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A DIFERENÇA ENTRE JUDAÍSMO E

SIONISMO
Por G. Neuburger 13/02/2004 às 14:17

Este texto é dedicado a todos aqueles que pensam,


ingenuamente ou não, que as críticas a Israel são
demonstrações de anti-semitismo. (Márcio Alves de Lima)

Quando a Torá fala sobre a criação do primeiro ser humano, Rashi,


conhecido comentarista, explica que a terra que formou Adão não
foi tirada de um único lugar e sim de várias partes do planeta.
Assim, a dignidade humana não depende do lugar onde se tenha
nascido nem está limitada a uma única região.

A grandeza e o mérito de uma pessoa não são medidos por sua


aparência externa. Os judeus acreditam que Adão foi criado à
imagem de Deus e que ele é o ancestral comum de toda a
humanidade. Nesta etapa da história humana, não há espaço para
povos privilegiados que possam agir em relação aos outros como
bem entendem. A vida humana é sagrada e os direitos humanos
não podem ser negados por aqueles que os distorcem em nome da
"segurança nacional" ou de qualquer outra coisa. Ninguém sabe
disso melhor do que os judeus, que, por tantas vezes e por tanto
tempo, foram considerados cidadãos de segunda classe. No
entanto, alguns sionistas divergem quanto a isso e é
compreensível porque judaísmo e sionismo em hipótese alguma
são a mesma coisa. Na verdade, eles são incompatíveis. Se uma
pessoa é um bom judeu, não pode ser um sionista e se for um
sionista não pode ser um bom judeu.

Por mais de 60 anos lutei contra o sionismo, assim como o fez


meu pai antes de mim e, por essa razão, esta é uma questão bem
familiar para mim. Para aqueles que acompanharam esta luta nos
últimos 10 ou 20 anos, o que tenho a dizer pode parecer
surpreendente ou mesmo chocante. No entanto, essas questões
precisam ser discutidas clara e abertamente porque o sionismo é
uma doença que só pode ser curada quando diagnosticada
corretamente. A fim de reconhecermos o sionismo pelo que ele é,
precisamos conhecer o judaísmo, o sionismo - o oposto e a
negação do judaísmo - e a história judaica. Não pretendo discorrer
sobre as ações dos sionistas, elas serão adequadamente tratadas
pelos outros. Como judeu, pretendo discutir o sionismo, que é a
revolta contra Deus e a traição do povo judeu.

Para começar, algumas definições. O que é um judeu? É qualquer


pessoa que tenha a mãe judia ou que tenha se convertido ao
judaísmo, de acordo com Halacha, a lei religiosa judaica. Esta
definição, por si só, exclui o racismo. O judaísmo não procura os
convertidos, mas aqueles que se convertem são aceitos com base
na igualdade. Como é que isso se dá? Alguns dos mais eminentes
e respeitados rabinos eram convertidos ao judaísmo. Os pais
judeus em todo o mundo abençoam suas crianças todo Sabbath e
feriados e o fazem da mesma forma há séculos. Se for menina, a
bênção é "Que Deus a abençoe como Sara, Rebeca, Raquel e Léa."
Nenhuma dessas matriarcas eram judias de nascimento, todas
eram convertidas ao judaísmo. Se for menino, a bênção é "Que
Deus o faça como Efraim e Menashe". A mãe desses dois era uma
egípcia que se converteu ao judaísmo e se casou com José. O
próprio Moisés, o maior judeu que já existiu, casou-se com uma
medianita que se tornou judia. Finalmente, o Tenach, escritos
sagrados dos judeus, contêm o livro de Ruth. Esta mulher não só
não era judia de nascimento como era uma moabita, tribo
tradicional inimiga do povo judeu. Este livro descreve a conversão
de Ruth ao judaísmo e é lido anualmente no feriado que
comemora a entrega da Torá, a "Lei", isto é, o Pentateuco. Por
fim, o livro de Ruth segue a ascendência do rei David, o maior dos
reis que os judeus já tiveram, até Ruth, sua bisavó.

