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Ministério da Educação Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná Departamento de Ciências Humanas Curso de Especialização em Línguas Estrangeiras Modernas

JÚLIA MARIA DA COSTA:

SENTIMENTOS E SENSAÇÕES POÉTICAS

CURITIBA

2005

ALDINE NÓBREGA

JÚLIA MARIA DA COSTA:

SENTIMENTOS E SENSAÇÕES POÉTICAS

Monografia apresentada como requisito parcial à conclusão do Curso de Pós Graduação em Ensino de Línguas Estrangeiras Modernas, setor de Ciências Humanas do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná

Orientadora: Regina Helena Urias Cabreira

CURITIBA

2005

SUMÁRIO

Abstract / Resumo

Introdução

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Capítulo 1 – A poetisa Júlia da Costa e o Movimento Romântico

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1.1. O

Romantismo

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1.2. O Romantismo no Brasil

10

1.3. A poesia romântica

11

1.4. Características dos Poetas e das Poesias Românticas

13

Capítulo 2 – Biografia da Poetisa Júlia da Costa

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2.1.

As visões de Carlos da Costa Pereira e Rosy Pinheiro Lima

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Capítulo 3 – Análise das poesias de Júlia da Costa

34

Conclusão

Bibliografia

Anexo

RESUMO

O presente trabalho trata da obra poética de Júlia da Costa, renomada poetisa paranaense e de uma releitura de sua biografia. Para tanto, analisamos como a poesia de Júlia da Costa foi influenciada pelo Movimento Romântico da literatura. Fizemos um apanhado geral de como se deu o Romantismo na literatura e como este repercutiu no Brasil. Com relação à biografia de Júlia da Costa, comparamos duas obras existentes sobre a vida da poetisa: A de Carlos da Costa Pereira, Traços da vida da Poetisa Júlia da Costa, (1982) e Vida de Júlia da Costa, de Rosy Pinheiro Lima, (1953). E para elucidar algumas dúvidas utilizamos a obra de Zahidè Lupinacci Muzart, Poesia – Júlia da Costa, (2001). E para finalizar o trabalho, elaboramos análises das poesias “Accordes Poéticos”, “Rosa Murcha”, “Queixas” e “Quadras de 16 de Maio” que retratam as fases que a poetisa viveu, ou seja: Fases de Esperanças, Desilusão e Demência.

Palavras-chave: Poesia, Júlia da Costa, Romantismo, Literatura

ABSTRACT

The present work studies Júlia da Costa’s poetic work. She is an important poet from Paraná, and we will revise her biography too. So, we will analyze how her poetry was influenced by the Romantic Movement of Literature. We did a general summary about the Romanticism in Literature and how it was reflected in Brazil. In relation to Júlia da Costa’s biography, we will compare two works about the poet’s life: Traços da vida da Poetisa Júlia da Costa, (1982) by Carlos da Costa Pereira and Vida de Júlia da Costa, (1953) by Rosy Pinheiro Lima. In order to explain some doubts, we used Zahidè Lupinacci Muzart’s work, Poesia – Júlia da Costa, (2001). To finish this work, we elaborated an analysis of the poems: “Accordes Poeticos”, “Rosa Murcha”, “Queixas” and “Quadras de 16 de Maio” that portray the phases the poet lived, in other words: Phase of Hope, Phase of Disillusion, and Phase of Insanity.

Keywords: Poetry, Júlia da Costa, Romanticism, Literature

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INTRODUÇÃO

Esta monografia trata da produção poética de Júlia da Costa a qual trabalha determinadas expressões sentimentais e sensações conflituosas presentes no cotidiano das relações sociais que se travam entre os seres humanos.

A obra poética de Júlia da Costa apresenta características bem definidas de

expressões sentimentais relacionadas ao amor, à mágoa, à traição e ainda à saudade da terra natal. A partir de estudos sobre a poetisa, pretende-se verificar as possíveis relações entre os acontecimentos da vida da autora e a sua produção poética. Têm-se como hipótese que as alegrias e frustrações vividas por ela estão presentes nas entrelinhas de seus versos.

Discorreremos sobre as duas visões publicadas sobre a vida de Júlia da Costa. A primeira visão, intitulada Vida de Júlia da Costa, escrita por Rosy Pinheiro Lima (1953). Lima foi a pioneira em resgatar a biografia, cartas e inclusive algumas poesias da poetisa. É, segundo Lima, uma visão um tanto romanceada mas baseada em fatos reais, pesquisas e em cartas da própria poetisa que foram remetidas ao grande amor de sua vida, o poeta Benjamin Carvoliva e que Lima conseguiu ver, pois lhe foram gentilmente apresentadas pelo neto do próprio Carvoliva. O fato é que naquela época, segundo menciona Zahidé Lupinacci Muzart, em sua obra Poesia – Júlia da Costa, não havia a facilidade que temos hoje em foto copiar documentos, então Lima teve que copiar, linha por linha, as cartas da poetisa e algumas escritas por Carvoliva. Há, sem dúvida, alguns fatos contraditórios nesta versão que procuramos elucidar, alguns, infelizmente, ficam sem resposta.

A segunda visão, Traços da vida da poetisa Júlia da Costa, (1982) escrita

pelo historiador Carlos da Costa Pereira, parente do Comendador Costa Pereira, esposo de Júlia da Costa, que foi alvo de injúrias e comentários equivocados após a

morte de sua esposa. O autor valoriza o papel de marido representado pelo “Comendador”, que foi desmoralizado em estudos anteriores como o de Nascimento Júnior que, como outras pessoas, acreditava que Júlia da Costa além de casar-se com um homem que não amava, teve que agüentar o cúmulo de vê-lo instalar na parte térrea do casarão onde residiam, uma amante e que a poetisa enlouqueceu como uma maneira de fugir de uma realidade tão áspera e infeliz. Os relatos mostram que os fatos não aconteceram desta maneira, por isso o historiador fez um

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estudo detalhado da pessoa do Comendador e de Júlia da Costa. Inclusive, há na

obra de Pereira um trecho da carta que Lima lhe escreveu, talvez pedindo que a

ajudasse em sua pesquisa.

Pereira também insinua que a poetisa teria interesse por outros homens além

de Benjamin, e afirma que sua vida não foi triste ou infeliz como ela fazia parecer.

Comenta ainda sobre a nova e última paixão de Júlia, o Alferes Batista. É uma visão

bastante crítica e rígida sobre a vida da poetisa que segundo Muzart, esteve à frente

de seu tempo. Escrevia, entendia de política, sabia conversar e era inteligente.

Porém, amava demais, e de uma maneira insensata até. Era, sem sombra de

dúvida, o amor dos românticos. Eis a questão, uma visão excessivamente romântica

e outra totalmente realista, isso se falando dentro da realidade da literatura.

Este fato nos inquieta e nos move a pesquisar nas obras da autora pistas que

possam elucidar as contradições expostas pela imprensa. Fica bastante instigante

procurar conhecer como estas versões da história foram construídas.

Para isto, neste estudo, far-se-á uso dos recursos da pesquisa qualitativa,

fazendo buscas em artigos bibliográficos e eletrônicos que possam responder a

questão de pesquisa: “Até que ponto é possível afirmar que a poetisa Júlia Maria da

Costa registrou seus sentimentos nos versos de sua obra poética?”

A escolha do tema justifica-se pela sua importância no contexto do ensino de

literatura desenvolvido nas instituições escolares e pela ausência de estudos sobre a

poetisa, com exceção dos citados anteriormente neste trabalho. Além do fato de

resgatar a memória da poetisa Júlia da Costa que afirmava (LIMA, 1953: 6):

a idéia do meu nome

será em breves tempos esquecida

A importância deste estudo literário repousa na análise e resgate de fatos

históricos representantes do cotidiano paranaense que pertencem ao contexto

poético das cidades de Paranaguá e São Francisco do Sul. Ele insere contribuições

ao estudo literário, e ao meio artístico e social, a partir das vivências da poetisa Júlia

Maria da Costa.

Nosso objetivo é verificar até que ponto é possível aproximar as poesias de

Júlia da Costa aos seus relacionamentos sentimentais e sociais (nascimento,

casamento, morte). Além de, procurarmos estudar a literatura que trata das obras

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poéticas e os livros específicos sobre a vida da autora e seus escritos, sendo em questão de biografia, os mais importantes os de Rosy Pinheiro Lima e Carlos da Costa Pereira, pois o de Zahidé Lupinacci Muzart é baseado nestes estudos anteriores, além do livro Um Século de Poesia. Também procuraremos investigar a relação entre as duas versões biográficas da autora, analisar as coerências e incoerências, traçando um paralelo entre as versões pertinentes com a obra da poetisa. Além de demonstrar, através das poesias e trechos de cartas escritas pela autora, as inquietações que permearam sua vida e a levaram a produzir sua obra, fazendo as aproximações possíveis entre a obra da autora e suas vivências sociais.

