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DANILO ARNAUT SARAIVA

A INTELIGÊNCIA DO MUNDO: SOBRE A COGNIÇÃO DE
PROCESSOS GLOBAIS EM OCTAVIO IANNI E ULRICH BECK

CAMPINAS

2014

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DANILO ARNAUT SARAIVA

A INTELIGÊNCIA DO MUNDO: SOBRE A COGNIÇÃO DE
PROCESSOS GLOBAIS EM OCTAVIO IANNI E ULRICH BECK

Orientador: Prof. Dr. Renato José Pinto Ortiz

Dissertação de Mestrado apresentada
ao Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas para a obtenção do título de
Mestre em Sociologia.
Este exemplar corresponde à versão
final da dissertação defendida pelo aluno
Danilo Arnaut Saraiva sob a orientação
do Prof. Dr. Renato José Pinto Ortiz.
CAMPINAS
2014
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iv .

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PALAVRAS-CHAVE: Globalização. Ulrich Beck.RESUMO Esta dissertação materializa um conjunto de reflexões a respeito dos trabalhos de Octavio Ianni e Ulrich Beck sobre os processos de globalização. Sociologia. Relações Internacionais vii . Octavio Ianni. Trata-se de uma sociologia dessas sociologias que objetiva investigar a própria cognoscibilidade desses processos através dos elementos que orientam a criação sociológica desses autores.

viii .

KEYWORDS: Globalisation. Octavio Ianni. Sociology. which aims to investigate the very cognoscibility of these processes through the elements that have driven the author’s sociological creation.ABSTRACT The Awareness of the World: On the cognizance of global processes within the thoughts of Octavio Ianni and Ulrich Beck This dissertation is based on a set of analyses of the works of Octavio Ianni. and Ulrich Beck on the processes of globalization. International Relations ix . Ulrich Beck. It constitutes a sociology of these sociologies.

x .

IV. 10] [p. 21] [p. cosmopolitismo: interlúdio da globalização Modernização da Modernidade: raízes da globalidade. A expressão máxima do Capitalismo xi [p. 37] [p. 26] [p. II. caminhos da globalização [p. Sobre os Estudos Globais: Observações preliminares I. [p. 42] [p. A cognição de processos globais como objeto Sobre a construção da pesquisa Textos e contextos: a abordagem do corpus Para a cognição de pensamentos: a leitura como atitude Sobre a escrita deste trabalho 3. O Emblema do Globo: Octavio Ianni e a Taquigrafia do Mundo I.SUMÁRIO PARTE PRIMEIRA 1. III. A Gestação: precursores de um debate A Emergência O Estabelecimento 2. 64] [p. Individualização: metodologia da (auto)biografia Cosmopolitização. 35] O Globalismo: novo palco da história A tentação metodológica A Sociedade Global: sociologia da Humanidade [p. Sociologia da Sociologia: notas sobre um percurso I. III. 32] [p. Filhos do Mundo: Individualização. 56] [p. 5] [p. 24] [p. 12] [p. II. 31] [p. 53] I. Enigmas do Globalismo. 19] [p. 75] [p. II. O lugar do Pensamento na Globalização I. V. 69] PARTE SEGUNDA 5. III. 79] . respostas à Globalidade 1. 79] [p. Cosmopolitização e Modernidade em Ulrich Beck [p. 3] [p. 47] 4. III. II.

128] Referências [p. Quando a barbárie se institucionaliza: o Estado como agente do terror 2. 109] [p. Desigualdade e estratificação A Política (re)descoberta 1. 109] [p. A cortina das ilusões: globalização e senso (in)comum 1. 125] [p. As ilusões da Política mundial 2. 134] [p. 94] [p. 102] [p. 120] 6. 139] [p. A univocidade do novo 3. Signos. A reinvenção da Sociedade III. Inimigos do Mundo: riscos perceptíveis e individualização da guerra Desigualdades. 99] [p. O problema da abrangência 1. 136] [p. Trabalho e produção da humanidade 2. Despolitização e Repolitização: Modernidade e Reencantamento do Mundo [p. V. 131] [p. 88] [p. 117] [p. 114] [p. Teoria sociológica ou diagnóstico social?: Um raciocínio de entremeio II. 89] [p. significados e significantes [p. 93] [p. 145] . IV. 126] [p. Terror e Vulnerabilidade 1. 104] [p. Heranças e Horizontes: perspectivas de um debate (In)conclusão I. Inimigos do Estado. (in)segurança e seguridade 1. O Estado-nação como um problema sociológico renovado A inteligência da Política: um recorte possível Violência. 2.II. 81] [p. III. Economia política: globalismos do globalismo 3. 139] [p. A Política cosmopolita e reflexiva 3. 149] xii [p. 106] [p. O real e o efetivo 2. Globalização e processo civilizatório 4. Politização.

por me mostrar que o Amor é filho do Perdão. sendo pai da Coragem. quando ainda moço. a Almerinda.A Vânia. caiu de amores pela Paciência e nunca mais conseguiu viver sem ela. que me ensinou que o Amor é irmão do Carinho. Confiança e Admiração. xiii . a Luiza. que me segredou que o Amor tem três sobrenomes: Força. a Tânia. por me mostrar que o Amor. por me contar que o Amor. é uma decisão. a Sônia.

xiv .

Juliana Pinheiro Prado. Juliana Closel Miraldi. Sérgio Cardoso e Silvio César Camargo. E o professor Milton Almeida (in memorian). Pedro Peixoto Ferreira. gostaria de dirigir um agradecimento especial ao meu professor e orientador Renato Ortiz. e em especial à primeira versão deste texto. Camila De Mario. Quero recordar. com gratidão. Catarina Casimiro Trindade. cujas sugestões e estímulos tanto contribuíram para o avanço dos meus trabalhos. Julia Uzun. pela lição de coerência e ousadia críticas. Lucas Page Pereira. Elisabeth Rosenberger. Fernando Lourenço. foram eles que me conduziram. Também quero agradecer aos professores Octavio Ianni (in memorian) e Ulrich Beck. estimulando sempre a independência e a perspicácia intelectuais. Viviane Veras e Yara Frateschi. Roberta Caroline. Agradeço aos meus colegas e amigos Anna Mayr. pelos caminhos e tropeços.Agradecimentos Além daquelas às quais dedico este trabalho. Augusto Costa. João Gomes. Embora só tenha podido conhecer pessoalmente este último. cotidianamente. Flávia Paniz. Helmuth Berking. Martha Gibson. Omar Thomaz. Também gostaria de mencionar aqui (em ordem alfabética) os professores Álvaro de Vita. Julia Abdalla. Norma Wucherpfenig. Salete Aquino. também as professoras Britta Friedmann. que me ensinaram sobre escrita e comunicação. pelos atenciosos comentários às minhas pesquisas. Camila Ribeiro. pelo constante encorajamento e pela palavra arguta que me ampararam de modo frutífero durante as minhas pesquisas. Sandra Ballweg. imprescindíveis ao nosso ofício. Portugal Gouvêa. Samira xv . gostaria de expressar meus agradecimentos à professora Leila da Costa Ferreira e ao professor Josué Pereira da Silva. Gustavo Cardoso. Nessa linha. Frédéric Vandenberghe. Gilda F. Maria Coracini. horizontes e trilhas que compõem a aventura que é pensar o social. Meghie Rodrigues.

cujo apoio foi fundamental para a realização das pesquisas que deram origem a essa dissertação.Feldman Marzochi. pelo apoio. da Biblioteca Octavio Ianni. da Biblioteca Florestan Fernandes. mais amplamente. da Universitäts. antes do início do Mestrado. da Universidade Estadual de Campinas). Gostaria de lembrar também a atenciosa assistência dos funcionários dos setores administrativos do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (e. Finalmente. gostaria de agradecer ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). xvi . e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).und Landesbibliothek der TUDarmstadt. Tatiana Barbarini. da Universitätsbibliothek Duisburg-Essen. por cobrir parte das despesas com participação em eventos acadêmicos fora do estado de São Paulo. assim como pelas sugestões e auxílios durante a realização deste trabalho. e da Biblioteca Jurídica do Largo de São Francisco. last but not least. por ter viabilizado minha estada na Universidade Duisburg-Essen. pela torcida. Tobias Schmidt e Vítor Queiroz. bem como ao Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).

Books are not the world: they are about it. Arjun Appadurai* * Appadurai (1996: xi). xvii .

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PARTE PRIMEIRA 1 .

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Capítulo I Sobre os Estudos Globais Observações preliminares 3 .

envolve disputas por poder e hegemonia. nem fenômenos e processos. 4 . Neste capítulo. que são o recorte da reflexão que se desenvolverá mais adiante no corpo da presente 1 Moore (1966: 482). até mesmo uma aparência isolada em alguns momentos e contextos. but that is scarcely an excuse for abandoning one of the oldest themes of our calling”. 2 Retirei a expressão “linhas de força” dos escritos de Renato Ortiz sobre o tema (cf. ORTIZ. Por isso. é como se houvesse um elo que. Assume formas e cores diferentes nos seus diversos epicentros. Moore Uma reflexão a respeito da globalização faz pouco sentido se desvinculada dos diversos modos pelos quais o tema tem sido problematizado nas ciências sociais em nível mundial. faz com que se apresentem conectados. e assumindo. 1 Wilbert E. o debate sobre eles também apresenta certas linhas de força2 que o atravessam. Segue o original: “Mankind may not survive long enough for us to study it as a complex entity. embora não una ideias e pensamentos. 2009). assim como ocorre com os processos de globalização. numa situação de globalização. mas. A intenção é evidenciar algumas de suas principais direções a fim de alicerçar o avanço posterior sobre as contribuições de Octavio Ianni e Ulrich Beck. Cabe notar. variando conforme as temporalidades e espacialidades em que se situam. No entanto. 2006. seus contornos e desenvolvimentos. que o debate sobre a globalização é assimétrico e pouco linear. ofereço ao leitor uma concisa apresentação de alguns dos contornos desse debate sobre a globalização no âmbito das ciências sociais. porém. mas essa dificilmente seria uma desculpa para abandonar um dos mais antigos temas da nossa vocação.A espécie humana pode não sobreviver por tempo suficiente para que nós a estudemos como uma entidade complexa. ao contrário. é possível crer que a inteligência dos processos globais deva passar pela compreensão das relações hegemônicas entre esses epicentros. Não dá voz a “todos” no mundo.

dissertação. Estaríamos. o que conduzirá a uma análise mais específica sobre dois desses pensamentos que serão apresentados e discutidos nos capítulos posteriores (III). trato de alguns autores que podem ser considerados como precursores do debate. elaborei estas notas introdutórias da seguinte maneira. note-se. do tema da globalização enquanto uma problemática reconhecidamente central nas ciências sociais. desde a década de 1970. em meados dos anos 1990. convido o leitor a formular uma leitura de caráter abrangente a respeito das estratégias. sobre um sistema-mundo (world-system). Chegava mesmo a datar os processos – e. Há. A gestação: precursores de um debate A problemática da globalização emerge nas Ciências Sociais há aproximadamente duas décadas e meia. com base na história econômica europeia. Surge no final dos anos 1980. Primeiro. de uma divisão do trabalho singular e de múltiplos sistemas culturais. particularmente. caminhos e trilhas que vêm engendrando os diversos pensamentos sobre a globalização. diante de algo que existia. Os textos do americano Immanuel Wallerstein já versavam. Nesse sentido. no entanto. mas podese dizer que o debate se adensa somente a partir da década de 1990. bem como a situação de emergência de um debate de proporções mundiais no contexto regional da América Latina (II). I. optei por apresentar. Creio que seja relevante levá-los em consideração uma vez que muitas de suas inquietações têm sido ainda problematizadas nos estudos mais recentes (I). como um 5 . Wallerstein afirmava que o capitalismo deveria ser locado somente na forma de um sistema-mundo que corresponderia àquilo que se denominava economia-mundo (world-economy). Depois disso. Com base nisso. conceptualizado no âmbito de uma primazia do econômico. Nesta altura. para ele. precursores. a confluência com o debate sobre a oposição modernidade e pós-modernidade. trato da efetiva emergência.

1974: 162). diferentes modos de controle do trabalho e se beneficiando de modo desigual” (WALLERSTEIN. parece denotar uma incorporação da ideia de mundo à de sistema: elas tornam-se. deixa de usar os termos “economia mundial” e “sistema mundial”. citarei um trecho em que Fernand Braudel desenvolve a questão. Também observava que essa perspectiva analítica implicaria uma tensão: a de que enquanto se poderia pensar a economia do ponto de vista de sistemas que se sucederiam em nível mundial. Na próxima nota. ora a parte. a ação política ocorreria dentro do quadro dos estados nacionais. no sentido de uma unidade organizada desse modo. 1979: 196. contudo. Em sistema mundial. desenvolveram diferentes estruturas de classe. grifos do autor). […] Enquanto as atividades sociais de um grupo são.sistema europeu. desde aproximadamente 1815 (WALLERSTEIN. assim. aparentemente simples. usando. ao logo dos seus estudos sobre o tema nos anos 1970. O conjunto dessas partes (desses pequenos mundos) daria forma ao mundo. 6 . 1979)3. tem-se o “mundial” como atributo de “sistema”. desde aproximadamente 1450. “a economia mundial capitalista foi construída sobre uma divisão mundial do trabalho na qual várias zonas dessa economia […] assumiram diferentes papéis. outro precursor da maior relevância foi o francês Fernand Braudel. 1974: 67). noções imbricadas. determinadas pelo seu papel na economia-mundo. Por “sistema-mundo”. Para o autor. de enfatizar ora o todo. passando a adotar “economia-mundo” e “sistema-mundo”. Trata-se. Nessa linha. e enquanto sistema global (global system). A mudança. o objeto de sua atividade política (para assegurar ou transformar sua posição no sistema social) será primariamente dirigido ao estado do qual eles são um membro (“cidadão”) (WALLERSTEIN. no limite. A peculiaridade da economia mundial capitalista está no fato de que as fronteiras das estruturas políticas e econômicas são diferentes. consequentemente. denota-se um mundo sistêmico. À guisa de Wallerstein. que destaca-se por ter procurado compreender as origens das 3 É importante notar que Wallerstein. o autor observa que “os estados não se desenvolvem e não podem ser entendidos de outro modo que não dentro do contexto de desenvolvimento do sistema mundial” (WALLERSTEIN. no fundo.

“economias-mundos”4 capitalistas, combinado um olhar simultaneamente histórico
e geográfico.
Os nossos pontos de vista [o dele e o de Wallerstein (1974)] quanto ao
essencial são idênticos, ainda que para Immanuel Wallerstein, não haja
outra economia-mundo além da da Europa, fundada a partir do século XVI
somente, enquanto que para mim, muito antes de ter sido conhecido pelo
homem da Europa na sua totalidade, desde a Idade Média e mesmo desde
a Antiguidade, o mundo já estava dividido em zonas econômicas mais ou
menos centralizadas, mais ou menos coerentes, ou seja, em várias
economias-mundos, que coexistem (BRAUDEL, 1985: 54, grifos do autor).

Ainda nos anos setenta, na Alemanha, Niklas Luhmann também esforçavase por desenhar os contornos daquilo que chamou, num artigo que data de 1971,
a sociedade mundial ou global (Weltgesellschaft)5. Trata-se também de uma
tentativa de compreensão sistêmica de fenômenos de maior amplitude. Há aqui,
4

O plural é economias-mundos (com “s” no fim do nome e também do atributo). A mesma
observação feita a respeito de Wallerstein vale para Braudel, que justifica sua preferência da
seguinte maneira: “por economia mundial entende-se a economia do mundo considerada em seu
todo, o 'mercado de todo o universo', como já dizia Sismondi. Por economia-mundo, palavra que
forjei a partir do vocabulário alemão Weltwirtschaft, entendo a economia de somente uma parte do
nosso planeta, na medida em que essa porção forma um todo econômico, […] um mundo em si
mesmo” (BRAUDEL, 1985: 53). O livro, embora publicado nos anos oitenta, corresponde à
reprodução de conferências proferidas na Universidade John Hopkings, nos Estados Unidos, ainda
em 1977. Quanto ao uso do termo, Braudel esclarece que essa foi uma opção sua ao construir sua
formulação. Contudo, no conjunto do debate que se desenvolve mais tarde, sobre a globalização
propriamente, creio que essa distinção tenda a ser borrada. O mundial (assim como o global) tende
a tornar-se atributo inexorável. Por isso traduzo um Kompositum germânico da mesma natureza
que é a Weltgesellschaft por “sociedade mundial” (assim como o farei, sobretudo a partir do quarto
capítulo, com a “sociedade de risco mundial”, que entendo como um equivalente apropriado, em
língua portuguesa, para Weltrisikogesellschaft).
5

O termo “global” parece ter sido sempre preferido pelo fato de o debate ter se iniciado
majoritariamente entre os anglófonos, que usavam termos como “global studies”, “globalization
(USA)/ globalisation (GB)”, “glocalisation” e “globality”. Na França, por exemplo, onde o debate
anglo-americano sobre a globalização não causou tão grande impacto num primeiro momento,
utiliza-se, ainda atualmente, quase que apenas o termo “mondialisation”, sem diferenciações claras
de significado. Quanto à distinção proposta por Braudel (ver nota 4), traduzo por sociedade
mundial (e não sociedade-mundo), porque não se trata de sistemas-mundo conectados, mas de
uma sociedade sistêmica de âmbito mundial.

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no entanto, uma dissonância em relação a Wallerstein e Braudel. O interesse de
Luhmann está menos na economia, ou no lugar da sociedade mundial
(Weltgesellchaft) na história, e mais na configuração de novos horizontes de
mundo (Welthorizonte) e de tempo (Zeithorizonte). Pode-se dizer, nesse sentido,
que Luhmann foi o grande pioneiro de uma sociologia da globalização. Sim,
Luhmann esforçava-se por observar aquilo que seria, anos mais tarde,
problematizado por cientistas sociais em diversas partes do globo: a sociologia já
não podia mais precisar as fronteiras das sociedades humanas e, nessa medida,
até mesmo o conceito de sociedade deveria ser questionado. Luhmann percebe
que há um conhecimento cada vez maior sobre os outros seres humanos, bem
como das possibilidades de interação. Isso aliado à observação de que o
conhecimento científico, assim como transações comerciais e um tipo de opinião
pública, teriam logrado alcançar uma dimensão planetária, configurando uma
civilização em trânsito contínuo. Sobre esse aspecto, talvez o leitor se recorde dos
escritos do canadense Herbert Marshall McLuhan (1962, 1964, 1968) que
apresentava a célebre noção do mundo como uma aldeia global (global village),
fundamentada no espraiamento das possibilidades de comunicação, forjadas com
a informatização. Uma comparação talvez fosse possível, de certo modo, já que
essas reflexões datam quase da mesma época. Mas ocorre que, para Luhmann, a
Weltgesellschaft não se constituiria através do fato de que cada vez mais pessoas,
não obstante a distância espacial, mantêm contatos presenciais elementares.
Esse seria apenas um aspecto (até mesmo secundário) dos fatos. Para Luhmann,
toda interação constituiria um “e assim por diante” [“Und so weiter”] de outros
contatos dos interlocutores [Partner], envolvendo possibilidades que escapam às
interdependências mundiais e que incluem também controle ou direção para essa
interatividade [Interaktionssteuerung] (LUHMANN, 1975: 54)6.

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Tendo em vista o caráter geral desta introdução, não caberia uma abordagem detida de nenhum
desses autores. Alguns aspectos da sociologia luhmanniana da globalização serão retomados no
sexto capítulo (no item 3 da segunda seção, em particular), mas vale notar que O. Thyssen

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Pode-se dizer que Luhmann, Wallerstein e Braudel tenham sido, cada qual
a seu modo, os grandes precursores do debate sobre a globalização nas ciências
sociais. A título de nota, no entanto, vale observar que há textos ainda mais
antigos, como o de Trygve Mathisen (1959), que já procurava identificar a
existência de uma sociedade mundial (world society), entendida como capaz de
abarcar o mundo todo em termos de organizações não-estatais, posta em
oposição ao âmbito das organizações internacionais, que configurariam uma
espécie de sociedade internacional (international society), na qual apenas atores
estatais seriam representados. Outro texto pioneiro foi o de Wilbert Moore (1966),
que talvez tenha sido o primeiro a publicar um ensaio sobre uma Sociologia de
dimensão global. E, para concluir esse ponto, vale mencionar que, curiosamente,
antes mesmo de Mathisen e Moore, ainda em 1941, o jovem Marshall Hodgson,
interessado nas possibilidades histórico-metodológicas de um estudo das
civilizações em um “contexto global”, escreveu uma carta na qual utiliza o termo
global num sentido muito próximo ao que lhe atribuímos contemporaneamente7
(HODGSON, 1993: xiii-xiv; REHBEIN & SCHWENGEL, 2008: 11). Como dito, não
havia um ambiente acadêmico propício o suficiente para essa discussão. Não
obstante, esses e outros trabalhos têm o mérito de anunciar os termos de um
debate que ainda estava por vir.

dedicou um paper à temática (cf. THYSSEN, 2006), e também eu tive ocasião de escrever mais
detalhadamente a respeito do caráter precursor dos trabalhos de Luhmann sobre a globalização
(cf. ARNAUT, 2012b).
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Segundo Edmund Burke III, quem organizou o livro para publicação, essa carta, que não fora
publicada na época, teria sido um gérmen para um trabalho de Hodgson intitulado The unity of the
World History. Este, por sua vez, também nunca foi publicado. Na obra que cito (HOGDSON,
1993), a terceira parte corresponderia, segundo o organizador, aos três últimos capítulos daquele
trabalho. Embora valha a pena mencionar a existência desses escritos, é importante perceber que
sua publicação é póstuma, e efetuada muito depois da sua concepção. Desse modo, não podem
ser vistos como textos que influenciaram o debate. Pode-se dizer, inclusive, que seu impacto foi,
efetivamente, muito pequeno, tendo permanecido quase desconhecidos no período entre a morte
do autor (1968) e a emergência dos estudos sobre a globalização no âmbito das ciências sociais.

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O que estava em pauta era a oposição modernidade versus pós-modernidade. Naquele momento. […] Os textos sobre a globalização têm outro perfil. “Com exceção da perspectiva dos ecólogos. qual a melhor maneira de se inserir no seu interior (ORTIZ. esse percurso não se inicia nas Ciências Sociais. o tema [da globalização] era parte das preocupações do industrialismo contemporâneo. O que se deseja entender são os mecanismos da nova ordem mundial. as ciências sociais também ocupavam-se com as transformações da sociedade pós-industrial. foi mais abrangente. do que propriamente a de perceber suas estruturas. característica da primeira. os limites do universalismo num mundo no qual o particular se redefine. que. mas de outro modo. já no fim dos anos 1980. 10 . 2009: 234-235). por uma presença: a discussão sobre a pós-modernidade. assim como entre os homens e mulheres de negócio e de marketing. era muito mais a de compreender o funcionamento de um mercado de âmbito mundial. que faziam uma espécie de apologia ao mercado “livre”. diante do pluralismo atribuído à segunda. porém. o debate emerge e começa a tomar corpo e ganhar densidade. […] Uma constatação se impõe: as duas tendências evoluíam em registros diferentes.II. como ela se estrutura. A ausência de uma reflexão sobre a globalização é preenchida. A emergência Após esses primeiros movimentos. A padronização. os impasses da liberdade. e vicejava entre aqueles que defendiam as estratégias das corporações transnacionais” (ORTIZ. processos e relações. A intenção. Elas não se cruzavam. desde o início. mas entre os administradores de empresas. eles são de natureza mais sociológica do que propriamente filosófica. o que corresponde a um interesse fundamentalmente ideológico. […] A temática da pós-modernidade possui uma dimensão filosófica abrindo-se para o horizonte da crítica da Razão. Curiosamente. economicista. no entanto. 2006: 10).

quando (como coloca Ortiz) o tema ganha identidade – ainda que preferencialmente na Europa e nas Américas. sobre esse ponto. cara à filosofia e às artes. sem dúvida. no fundo. podese dizer que trabalhos como os de Renato Ortiz (1988. segunda seção. 1994: 40. e um ponto de vista mais descritivo. grifo do autor). 1999). setores de todas as sociedades. o leitor deve notar que me refiro tanto aos Estados Unidos. 2000). pode-se dizer que as ciências sociais entraram efetivamente no debate sobre a globalização em meados dos anos 1990. ela não pode constituir o único objeto de uma análise antropológica ou histórica que leve em consideração a pluralidade e a diversidade do real” (AUGÉ. Nesse contexto. a ideia da globalização carrega em si o pressuposto de um fenômeno que envolve a “todos” no mundo. Sim. pautadas na dependência de (e também na busca por) um imaginário e um corpo histórico-conceitual modernos. os processos de globalização. Milton Santos (1994. não só de perceber que a afirmação das diferenças não é suficiente para a superação de totalidades. característico das ciências sociais8. quanto à América Latina. é perceptível que a globalização 8 Retornarei a essa questão no capítulo sexto. 11 . o debate sobre a globalização não chega “atrasado” para os latino-americanos. Aliás. a despeito das limitações existentes. Ora. problematizaram. uns são mais globalizados ou globalizáveis que outros. desde muito cedo. Nessa linha. que ela afeta.Era importante “precisar que a condição pós-moderna não é a sociedade. Essa é uma observação invulgar. mas também de distinguir entre a esfera da normatividade. 1994). É claro que isso não se dá de maneira uniforme: evidentemente. ou Néstor Garcia Canclini (1990. No entanto. ou então que “ainda” não se realizaram. que “ainda” não pertencem aos nossos “tristes trópicos” (para falar como Lévi-Strauss). 1995). sob este aspecto. assim como os de Octavio Ianni (1992. tendo em vista a história e a formação do pensamento social latino-americano. Trata-se. porque do ponto de vista das ciências sociais. e que.

a globalização implica a ideia de uma compressão do tempo. a polêmicas a respeito de uma possível “homogeneização” do mundo. Colocada de outro modo. a globalização entra para a agenda do dia em qualquer discussão. por todo o mundo. a ideia implica a projeção para o mundo da compreensão ritzeriana de um fenômeno que é nacional (quando não específico de determinados setores. A McDonaldização do mundo seria. os quais dominariam cada vez mais setores da sociedade americana. Tanto de um ponto de vista empírico como de uma perspectiva teórica. O estabelecimento Nos anos 1990. esse tipo de observação (equivocada a meu entender) dá origem. Recordo-me. à medida que também se cria a impressão de que “tudo está globalizado” – o que não se dá. de certo modo. um processo pelo qual os princípios do restaurante fastfood. III. assim. A questão inicial era se o advento da 12 . a partir dos mais diversos enfoques e perspectivas. em especial. da sociedade estadunidense). alcançam o resto do planeta (RITZER. por exemplo. 1996). independemente de sua localização regional. 2009: 233-234). Trata-se de uma reformulação da teoria weberiana de uma racionalização e burocratização do ocidente que se estenderia para o mundo. de fato. as diferentes partes do planeta são atravessadas pelo seu fluxo (ORTIZ.se enraíza no solo no qual se nutre nossa experiência. da noção de “McDonaldização” do mundo. ainda que majoritários ou representativos. cujo maior representante é o americano George Ritzer. Isso não deixa de ser um problema. Ela pode então ser apreendida pelo pensamento. pois a defasagem temporal que existia anteriormente torna-se inexpressiva. Nesse conjunto de polêmicas também se insere uma inquietação frequente a respeito do futuro dos Estados-nação. A modernidade pressupunha uma temporalidade progressiva na qual a América Latina só encontraria lugar num momento futuro. em particular nas esferas da cultura e do consumo.

de um gabinete administrativo. ele não pode ser previsto com exatidão mesmo que as causas sejam conhecidas. o fim dos Estados nacionais9. e mesmo no “fim da história”. Vale a pena. na sua Fenomenologia. estará em plena positividade e viverá numa sociedade integralmente transparente. 1998: 65-67. […] Esta nova e desconfortável percepção das “coisas fugindo do controle” é que foi articulada (com pouco benefício para a clareza intelectual) num conceito atualmente na moda: o de globalização. O que será essa existência. como formulada por Francis Fukuyama (1992)10. ela não “evoluirá” mais. no sentido de que não criará mais nada de novo. Essas transformações é que passam. “Pode-se interpretála como extinção do tempo. Analiso algumas das dimensões centrais do Estadonação no atual contexto de globalização no quinto capítulo. para falar como Zigmund Bauman. O significado mais profundo transmitido pela ideia de globalização é o do caráter indeterminado e de autopropulsão dos assuntos mundiais: a ausência de um centro. Do ponto de vista do debate sobre a globalização. mas que se modificam com as transformações sociais. mais cedo ou mais tarde. Suas causas não são plenamente compreendidas. 9 A respeito do “fim” do estado nacional. fica cada vez mais claro que os Estados-nação não estão “desaparecendo”.globalização significaria. não poderia ser suprimido. 10 A ideia de fim da história já tinha sido abordada por Hegel. 1968: 153). que chegou a colocar o problema da seguinte maneira: Tudo isso cerca o processo em curso de “definhamento” das naçõesestados de uma aura de catástrofe natural. porém no seio do Estado mundial. Kenichi Ohmae (1995). A humanidade continuará devindo. de um painel de controle. a partir dos pensamentos de Octavio Ianni e Ulrich Beck sobre a Política na globalização. […] Semelhante ontologia não tem o menor sentido na concepção hegeliana. grifos do autor). e com certeza não pode ser evitado. convido o leitor a revisitar. O Ser (= Espírito). mesmo que previsto. Com o desenrolar do debate. então. Nessa mesma linha. citar a observação de François Châtelet quanto à significação ontológica da fórmula fim da História. de uma comissão diretora. A globalização é a “nova desordem mundial” de Jowitt com um outro nome (BAUMAN. como uma metáfora controversa e alvo de grandes mal entendidos a respeito do que seria a existência da humanidade no seio de um Estado mundial por vir. ou sua “expropriação”. refiro-me de modo mais direto a contribuições 13 . que é devir. aqui. é igualmente impossível imaginar” (CHÂTELET. podem ser encontradas apostas no “fim da geografia”. a ser problematizadas. entre outros.

muitas vezes. vale a pena indicar a de Jacques Derrida (1993. a globalização pode também ser concebida (como ruptura ou como continuidade) sempre enquanto um prenúncio do futuro. fim da história. no entanto.) vêm se desgastando. mais tarde. num momento de crise e incertezas. capítulo 2). Sim. por outro lado. É verdade que esses processos podem ser identificados em outras partes do mundo. tendencialmente. frequentemente. embora ainda permeiem um certo senso comum (mesmo nos meios acadêmicos): esbarram-se nas diversidades da humanidade. teses desse tipo (fim do estado. no curso do debate nas Ciências Sociais. uma dimensão heurística que não se deve ignorar. assim como. no futuro. um livro. no passado. De um modo geral. impreciso ou fugidio) dessas tentativas de descrição. a homogeneização que se torna possível como resultado das formas de consumo vigentes nos Estados Unidos ou em parte dele. mas não com a mesma força ou intensidade. Entre as diversas críticas a essa perspectiva. A linguagem metafórica nos permite uma aproximação mais livre do fenômeno à medida que dá nome ao que até então “não existia” para o intercâmbio do como a de Fukuyama. The End of History and the Last Man (1992). uma História como concebida por uma tradição também europeia. Um sintoma dessas dificuldades é o caráter quase sempre metafórico (e. Como veremos mais adiante. são sinalizados novos caminhos ou possibilidades para a inteligência dos processos que a globalização envolve e engendra. As ciências sociais deparam-se com o novo e precisam construir ou reformular referências. a meu ver. que se torna presente. homogeneização etc. pois com essas tentativas de descrição qualitativa transparecem as dificuldades para se compreender e explicar o fenômeno da globalização. publicando um curioso ensaio intitulado “The End of History?” (1989) e. Isso se dá.São pensamentos que alardeiam. Tais mal-entendidos envolvem. mas que contribuem pouco para a inteligência dos processos globais. que alcançou uma certa popularidade. 14 . porque projetam uma realidade local sobre as diversidades planetárias: um Estado-nação forjado numa Europa ocidental. que nos permite especular e duvidar dos estardalhaços inerentes à ideia do “fim”.

“terceira onda” (Alvin Toffler). processos. “sociedade amébica” (Kenichi Ohmae). o artifício que esclarece num segundo momento aprisiona o pensamento (ORTIZ. e muitas delas são insuficientes. pode-se ver a globalização como um tema recente. o que se ganha em evidência perde-se em precisão conceitual. Entretanto. ou caíram no esquecimento. 2006: 48). Fala-se da passagem de uma economia de high volume para outra de high value (Robert Reich). Por que esta recorrência no uso de metáforas? Elas revelam uma realidade emergente ainda fugidia ao horizonte das ciências sociais (ORTIZ. o uso de metáforas exige cautela. grifos do autor). e da existência de um universo habitado por “objetos móveis” (Jacques Attali) deslocando-se incessantemente de um lugar a outro do planeta. Ela possui a virtude de delimitar um contorno. em outros epicentros de um debate de proporções mundiais. Há um tempo das metáforas e outro do conceito. necessariamente. muitas dessas metáforas e neologismos não vingaram. as mais adequadas sob outros pontos de vista.pensamento científico. toda metáfora é um relato figurado. enquanto outros foram sendo ressignificados. Por isso. denso. Nesse sentido. pois é necessário passar da delimitação de um fenômeno para a análise de seus mecanismos. relações e estruturas 15 . como dito. Chama a atenção nesses textos a profusão de metáforas utilizadas para descrever as transformações deste final de século: “a primeira revolução mundial” (Alexander King). mas uma vez apreendido. Do ponto de vista sociológico. 1994: 14. “sociedade informática” (Adam Schaff). mas o fascínio da metáfora se deve à sua inteligência em captar um emaranhado de articulações que explicitam uma nova configuração social. Há sempre o risco de que o pensamento se perca na obscuridade de suas significações. cujos fenômenos. “aldeia global” (McLuhan). ao torná-lo visível. Toda metáfora implica um conjunto de referências que não são. Pode-se discordar do conteúdo das análises do autor. Não obstante. as sombras se projetam no seu interior.