Afora os sionistas, os únicos que consideraram os judeus como


uma raça foram os nazistas. E isto só prova a estupidez e
irracionalidade do racismo. Não havia meios de se provar que uma
sra. Muller ou uma sra. Meyer eram judias ou arianas (termo
nazista para os alemães não judeus). A única forma de definir se
uma pessoa era judia era investigar a filiação religiosa de seus
pais ou avós. Muito, para esse absurdo racial.

O orgulho racial foi a ruína daqueles judeus do passado que


estavam enceguecidos por um estreito chauvinismo. Chegamos a
uma segunda definição. Existe um povo judeu? Se afirmativo, qual
é sua missão? Vamos esclarecer isto. A nação judaica nasceu no
Monte Sinai, quando os judeus adotaram a Torá dada a eles por
Deus para as gerações futuras, e não por obra de alguns políticos
sionistas de uma geração anterior à atual. A afirmação "Hoje vocês
se tornaram um povo", embora seja válida até hoje, foi dita há
milhares de anos atrás.

De acordo com a tradição judaica, existem sete leis Noachide que


se aplicam a todos os seres humanos. São os Dez Mandamentos
que formam a regra básica de moralidade e conduta para os
adeptos de todas as religiões monoteístas; além desses, existem
613 leis obrigatórias para os judeus e cada judeu tem que
observar aquilo que se aplica a ele ou ela, de acordo com Halacha.
É o cumprimento daqueles mandamentos que constitui a essência
de ser judeu e, portanto, do povo judeu e de seu pacto com Deus.

De que forma os judeus são um "povo escolhido"? Todo judeu


homem de qualquer lugar e de qualquer época quando chamado
para ler a Torá diz "Quem nos escolheu de todos os povos e nos
concedeu Sua Torá". Esta é a forma pela qual os judeus são
escolhidos. O povo judeu foi escolhido não para dominar os outros,
nem conquistar ou guerrear, mas pra servir a Deus e, por
consequência, servir à humanidade. "E as mãos são as mãos de
Esaú", tradicionalmente tem sido interpretado como significando
que, enquanto "a voz é de Jacó", as mãos - simbolizando violência
- são de Esaú" Assim, a violência física não é uma tradição ou
valor dos judeus. A tarefa pela qual o povo judeu foi escolhido não
é estabelecer um exemplo de superioridade militar ou de
conquistas técnicas e sim buscar a perfeição no comportamento
moral e na pureza espiritual. De todos os crimes do sionismo
político, o pior e mais básico, e que explica todos os seus delitos, é
que desde o seu começo o sionismo busca separar o povo judeu
de seu Deus, tornando nulo e sem efeito o pacto divino e
substituindo os elevados ideais do povo judeu por um estado
"moderno" e uma soberania fradulenta.

Um meio de desencaminhar judeus e também os não judeus é o


mau uso sionista dos nomes e símbolos sagrados do judaísmo.
Eles usam o santo nome de Israel para seu estado sionista.
Denominaram o seu fundo de aquisição de terra com um termo
que tradicionalmente significa a recompensa pela piedade, boas
ações e trabalho caritativo. Eles adotaram como um símbolo do
estado o menorah (candelabro). Quanta hipocrisia, quanta
perversão que é o exército israelense lutar sob um emblema, cujo
significado é explicado no Tenach (por ocasião de um retorno
anterior à Terra Santa) como "não pela força ou poder, mas em
Meu Espírito diz o Senhor dos Exércitos."

O infame fundador do sionismo político, que seu nome seja


amaldiçoado, que só foi descobrir suas próprias origens judaicas
por causa do anti-semitismo mostrado no julgamento do caso
Dreyfus, na França, apresentou várias soluções para o que ele
chamava de "problema judaico". De uma vez, ele propôs
reassentar os judeus em Uganda. De outra ele propôs convertê-los
ao catolicismo. Finalmente ele teve a idéia de um Judenstaat, um
estado exclusivamente judeu. Assim, nos seus primórdios, o
sionismo foi a consequência do anti-semitismo e, na verdade, é
inteiramente compatível com esta idéia, porque os sionistas e anti-
semitas tinham (e têm) uma meta comum. Trazer todos os judeus
de seus lugares de origem para o estado sionista, extirpando as
comunidades judaicas que existiam há centenas e até há milhares
de anos. A lealdade ao estado sionista substituiu a lealdade a Deus
e o estado foi transformado no moderno "bezerro de ouro".

