Resumo: A proposta do presente artigo é introduzir brevemente elementos fundamentais da teoria
política elaborada por Mikhail Bakunin, especialmente sobre o funcionamento do Estado, suas
relações e seu papel na constituição e consolidação do modelo econômico capitalista. Os
pressupostos metodológicos elaborados por Bakunin, de caráter materialista e dialético, são
empregados na elaboração de uma teoria cuja finalidade última seja não apenas compreender os
fenômenos sociais esquivando-se dos equívocos deixados por outras teorias, mas sim armar os
sujeitos revolucionários, teórica e praticamente, para dar cabo da tarefa de empreender as
transformações necessárias nas diversas esferas da sociedade. As questões debatidas por Bakunin e
tantos outros de seus contemporâneos permanecem não apenas em aberto, mas, mais exatamente,
em disputa. Eis sua atualidade.
Palavras-chave: Política; Estado; Imperialismo;
Abstract: The objective of this article is to briefly introduce the fundamental elements os Mikhail
Bakunin’s political theory, specially on the functioning of the State, it’s relations and it’s role in the
formation and consolidation of the capitalist economic model. The materialist and dialectical
methodological assumptions developed by Bakunin are employed in the development of a theory
wich ultimate purpose is not only to understand social phenomena, dodging misconceptions left by
other theories, but also to arm the revolutionary subjects, with theory and practice, to undertake the
necessary changes in various spheres of society. The issues discussed by Bakunin and many others
of his contemporaries not only remain open, but rather, in dispute. Behold it’s actuality.
Key-words: Politics; State; Imperialism;
***
Introdução
A teoria e a estratégia revolucionária elaboradas por Mikhail Bakunin, desenvolvidas
em um contexto de consolidação do capitalismo e amadurecimento político da classe
trabalhadora, foram, ao longo do século XIX, e seguem sendo ainda hoje bastante
influentes no meio revolucionário. Ainda assim, o desconhecimento acerca de seu
pensamento e prática é notável. Essa situação se deve a diversos fatores, especialmente
porque o acesso a suas elaborações teóricas se dá principalmente através de fontes
secundárias - o que muitas vezes permite a deturpação pela divergência - e textos
fragmentados, recortados e remontados ao gosto dos organizadores.
São repetidas à exaustão diversas críticas ao anarquismo de Bakunin, consideradas por
nós como caluniosas, dogmáticas e bastante frágeis. Algumas delas indicam que as teses de
Bakunin foram desenvolvidas em período de incipiência do capitalismo e da luta de classes
1
resgatar o pensamento político de Mikhail Bakunin. empreendido por atores sociais bastante determinados. sob pena de perecer. Esse levantamento biográfico não nos é prioritário no momento. portanto. dedicou-se ao estudo crítico de seus fundamentos teóricos. Interiormente federado ou não. Uma leitura um pouco mais cuidadosa da biografia de Bakunin desmonta com facilidade todas essas afirmações. Bakunin dedicou-se especialmente à crítica do Estado Moderno. mais cínica e mais completa da humanidade. Ele rompe a solidariedade 2 . Por agora. cada Estado. pois várias obras já disponíveis o fazem com excelência. É necessário salientar que esse desenvolvimento teve como uma de suas principais bases o pensamento e a ação política de Bakunin e seus companheiros. não poderiam coexistir sem se destruírem mutuamente. que concentra o poder politico e manipula os mecanismos decisórios da sociedade. Contradição indivíduo-Estado e o estranhamento político Na análise da organização politica da sociedade capitalista. restringindo a participação ativa de grande parte do povo na vida politica. enquanto tal. conquistar para não ser conquistado.em suas variantes correntes. Além disso. inseridos nos acontecimentos da luta de classes do século XIX. por esse motivo. como o contratualismo e o jurisnaturalismo. Destaca-se nesse período o surgimento do anarquismo. entendido como fenômeno histórico e social bastante concreto. nos restringimos a argumentar que o pensamento de Bakunin é desenvolvido especialmente entre as décadas de 1850 e 1870 – período de concentração e expansão do capitalismo em escala internacional e de profusão de conflitos entre as classes. subjugar para não ser subjugado. mostra-se hoje bastante fértil àqueles que se propõem a dar continuidade aos importantes questionamentos e embates promovidos por ele. pois duas potências similares e ao mesmo tempo estranhas uma a outra. recusando-se a ocupar um posto de neutralidade e colocando-se a serviço da revolução social. presentes nas teorias de Rousseau e Hobbes . O Estado é dessa forma a negação mais flagrante. Deve devorar para não ser devorado. procurar se tornar o mais poderoso. Nesse sentido. o que confere à sua teoria um caráter essencialmente histórico e prático. É bastante comum também a alusão a uma origem liberal e pequeno-burguesa.e. deve. 1. carecem do caráter científico adquirido posteriormente pelo socialismo.
