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Megalitismo, megalitismos: o conjunto

neolítico do Tojal (Montemor-o-Novo)
❚ MANUEL CALADO ❚

RESUMO Apresentam-se os principais resultados
das prospecções e escavações que incidiram sobre
um conjunto de sítios e monumentos neolíticos,
centrados no menir e recinto megalítico do Tojal,
e esboçam-se, com base nos dados obtidos e numa
leitura mais abrangente do povoamento pré-histórico do Alentejo Central, algumas propostas
genéricas de evolução do fenómeno megalítico
regional.
Propõe-se, igualmente, uma redefinição do conceito
de Megalitismo, considerando a possibilidade de
uma primeira fase exclusivamente ritual,
concretizada nos menires e recintos, e a
subsequente transferência da monumentalidade
megalítica para o universo das práticas funerárias,
onde coexiste com outras formas arquitectónicas,
nomeadamente as grutas artificiais e, na fase final,
as sepulturas de falsa cúpula.

ABSTRACT This paper presents the principal results
of surveys and excavations conducted at a group of
sites and Neolithic monuments, centered around
the menhir and megalithic sanctuary of Tojal, and
outlines, on the basis of the data obtained and in an
broader interpretation of the prehistoric settlement
of the central Alentejo, some general proposals of
the evolution of the regional megalithic
phenomenon.
A redefinition of the concept of megalithism is also
proposed and considers the possibility of a first
phase that was exclusively ritual, exemplified by
menhirs and sanctuaries, and a subsequent
transferral of megalithic monumentality to the
realm of funerary practices, where they coexisted
with other architectonic forms, namely artificial
caves and, in the final phase, corbel-vaulted tombs.

1. Introdução
O conjunto de sítios que constitui o objecto deste trabalho foi, na sua maioria, identificado
pelo autor, em prospecções de superfície inseridas num projecto actualmente em curso, cujos
objectivos se prendem com o estudo e contextualização dos menires do Alentejo Central.
Anteriormente, apenas se conheciam quatro antas (n.os 8, 17, 18 e 22), cartografadas e descritas
num trabalho muito recente (Oliveira, 1999) e um conjunto de menires (n.o 24) (Gomes, 1986).
A área, dominada visualmente pelo maciço da serra de Monfurado, é drenada pelos troços superiores de cursos de água, ainda pouco caudalosos, subsidiários do Xarrama, afluente
da margem direita do Sado. O terreno, na parte norte da área mapeada, é ligeiramente mais
declivoso do que na parte sul. Geologicamente, a área é constituída, basicamente, por granitos
que conformam uma paisagem de recorte suave, pontuada de notáveis afloramentos graníticos, e por gnaisses, rochas que dão corpo aos relevos mais significativos; destacam-se ainda
algumas manchas de cobertura detrítica, de idade terciária, que se traduzem em elevações de
topos aplanados, como aquela onde se localizam o menir e o recinto megalítico do Tojal.
Numa primeira fase, foi prospectada uma zona muito restrita centrada nos menires do
Tojal. Numa área com apenas cerca de 2-3 km2 foi identificado um conjunto extremamente
denso de monumentos de diferentes tipos, numa coexistência espacial pouco habitual na
região: dois recintos megalíticos, um menir isolado, sepulturas protomegalíticas e antas, de
dimensões variadas; paralelamente, registou-se um pequeno conjunto de sítios com materiais de superfície, prováveis locais de habitat onde há que destacar a presença de lamelas e
lascas de sílex, artefactos igualmente presentes nos materiais de escavação do menir e do

MEGALITISMO, MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO)

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recinto do Tojal. Numa fase seguinte, alargou-se sensivelmente a área prospectada, tendo
sido identificados mais alguns sítios pré-históricos, nomeadamente antas, sepulturas protomegalíticas e vestígios de habitat.

FIG. 1

– Localização dos sítios listados no texto.

