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SEGUNDAS OBJEÇÕES1

RECOLHIDAS PELO R. P. MERSENNE


DA BOCA DE DIVERSOS TEÓLOGOS E FILÓSOFOS

Senhor, aperceberdes da obscuridade que os


outros nelas encontram, convém que
Visto que, para confundir os novos sejais advertido daquelas que precisam
gigantes do século2, que ousam atacar ser mais clara e mais amplamente
0 Autor de todas as coisas, empreen- explicadas e demonstradas; e, quando
destes firmar-lhe o trono demons- nos tiverdes satisfeito nisso, não cre-
trando sua existência, e que vosso mos que alguém mais possa negar que
intento parece tão bem conduzido, que as razões, cuja dedução começastes
as pessoas de bem podem esperar que para a glória de Deus e a utilidade pú-
doravante não haverá quem, depois de blica, não devem ser tomadas por
ler atentamente vossas Meditações, demonstrações.
não confesse haver uma divindade Primeiramente, haveis de recordar-
eterna de que dependem todas as coi- vos que não foi atualmente e em verda-
sas, julgamos oportuno vos advertir, e de, mas apenas por uma ficção do espí-
solicitar, ao mesmo tempo, que difun- rito, que rejeitastes, tanto quanto vos
dais ainda sobre certas passagens, que foi possível, as ideias de todos os cor-
assinalaremos mais abaixo, uma tal pos, como coisas simuladas ou fantas-
luz, que nada reste em toda a vossa mas enganadores, para concluir que
obra que não seja, se possível, mui sois somente uma coisa pensante; de
clara e mui manifestamente demons- medo que talvez, assim sendo, vós
trado. Pois, já que desde muitos anos, considereis que se possa concluir que
por contínuas meditações, exercitastes de fato e sem ficção3 não sois nada
de tal modo vosso espírito que as coi- mais senão um espírito, ou uma coisa
sas que se afiguram a outrem obscuras que pensa; foi só o que achamos digno
e incertas podem parecer-vos mais cla- de observação no tocante às vossas
ras, e que as concebeis, talvez, por uma duas primeiras Meditações, onde mos-
simples inspeção do espírito, sem vos trais claramente ser certo ao menos
que vós, que pensais, sois algo. Mas
1
O confronto do próprio texto das Objeções com detenhamo-nos um pouco nesse ponto.
as Respostas é indispensável. Particularmente por- Até aí sabeis que sois uma coisa pen-
que mostra bem como é preciso ler as Meditações. sante, mas não conheceis ainda o que é
Os contraditores não levam em conta a ordem das
razões; não souberam ler a obra tal como se lê um essa coisa pensante. E como sabeis que
livro de Matemática. De sorte que, embora não seja não é um corpo que, por seus diversos
destituída de sentido, a maioria dos argumentos não
atinge o que Descartes'quis dizer. movimentos e choques, efetua essa
2
Trata-se dos libertinos. Os teólogos tomaram a
sério as intenções apologéticas de Descartes e criti-
3
caram a obra do ponto de vista da ortodoxia. O grifo é do comentador. (N. dos T.)
156 DESCARTES

ação que denominamos pensamento? percebo existir em mim outro grau


Pois, embora acrediteis haverdes rejei- qualquer, e, de todos os graus capazes
tado todas as espécies de corpos, podia de serem adicionados, constituir a
acontecer que vos enganásseis, não ideia de um ser perfeito? Mas, dizeis, o
tendo rejeitado a vós próprio, que sois efeito não pode apresentar nenhum
um corpo. Pois, como provais que um grau de perfeição, ou de realidade, que
corpo não pode pensar? Ou que movi- não tenha estado anteriormente na sua
mentos corporais não são o próprio causa. Mas (além de verificarmos
pensamento? E por que o sistema todo todos os dias que as moscas e inúme-
de vosso corpo, que credes haver rejei- ros outros animais, assim como as
tado, ou partes dele, as do cérebro, por plantas, são produzidos pelo sol, pela
exemplo, não podem concorrer para chuva e pela terra, nos quais não há
formar esses movimentos que chama- nenhuma vida, como há nesses ani-
mos pensamentos? Eu sou, dizeis, uma mais, vida que é mais nobre do que
coisa pensante; mas como sabeis que
não sois, outrossim, um movimento qualquer outro grau puramente corpó-
corpóreo, ou um corpo movido? reo, de onde resulta que o efeito cobra,
de sua causa, alguma realidade, que no
Segundamente*, da ideia de um ser entanto não existia na causa) 5 ; mas,
soberano, que, sustentais, vós mesmo digo eu, essa ideia nada mais é que um
não podeis produzir, ousais concluir a ente de razão, que não é mais nobre do
existência de um soberano ser, de que vosso espírito, que a concebe 6 .
quem somente pode proceder a ideia Além disso, como sabeis que esta ideia
que se acha em vosso espírito. Mas jamais se vos ofereceria ao espírito, se
encontramos em nós próprios um fun- tivésseis passado toda a vida num
damento suficiente, em que basta estar- deserto, e nunca em companhia de pes-
mos apoiados para poder formar essa soas sapientes? E não se poderia ale-
ideia, embora não haja nenhum sobe- gar que a hauristes dos pensamentos
rano ser, ou não saibamos se existe que vos haviam ocorrido anterior-
algum e sua existência não nos venha mente, dos ensinamentos dos livros,
mesmo ao pensamento; pois não vejo dos discursos e conversações de vossos
que, tendo a faculdade de pensar, amigos, etc., e não de vosso exclusivo
tenho em mim algum grau de perfei- espírito, ou de um soberano ser exis-
ção? E não vejo também que outros, tente 7 ? Portanto, cumpre provar mais
além de mim, possuem grau seme- claramente que essa ideia não poderia
lhante? E isso me serve de base para estar em vós, se não houvesse nenhum
pensar em qualquer número que seja e
para juntar também um grau de perfei- 5
A geração espontânea é apresentada como um
ção ao outro, até o infinito; da mesma fato da experiência. A respeito desta certeza na
maneira que, mesmo se houvesse no aberração, característica do espírito "pré-experi-
mental", cf. a Formation de I "Esprit Scientifique, de
mundo um único grau de calor ou de Bachelard.
6
luz, poderia, não obstante, juntá-los e A objeção não leva em conta a distinção feita
entre realidade formal e realidade objetiva da ideia.
supor sempre outros novos até o infini- 7
Passagem típica: esses argumentos mostram o
to. Por que, analogamente, não poderia quanto os contraditores não souberam elevar-se ao
acrescentar a qualquer grau de ser que plano da Metafísica como ciência rigorosa, con-
forme Descartes a compreende: interpretando as
Meditações como um "ensaio" (na acepção moder-
* Esta segunda objeção, destinada a mostrar que a na) e não como um tratado científico, eles opõem
primeira prova a posteriori não é probante, é parti- fatos extraídos da experiência corrente a verdades
cularmente confusa. que se situam ao nível do encadeamento das razões.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 157

soberano ser; e então seremos os pri- não sabeis ainda que sois uma coisa
meiros a nos render a vosso raciocínio, pensante, porquanto, segundo vós, tal
e dar-nos-emos todos as mãos. Ora, conhecimento depende do conheci-
que tal ideia procede dessas noções mento claro de um Deus existente, que
antecipadas, patenteia-se, parece, ainda não demonstrastes, nos lugares
assaz claramente do fato de os cana- onde concluís que conheceis clara-
denses, os hurões e os outros homens mente o que sois. Adicionai a isso que
selvagens não possuírem neles tal um ateu conhece clara e distintamente
ideia, a qual podeis até formar do que os três ângulos de um triângulo
conhecimento que tendes das coisas são iguais a dois retos, embora esteja
corporais; de sorte que vossa ideia muito longe de crer na existência de
nada mais representa senão esse Deus, posto que a negou completa-
mundo corporal, que abrange todas as mente: porque, diz ele, se Deus existis-
perfeições que poderíeis imaginar; de se, haveria um soberano ser e um sobe-
sorte que não podeis concluir outra rano bem, isto é, um infinito; ora, o
coisa, exceto que há um ente corpóreo que é infinito, em todo género de
muito perfeito; a não ser que junteis perfeição, exclui toda outra coisa que
algo mais, que eleve vosso espírito ao seja não somente toda espécie de ser e
conhecimento das coisas espirituais ou de bem mas, outrossim, toda espécie de
incorpóreas. Ainda aqui é possível não-ser e de mal; no entanto, há mui-
afirmar que a ideia de um anjo pode tos seres e muitos bens, assim como
existir em vós, tanto quanto a de um muitos não-seres e muitos males; obje-
ser mais perfeito, sem que haja necessi- ção à qual julgamos ser oportuno que
dade, para tanto, de que seja formada vós respondais, de modo que aos ím-
em vós por um anjo realmente existen- pios nada mais reste a objetar, e que
te, embora o anjo seja mais perfeito do possa servir de pretexto à sua impieda-
que vós. Mas não tendes a ideia de de.
Deus, assim como a de um número ou
a de uma linha infinita; e, ainda que Em quarto lugar, negais que Deus
pudésseis tê-la, este número é inteira- possa mentir ou enganar; conquanto se
mente impossível. Adicionai a isto que encontrem escolásticos que sustentam
a ideia de unidade e simplicidade de o contrário, como Gabriel, Arimi-
uma única perfeição que envolva e nensis e alguns outros, os quais pen-
contenha todas as outras constitui-se sam que Deus mente, falando absolu-
unicamente pela operação do entendi- tamente, isto é, que ele significa algo
mento que raciocina, assim como se aos homens contra sua intenção, e con-
constituem as unidades universais, que tra o que decretou e resolveu, como
não estão nas coisas, mas somente no quando, sem acrescentar condição, diz
entendimento, como é visível pela uni- aos ninivitas por seu profeta: Ainda
dade genérica, transcendental, etc. quarenta dias, e Nínive será subver-
tida, e ao dizer muitas outras coisas
Em terceiro lugar, como ainda não que não aconteceram, porque não pre-
estais certo da existência de Deus e tendeu que tais palavras correspon-
dizeis, no entanto, que não podeis estar dessem à sua intenção ou a seu decre-
seguro de coisa alguma, ou conhecer to. Por que se empederniu e cegou o
coisa alguma clara e distintamente, se Faraó, e, se pôs nos profetas um espí-
primeiro não conheceis certa e clara- rito de mentira, como podeis afirmar
mente que Deus existe, segue-se que que não podemos ser enganados por
158 DESCARTES

ele? Não pode Deus comportar-se com espirito que a governa e, se, ao contrá-
os homens como um médico com seus rio, expõe-se ao perigo, quando perse-
doentes, e um pai com seus filhos, que gue e abrange os conhecimentos obs-
tanto um como outro enganam tão curos e confusos do entendimento.
amiúde, mas sempre com prudência e notai que daí parece possível inferir
utilidade? Pois se Deus nos mostrasse que os turcos e os outros infiéis não só
a verdade inteira e nua, que olho ou, não pecam quando não abraçam a reli-
antes, que espírito possuiria bastante gião cristã e católica mas até mesmo
força para suportá-la8? pecam quando a abraçam, pois não
Ainda que, a bem dizer, não seja conhecem sua verdade nem clara nem
necessário supor um Deus enganador, distintamente. Ainda mais, se for ver-
para que sejais decepcionados nas coi- dadeira essa regra que estabeleceis.
sas que pensais conhecer clara e distin- não será dado à vontade abranger
tamente, visto que a causa dessa senão pouquíssimas coisas, visto que
decepção pode estar em vós, embora não conhecemos quase nada com a
nem sequer o sonheis. Pois como sa- clareza e distinção que exigis, para
beis que vossa natureza não é tal que constituir uma certeza que não esteja
ela se engana sempre, ou ao menos sujeita a nenhuma dúvida. Tomai.
com muita frequência? E onde vos pois, cuidado, se vos apraz, para que.
informaram que, no tocante às coisas pretendendo firmar o partido da verda-
que pensais conhecer clara e distinta- de, não proveis mais do que o necessá-
mente, é certo que nunca estivestes rio, e para que, em vez de apoiá-lo, não
enganado, e que não o podeis estar? 0 derrubeis.
Pois quantas vezes verificamos que as Em sexto lugar, nas vossas respostas
pessoas se enganam em coisas que às objeções precedentes, parece que
pensavam ver mais claramente do que deixastes de tirar a devida conclusão
o sol! Portanto, esse princípio do do seguinte argumento: O que entende-
conhecimento claro e distinto deve ser mos pertencer clara e distintamente à
explicado tão clara e distintamente natureza, ou à essência, ou à forma
que, doravante, ninguém dotado de imutável e verdadeira de qualquer
espírito razoável possa ficar decepcio- coisa, pode ser dito ou afirmado com
nado nas coisas que julgar conhecer verdade desta coisa; mas (depois de
clara e distintamente9; de outro modo, observar assaz cuidadosamente o que é
ainda não vemos nada que possamos Deus) entendemos clara e distinta-
responder com certeza sobre a verdade mente que pertence à sua verdadeira e
de qualquer coisa. imutável natureza, que ele existe'*0.
Em quinto lugar, se a vontade nunca 1
pode falhar, ou não peca de maneira ° O silogismo das Primeiras Respostas ao qual se
alude é o seguinte: o que concebemos clara e distin-
alguma, quando segue e se deixa con- tamente pertencer à natureza de uma coisa, pode-
duzir pelas luzes claras e distintas do mos afirmar com verdade desta coisa; ora, concebe-
mos clara e distintamente que pertence à natureza
de Deus existir; logo, Deus existe. As Primeiras
8 Respostas concedem que "a dificuldade da menor
Oposição — embaraçosa para o autor — do
Deus cartesiano ao Deus antropomórfico das não é pequena": 1.° devido à distinção que fazemos
Escrituras. entre essência e existência "em todas as outras coi-
9
O princípio de clareza e distinção é ele mesmo sas"; 2." devido ao fato de que a ideia de Deus pre-
claro e distinto? Ou então não designa ele senão cisa corresponder a uma "natureza verdadeira e
uma certeza psicológica e subjetiva, não passando, imutável" e de que eu devo poder verificar que ela
por conseguinte, como dirá Leibniz, de "uma marca não foi forjada pelo meu entendimento. Descartes
de certeza obscura e sujeita ao capricho dos responde a essas duas dificuldades prejudiciais ao
homens"? fim das Primeiras Respostas.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 159

Cumpriria concluir: logo (após obser- uma só palavra em vossas Meditações


var assaz cuidadosamente o que é sobre a imortalidade da alma humana,
Deus), podemos dizer ou afirmar com que, no entanto, devíeis principalmente
verdade que pertence à natureza de provar, dando-lhe mui exata demons-
Deus que ele exista. Daí não decorre tração para confundir essas pessoas
que Deus existe de fato, mas somente indignas da imortalidade, pois a
que deve existir, caso sua natureza seja negam, e talvez, a detestem. Mas, além
possível, ou não repugne em nada; isto disso, tememos que não haveis ainda
é, que a natureza ou a essência de provado suficientemente a distinção
Deus é inconcebível sem existência, de que existe entre a alma e o corpo do
tal sorte que, se esta essência é, ele homem, como já notamos na primeira
existe realmente. Isso se relaciona com de nossas observações, à qual acres-
o argumento que outros propõem da centamos que não parece seguir-se,
seguinte forma: se não implica11 que dessa distinção da alma com o corpo,
Deus seja, é certo que ele existe; ora, que ela seja incorruptível ou imortal;
não implica que ele exista; portanto, pois quem sabe se sua natureza não é
etc. Mas o que está em discussão é a limitada pela duração da vida corpo-
menor, a saber, que não implica que ral, e se Deus não mediu de tal manei-
ele existe, cuja verdade alguns de nos- ra suas forças e sua existência, que ela
sos adversários põem em dúvida e ou- finde com o corpo?
tros negam. Demais, esta cláusula de Eis, Senhor, as coisas a que deseja-
vosso raciocínio (após termos assaz mos que forneçais maior luz para que
claramente reconhecido e observado o a leitura de vossas mui sutis, e, como
que é Deus) é suposta como verda- estimamos, mui verdadeiras Medita-
deira, no que nem todo mundo está ções seja proveitosa a todo mundo.
ainda de acordo, já que vós próprio Daí por que seria muito útil, se, ao fim
confessais que não compreendeis o de vossas soluções, após terdes primei-
infinito senão imperfeitamente; o ramente adiantado algumas definições,
mesmo se deve dizer de todos os seus postulados e axiomas, concluirdes o
outros atributos: pois, sendo tudo o todo, segundo o método dos geóme-
que é em Deus inteiramente infinito, tras, em que sois tão bem versado 12 ,
qual o espírito capaz de compreender a para que de uma só vez, e como de um
menor coisa que seja em Deus, se não só relance, vossos leitores possam
mui imperfeitamente? Como podeis, encontrar com o que se satisfazer, e
portanto, ter observado bastante clara para que preenchais seus espíritos com
e distintamente o que é Deus? o conhecimento da divindade.
Em sétimo lugar, não encontramos
12
Na realidade, "o método dos geómetras" (a
' ' Implica = implica contradição (como em qual- expressão tem aqui o sentido que lhe atribuem Spi-
quer outra parte). Nesta acepção, o termo será noza e Pascal) aqui invocado não é o que Descartes
empregado tanto nesta passagem como nas Respos- pratica, pois ele sempre fez reservas sobre a exposi-
tas. ção sintética euclidiana.
RESPOSTAS DO AUTOR
ÀS SEGUNDAS OUEÇÕES
RECOLHIDAS DE MUITOS TEÓLOGOS E FILÓSOFOS
PELO R. P. MERSENNE 13

