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Antecedentes

Com o término da Segunda Guerra Mundial, houve uma profunda mobilização em prol da
internacionalização dos direitos humanos, tendo em vista a necessidade de uma proteção
eficaz desses direitos em todo o mundo, principalmente nos países onde as instituições
nacionais vêem-se complacentes ou impotentes diante de violações graves ou sistemáticas a
esses direitos .Os horrores do nazismo e a amplitude intercontinental do conflito que durou de
1939 a 1945 deram uma consistência aos movimentos com esses propósitos que a Primeira
Guerra não conseguiu dar anos antes1[1].
No sentido dessa internacionalização, após o fim da guerra, o Acordo de Londres 2[2]
surpreendeu ao justificar uma suposta infração ao princípio da legalidade3[3], na existência, na
legitimidade e no caráter coercitivo de um direito costumeiro internacional. A relação de um
Estado com seus habitantes tornava-se uma preocupação mundial, de forma que o próprio
conceito de soberania, principalmente em sua feição externa, começou a ser repensado ou
abolido.
Quando da criação da ONU, a Carta das Nações Unidas fez iniciar uma discussão sobre quais
seriam os “direitos humanos e liberdades fundamentais” que tanto foram mencionados na
ocasião. Por esse documento não ter esclarecido esse questionamento, viu-se a necessidade
de se elaborar um novo documento que a completasse. Criou-se na ONU uma Comissão dos
Direitos do Homem incumbida de redigir a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em
1948, por unanimidade, os Estados -membros das Nações Unidas proclamaram o que,
posteriormente, serviria como referência à noção de legitimidade em grande parte do mundo.
Conteúdo
A Declaração Universal dos Direitos do Homem foi baseada nos Direitos do Homem e do
Cidadão ( 1789), sendo uma resolução da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de
dezembro de 1948 . A Declaração foi aprovada por 48 países - membros das Nações Unidas,
tendo 08 abstenções, 02 ausências, com a inexistência de votos contrários. Presentes no
preâmbulo, havia duas categorias de direitos : os direitos civis e políticos e os direitos
econômicos, sociais e culturais. A Declaração tinha como finalidade o ideal comum a ser
atingido por todos os povos e nações , objetivando que cada indivíduo e órgão a tivesse em
mente, podendo promover, assim, os direitos e liberdades, o seu reconhecimento e sua
observância nos próprios Estados -membros.
Um fato importante desta declaração é que ela une duas categorias de direitos até então
separados : direitos civis e políticos e os direitos econômicos, sociais e culturais. Os primeiros
dão maior valor à liberdade e surgem no contexto do Liberalismo econômico. A Declaração
Francesa (1789) e a Declaração Americana (1776) defendem que a liberdade só seria possível
com a limitação da intervenção do Estado. Já o segundo grupo de direitos tem a igualdade
como valor principal, surgindo no contexto da Revolução Russa (1917). Esses direitos estão
propostos na Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorador. Portanto, com a
Declaração Universal dos Direitos Humanos surge uma nova geração de direitos humanos, em
que se torna impossível falar dos direitos civis e políticos sem falar também dos direitos
econômicos, sociais e culturais.
Houve uma tendência nos documentos formais de direitos, durante algum tempo, de não
abrangerem todas as modalidades de direitos que a dignidade da pessoa humana exige.
Tentando resguardar as liberdades fundamentais que tanto o pensamento liberal valoriza, a
Declaração Francesa de 1789 e a Declaração norte-americana, por exemplo, atribuíam

1 [1] A Liga das Nações , por exemplo, criada após a Primeira Guerra , teve
repercussão internacional discreta , com relativo fracasso aos seus propósitos .

2 [2] Acordo dos vitoriosos aliados que criou o Tribunal de Nuremberg para “punir
pessoas que , agindo no interesse dos países europeus do Eixo”, na Segunda
Guerra Mundial , cometeram crimes de guerra.

