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Megalitismo, megalitismos: o conjunto

neolítico do Tojal (Montemor-o-Novo)
❚ MANUEL CALADO ❚

RESUMO Apresentam-se os principais resultados
das prospecções e escavações que incidiram sobre
um conjunto de sítios e monumentos neolíticos,
centrados no menir e recinto megalítico do Tojal,
e esboçam-se, com base nos dados obtidos e numa
leitura mais abrangente do povoamento pré-histórico do Alentejo Central, algumas propostas
genéricas de evolução do fenómeno megalítico
regional.
Propõe-se, igualmente, uma redefinição do conceito
de Megalitismo, considerando a possibilidade de
uma primeira fase exclusivamente ritual,
concretizada nos menires e recintos, e a
subsequente transferência da monumentalidade
megalítica para o universo das práticas funerárias,
onde coexiste com outras formas arquitectónicas,
nomeadamente as grutas artificiais e, na fase final,
as sepulturas de falsa cúpula.

ABSTRACT This paper presents the principal results
of surveys and excavations conducted at a group of
sites and Neolithic monuments, centered around
the menhir and megalithic sanctuary of Tojal, and
outlines, on the basis of the data obtained and in an
broader interpretation of the prehistoric settlement
of the central Alentejo, some general proposals of
the evolution of the regional megalithic
phenomenon.
A redefinition of the concept of megalithism is also
proposed and considers the possibility of a first
phase that was exclusively ritual, exemplified by
menhirs and sanctuaries, and a subsequent
transferral of megalithic monumentality to the
realm of funerary practices, where they coexisted
with other architectonic forms, namely artificial
caves and, in the final phase, corbel-vaulted tombs.

1. Introdução
O conjunto de sítios que constitui o objecto deste trabalho foi, na sua maioria, identificado
pelo autor, em prospecções de superfície inseridas num projecto actualmente em curso, cujos
objectivos se prendem com o estudo e contextualização dos menires do Alentejo Central.
Anteriormente, apenas se conheciam quatro antas (n.os 8, 17, 18 e 22), cartografadas e descritas
num trabalho muito recente (Oliveira, 1999) e um conjunto de menires (n.o 24) (Gomes, 1986).
A área, dominada visualmente pelo maciço da serra de Monfurado, é drenada pelos troços superiores de cursos de água, ainda pouco caudalosos, subsidiários do Xarrama, afluente
da margem direita do Sado. O terreno, na parte norte da área mapeada, é ligeiramente mais
declivoso do que na parte sul. Geologicamente, a área é constituída, basicamente, por granitos
que conformam uma paisagem de recorte suave, pontuada de notáveis afloramentos graníticos, e por gnaisses, rochas que dão corpo aos relevos mais significativos; destacam-se ainda
algumas manchas de cobertura detrítica, de idade terciária, que se traduzem em elevações de
topos aplanados, como aquela onde se localizam o menir e o recinto megalítico do Tojal.
Numa primeira fase, foi prospectada uma zona muito restrita centrada nos menires do
Tojal. Numa área com apenas cerca de 2-3 km2 foi identificado um conjunto extremamente
denso de monumentos de diferentes tipos, numa coexistência espacial pouco habitual na
região: dois recintos megalíticos, um menir isolado, sepulturas protomegalíticas e antas, de
dimensões variadas; paralelamente, registou-se um pequeno conjunto de sítios com materiais de superfície, prováveis locais de habitat onde há que destacar a presença de lamelas e
lascas de sílex, artefactos igualmente presentes nos materiais de escavação do menir e do

MEGALITISMO, MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO)

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recinto do Tojal. Numa fase seguinte, alargou-se sensivelmente a área prospectada, tendo
sido identificados mais alguns sítios pré-históricos, nomeadamente antas, sepulturas protomegalíticas e vestígios de habitat.

FIG. 1

– Localização dos sítios listados no texto.

