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(Notas de aula, 12/2006. © S. S. Chibeni)

Algumas observações sobre o “método científico”

Silvio Seno Chibeni

Departamento de Filosofia, IFCH, Unicamp, Brasil. Web site: www.unicamp.br/~chibeni.

Resumo:

Estas notas apresentam e discutem, em nÌvel introdutÛrio, alguns aspectos do chamado ìmÈtodo cientÌficoî. Seu objetivo principal È mostrar que embora a complexidade da ciÍncia n„o permita que se conceba um ìmÈtodoî ˙nico, de aplicabilidade geral, para se ìfazerî ciÍncia, o conhecimento cientÌfico se distingue de outras formas de saber por algumas caracterÌsticas importantes, que giram em torno da exposiÁ„o deliberada e sistem·tica das teorias cientÌficas ‡ an·lise racional e ao controle experimental.

1. Introdução

Constitui crenÁa generalizada que o conhecimento fornecido pela ciÍncia È, de algum modo, superior relativamente aos demais tipos de conhecimento, como o do homem comum. Teorias, mÈtodos, tÈcnicas, produtos, contam com aprovaÁ„o geral quando considerados cientÌficos. A autoridade da ciÍncia È evocada amplamente. Ind˙strias, por exemplo, freq¸entemente rotulam de ìcientÌficosî processos por meio dos quais fabricam seus produtos, bem como os testes aos quais os submetem. Atividades v·rias de pesquisa nascentes se auto-qualificam ìcientÌficasî, buscando respeitabilidade. Essa atitude quase que de veneraÁ„o ‡ ciÍncia deve-se, em boa parte, ao extraordin·rio sucesso pr·tico alcanÁado pela fÌsica, pela quÌmica, pela biologia e por suas ramificaÁıes. Assume-se, implÌcita ou explicitamente, que por detr·s desse sucesso existe um ìmÈtodoî especial que, quando seguido, redunda em conhecimento certo, seguro. A quest„o de saber que mÈtodo seria esse tem constituÌdo uma das principais preocupaÁıes dos filÛsofos, desde que a ciÍncia ingressou em uma nova era, no sÈculo XVII. Formou-se em torno dela e de outras questıes correlacionadas um ramo especial da filosofia, a filosofia da ciÍncia. Essa disciplina passou por transformaÁıes importantes no sÈculo XX, tendo, como conseq¸Íncia, chegado a uma vis„o do mÈtodo cientÌfico bem mais satisfatÛria, sob diversos aspectos, do que a que prevaleceu, com algumas variaÁıes, nos trÍs sÈculos precedentes. N„o cabe no escopo deste artigo analisar, ou sequer descrever, as diversas concepÁıes histÛricas, nem tampouco entrar em

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detalhes sobre as atuais concepÁıes acerca do chamado mÈtodo cientÌfico. 1 Seu objetivo È o de indicar de forma sucinta e simplificada, para um p˙blico de n„o filÛsofos, alguns dos pontos sobre a natureza da ciÍncia em que h· uma maior concord‚ncia entre filÛsofos da ciÍncia. Um dos mais importantes desses pontos È o de que, na verdade, n„o h· um mÈtodo cientÌfico no sentido de uma receita universal para se fazer ciÍncia. O escopo da ciÍncia È t„o amplo e diversificado que, mesmo sem muita pesquisa filosÛfica, j· È de se desconfiar que È quimÈrica a idÈia de um procedimento ˙nico, aplic·vel a todas as ·reas. AlÈm disso, est· claro para os especialistas que mesmo em domÌnios mais restritos a investigaÁ„o cientÌfica n„o È amold·vel a nenhum procedimento fixo e explicit·vel em termos de regras de aplicaÁ„o autom·tica. A percepÁ„o aguda desse ponto levou alguns filÛsofos contempor‚neos a defender a posiÁ„o extrema de que simplesmente n„o h· nenhum mÈtodo cientÌfico. O caso mais famoso È, provavelmente, o de Paul Feyerabend, cujo lema È que na ciÍncia ìvale tudoî. Seu livro mais importante, publicado em 1975, intitula-se justamente Against Method. No restante deste texto n„o seguirei essa posiÁ„o pessimista, tentando identificar alguns traÁos do empreendimento cientÌfico que, embora n„o de maneira rÌgida, permitem diferenÁ·-lo de outros empreendimentos cognitivos.

2. A tripartição aristotélica do conhecimento

Desde a sua origem, o homem sempre cuidou de obter conhecimento sobre os objetos que o cercam. Esse conhecimento primitivo È motivado por algo externo ‡ atividade cognitiva propriamente dita: a necessidade de controle dos fenÙmenos naturais, com vistas ‡ prÛpria sobrevivÍncia biolÛgica. A GrÈcia Antiga testemunhou, no entanto, o surgimento de uma perspectiva cognitiva nova: a busca do conhecimento pelo prÛprio conhecimento, por mera curiosidade intelectual. Aqueles que cultivavam essa busca do saber pelo saber foram chamados filósofos, ìos que amam ou buscam a sabedoriaî. Um dos mais importantes deles, talvez mesmo o mais importante de todos os tempos, AristÛteles (c. 384-322 a.C.), abre uma de suas obras fundamentais, Metafísica, justamente com a afirmaÁ„o de que ìpor natureza, todo homem deseja conhecerî (livro I, cap. 1). Em seguida traÁa a distinÁ„o entre trÍs tipos de saber, ou talvez etapas na busca do saber. Adaptando um pouco a terminologia, trata-se do seguinte:

(i) Conhecimento por experiência sensorial direta. Restringe-se aos objetos e eventos individuais, e informa simplesmente acerca do que é.