Por fim. não só um recorte coerente e uma demarcação precisa desse objeto de estudo. Além disso. porém. constituindo referências para a inteligência da problemática da globalização11. vários trabalhos concebidos com o objetivo de elencar autores que se dedicaram ao tema da globalização e suas contribuições principais. que organizaram uma coletânea de três volumes com ensaios críticos de diversos estudiosos sobre questões ligadas à problemática da globalização. Uma vez reconhecida a existência da globalização. assim. a grande dificuldade passa a ser a de qualificá-la: a globalização envolve. integrativo e abrangente. a atitude mais frequente nas pesquisas que envolvem a problemática é alocar a globalização à 11 Neste capítulo introdutório. recomendo um artigo de Berking (2008). Foram relativamente poucos os que enfrentaram o desafio de teorizar a globalização. surgem incontáveis publicações. Há. 16 . O espanto inicial dá lugar a um crescente esforço no sentido de compreender e explicar fenômenos em perspectiva global. O tema da globalização. Há. Essa passa a ser. outra referência importante seria Robertson e White (2003). propondo definições e conceitos de modo claro. ainda que mais antiga. Por isso.escapavam (e ainda escapam) à compreensão a partir do patrimônio teórico das ciências sociais. Outro trabalho bastante recomendável é o de Rehbein e Schwengel (2008). estruturas e relações. que foi escrito para tornar-se um verbete de um manual de sociologia. ideias. um problema de explicação. Engel e Middell (2010) também é uma referência interessante. Assim. apontando fatos significativos para a inteligência de suas questões. procurando interpretar seus fenômenos. o mundo é evidentemente grande e estudá-lo exige sempre. captar a realidade de uma maneira aguda e abrangente ao mesmo tempo. razões para isso. apresenta-se demasiado complexo. seminários e estudos envolvendo o tema. organizado a partir de alguns dos conceitos (ou metáforas) produzidos ao longo do debate. como um conjunto de recursos que nem sempre estão à disposição dos pesquisadores. gradualmente a tônica do debate. optei por uma abordagem mais sintética e qualitativa. processos. como quase tudo que diz respeito à nossa contemporaneidade. de certo. de modo que se torna cada vez mais difícil apreender. ainda que de modo preferencialmente indireto. Entre eles. embriagando a percepção com uma profusão de imagens. embora não haja um compromisso com os desdobramentos do debate nas ciências sociais nos moldes em que eu os apresento aqui.

Assim. chegam a afirmar que os autores. buscando identificar os momentos decisivos de uma história da globalização. Eles têm razão. Assim como a globalização pode ser entendida como uma situação histórico-social. e é precisamente a essa lacuna que se dirige esta dissertação. Osterhammel e Petersson (2007). 17 . Aqui costuma estar o gancho para fechar o recorte analítico do estudo. Por fim. os autores e seus trabalhos estão. um terceiro critério foi o de que fossem autores provenientes de contextos distintos.posição de simples estratégia argumentativa. No atual contexto de revisão de referências e formulação de novas categorias interpretativas. como é de se esperar. indicando mais ou menos explicitamente que não haveria a intenção de “açambarcar o mundo”. isto é. a qualidade e o refinamento teórico das obras. nas quais a globalização aparece (geralmente nos últimos capítulos) como um fator que possivelmente ampliaria os desafios de uma outra questão. para que se pudesse evidenciar sua alteridade de modo analiticamente profícuo. torna-se relevante o trabalho de revisão crítica dessas contribuições. que fomentassem e orientassem o debate. parecem embaralhar referências quando se trata de abordar esse fenômeno que dá nome à nossa época. como uma espécie de abordagem enriquecedora que pode dar ares cosmopolitas a um objeto determinado12. situados nessa globalidade. O primeiro deles foi. Escolhi duas delas para compor a minha análise: a de Octavio Ianni e a de Ulrich Beck. encontramos inúmeras obras. abrangentes ou propriamente globais. ambos os autores tornaram-se referências importantes para qualquer estudo sobre o tema. de interesse naquela dada obra. 12 Voltarei ao tema dos discursos de globalização na primeira parte do sexto capítulo. de um conjunto maior de estudos mais fundamentais. de maneiras diversas. O segundo critério foi o impacto provocado por elas no debate. versando sobre os mais diversos temas. de algum modo. A escolha foi pautada basicamente em três critérios. uma parte significativa dessas atitudes poderia ser entendida como advinda da ausência de um arcabouço teórico mais consolidado. Ora. qualquer que seja. Embora de modo assimétrico.

Mas como se constrói uma reflexão dessa natureza? Esse é o tema do próximo capítulo. percorrendo trilhas de pensamento e sensibilidade que parecem situar-se entre a visão de mundo e a visão do mundo. introduzir o leitor à atitude intelectual que orienta a construção do presente trabalho. isto é. entre a representação da própria aldeia e a dos processos efetivamente globais. que visa.Essa é a atitude que adotei ao esforçar-me por compreender e interpretar os elementos basilares de suas teorias. 18 . após essa concisa apresentação do debate sobre a problemática da globalização nas ciências sociais. Meu objetivo foi observar o desenho desses conceitos e concepções.

Capítulo II Sociologia da Sociologia Notas sobre um percurso 19 .

De certo modo. É muito menor.] Sim. A rua é enorme. 13 Drummond de Andrade (1940). aliás. O mundo é grande. este capítulo divide-se em quatro etapas. cabe abordar também a construção da própria pesquisa (II). Em seguida. Por fim. O que se segue não corresponde a um conjunto de teorias. teses ou diagnósticos a respeito da globalização. Maior. [. seria até possível afirmar que a globalização.. meu coração não é maior que o mundo. 13 Carlos Drummond de Andrade Após esse breve histórico da constituição dos processos de globalização como uma problemática para as ciências sociais. Nessa linha. Só agora vejo que nele não cabem os homens.. meu coração é muito pequeno. Partindo do que é apresentado neste e no capítulo anterior.Não. Nele não cabem nem as minhas dores. convido o leitor a refletir sobre a prática interpretativa de explicações sociológicas como as abordadas aqui (IV). 20 . A rua é menor que o mundo. Com base nisso. estão na rua. muito maior do que eu esperava. “Sentimento do Mundo”. Os homens estão cá fora. a última etapa desta exposição já pode corresponder a uma introdução à dissertação como um todo (V). trato da própria construção do objeto da pesquisa que deu origem a esta dissertação (I). Mas também a rua não cabe todos os homens. Primeiro. em si. nem mesmo constitui o objeto principal desta reflexão – e precisamente aqui mora a sua originalidade. procuro compartilhar algumas das dificuldades procedimentais no trato dos escritos trabalhados (III). cabe uma introdução ao caráter intelectual do presente trabalho.

cuja propriedade seria 14 Entre eles. Martell (2010). quanto menos pleitear o status de originalidade para um trabalho desse caráter. Mas é curioso notar que as referências conceituais e bibliográficas. 16 Confusões desse tipo serão tematizadas especialmente nos capítulos 5 e 6. sobretudo a partir dos anos 1990. ou de caráter introdutório ao tema. al. destacam-se Ortiz (2009). A cognição de processos globais como objeto Já existem bons trabalhos sobre a história do debate a respeito da globalização. Ianni (1994). É claro que eu poderia reivindicar o álibi do afastamento no tempo. mas ainda assim talvez não fosse capaz de dissipar a nuvem babélica em que se transforma o debate quando. sob diferentes abordagens14. conquanto numerosas. Beck (1997). para que se respeitasse o rigor de uma pesquisa detida. Como veremos mais adiante. eles acompanharam de perto ou participaram ativamente da constituição da globalização como problemática sociológica. Kreff et. tendo em vista esse quadro. como dito15. (2011). Sendo um pesquisador jovem e ainda inexperiente. Diante dessa dificuldade. Brock (2008). 15 Ver capítulo 1. 21 . o que poderia ser feito? Ora.I. não poderia sequer aproximar-me do alcance intelectual daqueles comentadores. Berking (2008). Sassen (2007). os pesquisadores se convencem do caráter efetivo dos processos globais e começam a esforçar-se para qualificá-los. Robertson (2001). Afinal. É que. Rehbein e Schwengel (2008). Santos (2002). há poucos trabalhos que de fato orientam o debate – e isso é evidente a tal ponto que parte dos comentadores são também autores! Assim. Steger (2003). Mas tratava-se de um tema muito amplo e que. em quase todos os casos. Engel e Middell (2010). variam relativamente pouco. não me pareceu frutífera a ideia de elaborar um novo “panorama” do debate. a confusão é tamanha que uma mesma palavra ou expressão pode ter significados bastante distintos16. envolveria intermináveis análises comparativas. a própria “babelização” em que se insere o debate já poderia ser um recorte.

sempre alvo de questionamentos, já que envolveria complexas e, no limite,
insolúveis dificuldades de tradução. Assim, embora o problema das palavras
esteja sempre presente nos estudos sobre globalização (e seja tratado, no
presente trabalho, em alguns de seus aspectos), ainda penso que ele não seja,
em si, um tema de pesquisa palpável para uma dissertação de mestrado. O que
denomino aqui, e muito livremente, “o problema das palavras” envolve, no entanto,
uma questão basilar. Como ensinam alguns estudiosos da linguagem, nomear
significa categorizar. Ou seja, quem dá nome a algo, materializa, em sons ou
escrita, um pensamento. Assim, por exemplo, um livro qualquer poderá ser
percebido por alguém como um “livro” à medida que essa pessoa tenha em mente
categorias que lhe permitam, após captar a existência de um objeto determinado,
compreendê-lo como um “livro”; nessa mesma linha, este poderá também ser
enunciado como um “livro”, na medida em que o falante (ou escritor) disponha do
termo “livro”, ou equivalente, em seu patrimônio lexical. De modo extremamente
resumido, essa é uma das maneiras de se descrever aspectos relativos à
cognoscibilidade do ente “livro”17.
Seguindo esse raciocínio, já é possível começar a compreender o olhar
sociológico que norteia este trabalho. A globalização, sendo um fenômeno novo,
precisava ser qualificada, nomeada, categorizada e, precisamente por isso, era
necessário que houvesse empreendimentos no sentido de sua cognição. Esse é
um ponto. Nomear a globalização, os processos globais e aspectos envolvidos
significa tentar compreendê-los. Mas há um elemento do qual não se pôde ainda
escapar: o fato de que o objeto dos estudos globais é, no limite, “o mundo”. E,
como ninguém é capaz – ao menos em princípio – de conhecer “o mundo” e tudo
17

Essa abordagem da problemática da cognição de um ponto de vista linguístico é demasiado
sucinta. Ela destina-se apenas a tornar mais palatável a apresentação do modo pelo qual a
cognoscibilidade de processos globais pode ser trabalhada como um objeto da investigação
sociológica. Referências clássicas sobre esse ponto são os trabalhos de Barthes (1965), Bourdieu
(1982), Derrida (1996), Ducrot (1980), Orlandi (1990, 2007), Saussure (1916), entre outros.

22

que há nele, também a globalização, enquanto objeto de pesquisa, seria, a priori,
uma implausibilidade.
Esse paradoxo que envolve o conhecimento de algo aparentemente
insondável foi o que me motivou a realizar as pesquisas que deram origem à
presente dissertação. Ora, malgrado uma impossibilidade manifesta que
caracteriza a apreensão do fenômeno em sua real dimensão, saltava aos olhos o
fato de que os investigadores que encabeçaram os estudos globais não eram
neófitos

entusiastas,

mas

pesquisadores

do

mais

alto

gabarito

que,

frequentemente, já tinham renome e mesmo uma obra18. Assim, eles conseguiam
abordar a questão tendo em vista a força e o impacto das transformações e, com
base no que conheciam, isto é, no patrimônio intelectual que haviam acumulado
em décadas de estudo e pesquisa, puderam, cada qual a seu modo, explicar
alguns dos aspectos da globalização, prever desdobramentos, qualificar o caráter
das transformações envolvidas. Não diziam tudo, mas sempre diziam alguma
coisa.
Esse substrato de aparentes paradoxos parecia apontar para uma
dimensão ainda não investigada pelas ciências sociais: a própria cognoscibilidade
de processos globais. Do ponto de vista sociológico, isso significa superar o tom
histórico-narrativo da maioria dos bons trabalhos de balanço do debate (algo
como: o autor X combateu a ideia do autor Y, que haveria supostamente
compreendido mal um dado fenômeno, mas logo após Z propôs uma solução que
se mostrou mais adequada etc.). Uma abordagem como essa exige um
conhecimento bastante detalhado de nuances do próprio debate que dificilmente
seria adquirido no tempo de um mestrado e, dessarte, dificilmente eu poderia
rivalizar com as narrativas dos pesquisadores experientes. Por outro lado, um
recorte baseado na própria cognoscibilidade dos processos globais permitiria
18

Ver capítulo 1 e recordar a nota 14, no presente capítulo.

23

escapar à forma enciclopédica de certos trabalhos, interessados mais em elencar
as contribuições, teorias, conceitos, diagnósticos etc., e menos em situá-los no
conjunto de reflexões produzidas. Contribuições dessa natureza têm, é claro,
utilidade introdutória, mas padecem de enorme superficialidade e de alguma falta
de “espírito”. O objetivo deveria ser distinto. Tratava-se de tentar recuar às
condições de possibilidade de elaboração dos trabalhos que, em conjunto,
estavam fundando um novo campo, cuja identidade tem sido cada vez mais
estavelmente afirmada: a Sociologia da Globalização. Sim, a ideia de investigar as
possibilidades de cognição da chamada globalidade permitiria, e permitiu, situar a
reflexão no campo do que se poderia chamar de Sociologia da Sociologia, ou
Sociologia do próprio conhecimento sociológico.
Estudar o que denomino cognoscibilidade de processos globais significa
fundamentalmente perscrutar os elementos que orientam a inteligência dos
fenômenos globais e a criação sociológica ali envolvida.
E como isso poderia ser feito? Essa é uma questão que ainda persiste: a
realização desse trabalho envolveu algumas tentativas de aplicação metodológica
malogradas, mas houve aquelas que surtiram algum efeito. Voltemos os olhos por
alguns momentos a esse modus operandi da investigação.

II. Sobre a construção da pesquisa
Um objeto como a cognoscibilidade de processos globais deve, certamente,
envolver o exame de tentativas de cognição, bem como da criação sociológica que
elas suscitam. Na impossibilidade de estudar todos os trabalhos produzidos com
esse propósito, coube operar um recorte metodológico. Como dito, parecia
imprescindível escolher autores que tivessem, por um lado, ao menos tentado
elaborar teorias da globalização e, por outro, influenciado e marcado o debate
24

em investigar pistas sobre certos elementos que orientavam. contentei-me. bem como todas as limitações metodológicas que uma iniciativa desse tipo implicaria. a própria construção do objeto de pesquisa afastava qualquer tentativa de compreender “a obra” de um autor.sobre a globalização a partir de uma visão integrativa. envolve escolhas em meio a uma gama de elementos que possibilitam a inteligência de aspectos desses fenômenos. enquanto um pesquisador situado em um certo ponto dessa globalidade (em local. 2008. coerente com a própria construção deste objeto de estudo. pareceu adequado recortar ainda mais o escopo da pesquisa e delimitar um corpus. 2004. A intenção não era enclausurar a reflexão nessas referências. É claro que o fato de serem dois implica o dobro do trabalho e dificuldades multiplicadas. 2010) eram os escritos que constavam no projeto de pesquisa. (Como veremos. por outro lado. 2004) e Beck (1986. Primeiro. delimitar um material de trabalho condizente com o tempo e os recursos disponíveis. Em suma. 25 . 2002. a possibilidade de acompanhar trilhas distintas de pensamento e sensibilidade de maneira a estabelecer contrapontos. 1994. o trabalho com dois autores permitiu manter à vista o fato de que a cognição de fenômenos sociais. deve-se considerar que cada autor se vale de suas próprias categorias. 1996. em cada um dos 19 Ianni (1992. Escolhidos os dois autores. Além do mais. antes. os caminhos tomados podem ser muito díspares). e particularmente os planetários. O termo “contraponto”. campo intelectual e realidade social específicos). Nesse sentido. Além do mais. como dito. Acreditando que jamais seria possível compreender “um autor” ou “sua obra”. 2000. aliás. 1997. mas esse recorte permite estabelecer. de um ponto de vista metodológico. seria ingênuo pensar que eu poderia posicionar-me de maneira equânime em relação a cada autor. mesmo quando as referências parecem ser as mesmas. mas. selecionei dois deles – Octavio Ianni e Ulrich Beck. pontos de vista e recursos de imaginação. é fundamental aqui. uma certa “alteridade” que representa. Este foi composto inicialmente de onze textos19.

abordagem “contextual”. pelos seguintes rótulos: abordagem “textual”. a cognição de processos globais. no decorrer das últimas décadas. era preciso encontrar um modo profícuo de proceder na investigação. busca-se compreender a sua lógica interna20. em sentido amplo. em busca de sua lógica interna e. uma maneira profícua de enfrentar os escritos e escrever sobre eles. entre outras operações práticas da rotina de pesquisa aprendidas nas cadeiras dos cursos de ciências sociais não se mostravam suficientes. e. de outro. de um lado. esse tipo de atitude parece mais presente em textos filosóficos. sistêmica. O que se denomina abordagem textual indicaria. como o próprio nome diz. mas sim de como pensar! Era preciso compor um horizonte de ideias que orientassem a construção do corpus e permitissem uma certa atitude de leitura. Parte-se da ideia de que um determinado escrito comportaria um pensamento. e. a própria análise desses textos a partir de um enfoque como esse representou um desafio. dessarte. Entretanto. especialmente entre aqueles que trabalham com teoria social. Note-se que não se tratava de questionar a maneira pela qual se deveria ler (à moda dos manuais de pesquisa científica). Textos e contextos: a abordagem do corpus Antes mesmo de construir o objeto de pesquisa de modo satisfatório. um enfoque preferencialmente restrito a textos. através dos textos produzidos a esse respeito. Grosso modo. em um sentido particular. O problema que se apresentava era de natureza modal. fichamentos. No Brasil. há escritos introdutórios a esse olhar rigoroso sobre o texto. elas podem ser identificadas. É que a simples leitura atenta. III. são 26 . Pode-se dizer que haja pelo menos duas maneiras predominantes de se trabalhar textos como os enfrentados aqui. tomada de notas. Martial Gueroult (1979) chega a 20 Essa atitude pode ser encontrada nos trabalhos de importantes autores das ciências sociais.casos.

É claro que uma afirmação desse tipo pode parecer abstrusa para um sociólogo. que no caso dos trabalhos de Ianni e Beck. mas contínua. de alguma maneira. uma certa atitude “textualista” pode revelar-se profícua à medida que orienta a pesquisa. No fundo. e também das demais sociologias da globalização. uma realidade e a institui.afirmar. Não há espaço para tratar dos trabalhos desses autores aqui. os pensamentos desses autores sobre a globalização encontram-se ligados ao curso da história e. sistemas dedutivos de causalidades e efeitos. um autor como Gueroult ensina que. com os limites de sua própria percepção. um texto filosófico – seria um monumento que abarca ideias de um autor (no caso. Como mencionado. Afinal. Deve-se considerar. Contudo. porém. 27 . pois eles estão situados num debate histórico sobre a legitimação disciplinar história da filosofia. por exemplo. em particular. 1979). aqui. uma realidade. importa. e as sociologias da globalização são também sociologias da mudança. tampouco demonstrações argumentativas suficientemente detalhadas para que se pudesse proceder uma investigação orientada pela suposição de que em algum momento “tudo faria sentido”. ela própria. assim. travam uma luta discreta. os de Victor Golschmidt (1963) e Martial Gueroult (1953. é próprio do raciocínio sociológico o certamente. especialmente entre os de natureza filosófica. Por um lado. tal abordagem me parece infrutífera: dificilmente se poderia sustentar que haja. tudo está em suspenso. aqui. observar seu interesse na compreensão da lógica interna dos pensamentos que estariam materializados nos textos. Não. uma obra pode ser vista como um monumento que cria. Não cabe aqui a investigação dessa hipótese. em que seja possível encontrar um sistema interno inteira e rigorosamente coeso e coerente. que a obra filosófica – isto é. como veremos. embora haja outros. Talvez até haja escritos. Cabe lembrar. por outro lado. de um filósofo). é possível questionar se textos expressariam de fato e necessariamente pensamentos dotados de coerência. conferindo-lhe um foco mais restrito: a materialidade dos textos. em geral. instituindo. porém.

item 1. 1. 22 Retornarei à problemática da realidade no sexto capítulo. é possível compreender a escrita sociológica como um exercício de registro de realidades (de “taquigrafar a máquina do mundo”. 28 .embasamento na realidade efetiva21. Ele pode ser visto como um espectro da realidade – algo como o conhecido tipo puro ou ideal (reiner Typus ou Idealtypus) de Max Weber – através do qual é possível compreender (verstehen) suas conformações e movimentos. I. perguntar-se-á o leitor. No entanto. em especial. 23 Refiro-me aos célebres princípios metodológicos (Methodische Grundlagen) da sociologia compreensiva weberiana. T. Ora. desprendendo-se por vezes da solidez dos processos sociais rigorosamente observados. cabe observar que ela diz algo sobre a natureza dos escritos abordados nesta dissertação. seção II. Conferir. No caso dos estudos sobre globalização em particular. seção II. é como se o raciocínio sociológico alçasse voo. diria Octavio Ianni). Mas atenção: isso não significa que o registro se confunda com “a” realidade. I. qualquer abordagem intelectual a seu respeito incorre. a fim de alcançar uma visão mais ampla e integrativa. diante de um objeto cujo efetivo alcance não é dado à percepção humana. Nesse sentido particular. ver capítulo 6. em um certo grau de criação e instituição da realidade22. enfatizando algumas de suas características eletivamente23. baseado na seguinte questão: qual o papel dos contextos nesses trabalhos? 21 Sobre a diferenciação entre realidade efetiva e especular. §1. uma amplidão como essa é evidentemente inalcançável no peu à peu da investigação empírica. Com efeito. os trabalhos sociológicos sobre globalização) num horizonte estritamente teórico-normativo? Para examinar essa questão. tendo em vista os processos globais como objeto. No entanto. 6). seria possível enquadrar os trabalhos de Ianni e Beck (e. é preciso voltar aos textos com um olhar diferente. item 1. Weber (1922. mais genericamente. por princípio. a despeito de seus propósitos e conclusões.

expressam. interferindo na cognoscibilidade dos fenômenos e das ideias sobre eles. Os contextos interceptam a cognição. delimitam. nutrindo-a de maneiras específicas. em Ianni e Beck. a observação dos processos de globalização se dá. de modos distintos e. como isso se dá na prática do trabalho com textos? Contextos podem disfarçar-se por detrás das palavras. ganham nomes parecidos. Esse conjunto de elementos corresponde ao que se denomina contexto (ou cotexto): eles marcam a produção textual e persistem nela. Weber. registram. interferem também na sua percepção e compreensão por parte de terceiros.Um olhar sociológico sobre um pensamento sociológico não pode desconsiderar que tanto um quanto outro partem de determinadas condições. Sim. a distância situacional interfere na cognição do fenômeno. mas isso não quer dizer que coincidam. da existência de uma certa dissintonia entre pensamentos provenientes de diferentes contextos. são as mesmas palavras que ludibriam a percepção. debates americanos etc. exemplos em comum. isto é. as compreensões que se possam projetar sobre eles. Sim. E o que isso significa para os nossos propósitos? Ocorre que uma ideia como essa permite-nos suspeitar. malgrado haja referências semelhantes em diversos momentos (Marx. Porém. estruturas ou relações categoricamente distintos. os elementos contextuais vigem e operam nos próprios pensamentos e. Um caso 29 . alusões aos mesmos epicentros do debate. conferem precisão. De fato. Pode-se dizer que eles se tornaram o que são por meio de escolhas entre outras possibilidades. E é razoável afirmar que tais características advenham de dinâmicas e ocorrências existentes nos lugares ou campos em que tais pensamentos foram mentados – o mesmo valendo para os olhares. as palavras que esclarecem. além disso. como veremos nos capítulos seguintes. já num plano conceitual. os contextos parecem às vezes os mesmos. Dito de modo mais enfático.). É assim que um mesmo vocábulo pode denotar processos. Esse raciocínio parece razoavelmente compreensível de um ponto de vista conceitual.

Nessa linha. e também no que tange àqueles pensamentos empenhados em compreendê-los. precisamente por apresentarem uma tendência à sobrevalorização do horizonte (ainda não inteiramente efetivo) do mundo como “um só mundo”. ele denota. o mais próximo possível. recomendo os trabalhos de Skinner (1978. através das quais realizam-se as tentativas de comunicação25. É claro que investigações a respeito das causas desses malentendidos. isto é. e malgrado distâncias contextuais de linguagem. em que se questiona. é possível dar um passo adiante e buscar refletir sobre o que fazer com os frutos do trabalho conduzido paralelamente a essas reflexões. uma ideologia e. 2002) e Pocock (2009). Importa. não obstante. Também relevantes são os aportes de Luhmann sobre a formação sistêmica de campos por comunicação dadas em contextos específicos – ver. um processo24.exemplar de mal-entendidos dessa natureza é a significação do vocábulo “globalismo” – como veremos. 25 Creio que não valha a pena recuperar aqui os meandros dos trabalhos sobre a chamada “virada contextualista”. Derrida (1996. 30 . Ao leitor que por ela se interesse. 1999) observou que traduções são um problema de leitura. sua relação com os contextos em que se inserem e os pensamentos que os originam. aquilo que está sendo efetivamente enunciado. como formulou Derrida (1999). cabe recordar um debate dos estudiosos de tradução. acompanhada da desatenção às especificidades histórico-sociais dos contextos que se materializam nas diversas línguas e linguagens. bem como sobre a problemática da tradução numa situação de globalização não podem ser adequadamente discutidas aqui. ligados à conhecida Escola de Cambridge de filosofia da linguagem. chamar a atenção para uma certa babelização em que frequentemente os estudos globais se encontram imersos. para Ianni. “o que é uma tradução relevante”. entre outros. o tipo de realidade mental que podem instaurar. em especial. para Beck. da (in)capacidade por parte do tradutor de compreender. 24 Ver capítulos 3 e 5. Por fim. Luhmann (1997). Uma vez observadas algumas das questões que envolvem a abordagem de textos como os investigados aqui.

a criação de um objeto com base nos objetos de reflexão de Ianni e Beck. por parte dos autores. em meio a uma gama de ideias. análises. também uma sociologia de suas sociologias pode – e talvez até mesmo deva – proceder de modo semelhante. as escolhas são criativas precisamente na medida em que cabe ao pesquisador dessas ideias sociológicas preparar um terreno sobre o qual os aspectos cognitivos estudados possam ser trazidos à tona. nada disso está dado: a condição de cada ideia em meio ao conjunto de um pensamento não se mostra de maneira transparente. a saber. a de uma criação seletiva. a ideia de criação é. Segundo. Mais uma vez. Primeiro. Para a cognição de pensamentos: a leitura como atitude A leitura de um corpus como esse pode ser feita com base em uma atitude semelhante àquela identificada nos próprios sociólogos da globalização. numa ordem metodológica. e tem o propósito de buscar linhas de pensamento através das quais se possa compreender passagens.. o fato de que assim como há. provocativa. E é preciso escolher e apontar. Porém. posicionados com maior ou menor centralidade nos escritos. Com ela. não é um recorte baseado simplesmente num achado metodológico qualquer. quero chamar a atenção para três aspectos relativos ao caráter da pesquisa que deu origem à presente dissertação. a própria construção do objeto desta pesquisa é arbitrária. como tratada aqui. a respeito da atividade do intérprete. caminha em paralelo a estes últimos. conceitos etc. Ora.IV. 31 . uma eleição necessariamente arbitrária dos fenômenos que parecem mais significativos para a inteligência dos processos globais. aquelas que parecem mais decisivas para a compreensão dos processos globais por parte dos autores. porventura encontrado nas obras dos autores e transposto para a reflexão que proponho aqui. É nesse sentido que se pode falar. o caráter da busca pela cognição de processos globais. Como um construto metodológico. teses. por si só. em um arbítrio criativo. Sim. Não.

análises. nesse sentido. é possível iniciar o percurso pelas páginas e capítulos que seguem. ignorar26. a partir da construção do objeto e da escolha de ideias. um conjunto de apostas. portanto. Às vezes. pede-se licença para. por excelência. mais apreensíveis à própria reflexão. tal é. Parece necessário adjetivá-la dessa maneira uma vez que cada passo em direção à construção do objeto. conceitos. ainda que de modo bastante genérico. implica o expediente da escolha. trata-se de um trabalho essencialmente autoral. Com base nisso. a construção de cada explicação pode também ser vista como uma criação de sua inteligibilidade. procuram-se vieses ainda inexplorados na abordagem de palavras. Ora. à sua investigação e explicação. Essa explicação de explicações abre caminho à crítica – enquanto racionalização de razões – e a novas possibilidades de percepção. Sobre a escrita deste trabalho Após introduzir o leitor. atentando para o fato de que serão encontrados mais hiatos que 26 Retirei a ideia de “pedir licença para ignorar” do célebre texto de Umberto Eco (1977). aplicação. um dos objetivos do trabalho interpretativo em teoria e pensamento sociológicos. deliberadamente. cabe ressaltar que toda criação é seletiva. recuperando certas questões metodológicas enfrentadas por esta pesquisa. Temse. Tendo em vista esses três aspectos. coube tratar da construção seletiva do objeto de reflexão da presente dissertação. a fim de instituir linhas de compreensão que tornem um pensamento. elaborar um raciocínio o mais coerente e coeso possível. enfatizam-se certos elementos.Terceiro. teoria ou diagnóstico. V. Trata-se de. noutros ainda. noutros casos. 32 . ao debate histórico sobre a constituição da globalização como problemática nas ciências sociais. apropriação e desdobramento das ideias presentes nos pensamentos estudados.

a seu turno. Dessa forma. Em seguida. na medida em que contribuirá para o necessário aprimoramento das análises que estão por vir... (capítulo quarto). no final. visou problematizar a própria realização deste trabalho.. no início de cada capítulo. como definido pelo autor. ela será bem-vinda. da associação entre globalização e paradigma social. O segundo capítulo. o primeiro capítulo consistiu numa apresentação geral do debate. Assim. em Filhos do Mundo. passando pela reflexão amiúde e retornando.. que agora termina. O foco analítico está sobre as concepções beckianas de individualização. Já alerta quanto à atitude metodológica deste trabalho e à construção de seu objeto. tive o cuidado de elaborar dois capítulos introdutórios aos trabalhos de Octavio Inni e Ulrich Beck sobre a globalização. a uma perspectiva mais abrangente. cosmopolitização e modernização da modernidade (ou modernização reflexiva). Na mesma linha. Destarte. bem como da concepção ianniana de sociedade global. tem o propósito de introduzir o leitor a alguns dos aspectos que entendo com mais centrais no conjunto da obra de Octavio Ianni sobre a globalização. mais lacunas que respostas. a presente dissertação configura-se como um percurso que vai do amplo ao restrito. num tom próximo ao metanarrativo. há uma apresentação dos elementos fundamentais que compõem a visão de Ulrich Beck sobre a globalização. a partir de reflexões metodológicas.continuidades. sua própria crítica. propondo uma periodização com base em momentos marcantes de seu desenvolvimento.. seção ou item. Em respeito ao leitor que porventura não esteja ainda ambientado com a sociologia da globalização. procurei formular. trato do conceito de globalismo. consoante com os propósitos deste trabalho. Qualquer que seja. intitulado O Emblema do Globo. Note-se que. introduções muito sucintas contendo os elementos principais a respeito dos temas que neles serão abordados. ambos os capítulos apresentam uma abordagem 33 . O terceiro capítulo. caberá ao leitor proceder.

Trata-se de um ensaio dirigido à retomada dos temas abordados. em que são analisados alguns dos elementos pinçados por esses dois autores na tentativa de fomentar e conduzir suas reflexões. recuperando o debate como um todo e a reflexão metodológica em Heranças e Horizontes. 34 . procuro reajustar o foco analítico. Por fim. Ele se deu a partir de um elemento que é comum aos dois pensamentos: a curiosidade pela situação da Política numa condição mundial. no capítulo sexto..simultaneamente crítica e interessada dos pensamentos de Ianni e Beck... Para tanto. Seu caráter enviesado faz-se mister a fim de que se possa adentrar o coração desta dissertação. com vistas à cognição dos processos globais que se lhes apresentam. Este corresponde ao capítulo quinto – O Lugar do Pensamento na Globalização –. procedi um novo recorte metodológico a fim de conferir maior acuidade à abordagem. apontando para alguns dos desafios que enfrenta atualmente a chamada Sociologia da Globalização.

Capítulo III

O Emblema do Globo
Octavio Ianni e a Taquigrafia do Mundo

35

A História antiga clássica é História das cidades (…);
a Idade Média (germânica) parte do território como sede da História,
cuja evolução se contrapõe então ao território e à cidade;
a História moderna é citatização do território,
não como na territorialização da cidade na antiguidade.
História mundial não existe sempre:
a História como mundial é resultado.
27
Karl Marx

“A globalização é o novo paradigma das ciências sociais”, anuncia Octavio
Ianni em plenos anos 1990, quando o debate sobre a globalização criava raízes
mundo afora. A frase é, no mínimo, provocativa. Sendo um dos mais respeitados
intelectuais da América Latina, Ianni ousa lançar um alerta à intelectualidade
brasileira para o desmoronamento e a reconstrução de estruturas, processos e
relações em nível mundial. É um momento avassalador e fascinante; um marco
que anuncia uma revolução nos pensamentos e na História, nas civilizações e na
Humanidade. Não se trata, certamente, de legar as bases tradicionais do
pensamento social à obsolescência. Não é o fim da história28. Trata-se de
reformulá-las, recriá-las, imaginando novas categorias para a inteligência de
processos, relações e estruturas em níveis local, nacional, regional e mundial. É
preciso formular e reformular o patrimônio cognitivo da humanidade em dimensão
27

MARX, Karl. Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (1858) – até “…na antiguidade” – e
“Einleitung” (1857) – a partir de “História mundial…”. O texto, descoberto em 1902, fora escrito
como capítulo introdutório à obra Zur Kritik der politischen Ökonomie (1859). Segue o original: “Die
klassische alte Geschichte ist Stadtgeschichte (…); das Mittelalter (germanische Zeit) geht vom
Land als Sitz der Geschichte aus, deren Fortentwicklung dann im Gegensatz von Stadt und Land
vor sich geht; die moderne [Gechichte] ist Verstädtischung des Landes, nicht wie bei den Antiken
Verländlichung der Stadt.” (MARX, 1858) “Weltgeschichte existiert nicht immer; die Geschichte als
Weltgeschichte [ist] Resultat” (MARX, 1859).
28

Ver, capítulo primeiro, seção III. Ianni publica A Sociedade Global, seu primeiro livro sobre a
problemática da globalização, ainda em 1992, e a maior parte de sua obra situa-se nos anos 1990,
quando era especialmente necessário posicionar-se frente a esse tipo de perspectiva.

