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ClémentRosset

OPRINCÍPIODECRUELDADE

TraduçãodeJOSÉTHOMAZBRUM

RiodeJaneiro-1989

CLÉMENTROSSET

OPRINCÍPIODECRUELDADE

Traduçãode

JOSÉTHOMAZBRUM

Rocco

RiodeJaneiro-1989

Títulooriginal LEPRINCIPEDECRUAUTÉ

©1988byLesÉditionsdeMinuit

Direitosparaalínguaportuguesareservados, comexclusividadeparaoBrasil,à EDITORAROCCOLTDA.

RuadaAssembléia,10Gr.2313

CEP20011-RiodeJaneiro-RJ

Tel.:224-5859

Telex:38462EDRCBR

PrintedinBrazil/ImpressonoBrasil

capa

ANAMARIADUARTE

revisão

SANDRAPÁSSARO

HENRIQUETARNAPOLSKY

CIP-Brasil.Catalogação-na-fonte

SindicatoNacionaldosEditoresdeLivros,RJ.

Rosset,Clément

R74pPrincípiodecrueldade/ClémentRosset;traduçãodeJosé

ThomazBrum.-RiodeJaneiro:Rocco,1989.

Traduçãode:Leprincipedecruauté.

1.

1.Verdade(Filosofia).2.Crueldade.3.Realidade.I.Título.

CDD–19489-0602

CDU-1(44)

TEXTODACONTRA-CAPA

Considerado uma das poucas personalidades filosóficas francesas do nosso tempo, por ter estabelecido,atravésdosanos,umpensamentocoerenteepeculiar,ClémentRossetaprofunda,neste livro,algumasdesuastesesprincipais.Oconceitodereal,por exemplo.ParaRosset,ogeral eo universalsóexistemnaspalavras;orealé,sempre,singular.Earealidadeécruel.Nãosomenteporqueé “intrinsecamentedolorosaetrágica”,mastambémporqueaunicidadedorealnospriva,porsuavez,de todo o remédio. Não há escapatória ouconsolo. Dissecando tais temas, Rosset chega à “ética da crueldade”,cujoâmbitoqualifica,aseuver,todaaobrafilosófica:nãosedeveesperarpelomelhor,mas acomodar-seaopior.

TEXTODASORELHAS

Intérpretedopensamentotrágico,ClémentRossetdefendeaideiadequetodarealidadeécruel. Essa “ética da crueldade” se baseia emdois princípios que são o objeto principal deste livro. O primeiro,oprincípioderealidadesuficiente:orealbastaedelenadaescapa,postoqueéreal.Cabeaos homenssecontentareessecontentamento,gratuitocomoagraçadequefalaPascal,éoqueoautor chamadealegria. Osegundoprincípioéodeincerteza:todaaverdadeéduvidosa,hipótesequevaleespecialmente paraafilosofia,apontodeRossetdefenderque“umaverdadeincontestávelcessaria,porissomesmo,de serfilosófica”.Aincertezaécrueleessacrueldadeéprópriadafilosofia.Paraqueserve?Nãopara produziroverdadeiro,postoqueelesóhabitaoincerto.Masparadestruirideiasfalsas:umaverdade filosófica,porsersemprenegativaoucrítica,é“deordemessencialmentehigiênica”eClémentRosset, contrariandoosseguidoresdeMoiseouLacan,promoveaqui,explicitamente,Montaigne,paraeleomais penetrantedospensadoresfranceses.

***

penetrantedospensadoresfranceses. ***

OfilósofofrancêsClémentRossetnasceuem1939.Ex-alunodaEscolaNormalSuperiordeParis

éagregéedoutoremfilosofia.EnsinouessacadeiraemMontreal,noCanadá,emantémocargode maître-assistantdefilosofianaUniversidadedeNice.Seuprimeirolivropublicado,Laphilosophie

tragique,saiuem1960pelaP.U.F.Temvárioslivrostraduzidosparaoespanholeem1988suaobra

começouasertraduzidaparaoalemão.

INTRODUÇÃO

Sóháprovavelmentepensamentosólido- comoderestoobrasólidadequalquer gênero,seja comédiaouópera-bufa-noregistrodoimplacáveledodesespero(desesperopeloqualnãoentendo umadisposiçãodeespíritovoltadaparaamelancoliamas,longedisso,umadisposiçãoabsolutamente refratáriaatudooqueseassemelhaàesperançaouàexpectativa).Tudooquevisaatenuaracrueldade daverdade,asasperidadesdoreal,temcomoconsequênciainfalíveldesacreditaramaisgenialdas empresasassimcomoamaisestimáveldascausas-comoprova,porexemplo,ocinemadeCharles Chaplin.Noqueserefereaisso,vejomuitaexatidãoemumaobservaçãodeErnestoSábato,emseu romance Abaddón, o exterminador. “Desejo ser seco e não enfeitar nada. Uma teoria deve ser implacávelevolta-secontraseucriadorseestenãotrataasimesmocomcrueldade.” Refletindosobreestaquestão,perguntei-meseerapossívelpôremevidênciaumcertonúmerode princípios que regem esta “ética da crueldade” - ética cujo respeito ou desrespeito qualifica ou desqualifica,ameusolhos,todaobrafilosófica.Epareceu-mequeestapodiaserresumidaemdois princípios simples, que chamo “princípio de realidade suficiente” e “princípio de incerteza”, cuja exposiçãoconstituioobjetodestelivro. Serãoencontradosemapêndicetrêstextosanterioresàredaçãodesteestudo.Oprimeiroérelativo aoprimeirocapítulo;osegundoeoterceiro 1 aosegundocapítulo.

1.OPRINCÍPIODEREALIDADESUFICIENTE

Toda filosofia é uma teoria do real, isto é, conforme a etimologia grega da palavra teoria, o resultadodeumolharsobreascoisas:olharaomesmotempocriativoeinterpretativoquepretende,àsua maneiraesegundoseusmeiospróprios,darcontadeumobjetooudeumconjuntodeobjetosdados.Este compte-rendudeveserentendidoemtodosossentidosdotermo:ecoetestemunhoporumlado(no sentidoemquesefazumrelatosobretaloutalassunto),avaliaçãoporoutro(nosentidoemquese estabeleceasomadoqueserecebeucomoquinhãoafimdesercapaz,seaocasiãoseapresentar,dedar acadaumeacadacoisaoseujustovalor).Oolharfilosóficoé,assim,necessariamenteinterpretativo pelosimplesfatodeque“mede”,-comosugerebelamenteNicolaudeCusaemOprofano,aproximando omentaldomensurável,ofatodepensardofatodemedir.Eétambémsemprecriativo,jáqueas imagensquepropõedarealidadenãosãofotografiasdestamasrecomposições,asquaisdiferemdo originaltantoquantoumromanceouumquadro.Everdadequeocaráterespeculativoeintelectualda filosofiafaz,porvezes,esqueceroseuaspectofabricado,artesanal,queentretantoéprimordial.Pois umafilosofiaconsisteprimeiramenteeantesdetudoemumaobra,emumacriação-criaçãocujas característicasnãodiferemfundamentalmentedasdetodaespéciedeobra.Aoriginalidade,ainvenção,a imaginação,aartedacomposição,apotênciaexpressivasãooapanágiodetodograndetextofilosófico comoosãodetodaobrabem-sucedida. O que faz a especificidade da filosofia e a distingue das empresas paralelas (arte, ciência, literatura)é,assim,menosotipodetécnicaqueutilizadoqueanaturezadoobjetoquesepropõesugerir. Poisestenãoéumobjetoparticular,nemumconjuntoparticulardeobjetos,masoconjuntodetodosos objetosexistentes,estejamounãoatualmentepresentes;emsuma,arealidadeemgeral,concebidana totalidadedesuasdimensõesespaço-temporais.Trata-se,paraofilósofo,dedarcontadeumolharque temporobjetonãotaloutalcoisa,mastodaespéciedecoisas,incluindoasquesesituamforado alcancedesuapercepção(estasnaturalmenteasmaisnumerosas,começandopelasquepertencem,no entanto,aseumundopróximomasque,sendojáeinfinitamentedemasiadonumerosas,excedendojáe infinitamente a capacidade de atenção concedida a uma vida humana, escapamforçosamente à sua observação). Repetindo comLucrécio: a realidade se compõe, por umlado, deste mundo, do qual podemostereventualmenteumapercepçãoparcial(haecsumma),poroutrodoconjuntodemundosdos quaisnãopodermosterquasenenhumapercepção(summarerum).Aambiçãodedarcontadoconjunto dosobjetosconhecidosedesconhecidosdefine,aomesmotempo,adesmedidaeaespecificidadeda atividadefilosófica.Repito,estanãoconsisteessencialmenteemsermais“teórica”ou“abstrata”que umaoutra,masemsermaisgeral:emserumateoriadarealidadegeralenãoumateoriadetaloutal realidadeparticular(ouconjuntodefatosparticulares)comoosãoporexemploumquadro,umromance, umteoremamatemáticoouumaleifísica.Naverdade,ésempreomesmorealqueévisado;aúnica diferençaéqueas“teorias”nãofilosóficasseocupamdeseudetalhe,enquantoqueafilosofia-teoriada realidadegrossomodo-interessa-seprincipalmentepeloseuconjunto. Ora,seinterrogamosahistóriadafilosofia,percebemosqueamaiorpartedasfilosofiassópuderam alcançarsuameta,istoé,aproposiçãodeumateoriageraldoreal,medianteaestranhacondiçãode dissolveroobjetomesmodesuateoria,dereenviá-loaestequasenadaquePlatãochamavao“menor ser”(mèon)próprioàscoisassensíveis-querdizer,àscoisasreais-consideradasexistentesapenas pela metade e commuito custo. Como se a realidade, da qual umpintor ouumromancista pode reproduzir,eventualmenteeàsuamaneira,odetalhe,sópudesse,emcontrapartida,serapreendidaem seuconjuntopelofilósofo,secontestadaemseuprincípiomesmoeencontra-seassimdespojadadesua pretensãodeserjustamentearealidade,apenasarealidade,todaarealidade.Aliás,éumsentimento próprio,aomesmotempo,dafilosofiaedasensibilidademaiscomumjulgar,confusamente,queascoisas

são verdadeiras emseu detalhe, se consideradas uma a uma, mas duvidosas emseu conjunto, se consideradasemgeral:queumfatopontualdevesertidoporreal,masqueoconjuntodosfatospontuais quecompõemarealidadepodesertidoporincerto-emoutraspalavras,que,seéimpossívelduvidarde quequerquesejaemparticular,poroutroladoépossível(eafilosofiatemfrequentementeissocomo ocupaçãohabitual)duvidardetudoemgeral.Oacontecimentorealéreconhecidocomorealmasnãoa somadeacontecimentosdaqualelefazparte,oumelhor,nãofazverdadeiramenteparte:jáquehá percepçãoprecisadoprimeiroesomentevagosentimentodasegunda.Esteparadoxodacertezado detalheligadaaumaincertezadoconjuntopodeserenunciadosobumaformamatemática(paradoxode umelementoexistentequepertenceaumconjuntonãoexistente)ouaritmética(paradoxodeumaunidade reconhecidacomoigualaumamasincapazdedarduasselheacrescentamosumasegundaunidade).Sem dúvida,admitir-se-iasemdificuldadequesóhárealidadesingularedemodoalgumrealidadegenérica, quesóexistemcãesemparticularenãocãoemgeral,comooensinavamosfilósofosnominalistasda IdadeMédia.Emcompensação,émaisdifíciladmitirqueasomadasrealidadessingularesequivalea umarealidadeinexistenteouimaginária,comparávelàssombrasdacavernatalcomoassugerePlatãoem umapassagemcélebredeARepública. Omais notável dessareticênciaancestral dafilosofiaemlevar emconsideraçãounicamentea realidade é que ela nãoprovémde modoalgum,contrariamente aoque se poderia prever,de uma angústialegítimaanteaimensidadeeportantoaimpossibilidadedetaltarefa,massimdeumsentimento exatamenteoposto:daideiaquearealidade,mesmosupondoestainteiramenteconhecidaeexplorada, nãoentregarájamaisaschavesdesuaprópriacompreensão,pornãoconteremsi-mesmaasregrasde decodificaçãoquepermitiriamdecifrarsuanaturezaeseusentido.Considerarunicamentearealidade equivaleriaportantoaexaminarumavessodequeseignorarásempreodireito,ouumduplodequese ignorarásempreooriginaldoqualécópia.Detalmodoqueafilosofiatropeçahabitualmentenorealnão emrazãodesuainesgotávelriquezamas,aocontrário,desuapobrezaemrazõesdeserquefazda realidadeumamatériaaomesmotempoamplademaiseescassademais:demasiadoamplaparaser percorrida,demasiadoescassaparasercompreendida.Comefeito,nãohánadanoreal,pormaisinfinito eincognoscívelqueeleseja,quepossacontribuirparasuaprópriainteligibilidade:seéobrigadoa buscarseuprincípioemoutrolugar,atentarencontrarforadorealosegredodessepróprioreal.Daía ideiadeumainsuficiênciaintrínsecadoreal:oqualcareceriasempre,sepossodizerassim,eistoem todosossentidosdotermo,desuaprópria“causa”. O pensamento de uma insuficiência do real - a ideia de que a realidade só poderia ser filosoficamentelevadaemcontamedianteorecursoaumprincípioexterioràrealidademesma(Idéia, Espírito,Almadomundo,etc.)destinadoafundá-laeexplicá-la,emesmoajustificá-la-constituium temafundamentaldafilosofiaocidental.Poroutrolado,aideiadeuma“suficiênciadoreal”,oque chamarei,lembrandoLeibnizeseuprincípioderazãosuficiente,oprincípioderealidadesuficiente, aparececomoumainconveniênciamaioraosolhosdetodososfilósofos-todosouquase:deve-se naturalmenteexcetuaraquioscasosdepensadorestaiscomoLycrécio,Spinoza,Nietzsche,emesmo,em certamedida,opróprioLeibniz.Aintençãodefilosofarunicamentesobreorealeapartirdoreal constitui,mesmoaosolhosdafilosofiaedaopiniãomaiscomuns,ummotivodezombariageral,uma espéciedeenormeerrodebasereservadoapenasaosespíritosinteiramenteobtusoseincapazesdeum mínimodereflexão.Daíoseternosgracejosendereçadospelamaioriadosfilósofosaosqueconfessam interessar-sepelaexperiênciaimediata,emesmosatisfazer-secomela;assimHegelnessapassagem notável doiníciodaFenomenologiadoespírito, que situa tal disposição mental abaixo mesmo da sabedoriadosanimais:“Pode-sedizeraosqueafirmamatalverdadeecertezadosobjetossensíveisque eles devem ser reenviados às escolas elementares da sabedoria, ou seja, aos antigos mistérios eleusínicos(deCeresedeBaco)equedevemaprender,primeiramente,osegredodecomeropãoede beberovinho.Poisoiniciadonessesmistériosnãosóchegaaduvidardoserdascoisassensíveismasa

desesperardele;porumladolevaacaboaaniquilaçãodessascoisas,eporoutroasvêrealizaresta aniquilação.Osprópriosanimaisnãoestãoexcluídosdessasabedoriamas,aocontrário,mostram-se profundamenteiniciadosnela;poisnãopermanecemdiantedascoisassensíveiscomoseelaspossuíssem umseremsimas,desesperandodasuarealidadeenaabsolutacertezadeseunada,elesastomamsem maiseasdevoram.Eanaturezainteiracelebra,comoosanimais,essesmistériosreveladosqueensinam qual é a verdade das coisas sensíveis 2 .” Esta depreciação da realidade imediata é uma expressão particularmenteeloquentedo“princípioderealidadeinsuficiente”queconstituiocredocomumatoda denegaçãofilosóficadoreal;expressãobastantecômicatambémpelaassimilaçãoquesugereHegeldo apetitedosanimaisaoreconhecimentodapobrezaontológicadosalimentosqueelessepreparampara devorar;comoseprimeiramentefossenecessárioconvenceroleitãodoescassoteordarealidadeda papaquelheéoferecida,da“absolutacertezadeseunada”,paraconvencê-loacravarosdentesnela. Éemumespíritovizinhoqueumhegelianomoderno,EricWeil,julga-seautorizadoadeclararde saída, emumartigo justamente consagrado à realidade (“Sobre a realidade”), que a realidade que podemosexperimentarédesprovidadetoda“realidadereal”:“Oquesedáimediatamentenãoéreal.” Poder-se-iadeclarar,demodoigualmentearrogante,queumabebidaqueédadaparabebernãoéuma verdadeirabebida,ouqueumamulherqueseofereceàscaríciasnãoéverdadeiramenteumamulher.Tais palavras sãonaturalmente insensatas mas tambémsão,diria,altamente “filosóficas” - nosentido,é verdade,lamentáveldotermoquelevariafacilmenteapensar,comosugereL.M.Vacheremumensaio recente,queaprincipalfunçãodafilosofiaé“darcréditoatolicesaomesmotempoemquedesconsidera evidências 3 ”. Seéobrigado,comefeito,aadmitirqueafilosofia,quesepropõeacompreendereinterpretaroque existe,frequentementesótemolhoseatençãoparaoquenãoexiste.Nadamaissurpreendente,deresto, doqueestatendênciaordináriaeobstinadadafilosofiaemquerersemprerefutardepreferênciaoqueé manifestamenteverdadeiro,assimcomodepreciarinstintivamenteoqueéindiscutivelmenteagradável (isto sendo uma consequência necessária daquilo, pois a suspeita quanto ao real estende-se necessariamente ao que este pode oferecer de prazeroso). Spinoza resume muito bemessa habitual propensãodafilosofiaàinversãodasverdadesedosvalores:“Asuperstiçãopareceadmitirqueobemé oqueocasionaaTristeza;eomal,oquecausaaAlegria 4 .” Asrazõesinvocadaspelomaiornúmerodefilósofosparacontestaroreal,paramantersobsuspeita