anexar e subjugar o máximo de territórios extrínsecos ao seu domínio. O monopólio de poder político da sociedade representa a negação da humanidade. 1988. inversamente ao modelo estatal. 96). é identificada com a efetivação da equidade de direitos políticos e econômicos. Ele é por excelência um animal social. na qual o poder organiza-se de baixo a cima e da periferia para o centro. (BAKUNIN. Para Bakunin. Essa noção é contraposta através de sua tese de uma sociedade federalizada. jurisnaturalismo.Bakunin formula uma teoria acerca da relação homem-natureza-sociedade. assim como a política e a economia são dimensões que se determinam mutuamente. direito divino dos reis . Para Bakunin.enquanto concentração do poder político organizado – exerce influência determinante sobre a organização do Capital a partir de seus aparelhos burocráticos de controle e centralização política. O homem não cria voluntariamente a sociedade: ele nasce involuntariamente nela. internamente. dialeticamente.universal de todos os homens sobre a terra e associa todo o resto. pois a condição humana.é um fator determinante na organização do monopólio do poder político. A guerra e a dominação constantes são condição de existência do Estado. cuja manutenção consiste em. a centralização do poder politico através da máquina estatal possibilita a usura de uma minoria que exerce efetivamente a politica e. O Estado atomizaria os sujeitos ao impedi-los da participação na vida politica de sua comunidade. o Estado . Com o objetivo de contrapor as diversas teorias que sustentam o Estado Moderno – contratualismo. a fim de provar a condição ontológica da sociedade. o Estado. externamente. Por sua vez. o Estado moderno é a concentração de poder político na sociedade. De acordo com Bakunin. p. Só pode se 3 . conquistar o máximo de poder político em seu território e. para o pensador russo. o Capital – como monopólio econômico organizado . ou seja. impede a liberdade politica de uma maioria. a sociedade como parte fundante da natureza humana. A teoria do livre contrato é igualmente falsa do ponto de vista da natureza.
ainda que tácito. uns dos outros e cada um de si mesmo.75) Bakunin defende que a espécie humana é naturalmente social.tornar um Homem. A humanidade. supõe o homem essencialmente perverso e medíocre. por consequência. Isto porque todo Estado —e esta é sua marca característica e fundamental —.102) Bakunin se apoia na concepção ontológica de sociedade para combater distintas correntes da teoria do Estado Moderno. é naturalmente social. Essa determinação implica que a condição de sobrevivência da espécie humana é sua sociabilidade. só começa com a conclusão do contrato social enão é outra coisa. O segundo. falante. como já vimos. amando e desejando. sendo a sociedade um produto do desenvolvimento das estruturas. essa tese materialista enfrenta distintas teses de fundamentação do Estado moderno. (BAKUNIN. inclusive os humanos. para normatizar as relações a partir de uma concentração hierárquica de poder. sociedade. seres e fenômenos naturais. pois refuta a hipótese de que o homem seja lobo (inimigo) do homem e de que precisaria de um acordo (contrato) para fundamentar sua sociabilidade. deve ainda interiormente defendê-los. que compactuam com a tese de que o homem primitivo fixaria um contrato. seu próprio conteúdo. uma determinação anterior a qualquer acordo.p. o bem. que está acima das vontades humanas. O filósofo russo argumenta que todos os animais. A argumentação de Bakunin é que a solidariedade entre os homens em sociedade é condição de sua manutenção e reprodução da espécie e assim refuta teses essencialistas de que o 4 . um animal pensante. fruto de uma determinação da natureza sobre a sociedade. O Estado não possui somente a missão de garantir a segurança de seus membros contra todos os ataques vindo do exterior.” (P. justamente porque a sociabilidade é uma condição primeira. senão o produto deste contrato. possuem dois instintos básicos: a) o de autoconservação e b) o de conservação da espécie. revela a existência de “uma lei da sociabilidade humana. ainda que tácito. na teoria de Bakunin. 2008. isto é. (Id.88). P. Neste que examinamos agora. pois essa lei de determinação natural condiciona a ação humana para a sociabilidade. assim como toda teologia. Essa concepção acerca da fundação da sociedade exclui a possibilidade de um acordo entre partes individuais livremente consentidas.
