou gravemente Palmer
Eldritch. — Eu gostaria de saber. Tanto por ele como por
mim. Estou metido nisso muito mais profundamente do que
ele, lembre-se. — Dirigindo-se a Barney, disse: — Você
compreendeu o ponto fundamental, não?, que não lhe é
necessário assumir seu Gestalt normal. Você pode tornar-se
uma pedra, uma árvore, um veículo a jato, ou uma seção de
um teto antitérmico. Eu fui todas essas coisas, e muito mais.
Se tornar-se inanimado, um velho tronco, por exemplo,
deixa de ficar consciente da passagem do tempo. Essa é
uma solução possível, interessante para alguém que queira
escapar de sua existência fantasmagórica. Eu não quero. —
A voz era baixa. — Porque, para mim, voltar para meu
próprio espaço e tempo significa morte, por iniciativa de Leo
Bulero. Muito ao contrário. Só posso continuar a viver neste
estado. Mas, no seu caso. — Fez um gesto, sorrindo de leve.
— Seja uma rocha, Mayerson. Agüente até o fim, por mais
tempo que leve para passarem os efeitos da droga. Dez
anos, um século. Um milhão de anos. Ou seja um velho osso
fóssil num museu. — O olhar era bondoso.
Após algum tempo, Roni sugeriu:
— Talvez ele tenha razão, Barney.
Barney foi até a escrivaninha, pegou um peso de papel,
de vidro, mas depois recolocou-o no mesmo lugar.
— Nós não podemos tocá-lo — disse Roni — mas ele
pode...
— A capacidade de fantasmas de manipular objetos
materiais — explicou Palmer Eldritch — deixa claro que eles
estão presentes, e que não são meramente projeções.
Lembre-se do fenômeno de poltergeist... Eram capazes de
lançar objetos por toda a casa, embora fossem também
incorpóreos.
Pendurada na parede do gabinete brilhava uma placa. Era
um prêmio recebido por Emily, três anos antes do próprio
tempo de Barney, por peças de cerâmica que ela inscrevera
numa exposição. Ali estava. Ele ainda a conservava.
— Eu quero ser aquela placa — resolveu Barney.
A placa era feita de madeira de lei, provavelmente de
mogno, e bronze. Duraria muito tempo e, além disso, sabia
que seu futuro ser nunca a abandonaria. Dirigiu-se para a
placa, perguntando-se como deixaria de ser homem e se
tornaria um objeto de bronze e madeira, pendurado numa
parede de escritório.
— Quer minha ajuda, Mayerson? — perguntou Palmer
Eldritch.
— Quero — respondeu.
Alguma coisa levantou-o no ar. Ergueu os braços para
firmar-se e logo em seguida estava mergulhando, descendo
por um túnel interminável que se afunilava — sentiu que ele
se apertava em torno de si e teve certeza de que julgara
mal. Palmer Eldritch, uma vez mais, imaginara anéis
circulando em volta dele, demonstrava seu poder sobre
todos os que usavam Mascar-Z. Eldritch fizera alguma coisa
e não podia nem saber o que fora, mas, de qualquer modo,
não era o que ele dissera, não o que prometera.
— Diabos o levem, Eldritch — disse, mas não ouviu sua
voz, nada ouviu, continuou a descer cada vez mais,
imponderável, nem mesmo mais um fantasma, a gravidade
deixara de afetá-lo, de modo que aquilo desaparecera,
também.
Deixe-me alguma coisa, Palmer, pensou. Por favor. Uma
oração, compreendeu, que já fora recusada. Palmer Eldritch
agira há muito tempo... era tarde demais, sempre fora.
Neste caso, continuarei com a ação judicial, disse a si
mesmo. Descobrirei uma maneira de voltar à Marte, tomarei
a toxina, passarei o resto da vida nos tribunais
interplanetários lutando contra você... e vencendo. Não por
Leo ou pela P.P. Layouts, mas por mim.
Ouviu, então, uma risada. Era a gargalhada de Palmer
Eldritch, mas ela emergia de...
De si mesmo.
Olhando para as próprias mãos, viu a esquerda, rosada,
branca, feita de carne, coberta de pele, com pêlos
minúsculos, quase invisíveis, e depois a direita, brilhante,
faiscante, impecável em sua perfeição mecânica, mão
infinitamente superior à original, há muito tempo perdida.
Nesse momento soube o que fora feito com ele. Um
grande traslado — de seu ponto de vista, pelo menos — fora
realizado e, possivelmente, tudo até aquele momento se
desenvolvera com esse fim em vista.
Será a mim, compreendeu, que Leo Bulero matará. O
monumento será a epítome de minha vida.
Agora eu sou Palmer Eldritch.
Neste caso, pensou após algum tempo, enquanto o
ambiente em volta parecia solidificar-se e tornar-se claro, eu
gostaria de saber como ele está indo com Emily.
Tenho esperança de que muito mal.
D OZE

COM imensos braços arrastando-se, estendeu-se do


sistema de Próxima Centauri até a própria Terra, e não era
humano. Este não era o homem que retornava. E possuía
grande poder. Podia superar a morte.
Mas não se sentia feliz. E pela simples razão de que
estava sozinho. De modo que, imediatamente, tentou
compensar esse fato: dera-se a grande trabalho a fim de
atrair outros para a rota que seguira.
Um deles era Barney Mayerson.
— Mayerson — disse em tom comum de conversa — , que
diabo você tem a perder? Pense bem. Da maneira como
estão as coisas, você está liquidado: não há nenhuma
mulher que você ame, e há um passado que lamenta.
Compreenda, você tomou um caminho decisivamente errado
em sua vida e ninguém obrigou-o a fazer isso. E o caminho
não pode ser refeito. Mesmo que o futuro dure um milhão de
anos, ele não pode lhe devolver o que você perdeu por,
digamos assim, obra de sua própria mão. Entendeu meu
raciocínio?
Nenhuma resposta.
— E você esquece uma coisa — continuou ele, após um
momento de espera. — Ela involuiu sob efeito daquela
horrível terapia de evolução que aquele médico alemão tipo
ex-nazista aplica naquelas clínicas. Claro, ela — na
realidade, o marido dela — foi bastante clarividente para
suspender o tratamento logo, e ainda pode fazer vasos que
vendem. Não involuiu tanto assim. Mas... você não gostaria
dela. Você sabe, ela seria simplesmente um pouco mais
curta de idéias, um pouco mais tola. Não seria como no
passado, mesmo que a conseguisse de volta. Seria
diferente.
Mais uma vez esperou. Desta vez ouviu resposta:
— Muito bem!
— Aonde é que você gostaria de ir? — continuou ele. — A
Marte? Aposto que não. Muito bem, então de volta à Terra.
Barney Mayerson, não ele mesmo, respondeu:
— Não. Saí de lá voluntariamente. Eu estava acabado. O
fim chegara.
— Muito bem. Para a Terra, não. Deixe-me ver.
Hummmm. — Pensou um pouco. — Para Prox — disse. —
Você nunca viu o sistema de Prox nem os proximianos. Eu
sou uma ponte, você sabe. Entre os dois sistemas. Através
de mim, eles podem vir para cá, para o sistema solar, em
qualquer momento, se eu deixar. Mas não deixei. Agora eles
estão ansiosos. — Soltou uma risadinha. — Estão
praticamente fazendo fila. Como crianças nas matinês de
cinema nas tardes de sábado.
— Transforme-me numa pedra.
— Por quê?
— Para que eu não possa sentir — respondeu Barney. —
Não há mais nada para mim, em parte alguma.
— Você não quer ser nem mesmo trasladado e
transformado num organismo homogêneo comigo?
Nenhuma resposta.
— Você pode compartilhar de minhas ambições. Tenho
muitas, grandes... elas fazem com que Leo pareça lixo. —
Claro, pensou, Leo vai me matar, e não vai demorar muito.
Pelo menos, do modo como o tempo é calculado fora do
traslado. — Vou contar-lhe uma delas. Uma pequenina.
Talvez o anime.
— Duvido — disse Barney.
— Vou transformar-me em planeta. Barney riu.
— Você acha isso engraçado? — Ele ficou furioso.
— Eu acho que você continua louco.