36

planetária. E Ianni enfrenta o desafio. Formula uma análise sobre a problemática
da globalização, num esforço para taquigrafar a máquina do mundo (para usar
uma expressão do autor), no Brasil.
Neste capítulo, a intenção é apresentar ao leitor uma abordagem concisa,
embora crítico-analítica, dessas formulações teóricas, partindo de alguns temas
que considero centrais para a compreensão do pensamento do autor. A análise foi
organizada em três etapas. Primeiro, procuro refletir sobre a concepção do
globalismo como um novo ciclo do capitalismo e condição para a emergência da
globalização, buscando precisar suas fronteiras conceituais (I). Em seguida,
discuto a ideia da globalização como novo paradigma das ciências sociais.
Procuro situar essa formulação no conjunto do debate, a fim de melhor explorar
algumas de suas qualidades e insuficiências (II). Com base nisso, dedico a
terceira parte do capítulo à categoria da sociedade global, buscando apontar
elementos para a compreensão de seu efetivo alcance analítico e atualidade (III).

I. O Globalismo: novo palco da história
No epicentro da globalização está, para Ianni, a expansão do capitalismo
em nível mundial. Ao longo do século XX, o capitalismo, entendido como um modo
de produção e um processo civilizatório universal29, logra desenvolver suas
relações, processos e estruturas em dimensão planetária. Trata-se de um novo
ciclo da reprodução ampliada do capital, do próprio capitalismo em processo de
globalização, assinalando uma grande transformação com implicações sociais,
políticas, econômicas e culturais, uma nova fase para a história mundial. É essa
configuração histórico-social, esse novo ciclo do capitalismo, que Ianni identifica
29

Levando-se em consideração algumas contribuições e desdobramentos do debate mais recente
sobre a globalização, é preciso distinguir entre universal e global (tratarei do tema no capítulo 6,
primeira seção). Ianni não chegou, contudo, a incorporar essa diferenciação em seus escritos.

37

a história deixe de existir. O globalismo constituiria o novo palco da história. começa a ganhar perfil mais nítido o caráter global do capitalismo (IANNI. como o nascedouro da globalização. que se abririam. antes dos demais elementos que entendo como fundamentais no seu pensamento sobre a globalização. historicamente. 1) A primeira delas. no entanto. tardia ou prematura – expressa a forma pela qual o capitalismo transforma. é a partir do globalismo. o capitalismo organizado em bases nacionais transborda fronteiras. metrópoles simbolizando países dominantes e coloniais. [. Pode-se colocar a questão da seguinte maneira: o globalismo abre caminho para a globalização. ou renovado. o capitalismo atinge uma escala propriamente global. desenvolvem-se e prosperam os sistemas mundiais. Para tanto. bem como dos sistemas e blocos articulando regiões e nações. como proposto por Ianni. da expansão do capitalismo. países dominantes e dependentes. na elaboração de Ianni. Sim..] Terceiro e último. A revolução burguesa – madura. Além das suas expressões nacionais. e também a mais fundamental. O globalismo aparece.com o termo globalismo: um capitalismo de alcance efetivamente global.. em termos de formações sociais nacionais. desenvolvendo-se ele próprio dentro dela. Mas sistemas sempre centralizados. Primeiro. […] Ao mesmo tempo que subsistem e florescem as formações econômicas nacionais. creio que valha a pena refletir sobre o conceito de globalismo. as condições e possibilidades para processos efetivamente globais. Dito de outro modo. 1992: 3738. diz respeito à distinção entre globalismo e globalização. Um palco que será. Por isso. o modo capitalista de produção […] define-se originariamente em moldes nacionais. substituído. é preciso fazer ao menos três observações. aos poucos ou de repente. dependentes ou associados. sem que. recria ou supera todas as relações sociais locais e regionais que entravam a emergência da sociedade civil. Segundo. para Ianni o globalismo é uma 38 . mares e oceanos. grifos do autor).

grifos do autor). anunciar-se-ia também a sua superação – e assim o globalismo tenderia. um modo de produção e um processo civilizatório universal. é entendida como um processo ou uma realidade social mais ampla. Sim. por sua vez. 2) É nesse sentido que. no entanto. a seu turno. (…) Essas são as condições e as possibilidades histórico-sociais do neo-socialismo. 2004: 353 e 357. o que se imaginou que seria viável em nível nacional. mas que sobrevirá a ele. os movimentos sociais e as correntes de opinião pública. Temos. o socialismo de dimensão mundial. em verdade. também se metamorfoseasse). O globalismo não só distingui-se como torna-se parte dela. lança em nível internacional. porém. os sindicatos. e não apenas em âmbito nacional. a globalização. Com o neo-socialismo. com ela. Engendra. a distinção lógica entre os processos. que nasce a partir do globalismo. cabe reconhecer a importância e a prevalência das condições histórico-sociais constituídas com a globalização do capitalismo. O neosocialismo. É universalizante por princípio. as condições de sua própria superação. O globalismo engendraria as possibilidades para a formação da sociedade global que. com o globalismo. permaneceria após os seu desaparecimento. surgiriam as condições e possibilidades para o neo-socialismo. [As] experiências socialistas nacionais representam uma base importante para a eleição de meios e modos para a redefinição de novas propostas sobre as condições e as possibilidades de socialismo no mundo. permaneceria como processo civilizatório em uma sociedade mundial (ao menos até que. 39 . os partidos políticos. assim. a sociedade global. Juntamente com as ideias. ao metamorfosear-se no neo-socialismo. a tornar-se algo distinto. portanto. A globalização das tensões e contradições sociais. ou propriamente global. Configura. “socialismo no mundo”.expressão desenvolvida ou um ciclo do capitalismo. o cenário no qual emerge a globalização e. visto como modo de produção e processo civilizatório. no sentido marxiano do termo. mas não eterno. como modo de produção e processo civilizatório (IANNI. bem como das reivindicações e lutas. É daí que emergem as novas raízes do socialismo.

é importante refletir criticamente sobre experiências iniciais e conduzir as dificuldades de modo crítico” (WALLERSTEIN. Nesse sentido. O neoliberalismo apresenta-se. como 30 O neoliberalismo. 1979: 248). Mas. Isso implica. mas constitui também um processo civilizatório complexo. Ulrich Beck. é preciso também distingui-lo do neoliberalismo. com alguma ousadia. Wallerstein coloca a questão da seguinte maneira: “temos buscado revisar os 50 anos desde a Primeira Guerra Mundial e os vinte e cinco anos que estão por vir como a fase inicial da transição mundial do sistema mundial capitalista para o sistema mundial socialista. pode-se rearrumar o argumento do autor e afirmar que um processo civilizatório equivalente ao globalismo seria. no socialismo mundial. 40 . mas também sociedade. porém. que usam o mesmo termo. Engloba.3) Tendo em vista o caráter abrangente do globalismo. e o debate como um todo (ver capítulo I) foi Immanuel Wallerstein. Nesse sentido. até mesmo). de outros significados30. não só economia. de outros autores. se nos desenvolvemos rapidamente. em nível local. para Ianni. muito criticamente. é no neo-socialismo. como formulado por Ianni. no conjunto da teoria ianniana. Essa transição não será terminada em meros vinte e cinco anos. como descrito por Ianni corresponde. Entre eles. assim. um que parece ter influenciado em grande medida a obra de Ianni. como parte desse processo histórico. política e cultura. com bastante clareza. o neosocialismo. carregado. uma leitura mais diligente evidencia. que Ianni trata neo-socialismo e globalismo nos mesmos termos: sendo categorias histórico-sociais nesse sentido “semelhantes”. Tratarei dessa diferença com mais atenção na segunda seção do quinto capítulo. nacional. que o globalismo (ou o capitalismo mundial) se metamorfoseará. é preciso diferenciar e desvincular a contribuição de Ianni das inúmeras teses contemporâneas de caráter puramente economicista. regional e mundial. 31 A procura pelos sinais históricos da transição do capitalismo para o socialismo em nível mundial aparece em escritos mais antigos. o socialismo global31. O globalismo concebido por Ianni diz respeito não só a um modo de produção e reprodução ampliada do capital em escala global. em seus aspectos fundamentais. à noção de globalismo (Globalismus) de que nos fala. Sim. Ainda no fim dos anos 1970. abrangente e ainda por ser desvendado. compreender o neoliberalismo como uma ideologia (limitadora do globalismo.

quando os grupos sociais e as classes sociais subalternas expressam o seu protesto. Tem raízes no balanço crítico das condições de existência e consciência que prevalecem no capitalismo. o caráter de indícios do 41 . no limite. representa também novas possibilidades. regional e mundial. O neo-socialismo […] tem raízes no globalismo. as suas formas de luta e os seus ideais. de uma realidade ampla. expressa também a intenção de captar tensões a partir das quais germina sua superação em nível local. pensar. É uma expressão do globalismo. algo novo. Trata-se. por um lado. o socialismo não é apenas um modo de organizar a economia e a vida social. estratificadas. Por outro lado. também visto como modo de produção e processo civilizatório. para o seu esgotamento. Daqui advém. nacional. grifos do autor). […] Sim. cuja inteligência escapa ao alcance do patrimônio teórico das ciências sociais. do desconhecido. dos grupos e classes sociais subalternos que compõem a grande maioria da humanidade (IANNI. simultaneamente angustiante e fascinante. para ele. no entanto.uma das ideologias presentes no globalismo que corroboram. além das fronteiras estabelecidas. principalmente o capitalista. É no contexto da globalização que o socialismo se transforma em neosocialismo. 300301. Tem raízes em outros processos civilizatórios. 1996: 293. agir e imaginar. do capitalismo que se globaliza. na medida em que busca a globalização a partir de baixo. Mas abre outras possibilidades e outros horizontes de emancipação e realização. À guisa de sua leitura da obra de Marx. o modo de ser. o equacionamento e a realização das condições e das possibilidades do neo-socialismo. […] Sim. Do mesmo modo. possivelmente. é possível afirmar que o conjunto dos trabalhos de Octavio Ianni a respeito da problemática da globalização corresponde a uma reflexão sobre o capitalismo. Transforma mais ou menos profundamente as condições de existência e consciência. visto criticamente. as suas reivindicações. as determinações constituídas no âmbito do globalismo são fundamentais para a inteligência. opressivas. parte do seu entusiasmo pelos processos e fenômenos globais: o globalismo anuncia. mas um processo civilizatório de amplas proporções. que fomentam as condições e possibilidades para um neosocialismo ou socialismo mundial. É nesse sentido que Ianni atribui às assimetrias e tensões do globalismo. consolidadas.

o Estado (nacional). Assim. terrorismo. A tentação metodológica Uma maneira de sintetizar as formas-pensamento dos estudos sociológicos é agrupando-as segundo dois emblemas fundamentais: o indivíduo – isto é. configuraria teórica ou ideologicamente uma globalização pelo alto. o socialismo se transfiguraria no neo-socialismo. Um novo (ou renovado) processo civilizatório de uma civilização planetária. partidos políticos e eleições. o liberalismo. Em suma. Ocorre que. literatura. Esses seriam. envolvendo-as. para ele. Refletem uma realidade ilusória.surgimento ou ressurgimento de tensões histórico-sociais. porque parcial. atrelados a esses emblemas. denota um tema que é capaz de açambarcar. mercado e empresa estariam. de algum modo. na maior parte dos casos. violência. a globalização do capitalismo é vista como o prenúncio de uma revolução de amplas proporções. pode-se afirmar que estudos sobre educação. o Estado nacional e seus indivíduos já não parecem ser categorias suficientes para apreender a totalidade dos fatos. Modificou-se substancialmente o objeto das ciências sociais. Seguindo-se esse raciocínio. Emblema. que inspiraram a formação e boa parte de seu 42 . II. classes sociais. metamorfoseado em neoliberalismo. Da mesma maneira. os grandes emblemas nos quais se baseiam os estudos sociais. nascido do globalismo. Ianni imagina a superação de um capitalismo expandido em nível mundial por um socialismo global. gênero. O indivíduo e a sociedade. o ator social – e. desigualdade. como uma expressão de tensões e contradições do capitalismo mundial. obnubilando a percepção dos fatos que se descortinam para muito além dessas dimensões. na concepção de Ianni. abranger outros. No fundo. trabalho. de cima para baixo. no fim do século XX.

mas revestindo-os de um novo significado. Este é um momento epistemológico fundamental: o paradigma clássico. 1995: 239-240). nações e nacionalidades. Nesse sentido.desenvolvimento. É óbvio que a sociedade nacional continua a ter vigência […]. localizavam-se no âmbito da nação. culturas e civilizações. dando-lhes identidade na fábrica do mundo. regional e. a sociedade global subsume formal ou realmente a sociedade nacional (IANNI. nem empírica nem metodologicamente. reconhecidamente global. 1992: 171) A emergência de processos de globalização. Aos poucos. de toda a realidade na qual se inserem indivíduos e classes. para Ianni. está sendo subsumido formal e realmente pelo novo paradigma. Ianni nos fala de uma subsunção paradigmática. Ao passo que o indivíduo e a sociedade que desafiam as ciências sociais nesta altura da história localizam-se em algum lugar da sociedade global. determinados também pelos movimentos dessa sociedade (IANNI. transnacional. assim. Essa nova realidade imporia uma reestruturação do pensamento social a partir de suas bases. Mas a sociedade nacional não dá conta. Em alguma medida. nacional. carrega a força de impacto necessária para “despertar” o ambiente sociológico brasileiro para uma 43 . mundial ou propriamente global. complementando-os. do globalismo e da sociedade global configura. e às vezes de repente. que já não poderiam ser consideradas suficientes para a inteligência de relações. processos e estruturas operantes em nível mundial. uma novidade histórica. agora. abarcando-os. Essa ideia de subsunção paradigmática assume uma posição central na teoria ianniana da globalização. encobrir os demais. fundado na reflexão sobre a sociedade nacional. O conhecimento acumulado sobre a sociedade nacional não é suficiente para esclarecer as configurações e os movimentos de uma realidade que já é sempre internacional. O emblema da sociedade global lograria. nem histórica ou teoricamente. na qual o globo seria o grande emblema que se sobreporia a todos os demais. em nível local. não eliminando-os. fundado na reflexão sobre a sociedade global. multinacional.

aparece já aqui como uma das fontes desse juízo transcendental complexo. como uma voz que procura articular uma compreensão de mundo própria. Ricoeur (2006 [2000]: 120 et seq. essa noção permite captar o modo pelo qual operam os juízos categóricos e o tratamento dado por Kant à problemática do objeto (Objekt. como ocorre com o conceito de globalismo. possibilita a subsunção dos últimos na primeira [dos fenômenos na categoria] (KrV/B: 177-178. Caso haja interesse por parte do leitor.. [. de discernir se algo encontra-se subordinado a uma dada regra (casus datae legis).] Disso se depreende que uma aplicação da categoria a fenômenos [Erscheinungen] possibilitada pela determinação transcendental do tempo que. grifos do autor). ou não. creio que não valha a pena delongar-me mais nesta questão. fora e dentro da academia. mesmo que ele não esteja presente na intuição” (KrV/B: 151. Essa ideia de subsunção está ligada ao esforço kantiano para explicar a aplicação de categorias abstratas à intuição sensível. brasileiro (paulista ou quiçá campineiro. O tempo. Gegenstand) de juízo. o conceito precisa conter [enthalten] aquilo que é representado no objeto a ser subsumido. grifos do autor). Cabe observar. então a faculdade de julgar [Urtheilskraft] será a capacidade de subsumir a regras. as representações do primeiro e do segundo sejam do mesmo tipo [gleichartig]. do ponto de vista cognitivo. como o sistema dos conceitos de entendimento. para fechar esse brevíssimo contraponto. no entanto. é vista como uma faculdade primitiva da alma.. a imaginação.. “O conceito de entendimento inclui a unidade sintética pura do diverso [Mannigfaltige] em geral. “uspiano”). isto é. a ideia de paradigma 32 É importante recordar que o termo “subsunção” remete. pois isso é o que significa a expressão: um objeto estar contido num conceito” (KrV/B: 171 e 176. inclui um diverso a priori na intuição [Anschauung] pura. além da própria Crítica. em especial o capítulo XV). grifos do original). Ela ajuda a compor o elo entre experiência. que o esquema transcendental kantiano é um produto da imaginação (Einbildungskraft) – a qual. Luta contra um senso comum peculiar. embora a ideia de subsunção (Subsumtion) não esteja entre os conceitos-chave mais repetidamente presentes na obra. A concepção da globalização como paradigma das ciências sociais. em todas as subsunções de um objeto em um conceito. “unicampiano”. partindo de. juntamente com o sentido e a percepção. Sim. a concatenação de toda representação. Note-se que o seu primeiro aparecimento no segundo livro da KrV é destacado pelo próprio autor: “Se o entendimento [Verstand] em geral é explicado enquanto o cabedal de regras. A obra de Ianni. e dirigindo-se a certos epicentros do debate. intuição e conceito. E é definida por Kant como “a faculdade de representar um objeto.) e Lebrun (1970. ao pensamento de Kant (1787). que é tanto intelectual quanto sensível. enquanto a condição formal do diverso de sentido inerente e. no denominado esquema transcendental. a partir de um ponto de vista latino-americano. recomendo..). Nesse sentido. portanto. a leitura de Eco (1997: 74 et seq. de dimensão mundial32. Na Crítica da Razão Pura (KrV). Ora. envolve certas “armadilhas” conceituais que merecem ser examinadas. insere-se em um debate maior.] É preciso que. uma determinação transcendental do tempo é de mesmo tipo da da categoria (que perfaz sua unidade). que é fonte da síntese do diverso. [. Como um contraponto elucidativo. ou seja. 44 . enquanto ela for geral (allgemein) e se assente em uma regra a priori.factualidade emergente.

ao taquigrafá-lo. Há. nesse sentido. Ianni trata do mesmo fenômeno. portanto. na sua 45 . do nacional ou do regional. O leitor pode ter a impressão de que é exatamente isso que Ianni faz da sua teorização dos processos globais. necessário refundar um saber em ruínas (ORTIZ. o global. seria. ressignificada: Ianni a concebe de um modo distinto em relação ao de inúmeras vozes que intervêm no debate como um todo. É que o problema fundamental no que diz respeito a essas concepções de uma crise paradigmática ou de uma ruptura epistemológica reside no fato de que se pressupõe a existência de uma quebra e (frequentemente a partir dela) também de oposições no espaço e no tempo. um aspecto equívoco e omnipresente expressava-se na ideia de 'crise dos paradigmas'. de marketing. o autor não escapou completamente à essa influência. em escritos pós-modernos. em lugar do velho. dentro disso. […] Tudo se passa como se estivéssemos na presença de um movimento que funda um quadro teórico radicalmente distinto e superior ao que estaria esgotado. a metáfora da ruptura denota uma mudança absoluta na medida em que se plasma uma realidade essencialmente nova. Esse se fundamentava numa visão dicotômica da história. grifos do autor). falando-nos da crise ou da ruptura dos paradigmas nas Ciências Sociais. é possível identificar. surgiria o novo. esforça-se para lhe atribuir um contorno distinto. No entanto. em lugar do local. a questões de ordem epistemológica. O raciocínio pressupõe algo que foi superado. […] O mal entendido repousa na concepção progressiva que preside o argumento. Este era o subterfúgio recorrente. 2009: 243-244. Sim. aqui. aplicada.parece ser. De fato. porém. no que diz respeito à historicidade do conceito. Como observa Renato Ortiz. estudos ecológicos (alguns autores chegavam a dizer que o planeta era o novo paradigma). o risco de uma contradição nas bases do argumento. presente nas mais diversas áreas disciplinares. Ora. mas. ao longo do desenvolvimento do debate sobre a globalização. insisto. Assim. a busca por novas categorias de análise tropeça em um emaranhado de impressões e.

entre outros aspectos.. a própria reformulação da concepção de mudança paradigmática é um sinal de que o autor percebe suas armadilhas e contradições. Há contínuas criações quanto ao objeto e método. intitulado “A tentação metodológica”. o objeto é concebido de maneira semelhante. 46 . temas e linguagens. Às vezes. a invenção paradigmática (IANNI.obra.. uma certa dissonância em relação ao que se propunha majoritariamente. precisamente porque conferem ênfase diversa aos momentos lógicos da reflexão. Há conceitos sociológicos que são comuns a várias teorias. Nesse sentido é que as teorias podem ser mais ou menos distintas. Ele corresponde ao capítulo II de uma publicação póstuma que reúne ensaios do autor – cf. tendo a compreender esse aspecto da teoria de Ianni como uma espécie de “tentação metodológica”33. com alguma margem de acerto.] As teorias multiplicam-se. assim como as tendências do futuro. Nesse sentido. Pode-se pensar. São vários os momentos lógicos da reflexão sociológica [. potencialidades e perspectivas no espaço e no tempo. que se situa no presente. Ianni (2011). 2011: 64 e 68). logo se constata que a importância relativa dos momentos lógicos da reflexão não é exatamente a mesma. homogêneo. Ianni taquigrafa a globalização nos termos de um novo horizonte histórico. que essa ressignificação tenha sido proposta precisamente contra um certo senso comum (planetário) recorrente. conceitos e interpretações. pressupondo. portanto.]. causalidades e consequências. o autor não formula a noção de paradigma apenas nos termos de um rompimento: ela 33 A expressão alude a um ensaio de Ianni. Por isso. distantes ou opostas. ao passo que em outros verifica-se algo de novo. Mas a interpretação pode não ser precisamente a mesma. Na ideia do novo. está também o antigo. sobre aspectos metodológicos e epistemológicos nas ciências sociais ao longo do século XX. A dissonância a que me refiro é precisamente essa ressignificação (ainda que parcial) da metáfora. Aliás.. Em certos casos ocorre a reiteração de princípios explicativos. Nessa linha. Mas as teorias não os mobilizam sempre nos mesmos termos de modo similar. No cerne da concepção ianniana está a reformulação e a subsunção. as teorias distinguem-se. Assim. [. quando da emergência do debate. aperfeiçoados ou não. E quando a interpretação se revela diversa..

uma formação geohistórica na qual se inserem os territórios e as fronteiras. religiosas e linguísticas. muitos estão empenhados em compreender e explicar as situações. III. constitui-se como uma nova. vista em suas implicações simultaneamente econômicas. uma formação social e uma categoria que adquirem predominância crescente sobre umas e outras formações sociais: locais. como uma das categorias dentro do seu pensamento sistêmico. 47 . No século XXI. em nível local. ou seja. assim como nas ciências humanas como um todo. A intenção de Ianni era apontar para o fato de que a sociedade global poderia ser vista como o grande emblema da atualidade. Ianni aposta na categoria interpretativa da sociedade global. de âmbito mundial. nacional e regional por uma totalidade histórico-social maior. portanto. O termo foi. 34 O leitor deve recordar-se do primeiro capítulo. políticas e culturais. os gêneros e as etnias. 2004: 20-21. em seus segmentos locais e em seus arranjos regionais. como vimos anteriormente34. uma sociedade na qual se subordinam as sociedades nacionais. no qual observei que a noção de sociedade global provavelmente foi introduzida no debate sociológico por Niklas Luhmann (1971). os processos e as estruturas. regional e mundial. Simultaneamente. Uma totalidade simultaneamente histórica e teórica. que se formam e transformam com a sociedade global. uma quebra. as culturas e as civilizações. a capacidade de incorporar o conjunto de problemas estudados pelas diversas ciências sociais. abrangente e contraditória totalidade.significa. recuperado de outros epicentros do debate. assim como as relações. uma destruição. A sociedade global: sociologia da humanidade Nesse contexto de mudança no pensamento sociológico. demográficas. os acontecimentos e as rupturas. Ocorre que a sociedade global. nacional. engendrado nas condições latentes dessa grande transformação. seguida de um novo recomeço. Foi. no entanto. acredito. as classes sociais e os grupos sociais. relações e estruturas em nível local. no conjunto da obra. envolve a subsunção de processos. grifo do autor). Essa sociedade totalizante teria. também ressignificado. as ecologias e as coletividades. nacionais e regionais (IANNI.

conferindo realidade à história universal. uns e outros são desafiados a reconhecer que participam da mesma fábrica. de algum modo. antes. culturas e civilizações. mesclam-se. porém. A meu ver. anunciando à humanidade” (IANNI. contemplando outros objetos e abrangendo-os. Configura a realização máxima da reprodução ampliada do capital. tencionam-se e batalham. seu desenvolvimento. como sociedade civil mundial. integram-se. 2004: 17). mas não constituem sua essência. e tampouco comunidades. em escala planetária. ou de repente. constitui uma consequência da expansão do capitalismo enquanto processo civilizatório universal. Indivíduos e coletividades. a emergência da sociedade global aparenta estar vinculada ao surgimento do globalismo. no que diz respeito à construção do conceito. como concebida por Ianni. como modo de produção e processo civilizatório de escala mundial. as partes fundamentais dessa sociedade global não seriam estados. A sociedade global anuncia a humanidade. antes de tudo. Na contramão do raciocínio. sociedade. pode-se afirmar que sociedade global pressupõe o modo de produção e reprodução capitalista. nem instituições. essa pode ser uma chave do pensamento ianniano sobre a globalização. certamente. nessa perspectiva. implica ao menos dois aspectos a serem comentados. note-se. (1°) A sociedade global. seus ciclos. reconhecer que a 48 . É assim que “aos poucos. Dito em outros termos. entendido por Ianni como esse ciclo de expansão do capitalismo. em diversos arranjos. A sociedade global é.A meu ver. uma expansão das fronteiras do pensamento sociológico aos seres humanos todos. Pode-se dizer que a humanidade ganha. povos e nações. O seu equivalente é a humanidade. A metáfora da sociedade global. ou máquina. Cada um desses elementos está presente em sua composição. Isso significa. o status de objeto maior de reflexão das ciências sociais. não significa eliminar categoricamente diversidades e desigualdades: representa. E isso. classes ou grupos sociais.

Do ponto de vista dos fatos. independentemente de seus regimes políticos e de suas tradições culturais ou civilizatórias. logo se revela que o capitalismo se tornou um modo de produção global. No entanto. é ainda questionável imaginar uma sociedade total que. o objetivo é analisar a relação entre o Estado e a ideia ianniana de Sociedade Global. Em poucas décadas. sendo subsumido por esta nova realidade.sociedade global ianniana é capitalista. Está presente em todas as nações e nacionalidades. 49 . desconhecida. ao se desterritorializarem. perdendo parte de suas prerrogativas que. adquire uma miríade de ressignificações e refrações. Do ponto de vista do pensamento. mas parece arriscado à medida que expandimos noções e experiências específicas de uma ideia de capitalismo para uma dimensão planetária que é. fugiriam ao seu alcance. No entanto. aos Estados-nação que. trata-se também (2°) de repensar a problemática da construção do Estado nacional. 1996: 239). mas também os países nos quais se havia criado o regime socialista ou a economia centralmente planificada (IANNI. Na base da ruptura que abala a geografia e a história no fim do século XX está a globalização do capitalismo. Por ora. factualmente. Alcançam não só as tribos e os clãs. Aos poucos. No fundo. abrangendo singularidades. ou as nações e as nacionalidades. efetiva e 35 No capítulo quinto. processos e estruturas de uma compreensão universalizante de capitalismo. comporta-se e constitui-se segundo as dinâmicas. sociedade global parece “ocupar” o lugar que pertencia às sociedades nacionais. Para Ianni. desencaixes e assimilações que corroem as bases de uma sociedade totalizante imaginada nesses moldes. da perspectiva dos fenômenos sociais. tenderiam a dissolver-se nessa totalidade planetária. O pensamento é fecundo. isto é. as forças produtivas e as relações de produção organizadas em moldes capitalistas generalizam-se por todo o mundo. essa é uma representação mental da realidade que implica uma insuficiência em duas dimensões: a factualidade histórica e a teoria social35. o Estado se redefiniria. Sim. historicamente debilitados. trabalharei mais elementos da relação entre globalização e Estado nacional. o capitalismo pode construir-se como universal. ou de repente.

quase todo o patrimônio teórico das ciências sociais. tanto empírica quanto categoricamente. não tira o mérito de sua teoria. que englobe os Estados-nação. deve-se notar o fato de que Ianni termina por projetar elementos da constituição do Estado-nação sobre as expectativas que envolveriam a emergência de uma sociedade global. Assim. com boa margem de acerto. de um ponto de vista teórico. Em resposta a isso. até certo ponto inevitável. seja do fenômeno. evidentemente. no entanto. o dilema é mais complexo. Parece. isto é.factualmente. uma 50 . pode-se pensar. Talvez valha a pena observar. como dito. Isso. […] Quando o Estado-nação se debilita. uma vez que. emerge outra realidade. que pensar a sociedade global como capaz de tomar o lugar do Estado-nação. sintomas e possibilidades. Acontece que o pensamento científico ainda se acha surpreendido pelas novas características da realidade social. como dito. uma leitura grosseira. inclusive. Ainda não assimilou a metamorfose da sociedade nacional em sociedade global. subsuma-os. Isso implica consequências sociais. que Ianni trabalha com tendências. Os Estados nacionais fundamentam. Todavia. aliás. seja do autor. políticas. culturais e econômicas empiricamente desconhecidas. Essa seria. Para além disso. não significa preconizar o fim do Estado nacional. devido ao alcance e à intensidade do processo de globalização das sociedades nacionais. uma vez que a sociedade global está em processo de emergência. É como se a imaginação da sociedade global em formação ou em emergência fosse trespassada pela concepção emblemática da sociedade nacional. E isso se dá de um modo às vezes mais penetrante do que possa parecer. estudar a globalização significa trabalhar também no campo das hipóteses e da percepção de fenômenos que ainda não se apresentam manifestos ou evidentes. embora Ianni afirme que se trata de algo novo. tendo a pensar que a noção de sociedade global não escapa por completo aos moldes de pensamento e imaginação fundados na categoria dos Estados nacionais.

sociedade global. A concepção de Ianni. percorrendo suas muitas dimensões intermediárias. É. no fundo. à medida que desfavorece uma organização tipológica do pensamento. por um lado. em escala desconhecida. 51 . item 3. como ele mesmo a denomina. heterogênea e contraditória. Ianni concebe a sociedade global como uma totalidade em formação que abarca diversidades. nessa perspectiva. uma característica importante que a diferencia da proposta inicial de Luhmann. com suas relações. abrangente. a sociedade global está em emergência: essa é uma constatação que Ianni assume como pressuposto em toda a sua obra sobre o tema. seção II. A ideia de uma sociedade global como proposta por Ianni apresenta. Por outro. no entanto. Isso implica uma compreensão de sociedade que ultrapasse a ideia de interconexões operando de modo sistêmico. nos jogos do espelho (Spiegel) hegeliano. Ianni trabalha com tendências históricas. especulações ou relações especulares. a despeito dessas insuficiências. seção I. mais difícil de ser trabalhada. tendo por base privilegiada a comunicação eficiente de sentido36. mostra-se frutífera para perceber fenômenos e processos. estruturas e relações da sociedade cujo alcance abrange do local ao mundial. pelas determinações que engendra. Trata-se de uma totalidade histórico-social diversa. complexa. Nesse sentido. Trata-se de uma “sociologia do futuro”. São. estruturas e processos globais. quando esta se torna predominante. ajuda a salvaguardar a imaginação (sociológica. ao menos) da ilusão de que o mundo já teria se globalizado. no sentido que lhe atribuía Weber (1922). 36 As ideias de Luhmann a respeito da globalização foram rapidamente tratadas no capítulo primeiro. […] Na medida em que as sociedades nacionais tendem a “dissolver-se” na sociedade mundial. Não. nos anos 1970. e tornarão a ser abordadas no capítulo sexto. de que já estaríamos em plena idade do globo ou globalidade. que ocupam cadeira cativa na orientação de sua percepção das relações. 1992: 41 e 50). processos e estruturas. certamente. […] tanto se alteram as suas condições e perspectivas em escala nacional como em escala mundial (IANNI.

Hoje é possível. e o compromisso com o ofício de pensar o social: de taquigrafar a máquina do mundo. sim. no Brasil. em 2014. escolher entre o prestígio. frequentemente.Essa sociologia. Esse presente é. Trabalhou e produziu um obra sobre o tema em um momento no qual era preciso. desenvolver um estudo sobre globalização em teoria social sem maiores obstáculos. Por isso. É preciso. todavia. 52 . pretérito. Ianni não desfrutou desse privilégio. ou mesmo a admiração dos pares. hoje. reconhecer a coragem e a ousadia crítica de Octavio Ianni. podemos identificar consequências. parte de um ponto: o presente. insuficiências e propor questões com relativa desenvoltura. estando distantes ou distanciados na linha do tempo. foi um pioneiro. não obstante.

Cosmopolitização e Modernidade em Ulrich Beck 53 .Capítulo IV Filhos do Mundo Individualização.