p. pelos desdobramentos das relações de poder estabelecidas na sociedade. O caráter ontológico da implica que o Estado não seja nem natural como defendido pelos jurisnaturalistas.(BAKUNIN. Não sendo o Estado outra coisa que o privilegio do direito politico usurpado por uma pequena casta. pretende que a suposta gênese do contrato social . nem fruto de um contrato social. 2008. este não poderia se erigir senão pela utilização da força de uma minoria. eles serão quase sempre trouxas dos advogados e dos políticos burgueses. O procedimento é inverter a relação de condicionado-condicionante da teoria contratualista. ou ainda.é falsa. tendo de viver do trabalho de seus braços. sendo na maioria das vezes.que segundo Rousseau existia desde os povos primitivos através de um contrato tácito . dentre outros fatores. e . a negação da participação politica dentro do Estado moderno reside. sendo sua origem a violência 5 .83). A teoria da ontologia da sociedade refuta essa tese e dá outra dimensão aos povos primitivos e modernos. Mas por que o povo não envia para as assembleias legislativas e para o governo seus homens . quando nosso autor afirma que “foi um grande erro da parte de Rousseau ter pensado que a sociedade primitiva tivesse sido estabelecida por um contrato livre (1988. na caracterização de que.homem é naturalmente “mau” ou de que a sociedade existe sob a condição de um contrato que assegure algum tipo de concentração de poder politico. Para Bakunin o povo não apenas não sabe como funciona a estrutura da política deliberativa da sociedade moderna como também não se reconhece como parte da estrutura administrativa do Estado moderno. p. concentrador do poder de um grupo sobre a maior parte do povo. enquanto monopólio do poder politico. não tem tempo para se dedicarem exclusivamente à politica. Como podemos ver. ignorantes quanto a questões politicas e econômicas tratadas nessas altas esferas. O Estado. porque os homens do povo. é determinado historicamente. não podendo fazêlo. A compreensão da natureza histórica coercitiva do Estado moderno serve de subsídio para Bakunin compreender essa instituição como fruto de um processo histórico de crimes com vistas à concentração de poder politico. Assim. homens do povo? – Antes de mais nada .89)”. não enquanto membro dessa estrutura. entre individuo-sociedade para sociedade-individuo.