— Eu não expliquei ainda — retrucou ele, cheio de
dignidade — exatamente o que tinha em mente quando
disse aquilo. O que quero dizer é que vou ser todo mundo no
planeta. Você sabe a que planeta estou-me referindo.
— A Terra.
— Diabo, não. A Marte.
— Por que Marte?
— Ele é... — procurou as palavras — novo, não
desenvolvido ainda, cheio de potencial. Vou ser todos os
colonos, à medida que chegam e começam a residir nele.
Orientarei a civilização deles, eu serei a civilização deles!
Nenhuma resposta.
— Ora, vamos. Diga alguma coisa. Barney disse:
— Por quê, se você pode ser tanta coisa, inclusive um
planeta inteiro, eu não posso ser nem aquela placa na
parede de meu escritório na P.P. Layouts?
— Hummmm — disse ele, desconcertado. — Muito bem,
muito bem. Você pode ser aquela placa, que diabo me
importa isso? Seja o que quiser... Você tomou a droga, tem o
direito de ser trasladado para o que o agradar. Não é real,
claro. Essa é a verdade. Estou-lhe contando o segredo mais
bem guardado de todos: é uma alucinação. O que a faz
parecer real é que certos aspectos proféticos entram na
experiência, exatamente como nos sonhos. Entrei e saí de
um milhão deles, desses chamados mundos de
"trasladação". Vi todos eles. E sabe o que é que eles são?
Nada. Como um ratinho branco cativo, fornecendo sem
cessar impulsos elétricos a áreas específicas de seu
cérebro... Repugnante.
— Entendo — disse Barney Mayerson.
— Quer terminar num deles, sabendo disso? Após algum
tempo, Barney respondeu:
— Claro.
— Muito bem! Eu o transformarei numa pedra e o
colocarei numa praia. Você pode ficar ali e escutar as ondas
por uns dois milhões de anos. Isso deve satisfazê-lo. — Seu
palhaço estúpido, pensou furioso. Uma pedra! Deus!
— Fui amolecido, ou coisa parecida? — perguntou Barney
em seguida. Na sua voz, pela primeira vez, surgiam fortes
nuanças de dúvida. — Era isso o que os proximianos
queriam? Foi por isso que o enviaram?
— Eu não fui enviado. Apareci aqui por conta própria. É
melhor do que viver no espaço morto, entre estrelas
quentes. — Soltou uma risadinha. — Claro que você é mole...
e quer ser uma pedra. Escute aqui, Mayerson, ser pedra não
é o que você realmente quer. O que você quer é a morte.
— Morte?
— Você quer dizer que não sabia? — perguntou,
incrédulo. — Ora, vamos!
— Não, eu não sabia.
— E muito simples, Mayerson. Eu lhe darei um mundo de
traslado no qual você é um cadáver apodrecendo de um cão
atropelado, caído numa vala... Pense nisso. Que droga de
alívio não será. Você vai ser eu, e Leo Bulero vai matar você.
Esse é o cão morto, Mayerson, o cadáver na vala. — E eu
continuarei a viver, disse ele a si mesmo. Essa é minha
dádiva a você, e lembre-se: em alemão, dádiva significa
veneno. Deixarei você morrer em meu lugar dentro de
alguns meses e aquele monumento em Sigma 14-B será
construído, mas eu continuarei, em seu corpo vivo. Quando
você voltar de Marte para trabalhar na P.P. Layouts
novamente, você será eu. E, desta maneira, evito meu
destino.
Era tão simples.
— Muito bem, Mayerson — concluiu ele, cansado do
colóquio. — Para cima e em cima deles, como dizem.
Considere-se alijado. Nós não somos mais um único
organismo. Temos, novamente, destinos diferentes,
separados, e foi assim que você quis. Você está numa nave
de Conner Freeman, deixando Vênus, e eu estou no seu
alojamento em Marte. Tenho lá em cima uma florescente
horta e posso meter com Anne Hawthorne em qualquer
ocasião que quiser... E uma boa vida, no que me interessa.
Espero que goste igualmente da sua.
E naquele instante ele emergiu.
Encontrava-se na cozinha de seu compartimento no
alojamento, fritando uma panela inteira de cogumelos
locais... O ar cheirava a manteiga e temperos e, na sala de
estar, do toca-fitas portátil subia uma sinfonia de Haydn.
Tranqüilo, pensou, cheio de prazer. Exatamente o que eu
quero, um pouco de paz e tranqüilidade. Afinal de contas, eu
estava acostumado a isso, lá no espaço intersistemas.
Bocejou, espreguiçou-se satisfeito e disse:
— Consegui.
Sentada na sala de estar, lendo um jornal domiciliar
tirado do serviço noticioso irradiado por um dos satélites da
ONU, Anne Hawthorne ergueu a vista e perguntou:
— Conseguiu o quê, Barney?
— Coloquei exatamente a quantidade certa de tempero
nisto aqui — respondeu, ainda exultante. Eu sou Palmer
Eldritch e estou aqui, não lá, sobreviverei ao ataque de Leo e
sei como desfrutar, usar, esta vida aqui, como Barney não
sabia ou não queria.
Vejamos o que ele prefere quando a nave de ataque de
Leo reduzir sua nave mercante a partículas. E quando ele
conhecer os últimos momentos de uma vida amargamente
lamentada.

SOB O FULGOR da luz do teto, Barney Mayerson


pestanejou. Após um segundo, compreendeu que se
encontrava numa nave. O cômodo parecia comum, uma
combinação de quarto e sala de estar, mas reconheceu o
que era pelo fato de a mobília estar soldada ao chão. E a
gravidade estava toda errada. Artificialmente gerada, não
conseguia reproduzir a da Terra.
E havia uma paisagem lá fora. Limitada, não maior, na
verdade, que um alvéolo de casa de abelha. Mas, ainda
assim, o grosso plástico revelava o vazio do outro lado.
Aproximou-se para olhar. O Sol, ofuscante, enchia uma parte
do panorama. Pensativo, estendeu a mão e acionou o filtro
preto. Ao fazer isso, notou a mão. Sua mão artificial,
metálica, superiormente eficiente.
Imediatamente, deixou o camarote e desceu o corredor
até chegar à ponte de comando fechada. Bateu nela com os
nós do dedo de aço e após um intervalo abriu-se a porta
pesadamente reforçada do tabique.
— Sim, senhor Eldritch. — O piloto, jovem, louro, inclinou
respeitoso a cabeça.
— Envie uma mensagem — disse ele.
O piloto pegou uma caneta e colocou-a sobre o bloco de
notas montado na borda do painel de instrumentos.
— Dirigida a quem, senhor?
— Ao senhor Leo Bulero.
— A Leo... Bulero. — O piloto escrevia rapidamente. —
Isto é para ser transmitido à Terra, senhor? Se assim...
— Não. Leo encontra-se próximo a nós, em sua própria
nave. Diga-lhe... — Pensou rapidamente.
— Quer falar com ele, senhor?
— Não quero que ele me mate — respondeu. — É isso o
que estou querendo dizer. E mate você, juntamente comigo.
E todos os que estiverem neste transporte lento, neste alvo
idiotamente grande.
Mas é inútil, compreendeu. Alguém da organização de
Félix Blau, cuidadosamente plantado em Vênus, viu-me a
bordo desta nave. Leo sabe que estou aqui e isso significa o
fim.
— O senhor quer dizer que a concorrência comercial é tão
dura assim? — perguntou o piloto, tomado de surpresa.
Ficou lívido.
Zoé Eldritch, sua filha, usando dirndl e chinelas de pele,
apareceu.
— O que é?
— Leo está por perto — disse ele. — Numa nave armada,
com permissão da ONU. Fomos atraídos para uma
armadilha. Nunca devíamos ter ido a Vênus. Hepburn-Gilbert
esteve metido nisto. — Ao piloto, disse: — Simplesmente,
continue a tentar entrar em contato com ele. Vou voltar ao
meu camarote. — Não há nada que eu possa fazer aqui,
disse a si mesmo, e fez menção de sair.
— Diabo — disse o piloto — fale o senhor com ele. É o
senhor que ele quer pegar. — Deslizou para fora da poltrona,
deixando-a propositadamente vaga.
