Vous êtes sur la page 1sur 1086

ISSN:

VI ENCONTRO NACIONAL DO GRUPO DE ESTUDOS DE LINGUAGEM DO CENTRO- OESTE (GELCO)

IV COLÓQUIO REGIONAL NO BRASIL DA ASSOCIAÇÃO LATINOAMERICANA DE ESTUDOS DO DISCURSO (ALED)

ESTUDOS DE LINGUAGEM:

PESQUISA, ENSINO E CONHECIMENTO

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Campo Grande (MS) 23 a 26 de Outubro de 2012

Realização:

ISSN: VI ENCONTRO NACIONAL DO GRUPO DE ESTUDOS DE LINGUAGEM DO CENTRO- OESTE (GELCO) IV COLÓQUIO

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

ANAIS - 2013

ISSN: 2176-1256

ANAIS

Junho 2013 Apoio:

ANAIS - 2013 ISSN: 2176-1256 ANAIS Junho – 2013 Apoio: 3

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL Cidade

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL

Cidade Universitária n CEP: 79070-900 MS

Reitora: Profª. Drª. Célia Maria Silva Correa Oliveira Vice-reitor: Prof. Dr. João Ricardo Figueiras Tognini

Pró-reitores:

PRAD Me. Claodinardo Fragoso da Silva PREAE Prof. Dr. Valdir Souza Ferreira PREG Prof. Dr. Henrique Mongelli PROPLAN Profª. Drª. Marize Lopes Pereira Peres PROPP Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira PROINFRA Prof. Dr. Julio Cesar Gonçalves PROGEP Prof. Dr. Robert Schiaveto de Souza

CCHS Centro de Ciências Humanas e Sociais Diretora Profª Drª. Élcia Esnarriaga de Arruda

PPGMEL Programa de Pós-Graduação Mestrado em Estudos de Linguagens. Coordenador Prof. Dr. Geraldo Vicente Martins

ANAIS - 2013

VI ENCONTRO NACIONAL DO GRUPO DE ESTUDOS DE LINGUAGEM DO CENTRO-OESTE (GELCO)

IV COLÓQUIO REGIONAL NO BRASIL DA ASSOCIAÇÃO LATINOAMERICANA DE ESTUDOS DO DISCURSO (ALED)

ESTUDOS DE LINGUAGEM:

PESQUISA, ENSINO E CONHECIMENTO

ANAIS

Junho 2013.

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

ANAIS DO IV ENCONTRO NACIONAL DO GELCO E IV COLÓQUIO REGIONAL DA ALED

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento ISSN: 2176-1256

GELCO (BIÊNIO 2010 2012) Presidente:

Prof. Dr. Geraldo Vicente Martins (UFMS/CCHS)

Vice-presidente:

Profª. Drª. Solange Maria de Barros (UNEMAT)

Secretária (titular):

Profª. Drª. Vânia Maria Lescano Guerra (UFMS/CPTL)

Secretária (suplente):

Profª. Drª. Claudete Cameschi de Souza (UFMS/CPAQ)

Tesoureiro (titular):

Prof. Dr. Wagner Corsino Enedino (UFMS/CPTL)

Tesoureira (suplente):

Profª. Drª. Celina Aparecida Garcia de Souza Nascimento (UFMS/CPTL)

Conselheiros:

Profª. Drª. Maria Luceli Faria Batistote (UFMS/CCHS) Profª Ms. Ana Carolina Nunes da Cunha Vilela-Ardenghi (UFMS/CCHS) Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira (UFMS/PROPP)

ALED (BIÊNIO 2011 2013)

Presidente

Neyla Graciela Pardo

Vice-presidente

Denize Elena Garcia da Silva

Secretário

Teresa Oteiza

CFO Maria Cristina Azqueta

Delegado regional no Brasil

Wander Emediato

Realização:

ANAIS - 2013

GELCO Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste ALED Associação Latinoamericana de Estudos do Discurso

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Apresentação

De 23 a 26 de outubro de 2012, no Câmpus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande (MS), realizou-se o VI Encontro Nacional do Grupo de Estudos de Linguagem da Região Centro-Oeste GELCO, cuja organização orbitou em torno dos seguintes objetivos:

incentivar o estudo, o ensino e a pesquisa no âmbito das áreas de Linguística, Literatura e Línguas, na região Centro-Oeste; promover a divulgação e o intercâmbio de trabalhos científicos produzidos nas áreas de Linguística e Literatura, realizados por estudiosos integrados à região Centro-Oeste; promover o intercâmbio entre os trabalhos locais e aqueles realizados por pesquisadores advindos de outras regiões do país; e realizar atividades que permitam a professores e pesquisadores o contato com desdobramentos teóricos recentes nas áreas de Linguística e Literatura.

Nesse sentido, o evento cumpriu com aquilo a que se propusera, posto que registrou a participação de pesquisadores advindos de instituições de todos os estados da Região Centro- Oeste (UFMS, UFGD, UEMS, IFMS, UnB, UFG, UFMT, UNEMAT, UCDB), bem como de unidades federativas do Nordeste (UECE, UEMA, UFRPE), do Norte (UNIR, UFT), do Sudeste (USP, UFSCAR, UNESP, UNICAMP, UNISO, UNICSUL,UNIP, UNITAU, UNIBERO, UFMG, UFU, PUC, FMU, FACCAMP) e do Sul (UEL, UEM, UEPG, UNESPR, UFSC, UNIPAMPA, UFFS), o que permitiu, de fato, a discussão de questões atinentes às diversas áreas dos estudos de linguagens, além de justificar o caráter nacional do Encontro, o qual contou, ainda, com a presença de membros da Associação Latinoamericana dos Estudos do Discurso - ALED, entidade que se vinculou ao GELCO para, na oportunidade, realizar o seu IV Colóquio Regional.

ANAIS - 2013

Durante os quatro dias de sua realização, o Encontro registrou a realização de duas conferências, sete mesas- redondas, 11 minicursos, 35 Grupos Temáticos, que abrigaram cerca de 250 comunicações individuais, e mais de 60 painéis expostos. Tendo em vista tal panorama quantitativo de grande relevância, é preciso considerar que as discussões empreendidas em cada um desses espaços contemplaram pontos atuais das pesquisas que são feitas no país sob as diversas perspectivas que se apresentam para os estudos linguísticos e literários.

Com base na amplitude dos temas trazidos à baila ao longo do evento, bem como na importância das discussões efetuadas nas atividades várias que ele abrigou, a comissão organizadora sabe que colocar tais conhecimentos à disposição de um número muito maior de interessados é um dever a que não pode se furtar, razão pela qual apresenta esta publicação dos Anais do VI Encontro Nacional do GELCO, cujos textos oferecem uma visão de conjunto das discussões que se realizaram durante o evento.

Que a leitura seja produtiva para tantos quantos tiverem acesso a este material, suscitando reflexões e debates em um campo sempre tão fecundo e motivador como é o da seara linguageira, é o desejo maior dos envolvidos nesta tarefa. E que venham novos encontros do GELCO ...

A Comissão Organizadora

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Sumário

Programação

geral

14

Trabalhos

20

21

A construção do lugar em que se vive: análise semiótica de dois

textos poéticos infantis

 

43

A deficiência na infância: a formação dos discursos e formas de

controle

 

63

A linguística aplicada ao teatro no ensino de inglês: do fragmento à

uma hiper-realidade

 

100

 

118

144

 

í

f

”, “

gã”

g

A mais bela história

de Adeodata , de Rosane Almeida

167

A voz oficial no caderno especial - festival de inverno de Bonito do

j

“O E

M ”

199

Análise crítica do discurso: expressões multimodais e contextos 226

 

á

cu

c

b

u

j

í

c

: O “c

u

y”

Mato Grosso do Sul

 

254

As condições de produção do discurso do professor de Língua

P

ugu

f

g

c

f

u

“g

á

c

gu

268

As crônicas de Alice Vaz de Melo: o olhar individual de uma

 

memória coletiva

 

291

Aspectos sociolinguísticos das vogais médias no português falado

numa escola de fronteira Brasil-Paraguai

 

311

ANAIS - 2013

Breve história da EJA: uma abordagem sociolinguística

337

Brô MC´s: reflexos da identidade indígena na música

358

Clarice em cena: silêncio, traição e morte em A pecadora queimada

e os anjos harmoniosos

379

404

Contribuições iniciais para elaborar o Atlas Toponímico Mato- grossense

419

Da palavra à imagem: uma discussão sobre a categoria temporal na

adaptação de O tempo e o vento

441

Dialogismo em foco: reflexões sobre o material didático produzido

para Educação a Distância

467

493

Educação e inserção profissional de jovens e adultos com

deficiência: os discursos entre escola e trabalho

520

Ensino de língua materna e a heterogeneidade da/na linguagem . 543

Entre a análise de discurso e a análise das relações de poder

563

....... Gêneros digitais no ensino de linguagens: a interdiscursividade nas

charges digitais de Maurício Ricardo e nas notícias políticas do

blog Radar on-line

585

618

Manoel de Barros, o criançamento e a desconstrução: considerações

polifônicas

640

Mediadores de leitura: um estudo do acervo PNBE 2011

670

690

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Mulheres executivas: depoimentos como efeito de realidade na reportagem ....................................................................................

705

Nova York de Will Eisner: a cidade contada em fragmentos

728

750

O escândalo como construção do fato noticioso em jornais paulistanos

776

808

O lugar da expressão subjetiva na poesia de Eduardo Martins

825

O melodrama no picadeiro da dramaturgia pliniana

846

O português falado na zona rural de MS aspectos crioulizantes da

língua afro- brasileira.

870

O referencial foucaultiano na pesquisa: análise das dissertações e

teses produzidas no PPGEDU/UFMS

895

O subalterno mostra a cara

924

Produção Discursiva e Regimes de Verdades: proposições de

professores sobre a escolarização em Unidades Prisionais

944

Romero Britto, consumo e mercado: uma reflexão a partir das

teorias culturais contemporâneas

963

Semiótica, leitura e temática indígena: uma proposta para a

aplicação em sala de aula

980

Subalternas crônicas

clariceanas

1002

Tango do bidê Análise semiótica do humor e da crítica à violência doméstica e ao machismo na canção paulistana da década de 1980

....................................................................................................

1020

ANAIS - 2013

Tematização e figurativização e suas correlações com o plano de

expressão em A invenção de Hugo Cabret 3D

 

1043

T

uçã

P

fác

E

çã

gu

I

g

As Palavras

e as Coisas

M ch

F

uc

u

1061

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Programação geral

ANAIS - 2013

TERÇA-FEIRA 23 DE OUTUBRO DE 2012 LOCAL: Auditório da Faculdade Estácio de Sá

19:00h

CERIMÔNIA DE ABERTURA

Prof. Dr. Geraldo Vicente Martins

Presidente do GELCO

Prof.ª Dr.ª Denize Elena Garcia da Silva

Vice-Presidente da ALED

Prof.ª Dr.ª Célia Maria Correa de Oliveira

Reitora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Prof. Dr. Dercir Pedro de Oliveira

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade

Federal de Mato Grosso do Sul

Prof.ª Dr.ª Élcia Esnarriaga de Arruda

Diretora do Centro de Ciências Humanas e Sociais da

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Prof.ª Me. Dagmar Tavares Viana de Queiroz

Diretora Geral da Faculdade Estácio de Sá

19:30h

ATIVIDADE CULTURAL

Apresentação do Grupo Vocal Maria Bonita

20:00h

CONFERÊNCIA DE ABERTURA (LITERATURA)

Prof.ª Dr.ª Maria de Lourdes Ortiz Gandini Baldan (UNESP-Ar)

A quem interessa a polêmica entre as teorias e a literatura?