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CAPÍTULO 1

A POETISA JÚLIA DA COSTA E O MOVIMENTO ROMÂNTICO

Júlia da Costa faz parte do Romantismo Brasileiro pois em suas poesias estão explícitas as características deste movimento. Da Primeira Geração Romântica, Júlia da Costa herdou os recursos de Saudosismo e Religiosidade, esta última com uma boa pitada de misticismo. Já da Segunda Geração, a poetisa apresenta todas as características:

Subjetivismo Exagerado, Tédio Constante, Vontade de Sofrer, Fuga da Realidade, Obsessão pela Morte, Melancolia e Pessimismo.

E por fim, da Terceira Geração, herdou a preocupação com o social, com a

abolição e a decadência da Monarquia.

A identificação com a Natureza, é uma marca de Júlia da Costa, que adora

inseri-la em sua obra. É considerada a Poetisa das Rosas, pois sempre encontra lugar para elas em suas poesias.

1. 1. O ROMANTISMO (1825-1881)

No século XVIII, há uma renovação nas formas de expressão, na escolha dos temas e na busca de modelos e fontes de inspiração, o que se denomina Pré- Romantismo e tem sua origem na Alemanha e Inglaterra. Esta renovação, assume grandes proporções no século XIX, adquirindo liberdade formal e sentimento de contemporaneidade, resultando no Romantismo. Este movimento, expressa os anseios, dúvidas e inquietações interiores do artista, deixando transparentes suas grandezas e fraquezas. É um rompimento com

o passado. Agora o que realmente importa são os sentimentos. Através da experiência individual do homem romântico, inserido em uma nova estrutura social, religiosa e econômica, atinge-se a universalidade, ou seja, a partir de um contexto nacional, restrito a uma determinada realidade, trabalham-se sentimentos e valores universais do ser humano. Porém, o romântico não mais encontra o equilíbrio em sua vida interior e a sua intuição e a fantasia passam a prevalecer em detrimento da razão.

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O romântico demonstra o desequilíbrio do mundo contemporâneo, perceptível

na tristeza, aspirações vagas, desejo de mudança social, anseio de liberdade e nacionalismo. Atribui grande importância aos sentimentos, o que o torna egocêntrico.

A fé é superior à razão. Em determinados momentos dedica-se ao amor, já

em outros, busca o isolamento e a identificação com a natureza. Nutre sua religiosidade e cultiva o patriotismo.

No lirismo romântico são recorrentes os temas de amor, religião, sentimento

da natureza e da sociedade. O amor procura livrar-se das conveniências e convenções e a mulher deixa de ser apenas pura, tornando-se sedutora. Insatisfeito com a realidade em que se encontra, o romântico foge do convívio em sociedade e cria um mundo imaginário, em que a natureza expressa seus estados de alma. Muitas vezes, busca a contemplação divina e em determinados momentos chega ao panteísmo, doutrina que identifica a divindade com o universo. Era esta mais uma forma de evasão do poeta romântico.

Deus é entendido como resposta aos questionamentos, refúgio e paz. Através de sua contemplação, o homem percebe o quanto é pequeno diante de sua grandeza.

O Romantismo foi, sem dúvida, o resultado da ascensão da burguesia, que

tinha força econômica e política e sendo instruída, exigia uma arte mais popular, menos sofisticada.

1.2. O ROMANTISMO NO BRASIL (1836 – 1881)

Contexto Histórico-Cultural

O Romantismo brasileiro nasce das possibilidades que surgem com a

Independência política e suas conseqüências sócio-culturais: o novo público leitor, as instituições universitárias e, acima de tudo, o nacionalismo ufanista que varre o

país após 1822 e do qual os escritores são os principais intérpretes e têm como objetivo principal uma literatura genuinamente brasileira que tratasse de sua paisagem física e humana, ou seja, uma literatura autônoma, sem vínculos com Portugal e que nos expressasse.

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Após a vinda da família real para o Brasil, em 1808, o Rio de Janeiro passou

a ter hábitos semelhantes aos da sociedade aristocrática européia. Além disso, D.

João VI tomou medidas que possibilitaram o nosso crescimento cultural, tais como a abertura dos portos, a criação de bibliotecas e de escolas superiores e a permissão para funcionamento de tipografias.

Na economia brasileira, os detentores do poder eram a nobreza fundiária e o alto clero pois a nossa economia era essencialmente agrária e apoiada no latifúndio

e na exportação. A mão de obra era escrava. No período imperial, o Brasil possuía grande número de analfabetos. Sendo assim, o público leitor era restrito, mas ávido por uma literatura que tivesse dramas sentimentais.

O movimento romântico possuía forte ligação com a política e defendia a

liberdade, assim como a construção de uma pátria brasileira. Havia um forte desejo de criar-se uma literatura essencialmente brasileira, e era por causa disso que alguns temas eram tratados de modo diverso ao da literatura lusitana. Havia, inclusive, o desejo de se escrever com uma “linguagem brasileira.”

A natureza expressava o universo interior do poeta, seus sentimentos,

aspirações e frustrações. Refletia o nacionalismo através das ricas descrições da terra brasileira, que é muito bem dotada em paisagens pitorescas. No Brasil, os escritores românticos idealizavam o índio que passou a ser herói nacional, tão perfeito física e moralmente quanto os cavaleiros medievais. Buscavam também paisagens e civilizações exóticas. Há, então, a evasão temporal e espacial. Os poetas preferem a noite que além de inspirar, oferece o sonho, o inconsciente, a imaginação.

1.3. A POESIA ROMÂNTICA

Os românticos rompem com a rigidez formal, preferindo a liberdade de criação. A expressão de seus sentimentos não pode ficar presa a esquemas rítmicos regulares, tais como o soneto. Por isso, praticamente não o utilizam. Percebe-se o emprego de versos livres e de estrofes regulares e irregulares. Além disso, dá-se importância à musicalidade. A poesia romântica divide-se em três gerações ou

fases:

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Primeira Geração (de 1836 a aproximadamente 1850): Nacionalista ou indianista.

Essa geração iniciou, definiu e implantou o Romantismo no Brasil. Nesta geração, as tendências naturalistas predominaram, exaltando-se a terra, o nativo e o destino grandioso da nova nação. As principais características da primeira geração são o Nacionalismo, o Indianismo, Religiosidade e Saudosismo. Os autores que mais se destacam são: Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães e Manuel de Araújo Porto Alegre.

Segunda Geração (1850 – 1860): O mal do século ou byroniana.

Nesta fase, o Romantismo brasileiro foi dominado por jovens estudantes universitários, que absorviam a literatura desenvolvida na Europa e procuravam vivê- la aqui, embora os contextos fossem diferentes. O romantismo atinge por volta de 1850, seu ponto culminante e mais egocêntrico com o Ultra-Romantismo ou mal do século. Byron e Goethe marcariam esta geração que optou por um sentimentalismo exagerado e pelo escapismo. As características mais marcantes desta geração são: Subjetivismo exagerado, Tédio constante, Vontade de sofrer, Fuga da realidade, Obsessão pela morte, Melancolia e pessimismo. Nesta fase destacam-se os autores: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire, Laurindo Rabelo e Joaquim de Souza Andrade – Sousândrade.

Terceira Geração (1860 – 1875): Condoreira.

O excesso de subjetivismo acabou por saturar os poetas que, sentiram necessidade de resgatar os valores genuínos da escola. No Brasil, com a escravidão, as campanhas abolicionistas e as primeiras manifestações pela República, havia vários assuntos para os poetas trabalharem e discutirem. A preocupação desta geração era toda voltada ao social e a denunciar as mazelas em que vivia a sociedade.

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As características mais marcantes desta geração são: linguagem elevada (tão

elevada como o vôo do condor, que simboliza a liberdade) e a preocupação social,

com a abolição e a decadência da monarquia.

O poeta que mais se destacou nesta geração foi Castro Alves.

1.4. CARACTERÍSTICAS DOS POETAS E DAS POESIAS ROMÂNTICAS

Abaixo, citaremos algumas características mais importantes da poesia

romântica e tentaremos exemplificar através de trechos da poesia de Júlia da Costa.

Gostaríamos de esclarecer que mantivemos a grafia original da poetisa em

todas as citações deste trabalho.

Imaginação Criadora

Os poetas românticos criam mundos imaginários, e acreditam na realidade

dos mesmos. Do choque do seu Eu com o mundo, o escritor romântico se evade na

aspiração por esse outro mundo distinto situado no passado ou no futuro e onde ele

não encontre as dificuldades que enfrenta na realidade. Encontra o poeta neste

mundo encantado, uma realidade mais amena e mais prazenteira.

O poeta interpreta, a seu modo, o mundo, e através do familiar e o

transcendente eterniza o mundo sensível que cria.