ofatodesuasimplesetotalrealidade,sempremepareceram,ameuver,poucoconvincenteseelas-

mesmasmuitosuspeitas.Nãoquesejamimpertinentes;poiséinegávelquearealidade,nãopodendoser explicadaporelamesma,édecertomodoparasempreininteligível-masserininteligívelnãoequivalea serirreal,assimcomoumamulherdecomportamentoindecifrávelnãoequivaleaumamulherquenão existe,comoensinacotidianamenteamaisbanaldasexperiênciasamorosas.Aúnicamasgrandefraqueza dosargumentosfilosóficosquetendemafazerduvidardaplenaeinteirarealidadedorealéqueestes dissimulamaverdadeiradificuldadequeexisteemlevaremconsideraçãooreal esomenteoreal:

dificuldadeque,seresidesecundariamentenocaráterincompreensíveldarealidade,resideantesdetudo e principalmente em seu caráter doloroso. Dizendo em outras palavras, suspeito muito de que a desavençafilosóficacomoreal nãotenhapor origemofatodequearealidadesejainexplicável, consideradaapenasemsi-mesma,massimofatodequeelasejacruelequeconsequentementeaideiade realidadesuficiente,privandoohomemdetodapossibilidadededistânciaouderecursocomrelaçãoa ela,constituiumriscopermanentedeangústiaedeangústiaintolerável-nocasodequeseapresenteuma circunstânciadesagradávelquetorne,comoporexemplonaocasiãodaperdadeumentequerido,a realidade subitamente insuportável;ouainda que fora de toda circunstância particularmente penosa ocorraqueselanceumolharsubitamentelúcidosobrearealidadeemgeral.“Hipocondriamelancólica”, observaGérarddeNervalemumdiário.“Éummalterrível:fazverascoisastaiscomosão.” Por“crueldade”dorealentendoemprimeirolugar,éclaro,anaturezaintrinsecamentedolorosae

trágicadarealidade.Nãomeestendereisobreesteprimeirosentido,maisoumenosconhecidodetodos, esobreoqualaliástiveocasiãodefalaralhuresmaisdoqueabundantemente;basta-melembraraquio caráterinsignificanteeefêmerodetodacoisadomundo.Masentendotambémporcrueldadedorealo caráterúnico,econsequentementeirremediáveleinapelável,destarealidade-caráterqueimpossibilita aomesmotempodeconservá-laadistânciaedeatenuarseurigorpelorecursoaqualquerinstânciaque fosseexterioraela.Cruor,deondederivacrudelis(cruel) assimcomocrudus(cru,nãodigerido, indigesto) designa a carne escorchada e ensanguentada: ou seja, a coisa mesma privada de seus ornamentos ouacompanhamentos ordinários,nopresente casoapele,e reduzidaassimà sua única realidade,tãosangrentaquantoindigesta.Assim,arealidadeécruel-eindigesta-apartirdomomento emqueadespojamosdetudooquenãoéelaparaconsiderá-laapenasemsi-mesma:talcomouma condenaçãoàmortequecoincidissecomsuaexecução,privandoocondenadodointervalonecessárioà apresentaçãodeumpedidodeindulto,arealidadeignora,porapanhá-losempredesurpresa,todopedido deapelo.Damesmaformaqueoqueécruelnapenacapitaléporumladosercondenadoàmorte,por outroserexecutado,assimtambémoqueécruelnorealédecertomododuplaporumladosercruel,por outroladoserreal-comestadiferençanotávelque,nocasodacondenaçãoàmorte,aexecuçãonão acompanhanecessariamenteacondenação,enquantoquenocasodarealidadeaexecuçãoacompanha automaticamenteacondenaçãoparafundir-secomela,para,sepossodizerassim,situardeumasóvez suas“sentenças”aníveldaexecução.Emtodocaso,umadistinçãomentaléaquipossível,emboraseja impossíveldistinguiraníveldosfatos.Querodizerquesepode,bastanteordinariamente,emesmo,em certamedida,bastanterazoavelmente,julgarquearealidadeécruelpornatureza,mastambém,eporuma espéciedeúltimorefinamentodecrueldade,verdadeiramentereal.Emaisoumenosoqueexprime ProustnoiníciodeAlbertinadisparue(Afugitiva):“JáébemtristequeAlbertinetenhamedeixadocom armasebagagens-masopiorépensaraindaquetudoissoéverdadeiro“(Proustcomentaestadistinção escrevendoque“empsicologia,osofrimentovaimaislongedoqueapsicologia”;ameuver,poderia dizermaisexatamentequeosofrimentovaimais.longeemrealidadequetodasasrepresentaçõesou antecipaçõesquesepossafazerdele).Umdepressivodeminhasrelaçõesexprimehabitualmentesua queixasobumaformacomparável ealtamentesignificativa,emboraestapossaparecer apenasuma absurdatautologia:queixando-se,nãosomentedequeaexistênciaseja,aseusolhos,horrível,masainda esobretudodequeeletenharazãodeconsiderá-lacomotal.Nãosomenteaverdadeéhorrível,declara geralmenteemsuascrisesdeabatimento,masalémdissoéverdadequeelaoseja-elaéefetivamente horrível.Emsuma,eleadmitiria,arigor,quearealidadefossetriste;emcompensação,oqueoabatee,a seusolhos,,passadoslimiteséumtormentosuplementardecorrentedaideiadequeumaverdadetristeé, aomesmotempo,eporcúmulodeinfelicidade,umaverdadeverdadeira-ouainda,oquequerdizero mesmo,queumarealidadepenosaétambém,eporcúmulodecrueldade,umarealidadereal.Emoutras palavras-eéjustamenteoqueeuqueriasugerirevocandoaduplacrueldadedoreal-,parecequeomais crueldarealidadenãoresideemseucaráterintrinsecamentecruel,masemseucaráterinelutável,istoé, indiscutivelmentecruel. Diga-sedepassagem:comomuitastautologias,estadistinçãoabusivaentre“verdade”e“verdade verdadeira”,ou“realidade”e“realidadereal”,nãoépobremasricaemensinamento,ilustrandode maneirageralafaculdadehumanadeiludir-sequeequivale,emtodososcasos,atransformaremdoiso queéapenasum,amarcarcomumefeitoderedundânciainfinitooqueseapresentacomosimplese único.Assimnossodepressivo,queafirmaquevêtudopeloladopiormasacrescentaquetemrazãode vertudopeloladopior,deveriaacrescentaraindaquepensaterrazãodeterrazão,umavezquetem razão de pensar que temrazão, e assimpor diante. Do mesmo modo, aliás, todo iludido, que, à declaração de uma verdade pontual, acrescentará sempre a declaração de uma verdade mais geral, julgando consolidá-la, depois uma terceira verdade para apoiar a segunda, depois uma quarta para consolidar a terceira,e assimpor diante aoinfinito.Assimtambémtalveztodohomem,quandose

preocupaemdarcontadeseudesejooudesuarepulsa:oacréscimodeumcomentáriosupérfluo,tido comoexplicaçãodeumfatodoqualéapenasaexpressãoreduplicadaetautológica,queacompanha habitualmentetodamanifestaçãodeamoroudeaversão.Comooapreciadordemelõesprocuraexplicar seugostoporumsaberdanaturezaexcelentedosmelões,oquenãoosapreciaexplicasuaaversãopor umconhecimentodesuanaturezaexecrável.Gostodemelõesdeclaraoapreciadordemelões-eque bom:porquecasocontrárionãooscomeria:quepena!Nãogostodemelões,declaraooutro-eque bom!:porquecasocontráriooscomeria,quehorror!Ailusãocomumaosdoiscasos,comoaliásatodos oscasosdeilusão,consisteemjulgarqueumarealidadenãosebastaasi-mesmaesópodeimpor-se peladenegaçãodeseucontrário,ouaindaqueumfatosóexistegraçasàsuaprópriareiteração(esta equivalendo,namaioriadoscasos,aestamesmadenegaçãodeseucontrário),enquantoqueoprópriodo realéjustamentefurtar-seatodacontradiçãoassimcomoatodapossibilidadederepetição. Voltandoameutema,diriaentãoquearealidade,repito,seconsideradacomoúnicaesuficiente, quejáultrapassaafaculdadehumanadecompreender,ultrapassatambém-eistoémaisprejudicialque aquilo-afaculdadehumanadeserafetado.Deve-seobservar,comefeito,queseafaculdadeintelectual de compreender e a faculdade psicológica de aceitar são, no homem, igualmente limitadas e definitivamentedébeis,afaltadasegundapesainfinitamentemaisdoqueafaltadaprimeira.Enquanto incompreensível,arealidadeéapenasumembaraçoqueirritaocasionalmenteoespíritomasnãoentrava oexercícioordináriodavida:assimcadaumseacomodasemmuitadificuldadeaotempo,aoespaço,ao movimento,que,emborasejamnoçõesquecertamentetocammaisdepertooreal,tambémsãonoções queninguémjamaisfoicapazdeconcebernemdedefinir.Nãoaconteceomesmocomarealidade quandoéexperimentadacomointensamentedolorosa: opondo-seentãoaumaintolerância da parte daquelequeéafetadoporela,quando,naquelequeéimpotenteparacompreendê-la,suscitaapenasum simplesepassageiroestadodeperplexidade.Emoutraspalavras,erepetindo:arealidade,seultrapassa afaculdadehumanadecompreensão,temcomooutroeprincipalapanágio“exceder”,eistoemtodosos sentidosdotermo,afaculdadehumanadetolerância.Quandoseencontraincapacitadadeafrontara realidade,ainteligênciasecontenta,namaioriadasvezes,comumvagocompromissocomoreal,com umadeliberaçãoeumapostergaçãoatémaioresdetalhes,devendoestesseremeternamentediferidos paramaistarde.Enquantoque,apanhadanamesmaarmadilhadoreal,aafetividadeprotestaeseretira; talcomoumaresistência,nosentidoelétricodotermo,quevaipelosaresàpassagemdeumacorrente maisforte.EexatamenteoqueaconteceaSwann,emUnamourdeSwann(NocaminhodeSwann), quandoacabaporconsiderarahipótesesegundoaqualamulherqueeleamaéumacortesã;hipóteseque, tendo o defeito de coincidir precisamente coma realidade, temcomo resultado ser imediatamente recalcadagraçasaoqueProustdescrevejustamentecomoumasúbitaeprovidencial“panedecorrente”:

“Não pôde aprofundar tal ideia, pois um ataque de preguiça de espírito, que lhe era congênita, intermitenteeprovidencial,veionaquelemomentoextinguirtodaluzemsuainteligência,tãosubitamente como, mais tarde, depois de instalada por toda parte a iluminação elétrica, se poderia cortar a eletricidadenumacasa.”Emcasodeconflitogravecomoreal,ohomemquepressenteinstintivamente queoreconhecimentodesserealultrapassariasuasforçaseporiaemperigosuaexistênciamesma,vê-se obrigadoadecidir-seimediatamente,sejaemfavordoreal,sejaemfavordesimesmo-poisnessecaso nãocabemmaisevasivas:“éeleoueu”.Eleseatribuicomumenteapreferênciaecondenaassimoreal, comoSwannnapassagemcitadaanteriormente.Eletambémpode,éverdade,darpreferênciaaoreal:

casodosuicídio-suicídiopsicológicoousuicídiotoutcourt.

Aaceitaçãodorealsupõe,portanto,ouapurainconsciência-talcomoadoporcodeEpicuro,único

àvontadeabordoenquantoatempestadequesedesencadeiaangustiatripulaçãoepassageiros-,ouuma

consciênciaquefossecapaz,aomesmotempo,deconheceropioredenãosermortalmenteafetadapor

talconhecimentodopior.Deve-seobservarqueestaúltimafaculdade,desabersemsofrer-comeste

saber-danomortal,estásituadaabsolutamenteforadoalcancedasfaculdadesdohomem,-amenos,é

verdade,quenelasemisturealgumaassistênciaextraordinária,quePascalchamadegraçaequechamo, quantoamim,aalegria.Comefeito,oconhecimentoconstituiparaohomemumafatalidadeeuma espéciedemaldição,járeconhecidas noGênese (“Nãoprovarás da árvore da ciência”): sendoao mesmotempoinevitável(impossívelignorarinteiramenteoquesesabe)einadmissível(impossível igualmente admiti-lo inteiramente), ele condena o homem, isto é, o ser que se aventurou no reconhecimentodeumaverdadeàqualéincapazdefazerfrente(talcomoumgeneralimprudentequese lançaaoataquesemassegurar-sedoestadodasforçasemoposiçãoedesuaspossibilidadesderetirada), aumasortecontraditóriaetrágica-trágicanosentidoemqueocompreendeporexemploVladimir Jankélévitch(“aliançadonecessárioedoimpossível”).Oquehádemaisagudoedemaisnotórionoque sechamaacondiçãohumanaparece-meresidirprecisamentenisto:sermunidadesaber-diferentemente dosanimaisoudosobjetosinanimados-masaomesmotemposerdesprovidadosrecursospsicológicos suficientesparafazerfaceaseuprópriosaber,sedotadadeumacréscimodeconhecimento,ouaindade um“olhoamais”comodiriaAndréGreen,quefazindistintamenteseuprivilégioesuaruína-emsuma, sabermasnãopoderfazernada.Assimohomeméaúnicacriaturaconhecidaaterconsciênciadesua própriamorte(comodamortedestinadaatodacoisa),mastambémaúnicaarejeitarinapelavelmentea ideiadamorte.Elesabequevive,masnãosabecomofazparaviver;sabequedevemorrer,masnão sabecomofaráparamorrer.Emoutrostermos:ohomeméosercapazdesaberoque,poroutrolado,é incapazde saber, de poder emprincípio o que é incapazde poder emrealidade, de encontrar-se confrontadoaoqueéjustamenteincapazdeafrontar.Igualmenteincapazdesaber edeignorar,ele apresentaaptidõescontraditóriasqueimpossibilitamqualquerdefiniçãoplausível,comorepetePascal nosPensamentos.Dir-se-iaqueumprogramadordivinoeuniversal,amenosquesetrateapenasdo acasodascoisascomosugereEpicuro,cometeuaquiumerrodebase,endereçandoumainformação confidencialaumterminalincapazderecebê-la,dedominá-laedeintegrá-laaseupróprioprograma:

revelandoaohomemumaverdadequeeleéincapazdeadmitir,mastambém,einfelizmente,muitocapaz deentender.EisporqueopoemadeLucrécio,quesepropõecuraraangústiahumanapelarevelaçãoda verdade,sótemesópodetercomoprincipalresultadoaumentaraindamaisessaangústiamesma.A administraçãodaverdadenãovalenadaparaaquelequesofrejustamentedaverdade,domesmomodoa percepção inelutável da realidade, à qual convida Lucrécio, não temefeito benéfico naquele que justamente teme,acima de tudo,a realidade vista emsi-mesma,emseuestadodesnudoe cruel.O remédioé,aqui,piorqueomal:excedendoasforçasdodoente,sópodetratarumcadáverquejá sucumbira à prova de umreal que estava acima de suas forças - ouocasionalmente confortar um saudável, que, na verdade, não tinha necessidade dele. Leopardi analisa admiravelmente, emuma passagemdeseuZibaldone,estainadequaçãoecontradiçãonecessáriaqueopõeoexercíciodavidaao conhecimento da vida: “Não se pode expor melhor o horrível mistério das coisas e da existência universal( )doquedeclarandoinsuficientesemesmofalsos,nãosomenteaextensão,oalcanceeas forças,masosprópriosprincípiosfundamentaisdenossarazão.Esseprincípio,porexemplo-semo qual desmoronam toda proposição, todo discurso, todo raciocínio, e a eficácia mesma de poder estabelecê-loseconcebê-loscomoverídicos-,esseprincípio,dizia,segundooqualumacoisanãopode ser e não-ser ao mesmo tempo, parece absolutamente falso quando se consideramas contradições palpáveisqueexistemnanatureza.Serefetivamenteenãopoderdenenhumamaneiraserfeliz,eistopor impotênciainata,inseparáveldaexistência,oumelhor:serenãopodernão-serinfeliz,sãoduasverdades tãodemonstradasecertasnoquedizrespeitoaohomemeatodoviventequantopodesê-loqualquer verdadesegundonossosprincípiosenossaexperiência.Ora,oserunidoàdesgraça,eunidoaelade modonecessárioeessencial,éumacoisadiretamentecontráriaasi-mesmo,àperfeiçãoeaseufim próprioqueésomenteafelicidade,umacoisaquesearruinaasiprópria,queésuaprópriainimiga. Portantooserdosviventesestáemumacontradiçãonaturalessencialenecessáriaconsigomesmo 5 .” CioranresumebrevementeomesmopensamentoemumaforismodeAtentaçãodeexistir: “Existir

equivaleaumprotestocontraaverdade.” Assim só podemos viver habitualmente e submetemos a verdade, ou melhor, se a tomamos

perpetuamenteàsavessas:tarefaextenuanteilustrada,entreoutros,peloantigomitodeSísifo.Ilustrada

tambémpelamaiorpartedasempresasfilosóficas,cujoprincipalobjetivonãoérevelaraverdadeao

homem,massimfazê-loesquecê-la:fazer“passar”suacrueldade,assimcomoummedicamentofaz

provisoriamentecessaruniador,atenuaraprovadarealidadeporumainfinitavariedadederemédios-

maisoumenosimprovisadosconformeofilósofotenhamaisoumenosrecursosmentais-queselimitam

sempre,nofinaldascontas,aumexorcismoalucinatóriodoreal,semelhanteàdeclaraçãoingênuade