Essa reflexão acerca da indiferença ou ignorância do povo com relação a politica burguesa nos impele. o conjunto dos membros da sociedade não o veem como pertencentes a este. já que. mas fundamenta sua teoria na observação dos Estados no plano geopolítico internacional e do jogo político internacional que orquestrava a concentração politica já existente em escala nacional. para nosso autor. O Estado está necessariamente imbricado ao capital. Há uma determinação recíproca entre as esferas econômicas e políticas. a relação entre indivíduo e Estado moderno se dá através de um estranhamento político. a estabelecer que. pois Bakunin não apenas formula o conceito de Estado em si. Bakunin compreende o Estado como uma instituição histórica. segundo Bakunin. Essa designação materialista que historiciza o surgimento das grandes potências estatais modernas opõe-se objetivamente a elucubrações a-históricas e subjetivistas acerca da origem do Estado moderno. A configuração histórica que Bakunin confere ao Estado Moderno nos possibilita demonstrar uma teoria do Imperialismo elaborada pelo pensador russo. para Bakunin. O que significa dizer que existe no pensamento de Bakunin uma dialética entre Estado e capital.1 Estatismo O Estado. 2. entre a concentração politica e econômica. determinada pela contínua e organizada imposição de uma força coercitiva de um grupo social em busca de privilégios sobre a grande massa de despossuídos tanto economicamente quanto de direitos políticos concretos. já que é a burguesia que controla o poder político e econômico. sendo este o monopólio econômico. 6 . pois encara sua gênese como parte de um processo histórico marcado por conflitos e disputas de poder. Nesse sentido. posto que o sujeito não se aliena para tornar-se um universal no Estado.histórico-coercitiva. sistema interestatal e imperialismo 2. é a concentração do poder político .o monopólio do poder institucional e burocrático -. pois o povo sequer sabe como funciona os espaços políticos no qual se formula e delibera a politica estatal. ocorre uma fissura entre individuo e a estrutura jurídico-politica que rege a sociedade. um correlato político do capital. tal como consideravam grandes intelectuais da teoria estadista. do ponto de vista teórico. Estatismo.
A historicização do Estado e dos fenômenos da política nos serve de guia metodológico na análise das teorias da política. constitucional e aristocrático na Inglaterra. (BAKUNIN. segundo a análise de Bakunin. pelo desenvolvimento sucessivo das liberdades comunais. enfraquece esses poderios e abre caminho para a racionalização da politica e 2) A revolução Francesa. ou quaisquer outras. Dessa revolução surgiu uma nova potência. e pelo desenvolvimento do comércio e da indústria que haviam sido ao mesmo sua condição e sua consequência necessárias. O que irá marcar um novo sistema interestatal. e frequentemente mesmo contra os reis. a onipotência da igreja. monárquico. Uma. com exceção de duas pequenas repúblicas. durante os dois séculos que haviam precedido essa revolução religiosa. ao questionar a onipotência das Igrejas que era aliançada com reis e senhores feudais. monárquico. lentamente preparada. militar e burocrático em todo o continente da Europa. absoluto. o contexto geopolítico que possibilita a unificação dos grandes Estados nacionais na Europa ocidental é fruto de uma dupla revolução que possibilitou a base desses novos Estados Nacionais: 1) A reforma protestante. a Suíça e a Holanda. que possibilita que a burguesia assuma o controle politico da sociedade – intimamente relacionada ao que ficou conhecido como Revolução Industrial. faziam proceder seus direitos diretamente da graça divina. sua nova organicidade utilitarista. e por isso mesmo ela proporcionou um novo desenvolvimento à emancipação da classe burguesa. ao destruir essa força.Como vimos anteriormente. Bakunin historiciza a noção de Estado e. ela preparou a ruína do poder independente e quase absoluto dos senhores feudais. afirma que sua fundação se dá a partir das modificações profundas que marcam o inicio da Modernidade. não ainda a da burguesia. 7 .2008. justamente por condensar as principais características dos Estados Modernos. Dois fatos históricos. por sua vez. mas a do Estado. que por sua vez irá se consolidar com o Chanceler Bismarck como nova potência imperialista. negando sua suposta condição natural. duas revoluções memoráveis haviam constituído o que denominamos mundo moderno. no começo do século XVI havia destruído a pedra angular do edifício feudal. a partir da perspectiva bakuninista.p.60) Assim. conhecida sob o nome Reforma. que abençoados e protegidos pela igreja. o mundo da civilização burguesa. nobiliárquico. que modificou a estrutura técnica-produtiva da sociedade e assim estabeleceu as bases do capitalismo. será a racionalização ou cientifização dos processos políticos-burocráticos e militares do Estado Alemão. como os reis. seja do Estado e/ou do Imperialismo.