21:30h

COQUETEL

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

QUARTA-FEIRA 24 DE OUTUBRO DE 2012 LOCAL: Centro de Ciências Humanas e Sociais CCHS Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS

7:30h Entrega de Material e Últimas Inscrições 8:00h 11:00h Minicursos 13:30h 15:30h Sessões dos Grupos Temáticos 16:00h 17:30h Mesas-redondas 18:00h Sessão de Lançamento de Livros

QUINTA FEIRA 25 DE OUTUBRO DE 2012 LOCAL: Centro de Ciências Humanas e Sociais CCHS Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS

8:00h 11:00h Minicursos 13:30h 15:30h Sessões dos Grupos Temáticos 16:00h 17:30h Mesas-redondas 18:00h Assembleia Geral do GELCO (Eleição de Nova Diretoria)

SEXTA-FEIRA 26 DE OUTUBRO DE 2012 LOCAL: Centro de Ciências Humanas e Sociais CCHS Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS

9:00h 11:00 Exposição de Painéis 11:10h 11:40h Espaço ALED 13:30h 15h30h Sessões dos Grupos Temáticos 16:00h 17h30 Conferência de Encerramento (Linguística):

Prof.ª Dr.ª Maria José Coracini (UNICAMP)

Subjetividade e leitura: (in)scrição de si e do outro

ANAIS - 2013

MINICURSOS (24 e 25 de outubro)

  • 1. Transposição didática de gêneros: do objeto às dimensões

ensináveis - Prof. Dr. Adair Vieira Gonçalves (UFGD)

  • 2. Michel Foucault e o processo de subjetivação - Prof. Dr.

Conrado Neves Sathler (UFGD)

  • 3. Semiótica tensiva: princípios básicos - Prof. Dr. Ivã Carlos

Lopes (USP)

  • 4. Discurso, mídia e política: problemáticas contemporâneas -

Prof. Dr. Roberto Leiser Baronas (UFSCAR)

  • 5. Transgredindo os gêneros do discurso em sala de aula:

leitura e produção Prof.ª Dr.ª Gláucia Muniz Proença Lara

(UFMG) e Prof.ª Dr.ª Aline Saddi Chaves (UEMS)

  • 6. Educação bilingue no contexto indígena - Profª. Dr.ª Daniele

Marcelle Granier (UnB) e Prof. Dr. Sinval Martins de Souza Filho(UFG)

  • 7. A sociolinguística e o ensino da língua materna - Prof. Dr.

José Leonildo Lima (UNEMAT)

8.

Retórica,

argumentação

Emediato (UFMG)

e

discurso

- Prof. Dr. Wander

  • 9. Lexicografia e ensino: aspectos teóricos e práticos - Prof.

Dr. Auri Claudionei Matos Frübel (UFMS) e Prof.ª Me. Isabel Cristina Ratund (UFMS)

10. Toponímia: tendências teórico-metodológicas Prof.ª Dr.ª

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Aparecida Negri Isquerdo (UFMS) e Prof.ª Dr.ª Ana Paula Tribesse Patrício Dargel (UEMS)

11. Poesia brasileira contemporânea I - Prof. Dr. Daniel Abrão (UEMS) e Poesia brasileira contemporânea II Prof.ª Dr.ª Elaine Cristina Cintra (UFU)

MESAS-REDONDAS (24 de outubro)

Questões de Análise do Discurso

Prof. Dr. Wander Emediato (UFMG) Prof. Dr. Roberto Leiser Baronas (UFSCAR) Prof.ª Dr.ª Maria Luceli Faria Batistote (UFMS)

Pesquisas geolinguísticas no Brasil Central

Prof.ª Dr.ª Vanderci de Andrade Aguilera (UEL) Prof. Dr. José Leonildo Lima (UNEMAT) Prof.ª Dr.ª Aparecida Negri Isquerdo (UFMS)

Literatura e teatro: diálogos constantes

Prof. Dr. Alexandre Flory (UEM) Prof. Dr. André Luís Gomes (UnB) Prof. Dr. Wagner Corsino (UFMS)

Literatura e política

Prof. Dr. Agnaldo Rodrigues da Silva (UNEMAT) Prof.ª Dr.ª Elaine Cristina Cintra (UFU) Prof. Dr. José Alonso Torres Freire (UFMS)

ANAIS - 2013

MESAS-REDONDAS (25 de outubro)

Colonialismo e pós-colonialismo em literaturas de língua portuguesa

Prof. Dr. José Antônio de Souza (UEMS) Prof.ª Dr.ª Susylene Dias de Araújo (UEMS) Prof.ª Dr.ª Rosana Cristina Zanelatto dos Santos (UFMS)

Funcionalismo e ensino: gramaticalização de marcas de subjetividade

Prof.ª Dr.ª Denize Elena Garcia da Silva (UnB) Prof.ª Dr.ª Vânia Casseb-Galvão (UFG) Prof.ª Dr.ª Rita de Cássia Ap. Pacheco Limberti (UFGD)

Pesquisas do centro-oeste sobre línguas indígenas

Prof. Dr. Dioney Moreira (UnB) Prof. Dr. Sinval Martins de Souza Filho (UFG) Prof.ª Dr.ª Onilda Sanches Nincao (UFMS)

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Trabalhos

ANAIS - 2013

A aldeia urbana marçal de souza: algumas reflexões subalternas

Alessandro Fagundes MATOS 1 Edgar Cézar NOLASCO 2

RESUMO: A subalternidade é um problema de representação que envolve a questão de quem tem o poder e quem não o tem. O não direito à fala, pois se fala já deixa de ser, é que caracteriza o indvíduo como subalterno. Percebemos aqui uma questão que há muito é discutida na academia. Com base nessas postulações já levantadas, nota-se que é preciso delimitar o locus, o lugar em que esse indivíduo se encontra para, aí sim, fazer uma reflexão sobre a questão social intitulada subalternidade. No Estado de Mato Grosso do Sul, precisamente em sua capital, Campo Grande, encontramos, e podemos pensar como o melhor exemplo de sujeito subalterno, o indígena, especificamente o que vive na aldeia urbana Marçal de Souza. Este trabalho visa refletir sobre algumas considerações dessa condição subalterna do indígena alocado em uma aldeia urbana. Tomaremos como base para nossa discussão os postulados dos estudos subalternos e pós-coloniais. PALAVRAS-CHAVE: Aldeia Urbana; Indígena; Subalternidade.

De tanto crescer pelo mundo afora, a cidade global adquire

características

de

muitos

lugares. As marcas de outros

povos,

diferentes culturas,

distintos modos de ser podem

  • 1 Alessandro Fagundes Matos é mestrando na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS - E-mail: afagundes_matos@hotmail.com

  • 2 Edgar Cézar Nolasco é Professor Doutor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS E-mail: ecnolasco@uol.com.br

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

no mesmo lugar, como síntese de

e

concentrar-se

conviver

todo o mundo. A cidade pode ser um caleidoscópio de

padrões

e

valores

culturais,

línguas e dialetos, religiões e seitas, modos de vestir e

alimentar, etnias e raças, problemas e dilemas, ideologias e utopias. Octávio Ianni, A era do globalismo, p. 58

Caleidoscópio. Na epígrafe apresentada a cidade é metaforizada como um conjunto de objetos, cores, formas, que produzem imagens em constante mutação. A imagem que antes tinha a cidade, de apenas ser um arranha-céu de cimento, com pessoas atravessando ruas frenéticas a todo momento, onde a vida realmente acontecia já não é suficiente. A cidade é muito mais que isso, ela sofreu e continuará sofrendo mutações. É uma mistura de culturas, religiões, fantasias, sonhos, etnias e infindáveis mesclas. Encontramos nesse lugar classificado como urbano: brancos, negros, pardos, indígenas, entre outros; todos vivendo no mesmo espaço, buscando o seu lugar, disseminando a sua cultura, tendo trocas - seja consciente ou não - em maior ou menor escala. Em meio a tantas trocas, quem hoje em dia se questiona como a mandioca foi parar em seu prato? De onde veio o estilo musical intitulado rap que está presente tanto na periferia quanto no centro, tratando de problemáticas que estão no seio de cada classe social? Muito difícil se perguntar sobre isso, mas a verdade é que a mandioca, o rap, e outras coisas mais, estão presentes na vida daqueles que nela vivem.

ANAIS - 2013

Já que a cidade é esse lugar em que várias etnias se encontram, talvez a imagem que ainda traga certo tipo de espanto seja a do indígena. Como assim? O indivíduo da floresta compartilhando o mesmo espaço com o não indígena e estabelecendo uma relação de troca por mais que essa seja de forma desproporcional, pois o indígena é quem mais se apropria de costumes de uma cultura que não é sua. Algo parece estar fora do lugar muitos pensam mas não, ele está na cidade e aqui procura o seu espaço.

Por que o seu espaço na cidade?

 

E

qu

qu

c

u

, “

g

órgãos específicos, regidos por um estatuto, esses sujeitos ainda

c

u

g

u qu áreas, enfadados em

lutas por terras, cheios de promessas, crimes não resolvidos ou que demoram anos para serem concluídos; exemplo pode ser o do líder indígena Marçal de Souza que foi assassinado na década de 80 e o caso só teve um desfecho quase dez anos depois. Essa mudança de lugar, das reservas para a cidade, é um meio, penso, de diminuir, ou tentar pelo menos, essas gritantes diferenças do indígena para com o branco. Por mais que o medo, por parte dos mais velhos, do deslocamento dos indígenas para a cidade acarrete em uma perda de terras ainda maior, os mais jovens continuam saindo do lugar de origem para tentarem a vida na urbe. Mas será que a simples atitude de se deslocar é suficiente para diminuir as diferenças e ter voz? Acredito que a resposta não é tão animadora.