Aos olhos do sionismo, a crença na Torá e o cumprimento das


obrigações religiosas são questões privadas e não uma
responsabilidade de cada judeu e do povo judeu. Os sionistas
sujeitaram a lei divina ao partido ou votos parlamentares e
estabeleceram seus próprios padrões de conduta e ética.

Nem o fundador do sionismo político nem qualquer dos primeiros-


ministros do estado sionista acreditam na origem divina da Torá e
nem mesmo na existência de Deus. Todos os primeiros-ministros
foram membros de um partido que se opôs à religião em princípio
e que considerava a Bíblia um documento do folclore antigo,
destituído de qualquer sentido religioso. E, no entanto, estes
mesmos sionistas fundamentam suas alegações sobre a Terra
Santa nesta mesma Bíblia, cuja origem divina renegam. Ao mesmo
tempo, convenientemente esquecem a prece judaica "e por causa
de nossos pecados fomos exilados de nossa terra" e ignoram o
fato de que o exílio atual do povo judeu tem origem divina e que o
povo judeu não foi ordenado e nem teve permissão para
conquistar ou governar a Terra Santa antes da chegada do
Messias. O povo judeu, é claro, reconhece os laços espirituais com
aquela terra que eles chamam Eretz Yisrael. Todas as manhãs,
tardes e noites, em suas preces, eles mencionam isto e o Sion e
Jerusalém, e na verdade, um judeu não se senta para comer sem
agir assim. Para o judeu, o verdadeiro solo da Terra Santa é
diferente de qualquer outro lugar neste planeta e onde quer que
ele esteja, ele volta seu rosto em direção a Jerusalém durante as
preces. Viver na Terra Santa ou ser enterrado lá foi sempre
considerado de grande valor.

Este amor à terra e o anseio judeu pelo retorno a ela e pela


chegada do Messias foram explorados inúmeras vezes nos últimos
2.000 anos. O sionismo teve muitos precursores e cada um deles
foi uma maldição para os judeus. Os indivíduos que se proclamam
o Messias e os movimentos messiânicos que se espalharam de
tempos e tempos, desde os romanos até a Idade Média e até os
sionistas modernos. Muitos desses pseudo-Messias apresentaram-
se como rabinos ou líderes nacionais, embora alguns deles de
certa forma professassem outras crenças; muitos
temporariamente - alguns por períodos mais longos - conseguiram
desviar judeus, rabinos e comunidades judaicas inteiras. Todos, no
devido tempo, foram expostos e reconhecidos como fraudes e
aqueles que depositaram sua fé nessas pessoas encontram apenas
o desapontamento e muitas vezes o desastre.

Nas primeiras etapas do desenvolvimento do sionismo moderno,


foi criado o Mizrachi, uma organização dos chamados sionistas
religiosos, que tentou combinar a fé com o sionismo político. A
tentativa trouxe conflito constante entre os ditames da lei divina e
as exigências do nacionalismo judaico. A maior parte das vezes, o
Mizrachi foi voto vencido nos congressos sionistas e serviu apenas
para dar ao movimento sionista uma falsa aura religiosa. Sempre
que uma expectativa qualquer exigia, estes viajantes sionistas
"religiosos" eram usados pelo governo sionista para conciliar as
reivindicações nacionais com a autoridade "religiosa". O Partido
Religioso Nacional no estado sionista foi bem recompensado por
sancionar as medidas e decretos nacionalistas, com prêmios de
natureza financeira ou sob a forma de postos no governo ou no
gabinete.

O chauvinismo desses sionistas religiosos frequentemente


ultrapassa o de outros sionistas e sempre foi expresso em termos
religiosos - um exemplo do mau uso da religião. A iimpostura
desses sionistas "religiosos" foi demonstrada no ano passado,
quando foi revelado que dois de seus líderes tinham cometido
roubos da ordem de milhões de dólares.