invenctivava contra todo mundo: contra Deus e contra os Homens. tem como condição de sobrevivência a luta ininterrupta pela conquista territorial-política. sem dúvida mecânica e despótica.35) 8 . baseados em Bakunin. o qual tem por único objetivo a organização. pelo fato de ser Alemão. é evidente.2 Sistema interestatal capitalista O desenvolvimento do estatismo no século XVI determina uma nova organização politica interna. na mais vasta escala. sobretudo. marca da ascensão dos grandes Estados Modernos tem como consequência a concentração progressiva do monopólio do poder politico em um restrito grupo que gere as grandes potências. seus correspondentes enciclopedistas. que sozinhas. por conseguinte. que por sua vez são baseados na cientifização e centralização política administrativa. na Europa. (“Deus está sempre ao lado dos grandes batalhões” gostava de dizer) tanto quanto numa organização econômica e numa administração interna a mais perfeita possível. desde o surgimento. a partir da primeira metade do século XVI.. Senhor Bismarck. nunca. a Alemanha. apoiando-se como sempre na “força divina dos grandes batalhões”. conquistar para não ser conquistado. sem excetuar. da exploração do trabalho. como bem adverte Bakunin. A lógica da manutenção do sistema interestatal burguês que mantém a estrutura politico-burocrática da sociedade capitalista é. de um novo tipo de sistema estatal. despóticas.). na História. cuja consequência direta é a conformação de uma nova estrutura política e econômica a nível internacional. inclusive o Império da Austria. ou seja. no fundo. Essa reação nada mais é senão a realização acabada do conceito antipopular do Estado moderno. (BAKUNIN. A indústria capitalista e a especulação bancária moderna necessitam. militar e econômica. Como homem de Estado Inteligente o discípulo de Maquiavel.Sim. que denominamos. o centro de todos os movimentos reacionários (. burocrática. Essa condição histórica de ininterrupto conflito interestatal. para se desenvolverem-se em toda amplitude desejada. na força militar. ao mesmo tempo atrás do jogo parlamentar de um pseudo-regime constitucional. o que significa o reinado triunfante da judiaria e dos grandes bancos sob a poderosa proteção das autoridades fiscais. e só acreditava em sua “razão de Estado”. em proveito do capital concentrado em pouquíssimas mãos. mas que se abrigam. que se apoiam. p. 2. administrativas e policiais. são capazes de submeter à sua exploração os milhões e milhões de proletárias da massa popular. destas grandes centralizações estatais. em sua essência. que tem por característica a supressão das ideias divinas e religiosas e a racionalização/secularização da organização interna dos Estados Modernos.. deixou de ser. 2003. de sistema interestatal capitalista.
para o socialista russo. Bakunin rejeita teses metafisicas e/ou mecanicistas acerca do Estado. Assim como a indústria capitalista e a especulação bancária – a qual sempre acaba por absorver a primeira . traz em si a irresistível aspiração a tornar-se um Estado universal. e uma multidão ainda maior de pequenos burgueses se vê inexoravelmente conduzida para o proletariado. nas grandes capitais. que demonstra que sem as novas características já citadas. a exploração dos grandes capitalistas isolados. a ampliar sem cessar seu campo de atividade em detrimento da pequena especulação e da pequena indústria. apesar de internacional. uma tendência ostensiva a se associarem para constituírem capitais monstruosamente formidáveis.2008. para a miséria. o Estado não é determinado unicamente pela economia e nem ao contrário. e teorizando também sobre como esse capital. não seria possível a expansão do capital para sua reprodução. como as que estabelecem a determinação unilateral pela economia. tende a se unificar com o seu Estado nação de origem. a riqueza dos grandes capitalistas aumenta. ambas sendo obrigadas. É tão verdadeiro como há hoje. E. (BAKUNIN.36) Como observamos.101) Bakunin aborda o processo de organização do capital que tende a se monopolizar e se universalizar a partir de associações. A perspectiva dialética acerca do desenvolvimento do capitalismo baseado na racionalização e cientifização dos processos burocrático-administrativos que caracterizam o Estado moderno nos permite compreender que. o 9 . o Estado moderno. condenadas a serem devoradas por elas – devem se esforçar para ser únicas e universais. Para Bakunin. para Bakunin. (BAKUNIN. do mesmo modo. A compreensão dinâmica e materialista acerca do Estado reside na sua observação histórica. embora o número dos capitalistas diminua. p. o condicionante da expansão do capitalismo monopolista ao final do século XIX. Uma certa massa de burgueses médios vê-se empurrada para a pequena burguesia. p. o apoio fiscal propiciado por esse novo sistema interestatal utilitarista foram. sob a ameaça da falência. Estado e capitalismo e se determinam reciprocamente. 2003. Inglaterra. à medida que a civilização e a riqueza nacional dos países mais avançados crescem. Na perspectiva bakuninista. Bélgica e França. o apoio do monopólio da violência. as condições de expansão territorial obtidas pelas grandes potências. A exploração do comércio e da indústria por sociedades anônimas começa a substituir nos países mais industrializados.O nível de organização interna das burocracias. representando uma força concentrada ainda maior. militar por necessidade.