Senhores, mas coisas que suponho não existirem


de modo algum, porque me são desco-
Foi com muita satisfação que li as nhecidas, não difiram efetivamente de
vossas observações sobre o meu peque- mim que conheço: nada sei a respeito,
no tratado da Filosofia primeira; pois não discuto agora sobre isso, etc.,
deram-me a conhecer a benevolência pelas quais pretendi expressamente
que tivestes para comigo, a vossa pie- advertir o leitor de que, naquele ponto,
dade para com Deus e o cuidado que não procurava ainda saber se o espírito
tomais para o avanço de sua glória; e era diferente do corpo1 4 , mas exami-
só posso me regozijar, não apenas por- nava somente aquelas de suas proprie-
que julgastes minhas razões dignas de dades de que posso ter claro e seguro
vossa censura, mas também porque conhecimento. E, posto que o observei
nada adiantais contra elas que não me aí muitas vezes, não posso admitir sem
pareça poder responder bastante co- distinção o que acrescentais em segui-
modamente. da: Que não sei, no entanto, o que é
uma coisa que pensa. Pois, embora
Em primeiro lugar, vós me advertis confesse que não sabia ainda se essa
para que eu me recorde: Que não foi coisa pensante não era diferente do
atualmente e em verdade, mas apenas corpo, ou se o era, não confesso com
por uma ficção do espírito, que rejeitei isso que não a conhecia de modo
as ideias ou os fantasmas dos corpos, algum, pois quem jamais conheceu de
para concluir que sou uma coisa pen- tal maneira alguma coisa que soubesse
sante, de medo que talvez eu considere nada haver nela exceto aquilo mesmo
que daí se segue que eu não sou senão que conhecia1 6 ? Mas pensamos co-
uma coisa que pensa. Mas já mostrei,
na minha Meditação Segunda, que me 14
lembrava suficientemente disso, visto Não se tratava de provar "naquele lugar" a dis-
tinção real entre a alma e o corpo; de resto, não
haver colocado aí essas palavras: Mas sabemos ainda se há corpos. Como os teólogos não
também pode acontecer que essas mes- prestaram atenção à ordem das razões, a primeira
objeção
1
deles não tem qualquer alcance.
* Ter certeza de que conheço uma coisa como
' 3 Observar-se-á nesse texto como e por que o diá- completa não significa ter certeza de que conheço
logo entre Descartes e os contraditares é impossí- completamente uma coisa. Quando concebo algo
vel; a diferença entre eles não é a de uma doutrina clara e distintamente, negando a seu respeito tudo o
para outra, mas de um pensamento retórico para mais, não estou certo por isso "que Deus nada pôs
um pensamento matemático, da dialética para o a mais nessa coisa além do que o meu entendimento
rigor. conhece". (Quartas Respostas.)
162 DESCAR.TES

nhecer tanto melhor uma coisa quanto mais útil para alcançar um firme e se-
mais particularidades dela conhece- guro conhecimento das coisas do que
mos; assim, temos mais conhecimento acostumar-se, antes de estabelecer
daqueles com quem conversamos algo, a duvidar de tudo e principal-
todos os dias do que daqueles de que mente das coisas corporais, embora
só conhecemos o nome ou o rosto; e houvesse visto há longo tempo muitos
todavia não julgamos que esses nos livros escritos pelos céticos e acadé-
sejam inteiramente desconhecidos; micos sobre a matéria e não fosse sem
nesse sentido penso ter suficientemente certo fastio que ruminava um alimento
demonstrado que o espírito, conside- tão comum, não pude todavia dispen-
rado sem as coisas que se costumam sar-me de lhe conceder uma Meditação
atribuir ao corpo, é mais conhecido inteira; e gostaria que os leitores
que o corpo considerado sem o espíri- empregassem não apenas o pouco
to. E é tudo o que pretendia provar
tempo necessário para lê-la, mas al-
nessa Meditação Segunda.
guns meses, ou ao menos algumas
Mas bem vejo o que pretendeis semanas, em considerar as coisas de
dizer, a saber, que, havendo eu escrito que ela trata, antes de passar além;
apenas seis Meditações sobre a Filoso- pois assim não duvido que aufiram
fia primeira, os leitores se espantarão lucro bem melhor da leitura do restan-
de que, nas duas primeiras, não con- te.
clua nada mais senão o que acabo de Ademais, por não termos tido até
declarar nesse instante, e pôr isso hão agora quaisquer ideias das coisas per-
de achá-las demasiado estéreis e indig- tencentes ao espírito que não fossem
nas de terem sido trazidas à luz1 6 . A muito confusas e misturadas às ideias
isso respondo somente não temer que das coisas sensíveis, e por ter sido esta
aqueles que houverem lido com discer- a primeira e principal razão pela qual
nimento o restante do que escrevi te- não se pôde entender assaz claramente
nham ocasião de suspeitar que eu haja nenhuma das coisas que se diziam de
malogrado no trato da matéria; mas Deus e da alma, pensei que não faria
que me pareceu muito razoável que as pouco se mostrasse como é preciso dis-
coisas que exigem particular atenção, e tinguir as propriedades ou qualidades
devem ser consideradas separadamente do espírito das propriedades ou quali-
das outras, fossem postas em Medita- dades do corpo, e como é preciso
ções separadas1 7 . reconhecê-las; pois, embora muitos já
Eis por que, não conhecendo nada tenham dito que, para bem entender as
coisas imateriais ou metafísicas, é
16
"Isto poderia ser dito em quatro palavras e esta- necessário distanciar o nosso espírito
ríamos todos de acordo. Se eu devesse gastar tantas dos sentidos, não obstante ninguém,
palavras e tempo para aprender uma coisa de tão
pouca importância, teria dificuldade de me resignar que eu saiba, mostrou ainda por que
a isso", é o que Descartes faz dizer a seu adversário meio é possível realizá-lo. Ora, o
no diálogo La Recherche de la Vérité. Kant terá de verdadeiro, e a meu juízo, o único meio
defender-se da mesma censura e fará muitas vezes
observar que é preciso distinguir entre o tema da para isso está contido na minha Medi-
finitude de nosso conhecimento, lugar-comum da tação Segunda 18 ; mas é de tal ordem
Metafísica, e a demonstração e determinação preci-
sa
17
dos limites de nosso conhecimento.
18
Cf. Cartas, a Mersenne, de 24 de dezembro de Este "único meio" é "o método de segregação"
1640, sobre a diferença essencial entre a ordem das (Guéroult, t. I, 69): não posso me conceber clara e
matérias e a ordem das razões: "Não intento abso- distintamente senão excluindo tudo de mim salvo o
lutamente dizer em um mesmo lugar tudo quanto pensamento (distinção real), não posso conceber as
pertence a uma matéria, porque me seria impossível faculdades não intelectuais de meu espírito sem
prová-lo efetivamente..." incluir nelas o pensamento (distinção modal).
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 163

que não basta tê-lo encarado uma vez, dar algum. Pois, o que direis vós? Que
cumpre examiná-lo amiúde e conside- essas coisas são realmente distintas,
rá-lo durante muito tempo, a fim de podendo cada qual existir sem a outra?
que o hábito de confundir as coisas Mas eu tornaria a perguntar-vos de
intelectuais com as corporais, que se onde sabeis que uma coisa pode existir
enraizou em nós no curso de toda a sem a outra. Pois, para que isso consti-
nossa vida, possa ser expungido por tua um signo de distinção, é necessário
um hábito contrário, o de distingui-las, que seja conhecido.
adquirido pelo exercício de alguns Alegareis talvez que os sentidos vo-
dias. E isso me pareceu uma causa lo fazem conhecer, por que vedes uma
bastante justa para que não versasse coisa na ausência de outra, ou porque
outra matéria na Meditação Segunda. a tocais, etc. Mas a fé dos sentidos é
Perguntais aqui como demonstro mais incerta que a do entendimento; e
que o corpo não pode pensar; mas per- pode acontecer de muitas maneiras que
doai-me se respondo que ainda não dei uma só e mesma coisa se apresente a
lugar a tal questão, tendo apenas nossos sentidos sob diversas formas,
começado a tratá-la na Meditação ou em diversos lugares e maneiras,
Sexta, pelas seguintes palavras: É sufi- sendo assim tomada por duas. E enfim,
ciente que eu possa clara e distinta- se vos recordais do que foi dito da cera
mente conceber uma coisa sem outra, ao termo da Meditação Segunda, sa-
para ser certo que uma é distinta ou beis que os corpos mesmos não são
diferente da outra, etc. E pouco depois: propriamente conhecidos pelos senti-
Ainda que eu tenha um corpo que me dos, mas só pelo entendimento; de tal
seja mui estreitamente ligado, no en- modo que sentir uma coisa sem uma
tanto, porque, de um lado, possuo uma outra nada é senão ter a ideia de uma
ideia clara e distinta de mim próprio, coisa, e entender que essa ideia não é a
na medida em que sou apenas uma mesma que a ideia de uma outra: ora,
coisa que pensa, e não extensa, e que, isso só é cognoscível pelo fato de que
de outro, possuo uma ideia clara e dis- uma coisa é concebida sem a outra; o
tinta do corpo, na medida em que é que não pode ser certamente conheci-
apenas uma coisa extensa, e que não do, se não se tem a ideia clara e dis-
pensa, é certo que eu, isto é, meu espí- tinta dessas duas coisas: e assim esse
rito, ou minha alma, pela qual sou o signo de real distinção deve reduzir-se
que sou, é inteira e verdadeiramente ao meu para tornar-se certo.
distinta de meu corpo, e que pode ser Porque, se há os que negam haver
ou existir sem ele. Ao que é fácil adi- ideias distintas do espírito e do corpo,
cionar: Tudo o que pode pensar é espí- nada posso fazer, exceto pedir-lhes que
rito, ou se chama espírito. Mas como o considerem assaz atentamente as coi-
corpo e o espírito são realmente distin- sas contidas nessa Meditação Segunda,
tos, nenhum corpo é espírito. Logo, ne- e notem que a opinião, por eles adota-
nhum corpo pode pensar. E certamente da, de que as partes do cérebro concor-
nada vejo nisso que possais negar; pois rem com o espírito para formar nossos
negareis vós que basta concebermos pensamentos não se baseia em nenhu-
claramente uma coisa sem outra, para ma razão positiva, mas apenas em que
sabermos que são realmente distintas? jamais experimentaram ter existido
Dai-nos, portanto, algum signo mais sem corpo, e que com muita frequência
certo da distinção real, se é que se pode foram impedidos por ele em suas
164 DESCARTES

operações 19 ; e isso é o mesmo que se logo direi mais amplamente, é mani-


alguém, pelo fato de levar desde a festa pela luz natural 20 .
infância ferros nos pés, julgasse que A isso acrescento que tudo quanto
tais ferros constituíam parte de seu objetais aqui acerca das moscas, sendo
corpo, e lhe eram necessários para tirado da consideração das coisas
andar. materiais, não pode vir ao espírito
Em segundo lugar, quando dizeis: daqueles que, seguindo a ordem de mi-
Que temos em nós próprios um funda- nhas Meditações, desviam seus pensa-
mento suficiente para formar a ideia de mentos das coisas sensíveis, para co-
Deus, nada dizeis em contrário à meçar a filosofar.
minha opinião. Pois eu mesmo afirmei
Não me parece tampouco que pro-
em termos expressos, ao fim da Medi-
vais algo contra mim, afirmando que a
tação Terceira: Que esta ideia nasceu
ideia de Deus que está em nós é apenas
comigo, e ela não me vem de outra
um ser de razão. Pois isso não é verda-
parte senão de mim mesmo. Confesso
de, se por um ser de razão se com-
também que poderíamos formá-la, em-
preende uma coisa que não existe, mas
bora não soubéssemos que há um
somente se todas as operações do
soberano ser, mas não se efetivamente
entendimento são tomadas por seres de
não existisse um ente assim; pois, ao
razão, isto é, por seres que partem da
invés, adverti que toda força de meu
razão; nesse sentido, todo esse mundo
argumento consiste em que não pode-
pode também chamar-se um ser de
ria ocorrer que a faculdade deformar
razão divina, isto é, um ser criado por
essa ideia existisse em mim, se eu não
um simples ato do entendimento divi-
tivesse sido criado por Deus.
no. E já adverti suficientemente, em
E o que dizeis das moscas, das plan-
vários lugares, que falava apenas da
tas, etc., não prova, de maneira algu-
perfeição ou realidade objetiva dessa
ma, que algum grau de perfeição possa
ideia de Deus, a qual não requer menos
estar num efeito, não tendo estado
uma causa, onde esteja contido de fato
antes na causa. Pois é certo não haver
tudo o que não está contido nela senão
perfeição nos animais destituídos de
objetivamente ou por representação,
razão que não se encontre também nos
do que a requer o artifício objetivo ou
corpos inanimados, ou, se há alguma
representado, existente na ideia que
perfeição, esta lhes provém de outra
qualquer artesão tem de uma máquina
parte, não sendo o sol, a chuva e a
muito artificial.
terra as causas totais desses animais. E
seria algo bem afastado da razão se E por certo não vejo como se possa
alguém, pelo simples fato de não acrescentar algo para explicar mais
conhecer a causa que concorra para a claramente que esta ideia não pode
geração de uma mosca e que possua estar em nós, se um soberano ser não
tantos graus de perfeição quantos há existe, a menos que o leitor, notando
numa mosca, não estando todavia se- mais de perto as coisas que já escrevi,
guro de que haja outras além das que
20
conhece, aproveitasse a ocasião para Tanta perfeição há na coisa quanto há pelo
menos na causa: tal é o princípio "manifesto pela
duvidar de uma coisa, a qual, como luz natural". Contra este princípio, os contraditores
não invocam sequer uma verdade de experiência,
porém uma verossimilhança. Com efeito, no caso
presente, não têm eles certeza de que não haja ou-
1
'A objeção tirada de um dado de fato antropo- tras causas da geração, além das causas aparentes
lógico, não vale contra um dado de fato eidètico. que alegam.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 165

se livre a si mesmo dos prejuízos que lhes prestar grande atenção. Ora, de
lhe ofuscam talvez a luz natural, e se tudo isso, conclui-se mui manifesta-
acostume a dar crédito às primeiras mente que Deus existe 21 . E todavia,
noções, cujos conhecimentos são tão em favor daqueles cuja luz natural é
verdadeiros e tão evidentes, como nada tão fraca, que não vêem que constitui
mais pode sê-lo, de preferência às opi- uma primeira noção que toda a perfei-
niões obscuras e falsas, mas que um ção que está objetivamente numa ideia
longo uso gravou profundamente em deve estar realmente em alguma de
nossos espíritos. suas causas, ainda a demonstrei de
Pois que nada exista em um efeito maneira fácil de conceber, mostrando
que não tenha existido de forma seme- que o espírito que tem esta ideia não
pode existir por si próprio; e, portanto,
lhante ou mais excelente na causa é
não vejo o que podeis desejar mais
uma primeira noção, e tão evidente,
para me dardes as mãos, como haveis
que não há nada mais claro; e esta
prometido.
outra noção comum, que de nada nada
se faz, a compreende em si, porque, se Não vejo tampouco que tenhais pro-
se concorda que exista algo no efeito vado algo contra mim, dizendo que tal-
que não existiu na sua causa, cumpre vez eu tenha recebido a ideia que me
concordar também que isso procede do representa Deus dos pensamentos que
nada; e se é evidente que o nada não concebi anteriormente, dos ensina-
pode ser a causa de algo, é somente mentos dos livros, dos discursos de
porque, nesta causa, não haveria a meus amigos, etc., e não somente de
mesma coisa do que no efeito. meu espírito. Pois meu argumento terá
sempre a mesma força, se, dirigindo-
Constitui também uma primeira me àqueles de quem se diz que eu a
noção que toda a realidade, ou toda a recebi, eu lhes perguntar se a têm por
perfeição, que só está objetivamente si mesmos, ou por outrem, em vez de
nas ideias, deve estar formal ou emi- perguntá-lo a mim próprio; e eu con-
nentemente nas suas causas; e toda cluirei sempre que este outro é Deus,
opinião que jamais nutrimos sobre a de quem ela é primeiramente derivada.
existência das coisas fora de nós
Quanto ao que acrescentais neste
apóia-se tão-somente nela. Pois de
ponto, de que ela pode ser formada da
onde nos poderia advir a suspeita de
consideração das coisas corporais, não
que existissem, se não do simples fato
me parece mais verossímil do que se
de suas ideias virem pelos sentidos disserdes que não dispomos de qual-
ferir nosso espírito? quer faculdade auditiva, mas que, pela
Ora, que há em nós alguma ideia de simples visão das cores, chegamos ao
um ente soberanamente poderoso e conhecimento dos sons. Pois pode-se
perfeito, e também que a realidade afirmar que há mais analogia ou rela-
objetiva desta ideia não se encontra em ção entre as cores e os sons do que
nós, nem formal, nem eminentemente, entre as coisas corporais e Deus. E
isto tornar-se-á manifesto aos que pen- quando pedis que eu adicione alguma
sarem seriamente no assunto, e quise-
rem dar-se ao trabalho de meditá-lo 21
Toda essa página é menos uma resposta do que
comigo; mas não poderia enfiá-lo à uma retomada da primeira prova pelos efeitos cujas
força no espírito dos que lerem as mi- articulações Descartes se limita a pôr em evidência
nhas Meditações apenas como um (localização do problema, axiomas, raciocínio por
exclusão). O que mais responder aos que não soube-
romance, para se desenfadar, e sem ram situar-se no plano da "luz natural"?
166 DESCARTES

coisa que nos eleve até o conhecimento as de um conhecimento sem fim, de


do ser imaterial ou espiritual, o melhor uma potência, de um número, de um
que posso fazer é remeter-vos à minha comprimento, etc., que também são
Meditação Segunda, a fim de ao menos sem fim, há algumas que se acham
saberdes que ela não é totalmente inú- contidas formalmente na ideia que
til; pois o que poderia fazer eu aqui temos de Deus, como o conhecimento
com um ou dois períodos, se nada con- e a potência, e outras que aí se encon-
segui adiantar com um longo discurso tram apenas eminentemente, como o
preparado unicamente para tal assun- número e o comprimento2 2 ; o que por
to, e ao qual me parece não haver dis- certo não seria assim, se tal ideia não
pensado menos diligência do que a fosse outra coisa em nós senão uma
qualquer outro escrito por mim publi- ficção.
cado? E ela não seria tampouco concebida
E ainda que esta Meditação haja tão exatamente da mesma maneira por
tratado somente do espírito humano, todo o mundo; pois é notável que
nem por isso é menos útil para explicar todos os metafísicos concordem unani-
a diferença que há entre a natureza di- memente na descrição dos atributos de
vina e a das coisas materiais. Pois, na Deus (ao menos dos que a simples
realidade, quero confessar aqui franca- razão humana pode conhecer), de tal
mente que a ideia que temos, por exem- sorte que não há coisa física nem sensí-
plo, do entendimento divino não me vel, nada de que tenhamos uma ideia
parece diferir da que temos de nosso tão expressa e tão palpável, a respeito
próprio entendimento, senão apenas de cuja natureza não haja entre os filó-
como a ideia de um número infinito di- sofos maior diversidade de opiniões,
fere da do número binário ou do terná- do que se verifica no tocante à de
rio; e acontece o mesmo com todos os Deus.
atributos de Deus, de que reconhe- E, indubitavelmente, os homens ja-
cemos em nós algum vestígio. mais poderiam distanciar-se do verda-
deiro conhecimento desta natureza di-
Mas, além disso, concebemos em
vina, se quisessem somente voltar a
Deus uma imensidade, simplicidade, atenção para a ideia que têm do ser
ou unidade absoluta, que abrange e soberanamente perfeito 23 . Mas aque-
contém todos os seus outros atributos,
e da qual não encontramos em nós, ou 22
Sobre a recusa de conceder "verdadeira exten-
alhures, nenhum exemplo; mas ela é são" a Deus e a "toda substância que não é corpo",
(assim como já disse antes) como que a cf.Cartas, a Morus, de 5 de fevereiro de 1649. "Eu
marca do obreiro impressa em sua afirmo que não há extensão a não ser nas coisas que
caem sob a imaginação, como dotadas de partes
obra. E, por seu intermédio, sabemos distintas umas das outras, e que são de uma gran-
que nenhuma das coisas que concebe- deza e de uma figura determinadas, embora chame-
mos também outras coisas extensas, mas somente
mos estar em Deus e em nós, e que por analogia."
consideramos nele por partes e como 23
Cf. Cartas, a Mersenne, de julho de 1641: "É
se fossem distintas, por causa da fra- crível que ele não tenha conseguido compreender,
queza de nosso entendimento, e que como afirma, o que eu entendo pela ideia de
Deus. . . visto que não entendo por ela outra coisa
experimentamos como tais em nós, exceto o que ele próprio deve necessariamente ter
não convém a Deus e a nós na forma compreendido quando vos escreveu que não a
entendia de modo algum?... De qualquer maneira
denominada unívoca nas Escolas. que concebamos (Deus), temos uma ideia dele,
Assim também sabemos que, das mui- posto que nada poderíamos exprimir por nossas
tas coisas particulares que não têm palavras, quando entendemos o que dizemos, sem
que daí mesmo seja certo que temos em nós a ideia
fim, cujas ideias possuímos, tais como da coisa que é significada por nossas palavras".
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 167