Segundo Carlos da Costa Pereira, a autora também vivia em seu mundo de

fantasias e idealizara em Benjamin Carvoliva o amor de sua vida:

(PEREIRA,1982:41)

“Parece que a poetisa, tendo vivido até aí nesse mundo de fantasias criado pela sua imaginação de fogo, este fanatismo terrível que a fazia acreditar nos sonhos impossíveis, acabara por corporalizar nesse jovem, o ser irreal, essa imagem, essa sombra que morava em sua mente e evocara várias vezes em sua poesia”.

Abaixo, inserimos um trecho da carta IX, escrita pela poetisa a Carvoliva,

(PEREIRA, 1982:41): “Abençoado sejas tu que me fizeste sentir o amor, esse

fantasma errante tantas vezes procurado em meus sonhos de criança.”

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Neste fragmento de carta, podemos perceber a evasão da poetisa, que vive

em seu mundo encantado e idealiza em um rapaz mais jovem e despreparado, o

amor de sua vida.

Subjetivismo

Este é um dos traços fundamentais do Romantismo. A realidade é revelada

através da atitude pessoal do escritor, através do seu ponto de vista. O artista traz à

tona o seu mundo interior, com plena liberdade.

Extraímos da obra Um século de Poesia, (1959:10), o fragmento da poesia “O

que é a vida”:

A vida, a vida, o que é ella?

Estrada de peregrinos

Que de cançaço adormecem No leito da desventura!

Evasão (ou Escapismo)

O poeta procura fugir para o mundo imaginário que criou. Este mundo é

idealizado à base do sonho, das emoções pessoais. Pode ocorrer também que surja

ainda um novo choque entre o mundo sonhado e o mundo real e a solução seja

evadir-se para a solidão, para o desespero e para a evasão das evasões: o suicídio,

a morte, que não é o caso da poetisa Júlia da Costa. Extraímos de Um século de

Poesia, do Centro Feminino de Cultura (1959:15) o fragmento da poesia “Sonho”.

Cahi na relva sem alento e vida!

- Ai que desperta – s’extinguira o sonho!

- Tão doce imagem para mim perdida!

Senso do Mistério

Decorre da visão pessoal da realidade, que aparece envolvida de

sobrenatural e terror. O artista romântico é muito místico, a morte está sempre

presente, é como se cada instante fosse o último e o poeta não pudesse vivê-lo da

maneira que deseja. A vida surpreende o artista a cada instante, na medida em que

varia o seu estado de espírito.

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Abaixo, um trecho de “Página Solta”, poesia extraída de Um Século de

Poesia, (1959:72).

- Eu sou a alma de um morto Pela saudade velada

Consciência da Solidão

O poeta não se adapta ao mundo real e não encontra lugar nele para si.

Mergulha, então, num mundo interior pois o exterior não o compreende. O poeta crê

ser o único a lutar por sua causa, tem consciência de sua solidão sentindo-se

entediado.

“Adeus” – trecho de poesia retirada de Um século de Poesia, do Centro

Feminino de Cultura, (1959:31):

Sou orphã! Partirei! Ninguém em prantos Ha de lembra-se de meu nome – não!

Reformismo

É também uma característica do artista romântico, tentar melhorar o mundo.

Propõe-se a reformá-lo. Essa preocupação leva-o ao sentimento revolucionário que

o aproxima dos movimentos libertários bastante numerosos na época e à

exacerbada admiração por grandes personalidades políticas e militares devido ao

contexto histórico em que está inserido.

Segundo Carlos da Costa Pereira, Júlia da Costa teria escrito a poesia

“Harmonias do Crepúsculo” a Alfredo d’ Escragnolle Taunay, pois ficou deslumbrada,

ao ouvir as palavras ardentes e arrebatadas daquele homem descrevendo a

paisagem de São Francisco, após ter sido eleito deputado geral pelo 1º distrito. Um

homem que ainda moço, já era célebre e trilhava o caminho da glória e da

imortalidade. Da obra Traços da vida da poetisa Júlia da Costa, (PEREIRA,

1982:52):

E o autor das “Histórias Brazileiras” A meus olhos ressurge entre ovações!

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Sonho

É outra saída, como vimos, um novo tipo de evasão. É uma aspiração por um

mundo diferente, freqüentemente representado por símbolos e mitos. Abaixo, um

trechinho da poesia “Fantasia” de Um Século de Poesia, (1959:46)

O anjo calou as vozes, E eu sorrindo acordei!

O escritor crê em si mesmo e no mundo ou mundos que cria, em seus ideais

e reformas que prega. Na intuição, mesmo contra os ditames da razão e mesmo

contra toda e qualquer lógica. Extraído de Um século de Poesia, (1959:43), “O

Peregrino”:

Embalde, não posso, não ouso um momento Fugir do destino – de leve parar!

Ilogismo

A emoção prevalece à razão e leva a uma instabilidade emocional traduzida

em atitudes antitéticas ou paradoxais: alegria e tristeza, entusiasmo e depressão. De

Um Século de Poesia, (1959:19), um fragmento de “Accordes poeticos”:

Velando ou dormindo, tristonha ou alegre, Só amo – meus campos – meu solo – meu céu!

Culto da Natureza

Na sua evasão, o romântico encontra na natureza o lugar de bem-estar, de

tranqüilidade, onde o seu espírito pode encontrar a paz. É a natureza capaz de

inspirá-lo, de cuidar dele, de velar a sua morte. Não nos esqueçamos que é

sobretudo romântica a idéia de um herói nacional, do homem em estado de

natureza, ainda não contaminado pelos vícios da civilização. Na próxima

característica do Romantismo, inseriremos a poesia “Canticos” que também se

encaixa nesta característica.

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Retorno ao Passado

É a busca no passado por uma inspiração nova, se o mundo atual leva ao

conflito. No Brasil, tal atitude, levou à exaltação do índio. Visto como nobre, forte e

poderoso. Figura ideal de herói que a nossa literatura necessitava, é uma tentativa

de nacionalização do herói medieval com características nacionais. De Um Século

de Poesia (1959:55) tiramos a poesia “Canticos” em que a poetisa menciona a

imagem do índio.

Pela voz da patativa Que voeja pensativa, Me responde, Indio cantor!

Gosto do Pitoresco

Ainda a procura de novas situações, conduz o romântico às terras distantes,

às florestas virgens, às paisagens orientais, ligadas como se depreende, a várias

das características já apontadas. Sempre uma forma de evasão, uma fuga para um

ambiente mais inspirador. Extraímos esta poesia de Um Século de Poesia,

(1959:24):

Quando no centro dos bosques A rolinha pipilar. Uma saudade me manda Nas ondas do alto mar

Exagero

O Romântico não admite meio termo, as qualidades e os defeitos são

radicalmente colocados. Porém, a perfeição não existe no Romantismo, o que faz o

poeta sentir-se deprimido e entediado por não conseguir alcançar essa perfeição tão

sonhada que se situa num tempo ou lugar distante ou sonhado apenas. (PEREIRA,

1982:51)

Tu no piano és sublime, E só me incutes desejo De te imitar num harpejo, De teus adejos seguir.

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Liberdade de Criação

No Romantismo, o escritor procura se expressar por uma atitude pessoal,

individual, que pretende ser única. Expressar-se significa exprimir sua

personalidade, independentemente de quaisquer regras ou moldes pré-

estabelecidos. De Um Século de Poesia, (1959:63), “Sonhos ao Luar”:

Eu

Que me inspira a solidão; Amo a lua que me falla Do passado ao coração

tambem amo a saudade

Sentimentalismo

Enquanto o artista clássico analisa e expressa a realidade, sobretudo através

da razão, o romântico vale-se dos sentimentos. Por isso, é o sentimento de cada um

que define a importância ou não das coisas. Como já dissemos anteriormente, o

poeta romântico tem liberdade para analisar o mundo como deseja, e se ele tem

uma visão equivocada das coisas, não irá mudá-la mesmo que se prove que está

enganado. O sentimento prevalece à razão. “Ecos Longínquos”, de Um Século de

Poesia, (1959:37).

Poetisa não sou; por Deus, não digas Que meus cantos te inspiram; não prosigas Nessa amarga ironia, ó trovador!

Ânsia de Glória

Os poetas são particularmente egocêntricos. É seu desejo ser o centro da

sociedade em que vive. Inclusive a poetisa Júlia da Costa, sente a necessidade de

ser notada. No fragmento que tiramos da obra Vida de Júlia da Costa, (LIMA,

1953:09), podemos ver este fato:

Buscava uma alma que entendesse a minha E busco-a ainda e o coração definha

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Importância de Paisagem

A paisagem é, além de pano de fundo, cúmplice do poeta romântico. Ela é

confidente e lhe guarda os segredos. Enquanto no Renascimento, no

Neoclassicismo e no Naturalismo a paisagem apresentada permanece impassível,

no Romantismo, bem como no Barroco, se solidariza com o artista, fazendo parte de

seu mundo íntimo. Um Século de Poesia, (1959:43), fragmento de “A tardinha”

Guarda,

ó tarde, o meu segredo

A sombra dos arvoredos!