podemos aferir que. . portanto. na necessidade de garantir cargos burocráticos externos aos aliados internos a fim de garantir a manutenção da máquina politica interna na politica externa. O imperialismo na teoria bakuninista seria. seja através de matérias-primas e trabalho precarizado ou novos mercados e 2) da necessidade anexionista territorial-política dos Estados nacionais no sistema interestatal. mantendo a coesão política interna do seu bloco burocrático-administrativo. O sistema interestatal. Desse modo. tal como preconizado por Bakunin. em busca de novos territórios para subsidiar seu crescimento. a necessidade da expansão anexionista está fundamentada.2 Imperialismo Dessa forma. mas como um sistema complexo que precisa a todo instante se reproduzir no campo econômico e político-territorial como condição de sobrevivência. no sentido da totalidade dialética política-economia. se por um lado é determinado pelo modo de produção capitalista. Essa análise nos faz refletir sobre o sistema que vivemos desde o final do século XVIII e a encarar o capitalismo não apenas como um modo de produção. com base na explicação sociológica e integral. compreendido que o Estado moderno é essa máquina centralizadora de poderes políticos administrativos e militares que serve a uma casta burocrática minoritária da população e cuja expansão anexionista externa depende de uma coesão da politica administrativa interna. dado a necessidade de expansão e dominação de novos territórios.dado que a característica da gênese do capitalismo é de que o capital precisa tornar-se mais capital -. denominamos esse modelo de sistema interestatal capitalista. dentre outros motivos. criando assim novos cargos burocráticos no exterior para seus aliados. a necessidade simultânea: 1) de universalização da acumulação do capital.desenvolvimento da miséria/pauperização está intimamente relacionado ao desenvolvimento do capitalismo. A teoria do imperialismo em Bakunin nos apresenta duas tendências complementares: a tendência monopolística do capitalismo . 10 . 2. e a tendência anexionista dos Estados modernos. é um sistema baseado na conquista e na busca pelo monopólio do poder politico que. por outro lado também determina esse modo de produção ao sedimentar suas politicas-organizativas. que precisa expandir-se externamente. para Bakunin.