 

O

sujeito

indígena,

não

respeitado

 

desde

o

c

b

B

,

ã

z,

ã

h

ó

o

pouco que sabemos é contado pelo branco. É subalterno, ou

seja, a sua enunciação

não é capaz

de abalar os discursos do

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

poder; se assim conseguisse, já não o seria. (BEVERLEY, 2004) Ser subalterno não é apenas ser classificado como tal, é não ter direito ao grito, não produzir práticas discursivas, não interagir discursivamente, condenado todos os dias pelo outro por antecipação, até mesmo a academia o condena - não de maneira literal (será?) - o condena quando não abre espaço para essa representação. (NOLASCO, 2010) Viver em uma constante desigualdade fez Marçal proferir, em 1950, num discurso, em um culto evangélico, palavras a respeito da esperança. Apesar do tempo transcorrido, suas letras continuam vivas. A fala foi comentada por Schaden.

assisti

a uma dessas reuniões dirigidas por

... Marçal de Souza, à qual compareceram

dezenas de índios, não só Nandeva e Kaiowá, como também alguns dos Terena

 

O

g

çã

ç

é

ç

,

para os índios não há mais o que esperar

neste mundo. Daqui a uns cinquenta anos estarão reduzidos a uns restos miseráveis. Esperança só no Além, onde se medirão a todos com igual medida, pobres e ricos, ignorantes e instruídos. (TETILA, 1994, 21)

Será que o subalterno, em especial o indígena, só será considerado e tratado nas mesmas proporções igualitárias quando chegar ao céu? Se o líder, quase que em palavras proféticas, mencionou que estariam reduzidos a restos miseráveis, o que se pensar para mais daqui cinquenta anos? Serão restos miseráveis na cidade ou em suas reservas? Se daqui a cinquenta anos a pergunta ainda estiver latente e for pertinente à discussão, quem sabe a resposta seja precisa. No atual

ANAIS - 2013

momento, e se persistir o modelo de sociedade acredito que não mude , a relação de subordinação e dominação continuará. O crítico subalternista latino-americano John Beverley defende que a lógica das lutas sociais se fundamenta na dominação de um que acarreta na subordinação do outro e é justamente por causa da caracterização e modelo de sociedade, relação dominante/subalterno, que as identidades subalternas são reforçadas. (NOLASCO, 2010) Enquanto o tempo não passa, me atentarei ao presente. O

indígena está na cidade. Se só em restos mortais eu não sei, mas está reduzido, e muito. Certa vez uma professora relatou a seguinte experiência: Uma criança a procura em pranto. Questionada sobre o que aconteceu, não conseguia falar. Depois de acalmada e já podendo expor o porquê daquele estado emocional abalado, disse que uma outra havia chamado ela de índio. O que espanta logo em seguida, é que a menina intitulada de índio pelo colega realmente pertencia a uma etnia indígena. Diante do acontecido, parece que ser índio para alguns tomou a forma de um problema, e já se nota um conflito de identidade; a

g

çã

u

ó

u

O

“x”

qu

ã

b

á

c

apresentada não é ser índio, a maior dificuldade que esses povos enfrentam, independente da etnia que pertence, é não ter representatividade, é viverem condenados ao silêncio, a uma

transculturação desnivelada que pende para uma desproporção avassaladora, de não ter espaço nem mesmo na cidade que é o lugar da diferença, do caleidoscópio de várias cores e formas. E

qu

f

z

qu

ç

qu

é

qu

c

h

e ao mesmo tempo o exclui? Antes de comentar sobre a aldeia urbana Marçal de Souza, locus da proposta reflexiva aqui apresentada sob a perspectiva da subalternidade, julgo interessante fazer, mesmo que de maneira breve, uma curta apresentação dos indígenas

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Terêna em solo brasileiro, embasada por Roberto Cardoso de Oliveira, em seu livro Do índio ao bugre: o processo de assimilação dos Terêna. Darei ênfase à etnia Terêna por ser a maioria residente da aldeia em questão. Informo que os estudos foram feitos na década de cinquenta, na região sul do então estado de Mato Grosso. A pesquisa, de caráter sociológica, realizada por Oliveira, menciona que a etnia Terêna é um subgrupo dos Guaná e que nos mea Aos poucos, em um processo lento, as ondas humanas, ou seja, a migração da sociedade nacional para os lugares em que estavam estabelecidas as aldeias, ou próximo delas, influenciou o engajamento dessas populações a uma relação frequente que permitirá trocas substanciais, propiciando, assim, uma reconfiguração, se é que assim se pode dizer, cultural. Mesmo os Terêna sendo, em todo decorrer de sua história, fechados, eram frequentemente procurados pelos fazendeiros por serem exímios vaqueiros e bons agricultores. Além de suas habilidades com o gado e a terra, eram acionados porque se contentavam com remunerações baixas para simplesmente se vestirem, se alimentarem e satisfazerem os seus vícios. (OLIVEIRA, 1976). Algo que merece ser ressaltado, e que pode fundamentar um dos principais motivos para sua locação na cidade, é que mesmo possuindo algumas terras, os ameríndios não conseguiam tirar dela o sustento necessário para suas famílias, precisando recorrer a serviços, mesmo que em caráter exploratório, para complementar a renda. Dá-se início a migração para espaços urbanos. O que começou com uniões interétnicas e intertribais, e que mais tarde acarretaria em um processo de destribalização de muitos indígenas, teve como consequência o desapego às tradições dos grupos étnicos envolvidos nesses matrimônios. No que tange à destribalização, o efeito foi a constante perda de

ANAIS - 2013

terras por parte dos indígenas. O prejuízo da perda de solo fomentou a proximidade com os fazendeiros, pois, os ameríndios, precisavam levantar o sustento para suas famílias deslocadas. Nessa situação, mesmo que algumas indígenas ainda possuíssem pequenos espaços para o plantio, o subsídio alimentar produzido não era suficiente, tendo que recorrer a serviços, muitas vezes, de regime exploratório, já que eram constantemente ludibriados por aqueles que os empregavam. Além desses fatores que contribuíram, mais tarde, para a mudança do campo para cidade, pode-se notar um processo de transculturação por causa do frequente contato com as agências de mudança cultural (Posto do Serviço de Proteção ao Índio localizado nas aldeias, escolas, igrejas católicas e protestantes), com os fazendeiros e a população urbana. Inicialmente, esses grupos destribalizados, ou até mesmo aqueles que mantinham uma proximidade com territórios urbanos, mudaram-se para as cidades de Miranda e Aquidauana. A atitude de ir para a urbe ganha força, e na década de 90 há a implantação da aldeia urbana Marçal de Souza no município de Campo Grande, já capital do Estado de Mato Grosso do Sul. No que concerne à aldeia Marçal de Souza, apresento que após travar lutas para não perder a terra, que fora doada a índios da etnia Terêna, é constituída a aldeia que abriga não somente a etnia supracitada, mas também de outras, assim, como ultimamente tem sido aceito em seu espaço pessoas que não pertencem à etnia alguma, por conta de uniões matrimoniais. A relação entre cidade, seja letrada ou não, com o sujeito subalterno vai trazer mudanças significativas nesse indivíduo deslocado. O contato constante com a cultura do branco ocasiona uma ressignificação de valores, adaptação ao sistema cultural diferenciado, algo já notado nas relações interetnicas e intertribais, tendo que recriar o seu modo de vida,

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

se apropriando do discurso alheio para sua sobrevivência. Para os mais velhos que pertencem a qualquer etnia indígena, tal proximidade apresenta um risco a sua cultura, já que os mais jovens estabelecem um contato mais aberto, não tão apegado a tradições de seu determinado grupo, pois elas não perduraram mais em sua memória. Mas qual o papel da memória? Qual a necessidade de preservá-la? A memória tem uma função fixa que a conecta à tradição, é ela que faz o sujeito saber, ou pelo menos tenta, a sua origem, o lugar de onde veio, a sua história, mesmo sendo ela excluída dos discursos hegemônicos, e no caso do subalterno, o seu percurso histórico contado pelo outro; quando narrado. (ACHUGAR, 2006) Paralelamente, o esquecimento que acomete os indígenas presentes na cidade também é necessário para a nova necessidade estrutural. Após a proximidade com a cultura alheia, e passar pelo processo de entrelaçamento, se apropriar das marcas que estão do outro lado, as fissuras criadas precisam superadas, e nesse momento ocorre o esquecimento. É preciso dizer que o caminho do esquecimento é lento, assim como o resgate da memória também o é, tendo muitas vezes resultados nas gerações vindouras que já crescem

c

c

“f

u

u

”,

g

u

novo momento de resgate memorial e esquecimento marcado

pelo seu tempo, sua história e realidade.

Oliveira associa a apropriação de novos valores culturais com o conceito de assimilação. O que para ele era o “processus” pelo qual um grupo étnico se incorpora noutro, perdendo sua peculiaridade cultural e sua identificação étnica

” (OLIVEIR

,

1976)

Ou

j

,

cu

u

çã

,

qu

á

ideia de apenas recebimento e incorporação de uma cultura alheia, não estabelecendo um processo de troca e adota um perfil colonizador. Para a reflexão aqui proposta, o termo que se orienta em uma via apenas não é suficiente, sendo necessário

ANAIS - 2013

recorrer a outro, cunhado inicialmente pelo cubano Fernando Ortiz, vocábulo este que pretende abarcar e significar o processo de movimento constante do encontro de povos e suas culturas, constituindo trocas, mesmo que não sejam niveladas. Segundo Ortiz, o termo que melhor expressa a mudança contínua é transculturação e não a aculturação. Transculturação designa

as fases do processo de transição de uma cultura a outra, já que este não consiste somente em adquirir uma cultura diferente, como sugere o sentido estreito do vocábulo anglo-saxão, aculturação, mais implica também necessariamente a perda ou desligamento de uma cultura precedente, o que poderia ser chamado de uma parcial desculturação, e, além disso, significa a consequente criação de novos fenômenos culturais que poderiam ser denominados

neoculturação. (

...

)

No conjunto, o processo

é uma transculturação e este vocábulo compreende todas as fases da trajetória. (ORTIZ, 1983, p.90)

Um exemplo de troca, recebimento de algo oriundo de outra cultura, pode ser vista na imagem a seguir, extraída de uma matéria feita na Aldeia Urbana Marçal de Souza, pois, nela nota-se o antes, o cocal, uma provável tentativa de resgatar a identidade indígena tão fragilizada, que ao mesmo instante estabelece um contato, e faz uso, de um equipamento tecnológico que é presente na cultura do outro, da sociedade que não compartilha na mesma proporção de seus costumes.dos do século XVIII os grupos Guaná (Chanás, Choarana e Quainoconas, os outros três subgrupos) passam para as margens orientais do Paraguai, estabelecendo ocupação no lugar que hoje

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

é conhecido como Triângulo Mineiro. O relato desse grupo em solo brasileiro já é marcado pelo conflito pelas terras. No tempo aqui mencionado, os bandeirantes, com sua ânsia por domínio e exploração, levaram as fronteiras do Brasil até a bacia do

P

gu

N

í

u

c

u

”,

j

espanhóis pela expansão do império, o indígena esteve sempre em meio ao fogo cruzado, sendo o mais prejudicado, envolvido ora por uns, ora por outros, brigando muitas vezes entre si; foi o mais espoliado de seus bens, terras e de sua gente. (OLIVEIRA,

1976)

A respeito dos Terêna, subgrupo que tinha por habilidade o plantio, tem-se muito pouco relato por conta do seu contato mínimo com o branco e até mesmo com as outras etnias indígenas. Oliveira comenta que

a bibliografia a seu respeito só começa com Castelnau, em 1844-45, portanto na metado do século passado. Encontramos ligeiras referências no século XVIII através de Sanches Lavrador, Azara e Aguirre, que não vão além de meras indicações sobre localização e estimativas censitárias. Já os séculos XVI e XVII nem sequer os mencionam. As Cartas Ânuas, por exemplo, tão férteis de informações sobre os muitos grupos chaquenhos, quase nada nos dizem sobre a situação dos Terênas no século XVII. E, sobre os Guaná, Schmidel e Cabeça de Vaca, de passagem pelo chaco paraguaio respectivamente em 1535-36 e 1543, limitam-se a umas poucas indicações, de menor importância, excetuando-se, naturalmente, a célebre proposição do primeiro, quando compara as relações

ANAIS - 2013

Guaná-Guaikurú com a subordinação existente, na época, entre senhores feudais e camponeses em sua pátria. (OLIVEIRA, 1976, p. 23)

Como consequência do distanciamento entre os indígenas da etnia Terêna com as outras, e até mesmo com a sociedade nacional, ela se torna uma nação que procura conservar sua integridade cultural e os costumes herdados de seus antepassados. No decorrer da obra, salta aos olhos o zelo empregado à manutenção de seus valores e práticas culturais que permeava a etnia, mesmo quando os outros subgrupos Guaná já estabeleciam um contato mais corrente com outras etnias e a sociedade; podemos destacar a proximidade com pesquisadores e fazendeiros da região. Fato que tomou força após a Guerra do Paraguai e como fruto das uniões interétnicas e intertribais.