MUITA GENTE, POUCAS ANTAS ? ORIGENS, ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO

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de planta aparentemente fechada. Há vestígios de mamoa e de alguns esteios de granito amputados ou arrancados. muito destruída. amputados pouco acima do solo. MEGALITISMO. São visíveis restos de mamoa e dois esteios do lado Norte. Escassa cerâmica manual. FIG. 4 . muito destruída. 2 .Quinta do Gato 5 Sepultura protomegalítica. Mede cerca de 2. 3 . trata-se de blocos de gnaisse. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 353 . do lado Nascente. 2 – Sepultura protomegalítica da Quinta do Gato 5. Listagem de sítios 1 .50 m de comprimento por 1 m de largura máxima. localizado numa rechã com grandes afloramentos graníticos. há uma laje espessa.Quinta do Gato 7 Sepultura protomegalítica ou pequena anta. que deve corresponder a um fragmento do chapéu. uma eventual abertura. uma enxó de anfibolito. excepto o que bloqueia.2. algo informes. e que é de granito. definida por sete esteios.Quinta do Gato 8 Povoado aberto. lascas e lamelas de sílex. de secção arredondada. seixo afeiçoado e percutor.Quinta do Gato 6 Anta de corredor. inclinada.

Escoural 1 Anta de corredor com três esteios do lado Norte (um deles truncado) e dois esteios do lado Sul. pelas dimensões e contexto geológico e paisagístico. MUITA GENTE. O chapéu está fracturado e tombado para W.60 de comprimento. outros blocos dispersos na área podem ter pertencido ao monumento.Escoural 4 Quatro possíveis esteios arrancados e amontoados. e um chapéu.Escoural 3 Sepultura protomegalítica com sete a nove possíveis esteios. um dos esteios Norte é um bloco espesso que pode corresponder a um menir reutilizado. de granito. Vestígios de mamoa. Os esteios afloram. 8 . POUCAS ANTAS ? ORIGENS.5 .50 m acima da superfície do solo e o conjunto mede cerca de 2. uns 0. no máximo. com mamoa bem pronunciada e dois esteios in situ e um outro aparentemente recolocado a servir de marco de divisão de propriedade. por 1. é possível que correspondam aos restos de uma sepultura protomegalítica. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 354 .30 de largura máxima. A câmara mede perto de 2 m de diâmetro e o corredor conserva cerca de 2. mais três esteios de corredor. FIG. bastante espesso. 6 .20 m. na câmara. 3 – Anta do Escoural 1 e sepultura do Escoural 2. 7 .Quinta do Gato 4 Sepultura protomegalítica.

Quinta do Gato 2 Sepultura protomegalítica. 2. um esteio do lado Sul e dois do lado Norte. aparentemente. Implanta-se junto ao topo de uma encosta. tem cerca de 2. conserva três esteios do lado Norte e um esteio do lado Sul. Cerâmica manual. conserva o esteio de cabeceira. com o eixo alinhado solsticialmente a aberta a Nascente. 9 .Quinta do Gato Anta de corredor. de dimensões médias. machado de secção arredondada. muito inclinada no troço MEGALITISMO. localizados nas proximidades da posição original.40 m acima do solo. O diâmetro máximo da câmara ronda os 2. uns escassos 0. por 1. percutores e mós. O chapéu aparece tombado e fracturado. 11 . aflorando. na entrada da câmara. de planta subtrapezoidal.50 m. em planta. de granito.FIG. mais ou menos in situ e outros possíveis esteios tombados e deslocados. uma ferradura.Escoural 2 Sepultura protomegalítica anexa ao monumento anterior. 11 . MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 355 . 4 – Sepultura protomegalítica da Quinta do Gato 2.50 m de comprimento. no sentido do declive. Conserva 3 esteios.Quinta do Gato 3 Povoado aberto.60 m de largura máxima. com restos de mamoa. O recinto desenha. incluindo bordo espessado. 12 . aparentemente. para além de um esteio de corredor de cada lado. no máximo. aberta a Nascente.60 m de comprimento. numa área em que afloram grandes blocos graníticos. pelo menos. Mede cerca de 1 m de largura na câmara e. na maioria arrancados e tombados mas.Tojal Recinto megalítico formado por 17 menires de granito. 10 . lasca de sílex. mais ou menos in situ.