. análises e diagnósticos desde os seus primeiros trabalhos de maior envergadura38 até os mais recentes. 39 Refiro-me aqui aos seus trabalhos de um modo geral.A Burguesia configurou. quase sempre a do trabalhador (der Arbeiter) e seu núcleo familiar. Die nationale Einseitigkeit und Beschränktheit wird mehr und mehr unmöglich. 1980). sua esposa. amor. BECK & BECK-GERNSHEIM. Segue o original: “Die Bourgeoisie hat durch ihre Exploitation des Weltmarkts die Produktion und Konsumption aller Länder kosmopolitisch gestaltet. Os indivíduos. K. A unilateralidade e a estreiteza nacionais tornam-se cada vez menos factíveis e. materializada em Das ganz normale Chaos der Liebe (Idem. F. também 54 . nos anos 201039. quanto na do espírito. 2011). BRATER. sexo etc. (BECK. und aus den vielen nationalen und lokalen Literaturen bildet sich eine Weltliteratur”. As criações intelectuais de nações particulares tornam-se bem comum. versando sobre sociologia do trabalho. so auch in der geistigen Produktion. por todos os lados. ARNAUT 2010. Berlin: Dietz Verlag. é curioso notar que neles já estão presentes dimensões que mais tarde orientariam sua percepção e cognição com respeito a fenômenos planetários. Manifest der Kommunistischen Partei. Esse é o caso do livro Fernliebe: Lebensformen im globalen Zeitalter (cf. 37 Karl Marx & Friedrich Engels Um dos pilares fundamentais do pensamento beckiano é o indivíduo (Individuum)i. Sim. Embora esses escritos não estejam entre os mais relevantes para analisar a visão do autor sobre processos globais (mesmo porque foram elaborados em co-autoria). das nações entre si. 38 Essa presença pode ser notada já nos primeiros trabalhos de maior fôlego da sua carreira como pesquisador. seu interesse pelo indivíduo está presente na construção de seus objetos de estudo. em que a figura central é. […] An die Stelle der alten lokalen und nationalen Selbstgenügsamkeit und Abgeschlossenheit tritt ein allseitiger Verkehr. 1959. 1990). curiosamente. ENGELS. uma dependência. 1977. BECK et al. Escrito em parceria com Elisabeth BeckGernsheim. Und wie in der materiellen. 1979.) estabelecidas à distância. a produção e consumo de todos os países como cosmopolitas. o livro apresenta uma análise sobre o fenômeno contemporâneo das relações afetivas (de amizade. 1848. através de sua exploração do mercado mundial de consumo. eine allseitige Abhängigkeit der Nationen voneinander. 2011a. i Parte deste capítulo retoma e desenvolve reflexões empreendidas nas fases iniciais da investigação que deu origem à presente dissertação e materializadas em comunicações de pesquisa (cf. 2011b). […] Em lugar da antiga auto-suficiência e insularidade caminha um intercurso em todas as direções. O livro retoma uma reflexão anterior. 37 MARX. Die geistigen Erzeugnisse der einzelnen Nationen werden Gemeingut. É claro que há aqueles em que o domínio do indivíduo é o próprio objeto. das muitas literaturas locais e nacionais forma-se uma literatura mundial. E tanto na produção material.

55 . e não a textos em particular. aqui e ali. Primeiro. apontando alguns dos seus méritos e insuficiências. a contribuição de Beck para o debate é altamente perspicaz e relevante. dito de outro modo. Num contexto de globalização. social e cultural. talvez caiba questionar em que medida ela abrange uma variedade maior de agrupamentos sociais contemporâneos. e de que modo está ele situado no conjunto do pensamento beckiano? Ulrich Beck nos fala de um indivíduo que é herdeiro dos valores iluministas de liberdade. não farei uma apresentação mais detalhada desses livros. que indivíduo é esse? Quais as suas feições sociológicas. cultural. No entanto. sempre infiltrado. e não alguns grupos específicos de uma Europa rica ou dita “ocidental”. parecendo por vezes privilegiar o conjunto ou o grupo. jurídico. Nessa perspectiva. com uma questão basilar: abrem-se possibilidades? Ou. por assim dizer. como também dos pontos de vista político. organizei a abordagem da seguinte maneira. Para tanto. O objetivo aqui foi compor um conjunto de notas analíticas a respeito do pensamento de Beck sobre a globalização.enquanto categorias. seja normativa. tanto de uma perspectiva econômica. Como o propósito deste capítulo é o de compor uma introdução geral às ideias do autor. procurei esboçar uma análise crítica da sua noção de individualização. mesmo quando suas análises ganham intenção e roupagem planetária. estão de tal modo amalgamados no pensamento de Beck que. acredito ser possível afirmar. tentando mostrar que as possibilidades de uma (auto)biografia reflexiva só puderam ser vislumbradas num contexto histórico. que o indivíduo encontra-se. é preciso investigar qual o lugar (ou quais os lugares) desses indivíduos diante das novas possibilidades que se abrem com a globalidade. é impossível não se inquietar. Ele opera como um locus privilegiado que parece orientar a percepção do autor. elas se abrem para quem? Como veremos. Porém. no entanto. de pronto. econômico e político como o inédito no Brasil. perguntar-se-á o leitor. seja efetivamente. com boa margem de acerto. a comunidade (Gemeinschaft) ou a sociedade (Gesellschaft).

como filhos da liberdade (Kinder der Freiheit). no ascetismo interior do Protestantismo. isto é. não apenas como pessoas lidam com essas transformações. Isso quer dizer. A modernidade europeia liberta pessoas de papéis historicamente atribuídos. Para Ulrich Beck. Passa-se da impossibilidade de escolha. tais como fé religiosa. diverso: trata-se da individualização da biografia. fundamentalmente. simultaneamente. mas também como suas condições de vida e padrões biográficos têm mudado (BECK. Isso nas ciências sociais. Finalmente. ao livre arbítrio. cada um deve operar e persistir como agente individual de sua própria biografia. em termos de sua identidade e consciência. na idade do globo (globalidade). procurei pôr em relevo certas dificuldades que. e cria. por 56 . vazio. que se anuncia como uma metanarrativa do mundo. 2001: 202). Os indivíduos recriam-se. o seguinte: a biografia (a história de vida dos indivíduos) deixa de ser padronizada para tornar-se uma biografia escolhida. na cultura cortesã medieval. novas formas de comprometimento social. enfrenta a concepção de uma modernização da modernidade. Então me detive no tema do cosmopolitismo. desconexão. I.europeu contemporâneo (I). porém. Assim acontece nas famílias ocidentais. Fases históricas anteriores ocorreram na Renascença. um prelúdio da globalização. Esse não é simplesmente um fenômeno da segunda metade do século XX. apontando alguns problemas teórico-metodológicos (II). Individualização: metodologia da (auto)biografia O termo “individualização” é geralmente associado a temas como isolamento. e a relação do indivíduo para com a sociedade. Individualização é um conceito que descreve uma transformação sociológica e estrutural de instituições sociais. do meu ponto de vista. nas artes ou no senso comum ocidentais. solidão. Eu utilizo o conceito de individualização para explorar. na emancipação dos camponeses da servidão feudal e no afrouxamento (loosening) dos laços familiares inter-geracionais no século XIX e início do século XX. do modo como é teorizada por Beck (III). Ela solapa elementos tradicionalmente assegurados. essa noção é investida de um novo sentido.

onde há uma crescente busca. não por desenvolvimento cognitivo ou erudição. Esse indivíduo que individualiza-se reflexivamente pressupõe uma 57 . são processos que não podem mais ser compreendidos. as pessoas são condenadas à individualização. menos arriscada) que ajude a delinear claramente o caminho para aquilo que se pretende ser ou fazer. sob as condições gerais e os modelos do welfare state. mas uma compulsão pela fabricação. Mesmo as tradições do casamento e da família estão se tornando dependentes de processos decisórios. De fato. evidentemente. porém. Usando a expressão de Sartre. apenas com base em critérios empíricos de renda familiar. o mercado imobiliário e assim por diante. No fundo. aparentemente. na forma e na prática. ativos ou temporariamente fora do mercado de trabalho). tudo é obrigatoriamente uma questão de escolha. direitos individuais (mais precisamente dos indivíduos trabalhadores. do que o que se é. mas também de seus compromissos e articulações à medida que as fases da vida mudam. a divisão sexual do trabalho entre mulheres e homens. pós-revolução industrial. Pode-se captar o fenômeno também no âmbito do direito: os direitos sociais são. Estamos diante de uma boa interpretação. Implica. porém.exemplo. e muito mais o que se pensa ou faz. e todas as suas contradições devem ser experimentadas como riscos pessoais (BECK. satisfatoriamente. um título ou colocação objetiva (e. por exemplo. ou a estrutura do casamento. de fato. 1997: 26). o mercado de trabalho e a regra social. tais como o sistema educacional (adquirindo certificados). mas sim por um “certificado” (do curso de inglês. póswelfare state. não apenas da própria biografia. algumas dificuldades. uma bela narrativa. de informática ou de mestrado). Assim também ocorre nos sistemas educacionais. que se reestruturam em diversas dimensões: os papéis dos sexos (ou gêneros). A individualização é uma compulsão. mas devem ser vistos como experiências de riscos pessoais. mais abstratos. O conceito de individualização em Beck aponta para o desenho de uma sociedade ocidental. o autoprojeto e a auto-representação.

vislumbremos um exemplo heurístico. onde está registrada [gemeldet]. Assim. algo que surge e ganha corpo a partir dos anos 1960. nossa senhora idosa viaja pelo menos três vezes por ano por alguns meses ou semanas para o Quênia (geralmente dois meses durante o inverno. na análise beckiana. 58 . Onde ela vive. sem qualquer interrupção. antes de “contextualizá-lo”. em Tutzing.. através do qual é possível captar alguns pontos que merecem atenção. De acordo com as estatísticas oficiais. vive “como os pássaros cantores” [Singvögel]. Uma senhora de 84 anos. Neste momento. porém.? Assim começa a história. em se tratando de um conceito “novo”). porque mesmo as “fases históricas anteriores” que porventura possam ser apontadas caracterizam-se com base em uma visão à posteriori – o que é compreensível. à beira do lago Starnberger. Na verdade. embora todos “sejam” de Berlin. Para tanto. Onde ela está “em casa”? Em Tutzing? No Quênia? Sim e não. identificado esse limite. cidade da qual também não abre mão. (Sim. imagino. Lá. que a convidam para permanecer em suas casas. Na África ela é recebida e acolhida pelos nativos. fortes e problemáticos. o que. e mais outra vez durante o outono). Um caso típico de imobilidade (geográfica).sociedade de trabalho industrial desenvolvida. convive num amplo círculo de relações com africanos e alemães. entre os quais alguns “moram” nas vizinhanças de Hamburgo. ajuda a compreender boa parte das suas dificuldades. ela mora há mais de trinta anos. tem uma “família”. identificando pontos importantes. No Quênia ela tem mais amigos do que em Tutzing. que tem como personagem central uma senhora “alemã”.. diz ela. Ela se diverte mais no Quênia do que em Tutzing. tem-se uma questão de natureza lógica: se o aparecimento desse indivíduo é consequência de uma determinada sociedade. Beck narra a seguinte crônica. ela é ninguém. Mais adiante. em alguns poucos países industriais do ocidente. convido o leitor a deter-se no exame do conceito em si. Em Tuzing. sem esta não há como ele existir. Aqui mora uma parte do problema. O bem estar de sua velhice é devido ao fato de que no Quênia ela “é alguém”. tratando dos temas do cosmopolitismo e da modernização reflexiva. três ou quatro semanas na Páscoa. teremos ocasião de observar algumas características dessa sociedade específica.

2003). 1992). mas retorna periodicamente à Alemanha para lá. reducionista) do mundo. duas faces. Beck está interessado em demarcar uma fronteira importante entre uma análise cultural da globalização (à moda da cultural theory) e certos pressupostos das teorias de um sistema mundial. Os conhecidos que ela encontra no Quênia. mas se estabilizaram entre os lugares e continentes. o que não quer dizer que as viagens constantes não a cansem. e toca em pontos centrais para a compreensão beckiana sobre a globalização. que se (con)fundem num oximoro “glocal”. receber seu dinheiro e arrumar a casa e o jardim que possui em Eifel. quarenta anos mais nova do que ela. casou-se no Quênia com um índio (muçulmano). Primeiro. A ideia de “glocalização” visa. em última análise. Deve-se observar. ou aqui (dependendo do ponto de vista a ser adotado). que o conceito de “glocalização” foi forjado nos anos 1990 por Roland Robertson. há uma separação entre dois planos: o aqui e o lá. dois tons: ela pode evocar tanto Tutzing. No fundo. A narrativa é curiosa. Ela se sente bem tanto num lugar quanto no outro. no caso da senhora idosa. para além da noção de processo temporal (temporal process) que a globalização suscita per se (ROBERTSON e WHITE. também vieram da Alemanha. do lugar em que ela se encontre (BECK. quanto o Quênia. com os quais vive em uma “comunidade” bastante peculiar [besondere]. Doris. O ponto de origem dessa voz talvez dependa. contra uma visão unívoca (e.E Beck termina a narrativa. A “saudade de casa” tem. portanto. e influencia de maneira categórica o trabalho de Beck. como também a universalização do particularismo (ROBERTSON. Robertson. afastar a confusão entre globalização e homogeneização. quanto a isso. para esse autor. grifos do autor). 2007: 127-128. forjando um conceito que evoque uma dimensão espacial. Ele a formula no seguinte axioma: 59 . parte da premissa de que a globalização envolve não apenas a particularização do universalismo.

mesmo estando debaixo do nariz. É uma “África” que continua distante. um monólito. que os alemães convivam entre si. A senhora da narrativa beckiana convive com um grupo específico (alguns alemães cosmopolitas) e com um conjunto amorfo (“africanos”). em 1569. Nesse sentido nos é permitido falar de paradoxos de culturas “glocais” (Ibidem: 91. Pode-se imaginar.A “cultura global” não pode ser compreendida de modo estático. uma “África que existe em Nottingham”. ou um dialeto local. porque não poderiam se comunicar com muitas outras pessoas. para usar uma expressão do autor40. 60 . é preciso observar que essa velhinha relaciona-se em um curioso círculo de africanos e alemães. neste gueto queniano-germânico pitoresco. sem maiores problemas. distanciada. como certamente aconteceria. na qual a Europa se apresenta maior que a América do Sul (que é quase duas vezes mais 40 Beck refere-se à ideia abstrata que parecem fazer de África os descendentes de imigrantes africanos das comunidades situadas nessa região da Grã-Bretanha. à sua lógica do capital. No Quênia talvez haja menos dificuldades uma vez que muitos grupos no país falam inglês (vale lembrar que o Quênia esteve sob domínio britânico durante parte dos séculos XIX e XX). que compreende e desvela [begriffen und entschlüsselt] elementos contraditórios em sua própria unidade. pequena. a Gerard Mercator expondo sua Projeção Cilíndrica do Globo Terrestre (ainda hoje muito usada). é o mesmo que assistir. grifos do autor). às vezes mais que o desejável. de modo economicista. A África aparece aqui como uma ideia abstrata. fora de foco. há aqui uma hierarquia cosmopolitista. legitimada por uma visão teórica de pretensões globais. Dito mais explicitamente. imagino. Segundo. Note o leitor que Beck não narra o momento em que as personagens procuraram aprender o suaíli. Por que alemães? E por que “africanos”? As palavras são eloquentes. aparentemente unívoca) – segundo o modelo da “glocalização”. mas apenas como um processo contingente e dialético (e que já não permanece restrito. reduzida a uma totalidade obscura. No fundo. se fosse um queniano que chegasse à Tutzing.

e a Índia. Trata-se de observar que o viajante é (ainda) um “outro”. com algumas adaptações. mais tarde. Separa-se de sua terra. com efeito. vai a uma outra parte do mundo (note-se. é europeia. intitulado “Warum bist du bloβ so deutsch? (Abschied vom geliebten Land)” [Por que você é assim. quando sua namorada termina com o relacionamento. caberia estabelecer um breve contraponto. Certa feita o célebre jornal alemão Spiegel Online (SPON) publicou um relato semelhante àquele que nos narra Ulrich Beck. essa cosmopolitização. É à primeira. Ele regressa à Alemanha. 2009). Para ilustrar essa parte do meu argumento. Sim. Markus relata sentir-se como se carregasse uma mochila cheia de pedras preciosas e. O mesmo valeria. A matéria consistia num relato de Markus. O africano que vai à Europa é imigrante. é cosmopolita. O mundo continua sendo apenas para alguns. uma vivência cosmopolita. para latino-americanos. O fato é que não há cosmopolitização para todos. árabes. O problema não está em viajar. como aparece. E aqui cabe um esclarecimento. e não à segunda. seja geográfica. Insinua mesmo que. Terceiro.extensa). da namorada. em alguma medida. menor que a Escandinávia (que tem cerca de um terço seu território). ela o tenha feito por considerá-lo “demasiado alemão”. a própria palavra já nasce grega. tão somente alemão? Adeus à terra amada] (FLOHR. nem tão distante assim. uma alteridade. ou um missionário canadense. não importa. há aqui uma confusão com a ideia do viajante. de distinguir entre Abschied von 61 . questiona a sua própria “germanidade”. A velhota alemã. O ponto é a confusão entre a possibilidade de uma visão mais cosmopolita e a multiplicidade de pontos de vista. seja historicamente). Israel aparece aqui como uma experiência mais rica que a vivenciada na Alemanha. do que lhe é familiar. que se refere o subtítulo “Adeus à terra amada”. europeus do leste ou turcos. Markus poderia ser um mochileiro brasileiro. ilegal ou representante de um determinado povo com o qual os europeus se sentem em dívida historicamente. um rapaz alemão que viaja a Israel. que vive “transnacionalmente” e nem sabe mais qual é de fato a sua casa. Israel torna-se uma imagem do distante.

é preciso 41 A expressão é inspirada no termo “domínio do eu” (domain of the self). em ambos os casos. inclusive narrados em vídeo. É curioso perceber que. dirigir uma crítica à universalização de certas ocorrências particulares.einem geliebten Land. Por outro lado. adeus à uma terra amada. e de que também não pode tão facilmente se libertar. há um domínio do indivíduo41. focada num tipo de perspectiva do “eu”. Entretanto. usada por Richard Sennett (1977). Ora. no jornal mencionado. alemães – sem mencionar o funil intelectual. de um viajante qualquer. Esse material. foi dirigido a um público leitor bastante específico: europeus. Menos de dois meses depois. germanófonos. e Abschied von der Heimat. note-se. Note o leitor que se trata de um ponto difícil. e guarda importantes semelhanças com o da velha senhora.) Beck apega-se à observação de que as experiências e impressões de indivíduos podem expandir-se pelo planeta. narrado por Beck. que se percebe como uma espécie de transeunte mundial cujos movimentos do ponto de vista do espaço são voluntários. publicou. com efeito. cosmopolita e livre. que esquece de um “nós”. (Muito embora esse deslocamento não seja suficiente. trechos do seu diário de viagem. Como venho procurando sustentar. do qual ele parte. é através dessa globalização de particulares que Beck constrói seu cenário sociológico. é claro. porquanto desmedida. 62 . contudo. poucas décadas atrás. adeus à minha terra. uma análise como a proposta aqui parece conferir um pouco mais de realismo (ou realidade) à uma narrativa parece idealizada. Aproximadamente um mês de cosmopolitismo. que também mostrase acirrado na “Europa culta”. Markus partira no final de Julho e retornara no início de Setembro do mesmo ano. o relato de Markus poderia ser substituído facilmente por outro. para provocar uma alteração substancial em seus pontos de vista. como se costumava dizer. É preciso. simultaneamente abstrato e concreto.

Note-se que Doris retorna à Alemanha frequentemente. A questão seria. Afinal. segundo suas próprias escolhas. ou modernização reflexiva. ainda. 63 . em certo sentido. de onde provêm. Aqui se inserem outros dois temas. São eles o cosmopolitismo e a modernização da modernidade. A essa altura o leitor talvez já não se pergunte mais quem disporia desse tipo de oportunidade. a tal senhora. centrais à narrativa beckiana. de que maneira essas possibilidades de escolha se apresentam ou. é uma possibilidade bastante nova na história e fascinante do ponto de vista sociológico.observar e reconhecer o valor metodológico da opção pelo enfoque no indivíduo. Certamente não seriam condenados às mesmas escolhas se tivessem de vencer a violência no subúrbio de Nova York ou na Cidade do México. malgrado todos os limites. Talvez suas amizades não fossem tão interessantes para os amigos africanos (há também o outro lado da moeda). de uma efetivação. Quarto e último. perceber-se como um indivíduo sem fronteiras. ou mesmo se tivessem de se sustentar numa pequena aldeia russa ou tibetana. Vamos por partes. Pensar um processo de individualização reflexiva. no qual o indivíduo disponha dos meios e possibilidades para escrever sua autobiografia. positivamente desterrado. para “receber seu dinheiro”. escrevem suas biografias no Quênia (no Japão ou no Peru) porque podem. isso tudo implica uma consequência lógica: é preciso que esse indivíduo tenha a oportunidade de escolher. Talvez nem soubessem do que isso tudo se trata. outra: como. Trata-se. de um velho sonho europeu (e alemão. pela orientação do pensamento a partir dessa categoria. de certo. em particular) que vislumbra a formação de uma sociedade planetária. Talvez não pudessem comprar a passagem aérea. Vejamos o primeiro deles. Doris e seus vizinhos viajam.

viagens. bens culturais. trazem consigo inúmeras incertezas e insuficiências. especialmente. Kant elaboraram trilhas de pensamento e imaginação nas mesmas diretrizes. em nível local e mundial. econômica. mas nem por isso deixa de fazê-lo. trata-se também de uma narrativa muito próxima do idealismo (e até mesmo do teleológico). estética. Ele adverte. Isso não representa necessariamente um demérito. cidadanias múltiplas. paira o desenho de uma ideia. criminalidade. Em certo sentido. Para além dos fatos. Beck chega mesmo a advertir de que não se deve confundir cosmopolitização (uma vez que o sufixo denota um processo dinâmico) com algum tipo de processo linear ou normativo. Cosmopolitização. alternativas. em dimensão cultural. ciência. factual. Se é evidente que a cosmopolitização é um processo repleto de contradições que. O indivíduo beckiano tem (ou deve ter) acesso a esses processos. do ponto de vista sociológico. de um ideal. “Idealismo alemão”. A cosmopolitização diz respeito. cuja consequência “direta” seria a sociedade mundial (Weltgesellschaft) cosmopolita. Marx e.II. estruturas e vínculos entre os indivíduos e grupos. cosmopolitismo: interlúdio da globalização Se o indivíduo pode escolher. O discurso contradiz a advertência. riscos ecológicos. envolvendo a aceleração. de bens tecnológicos. mídia. Hegel. difusão. O cosmopolitismo seria uma espécie de interlúdio normativo da globalização. a um conjunto de processos de caráter transnacional. algo em cuja direção 64 . para Beck. circulação. possibilidades e improbabilidades. é porque há (ou devem existir) opções. processos migratórios. política e normativa. talvez pudéssemos chamar assim. Isso empiricamente verificável. como o cosmopolitismo kantiano. Constitui o eixo sobre o qual se intensificariam as relações. intensificação.

fenômenos. civilização. um constante “estar a caminho de algo” (auf dem Weg)42. Isso implica cinco diferentes dimensões. como formulado por Ianni. O próprio autor reconhece isso. e (c) incluir o afastamento do futuro. relações e estruturas que envolvem a emergência da globalização – caracteriza muito mais uma aposta em seus desdobramentos futuros. Há uma espera por um vir-a-ser. 200 anos atrás – ser um cidadão de dois mundos – “cosmos” e “polis”. uma utopia. consequência. mas do sucesso da primeira modernidade. e (e) superar o (estado de) controle da racionalização (científica. Assumindo 42 O leitor pode se perguntar: será que os trabalhos de Octavio Ianni não incorreriam nas mesmas idealizações? De fato. não me parece que o neo-socialismo esteja conceitualmente vinculado aos processos. O cosmopolitismo pressupõe o “cosmos” e a “polis”. (b) incluir o afastamento de outras civilizações e modernidades. constitua uma idealização. e (como veremos mais adiante) pelas consequências. grifos do autor). No entanto.caminham todos os acontecimentos. mas apenas uma tendência ou uma possibilidade. Aqui. não do fracasso. “Cosmopolitismo” significa – como mostrou Immanuel Kant. distintas entre afastamentos [otherness] externos e internos. Pressupõe uma natureza afastada. é possível pensar que o conceito de neo-socialismo. cidadania e modernidade. que é produto. uma sociedade mundial cosmopolita. de uma modernização da modernidade. Dentro dessa perspectiva. internamente. linear) (BECK. Implica uma racionalização a ser superada. Os pilares do cosmopolitismo são tão europeus quanto os termos nos quais são descritos. Externamente. Não é um eixo sobre o qual a globalização se desenvolve. o futuro afastado. significa: (d) incluir o afastamento do objeto. estaríamos a caminho de uma nova sociedade. que desemboca numa segunda modernidade (esse é o tema da terceira parte deste capítulo). significa: (a) incluir o afastamento da natureza. processos. da vitória da sociedade industrial. o importante é ter em mente que o cosmopolitismo é uma trilha aberta pelo desenvolvimento dessa segunda modernidade. mudanças. 2002: 18. uma modernização reflexiva. 65 . desenhados.

Há uma confusão entre o normativo e o empírico. É pós-tradicional e. somente para lamentar a estupidez do futuro público – após a ocorrência da catástrofe – por má interpretação das declarações de probabilidade. É. como os riscos das empresas. significa que as instituições da própria sociedade industrial perderam o controle sobre (ou a capacidade de compensação das incertezas geradas pelas) consequências do desenvolvimento da produção industrial. e o que é. ou importantes e sem importância) devem se relacionar um com o outro. também uma consequência de um certo tipo de modernização. Os riscos são infinitamente reprodutíveis. na teoria da sociedade de risco (Risikogesellschaft). brasileiro. 1997: 20). que me parece um equívoco teórico-metodológico. latino-americano. Hoje em dia é possível afugentar as críticas com um risco de quase zero. dos empregos. pelo menos no sentido de não ser mais instrumentalmente racional [post-zweckrational]. Os riscos tornam-se mais evidentes na matemática. objetiva. pois se reproduzem juntamente com as decisões na sociedade pluralista. por seus próprios meios e de dentro para fora. entre o que deveria (ou poderia) ser. pertencente a uma semiperiferia mundial. seja do questionamento e da forma perceptível de risco. também se manifesta. as questões de ordem. torna-se reconhecível que – e em que extensão – as questões de risco anulam e fragmentam. da saúde e do ambiente (que por sua vez se transformam em riscos globais e locais. de fato. pós-racional. Por exemplo. Esse tipo de análise.outro ponto de vista. os riscos têm sua origem precisamente no triunfo da ordem instrumentalmente racional. pressupondo-o. e outra externa. Beck propõe uma conexão entre uma dimensão interna. a partir da qual o autor tornou-se conhecido. portanto. assim. de feição subjetiva. seja de um desenvolvimento industrial além dos limites do seguro. a minha proposta é simples: tudo isso só pôde ser percebido no interior de uma sociedade onde se vivenciavam esses processos. à modernidade periférica. que não excluem nada. Estes são sempre probabilidades. em certo sentido. aqui. se comparados e colocados em uma ordem hierárquica? (BECK. 66 . Risco. e nada mais. A expansão dos riscos em nível mundial é o que constituiria uma sociedade mundial de risco. A categoria do risco defende um tipo de pensamento e ação social que não foi de forma alguma percebido por Max Weber. Entretanto. Somente depois da normalização. de modo embrionário.

Se o futuro é construído intencionalmente, há que se enfrentar sempre a
escolha entre duas ou mais possibilidades. Sim, somos livres para escolher e,
note-se, escolher racionalmente. O risco tem uma dupla face: a ameaça e a
oportunidade. É uma categoria da probabilidade, e só podemos entendê-la por
meio do cálculo. Trata-se de uma dimensão impalpável, do ponto de vista
empírico, e que não pode ser estimada com qualquer precisão, seja sociológica,
jurídica, ou matematicamente, no Brasil, na Alemanha, ou no Butão.
Em comparação aos brancos, os nativos possuem uma percepção bem
menor dos riscos da vida. (...) Conformados com o imprevisto e
acostumados com o inesperado, os quicuios [um dos grupos étnicos do
Quênia] nisto se distinguiam dos europeus, a maioria dos quais procura se
precaver contra o desconhecido e a fatalidade. Já o negro mantém
relações amistosas com o destino, ao qual sempre esteve submetido. De
certo modo, o destino é como o seu lar, a obscuridade familiar da choça, a
natureza profunda de suas raízes. Por isso, enfrenta todas as mudanças
da vida com grande tranquilidade (BLIXEN, 1937: 32-38).

Beck não sugere que o mundo não já fosse arriscado anteriormente. Tratase de notar que a natureza dos riscos seria, hoje, outra. Eles são produto da
própria ação humana, de escolhas da humanidade, que se vê obrigada a enfrentálos (BECK, 1986, 2000, 2008)43. Precisamente aqui mora o elo entre risco,
43

Dado o caráter metateórico e imanente da análise que pretendo desenvolver, preferi evitar
referências a comentadores tanto quanto possível. Além do mais, o recorte da cognoscibilidade de
processos globais dificulta a recuperação de quase todos os bons estudos sobre o autor, uma vez
que o foco quase sempre recai sobre o conceito de risco, de sociedade de risco (nacional ou
mundial), reflexividade etc., e menos sobre a sua sociologia da globalização. Aliás, como o leitor
notará, esforcei-me para desagregar analiticamente a noção de risco das categorias mobilizadas
por Beck na tentativa de compreender o fenômeno da globalização. Conquanto seja de importância
irrefutável, a noção de risco tende a preencher em demasia a leitura dos trabalhos de Beck e,
assim, tende a ofuscar os demais alicerces do seu pensamento. Ironicamente, a supressão
analítica do risco, permite tornar mais vulneráveis e, portanto, mais apreensíveis outras categorias
que norteiam a percepção do autor. Ademais, já existem abordagens bastante avançadas das
variadas formas que a ideia de risco assume e com que se desenvolve no pensamento de Beck.
Entre elas, vale a pena citar Bosco (2011, 2012), Costa (2000, 2004, 2006), Ferreira (2006, 2011),

67

cosmopolitismo e globalização. Os riscos tornam-se cada vez mais globais, e isso
envolvendo indivíduo, sociedade, economia e política. Apontam para uma
sociedade mundial unida pela possibilidade da fortuna ou da desgraça. O tema da
energia nuclear é, nesse sentido, um fenômeno heurístico. A existência de uma
força capaz de destruir o mundo um sem número de vezes implica, de imediato,
duas

possibilidades:

extraordinárias

oportunidades

de

mercado,

de

desenvolvimento em C&T, entre outras, por um lado e, por outro, a visão do fim do
planeta. É realmente interessante a observação de que isso tende a engendrar
uma espécie de solidariedade mundial, unindo a humanidade pela incerteza. E
guarda relação com temas como desenvolvimento sustentável, responsabilidade
cidadã, crise ecológica, e assim por diante. Põe em relevo uma nova posição
ocupada pela (ou atribuída à) Natureza (com N maiúsculo): quebra-se a dicotomia
iluminista “natureza versus sociedade”, a Natureza entra para a sociedade, para o
nosso cotidiano, toma parte nas vidas dos indivíduos e, inclusive, nos riscos por
eles enfrentados. As catástrofes naturais, por exemplo, são imprevisíveis, por um
lado, mas, por outro – embora em medida desconhecida –, provocadas pela ação
dos indivíduos e pela produção industrial em escala global. Por baixo de tudo isso,
há a ideia de um mundo que é de todos e de cada um ao mesmo tempo.
Indivíduos que devem ser livres para tomar decisões arriscadas e sem contar com
a proteção de um aparelho institucional estatal, com uma visão cosmopolita,
apontando para a globalidade.

Guivant (2001), Áurea Ianni (2010, 2012), Vandenberghe (2001). Em outra oportunidade, esbocei
uma análise a respeito do papel das sociologias do risco na emergência da sociologia da
globalização, focalizando os aportes de Beck e de Niklas Luhmann (cf. ARNAUT, 2013b).

68

III. Modernização da Modernidade: raízes da globalidade, caminhos da
globalização
O leitor mais diligente vai perceber que, na minha exposição, tomei uma
decisão ousada: inverti a ordem dos argumentos na teoria beckiana. O meu
propósito, com isso, foi evidenciar alguns dos seus problemas e insuficiências.
Note-se, entretanto, que se trata de enfrentar uma teoria sofisticada, refinada do
ponto de vista sociológico, de modo que desmembrá-la e apontar suas
dificuldades é sempre uma tarefa difícil. Minha intenção foi, neste espaço
reduzido, tratar de três pontos centrais: a individualização, a cosmopolitização e a
modernização reflexiva. Apresento-os dessa maneira, porém sua ordem lógica
seria exatamente a oposta. São fenômenos que engendram a si mesmos, e que
produzem,

como

consequência,

outros

processos.

Assim,

a

partir

da

modernização da (primeira) modernidade industrial, pode surgir uma segunda
modernidade, reflexiva, com a qual irrompe a possibilidade de visões e vivências
cosmopolitas, acompanhadas de um processo de individualização das biografias
em escala mundial. Isso implica uma outra vivência da Política, como veremos
mais adiante44, e também das relações afetivas – o “amor”, em especial (BECK,
2011). Como dito anteriormente, a modernização reflexiva, que desemboca na
segunda modernidade (zweite Moderne) é o pilar da cosmopolitização e da
individualização da biografia. Apresentar estes temas desacompanhados de sua
base, suas raízes, proporcionou a oportunidade de visualizá-los de maneira mais
contundente, por estarem despossuídos de parte de sua beleza, de seu contexto,
de sua força. Trata-se de uma estratégia discursiva e argumentativa, que torna
mais fácil captar e pôr em relevo os problemas implícitos numa narrativa, no caso
a beckiana.

44

Ver capítulo quinto.