1 ExposiÁıes razoavelmente acessÌveis a um p˙blico n„o especializado podem ser encontradas, por exemplo, em Losee 1980, Chalmers 1982, Hempel 1966.

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(ii) Conhecimento técnico. Engloba leis gerais sobre o comportamento dos objetos, mas

dirige-se apenas ‡ quest„o de como é. Tal conhecimento basta, pelo menos num primeiro momento, para dirigir nossas aÁıes.

(iii) Conhecimento teórico. TambÈm de tipo geral, procura responder a quest„o de por que é,

pela investigaÁ„o das ìcausasî e ìprincÌpiosî dos fenÙmenos. Esse seria o domÌnio da ciência propriamente dita. Nessa acepÁ„o original, o termo ëciÍnciaí (episteme, scientia) indica o ideal m·ximo do saber humano: a apreens„o completa e definitiva da realidade de um objeto ou processo. A busca da ciÍncia nesse sentido representava, pois, um desafio imenso. De forma admir·vel, isso n„o impediu que fosse aceito pela maioria dos filÛsofos durante quase dois milÍnios. Paradoxalmente, foi somente quando a investigaÁ„o cientÌfica do mundo adentrou uma fase particularmente fecunda, a partir do sÈculo XVII, que comeÁaram a surgir as primeiras suspeitas sistem·ticas de que, talvez, o ideal fosse alto demais. Nessa Època, o prÛprio avanÁo do saber determinou, entre outras coisas, uma crescente especializaÁ„o, que se traduziu num desmembramento, relativamente ao tronco comum da filosofia, que englobava quase todas as ·reas do saber, de um aglomerado de campos que viria, bem mais tarde, ser chamado de ciência, numa acepÁ„o mais restrita do termo, e que È a que prevalece hoje em dia. 2 No tronco original permaneceram diversas disciplinas, como a metafÌsica, a lÛgica, a epistemologia, a Ètica e a estÈtica. No domÌnio da epistemologia, ou seja, do estudo do conhecimento, surgiram figuras importantes que tomaram a si, entre outras, a tarefa de investigar as origens, fundamentos e limites do conhecimento cientÌfico. Dentre elas, merece destaque, por sua relev‚ncia para os propÛsitos deste artigo, John Locke (1632-1704). Foi ele quem pela primeira vez concluiu, por meio de uma an·lise sistem·tica, que no domÌnio do conhecimento do mundo natural (em oposiÁ„o, por exemplo, ao domÌnio da matem·tica), n„o devemos ter esperanÁas de satisfazer simultaneamente a dois dos desiderata cl·ssicos da ciÍncia: a universalidade e a certeza. Para poder tratar disso, assim como para preparar caminho para outros tÛpicos a serem discutidos abaixo, È conveniente introduzir uma distinÁ„o importante entre dois tipos de teorias cientÌficas.

3. Teorias fenomenológicas e teorias explicativas

Embora na acepÁ„o de AristÛteles da palavra ëciÍnciaí somente o terceiro de seus trÍs tipos de conhecimento seja ìcientÌficoî, na acepÁ„o moderna o segundo tambÈm integra parte da ciÍncia. O ponto fica claro a partir de uma distinÁ„o entre dois tipos de teorias cientÌficas: fenomenolÛgicas e explicativas. Essa distinÁ„o diz respeito ‡ natureza das proposiÁıes da teoria. As teorias cujas

2 O que hoje denominamos ciência era, atÈ o sÈculo XIX, denominado filosofia natural.

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proposiÁıes se refiram exclusivamente a propriedades e relaÁıes empiricamente acessÌveis entre os fenÙmenos s„o ditas fenomenológicas (ëfenÙmenoí: aquilo que aparece aos sentidos). Teorias desse tipo tÍm como funÁ„o descrever, por suas leis, as correlaÁıes entre os fenÙmenos. Isso È o suficiente para permitir a previs„o da ocorrÍncia de um fenÙmeno a partir da ocorrÍncia de outros. Exemplos importantes de teorias fenomenolÛgicas s„o a termodin‚mica, a teoria da relatividade especial e a teoria da seleÁ„o natural de Darwin. PorÈm a capacidade de predição de fenÙmenos È apenas o primeiro dos dois grandes objetivos da ciÍncia, no sentido atual do termo. O outro objetivo È o de fornecer explicações para os fenÙmenos, quer individualmente, quer j· concatenados por leis de tipo fenomenolÛgico. Numa vis„o tradicional (adotada daqui em diante), esse objetivo deve ser buscado apontando-se as causas dos fenÙmenos. Teorias que se proponham a especificar tais causas, a partir das quais se compreenda as razıes da ocorrÍncia dos fenÙmenos, s„o ditas teorias explicativas, ou construtivas. Esta ˙ltima denominaÁ„o foi sugerida por Einstein, a partir da observaÁ„o de que as teorias deste segundo tipo envolvem proposiÁıes referentes a entidades e processos inacessÌveis ‡ observaÁ„o direta, que s„o postulados com o objetivo de explicar os fenÙmenos por sua ìconstruÁ„oî a partir dessa suposta estrutura fundamental subjacente (Einstein 1954, p. 228). Exemplos caracterÌsticos desse tipo de teoria s„o a mec‚nica qu‚ntica, a mec‚nica estatÌstica, o eletromagnetismo, a genÈtica molecular e grande parte das teorias quÌmicas.