Uma organização judaica mundial foi fundada em 1912, na


fronteira germano-polonesa, com o objetivo específico de lutar
contra o sionismo. Esta organização, Agudath Israel, "União de
Israel", foi criada para representar o verdadeiro povo judeu no
mundo e para desmascarar as injustas e injustificadas alegações
sionistas. Rabinos de todos os lugares se juntaram ao Agudath
Israel, assim como milhares de judeus. Congressos anti-sionistas
foram realizados em Viena e em Marienbad. Em países como a
Polônia, os "agudistas" tornaram-se membros do parlamento. Há
mais de 50 anos, sob a liderança do Agudath, os judeus da Terra
Santa se opuseram à permissão inglesa obtida pelos sionistas, o
mandato na Palestina, para declarar por escrito que não
desejavam ser representados pelos sionistas ou por qualquer de
seus grupos, principalmente pelas organizações sionistas
governamentais como a Va'ad Leumi, "Conselho Nacional".

Pouco depois, Jacob de Haan, um ex-diplomata holandês, então


líder do Agudath Israel na Palestina, iniciou conversações com
líderes árabes, com vistas a uma eventual criação de um estado no
qual judeus e árabes teriam direitos iguais. Desta forma, ele
esperava antecipar-se à criação de um estado sionista. Apesar das
ameaças à sua vida, de Haan, plenamente consciente dos perigos
de um estado sionista, continuou as negociações. Às vésperas de
sua partida para a Inglaterra, em 1924, para um encontro com
autoridades inglesas, ele foi assassinado pelo Haganah, uma força
paramilitar sionista, no centro de Jerusalém, quando chegava para
as preces da noite. Mais de meio século atrás, este judeu devotado
e visionário deu sua vida na luta que ele considerava suprema,
numa época em que o mundo, como um todo, estava cego e surdo
aos problemas e dificuldades que um futuro estado sionista
poderiam acarretar.

Como consequência desse terrorismo e a crescente pressão


sionista, o Agudath Israel aos poucos foi-se enfraquecendo e
começou a transigir. Durante o período nazista, ele entrou em
acordo com os sionistas, apesar do fato de que sua meta principal
tivesse sido o combate ao sionismo. Depois que o estado sionista
foi criado, o Agudath Israel rompeu com o seu passado, participou
do governo sionista a nível de gabinete e elegeu "agudistas" para
o parlamento sionista. Ainda professando um anti-sionismo
nominal, o Agudath estabeleceu uma rede de escolas
"independentes" na Terra Santa, mas atualmente uma parte
substancial do orçamento dessas escolas vem do governo sionista.

Em vista desses acontecimentos, aqueles judeus que queriam


continuar a luta contra o sionismo deixaram o Agudath Israel e se
constituíram no Neturei Karta, uma frase aramaica que significa
"Guardiães da Cidade", ou seja, da cidade de Jerusalém. O Neturei
Karta, por sua vez, tornou-se um movimento mundial, conhecido
em alguns lugares como "Amigos de Jerusalém".

A maior liderança do Neturei Karta foi o rabino Amram Blau, um


líder inspirado e dedicado, cuja compaixão iguala-se à sua
coragem. Não se calava frente a injustiça, imoralidade ou
hipocrisia. Ele foi amado pelos judeus e respeitado por cristãos e
muçulmanos. Nascido em Jerusalém, jamais deixou a Terra Santa
em toda a sua vida. Em seus escritos, enfatizou muitas vezes que
judeus e árabes tinham vivido em harmonia até o advento do
sionismo político. Rabino Blau foi preso em Jerusalém, não pelas
autoridades otomanas ou britânicas, ou pelos árabes, e sim pelos
sionistas. Qual foi seu crime? Ele defendia com ardor e
honestidade, sem olhar para a sua própria segurança, o caráter
sagrado de Jerusalém contra as "inovações" e invasões dos
sionistas. Ele lutou pela santidade do Sabbath e se opôs vivamente
à indecência e imoralidade praticadas no regime sionista.
Incessantemente denunciou a criação de um estado judeu antes
da vinda do Messias como um ato de infâmia e blasfêmia. Sob sua
liderança, o Neturei Karta declarou, ano após ano, que eles não
reconheciam a legitimidade do estado sionista ou a validade de
suas leis.