ANAIS - 2013 Guaná-Guaikurú com a subordinação existente, na época, entre senhores feudais e camponeses em

Figura 1

Imagem extraída do vídeo http://www.youtube.com/watch?v=ryFw9MH3g2g

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

A necessidade de reforçar, ou trazer à memória suas origens quando o indígena está inserido e estabelecendo relações

c

cu

u

“c

z

çã

”,

c

u

g

f c

çã

cultural e a base de sua identidade é afetada. Em se tratando da

identidade desses grupos ameríndios, vê-se que ela se torna, como qualquer outra, uma celebração móvel, assumindo diferentes formas, sendo elas não definidas. (HALL, 1998). A mudança implica, às vezes, em uma identidade não resolvida, deixando-a com características que a conduzem ao declínio. Para melhor elucidar a questão levantada, apresento uma entrevista cedida pelo presidente do Conselho de Segurança Comunitário da Aldeia Marçal de Souza, Ênio de Oliveira, ao jornal Correio do Estado, extraído do canal Ponto de Cultura na rede de vídeos youtube. Nas palavras do entrevistado é percebido o declínio que essa ressignificação/adaptação traz ao sujeito indígena que está em constante contato com a cultura e os valores que fluem de maneira mais livre na cidade.

Nossa vontade é de trazer a comunidade para dentro do ponto de cultura para que não se perca a cultura, porque praticamente já está deixando de existir. A maioria da nossa comunidade não ousa mais falar a língua. Entende, mas tem vergonha talvez até de falar. Então a gente vai trabalhar a auto- estima da comunidade para buscar o que ele é, ele ser o que ele é. Porque existe uma frase que diz isso claramente: posso ser o que você é sem deixar o que eu sou. Você pode ser formado em doutor, médico, advogado, grandes profissões, mas você nunca deve deixar de ser índio. 3

3 http://www.youtube.com/watch?v=ryFw9MH3g2g

ANAIS - 2013

Buscar ser o que ele é. É perceptível a preocupação em dar continuidade às práticas culturais que envolvem o grupo indígena que está alocado em território urbano. Uma característica que marca a identidade do indivíduo que nasceu e cresceu em uma comunidade indígena é a língua. Noto que há uma desvalorização dela por parte do próprio, ele mesmo já não quer mais fazer uso daquilo que faz parte de sua peculiaridade, que caracteriza o seu grupo, que o torna diferente. A vergonha que ronda esse sujeito, como destacada pelo Sr. Ênio, o impossibilita de afirmar o que é, sua origem. Recai sobre seus ombros a imagem de um ser deslocado, o outro, um tipo de doença que corre em suas veias, que o torna tão diferente ao ponto de exclui-lo, de envergonhá-lo pelo que é e sempre será. Sim, sempre será, aceitando ou não. Ainda no ponto que tange à língua, à aprendizagem e o uso dela, em conversas com indígenas que estão na academia, que residem em lugares próximos à cidade, nota-se que o fator econômico pesa quando o assunto é discutido e exposto pelos anciões das aldeias e das famílias. Quando são questionados a respeito, ou até mesmo em situações do cotidiano, o discurso é que aprender a língua nativa, e não a portuguesa, é uma perda de tempo, pois ela não trará condições financeiras favoráveis para o consumo. Os que compartilham essas conversas, e que estão hoje em espaços acadêmicos, dizem que a mudança de mentalidade em relação a sua própria origem mudou após o ingresso em cursos de graduação, pois notou que sua cultura é rica e que sua diferença tem valor. Quando voltam para suas aldeias na condição de professores, encontram barreiras a serem transpostas. O desafio inicial, ou a primeira barreira, é o de resgatar nos mais jovens os valores esquecidos por conta do tempo e da transculturação desnivelada que o acomete. Não

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

obstante, além dos jovens estudantes das escolas situadas em reservas ou em aldeias urbanas, a própria família interpela, frequentemente, os docentes a respeito do ensino da língua nativa, que para explicarem sua prática docente, precisam recorrer à LDB para justificarem o porquê ensinar e a necessidade em aprender a língua. Nota-se que precisam se valer do discurso alheio, o do colonizador, para validarem a sua enunciação a partir do outro. A condição de inferior não provém de seu íntimo, não brotou, ela foi difundida, semeada por aquele que não faz parte de seu rol de valores e práticas culturais - o colonizador o mesmo que estrangulou a sua diferença. O fardo de ser considerado menor veio de fora e é tão forte que atinge de modo tão eficiente os povos primeiros dessa terra chamada América, que os impossibilita, no caso da aldeia urbana em questão, de falarem sua própria língua, de a praticarem. Em um espaço que comporta tantas diferenças, a cidade, a produção desse grupo subalterno parece ser apenas fumaça. (ACHUGAR, 2006). Por essa perspectiva, é algo equiparável à contaminação, que apenas faz mal à saúde daqueles que a inalam ou tem contato com ela talvez essa seja a concepção sobre si dos próprios indígenas que vivem com a vergonha de sua etnia, de suas raízes e de suas diferenças. A presença dele parece que causa um mal-estar, enfim, certo tipo de desconforto. Quem o vê, classifica-o com um olhar piramidal, situando-o abaixo da base das massas. A impressão que se tem, é que o sentimento da sociedade excludente se assemelha ao que era presente nos corações daqueles aqui habitavam quando tiveram o primeiro contato com colonizadores portugueses. A diferença é que, dificilmente, e atrevo-me a dizer impossível, o processo histórico acontecerá de maneira diferente: o indígena se apropriando das terras e tirando proveito do não índio; uma

ANAIS - 2013

reapropriação do solo, com um espírito induzido e motivado a tomar de volta o que lhes pertence. A que ponto a sociedade moderna, pós-moderna, híbrida, como preferir classificar, chegou. O legítimo dono das terras americanas, seja do Norte, Central ou Sul, tem que barganhar, disputar, lutar, sangrar até morrer pelo seu espaço, seja na cidade ou em qualquer outro lugar. Em se tratando de cidade, já que a presença do indígena nela causa desconforto em muitos:

Quem disse que aqui, a cidade, não é o lugar dele? Quem está investido de autoridade para dizer onde e quando o indígena deve se alocar, difundir sua cultura, fazer uso de sua língua? De maneira muito simplista, penso, poderia dizer que o lugar urbano está fora de suas coordenadas para se alocar, que o recinto é desconhecido, estranho e perigoso, mas a pergunta retorna de maneira redundante: Quem tem a real autoridade para afirmar tal ideia? A academia com sua prática excludente que nega o espaço para esse sujeito se representar, cristalizando os discursos classificados como hegemônicos? A política elitista carregada de ranços da colonização e que é disseminada como uma corrente de águas para as outras camadas da sociedade que apenas reproduzem o discurso repressor? Como transformar água em vinho, a discussão é belicosa e bem mais profunda do que se imagina. Tentar representar o subalterno pode reforçar ainda mais a subalternidade que o acomete. O erro é justamente esse: tentar representar. O discurso acadêmico já vem carregado dessa condenação antecipada. O certo não é querer falar pelo outro, o subalterno, o indígena da aldeia urbana, mas sim abrir espaços para que ele fale, se represente e seja ouvido. (SPIVAK, 2010). Entendo que falar pelo outrem só reforça o efeito do discurso dominante, uma cópia da modalidade discursiva imperial, já que o subalterno só existe por causa dessa enunciação carregada por

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

uma ideologia excludente que gera e difunde uma falsa consciência de sempre ter alguém maior e outro inferior. Um

  • x é

c

qu

c

b

há vestígios que perguntaram aos que aqui estavam como eles se denominavam, apenas intitulara-os de índios. Refletindo sobre essa questão de representar o outro e não abrir espaço para ele, dificilmente se vê, na cidade de Campo Grande, lugar onde está localizada a aldeia urbana Marçal de Souza, um espaço para que o indígena que ali mora,

vive, pratica sua cultura carregada de valores híbridos porque já está em contato com a cultura do branco, e dela já se apropriou, houve um processo de transculturação e em seu meio também já está difundido valores de outras etnias indígenas um lugar para que possa falar e ser ouvido. O que noto é que são produzidos vários discursos sobre o indígena, mas pouco, quase nulo, se não nulo, um espaço para sua representação. Mas por outro lado, só querer apenas abrir um espaço para sua auto- representação já parece reforçar sua subalternidade. Penso que o correto seria se a sua enunciação fosse de maneira acomodada, sem ser forçada por um ranço de obrigação, sem ter que preparar um lugar, período, momento para dizer: pronto, você tem dez minutos para nos interpelar (academia, centro, periferia, etc.) ou a produção de inumeráveis trabalhos e pesquisas para falar sobre; seria mais proveitosa a espontaneidade, embora tenha a plena consciência que uma atitude similar seja utópica. Instituir uma aldeia urbana não é suficiente, acredito.

“Of

c

u

ug

r, com casa, escola que

contemple o ensino da língua nativa mesmo quando eles, que

já sabem ou estão aprendendo, têm vergonha de falar um espaço denominado memorial cultural tendo em mente que ali pode ser apenas uma oportunidade de vender seu artesanato

ã

é

uf c

D

qu

g

”, qu

ANAIS - 2013

verdade é uma obrigação do Estado para com qualquer pessoa que viva em território nacional - proporcionar as necessidades

básicas - quando se é invisível frente a toda uma sociedade? É curioso saber que muitos que moram na capital sul-mato- grossense não saibam que há uma aldeia urbana em seu

ó

b

qu

gu

“bug

” qu

b

suas portas oferecendo produtos originados do plantio, e logo depois que são questionados, perguntados sobre quem era, dizem que era apenas mais um índio, intitulando de maneira, muitas vezes pejorativas e banalizadas, aquele que faz parte de

um grupo marcado por sua diferença, mas ao mesmo tempo é

uf

c

ã

c

“ u

A ideia de a cidade ser o lugar das marcas de outros povos, diferentes culturas, distintos modos de ser e que podem concentrar-se e conviver no mesmo lugar (faço menção à epígrafe), parece não valer para o nativo. Um espaço tão diversificado, amplo de/para relações e trocas culturais, dá a impressão de ser tão insuficiente para aceitar em seu meio uma

cultura ameríndia. Não somente a questão cultural é problemática, mas a econômica também atinge esse grupo. O processo de inserção dessa população no mercado de trabalho, no que tange a condições igualitárias, ainda é delicada. Segundo Vanderléia Mussi, pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), citada por Campos (2006), cerca de 71% dos trabalhadores da Marçal de Souza recebem um salário mínimo ou menos. Para elucidar melhor a desigualdade que ronda os indígenas que na cidade vivem, ainda segundo a pesquisadora, os índios da Água Bonita, outra aldeia que fica na periferia de Campo Grande, são acometidos pelo alto índice de desemprego que chega a 48%.