… importante observar que, do ponto de vista científico, essas duas classes de teoria não s„o

conflitantes, no sentido de que È possÌvel que um mesmo conjunto de fenÙmenos seja tratado por duas teorias, uma fenomenolÛgica e outra construtiva; nesse caso, a ˙ltima vai alÈm da primeira no nÌvel explicativo, complementando-a. H· de tal situaÁ„o um exemplo not·vel na fÌsica, que È o par termodin‚mica ñ mec‚nica estatÌstica.

A termodin‚mica constitui, desde a primeira metade do sÈculo XIX, a teoria fenomenolÛgica

b·sica de todos os fenÙmenos tÈrmicos. Justamente por ser de tipo fenomenolÛgico, ela atravessou incÛlume as profundas revoluÁıes sofridas pela fÌsica no inÌcio do sÈculo XX, que alteraram de modo radical os teorias acerca da estrutura da matÈria. Essa estabilidade tem, porÈm, seu preÁo. Desde a criaÁ„o da termodin‚mica e, em certo sentido, mesmo antes, muitos cientistas sentiram a necessidade de buscar uma teoria construtiva para os fenÙmenos por ela tratados. Os primeiros passos nessa direÁ„o foram dados com o desenvolvimento da teoria cinÈtica dos gases, cujos primÛrdios remontam ao sÈculo XVII. A teoria final ñ a mec‚nica estatÌstica ñ sÛ foi alcanÁada no inÌcio do sÈculo XX. Essa teoria assume uma realidade microscÛpica subjacente, constituÌda de ·tomos e molÈculas, regidos por certas leis mec‚nicas, realidade essa que seria respons·vel pelos fenÙmenos termodin‚micos, no nÌvel observacional. Assim, por exemplo, o calor È interpretado

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como o efeito do movimento r·pido das molÈculas, a press„o de um g·s como o resultado dos impactos de tais molÈculas sobre as paredes do recipiente que o contÈm, a produÁ„o de calor por atrito È explicada pela transformaÁ„o de movimento macroscÛpico em movimento microscÛpico das molÈculas, etc. Filosoficamente, a distinÁ„o entre teorias fenomenolÛgicas e explicativas È muito expressiva. Antes, porÈm, de examinar alguns pontos de dessemelhanÁa, tratarei, na seÁ„o seguinte, de uma dificuldade epistemolÛgica b·sica que ambas as classes de teoria apresentam.

4. O problema da indução

Tanto as teorias fenomenolÛgicas como as explicativas envolvem, de forma essencial, proposições universais, entre as quais destacam-se as que se classificam como leis. Tais proposiÁıes englobam no seu ‚mbito todo o universo de objetos ou processos de determinados tipos. No ‚mbito das ciÍncias naturais, essas proposiÁıes suscitam um problema epistemolÛgico importante: como podem ser fundamentadas, ou justificadas? Em outros termos, que tipo de evidÍncia pode assegurar sua verdade? Ao tratar desse problema, alguns filÛsofos, como Descartes, Leibniz e Kant, tentaram uma via que em filosofia se chama ìracionalistaî, ou seja, que busca a fundamentaÁ„o no ‚mbito exclusivo do pensamento. Parece hoje claro, ao menos para os filÛsofos da ciÍncia, que essa tentativa n„o deu certo. Qualquer conhecimento dos entes e processos naturais deve, de alguma forma, apoiar-se na experiÍncia, na observaÁ„o dos fatos, n„o na raz„o pura. Essa tese È usualmente chamada de ìempirismoî, e teve em Locke, George Berkeley (1685-1753) e David Hume (1711-1776) seus principais defensores no perÌodo moderno. Pois bem: dado que qualquer experiÍncia È necessariamente particular, ou seja, referente a objetos individuais, como pode essa experiÍncia constituir base adequada para as leis cientÌficas, que se referem ao universo inteiro de objetos? Em outros termos, como se pode passar de observaÁıes particulares para o caso geral? Esse problema epistemolÛgico È hoje conhecido como problema da indução. N„o h· espaÁo aqui para apresentar as pioneiras an·lises desse problema feitas por Locke e Hume. 3 Enuncio apenas, em termos toscos, a sua conclus„o: simplesmente não há meios racionais ou empÌricos de assegurar, com certeza absoluta, a verdade das leis cientÌficas a partir da experiÍncia ou de raciocÌnios lÛgicos. N„o considero adequada a interpretaÁ„o comum de que essa

3 Ver Locke, An Essay concerning Human Understanding; Hume, A Treatise of Human Nature e An Enquiry concerinig Human Understanding.