les que misturam a esta algumas outras pode ser concebida pelo exclusivo
ideias compõem por tal meio um Deus entendimento e que, de fato, não é
quimérico em cuja natureza existem outra coisa senão aquilo que ele nos
coisas que se contrariam; e, após tê-lo faz conhecer, seja pela primeira, seja
assim composto, não é de espantar que pela segunda, seja pela terceira de suas
neguem que tal Deus, que lhes é repre- operações. E pretendo manter que, do
sentado por uma falsa ideia, existe. simples fato de alguma perfeição, que
Assim, quando vós falais aqui de um está acima de mim, tornar-se o objeto
ser corporal mui perfeito, se tomais a de meu entendimento, de qualquer
denominação mui perfeito de modo forma que se lhe apresente — por
absoluto, de maneira que entendais que exemplo, do simples fato de eu perce-
o corpo é um ser onde se encontram ber que nunca posso, enumerando,
todas as perfeições, dizeis coisas que se chegar ao maior de todos os números,
contrariam2 4 , posto que a natureza do e daí eu conhecer que existe algo, em
corpo encerra muitas imperfeições, por matéria de números, que ultrapassa
exemplo, a que o corpo seja divisível minhas forças —, posso concluir ne-
em partes, que cada uma de suas par- cessariamente não que existe na verda-
tes não seja a outra, e outras semelhan- de um número infinito, nem tampouco
tes; pois é algo evidente por si que que sua existência implica contradi-
constitui maior perfeição não poder ser ção, como dizeis, mas que este poder
dividido do que poder sê-lo. Pois se que tenho de compreender que há sem-
entendeis apenas o que é mui perfeito pre alguma coisa a mais a conceber no
no género do corpo, isto não é de maior dos números, que eu jamais
modo algum o verdadeiro Deus. posso conceber, não provém de mim
O que acrescentais da ideia de um mesmo, e que eu o recebi de algum
anjo, o qual é mais perfeito do que nós, outro ser que é mais perfeito do que
a saber, que não é necessário que tenha sou.
sido posta em nós por um anjo, estou E importa muito pouco que se dê o
facilmente de acordo; pois eu próprio nome de ideia a esse conceito de um
declarei, na Meditação Terceira, que número indefinido, ou que não lho
ela pode compor-se das ideias que dêem. Mas, para entender qual é esse
temos de Deus e do homem. E isso não ente mais perfeito do que eu e saber se
me é de forma alguma, contrário. não é esse mesmo número, cujo fim
Quanto aos que negam possuir em si não posso encontrar, que é realmente
a ideia de Deus e em seu lugar forjam existente e infinito, ou se é outra coisa
algum ídolo, etc., esses, digo eu, negam qualquer, cumpre considerar todas as
o nome e concedem a coisa. Pois certa- outras perfeições, as quais, além do
mente não penso que tal ideia seja da poder de me dar esta ideia, podem exis-
mesma natureza que as imagens das tir na mesma coisa em que existe este
coisas materiais pintadas na fantasia; poder; e assim verificamos que esta
mas, ao contrário, creio que ela só coisa é Deus.
Enfim, quando Deus é dito inconce-
24
"O ser corporal mui perfeito" é uma expressão bível, por isso se entende uma plena e
contraditória se referirmos "corporal" à sua defini- inteira concepção, que compreende e
ção cartesiana (extensão divisível); mas não, se
compreendermos apenas por corporal uma "subs- abrange perfeitamente tudo quanto há
tância sensível", como procedera os teólogos. As nele, e não essa concepção medíocre e
próprias palavras não têm o mesmo sentido. "Não
se define bem o corpo como uma substância sensí- imperfeita que há em nós, a qual no
vel." (A Morus, 5 de fevereiro de 1649.) entanto basta para conhecer que ele
168 DESCARTES
existe. E nada provais contra mim, ensinada por ele sentir em si próprio
dizendo que a ideia da unidade de que não pode se dar que ele pense, caso
todas as perfeições que há em Deus é não exista. Pois é próprio de nosso
formada da mesma maneira que a uni- espírito formar as proposições gerais
dade genérica e a dos outros univer- pelo conhecimento das particulares.
sais. Mas, não obstante, ela é muito Ora, que um ateu possa conhecer
diferente; pois denota uma particular e claramente que os três ângulos de um
positiva perfeição em Deus, ao passo triângulo são iguais a dois retos, não o
que a unidade genérica nada acres- nego2 6 ; mas sustento apenas que não
centa de real à natureza de cada conhece isso por uma ciência verda-
indivíduo. deira e certa, porque todo conheci-
Em terceiro lugar, onde afirmei que mento que se pode tornar duvidoso
nada podemos saber de certo, se não não deve ser denominado ciência, e
conhecermos primeiramente que Deus uma vez que se supõe tratar-se de um
existe, afirmei, em termos expressos, ateu, não pode ele ter certeza de não
que falava apenas da ciência dessas ser enganado nas coisas que lhe pare-
conclusões, cuja lembrança nos pode cem muito evidentes, como já foi mos-
retornar ao espírito, quando não mais trado mais acima; e, embora essa dúvi-
pensamos nas razões de onde as tira- da talvez não lhe ocorra ao
mos2 5 . Pois o conhecimento dos pri- pensamento, pode no entanto ocorrer -
meiros princípios ou axiomas não cos- lhe, se a examinar, ou se lhe for pro-
tuma ser chamado ciência pelos
dialéticos. Mas, quando percebemos posta por outrem; e nunca estará fora
que somos coisas pensantes, trata-se de do perigo de concebê-la, caso não
uma primeira noção que não é extraída reconheça primeiramente um Deus.
de nenhum silogismo; e quando al- E não importa que talvez julgue
guém diz: Penso, logo sou, ou existo, haver demonstrações para provar que
ele não conclui sua existência de seu Deus não existe; pois, como essas pre-
pensamento como pela força de algum tensas demonstrações são falsas, é
silogismo, mas como uma coisa conhe- sempre possível dar-lhe a conhecer a
cida por si; ele a vê por simples inspe- sua falsidade; e levá-lo, então, a mudar
ção do espírito. Como se evidencia do de opinião. O que na verdade não será
fato de que, se a deduzisse por meio do difícil, se por todas as razões ele apre-
silogismo, deveria antes conhecer esta sentar somente a que acrescentais aqui,
premissa maior: Tudo o que pensa é ou a saber, que o infinito em todo género
existe. Mas, ao contrário, esta lhe é de perfeição exclui toda outra espécie
de ser, etc.
2 5
A Meditação Quinta fala da ciência das verda- Pois, primeiramente, se se lhe per-
des mediatas. Esta é que é garantida por Deus, de
sorte que não devo efetuar de novo a demonstração gunta de onde ficou sabendo que esta
para obter novamente a certeza. A questão dessa exclusão de todos os outros seres per-
garantia não se coloca, portanto, para os per se nota tence à natureza do infinito, nada terá
conhecidos intuitivamente. Por isso poderá Descar-
tes escrever, nas Quartas Respostas, referindo-se a para responder pertinentemente, posto
esta passagem: "Fiz ver bastante claramente... que, .pelo nome infinito, não se costu-
que não incidi na falta que se chama circulo", asse-
gurando através de Deus as coisas conhecidas
2
clara e distintivamente e a existência de Deus atra- * Não se trata agora das garantias de minha ciên-
vés do pensamento claro e distinto. Pois distingui cia, mas das próprias verdades.. Descartes não
"as coisas que concebemos de fato mui claramente negou que um ateu pudesse ser matemático, mas
das que nos recordamos haver outrora concebido que pudesse manter a certeza de que as verdades
mui claramente". evidentes são verdadeiras.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 169

ma entender aquilo que exclui a exis- parece que lhe são atribuídas algumas
tência das coisas finitas, e que ele nada paixões humanas.
pode saber da natureza de uma coisa Pois todos conhecem suficiente-
que ele pensa não ser absolutamente mente a distinção que há entre essas
nada, e por conseguinte não ter nenhu- maneiras de falar de Deus, de que a
ma natureza, exceto a que está contida Escritura se serve comumente, que se
na simples e ordinária significação do acomodam à capacidade do vulgo e
nome dessa coisa2 7. contêm de fato alguma verdade, mas
Ademais, para que serviria o infinito apenas na medida em que esta se rela-
poder desse infinito imaginário, se não ciona aos homens, e as que expressam
pudesse jamais criar algo? E enfim, uma verdade mais simples e mais pura
por experimentarmos haver em nós e que não muda de natureza, embora
mesmos certo poder de pensar, conce- não se lhes relacione de modo
bemos facilmente que tal poder possa algum29; destas é que cada qual deve
existir em alguém mais, e até maior do usar ao filosofar e foi delas que preci-
que em nós; mas, ainda que pensemos sei utilizar-me principalmente nas mi-
que aquele cresce ao infinito, não nhas Meditações, visto que mesmo aí
tememos por isso que o nosso se torne eu não supunha ainda que algum
menor. O mesmo sucede com todos os homem me fosse conhecido, e não me
outros atributos de Deus, inclusive o considerava tampouco composto de
do poder de produzir alguns efeitos corpo e espírito, mas um espírito
fora de si, desde que suponhamos que somente.
nada há em nós sem que esteja subme-
tido à vontade de Deus; portanto, é De onde se torna evidente que não
possível entendê-lo como totalmente falei nesse ponto da mentira que se
infinito sem qualquer exclusão das coi- exprime por palavras, mas apenas da
sas criadas28. malícia interna e formal contida no
Em quarto lugar, quando digo que engano: se bem que, no entanto, essas
Deus não pode mentir, nem ser enga- palavras que citais do profeta: Ainda
nador, penso convir com todos os teó- quarenta dias, e Nínive será subver-
logos que alguma vez existiram e hão tida, não constituam mesmo uma men-
de existir no futuro. E tudo quanto ale- tira verbal, porém uma simples amea-
gais em contrário não possui mais ça, cuja ocorrência dependia de uma
força do que se, tendo negado que condição; e quando é dito que Deus
Deus se encoleriza, ou que esteja sujei- empederniu o coração do Faraó, ou
to às outras paixões da alma, me obje- algo semelhante, não cumpre pensar
tardes as passagens da Escritura onde que o tenha feito positivamente, mas
apenas negativamente, a saber, não
2 7
Passamos agora à prova da não existência de
dando ao Faraó uma graça eficaz para
Deus alegada pelos teólogos. Em primeiro lugar, a que se convertesse.
definição do infinito é fabricada sob medida e tanto
mais arbitrariamente quanto o ateu se limita a tor- Não desejaria, apesar de tudo, con-
nar explícito um nome, porquanto recusa a colocar denar aqueles que afirmam que Deus
uma essência. pode proferir por seus profetas alguma
28
Em segundo lugar, não se pode dizer que o infi-
nito seja exclusivo da pluralidade das coisas cria- mentira verbal, tais como o são aque-
das. Notar-se-á o caràter spinozista do raciocínio las de que se servem os médicos quan-
do ateu. A pluralidade existe, diz ele, logo o infinito
não existe. O infinito existe, logo é preciso que a
2
pluralidade seja ilusória, dirá Spinoza. As conclu- * Distinção, que será retomada por Spinoza, entre
sões são inversas, mas a incompatibilidade é a a linguagem antropomórfica das Escrituras e a ver-
mesma. dade filosófica que ela reveste.
170 DESCARTES

do iludem seus doentes para curá-los, E assim vedes que, depois de se


isto é, que fosse isenta de toda malícia conhecer que Deus existe, é mister
que se encontra comumente no engano. supor que seja enganador, se quiser-
Mas, bem ao contrário, vemos às vezes mos pôr em dúvida as coisas que con-
que somos realmente enganados por cebemos clara e distintamente; e, como
este instinto natural que nos foi dado isso não se pode sequer supor, deve-se
por Deus, como quando um hidrópico necessariamente admitir tais coisas
sente sede; pois então é realmente inci- como mui verdadeiras e mui certas 30 .
tado a beber pela natureza que lhe foi Mas, posto que observo a esta altura
concedida por Deus para a conserva- que ainda vos deteis nas dúvidas que
ção do corpo, se bem que, não obstan- propus na minha Primeira Meditação e
te, essa natureza o engane, pois que o que pensei hayer solucionado assaz
beber lhe deve ser prejudicial; mas exatamente nas seguintes, explicarei
expliquei, na minha Meditação Sexta, aqui de novo o fundamento em que me
como isso é compatível com a vontade parece possível apoiar toda a certeza
e a verdade de Deus. humana.
Mas nas coisas que não podem Primeiramente, tão logo pensamos
assim explicar-se, a saber, nos nossos claramente qualquer verdade somos
juízos muito claros e muito exatos, os naturalmente levados a crer nela. E, se
quais, se fossem falsos, não seriam tal crença for tão forte que jamais pos-
corrigíveis por outros mais claros, nem samos alimentar qualquer razão de
mediante qualquer outra faculdade duvidar daquilo que acreditamos desta
natural, sustento ousadamente que não forma, nada mais há que procurar:
podemos ser enganados. Pois, sendo temos, no tocante a isso, toda a certeza
Deus o soberano ser, cumpre que seja que se possa razoavelmente desejar.
necessariamente também o soberano Pois, o que nos importa, se talvez
bem e a soberana verdade, e, portanto, alguém fingir que mesmo aquilo, de
repugna que venha dele qualquer coisa cuja verdade nos sentimos tão forte-
que tenda positivamente para a falsida- mente persuadidos, parece falso aos
de. Mas, como em nós nada pode olhos de Deus ou dos anjos, e que, por-
haver de real que ele não nos tenha tanto, em termos absolutos, é falso?
dado (como foi demonstrado na prova Por que devemos ficar inquietos com
de sua existência), e como temos em essa falsidade absoluta, se não cremos
nós uma faculdade real para conhecer nela de modo algum e se dela não
o verdadeiro e distingui-lo do falso temos a menor suspeita? Pois pressu-
(como é possível provar pelo simples pomos uma crença ou uma persuasão
fato de possuirmos em nós as ideias do tão firme que não possa ser suprimida;
verdadeiro e do falso), se esta facul- a qual, por conseguinte, é em tudo o
dade não tendesse ao verdadeiro, ao mesmo que uma perfeitíssima certeza.
menos quando dela nos servimos como Mas é realmente dubitável que tenha-
se deve (isto é, quando damos nosso mos qualquer certeza dessa natureza,
consenso apenas às coisas que conce- ou qualquer persuasão firme e imutá-
bemos clara e distintamente, pois não vel.
se pode supor outro bom uso dessa E, por certo, é patente que não se
faculdade), não seria sem razão que
Deus, que no-la concedeu, seria, tido 30
O papel "redutor" da dúvida é aqui claramente
por enganador. expresso.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 171

possa tê-la das coisas obscuras e con- a tomaram dos sentidos ou de algum
fusas, por pouca obscuridade ou con- falso preconceito. De nada vale, ou-
fusão que nelas observemos; pois tal trossim, que alguém suponha que tais
obscuridade, qualquer que seja, é coisas parecem falsas a Deus ou aos
causa assaz suficiente para nos fazer anjos, porque a evidência de nossa per-
duvidar dessas coisas. Tampouco po- cepção não permitirá que ouçamos a
demos tê-la das coisas percebidas ape- quem o tenha suposto e nos queira
nas pelos sentidos, não importa a cla- persuadir 32 .
reza que ocorra em sua percepção, Há outras coisas que nosso entendi-
porque muitas vezes já notamos que no mento também concebe muito clara-
sentido pode haver erro, como quando mente, quando observamos de perto as
um hidrópico sente sede, ou a neve pa- razões de que depende seu conheci-
rece amarela a quem sofre de icterícia; mento; e, por isso, não podemos,
pois este último não a vê menos clara e então, duvidar dele. Mas, dado que
distintamente desta forma do que nós a podemos esquecer as razões, e no
quem ela parece branca. Resta, portan- entanto recordar as conclusões daí
to, que, se podemos tê-la, é somente extraídas, pergunta-se se é possível ter
das coisas que o espírito concebe clara uma firme e imutável persuasão sobre
e distintamente. essas conclusões, ao passo que nos
lembramos de que foram deduzidas de
Ora, entre tais coisas, algumas há princípios mui evidentes; pois esta
tão claras e ao mesmo tempo tão sim- lembrança deve pressupor-se para que
ples que nos é impossível pensar nelas possam chamar-se conclusões. E eu
sem que as julguemos verdadeiras: por respondo que só podem tê-la os que
exemplo, que existo quando penso, que conhecem de tal modo Deus a ponto
as coisas que foram alguma vez feitas de saberem que não pode acontecer
não podem não ter sido feitas e outras que a faculdade de entender, que lhes
semelhantes, das quais é manifesto que foi dada por ele, tenha por objeto outra
possuímos perfeita certeza. coisa se não a verdade; mas que os ou-
Pois não podemos duvidar dessas tros não a têm. E isso foi tão clara-
coisas sem pensar nelas; mas não mente explicado ao fim da Meditação
podemos jamais pensá-las sem acredi- Quinta que não penso dever aqui
tar que sejam verdadeiras, como acabo acrescentar-lhe algo.
de dizer; logo, não podemos duvidar Em quinto lugar, surpreendo-me de
delas sem as crermos verdadeiras, isto que negueis que a vontade corre o peri-
é, nunca podemos duvidar delas 31 . go de falhar, quando persegue e envol-
E de nada serve alegar que verifi- ve os conhecimentos obscuros e confu-
camos muitas vezes que pessoas se sos do entendimento. Pois, o que é que
enganavam em coisas que pensavam pode torná-la certa, se o que ela segue
ver mais claramente que o sol. Pois não é claramente conhecido? E qual
nunca vimos, nós nem ninguém, que foi o filósofo, ou o teólogo, ou o sim-
isso tenha acontecido aos que tiraram ples homem no uso da razão, que não
tão-só do entendimento toda a clareza haja alguma vez confessado que o peri-
de suas percepções, mas antes aos que
32
Os teólogos interpretaram a certeza como um
3
' Uma vez que atingi a certeza, sabendo que satis- estado psicológico entre outros. Para Descartes, o
fiz a suas condições, não mais posso duvidar diante termo é mais determinado: pensamento de um obje-
da evidência: a dúvida já não seria senão um artifí- to tal que, devido ao próprio fato de eu pensá-lo,
cio sem qualquer sentido. não posso duvidar de sua verdade.
172 DESCARTES

go de falhar a que nos expomos é tanto interior, pela qual, tendo Deus nos
menor quanto mais clara a coisa que aclarado sobrenaturalmente, possuí-
concebemos antes de lhe dar nosso mos confiança certa de que as coisas
consenso? E que pecam os que, sem propostas à nossa crença foram por ele
conhecimento de causa, pronunciam reveladas, e de que é inteiramente
algum julgamento? Ora, nenhuma con- impossível que ele seja mentiroso e nos
cepção é dita obscura ou confusa, ex- engane: e isso é mais seguro do que
ceto porque nela está contido algo que qualquer outra luz natural, e amiúde
não é conhecido. até mais evidente, por cauda da luz da
Portanto, aquilo que objetais no graça 3 3 .
tocante àfé que se deve abraçar, não E por certo os turcos e os outros
tem maior força contra mim do que infiéis, quando não abraçam a religião
contra todos os que alguma vez culti- cristã, não pecam por não quererem
varam a razão humana; e, a bem dizer, dar fé às coisas obscuras, como sendo
não tem força alguma contra ninguém. obscuras; mas pecam, ou porque resis-
Pois, embora se diga que a fé tem por tem à graça divina que os adverte
objeto coisas obscuras, não obstante interiormente, ou porque, pecando em
aquilo pelo qual cremos nela não é outras coisas, tornam-se indignos
obscuro; é mais claro do que qualquer dessa graça. E direi atrevidamente que
luz natural. Tanto mais quanto cumpre um infiel que, destituído de toda graça
distinguir entre a matéria, ou a coisa à sobrenatural e totalmente ignorante de
qual concedemos nossa crença, e a que as coisas que nós outros cristãos
razão formal que move nossa vontade acreditamos foram reveladas por
a concedê-la. Pois só nessa razão for- Deus, e, não obstante, atraído por al-
mal é que queremos que haja clareza e guns falsos raciocínios, se entregasse à
evidência. crença dessas mesmas coisas que lhe
Quanto à matéria, ninguém jamais fossem obscuras, não seria por isso
negou que pode ser obscura, e até fiel, mas antes pecaria porque não se
mesmo a própria obscuridade; pois, serviria como se deve de sua razão.
quando julgo que a obscuridade deve E penso que jamais qualquer teó-
ser subtraída de nossos pensamentos logo ortodoxo alimentou outros senti-
para poder dar-lhes nosso consenti- mentos a esse respeito; e também aque-
mento sem nenhum perigo de falhar, é les que lerem minhas Meditações não
a obscuridade mesma que me serve de terão motivo de crer que eu não haja
matéria para formar um juízo claro e conhecido esta luz sobrenatural, por-
distinto. quanto, na Quarta, em que busquei
Além disso, cabe notar que a clareza cuidadosamente a causa do erro ou fal-
ou a evidência pela qual nossa vontade sidade, declarei, em palavras expres-
pode ser incitada a crer é de duas espé- sas, que ela dispõe o interior de nosso
cies: uma que parte da luz natural, e pensamento a querer, e que, no entan-
outra que provém da graça divina. to, não diminui de modo algum a
Ora, conquanto se afirme comu- liberdade.
mente que a fé pertence às coisas obs-
curas, todavia isso se refere apenas à 33
A graça mesma é uma luz (sobrenatural e não
sua matéria e não à razão formal pela mais natural) que ilumina nossa vontade. Esta pas-
sagem mostra quanto importa distinguir entre a
qual cremos; pois, ao contrário, esta concepção clara e distinta das coisas e a redução
razão formal consiste em certa luz real a coisas claras e distintas.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 173