EricWeilevocadaanteriormente(“Oquesedáimediatamentenãoéreal”).Ofilósofo-repito,nãotodos

osfilósofos,masumgrandenúmeroentreeles-ésemelhanteaomédicoàcabeceiradeumdoente

incurável:preocupadoemaplacar,atodocusto,osofrimento(doqual,aliás,participa),masindiferente

aovalordosmeiosempregadoscontantoqueestestenhamumefeitotangíveleimediato.Seuprimeiro

cuidadoé,assim,tentarestabelecer,custeoquecustar,queorealnãoéreal,umavezqueédorealque

sesofre,delequeéemsumaacausadetodoomal.DamesmaformaMarcelProust,sabendoque

Albertinefoiembora,encontraumremédiotãoinstintivoquantoabsurdonaideiadequeAlbertine,na

verdade,nãofoiembora:“Masestaspalavras:ASrta.Albertinefoi-seemboraacabavamdeproduzir-me

nocoraçãoumsofrimentotamanhoqueeunãopodiaresistir-lhepormuitotempo;impunha-sefazerparar

imediatamentemeusofrimento.Ternocomigomesmo,aojeitodemamãecomaminhaavóagonizante,

diziaamimpróprio,comaquelamesmaboavontadequetemosdenãodeixarsofreraquemamamos:

“Temumpoucodepaciência,vamosarranjarumremédio Ficatranquilo,nãotedeixaremossofrer desse jeito.” E suspeitava confusamente que, se ainda há pouco, quando ainda não havia tocado a campainha,apartidadeAlbertinepuderaparecer-meindiferente,emesmodesejável,équeajulgava impossível;nessaordemdeideias,procurooinstintodeconservação,paraaplicaremminhaferida aberta,osprimeiroscalmantes:“Nadadissotemimportância,poisvoufazê-lavoltarimediatamente. Vereicomohádeser,masdequalquerformaelaestaráaquiestanoite.Porconseguinte,nãoadiantame atormentar.”Observaremosquesepodesubstituiraquiafórmula“Srta.Albertinefoi-seembora”pela fórmula“orealéoreal”,semquesejanecessáriomudarumasópalavranessapassagemdeAlbertine disparue. Assima filosofia insiste geralmente emsubstituir a ideia que “isto é” pela ideia que é impossíveleinadmissívelque“istoseja”:opondo,aoreinosoberanoeconstrangedordoser,oreino fantasmáticoemoraldeum“deveser”. Jáqueestouevocandoincidentementeapropensãohumana(efilosófica)aomoralismo,aproveitarei para repetir uma verdade que já enunciei em uma obra de primeira juventude (La Philosophie tragique) 6 *:oqueamoralcensuranãoé,demodoalgum,oimoral,oinjusto,oescandaloso,massimo real-únicaeverdadeirafontedetodooescândalo.OcasodePlatãoedeRousseau,parameaterapenas a esses eminentes especialistas emmatéria moral, é aqui muito esclarecedor. Aastúcia de Platão consiste, na verdade, emrepresentar constantemente como desprezível e indigno do homemo que

constitui,aocontrário,suatarefamaisaltaemaisdifícil:querodizer,acomodar-seaoreal,encontrarsua

satisfaçãoeseudestinonomundosensíveleperecível.Damesmamaneira,aloucuradeRousseau

consisteessencialmenteemcondenarcomoimoraltodarealidadeapartirdomomentoemqueestaé

trágica.Rosseau,quejamaisinvocaestepensamentoabsurdo,emborasejaininterruptamentetrabalhado

porele,confessa-ocontudoebastantecruamente,graçasprovavelmenteaummomentodedesatenção,em

umapassagemsurpreendentedesuaCartaàd'Alembert:“OqueseaprendeemFedraeemÉdipo,anão

serqueohomemnãoélivre,equeocéuopunedoscrimesqueelelhefazcometer?Oqueseaprendeem

Medeia,anãoseratéondeofurordociúmepodetornarumamãecrueledesnaturada?Acompanhema

maioriadaspeçasdoThéâtre-François,encontrarãoemquasetodasmonstrosabomináveiseações

atrozes,úteis,sequiserem,paradarinteresseàspeçaseexercícioàsvirtudes,mascertamenteperigosas

noqueacostumamosolhosdopovoahorroresqueelenãodeverianemconhecer,eacrimesqueele

nãodeveriasuporpossíveis(eusublinho).”Emoutraspalavras:éimoralechocantedaraconhecer,a

quemquerqueseja,averdade,quandoestaédesagradável.Ouainda:averdadesóéadmissívelatéum

certograudecrueldadealémdoqualelaseencontrainterditada.AúltimapalavradafilosofiadePlatão

comodadeRousseauparece-me,assim,resumir-seaestesimpleseaberranteadágio:seaverdadeé

cruel, é que ela é falsa - e deve, por conseguinte, ser ao mesmo tempo refutada pelos sábios e dissimulada ao povo. Kant, me parece, inspira-se muitas vezes no mesmo adágio: estabelecendo habitualmente-oujulgandoestabelecer-avalidadedastesesquelhesãocaras(comoaimortalidadeda alma ou a racionalidade e a finalidade da natureza) baseado apenas na consideração do caráter contrariantedashipótesesinversas.ComonessademonstraçãoestranhadaprimeiraproposiçãodaIdéia deumahistóriauniversaldopontodevistacosmopolita.Proposição:“Todasasdisposiçõesnaturaisde uma criatura estão destinadas a um dia se desenvolver completamente e conforme um fim.” Demonstração:“Pois,seprescindimosdesseprincípio,nãoteremosumanaturezareguladaporleis,esim umjogosemfinalidadedanaturezaeumaindeterminaçãodesconsoladoratomaolugardofiocondutor darazão 7 .”Idéiasverdadeiraseideiasfalsasdividem-se,emsuma,facilmente,segundoavontadede Kant: as primeiras são reconhecidas por sua natureza agradável, as segundas por seu aspecto “desconsolador”. Tem-sevontadederetrucarnestecaso:searealidadepode,comefeito,sercruel,nemporissoé menosreal.Duralexsedlex:realitascrudelissedrealitas.Adurezadacoisanãoimpedeacoisadeser inteiramenteindiferenteaosqueelaatormentaepodeaté,eventualmente,aniquilar.Aexperiênciada realidadeé,assim,comparávelaestacrueldademescladadealegriadequefalaNietzsche,emOcaso Wagner,apropósitodaCarmendeBizet:“Estamúsicaéalegre,masnãodeumaalegriafrancesaou alemã.Suaalegriaéafricana;afatalidadepairasobreela,suafelicidadeébreve,súbita,semperdão.”

EstaobservaçãodeNietzschevaleparatodarealidade,quersejaexperimentadacomoalegreoutriste-

aliás,sabe-sequeaqualidadedeser“semperdão”(ohnePardon)queNietzscheatribuijustamenteà músicadeBizetemCarmené,nousocorrente,maiscomumenterelacionadaaumacontecimentoouuma decisãofunestos.Felicidadeetristezapartilhamasortecomumatodaexperiênciadarealidade,ser imediataeapenasimediata.Eafatalidadequepairasobreela,comodizNietzsche,nãosignificaqueela sejaofatodeumdestinoescritoporantecipação,massomentequesuaimediatidadeatornaaomesmo tempoinelutávelquantoàsuapresençanomomento,emaisdoqueincertaquandoàssuaschancesde duraçãooudesobrevivência.Oinelutável,éprecisolembrar,nãodesignaoqueserianecessáriopor todaaeternidade,masistoaqueéimpossívelfurtar-senoinstantemesmo. Pensamento moral e pensamento trágico dividem, assim, a opinião dos homens, sugerindo-lhes alternadamenteaideiamaisapaziguadoramasamaisilusória(princípioderealidadeinsuficiente)ea ideiamaiscruelmasamaisverdadeira(princípioderealidadesuficiente).Daíduasgrandescategorias defilosofiasedefilósofos,Conformeestesfaçamapeloaummelhor-serou,aocontrário,acomodem-se aopior.EumpoucooquesugereSamuelButleremumapassagemdeThewayofAllFlesh(Assimvai todacarne):Umnúmeromuitopequenodehomensatribuemimportânciaàverdade,oupensamqueémais nobreemelhoracreditarnoverdadeirodoqueacreditarnofalso,adespeitodofatodeque,àprimeira vista,podeparecermaisvantajosoacreditarnofalso.E,noentanto,éapenasdessepequenonúmerode homens que se pode dizer que acreditam em alguma coisa; os demais são apenas descrentes envergonhados.Noquemedizrespeito,proporiadistinguirentreduasespéciesdefilósofos:aespécie dosfilósofos-curandeiroseadosfilósofos-médicos.Osprimeirossãocompassivoseineficazes,os segundoeficazeseimplacáveis.Osprimeirosnãotêmnadadesólidoaoporàangústiahumana,mas dispõemdeumagamadefalsosremédioscapazesdeadormecê-lamaisoumenosdurantemuitotempo, capazes não de curar o homem, mas suficientes para fazê-lo ir vivendo. Os segundos dispõemdo verdadeiroremédioedaúnicavacina(querodizer,aadministraçãodaverdade);masesteédetalforça que,seeventualmentereconfortaasnaturezassaudáveis,temporoutroeprincipalefeitoodefazer

perecerimediatamenteasnaturezasfracas.Aliás,esteéumfatoparadoxalenotável,embora-tanto

quantoeusaiba-poucoobservado:odesóseroperantecomrelaçãoaosnão-doentes,aosquedispõem,

aomenos,deumcertofundodesaúde.Domesmomodoqueafilosofiadignadecredibilidadesóé

entendidapelosqueasabiamumpoucodeantemãoe,assim,nãonecessitamverdadeiramentedela,a

medicinanãopodeenãopoderájamaiscurarsenãoossaudáveis.

2.OPRINCÍPIODEINCERTEZA

“Anecessidade de uma fé forte não é prova de fé forte, é, isso sim, o contrário.Sealguémtemessafé,podepermitir-seoluxodoceticismo.” Nietzsche,OCrepúsculodosídolos.

Montaignesugere,emumapassagemdaApologiadeRaimondSebond,umadefiniçãodaverdade filosófica tão desconcertante quanto pertinente: “Duvido que Epicuro, Platão e Pitágoras tenham acreditadoseriamenteemsuasteoriasdosátomos,dasideiasedosnúmeros.Eramdemasiadosábiose prudentesparacrerememcoisastãoincertasetãodiscutíveis.Oquenarealidadepodeassegurar-seé que,dadaaobscuridadedascoisasdomundo,cadaumdessesgrandeshomensprocurouencontrarum imagem luminosa delas. Seus espíritos acharam explicações que tinham pelo menos uma certa verossimilhançaeque,emboranãoaveriguadamenteverdadeiras,podiammanter-secontraasoposições contrárias.”Emoutraspalavras,averdadeenunciadapelosfilósofos,esuaverdademaisaguda,aque servedesdemilêniosparadesignarecaracterizarseupensamento,éaomesmotempoumaverdadede quenenhumdaquelesqueaenunciaramestariadispostominimamenteaserfiador,ou“autor”,nosentido dolatimauctor.Lembrareibrevemente,voltandoàetimologialatinadapalavraautor,queotermoauctor significa,aomesmotempo,fiadoreprodutor.Ora,oqueocorreéqueoprodutoremquestão,querodizer ofilósofo,mostra-semuitodesconfiadocomrelaçãoaseusprópriosemelhoresprodutos:Pitágorasnão crênosnúmeros,Platãonãocrênasideias,Epicuronãocrênosátomos.Contrariamenteaofanático,ele possuibastantesabedoriaparanãodefender,aqualquerpreço,umaverdadequecertamenteenunciou masdequetambémsabe,eprovavelmentemelhordoqueninguém,aquepontoéduvidosa,-como sugereaindaMontaigne,emumaoutrapassagemdaApologia:“Nãoseimesmoseoardorquenascedo despeitoedaobstinaçãoqueexperimentamosanteaopiniãoeaviolênciadomagistrado,aexcitação causada pela ameaça do perigo, ou ainda o desejo de ganhar prestígio, não terão levado certo personagem(quepoderiaapontar)asubiràfogueiraparasustentarsuaopinião,pelaqual,emliberdadee nomeiodeseusamigos,nãoseexpuseraaqueimarumdedo.” Ofatodequeumfilósofosejamenospersuadidoquequalqueroutrodaverdadequeinvocapode pareceraltamenteparadoxal.Ofatoé,noentanto,indubitáveleprovémdanaturezamesmada“verdade” filosófica. Pode-se naturalmente e justamente observar que fazparte da natureza de toda verdade, qualquerquesejaseugênero,serduvidosa.Assimtodofato,pormaissimpleseevidentequesejano momentodeseuacontecimento,torna-seincertoevagodesdequeeste,umavezpassado,encontra-se convocadoaotribunaldajustiçaoudamemóriacoletiva.Damesmaformaumaverdadecientífica,por maiscertaquepossapareceremumdadomomento,esgota-serapidamenteaocontatodasconcepções ulterioresqueainterpretamdeoutramaneira,noespaçodeumateorianovaquemodificaradicalmente seustermos.Eisporquenãoexistem,deformaalguma,falandopropriamente,“ciênciasexatas”(exceto as matemáticas, que renunciam a toda verdade de fato e limitam-se a conciliar conclusões com premissas): exatamente como uma verdade histórica, uma verdade física está eternamente sujeita à caução e à revisão. Não é menos verdade entretanto que o historiador e o físico evocam fatos indubitáveis,mesmosesãocapazesdeproporumaversãocertaedefinitivadeles.Asinterpretaçõesda Revolução Francesa ou da lei da queda dos corpos são e serão talvez sempre mais ou menos controvertidas;éimpossível,entretanto,pôrseufatoemdúvida,pensarporexemploqueaRevolução Francesanãoocorreu,ouqueaquedadoscorposnãocorrespondeanadadeobservávelnanatureza. Umaeoutrasãoverdadeiras:aprimeiraquandoocorreu,asegundaquandofoiconcebida.Elassão verdadeirasnamedidaemqueforamverdadeirasemseutempoepodemassiminvocar,comodiria Hegel,umcerto“momento”deverdade.Ora,oprópriodasverdadesfilosóficas,diferentementedos

outrosgênerosdeverdade,éjamaispoderinvocartal“momentodeverdade”.Namedidaemquea filosofiaêumaciênciadosproblemasinsolúveis,oupelomenosdosproblemasnão-resolvidoscomo diziaBrunschvicg,assoluçõesqueeladáaseusprópriosproblemassãonecessariamenteepordefinição duvidosas-atalpontoqueumaverdadequefossecertadeixaria,porestarazãomesma,deseruma verdade filosófica, e que um filósofo que estivesse persuadido da verdade que propõe deixaria imediatamente de ser um filósofo (ainda que possa lhe acontecer, em compensação, ser muito razoavelmentepersuadidodafalsidadedastesesquecritica).Esteprincípiodeincerteza,conformeseja respeitadoounão,pode,aliás,servirdecritérioparadiferenciarverdadeirosefalsosfilósofos:um grandepensadorésempremuitoreservadoquantoaovalordasverdadesquesugere,enquantoqueum filósofo medíocre pode ser reconhecido, entre outras coisas, pelo fato de que permanece sempre persuadidodaverdadedasinépciasqueenuncia. Pode-se naturalmente perguntar em que consiste o interesse de uma verdade filosófica necessariamentedestinadaàdúvidaeàincerteza,econsequentementeprivadadetodososatributos tradicionaisdaverdade.Deve-seobservaraqui,antesdetudo,queointeressedeumaideiajamaisse confundiucomoconhecimentosegurodesuaverdade,domesmomodoqueointeressedeumfatonãose confunde como conhecimento de sua natureza. Assim, o fato da sexualidade, e o reconhecimento universaldeseuinteresse,sempreseacomodousemproblemascomseucaráteraltamenteobscuroe incompreensível,dequetestemunham,comtodasinceridade,osquemaistentarampenetraremseus mistérios,comoFreud,GeorgesBataille,LacaneantesdelesSchopenhauer.Deondesepodejustamente deduzirque,comotodaverdadeprofunda,todarealidadeinteressanteéfundamentalmenteambígua,para nãodizerparadoxal:sendoaomesmotemporeconhecidaportodomundoedesconhecidadecadaumem particular.Masointeresseprincipaldeumaverdadefilosóficaconsisteemsuavirtudenegativa,quero dizer,emseupoderdedissiparideiasmuitomaisfalsasdoqueaverdadequeelaenunciaacontrario. Virtudecríticaque,senãoenunciaporsi-mesmanenhumaverdadeclara,consegueaomenosdenunciar umgrandenúmerodeideiastidasabusivamenteporverdadeiraseevidentes.Aqualidadedasverdades filosóficasémaisoumenoscomoadasesponjasqueseutilizamnoquadro-negroeàsquaisnãosepede nada mais' do que conseguir apagar bem. Emoutras palavras, uma verdade filosófica é de ordem essencialmentehigiênica:elanãofornecenenhumacertezamasprotegeoorganismomentalcontrao conjuntodegermesportadoresdeilusãoedeloucura.Eporoutroladoestaincertezamesma,inerenteàs verdadesfilosóficas,quefaz-sequiserem-suafraqueza,tambémfazsuaforça.Otrabalhodadúvidasó possui,naverdade,podersobreoquesefazpassarporcertoeseguro;emcompensação,étotalmente ineficazcontraoqueseapresenta,porsimesmo,comoincertoeduvidoso.Poisumaverdadeincertaé tambémenecessariamenteumaverdadeirrefutável:adúvidanãopodendonadacontraadúvida.Eispor queMontaigneescreve,compertinência,napassagemcitadaanteriormente,queoprópriodetodagrande “invenção”filosóficaé“manter-secontraasoposiçõescontrárias”. Umpensamentosólidoéefetivamenteumpensamentocapazdedefender-se,nãoapenascontratodas as “oposições” que se possa fazer a ele, mas ainda e eudiria sobretudo contra toda empresa de desnaturaçãoedeinterpretaçãoerrônea-comodizexcelentementeSamuelButleremumapassagemdeA vida e o hábito: “Se uma verdade não é bastante sólida para suportar que a desnatureme que a maltratem,elanãoédeumaespéciebemrobusta.”Aconteceomesmocomastraduçõesque,pormais detestáveisquesejamfrequentemente,sóconseguemdiminuir,masdeformaalgumaanulartotalmente,a potênciaexpressivadotextoqueelastraduzem,nocasodequeestesejadequalidade.Aliás,éosinal infáliveldaqualidadedeumtextoresistirsempre,aomenosparcialmente,àprovadatradução-traição. Observareidepassagemqueocaráterincertodasmaisprofundasverdadesfilosóficaspermite explicarofato,aparentementeparadoxaleenigmático,queproposiçõesformalmentecontráriasemesmo contraditóriaspossamserconsideradasigualmentepertinentes.Nadamaisjusto,porexemplo,doqueo quedizemrespectivamentedoamorPlatãoemObanqueteeLucrécionoDererumnatura-mastambém