Suspirando, Barney Mayerson sentou-se, ligou o
transmissor da nave, sintonizou a freqüência de emergência
e disse ao microfone:
— Leo, seu calhorda, você me pegou. Conseguiu atrair-
me para aqui, onde pode acabar comigo. Você e aquela sua
maldita frota, já organizada e operando, antes que eu
voltasse de Prox... você teve a vantagem inicial. — Nesse
momento, sentia-se mais zangado do que assustado. — Não
temos coisa alguma nesta nave. Absolutamente nada para
nos proteger... Você vai destruir um alvo desarmado. Esta é
uma nave de carga.
Calou-se, tentando pensar no que dizer a mais. Dizer,
pensou, que eu sou Barney Mayerson e que Eldritch nunca
será capturado e morto porque ele se trasladará para
sempre de vida em vida? E que, na realidade, você está
matando alguém que conhece e ama?
— Diga alguma coisa — pediu Zoé aflita.
— Leo — disse ele no microfone — deixe-me voltar a
Prox. Por favor. — Esperou, escutando a estática no alto-
falante do receptor. — Muito bem — disse em seguida — ,
retiro o que disse. Jamais deixarei o sistema solar e você
jamais poderá me matar, mesmo com a ajuda de Hepburn-
Gilbert, ou de quem quer que seja na ONU com quem você
está aliado. — Virou-se para Zoé: — Que tal achou isso?
Gostou? — Deixou cair com um ruído seco o microfone. —
Estou acabado.
O primeiro raio de energia laser quase cortou a nave ao
meio.
Caído no chão da cabine de comando, Barney Mayerson
escutava o barulho das bombas de emergência de
fornecimento de ar, ganhando uma vida arquejante e aguda.
Consegui o que queria, compreendeu. Ou pelo menos o que
Palmer disse que eu queria. Estou recebendo a morte.
Mais além de sua nave, o elegante caça de Leo Bulero,
modelo da ONU, manobrou para disparar o segundo raio
fulminante. Pelo visor do piloto, viu o relâmpago do escape
da nave. Ela estava realmente muito próxima.
Caído ali, quis morrer.
Naquele momento, Leo Bulero cruzou o cômodo central
de seu compartimento, vindo em sua direção.
Interessada, Anne Hawthorne levantou-se da cadeira e
disse:
— Então, o senhor é Leo Bulero. Há certo número de
perguntas, todas elas pertinentes a seu produto, a Can-D...
— Eu não produzo Can-D — retrucou Leo. — Desminto
enfaticamente esse boato. Nenhuma de minhas empresas
comerciais é, de forma alguma, ilegal. Escute aqui, Barney,
você consumiu ou não aquele... — baixou a voz e, curvando-
se sobre Barney Mayerson, disse asperamente: — ...você
sabe.
— Vou deixar vocês a sós — disse Anne, sensível à
situação.
— Não — grunhiu Leo. Virou-se para Félix Blau, que
inclinou a cabeça. — Sabemos que você é uma das agentes
de Blau — disse-lhe Leo. Mais uma vez, provocou Barney
Mayerson, irritado: — Eu não acho que ele a tenha tomado
— disse, meio para si mesmo. — Vou passar uma revista
nele. — Começou a mexer no bolso do casaco de Barney e
em seguida na camisa, por dentro. — Aqui está. — Puxou o
tubo que continha a toxina que alterava o metabolismo
cerebral. Desatarraxando a tampa, olhou para dentro. —
Nem tocou — disse, profundamente revoltado. — De modo
que, naturalmente, Faine não ouviu notícia alguma dele. Ele
recuou.
— Eu não recuei — protestou Barney. Estive muito longe,
pensou. Será que você não pode ver isso? — Mascar-Z —
disse. — Muito longe.
— Você esteve inconsciente por cerca de dois minutos —
disse desdenhoso Leo. — Chegamos aqui exatamente no
momento em que você se fechou. Um cara — Norm qualquer
coisa — deixou-nos entrar com sua chave-mestra. Ele é o
encarregado deste alojamento, acho.
— Mas lembre-se — disse Anne — que a experiência
subjetiva com Mascar-Z não está ligada à nossa taxa
temporal. Para ele, podem ter sido horas ou mesmo dias. —
Olhou com pena para Barney.
— Certo?
— Eu morri — disse Barney. Sentou-se, sentindo-se mal.
— Você me matou.
Caiu um grande e embaraçoso silêncio.
— Você quer dizer, eu? — perguntou finalmente Félix
Blau.
— Não — respondeu Barney. Não importava. Pelo menos,
não até a próxima vez em que tomasse a droga. Logo que
isso acontecesse, o fim chegaria. Palmer Eldritch obteria
sucesso, conseguiria sobreviver. E essa era a parte
insuportável. Não a sua própria morte — que de qualquer
modo acabaria acontecendo — mas o fato de Palmer Eldritch
adquirir imortalidade. Morte, pensou, onde está tua vitória
sobre essa... coisa?
— Eu me sinto insultado — queixou-se Félix Blau. —
Quero dizer, que história é essa de alguém matá-lo,
Mayerson? Diabo, nós o tiramos do coma em que se
encontrava. Foi longa e difícil a viagem até aqui e, para o
senhor Bulero — meu cliente — na minha opinião, arriscada.
Esta é a região onde Eldritch opera. — Olhou apreensivo em
volta. — Faça-o tomar aquela substância tóxica — disse ele a
Leo — e vamos voltar para a Terra antes que aconteça
alguma coisa horrível. Estou sentindo isso. — Dirigiu-se para
a porta do compartimento.
— Você a tomará, Barney? — perguntou Leo.
— Não.
— Por que não? — Cansaço. Mesmo paciência.
— A vida significa muito para mim. — Resolvi parar com
minha expiação, pensou. Finalmente.
— O que foi que aconteceu enquanto você era
trasladado? Levantou-se. Mal conseguiu fazer isso.
— Ele não vai dizer — opinou Félix Blau, da porta.
— Barney, isto foi tudo que conseguimos preparar —
disse Leo. — Eu o tirarei de Marte, você sabe disso. E a
epilepsia do tipo Q não é o fim da...
— Você está perdendo tempo — disse Félix e desapareceu
no corredor. Mas antes dirigiu um último olhar venenoso a
Barney e disse: — Que erro você cometeu, depositando
todas as suas esperanças nesse cara.
— Ele tem razão, Leo — confirmou Barney.
— Você nunca sairá de Marte — ameaçou Leo. — Nunca
arranjarei sua volta para a Terra. Não importa o que
aconteça aqui de agora em diante.
— Eu sei.
— Mas não se importa. Vai passar o resto da vida
tomando aquela droga. — Leo olhou-o zangado, perplexo.
— Nunca mais — prometeu Barney.
— Então, você vai fazer o quê?
— Vou morar aqui — disse Barney. — Como colono.
Trabalharei em minha horta lá em cima e em tudo mais que
eles fizerem. Construirei sistemas de irrigação e coisas
assim. — Sentia-se cansado e a náusea não passara. — Sinto
muito — concluiu.
— Eu também — queixou-se Leo. — E não compreendo
isso. Lançou um olhar a Anne Hawthorne, não viu resposta
nela, encolheu os ombros e dirigiu-se para a porta. Ali, fez
menção de dizer alguma coisa, mas desistiu. Foi embora em
companhia de Félix Blau. Barney escutou-lhe os passos até a
boca do alojamento, mas, depois, o som morreu e fez-se
silêncio. Foi até a pia e tomou um copo de água.
Depois de algum tempo, Anne disse:
— Eu compreendo.
— Compreende? — A água tinha gosto bom. Lavou os
últimos traços da Mascar-Z.
— Parte de você tornou-se Palmer Eldritch — disse ela. —
E parte dele tornou-se você. Nenhum dos dois pode jamais
separar-se inteiramente outra vez. Vocês serão sempre...
— Você está louca — protestou ele, encostando-se
exausto na pia para se sustentar. As pernas continuavam
fracas demais.
— Eldritch conseguiu o que queria de você — continuou
Anne.
— Não — negou ele. — Porque voltei cedo demais. Teria
que ficar lá por mais cinco ou dez minutos. Quando Leo
disparar seu segundo tiro, será Palmer Eldritch que estará
naquela nave, não eu.
E é esse motivo por que não há necessidade de que eu
desequilibre meu metabolismo cerebral num plano
precipitado, maluco, saído do desespero, disse a si mesmo.