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Mas

diante

de

tantos

problemas,

desigualdade,

invisibilidade, carência de espaços para representação, por que então vir para a cidade?

Uma das principais razões para buscar a vida na cidade é

a procura por melhores condições de saúde.

Mas um fato

curioso é que o sistema de saúde urbano nem sempre é receptivo

a essas pessoas. Alegam que a responsabilidade do atendimento ao indígena que está alocado na cidade é da Fundação Nacional

de Saúde (Funasa) órgão que, curiosamente,

tem em sua

política

a

prática

de não prestar atendimento a índios

urbanizados. Percebo, que além da falta de representação que já

acomete o

descaso

grupo indígena que vive em território urbano, o as políticas públicas têm para com ele. A

que

subalternidade não infere somente no ponto de não poder falar,

mas

acarreta

em

consequências que se materializam no

cotidiano do

sujeito subalterno. Não ter acesso pleno a um

atendimento de saúde é uma prova contundente disso. Negar

uma necessidade pública é

negar

o

direito

à

vida.

A

subalternidade

é

um

problema

político

e

se

algum dia a

sociedade

excludente

denominada

como

branca pensar em

mudar

essa

situação

catastrófica, será preciso mudar sua

política; cabe salientar que não somente as práticas políticas do branco, mas dos próprios órgãos nacionais instituídos para velar pela sobrevivência - digo sobrevivência, pois as condições que se encontram esses grupos não são dignas de dizer que vivem - dos povos indígenas. Enquanto isso não acontece e acredito que demorará ainda muito, se acontecer, o índio estará condenado a

continuar vivendo oprimido em sua própria terra, fadado ao

b buc ,

c

g

bu

”,

“c

ch

c

“bug ”

c

u qu

qu

u

ug

qu

reflexões da sociedade se disseminam devem parar de querer

ANAIS - 2013

falar pelo subalterno, e sim, estabelecer um diálogo para que as políticas mudem, já que a subalternidade é um problema político, uma questão de poder. Que aqueles que na cidade estão, ou até mesmo em reservas indígenas se encontram, não venham ter a tristeza daquela criança que uma vez chorou por ser chamada de índio. Encerro aqui com as palavras de Joel Pizzino Filho, quando escreveu um poema em homenagem ao líder indígena Marçal de Souza, trabalho que fez parte da semana que homenageou o líder oito anos após a sua morte. O poema trata da relação do indígena com o não indígena, e nos mostra que mesmo depois de estabelecer contato frequente com o outro, aqueles que na cidade vivem e são originados de etnias variadas, ainda são índios. O Banguela dos lábios de mel

Apesar de minha roupa, eu ainda sou índio Apesar do gole amargo da caninha no bolicho da esquina, eu ainda sou índio Apesar do colar de nylon, de lã pinguin e das desbotadas penas de galinha matéria prima que disfarça meu artesanato eu ainda sou índio Apesar da bíblia em caiuá, da carteira não identidade, daquele jogo de camisa e do troféu que ganhei antes da eleição, eu ainda sou índio Apesar do reumatismo, da sífilis, da prost-instuição, de banhar nas águas envenenadas pela agricultura branca e da tuberculose que se quer meus avós conheciam eu ainda sou índio. Apesar de pedir pão velho nos cerrados portões, caçar nos lixuosos latões das ocas de concreto e de dormir nas frias margens da rodiviária Apesar da malária eu ainda sou índio

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

Apesar de ser vagabundo por opção, incapaz de acumular,

de não oferecer o badalado perigo e ser o bandido no faroeste da televisão, eu ainda sou índio Apesar de pedir perdão na catedral, tomar guaraná,

balbuciar o gu

x

“bug

”,

eu ainda sou índio Apesar de comer milho e ser humilhado, comer mandioca e ser ensopado, eu ainda sou índio Apesar de vestir jeans, ser deputado, fazer comercial e querer apito no carnaval, eu ainda sou índio Apesar de sacar os grilos e ser grilado, apesar de estar exilado em meu próprio chão, eu sou ainda sou índio Apesar de não apaixonadamente como Peri, estar banguela e me chamarem Marçal, eu ainda sou

índio

 

c

c

qu

u

ã

b

b

u

,

porque nós índios não guardamos datas como vocês

guardam datas e anos no papel. Nosso calendário é o inverno, nosso correr dos meses é a lua,

nosso rel

...

(MS) 4

Referências

ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca. Trad. de Lyslei Nascimento. Belo horizonte: Editora UFMG, 2006.

BEVERLEY, John. Subalternidad y representación. Trad. de Marlene Beiza y Sergio Villalobos-Ruminott. Madrid:

iberoamericana, 2004.

4 FILHO apud TETIL

, M

ç

uz

: Tu

ã’!,

89

ANAIS - 2013

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.

IANNI, Octávio. A era do globalismo. 4ª ed. Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 1999.

MUSSI, Vanderléia apud CAMPOS, André. Aldeias Urbanas Indígenas que vivem na cidade sofrem preconceito e invisibilidade. In: Problemas Brasileiros, n. 373, jan/fev. 2006. Disponível em:<http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?

Edicao_Id=234&Artigo_ID=3664&IDCategoria=4010&reftype

=1> Acesso em: 28 de fevereiro de 2012.

NOLASCO, Edgar Cézar. babeLocal: lugares das miúdas culturas. Campo Grande: Life Editora, 2010.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso de.

Do

índio ao

bugre:

o

processo de assimilação dos Têrena; Rio de Janeiro, F. Alves,

1976,

ORTIZ, Fernando. Contrapuento cubano del azúcar y del tabaco. Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 1983.

SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Trad. Sandra Regina Goular Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

TETILA, José Laerte Cecílio. Marçal de Souza Tupã’!: um guarani que não se cala. Campo Grande: UFMS, 1994.

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

YOUTUBE.

Disponível

em

<http://www.youtube.com/watch?v=ryFw9MH3g2g>

Acesso

em 08 de setembro de 2012.

ANAIS - 2013

A construção do lugar em que se vive: análise semiótica de dois textos poéticos infantis

Andréia Reis Bacha MORININGO 1 Geraldo Vicente MARTINS 2

RESUMO: Neste trabalho, pretendemos analisar duas produções poéticas (Menina Pequena e Campo Grande hospitaleira), presentes nas coletâneas Poetas da Escola II e III, publicadas nos anos de 2009 e 2010, respectivamente, quando seus autores eram alunos do 5º ano do ensino fundamental, na Escola Municipal Dr. Tertuliano Meirelles, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Para tanto, recorremos ao instrumental teórico-analítico da semiótica discursiva, que procura explicar os mecanismos discursivos de produção dos sentidos no texto, a partir da observação do plano de conteúdo e do plano de expressão. O estudo orienta-se a partir do que a semiótica concebe como percurso gerativo do sentido, instância na qual são estabelecidos três níveis: fundamental, narrativo e discursivo. Verificamos que ambas as produções são revestidas de figuras que recriam o mundo concreto, proporcionando, assim, um efeito de realidade. Outros aspectos considerados relevantes para a análise concernem a estratégias de intertextualidade e de interdisciplinaridade, quando são utilizados conhecimentos de outros ramos do saber, como ciências, geografia e história, sobre o local em que se vive, a fim de se construírem efeitos de verdade nos textos. PALAVRAS-CHAVE: produções poéticas; semiótica discursiva; percurso gerativo do sentido.

1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Estudos de

Linguagens. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

UFMS

reisbacha@hotmail.com 2 Professor Doutor do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Estudos de Linguagens. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS geeedmartins@yahoo.com.br

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

1. Introdução

Compreender um texto poético exige que o leitor considere, além de seu conteúdo, o significado dos elementos de expressão, o que se torna mais claro quando se recorre ao instrumental teórico-analítico da semiótica discursiva. Segundo as concepções de seu iniciador, Algirdas Julien Greimas, o texto resulta de um plano de conteúdo, que pode ser veiculado por diferentes manifestações, e um plano de expressão, que veicula o conteúdo do texto, propriamente dito. Além disso, concebe-se o texto como resultado das relações entre os componentes de níveis diversos. Dessa forma, o texto passa a ser apreendido a partir de

diferentes instâncias de abstração e, em decorrência, determinam-se etapas entre a imanência e a aparência e elaboram-se descrições autônomas de cada um dos patamares de profundidade estabelecidos no percurso gerativo. (BARROS, 1998, p. 15).

Com base nessa acepção, pretendemos analisar, em dois poemas infantis, alguns procedimentos que o constituem capazes de produzir um efeito de sentido de verdade nos textos. Para tanto, a análise considerará, sobretudo, o plano discursivo, patamar superficial do percurso gerativo do sentido, mais próximo da manifestação textual e enriquecido semanticamente, além dos procedimentos da expressão que produzem tais efeitos.

  • 2. Fundamentação teórica

A semiótica discursiva, também denominada francesa ou greimasiana, oferece um instrumental metodológico que

ANAIS - 2013

permite

estabelecer

os

sentidos

possíveis

de

um

texto,

 

cu

c

x

c

qu

x

z

c

f z

z

qu

z” (B

 

RRO , 2005,

11)

x

,

em primeiro lugar, de seu plano de conteúdo concebido sob a

forma de um percurso

gerativo que vai

do mais

simples e

abstrato ao mais complexo e concreto. Dito de outro modo, a

 

ó

c

cu

qu

x

z, c

z

para

que

o

faz,

buscando

 

recuperar,

no

jogo

da

intertextualidade, a trama ou o

enredo

 

da

sociedade e da

h

ó

” (B

RRO , 2005,

78). Além disso, determina que o

estudo da significação deve obedecer a três condições: ser gerativo, ser sintagmático e ser geral (FIORIN, 2012, p. 17).

A primeira condição,

a

de

ser

gerativo, impõe ao

analista a necessidade de construir o sentido do texto a partir

dos

investimentos

dos

conteúdos

dispostos

em

patamares

sucessivos

 

e,

por

conseguinte,

progressivos;

a

segunda

condição,

a

de

ser

sintagmático,

explica a produção

e

a

interpretação do discurso, que passa a ter uma estruturação

própria;

e

a terceira

condição,

a

de

ser

geral,

considera a

manifestação do sentido por diferentes planos de expressão ou

por vários planos de expressão ao mesmo tempo (FIORIN, 2012, p. 17).