Durante o primeiro período de luta entre o estado sionista e os


árabes, os rabinos do Neturei Karta foram para a frente de batalha
carregando uma bandeira branca e declararam que não queriam
tomar parte naquela guerra e que se opunham completamente à
criação de um estado sionista. Em sua última proclamação, rabino
Blau deplorou as ações dos sionistas contra os palestinos cristãos e
muçulmanos e os graves danos praticados pelos sionistas contra o
povo judeu, na tentativa de transformar "um reino de sacerdotes e
uma nação sagrada" em um estado moderno, destituído de
fundamentos religiosos, baseado no chauvinismo, construído
através da conquista e da força militar. "O número de suas cidades
constitui seus deuses" o profeta Jeremias teria imprecado contra o
governo judeu chauvinista e idólatra dos dias atuais. Os sionistas
agora estão criando um novo statu quo e expandindo suas
posições ao criarem novos assentamentos nos territórios ocupados
desde 1967.

Rabino Blau, em sua última declaração condenou vigorosamente a


ONU por reconhecer e aceitar como membro o estado sionista,
concedendo aos sionistas poder e prestígio sem precedentes.
Sabe-se que nenhuma ação foi feita em relação à expulsão do
estado sionista por causa do medo de que o apoio financeiro para
a ONU pudesse ser retirado. Deixem aqueles estados, opôs-se o
sionismo, que tornaram-se ricos na geração passada, mostrem
que eles são o que dizem, oferecendo repor qualquer perda
financeira que a ONU possa sofrer como consequência e deixe que
os estados membros votem de acordo com suas consciências, sem
medo e independente de qualquer intimidação.

Houve épocas na história judaica, conforme relatado na Bíblia, em


que as massas foram desviadas e somente uma minoria de judeus
abraçou a verdadeira missão do povo judeu. Uma dessas ocasiões
foi a adoração do bezerro de ouro; hoje, infelizmente, assistimos à
repetição disto, com o estado sionista agora sendo objeto de
adoração. Até o surgimento e crescimento da influência do
sionismo político, os líderes judeus eram escolhidos com base na
piedade, decência, conhecimento e por seu amor à justiça e
misericórdia. Hoje, os chamados líderes judeus, completamente
desqualificados em relação à lei judaica e aos conceitos
tradicionais, fazem pronunciamentos e tomam decisões em nome
do povo judeu. Isto acontece particularmente nos Estados Unidos,
onde existe a maior comunidade judaica de nossos dias. Não
esqueço nunca a observação de uma mulher em Oklahoma: "O
judaísmo hoje não é maravilhoso? Tudo que temos que fazer é dar
dinheiro."
Até sua morte, rabino Blau refutou os sionistas que muitas vezes
afirmaram que o Neturei Karta nada mais era do que uma seita
insignificante de umas poucas almas. Contudo, quando, há dois
anos atrás, numa manhã de sexta-feira, rabino Blau morreu em
Jerusalém, em poucas horas mais de 22.000 homens acorreram ao
seu funeral.

Em todas as ocasiões do passado, os desencaminhadores dos


judeus cedo ou tarde ficaram pelo caminho e só triunfaram
aqueles que defenderam a validade da Torá e do Talmud (a lei
escrita e falada) e do Halachah. O Neturei Karta continua nesta
tradição. Eles continuam a reprovar o sionismo e a falar para o
verdadeiro povo judeu, aqueles que não foram desviados pelo
sionismo.

Durante a conquista romana da Terra Santa, havia judeus que,


com base no nacionalismo e no orgulho racial, estavam certos de
que não perderiam a guerra. Como os sionistas de nossos dias,
eles se opuseram a qualquer acordo e estavam determinados a
lutar até o fim. Naquela época, no entanto, há quase dois mil anos
atrás, rabinos como Yochanan ben Sakkai, escolheram um
caminho diferente. Os embates militares impediram-no de deixar
Jerusalém sitiada para ir negociar com os romanos, assim o
próprio rabino saiu num caixão levado por seus discípulos até os
quartéis romanos. Ele disse aos romanos que os judeus não
necessitavam de exército ou armas e pediu permissão para criar
uma yeshiva, uma escola religiosa judaica, emYavneh. Foi esta
escola religiosa, e não os militares ou generais daquele tempo, que
ajudaram a perpetuar o judaísmo e a identidade do povo judeu.