Ele morrerá logo... ou melhor, a coisa morrerá.
— Entendo — disse Anne. — E você tem certeza de que
esse vislumbre do futuro que teve durante o traslado...
— É válido. — Isto porque não dependia do que estivera à
sua disposição durante a experiência com a droga.
Além do mais, possuía sua própria capacidade de
precognição.
— E Palmer Eldritch sabe também que é válido —
prosseguiu. — Ele fará, está fazendo todo o possível para
sair dessa situação. Mas não sairá. Não pode.
Ou pelo menos, compreendeu, é provável que não possa.
Mas nisto reside a essência do futuro: possibilidades
entrelaçadas. Há muito tempo aceitava esse fato, aprendera
a lidar com ele. Intuitivamente, sabia que linha temporal
escolher. Graças a isso, mantivera o emprego na empresa
de Leo.
— Mas, por causa disso, Leo não vai exercer a influência
dele em seu favor — lembrou Anne. — Ele não vai,
realmente, levá-lo de volta para a Terra. Ele estava falando
sério. Será que você não compreende a gravidade disso?
Tive certeza pela expressão do rosto dele. Enquanto viver,
ele nunca...
— A Terra — disse Barney — eu já tive. — Ele também
falara sério no que dissera, nas antevisões de sua própria
vida ali em Marte.
Se o planeta era suficientemente bom para Palmer
Eldritch, era bom o bastante para ele. Isto porque Palmer
Eldritch vivera muitas vidas. Houvera uma vasta, segura,
sabedoria contida na substância do homem, ou da criatura,
o que quer que fosse. Sua fusão com Eldritch durante o
traslado lhe deixara uma marca, um ferrete de
perpetuidade, uma forma de percepção absoluta.. E
perguntou a si mesmo se Eldritch, em troca, obtivera
alguma coisa dele. Dispunha eu de alguma coisa que a ele
valesse a pena saber?, perguntou-se. Introvisões? Estados
de espírito, recordações, valores?
Boa pergunta. A resposta, concluiu, era não. Nosso
inimigo, alguma coisa reconhecidamente horrenda e
alienígena que penetrou num membro de nossa raça como
se fosse uma doença durante a longa viagem entre Terra e
Prox... Não obstante, essa coisa sabia muito mais do que eu
a respeito do significado de nossas vidas finitas, via-a em
perspectiva, produto de séculos de inação vazia enquanto
vagava ao léu e esperava que passasse algum tipo de forma
de vida que pudesse agarrar e nela se transformar... talvez
seja essa a fonte de seu conhecimento, não de experiência,
mas de infindável reflexão solitária. E, em comparação, eu
nada sabia... e nada fizera.
Norm e Fran Schein apareceram à porta do apartamento.
— Ei, Mayerson, como foi a coisa? O que foi que você
achou da Mascar-Z na segunda experiência? — Entraram e
aguardaram ansiosos sua resposta.
— Nunca terá sucesso — disse Barney.
— Essa não foi a minha reação. — Norm estava
desapontado. — Eu gostei, e muito mais do que de Can-D.
Exceto... — hesitou, franziu as sobrancelhas e, expressão
preocupada, lançou um olhar à esposa. — Mas havia uma
espécie de presença horripilante no lugar onde eu estava.
Desfigurava de certa maneira as coisas. Naturalmente, eu
voltei...
Fran interrompeu-o:
— O senhor Mayerson parece cansado. Você pode dar a
ele mais tarde o resto dos detalhes.
Olhando-o curioso, Norm Schein disse:
— Você é um tipo esquisito, Barney. Saiu da experiência
na primeira vez, tomou a porção dessa moça aqui, desta
senhorita Hawthorne, correu e trancou-se em seu
compartimento para poder tomar a droga, e agora diz... —
Encolheu displicentemente os ombros. — Bem, talvez você
apenas tenha tomado demais, de uma vez só. Você não foi
moderado, homem. Quanto a mim, tenciono experimentá-la
novamente. Com cuidado, claro. Não como você. —
Tranqüilizando-se, disse em voz alta: — Estou falando sério.
Gostei da coisa.
— Exceto — lembrou Barney — pela presença que esteve
lá com você.
— Eu a senti, também — disse tranqüilamente Fran. —
Não vou experimentá-la novamente. Eu... eu estou com
medo daquilo. O que quer que seja. — Estremeceu e
aproximou-se mais do marido. Automaticamente, por hábito
antigo, ele enlaçou-a pela cintura.
— Não tenha medo da coisa — sossegou-a Barney. — Ela
está simplesmente tentando viver, como todos nós.
— Mas ela era tão... — começou Fran.
— Uma coisa tão antiga como ela — explicou Barney —
teria que nos parecer desagradável. Não temos concepção
de idade daquela dimensão. Daquela enormidade.
— Você fala como se soubesse o que era — observou
Norm. Eií sei, pensou Barney. Porque, como disse Anne,
parte dela
está aqui, dentro de mim. E, até que morra dentro de
alguns meses a partir de agora, reterá sua porção de mim
incorporada à sua própria estrutura. Assim, quando Leo a
matar, compreendeu subitamente, será um mau momento
para mim. Eu gostaria de saber que sensação...
— Aquela coisa — continuou, dirigindo-se a todos eles,
especialmente a Norm Schein e à esposa — tem um nome
que vocês reconheceriam se eu lhes dissesse. Embora ela
nunca chamasse a si mesma por tal nome. Fomos nós que
lhe demos esse título. Com base em experiência, a distância,
durante milhares de anos. Mais cedo ou mais tarde, porém,
estávamos fadados a enfrentá-la. Sem a distância. Ou os
anos.
Anne Hawthorne falou:
— Você quer dizer Deus.
Não lhe pareceu necessário responder com mais do que
uma leve inclinação de cabeça.
— Contudo... mau? — murmurou Fran Schein.
— Um aspecto — explicou Barney. — Nossa experiência
dela. Nada mais.
Ou será que já não fiz vocês compreenderem isso?,
perguntou a si mesmo. Devo dizer-lhes como a coisa tentou
ajudar-me, à sua própria maneira? Ainda assim... como ela
estava agrilhoada, também, pelas forças do destino, que
parecem transcender tudo o que vive, incluindo não só nós,
mas ela também.
— Poxa... — disse Norm, os cantos de sua boca
encurvaram-se para baixo num desapontamento quase
choroso. Por um momento, ele pareceu um menininho que
fora ludibriado.
T REZE

MAIS tarde, com as pernas não mais fraquejando, levou


Anne Hawthorne à superfície e mostrou-lhe sua horta
iniciante.
— Sabe de uma coisa? — disse Anne. — É preciso
coragem para faltar às pessoas.
— Você quer dizer, a Leo? — Sabia o que ela queria dizer.
Não havia mais dúvida nesse instante sobre o que acabara
de fazer a Leo, a Félix Blau, e a toda a P.P. Layouts e à
organização de venda de Can-D. — Leo é um homem bem
formado — observou. — Superará isso. Reconhecerá que
terá que cuidar pessoalmente de Eldritch, e fará isso.
E, pensou, a ação judicial contra Eldritch não teria
conseguido êxito. E o que me diz minha capacidade de
precognitivo.
— Beterraba — disse Anne. Sentada no pára-choque do
trator autônomo, examinava pacotes de sementes. — Odeio
beterraba. De modo que, por favor, não plante nenhuma,
mesmo as mutantes que são verdes, altas e finas e têm o
gosto de maçaneta de porta plástica do ano passado.
— Você estava pensando em vir morar aqui? — perguntou
ele.
— Não. — Disfarçadamente, examinou a caixa de controle
homeostática do trator e pegou no isolamento puído,
parcialmente queimado, de um dos cabos de força. — Mas,
de vez em quando, espero vir jantar com seu grupo. Vocês
são os vizinhos mais próximos que temos.
— Escute aqui — disse ele — , aquela ruína decadente
onde você mora... — Interrompeu-se. Identificação, pensou.
Já a estou adquirindo em termos desta habitação comunal
subpadrão, que bem poderia levar cinqüenta anos de
consertos constantes e detalhados feitos por especialistas.
— Meu alojamento — disse ele — pode surrar o seu. E
qualquer dia da semana.