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seria uma conclus„o puramente cÈtica. 4 Parece-me que a liÁ„o principal a ser tirada dessas an·lises È que temos de renunciar, de uma vez por todas, ao ideal tradicional do conhecimento universal e certo sobre o mundo. Todas as nossas afirmaÁıes universais sobre a natureza s„o irredutivelmente falíveis. Nenhum conhecimento cientÌfico minimamente complexo para envolver leis n„o pode ser dito provado, no sentido estrito do termo. N„o obstante o car·ter incontroverso dessa conclus„o, parece que n„o foi ainda assimilada nem pelo homem comum, nem pelos prÛprios cientistas, que seguem pensando em ciÍncia como sinÙnimo de certeza. Para os filÛsofos da ciÍncia, trata-se de ponto pacÌfico h· muito tempo. Nem por isso, porÈm, deixa de ser para eles perturbador. Uma das razıes È que a certeza sempre foi vista como um traÁo quase que definitÛrio da ciÍncia. Perdido, ficou mais difÌcil encontrar critÈrios de demarcaÁ„o entre ciÍncia e n„o-ciÍncia que sejam de aplicaÁ„o geral. Retomarei esse problema da demarcação mais adiante.

5. Hipóteses e explicações científicas

Como j· observei, as teorias cientÌficas explicativas buscam estabelecer os mecanismos causais dos fenÙmenos. Tais mecanismos via de regra encontram-se alÈm do nÌvel fenomenolÛgico, ou seja, n„o podem ser determinados por observaÁ„o direta. Eles s„o, tipicamente, postulados como hipóteses. A noÁ„o de hipÛtese È crucialmente importante na ciÍncia. Ao contr·rio do que pensa o homem comum, a ciÍncia n„o visa a eliminar as hipÛteses, nem poder· fazÍ-lo, se quiser preservar o ideal aristotÈlico da compreens„o do mundo. N„o h· um meio de, pela investigaÁ„o, transformar uma hipÛtese cientÌfica ñ ao menos do tipo relevante para a presente discuss„o ñ em algo ìprovadoî, e portanto que n„o seria mais uma hipÛtese. 5 Diante disso, o que o cientista tem de fazer È desenvolver uma sÈrie de critÈrios que ajudem a determinar o estatuto epistemolÛgico das hipÛteses, ou seja, que possibilitem a avaliaÁ„o das diversas hipÛteses, enquanto pretendentes ‡ verdade. Em vista da predomin‚ncia das teorias explicativas na ciÍncia, o problema que acaba de ser indicado È de grande import‚ncia, e, em seus diversos desdobramentos, constitui a parte mais expressiva das discussıes epistemolÛgicas contempor‚neas. Mais uma vez, n„o constitui objetivo destas notas adentrar essas discussıes, mas apenas fornecer uma idÈia muito simplificada de alguns de seus temas centrais.

4 Para o exame feito por Locke do estatuto epistemolÛgico da leis cientÌficas, ver Chibeni 2005a. Para a posiÁ„o de Hume quanto a uma sÈrie de tÛpicos que tÍm relev‚ncia para a presente discuss„o, ver Chibeni 2005b.

5 Note-se, incidentalmente, que essa È, ao lado, do problema da induÁ„o, uma raz„o importante pela qual o conhecimento cientÌfico n„o deve ser entendido como sinÙnimo de conhecimento provado.

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H·, entre os epistemÛlogos, uma divis„o em dois grupos principais: os realistas cientÌficos e os anti-realistas cientÌficos. Os primeiros s„o os que defendem que, embora de forma falÌvel, as hipÛteses cientÌficas sobre entes e processos inobserv·veis tÍm como propÛsito realmente afirmar algo sobre esses entes, ou seja, s„o tentativas genuÌnas de descobrir como a realidade das coisas È. Os anti-realistas, por sua vez, ou propıem que elas n„o tÍm esse objetivo, e devem ser entendidas de outro modo, por exemplo como meros instrumentos formais que auxiliam na concatenaÁ„o teÛrica das leis fenomenolÛgicas, mas sem nenhuma pretens„o ‡ descriÁ„o da realidade subjacente aos fenÙmenos. Essa forma de anti-realismo È chamada instrumentalismo, e est· quase no extremo da escala de anti-realismo, sÛ perdendo posiÁ„o para a proposta de que hipÛteses nem mesmo devem ser toleradas na ciÍncia, ficando esta reduzida ‡s teorias fenomenolÛgicas. Hoje em dia essas duas formas radicais de anti-realismo cientÌfico quase n„o tÍm defensores. As formas mais moderadas de anti-realismo s„o mais difÌceis de explicar, e n„o ser„o apresentadas aqui. 6 Isso n„o representa uma lacuna grave, pois os filÛsofos da ciÍncia continuam, em sua maioria, sendo realistas cientÌficos. Darei, pois, mais espaÁo a essa posiÁ„o. Na perspectiva empirista favorecida hoje em dia, o maior desafio para o realista cientÌfico È estabelecer ligaÁıes entre suas hipÛteses e a experiÍncia direta. Uma soluÁ„o que freq¸entemente È sugerida por leigos È que essas ligaÁıes se estabelecem por meio de aparelhos de observaÁ„o, como microscÛpios, espectrÙmetros, c‚maras de Wilson, etc. Os aparelhos desse tipo ìrevelariamî os nÌveis inobserv·veis da realidade, de que tratam as hipÛteses cientÌficas. Essa sugest„o na verdade ignora a verdadeira natureza do problema epistemolÛgico em an·lise, pois o que qualquer aparelho faz È simplesmente produzir novos fenÙmenos (imagens, movimentos de ponteiros, etc.). A interpretaÁ„o desses novos fenÙmenos depende, porÈm, de teorias, e portanto de outras hipÛteses cujo estatuto igualmente pode ser colocado em quest„o. Isso n„o quer dizer, naturalmente, que o recurso a aparelhos n„o seja importante na busca de evidÍncias a favor de hipÛteses sobre os nÌveis sub-fenomÍnicos da realidade. Mas sua funÁ„o È indireta: ao diversificar os fenÙmenos de uma ·rea, torna mais estreita a margem de escolha teÛrica. (Ver seÁ„o 9, abaixo.)