nadamaisdiametralmenteoposto.Estacoexistênciapacíficadeverdadescontráriasexplica-se,nãopelo fantasmahegelianodeumsaberabsolutoreconciliandofinalmenteoconjuntodetodososenunciados filosóficos,maspelocaráterincertodecadaumdessesenunciados.Consideradascomodefinitivamente adquiridas,asverdadesfilosóficasexcluem-senecessariamentequandonãofalamamesmacoisa.Em compensação,consideradascomosempreduvidosaseaproximativas,toleram-sereciprocamente.De resto,nãohánenhumarazãodeinterpretarasdivergênciasdedoutrinaemtermosdeoposição,dejulgar queumaideiaécontraditóriaemrelaçãoaoutra,enquantoqueelaésomentediferentedela.Nietzsche observa,noiníciodeAlémdobemedomal,queapassagemnecessáriadaideiadediferençaàideiade contradiçãoconstituiumdosprincipaisdogmasdailusão:“Acrençafundamentaldosmetafísicoséa crençanaoposiçãodosvalores.Nemsequeraosmaisprudentesdentreelesocorreuduvidarjáaquino limiar,ondenoentantoeramaisnecessário.( )Seriaatémesmopossível( )queoqueconstituio valordaquelasboaseveneradascoisasconsistisseprecisamentenofatodeestarem,damaneiramais insidiosa, aparentadas, misturadas, confundidas comaquelas coisas ruins, aparentemente opostas, e talvezmesmoemlhesseremiguaisemessência 8 ”. Voltandoaofatodequeaverdadefilosóficasótemvalornamedidaemqueéincertaenãopossui definitivamenteoutravirtudeindiscutívelanãoseravirtudemedicinal,invocareibrevementeocasodo materialismodeEpicuroedeLucrécio.Eevidenteque,comefeito-eénistoqueadoutrinaepicuristaé filosoficamenteexemplar-,estematerialismoé,aomesmotempo,insustentávelesalutar:insustentável quantoàsuaverdadeprópria,salutarquantoàsomadeerrosedeabsurdosquerevoga.Asduasmáximas fundamentaisdoepicurismopodemaparecer,comjustarazão,comopensamentosparticularmentecurtos epobres.Assimilaraverdadeàexistênciamaterial,obemàexperiênciadoprazer,equivalecertamente afrustrartodaexpectativadeelucidaçãoemprofundidadeealimitar-se,quantoaessesdoispontos,ao maisminimalistadosdiscursos.Mas,poroutrolado,deve-seobservarqueatentativadeassimilara verdadeaoutracoisaquenãoamatéria,obemaoutracoisaquenãooprazer,levageralmentea enunciadoseles-mesmosmuitomaissuspeitoseabsurdosqueasfórmulasepicuristas.Enquantofilosofia crítica, o materialismo constitui, talvez, o pensamento mais elevado que existe; enquanto filosofia “verdadeira”,emcompensação,éomaistrivialdospensamentos.ComoobservaNietzscheemuma

passagemdoaforismo9deAlémdobemedomal,quefazecodiretoàspalavrasdeMontaignecitadas

anteriormente,umafilosofiadeixadeserdignadecredibilidadeapartirdomomentoemquecomeçaa acreditarnelamesma.Oquefazaforçadafilosofiaepicurista,comoaliásdetodagrandefilosofia,nãoé chegaraumaverdadeprofundaecerta,mas,sepossodizerassim,conseguirlimitar-seaomenordos erros.Quantoamim,nãovejonenhumarazãoparanãosubscreveradeclaraçãodeféenunciadaporum personagemdoClubedosloucosdeG.K.Chesterton(emboraoautortenhatidoocuidadoderecusá-la logo após havê-la escrito). “Se devo escolher entre ser materialista e ser insensato, escolho o materialismo.”Edireimais,queseumaverdadeduvidosaépreferívelaumaverdadeaparentemente segura,étambémporqueestaúltimatendemaisdoqueaoutraparaessaloucuraqueconsisteemquerer obterumassentimentouniversal,seforprecisoaferroefogo.Poisumaverdadeduvidosaprescinde facilmentedetodaconfirmaçãoouinfirmaçãodapartedoreal,enquantoqueumaverdadetidaporcerta encontra-senecessariamenteexpostaaodesejoardenteeobsessivodeumaverificaçãopelosfatos,de umaconfrontaçãovitoriosacomaprovadarealidade,-razãopelaqualohomemdadúvidadeixacada umdescansarempaz,enquantoqueohomemdacertezanãopáraenquantonãobateunaportadetodoo mundo. A virtude anexa de um discurso minimalista e incerto é, assim, ser inofensivo e pouco comprometedor,nãopoderprestarserviçoanenhumacausa,enquantoqueumdiscursoindubitávelpode sersempresuspeitodeanunciaralgumacruzada.Pararesumir,a“segurança”deumdiscursofilosófico, nosdoissentidosdotermoevocadosacima,resideemseucaráteraomesmotempocríticoeinutilizável. Seaaptidãoprincipaldafilosofiaconsisteantesemdenunciarerrosdequeemenunciarverdades, resultadessefato,aparentementeparadoxalmasnoentantoverdadeiro,queafunçãomaiordafilosofiaé

menosaprenderdoquedesaprenderapensar.Abesteira,aliás,forneceumasólidacontraprovadesse aparente paradoxo, uma vez que esta não consiste, contrariamente ao que se pensa geralmente e erroneamente,emumapreguiçadeespíritomassimemumexcessodesordenadodeatividadeintelectual, dequetestemunhamporexemploBouvardePécuchet,heróismodernoseindiscutíveisdatolice.O interessedirigidoàs“coisasdainteligência”,comoéditoemLaBelleHélènedeOffenbach,émais frequentementeamarcadeumespíritomedíocredoqueadeumespíritorefletido;eécertamentecom justa razão, e não por umefeito de coquetismo, que o mais penetrante dos pensadores franceses, Montaigne,declaraterespíritolento. Sabe-sequeahabitualsuperestimaçãodasfunçõesintelectuaisétalqueoshomens,quetememna maioriaeemsualoucuraserconsideradoscomoimpotentesemmatériasexual,temempelomenosna mesmaproporçãoseremtidosporimbecis:comosefosseperdertodaahonraever-sequaseriscadodo mapa da existência confessar um defeito de inteligência. Descartes ilustra muito bem, embora aparentementesemvernissomalícia,estareivindicaçãouniversaldeinteligência,tãoobstinadaquanto absurda,emtodaprimeirafrasedoDiscursodométodo:“Obomsensoéacoisadomundomelhor partilhada,poiscadaqualpensaestartãobemprovidodele,quemesmoosquesãomaisdifíceisde contentaremqualqueroutracoisanãocostumamdesejartê-lomaisdoqueotêm.”Quandoamim, suspeitomuitodequeestainflaçãodevalorespuramenteintelectuais,manifestaemtodasasempresasde separaçãoradicaldocorpoedoespírito,sejaprincipalmenteatribuívelaumfantasmamegalómano resultantedapreocupação-dequehojeospsiquiatrasfazemocentronervosodaneuroseobsessiva-de cortaraspontesentreanaturezadohomemeanaturezadetodaoutracoisa,sejaanimaloumatéria inanimada. Fantasma de novo-rico, diria mesmo: de alguém que por sua inteligência elevou-se efetivamentemuitoacimadesuaorigemanimalmasqueatualmenteesforça-seporfazeresquecersua verdadeira ascendência. Observarei tambémque o absurdo inerente a esta vontade de inteligência consiste,antesdetudo,ematribuirmaisvaloràrepresentaçãodascoisasdoqueàexperimentação dessasmesmascoisas,àprovadesuaintensidadetrágicaejubilosa:poisétrocarumavantagemporuma esperançavãjulgar,assim,queoconhecimentoquesepodeterdarealidadeultrapassaariquezada própriarealidade.Existeassimumaespéciedenumerososfalsossábiosquesóalcançamapazdaalma porumtipodeanestesiageralcomrelaçãoàrealidade,porumainsensibilidadeaorealqueostorna incapazestantodetemerquantodedesejar:talcomo,porexemplo,PaulValéry,quealiásoadmiteele mesmo:“Confessoquefizdomeuespíritoumídolomasnãoencontreioutro.”Nãosepoderiadizer melhorqueointeressevoltadounicamenteparaainteligênciaéatraduçãodeumaincapacidadede interessar-sepeloquequerqueseja-incapacidadedequeBouvardePécuchetfazem,antesdeValéry,a duraexperiência,própriaparalembrar,repito,oelosutilmastenazqueaproxima,quersequeiraounão, ainteligênciapuradabesteiraabsoluta.UmpersonagemdeHergé,SéraphinLampion,queencarnaa vulgaridade total, declara emAs jóias da Castafiore: “Veja bem, não sou contra a música, mas, francamente,nestemomento,dedia,prefiroumbomcopodecerveja.”Noentanto,éimpossívelnãofazer nossa uma tal fórmula (contanto, naturalmente, que substituamos a palavra “música” pela palavra “inteligência”),exatamentecomoateriacertamenteadotadoMontaignequedeclaranaApologia de RaimondSebond,apropósitodos“homensdeciência”: “Eutambémosapreciomuito,masnãoos adoro.” Resta-medizeremqueoprincípiodeincertezaseligaàcrueldade,-masarespostaaestaquestãoé evidente:seaincertezaécruel,équeanecessidadedecertezaéprementeeaparentementeinextirpável namaioriadoshomens.Tocamosaquiemumpontobastantemisteriosoe,emtodocaso,aindanão elucidadodanaturezahumana:aintolerânciaàincerteza,intolerânciatamanhaquelevamuitoshomensa sofrerospioresemaisreaismalesemtrocadaesperança,mesmoquevaga,deumpouquinhodecerteza. Assimomártir,incapazqueédeestabelecereatémesmodedefiniraverdadedequesepretendecerto, decide-seatestemunhá-la,comoindicaaetimologiadapalavramártir,pelaexibiçãodeseusofrimento:

“Sofro,logotenhorazão“-comoseaprovadosofrimentobastasseparavalidaropensamento,ou melhor,aausênciadepensamento,emnomedaqualomártir-testemunhasedizdispostoasofrere morrer.Estaconfusãodacausaàqualelesesacrificaexplicaacidentalmenteocarátersempreinsaciável doamantedesofrimento(enquantoquesucedeaoamantedeprazersersatisfeito):jáquenenhumacausa estáverdadeiramentevisível,nenhumsofrimentoconseguiráverdadeiramenteestabelecê-la,pormaisque oatinjademodoforteeduradouro.Daíaescaladadosuplício,queA.AymardeJ.Auboyerevocamde maneiradivertida:“Háumapsicologiadomartírioeelaéeterna.( )Assimhouveatévoluntáriosde martírio,comoessescristãosdaÁsia,que,noreinadodeCômodo,apresentaram-setãonumerososao procônsul queeste,apóshaverfeitoalgumasrecriminações,repeliu-osconvidando-osarecorreràs cordaseaosprecipícios” 9 .Sósepodelouvaroliberalismodesteprocônsulque,naincapacidadeemque se encontra de satisfazer todo o mundo, consente entretanto, por caridade e na medida de suas possibilidades,-emsupliciarpelosmenosalgunsdossuplicantes. Omaisdesconcertantedessegostopelacertezaéseucaráterabstrato,formal,insensívelaoque existerealmenteassimcomoaoquepodeserefetivamentedolorosoougratificante.Nietzscheopõe justamenteàriquezadarealidade,ocaráter“pobre”e“vazio”dacerteza:“Dêem-meumaúnicacerteza, ódeuses!”,éaoraçãodeParmênides,“mesmoquenomardaincertezanãopassedeumasimples prancha,suficientementelargaparanelaestardeitado!Guardemparavocêstudooqueestáemdevir,o queéabundante,colorido,oqueestáemflorescência,asformasenganadoras,encantadoras,vivas,e dêem-meapenasapobrecertezainteiramentevazia!” 10 Poucoimporta,emsuma,queumacertezaensine sobreoquequerquesejadereal:pedem-lheapenasparasercerta.Eisporqueopartidáriofanáticode umacausaqualquerpodeserreconhecidoprincipalmenteporser,nofundo,totalmenteindiferenteaesta causaesomentefascinadopelofatodequeestacausalheparece,emumdadomomento,capazdesertida porcerta.UmmarxistaconvictoprestapoucaatençãoàrealidadehistóricaepsicológicadeStálin:oque contaparaeleséaideiapuramenteabstrataqueomarxismoéverdadeiroouqueStálintemrazão,ideias totalmenteindependentesdoqueescreveMarxoudoquefazStálin.Aadoraçãodeumaverdadeé,assim, sempreacompanhadadeumaindiferençacomrelaçãoaoconteúdodestaverdademesma.Ocorre,às vezes, a tais fanáticos, quando acabampor duvidar de seuídolo oude seus ídolos sucessivos, só encontrarapaziguamentoemumadevoçãoaumacausahumildemasindiscutível,porexemploaverdade aritmética.Aquelequeacreditouemtudomastambémduvidoudetudopodemuitobemfazer-sepassar, emfimdecarreira,porumexcelenteperito-contador:oestabelecimentodeadiçõesjustasedecontas exatasoferecendo-lheenfimaocasiãodeumindubitável einterminável gozodoverdadeiro.Assim Bouvard e Pécuchet, depois de teremexperimentado de tudo, deviamvoltar, segundo o projeto de Flaubert,àsuaprofissãoinicialdecopistasescrupulososeirrepreensíveis. Oprazerdeprejudicarosseuspróximos,frequentementesentidocomoprioritáriocomrelaçãoao dedarprazerasi-mesmo,procedetalvezdestamesmaidolatriadacerteza:dosentimentoconfusodeque ooutrosentirá,comcerteza,desprazer,enquantoquenãoseestásemprecertodoprazerquesepoderia sentirrelativamenteasi-mesmo. Aindiferença do fanático comrelação a seupróprio fanatismo explica o fato, aparentemente paradoxal,dequeaobstinaçãoemdefenderumacausaésempreacompanhadadeumatotalversatilidade, quefazpartedanaturezadacredulidadehumanasernecessariamentecaprichosaemutável.Pois,em suma,éumaúnicaemesmacoisasercréduloeincrédulo,fanáticoeversátil:umavezqueoatodefésó é,namaioriadasvezes,umacompensaçãoprovisóriadaincapacidadedecrerequeéassimimpossível distinguirrealmenteocrédulodofanáticoouofanáticodoversátil.Emsuma,todofanáticoéumcético infelizeenvergonhadodesê-lo.Ouainda:ohomemégeralmentecréduloporqueincrédulo,fanático porqueversátil.Spinoza,depoisdeMaquiaveleHobbes,observabemestevínculoentreacredulidadee aincapacidadedecrerverdadeiramente,incapacidadequelevaocréduloapassarperpetuamentedeum objetodecrençaaoutro,semjamaisconseguirsatisfazer-se:“Doqueacabamosdedizersobreacausa 11

dasuperstição,segue-seclaramentequetodososhomenssãopornaturezapropensosaela.( )Segue-se, alémdisso, que a superstição deve ser extremamente variada e inconstante, como são variadas e inconstantes todas as ilusões da alma humana e as loucuras emque ela se deixa arrastar; e que, finalmente,sósemantémpelaesperança,peloódio,pelairaepelafraude,jáquenãotemsuaorigemna Razão,masexclusivamentenaPaixãomaispoderosa.Daíque,quantomaisfáciléqueoshomenssejam vítimasdequalquertipodesuperstição,tantomaisdifíciléconseguirquepersistamnamesma;ainda mais,comoovulgoésempreigualmentemiserável,empartealgumaachadescansoduradouro,esóo satisfazoqueénovoeaindanãooenganou” 12 . Observarei, para terminar, que o gosto da certeza é frequentemente associado a umgosto da servidão.Estegostodaservidão,muitoestranhomas tambémuniversalmenteobservável desdeque existemhomensequeelespensamdemasiado,diriaparodiandoLaBruyère,explica-seprovavelmente menospor.umapropensãoincompreensívelàservidãoemsimesmadoquepelaesperançadoganhode umpoucodecertezaobtidoemtrocadeumaconfissãodesubmissãoaoquedeclaraserfiadorda verdade(semquecomisso,evidentemente,revelenadadela).Incapazesdeconsiderarcertooquequer queseja,masigualmenteincapazesdeacomodar-secomestaincerteza,oshomenspreferem,namaioria dasvezes,confiaremummestrequeafirmaserdepositáriodaverdadeàqualelesprópriosnãotêm acesso:taiscomoMoisésfaceaoshebreus,JacquesLacanfaceaseusfiéis,opretensofilhodeguardião

deprisãofaceaosprisioneiros,noaforismo84doViajanteesuasombradeNietzsche,ouaindaum

outroguardião,oquevigiaaleiemumaparábolacélebredeKafkaeaceitatodosasgorjetassem,com

isso,permitiraquemquerquesejadescobrirseusegredo,faceao“homemdocampo”.Emvezde

assumirsuaignorância,elespreferemtrocarsualiberdadepelailusãodequeexistealguémquepensa

porelesesabeoqueelesnãoconseguemsaber.Aadesãoaumacausa,ofanatismosobtodasassuas

formas,éassimmenosaobradapessoaqueaderedoquedapessoaintermediáriaefantasmáticaem

nomedaqualseoperaaaderência.Ofanáticoele-mesmonãocrêemnada;emcompensação,crênaquele

ounaquelaosquais,elepensaconfusamentequecrêememalgumacoisa.Nãosoueuquemcreio,éEle;e

estaéarazãoporquecreioNele,emboranãosaibanadaDelenemdoqueElesabe.Estacrençapor

procuraçãodizmuitosobreanaturezadacredulidadehumana:lembrando,casofossenecessário,que

estanãoresultadeumapropensãonaturalacrer,mas,muitoaocontrário,deumatotaleintolerável

incapacidadepessoaldecrernoquequerqueseja.