superior e exposta a Nascente. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 356 .35 m de comprimento. lascas e lamelas. 16 . foi recolocado a servir de limite de propriedade e suporte de vedação e apresenta o mesmo motivo de triângulos em cruz que se observa no menir 15. O substrato é constituído por depósitos terciários. O conjunto mede sensivelmente 18 m de comprimento (E-W). na face que se encontrava exposta. 15 . recobrindo ainda o chapéu do monumento. chapéu “in situ” e restos de mamoa conservados. antes e depois da limpeza. com a mamoa muito bem conservada. embora a uma escassa centena de metros aflorem os granitos. um menir de maiores dimensões (menir 15) que foi usado como referência para divisão de propriedades e sobre o qual foi gravado um motivo constituído por cinco triângulos dispostos em cruz. por 16 m de largura (N-S). nomeadamente um buril diedro. para além de algumas cerâmicas de fabrico manual. com cerca de 2. no lado Sul aflora uma parte do chapéu e o topo de esteios. 13 .Tojal 2 Anta de corredor. por cerca de 1 m de diâmetro máximo. com sete esteios na câmara e 8 no corredor. mais ou menos in situ. O menir encontrava-se tombado com alguma inclinação. Destaca-se. pouco características.Carapetal 1 Anta de corredor. O topo. possivelmente do corredor.Tojal 3 Achado avulso (dormente de mó manual) que. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. aparece decorado com um painel de covinhas. de granito.FIG. no recinto do Tojal. 5 – Aspectos do recinto megalítico do Tojal. 14 . associado às cerâmicas recolhidas na escavação do menir do Tojal. estes artefactos foram recolhidos nas terras exteriores à estrutura de implantação do monólito.Menir do Tojal Menir de contorno ovóide. de granito. mantendo a base enterrada. um outro. e de um pequeno conjunto de artefactos de sílex. A escavação permitiu detectar o alvéolo de implantação do menir e a respectiva coroa de sustentação. na área compreendida entre o recinto e o menir. permite supor a existência de uma área de actividade de cariz doméstico. MUITA GENTE. mais ou menos centrado no lado ocidental do recinto.

FIG. MEGALITISMO. com sete esteios na câmara. 6 – Mamoa da anta do Tojal 2. 17 . vista de W. FIG. antes e depois da escavação. 7 – Aspectos do menir do Tojal.Carapetal 3 Achado avulso.Carapetal 2 Anta de corredor. 18 . chapéu tombado e vestígios de corredor e mamoa. constituído por dois dormentes de mós manuais barquiformes. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 357 . eventualmente indiciadores de um sítio de habitat. de granito.

07 m de diâmetro máximo.Olival 3 Anta de corredor. 22 . sendo o comprimento impossível de calcular. de que resta. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. para além de um conjunto de 5 menires amontoados a jusante. com esteios de granito. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 358 .Casas de Baixo 2 Sepultura protomegalítica desmantelada. 8 – Dormente de mó manual do Carapetal 3.Casas de Baixo Recinto megalítico desmantelado. são visíveis três esteios mais ou menos in situ e vestígios de mamoa. Conserva cinco esteios na câmara e restos do corredor. apenas um esteio cravado e outros amontoados. 21 – Anta da Herdade do Tojal Pequena anta de corredor. Resta um menir tombado. junto ao topo de uma encosta exposta a Nascente. conserva quatro esteios da câmara e restos de um kerb de contenção da mamoa. muito mal conservada. Apresenta uma largura da ordem de 1m. 19 . MUITA GENTE. com cerca de 15 m de diâmetro. Todos os monólitos são de granito. sem escavação. de granito.FIG. com cerca de 2. junto de afloramentos e escombros. 23 .65 m de comprimento por 1.Polome Sepultura protomegalítica. aparentemente. 20 .

1. pode afirmar-se que os melhores paralelos. Os monumentos funerários Os monumentos. 9 – Sepultura da Chaminé e vista da respectiva “mamoa” (2 fotos). Por outro lado. são as conhecidas sepulturas “em ferradura” de Pavia (Correia. Cabanas. pelo menos. Albardeira. com frequência. 24 . 25 . no Alentejo Central. Refiro-me nomeadamente a alguns monumentos ainda inéditos. os monumentos aqui referidos como antas de corredor correspondem. A estrutura localiza-se. se tenham vindo a identificar. nestes monumentos. sem corredor diferenciado e uma delas.Comentários 3. de granito. sepulturas estruturalmente análogas. 1921. 1999).). nos casos em que é possível avaliar o esquema estrutural a que obedecem. com câmaras poligonais geralmente de sete esteios e corredores MEGALITISMO. Murteiras. noutras áreas do Alentejo Central. em termos de planta e alçado. com sete esteios de granito e de gnaisse. uma estreita associação espacial com antas de corredor. aberta a Nascente. 3 . geralmente conservam alguns vestígios das mamoas. lascas e lamelas de sílex e percutores. etc. de uma forma algo insólita.Casas de Baixo 3 Anta de corredor. 26 . mede cerca de 1 m de largura máxima. nos últimos anos. no concelho de Évora (Herdade de Vale de Moura. por 1. verifica-se. Numa primeira abordagem. construídas quer em granito quer em xisto ou outras rochas metamórficas. onde foram recolhidas algumas cerâmicas de fabrico manual.Freiras Área de habitat. ao tipo melhor documentado na região.Chaminé Sepultura protomegalítica. São visíveis 3 esteios mais ou menos in situ. são pequenas estruturas funerárias de planta alongada.FIG. apresenta planta fechada. essas de porte efectivamente megalítico. aqui designados como sepulturas protomegalíticas. no topo de um montículo aparentemente artificial. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 359 .70 m de comprimento. embora. Rocha.