3 [3] Não havia norma escrita que definisse como crime a conduta , por exemplo ,
dos soldados nazistas alemães nos campos de concentração
predominantemente ao Estado apenas as chamadas “obrigações negativas”4[4].Em
contrapartida, em outros países , os de postura socialista, prevalecia a idéia de um Estado
superprotetor da igualdade econômica e social, que, de um lado, mencionava inúmeros direitos
ditos da segunda geração, mas, de outro, limitava, em certo grau, a liberdade do cidadão5[5].
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, ao contrário, caracterizou-se pela combinação
de um discurso de cunho liberal com um outro de caráter social, de forma a tentar harmonizar a
garantia das liberdades fundamentais com a busca da igualdade.Com sua linguagem solene,
tenta dar um novo sentido à relação entre as pessoas e o Estado : a autoridade estatal e a
liberdade do indivíduo puderam ser concebidas não mais em antagonismo, mas de forma que
apenas possam subsistir em conjunto, onde a primeira garante a segunda, sem a qual ela não
se legitima.
Eficácia
É importante ressaltar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, na qualidade de
declaração, não exige vinculação jurídica com os Estados que a assinaram, mas apenas um
reconhecimento formal do conteúdo apresentado, frente às Nações Unidas. O
comprometimento, no sentido de uma incorporação direta às constituições dos Estados
assinantes, viria mais tarde com pactos e tratados multilaterais sobre temas mais específicos, a
exemplo do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e do Pacto Internacional dos
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.
No entanto, parece coerente concordarmos com Paul Siegart quando considera a ligação da
Declaração à Carta das Nações Unidas como sendo determinante no verdadeiro entendimento
da obrigação dos Estados assinantes. Ora, tendo sido aquela elaborada para melhor
entendimento da referida Carta , e, sendo essa mais de uma vez citada na referida Declaração,
parece razoável que se dê a ambas igual tratamento6[6].Outra visão a defender a eficácia da
Declaração considera o conteúdo declarado como uma explicitação do direito costumeiro
internacional - lembrando um pouco a alegação dos aliados para justificar o tratamento
criminoso dado pelo Tribunal de Nuremberg a certas atitudes cometidas na Segunda Grande
Guerra.
Ficamos mais tranqüilos em saber que esse problema decorrente do valor jurídico da
Declaração foi minimizado com a elaboração, entre outros, dos dois tratados internacionais
supramencionados, a qual a Profa. Flávia Piovesan, em seu livro Direitos Humanos e o Direito
Constitucional Internacional , menciona como sendo a conclusão do processo de “jurisdição” da
Declaração.
Universalismo
A Declaração de que tratamos declarou ter caráter universal, tendo sido desconsiderada a
sugestão inicial que a denominava de Declaração Internacional. Colocando à parte o teor
histórico e valorativo da norma de direito, largamente estudado e considerado pelos filósofos do
Direito, chegamos a um impasse semelhante ao que envolve o Direito Natural e o próprio
sentido de direitos humanos.
Os defensores do relativismo cultural defendem que a Declaração Universal dos Direitos
Humanos não reflete mais do que o direito costumeiro dos países de cultura ocidental, e que,
por isso, considerá-la de âmbito universal seria uma atitude errônea e, principalmente, tomada
em detrimento para com os povos de expressões culturais distintas, a exemplo de sociedades
africanas , do mundo árabe, da Índia , entre outros.

4 [4] Expressão muito bem empregada para referir-se ao teor abstencionista de


certos deveres estatais.

5 [5] A Declaração do Povo trabalhador e Explorado de 1918 , que calcou o regime


socialista da URSS foi o mais conhecido documento que pensou o Estado dessa
forma.

6
Este é um ponto relevante e extremamente delicado na discussão da eficácia da Declaração, o
qual pode evitar que atrocidades sejam justificadas sob alegações “anti-imperialistas”, ou que
manifestações culturais “relativamente” sãs sejam discriminadas e até destruídas. Está claro
que a soberania absoluta, como há algum tempo se pensava, tende a injustiças, mas se
necessita de muito bom senso para a compreensão ampla e verdadeira do tema.
Conclusão
Portanto, podemos concluir que a importância da Declaração para o cenário do Direito
Internacional dos Direitos Humanos foi muito grande, já que após sua adoção, despertou-se um
sentimento de preocupação com os direitos do homem em um panorama mundial e a
conscientização deste mesmo homem de que ele faz parte de uma sociedade global.