MUITA GENTE, POUCAS ANTAS ? ORIGENS, ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO

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algo informes. trata-se de blocos de gnaisse. 2 – Sepultura protomegalítica da Quinta do Gato 5.2. lascas e lamelas de sílex. e que é de granito. de planta aparentemente fechada. excepto o que bloqueia. que deve corresponder a um fragmento do chapéu. MEGALITISMO. muito destruída. uma eventual abertura. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 353 . FIG. seixo afeiçoado e percutor. de secção arredondada. 3 . Há vestígios de mamoa e de alguns esteios de granito amputados ou arrancados. definida por sete esteios. do lado Nascente. Escassa cerâmica manual. uma enxó de anfibolito. Mede cerca de 2.Quinta do Gato 8 Povoado aberto. há uma laje espessa. 2 . muito destruída. localizado numa rechã com grandes afloramentos graníticos.Quinta do Gato 6 Anta de corredor. inclinada. São visíveis restos de mamoa e dois esteios do lado Norte.50 m de comprimento por 1 m de largura máxima.Quinta do Gato 5 Sepultura protomegalítica. 4 . amputados pouco acima do solo. Listagem de sítios 1 .Quinta do Gato 7 Sepultura protomegalítica ou pequena anta.

O chapéu está fracturado e tombado para W. na câmara. e um chapéu. A câmara mede perto de 2 m de diâmetro e o corredor conserva cerca de 2.Quinta do Gato 4 Sepultura protomegalítica. 3 – Anta do Escoural 1 e sepultura do Escoural 2.Escoural 1 Anta de corredor com três esteios do lado Norte (um deles truncado) e dois esteios do lado Sul. Vestígios de mamoa.Escoural 4 Quatro possíveis esteios arrancados e amontoados. de granito. bastante espesso. com mamoa bem pronunciada e dois esteios in situ e um outro aparentemente recolocado a servir de marco de divisão de propriedade. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 354 . 7 .Escoural 3 Sepultura protomegalítica com sete a nove possíveis esteios.5 . 8 . Os esteios afloram. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. MUITA GENTE. pelas dimensões e contexto geológico e paisagístico. um dos esteios Norte é um bloco espesso que pode corresponder a um menir reutilizado. 6 . mais três esteios de corredor. uns 0.50 m acima da superfície do solo e o conjunto mede cerca de 2.30 de largura máxima. outros blocos dispersos na área podem ter pertencido ao monumento. por 1.60 de comprimento. é possível que correspondam aos restos de uma sepultura protomegalítica.20 m. FIG. no máximo.

por 1.50 m de comprimento. 9 .60 m de comprimento. Cerâmica manual. pelo menos.50 m. de granito. mais ou menos in situ e outros possíveis esteios tombados e deslocados.Quinta do Gato 2 Sepultura protomegalítica.Escoural 2 Sepultura protomegalítica anexa ao monumento anterior. mais ou menos in situ. Implanta-se junto ao topo de uma encosta. uma ferradura. tem cerca de 2. 10 . no sentido do declive. muito inclinada no troço MEGALITISMO. com restos de mamoa. O recinto desenha. com o eixo alinhado solsticialmente a aberta a Nascente. para além de um esteio de corredor de cada lado. de planta subtrapezoidal. 12 .Quinta do Gato 3 Povoado aberto.Quinta do Gato Anta de corredor. aparentemente. conserva três esteios do lado Norte e um esteio do lado Sul. Mede cerca de 1 m de largura na câmara e. conserva o esteio de cabeceira. 4 – Sepultura protomegalítica da Quinta do Gato 2. numa área em que afloram grandes blocos graníticos. Conserva 3 esteios. no máximo. 2. O chapéu aparece tombado e fracturado. na maioria arrancados e tombados mas.FIG. localizados nas proximidades da posição original. de dimensões médias. 11 . incluindo bordo espessado. aflorando. em planta. na entrada da câmara. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 355 .60 m de largura máxima. lasca de sílex. 11 . um esteio do lado Sul e dois do lado Norte.Tojal Recinto megalítico formado por 17 menires de granito. aberta a Nascente. aparentemente. O diâmetro máximo da câmara ronda os 2. machado de secção arredondada. uns escassos 0. percutores e mós.40 m acima do solo.