 

Como

a

teoria

semiótica

 

procura

examinar

a

u

c

çã

qu

â

c

u

elo discurso, em

que

deixa

marcas

ou

pistas

que

permitem

recuperá-

”,

(BARROS, 2005, p. 78), é necessário o estudo do percurso

g

, qu

c

u

hierárquico, em que se correlacionam os níveis de abstração do

senti

(FIORIN, 2012, p.18).

 

No

percurso

gerativo

do sentido verifica-se uma

sucessão de patamares, recebendo cada um, uma representação

metalinguística explícita. Cada patamar do percurso gerativo

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

tem um componente sintáxico e outro semântico e pode ser assim explicado:

No nível das estruturas fundamentais, uma sintaxe explica as primeiras articulações da substância e das operações sobre ela efetuadas e uma semântica surge como um inventário das categorias sêmicas com representação sintagmática assegurada pela sintaxe; na instância das estruturas narrativas, uma sintaxe regulamenta o fazer simulacro do homem no mundo e das suas relações com os outros homens e uma semântica atribui estatuto de valor aos objetos do fazer; na etapa mais superficial das estruturas discursivas, uma sintaxe organiza as relações entre enunciação e discurso e uma semântica estabelece percursos temáticos e reveste figurativamente os conteúdos da semântica narrativa. (BARROS, 1988, p. 16).

Dentre os níveis do percurso gerativo do sentido, o nível discursivo encontra-se mais próximo da manifestação textual, e

é por meio do texto que se torna possível

compreender o

cu

“N

u u

cu

u

c

çã

revela e é onde mais facilmente se apreendem os valores sobre

qu

u

qu

x

f

c

” (B RRO ,

2005, p. 54). A sintaxe discursiva

comporta

os

mecanismos

de

instauração de pessoas, tempos e espaços

no

discurso,

projetados pela enunciação.

Esse

mecanismo

denomina-se

debreagem, que é definida como

ANAIS - 2013

a

operação

pela

qual

a

instância

da

enunciação disjunge e projeta fora de si, no

ato de linguagem, e com vistas à manifestação, certos termos ligados à sua

estrutura de base, para assim constituir os

elementos

que

servem

de

fundação

ao

enunciado-discurso. (GREIMAS COURTÈS, s/d, p. 95).

e

Se essa operação trabalha sobre as categorias de pessoa, tempo e espaço, conclui-se que existem três formas de debreagem: actancial, temporal e espacial. Vejamos o que elas significam:

a debreagem actancial consistirá, então, num primeiro momento, em disjungir do sujeito da enunciação e em projetar no enunciado um não-eu; a debreagem temporal, em postular um não-agora distinto do tempo da enunciação; a debreagem espacial, em opor ao lugar da enunciação um não-aqui. (GREIMAS e COURTÈS, s/d, p. 95).

A debreagem pode ainda ser: enunciativa e enunciva. A debreagem enunciativa ocorre quando o sujeito instala no discurso a pessoa (eu), o tempo (agora) e o espaço (aqui) da enunciação; e a debreagem enunciva, quando o sujeito instala a pessoa (ele), o tempo (então) e o espaço (lá) do enunciado. Essas debreagens produzem dois tipos básicos de discurso: os de primeira e os de terceira pessoa. É preciso compreender que

com as debreagens enunciativas e enuncivas criamos a ilusão de que as pessoas, os espaços e os tempos inscritos na linguagem

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

são decalques das pessoas, dos tempos e dos espaços do mundo. No entanto, a

embreagem

desfaz

essa

ilusão,

pois

patenteia que

eles

são

criações

da

linguagem. (FIORIN, 2012, p. 31).

Esses mecanismos de debreagem e embreagem pertencem a toda manifestação de linguagem, ou seja, todas as línguas apresentam as categorias de pessoa, de espaço e de tempo, podendo expressar-se distintamente de uma língua para outra, ou de uma linguagem para outra. A embreagem, ao contrário da debreagem, desreferencializa o enunciado que ela afeta. Por exemplo, quando se usa uma terceira pessoa no lugar de uma segunda, é como se o interlocutor não falasse com o interlocutário, mas com os outros sobre ele. Dessa forma, desreferencializa-se a instância do tu. (FIORIN, 2012, p. 30). O componente semântico do nível discursivo apresenta dois procedimentos: a tematização e a figurativização. Enquanto a tematização busca abstrair do texto conceitos que explicam o mundo, a figurativização produz textos concretos com o intuito de simular a realidade enunciada. Portanto, a figurativização e a tematização são operações enunciativas que desvelam os valores, as crenças, as posições do sujeito da enunciação (FIORIN, 2012, p. 32). Quando abordamos, no percurso gerativo do sentido, o nível narrativo, talvez seja importante traçarmos uma distinção entre narratividade e narração. A narratividade é um elemento presente em todos os textos e a narração diz respeito a uma tipologia textual, concernente a uma determinada categoria de textos. A narratividade é uma transformação situada entre dois estados sucessivos e diferentes (FIORIN, 2002, p. 21).

ANAIS - 2013

No nível narrativo do percurso gerativo do sentido, depreende-se o enunciado como unidade elementar da sintaxe narrativa. Dependendo da relação que se estabelece entre o sujeito e o objeto-valor, o enunciado pode caracterizar-se por:

enunciado de estado ou enunciado de fazer. Isso significa que a relação de junção (conjunção ou disjunção) entre o sujeito e o objeto-valor determina um enunciado de estado. Caso ocorra uma transformação nessa relação, ou seja, se há a passagem de

um estado a outro por meio de um fazer,

instala-se um

enunciado de fazer. Ressalta-se que sujeito e objeto na narrativa

não se referem, necessariamente,

a pessoa e coisa, mas

 

f

é

qu

u

í

u

f c

c

,

u

(FIORIN, 2002, p. 22). Quando um enunciado de fazer rege um enunciado de

estado, integrando estados e transformações, tem-se o programa narrativo (PN), unidade operatória que organiza a narratividade,

cuj

“c

é

óg c

c

c

z

çã

dois tipos fundamentais de programas, a

f

competência e a

performance. A competência é, por conseguinte, uma adoção de

valores modais; a performance, uma apropriação de valores

c

” (B

RRO , 2005,

27)

A manipulação, a competência, a performance e a

sanção integram a sequência canônica de

uma narrativa

complexa. Expliquemos cada uma: na fase da manipulação, que

pode ser por tentação, intimidação, sedução ou provocação,

ocorre a ação de um

sujeito sobre outro, na tentativa de

manipulá-lo a um querer e/ou dever fazer alguma coisa; na fase

da competência, o sujeito é dotado de um saber e/ou poder fazer; na fase da performance, ocorre a mudança de um estado a outro;

finalmente, a fase da sanção

confirma a realização da

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

performance, reconhece, portanto, que o sujeito operou a transformação. A semântica do nível narrativo aborda a relação do(s) sujeito(s) com o(s) objeto(s), que podem ser caracterizados como: objetos modais e objetos de valor. Os primeiros representam a modalização do fazer e a do ser a partir de quatro modalidades: o querer, o dever, o saber e o poder fazer para a realização da performance principal. Os segundos representam os objetos com os quais o sujeito entra em conjunção ou

 

ju

çã

N

, “

bj

é

qu

c

á

para se obter outro objeto; o objeto-valor é aquele cuja obtenção

é

f

ú

u

uj

” (FIORIN, 2002,

29)

Finalmente, o nível fundamental encontra-se no patamar profundo, mais abstrato do percurso gerativo do sentido. Nele, correlacionam-se dois termos-objetos que operam por negação ou asserção na sintaxe fundamental. Esses termos-objetos se opõem estabelecendo uma relação de contrariedade, na semântica fundamental, a partir dos elementos de base /euforia/ versus /disforia/. A relação eufórica ocorre quando os valores visados pelo sujeito estão em conformidade com o que deseja, e a disfórica, quando estão em discordância. Explicamos, sucintamente, o simulacro metodológico com que opera a semiótica discursiva. Entretanto, no decorrer do trabalho analítico, consideramos outros elementos do conjunto teórico da semiótica discursiva, dada sua natureza abrangente e complexa, tais como os procedimentos expressivos que contribuem para a significação global do texto poético. Nos textos com função estética, as categorias de conteúdo se correlacionam às da expressão (FIORIN, 2012, p. 58), o que nos permite interpretar os efeitos de sentido gerados por alguns recursos fônicos, como aliteração, assonância; por recursos métricos e rítmicos; por determinados recursos

ANAIS - 2013

sintáticos; por algumas figuras de construção, como repetição, quiasmo, gradação etc. (FIORIN, 2002, p. 36). Esses efeitos de sentido podem perpassar todos os níveis do percurso gerativo, criando a ilusão de verdade ou de aproximação com a realidade. Surgem, portanto, os sistemas semissimbólicos que, para a semiótica,

são aqueles em que a conformidade entre os planos da expressão e do conteúdo não se estabelece a partir de unidades, como nos sistemas simbólicos, mas pela correlação entre categorias (oposição que se fundamenta numa identidade) dos dois planos. (FIORIN, 2012, p. 58).

A partir dos sistemas semissimbólicos torna-se possível

analisar,

além

das

relações

entre

expressão

e conteúdo, a

percepção sensorial na produção do sentido do texto, ou seja, o

estudo desses sistemas

b

c

çõ

í

” (FIORIN, 2012,

67)

I

g

f c

qu

o estudo do semissimbolismo tem um alcance teórico e um analítico. De um lado, permite discutir, com profundidade, o papel da percepção sensorial na produção do sentido; de outro, possibilita o exame acurado das relações entre expressão e conteúdo. (FIORIN, 2012, p. 67).

Os sistemas semissimbólicos, portanto, dão base à análise dos textos poéticos, nos quais são estabelecidas diversas homologações entre as categorias da expressão e do conteúdo, que permitem compreendê-los. Ao poeta incumbe a tarefa de

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

recriar o mundo nas palavras, articulando um modo expressivo de trazê-lo ao entendimento do leitor.

  • 3. Análise de textos

Os dois textos aqui analisados fazem parte da Coletânea Poetas da Escola II e III, organizada pelos alunos do 5º ano do ensino fundamental das turmas A e B da Escola Municipal Dr. Tertuliano Meirelles, nos anos de 2009 e 2010. Na apresentação dos livros, a professora responsável pela idealização desse trabalho, Tânia Mara Dias Gonçalves Brizueña, esclarece que a publicação dos poemas realiza a intenção dos alunos de tornar pública a percepção do lugar onde vivem. É importante esclarecer aos leitores que o trabalho de produção, compilação dos textos e publicação teve inspiração no projeto Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, cuja categoria poesia destinou-se aos alunos do 5º e 6º anos. Passemos à analise dos poemas.

Texto I Menina Pequena

(Sandy Ferreira Maia)

  • 1. Índia pequena,

  • 2. Menina Morena,

  • 3. Calma e serena,

  • 4. É belo seu luar.

  • 5. Amor do caboclo imigrante

  • 6. Nordestinos, paraguaios e japoneses

  • 7. Escolheram viver felizes aqui.