3.POST-SCRIPTUM

Acrueldade da realidade é ilustrada de maneira particularmente espetacular e significativa na crueldadedoamor-temaconhecidoejásobejamenteanalisado,éverdade,maséoprivilégiodas questõesprofundaspermitirsempreumaanáliseparcialmenterenovada,comoéoprivilégiodetoda grandeobradearte,musicalporexemplo,oferecersemprematériaparaumainterpretaçãoinéditaque revelaaspectosaindainauditos,erenovaassimperpetuamenteseuinteresse.Sempretender,noentanto, umaambiçãotãovastaetemerária,limitar-me-eiarelacionarotemadacrueldadedoamorcomoda crueldadeemgeral,amostrarqueaprimeiraéapenasumavariante-ou“variaçãoobrigatória”,para permanecernametáforamusical-dasegunda. Entendoaquiotermo“amor”emseusentidomaisextenso:amoraumaoutrapessoa,semdúvida, mastambémetalvezprimeiramenteamoràvida(ouàrealidade),eenfimamorasi-mesmo-paranão falardoamoraDeusquereuniriaostrêscasosdeamorcitadosanteriormente(nahipótesedaexistência deDeus),nemdoamoraseupróximo(amorabstratoeirreal-emborafrequentementereveladornegativo deumódiomuitoreal-queexcluopornãohaverjamaisencontradotraçoseuemoutrolugaralémdos romancesdeTolstoienoconjuntodaliteraturaedificante).Poderia-seespantardeverpreferiroamoràs coisasouoamorasi-mesmoaoamoraumapessoaamadaemqueconsisteaexpressãomaisagudado amorsegundoosensocomum,quealiásteminteirarazãodepensarassim.Maséprecisodistinguirentre oamorquefazmaismal-oumaisbem-nomomento(amoraumapessoa),eoamorqueproduzmaismal e dificuldades como tempo (amor a si, amor às coisas). Se é verdade que o amor às coisas é subordinadoaoamoraumapessoa,tambémé-eatémais-verdadequeoamoraumapessoa,porvia não de reciprocidade mas de superioridade hierárquica, é subordinado ao amor às coisas. Vigny naturalmentetemrazãodeescrever,emdoisversoscélebres:Oquemeimportaodia?oquemeimporta omundo?Direiqueelessãobelosquandoteusolhosotiveremdito.Masafórmulainversaseriade umapertinênciaaindasuperior:sóachareiteusolhosbelosse,esomentese,tiverprimeiroachadoodia eomundobelos.Emoutrostermos:nadaécertamentetãoimportanteetãogratiflcante,navida,comoo amornosentidocorrentedapalavra-nada,anãoseravidaela-mesma.ÉoqueexprimebemSpinoza, quandodefineoamorcomo“aalegriaacompanhadadaideiadeumacausaexterior”.Oamoréapenas umavariante-varianteprincipal,éclaro-doamoràvida. Precisareitambém,casosejanecessário,queacrueldadedoamordequefalonãotemrelaçãocom acrueldadedoerotismotalcomoaentendeGeorgesBataille,quedetectanoamorcarnal(mastambémé necessariamenteumpoucomental)oprojetocrueldeumadestruiçãofísicadoseramado,deumatentado perpetrado contra seu “indivíduo”, ou seja, uma vontade (de inspiração manifestamente Schopenhaueriana)desuprimirocaráterindividualparareconduzi-loàforçaàespéciedaqualéapenas umcasodefigura,procedendoaumaespéciededesconstruçãoeróticaquecomeçacomumbeijo, primeiramanifestaçãododesejodemorder,eacaba-seoitinerárioamorosovaiatéseutermo-comoo esquartejamentoeoesfacelamento.Nãoéolugaraquideinterrogar-sesobreajustezaouafalsidade destatese(quetem,meparece,umpoucodasduas),massomentededizerqueestanãoentradiretamente nomeutema. Voltando à crueldade do amor (e à sua relação com a crueldade da realidade), observarei primeiramentequeessacrueldadeépercebidafacilmenteemtodososníveiseemtodasasacepçõesda palavra“amor”,sejaoamorasi,oamoràscoisasouoamoraumapessoa.Poisoparadoxoéque nenhumdessesobjetosdeamoréverdadeiramenteamável,seconsideradofriamente,equeassimtodo amoroso,porhaverfeitosempreenecessariamenteumamáescolha,condena-seavenerarcomomelhoro que,narealidade,éopioreque,aliás,elenãotardaareconhecerele-mesmocomotal:daísuatortura. Odietamo,dizopoetaCatulo,Odietamo.Quareidfaciam,fortasserequiris./Nescio,sedfierisentio

etexcrucior:“Detestoeamoaomesmotempo.Comoépossível?perguntarástalvez.Ignoro-o,massei queassiméequesoucrucificadoporisso.”Estaconstataçãocruelvaleparatodasasformasdeamor.Eu me amo e me detesto: pois só consisto emumprojeto, maduramente e sabiamente programado, de desapariçãototal,emummortonãoindultadomasquesebeneficiadeumbrevesursis;eisporqueoeu, comodizPascal,éodioso.Amoascoisasdomundoeasdetesto,porestamesmarazãoqueelassão,em últimaanálise,melhorcontempladasdoqueeuemmatériadeduração.Amoumapessoaeadetesto:pois elaestáinevitavelmentedestinadaanãomeamarmais(casomaiscruel,casomaisvexatórioparao amor-próprio),amenosqueacabepornãomaisamá-la-casomenosduromastambémtalvezomais sinistro,poismefazsuspeitarqueaorigemdetodadecepçãoresideemmim-mesmo(enãonosoutros), emminhaprópriaincapacidadedepermanecereu-mesmo(defazerdurarmeudesejo,deguardardurante muitotempoumamesmadireçãoeatédeseguirumaideia).Chamfortresumiuemumabrevefórmulaos termosdestaalternativasemesperança:“Afelicidadenãoéumacoisafácil;émuitodifícilencontrá-la emnós,eimpossívelencontrá-laalhures.” Acrueldade do amor (como a da realidade) reside nesse paradoxo ounessa contradição que consisteemamarsemamar,emafirmarcomoduráveloqueéefêmero-paradoxocujaformamais simplesseriadizerquealgo,aomesmotempo,existeenãoexiste.Poisfazpartedaessênciadoamor pretenderamarsempre,masdesuarealidadeamarapenasduranteumcertotempo.Detalmodoquea verdadedoamornãocombinacomaexperiênciadoamor.Eisporqueoapaziguamentodeumadorde amorsignificatambémumcrescimentodestamesmador,comoobservaRousseauemumapassagemda NovaHeloisa(umamigodeSaint-Preuxpensaacalmaraeste,mergulhadoemumaprofundaaflição, observando-lhequetodadordeamorenfraquececomotempo;aoqueSaint-Preuxreplicaimediatamente ecommuitajustezaqueaumentasuadorimaginarqueumdiaelaacabará):poisofimdoamoré precisamenteoquehádemaiscruelnoamor.Esquecersuadorequivale,porconseguinte,areavivaro brilhodesuacausa,aqualcertamenteconsisteocasionalmentenadificuldadedeamarumapessoaede seramadoporela,masessencialmentenaimpossibilidadedeamaroquequerqueseja.Ofimdaspenas, emmatériadeamorsóéassimocomeçodoverdadeirocastigo. Seoamorpôdeserditobruxo,nosentidodeencantador,comosugereotítulodeumaobracélebre deManueldeFalia,équeelerealiza,oumelhorparecerealizar,umaproezaimpossível:transformar nadaemalgo,assimcomoalias,porviainversa,transformarestemesmoalgoemnada.Platãoteveuma visão justa, em O banquete, ligando o problema do amor ontológico, a embriaguez amorosa ao sentimentoembriagantedeumcontatofugidiocomoser.Oamor,talcomoJano,éummágicoderosto duploecontrário:sabefazersurgirumobjetodonada,porumpassedemagiabranca,mastambémsabe fazê-lodesaparecer,comoporencanto,porumpassedemagianegra.ManueldeFaliaobservabemesta magiaemumapassagemdeElAmorBrujo:“Exatamentecomoofogo-fátuo,oamorsedesvanece’’(se desvanece,dizotextoespanholdeMartinezSierra:some,evapora-se,transforma-sesubitamenteem nada).OSonhodeumanoitedeverãodeShakespeare,AduplainconstânciadeMarivaux,oCosifan tuttedeMozartsãooutrasilustraçõesnotáveisdessaevanescênciacrueldoamor,deseuduplopoderde apareceredesaparecer.Mas,repito,estaambiguidadenãoéoutracoisasenãoaambiguidadeinerentea todaespéciederealidade. Terminareicomumaobservaçãoquedizrespeitoaoamor(nosentidousual)masquenadatemaver comatesegeraldestelivro.Oamoré,semdúvida,aexperiênciamaisgratificantequeexiste;entretanto, nãoéjamais,eistocontrariamenteaumpreconceitotenaz,aocasiãodeumaverdadeira“descoberta”. Querodizerqueneleexperimenta-sealgodequesepossuíadesdesempreanoção-oqueexplicaofato aparentementeparadoxalquetantospensadorestenhampodidofalarprofundamentedoamor(taiscomo Schopenhauer,KierkegaardouNietzsche)semhaverconhecidosuaexperiênciareal.Acontececomo amoromesmodoquecomoscemtáleresevocadosporKantnaCríticadarazãopura:osqueestãono meubolsotêmainestimávelvantagemdeexistiredesermeus,masnãodiferemdemodoalgumdaideia

queeufaziapreviamentedessesmesmoscemtáleres.ÉtambémumpoucooqueexprimeFreudquando

observaqueapretensadescobertadoamor,levandoemcontaasemelhançaentreoamoradultoeoamor

infantilàmãe,nãoéoutracoisasenãoaocasiãodeumreencontro.

APÊNDICES

1.AINOBSERVÂNCIADOREAL

NumacenadeumfilmedeBusterKeaton,Astrêsidades,vê-seumpersonagemsingular,meio

astrólogomeiometereologista,mergulhadoemcálculoscomplicadosdestinadosadeterminarotempo

quefazdoladodefora.Havendo-sedecididoporum“bomfixo”,gravaainformaçãonumatabuleta-

presume-se que a cena tempor cenário a Roma antiga - e sai para afixar seu aviso. Mas volta subitamente,surpreendidoporumatempestadedeneve,egravaumavisode“forteneve”quelogoafixa, destavezsemnenhumcálculoprévio.Todoomundorinaturalmentedoprocedimentocharlatanesco. Mas,pensandobem,esteastrólogomeparecedarprovas,nacircunstância,deumanotávelliberdadede espírito:fazendoassimofatopassarnafrentedesuaopiniãoeistosemhesitarumsegundo. Muitosoutros,paranãodizeramaioria,colocadosanteumdilemacomparável,escolheriamaoutra via:preferindoaopiniãoaofato.Poisseháumafaculdadehumanaquemereceatençãoeassemelha-se aoprodígio,érealmenteessaaptidão,particularaohomem,deresistiratodainformaçãoexteriorquando estanãoconcordacomaordemdaexpectativaedodesejo,deignorá-laseforprecisoeaseubel-prazer; admitindoapossibilidadedeoporaela,searealidadeinsiste,umarecusadepercepçãoqueinterrompe todacontrovérsiaeencerraodebate,naturalmenteàscustasdoreal.Estafaculdadederesistênciaà informação temalgo de fascinante e de mágico, nos limites do inacreditável e do sobrenatural: é impossíveldeconcebercomoseutilizaoaparelhoperceptivoparanãoperceber,oolhoparanãover,o ouvidoparanãoouvir.Noentanto,essafaculdade,oumelhor,essaantifaculdade,existe;elaémesmodas maisbanaisequalquerumpodefazersuaobservaçãocotidiana. Proustdescrevebemavirtudedestafaculdadeanti-perceptivanocomeçodaRecherchequando analisaossentimentosereaçõesdatia-avódeCombraycomrelaçãoaSwann.Sabe-sequeessatia-avó serecusaaconceberqueSwann,amigodafamília,viveporoutroladoemummundodealtonívelsocial eartístico,semrelaçãocomasociedadedeCombray.Masosfatossãoinsistenteseparecemdever chamá-la o tempo todo ao sentimento da realidade, tão numerosos e eloquentes são os sinais que demonstramaposiçãorealdeSwann.Noentanto,atia-avójamaissedeixaráconvencerporeles;eé extraordinárioobservarcomquearte,comquegênioquase,elaperverteosentidodasinformaçõesque lhechegamdiaapósdiaeconseguedevolvê-lasemdetrimentodeSwann.Háaquiumjogodeenviosde mensagemededevoluçõesirônicasaoremetente.Mensagem:comunica-seàtia-avóqueSwannpossui umacélebrecoleçãodequadros.Réplicadatia-avóendereçando-seaSwann:“Masosenhoraomenos entendedessascoisas?Pergunto-lheissonoseuinteresse,poisoscomercianteslhedevemimpingir muitasdrogas.”Outramensagem:diz-sequeSwannjantou“nacasadeumaprincesa”.Réplica:“Sim, umaprincesadodemimonde!”Outramensagem:diz-sequeSwannéíntimodeMme.deVilleparisis. Réplicadatia-avóàsuairmãquelheanunciaagrandenotícia:“ComopodeelaconhecerSwann?Uma pessoaquetudiziasparentadomarechaldeMac-Mahon!”Estaúltimaréplicadáumaboamedidada solidezdomuroqueprotegeatia-avódetodoreconhecimentodoestadosocialdeSwann:implicando quetodapessoaqueseseriaforçadaaconfessarqueSwannfrequentaériscada,deumasóvez,dalista dograndmonde.AntesqueSwanntenhaavançadoumpassonaopiniãodatia-avó,estateráreduzidoà condiçãodeplebeutodaaaristocraciaeuropéia.EstegolpeeraparaMme.deVilleparisis;opróximo atingiráopríncipedeGales,ocondedeParis,eporquenão,sefornecessário,omarechalMac-Mahon empessoa.Milagredafaculdadeantiperceptiva!Poderásermostradoexatamentetudodarealidadede Swannàtia-avó;esta,noentanto,estarásempresegura,graçasaelaoupor causadela,dejamais conhecernada.RenéGirardcomentaaquijustamente,emMensongeromantiqueetvéritéromanesque:

“Averdade,comoumamoscaimportuna,voltaotempotodocolocando-sesobreonarizdatia-avó,mas bastaumamãoespalmadaparaenxotá-la.”Dir-se-iaqueéempurradoumferrolhoquebloqueiatoda informação e opõe vitoriosamente uma ausência de percepção às evidências mais tangíveis e mais

manifestas.Ouaindaquedesceuumacortinadeferroqueconfundearealidade,exatamentecomoo

fechamentosúbitodeummuseuoudeumbotequimexpulsasemconsideraçãoovisitanteretardatário:

“Fechou, terminou, vá embora.” Querendo fazer valer seus direitos legítimos de ser percebida, a realidadeincorrianomesmofracassoqueovisitantequepretendiaforçaraentradadomuseuoudo botequim. “Já lhe disse que estava fechado.” Pode-se encontrar umexemplo impressionante desse “fechamento”dapercepçãonofimdofilmequeJosephMakiéwicztiroudapeçadeTennesseeWilliams, Derepentenoúltimoverão.Nele,MadameVenablecombatelongamenteaversãoverídicadosfatosque lheexpõemsuasobrinhaeummédico.Obrigadanofimaosilêncioanteaevidência,eladespedetodo mundoeretornaaoandarsuperiordesuacasadecampo,desaparecendoemumelevadorinternoquea isoladomundoeexpulsainapelavelmentetantoseusinterlocutoresquantoarealidadeemgeral.Tartufo usouomesmoexpediente,interrompendoumvis-à-visquesetornavaincômodo:

Senhor,sãotrêsemeia;

Umexercíciodevotoobriga-meairaomeuquarto,

Desculpe-meseodeixo.