De resto, peço-vos aqui que lembreis que pretendeis, a premissa maior devia
de que, no tocante às coisas que a von- ser assim: Aquilo que concebemos
tade pode abranger, sempre estabeleci clara e distintamente pertencer à natu-
grande distinção entre a prática da reza de alguma coisa pode ser dito ou
vida e a contemplação da verdade. afirmado com verdade pertencer à
Pois, no que concerne à prática da natureza dessa coisa. E assim não con-
vida, tanto faz que eu'pense ser preciso teria senão uma inútil e supérflua repe-
seguir apenas as coisas que conhece- tição. Mas a premissa maior do meu
mos mui claramente, como, ao contrá- argumento foi a seguinte: Aquilo que
rio, que eu sustente que nem sempre se concebemos clara e distintamente per-
deve contar com o mais verossímil, tencer à natureza de alguma coisa
sendo preciso algumas vezes, entre pode ser dito ou afirmado com verdade
muitas coisas completamente desco- dessa coisa. Isto é, se ser animal per-
nhecidas e incertas, escolher uma e se tence à essência ou à natureza do
lhe apegar, e em seguida crer nela não homem, pode-se assegurar que o
menos firmemente, enquanto não vir- homem é animal; se ter os três ângulos
mos razões em contrário, do que se a iguais a dois retos pertence à natureza
tivéssemos escolhido por razões certas do triângulo retilíneo, pode-se assegu-
e mui evidentes, como já expliquei no rar que o triângulo retilíneo tem seus
Discurso do Método3 *. Mas, onde se três ângulos iguais a dois retos; se exis-
trata tão-somente da contemplação da tir pertence à natureza de Deus, pode-
verdade, quem jamais negou que é pre- se assegurar que Deus existe, etc. E a
ciso suspender o julgamento em rela- premissa menor foi a seguinte: Ora, é
ção às coisas obscuras e que não sejam certo que pertence à natureza de Deus
assaz distintamente conhecidas? Ora, existir. Daí é evidente que se deva con-
que em minhas Meditações só se veri- cluir como eu o fiz, a saber: Logo,
fica essa contemplação da verdade, pode-se com verdade assegurar, quan-
além de se reconhecer este fato bas- to a Deus, que ele existe; e não como
tante claramente por elas próprias, eu desejais: Logo, podemos assegurar
o declarei em palavras expressas no com verdade que pertence à natureza
fim da Primeira, ao dizer que nunca de Deus o existir.
seria demais duvidar, nem haveria Portanto, para usar da exceção que
demasiada desconfiança naquele apresentais em seguida, deveríeis negar
ponto, tanto mais que não me aplicava a premissa maior e dizer que aquilo
então às coisas concernentes à prática que concebemos clara e distintamente
da vida, mas apenas à busca da pertencer à natureza de alguma coisa
verdade. não pode por isso ser dito ou afirmado
Em sexto lugar, onde censurais a dessa coisa, a não ser que sua natureza
conclusão de um silogismo por mim seja possível, ou não repugne de modo
formulado, parece-me que vós próprios algum. Mas notai, peço-vos, a fraqueza
pecais na forma; pois, para concluir o dessa exceção. Pois, ou pelo termo
possível entendeis, como se faz ordina-
3
* Daí por que, contrariamente à Física e à Metafí- riamente, tudo o que não repugna ao
sica, a Moral deverá recorrer à noção do provável e pensamento humano, acepção em que
à experiência. "Reencontramos entre a Ciência e a
Sabedoria. . . esta separação à qual Descartes pare- é manifesto que a natureza de Deus, da
cia pôr fim e. . . que era uma das características forma como a descrevi, é possível, por-
dos moralistas da Renascença." (Guéroult, op. cit.,
II, 237.) que nada supus nela, exceto o que con-
174 DESCARTES

cebemos clara e distintamente dever menor, concerne apenas ao conceito da


pertencer-lhe, e assim não supus nada existência e da natureza de Deus,
que repugne ao pensamento ou ao con- como se manifesta do fato de que, se
ceito humano; ou então, supondes al- negarmos a maior, dever-se-á prová-la
guma outra possibilidade de parte do assim:
próprio objeto, a qual, se não concorda Se Deus não existe ainda, implica
com a precedente, nunca pode ser que existe, porque não se poderia con-
conhecida pelo entendimento humano; signar causa suficiente para produzi-
e, portanto, não possui maior força lo; mas não implica que existe, como
para nos obrigar a negar a natureza de foi acordado na menor; logo, etc.
Deus ou sua existência do que para E se negarmos a menor, dever-se-á
derrubar todas as outras coisas que prová-la assim:
caem sob o conhecimento dos ho- Não implica, de modo algum, esta
mens3 5 . Pois, pela mesma razão que se coisa em cujo conceito formal nada há
nega que a natureza de Deus é possí- que encerre contradição; mas, no con-
vel, ainda que não se encontre qual- ceito formal da existência ou da natu-
quer impossibilidade da parte do con- reza divina, nada há que encerre
ceito ou do pensamento, mas que, ao contradição; logo, etc. E assim a pala-
contrário, todas as coisas contidas vra implica é tomada em dois sentidos
neste conceito da natureza divina diversos.
sejam de tal modo conexas entre si que Pois pode acontecer que não se con-
nos pareça haver contradição em afir- ceba na própria coisa nada que impeça
mar a existência de alguma que não que ela possa existir, e no entanto se
pertença à natureza de Deus, poder- conceba algo da parte de sua causa
se-à negar também que seja possível que impeça que seja produzida.
que os três ângulos de um triangulo Ora, ainda que concebamos Deus só
sejam iguais a dois retos, ou que aque- mui imperfeitamente, isso não impede
le que pensa atualmente existe; e com a certeza de que sua natureza é possí-
maior razão ainda se poderá denegar vel, ou que ela não implica de modo
que haja algo de verdadeiro em todas algum; nem, outrossim, que não possa-
as coisas que percebemos pelos senti- mos assegurar com verdade que a exa-
dos; e assim todo o conhecimento hu- minamos assaz cuidadosamente e a
mano será derrubado, mas não o será conhecemos assaz claramente (a saber,
com qualquer razão ou fundamento. tanto quanto basta para conhecer que
ela é possível, e também que lhe per-
E pelo que toca a esse argumento tence a existência necessária). Pois
que comparais com o meu, a saber: Se toda a impossibilidade, ou, se me é per-
não implica que Deus seja, é certo que mitido servir-me aqui do termo da
ele existe; mas não implica de modo Escola, toda a implicação consiste
algum; logo, etc., materialmente é somente em nosso conceito ou pensa-
verdadeiro, mas formalmente constitui mento, que não pode conjuntar as
um sofisma. Pois, na premissa maior, o ideias que se contrariam umas às
termo implica concerne ao conceito da outras 3 6 ; e não pode consistir em qual-
36
causa pela qual Deus pode ser, e, na "Não há contradição nas coisas, mas apenas
nas ideias, porque são nossas ideias somente que
35 julgamos de maneira tal que se opõem entre si. Ora,
"Nós não podemos ter nenhum conhecimento
das coisas a não ser pelas ideias que concebemos a as coisas não se opõem entre si porque todas podem
seu respeito e, por conseguinte, não devemos julgá- existir. . . Sucede o contrário com as ideias, porque
las a não ser segundo estas ideias e até pensar que nelas julgamos coisas diferentes que, separada-
tudo quanto repugna estas ideias é absolutamente mente, não se contradizem, mas que nós julgamos
impossível e implica contradição." (Cartas, a de modo que as tornamos uma só. Assim nasce a
Gibieuf, 19 de janeiro de 1642.) contradição." (Col. com Burman, V, 161.)
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 175

quer coisa que esteja fora do entendi- corpo humano, na medida em que dife-
mento, porque, pelo próprio fato de re dos outros corpos, compõe-se so-
uma coisa estar fora do entendimento, mente de certa configuração de mem-
se torna manifesto que ela não implica bros, e outros acidentes semelhan-
de modo algum, mas que é possível. tes 3 8 ; e, enfim, que a morte do cor-
Ora, a impossibilidade com que nos po depende somente de alguma divi-
deparamos em nossos pensamentos são ou mudança de figura. Ora,
provém apenas de serem eles confusos não temos nenhum argumento, ou
e obscuros, e não pode haver nenhuma qualquer exemplo, que nos persuada de
impossibilidade nos que são claros e que a morte ou o aniquilamento de
distintos; por conseguinte, a fim de uma substância tal como é o espírito
podermos estar seguros de que conhe- deva decorrer de uma causa tão ligeira
cemos bastante a natureza de Deus como o é uma mudança de figura, que
para sabermos que não há qualquer não é senão um modo, e ainda um
repugnância em que ela exista, é sufi- modo, não do espírito, mas do corpo,
ciente que entendamos clara e distinta- que é realmente distinto do espírito. E
mente todas as coisas que percebemos não dispomos mesmo de qualquer
haver nela, embora tais coisas sejam argumento nem exemplo que nos possa
apenas em pequeno número em relação convencer de que há substâncias sujei-
às que não percebemos, posto que tas ao aniquilamento. O que basta para
estas também estejam nela; e que com concluir que o espírito, ou a alma do
isso notemos que a existência neces- homem, na medida em que isso pode
sária é uma das coisas que percebe- ser conhecido pela Filosofia natural, é
mos, assim, existir em Deus. imortal.
Em sétimo lugar, já dei a razão, no Mas caso se pergunte se Deus, por
resumo de minhas Meditações, pela seu absoluto poder, não determinou
qual nada disse aqui sobre a imortali- talvez que as almas humanas cessem
dade da alma3 7 ; já mostrei também de existir, ao mesmo tempo que são
mais acima como provara suficiente- destruídos os corpos a que estão uni-
mente a distinção que há entre o espí- das, só a Deus compete respondê-lo. E
rito e toda espécie de corpo. como agora ele nos revelou que isso
Quanto ao que acrescentais, que da nunca ocorrerá, não deve subsistir a
distinção da alma com o corpo não se respeito nenhuma dúvida.
segue que ela seja imortal, porque, ape- De resto, devo agradecer-vos muito
sar disso, se pode dizer que Deus afez por vos terdes dignado tão obsequiosa-
de tal natureza que sua duração finda mente, e com tanta franqueza, adver-
com a da vida do corpo, confesso que tir-me não só das coisas que vos pare-
nada tenho a responder; pois não ali- ceram dignas de explicação mas
mento tanta presunção a ponto de ten- também das dificuldades que me po-
tar determinar, pela força do racio- diam ser opostas pelos ateus, ou por
cínio humano, algo que depende alguns aborrecedores e maldizentes.
apenas da pura vontade de Deus. Pois, ainda que não veja nada, entre
O conhecimento natural nos ensina as coisas que me propusestes, que não
que o espírito é diferente do corpo, e houvesse de antemão rejeitado ou
que é uma substância; e também que o 38
A substância extensa é indestrutível, mas não as
substâncias corporais particulares; os corpos não
37
No resumo, nota Descartes que as Meditações são verdadeiras substâncias, como os espíritos, mas
permitem estabelecei que a morte da alma não apenas especificações da extensão. E isso é tão ver-
decorre da corrupção do corpo; mas uma demons- dade no tocante ao corpo humano (enformado por
tração da imortalidade da alma exigiria "a explica- uma alma) como em relação à máquina (do animal),
ção de toda a Física". apesar da diferença existente entre ambos.
176 DESCARTES

explicado em minhas Meditações — Sexta, e a omitir muitas coisas em todo


como, por exemplo, o que alegais esse tratado, porque pressupunham a
quanto às moscas produzidas pelo sol, explicação de muitas outras.
quanto aos canadenses, aos ninivitas, A maneira de demonstrar é dupla:
aos turcos e outras coisas parecidas, uma se faz pela análise ou resolu-
não pode vir ao espírito de quem, ção 3 9 , e a outra pela síntese ou
seguindo a ordem dessas Meditações, composição.
colocar à parte por algum tempo tudo A análise mostra o verdadeiro cami-
o que haja recebido dos sentidos para nho pelo qual uma coisa foi metodica-
cuidar do que lhe dita a mais pura e sã mente descoberta e revela como os
razão; daí por que pensava já ter rejei- efeitos dependem das causas; de sorte
tado todas essas coisas —, ainda, digo, que, se o leitor quiser segui-la e lançar
que assim seja, julgo, no entanto, que cuidadosamente os olhos sobre tudo o
tais objeções serão muito úteis a meu que contém, não entenderá menos
desígnio, posto que não espero contar perfeitamente a coisa assim demons-
com muitos leitores dispostos a dedi- trada e não a tornará menos sua do
car tanta atenção às coisas que escrevi, que se ele próprio a houvesse desco-
a ponto de, chegando ao fim, se recor- berto.
darem de tudo quanto leram anterior- Mas tal espécie de demonstração
mente; e os que o não fizerem cairão não é capaz de convencer os leitores
facilmente em dificuldades, às quais, teimosos ou pouco atentos: pois se se
como verão em seguida, eu teria satis- deixa escapar, sem reparar, a menor
feito por essa resposta, ou ao menos das coisas que ela propõe, a necessi-
aproveitarão o ensejo de examinar dade de suas conclusões não surgirá de
mais cuidadosamente a verdade. modo algum; e não se costuma expres-
No que concerne ao conselho que sar nela mui amplamente as coisas que
me dais, de dispor minhas razões são bastante claras por si mesmas, em-
segundo o método dos geómetras, a bora sejam comumente as que cumpre
fim de que de uma só vez os leitores tomar mais em conta 4 0 .
possam compreendê-las, dir-vos-ei A síntese, ao contrário, por um
aqui de que forma já tentei precedente- caminho todo diverso, e como que exa-
mente segui-lo, e como procurarei minando as causas por seus efeitos
fazê-lo ainda posteriormente. (embora a prova que contém seja
No modo de escrever dos geómetras, amiúde também dos efeitos pelas cau-
distingo duas coisas, a saber, a ordem sas) 4 1 , demonstra, na verdade, clara-
e a maneira de demonstrar. mente o que está contido em suas
conclusões, e serve-se de uma longa
A ordem consiste apenas em que as
coisas propostas primeiro devem ser 39
Cumpre distinguir a Análise como disciplina
conhecidas sem a ajuda das seguintes, (que, no Discurso, era posta ao mesmo nível que a
e que as seguintes devem ser dispostas Lógica e a Álgebra) e "a análise ou resolução": esta
é parte da solução que consiste, segundo os gregos,
de tal forma que sejam demonstradas suposto que o problema esteja resolvido e reduzido
só pelas coisas que as precedem. E cer- a contento de certas condições simples, em confron-
tamente empenhei-me, tanto quanto tar essas condições com as dos dados.
40
A análise oferece o risco de tornar o leitor desa-
pude, em seguir esta ordem em minhas tento à ordem e, em Metafísica, levá-lo a esquecer
Meditações. E foi o que me levou a não que se trata de demonstrações. Consulte-se a res-
tratar na Segunda da distinção entre o peito o prefácio de Louis Mayer, aos Princípios da
Filosofia de Descartes de Spinoza (Spinoza, Plêia-
espírito e o corpo, mas apenas na de, págs. 205-207).
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 177

série de definições, postulados, axio- dificuldade, exceto a de tirar bem as


mas, teoremas e problemas, para que, consequências, o que pode ser feito por
caso lhe neguem algumas consequên- pessoas de toda espécie, mesmo pelas
cias, mostre como elas se contêm nos menos atentas, desde que se recordem
antecedentes, de modo a arrancar o apenas das coisas precedentes; e é fácil
consentimento do leitor, por mais obs- obrigá-las a se recordarem, distin-
tinado e opiniático que seja; mas não guindo tantas proposições diversas
dá, como a outra, inteira satisfação aos quantas coisas haja a observar na difi-
espíritos dos que desejam aprender, culdade proposta, a fim de que se dete-
porque não ensina o método pelo qual nham separadamente em cada uma, e
a coisa foi descoberta. que se lhes possam citar em seguida,
Os antigos geómetras costumavam para adverti-las daquelas em que
utilizar-se apenas dessa síntese em seus devem pensar. Mas, ao contrário, no
escritos, não porque ignorassem intei- atinente às questões que pertencem à
ramente a analise, mas, em meu pare- Metafísica, a principal dificuldade é
cer, porque lhe atribuíam tal posição conceber clara e distintamente as no-
que a reservavam para eles próprios, ções primeiras. Pois, ainda que por sua
como um segredo de importância. natureza não sejam menos claras,
sendo mesmo muitas vezes mais claras
Quanto a mim, segui somente a via
do que as consideradas pelos geóme-
analítica em minhas Meditações, por-
tras, não obstante, posto que parecem
que me parece ser a mais verdadeira e
não acordar com muitos prejuízos que
a mais própria ao ensino; mas, quanto
recebemos através dos sentidos, e aos
à síntese, que é sem dúvida a que dese-
quais nos habituamos desde a infância,
jais aqui de mim, ainda que no tocante
são perfeitamente compreendidadas
às coisas tratadas na Geometria ela
apenas pelos que são muito atentos e
possa ser utilmente colocada após a
se empenham em apartar, tanto quanto
análise, não convém, todavia, tão bem
podem, o espírito do comércio dos sen-
às matérias que pertencem à Metafísi-
tidos; eis por que, se as propuséssemos
c a 4 2 . Pois há essa diferença, que as
totalmente sós, seriam facilmente ne-
primeiras noções supostas para de-
gadas por aqueles cujo espírito é pro-
monstrar as proposições geométricas,
penso à contradição.
estando de acordo com os sentidos,
são facilmente aceitas por cada qual; Esta foi a causa pela qual preferi
eis por que não apresenta qualquer escrever meditações e não disputas ou
questões, como fazem os filósofos, ou
4
' A diferença entre análise e síntese é, portanto, teoremas ou problemas, como os geó-
na realidade, uma diferença na maneira de demons- metras 4 3 , a fim de testemunhar com
trar, isto é, na maneira pela qual a demonstração se
impõe ao espírito do leitor. Ela não concerne à isso que as escrevi tão-somente para os
ordem. "A análise" nota Buillemin, "é uma constru- que quiserem dar-se ao trabalho de
ção puramente intelectual e algébrica", ao passo
que a síntese "se apresenta à imaginação antes de meditar seriamente comigo e conside-
aclarar a inteligência". (Maths. Meta., págs. rar as coisas com atenção. Pois, pelo
165-166.) O autor acrescenta que, na acepção fato mesmo de que alguém se prepare a
moderna do termo "síntese", a Matemática carte-
siana merece ser denominada "sintética".
42 43
Em Metafísica, a síntese oferece uma desvan- A "meditação" é dessarte um género interme-
tagem suplementar em relação à análise: não só a diário entre dialética e retórica, de um lado, e apre-
ordem da descoberta não mais será respeitada, mas sentação sintética euclidiana, de outro. Não é um
ainda será difícil afastar os prejuízos nascidos da género autobiográfico, porém uma génese analítica
inconveniência das noções metafísicas aos sentidos. dos elementos imitada do método algébrico.
178 DESCARTES

fim de impugnar a verdade, ele se torna conselho, procurarei aqui imitar a sín-
menos capaz de compreendê-la, por- tese dos geómetras e efetuarei um resu-
quanto desvia o espírito da considera- mo das principais razões que usei para
ção das razões que o persuadem dela demonstrar a existência de Deus e a
para aplicá-lo à busca das que a distinção que há entre o espírito e o
destroem. corpo humano: o que não servirá
Mas, não obstante, para testemu- pouco, talvez, para aliviar a atenção
nhar o quanto condescendo com vosso dos leitores.
RAZÕES