— O que me diz do domingo? Pode fazer isso duas vezes,
então.
— No domingo — retrucou ele — não é permitido. Nesse
dia lemos as Escrituras.
— Não brinque a esse respeito — avisou-o tranqüilamente
Anne.
— Eu não estava brincando. — E não estivera, de modo
algum.
— O que você disse antes a respeito de Palmer Eldritch...
— Eu só queria lhe dizer uma coisa — continuou Barney.
— Talvez duas, no máximo. Em primeiro lugar, que ele —
você sabe a que me refiro — realmente existe, realmente
está lá, embora não como pensamos e não como o
experimentamos até agora... não como, talvez, jamais
poderemos experimentar. Em segundo lugar... — hesitou.
— Diga.
— Ele não nos pode ajudar muito — esclareceu. — Um
pouco, talvez. Mas ele está de mãos abertas, vazias. Ele
compreende, quer ajudar. Tenta, mas... simplesmente não é
tão simples assim. Não me pergunte por quê. Talvez ele
mesmo não saiba. Talvez o fato deixe-o perplexo, também.
Mesmo depois de todo o tempo que teve para remoer tudo
isso.
E todo o tempo que terá depois, pensou, se conseguir
escapar de Leo Bulero. Humano, um de nós, Leo. Será que
Leo sabe o que está enfrentando? E se sabe, tentaria de
qualquer maneira, continuaria querendo levar a cabo seus
planos?
Leo faria isso. Um precog pode ver coisas que estão
predestinadas
— A coisa que encontrou Eldritch e penetrou nele —
sugeriu Anne — , aquilo que estamos enfrentando, é um ser
superior a nós e, como você diz, não podemos julgá-lo ou
entender o que ele faz ou quer, é algo misterioso e que
transcende nosso entendimento. Mas sei que você está
enganado, Barney. Alguma coisa que tem as mãos abertas e
vazias não é Deus. É uma criatura moldada por algo mais
alto do que ela, como nós fomos. Deus não foi feito e Ele não
está perplexo.
— Eu senti em volta dele a presença de uma divindade —
disse Barney. — Ela estava lá. — Especialmente naquele
momento, pensou, em que Eldritch me empurrou, tentou
obrigar-me a experimentar.
— Claro — concordou Anne. — Eu pensava que você
compreendia isso. Ele está aqui, dentro de cada um de nós
e, numa forma de vida mais alta, como aquela de que
estivemos falando, Ele certamente seria ainda mais
manifesto. Mas... vou lhe contar minha piada do gato. É
muito curta e simples. Uma dona-de-casa está dando um
jantar e tem um belo filé de 2 kg 500 g na bancada da
cozinha, pronto para ser assado, enquanto ela conversa com
os convidados na sala de estar... toma alguns drinques e etc.
e cal. Depois, ela pede licença e vai para a cozinha assar o
filé... e verifica que ele desapareceu. E lá no canto está o
gato da família, lambendo tranqüilamente o focinho.
— O gato comeu o filé — disse Barney.
— Comeu? Os convidados são chamados. Discutem o
caso. O filé desapareceu, todos os 2 kg 500 g, e lá está o
gato, parecendo bem alimentado e satisfeito da vida.
"Pesem o gato", diz alguém. O pessoal havia tomado umas e
outras. A idéia pareceu boa. Assim, levaram o gato para o
banheiro e pesaram-no na balança. A balança marcou
exatamente 2 kg 500 g. Todos vêem a marca na balança e
um convidado diz: "Muito bem, é isso aí. Aí está o filé." Estão
convencidos de que sabem o que aconteceu. Têm prova
empírica. Mas um deles tem uma dúvida e pergunta,
perplexo: "Mas onde está o gato?"
— Eu já ouvi essa piada — disse Barney. — Mas de
qualquer modo não vejo como se aplica ao caso.
— Essa piada contém a melhor destilação do problema da
ontologia jamais feita. Se você pensar nela o suficiente...
— Droga — disse ele zangado — , são 2 kg 500 g de gato.
E um absurdo... Não há filé se a balança mostra 2 kg 500 g.
— Lembre-se do vinho e da hóstia — sugeriu
tranqüilamente Anne.
Ele olhou-a fixamente. A idéia, por um momento, pareceu
transparecer.
— Sim — concordou ela. — O gato não era o bife. Mas... o
gato poderia ser uma manifestação que o bife estava
assumindo naquele momento. A palavra-chave parece ser é.
Não nos diga, Barney, que o que quer que entrou em Palmer
Eldritch é Deus, porque você não conhece tanto assim sobre
Ele. Ninguém pode conhecer. Mas aquela entidade viva,
procedente do espaço intersistemas pode, como nós, ser
feito à Sua imagem. Uma maneira que Ele escolheu para
mostrar-se a nós. Se o mapa não é o território, o vaso não é
o oleiro. De modo que, Barney, não se expresse em
ontologia, não diga é. — Sorriu-lhe, esperançosa, a fim de
ver se ele compreendia.
— Algum dia — retrucou ele — quem sabe, adoraremos
aquele monumento.
Não a façanha praticada por Leo Bulero, pensou,
admirável como foi — como será, para ser mais exato — ,
ela não será nosso objeto. Não, todos nós, como cultura,
faremos o que já estou tendendo a fazer: nós o revestiremos
fracamente, lamentavelmente, com nossa concepção de
poderes infinitos. E estaremos certos em um sentido porque
esses poderes estarão lá. Mas, como diz Anne, quanto à sua
natureza real...
— Estou vendo que você quer ficar sozinho com sua horta
— disse Anne. — Acho que vou voltar para meu alojamento.
Boa sorte. E, Barney... — Tomou-lhe a mão e segurou-a com
força, com emoção. — Nunca rasteje. Deus, ou qualquer que
seja o ser superior que encontremos... ele não quereria isso.
E mesmo que ele o fizesse, você não deve fazer o mesmo. —
Inclinou-se, beijou-o, e começou a afastar-se.
— Você acha que tenho razão? — gritou Barney às costas
da moça que se afastava. — Há algum proveito em tentar
começar uma horta aqui? Ou faremos também o que é o
habitual...
— Não me pergunte. Não sou autoridade.
— Você só se preocupa com sua salvação espiritual —
disse ele furioso.
— Eu nem mesmo me preocupo mais com isso — disse
Anne. — Estou terrivelmente, horrivelmente confusa e tudo
me perturba aqui. Escute. — Voltou para junto dele, com os
olhos sombrios e anuviados, e nenhuma luz neles. —
Quando você me agarrou para tomar aquela porção de
Mascar-Z, sabe o que foi que eu vi? Quero dizer, o que vi
concretamente, e não apenas acreditei ter visto.
— A mão artificial. E uma distorção na minha boca. E
meus olhos...
— Isso mesmo — respondeu ela, tensa. — Os olhos
mecânicos, em fresta. O que era que aquilo significava?
— Significava que você estava vendo a realidade
absoluta. A essência, além da mera aparência. — Na sua
terminologia, pensou, o que você viu é chamado de...
estigma.
Durante algum tempo, ela fitou-o.
— É assim que você realmente é? — perguntou e, em
seguida, recuou, com aversão manifesta no rosto. — Por que
você não é o que parece ser? Neste momento, não é aquilo.
Não entendo. — E acrescentou, trêmula: — Eu gostaria de
não ter contado aquela piada do gato.
— Eu vi a mesma coisa em você, querida — confessou
ele. — E naquele instante. Você lutou comigo com dedos que
não eram absolutamente esses com os quais você nasceu.
— E que tão facilmente poderiam voltar. A Presença habita
em nós, potencial, se não concretamente.
— E uma maldição? — perguntou ela. — Quero dizer,
temos a versão da maldição inicial de Deus. É tudo assim,
novamente?
— Você devia ser a pessoa a saber. Você se lembra do
que viu. Ao todo três estigmas — a mão artificial, morta, os
olhos Jensen, a boca radicalmente mudada.
Símbolos de que a coisa habita aqui, pensou. Em nosso
meio. Mas não solicitada. Não intencionalmente convocada.
E... nós não temos sacramentos mediadores com os quais
possamos nos proteger, não podemos compeli-la com
nossos rituais cuidadosos, consagrados pelo tempo,
inteligentes, penosamente elaborados, a confinar-se a
elementos específicos, como pão e água, ou pão e vinho. Ela
está em campo aberto, expandindo-se em todas as direções,
olha em nossos olhos e através de nossos olhos.