com cerca de 2. na face que se encontrava exposta. por cerca de 1 m de diâmetro máximo. superior e exposta a Nascente. na área compreendida entre o recinto e o menir. um menir de maiores dimensões (menir 15) que foi usado como referência para divisão de propriedades e sobre o qual foi gravado um motivo constituído por cinco triângulos dispostos em cruz.35 m de comprimento. embora a uma escassa centena de metros aflorem os granitos. O conjunto mede sensivelmente 18 m de comprimento (E-W).Tojal 3 Achado avulso (dormente de mó manual) que. com sete esteios na câmara e 8 no corredor. de granito. mais ou menos centrado no lado ocidental do recinto. antes e depois da limpeza. de granito. 15 . aparece decorado com um painel de covinhas. 5 – Aspectos do recinto megalítico do Tojal. para além de algumas cerâmicas de fabrico manual. 14 . MUITA GENTE. A escavação permitiu detectar o alvéolo de implantação do menir e a respectiva coroa de sustentação.Tojal 2 Anta de corredor. associado às cerâmicas recolhidas na escavação do menir do Tojal. 16 . POUCAS ANTAS ? ORIGENS.FIG. no recinto do Tojal. no lado Sul aflora uma parte do chapéu e o topo de esteios. permite supor a existência de uma área de actividade de cariz doméstico. por 16 m de largura (N-S). Destaca-se. nomeadamente um buril diedro. possivelmente do corredor. e de um pequeno conjunto de artefactos de sílex. um outro. foi recolocado a servir de limite de propriedade e suporte de vedação e apresenta o mesmo motivo de triângulos em cruz que se observa no menir 15. mantendo a base enterrada. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 356 . 13 . chapéu “in situ” e restos de mamoa conservados. O menir encontrava-se tombado com alguma inclinação. lascas e lamelas. recobrindo ainda o chapéu do monumento. mais ou menos in situ. O topo. estes artefactos foram recolhidos nas terras exteriores à estrutura de implantação do monólito. pouco características. O substrato é constituído por depósitos terciários. com a mamoa muito bem conservada.Menir do Tojal Menir de contorno ovóide.Carapetal 1 Anta de corredor.

18 . FIG. MEGALITISMO. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 357 . antes e depois da escavação. 17 . 7 – Aspectos do menir do Tojal. 6 – Mamoa da anta do Tojal 2.Carapetal 2 Anta de corredor.Carapetal 3 Achado avulso. eventualmente indiciadores de um sítio de habitat. com sete esteios na câmara. chapéu tombado e vestígios de corredor e mamoa. vista de W. constituído por dois dormentes de mós manuais barquiformes.FIG. de granito.

MUITA GENTE. junto de afloramentos e escombros. Todos os monólitos são de granito. Apresenta uma largura da ordem de 1m.07 m de diâmetro máximo. muito mal conservada. 23 .Polome Sepultura protomegalítica. para além de um conjunto de 5 menires amontoados a jusante. com cerca de 2. com cerca de 15 m de diâmetro.Casas de Baixo 2 Sepultura protomegalítica desmantelada. apenas um esteio cravado e outros amontoados. conserva quatro esteios da câmara e restos de um kerb de contenção da mamoa. de que resta. 20 . aparentemente. são visíveis três esteios mais ou menos in situ e vestígios de mamoa. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. de granito. sem escavação. 21 – Anta da Herdade do Tojal Pequena anta de corredor. com esteios de granito. junto ao topo de uma encosta exposta a Nascente. 8 – Dormente de mó manual do Carapetal 3.Olival 3 Anta de corredor. Conserva cinco esteios na câmara e restos do corredor. 22 .Casas de Baixo Recinto megalítico desmantelado.65 m de comprimento por 1.FIG. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 358 . 19 . Resta um menir tombado. sendo o comprimento impossível de calcular.