QUE PROVAM A EXISTÊNCIA DE DEUS


E A DISTINÇÃO QUE HÁ ENTRE O ESPÍRITO
E O CORPO HUMANO

DISPOSTAS DE UMA FORMA GEOMÉTRICA

Definições
I. Pelo nome de pensamento, com- enformam o próprio espírito, que se
preendo tudo quanto está de tal modo aplica a esta parte do cérebro.
em nós que somos imediatamente seus III. Pela realidade objetiva de uma
conhecedores. Assim, todas as opera- ideia, entendo a entidade ou o ser da
ções da vontade, do entendimento, da coisa representada pela ideia, na medi-
imaginação e dos sentidos são pensa- da em que tal entidade está na ideia; e,
mentos. Mas acrescentei imediata- da mesma maneira, pode-se dizer uma
mente, para excluir as coisas que se- perfeição objetiva, ou um artifício
guem e dependem de nossos objetivo, etc. Pois, tudo quanto conce-
pensamentos: por exemplo, o movi- bemos como estando nos objetos das
mento voluntário tem, verdadeira- ideias, tudo isso está objetivamente, ou
mente, a vontade como princípio, mas por representações, nas próprias
ele próprio, no entanto, não é um ideias 4 4 .
pensamento. IV. As mesmas coisas são ditas
II. Pelo nome de ideia, entendo esta estarem formalmente nos objetos das
forma de cada um de nossos pensa- ideias, quando estão neles tais como as
mentos por cuja percepção imediata concebemos; e são ditas estarem neles
eminentemente, quando, na verdade,
temos conhecimento desses mesmos não estão aí, como tais, mas são tão
pensamentos. De tal modo que nada grandes, que podem suprir essa carên-
posso exprimir por palavras, ao com- cia com a excelência delas 4 5 .
preender o que digo, sem que daí
mesmo seja certo que possuo em mim 44
A realidade objetiva de uma ideia é seu con-
a ideia da coisa que é significada por teúdo na medida em que é dotado de valor represen-
minhas palavras. E assim não dou o tativo. Cumpre não confundi-la, pois, com seu valor
objetivo, ao qual ela não permite, por si só,
nome de ideia às simples imagens que prejulgar.
4 5
são pintadas na fantasia; ao contrário, Se considerarmos que a ideia de Deus, enquanto
ideia, é forçosamente inferior àquele de quem ela é
não lhes dou aqui esse nome, na medi- cópia, Deus será denominado causa eminente desta
da em que se encontram na fantasia ideia. Se considerarmos que não pode haver na rea-
corporal, isto é, na medida em que são lidade objetiva da ideia do perfeito, enquanto ideia
do perfeito, nada que seja menos perfeito do que o
pintadas em algumas partes do cére- próprio ser perfeito, Deus pode então ser denomi-
bro, mas somente na medida em que nado causa formal de sua ideia.
180 DESCARTES

V. Toda coisa em que reside ime- que pressupõem a extensão, assim


diatamente como em seu sujeito, ou como da figura, da situação, do movi-
pela qual existe, algo que concebemos, mento local, etc., chama-se corpo. Mas
isto é, qualquer propriedade, qualida- saber se a substância chamada espírito
de, ou atributo, de que temos em nós é a mesma que chamamos corpo, ou se
real ideia, chama-se substância. Pois se trata de duas substâncias diversas e
não possuímos outra ideia da subs- separadas, eis o que será examinado
tância precisamente tomada, salvo que em seguida.
é uma coisa na qual existe formal, ou
eminentemente, aquilo que concebe- VIII. A substância que entendemos
mos, ou aquilo que está objetivamente ser soberanamente perfeita, e na qual
em alguma de nossas ideias, posto que não concebemos nada que encerre
a luz natural nos ensina que o nada qualquer falha, ou limitação de perfei-
não pode ter nenhum atributo real. ção, chama-se Deus.
IX. Quando dizemos que algum
VI. A substância, em que reside
atributo está contido na natureza ou
imediatamente o pensamento, é aqui
chamada espírito. Todavia, tal nome é no conceito de uma coisa, é o mesmo
equívoco, pelo fato de o atribuírem que se disséssemos que tal atributo é
também às vezes ao vento e aos licores verdadeiramente dessa coisa e que se
muito sutis; mas não sei de outro mais pode assegurar que se encontra nela.
próprio. X. Duas substâncias são ditas real-
VII. A substância, que é o sujeito mente distintas quando cada uma pode
imediato da extensão e dos acidentes existir sem a outra.
Postulados
Postulo, primeiramente, que os leito- concebê-lo distintamente, e de crer que
res considerem quão fracas são as é mais fácil conhecê-lo do que todas as
razões que até agora os levaram a dar coisas corporais.
fé a seus sentidos, e quão incertos são Em terceiro lugar, que examinem
todos os juízos que depois apoiaram diligentemente as proposições que não
neles; e que revejam tão longamente e precisam de prova para serem conheci-
tão amiúde esta consideração em seus das 4 6 , e cujas noções cada qual encon-
espíritos, até que por fim adquiram o tra em si mesmo, como as de que uma
hábito de não mais fiar-se tão forte- mesma coisa não pode ser e nao ser ao
mente nos sentidos; pois julgo isso mesmo tempo; que o nada não pode
necessário para tornar-se capaz de ser a causa eficiente de algo, e outras
conhecer a verdade das coisas metafí-
sicas, as quais não dependem em nada 46
Sobre essas noções primeiras situadas além de
dos sentidos. toda dúvida, cf. Princípios, I, §49: "Quando pensa-
mos que não se poderia fazer algo de nada, não cre-
Em segundo lugar, postulo que con- mos, de modo algum, que esta proposição seja algo
siderem o próprio espírito, e todos existente ou a propriedade de alguma coisa, mas
tomamo-la como certa verdade eterna cuja sede é o
aqueles de seus atributos de que reco- nosso. pensamento e que denominamos noção
nhecerem não poder de alguma forma comum ou máxima; do mesmo modo, quando se diz
duvidar, ainda que supusessem inteira- ser impossível que uma mesma coisa seja e não seja
ao mesmo tempo, que o que foi feito não pode não
mente falso tudo quanto jamais recebe- ter sido feito, que aquele que pensa não pode deixar
ram pelos sentidos; e que não cessem de ser ou de existir enquanto pensa e muitas outras
de considerá-lo, sem que primeira- semelhantes, estas são apenas verdades, e não coi-
sas que existam fora de nosso pensamento..." Cf.
mente tenham adquirido a prática de ibid., §§7 e 10.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 181

semelhantes; e que assim exercitem sível está contida, mas além disso a
essa clareza do entendimento que lhes necessária. Pois, daí só, e sem qualquer
foi dada pela natureza, mas que as raciocínio, conhecerão que Deus exis-
percepções dos sentidos acostumaram te; e não lhes será menos claro e evi-
a perturbar e obscurecer, que a exerci- dente, sem outra prova, que lhes é
tem, digo eu, totalmente pura e liberta manifesto que dois é um número par, e
de seus prejuízos; pois, por este meio, a três um número ímpar, e coisas seme-
verdade dos axiomas seguintes lhes lhantes 48 . Pois há coisas que são
será fortemente evidente. assim conhecidas sem provas por
Em quarto lugar, que examinem as alguns, enquanto outros só as enten-
ideias dessas naturezas que contêm em dem por um longo discurso e raciocí-
si um conjunto de muitos atributos, nio.
como a natureza do triângulo, a do Em sexto lugar, que, considerando
quadrado ou de qualquer outra figura; com cuidado todos os exemplos de que
bem como a natureza do espírito, a falei nas minhas Meditações, de uma
natureza do corpo e, acima de todas, a clara e distinta percepção, e todos cuja
natureza de Deus ou de um ser sobera- percepção é obscura e confusa, habi-
namente perfeito. E que tomem nota de tuem-se a distinguir as coisas clara-
que se pode assegurar, com verdade, mente conhecidas das obscuras; pois
que existem em si próprias todas essas isso se aprende melhor por exemplos
coisas que concebemos claramente do que por regras, e penso que disso
estarem aí contidas 4 7 . Por exemplo, não se pode dar um exemplo, sem que
porque na natureza do triângulo retilí- eu já não o haja aflorado um pouco.
neo está contido que seus três ângulos Em sétimo lugar, postulo que os lei-
são iguais a dois retos, e porque na tores, levando em conta que nunca
natureza do corpo ou de uma coisa reconheceram qualquer falsidade nas
extensa a divisibilidade acha-se com- coisas que conceberam claramente e
preendida (pois não concebemos a que, ao contrário, nunca encontraram,
coisa extensa tão pequena que não pos- senão por acaso, qualquer verdade nas
samos dividi-la ao menos pelo pensa- coisas que conceberam apenas com
mento), é certo dizer que os três ângu- obscuridade, considerem que seria algo
los de todo triângulo retilíneo são inteiramente desarrazoado se, por al-
iguais a dois retos, e que todo corpo é guns prejuízos dos sentidos, ou por
divisível. algumas suposições feitas à vontade, e
Em quinto lugar, postulo que se fundadas em algo obscuro e desconhe-
detenham longamente em contemplar a cido, pusessem em dúvida as coisas
natureza do ser soberanamente perfei- que o entendimento concebe clara e
to; e, entre outras coisas, que conside- distintamente. Mediante isso, admiti-
rem que, nas ideias de todas as outras rão facilmente os seguintes axiomas
naturezas, a existência possível encon-
48
tra-se de fato contida, mas que, na O conhecimento da necessidade da existência de
ideia de Deus, não só a existência pos- Deus é, portanto, comparável ao das verdades mate-
máticas conhecidas sem prova. "O pensamento últi-
mo de Descartes é, pois, não cabe dúvidas, que o
* ' É a premissa maior da prova a priori que é aqui argumento ontológico não comporta prova e que ele
postulada. Nas Meditações, ela era demonstrada reside inteiramente na percepção direta de uma rela-
pela primeira prova: "Aquilo mesmo que tomei há ção necessária inclusa em uma essência imediata-
pouco por uma regra, a saber, que as coisas que mente apreendida pela intuição; mas que nem por
concebemos mui clara e mui distintamente são isso deixa de permanecer totalmente comparável às
todas verdadeiras, só fica assegurado porque Deus é verdades matemáticas, pelo menos àquelas que são
ou existe e porque é um ser perfeito..." indemonstráveis." (Guéroult, op. cit.. I, pág. 352.)
182 DESCARTES

como verdadeiros e indubitáveis, em- devessem ser propostos mais como


bora eu confesse que muitos deles teoremas do que como axiomas, se eu
pudessem ser melhor explicados e quisesse ser mais exato.

Axiomas ou Noções Comuns

I. Nâo há coisa existente da qual que o vemos? Mas essa visão não afeta
não se possa perguntar qual a causa de modo algum o espírito, a não ser na
pela qual ela existe. Pois isso se pode medida em que é uma ideia: uma ideia,
perguntar até mesmo de Deus: não que digo, inerente ao próprio espírito, e
tenha necessidade de alguma causa não uma imagem pintada na fantasia;
para existir, mas porque a própria e, por ocasião dessa ideia, não pode-
imensidade de sua natureza é a causa mos julgar que o céu existe, a não ser
ou a razão pela qual não precisa de que suponhamos que toda ideia deve
qualquer causa para existir. ter uma causa de sua realidade obje-
tiva que seja realmente existente; causa
II. O tempo presente não depende que julgamos ser o céu mesmo; e assim
daquele que imediatamente o prece- por diante 5 0 .
deu; eis por que não é necessário uma
menor causa para conservar uma VI. Há diversos graus de realidade
coisa, do que para produzi-la pela pri- ou de entidade: pois a substância tem
mais realidade do que o acidente ou o
meira vez. modo, e a substância infinita mais do
III. Nenhuma coisa, ou perfeição que a finita. Eis por que também há
alguma dessa coisa atualmente existen- mais realidade objetiva na ideia de
te, não pode ter o Nada, ou uma coisa substância do que na de acidente, e
não existente, como a causa de sua mais na ideia de substância infinita do
existência. que na de substância finita s 1 .
IV. Toda a realidade ou perfeição VII. A vontade se dirige voluntária
que existe numa coisa encontra-se for- e livremente (pois isto é de sua essên-
mal, ou eminentemente, na sua causa cia), mas no entanto de modo infalível,
primeira e total. ao bem que lhe é claramente conheci-
V. Daí se segue também que a reali- do. Daí por que, se ela chega a conhe-
dade objetiva de nossas ideias requer cer quaisquer perfeições que não pos-
uma causa, em que esta mesma reali- sua, entregar-se-lhes-á imediatamente,
dade seja contida, não só objetiva, mas caso estejam ao seu alcance; pois reco-
também formal, ou eminentemente 49 . 50
Notar-se-á aqui, com Guéroult, o caráter funda-
E cumpre notar que este axioma deve mental do princípio da correspondência entre a
ser tão necessariamente admitido, que ideia e o ideado. O fato de certos pensamentos se
só dele depende o conhecimento de apresentarem certa ou erradamente como "produzi-
dos-por-seu-objeto" é "uma propriedade original
todas as coisas, tanto sensíveis como que não se pode adquirir pela experiência; é uma
insensíveis. Pois, como sabemos, por condição primeira de meu conhecimento, e mesmo
exemplo, que o céu existe? Será por de minha percepção sensível". (Guéroult, op. cit., I,
199.)
51
Dizer que as ideias das substâncias têm mais
49
Do axioma IV, segue-se que a causa da reali- realidade objetiva que as dos acidentes, significa
dade objetiva da ideia há de ser uma realidade for- que "participam por representação em mais graus
mal. Dai a necessidade de uma causa atualmente de ser ou de perfeição do que as que me representam
existente para o efeito atualmente conservado. Esta somente modos ou acidentes". Ê um princípio evi-
dependência entre os axiomas explica a reserva dente por luz natural que os acidentes são menos
acima: "Confesso que muitos dentre eles. . . deve- que a substância. Daí por que será preciso alguma
riam ser propostos mais como teoremas do que coisa a mais para criar a substância do que para
como axiomas, se eu quisesse ser mais exato". criar os acidentes.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 183

nhecerá que lhe é um maior bem ceito de uma coisa limitada, a exis-
possuí-las do que não as possuir 5 2 . tência possível ou contingente acha-se
VIII. O que pode fazer o mais, ou o apenas contida, e no conceito de um
mais difícil, também pode fazer o ser soberanamente perfeito está com-
preendida a perfeita e necessária exis-
menos, ou o mais fácil. tência 53 .
IX. É algo maior e mais difícil criar 52
Esta definição da vontade como apetência
ou conservar uma substância do que necessária do bem é de origem escolástica. Mas Gil-
criar ou conservar seus atributos ou son (Commentaire du Discours, pág. 333) observa
propriedades; mas não é algo maior ou que os escolásticos não poderiam utilizar essa
noção a fim de provar a existência de Deus. Com
mais difícil criar uma coisa do que efeito, é mister que o homem seja dotado de uma
conservá-la, como já foi dito. vontade infinita para que se torne "um ser que, de
direito, queira para si todas as perfeições que Deus,
X. Na ideia ou no conceito de cada causa sui, quer para si e se dá".
coisa, a existência está contida, porque 53
A finitude da realidade objetiva nas ideias das
nada podemos conceber sem que seja coisas finitas é que exclui delas a existência necessá-
ria. Por meio dessas, posso conhecer com certeza a
sob a forma de uma coisa existente; possibilidade de seu objeto, mas nunca a existência
mas com a diferença de que no con- deste.

PROPOSIÇÃO PRIMEIRA
A EXISTÊNCIA DE DEUS É CONHECIDA PELA SIMPLES CONSIDERAÇÃO
DE SUA NATUREZA
Demonstração

Dizer que qualquer atributo está acham isentos de todos os prejuízos,


contido na natureza ou no conceito de como foi afirmado no quinto postula-
uma coisa é o mesmo que dizer que tal do. Mas, como não é fácil chegar a tão
grande clareza de espírito, procura-
atributo é verdadeiramente dessa remos provar a mesma coisa por ou-
coisa, e que se pode assegurar que ele tras v i a s 5 4 .
está nela (pela nona definição). 54
Ora, é certo que a existência neces- Aqui a prova a priori intervém em primeiro
lugar. Ela não mais depende da prova pelos efeitos,
sária está contida na natureza ou no porém de evidências cujo valor foi admitido. É a
conceito de Deus (pelo décimo axio- principal modificação que a ordem sintética intro-
duz. Não obstante, a prova pelos efeitos continua
ma). sendo a única capaz de proporcionar uma certeza
Logo, é verdadeiro dizer que a exis- completa. Cf. Princípios, I, § 16: "Nossa alma ou
nosso pensamento não teria dificuldade em se per-
tência necessária está em Deus, ou, suadir dessa verdade, se estivesse livre de seus
então, que Deus existe. prejuízos; mas, como estamos acostumados a dis-
tinguir em todas as outras coisas a essência da
E esse silogismo é o mesmo de que existência. . ., pode ocorrer que duvidemos que a
me servi em resposta ao artigo sexto ideia que possuímos dele (de Deus) seja uma daque-
las.. . que são possíveis, embora a existência não
dessas objeções; e sua conclusão pode se encontre necessariamente compreendida em sua
ser conhecida sem prova pelos que se natureza".

PROPOSIÇÃO SEGUNDA
A EXISTÊNCIA DE DEUS Ê DEMONSTRADA POR SEUS EFEITOS, PELO
SIMPLES FATO DE SUA IDEIA ESTAR EM NÓS
Demonstração

A realidade objetiva de cada uma de qual esta mesma realidade esteja conti-
nossas ideias requer uma causa na da, não objetiva, mas formal ou emi-
184 DESCARTES
eminentemente (pelo quinto axioma). sexto axioma), e que ela não pode estar
Ora, é certo que temos em nós a contida em ninguém mais exceto em
Deus mesmo (pela oitava definição).
ideia de Deus (pela segunda e oitava Logo, a ideia de Deus, que há em
definições), e que a realidade objetiva nós, exige Deus como causa: por
dessa ideia não está contida em nós, conseguinte, Deus existe (pelo terceiro
nem formal, nem eminentemente (pelo axioma).

PROPOSIÇÃO TERCEIRA

A EXISTÊNCIA DE DEUS Ê; AINDA


AINDA DEMONSTRADA
DEMONSTR. PELO FATO DE NÔS
PRÓPRIOS, QUE TEMOSS EM NÓS A IDEIA Dl
DE DEUS, EXISTIRMOS

Demonstração

Se eu tivesse o poder de me conser- Ora, é certo que possuo em mim a


var por mim mesmo, teria, com maior ideia ou a noção de muitas perfeições
razão ainda, o poder de me atribuir que me faltam e, ao mesmo tempo, a
todas as perfeições que me faltam ideia de um Deus (pelas definições 2 e
(pelos axiomas 8 e 9); pois tais perfei- 8).
ções não são mais do que atributos da Logo, a noção dessas mesmas per-
substância, e eu sou uma substância.
feições encontra-se também naquele
Mas não tenho o poder de me conce- por quem sou conservado.
der todas essas perfeições, pois de
outra maneira já as possuiria (pelo Enfim, aquele mesmo por quem sou
axioma 7). conservado não pode ter a noção de
Logo, não disponho do poder de me quaisquer perfeições que lhe faltem,
conservar por mim mesmo. isto é, que ele não tenha em si formal
Além disso, não posso existir sem ou eminentemente (pelo axioma 7);
ser conservado enquanto existo, quer pois, dispondo do poder de me conser-
por mim mesmo, supondo-se que eu var, como foi dito agora, disporia com
tenha o poder disso, quer por outrem
que tenha este poder (pelos axiomas 1 maior razão do poder de se dar ele pró-
e2). prio tais perfeições, se não as tivesse
Ora, é certo que existo, e todavia (pelos axiomas 8 e 9).
não disponho do poder de me conser- Ora, é certo que tem a noção de
var por mim próprio, como acabo de todas as perfeições que reconheço me
provar. faltarem, e que concebo existirem ape-
Logo, sou conservado por outrem. nas em Deus, como acabo de provar.
Além disso, aquele por quem sou
conservado tem em si formal, ou Logo, ele já as tem em si todas
eminentemente, tudo o que há em mim formalmente, ou eminentemente; e
(pelo axioma 4). assim ele é Deus.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 185

COROLÁRIO
DEUS CRIOU O CÉU E A TERRA, E TUDO O QUE NELES ESTÁ CONTIDO.
E, ALÉM DISSO, PODE FAZER TODAS AS COISAS QUE CONCEBEMOS
CLARAMENTE, DA MANEIRA COMO NÓS AS CONCEBEMOS
Demonstração

Todas essas coisas seguem-se clara- por aquele em quem ela se encontra,
mente da proposição precedente. Pois não só o céu e a terra, etc., devem ter
provamos aí a existência de Deus, por sido criados, mas também todas as ou-
ser necessário que haja um ser existen- tras coisas que conhecemos como
te, no qual todas as perfeições, de que
possíveis.
há em nós alguma ideia, estejam conti-
das formal ou eminentemente. Logo, provando a existência de
Ora, é certo que temos em nós a Deus, provamos também a seu respeito
ideia de um poder tão grande, que, só todas essas coisas.