  • 8. Entre prosas e segredos

  • 9. Minha pequena se formou.

  • 10. Campo Grande se destaca

  • 11. Encanta o Pantanal.

ANAIS - 2013

  • 12. É fácil poetizar você Campo Grande

  • 13. O céu é azul.

  • 14. Araras, tucanos, bem-te-vis,

  • 15. Joões-de-barro

  • 16. Enfeitam o céu.

  • 17. Que não é raro o tuiuiú

  • 18. Vive feliz no Pantanal.

  • 19. Gosto de você Campo Grande,

  • 20. Sou feliz em te dizer

  • 21. Índia pequena, Menina Morena,

  • 22. Cresci e abraço você.

No plano discursivo, no nível sintático, percebe-se a manifestação de dois tipos básicos de discurso: os de primeira e os de terceira pessoa, operando a instalação das debreagens enunciativa e enunciva, no que se refere às três categorias de enunciação: actancial, temporal e espacial.

 

E

“É

b

u

u

(4º

 

),

c

f gu

-se

a

instalação de uma debreagem actancial enunciva por meio do

u

u”

u

b

g

poral

 

b

 

u

c

,

c

 

;

“E c

h

f

z

qu ” (7º

 

),

-se a instalação

de uma debreagem temporal enunciva e de uma debreagem espacial enunciativa. Percebe-se, no poema, que a utilização dos mecanismos de projeção da enunciação permite a obtenção de efeitos de aproximação do sujeito com o conteúdo do enunciado, o que implica esse sujeito da enunciação em seu dizer, criando o efeito de sentido de compromisso com o que enuncia. Portanto, apesar de predominar no discurso o uso da terceira pessoa, isso não

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

provoca

a ilusão de objetividade, uma vez

que a história

é

 

u

b

, u

u”

é

c

, f

z

c

 

cu

c

, ju

 

f c

“É

fácil poetizar você Ca

 

”,

c

fu

çã

juíz

c

x

ã

“É fác

”,

qu

x g

avaliação de um sujeito da enunciação. Em relação à semântica discursiva, ocorre, no poema,

uma

sequência

isotópica

figurativa

que

 

humaniza

Campo

Grande. Percebe-

 

g

x c

“Í

qu

”,

“M

M

”,

c

b

c

g

”,

estabelecendo, também, a relação aproximativa do enunciador com elementos da história, da geografia e da cultura da região,

fato

esse

que

comprova

 

o

emprego

de

recursos

c

,

ó

f gu

“í

”,

”,

“c

b

c

g

”,

c

c

ê

c

conhecimentos de outros campos do saber no encadeamento de ideias.

O enunciador, na verdade, sintetiza um processo de

colonização de natureza bastante trivial: o nativo (no caso, o índio, o caboclo), a alusão a algumas etnias que povoaram a região (nordestinos, paraguaios e japoneses), a recorrência aos dois córregos principais (Prosa e Segredo), que cortam a cidade

de

Campo

Grande,

em

cujas

margens

os

primeiros

desbravadores da região fixaram-se; as aves típicas da região do

Pantanal (araras, tucanos, bem-te-vis, joões-de-barro, tuiuiú).

Com essas considerações, percebe-se que se trata de um poema com orientação bucólica, pois exalta a beleza natural do lugar

 

O

í u

, “M

P

qu

”,

f

partir de um substantivo comum que, ao ser especificado pelo

bu

“P

qu

”,

c

f

u

c

á

cu

sujeito visado. Dessa leitura, depreendem-se temas como:

ANAIS - 2013

o do relacionamento amoroso, comprovado nos versos:

“M

h

qu

f

u”, “

”,

c

b

ç

cê”;

 

o

da

colonização

da

região

por

povos

imigrantes:

espanhóis, italianos, japoneses, paraguaios, portugueses, e por

povos migrantes de diversas regiões do Brasil. Isso se comprova

 

“N

,

gu

j

”;

o da erotização da mulher nativa, em que subjazem a pureza, a calmaria, a serenidade e a beleza, presentes nos versos

“Í

qu

”, M

 

”, “

”, “É b

 

u

u

”,

qu

f

z

c

“c

b

c

 

g

”;

:

,

gu

, j

” “qu

c

h

f

z

qu ”,

h

f gu

indígena;

 

o da exaltação da natureza, que enuncia um modo de viver, o cotidiano tranquilo, contemplativo, o lado bucólico,

c

: “O céu é

zu ” / “

 

,

uc

, b

-

te-

,” / “J

õ

-de-b

 

” / “E

f

céu” / “Qu

ã

é

u u ú” / “V

f

z

P

 

Em relação ao plano da manifestação, considerando a correlação entre expressão e conteúdo como ponto central para

configuração dos textos poéticos, percebe-se, no nível sonoro, a

ocorrência da aliteração do /e/, em sua grande parte, fechado,

no

cábu

g

:

qu

”,

”,

”,

”, “b

”, “

u”

 

Nos três

primeiros

versos,

as

rimas

apresentam-se

paralelas e recaem nas vogais similares tônicas, produzindo um efeito de sentido de estabilidade, de tranquilidade do sujeito em

relação ao objeto-valor. Esse mesmo efeito, percebido ao longo de todo o poema, é produzido a partir de outros recursos sonoros

e

de

algumas

figuras

de

linguagem,

como:

presença

da

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

 

â

c

f

ch

/

/

c

b

c

 

g

”, “N

 

,

gu

j

”;

ç

f

c

/z/

cábu

“f

z

qu ”

g

”,

produzindo a aliteração /ze/, /za/, /za/ e /ze/, sucessivamente.

 
 

N

“E

 

g

”,

b

 

/

/,

cábu

”, c

 

õ -se ao som fechado do /e/,

 

cábu

g

E

çã

uz

u

f

semântico paralelo ao efeito sonoro (aberto e fechado), podendo significar a relação de comunicação do povo campesino. As

prosas e segredos, automaticamente, levavam às criações dos causos contados pelos primeiros habitantes do lugar. No nível narrativo, ocorre uma transformação de estado

do sujeito em relação ao objeto-valor. O último verso comprova

 

c

ê

c

:

c

b

ç

cê”,

-se a

modalização do ser-fazer, ou seja, o sujeito torna-se competente

para ação.

Evidencia-se, portanto, a conjunção plena entre

sujeito-morador e objeto-c , f gu z “ b ç

O

g

c

,

b

ç

”,

gu

ç

,

 

u

é

c

çã

bj

-cidade e

perpassa todo o poema, uma vez que o ato de abraçar alguém

requer o estabelecimento de um contato aproximativo. Essa relação proximal do narrador e do objeto-valor perceptível no

discurso permite ao poeta atribuir ao el

“c

características construídas a partir da experiência observada.

Texto II Campo Grande hospitaleira

(Stuart Vieira da Silva)

  • 1. Campo Grande, cidade hospitaleira

  • 2. Um celeiro de cultura, de contraste sem igual,

  • 3. De histórias fascinantes

  • 4. De um povo acolhedor

  • 5. Cidade Morena uma beleza

  • 6. Onde a mãe natureza

  • 7. Nos mostra sua grandeza

ANAIS - 2013

  • 8. Através de sua harmonia maravilhosa

  • 9. Há em ti a beleza que alma encanta

    • 10. Vinda do Pantanal, das baías e igarapés.

    • 11. Vindo da sonolência matutina dos jacarés

    • 12. Da sutil leveza do voo 3 da garça branca.

    • 13. Dos momentos de descanso prazeroso

    • 14. No sentir da paz que é infinita

    • 15. Nas grutas e nos balneários de Bonito

    • 16. Nas águas cristalinas do rio Formoso.

O poema é construído a partir da observação do sujeito em relação à cidade de Campo Grande, evidenciando, nesse contexto, a objetividade do poeta ao descrever o lugar onde se vive.

 

O

í u

h

z

bu

existência de um estado permanente, condicionado pelo verbo

g

çã

(

),

í

c

, qu

c

c

z

” c

cidade hospitaleira. Trata-se, portanto, de um enunciado de

estado. O empr g

 

x c

“h

” hu

z

Campo

Grande,

 

conferindo-lhe,

supostamente,

 

um

caráter

altruísta.

 
 

Na primeira estrofe, o verso inicial retoma o enunciado

contido

no

título;

porém,

ocorre,

na leitura, uma pausa

3 No livro, o vocábulo aparece com acento, pois a publicação foi anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

deliberada em função

do

uso

da

í gu

,

 

I

qu

g

z

quê

c

 

ó

c

qu

hu

 

z

: “c

 

h

”,

“c

cu

u

,

c

,

h

ó

,

u

Verifica-

 

,

c

uçã

 

“h

“c

”,

c é

c

uf x

”,

segmentos lexicais de significações similares, a competência de

u

uj

qu

c

h

”, “

 

ú

g

g

 

N

gu

 

f

,

qu

 

c

M

u

b

z

”,

enta, do mesmo modo, a mesma isotopia.

Mais uma vez, percebe-se um enunciado de estado ao longo

dessa

estrofe.

 

O

 

sujeito

posiciona-se

como

observador,

instalando-se a debreagem actancial enunciva, abstraída a partir do uso do verbo e do pronome (sua). No plano da manifestação, verifica-se o uso de rimas, quando se utiliza a sibilante /z/, na

sequência:

 

beleza,

natureza,

 

grandeza,

 

maravilhosa,

para

u

f

u

c

b

ã

u

z

Apresenta-se, portanto, o objeto-

 

u

z

” c

m o qual o

uj

á

c

ju

çã

,

c u

 

, c

natureza-mãe, que, também, executa a função hospitaleira.

 
 

Na

terceira

estrofe,

 

o

primeiro

verso

 

apresenta-se,

c

,

: “Há

 

b

z

qu

c

” O poeta utilizou essa construção como estratégia para

uçã

:

c

“b

c

P

c b -se que a

organização das rimas acontece com o auxílio do recurso de

interdisciplinaridade, ou seja, com o conhecimento a respeito da geografia e da ciência do local onde vive. Inclusive, explora-se bastante esse recurso estilístico, produzindo um efeito musical ainda maior, em relação à estrofe anterior. As rimas encontram-

se interpoladas e no interior dos versos, como acontece com

“b

z

z

O conteúdo construído, com base em

informações advindas de outras áreas do conhecimento, permite

ANAIS - 2013

a organização mais expressiva daquilo que se pretende enunciar.

Instala-se,

dessa

vez,

a

debreagem

temporal

e

actancial

u

c

,

c

Ex

b

qu

“há”

f

u bj -valores com os

c

quais o sujeito entra em conjunção.

 
 

A última estrofe,

na

realidade,

está

interrelacionada

 

c

à

f

O

“D

 

c

z

á c

nuidade à sequência enunciativa do

último

verso

da

estrofe. Utiliza-se a mesma estrutura de

 

, c

 

z

, “N

 

z

qu é

 

f

”, “N

 

g u

b

á

B

”, “N

águ

c

F

”, o enunciador estabelece

 

çã

c

“b

z

” qu

 

c

N

-se que não

uma

se

trata

 

de

uma

beleza

comum,

mas

de

beleza

transcendental, provida de gratuidade, de generosidade, o que comprova a significação do título do poema. O enunciador organiza as ideias recorrendo aos conhecimentos que tem da geografia do local onde se vive.