Freiras Área de habitat. nos últimos anos. 26 . no Alentejo Central. 9 – Sepultura da Chaminé e vista da respectiva “mamoa” (2 fotos). Albardeira. com frequência. com sete esteios de granito e de gnaisse. mede cerca de 1 m de largura máxima. são pequenas estruturas funerárias de planta alongada. 24 . essas de porte efectivamente megalítico. etc. apresenta planta fechada. ao tipo melhor documentado na região. sem corredor diferenciado e uma delas. construídas quer em granito quer em xisto ou outras rochas metamórficas. Murteiras. A estrutura localiza-se. aberta a Nascente.Chaminé Sepultura protomegalítica. embora.1. nos casos em que é possível avaliar o esquema estrutural a que obedecem. noutras áreas do Alentejo Central. lascas e lamelas de sílex e percutores. com câmaras poligonais geralmente de sete esteios e corredores MEGALITISMO. verifica-se. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 359 .FIG. Cabanas. aqui designados como sepulturas protomegalíticas.Casas de Baixo 3 Anta de corredor. Numa primeira abordagem. São visíveis 3 esteios mais ou menos in situ.). uma estreita associação espacial com antas de corredor. no topo de um montículo aparentemente artificial.Comentários 3. no concelho de Évora (Herdade de Vale de Moura. Rocha. de granito. de uma forma algo insólita. 1999). Por outro lado. 1921. sepulturas estruturalmente análogas. em termos de planta e alçado. por 1. geralmente conservam alguns vestígios das mamoas. 25 . se tenham vindo a identificar.70 m de comprimento. nestes monumentos. pode afirmar-se que os melhores paralelos. Refiro-me nomeadamente a alguns monumentos ainda inéditos. são as conhecidas sepulturas “em ferradura” de Pavia (Correia. Os monumentos funerários Os monumentos. os monumentos aqui referidos como antas de corredor correspondem. 3 . onde foram recolhidas algumas cerâmicas de fabrico manual. pelo menos.

o monumento do Mané-Lud ou o recentemente escavado Petit Mont d’Arzon. É certo que é necessário aceitar a contemporaneidade. tendo como base de apoio as realidades megalíticas de outras áreas da Europa atlântica. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 360 . Em termos peninsulares. como o famoso tumulus de S. teorizado a antiguidade relativa dos monumentos com estrutura pétrea mais elementar. a sequência anta de corredor-tholos. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. de uma “mudança de ênfase gradual de ritos funerários para ritos dos antepassados” (Bradley. A velha questão da cronologia relativa dessas duas categorias de monumentos. têm recentemente. mais ou menos pacificamente. mesmo que com um eventual regresso a fórmulas simples. 1959). alguns autores. de acordo com um modelo evolutivo em que se parte do mais simples para o mais elaborado. em termos de sequência estratigráfica: de facto. aceita. Bueno 1994.o 15) aparece ainda coberta pela mamoa e com o chapéu mais ou menos in situ. só por si. uma outra (n. o que sugere. 1998. Também alguns casos bretões. segundo a qual os pequenos monumentos funerários seriam genericamente anteriores aos grandes. os dados do Tojal a favorecem. com o cuidado de evitar generalizações abusivas. aqui em aparente oposição às cronologias bretãs. a meu ver. pelos Leisner (Leisner. Os monumentos distinguir-se-iam basicamente em dois grandes grupos: os que. um bom estado de conservação estratigráfica dos espólios. a maioria dos autores que se tem pronunciado sobre o assunto. com um destaque especial para o extraordinário conjunto do Olival da Pega 2 (Gonçalves. em comparação com os monumentos de câmara e corredor funcional (passage graves. para além da existência de formas intermédias e das reconhecidas assimetrias regionais (o que não erradica. embora não se conheçam sobreposições inequívocas como as que referi. dolmens a couloir) (Bradley. 1995). em termos culturais. enquanto. penso que.o 2). Oliveira. pelo contrário. a estrutura tumular de Dombate Recente (dólmen de corredor) sobrepõe e oculta a mamoa que recobria o monumento de Dombate Antigo. Tratar-se-ia. 1997. Leisner e Leisner. 1986). Evitando a repetição dos argumentos que têm sido esgrimidos em defesa dessa leitura (contra. parece-me pertinente recordar que os espólios das sepulturas protomegalíticas excluem sistematicamente uma série de artefactos habituais nas sepulturas megalíticas de corredor e nos monumentos que regionalmente se lhes seguiram: os tholoi. pelo menos parcial. na sequência dos enterramentos. 62). com um desenvolvimento em alçado completamente distinto do das sepulturas protomegalíticas. MUITA GENTE. embora sem arrastar necessariamente consensos. o melhor exemplo de relação cronológica entre esses dois grupos encontramo-lo no Dolmen de Dombate. eram fechados e ficavam internamente inacessíveis e os que permitiam o acesso continuado dos vivos e a acumulação dos enterramentos (primários ou secundários). Por outro lado. parecem ser estratigraficamente inequívocos: os dolmens de corredor são posteriores às sepulturas de planta fechada que os tumuli originais recobriam. Regressando ao SW peninsular. os monumentos de um e outro tipo ocorrem frequentemente lado a lado.bem diferenciados. apresenta-se parcialmente desmantelada. considerar-se encerrada: entre nós. 1999). por exemplo. cuja sobreposição a uma pequena sepultura protomegalítica não deixa qualquer dúvida. não pode ainda. Michel. Por outro lado. nos mesmos contextos geográficos. No entanto. 1998). 1951. aparece atestada. 1993. 1949. o modelo evolucionista) (Jorge. em alguns monumentos alentejanos. 1953. no mínimo. entre os dois tipos de sepulturas. Uma delas (n. em indiscutíveis estratigrafias horizontais. a tese tradicional sustentada. p.