aceita. Regressando ao SW peninsular. com o cuidado de evitar generalizações abusivas. aparece atestada. para além da existência de formas intermédias e das reconhecidas assimetrias regionais (o que não erradica. em comparação com os monumentos de câmara e corredor funcional (passage graves. 1951.o 2). por exemplo. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. mesmo que com um eventual regresso a fórmulas simples. teorizado a antiguidade relativa dos monumentos com estrutura pétrea mais elementar. enquanto. Leisner e Leisner. o melhor exemplo de relação cronológica entre esses dois grupos encontramo-lo no Dolmen de Dombate. pelos Leisner (Leisner. apresenta-se parcialmente desmantelada. dolmens a couloir) (Bradley. considerar-se encerrada: entre nós. Bueno 1994. Os monumentos distinguir-se-iam basicamente em dois grandes grupos: os que. Por outro lado. 1998). 62). a sequência anta de corredor-tholos. p. segundo a qual os pequenos monumentos funerários seriam genericamente anteriores aos grandes. os monumentos de um e outro tipo ocorrem frequentemente lado a lado. uma outra (n. entre os dois tipos de sepulturas. o que sugere. em alguns monumentos alentejanos. penso que. No entanto. 1995). em termos culturais. Em termos peninsulares. eram fechados e ficavam internamente inacessíveis e os que permitiam o acesso continuado dos vivos e a acumulação dos enterramentos (primários ou secundários). de acordo com um modelo evolutivo em que se parte do mais simples para o mais elaborado. aqui em aparente oposição às cronologias bretãs. como o famoso tumulus de S. pelo contrário. 1953. Uma delas (n. no mínimo. Evitando a repetição dos argumentos que têm sido esgrimidos em defesa dessa leitura (contra. com um destaque especial para o extraordinário conjunto do Olival da Pega 2 (Gonçalves. A velha questão da cronologia relativa dessas duas categorias de monumentos. na sequência dos enterramentos. mais ou menos pacificamente. de uma “mudança de ênfase gradual de ritos funerários para ritos dos antepassados” (Bradley.bem diferenciados. Michel. a tese tradicional sustentada. cuja sobreposição a uma pequena sepultura protomegalítica não deixa qualquer dúvida. embora não se conheçam sobreposições inequívocas como as que referi. Por outro lado. um bom estado de conservação estratigráfica dos espólios. 1993. parecem ser estratigraficamente inequívocos: os dolmens de corredor são posteriores às sepulturas de planta fechada que os tumuli originais recobriam. parece-me pertinente recordar que os espólios das sepulturas protomegalíticas excluem sistematicamente uma série de artefactos habituais nas sepulturas megalíticas de corredor e nos monumentos que regionalmente se lhes seguiram: os tholoi. têm recentemente. tendo como base de apoio as realidades megalíticas de outras áreas da Europa atlântica. alguns autores. em termos de sequência estratigráfica: de facto. Também alguns casos bretões. o modelo evolucionista) (Jorge. 1997. a estrutura tumular de Dombate Recente (dólmen de corredor) sobrepõe e oculta a mamoa que recobria o monumento de Dombate Antigo. nos mesmos contextos geográficos. Oliveira. pelo menos parcial. 1998. o monumento do Mané-Lud ou o recentemente escavado Petit Mont d’Arzon. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 360 . embora sem arrastar necessariamente consensos. MUITA GENTE. É certo que é necessário aceitar a contemporaneidade. a maioria dos autores que se tem pronunciado sobre o assunto. 1959). 1999). 1986). só por si. os dados do Tojal a favorecem. Tratar-se-ia.o 15) aparece ainda coberta pela mamoa e com o chapéu mais ou menos in situ. 1949. em indiscutíveis estratigrafias horizontais. com um desenvolvimento em alçado completamente distinto do das sepulturas protomegalíticas. a meu ver. não pode ainda.