PROPOSIÇÃO QUARTA
O ESPÍRITO E O CORPO SAO REALMENTE DISTINTOS
Demonstração

Tudo o que concebemos claramente 7) que podem existir uma sem a outra
pode ser feito por Deus da maneira (como acabo de provar) 5 5 .
como nós o concebemos (pelo corolá- Logo, o espírito e o corpo ião real-
rio precedente). mente distintos.
E é preciso observar que me servi
Mas concebemos claramente o espí- aqui da onipotência de Deus para tirar
rito, isto é, uma substância que pensa, dela a minha prova 5 6 ; não que seja
sem o corpo, isto é, sem uma subs- necessário qualquer poder extraordi-
tância extensa (pelo postulado 2); e, de nário para separar o espírito do corpo,
outra parte, concebemos também cla- mas porque, não tendo tratado senão
ramente o corpo sem o espírito (como de Deus nas proposições anteriores,
cada um concorda facilmente). não podia tirá-la de outro lugar exceto
dele. E não importa de modo algum
Logo, ao menos pela onipotência de por qual poder duas coisas sejam sepa-
Deus, o espírito pode existir sem o radas, para sabermos que são real-
corpo, e o corpo sem o espírito. mente distintas.
Pois bem, as substâncias que podem 55
A fim de que as substâncias estejam realmente
existir uma sem a outra são realmente separadas, basta provar que são substâncias e não
distintas (pela definição 10). substâncias existentes.
66
A prova através da onipotência de Deus, aqui
Ora, é certo que o espírito e o corpo imposta pela ordem sintética, ameaça dissimular
são substâncias (pelas definições 5, 6 e que o conceito essencial é o da "distinção real".
RESPOSTAS DO AUTOR
ÀS QUINTAS OBJEÇÕES
FORMULADAS PELO SENHOR GASSENDI
Do Senhor Descartes ao Senhor Gassendi

Senhor,

501. Impugnastes minhas Medita- niões quanto os artifícios de um orador


ções com um discurso tão elegante e para eludi-las s 7 , isto não deixa de me
tão cuidadosamente elaborado e que ser muito agradável, e tanto mais que
me pareceu tão útil para esclarecer infiro daí ser difícil apresentar contra
mais a verdade delas, que julgo muito mim razões diferentes daquelas que
vos dever por vos terdes dado ao traba- estão contidas nas precedentes obje-
lho de nisto se empenhar e não ficar ções que haveis lido. Pois certamente,
pouco obrigado ao Reverendo Padre se houvesse algumas, elas não vos te-
riam escapado; e imagino que todo o
Mersenne por vos ter induzido a
vosso desígnio nisto não foi senão
empreender tal trabalho. Pois ele reco- advertir-me dos meios de que essas
nheceu muito bem, ele que sempre foi pessoas, cujo espírito é de tal maneira
muito ávido na busca da verdade, mergulhado nos sentidos e a eles
principalmente quando esta pode ser- atado, que nada podem conceber senão
vir para aumentar a glória de Deus, imaginando e que, portanto, não são
que não havia maneira mais própria capazes de especulações metafísicas,
para julgar a verdade de minhas poderiam servir-se para eludir minhas
demonstrações do que submetê-las ao razões, e, ao mesmo tempo, dar-me
exame e à censura de algumas pessoas oportunidade de preveni-las. Por isso,
reconhecidas como doutas acima das não penseis que, respondendo-vos
outras, a fim de ver se eu poderia res- aqui, eu considere responder a um per-
ponder pertinentemente a todas as difi- feito e sutil filósofo, tal como sei que
culdades que poderiam ser por elas sois; mas, como se fôsseis um destes
propostas. Para este fim, provocou homens de carne dos quais tomais de
muitas destas, obteve-as de alguns, e empréstimo o rosto, dirigir-vos-ei so-
mente a resposta que eu gostaria de
eu me rejubilo por terdes também ace-
dar-lhes.
dido a seu pedido. Pois, embora não
tenhais empregado tanto nas razões de 57
Retomada da familiar oposição entre Filosofia e
um filósofo para refutar minhas opi- Retórica.
188 DESCARTES

DAS COISAS QUE FORAM OBJETADAS CONTRA


 PRIMEIRA MEDITAÇÃO

502. Dizeis que aprovais o desígnio não é bastante clarividente ou nossa


que tive de libertar o espírito de seus natureza é falível; pois é o mesmo que
antigos prejuízos que é tal que nin- dizer que erramos porque somos sujei-
guém poderia encontrar algo nele pas- tos ao erro. E, certamente, não se pode
sível de reformulação; mas desejáveis negar que não seja mais útil levar em
que o realizasse simplesmente e com conta, como fiz, todas as coisas onde
poucas palavras, isto é, em suma, pode ocorrer que erremos, temendo
negligentemente e sem tantas precau- dar-lhes muito levianamente nosso cré-
ções; como se fosse uma coisa tão fácil dito. Um filósofo não teria dito tam-
libertar-se de todos os erros dos quais bém que tomando todas as coisas
estamos imbuídos desde nossa infân- como falsas não me despojo tanto dos
cia, e se pudesse fazer demasiado exa- meus antigos prejuízos quanto me
tamente o que não se duvida de modo revisto de um outro inteiramente novo;
algum que é preciso fazer. Mas, certa- ou, antes, empenhar-se-ia primeira-
mente, vejo bem que quisestes indicar- mente em demonstrar que tal suposi-
me que há muitos que dizem somente ção nos poderia induzir em erro; mas,
da boca para fora que cumpre evitar pelo contrário, afirmais um pouco de-
cuidadosamente a prevenção, mas que pois que não é possível que eu possa
entretanto nunca a evitam, porque não obter isto de mim, ou seja, duvidar da
se esforçam de maneira nenhuma para verdade e da certeza destas coisas que
se desfazer dela e se persuadem de que supus serem falsas; isto é, que possa
não se deve ter por prejuízo o que rece- revestir-me deste novo prejuízo pelo
beram uma vez como verdadeiro. Sem qual temeis que eu me deixe envolver.
dúvida alguma, desempenhais aqui É um filósofo não se espantaria mais
perfeitamente o papel deles e nada com esta suposição do que ver alguma
omitis do que eles me poderiam obje- vez uma pessoa que, pára endireitar
tar, mas entretanto nada dizeis que um bastão que é curvo, ^urva-o do
revele, por pouco que seja, qual o seu outro lado; pois não ignora que muitas
filósofo. Pois, onde dizeis que não vezes tomamos assim coisas falsas por
havia necessidade de fingir um Deus verdadeiras, a fim de esclarecer ainda
enganador, nem que eu dormia, um mais a verdade, como quando os astró-
filósofo julgar-se-ia obrigado a acres- nomos imaginam no céu um equador,
centar a razão pela qual isso não pode um zodíaco e outros círculos, ou quan-
ser posto em dúvida, ou, caso não dis- do os geómetras acrescentam novas li-
pusesse dela como de fato não dispõe, nhas às figuras dadas 58 e, assim tam-
ter-se-ia abstido de dizê-lo. E não teria
também acrescentado que seria sufi- 59
Desde a décima segunda das Regras para a
ciente neste ponto alegar, como causa Direção do Espírito, Descartes recorrera a suposi-
ções metodológicas "para distinguir as noções das
de nossa desconfiança, o pouco de luz coisas simples das que delas são compostas". E
do espírito humano ou a fraqueza de acrescentava: "Pouco importa que não as julgue-
nossa natureza; pois de nada serve, mos mais verdadeiras do que esses círculos imagi-
nários com os quais os astrónomos descrevem seus
para corrigir nossos erros, dizer que fenómenos, desde que, com o seu auxílio, distinga-
nos enganamos porque nosso espírito mos, em qualquer questão, qual conhecimento deve
ser verdadeiro ou falso".
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 189

bém, os filósofos em muitas ocasiões; e zelo da verdade, bem mostra que ele
aquele que chama isto recorrer a uma próprio não quer servir-se desta candu-
máquina, forjar ilusões, procurar des- ra filosófica, nem pôr em uso as
vios e novidades e que diz que isto é razões, mas atribuir somente às coisas
indigno da candura de um filósofo e do os ouropéis e as cores da retórica.

DAS COISAS QUE FORAM OBJETADAS CONTRA


A MEDITAÇÃO SEGUNDA

503. I. Continuais aqui a divertir- mente conhecidas pelo espírito huma-


nos com fingimentos e disfarces de no, é sem dúvida inteiramente contrá-
retórica em lugar de nos contrapor rio à razão não querer rejeitar
boas e sólidas razões; pois fingis que seriamente estas coisas como incertas,
brinco quando falo gravemente, e to- ou mesmo também como falsas, a fim
mais por uma coisa dita seriamente e de observar que aquelas que não
com alguma segurança de verdade o podem ser assim rejeitadas são, por
que propus apenas em forma de inter- isso mesmo, mais seguras e, quanto a
rogação e segundo a opinião do vulgo, nós, mais conhecidas e mais evidentes.
para fazer, a propósito disso, em segui- Quanto ao fato de eu ter dito que
da, uma investigação mais exata. Pois, não conhecia ainda suficientemente o
quando disse que era preciso tomar que é uma coisa pensante59, não é ver-
como incertos ou mesmo como falsos dade, como afirmais, que o tenha dito
todos os testemunhos que recebemos deveras, pois eu o expliquei no devido
dos sentidos, disse-o seriamente; e isto lugar; nem mesmo que eu tenha dito
é tão necessário para entender minhas que não duvidava de maneira alguma
Meditações, que aquele que não pode, daquilo em que consistia a natureza do
ou não quer admitir isto, não é capaz corpo e que não lhe atribuía a facul-
de objetar coisa alguma que possa dade de se mover a si mesmo; nem
merecer resposta. Mas, entretanto, é também que eu imaginava a alma
preciso advertir a diferença que existe como um vento ou um fogo e outras
entre as ações da vida e a pesquisa da coisas semelhantes que somente referi
verdade, a qual inculquei tantas vezes; nessa passagem, segundo a opinião do
pois, quando se trata da conduta da vulgo, para mostrar em seguida que
vida, seria algo inteiramente ridículo elas eram falsas. Mas com que fideli-
não se referir aos sentidos; razão pela dade afirmais que eu atribuo à alma as
qual sempre foram ridicularizados faculdades de andar, de sentir, de ser
aqueles céticos que negligenciavam a alimentada, etc., para que acrescenteis
tal ponto todas as coisas do mundo imediatamente após estas palavras: Eu
que, para impedir que eles próprios se vos concedo tudo isto, desde que nos
lançassem em precipícios, deviam ser abstenhamos de vossa distinção entre
guardados pelos seus amigos; e é por o espírito e o corpo"!; pois, nesse
isso que disse em algum lugar: que mesmo momento, disse expressamente
uma pessoa de bom senso não podia que a nutrição deveria ser referida ape-
duvidar seriamente dessas coisas; mas, nas ao corpo; e, no que se refere ao
quando se trata da pesquisa da verdade
e de saber que coisas podem ser certa- 69
Cf. Meditação Segunda, § 5.
190 DESCARTES

sentimento e ao andar, refiro-os tam- qual desejais ser chamado, tendes tão
bém, na maior parte, ao corpo e nada pouco comércio com o espírito que
atribuo à alma do que lhes diz respeito, não pudestes notar a passagem em que
exceto, apenas, que é um pensamento. corrigi esta imaginação do vulgo pela
504. Ademais, que razão tendes de qual fingimos que a coisa que pensa é
dizer que não havia necessidade de tão semelhante ao vento ou a algum outro
grande aparelhamento para provar corpo dessa espécie 60 ? Pois corrigi-o,
minha existencial Certamente penso sem dúvida, quando mostrei que se
ter muita razão em inferir de vossas pode supor que não há vento, nem
próprias palavras que o aparelhamento fogo, nem qualquer outro corpo no
do qual me servi não foi ainda suficien- mundo, e que, entretanto, sem mudar
temente grande, posto que não pude essa suposição, todas as coisas pelas
fazer ainda com que compreendêsseis quais conheço que sou uma coisa que
bem a questão; pois, quando dizeis que pensa não deixam de permanecer em
poderia concluir a mesma coisa de sua totalidade 61 . E, portanto, todas as
cada uma de minhas ações indiferente- perguntas que me fazeis em seguida,
mente, vós vos enganais bastante, já por exemplo: Por que não poderia eu,
pois, ser um vento? Por que não pode-
que não há nenhuma entre elas de que
ria preencher um espaço? Por que não
eu esteja inteiramente certo — refiro-
poderia ser movido de várias manei-
me àquela certeza metafísica, única ras? e outras semelhantes, são tão vãs
certeza de que aqui se trata — exceto o e tão inúteis que não necessitam de
pensamento. Pois, por exemplo, não resposta.
seria boa a seguinte consequência: eu
passeio, logo existo, senão na medida 506. III. O que em seguida acres-
em que o conhecimento interior que centais não é mais sólido, a saber: se
tenho disto é um pensamento, do qual eu sou um corpo sutil e ténue, por que
somente esta conclusão é certa, não do não poderia ser alimentado?; e o resto.
movimento do corpo, o qual às vezes Pois nego absolutamente que eu seja
pode ser falso, como nos nossos um corpo 6 2 . E, para acabar de uma
sonhos, embora nos pareça então que vez por todas com essas dificuldades,
passeamos; de maneira que, do fato de porque me objetais quase sempre a
que eu penso passear, posso muito bem mesma coisa, e não combateis minhas
inferir a existência de meu espírito, que 60
Texto de Gassendi: "Dizei-me, eu vos peço, ó
tem este pensamento, mas não a do alma, ou o que quer que sejais, corrigistes até aqui
meu corpo que passeia. O mesmo este pensamento pelo qual vos imaginais ser algo
acontece com todos os outros. semelhante ao vento ou a qualquer outro corpo
desta natureza, espalhado em todas as partes de
vosso corpo? Certamente não o fizestes". Em ou-
505. II. Começais, em seguida, por tros termos: quem vos autoriza a sustentar que só o
uma figura de retórica bastante agra- pensamento pode ser separado de mim? Por que
não seria este pensamento um corpo?
dável que se chama prosopopéia, a me 6
' Em suma, Gassendi não compreendeu o método
interrogar, não mais como um homem de redução, implicado pela dúvida hiperbólica. Ele
inteiro, mas como uma alma separada se coloca ao nível de uma investigação física e fisio-
lógica, quando se trata de uma separação de essên-
do corpo; no que parece que tenhais cias no plano metafísico.
querido advertir-me de que essas obje- 62
Resta-vos provar, dizia Gassendi, que o corpo
ções não partem do espírito do sutil não é capaz de pensamento, "que esse corpo gros-
seiro e pesado em nada contribui para o vosso
filósofo, mas de um homem preso aos pensamento, conquanto jamais tenhais estado sem
sentidos e à carne. Dizei-me, portanto, ele e nunca tenhais pensado algo estando separado
suplico-vos, ó carne, ou quem quer que dele..." Para Descartes, essas constatações de fato
não poderiam valer contra a certeza metafísica de
sejais, e qualquer que seja o nome pelo direito.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 191

razões, mas, dissimulando-as como se 507. Cumpre também notar que


fossem de pouco valor ou apresentan- não parece, ó carne, que saibais de al-
do-as defeituosas e imperfeitas, apro- guma forma o que é usar de razão,
veitais a ocasião para me fazer várias posto que, para provar que a informa-
objeções que as pessoas pouco versa- ção e a fé de meus sentidos não me
das em Filosofia costumam opor às devem ser suspeitas, dizeis que, "em-
minhas conclusões ou a outras que se bora sem me servir do olho, tenha me
lhes assemelham ou mesmo que nada parecido algumas vezes que sentia
têm em comum com elas, as quais, ou coisa que não se pode sentir sem ele,
são afastadas do tema, ou já foram no não experimentei, entretanto, sempre a
devido lugar refutadas e resolvidas, mesma falsidade"; como se não hou-
não é necessário que eu responda a vesse fundamento suficiente para duvi-
cada uma de vossas perguntas, pois de dar de alguma coisa, no fato de termos
outra maneira seria preciso repetir cem nela alguma vez reconhecido erro 6 4 , e
vezes as mesmas coisas que escrevi como se pudesse acontecer que, todas
acima. Mas, satisfarei apenas em pou- as vezes que nos enganamos, pudés-
cas palavras àquelas que me parecem semos nos aperceber disso; visto que,
poder deter pessoas um pouco entendi- ao contrário, o erro consiste apenas no
das. E quanto àqueles que não se pren- fato de ele não se revelar como tal.
dem tanto à força das razões quanto à Enfim, uma vez que me pedis frequen-
multidão das palavras, não faço tanto temente razões quando vós mesmos
caso de sua aprovação que queira per- não tendes nenhuma e, entretanto, cabe
der o tempo em discursos inúteis para a vós tê-las, sou obrigado a vos adver-
conquistá-la. tir de que, para bem filosofar, não há
Primeiramente, portanto, notaria necessidade de provar que todas aque-
aqui que não se acredita em vós quan- las coisas, que não recebemos como
do adiantais, tão audazmente e sem verdadeiras, são falsas, porque sua ver-
qualquer prova, que o espírito cresce e dade não nos é conhecida; mas é
se enfraquece com o corpo; pois do
somente necessário cuidar muito seria-
fato de não agir tão perfeitamente no
corpo de uma criança quanto no de um mente de nada receber como verda-
homem perfeito e de muitas vezes suas deiro que não possamos demonstrar
ações poderem ser impedidas pelo ser tal 6 B. E assim, quando percebo que
vinho e por outras coisas corpóreas, sou uma substância pensante e formo
segue-se somente que, enquanto está
unido ao corpo, dele se serve como de 64
Ao fim de contas, dizia pouco mais ou menos
um instrumento para fazer estas espé- Gassendi, os sentidos nem sempre nos enganam:
cies de operações com as quais se por que duvidar deles sistematicamente? Observa-
ção que implicava a negação de um conhecimento
ocupa ordinariamente, mas não que o de entendimento puro e a impossibilidade de pensar
corpo o torne mais ou menos perfeito em imagem. Em compensação, a recusa cartesiana
do provável e a sistematização da dúvida pressu-
do que ele é em si; é a consequência põem a possibilidade de uma ciência rigorosa que
que tirais daí não é melhor do que se, dispensa a imaginação: a Metafísica.
65
do fato de um artesão não trabalhar Cf. a polémica de Pascal contra o Pe. Noel, que
bem todas as vezes que se serve de um o censurava por não haver refutado a tese da "maté-
ria sutil": "(Eles) pensam já ter feito muito quando
mau utensílio, inferísseis que ele tira colheram os outros na impotência de mostrar que
sua perícia e a ciência de sua arte da ela não existe, privando-se eles próprios de todo o
poder de lhes mostrar que ela existe. Mas nós não
bondade de seu instrumento 6 3 . encontramos maior razão em negar sua existência
porque não se pode prová-la, quanto em crer nela
63
Descartes é aqui levado a apresentar com todo o pelo único motivo de não se poder mostrar que ela
rigor a tese da separação entre a alma e o corpo. não existe". (Plêiade, pág. 373)
192 DESCARTES