FIG. É visível à direita (Norte) da câmara de Dombate recente (Bello. em rampa. e do anel de contenção da mamoa). 10 MEGALITISMO. Dombate antigo (com restos da câmara. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 361 .– Planta geral de Dombate. da estrutura de acesso. 1995).

como as que apresento neste trabalho. o corredor da Anta 2 do Olival da Pega foi bloqueado. aspecto que deriva naturalmente de preceitos rituais generalizados. observar que a distinção entre monumentos de xisto e monumentos de granito. assim como pequenas sepulturas protomegalíticas de granito. Efectivamente. pelo menos. Embora me pareça de reter a interpretação avançada nesse trabalho. se podem sobrepor tanto aos mais antigos como aos mais recentes: é o caso de monumentos (geralmente de xisto) que embora tenham bem definida a câmara e o corredor. conhecem-se muitas antas de xisto de grandes dimensões. toda o esquema simbólico/arquitectónico que se vai desenvolver nas antas de corredor e nos tholoi. não elimina a possibilidade de se tratar precisamente do inverso: o corredor (sobretudo se é longo) é. Aliás. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 362 . apresentam dimensões que tornam o acesso apenas simbólico (como a Anta 1 do Lucas) (Calado. muitas vezes. esses grupos seriam genericamente contemporâneos e seriam as diferenças económicas entre ambos. Desde a escolha MUITA GENTE. 1997) sugere a existência de comunidades distintas. um dos aspectos em que a sequência evolutiva tradicional (sepulturas protomegalíticas — antas de corredor — tholoi) parece confirmar-se é precisamente a riqueza diferencial dos espólios. e foram construídas derivações laterais que davam acesso a sepulturas de falsa cúpula. a um único episódio de enterramento. mais raramente ainda. Um modelo desenvolvido recentemente para a bacia do Sever (Oliveira. escasso sílex e. entre as sepulturas protomegalíticas mais básicas (de planta fechada ou em ferradura) e as grandes antas de corredor. Convém. A diversidade de artefactos depositados e. cronologicamente. com espólios muito ricos e que denotam uma boa continuidade cultural com os das sepulturas megalíticas. como se disse. em que os monumentos dos dois tipos se distribuem regularmente nos mesmos territórios e se justapõem mesmo em alguns casos. aliás. mais do que uma estrutura funcional. encontramos uma diversidade notável de situações que. A ideia de que os corredores sem funcionalidade aparente são posteriores aos verdadeiros corredores funcionais e se inspiram neles (Bueno. a causa das diferenças notórias entre arquitecturas e espólios verificados no megalitismo funerário. 1994). embora plausível. particularmente no que diz respeito aos monumentos do Sever. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. a um único enterramento ou. com o auge nas sepulturas de falsa cúpula. fragmentos cerâmicos de tipologia pouco definida. a abundância dos mesmos. numa dada fase de uso do conjunto. é pouco eficaz no que diz respeito às tipologias arquitectónicas e cronologias. com distintas bases económicas (os terrenos xistosos são agricolamente mais pobres) implantadas uma nos xistos e outra nos granitos da região. pelo menos em termos regionais. nas diversas áreas. Não nos podemos esquecer que o problema fundamental e o facto que tem alimentado algumas das polémicas em torno desta sequência evolutiva é a existência de formas intermédias que devem corresponder a ritmos e formas diferenciadas de absorver e aplicar as novas ideias. as oferendas são. um artifício simbólico tal como a própria abertura das sepulturas protomegalíticas. uma vez que o acesso à câmara funerária teria que se fazer por cima As sepulturas protomegalíticas abertas prenunciam.Neste caso. ou de monumentos com dimensões que permitiam o acesso repetido. se bem que pertinente. 1994). Nas sepulturas mais antigas. a propósito. parece desenvolver-se em crescendo. mas com corredores incipientes (como o Poço da Gateira). sempre muito pobres: frequentemente. é decerto difícil aplicá-la às situações como a do Tojal ou de Pavia. resumemse a alguns instrumentos de pedra polida. que parecem corresponder. na sua maioria. Efectivamente.