69

a modernidade simples caminha para a modernização reflexiva. desvelar-se um fato de todo simples: o mundo apresenta riscos. Beck a concebe como o processo de passagem da sociedade industrial à sociedade de risco. da Revolução Industrial e da Belle Époque. como dito para os demais pontos (a individualização e o cosmopolitismo). um ponto que distingue decisivamente os dois momentos: o sujeito da análise não é um processo revolucionário. na qual um tipo de modernidade sucede a outro. O indivíduo logra “libertar-se” das amarras da sociedade industrial. O raciocínio segue o modelo (histórico) da transição da chamada modernização simples. 70 . e a ciência e a racionalidade ocidentais não são capazes de dominálos. as raízes dessa visão ou consciência cosmopolita. estabelecendo uma relação de causalidade. dizer que agora encaixam-se todos os pontos que levantei. numa espécie de “faça você mesmo”.Mas em que consiste. Pode-se. nossas próprias biografias. vemo-nos acuados. afinal. então. Mais uma vez. das infinitas possibilidades que a nossa razão não é capaz de alcançar. porém. essa compulsão por escolher diante do imperativo de escrevermos. ainda que “livres”. a ponto de. Este é (mais) um dos paradoxos do mundo contemporâneo: frente a uma situação de progresso técnico-científico jamais imaginada na história. Há. Essas escolhas são consequência de uma visão de mundo ampla. e vê-se mergulhado numa sociedade de risco mundial [Weltrisikogesellschaft]. estaríamos condenados a experimentar essa liberdade de escolha. tampouco uma crise da sociedade industrial. a modernização reflexiva implica uma inadequação categórica. diante do não conhecimento. A segunda modernidade advém da vitória da primeira. dirigida a uma individualização reflexiva. passado o deslumbramento da (primeira) modernidade. incertezas. à modernização industrial. a modernização reflexiva? A ideia é relativamente simples. Trata-se de uma nova fase da história do mundo. na Europa do século XIX (ou parte dela). Aqui. Numa situação de globalidade. mas sim o sucesso da modernização ocidental.

em certos casos.histórica e empírico-metodológica. dada a própria colocação do problema. quando pensada fora de seu contexto específico. por assim dizer. da abastança. da violência. o autor esclarece que teoriza um “espírito” específico. As mães são muitas. que aqui se trata apenas do capitalismo da Europa ocidental e da América do Norte. ‘Capitalismo’ existiu na 71 . nem todos são filhos da liberdade. o problema não está em teorizar os movimentos da modernidade europeia. segunda. Mesmo na Inglaterra. também está presente outra questão. da miséria. mas muito conhecida nas ciências sociais surgidas no velho mundo. diga-se de passagem. naturalmente. crescem e morrem neste mesmo planeta. por Max Weber. a noção de modernidade toma formas inteiramente distintas e mesmo. O leitor talvez já tenha percebido que. e também da nobreza. Já no começo da segunda edição de sua Ética. décima. Refiro-me à presença de um certo eurocentrismo. Meu esforço é para mostrar. a modernidade (ainda) não alcançou o mundo todo. ao menos do nosso ponto de vista. No fundo. Sim. aquele do “capitalismo moderno. não importa) é que ela se apresenta como um fenômeno de centro. da força. exemplarmente. processos e relações que não podem ser observados fora de algumas situações bastante específicas. E. não toma forma alguma. da doença. um problema da modernidade (primeira. propagado globalmente através de processos hierárquicos que se manifestam em nível local. estruturas. Japão ou Estados Unidos. Perdoe-me o leitor. Há os filhos guerra. Escusado dizer. menos interessante. embora todos sejam filhos do mesmo mundo. o seguinte: trata-se de um fenômeno que pressupõe acontecimentos. isso foi percebido. de uma situação particular experimentada por parte da Europa ocidental contemporânea. nesse debate. do Haiti ou da Índia. Certamente. mas sim em pensar que ela pode (vir a) ser experimentada globalmente. caso eu seja demasiado categórico neste apontamento histórico-geográfico. porque grosseira. regional e mundial. Aplicada à realidade brasileira ou queniana. parte da América do Norte e Japão. França. Todos nascem. nacional. do medo. da exclusão. da fome. ou propor.

Resta a visão do seguinte quadro. Tenho notícias de que engenharia genética e a bioquímica têm se desenvolvido de maneira impressionante. sobretudo nos Estados Unidos. tardias). 72 . advirto mais uma vez que a probabilidade de eu estar completamente errado é enorme. mensurar mais precisamente em que geração meus “genes sociais” se tornarão cosmopolitas. sou prudente. haveria alguma esperança. cerca de quinze anos depois da publicação da primeira. a implantação também de indústrias capitalistas muitas vezes não tem sido possível sem amplos movimentos migratórios provenientes de regiões com cultura mais antiga. Mas. as qualidades (por assim dizer) éticas do operário no capitalismo (e em certa medida também do empresário) adquiriram um ‘valor de raridade’ cada vez mais alto em relação às aptidões do artesão. talvez possa alcançar um patamar minimamente adequado. evoluir e compreender as maravilhas de uma modernidade cosmopolita e global (quem sabe. na Índia. Certamente havia uma demanda do público leitor por esse esclarecimento. 45 O trecho foi inserido na segunda edição. Despeço-me tomando minha caneta. como veremos. a fim de começar ensaiando a redação da minha autobiografia. do outro. Por isso. quem sabe. a técnica moderna. Estamos diante de uma hierarquia mundial reeditada. Por corretos que sejam os comentários de Sombart sobre o contraste entre. está dado o objetivo (possível). numa visão cosmopolita do mundo. talvez não consiga ver. as ‘aptidões’ e segredos de ofício do artesão. cientificamente objetivada. meus descendentes (e. e. ainda numa terceira ou quarta fases. Pronto. Na perspectiva de Darwin. Se eu for esforçado. seu cosmos ampliando-se em dimensão mundial. os do leitor) talvez possam. embora esse ponto seja contemplado em outros escritos weberianos. [1920] 2004: 45. referente a esse mesmo capítulo: “Por isso. no conforto da polis. faltava-lhes precisamente esse ethos peculiar” (WEBER. que são inseparáveis da pessoa. Quem não está. grifos do autor)45. na Antiguidade e na Idade Média. Para Lamarck. de um lado. na Babilônia. se for o caso. solidificadas por séculos de tradicionalismo” (Ibidem: 180. de modo que talvez se possa. aos poucos. em alguns anos. e ela me condene a ser livre.China. grifos do autor). Talvez eu possa ser adotado pela velha mãe liberdade. Quem está no topo pode apreciar. Vale a pena citar um trecho da nota número 38. essa diferença mal se fazia presente à época do surgimento do capitalismo – aliás.

PARTE SEGUNDA 73 .

74 .

Capítulo V O Lugar do Pensamento na Globalização 75 .

Diz respeito também ao poder. E esse contraponto deve. torna possível uma redescoberta da Política. e também movimentos ecológicos ou humanitários. convido o leitor a avançar e contrapor os esforços desses autores para a cognição desses processos. de certo. permite (re)conhecer a sociedade através da Política. crítica e. Nesta etapa que se segue. assim como estruturas e processos econômicos. ainda que não haja provas de que ele a tenha usado de fato. 2006: 269). modifica e deixa-se modificar por todas as demais esferas da sociedade. sob os diversos prismas da sociabilidade. ao conviver. o advento da globalização parece abrir um caminho de ida e volta. é claro. como atributo da Humanidade. todos eles trespassam. indivíduos e grupos. às leis. Para as ciências sociais. De um ponto de vista sociológico. fenômenos midiáticos e de uma rede de alcance global. Dificilmente se poderia pensar sistemas e relações. à (sobre)vivência. a Política mundial não se limita às instituições. Os dois capítulos anteriores compuseram uma introdução concisa. censuras. Segue o original: “An eye for an eye leaves the whole world blind” (SHAPIRO. à ordem. manifestações populares. Numa direção. corações e mentes. É assim que guerras. interessada aos principais elementos que parecem orientar a cognição de processos de globalização nos trabalhos de Octavio Ianni e Ulrich Beck. noutra. 76 . 46 Mohandas Karamchand Gandhi A Política. conflitos armados. jurídicos. esse momento representa o desafio de explodir a “jaula de ferro” da métrica de uma política estatal. 46 A frase é atribuída ao Mahatma. crises de cada vez maior alcance e impacto. Sim. culturais ou ecológicos sem que a levemos em conta. ainda que em diferentes medidas. fazendo-se presente nas mais particulares relações sociais e também nas grandes translações humanas pelo mundo. supera fronteiras e limites. aldeias e continentes. como fenômeno mundial. pode-se vislumbrar que a Política. Assim.O olho por olho deixará todo o mundo cego.

Tanto Ianni quanto Beck fazem o que se poderia denominar Sociologia Política da Globalização. social etc. jurídica. Trata-se. Se a globalização. Outra dimensão importante seria a social. A primeira não é explorada pelos autores com a mesma acuidade presente nas referências à segunda. e mesmo tradicionais sistemas econômicos são abordados em termos sociopolíticos. No entanto. de observar que todas as demais esferas da sociabilidade (econômica. A Política trespassa os limites do Estado-nação. Em geral. Assim. cultural. Nesse sentido. uma análise sobre “o social” representaria um recorte demasiado abrangente que.partir de uma questão adequada. a Política pode ser observada como uma categoria que abarca fenômenos através dos quais é possível captar transformações em nível planetário 47 O leitor de Beck e Ianni poderá perceber que a dimensão cultural. como visto. antes. por outro lado. poderia espraiar o foco da investigação e até mesmo conferir a este texto um caráter prolixo. conquanto possível. nos pensamentos de ambos os autores. Note-se que isso não significa afirmar que eles desconsiderem quaisquer das outras dimensões da vida em sociedade. não apresenta o mesmo caráter multifário da Política. 77 . as análises econômicas ganham mais densidade quando assumem o caráter de economia política. fugindo cada vez mais claramente ao seu controle. fazendo-se nela presentes47. Há observações. que norteie os pensamentos de ambos os autores. Assim também. possibilitando o estudo confrontado dos dois. assumindo formas espaço-temporais restritas e até mesmo aparentemente isoladas do todo. trespassadas pela Política. tanto em Beck quanto em Ianni. mas tais contribuições não chegam a caracterizar um tratado de economia mundial. começo por uma pergunta aparentemente simples. não recebe tanta atenção em suas dimensões. revelando-se transnacional ou propriamente mundial. manifesta-se nas mais particulares situações. insights referentes à economia global. abala os fundamentos da principal instituição política da era moderna – o Estado nacional – é de se esperar que se procure captar os diversos mecanismos através dos quais a Política se transforma.) apresentam-se. embora importante. Algo semelhante ocorre com a esfera econômica. mas que se revelará frutífera: qual a situação da Política em meio à globalização? Com efeito. o recorte dessa esfera da sociabilidade em particular deve-se à própria escolha dos autores.

organizei este capítulo da seguinte maneira. sejam elas agentes. ou que a ela estejam ligados. Nessa linha. Por fim. abordando elementos como o papel do capitalismo. fonte de ilusões e de novos insights. Com base nisso. pensar a situação da Política na globalização significa perscrutar fenômenos que façam parte dos que se pode chamar de Política-mundo. de desencantamento e de reencantamento do mundo (V). a inteligência de estruturas. Procurei iniciar a minha análise apresentando uma reflexão sobre a problematização sociológica de categorias políticas e de economia política. com vistas a apresentar os novos horizontes que se abrem a partir dessas reconfigurações da Política em escala global. relações e processos políticos em nível planetário envolve a busca por elementos que permitam perceber a gama de forças neles presentes. expus uma visão convergente dos pensamentos de Beck e de Ianni.à medida que são investigadas as próprias transmutações por que passa a Política no mundo contemporâneo. Com o objetivo de refletir sobre as contribuições de Ianni e Beck para essas inquietações tão pertinentes. em suas diferentes formas de compreensão e o problema teórico dos Estados-nação no mundo contemporâneo (I). subjacentes ou intermediárias. Busquei então esclarecer as razões para um recorte majoritariamente político. bem como no que diz respeito à produtividade do trabalho e a seguridade social (IV). tendo em vista os objetivos deste trabalho (II). trabalhando os diagnósticos sociais de fenômenos ligados à violência planetária (III). Em outras palavras. foi possível avançar e acessar uma dimensão mais factual dos pensamentos dos autores. Aqui. as configurações dos globalismos. suas relações com a segurança e a violência. Do ponto de vista do conhecimento sociológico. procurei apresentar o modo como a Política pode ser. 78 . simultaneamente. tratei do modo como Ianni e Beck concebem e lidam com o as desigualdades em nível mundial.

O leitor provavelmente recorda-se de que esse conceito já foi apresentado. a metáfora do “globalismo” aparece investida de sentidos essencialmente distintos nos conjuntos das duas obras. como modo de produção e processo civilizatório que logra. assim como para Ianni. quando procurei analisar as bases do pensamento 79 . nem evidente: os sentidos não são diametralmente opostos – na verdade. Nesta etapa da minha análise. um “globalismo” é consequência e também parte integrante do outro. alcançar proporções mundiais. Para Marx. A expressão máxima do Capitalismo O globalismo configura. Mas. requisita que sejam revisitados alguns aspectos da obra marxiana. essa diferença não é simples. Compreender essa tese. aos poucos ou repentinamente. Isso nos permite. essa maleabilidade semântica implica o risco de que uma mesma palavra denote ideias distintas. É desse modo que se torna possível conceber o que Ianni denomina “globalismo” como uma fase do desenvolvimento histórico do capitalismo. no entanto. o capitalismo pode ser entendido como um modo de produção que tende à expansão. as tentativas de teorizar os processos de globalização são marcadas pelo uso de metáforas. respostas à globalidade Como vimos nos quatro capítulos anteriores. Com efeito. por um lado. 1. Enigmas do globalismo. de sua expansão. uma certa maleabilidade na expressão das linhas de compreensão do fenômeno. o novo ciclo do capitalismo. Por outro lado. creio que seja imprescindível estabelecer as linhas que separam essas duas formulações. note o leitor. É precisamente isso que ocorre com o termo “globalismo”.I. na medida em que abre caminho para a abstração. para Octavio Ianni. se confrontarmos os seus usos nos trabalhos de Ianni e de Beck.

com as formas locais e nacionais do capitalismo. a chave para a Economia na Antiguidade. o globalismo está presente em cada uma delas. mais polêmico. Ianni propõe uma compreensão do globalismo como a expressão máxima do capitalismo. Para evidenciar essa ideia. agora. Pode-se dizer que. e assim por diante. A economia burguesa fornece. Sim. Pode-se compreender o tributo. quando o superior [Hörere]. Do mesmo modo. em contrapartida. essencialmente distintos49). embora este tenha se realizado efetivamente antes daquele. o capital encontra-se na essência do dinheiro. o capital atingiria o seu ciclo máximo de expansão. para Ianni. dar um passo adiante. com a emergência do globalismo é possível identificá-lo nos movimentos anteriores do capitalismo (o que. mas de maneira latente – do mesmo modo como. Nesse raciocínio. note-se. seção I. no pensamento de Marx. no fundo. relações e estruturas do capitalismo expandido em seu limite geográfico. se compreendemos que. 49 Como sustentava Marx. se se conhece a renda fundamental [Grundrente]. o globalismo aparece aqui na essência do capitalismo. do próprio Marx. quando encontra as condições históricas para sua emergência. Mas de modo algum à maneira dos economistas que apagam [verwischen] todas as diferenças históricas e veem. não identificá-los” (MARX. “nos animais.. porém.ianniano sobre a globalização48. os indícios de uma espécie superior em uma espécie inferior somente podem ser compreendidos. a partir do sufocamento dos processos. aliás. o dízimo etc. está no mais alto ponto conhecido da disposição que vige no interior dessas fases historicamente precedentes do capitalismo. na história. em todas as formas de sociedade. que são anteriores à sua globalização. 1859). assim. Assim. Assim também acontece. Quero. 80 . ele próprio. já é conhecido. no globalismo. uma das passagens destinadas a apresentar o método da sua contribuição à economia 48 Capítulo terceiro. É preciso. a sociedade burguesa. é possível conceber as condições e possibilidades de uma revolução mundial como imaginada por Ianni. vale a pena citar. não quer dizer que se confundam: são. mas evidencia-se somente na atualidade.

Afinal. Seria. errôneo e impraticável [untuber] sobrepor as categorias econômicas na ordem segundo a qual se sucedem umas às ouras. a metáfora é a mesma usada por Ianni.política. 2. Como dito. para Beck. policêntrica e cheia de contingências políticas – e o globalismo (Globalismus) que. Economia política: globalismos do globalismo No quarto capítulo. a globalidade (Globalität) – complexa. Com efeito. o que Beck chama de “globalismo” consiste em uma faceta (economicista) da globalização. 1859. Nesse sentido. é simplório. Trata-se menos ainda de sua sequência de sucessão “na ideia” (Proudhon) (de uma representação desfocada [verschwimmenlt] do movimento histórico). Não se trata da relação que as relações econômicas assumem historicamente na sucessão das diferentes formas sociais. e que é precisamente o contrário do que parece ser conforme sua natureza ou que corresponde à sequência do desenvolvimento histórico. pois. optei por não abordar mais detidamente a questão do globalismo. quando não ilusórios. aqui. o globalismo configura. mas o significado é diverso. São claramente distinguíveis. Esse globalismo é visto como uma fonte de enganos (Irrtümer) que turvariam a percepção da complexidade característica dos processos globais. para ele. “globalismo” é o nome dado à ideologia que preconiza os domínios do mercado mundial em moldes lineares obsoletos. dedicado ao pensamento de Beck sobre a globalização. Em lugar disso. Sua ordem de sucessão é muito mais determinada através da relação que elas têm entre si na sociedade burguesa moderna. É que essa não parece ser uma categoria propriamente fundamental para compreender sua percepção dos processos globais. o leitor atento talvez já suspeite da conclusão analítica a que se pode chegar com essa distinção contrapositiva: o “Globalismo” de Ianni contém o “Globalismus” de Beck (ver esquema conceitual 1). Nos trabalhos de Beck. na qual foram historicamente determinantes. grifos do autor). sendo esta 81 . trata-se de sua disposição [Gliederung] no interior da sociedade burguesa moderna (MARX. muito mais uma consequência negativa da influência de certos atores globais.

para os propósitos deste estudo. uma vez que revela o caráter arbitrário da teorização de fenômenos sociais de amplas proporções. É que. além de uma mesma palavra poder designar. distantes por princípio.entendida como um processo maior. Cada um desses termos destina-se a captar o que os autores identificam como uma faceta ideológica e preferencialmente economicista da globalização. Com efeito. o “globalismo” beckiano aproxima-se do que Ianni denomina “neoliberalismo” (ver esquema conceitual 2). de um ponto de vista categórico. E essa diferença é exemplar. dois fenômenos distintos. 82 . Aqui é possível observar uma curiosa diferença no percurso de cada um dos autores em direção à cognição de certos processos globais significativos. No fundo. ocorre também de duas categorias. ambas as categorias expressam tentativas de cognição e explicação de um mesmo fenômeno mundial. serem empregadas para descrever um mesmo fenômeno.

o que Ianni denomina “globalismo” é o palco da história mundial no qual se formaria a sociedade global em suas diversas dimensões. Nesse 50 Retornarei à questão do significado das palavras no capítulo VI. duas metáforas que contam com distintas origens e percursos históricos podem expressar percepções de um mesmo fenômeno. de um ponto de vista conceitual. com boa margem de acerto. por outro lado. Beck. E também. utiliza-se desta metáfora (Globalismus) para designar apenas um dos aspectos desse fenômeno planetário. por sua vez. o qual também é descrito por uma ideia z. em especial no item IV. é curioso observar como palavras podem desvincular-se do plano denotativo dos conceitos50. Num debate que ainda não dispõe de um léxico comum. 83 . Há neologismos polissêmicos e terminologias ressignificadas. É assim que um termo x pode designar um fenômeno y.Esquema conceitual 1 Globalismo ianniano Globalismus beckiano Como visto neste e no terceiro capítulo. é possível afirmar. Por isso. que o globalismo de um contém o globalismo do outro.

sob outra perspectiva (a beckiana). “globalidade” pode denotar um estágio ou uma condição – dimensões que não se confundem. adjetivando-o e tornando possível pensar em “globalismo neoliberal”. pelo termo “globalismo” pode-se entender. para Ianni) e. 84 .quadro. simultânea e paradoxalmente. um processo e uma ideologia. embora não sejam propriamente opostas – e “neoliberalismo” pode configurar e dar nome a um fenômeno de transformação (do liberalismo em neoliberalismo. expressar-se como atributo desse mesmo fenômeno.

Uma mesma expressão (Globalismo. representar diferentes conceitos. como visto. Para Beck.Esquema conceitual 2 Globalismo/ Globalismus Ulrich Beck Octavio Ianni Efeito colateral Palco da História Ideologia economicista Estágio máximo do Capitalismo Ilusão. ou Globalismus. engano Processo civilizatório e modo de produção Neoliberalismo Globalidade/ Globalität O esquema conceitual 2 mostra como esse uso de palavras e designações pode ser diverso. em alemão) pode. tendo em vista a cognição dos processos globais. designa um efeito colateral de certos 85 .

[…] A rigor. A proposta aqui é a de que. Para este último. demonizar a ação econômica (mundial). Muito mais que isso. que a tudo penetra e modifica. É o brilho no olhar dos “reformadores do mundo (do mercado)” neoliberais. podem ser encontradas duas equivalências. o que Beck denomina “globalismo” aproxima-se muito do que Ianni descreve em termos de “neoliberalismo”. trata-se do estágio máximo do capitalismo. por outro. 86 . uma revolução social apolítica feita de cima. E contam habitualmente com a colaboração ativa dos governos dos países dominantes no sistema capitalista mundial (IANNI. dessa complexidade da globalidade distingue-se claramente a nova simplicidade [Einfachheit] do globalismo. Para Ianni. quando necessário. por isso. As estruturas mundiais de poder. grifos do autor). em contrapartida. como ela é: um economicismo antiquado projetado como gigantesco. uma ilusão planetária de caráter ideológico e economicista. o neoliberalismo articula prática e ideologicamente os interesses dos grupos. 1997: 195. para Beck. uma renovação da metafísica da história. é no contexto do globalismo que o liberalismo se transfigura em neoliberalismo. entendido como um modo de produção e um processo civilizatório.atores globais. que pode provocar medo (BECK. Por um lado. deve ser revelado o ditado e o primado do mercado mundial para tudo – para todas as dimensões da sociedade – prenunciados na ideologia neoliberal do Globalismo. o termo é utilizado em sentido mais amplo (chegando mesmo a conter o primeiro. que constitui-se no palco da história em que se dá a globalização. com ramificações em âmbito regional. Não se deve entender. Nesse sentido. como mostra o esquema conceitual 1). tais como as corporações transnacionais e as organizações multilaterais. nacional e até mesmo local. Já para Ianni. classes e blocos de poder organizados em âmbito mundial. entendida como o império do mercado mundial. o “globalismo” ianniano denota algo próximo ao que Beck denomina “globalidade” (Globalität) e. 1996: 280 e 283). com frequência agem de modo concertado e consensual.

a inclusão da ideia de “neoliberalismo” em Beck num esquema dessa natureza representaria um desequilíbrio categórico. como característica da globalidade ou de alguns de seus aspectos. denota uma atitude política de certos partidos e grupos de poder. como veremos adiante51. Uma delas é como um atributo. não parece guardar relações diretas ou nexos causais com indivíduos e grupos. Com efeito. O neoliberalismo. É. neoliberal). a ideia de Neoliberalismo. Por isso. ela aparece predominantemente de duas maneiras. Afinal. é preciso afastar analiticamente conceitos que não 51 Seção V. 87 . numa sociedade civil mundial. isto é. Tampouco faz-se presente como categoria compreensiva (verstehend) central em seu trabalho. “ideologia neoliberal”. ou qualifica negativamente outros fenômenos. o termo “neoliberalismo” é usado em suas variedades nominal. e menos uma ideologia que penetre corações e mentes. Outra. Aqui que mora o risco de mal-entendidos. nos trabalhos de Beck. dizendo mais respeito a valores que aos interesses da economia em sentido amplo. adjetiva e adverbial (Neoliberalismus. como utilizada por Beck. como categorizado por Beck. Em seus escritos. mas preferencialmente com grupos políticos de poder. categoriza preferencialmente enganos ideológicos e valores ligados a certos grupos. mais marcantemente uma ilusão. Mas. Nesse caso. “os [empresários e grupos] neoliberais” etc. item 1. vistos de modo abrangente. como o interesse aqui é perscrutar os elementos que permitem a Beck e a Ianni captar e compreender aspectos dos processos globais contemporâneos. por que motivo ele não entrou para os esquemas anteriores? É que seu significado parece mais restrito. É nesse sentido que Beck trabalha em termos de “globalismo neoliberal”. é através do vocábulo “neoliberalismo” em sua forma nominal. além de representar um risco de babelizar a minha tentativa de explicação.É preciso notar que. se é assim. uma mentira presente em certas arenas políticas. modos de pensar e fabular no cotidiano de todos e cada um.

ainda que de maneiras diferentes ao redor do mundo. descrevê-la. “outra”. 3. ao menos até onde pude compreender. representam uma chave para a compreensão de uma questão maior.ocupem. Eles não os percebem a partir da mesma perspectiva. vulneráveis diante de atores outrora aparentemente subordinados. 88 . a globalização é diversa. Ela pode provocar a impressão de que haveria “uma” globalização (no singular) que ocorreria numa parte do globo. O Estado-nação como um problema sociológico renovado Tanto Ianni quanto Beck buscam interpretar. o enfraquecimento da mais poderosa instituição social existente na história mundial há cerca de dois séculos: o Estado-nação. assim como também são diversas as maneiras de percebê-la. explicar os processos que emergem. ressignificam-se ou se intensificam numa situação de globalização. no capítulo primeiro). Dito de outro modo. descrever. Ora. grupos e também de empresas (multinacionais. dificilmente seria verificada nas demais dimensões da sociabilidade. no entanto. embora vistos como equívocos em escala mundial. em maior ou menor medida. Creio. Ocorre que a atuação de indivíduos. os Estados-nação apresentam-se. que se daria alhures e assim por diante. supra-estatais ou transnacionais) ao longo do século XX e início do século XXI intensifica. Mas não do mesmo modo. a ideia de globalização pluralizada implica também a imagem de “unidades” de globalização. aqui. analisar seus aspectos52. mas também 52 É nesse sentido que se torna possível pensar em “globalizações” (no plural). que tal distinção não seja tão frutífera de um ponto de vista sociológico quanto talvez pareça. Sim. uma posição basilar em seus pensamentos. o que não se dá. embora por vezes o façam através dos mesmos fenômenos. Essa unidade enxergada por Braudel e Wallerstein (apresentada. de fato – e essa também não me parece ser a perspectiva dos autores sobre os quais escrevo. Ao longo da segunda metade do século XX. Isso produz pensamentos distintos a respeito de um objeto comum: os processos de globalização. à primeira vista. não apenas empresas que atuam globalmente. É assim que podemos dizer que o globalismo beckiano ou o neoliberalismo ianniano.

organizações ou corporações? Que tipo de influência possuem e em que medida podem determinar o desenvolvimento de processos. 1997. influências. não é difícil chegar à conclusão que se trata de questionamentos eminentemente políticos. A inteligência da Política: um recorte possível O valor de se observar as maneiras pelas quais Beck e Ianni buscaram 53 As transformações da política foram designadas de outras maneiras pelos autores. mas. contingências. movimentos ambientais. Ianni (2004. organizações terroristas ou vinculadas ao tráfico de drogas. da Política no mundo contemporâneo? Não tenho a intenção de responder essa pergunta por completo. 2011) em particular – e “(re)invenção” – ver especialmente Beck (1993. de armas. É que a globalização traz consigo uma questão fundamental: qual o lugar (ou os lugares). dessarte. determinações. evidenciam as rachaduras nos pilares dos Estados nacionais. II. buscando apreender os elementos que fundamentaram essas interpretações. no de Beck) da Política53. o caráter de organização. a lista está longe de ser exaustiva. Isso tudo abre espaço. 2002) – foram eleitas por mim como palavras-chave. para outras questões. é claro. de biodiversidade e mesmo de pessoas. teórica e factualmente. exposto dessa maneira. Nem ao menos poderia sintetizar todas as contribuições relevantes que têm sido formuladas a esse respeito de modo suficiente. passível de questionamentos. entre muitos outros elementos.movimentos sociais. O que segue é uma observação crítica das tentativas de Ulrich Beck e de Octavio Ianni de compreender e explicar o que denominaram redescoberta (no caso de Ianni) e (re)invenção (Erfindung. relações e estruturas sociais? Quais são as contingências que implicam e envolvem? Note o leitor: aqui temos poder. de sorte que as designações “redescoberta” – cf. De onde vem o poder desses grupos. 89 . Tal escolha é.

Não se trata aqui. mas. em lugar de 90 . tais estudos não costumam enfrentar as transformações institucionais operantes no mundo contemporâneo: em geral. é claro. e desdobra-se em ao menos duas vertentes. lançaria este trabalho à superficialidade. embora haja alguns trabalhos sobre a Política na era global. 2001: 144). ou terminaria por reproduzir argumentos. Com efeito. pressupõem as soberanias estatais e suas interações como entidades jurídicas constituídas e reconhecidas em nível planetário... Nessa linha. compõem análises ligadas às tradicionais relações políticas “internacionais” que. Em segundo lugar. de desqualificar qualquer um desses trabalhos. ou como uma sociologia de sociologias. o enfoque na cognição de fenômenos políticos tem um valor metodológico para a presente dissertação.compreender as transformações da Política para a além das bases teóricas forjadas a partir dos Estados nacionais é considerável. de perceber que uma análise sociopolítica permite captar certos aspectos através dos quais se pode tentar compreender as transformações mundiais. antes. compete ao pesquisador o esforço para encontrar as chaves cognitivas desses pensamentos. Assim. Uma atitude desse tipo. deve-se notar que esses pesquisadores estiveram entre os poucos que apostaram numa análise efetivamente sociopolítica da globalização. Primeiro. a metateoria procura dar sentido à teorização sociológica” (RITZER et al. mais precisamente. (. a metateoria (metatheorizing). a fim de reconstruí-los com vistas à sua melhor compreensão. que têm maior amplitude e caráter multi ou transdimensional. Este trabalho de teoria sociológica pode ser visto como uma tentativa de explicação de explicações. dificilmente seria possível perscrutar todas as nuances dos pensamentos de qualquer autor (quanto mais de dois!).) Enquanto a teorização sociológica busca dar sentido ao mundo social. Trata-se de próximo daquilo que Ritzer (1988) denominava metassociologia (metasociology) ou. Como é de se esperar. entendida como “uma forma de metassociologia que examina especificamente a prática da teorização sociológica. teses e percursos de modo repetitivo e delongado.. como o próprio nome indica.

teve ocasião de redigir.uma análise exaustiva. Curiosamente. que o Estado-nação pode ser visto como uma criação do século XIX. não obstante. esses 54 Sobre a constituição do Estado-nação. por exemplo. Balakrishnan (1996). que se conformava e consolidava desde o século XIII. um especialista em China moderna. grifos dos autores). voltemos à problemática do Estadonação. ao menos. fazendo-lhe menções muito discretas. 91 . também a novas reflexões. os Estados europeus da época moderna acompanham. Ora. presente e ensine muito sobre o atual estágio de a cognição dos processos globais. muito embora a sua ausência faça-se. corriqueiramente. dos parâmetros da atividade econômica e dos recursos de diferentes regiões. antes de mais nada. Hobsbawm (1990). abordada na seção anterior. Anderson (1991). uma reflexão a respeito dos saberes de Estado e do que denominam Ciência do Estado – não no sentido de uma teoria do Estado. É claro que tais desenvolvimentos ocorreram historicamente também em outras paragens – em particular na China55. Aqui. uma venerável tradição chinesa associada.” (BOURDIEU. Cabe. que Pierre Étienne-Will. Nessa altura. Esse hiato também não será enfrentado adequadamente aqui porque. “a comparação com a experiência chinesa parece particularmente sugestiva e convida. tem-na legado a um segundo plano. WILL. como é de se esperar. Não obstante. de certo modo. Schulze (1994). 2000: 266. cujas origens remontam à era moderna. Em seus esforços para adotar uma melhor medida de sua produção. com o que se convencionou chamar de 'legista'. mas denotando a produção de uma ciência prática da força pública. o debate sobre a globalização parece olvidar essa informação histórica ou. chamar a atenção para o hiato presente em estudos sobre globalização quando se trata da inteligência de processos globais em contextos asiáticos ou africanos. optei pelo trabalho eletivo de elementos que parecem fundamentar. na Europa ocidental54. É preciso recordar. se é possível dizer assim. falta material para abordá-lo dentro do recorte que propus. os autores propõem uma sorte de história social comparada. Nesse escrito. segundo os autores. cujos interesses fogem ao escopo da presente dissertação. juntamente com Olivier Christin e Pierre Bourdieu. CHRISTIN. É neste momento que as formas nacionais anteriores – que remontam à antiguidade – fundem-se de modo particular à instituição política do Estado moderno. Para melhor desenvolver esse ponto. orientar ou estimular a inteligência dos processos globais por parte dos autores estudados. o leitor talvez se questione o porquê desta digressão. 55 Aqui cabe apontar. ver Bourdieu (2012). também passa-se ao largo das formações dos contemporâneos Estados nacionais do continente africano.