em rampa. FIG. 1995). e do anel de contenção da mamoa). Dombate antigo (com restos da câmara. da estrutura de acesso. MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 361 . É visível à direita (Norte) da câmara de Dombate recente (Bello. 10 MEGALITISMO.– Planta geral de Dombate.

POUCAS ANTAS ? ORIGENS. cronologicamente. um artifício simbólico tal como a própria abertura das sepulturas protomegalíticas. é pouco eficaz no que diz respeito às tipologias arquitectónicas e cronologias. uma vez que o acesso à câmara funerária teria que se fazer por cima As sepulturas protomegalíticas abertas prenunciam. fragmentos cerâmicos de tipologia pouco definida. numa dada fase de uso do conjunto. Embora me pareça de reter a interpretação avançada nesse trabalho. Desde a escolha MUITA GENTE. pelo menos. aliás.Neste caso. ou de monumentos com dimensões que permitiam o acesso repetido. esses grupos seriam genericamente contemporâneos e seriam as diferenças económicas entre ambos. resumemse a alguns instrumentos de pedra polida. observar que a distinção entre monumentos de xisto e monumentos de granito. a causa das diferenças notórias entre arquitecturas e espólios verificados no megalitismo funerário. 1997) sugere a existência de comunidades distintas. é decerto difícil aplicá-la às situações como a do Tojal ou de Pavia. sempre muito pobres: frequentemente. o corredor da Anta 2 do Olival da Pega foi bloqueado. particularmente no que diz respeito aos monumentos do Sever. parece desenvolver-se em crescendo. mais raramente ainda. como as que apresento neste trabalho. toda o esquema simbólico/arquitectónico que se vai desenvolver nas antas de corredor e nos tholoi. aspecto que deriva naturalmente de preceitos rituais generalizados. que parecem corresponder. com distintas bases económicas (os terrenos xistosos são agricolamente mais pobres) implantadas uma nos xistos e outra nos granitos da região. com o auge nas sepulturas de falsa cúpula. Um modelo desenvolvido recentemente para a bacia do Sever (Oliveira. Efectivamente. 1994). a um único enterramento ou. apresentam dimensões que tornam o acesso apenas simbólico (como a Anta 1 do Lucas) (Calado. em que os monumentos dos dois tipos se distribuem regularmente nos mesmos territórios e se justapõem mesmo em alguns casos. se bem que pertinente. não elimina a possibilidade de se tratar precisamente do inverso: o corredor (sobretudo se é longo) é. pelo menos em termos regionais. A diversidade de artefactos depositados e. as oferendas são. Efectivamente. 1994). um dos aspectos em que a sequência evolutiva tradicional (sepulturas protomegalíticas — antas de corredor — tholoi) parece confirmar-se é precisamente a riqueza diferencial dos espólios. na sua maioria. conhecem-se muitas antas de xisto de grandes dimensões. mais do que uma estrutura funcional. com espólios muito ricos e que denotam uma boa continuidade cultural com os das sepulturas megalíticas. Nas sepulturas mais antigas. embora plausível. nas diversas áreas. muitas vezes. A ideia de que os corredores sem funcionalidade aparente são posteriores aos verdadeiros corredores funcionais e se inspiram neles (Bueno. assim como pequenas sepulturas protomegalíticas de granito. se podem sobrepor tanto aos mais antigos como aos mais recentes: é o caso de monumentos (geralmente de xisto) que embora tenham bem definida a câmara e o corredor. e foram construídas derivações laterais que davam acesso a sepulturas de falsa cúpula. a abundância dos mesmos. mas com corredores incipientes (como o Poço da Gateira). entre as sepulturas protomegalíticas mais básicas (de planta fechada ou em ferradura) e as grandes antas de corredor. Não nos podemos esquecer que o problema fundamental e o facto que tem alimentado algumas das polémicas em torno desta sequência evolutiva é a existência de formas intermédias que devem corresponder a ritmos e formas diferenciadas de absorver e aplicar as novas ideias. a um único episódio de enterramento. Aliás. como se disse. Convém. encontramos uma diversidade notável de situações que. a propósito. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 362 . escasso sílex e.