nomeadamente: • a implantação junto ao topo (mas não no topo) de encostas expostas a Nascente (também com analogias na implantação dos menires bretões) (Giot. percebe-se uma gramática arquitectónica que. Essa forma pode. todos tombados.da implantação (exposta a Nascente) até ao aspecto exterior (as estruturas pétreas eram recobertas por montículos artificiais). com muito menos verosimilhança. Efectivamente. na construção dos recintos megalíticos do Alentejo Central e alguns da Bretanha. ter sofrido amputações significativas. mas nos quais se reconhece o germe das verdadeiras construções megalíticas funerárias). p. Talvez se justificasse mesmo. Seja como for. nas proximidades das manchas graníticas. Por outro lado. de que restam actualmente visíveis apenas 17 menires. um menir de maiores dimensões. no Morbihan) parece ter sido aplicada em praticamente todos os recintos alentejanos cuja planta se conservou minimamente. mais ou menos centrado. em vários aspectos. sendo eventualmente contemporâneos dos monumentos megalíticos. passando pela orientação da entrada (e do eixo maior). 321). embora seja mais natural que. o monumento do Tojal ilustra perfeitamente algumas observações sobre a relação entre os recintos megalíticos e a paisagem. curiosamente. Os menires A descoberta do recinto do Tojal. igualmente presente na maioria dos recintos megalíticos bretões (destacam-se os dois monumentos gémeos de Er-Lannic. mesmo assim. mais ou menos longa. sobretudo. a par de uma manifesta assimetria definida pelo eixo Norte-Sul e com uma monumentalidade claramente reforçada no lado ocidental. de transição entre os monumentos fechados e os monumentos abertos terá dado lugar a situações de contemporaneidade relativa entre modalidades distintas. a par do conceito de protomegalitismo (referido a monumentos cujo porte dificilmente se enquadra no conceito de megalitismo etimológico. relações diacrónicas. Essa forma básica. apresentam dimensões mais discretas. como acima sugeri. permitiu uma nova aproximação à planta deste tipo de monumentos. tendo as diversas interpretações avançadas oscilado entre a forma elíptica e. têm vindo a ser interpretadas como amputações posteriores à concepção/construção dos mesmos. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 363 . a utilização do conceito de epimegalitismo. aberta a nascente. em áreas muito restritas. uma vez que a distribuição espacial dos monólitos se apresenta bastante regular. • a existência de um eixo de “simetria” Leste-Oeste. com efeito. as lacunas observadas na extremidade oriental de alguns dos monumentos melhor preservados. derivar do mesmo fundo conceptual que deu origem às diferentes formas de monumentos funerários proto-megalíticos e megalíticos. a forma circular destes recintos. como é o caso do conjunto do Tojal. apesar de apresentar a quase totalidade dos menires tombados. • a opção por terrenos não-graníticos. a existência de uma fase. se aplicou igualmente. O recinto do Tojal. em forma de ferradura. as diferenças impliquem.2. uma revisão dos dados disponíveis sugere que a concepção dos recintos megalíticos teve como matriz um semicírculo alongado. reforçando um certo parentesco entre as diferentes manifestações do megalitismo regional. para as sepulturas de falsa cúpula ou mesmo de paramegalitismo para os monumentos que. não parece. MEGALITISMO. 1988. uma vez que não foram construídos com grandes pedras. desenhando uma forma em ferradura. 3. onde se destaca.