92 . Como é de se esperar. Primeiro. antes. de observar que as abordagens dos processos globais encontram-se situadas em certos lugares físicos e mentais de explicação e cognoscibilidade. a observação de processos globais não significa necessariamente a análise do “mundo” como um todo epistêmico. Creio que os trabalhos de Beck e de Ianni sejam bons exemplos dessa característica. parece clamar por um quadro teórico que viabilize a compreensão da própria globalização e das mudanças que ela opera nas diferentes esferas da sociabilidade e. no debate. por assim dizer. tanto temporal quanto espacialmente. de seus processos. essas diferenças se manifestam não apenas nos fatos ligados à sociabilidade. enquanto uma realidade nova. estratificada. significativos e permitem-nos captar ao menos dois aspectos do caráter das análises sobre a situação dos Estados nacionais na globalização. Como dito. Isso não significa que a globalização se dê em blocos geográfica ou socialmente localizados – uma perspectiva desse tipo poderia. Por um lado. Trata-se. tanto de um modo geral.aparentes limites são. Segundo. em particular. ou como um objeto constituível. das novas configurações sociais. relações e estruturas. que configuram fenômenos de natureza. consequentemente. aliás. mas fazem-se presentes também na sua cognição. é imperativo aperceber-se das transformações em escala global. há uma diversidade característica da globalização. culturais. a inteligência da globalização envolve um raciocínio de entremeio que transita por uma dimensão teórica e outra conjuntural. nas categorias sociológicas construídas e empregadas tradicionalmente para a sua compreensão. a problemática da globalização. turvar a percepção do caráter dinâmico e móvel de seus processos. como nos escritos de Ianni e Beck. econômicas e políticas que se manifestam mundo afora. e mesmo hierárquica. tanto efetiva quanto normativamente. todavia. Por outro.

a violência e o terror escapam cada vez mais ao controle por parte dos Estados nacionais. Às vezes. Espraiam-se e mancham a história do mundo. Numa segunda etapa57. para todos e para cada ser humano. Com base nisso. As forças de guerra e de paz movem-se e 56 Item III. 57 Item IV. III. vale a pena observar o modo como Beck e Ianni abordam a questão não menos planetária das desigualdades. 93 .Até agora. que são pinçados por Ianni e Beck visando compreender algumas das reconfigurações do mundo contemporâneo. que expõem a vulnerabilidade humana. Procedamos por partes. de natureza marcadamente sociopolítica. A instituição do Estado nacional dá sinais de que não é mais capaz de garantir a segurança. Violência. Com efeito. foram abordadas questões preferencialmente conceituais – a conformação de uma nova economia política globalista (nos diferentes sentidos abordados) e a situação do Estado nacional na contemporaneidade (o que pode ser visto como uma discreta investida em teoria do Estado). Essas fronteiras podem ser político-normativas – cujo grande exemplo são os marcos dos continentes e dos territórios nacionais – ou estabelecidas pela ameaça e a coerção por parte de indivíduos. Os perigos que são experimentados individual e coletivamente traspassam fronteiras. componho algumas notas a respeito de como o problema global da violência é tratado pelos dois autores56. Primeiro. grupos e instituições. proponho uma reflexão a respeito de certos elementos heurísticos. pode até mesmo protagonizar o terror. ou ainda por fenômenos tradicionalmente classificados como “naturais”. a catástrofe. Terror e Vulnerabilidade Viver é arriscado. mas isso não significa que possa controlá-lo.

entendido como um fato político. Octavio Ianni atribui à sociedade contemporânea o caráter de uma imensa fábrica de violências. como se fosse um terremoto sem fim. povos e nações. o Estado nacional transforma-se em uma organização do terrorismo global. Para ele o poder e a violência caminham juntos. simultaneamente. modos de ser e estilos de vida” (IANNI. de forma difusa e generalizada.operam além do seu alcance. revelando o fato de que “o mundo está amplamente organizado em moldes totalitários. imperceptível e truculenta. gentes e ideias. Quando a barbárie se institucionaliza: o Estado como agente do terror “Faz tempo que o mundo está em guerra. 2004: 288). seja em tempos de guerra declarada ou de pretensa paz. ainda que possa assumir uma aparência isolada – como muitos outros fenômenos políticos na globalização – nunca esgota-se em si mesmo. enraíza-se neles. Sim. Ianni sustenta que ele tem origem nos jogos de força sociais. 1. em diversas instâncias da sociabilidade. mundialmente. alegações e justificativas dos seus agentes raramente servem como explicações para o acontecimento. uma vasta operação de destruição de coisas. as fronteiras também podem ser (aparentemente) particulares ou específicas de determinados contextos – a exemplo dos toques de recolher que vigem como um acordo tácito. inefável e perversa” (Ibidem: 297). em diferentes níveis da vida social. através dos seus domínios. cidades. O terrorismo é uma forma de violência e. oficioso. Além disso. de modo que as ações. entrando pelo século XXI. social e histórico. No entanto. Ianni tem o cuidado de sublinhar que a compreensão e o discernimento 94 . a atual situação de globalização encontra-se permeada. debaixo do seu nariz. O século XX foi. um século de uma guerra que não termina. Para Ianni. Muito ao contrário. Trata-se de um totalitarismo que se lança. pela violência e pelo terror permanentes e cotidianos. em regiões metropolitanas de todo o mundo. todo ele.

[…] Esta é uma revelação fundamental: para defender. Para ele. Explica-se pelos jogos de forças sociais nos quais se insere. de tal forma que a multiplicação de operações terroristas. bem como a mentalidade de seus técnicos. simultaneamente totalitário e nazi-fascista (Ibidem: 287 e 289). Processos. compreendendo a criação de técnicas. elites governantes e classes dominantes. transformam o próprio Estado em uma instituição terrorista. Nesse sentido é que o ato terrorista pode revelar-se reacionário. relações e estruturas subsumem a perspectiva dos indivíduos – ainda que não as eliminem. alerta Ianni não se deveria permitir que as supostas intenções dos seus autores turvassem a percepção sociológica dos acontecimentos – inclusive porque nem ao menos se sabe quem foram esses indivíduos. verdugos e vítimas) apresentam-se. passa a agente ilegítimo do terror planetário. A esse respeito. niilista ou revolucionário. o que resulta no Estado terrorista. em diferentes países. (Temos aqui um ponto que o diferencia categoricamente da percepção beckiana. eles foram atribuídos à organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda e iniciou-se. Outra vez. organizações e alegações. Esse enfoque teórico e eletivo é o que parece nortear a percepção ianniana das mudanças diametrais vislumbradas no caráter da instituição do Estado nacional: de provedor da segurança e detentor do uso legítimo das forças de coerção.) O fenômeno mais exemplar dessa perspectiva certamente foi o atentado de 11 de Setembro de 2001. em Nova Iorque. termina por contaminar mais ou menos amplamente a tecnoestrutura estatal. fascista. nazista. com frequência. constituíram um fenômeno político exemplar. anarquista. 95 . compreendendo setores das elites governantes e classes dominantes. Afinal. alheios em relação aos nexos sociais de um evento terrorista. fundamentalista. os atentados às chamadas Torres Gêmeas do World Trade Center. aos poucos. desenvolvem operações de terrorismo de Estado que. agentes e beneficiários. realiza-se a metamorfose meios e fins. funcionários. consolidar e expandir o seu poder.dos atores (isto é.

Deve-se recordar também que. eles buscam preservar as suas posições de mando. mas dos governantes da Europa. eu acho extremamente fascinante nos colocarmos diante disso: afinal. a União Europeia. vale lembrar que o suposto mentor de toda a operação que culminou no atentado terrorista. pode até ser uma ideia equivocada. mas já somos irmãos daqueles que vivem no Afeganistão. do que continuar acreditando que nós vivemos no ciclo do nacionalismo. do imperialismo e do colonialismo. porque eles. seu caráter simultaneamente político e global. mas eu prefiro trabalhar com a ideia. contra o Pentágono. ela está sofrendo muito. E isso continua a ser problema. Não tem graça. em lugar de encaminharem soluções. tais como os [dos] Estados Unidos. Não é a humanidade dos nossos sonhos. Não pretendo entrar nos méritos especulativos das “verdades e mentiras” a respeito do caso. É claro que este cenário. De fato. Quero apenas evidenciar. 58 É importante recordar que a Guerra do Afeganistão contou com o apoio militar de países como França. houve quatro aviões lançados: dois chocaram-se contra as torres (em Nova Iorque). Japão [que] têm uma importância grande etc. mesmo porque Ianni não conheceu parte desses desdobramentos. e a formação da coalizão. Já somos irmãos daqueles que são hindus. Já é sabido. um ataque terrorista. Mais que isso. não só dos governantes dos Estados Unidos. à guisa do autor. além de grupos político-militares como a Aliança do Norte (ou Frente Islâmica Unida para a Salvação do Afeganistão). que é a sede do departamento de defesa dos Estados Unidos (no estado de Virgínia) e um quarto avião. se redefine neste cenário. outro. A citação é longa. foi encontrado e assassinado pelo governo americano somente dez anos mais tarde – num momento de crise política e econômica. está dominado por interesses que predominam. somos humanidade. Então. mas na verdade eu vejo assim. E isso significa que a nação.então. caiu num campo em Schanksville (no Condado de Somerset. Já somos contemporâneos e estamos num intercâmbio muito intenso com eles. Está tudo evidente. é um ato político. Estou brincando com a ideia. A reação. Essa visão está exposta de modo particularmente claro numa entrevista concedida por Ianni em 26 de Novembro de 2001. de controle. 96 . […] É. Inglaterra e Canadá. menos lembrado. o indivíduo. interessada na queda do regime talibã. somos parte da humanidade. Por isso que eu tenho uma interpretação totalmente heterodoxa do atentado do dia 11 de Setembro. mas vale a pena. por enquanto. cabe a nós questionarmos. na Pensilvânia). e a declaração de uma guerra enlouquecida mundial contra uma nação paupérrima transformou aquele acontecimento num ato político excepcional. Pode ser só uma hipótese. uma guerra espetacular contra um país paupérrimo58. de que nós entramos num outro ciclo da história. Eu acho isso uma glória! Acho fascinante. Eu acho que é pouco. não tem beleza. na ocasião. Então. mesmo que equivocada. aparentemente. o líder terrorista Osama bin Laden.

torna-se. até as ruínas dos holocaustos. protege-se e aprisiona-se. um dos debatedores. Então. a 26/11/2001. O que define a historicidade 59 do acontecimento é a dinâmica das atividades que se desenvolvem . para Ianni. Ianni (2001). presente e pretérito. a violência e a barbárie terrorista comporiam um elemento central da sociedade global em formação. Markun toma novamente a palavra e indaga: “Mas. professor. 97 . que percorre das cercas elétricas das casas. ruída. nesse sentido. É assim que. Trata-se de um fato que deflagrou uma série de providências. Cf. no mundo contemporâneo. o instante em que ela rui. Vamos ser objetivos. Essas ruínas exemplificam. Paulo Markun. Isso já é um dado. memória compartilhada de uma sociedade global em 59 Os trechos das quatro últimas citações correspondem à entrevista concedida por Ianni ao programa Roda Viva. o momento no qual a barbárie perde a aparência de barbárie: a saber. Do ponto de vista iannino. não tem na sua concepção que a ação de quem praticou aquele ato tinha claro o que iria acontecer. Não se iluda com as intenções. da Rede Cultura. Então. transformaram aquele acontecimento num fato político excepcional. questiona-lhe se matar cinco mil pessoas não caracterizaria um atentado terrorista. porque as intenções não definem a historicidade do acontecimento.Nessa altura. que permitiriam captar parte do seu caráter. o que isso ia provocar?” E Ianni exorta: Não se iluda com as intenções dos autores. as providências que foram adotadas. o senhor não acha. fenômenos como esse revelariam que a sociedade é uma fábrica de violências. E Ianni responde: Mas isso acabou. onde se vigia. mesmo porque não sabemos quais são os autores. Há um clima de barbárie mundializada. A barbárie. e disponibilizado no domínio de rede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

2004: 292-291). altamente racional. tem-se. enquanto dominação e apropriação. neste ponto. técnica e missão do Estado como um todo ou de alguns dos seus aparelhos e agências de controle e repressão. complexo industrial-militar. na razão instrumental. frestas e recantos. como um dos produtos da ação de grupos que desfrutam das benesses da civilização moderna. desde o terrorismo à tortura. engendram-se riquezas materiais e imateriais. aperfeiçoando-se e desenvolvendo-se de conformidade com a organização e dinâmica do poder. tecno-estrutura estatal e monopólio da violência. que. com a formação do Estado terrorista. por outro lado. sistêmica (articulação funcional e eficaz) e dialética. Note-se. Esse é o Estado-máquina-de-guerra. o monopólio da violência. A inteligência da situação dá-se através desta dialética: se o conhecimento e a técnica alcançam altíssimo grau de desenvolvimento e. do sequestro ao narcotráfico. Mas a barbárie de que trata Ianni não é feita por “bárbaros”. da barbárie do eixo do mal à barbárie do eixo do bem (IANNI. sendo uma de suas faces. logo se configura como ideologia e prática. a tecno-estrutura estatal e o monopólio da violência. Nele. as partes e o todo articulam-se eficaz e funcionalmente. do fundamentalismo islâmico ao fundamentalismo calvinista. pois. com isso. Não. fundada no pragmatismo. moderno e eficaz. na realidade totalitário e nazi-fascista. de forma paroxística. a fusão entre o complexo industrial-militar. Ela pode ser vista inclusive. Algo que se havia desenvolvido de forma difusa e indefinida na sociedade. aos poucos permeasse ativa e generalizadamente o conjunto das organizações e instituições estatais. em escala nacional e mundial. muito embora coerente com o caráter 98 multifário da história política . institucionaliza-se a barbárie. em seus poros. Aí medram as mais diversas técnicas de violência. É como se a essência do poder estatal. Trata-se de uma sofisticada construção sistêmica. níveis de brutalidade e insanidade inacreditáveis que intensificam seus efeitos através das potências e recursos do progresso. relacionando-se pragmatismo (no sentido mundano do termo) e razão instrumental – algo aparentemente paradoxal. e preferencialmente. A argamassa da compreensão é.formação. Por isso Ianni também observa que a barbárie faz parte da modernidade. disfarçado de democrático. realizando.

de uma barbárie planetária. como uma questão política por excelência. Inimigos do Mundo: riscos perceptíveis e individualização da guerra A modernidade e o sucesso da modernidade podem ser vistos como o motor da globalização. Nesse sentido. pelas mídias. o que Beck procura sublinhar é o fato de que o terrorismo ascende à posição de ator mundial a partir da veiculação em escala planetária. dos seus bons frutos. focalizando preferencialmente a amplitude de suas ações e consequências. em escala mundial. O objetivo é interpretar os impactos sofridos por eles. sendo esse um status ao qual ascenderam (subitamente).contemporânea. em especial a partir dos atentados do 11 de Setembro de 2001. condenável sob qualquer aspecto e assustador. do ponto de vista sociológico. É claro que ambos se esforçam para compreender o mesmo fenômeno. os grupos terroristas são descritos por Beck como novos atores mundiais. das imagens do horror. bem como suas reações. e também dos percalços que se apresentam na emergência da globalidade. O tema da violência está presente em Ulrich Beck de um modo semelhante ao como aparece na abordagem de Octavio Ianni. 2. Todavia. Enquanto Ianni está interessando nos efeitos de devastação. é que 99 . Mas há um porém: não é que os grupos terroristas ganham importância ou destaque com o atentado em si. O interessante aqui. Beck preocupa-se mais com o modo pelo qual essas transformações são percebidas pelos indivíduos e grupos de individualidades. mas os parâmetros da explicação são distintos. e certos aspectos podem nos indicar em que medida essas perspectivas diferem. Inimigos do Estado. O primeiro deles é o problema do terrorismo. Mas há algumas dessemelhanças. isto é. Claro que o “11 de Setembro” é (quanto a isso não há dúvidas) um marco histórico.

no entanto. Se a guerra contra Estados era feita. onipresente como experiência-chave própria à nossa época (BECK. num mundo multipolar. o terrorista é. nessa direção. Sim. É assim que os grupos terroristas se tornam mais que inimigos dos Estados: são percebidos como inimigos da sociedade civil mundial. um ator singular precisamente porque conta. mas. de que a individualização pode ser vista como um pilar fundamental do pensamento de Beck. Aquilo que Ianni busca captar em um plano macro. é o da vivência de uma individualização da guerra. com a tese. o terrorismo aparece como a forma de violência que tem sido capaz de evidenciar as frestas nas paredes da antiga fortaleza estatal. em nível mundial. por Estados. grupos terroristas 60 Nada mais condizente. orientado-lhe a cognição de fenômenos globais. a experiência da morte da distância. Os fundamentalistas da Al-Qaeda (assim como os kamikases) são. O terrorismo evidencia para a sociedade civil. O terrorista é um criminoso com o qual o aparelho estatal não pode lidar. a vulnerabilidade do Estado-nação. inclusive.o mundo tem. note-se. do fim do monopólio estatal da violência em um mundo onde tudo. 100 . doravante. um ou mais substitutos. Assim. Beck traduz em termos mais particulares. Pode-se dizer. assim. 2002a: 41. Em ambos os casos. em um domínio militar. O diagnóstico. com a prerrogativa do suicídio. grifos do autor). Mas Beck enfatiza também outro aspecto. sem que houvesse. representam um perigo para a humanidade como um todo. no fim das contas. frequentemente. a partir dos métodos de coação. tradicionalmente. com eficácia. exemplares. Os símbolos pacíficos da sociedade civil podem ser transformados em instrumentos de horror. de agora em diante guerras contra Estados podem ser declaradas por indivíduos60. se o limite de toda violência física é a morte. para esse caso. que os atentados de Nova Iorque e Washington marcaram o início da queda dos Estados Unidos como potência mundial. pode se transformar em míssil nas mãos de fanáticos determinados. por excelência. apresentada no capítulo quarto. Isso não é – em princípio – novidade.

no sentido de que constituem produtos da civilização moderna e provocam uma reflexividade política que permite uma visão cosmopolita (o termo polis não compõe a palavra por acaso). da Palestina. Eles teriam.). como a unilateralidade da soberania nacional em matéria de defesa territorial e segurança policial. agente do terror. 101 . grifos do autor). e também militante. 2010). militarizado. Nesse sentido. torna-se cada vez mais inelutável a cooperação transnacional contra um terrorismo que é militar. várias coisas: primeiramente. a insegurança e o caráter explosivo dos riscos mundialmente experimentados têm como consequência a deslegitimação de sistemas e instituições políticas. para Beck. ao contrário. de Israel. como produto do Estado que se torna. o recurso universal às armas com fins de “defesa interior” (dos Estados Unidos. a normalização e institucionalização do “estado de urgência” interior e exterior. A despeito das tentativas de superação ou de eliminação dos riscos. segundo. terceiro. da Alemanha. É assim que o Estado nacional assiste à ruína de parte de suas prerrogativas fundamentais. da China etc. mas também da Rússia. para Beck. ainda que ajam com o apoio de Estados (tratados como) “maléficos”. 2002a. São riscos civilizacionais. Note-se que essa é uma diferença importante em relação à concepção de Ianni de um terrorismo que pode ser visto como fundamentado na própria instituição nacional. O terror e o terrorismo. da Índia. e também para o Estado de direito no interior de cada país e para as democracias estrangeiras (Ibidem: 45. atores “desestatizados” em princípio. portanto. quarto.são. é justamente a flexibilização do conceito de inimigo desestatizado e desterritorializado [que] autoriza. 2000. 2008. ampliando seus campos de ação e interferência. ao longo do tempo. abrindo espaço à ação política (BECK. abalando suas estruturas. uma declaração universal de guerra a Estados sem que esses tenham agredido quem quer que seja. Para Beck. estes tendem a diversificarse. o poder de penetrá-las e questioná-las a partir do seu interior. um recuo do direito nas relações internacionais e para os inimigos terroristas.

surgem e ressurgem (frequentemente mais acirrados) os conflitos existentes entre eles. Brock (2008). Há linhas de força e de interesse que conferem os rumos históricos de indivíduos e comunidades em suas diversas dimensões. entendida duplamente. Luhmann (1998). Além disse. Embora se trate de um problema também socioeconômico. em duas noções básicas: segurança e seguridade social. recomendo também. Habermas (1998). além de Ianni e Beck. ao menos nos moldes tratados por Ianni e Beck. em termos legais. 2004). estabelecendo os parâmetros para o convívio social e obtendo. Ortiz (2006. Como ensinavam os contratualistas. 102 . Bauman (1998). Vandenberghe (2001. “em troca”. Em certo sentido. é possível afirmar que boa parte dos processos que engendram e envolvem a globalização são determinados por poucos.IV. 2011). Vimos que parte significativa da literatura a respeito do tema aponta para o enfraquecimento do Estado nacional como uma questão central para a inteligência dessas relações61. 2007). Fischer (1999). a globalização não elimina o problema da desigualdade. Forst (2008). manifestada. compreendido 61 O leitor deve recordar-se das minhas observações no primeiro capítulo. A primeira. a subordinação política. Santos (2002). o Estado constitui-se como responsável por garantir as necessidades básicas dos homens. o que ocorre é precisamente o oposto: os abismos existentes entre os diversos setores. Sundfeld e Vieira (1999). modernamente. às vezes. Desigualdades. (in)segurança e seguridade A globalização não é para todos. Arnaut (2010). e (b) como segurança (militar) do território. Sassen (2007). Berking (2008). no direito fundamental à vida e também na proteção à propriedade. Desse modo. assim. Höffe (2001. essa concepção se desenvolve. classes ou estratos sociais se aprofundam – e. material ou intelectual. a relação entre globalização e desigualdade é sociopolítica. Embora se possa verificar que todos a experimentam cotidianamente em alguma medida. (a) como segurança da pessoa. por exemplo.

Para Ulrich Beck. entendido como modo de produção e processo civilizatório. corroborada pelo sistema capitalista. quando procurei sustentar que Beck privilegiaria a perspectiva de uma individualização de biografias. enquanto Ianni tenderia a buscar os processos. como visto. no fundo.) Isso significa dizer que nos processos globais encontram103 . econômica. essa ação estatal de garantia também pode ser vista como controladora na medida em que o equilíbrio é mantido a partir de uma ação de controle de parte dos excessos produzidos pela ganância humana. que convergem numa mesma direção: a de que a globalização dar-se-ia. política. de um controle travestido de proteção. pela ação de poucos sobre muitos. mais agressivos. cabe prevenir um possível mal-entendido e esclarecer que o fato de afirmar ser a globalização configurada de cima para baixo não se confunde com as diferenças de enfoque eletivo abordadas anteriormente. assim como para Octavio Ianni.dentro dos limites da instituição política estatal. a “livre” concorrência capitalista dá-se também em termos mais acirrados. Afinal. Com o processo de transnacionalização do capital e da ação empresarial. subsumindo os atores individuais e suas intenções. de ambos os autores. (A esse respeito. a seguridade social. consoante hierarquias de poder e predomínio. configura-se de cima para baixo. a globalização dá-se pelo alto. isto é. por parte do Estado. mais abrangente – de novo ciclo do capitalismo. tanto no sentido que lhe atribui Beck – de ideologia neoliberal –. na atual situação de globalização. quanto naquele que lhe é imputado por Ianni. social e culturalmente. relações e estruturas que movem a história. Trata-se. a prerrogativa do controle. Ocorre que. compreendida como o esforço do Estado com vistas a garantir a contemplação das necessidades básicas dos cidadãos. efetiva ou normativamente. É nesse sentido que é possível enxergar a globalização como determinada. É que essas garantias requerem. O que há aqui são apostas. Esse é o movimento do globalismo. o Estado perde uma parcela significativa das prerrogativas que lhe permitiam – factual ou normativamente – assegurar aos seus membros essas garantias fundamentais. de cima para baixo. A segunda.

. como lugar de participação em um mundo que caiu totalmente no abstrato. Pode-se 104 . E assim vai a coisa. de modo que emerge toda uma rede de atividades locais.] A localidade não adquire significado unicamente na situação laboral. os mundos do trabalho e da produção apresentam-se como elementos não só fundamentais na constituição de uma situação de globalização ou de uma globalidade emergente. no pensamento social moderno... como mostra o exemplo dos fluxos financeiros. seja espiritual. por sua vez. Trabalho e produção da humanidade Ianni exorta-nos de que um dos maiores legados de Marx foi a inserção. da ideia de que o ser humano é trabalho. [. Beck. Trabalho é atividade material e espiritual” (IANNI. dos agentes da globalização da produção que. seja do ponto de vista ecológico.] A ideia de trabalho não significa só trabalho econômico. e essa situação laboral dura 24 horas por dia. pressupõem o trabalho (mais particular) de indivíduos e grupos que não se encontram em situações de hegemonia econômica. sete dias por semana. cultural ou propriamente político.se imbricadas hegemonias e disputas por poder e predomínio. chama a atenção para o fato de que a globalização também é trabalho – na medida em que se dá a partir do trabalho dos “globalizadores”. mas também como centro cultural e político. O sol não se põe na terra da globalização. 2011: 147). o trabalho que se realiza na fábrica. “O que constitui o ser humano é trabalho. Trabalho que ocorre em um lugar determinado. por sua vez. Nesse sentido. É assim que a globalização é trabalho. cultural ou política. é o trabalho dos globalizadores. que vão adquirindo um ritmo cronológico especial. esse trabalho globalizador pressupõe outros trabalhos locais. seja material.. jurídico. Por outro lado. como também oferecem uma perspectiva exemplar das iniquidades existentes e persistentes em nível local e mundial. nas metrópoles por exemplo. a prestação local de serviços – desde o cabeleireiro e os serviços de limpeza e segurança até a consultoria jurídica e financeira. no escritório ou no campo. seja do ponto de vista social ou do econômico. [. Isso tem de se organizar de forma sedentária. 1.

Significa. coletivamente articulada. em termos de uma fábrica global. esse trabalho localmente produzido tão logo revela-se.dizer até: a globalização – que afinal nunca deixa os globalizadores globalizados se globalizarem globalmente. É que o advento da globalização provocaria. É assim que se pode pensar. um trabalho individualmente produzido. tudo isso amplamente favorecido pelas tecnologias eletrônicas. Isso implica mais que a expansão das dinâmicas da produção em nível planetário. 2000: 184). não é difícil perceber que numa situação de globalização verifica-se também a globalização do trabalho. 1996: 155). nesse âmbito colocam-se novas formas e novos significados do trabalho” (IANNI. O chamado mundo do trabalho apresenta-se às percepções desses autores como efetivamente global. consoante a chave interpretativa que venho propondo. 105 . e especialmente num contexto de globalização. como Ianni e Beck. é cabível dizer que os pensamentos de Beck e de Ianni parecem convergir. contudo. que é simultaneamente produtora e produto de uma “nova divisão transnacional do trabalho e produção. Beck não deixa de perceber que esse trabalho “global” e “globalizador” também pressupõem trabalhos produzidos localmente. na percepção beckiana. do contrário o processo não prosseguiria – impõe uma nova sociologia do local (BECK. Como é de se esperar. para além disso. e talvez possam ser conjugados da seguinte maneira: se o homem é trabalho. O trabalho que ligava-se preferencialmente à atividade em conjunto. Sobre a relação entre trabalho e globalização. uma dissolução das configurações espaciais e temporais que caracterizavam o trabalho. mas sempre libera coerções para que em algum momento se volte a pôr os pés no chão. Conquanto observe os cada vez mais planetários movimentos do mundo do trabalho. a transição do fordismo ao toyotismo e a dinamização do mercado mundial. ao menos desde a Revolução Industrial. a emergência de novos quadros mentais e sociais de referência. Há. ao menos uma nuance que diferencia esses pensamentos.

na medida em que a relação entre o conjunto das regiões do mundo entre si pode ser analisado nos termos da externalização de riscos auto-produzidos. aos interesses planetários do capital – que. mais uma vez. Pode-se reduzir tais processos à seguinte fórmula: trabalho é algo local. veloz e em processo de intraconexão. também é gerido por um somatório de relativamente poucos indivíduos62. modificando-os em direção a outros. a saber. cai por terra uma premissa aparentemente indissolúvel do sistema da sociedade industrial. O conflito entre interesses de capital diversificados e classes de trabalho virtuais permanece imbricado na antítese entre a lógica sem fronteiras dos fluxos de capital e os horizontes fragmentados de experiência (BECK. em grande medida.. cibernética. (. a estrutura cognitiva da glocalização. É claro que tais configurações dizem respeito. Processos econômicos perdem sua fixação local concreta. isto é. note-se. 2007 [1999]: 56-57. e aqui retorna. que há uma desigualdade radical entre as situações dos decision-makers e as daqueles que são afetados por riscos e/ou perigos. grifos do autor). torna-se evidente que a distinção entre risco auto-induzido e externo é um ponto crítico cosmopolita. mais precisamente do que outrora.) Com isso. Com a virada cosmopolita. o trabalho é individualizado.torna-se cada vez mais individualizada e menos dependente de sua posição espacial – isso em função e em razão do próprio sucesso da modernidade industrial. enquanto o capital é global. Mas estes não se realizariam sem aqueles. digital. 2010: 423. grifos dos autores). Desigualdade e Estratificação 62 “É possível compreender. Essa inclinação sócio-espacial do poder expressa uma diferença de época no predicado organizacional: o capital é coordenado mundialmente. tecnológica. 106 . porém. retardam-se e acentuam-se as relações de poder do trabalho e do capital na estrutura espaço-tempo. O poderoso produz e lucra a partir dos riscos. Deslocamentos geográficos entre locais de produção enquanto fronteiras de concorrência “naturais” perdem significado. 2.. a necessidade de se trabalhar em conjunto e em um local [Ort] determinado. ao passo que aquele que não detém poder é afetado no âmago do seu ser pelos ‘efeitos colaterais’ das decisões tomadas por outros” (BECK e GRANDE. Com isso. da produção (dialética) do global nas instâncias da localidade.

provincianas. ignorados. nas formas de ter e de ser. tendemos a julgá-lo a partir dos ângulos de que dispomos para observá-lo. à mesma observação: na medida em que vivemos e percebemos o mundo a partir de uma determinada posição. isso significa dizer que a nossa posição na sociedade determina. A dinâmica da nova divisão transnacional do trabalho. O mesmo processo de amplas proporções que expressa a globalização do capitalismo expressa inclusive a globalização da questão social. classistas. frente ao outro ou aos outros que o cercam (ainda que não estejam fisicamente ao seu lado). mas também políticas. assim como indivíduos e individualidades são reposicionados nas estruturas de estratificação de mulheres e homens formadas ou reformadas em escala mundial. rejeitados. a posição social do indivíduo. simultaneamente. diversidades de interesses. interfere de modo basilar na sua posição diante da alteridade. Se a produção se reorganiza. liberais. demandas e lutas. modificam-se também as condições para a mobilidade social. Nesse sentido. intenções. culturais. no mercado de consumo. A desigualdade se dá no âmbito das oportunidades. sua situação na comunidade em que vive. conservadores ou revolucionários). engendrado novos (IANNI.A globalização do mundo do trabalho produz também efeitos nas estruturas e estratificações sociais. a nossa posição (em sentido amplo) perante a sociedade. horizontal ou vertical. armados. seja do da comunidade. organizações e movimentos sociais (sejam eles legitimados. nas possibilidades de conhecimento. É claro que os problemas sociais continuam e continuarão a manifestar-se em formas locais. compreendendo a dinâmica das forças produtivas e a universalização das instituições que sintetizam as relações capitalistas de produção. nacionais e regionais. sucessos e frustrações configuram um cenário político diferenciado numa situação de globalização. em grande medida. Mas também já é evidente que se manifestam em escala mundial. pelo caminho inverso. pacíficos. Ora. isto é. Tais estratificações são econômicas. informação e formação. tem recriado diferentes aspectos da questão social e. podemos chegar. 1996: 170). Seja do ponto de vista do indivíduo. sociais. Se abordarmos a questão do ponto de vista dos indivíduos. É assim que as novas assimetrias de poder. 107 . temidos. de uma perspectiva específica.

essa é uma dimensão central. no capítulo sexto. Ele foi mencionado no capítulo 1. ou política interna mundial (Weltinnenpolitik). a globalização dá-se não apenas numa esfera propriamente mundial. por vezes. apresentarei uma crítica ao uso de tal concepção. parece-me insuficiente o tratamento que se dá. como insistem tanto Beck. Guardam relações de causalidade e efeito. porque. seção I. redefinindo suas dimensões. isto é. chega aos olhos dos habitantes pobres do sul a reviravolta da política nacional para o que denomina política-mundo interna. compõem o quadro político da globalização. É assim que. entendida como expansão do local para o global (ou vice-versa). assim como a insurgência e ressurgência de movimentos sociais. discriminação. 63 No fundo. frequentemente (e isso inclui até mesmo passagens de Beck e Ianni). Por isso “o fato de que ‘o outro global está no meio de nós’ – [é] uma assimetria dupla para expressar: eles sofrem ao máximo. 2010: 136. forjado por Roland Robertson (1992). cujos pensamentos e atos dizem respeito ao local. A palavra “globalização” esconde. da ação política coletiva com respeito a demandas determinadas e determinantes. e apresentado no capítulo 4. estão imbricadas e inseridas no quotidiano de indivíduos e grupos. quanto Ianni. observa Beck. segregação. ao nacional. isso diz respeito ao conceito de glocalização. ao regional e ao mundial.Desemprego estrutural. mas são aqueles que menos têm contribuído para o aquecimento global e que menos podem empreender contra a catástrofe climática” (BECK. Sim. As desigualdades sociais agudizam-se com o advento da globalização. efeitos e origens locais63. Embora ela me pareça importante para pensar a diversidade do alcance dos processos de globalização. Em ambos os autores. à globalização apenas pela métrica espacial. Mais adiante. as facetas locais dos processos planetários. grifos do autor). 108 . dissipando a ilusão de uma globalização unilateral.

em primorosa fonte de respostas à globalização. particulares ou locais) impõe-se a necessidade de redefinir as formas pelas quais percebemos a sociedade: faz-se mister fornecer respostas à globalização. Dissipar essa cortina de ilusões é parte. o nacional e o regional. nesse processo. processos e estruturas sociais. assim como as relações. como visto. As ilusões da Política mundial Num momento de transformações em escala global (junto. a cultura. certamente. ilusões e equívocos que permeiam os estudos globais. financeirista e economicista do neoliberalismo. Em contrapartida. Mas não só. as normas jurídicas e a novas ligações do homem com a Natureza (incorporada à sociedade) e com a técnica. o apoio de uma parte importante da mídia (impressa ou digital). pode-se dizer que o grande responsável por essas interferências na inteligência dos fenômenos globais seja a ideologia empresarial. Assim. àquelas de dimensões individuais. assim como de uma certa literatura que se pretende científica – em especial no campo dos negócios (ORTIZ. basta recorda-se. Ambos os autores fizeram isso. Em parte. todas essas esferas da sociabilidade implicam consequências ou guardam relações de causalidade com a Política. 1. por exemplo. No caso de Ianni. A Política (re)descoberta e reinventada A emergência da globalização envolve uma nova configuração da Política em nível mundial – englobando localidades. Há também. ao mesmo tempo. das suas observações quando da ocorrência do 109 .V. A economia. 2006). do trabalho com vistas à cognição de processos globais. a Política transforma-se num grande enigma e. é preciso também reconhecer uma espécie de efeito colateral nisso tudo – há um conjunto de falsas questões.

de uma tentativa de chamar a atenção para o fato de que o Estado nacional perde. A primeira dessas ilusões. por sua vez. seção III. em enorme medida. na Europa ou no restante do planeta. assim. no fundo. Trata-se. segundo Beck. como visto anteriormente. É nesse sentido que se daria uma espécie de mais valia política (politische Mehrwert). retornar às referências do Estadonação. que o Estado-nação possa ou vá “desaparecer”. isto é. da ideia de que não seria possível agir politicamente contra o mercado. Mesmo os próprios políticos se enxergariam como dirigidos pelos jogos de poder do capital. a ideia de que não haveria (e mesmo de que não pudessem haver) respostas políticas globais às consequências da globalização. Beck. Trata-se. Beck pode. 110 . Muito do que se afirma sobre o Estado-nação. acompanhada pela “justificativa” de que o mercado é determinante. isto é. Assim como Ianni. uma ilusão de que seria possível. pode ser e frequentemente deve ser visto como apropriado. (Como já dito. seria precisamente a de uma globalização apolítica (unpolitisch). isto é. com isso. na arena dos conflitos. Beck não sustenta. na política interna mundial efetivamente existente. A segunda ilusão seria o engano do nacional. O mal-entendido se origina quando isso é levado às bases dos 64 Cf. também presente em Ianni) ao denominado nacionalismo metodológico. essa seria uma leitura grosseira dos autores e do fenômeno. parte de suas prerrogativas. no presente capítulo. item 1. Esta refere-se à crítica contundente de Beck (note-se. demandas e contingências da sociedade. É nesse sentido que se tornaria exequível e dominante a postura de uma inocência apolítica.“11 de Setembro”64. afirmar que haveria um engano mundial quanto ao nacional. da reivindicação de uma isenção de responsabilidade no mundo da política. de uma espécie de determinismo neoliberal. chegou a tipificar weberianamente ao menos cinco ilusões vitais (Lebenslügen) que confeririam ao nosso tempo a aparência de uma era apolítica.

falsa [. outros princípios não podem ser pensados. perguntar-se se esta não seria uma diferença cabal entre os pensamentos de Ianni e de Beck. A União Europeia é constituída por Estados democráticos. O próprio conceito de democracia precisa. não é. Primeiro. 2010: 141-142). Isso significa. por exemplo. mas os substitui e torna-os efetivos valores mundiais. Segundo. item 1. ao longo dos anos 1990 em especial. O neoliberalismo não demanda os interesses da economia (em sentido amplo). porém.) Nessa direção. Foi com o objetivo de evitar esse tipo de mal-entendido que procurei destacar o fato de que Ianni sofreu. em uma série de aspectos. com isso. torna-se questionável se os modelos de democracia desenvolvidos para os modernos Estados podem ser transpostos para a União Europeia ou se.. O leitor pode. Ambos (o conceito de democracia nacional-estatal não absolutizado e o fato de que a alternativa histórica à democratização da Europa é desconhecida) têm seu fundamento no nostálgico. Essa argumentação é. forte oposição por parte importante dos seus 65 Recordar seção I.processos – à ideia. aqueles que fazem sua apologia se esquecem de que o caminho para uma Europa democrática não pode ser idêntico àquele das democracias nacionais. De acordo com essa lógica nacional-estatal. que não os pós-nacionais. tem-se que uma Europa pósnacional precisa ser uma Europa pós-democrática. para a legitimação democrática da política europeia.. ser outro. a análise de Beck sobre a problemática do Estadonação no contexto da União Europeia é exemplar. devido à sua influência dentro dos partidos nacionais e da arena política. o neoliberalismo tornou-se quase um partido mundial. Parece-me que não. Para Beck. O quarta engano seria o neo-marxista (die neomarxistische Lebenslüge). 111 . em contrapartida: quanto mais União Europeia. como parâmetro para a União Europeia. de que sem o Estado nacional não há democracia.]. menos democracia. A terceira mentira ou ilusão da política mundial já foi tratada neste capítulo: a mentira neoliberal65. um Estado no sentido tradicional. na mentira do nacional que é absolutizada (BECK. aqui.

pondo em causa cartografias geopolíticas. A mentira neo-marxista 66 Ver capítulo 3. Para reconhecer essa nova realidade. umas vezes parecendo reestruturar-se sob o signo do neoliberalismo. torna-se necessário reconhecer que a trama da história não se desenvolve apenas em continuidades. outras parecendo desfazerse no caos. É assim que o leitor mais atento vai observar que o discurso de Ianni dirige-se a um conjunto de intelectuais que. dentre outras razões.. ocidentais e orientais. precisamente no que ela tem de novo. Literalmente. A história entra em movimento. Refiro-me especialmente à emergência de um novo capitalismo com variedades e variantes da América latina e da Ásia-Pacífico. do norte e sul. com o triunfo global do neoliberalismo. A mesma história adquire movimentos insuspeitados. recorrências.. cada vez mais. que se iguala. polarizações ideológicas e interpretações científicas (IANNI.. mas também prenunciando outros horizontes. embaralha-se o mapa do mundo. modificam-se os significados das noções de países centrais e periféricos. industrializados e agrários. ao triunfo global do capitalismo. modernos e arcaicos. Isso tem se tornado. parece-me que a ideia central seria a de que não são compreendidas tensões e dissidências [Spannungen und Spaltungen] que arrebentam com a crise financeira no contexto da política mundial no capitalismo global. ou de repente. não se dão conta dessas transformações. ou a uma certa mentira neo-marxista. Por que são [. surpreendentes. blocos e alianças. Retornando à crítica de Beck a um certo neo-marxismo. [.. 1996: 11-12). justamente porque propunha uma análise abrangente das transformações globais em curso. uma alternativa sistêmica à autocracia ocidental decadente. para ele. sequências. ou desconhecido.] De maneira lenta e imperceptível. desaparecem as fronteiras entre os três mundos. em escala monumental.] uma mentira? Porque fecham os olhos diante de como as crises financeiras e as mudanças climáticas quebraram o feitiço e deslegitimaram o script ocidental da modernidade. suspendendo pressupostos “clássicos” das ciências sociais (a começar pelo próprio Estado nacional)66.colegas e admiradores marxistas. Tudo se move. 112 .