Gosto pelas Ruínas

A Natureza será sempre superior ao homem. Triunfo da natureza sobre o

esforço meditado na inteligência. De um Século de Poesia, (1959:44), “Rosa

Murcha”

Pisada, ainda ella esparge Perfumes de poesia!

Gosto pelo Noturno

Atende ainda a atmosfera de mistério, tão de preferência romântica. A noite

traz um ar sombrio propício à poesia romântica. De Um século de Poesia, (1959:45),

“A noite”.

A noite desce tenebrosa e fria

Como um phantasma pela terra nua, E a crença expira no vigor dos sonhos, Ao simples toque da roupagem sua

Idealização da Mulher

A mulher – objeto do amor romântico – é divinizada, cultuada, pura,

aparecendo às vezes envolta numa atmosfera de mistério. No caso de Júlia da

Costa, sua inspiração era baseada em Benjamin Carvoliva, o noivo que escolhera e

não pode ter: De Um Século de Poesia (1959:48)

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Tu és loiro e formoso! Eu te idolatro Como a mãi ao filhinho que criou!

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CAPÍTULO 2

BIOGRAFIA DA POETISA JÚLIA DA COSTA

“Sou como rosa do tufão batida”

Júlia Maria da Costa nasceu em Paranaguá em 1º de julho de 1844. Em 1849,

seu pai, Alexandre José da Costa, falece, e sua mãe permanece com a única filha

do casal na cidade por mais cinco anos. Passando por muitas dificuldades, D. Maria

Machado da Costa, decide mudar-se para sua cidade natal com a filha, então com

dez anos, segundo menciona Carlos da Costa Pereira citando em sua obra

Sacramento Blake (In: Pereira, 1982:18)

“Na idade de dez anos, (Júlia da Costa) órfã de pai, passou a residir com seu tio, o tabelião João José Machado da Costa, na cidade de São Francisco, da Província de Santa Catarina”.

A mudança para São Francisco foi abrupta para a poetisa. Podemos verificar

este fato nos fragmentos das poesias extraídas de Um Século de Poesia, “A Orphã”,

(1959:14) e “Minha Terra”, (1959:28)

Em “A orphã”:

Implume

e fraca avesinha

Do patrio ninho banida, Soluça triste na terra Qual vibração que perdida Vagueia de serra a serra De todo o mundo esquecida!

Em “Minha Terra”:

Mas

é tudo p’ra mim impossivel!

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Tudo é sonho! chimera! ilusão!!! Só real a saudade que sinto Nesta negra e cruel solidão

Júlia da Costa publica no período de 1867 e 1868 suas obras poéticas “Flores

Dispersas”. Seus escritos tiveram boa aceitação da crítica.

Para mais fácil compreensão da vida e obra da poetisa, classificamos a biografia de

Júlia da Costa em três fases:

PRIMEIRA FASE – AINDA HÁ ESPERANÇAS

“O céu é azul e os pássaros cantão”

Nesta fase da vida, Júlia era melancólica e havia criado um mundo de ilusão

só seu.

Como uma poetisa romântica, ela se evadia da realidade de estar

envelhecendo, de estar solteira ainda aos vinte e poucos anos, de ainda não haver

“encontrado uma alma que entendesse a sua” (LIMA, 1953:09)

Procurava escrever, suas poesias, que foram reunidas em dois volumes

denominados “Flores Dispersas”, 1ª e 2ª séries publicados nos anos de 1867 e

1868. Falava nas poesias da saudade que sentia de sua cidade natal, Paranaguá,

de onde saiu ainda criança, aos dez anos, conforme citamos anteriormente, após a

morte do pai. Falava também da Natureza, quase sempre tão doce, suave e

delicada. Falava de suas tristezas, devaneios e sonhos. Das rosas, que a

acompanhariam por toda a vida. Há quem diga que era Júlia da Costa conhecida

como a “Poetisa das Rosas”.

Até que no período de 1869 a 1871 alimentou por Benjamin Carvoliva,

professor de primeiras letras, uma grande paixão. Encantou-se pelo rapaz, e

idealizou nele o homem de sua vida. Poeta, jovem, bonito, Carvoliva era para Júlia

um sonho impossível do qual ela, embora soubesse da impossibilidade, não queria

abrir mão, pois ele já fazia parte de seu mundo encantado, de uma realidade mais

amena, que a fazia sonhar. E acreditava ainda, que ele enfrentaria por ela todos os

obstáculos, coisa que não aconteceria, visto que ele era muito jovem para assumir

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um compromisso tão sério como a poetisa esperava, noivado, casamento. Estava

ainda ele descobrindo o mundo, ao passo que, conforme vimos, a poetisa estava

passando da idade de ter uma família. E viviam, ela e a mãe, na casa de um tio, de

favor, e Júlia não manifestava interesse por ninguém, o que certamente não era de

agrado da mãe e do tio. Um dia a mãe da poetisa descobre o seu envolvimento com

Benjamin e manda saber do moço se era sua intenção casar com a poetisa.

Surpreso, sem dúvida, o rapaz diz estar destinado ao sacerdócio, não

podendo se casar com a moça. E fugiu, sem mais responder as cartas da poetisa,

que ficou sem saber o que se passava com seu amor. Mais tarde, segundo Lima, a

mãe relata o que houve, e Júlia, magoada, ofendida e revoltada, mergulha-se em

uma vida de festas, mostrando-se extrovertida e simpática, tentando esquecer

Benjamin. Menciona ainda Lima que em 1870, deram à poetisa a notícia do noivado

de Benjamin, notícia esta, que a faria decidir casar-se com o Comendador.

O noivado de Benjamin Carvoliva do qual temos conhecimento, só ocorreu

em 1879, cuja noiva era Izabel Dias Bello, com quem o poeta veio a casar-se.

Encontramos então a hipótese de que a mãe, o tio e talvez o próprio

Comendador, cansados de esperar a resposta de Júlia, decidiram acelerar este

processo de decisão, aproveitando-se da ausência de Benjamin e do fato de que a

poetisa não poderia com ele se comunicar, dando a ela uma falsa notícia que a

feriria tanto no coração quanto no orgulho. Foi assim que a poetisa decidiu ser a

Senhora Costa Pereira. Algum tempo depois de casada, reata a correspondência

com Benjamin, que não se encontrava nem casado, nem noivo. E é nesta afirmação

de Lima e neste trecho da carta XLI, escrito pela poetisa, que formulamos esta

hipótese: (LIMA,1953:90)

Mas “

ias casar? O que senti nesse momento, não te posso exprimir: pareceu-me que se partia a derradeira corda que me prendia à vida, com a tua ingratidão. Tive coragem de

criminar-te, de amaldiçoar-te até!

um dia, um genio máo segredou-me aos ouvidos que

E assim, continuaram trocando cartas, até que a poetisa, propõe a Benjamin

que fujam para que possam viver juntos. E mais uma vez, mostrando que não

enfrentaria todos os desafios que a vida colocasse em seu caminho por ela, o poeta

24

foge. O que é confuso de se entender, é porque Benjamin voltou a procurar a

poetisa se não queria nada mais sério e sabia que ela o amava, que era impulsiva e

capaz de tudo por seu amor. E, em 1879, o moço noiva com Izabel e com ela se

casa, algum tempo depois, sem mais se importar com a poetisa, que ficou sem

saber o que ele pensava a respeito de sua proposta, e quais eram suas verdadeiras

intenções para com ela.

SEGUNDA FASE – DESILUSÃO

“O céu é azul e os pássaros são mudos”

Após esperar em vão uma resposta à sua carta em que propõe que fujam

para poderem viver uma vida em comum, Júlia descobre que pela segunda vez,

Benjamin havia fugido.

Mais chocante do que isso, seria para a poetisa, a notícia de seu noivado com

Izabel Dias Bello em 1879. Esta notícia chega a abalar o estado de saúde da

poetisa, conforme vimos em carta escrita ao primo Joaquimsinho de Paranaguá,

data de 15 de setembro de 1879, (PEREIRA, 1982:47):

“Sinto-me doente acreditas. Tão doente que temo não ver as

flores desta primavera que começa

Inicia-se, então, a segunda fase da vida da poetisa. Total desilusão.

Ela não quer mais lembrar do sentimento que nutria por Benjamin. É hora de

enfrentar a vida como ela realmente é, fazer um esforço para esquecer quem não a

amava.

Decide, então, expor uma alegria que não sente, e nem mesmo sentirá em

sua vida.