embora seja mais natural que. se aplicou igualmente. como acima sugeri.da implantação (exposta a Nascente) até ao aspecto exterior (as estruturas pétreas eram recobertas por montículos artificiais). MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 363 . uma revisão dos dados disponíveis sugere que a concepção dos recintos megalíticos teve como matriz um semicírculo alongado. reforçando um certo parentesco entre as diferentes manifestações do megalitismo regional. 1988. mais ou menos longa. p. passando pela orientação da entrada (e do eixo maior). em vários aspectos. as lacunas observadas na extremidade oriental de alguns dos monumentos melhor preservados. no Morbihan) parece ter sido aplicada em praticamente todos os recintos alentejanos cuja planta se conservou minimamente. Efectivamente. todos tombados. Talvez se justificasse mesmo. com efeito. aberta a nascente. • a existência de um eixo de “simetria” Leste-Oeste. de transição entre os monumentos fechados e os monumentos abertos terá dado lugar a situações de contemporaneidade relativa entre modalidades distintas. o monumento do Tojal ilustra perfeitamente algumas observações sobre a relação entre os recintos megalíticos e a paisagem. mais ou menos centrado. sobretudo. sendo eventualmente contemporâneos dos monumentos megalíticos. relações diacrónicas.2. permitiu uma nova aproximação à planta deste tipo de monumentos. curiosamente. Os menires A descoberta do recinto do Tojal. na construção dos recintos megalíticos do Alentejo Central e alguns da Bretanha. a forma circular destes recintos. Por outro lado. as diferenças impliquem. 3. apesar de apresentar a quase totalidade dos menires tombados. a par do conceito de protomegalitismo (referido a monumentos cujo porte dificilmente se enquadra no conceito de megalitismo etimológico. Essa forma básica. igualmente presente na maioria dos recintos megalíticos bretões (destacam-se os dois monumentos gémeos de Er-Lannic. • a opção por terrenos não-graníticos. mas nos quais se reconhece o germe das verdadeiras construções megalíticas funerárias). um menir de maiores dimensões. em áreas muito restritas. tendo as diversas interpretações avançadas oscilado entre a forma elíptica e. nas proximidades das manchas graníticas. com muito menos verosimilhança. mesmo assim. onde se destaca. a par de uma manifesta assimetria definida pelo eixo Norte-Sul e com uma monumentalidade claramente reforçada no lado ocidental. em forma de ferradura. derivar do mesmo fundo conceptual que deu origem às diferentes formas de monumentos funerários proto-megalíticos e megalíticos. apresentam dimensões mais discretas. como é o caso do conjunto do Tojal. têm vindo a ser interpretadas como amputações posteriores à concepção/construção dos mesmos. Seja como for. a utilização do conceito de epimegalitismo. desenhando uma forma em ferradura. O recinto do Tojal. de que restam actualmente visíveis apenas 17 menires. para as sepulturas de falsa cúpula ou mesmo de paramegalitismo para os monumentos que. percebe-se uma gramática arquitectónica que. MEGALITISMO. não parece. Essa forma pode. uma vez que a distribuição espacial dos monólitos se apresenta bastante regular. nomeadamente: • a implantação junto ao topo (mas não no topo) de encostas expostas a Nascente (também com analogias na implantação dos menires bretões) (Giot. ter sofrido amputações significativas. uma vez que não foram construídos com grandes pedras. a existência de uma fase. 321).