Ela pode ser lida. Acredito – e as citações anteriores fundamentam esta interpretação – que não seja profícua uma tentativa de opor esses autores a partir de uma crítica de Beck a um tipo de marxismo. para Beck. se não concordam por completo. mas não menos importante. expectativas de continuidade e. os superestimariam). política. para o autor. Com efeito. o foco está nos equívocos ligados à percepção de indivíduos a respeito dos processos globais. se Beck prefere não tentar compreender a globalização a partir dos movimentos globais do capitalismo. Este procura descrever o exagero da atual superelevação da expressão de opiniões. Beck e Ianni. “frequentemente idealistas do ponto de vista social e político. a compreensão limitada do papel dos Estados nacionais no mundo contemporâneo. no sentido que Beck a atribui.desloca o olhar sobre os fatos centrais da política mundial: o script da modernidade tornou-se contingente – no que diz respeito à ideologia. O agente típico-ideal dessa ilusão corresponde. uma mentira. 113 . que Beck afirme ser o neo-marxismo. pode ser vista como neo-marxista. tal como os desequilíbrios nas formas de lidar com os desenvolvimentos da modernidade (certos “neo-marxistas” que subestimariam o papel das crises financeiras e das mudanças climáticas e. mas isso não quer dizer. O que tenho procurado mostrar é o caminho usualmente percorrido pela percepção do autor na busca pela inteligência da globalização. grifos do autor). instituições. A quinta e última seria a ilusão tecnocrática. a mentira. No limite. também não deixa de reconhecer o seu “triunfo global” (globaler Sieg). a crença numa globalização apolítica. tudo isso envolve preocupações com o modo pelo qual a globalização interfere. evidentemente. em contrapartida. como um todo. também estão longe de divergir inteiramente a esse respeito67. em consequência 67 Note-se que. Sim. a certos pesquisadores do clima. 2010: 145. também em respeito às perguntas gigantescas e primitivas [Mammutfragen]: “o que é o ‘humano’?” e “o que é ‘Humanidade’?” (BECK. para Beck. porque tomam todos os seres humanos como pesquisadorezinhos do clima e. a atribuição de valores políticos aos interesses neoliberais. Assim. percepções e experiências políticas. como a mais explicitamente ligada ao senso comum. por último. opera e é percebida no cotidiano de indivíduos e grupos de indivíduos. em certo sentido. alguns pesquisadores do clima que. Eles seriam. tanto nessa quanto nas demais ilusões vitais.

o Estado-nação não desaparece. é um ponto central para Beck) uma virada cosmopolita. 2004: 83-84. como visto. Com isso. especialmente em termos políticos. 2. assim como há novas relações entre Estados. ela permanece dependente dos Estados. O leitor já conhece a minha posição crítica quanto a essa perspectiva cosmopolita. entre grupos transnacionais e Estados. sem um mandato democrático e em violação aberta da solidariedade nacional” (BECK.disso. também o de investigar que elementos se encontrariam ainda amarrados às categorias do Estado nacional. capítulo 4. uma vez que há atores econômicos mais poderosos que Estados no regime global. Isso pode empurrar estes últimos para submeter uma ‘auto-transformação’ através da subpolítica global do fluxo do capital. Beck procura mostrar que. 2010: 147). seção II. não podem entender por que seus cálculos apocalípticos não podem resolver de imediato todos os contra-processos” (BECK. grifos do autor). 68 Cf. Essas novas formas políticas causam conflitos. Tenho a impressão de que ela se trata. que experimentariam e experienciariam a dissolução das fronteiras do mundo. naquilo que entende como uma factualidade emergente de cosmopolitização. como proposta por Beck68. O papel de uma perspectiva (metodológica) cosmopolita seria. “No entanto. nesse sentido. São novas as formas de relação entre o capital e o Estado. 114 . A Política cosmopolita e reflexiva A globalização implica (e esse. entre Estado e organizações não-governamentais e organizações internacionais. se temos que a economia global não pode operar politicamente. como visto. Há uma nova gama de perspectivas políticas envolvendo os indivíduos. e também integração. São novas as relações entre trabalho e capital. e também relações entre maiorias e minorias.

bem como relações e processos globais. ainda que se relacione com eles.ainda que Beck se esforce para mostrar o contrário. para Ianni. 115 . Sim. Nesse sentido. É que. vale a pena observar. permite-nos perceber não somente a submissão do Estado nacional a outras dimensões políticas numa situação de globalização e a elevação (ainda que não de maneira unívoca) da posição dos indivíduos. como fatores que compõem possibilidades de cosmopolitização aparentemente mais europeias que mundiais. também o retorno à noção de Humanidade. numa sociedade mundialmente reflexiva. para além de questões referentes ao avanço da técnica e o progresso. globalização envolve. que preenche uma Cosmópolis global. Os direitos humanos podem. de um modelo demasiado normativo. para Beck a conscientização de cada ser humano daquilo que pode entender por sua “humanidade” (atributo) é o que engendra uma Humanidade (substantivo) contemporânea. reflexivo. por exemplo. Além dos aspectos mostrados no capítulo quarto. reivindicando prerrogativas e direitos. É desse modo que se pode dizer que a expansão dos direitos humanos. é possível pensar em uma lei civil global que não dependa e não se submeta aos códigos legais produzidos nos espaços público-jurídicos nacionais. creio. no entanto. que um modelo de análise cosmopolita como o proposto por Beck permite a ele vislumbrar de modo heurístico a questão da ordem política mundial. da globalização. e das lutas sangrentas e constantes que a ele se encontram ligadas. mas também o caráter meta-político. que trata os reais atores (entendidos como instituições e indivíduos). assim. em certo sentido. como correspondente à constituição de uma sociedade humana. a formação de uma sociedade global pode ser vista. ser vistos. não somente como uma evidência da divisão e das diversidades no mundo: representariam também uma fonte de possibilidades de ação e mudança em escalas global e local. Se. o cosmopolitismo metodológico é apenas uma dentre muitas possibilidades imagináveis para se captar os desenvolvimentos dos processos de globalização. do reconhecimento do sucesso da (primeira) modernidade.

sem que se observe a noção de reflexividade. em particular. a partir do monopólio do uso da força física. É nesse sentido que afirmo ser a reflexividade e a individualização fenômenos ou forças fundamentais no pensamento beckiano para compreender esses processos. 2004: 134). Incluiria. A Cosmópolis global deveria ser realizada degrau por degrau através de uma reforma correspondente da lei internacional e da organização internacional. ao menos em princípio. ainda que contra a hegemonia global. para Beck. em especial. o seu maior problema. da violência. esse pode ser o caso dos direitos humanos que. É que a garantia de direitos pressupõe. como fundada igualmente na afirmação e luta por direitos elementares de validade transnacional – em certo sentido. Esse é o objetivo maior dessa concepção e. por exemplo. a ação de uma instituição que detenha as condições dessa prerrogativa – frequentemente. não se dirigem a instituições estatais específicas. simultaneamente. Essa ideia (também kantiana) fundamenta-se na suposição (ou na esperança) de que esses direitos elementares logrem possuir validade mundial. enfatiza a importância da lei (civil) global. de acordo com isso. dos indivíduos que a compõem. O raciocínio pode ser colocado da seguinte maneira. algo semelhante ao veto livre das Nações Unidas. Beck aposta não numa solução internacionalista.O modelo alternativo de ordem global. assim como a concepção de uma democracia cosmopolita não podem ser pensadas. em particular. as Nações Unidas. a Cosmópolis global. 116 . Juntamente com a experiência (simultaneamente mundial e local) da sociedade civil e. Uma lei global teria de ser formulada considerando possibilidades contratualmente reguladas para consulta de alianças continentais e sua obrigação para com o ato que concerne. o qual poderia funcionar como um parlamento global equipado com um exército permanente para propósitos de manutenção da paz e capaz de impor o desarmamento mundialmente (BECK. a democracia cosmopolita pode ser vista. de acordo com os princípios de um regime cosmopolita que se assenta no reconhecimento da diferença dos outros e. na obra de Beck. no reconhecimento das modernidades múltiplas. historicamente. A ideia de um direito cosmopolita. como ensinava Weber. assenta-se sobre o princípio contrastante da igualdade entre Estados e.

o globalismo ianniano é entendido como uma configuração do capitalismo e. As categorias políticas fundadas no Estado nacional (e isso inclui a própria sociedade civil burguesa) 117 . assegurados pela dependência dessa cooperação. assim como sociais. A solução deveria então residir muito mais em acordos e procedimentos de cooperação. Ainda que pareça consistir numa tipificação (ideal). No seu entendimento. que perde muito de sua soberania. locais. A aposta de Beck é no modelo cosmopolita. para Ianni. a Política não apenas se redefine. o Estado nacional estaria determinado pelo jogo de forças que opera em maior escala. internas. tal distinção permite evidenciar um fenômeno político que é parte fundamental das transformações políticas que surgem com a globalização: a sociedade civil divorcia-se do Estado. como um modo de produção e um processo civilizatório de proporções mundiais. Como Beck. É que. Para ele. transnacionalmente. o reconhecimento de que na sociedade global abrem-se novas condições de possibilidade para a civilização. enquanto a sociedade civil estaria submetida a um jogo de forças sociais mais restritas. assim. econômicas e culturais. Nesse contexto. Globalização e processo civilizatório Dimensões jurídicas e políticas. para Ianni. 3. como dito. envolvem e presumem. tampouco num retorno à primazia do Estado como instituição soberana nas sociedades nacionais à moda antiga. há um hiato crescente e cada vez mais evidente que os separa.vista logicamente como pouco provável num contexto de globalização. de sua influência e ação hegemônicas. sejam eles inter ou transestatais (ou mesmo transculturais). Ianni reconhece que a Política situa-se acima das prerrogativas do Estado nacional. no âmbito das estruturas mundiais de poder. mas também realoca-se como uma esfera basilar na sociedade global em formação. as soluções e as respostas não são e não serão encontradas em consensos.

enfraquecida ou. educação. em suas diferentes modalidades de expressão e realização. Ainda que não seja..] Sendo assim.transformam-se e se redefinem.. mas também em democracia. mas também de hegemonia. um ponto 118 . ou democracia e cidadania. modificaram-se radicalmente as condições “clássicas” dessas categorias. Este é. saúde. E sem hegemonia fica difícil pensar não só em soberania nacional. o quadro de uma crise generalizada do Estado nacional como instituição que é fundada pela sociedade. Se a capacidade decisória do Estado está em causa. desloca-se radicalmente o lugar da política. ao menos. mesmo que apenas política. 2011: 227-228. no que se refere a políticas econômico-financeiras. Ainda que se continue a pensar e agir em termos de soberania e hegemonia. mas que também atua como fundadora desta. grifos do autor). alternativas ou sucessivas pode ser um requisito essencial da dialética sociedade civil e Estado. meio ambiente e outros setores da vida social nacional. Essas instituições habitualmente detêm poderes econômicos e políticos decisivos. capazes de se sobrepor e impor aos mais diferentes Estados nacionais. de habitação. que se apresenta cada vez mais intensificado. a constituição de hegemonias conflitantes. burocracias e tecnocracias estabelecem objetivos e diretrizes que se sobrepõem e impõem às sociedades civis. expressa na atuação das organizações multilaterais e das corporações transnacionais. desafiadas pelos dilemas globais do novo palco da história. a meu ver. reorientada pela transnacionalização da economia. o globalismo ianniano. Ocorre que a hegemonia. [. tanto quanto de nacionalismo e Estado-nação. de transporte. no que se refere às suas significações práticas e teóricas (IANNI. para Ianni. Essa mudança no locus da hegemonia política é percebida por Ianni através do olhar sobre o papel da mídia no mundo contemporâneo. Por meio de sua influência sobre governos ou por dentro dos aparelhos estatais. sobretudo por meio do desenvolvimento da internet e ampliação do acesso a ela. temos um problema não só de soberania nacional. Sim. Nesse sentido é que as condições e possibilidades de construção e exercício da hegemonia podem ser decisivamente influenciadas pelas exigências da globalização. tem estado cada vez mais sob o controle das organizações multilaterais e das corporações transnacionais.

Trata-se da ressignificação de uma ressignificação. a mídia poderia ser vista como o grande intelectual orgânico das diversas formas de poder vigentes no mundo contemporâneo. é importante começarmos pelo reconhecimento de que o século XX está profundamente impregnado. Note-se que o príncipe eletrônico é o príncipe de Maquiavel (1513). opiniões e induções. o que é fundamental para compreendermos a crescente importância da mídia em todas as esferas da sociedade nacional e mundial. sem o risco da convivência nem da experiência. [. transformações. de par em par com realidade e virtualidade. São inúmeras as inovações tecnológicas que adquirem o significado de poderosas e influentes técnicas sociais (IANNI. no mundo da mídia. Modificam-se ou apagam-se territórios e fronteiras. é curioso observar como Ianni constrói a noção de “príncipe eletrônico”. assim como informações. e na qual se transformam imagens e visões de mundo. Nesse mundo virtual criado por meio da manipulação de tecnologias eletrônicas. interpretações. Aí. sem esquecer da publicidade. tensões.] O príncipe eletrônico é o arquiteto do ágora eletrônico. informáticas e cibernéticas.. dissolver. grifos do autor). revestido dos contornos que lhe atribui Gramsci (1949). informáticas e cibernéticas. Muito do que é a política revela-se espetáculo. Aí. no qual todos estão representados. tudo se espetaculiza e estetiza. as identidades. defletidos ou figurados. aflitivo. 1999: 19-20. alteridades e diversidades não precisam desdobrar-se em desigualdades. refletidos. política e novela. do consumo e do consumismo e suas ilusões. democracia e tirania. acentuar e transfigurar tudo o que pode ser inquietante. publicidade. Grande parte das linguagens das instituições políticas “clássicas” da modernidade dissolve-se. Na concepção de Ianni.. atropelando problemas fundamentais e curiosidades. organizado e dinamizado por técnicas sociais. de modo a recriar.basilar na composição de sua análise sobre o advento da globalização. Se queremos compreender a crescente importância das eletrônicas. problemático. contradições. forma-se a mais vasta multidão solitária. entretenimento. na tentativa de expressar a realidade virtual com a qual nos deparamos. consumismo. 119 . transforma-se ou simplesmente anula-se no âmbito das linguagens televisivas.

nesse mesmo ambiente. Ocorre que os fatores responsáveis por asfixiar a sociabilidade em nível global também podem ser aqueles que têm o poder de engendrar as condições e possibilidades para a superação dessas tensões. Politização. tanto Ianni quanto Beck parecem esforçar-se para encontrar. é compreendida como fonte de agruras em escala planetária. A Política. assim como o risco e o terrorismo também podem ser vistos. Este é o desafio mais fundamental. Na mesma linha de raciocínio. Com efeito. como fenômenos através dos quais podemos perceber uma realocação das experiências políticas em nível mundial. gerada pela organização sistêmica capitalista. Note-se que o modo pelo qual observam-se as questões é necessariamente arbitrário. ao mergulharem no mar de horrores que aparenta ser a contemporaneidade.4. o totalitarismo de que nos fala Ianni é uma prática. Como vimos. Despolitização e Repolitização: Modernidade e Reencantamento do Mundo As tentativas de cognição de processos planetários por vezes envolvem reflexões aparentemente paradoxais. No entanto. a violência e a barbárie. de um ponto de vista sociológico. vislumbrar caminhos ou imaginar possibilidades de reinvenção ou redescoberta da Política no mundo contemporâneo não é obrigatoriamente uma característica do trabalho intelectual envolvido: é uma questão de vontade. nesses termos. que aprofunda abismos sociais em nível mundial. mas também uma ideologia. Mas isso não significa que elas sejam negativas ou desestimulantes necessariamente. uma cultura. posto pelo novo ciclo de globalização do capitalismo: reafirma-se a historicidade do capitalismo e cria-se o desafio de interpretar e realizar tanto as suas potencialidades como as suas negatividades. tendo-se em conta os seus dinamismos e as suas 120 . centelhas de esperança.

ciência e Estado. São ideias e práticas que se fermentam e fertilizam no âmbito do globalismo. prática e ideologia da globalização do capitalismo. Numa situação de globalização a Política apresenta-se para ambos os autores de modo paradoxal. recriando ou inovando muito do que se havia criado sob o signo do nacionalismo (IANNI. De certo modo. em contrapartida. da reflexividade. Por um lado. engendra novos surtos de fascismo. “os temas que estão agora em todas as bocas não são a presbiopia dos governantes. contra-poderes (Gegenmächte) que se relacionam com as chances ou oportunidades de novos comportamentos e redes sociais. certamente. nem derivam dos debates parlamentares – já não derivam. É como se as novas redes e comportamentos sociais atuassem em lugar dos antigos partidos políticos estabelecidos outrora. como teoria. 2006: 90). A subversão democrática ganhou uma vitória temática improvável” (BECK. ciência e progresso técnico. de uma espécie de sub-política (como denomina Beck) que se fundamenta na crescente subjetividade advinda dos processos de individualização. Desse modo. das catedrais do poder em economia. práticas. Por outro lado. 2004: 29-30). mas engendrando principalmente as condições e as possibilidades do neo-socialismo com suas implicações teóricas. consciência. ilusões e descobertas.contradições. que se apoderam das iniciativas. a Política também pode ser vista como parte de um processo de reencantamento do mundo. Do mesmo modo. Trata-se de uma atividade política subversiva. nazismo ou nazi-fascismo e inclusive surtos de social democracia. ideológicas e utópicas. desencantamento do mundo. é também um minadouro de emoções. O mesmo êxito do neoliberalismo. imaginação e revolução. O que quero propor com isso é ideia de que precisamente aqui as teorias 121 . ela é fruto da modernidade. Advém do sucesso das conquistas dessa modernidade e da expansão do capitalismo em nível planetário. em Beck. o perigo gera. posicionando-se contra a oposição cerrada desta ignorância institucionalizada dos grupos que se formaram no cenário contemporâneo das disputas políticas.

contudo. corajosamente. No entanto. humoristicamente. 122 . no presente. a ser assaltado. A exploração dessas figurações hipotéticas permite-lhe expor as incongruências ainda latentes ou discretamente manifestas nos fenômenos. se é possível afirmar que tanto Ianni quanto Beck se posicionam. na condição de assaltados. Pois que aqui o fato de ser assaltado corresponde a uma auto-acusação [Selbstklage]. fascinante pensar que exatamente neste ponto também parece estar uma das grandes contribuições dos autores para o debate sobre o tema: a esperança. ambíguas associações de poder. cartéis de drogas. à maneira da ironia germânica. exércitos de salvação. sociedades de ciclistas e oportunidades de se permitir roubar 69 O método expositivo de Ulrich Beck envolve. sinaliza que ele próprio expõe-se. eles próprios culpados. Entre esses territórios. na mira da crítica à “utopia” ou à “normatividade”. que revela uma parcial dificuldade de percepção dos caminhos possíveis à humanidade. Em meio a isso tudo existem zonas de terras de ninguém. caso vençam o fatalismo pós-moderno ou o globalismo neoliberal logre converter-se em profecia auto-realizadora. […] Ao lado disso. O Estado nacional foi reorganizado. é. Eis o quadro imaginado. apontando tendências e estratégias de ação para o futuro. que se isolam e se combatem. É nesse sentido que Ianni (2004) falava de uma “sociologia do futuro” e também Beck (1997). narrado do futuro. […] Quem põe os pés nos metrôs que ainda circulam. o leitor possivelmente notou que estudar o fenômeno da globalização significa também lançar um olhar para o futuro. A especificidade da passagem exposta acima está. na tentativa de imaginar o que poderá ocorrer. creio. aos da cigana Cassandra: eine kassandrierische Fingerübung)69. O Estado social são Estados em ruínas. não impera a não-ordem. associações.de Ianni e Beck convergem. delimitados confusamente. militantes naturalistas. há parques e áreas de preservação da natureza que são mantidas e protegidas sob violência armada por militantes ecológicos [Grünen] (conhecidos como os “vírus terroristas”). Ora. A regra estabelece: os assaltados são. Inclusive sobre si próprios. jurídica e normativamente. de empresas reunidas. por livre vontade. de um modo geral. Os neoliberais triunfaram. a construção de cenários esquemáticos e pluridimensionais. caso nada aconteça politicamente. Creio que. destacada por meio da expressão Fingerübung – uma “adivinhação” feiticeira –. chega a propor um exercício (necessário) de “adivinhação” (comparável. No lugar das construções do poder e do direito dos atores do Estado nacional estão diversas.

É como se fosse a realização do futuro. pelo qual pessoas. fraternidade. ainda que de maneiras claramente distintas. europeus e norte-americanos. multidões perigosas. os que querem algum tipo de comunidade. O tom é evidentemente irônico. cada qual a seu modo. torna-se perceptível o fato de que seus escritos também constituem exercícios de observação esperançosa do devir. 1997: 266-268. 2011: 398. grifos do autor). Aí não há humilhados e ofendidos. igualdade. em movimento. a grande maioria. Para muitos. Dito de outro modo. mas com o fim de evitá-la. a intenção é sempre exortar a todos de que ela é plausível. a plena transparência. No fundo. mulheres. um novo conjunto de oportunidades e visões. reino esse no qual prevalece o governo do povo. latino-americanos. banidos. fugitivos. é possível que Ianni e Beck descrevam uma esperança ou uma aposta em comum. mas certamente não desejável – porquanto ninguém escreve sobre a catástrofe quando realmente espera por ela. famélicos da terra. E uma sociologia de suas 123 . imaginações e ações. nativos. negros. Um mundo sem alienados nem alienações. Com efeito. que emerge no mundo contemporâneo em processo de globalização. colonizados. vítimas da violência do terrorismo de Estado – compreendendo crianças. ambos os autores percebem. múltiplo. ou já existe.livremente – talvez porque o terapeuta avalie essa experiência pessoal como indispensável à formação da personalidade – há somente ainda uma lembrança distante daquele altivo Estados nacional. quando não humorístico. a humanidade pode existir. sonoro. aos milhões. plural. de uma catástrofe possível. na qual se realiza a humanidade. grifos do autor). São muitos. Depois de muitas andanças. como o reino da liberdade. árabes. Estados representam interesses particulares de interessados particulares (BECK. colorido. já não se almeja a não ser a vida sem carências. destacaram-se ou foram atingidos e explodiram pelos ares. de todos os lados. los de bajo. para o povo e pelo povo. asiáticos. como se estivesse nascendo novamente (IANNI. servos. escravos. Se examinamos a obra de Ianni com atenção. vivo.

uma aposta política na humanidade. experienciada por todos e por cada um.sociologias permite notar que esses elementos se ressignificam em seus pensamentos como uma promessa de futuro. 124 .

Capítulo VI Heranças e Horizontes Perspectivas de um debate 125 .

Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo... do debate “global” sobre a globalização. no decorrer de um debate de dimensões planetárias. com o amadurecimento do debate sobre a globalização. procurando pôr em relevo os elementos que me pareceram mais significativas para investigar o modo pelo qual ambos procuram compreender a atual situação de globalização. 70 Fernando Pessoa (In)conclusão Ao longo dessa dissertação. ainda no princípio do primeiro capítulo: uma reflexão a respeito da globalização faz pouco sentido se desmembrada dos diversos modos pelos quais o tema tem sido problematizado nas ciências sociais mundialmente. Precisamente aqui esse estudo pode ter alguma relevância como análise crítica original de duas importantes contribuições. É claro que não podemos alimentar a ilusão de que esse debate ocorra de maneira homogênea. Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura. Mas talvez o leitor se recorde daquilo que afirmei. surge a necessidade de retomar questões propostas anteriormente. como 70 Fernando Pessoa (1925). analisei alguns dos aspectos basilares das teorias de Ianni e de Beck. visões estas que são diversas e são produzidas nos muitos cantos do mundo. independente de configurações de poder e hegemonia no jogo das linhas de força que envolvem a globalização (por isso as aspas. simétrica. isto é. parece-me importante considerar que a cognição de processos de globalização pressupõe o diálogo com uma gama de visões sobre o tema. Poemas Completos de Alberto Caeiro.. propositais). tendo em vista a própria cognoscibilidade da globalização enquanto um objeto sociológico. É que. individual e em contraponto. Sim. Procurei sustentar que as interpretações da atual situação de globalização dificilmente poderiam ser vistas como completamente integrativas ou totais.. 126 .

não existe o “100%”.propunha Ianni. Ora. ciências não são feitas de contribuições definitivas. Primeiro. ao menos. naturalmente. por que razão dediquei tantas páginas ao estudo de dois autores. Dito de outro modo. aprender a pensar. uma ordem global compreensível. com ele. parece pouco frutífero estudar um autor para “acreditar” no que ele propõe ou para simplesmente assimilar suas orientações. detendo-me. estuda-se um autor para. pensamento e sensibilidade que proporcionam a chance para desenvolver as habilidades (ou. contribuímos precisamente através do esforço no sentido de reunir as contribuições mais representativas desses autores. na medida em que procuro também propor reflexões que dizem respeito à inteligência da globalização de um modo geral. a intenção é reajustar o foco analítico ao debate como um todo e a alguns de seus aspectos teórico-metodológicos. cujas propostas não me parecem inteiramente suficientes. à medida que procuramos apontar (pretensos) equívocos ou insuficiências. que retomam. Neste capítulo final. Na verdade. Em seguida. Ao contrário. nos moldes pensados por Beck. faço algumas observações de cunho metodológico. mas o tom é (ainda mais) autoral. na questão das estratégias de captação de fenômenos e processos de alcance mundial (I). mas também transcendem as contribuições de Ianni e de Beck. divulga e consolida. Parto. das contribuições com as quais o leitor já está familiarizado. fortalece. O leitor talvez se pergunte. parte das habilidades) necessárias para a cognição dos processos e fenômenos que se nos apresentam como desafios no mundo contemporâneo. retomo algumas das “ilusões” epistemológicas que se produzem e reproduzem em escala mundial. percorrendo trilhas de memória. seria uma estupidez estudar trabalhos que não fossem relevantes. elaborando rápidas reflexões sobre temas que se apresentam como promissores para pensar tanto os trabalhos de Ianni e Beck quanto (e sobretudo) os desdobramentos mais recentes do debate. Aqui reflito 127 . em especial. então. o que de certo modo as corrobora. Nesse sentido. tampouco podem contar com uma colaboração jurídico-normativa. se exequível fosse. que engendraria.

mas fundamental – a respeito do papel da palavra na inteligência da globalização. um autor como Helmuth Berking observa que situar o global em oposição ao local. a concepção da globalização como ruptura. mas sim como partes um do outro. Primeiramente. Nesse sentido. volto à reflexão – talvez aparentemente insignificante. nas obras de Ianni e principalmente de Beck – parecem implicar uma insuficiência analítica na medida em que induzem uma submissão dos complexos fenômenos e processos globais à métrica do espaço. uma intenção necessária. evidenciar que muito do que é global dá-se localmente. ao menos duas dificuldades teórico-metodológicas. entre uma realidade universal. Essa perspectiva implica. Nesse sentido. Embora esse seja um insight precioso. há o célebre conceito de “glocalização”. ao nacional ou ao 128 . O problema da abrangência Há uma tônica geral que permeia todo o debate sobre a globalização: a ideia de que os estudos globais devam ser abrangentes e integrativos. I. Afinal. procuro apresentar uma posição reflexiva sobre a importância metodológica das metáforas nos estudos globais (III). desde Robertson. sem ela talvez não houvesse estudos globais. e uma realidade descritiva. note-se. tenta-se. Ele foi forjado por Roland Robertson (1992) com intuito de sublinhar o fato de que o local e o global não deveriam ser vistos como dimensões excludentes. criou-se uma falsa impressão de que os fenômenos globais se dariam “globalmente”. nem fosse possível constituir “o mundo” como objeto científico. Essa é. creio. bem como a reconstrução categórica da ideia de sociedade (II).sobre a diferenciação entre duas dimensões da realidade. Contra isso. Mais especificamente. e que o local é também um aspecto do global. isto é. apresentado anteriormente. os desdobramentos dessa perspectiva “glocal” – muito presentes. ideal. efetiva ou propriamente global. porém. com isso.