— É um preço — concluiu Anne. — que temos que pagar.
Por nosso desejo de passar pela experiência da droga com
aquela Mascar-Z. Como no caso da maçã, no começo. —
Falava num tom profundamente amargo.
— Isso mesmo — concordou ele — , mas acho que já o
paguei. Ou por um triz quase o paguei, pensou ele. Essa
coisa, que conhecemos apenas em sua forma terrena, queria
que eu a substituísse no momento de sua destruição. Em
vez de Deus morrer pelo homem, como aconteceu antes,
enfrentamos — por um momento — um poder superior — o
poder superior, pedindo-nos que perecêssemos por ele.
Será que isso o transforma no mal?, especulou. Acredito
realmente no argumento que expus a Norm Schein? Bem,
certamente o torna inferior ao que veio há 2.000 anos.
Parece ser nada mais ou nada menos do que o desejo, como
diz Anne, de um organismo criado do pó, de perpetuar-se.
Todos nós o sentimos, todos gostaríamos de ver um bode ou
um cordeiro cortado em pedaços e incinerado em nosso
lugar. A oblação tem que ser feita. E não queremos ser eles.
Na verdade, toda nossa vida é dedicada a esse princípio. E a
dele, também.
— Adeus — disse Anne. — Vou deixá-lo sozinho. Pode
sentar-se aí na cabine dessa escavadeira e escavar até
cansar. Talvez quando eu o vir novamente, haja um sistema
hidráulico completo instalado aqui. — Sorriu mais uma vez
para ele, por um instante e afastou-se na direção de seu
alojamento.
Depois de algum tempo, ele subiu os degraus para a
cabine da escavadeira que estivera usando e deu partida ao
mecanismo range-dor e saturado de areia. A máquina
gemeu em triste protesto. Mais feliz ficaria ela, pensou, em
permanecer adormecida. Isto, para a máquina, era a
convocação ensurdecedora da última trombeta, e a
escavadeira ainda não estava pronta.
Havia talvez aberto uma vala irregular de uns 800 m,
ainda destituída de água,quando descobriu que era seguido
por uma forma nativa de vida, alguma coisa marciana. Parou
imediatamente a escavadeira e olhou no fulgor do frio sol
marciano, procurando identificá-la.
A coisa parecia uma magra e faminta velha avó de quatro
patas e compreendeu que aquilo era provavelmente a
criatura assemelhada ao chacal contra a qual fora
repetidamente avisado. De qualquer modo, fosse o que
fosse, era óbvio que a criatura não se alimentava há dias.
Fitava-o, faminta, ao mesmo tempo mantendo distância...
mas, em seguida, projetados telepaticamente, os
pensamentos da coisa alcançaram-no. Então, tinha razão.
Era aquela coisa.
— Posso comê-lo? — perguntou a criatura. E arquejou,
com a boca avidamente aberta.
— Cristo, não — disse Barney.
Atabalhoado, procurou na cabine alguma coisa que
pudesse usar como arma. Suas mãos se fecharam em torno
de uma pesada chave-inglesa, que mostrou ao predador
marciano, deixando que falasse por ele. Havia uma grande
mensagem na chave e na maneira como a empunhava.
— Desça dessa engenhoca — pensou o predador
marciano, numa mistura de esperança e necessidade. — Não
posso pegá-lo aí em cima. — Este último devia ter sido,
claro, um pensamento privado, retido na câmara mental,
mas por algum motivo fora projetado também. Aquela
criatura não tinha finesse, — Vou esperar — resolveu ela. —
No fim, ele vai ter que descer.
Barney deu a volta na escavadeira e tomou a direção do
alojamento. Gemendo, a máquina partiu numa velocidade
terrivelmente baixa, fazendo um barulho enorme. Parecia
estar caindo aos pedaços a cada metro. Teve a intuição de
que a máquina não ia conseguir. Talvez a criatura esteja
certa, pensou. É possível que eu tenha que descer e
enfrentá-la.
Poupado, pensou amargamente, pela forma de vida
imensamente mais alta que entrou no corpo de Palmer
Eldritch e que apareceu em nosso sistema, vinda do espaço
sideral — para ser comido por essa besta nanica. O fim de
um longo vôo, pensou. A chegada final que mesmo cinco
minutos antes, não obstante meu talento de precognitivo,
não previ. Talvez eu não quisesse... como o doutor Smile, se
estivesse aqui, diria triunfalmente.
A escavadeira arquejou, corcoveou violentamente e em
seguida, contraindo-se dolorosamente, enrodilhou-se, sua
vida treme-luziu por um momento e ela parou, morreu.
Durante algum tempo, Barney ficou ali onde estava, em
silêncio. Diretamente à sua frente, o velho chacal marciano
comedor de carne observava-o, sem por um momento tirar
os olhos dele.
— Muito bem — disse Barney. — Lá vou eu. — Saltou da
cabine da escavadeira, esgrimindo a chave-inglesa.
A criatura correu para ele.
Quase em cima dele, a menos de 2 m de distância, ela
soltou um guincho súbito, mudou de direção e passou por
ele, sem tocá-lo. Ele girou sobre si mesmo e observou-a ir
embora. "Impuro", pensou a criatura. Parou a uma distância
segura e, medrosa, olhou-o, com a língua pendente.
— Você é uma coisa impura — informou-o desalentada a
criatura.
Impuro, pensou Barney. Como? Por quê?
— Você simplesmente é — respondeu o predador. — Olhe
para si mesmo. Não posso comê-lo. Ficaria doente. — Ficou
onde estava, babando de desapontamento e... aversão. Ele a
horripilara.
— Talvez todos nós sejamos impuros para você — disse
Barney. — Todos nós da Terra, estranhos neste mundo.
Desconhecidos.
— Apenas você — respondeu-lhe categoricamente a
coisa. — Olhe para ... ugh!... seu braço direito, sua mão. Há
alguma coisa insuportavelmente errada em você. Como é
que consegue viver consigo mesmo? Não pode purificar-se
de alguma maneira?
Barney não se importou em olhar para o braço e a mão.
Isso era desnecessário.
Calmamente, com toda dignidade que conseguiu reunir,
continuou a andar pela areia frouxa na direção do
alojamento.
Naquela noite, quando se preparava para ir dormir no
beliche apertado de seu compartimento, alguém bateu à
porta fechada
— Ei, Mayerson, abra.
Vestindo um roupão, ele abriu a porta.
— Aquela nave de distribuição voltou — disse Norm
Schein, agitado, segurando-o pela lapela do roupão. — Você
sabe, aquela do pessoal da Mascar-Z. Tem ainda algumas
peles? Se tem...
— Se quiserem falar comigo — respondeu Barney,
soltando-se, — eles terão que vir até aqui embaixo. Diga isso
a eles. — E fechou a porta.
Norm afastou-se, soltando palavrões em voz alta.
Barney sentou à mesa onde fazia as refeições, pegou na
gaveta um maço — o último — de cigarros da Terra —
acendeu um, e ficou fumando e pensando, ouvindo em cima
e em volta do compartimento os ruídos de passos
apressados dos companheiros de alojamento. Camundongos
grandalhões, pensou, que sentiram o cheiro da isca.
A porta do compartimento foi aberta. Não ergueu a vista.
Continuou a olhar para o tampo da mesa, o cinzeiro, os
fósforos, o maço de Camel.
— Senhor Mayerson.
— Eu sei o que você vai dizer — respondeu Barney.
Entrando no compartimento, Palmer Eldritch fechou a
porta, sentou-se em frente a Barney e disse:
— Correto, meu amigo. Deixei-o ir embora pouco antes da
coisa acontecer, antes de Leo atirar pela segunda vez. Foi
uma decisão maduramente pensada. E tive muito tempo
para pensar no assunto. Um pouco mais de três séculos. Não
vou lhe dizer por quê.
— Não quero saber por quê — retrucou Barney. Continuou
a olhar para a mesa.
— Você não consegue olhar para mim? — perguntou
Palmer Eldritch.
— Eu sou impuro — informou Barney.
— QUEM FOI QUE LHE DISSE ISSO?
— Um animal, lá fora no deserto. E nunca me vira antes.