O texto nos permite abstrair alguns temas, como:

o do bucolismo: no percurso de todo o texto, exaltam-se os elementos naturais que potencializam a cidade de Campo

Grande e servem hospitaleira;

como

atrativos

para

que

ela

se torne

 

o do do acolhimento, como característica tanto da cidade

qu

u

u

çã

: “

, c

h

”,

“D

u

h

”; o da relação mãe filho simbolizada pela natureza

c

mãe.

Podemos, finalmente, verificar que o poema cria um efeito musical a partir dos recursos empregados para sua elaboração. Percebe-se a organização estética do texto por meio de estrofes e versos distribuídos em números iguais. Essa

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

construção torna evidente a recorrência às estruturas convencionais do poema clássico.

  • 4. Considerações finais

Podemos traçar algumas conclusões a partir

observamos na análise dos textos:

do que

os dois poemas referem-se à mesma temática: os

atrativos da cidade de Campo Grande que a tornam uma cidade

acolhedora e boa para viver. O enunciador, nos dois textos, transpõe para o discurso elementos lexicais que dependem de uma capacidade de abstração; ambos os textos exploram recursos de expressão, como rimas, musicalidade e ritmo das palavras, imagens, figuras de linguagem, criando efeitos de sentido, em que predomina a função poética da linguagem. Portanto, há poesia nos textos;

recorre-se ao mecanismo da interdisciplinaridade para manifestar a beleza natural e a história de Campo Grande. Encerramos este trabalho com o pensamento de Ferreira

u

: “O

x

c

ç

, qu

ê

u

c

olhos virgens e que, por quase nada saber, está aberta ao mistério das coisas. Para criança como para o poeta viver é u

c

c

b

As crianças, autoras desses poemas, imprimem nos textos a percepção do lugar onde moram. Para elas, viver em Campo Grande é prazeroso, pois o lugar apresenta diferentes atrativos naturais que agregam valores como liberdade, beleza, bem-estar, prazer etc.

Elas criam um efeito de verdade sobre os fatos narrados, a partir dos julgamentos, das considerações e dos juízos que estabelecem nos textos. Embora possam ter convivido com o aprendizado formal da geografia e da história da região, ambas

ANAIS - 2013

evidenciam, no texto, um modo particular de assimilação desse aprendizado.

Isso significa que a poesia, ao agregar um conjunto de experiências, de conceitos, de valores, além de utilizar-se do

jogo com os sons, com

os ritmos, com as rimas, manifesta a

realidade interior (eu poético) associada à realidade exterior (contexto socio-histórico vivenciado). Por isso, a poesia deve ser trabalhada na escola, uma vez que desafia a criança a investir na expressão do conteúdo e dos

sentimentos

que

emanam

 

a

partir

da

construção

 

do

c

h

c

N

c

,

c

c

qu

b

 

ã

é u

 

,

g

qu

cu

,

 

,

c

c

u

g

á

c

discurso, para que eles possam, com mais eficácia, interpretar e

g

x

” (FIORIN, 2002,

9)

Referências

BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática. (Série Fundamentos, 72). 2005.

Teoria do discurso: fundamentos semióticos. São Paulo: Atual. 1988.

______.

FIORIN, José Luiz.

Em

busca

do

sentido

(estudos

discursivos). São Paulo: Contexto. 2012.

______.

Elementos

de

análise

do

discurso. São Paulo:

Contexto. 2002.

 

GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Dicionário de semiótica. São Paulo: Cultrix, s/d.

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

LOPES, Ivã Carlos; HERNANDES, Nilton (orgs.). Semiótica (objetos e práticas). São Paulo: Contexto. 2005.

SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO. Poetas da escola II. Campo Grande: Prefeitura Municipal. 2009.

Poetas

______. Municipal. 2010.

da

escola

III. Campo Grande: Prefeitura

ANAIS - 2013

A deficiência na infância: a formação dos discursos e formas de controle

Marina Cezaria da SILVA 1

RESUMO: Busca-se explorar, por intermédio dos discursos, as

relações possíveis entre a educação infantil e a deficiência, tomando como fontes de análise e subsídios empíricos, entrevistas com os

g

qu

E

uc

çã

I

f

(

EINF’ ),

coordenadores pedagógicos e professores. Além dos documentos produzidos sobre os bairros Cidade Morena, Moreninha I, II e III, lócus da pesquisa. Foi realizada também, uma entrevista com o presidente da Associação das Moreninhas para obter a história e as condições sociais dos bairros, no sentido de compreender os discursos produzidos por intermédio da prática pedagógica sobre a deficiência; visando a um modo de análise arqueológico postulado por Michel Foucault em que foram trabalhados alguns conceitos do referido autor. Os resultados indicam que a deficiência na educação infantil é produtora de discursos que adquirem diferentes formas de controle, constroem verdades, cerceando o que deve ser dito ou não. PALAVRAS-CHAVE: EINF’ D f c ê c ; I c u ã ; social.

Introdução

Este

artigo

é

parte

da Dissertação de Mestrado

apresentada, com o mesmo título, ao Programa de Pós

Graduação Stricto Senso da Universidade Federal de Mato

Grosso do Sul, apresenta-se a análise das entrevistas realizadas

com as quatro gestoras,duas coordenadoras pedagógicas

e

1 Professora, Mestre em Educação, Diretora do Centro de Educação Infantil Uirapuru, Campo Grande-MS e membro do Grupo de Estudos e Investigação Acadêmicas nos Referenciais Foucaultianos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

dezesseis professoras dos quatro Centros de Educação Infantil localizados nos bairros das Moreninhas em Campo Grande, MS,

e com as famílias das três crianças deficientes matriculadas nos

EINF’

A finalidade é a compreensão de como foi possível aparecer na ordem do saber o pano de fundo que compõe a inclusão de alunos com deficiência na educação infantil. No intuito de localizar o discurso da inclusão na educação infantil, o modo de análise arqueológico em Foucault será utilizado para localizar as raízes históricas entre o sujeito e o domínio de objetos como parte da prática discursiva para se chegar ao saber de uma época. Na ordem do saber, como foi possível aparecer a produção desse discurso (FOUCAULT, 2005b). Procuramos olhar o outro lado do discurso, o das participantes, sem considerar o exterior, o que ele poderia ter de singular, terrível ou talvez maléfico? Foucault diz que o discurso não está essencialmente na ordem das leis que o honra; ele, ao mesmo tempo, desarma, mas contém um poder que é concedido pelas pessoas, procurando desvelar a inquietação diante do que o discurso é em sua realidade material, o não dito (FOUCAULT,

2005b).

De acordo com Foucault (2005b), há de se ter cuidado para analisar o discurso em virtude de sua existência transitória, com duração que não pertence a ninguém e que pode se esquivar da materialidade. Com esses deslocamentos, ele vai tomando outras formas; vai exercendo controles, construindo verdades e com isso vai cerceando o que deve ser dito ou não. Antes das análises dos discursos relatados pelas

á

uc

f

EINF’

Moreninhas, houve a intenção de mostrar um breve relato de informações levantadas nos bairros onde estão localizados os

ANAIS - 2013

Centros de Educação escolhidos para esta pesquisa, como segue abaixo.

  • 1. As Moreninhas

Localizados na região sul, a 15 km de distância do centro do município de Campo Grande, MS, os bairros que integram a região das Moreninhas compõem um dos maiores conjuntos populacionais da cidade. A escolha para esta pesquisa ocorreu

pelo fato de esse conglomerado habitacional possuir características de município. São formados pelos bairros da Santa Felicidade, Nova Jerusalém, Nova Capital, Novo Brasil e Novo Século, além da Cidade Morena, Moreninha I, II, III e IV. Foram criados no início da década de 1980, com o intuito de proporcionar moradias às pessoas com alto índice de pobreza que margeavam a região central da cidade. Com levantamento realizado para este estudo, constatou- se que os bairros atualmente contam com boa infraestrutura, comércio local e seus moradores não precisam se deslocar até o centro da cidade para comprar calçados, vestuário, gêneros alimentícios, produtos veterinários, medicamentos, móveis e utensílios domésticos. Também contam com serviços médicos, clínicas, laboratórios para exames médicos, serviços de psicologia, odontologia e fisioterapia. Quanto a serviços públicos, a região dispõe de delegacia de polícia civil (4º distrito); grupamento do corpo de bombeiros; polícia militar; serviços de pequenas causas; cartório do 4º Ofício de Notas; Posto de Saúde 24 horas, junto de uma maternidade; terminal de transbordo; praça; o Parque Jacques da

Luz;

á

fu

b

“T

c

L

ã

”;

f

;

c

c

escolas estaduais e duas municipais; duas agências dos Correios; duas agências bancárias; três caixas automáticos de todas as

Estudos de linguagem: pesquisa, ensino e conhecimento

agências bancárias; uma casa lotérica da Caixa Econômica

F

qu

EINF’ , qu

f

z

qu

Há também um cemitério e a prestação de serviços póstumos.

 
 

O

EINF’

c

qu

c

z

,

respectivamente, na Cidade Morena, Moreninha I, Moreninha II

e Moreninha

III, juntos contam com cerca de oitocentos e

setenta (870) crianças matrículas. São distribuídas pela forma de

organização institucional

entre

as

faixas

etárias:

Berçário,

crianças de quatro (4) meses a dois (2) anos; Nível I (dois (2) e

três (3) anos); Nível II (três (3) e quatro (4) anos) e Nível III (quatro (4) e cinco (5) anos), em regime integral, das seis horas e trinta minutos às dezessete horas. Porém, como já relatado na introdução deste trabalho, essas nomenclaturas mudaram para o funcionamento no ano de dois mil e doze (2012). Para apropriar e analisar os discursos das diretoras,

coordena

góg c

f

EINF’

selecionados, foram marcadas as entrevistas individuais, de acordo com suas disponibilidades. Esse agendamento ocorreu no

mês de junho de dois

mil e onze (2011). O Termo de

Consentimento foi assinado antes de cada entrevista e depois de

aprovado pelo Comitê de Ética da UFMS. O roteiro foi estabelecido a partir dos dispositivos

reguladores já analisados neste estudo

em

relação

essencialmente

aos princípios e orientações, visando à

perspectiva de inclusão escolar, embora a convivência desta autora em uma das instituições, como professora, já viesse demonstrando os limites de sua operatividade nesse processo propositivo de incluir.

Em função da perspectiva teórico-metodológica adotada,

o objetivo do processo empírico veio ao encontro da busca em

c

c

u

u

c

qu

 

fu

qu

c u ã

c

é

u

c

ANAIS - 2013

acontecimentos discursivos que se recortam em si, sendo detentores de uma mesma base a escolarização.

Compreendendo

que

são, também, processos de

investigação, tentativas de detectar as possíveis relações entre as

práticas discursivas e os poderes que as permeiam, dinâmicas do mesmo fenômeno a educação infantil e a deficiência, que levou à necessidade de realizar a entrevista como uma das fontes desta pesquisa.

Os

depoimentos

foram

gravados

e

digitados