No entanto. enquanto condição de 129 . expressa o caminho trilhado por parte significativa das teorias da globalização: “tipicamente 'sociedade' e o nacional. assim como 'mundo' e a métrica global. assimétricos e diversos. porque são diferentes). como um fenômeno da realidade empírica. pelo próprio Berking (2002). envolvendo processos. embora aparentemente simples quando reconstruída desse modo. soldados nas teorias da globalização” (BERKING. é importante ter clareza de que as categorias sociais de tempo e espaço dificilmente constituem-se como realidades a priori71. Nesse sentido.regional é analiticamente pouco profícuo. enquanto aquele é pensado quase exclusivamente em termos de desterritorialização. Essa ideia assenta-se no pensamento de que a globalização. estruturas e relações sociais dessemelhantes. uma perspectiva discursiva ou analítica. isto é. em última análise. Uma segunda implicação dessa tendência à busca pela abrangência analítica é a impressão – não menos questionável – de que a globalização não passaria de um discurso ou de uma perspectiva discursiva. de fato. pensados a partir da categoria do territorial. de alguma forma. até mesmo. mas expressam marcos 71 Com efeito. diversos discursos de globalização. quando trata a globalização nos termos da emergência de um “discurso de globalização” (Globalisierungsdiskurs). pode-se dizer que haja. e para além dessas formulações. estando além da capacidade humana de investigação e entendimento. antes. e também sobre a globalização (sim. como uma maneira de enfocar a realidade. grifos do autor). Do ponto de vista sociológico. A formulação. Não faz sentido que estes sejam. 2008: 133. parece-me ilusório acreditar que a globalização seja produzida fundamentalmente por “discursos globalizantes”. Kant (1787) concebia tempo (Zeit) e espaço (Raum) como formas a priori – o primeiro concebido enquanto forma a priori da sensibilidade e o segundo. como proposto por Therborn (2001) e. Parece preferível compreender a globalização. deva ser entendida de forma meramente modal. são.

nem aquilo que compõe esse discurso. sua substância. Afinal. e um motor que desencadeie ou determine por princípio a produção da globalização.) Ao recuperar o discurso foucaultiano. em certa medida. dificilmente se poderia tratar o tempo e o espaço enquanto formas anteriores à experiência (Erfahrung). Tratase apenas de separar o joio do trigo. isto é. item III. um porém. aqui. entendida como uma experiência possível. Aqui é possível aludir a uma célebre aula inaugural de história dos sistemas de pensamento. o objetivo aqui é observar também pensamentos provocados espontaneamente pelos fenômenos globais. em contrapartida. não significa rejeitar o fato de que ela seja. e não apenas sistemas de cognição edificados com rigor.estabelecidos historicamente pelo patrimônio cognitivo da humanidade e assumidos pelo pensamento sociológico. 130 . Isso significa que. Mas há. um fenômeno heurístico exemplar. de distinguir entre uma estratégia de investigação. (Recordar o capítulo segundo. pareceme mais profícuo buscar investigar as relações. processos e estruturas que envolvem. Reconhecer que a perspectiva do discurso não é determinante. Numa situação de globalização. (re)configuração. no entanto. 72 Essa noção aproxima-se da proposta de que gueroultiana de que ideias (expressas em palavras e vivas no pensamento suscitado por elas) instituiriam uma realidade. O discurso pode ser uma excelente fonte para a percepção de processos globais. Muito ao contrário. bastante frutífera. o foco é redirecionado às formas discursivas em sentido amplo. ou seja. Nessa concepção. engendram ou coexistem com esses marcos categóricos que estão em constante modificação. o discurso privilegiaria certos enunciados. Do ponto de vista sociológico. malgrado não esteja comprometido com a verdade (lembremo-nos de que se trata de um texto filosófico). marginalizando outros. parece preferível observá-los como categorias cognoscíveis a partir da história. Para um interesse propriamente sociológico. ainda que a globalização não pareça ser cognoscível enquanto um mero produto do discurso. a investigação das dimensões discursivas dos fenômenos e processos globais possibilidade da experiência. Em lugar disso. na qual Michel Foucault afirma que o discurso produz a verdade (FOUCAULT: 1970)72. mas sim as suas posições em meio às tensões sociais. e mesmo desaparecimento. o fundamental não seria nem a verdade.

as tentativas de cognição do próprio fenômeno. Tendo em vista que o mundo é um objeto cujas dimensões superam quaisquer pretensões de compreensão total. discursos sobre si própria. Ela é frequente nos panoramas do debate. elaborados e enunciados em meio às suas dinâmicas. Ora. atravessando-se a estrutura e o corpo do discurso. e eu mesmo a empreguei diversas vezes nas fases mais iniciais das pesquisas que originaram esta dissertação.pode ser um importante minadouro de aspectos heurísticos. O leitor atento talvez tenha se dado conta de que tive o cuidado de evitar. assim. através dos quais é possível perceber. ela suscita. os próprios autores de que tratei aqui mais detidamente utilizam-na em seus textos sem maiores justificativas. pareceu-me inapropriado tratar a maior parte dos trabalhos sobre a globalização em termos de “teorias”. por sua vez. a presença de discursos provocados pela globalização abarca. desvendando. com efeito. no mais das vezes. o que está na origem das aparências. a um questionamento – discreto e que costuma permanecer intocado nos trabalhos sobre processos globais – a respeito do status da escrita sociológica sobre globalização. nem produzida diretamente por algo dessa natureza. aos poucos. Teoria sociológica ou diagnóstico social? Um raciocínio de entremeio Se a globalização não deveria ser vista apenas como uma realidade discursiva. tomando a palavra num sentido rigoroso. a inteligência da globalização implica 131 . 1. E a observação desse fato pode conduzir. o uso da expressão “teoria(s) da globalização”. Mas. as diversas tensões sociais dentro das quais se situam os enunciados. sejam eles privilegiados ou marginalizados. ainda que não unicamente.

Vale recordar que. “o funcionamento” do mundo. e com boa margem de acerto. Esse é. sim e não. por sobre os quais se poderia avançar: de um lado. tampouco sua estrutura (no singular). De modo muito sucinto.hipóteses sobre o imperscrutável. Merton (1949. apostas no alcance da imaginação. de fato. a ambas as questões é possível responder. se o que está em jogo é o status dessa prática. haveria dois planos interconectados. ao menos desde Robert K. uma saída é a busca. é pouco provável que se possa captar. um exercício teórico – malgrado sequer seja possível saber. pode-se falar. de elementos através dos quais se consiga perceber algumas de suas dinâmicas. Note-se que um raciocínio como esse. será que exercícios teóricos como esses são suficientes para caracterizar teorias? Dito de outra maneira: tendo em vista o tipo de trabalho intelectual predominante no campo da sociologia da globalização. 1968) é possível trabalhar com a ideia de que teorias sociais não sejam necessariamente universais. ver também Boudon (1991). mais particulares. Para refletir sobre esse aspecto. de fato. um plano que envolveria um progressivo avanço na direção de um sistema conceitual mais geral e adequado à consolidação de grupos formados por aquelas teorias mais específicas. com efeito. das quais se poderiam retirar hipóteses empiricamente verificáveis. Diante dessas dificuldades. Porém. essa é a noção mertoniana de teorias de médio alcance (middle range theory)73. isto é. um plano de teorias especiais (special theories). Para ele. Afinal. em teorias da globalização? Ou será que tais trabalhos deveriam ser preferencialmente entendidos como cenários construídos de forma sociologicamente significativa? Ora. 132 . cabe propor um contraponto. nem destinemse impreterivelmente à explicação de fenômenos de longo alcance. 73 Para uma visão geral sobre as teorias de médio alcance. se tais elementos contam efetivamente entre os mais decisivos em um dado recorte da questão. ainda que nem sempre bem-sucedida. de fato. de outro.

não obstante. Como procurei mostrar nos capítulos anteriores. De algum modo. ajuda a compor um quadro maior. Não obstante. seria possível. que não contribuam para a inteligência das novas configurações da sociabilidade. se talvez não se deva falar de modo completamente adequado em uma teoria ianniana (ou beckiana. dinâmico e ricamente diversificado de contribuições que pode. a despeito das preocupações por 74 Retiro a ideia de raciocínio de entremeio de Passeron (2005). tal como o fez Ortiz (2008). wallersteiniana etc. e também achados intelectuais. a certos interlocutores ao enunciarem suas proposições. Dessa perspectiva. com seus limites. Ainda outra maneira de observar essa mesma questão é alocando as tentativas de inteligência da globalização à posição de raciocínios de entremeio74. luhmanniana.se aplicado às tentativas de inteligência de globalização. afirmar que cada uma dessas tentativas de cognição do fenômeno. ainda que num sentido estrito. Através dessa ideia é possível concebê-los como construções situadas entre a aposta teórica e o diagnóstico de conjuntura social. (Note-se que. em contrapartida. ao tratar a questão em outros termos. os principais trabalhos no âmbito da sociologia da globalização. ajuda-nos a perceber parte do seu caráter. ser identificado.) Se nem Beck. Ela será novamente utilizada na seção II. não contradigo o observado no parágrafo anterior. como um campo teórico abrangente. este sim. partindo de contextos histórico-sociais e campos intelectuais também específicos. item 1 deste capítulo. robertsoniana. 133 . embora abordem “o mundo”. parece razoável referir-se a um conjunto de contribuições como teorias (no plural) da globalização. em contrapartida dificilmente se poderia afirmar que seus escritos não possuam valor teórico. mesmo que seja insuficiente conceber uma contribuição determinada em termos de “uma teoria” da condição planetária. nem Ianni – e talvez nenhum outro estudioso da problemática da globalização – lograram elaborar uma teoria coesa e abrangente que de fato explique satisfatoriamente o fenômeno da globalização em sua (ao menos quase) totalidade. dirigem-se.) da globalização.

Precisamente aqui encontra-se um campo de trabalho para sociologia dessas sociologias. diria Ianni. suas dimensões centrais. e foi esta peculiaridade dos estudos globais que fundamentou a construção da cognoscibilidade de processos de globalização como objeto para o presente trabalho. magnífica e 134 . II. individualização. A cortina das ilusões: globalização e senso (in)comun Globalização transnacionalização. a diversidade de suas abordagens revela-se um objeto da maior centralidade. chegando até mesmo ao arriscado exercício da previsão. Parece que a dimensão planetária. essa mesma característica lhes permite privilegiar certos temas e questões. Trata-se menos de observar um fenômeno em si. mas de percorrer trilhas de pensamento e sensibilidade através das quais esse dado fenômeno pôde ser apreendido pelos que tentaram conhecer. que buscam identificar seus momentos marcantes. tais escritos podem também ser vistos como verdadeiros relatos de história contemporânea.vezes demasiado abrangentes (teóricas. o trabalho de uma sociologia dessas sociologias. talvez dissesse Beck. em certo sentido). No entanto. rima com transformação. Mas rima também com ilusão. na medida em que torna pouco específico o caráter dos escritos. desprendendo-se. Ora. ou arriscar-se a “adivinhar o futuro”. Esse caráter intermediário dificulta. glocalização. com base nas tendências identificadas no hoje conjugam-se com investidas teóricas em ambos os trabalhos. explicar ou apenas apontar elementos na busca pela cognição da globalidade. revolução. e que tais questões possuam caráter planetário. assim como cosmopolitização. É nessa direção que está a minha aposta. aproximação e distanciamento. dos modos pelos quais elas podem ser observadas. ainda que parcialmente. uma vez que o foco recaía sobre as questões. por um lado. desterritorialização. “Prever para prover”. mundialização da cultura.

Certamente não seria possível esgotar as (aparentes) ilusões do pensamento social da globalização: não ousaria sequer tentar fazê-lo. Não quero. mas na expansão mundial do mercado e. estimulando a ignorância da diversidade e do caráter processual da globalização75. para falar como Octavio Ianni. e quase inimaginável da globalização termina por confundir a percepção dos seus fenômenos e processos. não na globalização propriamente dita (embora usem o termo). Ao menos no debate científico. ou naquilo que se poderia denominar senso incomum. e alcança maior penetração nas visões de mundo de indivíduos e grupos que as reflexões de pesquisadores ou mesmo de veículos midiáticos mais sérios. 75 Para uma análise detida dessa literatura economicista. mesmo grandes estudiosos do tema parecem ser. potencialmente. nos moldes em que a apresentei. entre outros. (ainda) não logrou subsumir por completo a reflexão e a reflexividade – ainda que ele se faça presente e nem sempre seja tão logo identificado enquanto próprio a um senso comum (nos diversos sentidos que ela toma.magnânima. Cabe notar porém que. mas nem por isso menos problemáticos. contudo. Essas ilusões não dizem respeito somente a uma certa produção midiática. vez que outra. interessados. 135 . esse “príncipe eletrônico”. os mal-entendidos que estão presentes em um “bom senso”. desde Aristóteles). Com efeito. Eles são menos óbvios. como se pudesse pretender-me imune às possibilidades de engano. que por vezes assume uma roupagem científica. Sim. o pensamento sobre a globalização também reúne um conjunto de quimeras. ludibriados pela cortina de ilusões que permeia a atual situação de globalização. com frequência. aqui. recomendo Ortiz (2006). me referir a uma literatura sobre globalização produzida e difundida por instrumentos como a Harvard Business Review. dos negócios dos seus leitores. tanto esse tipo de literatura economicista quanto a mídia eletrônica e cibernética difundem e reproduzem a ilusão de que “tudo se globalizou”. que enganam os sentidos e o raciocínio. Há.

vale a pena 76 Recordar capítulo IV. Com efeito. 2010). quero chamar a atenção para um ponto: ainda que a conclusão não me pareça convincente. Trata-se da falta de clareza a respeito de duas dimensões essencialmente distintas: uma dimensão preferencialmente conceitual. não obstante. 136 . nos termos tratados por Beck. 2008. para os interesses analíticos dessa dissertação. BECK e GRANDE. parece ser a pressuposição das dinâmicas e das consequências próprias do sucesso da modernidade (seja ela classificada como “primeira” ou “segunda”)76. com caráter descritivo. Quanto a isso. pois estou convencido de que a reflexão sobre esses aspectos pode ser frutífera para o debate. No caso de Beck. e está presente também em alguns dos mais recentes trabalhos de Beck.Nesta etapa. a cosmopolitização representa pouco mais que uma versão “dinâmica” do cosmopolitismo. o maior problema do cosmopolitismo. 2008). Um parênteses. e também da cosmopolitização. quero apenas apontar três desses “mal-entendidos”. O real e o efetivo O primeiro deles talvez seja o mais importante. que esta última distinção não me parece ter sido suficiente para circunscrever os limites factuais entre essas duas dimensões. 2011. configuram metáforas usadas para expressar concepções ainda muito similares: no fundo. quando procura diferenciar entre as categorias do “global” e do “universal”. a reflexão se dá na tentativa de fundamentar uma diferenciação entre um processo de cosmopolitização. e o projeto (filosófico) do cosmopolitismo. 1. Como procurei mostrar. e outra propriamente efetiva da globalização. Cabe ressaltar. Uma distinção próxima a essa tem sido proposta por Ortiz (2007. aliás. ainda que de outro modo (BECK 2006. seção II.

O que é percebido consiste em uma “efetividade”. sendo parte do Ser. grifos do autor). “Minha tese é: a realidade [Realität] torna-se ‘cosmopolita’. Spiegel). mais recentemente. aproximar o cosmopolitismo das diversidades próprias dos processos sociais. está na esfera da efetividade (ARNAUT: 2011b. Aqui. em alemão). Os sens [“sentidos”. estão sujeitos à intervenção do homem. Beck tem buscado. acepção. os sentimentos são efetivos (wirklich. A “realidade” percebida pelos sens e. julgamento. sensibilidade. a mesma distinção pode ser formulada também a partir de uma reflexão presente no próprio campo da filosofia do conhecimento. em maior ou menor medida. esforçando-se para distinguir uma dimensão descritiva (própria às ciências sociais) de outra normativa (que ele identifica. é wirklich. Daí precisarmos de uma ciência social cosmopolita” (BECK. pelo menos desde o sensualismo de Locke. O sens enquanto sentido. sensação. experiência.] de maneira necessária.observar como Beck compõe o raciocínio. embora não se confundam. o raciocínio me parece valioso. ligados ao corpo e à mente [. razão de ser. isto é. deriva do latino: Realität) denota aquilo que é... Precisamos compreender que não há um cosmopolitismo puro [rein]: há somente a cosmopolitização. O cotidiano. 137 . grifos no original). os atos. “sensações”] constituem atributos humanos. compreensão. é real. há uma busca por distinguir entre o ideal e o possível. em termos próximos aos que mobilizamos contemporaneamente. o Tempo. pela mente. nessa perspectiva. não pode ser tomada por “a Realidade”. o Universo. com os modelos cosmopolitistas da filosofia e da religião). o sens como sentido físico ou fisiológico. que é deformada. e assim por diante. forjada numa relação especular (que é a metáfora hegeliana do espelho. A despeito da conclusão (de que vivenciamos uma cosmopolitização do mundo nos moldes já apresentados). a Natureza. isto é. a partir deles. 2006: 252. o Ser (das Sein). sentimento. mediada pelos limites do corpo e da razão humanos. “A Realidade” (o termo germânico. Em certo sentido.

em termos de uma delimitação.Em seus escritos. liberando-se da territorialidade das regiões ou do Estado-nação. grifos do autor).. [. e corriqueiro. 2008: 104-105. ao tomar o mundo como tema de reflexão. Ele procura mostrar que as Ciências Sociais. e que o particularismo do pensamento enuncia-se tanto em dialeto. embora caminhem de mãos dadas.. A proposta de Ortiz ajuda a elucidar o fato de que o global e o universal são categorias situadas em campos distintos do pensamento e da realidade. também não podem perder essa “intenção” de universalidade. pois.] Convenientemente esquece-se que o cosmopolitismo não é um atributo necessário da globalidade. têm dificuldades para universalizar a sua explicação. algo entre o ideal da universalidade (que é necessário) e o enraizamento dos fenômenos sociais.. na história do pensamento.. requerem um novo olhar. 138 . por isso. Mas seria incorreto imaginar que as análises sociológicas teriam se tornado. no entanto. [. [. entre os atributos do global e do universal. quanto em linguagem mundial. seu raio de alcance se expande. “mais universais” do que no passado. é perfeitamente plausível. mas que. estando amarradas aos seus contextos. situando o pensamento e a reflexão sociológicos numa posição intermediária.. Renato Ortiz expressa essa distinção. na condição da modernidade-mundo. a definição de novas categorias de pensamento. ser globalmente provinciano (ORTIZ.] Não resta dúvida de que as ciências sociais se transformam com o processo de globalização. eles são polimórficos e pouco aptos a se universalizarem (a categoria trabalho não se aplica à compreensão das sociedades indígenas nas quais as relações de parentesco predominam). como dito. 191-194. Os conceitos encontram-se vinculados ao contexto particular da pesquisa. Certamente.. Dessa maneira é possível repensar o lugar da interpretação dos fenômenos e processos globais. as relações sociais. As mudanças em seu objeto.] O pensamento sociológico é sempre um raciocínio de entremeio.

2009: 244). sociedade do mundo etc. Num esforço para mostrar a globalização como novidade. necessário refundar um saber em ruínas. portanto. A globalização situa-se no fluxo da história. Dificilmente as Ciências Sociais se encaixariam dentro desta perspectiva. Esse pode ser visto como um ponto crítico nas teorias de Ianni e de Beck (e no debate. não se deve entender. de modo que “seria. que “tudo mudou”. da mudança e do desconhecido. no mais das vezes. de metáforas da transformação. É assim que 139 . esquece-se de que. 3. a criatividade. ou sociedade-mundo. que levam em conta uma gama de categorias originadas. A reinvenção da sociedade Um terceiro aspecto a ser posto em questão é a própria categoria de sociedade num contexto de globalização. Tratam-se. em particular. à ideia de uma sociedade global ou mundial. A univocidade do novo Um segundo aspecto que merece ser melhor analisado na literatura científica sobre a globalização seria a noção de ruptura histórica e epistemológica. Refiro-me.2. como um todo). a abertura para o novo enraíza-se no solo da tradição que permanece e a antecede” (ORTIZ. 2006). Não existe ruptura. por isso. fato e interpretações. também não pode ser concebida nos termos de uma negação do passado. Já no terceiro capítulo indiquei que o uso da ideia de ruptura para pensar as transformações que causam e advêm da globalização é arriscado: ainda que seja útil para nos darmos conta de que estamos diante de “algo” novo. no limite. A perspectiva de uma ruptura pressupõe a superação de algo. um sinal presente e premente do futuro. em formulações com respeito ao Estado nacional. em meio às suas tensões e complexidades (URRY. se a globalização não surge “do nada” (o que seria uma suposição grosseira). assim como a ideia de que é possível uma “virada” radical nas bases do pensamento social.

ao mesmo tempo. e ao colega Guilherme Nogueira (UChileUFRGS) pela oportunidade de discutir esse aspecto da minha pesquisa.algumas apostas nestas configurações planetárias de sociedade vêm sendo formuladas e reformuladas ao menos desde os trabalhos de Luhmann (1971. e de que maneira. Para fins de citação. a saber: “se. vale a pena recordar o modo pelo qual Luhmann constrói a sua Weltgesellschaft como um objeto sociológico com vista à cognição e previsão de fenômenos (note-se) por vezes ainda pouco evidentes. realizado em Outubro de 2012 – cf. Luhmann segue adiante e busca delinear um conjunto de questões teóricas. Luhmann parte da hipótese de que é possível haver interação (e não o simples contato) em nível mundial. em sua primeira versão. a interação em nível mundial já se consolidou” (LUHMANN. Note o leitor que a pergunta parte de uma incerteza (pois questiona a própria existência do fenômeno). Arnaut 2012b. na tentativa de apreender o fenômeno. mas talvez possa ser resumido da seguinte maneira.und Sozialphilosophie. sem que as fronteiras das sociedades (nacionais. com elas. 57. no Archiv für Rechts. Ele formula a questão a partir de uma pergunta de partida. utilizo aqui a versão de 1975. mas demonstra. A fim de estabelecer um parâmetro de compreensão para tais denominações da sociedade como mundial. Essas interações implicariam consequências no âmbito da ciência (o saber do saber) e. 1975: 53). em 1971. 1975)77 sobre a Weltgesellschaft. 1-35. haveria 77 Vale notar que o texto fundador “Die Weltgesellschaft” foi publicado. 140 . pp. uma tentativa de identificar os elementos de um processo que já poderia estar parcialmente consolidado. naquela altura) a impeçam de existir. Esse esforço é longo e pormenorizado. Em paralelo. Os trechos que seguem sobre a Weltgesellschaft enquanto categoria de cognoscibilidade de processos globais nos trabalhos de Niklas Luhmann foram discutidos com pesquisadores das teorias de sistemas sociais e parte deles pode ser encontrada em versão preliminar numa comunicação de pesquisa em andamento constante nos Anais do III Encontro Internacional de Ciências Sociais. Agradeço aos professores Fabricio Neves (UnB) e Leo Peixoto Rodrigues (UFPel). conquistas no campo da tecnologia. que está revisada. através de redes de comunicação em nível mundial que neutralizariam referências socialmente específicas das fontes de conhecimento.

Luhmann observou muito precocemente que ao nível da política nacional (“domesticada” e capitalista) e do direito tradicional não seria possível articular o problema da Weltgesellschaft. que só seria possível compor um quadro de expectativas à medida que se fosse formando. Já não era mais possível simplesmente subentender que as fronteiras sociais entre seres humanos. Esse horizonte mundial de possibilidades determinaria vivências e trocas concretas. com o conhecimento do fenômeno. a economia. fossem elas cognitivas ou normativas. havendo. assim como para os processos de diferenciação funcional. as mudanças em curso através do aprendizado operado de modo sistêmico. isso implicaria novas consequências para as funções na Weltgesellschaft. como sistemas parciais da sociedade. substituições. assim. o gradiente de complexidade entre sistema e ambiente (Umwelt) aumenta no sentido de se obter um sistema total mais complexo e repleto de contingências (voraussetzungsvoll). a unidade de uma sociedade que abranja todas as funções ainda é possível somente na forma da sociedade mundial [Weltgesellschaft]” (Ibidem: 60). cada qual a seu modo. para Luhmann. de modo seletivo. contudo. um conjunto de situações frustradas para que. e se constituiria em meio à expansão de estruturas de expectativa (Erwartungsstrukturen). 141 . pudessem ser construídas expectativas novas (isto é. no que se refere ao pertencimento a um determinado grupo permanecessem idênticas nas diversas dimensões sociais. “Com isso. a técnica e a ciência absorveriam. Isso exigiria um enorme grau de abstração. uma vez que ele se diferencia de modo desconhecido e implica novos estados de compatibilidade do mundo na medida em que. Ora. Ainda. Para ele. É que normas e valores integrativos não seriam. por diferenciação. baseadas em novos horizontes de possibilidade). Note-se. de um ponto de vista mais propriamente político. facilmente encontrados no sistema da Weltgesellschaft. A Weltgesellschaft se tornaria uma unidade através das trocas comunicativas mundo afora.ressonâncias de uma opinião pública formada em escala mundial.

os intérpretes da sociedade parecem caminhar pelas trilhas de um pensamento muito próximo a esse. com boa margem de acerto. de ser parte dele. pode-se dizer que há uma história que é cada vez mais efetivamente mundial. ainda que as influencie. feudalização. sendo apenas uma dimensão dele. Talvez o leitor concorde que esse parece ser o caso em certas passagens tanto de Ianni. sociedade global ou mundial tomam. mas uma soma de memórias coletivamente esquecidas. um sentimento historicamente diferenciado de estar no mundo e. De certo modo. assim. ainda que a presença categórica do nacional possa ser encontrada. em cada um deles. 142 .Ocorre que as ideias de sociedade-mundo. a aparência de um Estado nacional expandido. fenômenos ou ocorrências aparentemente isolados. há uma representação coletiva de memórias e esquecimentos no curso da história global. precisam ser protegidas do risco de desconsiderar a reconfiguração histórica desses sentimentos de pertencimento. a globalização compõe também um imaginário específico – como o fizeram os processos de nacionalização e colonização. Sim. diz respeito à veiculação das notícias através das mídias que. já há tempos trespassam as fronteiras nacionais. Muito. Vale lembrar. quando de Beck. como previa Luhmann. Nesse sentido. que Ernest Renan (1882) observava que a constituição de uma nação envolve não somente uma memória compartilhada. que tal veiculação não se confunde com o processo em si. As ideias de uma sociedade global. ainda que diga respeito a indivíduos. mas com alcance planetário. Dito de outro modo. citatização. É que não parece razoável pensar a “globalização do noticiário” como correspondente à globalidade das ocorrências. é claro. embora confira alcance imaginativo às sociologias da globalização. Pode-se dizer que a mídia veicula informações que se desterritorializam e nos permitem criar uma “representação global”. e assim por diante. Afinal. no mais das vezes. de formas distintas. é preciso notar que essa projeção categórica não deixa de ser coerente. em suas variações. por exemplo. Mas talvez se possa sustentar.

Contra isso há. a Weltgesellschaft de que falava Luhmann não se referia a um sociedade que. expandidos em âmbito mundial. isto é. O Estado nacional é uma arena de poder político. ocorre que uma (re)invenção da sociedade em moldes (ainda) nacionais. no fundo. ocupando suas posições – como propõe Ianni (1992. precederiam normas e legislações existentes entre nações. 1994. mas talvez oculte uma ingenuidade. Ora. Trata-se da expansão de um sistema social total por diferenciação e criação de novos sistemas distintos.Por outro lado. ou a globalização nos reserva a materialização de uma concentração magnânima de poder e violência. assim. efetivamente. em nível planetário. no caso de uma proposta como essa se realizar. sob um cetro que ainda desconhecemos? Com efeito. acima de todas as outras. transforma suas estruturas. realizar-se como sociedade humana? Mais precisamente: estamos preparados para uma situação política de poderes cuja distribuição é assegurada fundamentalmente por acordos. da sociedade que se diferencia e. detendo o monopólio legítimo da força física. efetivamente. isso implicaria um conjunto de acordos e expectativas – que legitimariam essas normas. Como vimos. internacionais. significa a extensão (não uniforme e nem automática) da comunicação seletiva e compreensível à dimensão (potencialmente) planetária. a proposta beckianna de um conjunto de normas baseadas nos direitos dos seres humanos. em nível mundial. poderia subsumir as sociedades estatais e as demais coletividades. não deve olvidar outro aspecto eminentemente político: a questão de se esfera pública existente hoje nos Estados nacionais lograria se realizar. A proposta de Beck é. dar-se-ia a perda quase definitiva da conhecida prerrogativa dos Estados-nação há tanto enunciada por Weber (1919): a existência de uma instituição que controla e arbitra. 1996) – correndo o risco de se transmutar. alcançando proporções novas e 143 . nos termos da teoria de sistemas luhmaniana. pois que eles. certamente. em versões globais do que já existia. A questão parece ser: será que a sociedade mundial pode. cativante. mas também a concentrar-se. um poder que tende a expandir-se. na babelização característica do debate. Falar em sociedade do mundo. certamente.

“Mundo” (Welt). necessariamente. uma boa metáfora: é como se os sociólogos vestissem seus trabalhos com uma terminologia que não foi feita para eles. no patrimônio cognitivo das ciências sociais. e assim por diante. com as fronteiras da própria sociedade. aliás. para Luhmann. Esta sociedade. (Essa é. “sociedade planetária”. as fronteiras dos Estados nacionais que terminam por ser confundidas. de uma maneira prêt-a-porter. e frequentemente sem os ajustes necessários. é como se as palavras fossem fetichizadas. conquanto provocativa. o mundo é a abstrata unidade de diferença que se forma no processo de constituição do sistema e de seu ambiente (Umwelt). para Luhmann. não são a mesma coisa. creio. Desse modo. na estante de uma biblioteca ou na plateia de uma conferência. cabe uma observação fundamental. mas que foi “comprada” pronta. que a imensa maioria das publicações sobre temas ligados à globalização empregam termos como “sociedade global”. fabricadas ou preparadas artesanalmente. Numa apropriação da terminologia de Luhmann. não significa. o Planeta! Aproximando-se do que Spencer-Brown (1969) entendia como um espaço indeterminado (unmarked space). é como se a própria sociologia não lograsse se constituir em um sistema social. não poderia se confundir com qualquer fronteira geopolítica. Planeta e mundo são ideias que se aproximam em nível de abstração. porquanto a política (Politik) seria compreendida como um sistema parcial da sociedade. Por isso. Em linguagem marxiana. desenhadas. tornar-se-iam agora sistemas parciais de uma sociedade maior. quem as criou. Ocorre. 144 . note o leitor. como e para quê foram imaginadas.) Grande número desses autores parece desconhecer as origens terminologias. no fundo trata-se de um sistema total cuja unidade de diferença pode ser o próprio planeta. uma vez que nem sempre ocorre comunicação eficiente de sentido. no entanto.mais amplas. Luhmann compreende “mundo” como uma unidade de distinção. “sociedade mundial”. Assim. o que aliena parte do trabalho intelectual. mas. Para fechar esse ponto.

na medida em que suspende os limites do pensamento. significantes e significados Dar nome é atribuir significado. Essa visão. Mas é justamente por isso que a análise do sentido enquanto evento se torna ainda mais necessária. que metáforas em muito se assemelham a fronteiras políticas. A emergência da globalização como problemática nas Ciências Sociais provocou o surgimento de neologismos e ressignificações que compõem um conjunto de metáforas da globalização. Nesse sentido (se o leitor me permite o jogo de ideias). definição. Aqui a interpretação ganha uma nova função: em vez de decifrar o sentido. a atualização da leitura se faz presente como um processo comunicativo que deve ser descrito. isso já significa algo. toda metáfora é também uma fronteira. 145 .III. pois só desse modo se evidenciam os pressupostos que condicionam a constituição do sentido (ISER. 1996: 54). inclusão e exclusão. Vale a pena voltar a essa questão e observar que metáforas implicam também classificações (fico tentado. que orientou o contraponto desenvolvido nos capítulos anteriores. parece profícua para situar as diversas formas pelas quais a globalização tem sido significada e ressignificada ao longo dos últimos anos. É certo que no processo da leitura o potencial de sentido nunca pode ser plenamente elucidado. a recordar Saussure e Lévi-Strauss). Ora. Do ponto de vista sociológico. indica a eleição de um modo pelo qual pretendo compreendê-las. especialmente numa situação de globalização como a atual. toda fronteira pode ser entendida como uma metafórica na medida em que estabelece critérios de comparação. Signos. simultaneamente. Desse modo. Elas expressam. ela evidencia o potencial de sentido produzido pelo texto. de medição. a separação e a conexão entre dois ou mais pensamentos. metáforas podem ser mais que simples figuras de linguagem e estilo. é possível dizer. criando novas diferenciações. se as chamo de metáforas. aqui. Nesse sentido. Aliás. em certo sentido.

] É. assim como do objeto do discurso. em geral. certas metáforas podem não fazer sentido quando mudamos o registro. 1999: 40-42) Sim. particulares. Ele não “brota” do nada: assenta-se no modo como as relações sociais se inscrevem na história e são regidas. uma vez que toda fronteira é arbitrária. isto é. [. Em toda língua há regras de projeção que permitem ao sujeito passar da situação (empírica) para a posição (discursiva). Estando arraigadas (ou enraizadas. metáforas dizem respeito a contextos específicos de possibilidades de imaginação. próprias dos contextos dentro dos quais se inserem.. o já-dito).Fronteiras podem ser vistas como metáforas de escolhas. E elas significam em relação ao contexto sóciohistórico e à memória (o saber discursivo. [. o ponto de partida das linhas de perspectiva. Esse mecanismo produz imagens dos sujeitos. por relações de poder. Cada uma dessas metáforas que compõem as tentativas de cognição da globalidade em emergência está arraigada em historicidades e temporalidades específicas. E uma mesma metáfora pode se desdobrar em muitas outras. implica a negação de outras possibilidades.] Os sentidos não estão nas palavras mesmas. em muitos casos. constitui-se como expressão (ou como metáfora) das materializações históricas dos seus limites. Esse é o caso. o que é institucional (a formação social. de sua aparente universalidade. em uma sociedade como a nossa. pois. O que significa no discurso são essas posições. em sua ordem) e o mecanismo imaginário. Aqui voltamos ao problema da (não) abrangência. sendo. dentro de uma conjuntura sócio-histórica. [. neologismo criado a partir da necessidade de expressar certos movimentos da 146 . da sua estreiteza e. Estão aquém e além delas (ORLANDI. Se as fronteiras. todo um jogo imaginário que preside a troca de palavras. isso não se dá de maneira diferente. Sendo assim.] O imaginário faz necessariamente parte do funcionamento da linguagem. para dar um exemplo. de fato. as metáforas também podem tomar uma aparência universal. As condições de produção implicam o que é material (a língua sujeita a equívoco e a historicidade). singulares.... se pretendem eternas. Ele é eficaz. No debate sociológico sobre a globalização.. da metáfora do globalismo.. para falar como Ortiz).

globalização do capitalismo. para Ianni. e também o sempre latente (ou potencial) malentendido das metáforas como ferramentas do trabalho intelectual de construção e reconstrução de um debate que ainda não dispõe de um léxico comum. Como vimos. uma ideologia que desenvolve-se em meio às dinâmicas do sistema capitalista. 147 . o globalismo expressa um efeito colateral. para Beck. o globalismo está na origem da globalização. sendo um dos nomes do próprio capitalismo (expandido em nível planetário). É assim que. a mesma metáfora assume contornos profundamente diversos em autores deferentes. ao mesmo tempo. mesmo quando são contemporâneos. Fenômenos como esse ilustram de modo exemplar o caráter frequentemente polissêmico.

148 .

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