Soube disto apenas aproximando-se de mim. — quando se
encontrava a uns 2 m de distância, pensou. O que é muito
longe.
— Hummmm. Talvez os motivos do animal...
— Ele não tinha motivo algum. Na verdade, foi
justamente o oposto... estava semimorto de fome e ansioso
para me comer. De modo que o que ele disse deve ser
verdade.
— Para a mente primitiva — ponderou Eldritch — o
impuro e o sagrado se confundem um com o outro. Fundem-
se meramente como tabu. O ritual para eles, o...
— Ah, diabo — disse Barney amargamente. — É verdade
e você sabe disso. Estou vivo, não vou morrer naquela nave,
mas fui profanado.
— Por mim?
— Dê seu próprio palpite.
Após uma pausa, Eldritch encolheu os ombros e disse:
— Muito bem. Fui expulso de um sistema solar — não vou
identificá-lo porque para você isso não importaria — e me
instalei ali onde aquele aventureiro louco, sedento de
riquezas, de seu sistema, me encontrou. E parte daquilo
passou para você. Mas não muito. Gradualmente, com o
passar dos anos, você irá se recuperar. Diminuirá até
desaparecer. Seus companheiros colonos não notarão
porque a coisa tocou-os, também. Começou logo que eles
participaram da mastigação do produto que lhe vendemos.
— Eu gostaria de saber — disse Barney — o que você
estava tentando fazer quando ofereceu o Mascar-Z à nossa
gente.
T Perpetuar-me — respondeu tranqüilamente a criatura à
sua frente.
Barney ergueu a vista nesse momento.
— Uma forma de reprodução?
— Sim, da única maneira que posso. Sentindo uma
tremenda aversão, Barney disse:
— Meu Deus, nós todos nos tornamos seus filhos.
— Não se aborreça com isso agora, senhor Mayerson —
disse a coisa, e riu de uma maneira alegre, parecendo
humana — Simplesmente, cuide de sua horta lá em cima,
instale seu sistema de irrigação. Para ser franco, eu anseio
pela morte. Vou ficar contente quando Leo Bulero fizer
aquilo em que já está pensando... Ele começou a planejar
minha morte, agora que você se recusou a tomar a toxina
que altera o metabolismo cerebral. De qualquer modo,
desejo-lhe sorte aqui em Marte. Eu mesmo teria apreciado
este planeta, mas as coisas não deram certo, e é assim. —
Eldritch levantou-se em seguida.
— Você podia reverter — lembrou Barney. — Reassumir a
forma que tinha quando Palmer encontrou-o. Você não tem
que estar lá, residindo nesse corpo, quando Leo atirar em
sua nave.
— Podia? — O tom era zombeteiro. — Talvez alguma
coisa pior esteja à minha espera, se eu deixar de aparecer
por lá. Mas você não compreenderia isso. Você é uma
entidade com um período de
vida relativamente curto, e num período curto de muito
menos...—
Parou, pensando.
— Não me diga — pediu Barney. — Não quero saber.
Quando ergueu a vista em seguida, Palmer Eldritch havia
desaparecido.
Acendeu outro cigarro. Que confusão, pensou. E assim
que agimos quando finalmente entramos em contato, depois
de tanto tempo, com outra raça sensitiva na galáxia. E como
ela se comporta perversamente como nós e, em alguns
aspectos, muito pior do que nós. E não há como reparar a
situação. Não há, no momento.
E Leo pensou que enfrentando Eldritch com aquele tubo
de toxina nós tínhamos uma oportunidade. Irônico.
E aqui estou eu, sem ter sequer consumado o ato vil que
seria apreciado pelos tribunais, mas física e basicamente
impuro.
Talvez Anne possa fazer alguma coisa por mim, pensou
de repente. Talvez haja métodos para restaurar a pessoa em
sua condição inicial — vagamente lembrada, tal como era —
antes que começasse a contaminação posterior e mais
aguda. Tentou lembrar-se, mas era tão pouco o que sabia a
respeito do Novo Cristianismo. De qualquer modo, valia a
pena tentar, a doutrina sugeria que talvez pudesse haver
esperança e ia precisar disso nos anos à frente.
Afinal de contas, a criatura residente no espaço sideral
que assumira a forma de Palmer Eldritch tinha alguma
relação com Deus. Se não era Deus, como ele mesmo
pensara, pelo menos era uma parte da criação de Deus. De
modo que parte da responsabilidade cabia a Ele. Achou que
Ele era suficientemente maduro para compreender isso.
Mas conseguir que Ele reconhecesse isso poderia ser
coisa muito diferente.
Não obstante, ainda valia a pena conversar com Anne
Hawthorne. Ela poderia conhecer técnicas para conseguir
até isso.
Mas, por algum motivo, duvidava. Porque tinha uma
apavorante introvisão, simples, fácil de pensar e de dizer,
que talvez se aplicasse a eles e àqueles em volta, a esta
situação.
Havia salvação. Mas...
Não para todos.

VOLTANDO à Terra da fracassada missão a Marte, Leo Bulero


passou em revista interminavelmente a situação e
conferenciou com seu colega, Félix Blau. Nesse momento,
era óbvio para ambos o que tinham que fazer.
— Ele passa o tempo todo viajando entre um satélite-sede
em volta de Vênus e os outros planetas, além de sua
propriedade em Lu na — observou Félix, sumariando a
situação. — E todos sabemos como é vulnerável uma nave
no espaço. Mesmo um pequeno orifício pode... — E fez um
gesto muito expressivo.
— Nós precisaríamos da cooperação da ONU — observou
sombrio Leo. Isto porque tudo o que ele e sua organização
tinham permissão de usar eram armas portáteis, nada que
pudesse ser usado por uma nave contra outra.
— Eu tenho o que podem ser dados interessantes a esse
respeito — disse Félix, mexendo em sua pasta de
documentos. — Nossa gente na ONU chega até o gabinete
de Hepburn-Gilbert, como você talvez saiba, ou não. Não
podemos obrigá-lo a fazer alguma coisa, mas podemos pelo
menos discuti-la. — Mostrou um documento. — Nosso
Secretário-Geral está preocupado com o aparecimento
invariável de Palmer Eldritch em todas as chamadas
"reencarnações" que os usuários do Mascar-Z
experimentam. Ele é bastante esperto para interpretar
corretamente o que isso implica. De modo que, se isso
continuar a acontecer, poderemos indubitavelmente obter
mais cooperação dele, pelo menos numa base sub rosa. Por
exemplo...
Leo interrompeu-o:
— Félix, quero lhe perguntar uma coisa. Há quanto tempo
você tem um braço artificial?
Olhando para baixo, Félix grunhiu de surpresa. Virando-se
para Leo Bulero em seguida, disse:
— E você também tem. E há alguma coisa diferente em
seus dentes. Abra a boca para eu ver.
Sem responder, Leo levantou-se e foi até o sanitário de
homens da nave a fim de mirar-se no espelho.
Não havia dúvida. Até os olhos, também. Resignado,
voltou ao seu lugar ao lado de Félix. Nenhum dos dois
pronunciou palavra durante algum tempo. Félix folheava
mecanicamente os documentos... Oh, Deus, pensou Leo,
literalmente de forma mecânica! Leo alternava entre
observá-lo e olhar embotadamente pela vigia para a
escuridão e as estrelas do espaço interplanetário.
— E mais ou menos como derrubar a gente desde logo,
não?
— E isso mesmo — concordou asperamente Leo. — Quero
dizer, ei, Félix... o que é que nós vamos fazer?
— Nós aceitamos a situação — respondeu Félix.
Ele estava olhando fixamente pelo corredor para as
pessoas que ocupavam as demais poltronas. Leo olhou e
também viu. A mesma deformidade da boca, a mesma mão
direita brilhante, descarnada, uma segurando um jornal
domiciliar, outra um livro, a terceira tam-borilando
incessantemente. E assim interminavelmente até o fim da
coxia e o começo da cabine do piloto. Ali também,
compreendeu. A coisa está em todos nós.
— Mas eu simplesmente não entendo bem o que isso
significa — queixou-se impotente Leo. — Nós estamos...?
Você sabe. Trasladados por aquela droga imunda e isto é...
— Fez um gesto vago. — Estamos os dois loucos, é isso?