6. Teste de hipóteses: refutações

Na avaliaÁ„o das hipÛteses, e, mais geralmente, dos conjuntos estruturados de hipÛteses a que chamamos teorias, a atenÁ„o epistemolÛgica tem que ser focalizada na estrutura formal da relaÁ„o entre hipÛtese e experiÍncia. Dada uma hipÛtese H e a evidÍncia experimental E, est· evidentemente excluÌda a possibilidade de uma inferÍncia lÛgica direta do tipo E H. Se isso existisse, H n„o seria mais uma hipÛtese, mas simplesmente uma conseq¸Íncia lÛgica de alguma

6 Para um levantamento sistem·tico das principais formas de anti-realismo cientÌfico, ver Chibeni 1997.

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observaÁ„o. Mas isso n„o È o caso, tanto porque H contÈm, explicitamente, referÍncia a um nÌvel de

realidade diferente do de E, como tambÈm pelo simples fato de H ser, na maioria das vezes, uma

proposiÁ„o geral.

O que se tem, nos casos tÌpicos, È uma relaÁ„o inversa: H E. Isso significa que H tem

implicaÁıes empÌricas. Esse È, na verdade, o que se poderia chamar de critério básico de qualquer

hipÛtese cientÌfica. Um hipÛtese que n„o tenha nenhuma conseq¸Íncia experimental n„o passa de

suposiÁ„o vazia, do ponto de vista cognitivo, e n„o pode ser aceita na ciÍncia. Quando esse requisito

b·sico È satisfeito h· duas situaÁıes possÌveis: i) a implicaÁ„o experimental E È verdadeira; ii) ela È

falsa. ComeÁarei tratando do segundo desses casos.

Suponha ent„o que a implicaÁ„o experimental E seja falsa: a observaÁ„o do mundo mostra

que E de fato não ocorre. Aparentemente, esse È o caso mais f·cil de analisar, pois a lÛgica garante

que, ent„o, a hipÛtese H È falsa tambÈm. Esquematicamente, temos a estrutura argumentativa

chamada modus tollens:

H E

~ E ññññññññ

~ H

(Aqui, o traÁo horizontal divide as premissas (H E e ~ E) da conclus„o (~H), e ë~í simboliza a

negaÁ„o.) Nesse caso, H È dita refutada, ou falseada, devendo ser rejeitada.

Embora ‡ primeira vista esse n„o seja um caso interessante, essa impress„o È errada, pois da

refutaÁ„o de uma hipÛtese se aprende algo importante: que o mundo não È como a hipÛtese diz ser.

¿ falta de um acesso epistÍmico direto, isso j· È alguma coisa, podendo, por exemplo, direcionar a

pesquisa para outras hipÛteses melhores. Um dos mais importantes filÛsofos da ciÍncia

contempor‚neos, Karl Popper, desenvolveu sua teoria da ciÍncia em torno dessa idÈia: a ciÍncia

progride na direÁ„o de um melhor conhecimento do mundo por um processo de conjeturas e

refutaÁıes. O conhecimento cientÌfico È irredutivelmente hipotÈtico, conjetural, mas as nossas

hipÛteses acerca do mundo v„o se aperfeiÁoando ao longo do tempo pela sistem·tica eliminaÁ„o de

hipÛteses falsas. 7

… apropriado neste ponto retomar brevemente a quest„o da demarcaÁ„o. Como a demarcaÁ„o

entre ciÍncia n„o-ciÍncia, ou pseudo-ciÍncia, n„o pode ser feita com base na existÍncia de um

procedimento que garanta infalivelmente a verdade das proposiÁıes cientÌficas, Popper propÙs que

o que diferencia a ciÍncia È a falseabilidade de suas proposiÁıes b·sicas, ou seja, o poderem em

7 Veja-se, por exemplo, Popper 1968, 1972a, 1972b, 1983.

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princípio ser refutadas pela experiÍncia. … claro que as hipÛteses e teorias de fato aceitas num dado

momento n„o podem j· ter sido refutadas ou falseadas. Mas È importante que sejam false·veis, pois

caso contr·rio n„o teriam potenciais pontos de contato com a realidade.

7. Integração teórica

Nessa discuss„o tomamos por base a situaÁ„o mais simples de refutaÁ„o, em que uma ˙nica

hipÛtese H leva a uma conseq¸Íncia experimental E. Ora, como enfatizaram os filÛsofos

contempor‚neos Pierre Duhem e Willard Quine, raramente na ciÍncia uma hipÛtese È capaz de levar

a implicaÁıes experimentais se tomada isoladamente de outras hipÛteses. 8 Essas outras hipÛteses

s„o ditas hipóteses auxiliares, justamente porque auxiliam no estabelecimento de situaÁıes de teste

reais. Isso traz conseq¸Íncias importantes. Uma delas È a inaplicabilidade do modus tollens

idealizado, apresentado na seÁ„o precedente. Ao invÈs dele tem-se um argumento mais complexo,

no

qual a hipÛtese auxiliar (ou conjunto de hipÛteses auxiliares) A se junta a H:

(H & A) E ~ E ññññññññ ~ (H & A)

O

significar tanto a falsidade de H como a de A, ou de ambas, pois ~ (H & A) È logicamente

problema aqui È que essa conclus„o È a negaÁ„o de uma conjunção, o que logicamente pode

equivalente a (~ H ou ~ A). Portanto, esse argumento mais prÛximo da situaÁ„o real da ciÍncia n„o

permite inferir com certeza que H seja falsa. O teste n„o funciona como uma falseaÁ„o conclusiva:

alguÈm que queira manter que H È verdadeira pode atribuir a falsidade de (H & A) ‡ falsidade de A.