Umextraordinárioferrolhodesegurançaprivaportantooshomens,emcertascircunstâncias,do exercíciohabitualdesuafaculdadeperceptiva(por“homens”entendonaturalmentetodososhomens, atribuindoas diferenças de inteligência e de acuidade perceptiva nãoà presença ouà ausência do ferrolho,masaofatodequeoferrolhosejaempurradomaisoumenoslonge).Sabe-sequeémuitodifícil precisaranaturezadesseferrolhoesuascondiçõesdefuncionamento;emeatreveriaadizer,exagerando, que aquele que conhecesse a fundo o segredo dessa fechadura conheceria o homem por inteiro. Observareiapenas,masissoéapenasumaevidência,queesseferrolhoconsistenadefiniçãodeumponto alémdoqualnãoseperceberánada;ouainda,eistovemadarnomesmo,deumaverdadesobreaqual decidiu-se uma vezpor todas que nãose falará mais.Ele marca assimos limites de umterritório inviolável(talcomojustamenteoCombraydeProust).Observareitambémqueesteferrolhoreveste-se sempredeumcaráterantecipado:eleéumadenegaçãopréviadetodainvestigaçãocríticaoudescoberta ulterior,umaespéciedeconjuraçãoalucinatóriadofuturo,istoé,doqueépornaturezaeminentemente imprevisível e incerto - ainda é preciso nuançar aqui e acrescentar logo que esta conjuração só é alucinatóriapelametade,umavezqueserevelaoperanteparaaexperiência,aomenosemumcerto sentido.Eleéportantomenosumaproteçãocontraperigospresentesdoqueuma“pré-caução”,ouseja, uma proteção antecipada, uma refutação a priori dos ataques futuros - refutação necessariamente contraditória,jáqueosperigosvindouroseasmedidasdeproteçãoadequadassóserãoexatamente conhecidos mais tarde. Assim Abel Gance pretendia recusar antecipamente toda objeção futura endereçadaaseufilmeNapoleão,emboraesteaindanãohouvessesidofeito,declarandosolenementeao

conjuntodeseuscolaboradores,em1924:“Querosentir,contemplandovocês,umaondadeforçaque

possaderrubartodasasbarreirasdosensocrítico.”Notar-se-áaquiomecanismodoferrolho:anuncio desdeagoraqueofilmequequerorealizarétalquetodoaquelequeocriticarestaráerrado.E,seelefor criticadoposteriormente,estaráprovadosimplesmentequeGancetinharealmenterazãodeanunciar antecipadamentequeseriaerradocriticá-lo.Estápostooferrolhoqueprotegeocineastaexatamente comoprotegeatia-avódeCombray.NaantigaAtenas,oprocedimentodagraphèparanomôn,que proíbeoscidadãos,sobpenasdasmaisgravessanções,inclusiveamorte,dequestionarumaleiadotada precedentementepelaAssembléiadopovo,ofereceumexemplosimilardeferrolhoprévio. Oquehá,entretanto,demaisextraordinárionofenômenoderecusadepercepçãoéquenãoapenasa opiniãoprotegidapeloferrolhonãosejainvalidadapelasinformaçõescontraditóriaseosdesmentidos pungentes que, semparar, a realidade lhe opõe, mas ainda que ela seja, ao contrário, geralmente

confirmadaereforçadaporessesdesmentidosmesmos.Exatamentecomoossistemastornadosauto-

reguladorespelodispositivochamadofeedback,osistema“recusadepercepção”étãobemorganizado quesuasprópriasfalhas,emvezdeenfraquecê-lo,fazemrefluirparaeleumaenergiaresultantedesuas consequências importunas, de seus perpétuos desacordos com o real. As falhas que ele comete necessariamentesãoprogramadasdetalmaneiraquevêmsemcessarrealimentarafontedeerroqueas causou-detalmodoquearecusadepercepçãoéumsistemaquenãoapenasproduzerrosmasainda enriqueceeprosperaporseuintermédio.Invocareiaquiumalembrançadejuventude:adeumaestudante queseconvenceradequenossoprofessoraadoravasecretamente,apesardaspalavrassarcásticase muitasvezesbastanteofensivascomasquaisestepunhafimacadaumadesuasintervenções.Ora,cada vezquelheaconteciasofrerempúblicotalmáacolhida,nãodeixavadevirar-separanóscomarde triunfo,parecendoinvocarnossotestemunho,edizer-nos:“Estãovendobemquenãoestousonhando:ele me ama.” Poderia invocar também o célebre Boubouroche de Courteline, que um vizinho bem intencionado mas mal inspirado pretende persuadir da infidelidade de sua amante. O resultado é conhecido: Boubouroche surpreende emsua casa seu rival ocupado comAdèle, mas disso deduz rapidamenteumafidelidadedesuaamanteaindamaiordoquetudooquehaviaousadoesperar.O sistemadofeedbackfuncionouaquidemaneiraexemplar,produzindoemBoubourocheumaconvicção peremptóriacujamáximapode,grossomodo,serenunciadaassim:“Adèlenãopodemeenganar.A prova:elameengana.”Boubourochejáestavacertodisso,naturalmente;masagoratemaprovanasmãos -e,afinaldecontas,duascertezasvalemmaisdoqueuma.Oúnicoculpadonestahistóriaéovizinho denunciador,quesofreráunaseveraadmoestação.Admoestaçãomerecidaaliás:poisestedeveriasaber que toda informação contrariante introduzida emumsistema “recusa de percepção” transforma-se imediatamente em confirmação suplementar que tem por único efeito trazer, ao espírito do não- percebedor,apequenagotadecertezaqueaindalhefaltava. OextraordináriopoderderesistênciaàpercepçãoquepermiteaoBoubourochedeCourtelineouà tia-avódeCombraynãoveroquesepassasobseusolhosnãopoderiaserinterpretado,contrariamente aoquesetendeafazerfrequentemente,emtermosdesimples“besteira”.Umatalcegueiraédemasiado próximadoqueseobservacotidiana-mentenasmanifestaçõesdedemênciafanáticaourancorosapara pretenderconstituirumgêneroàparte,chamadobesteira,quesedefiniriacomocegueirainocente,limpa

detodasuspeitadeparticipaçãonosgênerosvizinhosdaloucuraedoódio.Certamentepode-seedeve-

sefalardebesteiranoscasosdeBoubourocheedatia-avó;mascontantoqueseacrescentequeessa

besteiraaparece,àreflexão,comoindiscerníveldoquesepassanoscasosdeloucuraedeódio.Obom-

sensopareceopor-se,éverdade,aestamaneiradeconfundirassimmanifestaçõespsicológicasreputadas distintas. Mas é possível que o bom-senso se engane e distinga onde não há nada a distinguir:

imaginando, como diria Descartes, “distinções formais” entre objetos que nada permite distinguir realmente.Umaanáliseaprofundadaeexaustiva,talcomosópoderialevaratermooDeusdeLeibniz, conseguiriatalvezdemonstrarqueastrêsnoçõesdebesteira,demaldadeedeloucurasãotrêspalavras que designam uma mesma e única realidade psicológica. Limitar-me-ei aqui a algumas breves

observaçõesvisandosugerirafragilidadedasfronteirasqueseparamtradicionalmente,porumladoa

besteiradaloucura,poroutroabesteiradoódio.

Noqueconcerneàprimeirafronteira,entrealoucuraeabesteira,observareiprimeiramenteque

loucuraebesteirasãocomodoisaliadosnaturaisqueseprestamreciprocamenteassistênciaquandoum

perigodelineia-senohorizonte;eissoatalpontoquenãomeparecemuitopossíveladmitiraexistência

deumasem,aomesmotempo,admitiraexistênciadaoutra.Nenhumabesteirapoderia,sepossodizer

assim,funcionarporsi-mesma,comajudadesuasprópriasforças.Quandoeladecidequeoquese

ofereceàsuapercepçãoreduz-seaumarealidadeinexistente,necessitamuitodoauxíliodestamáquina

deignorarorealqueconstituiaespecialidadedaloucura.E,reciprocamente,nenhumaloucurapoderia

funcionarsemoconcursodeumacertabesteira(nemaliássemoconcursodeumacertadosedeódio),

chamadacomoauxílioemcasodeinvestigaçãodemasiadocuriosaoudequestãodemasiadoincômoda.A

observaçãodosloucos,trata-sedegrandealienaçãooudeligeiraneurose,confirmaamplamenteofato:

quandoseencontraemsériadificuldade,operturbadomentalrecorreinfalivelmenteaumajustificação absurdaouaumraciocínioimbecil.Semoapoiopermanentedabesteira,oexercíciodaloucuraseria simplesmenteimpossível:asposiçõesqueeleocupa,sendoindefensáveisporsi-mesmas,desmoronar riamaoprimeiroataquecomosefossemcastelosdecartas. Éapenasprecisoobservar,poroutrolado,queomuropeloqualoloucoseprotegedorealé exatamentedamesmanaturezaqueaquelepeloqualtodapessoaditanormalmaspoucointeligente,tal como a tia-avó de Combray, se protege das realidades cujo reconhecimento poderia acarretar um desagrado.OqueFreuddesignousobonomede“recalcamento”éapenas,emsuma,umcasoparticular doferrolhoquesepodeobservaremtodososcasos“normais”derecusadepercepção.Analisandouma

jovemeinteligentehistérica,Freudobservaisto,querelataemumartigopublicadoem1920:“Aanálise

desenvolveu-se,porassimdizer,semomenorindícioderesistência:aanalisandaeramuitocooperativa dopontodevistaintelectual,massemafastar-sedesuatranquilidadedealma.Umdiaemquelhe explicavaumpontodeteoriaparticularmenteimportanteequelheconcerniadeperto,elamedeuesta réplicaemumtominimitável:‘Ah!masémuitointeressante!”-talcomoumadamadasociedadeque passeia emummuseue que examina comsua luneta de cabo objetos que lhe são completamente indiferentes”. Esta tendência a não receber ou“não-perceber”, pela qual umanalisando triunfa tão frequentementeetãofacilmentedeseuanalista,evocairresistivelmentetantoaatitudedatia-avócom relaçãoaSwanncomoadeMadameVenabledespedindo-sedeseumédico,emDerepentenoúltimo verão,precisamentenomomentoemqueesteacreditafinalmenteatingiroalvo.Decididamente,ésempre omaisfortequeperdeeomaisfracoqueganhanesseduplojogodaloucuraedabesteira,pois,afinalde contas,nãoháduvidaqueaquelequeganhaaquiéumfraco,aindaqueconsigadesbaratarasforçasde umadversáriomuitomaissólidodoqueele-mesmo.PierreJanettinhaumavisãocertamentejustae profunda,atribuíaafontegeraldetodaloucuraaumadeficiênciadaenergiapsíquica.Masépreciso acrescentarqueessadebilidadeéacompanhadadeumaforçamuitogrande,equeaenergiaquefaltaao loucoparaenfrentaroreal,volta-lhecomjurosquandosetratadesubmeteroreal,ouseussupostos representantes.Eisporqueolouco(eoimbecilpelasmesmasrazões)éaomesmotempomuitofracoe muitoforte.Muitofraco:porserincapazdesofreroreal.Mastambémmuitoforte:porconseguir,aseu modo, eliminar efetivamente esse real que o aflige. E esta força de eliminação do real é, repito, verdadeiramenteembaraçosa.Nãosevê,demodoalgum,quecontraforçapoderiacontrapor-sealgumdia atalpoder.Eseé,assim,necessariamentelevadoainterrogar-sesobreosentidoeovalordeum tratamento qualquer das neuroses, quaisquer que possam ser, por outro lado, a inteligência e a competênciadopsiquiatraoudopsicanalista.Faceaumatalsolidezdoloucooudoimbecil,asforçasde umespíritomaissaudáveloumelhoresclarecidoparecemsingularmenteirrisórias;emearriscariade bomgradoaapostarqueelasserãosempreperdedoras. Poder-se-iaobjetar aqui,aessa assimilaçãoda besteirae da loucura,ofatouniversalmente e justamentereconhecidodaextremainteligênciaouastúciaquedemonstraeventualmenteamaioriados alienados.Masestaobjeçãodesmoronaporsimesmaapartirdoinstanteemquesepercebequeo conjuntodessesdispositivosestratégicos,quepodem,éverdade,pôrempráticaprodígiosdeastúciae depenetraçãopsicológica,dir-se-iaaté,porvezes,deprediçãooudeclarividêncianosentidoocultodo termo,permaneceprisioneiroda“verdade”internaquesepretendeprotegerdasinformaçõesprocedentes doexterior.Detalmodoqueainteligênciadolouco,exatamentecomoadoimbecilcujosdesempenhos podemseraesserespeitoigualmentenotáveis,servemuitobempararefutarmasjamaisparaensinar; maisprecisamente:elatempormissãoparadoxaldefender-secontraainteligênciamesma.Sabe-sequeo fenômenodacensura,talcomoapraticamasideologiascoletivaseosregimescoletivistas,obedece exatamenteàsmesmascausasetendeaosmesmosobjetivos. Indiscerníveldaloucura,abesteiraoéigualmentedoódio.Estaassociaçãodabesteiraedoódio

meparece,ameuver,tãoevidenteporsi-mesmaquejulgariainútilsublinhá-lasenãohouvesseesta

circunstânciasingularealiásbastantesurpreendentequepassanamaioriadasvezesdesapercebida.

Ouve-serealmentedeclarartodososdias,apropósitodeumapessoa,dequecadafatoecadapalavra

sãoperseguiçõesmanifestascomrelaçãoaseucírculo,quenãodevequerermalaela,porqueé-apesar

detudo-,nosasseguram,deexcelentecaráterefundamentalmentegenerosa.Simplesmente,acrescenta-

se, é umpouco desajeitada e não se dá bemconta do que dize do que faz. Há aí uma distinção

fantasmáticaentreofatopersecutórioeaintençãosuposta,entreumabesteiraresponsávelpelosfatose

umabondadequenãosepoderiaconsiderarresponsávelpelasintenções,quemalresisteàanálise.

Invocareiaindaaqui,umaúltimavez,oexemplodatia-avódeCombrayedesuasperpétuasrecusasde

perceberaposiçãosocialdeSwann.Pode-seedeve-secertamenteinterpretaressasrecusasemtermos

debesteira.Mascomonãointerpretá-lastambémemtermosdeciúmesedeódio?Umareflexãodatia-

avódeveriabastarparaesclarecersobreestepontooleitormelhordispostoaseurespeito.Evocandoos príncipes da casa de França, ela declara a Swann: “Gente que nem o senhor nem eu jamais conheceremos,enemfazemosquestãodeconhecer,nãoéverdade?”Impossívelresumirmelhoroseu ódio,tantocomrelaçãoaSwann,queelamantémcommãodeferroemseupróprionível(nemosenhor nemeu), quanto comrelação à família principesca cuja frequentação, que se sabe impossível, ela desdenhadeantemão(enemfazemosquestãodeconhecer,nãoéverdade?). Pascalzombamuitobemdessadistinçãoilusóriaentreofatoeaintençãoquandoopõe,naterceira Provincial,osfatosdeheresiadequeacusamArnauld,quetodosadmitemnofundosereminexistentes,a suasintençõesheréticas,estasimensassegundoaopiniãodeseudetratores:“Nãosãoossentimentosde M.Arnauldquesãoheréticos;éapenassuapessoa.Eumaheresiapessoal.Ele,M.Arnauld,nãoé herético pelo que diz ouescreve, mas apenas pelo que é. É tudo o que se censura nele.” Aqui, naturalmente,osvaloresrespectivosdofatoedaintençãosãoinvertidos.Aosolhosdoscensuradoresde Arnauld,osfatoseaspalavrassãoinocentes,masasintençõesrepreensíveis;enquantoque,nocasoda tia-avó, oupelo menos na opinião superficial que se pode fazer dela, os fatos e as palavras são repreensíveismasasintençõesinocentes.Entretanto,ailusãoéamesmanosdoiscasos,poisobedeceao mesmoprincípiodeerro:umadistinçãoabusivaentreoquesefazeoquesepretendefazer,entreoque

sedizeoquesepretendedizer.