Félix Blau perguntou:
— Você tomou Mascar-Z?
— Não. Não desde aquela injeção intravenosa em Luna.
— Nem eu — garantiu Félix. — Nunca. De modo que a
coisa se espalhou. Sem emprego da droga. Ele está em toda
parte, ou melhor, a coisa está em toda parte. Mas isto é
bom. Este fato indubitavelmente levará Hepburn-Gilbert a
reconsiderar a posição da ONU. Ele terá que enfrentar
exatamente o que isto implica. Acho que Palmer Eldritch
cometeu um erro: ele foi longe demais.
— Talvez ele não pudesse evitar isso — disse Leo.
Talvez o maldito organismo fosse como um protoplasma:
tinha que ingerir e crescer... instintivamente espalhava-se
cada vez mais. Até que destruísse sua fonte, pensou Leo. E
nós somos as pessoas que temos que fazer isso porque eu
sou, pessoalmente, Homo sapiens evolvens, sou o ser
humano do futuro, sentado aqui neste lugar. Se
conseguirmos obter a ajuda da ONU.
Eu sou o Protetor de nossa raça, disse a si mesmo.
A si mesmo perguntou-se se essa praga já chegara à
Terra. Uma civilização de Palmer Eldritches, grisalhos,
encovados, encurvados e imensamente altos, todos com um
braço artificial, dentes esquisitos e olhos mecânicos, em
fresta. Não seria agradável. Ele, o Protetor, encolheu-se todo
contemplando essa visão. E suponhamos que a coisa
alcance nossa mente?, pensou. Não apenas a anatomia da
coisa, mas a mentalidade também... o que aconteceria com
nossos planos para matar a coisa?
Ei, aposto que isto ainda não é real, disse Leo a si
mesmo. Sei que estou certo e que Félix não está. Estou
ainda sob a influência daquela única dose. Nunca escapei da
influência dela... esse é que é o caso. Pensando nisso, sentiu
alívio, porque havia ainda uma Terra real, intocada. Só ele
mesmo é que fora afetado. Não importava o quanto
pareciam autênticos Félix a seu lado, a nave, a recordação
de sua visita a Marte para falar com Barney Mayerson.
— Ei, Félix — disse, cutucando-o. — Você é uma criação
de imaginação. Entendeu? Este é um mundo privado meu.
Não posso provar isso, naturalmente, mas...
— Sinto — respondeu laconicamente Félix. — Você está
enganado.
— Ora vamos! Eventualmente, vou acordar ou o que quer
que seja que a pessoa faz finalmente quando aquela droga
miserável deixa nosso sistema. Vou continuar a beber muito
líquido, sabia? Para descarregar isso de minhas veias. — Fez
um gesto. — Aeromoça. — Acenou para ela pedindo
urgência. — Traga nossos drinques, agora. Bourbon e água
para mim. — Olhou interrogativo para Félix.
— O mesmo — murmurou Félix. — Exceto que quero um
pouco de gelo. Mas não muito, porque, quando o gelo
derrete, o drinque não fica bom.
A aeromoça logo depois aproximou-se, apresentando a
bandeja.
— O seu é com gelo, não? — perguntou a Félix.
Ela era loura e bonita, olhos verdes com a textura de
pedras bem lapidadas. Quando ela se curvou para a frente,
seus seios expressivos, esféricos, ficaram parcialmente
expostos. Leo notou, e gostou. Contudo, a distorção da boca
arruinou a impressão total e ele se sentiu decepcionado,
ludibriado. E naquele momento, observou, os lindos olhos de
longos cílios haviam desaparecido. Substituídos. Desviou a
vista, desapontado e deprimido, até que ela se afastou. Ia
ser mais difícil que tudo, compreendeu, olhar para mulheres.
Ele, por exemplo, não esperava com prazer algum a primeira
vista de Roni Fugate.
— Você viu? — perguntou Félix, tomando o drinque.
— Vi, e isso prova com que rapidez temos que agir —
retrucou Leo. — Logo que pousarmos em Nova Iorque,
vamos procurar aquele matreiro, ordinário, debilóide
Hepburn-Gilbert.
— Para quê? — perguntou Félix.
Leo fitou-o e depois apontou para os dedos brilhantes,
artificiais, de Félix, em volta do copo.
— Eu gosto bastante deles agora — disse pensativo Félix.
Foi isso o que pensei, disse Leo a si mesmo. Isso é
exatamente o que eu estava esperando. Mas confio ainda
que posso destruir a coisa, se não nesta semana, então na
próxima. Se não neste mês, em alguma outra ocasião. Eu
sei. Eu me conheço agora e sei o que posso fazer. Tudo
depende de mim. E tudo bem. Vi o suficiente no futuro para
jamais desistir, mesmo que eu seja o único que não
sucumba, que mantenha vivo ainda o velho estilo de vida, o
estilo de vida anterior a Palmer Eldritch. Isso nada mais é do
que fé nos poderes implantados em mim desde o começo
para que eu possa — no fim — enfrentá-lo e com eles
derrotá-lo. De modo que, em certo sentido, não sou eu, mas
alguma coisa em mim que aquela coisa Palmer Eldritch não
pôde alcançar nem consumir, uma vez que não sou eu, não
é minha para perder. Sinto-a crescer. Suportando as
alterações externas, não essenciais, o braço, os olhos, os
dentes — não é tocada por nenhum desses três, o mal, a
tríade negativa da alienação, a realidade borrada e o
desespero que Eldritch trouxe consigo de Próxima. Ou
melhor, do espaço intermediário.
Nós vivemos há milhares de anos sob uma velha praga
que está parcialmente superada, que destruiu nossa
santidade e foi lançada por uma fonte mais alta do que
Eldritch. E se ela não pôde obliterar completamente nosso
espírito, como poderá esta? Irá ela talvez acabar o trabalho?
Se a coisa pensa assim — se Palmer Eldritch acredita que foi
para isso que chegou aqui — está enganada, porque aquele
poder em mim que foi implantado sem meu conhecimento —
ele não foi nem tocado pela antiga praga inicial. O que é que
vocês acham disso?
Minha mente evoluída me diz todas essas coisas, pensou.
Aquelas sessões de Terapia E não foram em vão... Num
sentido, posso não ter vivido tanto quanto Eldritch, mas
noutro vivi. Vivi cem mil anos, o de minha evolução
acelerada, e com ela tornei-me muito sábio. Valeu a pena o
dinheiro que gastei. Coisa alguma poderia ser mais clara
para mim agora. E lá nas estações de veraneio da Antártida
eu me reunirei a outros como eu, formaremos uma guilda de
Protetores. Salvando o resto.
— Ei, Blau — disse, cutucando com o cotovelo não-
artificial a semicoisa a seu lado. — Eu sou seu descendente.
Eldritch apareceu vindo de outro espaço, mas eu vim de
outro tempo. Entendeu?
— Hummmm — murmurou Félix Blau.
— Olhe para meu domo craniano duplo, para minha larga
testa, sou um cabeça-de-bolha, certo? E esta casca. Ela não
fica apenas por cima, cobre tudo. De modo que, no meu
caso, a terapia realmente deu certo. Sendo assim, não
desista ainda. Acredite em mim.
— Tudo bem, Leo.
— Fique por aí durante algum tempo. Vai haver ação.
Posso olhar para você através de um par de olhos artificiais
Jensen feitos de luxvid, mas ainda sou eu quem estou aqui
dentro, certo?
— Certo — concordou Félix Blau. — Tudo o que você
quiser, Leo.
— Leo? Por que é que você continua a me chamar de
"Leo"? Espigando-se todo na cadeira, apoiando-se com
ambas as mãos,
Félix Blau fitou-o, implorante.
— Pense, Leo. Pelo amor de Deus, pense.
— Oh, sim. — Sério, inclinou a cabeça. Sentiu-se
repreendido. — Desculpe. Foi apenas um lapso temporário.
Sei o que é que você está querendo dizer. Sei do que tem
medo. Mas aquilo não significou .coisa alguma. — E
acrescentou: — Vou continuar a pensar, como você disse.
Não me esquecerei novamente. — Inclinou solene a cabeça,
prometendo.
A nave continuava em alta velocidade, aproximando-se
cada vez mais da Terra.

FIM

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