Pinta de negro seus cabelos loiros, que Benjamin admirava em uma época

em que só meretrizes o faziam. Pinta o rosto para espantar a palidez de tanto

sofrimento. E lança-se com o intuito de esquecer seu poeta, em uma vida social

muito intensa, de bailes e festas nas quais seu esposo a acompanhava. Passou a

25

escrever febrilmente. Mais que uma evasão, era essa a sua maneira de enfrentar as

adversidades, era essa a sua atitude. (LIMA, 1953:112)

Embalde, embalde, no ruido insano

Das doidas festas eu procuro a vida!

Meu corpo verga

meu alento foge

Sou como a rosa do tufão batida!

Na última estrofe da poesia Queixas, podemos perceber que para a poetisa,

tudo é em vão, uma desilusão muito grande mostra-lhe que não há esperanças.

Em 1892 falece o Comendador, aos setenta e sete anos, seu companheiro de

uma vida infeliz. Pouco tempo mais tarde, falece sua mãe, e a poetisa fica muito só.

Porém, a revolução de 1894, movimentou, segundo Lima, a pacata cidade de

São Francisco. A poetisa ouviu então, que o seu ainda amado Carvoliva havia sido

preso. Ansiava então por notícias do poeta e não hesitou em receber em sua casa

(em uma época em que mulheres viúvas ou solteiras, ficariam muito mal faladas ao

fazê-lo) o Alferes Batista que sem saber, lhe daria informações sobre seu amado

Benjamin.

E assim foi, sempre o recebia em sua casa. Até se descobrir quase aos

cinqüenta anos apaixonada por um rapaz muito mais jovem do que ela.

Infelizmente para a poetisa, o rapaz estava apenas interessado em seus

bens, e quando descobriu que o que lhe restou da herança do Comendador, não era

muito, tratou de mudar-se logo, prometendo voltar. Mas este dia não chegou.

Nova desilusão para a poetisa, que segundo Pereira, estava interessada em

casar-se novamente. Recolhe-se então em seu casarão. Não saindo mais dele em

vida.

TERCEIRA FASE – DEMÊNCIA

“Há vozes que vibram

Que vibram no escuro”

Cremos ser esta a maneira que Júlia encontrou para enfrentar esta nova

rejeição em sua vida. Uma nova evasão, a evasão através da reclusão e demência.

26

Queria passar a viver em outro mundo, um mundo em que não a rejeitariam,

como fizeram os dois amores de sua vida. Cria então, um mundo novo, caótico,

diferente do anterior, neste novo mundo, as pessoas ao invés de a rejeitarem, a

perseguem. Há inclusive o fato de que Júlia acreditava que sua vizinha queria fazer

uma passarela que daria passagem através de sua janela para espionar-lhe a vida.

Este fato, extraímos do livro de Carlos da Costa Pereira, nos relatos feitos por

Lopes Serrão (In: Pereira, 1982:63), cujo pai era locatário da parte térrea do sobrado

em que vivia a poetisa. Outro fato também é interessante:

“Em seguida, deu para despejar água dentro de casa, e isso muitas vezes durante o dia, ‘para afugentar os inimigos’ pois estava atacada da mania de perseguição.”

Tais fatos ocorrem no início de 1900, segundo relatos de Serrão, o que quer

dizer que a poetisa viveu esta fase mais difícil de sua vida por onze anos, até lhe

chegar a morte. Ainda neste mundo perturbado escreveu suas últimas “quadras”:

Tanto sol desperdiçado, Tantos dias sem valia; Tanto sonho espedaçado Tantas noutes de agonia 3 de Maio – 1906

Nem uma gaivota paira No azul triste dos mares; Tudo é silencio profundo Tudo diz agros pezares. 4 de maio

Ha vozes que vibram, Que vibram no peito E lembram pesares De um sonho desfeito.

Ha vozes que vibram No peito dormente E lembram sonhares De um mundo presente

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Ha vozes que vibram Que vibram no escuro E lembram delicias De um bello futuro. 16 de maio – 1907

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2.1. AS VISÕES DE CARLOS DA COSTA PEREIRA E ROSY PINHEIRO LIMA

A visão escrita sobre a vida da poetisa pelo historiador Carlos da Costa

Pereira, sobrinho neto do Comendador Costa Pereira, é mais realista e crítica. Ele

tinha por objetivo esclarecer os fatos que foram comentados sobre a pessoa do

Comendador e que não podiam ser provados.

Em Conferência no Clube Literário de Paranaguá, Nascimento Júnior alega

que a poetisa foi infeliz no casamento pois seu esposo teria um comportamento

divergente das regras morais e éticas que fundamentavam a vida da autora:

(PEREIRA, 1982:24)

Esposo “

de instalar uma concubina na parte térrea de sua residência

familiar”

“ Um verdadeiro carcereiro enciumado duma alma que não soubera compreender e por isso a martirizava com grosseiras expressões burguesas”

concupiscente e rústico, o qual chegou ao cúmulo

Segundo as pessoas que o historiador entrevistou, este fato não procede,

pois na parte térrea da residência ficavam os escritórios do Comendador, não

havendo possibilidade de alguém ali residir. A própria poetisa em carta ao tio,

menciona que o esposo esteve à beira da morte e que se salvou por um milagre e

que ela estava começando a se recuperar da refrega ou abalo que levou.

Ora, se ela tivesse sido tão ofendida como se diz, tendo boas condições, duas

escravas, não teria ela própria cuidado do esposo! Na realidade, o esposo tinha sim,

duas amantes, mas sempre foi um homem discreto e não se sabe se Júlia sabia

deste fato, ou não, poderia saber e não se importar, afinal, guardava-se para o seu

amor, ou poderia de fato, não saber.

Porém, expondo a verdadeira imagem do Comendador, que sem dúvida foi

uma pessoa digna e correta, do contrário não teria sido tão estimado em sua cidade,

Pereira acabou vulgarizando a figura da poetisa.

Quando menciona que Júlia escreveu duas poesias a Alfredo Taunay, o

historiador diz que a poetisa teria ficado “deslumbrada ao ouvir as palavras ardentes

e arrebatadas daquele homem ainda moço e já célebre, a caminho da glória e da

imortalidade”. Lemos em Estilos de Época na Literatura, de Domício Proença Filho,

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que uma das Características do Romantismo, período literário no qual se encaixa a

poetisa, é o Reformismo (PROENÇA Fº, 1969:188):

“Reformismo: Também, ao invés de isolar-se, o artista se propõe reformar o mundo. Essa preocupação leva-o ao sentimento revolucionário que o aproxima dos movimentos libertários bastante numerosos na época e à exacerbada admiração por grandes personalidades políticas e militares”.

Essa característica explica a atitude da poetisa que tinha opinião política

mesmo que dissesse o contrário (LIMA, 1953:129):

Agora, á vista dos fatos que se tem desenrolado nestes últimos mezes, comprehendo bem tuas palavras. Na verdade, meu primo! Estamos atravessando uma quadra bem triste! Quando eu te dizia que o Brazil ainda não estava preparado para ser Republica, censuravas o meu afinco à monarchia. Bem ves, que tudo caminha aos trambulhões; esta republica feita ás pressas, sem protesto, sem nada, sahio defeituosa. Felizmente a obscuridade em que hoje vivo, me põe a salvo de muitos dissabores. Não tenho opinião política, aborreço tudo que me cerca, porque guardo n’alma uma dor profunda

Em outra asserção, Pereira expõe: (PEREIRA, 1982, p. 48)

“Inúmeras mulheres daquela época contrariadas em seu amor ou desprezadas pelo homem a que dedicaram todo o seu afeto, morreram de consunção. Júlia da Costa, ao revés, engordava, e como vinha fazendo desde que casara, continuou a distrair-se, promovendo reuniões familiares em sua casa e comparecendo com o marido a todas as festas que se realizavam em São Francisco”.

Ora, a poetisa amava Benjamin, isto é fato. O próprio historiador expõe que a

relação do casal era amistosa, tanto que, conforme dito anteriormente, o assistia em

suas doenças, havia por certo, laços de carinho entre ambos.

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Além do mais, Júlia havia tido uma nova desilusão com o poeta, ele

novamente fugiu sem dar resposta à sua proposta, sem dar importância ao seu

amor. Então como ela mesma dizia ao tio Ricardo, (LIMA, 1953:119)

Estou “

bailes seguidos. Bem sabe é preciso a gente atordoar-se para viver; o mundo é tão triste, que é preciso esquecermos

a realidade para affagarmos a illusão.”

um tanto cançada de festa, novenas, missas e dois

As festas já não lhe davam prazer mas a distraiam. Nada melhor do que uma

vida social intensa para Júlia tentar esquecer o seu amado Carvoliva. Embora bem

se saiba que somente o tempo é o remédio para este mal. E o Comendador a

acompanhava sempre. Era um bom companheiro e o fato de Júlia ter se casado sem

amor, por obrigação, conveniência, ou não, não justifica o fato de querer fugir com

seu amado, abandonar uma vida triste porém confortável e um esposo que lhe

tratava bem.