2.AATRAÇÃOPELOVAZIO

Cioranescreveisto,emAveuxetAnathèmes 13 :“Malperdemosumdefeitoeoutroapressa-seem substituí-lo.Nossoequilíbrioexisteaessepreço.”Quantoamim,acrescentariaqueseriaprecisodizero mesmodetodatolice,detodaloucura,detodapaixão:nenhumadesaparecesemabrircaminhoaoutra quelogoseapoderadolugardeixadovago.Apartirdoinstanteemqueumaloucuravaisumindo,uma outraseapresenta,maisforteporquemenosenfraquecidapelaprática,queasubstituie,nosentidomais literaldotermo,“tomaseulugar”.Quemconseguecurar-sedeumamania,adquireoutranomesmodia, que assegura a continuidade. Quem compreende subitamente a tolice de uma tese que defendia ardorosamenteadotaimediatamenteumanovainépciaàqualseagarracommaisfirmezadoquenunca. Daíefetivamenteumaespéciedeequilíbrio:nãosesaidetaltransformaçãonemmaisnemmenostolo, nemmaisnemmenoslouco,nemmaisnemmenosapaixonado;simplesmenteigualasi-mesmo,nemmais nemmenossaudável(“nemmelhor,nempior”,comorepeteaheroínadeOhlesbeauxjours,deSamuel Beckett). Nadamaiscurioso,entretanto,queessaaptidãoasubstituirimediatamenteumabesteiraporoutra, comoseamanutençãodeumcoeficientemédiodebesteira(oudeloucura)fossetãoindispensávelao psiquismocomoé,paraoorganismo,amanutençãodeumcertocoeficientedeglóbulosoudecélulas. Nadamaiscuriosotampoucoqueaaptidãodetodamania,umavezdesalojadadesuatoca,apropagar-se foradesi-mesmaparafixarresidênciaemumterrenoaomesmotempomuitodiferenteemuitoafastado. Estepoderdecontaminaçãoadistâncialembrabastanteofenômenoclínicodametàstase,talcomoo defineporexemploodicionárioLarousse:“Desaparecimentodeumfenômenopatológicoquecoincide comaaparição,emoutropontodoorganismo,deumoutrofenômenomórbido,encontrando-seessesdois fenômenossobadependênciadamesmadoença.”Nãosepoderiadefinirmelhorosterritóriosdaloucura e da besteira. Nada enfimmais desconcertante que o caráter heterogêneo dos motivos escolhidos sucessivamentepor seuadeptodomomento,semnenhumpudor nempreocupaçãodecoerência.No espaço de alguns meses veremos tal ou tal outro apaixonar-se sucessivamente, e cada vez exclusivamente,pelaalimentaçãomacrobiótica,porumamorromanescoesemesperança,pelaexistência dosdiscosvoadores,pelarevoluçãoculturalnaChina,pelapersonalidadeverdadeiradoMáscarade ferro.Comoaspeçasdeumquebra-cabeçaimpossíveldereconstituir,poisprovémcadaumadeumsolo diferente;ouainda,emumromancepolicial,umasériedeindíciosheteróclitosfeitosparadesafiara perspicáciadeumSherlockHolmesoudeumHerculePoirotquequebramacabeça:oquepodehaverde comumentreelesquepermiteligá-losumaooutro? Buscaríamos emvão umtraço comuma essas obsessões momentâneas se nos limitássemos a examinarumapósooutrooconteúdodecadaumadastemáticasemjogo.Masteríamosmelhorsortese buscássemosessepontocomum,nãodoladodoqueelasadmitem,masdoladodoqueexcluem.Poisse percebeentãoque,senãohánadasobreoquepossamconcordartaispaixõesexclusivas,existe,em compensação,algocontraoqualtodasconcordam-estoufalandodareferênciaaoreal,àrealidade qualquerqueelaseja.Detalmodoqueoobjetodessaspaixõesdísparestememcomumserumobjeto irreal. Nada aproximaria a alimentação macrobiótica, o amor romanesco, os discos voadores, a RevoluçãoChinesa,oMáscaradeFerro,anãoserofatodequenãosãonadaequemanifestam,no momento emque são escolhidos como objeto de desejo, umdesejo de coisa nenhuma. Assim a alimentaçãomacrobióticanãoextraioseusabordesuainsipidezprópria,masdosalimentossaborosose consistentescujaexclusãoelaimplica.Domesmomodooamorromanescosituaseuobjeto,nãoemum campooferecidoaumaexperiênciaeumgozopossíveis,masemumdomíniosituadodeliberadamente foradequalqueralcance-porumaescolhaqueospsiquiatrasdenominam“histérica”equeaproxima curiosamente o amor romanesco da fé kantiana nas ideias da razão pura, declaradas por Kant

indiscutíveisemrazãodofatoquesesituamprecisamenteforadetodaexperimentaçãopossível.Odisco

voadoréigualmenteirreal,emesmoduplamente:porumlado,porquenãoexiste;poroutroporque,

mesmosupondoqueexista,nãomodificariaemnadaasortedaquelequeinvesteneleporinteiro.Mesma

duplairrealidadenoqueserefereàrevoluçãoculturalchinesa,talcomosepodiarecentementesonhá-la

naEuropa:primeiramenteporqueestanãoapresentamuitasrelaçõescomarealidadehistóricadaChina

contemporânea,depoisporqueelanãoconcerneemnadaàcondiçãodaquelequesedeclaraimplicado

nela.QuantoaoMáscaradeFerro,éevidentequesuaexistênciahistóricaéduvidosa,suaidentidade

doravanteinverificávelsupondoquealgumdiatenhaexistido,eenfimanaturezadessaidentidade-

supondoqueestaalgumdiasejaestabelecida-hojecompletamenteindiferenteaquemquerquesejano mundo.Detalmodoquetodasessasobsessõesdiversassucumbem,grossomodo,sobogolpedacrítica

deGorgiasemseuTratadodonão-ser,cujoargumentoresumoaqui:1)nãohánada;2)sehouvessealgo,

nãosepoderiaconhecê-lo;3)sehouvessealgoeseestealgofossecognoscível,ninguémpoderiaser

utilmenteinformadodisto. Quantoamim,tenderiaapensarquealoucuraordináriadoshomens-querodizeraloucurabranda, maistenazeincurável,éverdade,queafuriosa-caracteriza-seantesdetudoporessaescolhadoirreal emdetrimentodoreal,doquenãosepodealcançaremdetrimentodoquesepodealcançar.Emumlivro hojeesquecido,umdiaboimaginadoporC.S.Lewisdavacomoinstruçãoprincipalaseusmissionários inpartibus,enviadosaterranãoparaasalvaçãomasparaaperdiçãodahumanidade,inspiraraos homensumdesejodecoisasvagaseinexistentesassimcomoumafastamentocomrelaçãoatodoprazer realeimediatamenteapreciável:“Ohomemquedesfrutadeumaúnicacoisanomundojáestáarmado contranossosataquesmaissutis.( )Conheçooexemplodeumhomemprotegidocontraasmaisfortes tentaçõesdaambiçãosocialporumapaixãomaisimperiosaaindapordobradinhacomcebola” 14 .Se passamosemrevistaasmaiorespaixõesàsquaisestásujeitaaespéciehumana,taiscomoporexemploo gostopelopoderoupelodinheiro,encontraremossempre,comefeito,nohorizontedodesejo,umobjeto estranhamenteausente.Nemogostopelopodernempelodinheirosão,consideradosemsi-mesmos,um gostoporalgumacoisa.Ora,éprecisamenteconsiderando-asemsi-mesmas,demaneiraquaseabstrata, quesecompreendemelhoraessênciadessaspaixões.Overdadeirogostopelopodernãoé,demodo algum, o apetite de bens determinados e consistentes que o exercício do poder torna acessíveis (mulheres,dinheiro,fama),massimogostopeloprópriopoder,indiferenteatudooqueopoderpode efetivamentetrazer.Oamantedemulheres,dedinheiro,defama,mesmosedesfrutadeumcertopoder, nãotemverdadeiramenteogostopelopoder;tem,nomáximo,ogostopeloqueopodertornapossível.E assimmenosdesvairadoeprovavelmentemenosperigosodoqueopotentadocujogozoresume-seao exercíciodeumpodersemcomplementodeobjetotangível.Masoverdadeiroamantedepodernãofaz casodesses bens domundo.Elequer somentepoder,epoucoimportadequê.Domesmomodoo verdadeirogostopelodinheironãoéogostopelosbensqueapossededinheirotornaacessíveis,maso simples gosto pela posse de dinheiro, considerada independentemente de qualquer outra vantagem:

contrariamenteatodavantagemreal.Poisa“’realização”deumapartedeseubem,tantonosentido “bolsista” (transformar seus títulos em dinheiro líquido) quanto no sentido ordinário do termo (transformarseudinheiroemgozoreal),teriacomoresultadoadesvantagemdaqueleparaquemaposse do dinheiro valerá sempre mais do que o poder efetivo que ele proporciona. Paixões semobjeto concreto,comosãoemúltimaanálisetodasaspaixões,ogostopelopodereogostopelodinheironão querem,emhipótesealguma,ouvirfalardebenefícioreal.Elesoperamumrecuosistemáticodosvalores reaisanteosvaloresirreais;ouainda,comoescreveMarcelAyméemAllerretour,apropósitoda avarezadotioSupremo,uma“transposiçãodasrealidadesnaordemabstrata”. Essedesejodenenhumacoisarealconcerne,emsuma,aumaatraçãopelovazioquesemanifesta também,edemaneiramaisexemplarainda,emumaalucinaçãoquefazperiodicamenteamancheteda atualidadepretensamentefilosóficaeliterária:aideiadeumfimdemundoprováveleiminente-ou

aindadeumfimdacultura,dacivilização,danatureza,etc.-quecadaumdeseusprofetassucessivos

anunciacomoumfatoaomesmotempoabsolutamentenovoeabsolutamentecerto.Duasfraudesdevem

seraquilevadasemconsideração.Aprimeiraéapresentarcomonovooqueémaisdoquebatido,tão

velhoquantooprópriomundoeaaversãoqueestesempreinspirouafulanooubeltrano.Comoprova

Plínio o Velho que, há quase dois mil anos, diagnosticava ao longo de sua História natural uma degradaçãodanaturezaeumfimdomundopróximoque,nofinaldascontas,resumiram-seapenasao desaparecimentodapessoadopróprioPlínio,queseaventurouimprudentementenasencostasdeum Vesúvioemplenaerupção.Asegunda,maisgrave,érepresentarcomoverdadedefato,daqual,por cúmulodefalsidade,assegura-seseroprimeiroaafligir-se,oquenarealidadeéumsimplesfatode desejo,frutodeumalassidãobanaloudeangústiafaceàexistência.Parece-mequeCioraninverte,senão aordemdeseusprópriospensamentos,pelomenosdopensamentohabitualdosanunciadoresdedesastre quandodeclara:“Ohomemvaidesaparecer,eraatéaquiminhaconvicçãoinabalável.Nessemeio-tempo, mudeideopinião:eledevedesaparecer 15 .Odesejodemortesegueumaordeminversa:primeirodesejo quetudopereça;ésóentãoapartirdesseterrenopropícioqueseelaboraaalucinaçãodeumfimefetivo eiminente,doqualadvirtoentãomeuentourage,apósterfeitoumacaraconsternada. Queomedodacatástrofeseja,namaioriadasvezes,aexpressãomaldisfarçadadeumdesejo imperiosodestacatástrofemesmaéumaevidênciaquetantoaleituradecertoslivroscomoadosjornais confirmacotidianamente.Noquedizrespeitoaisso,émuitosignificativoumfatomacabroocorrido recentementenaEspanha:umempregadodeumacentralnuclear,imbuídodosentimentodeumdesastre iminenteegeral,matasuamulhereseustrêsfilhoseexplicaseuato,emumacartaachadajuntoaos cadáveres,porseudesejode“evitaraosseusofimdomundo”.Curiosamaneiradeconjuraropior,ade

convocá-loassimimediatamente.Masopiornãoénuncabastantecertoaosolhosdoquepretendetemê-

lomassóconsegueassegurar-sedissoprovocandoeleprópriosuarealização.Estaaventurainfeliz ilustramuitobemocaráteraltamenteimprováveldacatástrofe,naopiniãodaquelemesmoqueadeclara inelutávelegarantida.DomesmomodoofilmedeEdwardZwick,Boletimespecial,cujoargumento, aparentementeinspiradoemuma“notíciadeatualidade”,dispensacomentários:umgrupodefísicos especialistas emenergia nuclear construiu uma bomba atômica que eles abrigamno porão de um cargueiroancoradoemumportodosEstadosUnidos.Estandoprofundamenteconvencidosdosperigos queabombaatômicarepresentaparaahumanidade,elesameaçamexplodiroengenhoqueestáabordo docargueiroseoPentágononãorenunciar,emtrintaeseishoras,aostestesnuclearesprevistos.Esta confusãodaintençãopacíficacomadefazerexplodiroplanetasóéestranhanaaparência,umavezque odesejodepazqueasustentaéindiscerníveldeumdesejodemorte.Igualmenteinsólitaesignificativaé aatitudedeumoutrocineastaamericano,PeterWatkins,que,aparentementeinsatisfeitocomastorturase opressões que enlutam cotidianamente o mundo real, preferia denunciar, em Punishment Park, refinamentosdecrueldadesituadosemumfuturoquepertenceàfícção-científíca.Umamesmaverdade resultadessestrêsexemplos:emprimeirolugar,queacatástrofenãoéobjetodetemor,masdedesejo;

depoisesobretudoqueelanãoéudaporaquelequeaanunciacomumfatoassegurado,mascomouma

realidadedasmenoscertas.Daíanecessidadedetomarainiciativa,umavezquedecididamenteo

cataclismatarda,edereunirtodososmeiosartesanaisdequesepodedisporafimdeprecipitaroseu

acontecimento.

3.OSEGUROTOTAL

Osanalistasdacrença,sejamfilósofosoupsicanalistas,chocam-sedesdesemprecomseucaráter irredutível,inatacável,irrefutável.Pormaisinverossímileinacreditávelqueelapossaser,acrença resisteentretantovitoriosamentetantoaosesforçosdapsicanáliseparamodificá-lacomoaosdafilosofia paracompreendê-la.Elaécomoumafortalezainexpugnável,capazdefrustrartodapossibilidadede ataque:dotadadeumsegurototal 16 *-nosdoissentidosdotermo-quelhepermiteafrontarserenamente todaquestãoetodacrítica,dequalquerespéciequesejam.Sósepodeadmirartalseguro,quedá,de antemão, razão ao crente e não pode deixar de acabar por confundir o incrédulo. Pode-se até, eventualmente,invejá-lovendoneleumrefugiocontraaincertezaeaangústiaqueseestariabemfelizde alcançarporsi-mesmo-suspirandoemsumapornãoserlouco,pornãoconseguirserlouco(poisnãose ficaloucoquandosequer,aoperaçãoqueconsisteemperderarazãonãoserealizapelameravontadede requerente:“Nãoéloucoquemquer”,disseoDr.Ey).Emtodocasoéinútilmedir-secomela,opondoà inabalávelcertezadacrençaasforças,nocasoirrisórias,doespíritocrítico.Massepareceimpossível surpreenderumafalhanacrença,emcompensaçãoébempossívelsaberporqueacrençaapresenta-se assimsemfalhas,eporquesemprefoiimpossívelsurpreendê-laemerro:empresaquenãoresolveem nadaoproblemadacrença-nosentidoemqueseesperariadeumaanáliseaspremissasdeumremédio, comoseesperadeumdiagnósticomédicoperspectivasterapêuticas-masquevisasomenteexplicarseu caráterinsolúvel. Para ter êxito emtal empresa de explicação - que, repito, não se propõe a desmistificar o mecanismodacrença,massima“fixá-lo”agravando-oparasempre-convémrefletirummomentosobre adefiniçãomesmadofenômenodacrença.Representa-secomumenteacrençacomoumatodeféquese caracterizapelaadesãodeumcertoeuaumcertoalgo;detal modoqueomistériodacrençase resumiriaaumaespéciede“toque”quepõeemcontatoindescolávelumcertosujeitoeumcertoobjeto. Daíempresasdedissuasãocondenadasaofracassoqueatacamessesdoispólosdacrençaenãoseu mododeligação,criticandooobjeto(istoemqueacreditassãoapenasfantasmaseficções)ouosujeito (nãoésmaistu-mesmo,desprezavasontemoídoloqueadorashoje).Ora,aanálisedacrençaparece muitofecundasefazemosabstraçãodosdoistermosdojuízodecrença(eucreionisto)paraconcentrar nossaatençãosobreacópulaqueosliga(eucreionisto);acrençanãoaparecemaisentãocomouma relaçãodedoistermosimprecisos,massimcomoofatomesmodarelação,comoumtipodevínculoque ligaumsujeitoincertoaumobjetoindeterminado(alguém-epoucoimportaquem-crêemalgo-e

poucoimportaemquê).Umtaltipodevínculo,quecaracterizaacrença,ganbaaoserconsideradoemsi-

mesmo,independentementedostermosqueeleune:eissonãosomenteporqueaoperaçãodacrença

permaneceamesma,mutatismutandis,quaisquerquesejamossujeitoseosobjetosqueelarelaciona,

masaindaesobretudoporestarazãodecisivaqueaindeterminaçãodosdoispólosé-nopresentecaso-

nãoacidentalmasessencial,queaoperaçãodacrençaimplicanecessariamenteumaimprecisãoquetem porobjetotantoaquelequecrêquantoaquiloqueéacreditado,equeporconseguintenãosepoderia concebercrençaapartirdomomentoemquefossemdeterminadosseusujeitoeseuobjeto.Detalmodo

quenãoseriasuficientedizerque,nacrença,oeloqueliga0sujeitoaoobjetoémaisimportantequeos

termosqueeleliga;éprecisoacrescentaraindaqueessestermossãonecessariamentefugidios,eque

importaantesdetudoqueelesosejam,poisaforçadacrençaéproporcionalàfraquezadostermosque

elaunecomseuselo.Duploparadoxodacrença:sóexistircontantoquenãohajanadadeacreditadoe

ninguémquecreia.