Os cientistas muitas vezes fizeram isso ao longo da histÛria da ciÍncia. 9

Assim como no caso do problema da induÁ„o, acredito que a reaÁ„o apropriada aqui n„o seja

a de um ceticismo completo quanto ‡ possibilidade de refutaÁ„o de hipÛteses na ciÍncia. A liÁ„o

importante a ser tirada dessa an·lise È a de que o conhecimento cientÌfico tem caráter

essencialmente integrado: n„o consiste de aglomerados de proposiÁıes, cada uma das quais possa

ser avaliada independentemente das demais. Quine expressou bem o ponto dizendo que ìnossas

proposiÁıes sobre o mundo externo enfrentam o tribunal da experiÍncia sensÌvel n„o

individualmente, mas corporativamenteî (Quine 1953, seÁ„o 5). Voltarei a esse assunto mais

adiante. Diante de evidÍncia desfavor·vel, o cientista dever· apelar a critÈrios extra-lÛgicos, mais

sutis e difÌceis de explicitar, sobre o que fazer com sua teoria, sobre que partes modificar.

8 Ver, por exemplo, Quine 1953. 9 Para exemplos, ver Hempel 1966, Lakatos 1970 e Chalmers 1982.

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8. Teste de hipóteses: confirmação

Passo agora ‡ segunda possibilidade em uma situaÁ„o de teste de hipÛteses, em que a

implicaÁ„o experimental E È verdadeira, ou seja, observaÁıes do mundo mostram que E de fato

ocorre. Neste caso a situaÁ„o mostra-se j· de inÌcio bem complicada, pois a verdade de E não

garante logicamente a verdade de H. Uma tentativa de argumentar diretamente nesse sentido seria

armar a seguinte estrutura:

H E

E

ññññññññ

H

Ora, essa estrutura formal representa um tipo de argumento logicamente não-v·lido, a chamada

falácia da afirmação do conseqüente: a verdade da conclus„o n„o segue logicamente da verdade

das premissas.

Apesar dessa limitaÁ„o lÛgica sÈria, h· uma importante ìintuiÁ„oî por detr·s de um

argumento desse tipo, e que talvez possa ser preservada. Parece natural pensar que se a verdade das

implicaÁıes experimentais de uma hipÛtese for constatada experimentalmente, a hipÛtese ser· de

algum modo ìconfirmadaî pela experiÍncia. Pelo menos, sabe-se que nesse caso a experiÍncia n„o

refutou a hipÛtese, e isso j· È alguma coisa.

O caminho mais promissor de levar adiante essa ìintuiÁ„oî parece ser o que foi pela primeira

vez explorado de forma sistem·tica por Charles S. Peirce, filÛsofo americano do final do sÈculo

XIX. Ele propÙs que temos aqui uma forma de inferÍncia n„o-lÛgica e n„o-indutiva que chamou de

abdução. Um dos modos pelos quais Peirce introduziu a noÁ„o de inferÍncia abdutiva foi por meio

do seguinte esquema:

O fato surpreendente, C, È observado. Mas se A fosse verdade C seria um fato natural. Logo, h· razıes para suspeitar que A seja verdade. 10

Como se percebe, trata-se de alegar que o poder explicativo de uma hipÛtese (A) fornece

bases para crermos em sua verdade. A discuss„o explÌcita desse tipo de inferÍncia intensificou-se na

filosofia da ciÍncia a partir da dÈcada de 1960, em virtude, entre outros fatores, do trabalho de

Gilbert Harman (1965, 1968). Por enfatizar que, tipicamente, as inferÍncias abdutivas envolvem a

10 Peirce, Collected Papers, 5.189; ver tambÈm 6.525. Para um estudo recente das contribuiÁıes de Peirce para o estudo das inferÍncias abdutivas, ver Menna, 2003. Lipton, 2004 faz um exame detalhado dessa forma de inferÍncia.

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comparação de diversas hipÛteses para explicar um dado fato surpreendente, Harman propÙs renome·-las como inferências da melhor explicação. 11 Est· claro que nesse esquema inferencial a conclus„o È obtida de modo falÌvel: nada garante com certeza que a melhor dentre as diversas explicaÁıes oferecidas num dado momento para um certo conjunto de fenÙmenos seja verdadeira, e nem mesmo que se aproxime mais da verdade do que as outras. N„o obstante, o esquema È amplamente empregado tanto na vida comum como na ciÍncia. Tal ponto È reconhecido atÈ mesmo pelos crÌticos do emprego das inferÍncias abdutivas para fins de legitimaÁ„o da posiÁ„o realista cientÌfica. As objeÁıes que eles levantam s„o complexas demais para serem analisadas aqui. Elas cumprem um papel importante, mesmo para os filÛsofos que, no balanÁo final, continuam sendo realistas: o de exercer uma press„o constante sobre eles para o desenvolvimento de formas mais sofisticadas de abduÁ„o. A literatura sobre essa polÍmica È extensa. 12 N„o podendo aqui adentrar a discuss„o, limitar-me-ei a enumerar, de forma muito breve, alguns aspectos que qualquer teorizaÁ„o cientÌfica deve apresentar para que se credencie de forma mais robusta para enfrentar o desafio de colocar-se como candidata a representaÁ„o da realidade. Alguns desses aspectos s„o destilados, por um processo de simplificaÁ„o dr·stica, da referida literatura sobre as inferÍncias abdutivas; outros s„o de natureza mais geral, ou ligados a outros debates em filosofia da ciÍncia.