o monólito apresentar um conjunto de covinhas de diversas dimensões que. que emerge por entre terrenos pontuados por afloramentos graníticos e em cuja extremidade Norte se localiza o recinto megalítico do Tojal. o que sugere uma utilização não habitacional desses sítios arqueológicos (Calado. esta evidência foi igualmente reconhecida em alguns outros menires da região. o estudo do menir do Tojal permitiu também destacar alguns resultados interessantes para o estudo do fenómeno megalítico centro-alentejano. destaca-se. por sua vez. sem qualquer margem para dúvidas. Gomes. Salienta-se. com uma cobertura de depósitos de matriz argilosa. ao que tudo leva a crer. a par de uma ausência ou escassez de cerâmicas. POUCAS ANTAS ? ORIGENS. sobretudo o buril diedro e as lamelas. trata-se da extremidade meridional de uma elevação dominante. uma vez que se trata de peças lisas. pouco expressivos.FIG. do respectivo local de implantação. indicam uma presença. foram insculpidas já com o monólito tombado. genericamente enquadráveis no Neolítico antigo/médio. a confirmação. dista cerca de 1750 m do menir do Tojal que. ainda. MUITA GENTE. 2000. com bastante aproximação. infelizmente. porém. antes de mais. assim como a determinação das dimensões. apesar de escassos. está a cerca de 500 m do recinto com o mesmo nome. este monumento. 11 – Planta do recinto megalítico do Tojal. com bordos simples. o menir central do recinto do Xerez ou o menir maior dos Perdigões. a escavação de menires e recintos megalíticos centro-alentejanos tem vindo a revelar a presença sistemática de indústrias micro-laminares. Por outro lado. o menir do Tojal centra-se numa lomba aplanada. Na verdade. o facto de na extremidade distal. de grupos neolíticos. De entre os resultados obtidos na escavação do menir do Tojal. numa linha formada pelo recinto do Tojal e pelos restos desmantelados de um outro presumível recinto megalítico: o conjunto das Casas de Baixo. Por outro lado. o facto de o menir do Tojal se localizar. em primeiro lugar. 2000). e apenas na superfície exposta. os artefactos de sílex. os artefactos recolhidos forneceram alguma informação pertinente sobre a cronologia do monumento: os fragmentos cerâmicos são. nomeadamente o de Vale de Cardos. Em termos de implantação. forma e estruturas de fixação do monólito. Note-se. no local. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 364 .

MEGALITISMOS: O CONJUNTO NEOLÍTICO DO TOJAL (MONTEMOR-O-NOVO) 365 . MEGALITISMO. 12 – Plantas comparadas dos recintos megalíticos alentejanos melhor conservados.FIG.

1993. Outro aspecto relevante. dos menires alentejanos mais próximos do estuário do Sado. Com base na informação disponível noutras áreas do Alentejo Central e noutras regiões megalíticas da Europa atlântica. 1995. nestes últimos casos. numa fase anterior ou paralela à construção das sepulturas protomegalíticas (Calado. 2000). Alguns dados recentes parecem corroborar essa proposta (Oliveira. O conjunto do Tojal ocupa uma área relativamente periférica na distribuição regional dos menires e recintos megalíticos. foi a ausência de materiais embalados nas terras do enchimento do alvéolo. 1997a. Outro aspecto a registar. efectivamente. A proximidade relativa entre os recintos do Tojal e das Casas de Baixo (desmantelado) — distância de cerca de 2250 m. tenho vindo a propor uma sequência genérica para o fenómeno megalítico alentejano que se iniciaria com a erecção de menires e a construção de recintos megalíticos. pela negativa. pelo menir do Tojal — recorda a proximidade entre os recintos de Vale Maria do Meio e da Portela de Mogos ou do recintos de Cuncos e do Sideral. MUITA GENTE. o que sugere uma anterioridade da implantação do menir em relação à deposição dos materiais nas terras que o envolvem. a par dos dados sobejamente conhecidos. é a ausência aparente das gravuras nos conjuntos mais modestos e mais afastados do núcleo central de Almendres. esse carácter periférico é acentuado pelo facto de haver uma notória diferença de escala em comparação com os menires e recintos de Évora. mais uma vez pela negativa. 1997b. trata-se. referentes ao menires do Morbihan. conjectural. 13 – Materiais da escavação do menir do Tojal. mediada. 1997. as distâncias envolvidas são ainda menores. em grande medida. 2000b). Gomes. mais ou menos em linha recta. A relação cronológica entre os menires e os restantes sítios pré-históricos da área do Tojal permanece. POUCAS ANTAS ? ORIGENS.FIG. 1990. Portela de Mogos e Vale Maria do Meio. 2000a. ESPAÇOS E CONTEXTOS DO MEGALITISMO • ACTAS DO II COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE MEGALITISMO 366 . tanto quanto ao número de monólitos envolvidos como quanto às dimensões dos mesmos.

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