Primeiroaspectodeparadoxo:sóexistecrençaapartirdomomentoemquenãohámaisobjetono

qualcrer.Poistodoobjetodecrençaéumriscoparaaprópriacrença,eosegurototalqueelaconstitui

estipulacomocláusulafundamentalquenãosepoderiajamaiscontraircompromissocomumobjeto

particular(istoé,comumobjetoqualquer,ouaindacomtodoobjeto:todacoisaexistenteéassim, bastantelivrementemasmuitoeficazmente,posta“emoutrolugar”),sobpenaderescisãodocontrato.O DeusnoqualelacrêéfeitodaeliminaçãodetodaoutracoisaquenãosejaDeus,istoé,detodacoisa. Eisporqueoconteúdodacrençapodevariaremummesmocrente,paragrandeespantodoincréduloque nãocompreendequeacoisanaqualcrêocrente,queontemeraisso,sejahojeaquilo:umavezquese tratadeumconteúdoquenãoexiste,todasasmodificaçõessãopossíveis,incapazesquesãodeocasionar uma modificação substancial de um conteúdo que é e permanecerá nada, qualquer que seja sua denominaçãoatual.Talseriaasortedevariaçõesmusicaissobretemanenhum,quedeixariamnamesma horadeservariações,incapazesqueseriamde“variar”oquequerqueseja.Variaçõesimaginárias,isto é,repetiçãodeumamesmalengalengaqueconsisteemjamaissereferiraalgo.Assim,acrençaextrai suasubstâncianãodeumarelaçãocomacoisamasdaausênciadecoisa.Istoémaisoumenosoquediz DavidHumedanaturezadacrença,sersempredesprovidadecontatodiretocomumobjetoedefinir-se apenaspelaoperaçãodaadesão,tãopersuasivaqueseeximedeprecisaroistoaoqualelaadere.Daía solicitação,insistenteepenetrante,deHumeaoscristãos,deprecisaremnãoasrazõesdesuafémasseu objeto.Questãoquepermanecesemresposta,qualquerquesejaocampodacrença:Humeodemonstra comacríticadacrençanaideiadecausa(noTratadodanaturezahumana),antesdeestenderacrítica aodomíniopropriamentereligioso(nosDiálogossobreareligiãonatural).Jáqueuma“ideia”ou “imagem”ésemprederivadadeuma“impressão”(feeling),acrença(belief)define-secomoumaideia quenãoéderivadadenenhumaimpressão,emboraaomesmotempopossuaparadoxalmenteoprivilégio daimpressão,odeservivaz(vivacity)enãoenfraquecidacomoéaideia.Atransferênciadevivacidade daimpressãoaalgoquenãoénemmesmomaissuadegradação(aideia)masaalgoquenãotemmais nenhuma relação comela (a crença) define bemo mistério da crença. Mistério que confirma uma experiência inversa e complementar da experiência ordinária da crença, quando a vivacidade da impressão vemcoincidir realmente coma vivacidade da crença, provocando assim, não o simples sentimentodeconfirmaçãoquesedeverianormalmenteesperar,massimumavivasurpresadiantedo espetáculodessacoincidênciainsólitaentreoqueexisteeaquiloemquesecrê.Freudconta,aesse respeito,emOfuturodeumailusão,umaanedotacaracterística:“Jáerahomemmaduroquando,pela primeira vez, encontrei-me sobre a colina da Acrópole, emAtenas, entre as ruínas dos templos, contemplandoaolongeomarazul.Aminhaalegriamesclava-seumasensaçãodeespantoquemelevava adizer:‘Entãoascoisassãorealmentetalcomoaprendemosnaescola!Comodevetersidofracae superficialminhafénoqueouviraentão,paraquehojepossaestartãosurpreso!’” 17 . Éverdadequeainterpretaçãodesseparadoxodacrença- ser todo-poderosaembora“fracae superficial”-étalvezmenosdaalçadadafilosofiadoquedapsicopatologiaedapsicanálise.Poisa crença, assimdefinida como ato de adesão puro e simples, independente daquilo a que ele adere, constituiexatamenteumsintoma,nosentidoclínico:noqueelanãoreenviaaoqueelaexibe,masdesigna sempreoutracoisa.Aquiloemqueelacrênãoénada,oatodecrerétudo;adevoçãonãoimplica portantoumamoraissoouàquilo,masumamoraoutracoisaquenãoissoouaquilo,aumalgoquenão seconfundirájamaiscomumissoouaquiloequerestaadescobrirmediantealgunsmesesdeanálise. Observar-se-ádepassagemovínculoqueuneacrençaaotemadooutro(vínculodeondesededuz facilmente o caráter teológico da análise do desejo segundo Lacan). Daí tambémuma explicação satisfatóriadocaráterindestrutíveldacrença:jáqueestaprovém,certamente,dadenegaçãodarealidade edeumexcessoparanóicoderacionalidadequeincluiofatocontraditórionaprópriacrençaparadele tirarumaconfirmação,masantesdetudoesimplesmentedofatoqueacrençaéimpossíveldeextirpar porserdesprovidaderaízesparadesarraigar,queseuobjetoéinextirpável,nãoporsuaresistência própria,masporquenãoexiste.Parapodersersuprimido,éprecisoprimeiramenteser.Algopodeapagar algo;masnadanãopodeapagarnada. Segundoaspectodoparadoxodacrença:sóhácrençaapartirdomomentoemquenãohámais

sujeitoquecreia.Poistodosujeitodecrençaétambémumriscoparaacrença,emrazãodesuas mudançasdehumor;eosegurototalqueelaconstituiestipulacomooutracláusulafundamentalqueo sujeitoquehojecrênistonãopoderiademaneiraalgumasentir-secomprometidocomomesmosujeito queontemacreditavanaquilo,sobpenadedesmoronamentodetodoosistemadeseguro.Eisporqueas empresasdeautocrítica,quersejamexecutadasemseuforoíntimoouemumprocessopúblico,chegam sempreaomesmoresultado(cujasimilitudelevaacrerqueaspalavrasouvidasnotribunalpopularsão menosforçadasdoqueparecem):nãoaumatentativadecompreensãodesuaprópriahistória,masauma denegaçãopuraesimplesdeseupassado(“nãosoumaisesseoutroquefui”).Oqueseexorcizaaquinão ésomenteasombradesuaprópriapessoa,masorealemgeral,namedidaemqueorealéalgocuja condiçãoémudar;oexorcismodorealconfunde-seassimcomoexorcismodamodificação.Poisa crençanãoquerumrealtãomutável,nãoquernemmesmoserelaprópria“real”nosentidoemqueseria suscetíveldemudar.Acrençaéacompanhadaassimdaliquidaçãomágicadaideiademodificação; enquantoqueaexperiênciaprovaqueacrençamuda,acrença,emtaloutalmomentodesuahistória,não quersabernadadisso:elasóéacrençasepostulaqueé,enquantotal,nãomodificável.Daísegurosde tipodiversocontraaideiademodificação.Setrata-sedopassado,osujeitoquenãosereconhecemais nele, não dizque mudoude opinião, mas que naquela época ele não era nada, que não era ainda verdadeiramenteele,queacabafinalmentedetornar-seele-mesmo,alcançandoogozodesuaprópria pessoaaomesmotempoquechegaàpossedaverdade.Setrata-sedopresente-querdizer,quando,ao contrário,éaopiniãopresente,deumoutroportanto,queéinaceitável-,adenegaçãodamudançanão temporobjetoosujeitopassadomas,maissutilmente,osujeitopresente,dequesemostraentãoquenão mudou de opinião, mas que pensava desde sempre o mesmo odioso erro. Itinerário inverso do precedente,aserviçodomesmofimqueénegaroprocessodemodificação,perigomortalparaacrença. Osprocessosdeintençãocontratodososdissidentesdeumpartidosemprerepetiramemcoroamesma lengalenga:essehomemquehojesepercebequepensamal(diferentementedoquedeveria)semprefoi versadoempensamentoseintençõeshostisaopartido.Elesóéculpado,emsuma,portê-losempresido. Essatransferênciadaculpabilidadeparaoconjuntodavidaéumvelhoargumentodeprocurador:Tácito jáoutilizaaolongodeseusAnaisedesuasHistórias,procurandomostrarsemprequeocriminosonãoé somentealguémquecomete,aquieacolá,umcrime,masalguémque,desdeseunascimento,sópensanos crimesquevaicometer,deleita-seantecipadamentecomelese,misturandoassimopensamentodeseus crimesaoconjuntodosatosdesuavida,pensaerespiracomocriminoso.Oexorcismodorealpode, enfim,seraplicadoaofuturo:porumdecretoemtermosdoqualsedecidequeoqueacabadeser resolvidovaleparaaeternidadeeseráassimeternamentepreservadodetodonovoexame.Essegênero dedecretoconcerneàdogmáticamastambémàhistóriaeàsinstituições:comoessadisposiçãodecidida pelaAssembléiadosAtenienses,prevendoapenademortecontratodapessoaquepropusessemaistarde pôremcausaasleisvotadasporestamesmaAssembléia.Ainstânciaencarregadadediscutirpretende proibir-seodireitodediscussão,eapelaparaoarsenaldesançõesparaproteger-sedeumaeventual modificação de seu próprio humor. Este seguro jurídico encarregado do futuro exprime, bastante

profundamente, tanto a necessária incerteza emque se está face ao real vindouro quanto o caráter irrisóriodasmedidasquepoderiamsertomadascontraela.Eleexprimetambémumcaráterfundamental dacrença,queéodeexorcizarorealporumaexclusão,quasemágica,deseuaspectomutável.Ostrês casosevocadosacimailustramessamesmaoperaçãopelaqualumaafirmaçãoqualquersevêaliviadada hipotecaquefariapesarsobreelaaideiadeumamodificaçãopossível,alcançandoassim,esomente assim,oestatutodedizerdignodefé,istoé,deobjetodecrença.Repito,háincompatibilidadeentrea operação da crença e o reconhecimento da modificação: eis porque aquele que euera, se ele não

acreditava,nãoéreconhecidopormimcomoeuqueteriamudado,mascomonadaecomoninguém;-

porqueaquelequenãoacreditamaisnãoéreconhecidopelocrentecomoumantigocrentequeteria

mudadodeopinião,mascomoumeternodescrente;-porque,emsuma,aAssembléiadosAtenienses

pune-seporantecipaçãodetodaeventualtentativademodificaçãodeumdecretoquesetornaassim,ao sercolocadoparadoxalmenteacimadaleipelapróprialei,umobjetodepuracrença,estranhoaotempo eàmudança. Pode-segeneralizaraqui:observandoque,dequalquermodo,umacontradiçãonãoéjamaisum obstáculoàcrença(quertrate-sedeumacontradiçãoentreoqueseafirmavaeoqueseafirmaagora,ou deumacontrariedadeentreoqueseafirmasimultaneamentedeumladoedeoutrolado,casoigualmente frequente),eissoporumarazãomuitológicaquedecorredadefiniçãomesmadoobjetodacrença,que nãoexisteeconsequentemente,poressarazão,escapaatodapossibilidadedediscussão(sósediscute sobrealgo;sóonadaéindiscutível).Assimocampopolíticoésempreinvestidopelacrença:porquenão oferecenadadediscutível-daíofatoqueeleseprestaprecisamenteadiscussõessemfim-,jáqueseu objetoé,parasempre,incertoeindeterminado,oquelhepermiteocuparsemdificuldadeoscampos abandonados da crença tradicional. Este indiscutível nada define desde sempre o objeto teológico, protegidodeexame,preservadoapriori,ecomjustarazão,detodacrítica.Nãohánenhumdivórcio entreacrençaearazão,umavezqueoobjetodacrença,pornãoexistir,escapaafortioriaumexame racional.Jamaisumargumentadorcriticaráutilmenteumcrente,contrariamenteaoquesugeresemcessar Sade,porexemplo,noDiálogoentreumsacerdoteeummoribundo:

Osacerdote:Vocênãocrê,demaneiraalguma,emDeus?

Omoribundo:Não.Eistoporumarazãobemsimples:écompletamenteimpossívelcrernoque

nãosecompreende.

Averdadequantoàcrençaéfornecidaporumafórmulaexatamenteinversa:sóépossívelcrerno

quenãosecompreendeeécompletamenteimpossívelcrernoquesecompreende.EisporqueSadeé

incapaz,edelonge,deatingiradescrença-comoamaioriadosfilósofosdoséculoXVIII:por“crer”no

queelejulgacompreender,porfazer,Dorumaestranhasubversãodadescrença,desuaincredulidade,

nãoumobjetodeconhecimento,massimdecrençamilitante.Overdadeirodescrente,aocontrário,não

extrainenhumareligiãodesuadescrençaenãoempreende,aesterespeito,nenhumproselitismo;assim,

noDonJuandeMolière:

Sganarello:Ora,diga-me,serápossívelqueosenhornãocreianoCéu?

DonJuan:Deixemosisso.

Ofatodenãocrernãoengajaaquiodescrenteemnenhumacrençaàsavessas.Aquiloemquecrê

DonJuanénada-enãoumaverdadequejorrariamilagrosamentedoreconhecimentodeumerronos

outros.Deresto,nãosedevepropriamentefalardeerrodapartedoscrentes,jáquea“crença”dos

crenteséumacrençanãoemalgomasemnada.Oquefazafraquezadacrença,ofatodeserdesprovida

deobjeto,faztambémsuaforça:pornãohavernelanenhumapositividade,decorrequenãohátambém

erropositivo.Nadadedito,logonadadefalso.DonJuansabedissoenãorespondenadaàSganarello

quandoestelhefaladenadae,pretendendo“conhecerafundoassuasideias”,pergunta-lhe“Masenfim,

sempreéprecisocreremalgo.Acreditaemquê,então?”Nada,salvoacélebreréplica:“Acreditoque

doisedoissãoquatro,Sganarello,equequatroequatrosãooito.”Estatautologia,naqualSganarello

querouviroecodeumareligiãodaaritmética,éumarespostaexatamenteapropriadaàquestãoposta,

queareenviaaoseuprópriovazio,opondoaumacrençasemobjetoumadescrençaigualmentepouco

substancial.EumpoucooqueexprimiatambémMarcelDuchampemumaboutadecélebre:“Nãohá

soluçãoporquenãoháproblema.”DonJuannãofalaporqueéinterrogadosobrenadaeporninguém:

nadaérespondidoporquenadafoiverdadeiramenteperguntado.

:::FIM:::

1 RetomadaumpoucomodificadadeumtextopublicadonaNouvelleRevuede

Psychanalyse,nº18,1978.

2 TraduçãobrasileiradeHenriqueCláudiodeLimaVazinOspensadores.SãoPaulo.

AbrilCultural,1980,p.61.

3 Pourunmaterialismevulgaire,Montreal,1984.

4 Ética,LivroIV,Apêndice,capítuloXXXI.

5 DoZibaldone,ed.francesa,"LeTempsqu'ilfait",pp.91-92

6 *LaPhilosophieTragiqueP.U.F.(I960)foiaprimeiraobrapublicadaporClément

flösset.Nelaoautorsededicaàdescriçãodotrágicocontrapondo-oaoquedenomina

“InstintoAntitrágico”ou“instintomoral”.Hojeesgotada,estaobraécitadanoconhecido

DicionáriodeFilosofiadeJoséFerraterMoranoverbetetragédia.(N.doT.)

7 Cf.traduçãobrasileiradeRodrigoNaveseRicardoR.Terrain:Idéiadeuma

HistóriaUniversaldeumpontodevistacosmopolita,Brasiliense,1986,p.11.(N.doT.)

8 TraduçãodeC.Heim,Gallimard.Cf.traduçãobrasileiraColeçãoOspensadores,de

RubensRodriguesTorresFilho.

9 HistoireGénéraledesCivilisations,TomoII,PressesUniversitairesdeFrance.

10 NaissancedelaPhilosophieàL’EpoquedelaTragédieGrecque.TraduçãodeG.

Bian-quis,ed.Gallimard.

11 Querdizeromedo,ou,nafilosofiadeSpinoza,oprincípiomaisgeralderecuo

anteaverdade-princípioquecorresponde,grossomodo,meparece,aosprincípiosde

recuoantearealidadedequefalonestelivro.

12 TratadoTeológico-Político,Prefácio,Tr.Ch.Appuhn.G.FGallimard,1987.

13 Gallimard,1968.

14 Tactiquedudiable,traduçãofrancesadeDelachauxeNiestlé,1942,cartaXIII.

15 Op.cit,p.117.

16 *Aexpressãoutilizadapeloautor,L’assurancetousrisques,temosentidoespecíficodeumseguro contra todososdanos

possíveis;segurototal,portantoNeis;(Cf.PetitRobert,DictionnairedelaLangueFrançaise,pág.118).Noentanto,otermoAssurance

possuiosentidomaisgeraldesegurança,salvaguarda,oqueincluianoçãodeproteção,certezaeimunidade,queotermoportuguês

seguro,noseuusomaishabitual,nãocomporta.(N.doT.)

17 TraduçãodeM.Bonaparte,P.U.F.,p.36.

TEXTODACONTRA-CAPA TEXTODASORELHAS INTRODUÇÃO

ÍNDICE

1.OPRINCÍPIODEREALIDADESUFICIENTE

2.OPRINCÍPIODEINCERTEZA

3.POST-SCRIPTUM

APÊNDICES

1.AINOBSERVÂNCIADOREAL

2.AATRAÇÃOPELOVAZIO

3.OSEGUROTOTAL