9. Desiderata de uma boa teorização científica

a) Integração teórica

Na seÁ„o 7, acima, o assunto da integraÁ„o teÛrica foi introduzido a propÛsito da necessidade de refinar a an·lise do processo de falseaÁ„o de hipÛteses. De um modo geral, as ciÍncias maduras n„o trabalham com a noÁ„o de hipÛteses isoladas, mas de teorias, que devem ser entendidas n„o como meros agregados de hipÛteses, mas como conjuntos de hipÛteses integradas por vÌnculos lÛgicos e outros de natureza mais geral. Essas ligaÁıes inter-teóricas s„o crucialmente importantes para possibilitar a extraÁ„o de conseq¸Íncias experimentais de nossas hipÛteses sobre os mecanismos inobserv·veis dos fenÙmenos, que, isoladas, em geral n„o permitem isso. Com isso, n„o apenas elas se tornam false·veis, mas, do lado positivo, podem receber apoio umas da outras,

11 Harman 1965, 1968. Thagard (1978) oferece uma an·lise da quest„o importante da determinaÁ„o do mÈrito relativo das explicaÁıes.

12 Dois dos mais importantes crÌticos do uso das inferÍncias abdutivas para a defesa do realismo cientÌfico s„o Larry Laudan (1984a, 1984b) e Bas van Fraassen (1980). Entre os defensores, est„o, por exemplo, Leplin (1997) e Psillos (1999). Para numerosas outras referÍncias, ver Chibeni 1997 e 2006, trabalhos em que defendo a posiÁ„o realista.

12

na medida em que o conjunto teÛrico exiba coerência. Isso acomoda o fato importante, reconhecido pelos cientistas de ramos mais maduros da ciÍncia, de que o suporte experimental a uma determinada hipÛtese muitas vezes È indireto, mediado por outras com as quais se integrem teoricamente. FilÛsofos da ciÍncia contempor‚neos tÍm mesmo proposto que a unidade b·sica da ciÍncia È algo ainda mais abrangente do que uma teoria. Assim, Thomas Kuhn propÙs a noÁ„o de paradigma, Imre Lakatos a de programa de pesquisa científico, Larry Laudan a de tradição de pesquisa científica. 13 H· divergÍncias importantes entre essas propostas, mas todas ressaltam que o paradigma, programa de pesquisa ou tradiÁ„o È algo que envolve muito mais do que uma teoria, incluindo, por exemplo, valores e diretrizes metodolÛgicas, as mais das vezes implÌcitas. Essas estruturas s„o, ademais, din‚micas: nascem e se elaboram gradativamente, em um processo de influenciaÁ„o recíproca com a experiÍncia, bem como com outras teorias. Se È verdade que as teorias cientÌficas devem apoiar-se na experiÍncia, residindo mesmo nela a sua principal raz„o de ser, n„o È menos verdade que a busca, condução, classificação e análise dos dados empíricos requer diretrizes teóricas. Outro aspecto importante, enfatizado por Lakatos em particular, È a hierarquização teórica. As hipÛteses que formam a teoria de um bom programa de pesquisa s„o, tipicamente, arranjadas numa escala de valores: as mais importantes formam um n˙cleo duro, que deve, tanto quanto possÌvel, ser preservado de falseaÁıes (num argumento de modus tollens complexo, como o ilustrado na seÁ„o 7). Estas devem, ao menos num primeiro momento, ser dirigidas ‡s hipÛteses menos centrais, que formam o cinturão protetor do n˙cleo. Essa estratÈgia representa uma regra de toler‚ncia, que visa a dar uma chance para os princÌpios fundamentais do n˙cleo mostrarem a sua potencialidade. Lakatos reconhece, porÈm, que essa atitude conservadora tem seus limites. Quando o programa como um todo mostra-se sistematicamente incapaz de dar conta de fatos importantes e de levar ‡ prediÁ„o de novos fenÙmenos (i.e., torna-se degenerante), deve ceder lugar a um programa mais adequado, progressivo. A concepÁ„o lakatosiana de ciÍncia envolve um novo critÈrio de demarcaÁ„o entre ciÍncia e n„o-ciÍncia. O critÈrio tradicional, ainda hoje aceito por leigos, considera cientÌficas somente as teorias ìprovadasî empiricamente. Tal critÈrio È, como vimos, forte demais: n„o haveria, segundo ele, nenhuma teoria genuinamente cientÌfica, pois todo conhecimento do mundo exterior È falÌvel. TambÈm o critÈrio falseacionista, segundo o qual sÛ s„o cientÌficas as teorias refut·veis, elimina demais: como nenhuma teoria pode ser rigorosamente falseada, nenhuma poderia classificar-se como cientÌfica. O critÈrio de demarcaÁ„o proposto por Lakatos, por outro lado, adequadamente