36) A natureza dos Estados modernos.Os Estados Modernos. por conta da supremacia bélico-administrativa das potências imperialistas. impondo a eles sua linha política. mas também precisam dominar povos e anexar regiões no plano internacional para que. não menos obrigatoriamente. um modelo baseado em uma forte centralização interna e uma politica externa agressiva. (BAKUNIN. por sua essência e pelos objetivos que se fixa. se ele trata humanamente um povo conquistado. ou ainda. é conquistadora. Assim. com maior poder bélico-burocrático. do ponto de vista histórico. Essa elaboração teórica nos impele a crer que. mas nunca por dever.97) Sendo o cenário internacional um palco de conflitos interestatais. o faz talvez por política e por prudência. Como o direito internacional não existe. pois possui o direito absoluto de dispor de si a seu belprazer. será conquistado. pela simples razão de que por toda parte onde a força existe. a se tornar um Estado conquistador. O Estado moderno. por sua vez. necessitam não apenas de progressivamente concentrarem seu poder politico interno a fim de garantir sua supremacia. é impossível na sociedade capitalista a existência de um direito politico internacional justo. p. os Estados coexistem no sistema interestatal coagidos e dependentes de grandes potências imperialistas. e como jamais poderia existir de uma maneira séria e real sem minar em seus próprios fundamentos o princípio da soberania absoluta dos Estados. anexionista. para a conservação desses Estados. na teoria bakuninista. O novo sistema interestatal erigido na modernidade impõe. sob pena de perecer. tendem a anexar ou subjugar os Estados menores. se ele próprio não se lançar a conquista. ou então por pura magnanimidade. é por força um Estado militar. e um Estado militar está condenado. é preciso que ela se mostre ou aja. forçados a aceitar sua lógica dominadora. A existência de 11 . p. e se não o reduz ao último grau de escravidão.(1988. Trata-se de compreender a realidade geopolítica internacional como palco conflitivo interestatal no qual os Estados maiores. 2003. o Estado não pode ter deveres em relação às populações estrangeiras. não sejam subjugados por algum outro Estado com maior poder político e bélico. se o pilha e o extermina somente pela metade.
A partir desses conflitos e contraposições a outras teorias. 3. ou seja. é a outra parte. mas nos é fundamental estudar a politica estratégica de Bakunin no interior da Associação. A estratégia de luta contra o Estado e o capital seria assim determinada pela essa análise dialética entre economia e política. mazzinianismo e o proudhonismo de direita. de uma potência imperialista. Luta política x luta econômica As formulações políticas de Bakunin foram decorrentes da sua militância no interior da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1873). pois existem diversos estudos relevantes sobre.um conselho internacional. ela não é determinada unilateralmente por algum aspecto. representa os interesses de uma fração da sociedade e por vezes uma fração da própria burguesia. dessa forma. ao mesmo tempo. Como a política estatal. significaria uma extensão de uma potência soberana na disputa interestatal. A política é determinada pela economia e por outros elementos do real. ela é parte de um todo e. a acumulação de capital. Não é intuito do presente estudo historiciza as questões gerais relativas à AIT e os embates entre as variadas correntes que a compunham. A sociedade capitalista é um todo de múltiplas contradições no qual o Estado/política e o capital/economia se influenciam mutuamente. é parte de um todo no qual o monopólio da economia. como adverte Bakunin. em nível de nação. Bakunin afirma sua teoria revolucionária. é 12 . A política. A elaboração de sua politica revolucionária deu-se tanto por conta da sua luta teórica contra os fundamentos da burguesia quanto por definir-se na disputa de tendências teóricas-politicas distintas no interior da própria AIT como o tradeunionismo. cujos interesses subordinariam o direito internacional. enquanto concentração do poder político. Como já observamos. principalmente no debate sobre a emancipação integral (social) x emancipação política. marxismo. não seria mero epifenômeno da economia ou de outra mediação categorial. a nível internacional o direito politico só poderia existia como extensão do poderio de uma única potência. ao estudarmos a teoria do Imperialismo em Bakunin percebemos que o Estado. Ou seja. mas essa determinação é reciproca e dialética. visto que essa representa um tema central da sua teoria.