Inclusive pelo fato de que na época em que estava inserida, em que uma

mulher rebelde, ou melhor, à frente de seu tempo, como foi Chiquinha Gonzaga, sua

contemporânea, que se separou do esposo, foi tão discriminada e vítima de

inúmeros preconceitos. Imagine-se então uma mulher casada fugir com o amante!

Era uma barreira que a poetisa queria atravessar por Benjamin Carvoliva.

Loucura, ou não, o amor justifica. O movimento romântico pode explicar. Esta atitude

era normal dentro de um mundo íntimo que a poetisa criou e onde tais ímpetos de

insensatez, evasão, amor e até mesmo loucura eram totalmente compreensíveis.

Compreensíveis para quem ama.

Encontramos no dicionário Aurélio os seguintes significados para a palavra

amor:

Amor (ô) sm. 1. Sentimento que predispõe alguém a desejar

o bem de outrem. 2. Sentimento de dedicação absoluta de

um ser a outro, ou a uma coisa. 3. Inclinação ditada por

laços de família. 4. Inclinação sexual forte por outra pessoa.

5. Afeição, amizade, simpatia. 6. O objeto do amor (1 a 5).

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Acreditamos ser a segunda definição a mais apropriada para explanar o

sentimento da poetisa pelo poeta Carvoliva. Sentimento de dedicação absoluta de

um ser a outro. Se a dedicação for absoluta, não há espaço para outra pessoa, nem

mesmo o próprio esposo, por mais amável, bom e companheiro que seja.

Outra questão em que o historiador é categórico, é o fato de não se ter

encontrado na época fotos da poetisa, ele então afirma que a poetisa não era bonita

fisicamente (PEREIRA, 1982:53):

“Podemos afirmar que a natureza, nesse ponto, lhe fora mesquinha, devendo-se levar esse perfil que procuraram fazer da poetisa, à conta da extrema admiração pela conterrânea, por um lado, e rematada gabolice, por outro”.

Aparece, porém, algum tempo depois, o retrato da poetisa, em preto e branco,

e, não sabemos dizer se é este ou não aquele que tirou para seu amado Benjamin

conforme cita na carta XLI (LIMA, 1953:97): “

Contempla esse retrato: era assim que te fictava quando me dizias: Amo-te!”

Sendo o retrato tirado em preto e branco, e possuindo apenas cópias tiradas

de livros e digitalizadas para inserir no presente trabalho, não sabemos dizer se esta

foto é a que tirou para seu poeta pois, até que fuja pela segunda vez, ela era loira e

ele adorava seus cabelos conforme vemos na citação: (LIMA, 1953:113)

Adeus! Nada mais devo dizer-te

Ela é alva como o lyrio e louros são seus cabellos que em ondas descem-lhe bellos ouro a flux que se derrama! E beijei-te os cabellos perfumosos (B. C.)

Este retrato, único até a presente data, repousa sobre o piano da poetisa que

encontra-se no Museu Histórico de São Francisco

Já a versão escrita pela paranaense Rosy Pinheiro Lima, é uma visão muito

mais romântica e, segundo Muzart, é um trabalho pioneiro de resgate da biografia e

produção poética da poetisa. Lima, fez ricas pesquisas, teve inclusive em mãos as

correspondências que a poetisa remeteu a Benjamin Carvoliva as quais estavam em

32

poder do neto do poeta. Segundo Muzart, Lima copiou todas as cartas exatamente

como foram escritas.

Lima também acredita que Benjamin amava a poetisa, por isso, segundo ela

mesma diz, romanceou um pouco a história, como por exemplo quando ele recebe a

última carta da poetisa, (LIMA, 1953:109):

Mas o jovem idealista envergonhou-se de ser menos generoso. Talvez o fizesse, sem a compreensão total do que fazia, mas pôs o melhor de sua alma naquele propósito de renúncia para o bem da amada. O seu amor só poderia trazer à Júlia insegurança e infelicidade. Ela merecia paz. Então jurou, diante da janela aberta, tomando por testemunhas o céu e o mar e o vento que passava, – jurou chorando, o coração dilacerado – jurou conservar-se fiel ao seu amor até o fim da vida.

Há porém algumas contradições nesta obra que dificultam a compreensão

dos fatos da vida da poetisa.

Por exemplo, na página 83 da obra Vida de Júlia da Costa, Lima menciona

que o pai da poetisa faleceu em 1879. Na realidade, lemos na obra do historiador

Carlos da Costa Pereira que a morte do pai da poetisa se deu em 1849, quando a

poetisa contava com cinco anos de idade. Na data exposta por Lima, a poetisa já

contava com trinta e cinco anos estando há muito casada com o Comendador.

Também na anotação que Carvoliva teria feito na carta da data, temos 22-11-7.

Seria então datada de 22-11-1877?

E o que é mais contraditório ainda é que Lima alega que “em fins de maio de

1870, Júlia ouviu a notícia que a faria decidir-se afinal (se aceitaria ou não casar-se

com o Comendador). O éco de alguma conversa ociosa. Carvoliva estava noivo! Eis

como a poetisa narra ao namorado o que se passou”: (LIMA, 1953:90)

Mas, um dia, um gênio máo segredou-me aos ouvidos que ias casar? O que senti neste momento não te posso exprimir: pareceu-me que se partia a derradeira corda que me prendia à vida, com a tua ingratidão. Tive então a coragem de criminar-te de amaldiçoar-te até! Chorei por muitas noites; mas depois tomada de uma esperie de desespero, fictei o mundo e atirei-me no remoinhar febril da vida

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E Lima, na página 117 da mesma obra, menciona novamente o noivado e o

abalo de saúde da poetisa: “

não o esquecera”. A notícia do noivado e posterior casamento de Carvoliva em

1880, chegou a abalar-lhe a saúde ”.

porém, sob a adotada máscara de indiferença,

Júlia,

Isto pode criar uma nova hipótese e possibilidade sobre a vida da poetisa:

Teriam dito à poetisa que Benjamin estava noivo para que ela se desiludisse e

aceitasse o pedido do Comendador ou quem sabe Benjamin ficou noivo por duas

vezes? O que é pouco provável. Porém, se a poetisa foi enganada a respeito do

noivado, tudo muda de figura, aí podemos até entender o que ela quer dizer em

carta a Carvoliva, (LIMA,1953:106):

“ Quando arrastada pelos cabellos fui conduzida aos

altares, fitei o crucificado que com os olhos cerrados não

podia ver tanta maldade, e sem saber por que tornei-me insensivel a tudo.”

Estranho também, é o fato de Rosy mencionar a carta de 1º de abril de 1893

como sendo alusiva ao próximo enlace, se ela própria menciona anteriormente que a

poetisa conheceu o alferes durante a revolução de 1894, para saber notícias de

Benjamin. (LIMA, 1953:124): “Achava interessante e conservadíssima aquela mulher

que devia ter quasi 60 anos e, na janela, ao alto, parecia ainda uma jovem

sonhadora”.

Rosy cita ainda a poesia “Canção Juvenil”: (LIMA, 1953:126)

“ Agora aos sessenta, sou rosa encarnada,

Intrigante também, é que Carlos da Costa Pereira, (PEREIRA, 1982:61) relata

que:

“Tinha ela quarenta e nove anos e o alferes apenas uns 25”.

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Mas destas contradições a mais interessante é a possibilidade de terem contado a ela uma inverdade com o objetivo de fazê-la casar com o Comendador. Afinal, Júlia da Costa já era considerada “solteirona” aos vinte e seis anos. Se o tal fato realmente ocorreu, é possível entender porque a poetisa não teria escrúpulos em fugir com seu amado e deixar o bom esposo, que a tratava bem, é verdade, mas a quem não amava e não queria se entregar. Há inclusive a possibilidade de que o Comendador soubesse da trama, se é que ela realmente existiu, e que ao que nos consta, era comum acontecer na época, visto que a mãe e o tio da poetisa se a pressionaram mesmo a casar, é porque acreditaram que era o melhor para a moça.

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CAPÍTULO 3

ANÁLISE DAS POESIAS DE JÚLIA DA COSTA

Nesta análise que fazemos de algumas poesias de Júlia da Costa, podemos

perceber que a poetisa deixou transparecer em sua obra as três fases em que viveu:

Fases de Esperanças, Desilusões e Demência. Estas fases estão intimamente

ligadas às poesias que seguem, nas quais podemos ver os seguintes temas:

Esperança, Otimismo, Fé, Valorização do Ser, Desilusão e Demência.