um conceito claro e distinto dessa dade por causa do equívoco que reside
substância, no qual nada está contido na palavra alma6 7 , mas eu a esclareci
que pertença ao da substância corpo- nitidamente tantas vezes que me enver-
ral, isso me basta plenamente para gonho de repeti-lo aqui; e é por isso
assegurar que, enquanto eu me conhe- que direi apenas que os nomes foram
ço, nada sou senão uma coisa que ordinariamente impostos por pessoas
pensa; e isso é tudo o que assegurei na ignorantes, o que faz com que não con-
Meditação Segunda, da qual se trata venham sempre propriamente às coisas
nesse momento; e não deveria admitir que significam; no entanto, desde que
que esta substância pensante fosse um foram aceitos, não temos liberdade de
corpo sutil, puro, ténue, etc., na medi- mudá-los, mas podemos apenas corri-
da em que não tive nenhuma razão que gir suas significações quando vemos
disso me persuadisse; se tendes algu- que não são bem compreendidas.
ma, a vós cabe no-la ensinar e não exi- Assim, visto que os primeiros autores
gir de mim que prove que algo é falso dos nomes talvez não distinguiram em
quando não tive outra razão para não nós aquele princípio pelo qual somos
admiti-lo senão o fato de me ser desco- alimentados, crescemos e realizamos,
nhecida essa razão. Pois fazeis o sem o pensamento, todas as outras fun-
mesmo que se, dizendo que estou ções que partilhamos com os animais,
atualmente na Holanda, dissésseis que daquele outro pelo qual nós pensamos,
não devo ser acreditado se não provar eles denominaram ambos os princípios
ao mesmo tempo que não estou na com o mesmo nome de alma; e, vendo
pouco depois que o pensamento era
China ou em qualquer outra parte do diferente da nutrição, deram o nome de
mundo; visto que talvez possa ocorrer espírito a esta coisa que em nós tem a
que um mesmo corpo, pela onipotência faculdade de pensar e acreditaram que
de Deus, esteja em muitos lugares. E era a parte principal da alma. Mas eu,
quando acrescentais que devo também tendo cuidado que o princípio pelo
provar que as almas dos animais não qual somos alimentados é inteiramente
são corpóreas e que o corpo em nada diferente daquele pelo qual pensamos,
contribui para o pensamento, fazeis disse que o nome alma, quando se refe-
ver não somente que ignorais a quem re ao mesmo tempo a um e a outro, é
pertence a obrigação de provar uma equívoco, e que, para tomá-lo precisa-
coisa mas também que não sabeis o mente como esse primeiro ato ou essa
que cada um deve provar; pois, quanto forma principal do homem, ele deve
a mim, não creio nem que as almas dos ser somente entendido como aquele
animais não sejam corpóreas nem que princípio pelo qual pensamos; dessa
o corpo em nada contribua para o maneira, chamei-o o mais das vezes
pensamento; mas somente digo que pelo nome de espírito, para evitar esse
não é este o lugar de examinar essas
coisas 6 6 . 67
Gassendi: "Eu pensava falar a uma alma huma-
na ou então a esse princípio interno pelo qual o
508. IV. Buscais aqui a obscuri- homem vive, sente, se move e entende, e no entanto
falava apenas a um puro espírito; pois vejo que sois
66 despojado não unicamente do corpo, mas também
O fim do parágrafo fornece bom exemplo da
"dialética" de Descartes: por que deveria eu provar de uma parte da alma". Ele acredita, portanto, que
como falsas ideias que se apresentam apartadas Descartes rechaça da alma as faculdades não inte-
tão-somente pela evidência fenomenológica? Dialé- lectuais ao mesmo título que o corpo. Isto significa
tica sempre útil contra as falsas ciências, que ape- confundir a distinção real entre alma e corpo e a
nas exigem a prova da falsidade por não poder dar distinção modal entre o entendimento e as demais
a da verdade. faculdades.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 193

equívoco e essa ambiguidade. Pois não contrário, posto que não sabia então se
considero o espírito como uma parte o corpo era uma e mesma coisa que o
da alma, mas como toda a alma espírito ou se não o era, eu nada queria
pensante. adiantar, mas somente considerei o
509. Mas, dizeis, sentis dificuldade espírito até que, enfim, na Meditação
em saber se eu não considero, portan- Sexta, não somente adiantei mas de-
to, que a alma pensa sempre. Mas por monstrei mui claramente que ele era
que não pensaria ela sempre, uma vez realmente distinto do corpo. Mas vos
que é uma substância pensante? E que enganais nisto a vós mesmo, e muito,
maravilha há em que não nos lembre- pois, não tendo a menor razão para
mos dos pensamentos que ela teve no mostrar que o espírito não é distinto do
ventre de nossas mães, ou durante a corpo, não deixais de afirmá-lo sem
letargia, já que não nos lembramos, prova alguma 69 .
mesmo, de muitos pensamentos que 511. V. O que eu disse da imagina-
sabemos muito bem que tivemos quan- ção é bastante claro, desde que se quei-
do adultos, sãos e despertos, pela ra examiná-lo cuidadosamente, mas
razão de, para nos lembrarmos de não é estranho se parecer obscuro
pensamentos que o espírito concebeu àqueles que jamais meditam e que não
uma vez, enquanto conjugado ao fazem reflexão alguma sobre o que
corpo, ser necessário que restem deles pensam. Mas devo adverti-los de que
alguns vestígios impressos no cérebro, as coisas que asseverei não perten-
para os quais o espírito se volta e apli- cerem ao conhecimento que tenho de
ca-lhes seu pensamento, a fim de mim mesmo não são, de modo algum,
lembrar-se; ora, que há de maravilhoso incompatíveis com aquelas que ante-
se o cérebro de uma criança ou de um riormente disse não saber se perten-
letárgico não é próprio para receber ciam à minha essência, na medida em
tais impressões 6 8 ? que pertencer à minha essência e per-
tencer ao conhecimento que tenho de
510. Enfim, onde eu disse que tal- mim mesmo são duas coisas inteira-
vez possa ocorrer que aquilo que eu mente diferentes 70 .
não conheço ainda (a saber, meu
corpo) não seja diferente de mim que 512. VI. Tudo o que aqui alegais, ó
conheço (a saber, de meu espírito), que boníssima carne, não me parece tanto
nada sei disso, que não o discuto, 69
A objeção de Gassendi se relacionava com a
etc. . ., vós me objetais: Se vós não o Meditação Segunda, § 7. Como podeis afirmar que
sabeis, se não o discutis, por que dizeis nada sois exceto uma coisa que pensa e, ao mesmo
que não sois nada disso? Ora, não é tempo, admitir que "essas coisas que suponho nada
serem talvez sejam algo real que não difere absolu-
verdade que eu tenha adiantado algo tamente de mim que conheço"? Ele ignora, assim,
que não soubesse; pois, exatamente ao que nesta passagem a certeza de que nada sou além
de uma coisa pensante não adquiriu ainda validade
objetiva.
68 70
Cabe perguntar em que medida esse parágrafo Cf. Segunda Meditação, § 8. Não sei, objeta
concorda com o princípio segundo o qual nada há Gassendi, se as coisas que caem sob a imaginação
em nós de que não tenhamos consciência. Mas a não pertencem à minha essência. É sempre o mesmo
doutrina, neste ponto, é mais complexa do que pare- mal-entendido. Descartes verificou simplesmente:
ce. Por exemplo, Descartes pôde escrever: "Temos reconheci que existia sem recorrer às imagens das
realmente um conhecimento atual dos atos ou das coisas corporais e mesmo reputando essas coisas
operações de nosso espírito, mas nem sempre de como falsas. Gassendi, por sua vez, transpõe, em
suas faculdades, a não ser em potência". (Quartas afirmação ontológica, esta análise do simples
Respostas a Arnauld.) De modo que, quando o espí- conhecimento. Ora, neste ponto, assiste-me o direito
rito deixa de lembrar-se, conserva em potência cer- de excluir o corpo do conhecimento de minha natu-
tas faculdades ou propriedades da res cogitans. reza, mas não de minha natureza.
194 DESCARTES

objeções quanto algumas murmura- que, quando nossa imaginação não é


ções que não têm necessidade de tão forte, não deixamos amiúde de
réplica. conceber algo de inteiramente diferente
VII. Continuais ainda aqui vossas daquilo que imaginamos, como quan-
murmurações, mas não é necessário do, em meio aos nossos sonhos, perce-
que me detenha neste momento mais bemos que sonhamos; pois então é
do que fiz em outros. Pois todas as bem um efeito de nossa imaginação o
questões que formulais a respeito dos fato de sonharmos, mas o fato de nos
animais são fora de propósito e não é apercebermos de nossos sonhos é obra
aqui o lugar de examiná-las; posto que que pertence tão-somente ao entendi-
o espírito, meditando em si mesmo e mento.
refletindo sobre o que ele é, pode 513. VIII. Aqui, como muitas
perfeitamente experimentar que pensa, vezes alhures, mostrais apenas que não
mas não experimentar se os animais entendeis aquilo que vos empenhais em
têm pensamentos ou se os não têm; e repreender; pois não fiz abstração do
nada disto pode descobrir senão quan- conceito de cera do conceito de seus
do, examinando as operações dos ani- acidentes, mas, antes, quis mostrar
mais, remonta dos efeitos às causas. como sua substância é manifestada
Não me detenho tampouco em refutar pelos acidentes e o quanto a sua
as passagens em que me fazeis falar percepção, quando é clara e distinta, e
impertinentemente, posto que me basta quando uma reflexão exata no-la tor-
ter uma vez advertido o leitor de que nou manifesta, difere da percepção vul-
não guardais toda a fidelidade que é gar e confusa 71 . E não vejo, ó carne,
devida ao relato das palavras de sobre qual argumento vos fundais para
outrem. Mas apresentei muitas vezes a assegurar com tanta certeza que um
verdadeira marca pela qual podemos
cão discerne e julga da mesma maneira
conhecer que o espírito é diferente do
que nós, a não ser que, vendo que é
corpo, a qual é que toda a essência ou
também composto de carne, vós vos
toda a natureza do espírito consiste
somente em pensar, quando toda a persuadais de que as mesmas coisas
natureza do corpo consiste somente no que se acham em vós encontram-se
seguinte ponto, que o corpo é uma também nele. Quanto a mim, que não
coisa extensa, e também que nada há reconheço no cão espírito nenhum, não
de comum entre o pensamento e a penso que haja nele coisa alguma
extensão. Mostrei também, inúmeras semelhante às coisas que pertencem ao
vezes, mui claramente, que o espírito espírito.
pode agir independentemente do cére- 514. IX. Espanto-me por confes-
bro; pois é certo que o cérebro é de ne- sardes que todas as coisas que consi-
nhum uso quando se trata de formar dero na cera provam que conheço
atos de intelecção pura, e só o é de distintamente que eu sou, mas não de
algum quando se trata de sentir ou de que modo sou ou qual é minha nature-
imaginar algo; e, embora, quando o 71
sentimento ou a imaginação está forte- Descartes não afirmou que se podia conhecer a
cera sem perceber seus acidentes, mas que só um
mente agitado, como ocorre quando o ato de interpretação ou de intelecção nos permite
cérebro está perturbado, o espírito não reconhecer tratar-se do mesmo pedaço de cera.
"Não são, de modo algum, nossos sentidos que nos
possa aplicar-se facilmente a conceber levam a descobrir a natureza do que quer que seja,
outras coisas, experimentamos todavia mas somente nossa razão quando aí intervém..."
(Princípios, 1,73.)
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 195

za, visto que um não se demonstra sem tem a virtude de conhecer-lhe a dureza,
outro 7 2 . E não vejo o que podeis dese- outro que pode conhecer a modifica-
jar de mais, no que se refere a isto, a ção dessa dureza ou a liquefação, etc.,
não ser que se vos diga qual é o odor e pois alguém pode conhecer a dureza
qual é o sabor do espírito humano, ou sem por isso conhecer a brancura,
de que sal, enxofre e mercúrio é ele como é o caso de um cego de nascença
composto; pois quereis que, como por e assim por diante. Donde se vê clara-
uma espécie de operação química, a mente que não há coisa alguma de que
exemplo do vinho, nós o passemos se conheçam tantos atributos quanto
pelo alambique, a fim de saber o que os de nosso espírito, pois, na medida
entra na composição de sua essên- em que os conhecemos nas outras coi-
cia 7 3 . O que certamente é digno de sas, podemos contar tantos outros no
vós, ó carne, e de todos aqueles que, espírito, pelo fato de que ele os conhe-
nada concebendo senão mui confusa- ce; e, portanto, sua natureza é mais
mente, não sabem o que se deve pes- conhecida do que a de qualquer outra
quisar de cada coisa. Mas, quanto a coisa 7 4 .
mim, jamais pensei que, para tornar 515. Enfim, vós me argúis aqui de
uma substância manifesta, fosse neces- passagem pelo fato de que, nada tendo
sária outra coisa além de descobrir-lhe admitido em mim a não ser o espírito,
os diversos atributos; de sorte que, eu fale todavia da cerca que vejo e que
quanto mais atributos conhecemos de toco, o que no entanto não se pode
alguma substância, mais perfeitamente fazer sem olhos ou sem mãos; mas de-
também conhecemos-lhe a natureza; e, veis haver notado que adverti expressa-
do mesmo modo, podemos distinguir mente que não se tratava aqui da visão
mui diversos atributos na cera: um que ou do tato, que se fazem por inter-
ela é branca, outro que é dura, outro médio dos órgãos corpóreos, mas
que, de dura, torna-se líquida, etc.; do somente do pensamento de ver e de
mesmo modo, há tantos atributos no tocar, que não necessita desses órgãos,
espírito: um que ele tem a virtude de como experimentamos todas as noites
conhecer a brancura da cera, outro que em nossos sonhos 7 5 ; e certamente vós
o notastes muito bem, mas quisestes
apenas mostrar quantos absurdos e
72
Cf. Meditação Segunda, § 16. Gassendi: "Não injustas cavilações são capazes de
vejo de onde podeis inferir que se possa conhecer inventar aqueles que não se empenham
claramente algo de vosso espírito, exceto que ele
existe..." tanto em bem conceber uma coisa
73
Para Gassendi, a expressão "uma coisa pensan- quanto em impugná-la e contradizê-la.
te" não me faz conhecer nada do todo. "Se alguém
vos pedisse que lhe désseis um conhecimento do 74
vinho mais exato e mais pronunciado, pensaríeis tê- Doutrina antiescolástica e antiempirista do pri-
lo satisfeito ao dizer que o vinho é uma coisa lí- mado do conhecimento espiritual sobre o corporal.
quida que se espreme da uva, que é ora branca, ora Cf. Regras, VII: "Nada pode ser conhecido antes da
rosada, etc., mas não tentaríeis descobrir e manifes- inteligência, pois é pela inteligência que as coisas
tar o interior de sua substância, mostrando como são cognoscíveis e não inversamente".
75
essa substância é composta de aguardentes... e de Mais uma vez Gassendi desconhece que se trata
muitas partes misturadas numa justa proporção?" do pensamento enquanto ato universal que se desen-
O conhecimento do eu estaria, portanto, na medida rola necessariamente através de qualquer conheci-
de uma análise química; ora, trata-se do conheci- mento, seja ou não este conhecimento garantido
mento certo de mim mesmo enquanto pensante. objetivamente.
196 DESCARTES

DAS COISAS QUE FORAM OBJETADAS


CONTRA A MEDITAÇÃO TERCEIRA

516. I. Coragem; enfim apresentais tê-lo feito exatamente no seu lugar,


aqui contra mim alguma razão, o que primeiramente afastando os precon-
não notei tivésseis feito até este mo- ceitos e, em seguida, explicando as
mento; pois, para provar que não é principais ideias e, enfim, distinguindo
uma regra certa que "as coisas que as claras e distintas das que são obscu-
concebemos mui clara e distintamente ras e confusas.
são todas verdadeiras" 7 6 , dizeis que 517. II. Certamente admiro vosso
uma porção de grandes espíritos, que raciocínio pelo qual desejais provar
parecem dever ter conhecido várias que todas as nossas ideias são estra-
coisas mui clara e distintamente, consi- nhas ou provêm de fora e que não há
deraram que a verdade estava oculta nenhuma que tenhamos formado 7 7 ,
no seio do próprio Deus, ou no pro- pois, dizeis vós, o espírito não tem
fundo dos abismos; no que confesso somente a faculdade de conceber as
que é argumentar bastante bem com a ideias estranhas; mas também a de
autoridade de outrem; mas deveríeis
ajuntá-las, dividi-las, estendê-las, abre-
lembrar-vos, ó carne, que aqui falais a
viá-las, compô-las, etc., de muitas
um espírito de tal modo desligado das
maneiras; donde concluís que a ideia
coisas corpóreas que não sabe mesmo
se houve jamais homens antes dele e de uma quimera que o espírito formula
que, portanto, não se comove muito compondo, dividindo, etc., não é feita
com a autoridade deles. O que alegais por ele, mas provém de fora ou é estra-
em seguida a respeito dos céticos é um nha. Mas poderíeis também, da mesma
lugar-comum que não é mau, mas que maneira, provar que Praxiteles não fez
nada prova; não prova mais do que nenhuma estátua, na medida em que
aquilo que dizeis ao afirmar que há não retirou dele próprio o mármore
pessoas que morreriam pela defesa de sobre o qual pôde talhá-las; poder-se-
suas falsas opiniões, porque não se ia também dizer que não fizestes estas
poderia provar que concebem clara e objeções, pois as compusestes com
distintamente o que afirmam com palavras que não inventastes mas que
tanta obstinação. Enfim, é muito ver- tomastes de empréstimo de outrem.
dadeiro o que acrescentais, afirmando Mas, certamente, nem a forma de uma
que não é preciso tanto trabalhar em quimera não consiste nas partes de
confirmar a verdade dessa regra quan- uma cabra ou de um leão, nem a de
to em fornecer um bom método para vossas objeções em cada uma das
conhecer se nos enganamos ou não, palavras de que vos servistes, mas
quando pensamos conceber claramente somente na composição e no arranjo
alguma coisa; mas, igualmente, afirmo dessas coisas. Admiro-me também de
afirmardes que a ideia daquilo que em
76
geral se denomina uma coisa não pode
Resposta aos argumentos que tendem a abalar a
validade objetiva da regra da clareza e da distinção. 77
"Não significa isto que uma coisa não é verdadeira Cf. Meditação Terceira, § 10. Gassendi reduz
em si, embora seja clara e distintamente concebida, sucessivamente as ideias factícias, depois as inatas,
mas apenas que ela é assim clara e distintamente a tão-somente ideias adventícias (= que nos vêm
concebida?" de fora no curso de nossa existência).
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 197

existir no espírito, se as ideias de um a saber, por que, pois, em um cego de


animal, de uma planta, de uma pedra e nascença não há ideia alguma da cor,
de todos os universais não estiverem ai ou no surdo dos sons e da voz?, mos-
ao mesmo tempo; como se, para trais que não tendes nenhuma objeção
conhecer que sou uma coisa que pensa, consequente; pois, como sabeis que em
eu devesse conhecer os animais e as um cego de nascença não há nenhuma
plantas, porque devo conhecer aquilo ideia das cores, visto que às vezes
que se chama uma coisa, ou melhor, o experimentamos que, embora tenha-
que é em geral uma coisa1 s. Não sois, mos os olhos fechados, excitam-se em
também, mais verdadeiro em tudo o nós sentimentos de cor e de luz? E,
que dizeis a respeito da verdade. E ainda que se vos concedesse o que
enfim, já que impugnais apenas as coi- dizeis, aquele que negasse a existência
sas de que nada afirmei, vós vos ar- das coisas materiais não teria também
mais em vão contra fantasmas. boa razão para dizer que o cego de
nascença não tem as ideias das cores
518. III. Para refutar as razões porque seu espírito está privado da
pelas quais estimei que se poderia faculdade de formá-las, como tendes
duvidar da existência das coisas mate- razão de dizer que ele não tem essas
riais, perguntais aqui por que, então, ideias porque está privado da visão?
eu caminho sobre a terra, etc.; no que é
evidente que reincidis na primeira difi- 520. O que acrescentais sobre as
culdade; pois tomais para fundamento duas ideias do sol nada prova, mas
o que está em controvérsia, e que pre- quando tomais ambas as ideias por
cisa de prova, que é tão certo que uma só, porque se relacionam ao
caminhais sobre a terra que não se mesmo sol, é o mesmo que se dissés-
pode, de maneira alguma, duvidar seis que o verdadeiro e o falso não dife-
disso 7 9 . rem quando se referem a uma mesma
519. E quanto às objeções que for- coisa; e, quando negais que se deva dar
mulei a mim mesmo e às quais dei o nome de ideia àquela que inferimos
solução, quereis acrescentar esta outra, das razões da astronomia, restringis o
nome de ideia somente às imagens pin-
78
Gassendi negava que pudéssemos entender tadas na fantasia, contra o que estabe-
naturalmente o que é "uma coisa" ou o que é "o leci expressamente 80 .
pensamento". Não cumpre que uma ideia como a de
"coisa" tenha sido formada por abstração a partir 521. IV. Fazeis o mesmo quando
"de um animal, de uma planta, de uma pedra, etc.?"
A esse psicoiogismo, Descartes opõe a evidência negais que se possa ter uma verdadeira
que denominaríamos hoje fenomenológica: quando ideia da substância, pelo fato de que,
ouço pronunciar a palavra, sei imediatamente o que
significa. Uma coisa é o aprendizado e outra a dizeis vós, a substância não é perce-
compreensão da essência à qual a palavra me reme- bida pela imaginação, mas pelo tão-só
te. Gassendi, ao contrário, escreve: "Estas palavras
que pronunciais, não as aprendestes pela frequen- entendimento. Mas eu já protestei múl-
tação dos homens com os quais vivestes? E, já que tiplas vezes, ó carne, que não queria ter
lhes deveis as palavras, não lhes deveis também as comércio com aqueles que só se que-
noções designadas e entendidas por estas mesmas
palavras?" rem servir da imaginação e não do
79
"Se não credes ainda que haja uma terra, um entendimento.
céu e astros, por que, pergunto-vos, andais sobre a
terra, por que elevais os vossos olhos para contem- Mas, onde dizeis que a ideia da
plar o sol? Por que vos sentais à mesa e por que co-
80
meis para saciar vossa fome? E por que tomais da Sobre a Meditação Terceira, § 13. "Se quiser-
pena para nos escrever vossos pensamentos?" Esta mos possuir um pensamento distinto do sol, é preci-
não é uma objeção, porém, simplesmente, uma recu- so que recorramos à ideia que dele recebemos por
sa do método de investigação cartesiano. intermédio dos sentidos."
198 DESCARTES