13 Kuhn 1970, Lakatos 1970, Laudan 1977, 1996.

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situa no campo cientÌfico algumas das teorias unanimemente tidas como cientÌficas, como as grandes teorias da fÌsica. Esse critÈrio funda-se em duas exigÍncias principais: uma teoria deve, para ser cientÌfica, estar imersa em um programa de pesquisa, e este programa deve ser progressivo. 14

b) Predição de fenômenos de tipos novos; consiliência de induções

Como acabo de mencionar, a noÁ„o lakatosiana da progressividade de um programa de pesquisa envolve, com elemento central, a capacidade de, a partir de sua teoria, prever-se a ocorrÍncia de fenÙmenos de tipos novos, ainda n„o observados. De todas as virtudes exibidas por uma teoria, essa È, talvez, a que, individualmente, mais peso tem na sua avaliaÁ„o. Os realistas cientÌficos e, em geral, os prÛprios cientistas, mantÍm que as teorias cientÌficas capazes de antecipar fenômenos inusitados n„o podem deixar de capturar a realidade, ainda que de forma incompleta e aproximada. Se a informaÁ„o empÌrica referente ‡s implicaÁıes experimentais da teoria j· estava totalmente disponÌvel quando a teoria foi formulada, alguÈm cÈtico quanto a ela pode alegar que o fato de levar a essas implicaÁıes verdadeiras n„o d· nenhum indÌcio de que seja verdadeira, pois a hipÛtese ter· sido feita de propÛsito (ad hoc) para dar conta dessas implicaÁıes. Tal arrazoado n„o se aplica, porÈm, aos casos em que a teoria leva a prediÁıes empÌricas novas. 15 Uma variante, ou complemento importante, desse critÈrio, foi destacada por William Whewell, no sÈculo XIX: ìquando a hipÛtese, de si prÛpria e sem ajustes para tal fim, fornece-nos a regra e a raz„o de uma classe [de fatos] n„o contemplados em sua construÁ„o, temos um critÈrio de sua realidade que atÈ agora nunca se pronunciou a favor de falsidades.î 16 Whewell chamou esse traÁo teÛrico de ìconsiliÍncia de induÁıesî: a capacidade de uma teoria unificar classes de fenômenos conhecidas, mas até então tidas como desconexas. 17

c) Quantidade, variedade e precisão da evidência empírica; simplicidade teórica

c1) Quantidade: quanto mais implicaÁıes experimentais verdadeiras a teoria tiver, melhor. Uma teoria capaz de acomodar um n˙mero muito limitado de fatos abre-se facilmente ‡ suspeita de ser ad hoc, ou seja, feita tendo em vista justamente dar conta desses fatos, n„o tendo, portanto, boas credenciais epistÍmicas. Mas o fator numÈrico n„o È tudo aqui: mais importante ainda È a variedade das conseq¸Íncias experimentais da teoria.

14 Ver Lakatos 1970, pp. 175-6. ExposiÁıes compactas, mas razoavelmente precisas, das idÈias de Lakatos e Kuhn pode ser encontradas em Chalmers 1982.

15 Para uma discuss„o e referÍncias a trabalhos importantes, ver Chibeni 1996 e 2006.

16 Whewell, 1989, p. 155. Ver tambÈm p. 153.

17 Para mais detalhes sobre o argumento de Whewell, ver Carrier, 1991 e Achinstein, 1992.

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c2) Variedade: A teoria deve cobrir uma ·rea ampla de fatos, ou seja, deve ser abrangente.

Com isso, maximiza-se sua exposiÁ„o a possÌveis falseaÁıes, o que, como vimos, È uma virtude

importante de uma boa teoria cientÌfica. Caso a teoria sobreviva ‡s tentativas de falseaÁ„o em tantos

casos diversos, ganha-se seguranÁa de que È verdadeira.

c3) Precisão: Quanto mais precisas as prediÁıes experimentais da teoria, maior a sua

falseabilidade. Teorias vagas e imprecisas s„o imunes ao eventual veredicto negativo dos testes a

que seja submetida, e isso È sÈria desvantagem, pois desestimula a busca de teorias melhores.

c4) Simplicidade teórica. Apresentando-se duas ou mais teorias alternativas para dar conta de

um certo conjunto de fenÙmenos, devemos preferir a mais simples delas (supondo que seus mÈritos

quanto a outros fatores sejam iguais). Muitos cientistas e alguns filÛsofos fazem a suposiÁ„o de que

as verdadeiras leis da natureza s„o simples, e que portanto a busca de teorias simples È, ao mesmo

tempo, a busca de teorias que se aproximam da verdade. Essa associaÁ„o entre simplicidade e

verdade n„o È nada evidente, e nem parece haver um caminho pelo qual possa ser estabelecida. Por

essa raz„o, os filÛsofos da vertente anti-realista rejeitam a associaÁ„o como ìmetafÌsicaî, e portanto

sem valor para a ciÍncia ou mesmo para a filosofia. No entanto, tem funcionado pelo menos como

um ideal regulador da ciÍncia. Assim, a simplicidade pode continuar sendo procurada, ao menos,

por razıes heurÌsticas, ou pragm·ticas.

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