Accordes poéticos – Extraída de Um século de Poesia (1959:19)

Não tenho segredos! é pura minh’alma! Qual candida aurora rasgando o seu véo! Velando ou dormindo, chorando ou sorrindo, Só amo – meus campos – meu solo – meu céu!

Cresci sobre um ermo tristonho e sombrio Soltei nas campinas meu primo cantar! Saudei nas montanhas o sol que nascia, Brinquei entre moitas ao claro luar!

Sou jovem, sou meiga! Sorri-me o futuro Nas fimbrias doiradas de auroras de paz! A flor das campinas só ama o infinito

Do céu das venturas

não quer nada mais!

As flores dos prados não causão-me inveja, Que hei flores mimosas no meu coração! Laureis e grandezas, eu não, não aspiro! Não quero ter goso tão falso, tão vão!

Não tenho segredos! é pura minh’alma! Qual candida aurora rasgando o seu véo! Velando ou dormindo, tristonha ou alegre, Só amo – meus campos – meu solo – meu céu!

Nesta poesia, a autora expõe que as únicas certezas que tem são as do amor

que ela oferece à natureza, pois nesta época ainda não havia se apaixonado por

ninguém, e a da fé que tem em si mesma.

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Admiradora das flores e da natureza, a poetisa mostra que elas não lhe

causam inveja, pois não aspira recompensas ou grandezas que de nada servem.

Acredita no futuro, e que, embora tenha ele, adversidades, como vemos nas

antíteses tristonha ou alegre, se pode ser feliz, independente do lugar, pois a fé a

guia para enfrentar qualquer desafio.

Em “Accordes Poeticos”, a poetisa tem muita esperança e otimismo e acredita

que tudo vai dar certo.

Podemos citar como principais características deste poema:

Imaginação Criadora – Pelo fato da poetisa acreditar no que crê ou no

que quer, ou seja, está otimista e crê que tudo dará certo em sua vida:

“Sou jovem, sou meiga! Sorri-me o futuro”

Fé – A poetisa além de criar a sua realidade, tem muita fé em si

mesma e no que criou: “Não tenho segredos! É pura minh’alma!”

Importância da Paisagem – A paisagem além de pano de fundo é

cúmplice da poetisa, uma amiga inigualável, sua cúmplice fiel: “Só amo

– meus campos – meu solo – meu céu!”

As imagens presentes no poema são juventude, idealismo e confiança, flores,

paisagem propícia ao otimismo e luz. A luz é também um símbolo da esperança e da

força interior da poetisa. Acompanha este simbolismo de luz, o sol, que resplandece

sobre a vida da poetisa.

Já em “Rosa Murcha”, que também pertence a esta primeira fase, Júlia da

Costa se mostra mais madura, com consciência de que as coisas podem não sair

como espera, mas que é preciso ter força e perseverança para continuar a sua

jornada.

Rosa Murcha – Extraída de Um Século de Poesia (1959:44)

A rosa que desabrocha Entre as luzes de um festim, Diz á rainha da festa:

Lembra-te sempre de mim! Embora murcha ella acorda Doces lembranças de um dia, Pisada, ainda ella esparge Perfumes de poesia!

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E quando o tempo iracundo Deixe seu calix mirrado, Nas suas folhas sem vida Guarda um poema encantado! Filha dos cantos e luzes Que desatou a alvorada, A triste rosa de um dia Embora murcha, é sagrada!

Na poesia acima, percebemos uma grande valorização do ser. A rosa, por

mais danos que venha a sofrer, jamais se rende, é sempre forte. Murcha, ela traz

lembranças, pisada, esparge perfumes. Além de um símbolo da vida, ela é a

imagem da própria poetisa: Um ser forte, que apesar de todas as adversidades,

continua a lutar.

A rosa, mesmo estando murcha, é rosa, e sendo rosa, é sagrada. É como

Júlia, que passou por muitas decepções em seus amores, mas jamais deixará de ser

a Poetisa das Rosas, pois sempre trará uma poesia para encantar as pessoas.

A autora expõe, ainda, que em seu cálice, a rosa guarda um poema

encantado, símbolo que também representa o sonho da poetisa que jamais se

esmorece

Temos como símbolo o poema encantado que representa nossa própria

alma. A rosa como nosso corpo, pois embora este venha a envelhecer, a alma

permanecerá jovem. A rosa representa, mais especificamente, Júlia da Costa.

Como imagem deste poema podemos ver delineado o Ciclo da Vida:

juventude, velhice e morte. Mas a lembrança do que fomos e fizemos permanecerá.

Seu amado se foi mas voltou e foi devido a isso que o sonho continuou. Mas

a decepção que teve com ele mais tarde, a qual veio a originar a segunda fase de

sua vida, fez com que a poetisa se aturdisse em uma vida que não era a sua.

O sonho não concretizado não foi esquecido, mas a nova Júlia da Costa,

triste, desiludida, continua procurando uma saída, evadindo-se em festas, tentando

E assim ela vivia

buscando em festas a vida que não pôde ter.

distrair-se para esquecer a rejeição daquele a quem tanto amou

Como características essenciais desta poesia temos:

Culto da Natureza – É na natureza que Júlia da Costa se inspira, encontra

paz e bem estar. A rosa é o símbolo que a poetisa escolheu para imortalizar a

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natureza que tanto ama: “Nas suas folhas sem vida / Guarda um poema

encantado!”

Sentimentalismo – Como poetisa romântica Júlia da Costa vale-se de seus

sentimentos e é através deles que ela analisa a vida. Uma rosa murcha, que

já não tem valor para quem se vale da razão, para a poetisa é eternamente

um elemento sagrado da natureza: “A triste rosa de um dia / Embora murcha,

é sagrada!”

Gosto pelas Ruínas: A poetisa faz com que a rosa seja imortalizada neste

poema, sendo ela um ser tão frágil, pisada por um ser maior e mais forte,

pode ser superior a ele: “Pisada, ainda ella esparge / Perfumes de poesia!”

Queixas – Extraída de Um Século de Poesia, (1959:68)

Outr’ora, outr’ora eu amava a vida Meiga, florida na estação das flores! Amava o mundo e trajava as galas Dos matutinos, virginaes amores!

Que sol que vida, que alvoradas bellas Por entre murtas eu sonhava então, Quando ao perfume do rosal florido Da lua eu via o divinal clarão!

Hoje, debalde no rumor das festas Procuro crenças que só tive um dia! Minh’alma chora e se retrahe sózinha, O pó das lousas a fitar sombria!

Embalde, embalde, o bafejo amado Da morna brisa minhas faces beija! Meu peito é frio, como é a fria a nuvem Que em noites claras pelo céu adeja!

Embalde, embalde, no ruido insano Das doidas festas eu procuro a vida!

Meu corpo verga

meu alento foge

Sou como a rosa do tufão batida!

É evidente a desilusão da poetisa com sua vida. Uma vida que lhe sorria bela

anteriormente, mas que de uma hora para outra, tornou-se negra e obscura.

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É numa vida social intensa, num ritmo frenético de viver ou sobreviver, numa

vida que não era o que sonhou para si, que a poetisa encontra uma magia que pouco dura, a magia das festas. Mergulhada numa atmosfera de solidão sufocante, ela luta contra o influxo da vida e simboliza bem este fato mostrando que a rosa foi vencida pelo tufão, mas isto não quer dizer que a rosa Júlia da Costa, não irá se reerguer, pois a batalha não terminou.

Como imagens deste poema podemos ver que a luz, que iluminava a vida da poetisa, está se esvaindo e é como se ela andasse a caminho das trevas. Júlia da Costa, ciente deste fato, mergulha-se em uma atmosfera de festas tentando resgatar essa luz, que é também um simbolismo de uma vida sadia. Já as festas trazem não luz, e sim brilhos que passeiam por todos os lados dos bailes e que não satisfazem a necessidade de luz. Já o tufão é uma imagem de uma vida doentia. E a rosa que caiu da roseira somos nós mesmos e a própria poetisa em momentos de fragilidade sentimental, nos quais a vida ou o tufão nos deixa à deriva. Como características encontramos:

Evasão – A poetisa evade-se de sua realidade nas festas, procurando um passado, que se não existiu da maneira que ela sonhou, traz a lembrança de sua juventude e sua força, dos tempos em que ela tinha otimismo na vida como vimos na primeira análise da fase de esperanças: “Hoje, debalde no rumor das festas / Procuro crenças que só tive um dia!”

Consciência da Solidão – Júlia da Costa não se adapta à realidade imposta às pessoas de sua época. Era uma pessoa à frente de seu tempo, que não aceitava as coisas como deveriam ser e agia por impulsos. Nessa louca luta

que ela travou com a vida, sentia-se sozinha contra todo um batalhão, que era

a sociedade e sua própria família: “Minh’alma chora e se retrahe sózinha / O

pó das lousas a fitar sombria!”