Deve ser dito explicitamente que, da mesma forma que nem todos
os judeus são sionistas, nem todos os sionistas são judeus. Os
motivos por que alguns desses sionistas não judeus, como por
exemplo, Lord Balfour e o General Smuts, estão abertos à
discussão. Desde o começo do movimento sionista, alguns dos
mais articulados e ardorosos sionistas foram pastores cristãos,
principalmente os "fundamentalistas", que saudaram o sionismo
como um importante movimento "religioso" e o receberam como o
cumprimento da profecia. Eles também, e de forma significativa,
serviram à causa do sionismo.
Um dos objetivos básicos do sionismo é aliyah, a imigração de
judeus de todas as partes do mundo para o estado sionista. Não
obstante, há poucos anos atrás, centenas de milhares de
israelenses se retiraram do paraíso sionista e os judeus
americanos "votaram com os pés" e escolheram não se juntarem
lá. Esses judeus reconhecem que o estado sionista nada mais é do
que um imenso gueto.

Ao invés de prestarem assistência às comunidades judaicas de


outros países, os judeus americanos mobilizaram-se para se
concentrar na ajuda ao estado sionista, transformando os Estados
Unidos na maior fonte de poder e influència dos sionistas. Os
sionistas, fiéis à natureza de seu movimento, contam com
superioridade técnica e poder militar - fornecidos em grande parte
pelos Estados Unidos - para a sua segurança.

Nada poderia estar mais distante dos verdadeiros ideais do povo


judeu. O povo judeu foi escolhido em primeiro lugar "porque vós
sois os líderes de todas as nações". Conforme dizem os Salmos, "
eles contam com veículos e cavalo-vapor, mas nós invocamos o
nome do Eterno, nosso Deus."

Merece menção uma das questões mais importantes. Um ex-


presidente da Organização Sionista Mundial declarou
explicitamente que um sionista deve lealdade inapelável ao estado
sionista e que, em caso de um conflito, a primeira lealdade de um
sionista deve ser para com o estado sionista. De acordo com a lei
judaica, no entanto, um judeu deve obediência e lealdade ao país
do qual ele é um cidadão e, claro, nenhum judeu fiel deve lealdade
ou obediência ao estado sionista que tenha sido condenado pelo
mais ilustre dos rabinos de nossa época.

Não é meu propósito detalhar como o sionismo deve ser tratado.


Quero declarar, no entanto, que atos isolados ou espontâneos
contra indivíduos ou a simples adoção de resoluções da ONU ou
quaisquer outras não produzem os meios efetivos para pôr um fim
ao sionismo. Quero declarar também que a batalha contra o
sionismo precisa ser feita primeiro, não no litoral do Mediterrâneo,
mas no mais poderoso bastião do sionismo - nos Estados Unidos.

Como cidadão americano, deploro que nosso governo e nossos


políticos tenham adotado uma atitude que está em total
contradição com o conselho do pai de nosso país, George
Washington. O governo de Washington abraçou o sionismo tão
devotadamente que qualquer crítica ao estado sionista ou qualquer
oposição ao sionismo político nos Estados Unidos tornou-se uma
ofensa passível de punição. E a dócil mídia americana não ousa
falar contra tal absurdo.

Infelizmente, a cada ano vemos os sionistas americanos ganharem


mais influência. Este fato tornou possível eventos e progressos que
seriam impensáveis há dez anos atrás. É preciso muita coragem
para opor-se ao sionismo nos Estados Unidos hoje em dia.
Também precisou muita coragem ser anti-fascista na Itália, ou
anti-nazista na Alemanha, durante a II Guerra Mundial. No geral, o
sionismo nada mais é do que uma aberração na longa história do
povo judeu e do mundo.

Tenhamos fé e esperança na certeza de que finalmente o


preconceito, o ódio e a injustiça desaparecerão e que a profecia
tornar-se-á realidade, a de que todas as nações do mundo
participarão da peregrinação a Jerusalém, "porque Minha casa será
chamada de casa de oração por todas as nações."

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