do respectivo local de implantação. o que sugere uma utilização não habitacional desses sítios arqueológicos (Calado. por sua vez. forma e estruturas de fixação do monólito. destaca-se. infelizmente. 2000). Gomes. a confirmação. que emerge por entre terrenos pontuados por afloramentos graníticos e em cuja extremidade Norte se localiza o recinto megalítico do Tojal. foram insculpidas já com o monólito tombado. assim como a determinação das dimensões. Por outro lado. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. MUITA GENTE. dista cerca de 1750 m do menir do Tojal que. Note-se. Por outro lado. nomeadamente o de Vale de Cardos. genericamente enquadráveis no Neolítico antigo/médio. o menir do Tojal centra-se numa lomba aplanada. ao que tudo leva a crer. sem qualquer margem para dúvidas. os artefactos de sílex. de grupos neolíticos. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 364 . numa linha formada pelo recinto do Tojal e pelos restos desmantelados de um outro presumível recinto megalítico: o conjunto das Casas de Baixo. esta evidência foi igualmente reconhecida em alguns outros menires da região. os artefactos recolhidos forneceram alguma informação pertinente sobre a cronologia do monumento: os fragmentos cerâmicos são. indicam uma presença. Em termos de implantação. 11 – Planta do recinto megalítico do Tojal. ainda. e apenas na superfície exposta. o facto de na extremidade distal. uma vez que se trata de peças lisas. De entre os resultados obtidos na escavação do menir do Tojal. em primeiro lugar. a par de uma ausência ou escassez de cerâmicas.FIG. o estudo do menir do Tojal permitiu também destacar alguns resultados interessantes para o estudo do fenómeno megalítico centro-alentejano. está a cerca de 500 m do recinto com o mesmo nome. a escavação de menires e recintos megalíticos centro-alentejanos tem vindo a revelar a presença sistemática de indústrias micro-laminares. no local. o monólito apresentar um conjunto de covinhas de diversas dimensões que. apesar de escassos. Na verdade. o menir central do recinto do Xerez ou o menir maior dos Perdigões. sobretudo o buril diedro e as lamelas. o facto de o menir do Tojal se localizar. com uma cobertura de depósitos de matriz argilosa. com bastante aproximação. pouco expressivos. 2000. porém. trata-se da extremidade meridional de uma elevação dominante. com bordos simples. antes de mais. este monumento. Salienta-se.

MEGALITISMO. 12 – Plantas comparadas dos recintos megalíticos alentejanos melhor conservados.FIG. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 365 .

em grande medida. dos menires alentejanos mais próximos do estuário do Sado. 1997b. Alguns dados recentes parecem corroborar essa proposta (Oliveira. o que sugere uma anterioridade da implantação do menir em relação à deposição dos materiais nas terras que o envolvem. mediada. foi a ausência de materiais embalados nas terras do enchimento do alvéolo. pelo menir do Tojal — recorda a proximidade entre os recintos de Vale Maria do Meio e da Portela de Mogos ou do recintos de Cuncos e do Sideral. mais ou menos em linha recta. é a ausência aparente das gravuras nos conjuntos mais modestos e mais afastados do núcleo central de Almendres. Gomes. 2000a. Portela de Mogos e Vale Maria do Meio. nestes últimos casos. 1993. efectivamente. pela negativa. Outro aspecto relevante. esse carácter periférico é acentuado pelo facto de haver uma notória diferença de escala em comparação com os menires e recintos de Évora. 1990. MUITA GENTE. A relação cronológica entre os menires e os restantes sítios pré-históricos da área do Tojal permanece. trata-se.FIG. A proximidade relativa entre os recintos do Tojal e das Casas de Baixo (desmantelado) — distância de cerca de 2250 m. Com base na informação disponível noutras áreas do Alentejo Central e noutras regiões megalíticas da Europa atlântica. tanto quanto ao número de monólitos envolvidos como quanto às dimensões dos mesmos. conjectural. tenho vindo a propor uma sequência genérica para o fenómeno megalítico alentejano que se iniciaria com a erecção de menires e a construção de recintos megalíticos. numa fase anterior ou paralela à construção das sepulturas protomegalíticas (Calado. as distâncias envolvidas são ainda menores. 2000b). referentes ao menires do Morbihan. 2000). 13 – Materiais da escavação do menir do Tojal. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 366 . Outro aspecto a registar. a par dos dados sobejamente conhecidos. mais uma vez pela negativa. O conjunto do Tojal ocupa uma área relativamente periférica na distribuição regional dos menires e recintos megalíticos. 1997a. 1997. 1995.

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