Gosto pelo Noturno – A noite, pouco a pouco, vai encobrindo a vida da poetisa, que em momentos de desalento, conforma-se com os fatos de uma forma tão resignada que chega a parecer derrotada, chega a parecer que é o fim: “Meu peito é frio, como é fria a nuvem / Que em noites claras pelo céu adeja!”

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Após uma nova desilusão amorosa, não com Benjamin Carvoliva, e sim com

o alferes Batista, a poetisa vê seus sonhos um a um não realizados, sentimentos

não correspondidos e a tristeza se apodera de seu ser, mas desta vez a saída não

são as festas e sim os devaneios, como veremos nas quadras a seguir:

Quadras de 16 de Maio de 1907 – ( LIMA, 1953:132)

“Ha vozes que vibram, Que vibram no peito

E lembram pesares

De um sonho desfeito.

Ha vozes que vibram No peito dormente E lembram sonhares De um mundo presente

Ha vozes que vibram Que vibram no escuro

E lembram delicias

De um bello futuro.”

As Quadras de 16 de maio, são uma retrospectiva de sua vida escritas pela

própria poetisa que já se encontrava em estágios de demência. Menciona a saída de

Paranaguá e as desilusões que teve com Benjamin, os sonhos que cultivou para sua

vida, que a poetisa queria viver num presente e se tornou um passado longínquo.

As vozes são um simbolismo do conflito interior da poetisa, sua consciência a

manda lutar, mas a sua vontade é evadir-se em “delícias de um belo futuro”. São

ainda símbolos de demência, fantasmas, misticismo, morte. Já o sonho desfeito

representa uma desilusão acarretada ao longo dos anos.

E assim, pouco a pouco, a lucidez vai se ausentando da poetisa, e o único

futuro que lhe é oferecido é a morte como um prêmio, por não ter desistido nunca e

ter se mantido fiel a si mesma e a seus ideais e sonhos.

O mundo presente que a poetisa menciona é totalmente alheio a ela. Pois

Júlia da Costa vive de realidades furtivas

O escuro representa sua cegueira no corpo físico e, no âmbito espiritual,

representa a evasão pelas trevas da demência.

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As imagens de escuro e futuro estão intimamente ligadas pois a escuridão conduz ao futuro, à morte. E representam o fim desta trajetória. São características marcantes deste poema:

Imaginação Criadora – Nesta fase, a poetisa vive ciclos constantes de evasão que a satisfazem: “E lembram delícia de um bello futuro”

Ilogismo: A instabilidade emocional pela qual passou a poetisa, faz com que ela traduza em seus versos, toda a sua transtornada jornada:

Sonhos não realizados no passado: “Sonho desfeito”; esperança no presente, sendo o nosso questionamento: Até que ponto este presente é o atual? Há quanto tempo a poetisa crê neste presente, que provavelmente é o passado vivido dia a dia?:

e por fim, satisfação no futuro que faz com que

Retorno ao Passado: Toda a sua história é baseada em um passado infeliz. E devido ao passado, a vida inteira foi vivida de amarguras: “Pesares de um sonho desfeito” Pudemos perceber a partir desta análise das poesias, das três fases da vida da poetisa Júlia da Costa, que sua vida é um contínuo que segue da luz para a escuridão. Escuridão esta que, gradativamente, vai tomando proporções irreparáveis na existência de Júlia da Costa. A escuridão da demência, da cegueira, são tipos de evasão que embora impostas pelo destino, são convenientes para a poetisa. A sua cegueira, a impede de ver que o tempo passou, as coisas mudam mas ela envelheceu e não realizou seus sonhos. Esta cegueira real a impede de ver que já não é mais uma mulher jovem e atraente e sim uma senhora idosa, sem perspectivas de um casamento feliz, conforme ela sempre sonhou. A demência, também lhe é conveniente para não encarar a realidade em que vive. Nas asas da demência, ela pode estar na fase de sua vida que mais lhe agrada ou em seu passado, com quem ama, ou pode se imaginar e mesmo acreditar que é jovem, que irá casar. Esquece os abandonos que sofreu vivendo uma realidade que não lhe pertence mas que é a que sempre sonhou.

Sonhares de um mundo presente sua vida decaia gradativamente:

Delícias de um bello futuro

CONCLUSÃO

Por meio deste trabalho, que pretendeu resgatar biografia e obra da poetisa Júlia da Costa, pudemos observar o quanto é importante resgatarmos estes poetas esquecidos para enriquecermos a nossa literatura. Importante também é o estudo e análise de poesia dentro do Movimento Literário tanto no ensino de língua materna como no de língua estrangeira.

É importante, que se dê continuidade a este trabalho futuramente, para se

explorar a hipótese que formulamos sobre o falso noivado de Benjamin Carvoliva, que fez com que a poetisa em um momento de cólera, aceitasse se casar com o Comendador Costa Pereira. No presente trabalho, procuramos explanar brevemente o que veio a ser a Escola Literária do Romantismo, suas características, exemplificadas com a poesia de Júlia da Costa.

Quanto à biografia, utilizamos as obras de Carlos da Costa Pereira, Traços da Vida da Poetisa Júlia da Costa, (1982) e Vida de Júlia da Costa, obra de Rosy Pinheiro Lima (1953), para tentarmos elucidar as dúvidas sobre a vida da poetisa. A obra de Lima, é bastante romanceada ao passo que a obra de Pereira, é uma crítica muito forte e pesada. São dois extremos nos quais há um trabalho de pesquisa muito rico, mas cremos que a poetisa não foi uma mulher vulgar como expõe Pereira e não tão inocente como mostra Lima. Foi sim impulsiva e rebelde, capaz de tudo por seus sonhos. E para entendermos alguns fatos que fugiam de nossa compreensão, utilizamos a obra Poesia – Júlia da Costa de Zahidè Lupinacci Muzart,

(2001).

A obra poética de Júlia da Costa está intimamente ligada à sua vida. Como

dito anteriormente, podemos ver que sua vida é um contínuo que vem da luz para a escuridão, e que pouco a pouco, a poetisa entra nas trevas da loucura: Fase de

Esperanças, Fase de Desilusão e Fase de Demência. Sua obra poética é muito rica e trata dos mais diversos símbolos e imagens do Romantismo: Evasões constantes, morte, paisagens, natureza como boa e fiel amiga, as flores que sempre a acompanharam em sua trajetória infeliz.

BIBLIOGRAFIA

LIMA, Rosy Pinheiro. Vida de Júlia da Costa. Curitiba, Escola Técnica de Curitiba,

1953.

PEREIRA, Carlos da Costa. Traços da Vida da Poetisa Júlia da Costa. Florianópolis, FCC, 1982. MUZART, Zahidé Lupinacci. Poesia – Júlia da Costa. Curitiba, Imprensa Oficial do Paraná, 2001. Centro Paranaense feminino de Cultura. Um século de Poesia. Curitiba, 1959, p. 5-83. PROENÇA Fº, Domício. Estilos de Época na Literatura. São Paulo, Editora Liceu,

1969.

MUZART, Zahidè Lupinacci. Júlia da Costa. Disponível em

<www.amulhernaliteratura.ufsc.br> Acesso em 30 ago. 2004. PEREIRA, João Ricardo de Castilho. Traços da vida da poetisa Júlia da Costa. Revista do Centro de Letras de Paranaguá, Paranaguá, nº 6, p. 99-108, set.

1984.

JÚNIOR, Nascimento. Júlia da Costa. Conferência. Paranaguá, p.04-16, 01 jul. 1944. MARTINS, Patrícia; LEDO, Teresinha de Oliveira. Manual de Literatura. São Paulo, Difusão Cultural do Livro, 2003. Apostila Dom Bosco, semi 2, seção de literatura, Poesia Romântica. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio Século XXI. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.

ANEXO

Júlia Maria da Costa

ANEXO Júlia Maria da Costa Francisco da Costa Pereira Joaquimsinho – Joaquim Guilherme da Silva, de

Francisco da Costa Pereira

ANEXO Júlia Maria da Costa Francisco da Costa Pereira Joaquimsinho – Joaquim Guilherme da Silva, de

Joaquimsinho – Joaquim Guilherme da Silva, de Paranaguá, primo da poetisa

Maria da Costa Francisco da Costa Pereira Joaquimsinho – Joaquim Guilherme da Silva, de Paranaguá, primo

Benjamin Carvoliva e a esposa Izabel Dias Bello

Benjamin Carvoliva e a esposa Izabel Dias Bello Casa na qual a poetisa morava com a

Casa na qual a poetisa morava com a mãe enquanto solteira

Dias Bello Casa na qual a poetisa morava com a mãe enquanto solteira O casarão do

O casarão do casal Costa Pereira na atualidade

Dias Bello Casa na qual a poetisa morava com a mãe enquanto solteira O casarão do