conformando partes de um mesmo todo da totalidade social. 2008. Adotar tal programa como esse da Internacional. uma dialética entre política e economia no qual as duas esferas determinam-se mutuamente na materialidade concreta.. o Estado burguês. sequer teriam tempo de exercer um papel político diretivo na sociedade.a capacidade dos trabalhadores de gerir a produção e distribuir os produtos necessários à humanidade -. a conquista anterior do proletariado de outro determinado aspecto. grosso modo. como o aparelho politico. Teorias estas que. A metodologia dialético-materialista de Bakunin a respeito da relação entre emancipação econômica .44) Da mesma forma. politico. defendiam a superação de determinado aspecto da sociedade de classes ou que condicionavam determinada luta. os trabalhadores. foi o que possibilitou ao revolucionário russo articular uma teoria global de superação do capitalismo e associada a um programa reivindicativo coerente com sua proposta do seio da AIT. Percebemos que há.condicionada e condicionante da sociedade de classes.Existe uma diferença demasiado grande entre os graus de desenvolvimento industrial. p. submetidos ao sistema capitalista no qual vendem por longas horas sua força de trabalho. essa compreensão integral acerca da estratégia de superação do sistema vigente o fez refutar teorias particularistas e/ou etapistas no seio da AIT. como monopólio do poder politico. Pensamos que os fundadores da Associação Internacional agiram com grande sabedoria ao eliminar inicialmente do programa dessa associação todas as questões 13 . fazer dele uma condição absoluta de ingresso nessa Associação universal. como verificamos no ponto sobre estranhamento da politica no sistema estatal. intelectual e moral das massas operárias nos diferentes países para que seja possível uni-las hoje por um único e mesmo programa político e anti-religioso.. Para Bakunin seria equivocado ter como centro a disputa política institucional da sociedade sem atrelar-se essa luta a emancipação econômica. . como a emancipação econômica. lhe tornaria indisputável visto que é um órgão essencialmente autoritário. além disso. do ponto de vista metodológico. e a emancipação politica – a saber. seria matar a Internacional. o acesso de todo o povo aos mecanismos decisórios da vida politica da sociedade -. Para nosso autor. (BAKUNIN.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: BAKUNIN. não lhes faltaram em absoluto nem opiniões políticas. A emancipação exclusivamente política seria apenas um engodo usado pelos políticos profissionais para iludir as massas trabalhadoras. 2009 __________________. (BAKUNIN. uma série de simples princípios sobre os quais os operários . Pags. pois na concepção de que a construção de uma sociedade igualitária passa simultaneamente pela descentralização da política deliberativa e pelo controle dos trabalhadores sobre a produção e distribuição de víveres. 1976. por sinal suas aberrações políticas e religiosas. por pouco que sejam operários sérios.43) 4. 2008. p. A Ciência e a Questão Vital da Revolução. In: Cadernos Peninsulares. Tradução: José Gabriel.políticas e religiosas. homens duramente explorados e sofredores. estão e devem estar de acordo. isto é. Nova Série. Ensaio 17. Sem dúvida. Editora Imaginário. A estratégia política da revolução integral (ou social) de Bakunin consiste. poder-se-ia modificar as relações de produção e todo o universo do trabalho. uma prática política revolucionária. 105127 14 . nem opiniões anti-religiosas bem definidas. mas mantendo sua estrutura centralizadora. com vistas à transformação radical da situação de submissão política e miséria econômica das massas trabalhadoras. teoria esta que só tem seu sentido completo quando associada ao seu corolário. Mikhail. quaisquer que sejam. Considerações Finais A articulação e determinação mútua entre as distintas esferas da sociedade é elemento fundamental da concepção teórica de Bakunin. Portugal: Editora Assírio & Alvin. A reação na Alemanha. desigualdades e injustiças sociais. mas eles abstiveram-se de emiti-las nesse programa porque seu objetivo principal era unir acima de tudo as massas operárias do mundo civilizado numa ação comum. argumentando que se poderia transformar a sociedade modificando apenas a estrutura política ou que modificando os dirigentes políticos das esferas decisórias do Estado. única via eficaz para a extinção do sistema de privilégios. Tiveram necessariamente de buscar uma base comum.
Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences. O Catecismo Revolucionário. Editora Imaginário. International Institute of Social History. Netherlands Institute for Scientific Information Services. (CD-ROM). ______________. 2009. Editora Cortez. Mikhail. _________________.BAKUNIN. Estatismo e Anarquia. A Instrução Integral. Federalismo e Anti-teologismo. 2000. Editora Imaginário. Oeuvres Complètes. Socialismo. 1988 15 . 2003. 2003 _________________ . _________________. Editora Imaginário.