substância não tem realidade alguma como também talvez de qualquer outra
que não haja tomado das ideias dos coisa que exista no mundo, por peque-
acidentes segundo os quais ou à manei- na que seja; e não é verdade que conce-
ra dos quais ela é concebida, mostrais bemos o infinito pela negação do fini-
claramente que não tendes ideia algu- to, visto que, ao contrário, toda
ma da substância que seja distinta, limitação contém em si a negação do
pois esta não pode jamais ser conce- infinito 82 .
bida à maneira dos acidentes, nem 552. Não é verdade também que a
tomar-lhes de empréstimo sua realida- ideia que nos representa todas as
de; mas, ao contrário, os acidentes são perfeições que atribuímos a Deus não
comumente concebidos pelos filósofos tem mais realidade objetiva do que têm
como substâncias, a saber, quando eles as coisas finitas. Pois confessais, vós
os concebem como reais; pois não se mesmo, que todas essas perfeições são
pode atribuir aos acidentes realidade ampliadas por nosso espírito, a fim de
alguma (isto é, entidade alguma mais que possam ser atribuídas a Deus; pen-
do que modal) que não seja tomada à sais, portanto, que as coisas assim
ideia da substância 81 . ampliadas não são maiores do que as
Enfim, onde dizeis que não forma- que não o foram; e de onde nos pode
mos a ideia de Deus senão sobre aqui- vir essa faculdade de ampliar todas as
lo que aprendemos e ouvimos dos perfeições criadas, isto é, de conceber
outros, atribuindo-lhe, a exemplo algo de maior e de mais perfeito do que
deles, as mesmas perfeições que vimos elas são, se não do simples fato de que
os outros atribuírem-lhe, eu desejaria temos em nós a ideia de uma coisa
que tivésseis também acrescentado de maior, a saber, do próprio Deus? E,
onde é, pois, que esses primeiros enfim, não é verdade também que
homens, de quem aprendemos e ouvi- Deus seria pouca coisa se não fosse
mos essas coisas, obtiveram essa maior do que o concebemos; pois con-
mesma ideia de Deus. Pois, se a obtive- cebemos que ele é infinito e nada pode
ram de si mesmos, por que não pode- haver de maior do que o infinito. Mas
ríamos nós obtê-la de nós mesmos? confundis intelecção com imaginação
Porque, se Deus lhas revelou, Deus e supondes que imaginamos Deus
existe consequentemente. como algum grande e poderoso gigan-
E, quando acrescentais que aquele te, como o faria aquele que, jamais
que chama uma coisa infinita dá a uma tendo visto um elefante, o imaginasse
coisa que não compreende um nome semelhante a um oução de altura e de
que tampouco entende, não fazeis a largura desmesuradas, o que concordo
distinção entre a intelecção conforme convosco ser muito impertinente 83 .
ao alcance de nosso espírito, tal como
cada um reconhece suficientemente em 82
Sobre a Meditação Terceira, § 15. Gassendi
si mesmo ter do infinito, e a concepção nega a positividade da ideia de infinito. Ora, para
inteira e perfeita das coisas, isto é, que Descartes, "esta ideia é evidentemente positiva,
visto ser ideia do infinito apenas porque encerra a
compreende tudo o què há de inteli- realidade (objetiva) do infinito; pretender extraí-la
gível nelas, que é de tal ordem que nin- do finito surge então como imediatamente absurdo,
guém a teve jamais não só do infinito pois seria querer tirar a realidade objetiva infinita
de uma realidade finita". (Guéroult, op. cit., 1,190.)
83
81 Como no caso dos dois sóis, tudo se baseia na
Acerca da definição da substância, cf. Princí- recusa de Gassendi de distinguir intelecção e imagi-
pios, I, 51. Acerca da necessidade de distinguir sem- nação. Por conseguinte, não pode ele ter ideia posi-
pre os modos na substância e a própria substância, tiva do infinito. A posição de Gassendi é neste
cf. Princípios, 1,64. ponto bastante próxima da de Kant.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 199

V. Dizeis aqui muitas coisas para vosso costume usar argumentos e pro-
fazer de conta que me contradizeis e var o que dizeis. Provais isto com o
entretanto nada dizeis contra mim, exemplo do dedo que não pode bater
posto que concluís a mesma coisa que em si mesmo e do olho que não pode
eu8 4 . Mas, todavia, mesclais aqui e ver-se a si mesmo a não ser num espe-
acolá várias coisas com as quais não lho: ao que é fácil responder que não é
estou de acordo; por exemplo, que este o olho que se vê a si mesmo, nem o
axioma, nada há num efeito que não espelho, mas antes o espírito, o qual
tenha estado primeiramente em sua somente conhece não só o espelho
causa, se deve entender mais da causa como o olho e a si mesmo. Podemos
material do que da eficiente; pois é mesmo, também, dar outros exemplos,
impossível conceber que a perfeição da entre as coisas corpóreas, da ação que
forma preexista na causa material, mas uma coisa exerce sobre si, como quan-
tão-somente na causa eficiente, e tam- do um tamanco se vira sobre si
bém que a realidade formal de uma mesmo; esta conversão não será uma
ideia seja uma substância, e muitas ou- ação que ele exerce sobre si 8 6 ?
tras coisas semelhantes. 525. Enfim, é mister observar que
523. VI. Se tivésseis algumas ra- eu não afirmei que as ideias das coisas
zões para provar a existência das coi- materiais derivavam do espírito, como
sas materiais, sem dúvida tê-las-íeis quereis aqui fazer crer; pois demons-
aqui relatado 8 s . Mas, uma vez que trei expressamente depois que elas pro-
perguntais somente se é, então, verda- cediam muitas vezes dos corpos, e que
deiro que eu não esteja certo de que é com isso que se prova a existência
haja alguma coisa diferente de mim das coisas corpóreas; mas somente
que exista no mundo, e que supondes apontei nessa passagem que não há
que não há necessidade de procurar as nelas tanta realidade que, por causa da
razões de uma coisa tão evidente, e seguinte máxima: Nada há num efeito
assim vos referis somente aos vossos que não tenha estado em sua causa,
antigos prejuízos, mostrais bem mais formal ou eminentemente, se deva con-
claramente que não tendes mais qual- cluir que elas não puderam derivar do
quer razão para provar o que afirmais tão-só espírito; o que não impugnais de
do que se não houvésseis dito coisa maneira nenhuma8 7 .
alguma. No que dizeis a respeito das 526. VII. Não dizeis nada aqui que
ideias, isto não tem necessidade de res- não tenhais dito anteriormente e que eu
posta, porque retringis o nome de ideia não haja refutado inteiramente. Adver-
apenas às imagens pintadas na fanta- tir-vos-ei aqui apenas, no tocante à
sia; e eu estendo-o a tudo o que conce- ideia do infinito (a qual dizeis não
bemos com o pensamento.
poder ser verdadeira a não ser que
524. Mas, pergunto-vos, de passa-
gem, por que argumento provais que 86
A objeção de Gassendi supunha que a cons-
nada age sobre si mesmo. Pois não é ciência de si podia ser apenas um desdobramento, a
contemplação exterior do eu como a de uma coisa.
Ora, para Descartes não existe diferença de natu-
8
* Trata-se do princípio: "Há pelo menos tanta reza
87
entre pensar e pensar que se pensa.
realidade formal na causa da ideia quanta realidade Repreendendo Descartes por não ter provado
objetiva na própria ideia". Gassendi prefere reser- que eu pudesse produzir, por mim só, as ideias cor-
var a aplicação deste principio à causalidade mate- porais, Gassendi mostra que não compreendeu o
rial (o sémen com respeito ao filho, o material com sentido da passagem: somente no caso da ideia de
respeito à casa) do que à causa eficiente (o pai ou o Deus é que posso estar certo de se tratar de uma
arquiteto). ideia que não poderia ser produzida por mim
85
Cf. Meditação Terceira, §§ 20,21. mesmo.
200 DESCARTES

compreenda o infinito, e que o que dele erro quando negais que possamos ter
conheço é, quando muito, apenas uma uma verdadeira ideia de Deus: pois,
parte do infinito e mesmo uma parte ainda que não conheçamos todas as
minúscula, que não representa melhor coisas que existem em Deus, todavia,
o infinito que o retrato de um simples tudo o que conhecemos existir nele é
cabelo representa um homem inteiro), inteiramente verdadeiro. Quanto ao
advertir-vos-ei, digo, que repugna que que dizeis, que o pão não é mais per-
eu compreenda alguma coisa e que o feito do que aquele que o deseja, e que,
que eu compreendo seja infinito; pois, do fato de eu conceber que algo está
para ter uma ideia verdadeira do infini- atualmente contido numa ideia, não se
to, ele não deve ser de maneira alguma segue que ela esteja atualmente na
compreendido, tanto mais que a in- coisa da qual é ideia, e também que
compreensibilidade mesma está conti- formulo juízo sobre aquilo que ignoro,
da na razão formal do infinito 88 ; e e outras coisas semelhantes, tudo isso,
entretanto é coisa manifesta que a digo, nos demonstra apenas que pre-
ideia que temos do infinito não repre- tendeis temerariamente impugnar vá-
senta somente uma de suas partes mas rias coisas das quais não compreendeis
o infinito em sua totalidade, conforme o sentido; pois, do fato de alguém dese-
deve ser representado por uma ideia jar pão, não se infere que o pão seja
humana; embora seja certo que Deus mais perfeito do que ele, mas somente
ou alguma outra natureza inteligente que aquele que necessita de pão é
dele possa ter outra ideia muito mais menos perfeito do que quando não
perfeita, isto é, muito mais exata e necessita dele. E, do fato de alguma
mais distinta do que aquela que os ho- coisa estar contida numa ideia, não
mens têm, da mesma maneira que dize- concluo que essa coisa exista atual-
mos que aquele que não é versado na mente, a não ser quando não se pode
Geometria não deixa de possuir a ideia designar nenhuma outra causa para
de todo o triângulo, quando o concebe essa ideia exceto a própria coisa que
como uma figura composta de três ela representa como existente atual-
linhas, embora os geómetras possam mente; o que demonstrei que não se
conhecer várias outras propriedades pode dizer de muitos mundos, nem de
do triângulo e notar muitas coisas em qualquer outra coisa que seja, exceto
89
sua ideia que o não versado na Geome- de Deus, apenas . E não julgo tam-
tria não observa. Pois, como é sufi- pouco do que ignoro, pois apresentei
ciente conceber uma figura composta as razões do juízo que formulava,
de três linhas para ter a ideia de todo o razões que são tais que não pudestes
triângulo, assim é suficiente conceber até agora refutar nem a mais frágil.
uma coisa que não está encerrada em
limites alguns para ter uma verdadeira 528. IX. Quando negais que tenha-
e inteira ideia de todo o infinito. mos necessidade do concurso e da
influência contínua da causa primeira
90
527. VIII. Incorreis aqui no mesmo para sermos conservados , negais
88 89
Se não posso compreender Deus, já que está Podemos ter a ideia de muitas coisas que não
além do finito, posso ao menos entender que é existem atualmente, objetava Gassendi. Resposta: a
incompreensível. "Longe portanto de me tornar ideia de Deus em mim é a única de que estou certo
Deus incognoscível, a incompreensibilidade, embo- que só poderia ser gerada por aquilo mesmo que ela
ra envolva certa limitação necessária de meu conhe- representa como existente. A objeção pressupõe,
cimento (eu jamais poderia esgotar o infinito, pos- pois, què Gassendi interpretou falsamente a aplica-
suir dele um conhecimento 'adequado', isto é, ção que é feita do princípio de clareza e distinção e
completo), é ao mesmo tempo... o que me permite que não atentou para o caráter eminentemente origi-
conhecer o infinito como tal." (Guéroult, op. cit., t. nal da ideia de Deus.
90
I, 206.) Cf. Meditação Terceira, § 33.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 201

algo que todos os metafísicos afirmam atribuís à criatura a perfeição do cria-


como muito manifesto, mas em que as dor, na medida em que ela persevera
pessoas pouco letradas não pensam no ser independentemente de outrem;
amiúde, porque dirigem seus pensa- e, ao mesmo tempo que atribuís ao
mentos apenas às causas que se chama criador a imperfeição da criatura, na
na Escola secundum fieri, isto é, das medida em que, se alguma vez ele qui-
quais os efeitos dependem quanto à sesse que deixássemos de ser, seria
sua produção e não às que se chama necessário que ele tivesse o nada como
secundum esse, isto é, das quais os o termo de uma ação positiva.
efeitos dependem quanto à sua subsis- 530: O que dizeis, após isso, no que
tência e sua continuação no ser. concerne ao progresso ao infinito, a
Assim, o arquiteto é a causa da casa, e saber, que não há discordância alguma
o pai a causa de seu filho, quanto à em que haja um tal progresso, desdi-
tão-só produção; eis por que, uma vez zeis imediatamente depois; pois con-
estando a obra acabada, ela pode sub- fessais, vós mesmo, que é impossível
sistir e permanecer sem essa causa; que possa haver tal nessas espécies de
mas o sol é a causa da luz que procede causas, que são de tal modo conexas e
dele e Deus é a causa de todas as coi- subordinadas entre si, que o inferior
sas criadas, não somente no que depen- não possa agir se a tanto não o impul-
de de sua produção, mas mesmo no sione o superior. Ora, trata-se aqui
que concerne à sua conservação ou à apenas dessas formas de causas, a
sua duração no ser. Eis por que ele saber, daquelas que dão e conservam o
deve sempre agir sobre seu efeito de ser de seus efeitos e não daquelas cujos
uma mesma maneira para conservá-lo efeitos dependem delas apenas no
no primeiro ser que lhe deu. E isto se momento da produção, como são os
demonstra mui claramente pelo que pais; e, portanto, a autoridade de Aris-
expliquei a respeito.da independência tóteles não me é de modo algum con-
das partes do tempo, e que procurais trária neste momento 92 , assim como
em vão eludir, propondo a necessidade não o é aquilo que dizeis sobre Pando-
da sequência que existe entre as partes ra 9 3 ; pois vós mesmo confessais que
do tempo considerado em abstrato, a posso de tal forma acrescer e aumentar
respeito da qual não se discute aqui, todas as perfeições que reconheço exis-
mas somente a respeito do tempo ou tirem no homem que me será fácil
da duração da própria coisa, da qual reconhecer que são tais que não pode-
não podeis negar que todos os momen-
tos não possam ser separados daqueles 92
Cf. Meditação Terceira, § 35. "Nunca podereis
que os seguem imediatamente, isto é, provar que haja qualquer absurdo neste progresso
que ela não possa deixar de ser em ao infinito, se não provardes ao mesmo tempo que o
cada momento de sua duração 91 . mundo teve um começo." Gassendi concebe a possi-
bilidade do progresso ao infinito, "quando é preciso
remontar a um primeiro motor que dá o impulso a
529. E quando dizeis que há em nós todos os outros" ("algo é movido por uma pedra
bastante virtude para nos fazer perse- que fora empurrada por um bastão que a mão
impulsionara"), mas não "nessas espécies de causas
verar no caso de que qualquer causa que são ordenadas de maneira que, sendo a primeira
corruptiva sobrevenha, não cuidais que destruída, a que dela depende não deixa de
subsistir".
93
Cf. Meditação Terceira, § 36. "Eu desejaria
91
Distinção entre o tempo considerado em abs- realmente perguntar-vos por que muitas coisas não
traio (como contínuo e infinitamente divisível) e_o poderiam existir no mundo, das quais tendo
ponto de vista concreto da criação e da conservação contemplado separadamente as diversas perfeições,
por Deus no instante (o nada de tempo). "A dura- tivésseis aproveitado a ocasião para pensar que
ção de cada coisa é um modo ou uma forma com seria feliz essa coisa em que elas se encontrassem
que consideramos esta coisa enquanto ela continua todas juntas?" Tal como a Pandora da mitologia, a
sendo..." (Princípios, I, 55.) quem cada deus dotou de uma qualidade diferente.
202 DESCARTES

riam convir à natureza humana; o que que temos de Deusforma-se sucessiva-


me basta inteiramente para demonstrar mente do aumento das perfeições das
a existência de Deus; pois sustento que criaturas; ela se forma inteiramente e
tal virtude, de aumentar e de acrescer de uma vez pelo fato de concebermos
as perfeições humanas até o ponto de por nosso espírito o ser infinito, inca-
não mais serem humanas, mas infinita- paz de qualquer espécie de aumento.
mente elevadas acima do estado e da 532. E, quando perguntais como
condição humanos, não poderia existir provo que a ideia de Deus existe em
em nós se não tivéssemos um Deus nós como a marca do operário im-
como o autor de nosso ser. Mas, para pressa sobre sua obra, qual é a manei-
não mentir, espanto-me muito pouco ra dessa impressão e qual a forma
de que não vos pareça que eu o tenha dessa marca9 5 , é o mesmo que se,
demonstrado bastante claramente; pois reconhecendo em qualquer quadro
até aqui não percebi que tivésseis tanto artificio que eu não julgasse pos-
compreendido bem qualquer de mi- sível que esta obra saísse de outras
nhas razões. mãos senão as de Apeles, e que che-
531. X. Quando retomais aquilo gasse a dizer que tal artifício inimitável
que eu disse, a saber, que nada se pode é como que determinada marca que
acrescentar nem diminuir à ideia de Apeles imprimiu em todas as suas
Deus9 4 , parece que não cuidastes bem obras para distingui-las de todas as
do que dizem comumente os filósofos, outras, me perguntásseis qual é a
ou seja, que as essências das coisas são
indivisíveis; pois a ideia representa a forma dessa marca e qual a maneira de
essência da coisa, a qual se torna sua impressão. Certamente, parece que
imediatamente a ideia de outra coisa se seríeis então mais digno de riso do que
se lhe acrescenta ou se lhe diminui de resposta. E quando prosseguis, se
algo: assim se figurou outrora a ideia esta marca não é diferente da obra,
de uma Pandora; assim foram elabora- sois pois, vós mesmo, uma ideia, não
das as ideias dos falsos deuses por sois nada além do que uma maneira de
aqueles que não concebiam como é pensar, sois tanto a marca impressa
necessária a ideia do verdadeiro Deus. quanto o sujeito da impressão, o que
Mas, desde que se concebeu uma vez a dizeis não será tão sutil quanto se,
ideia do verdadeiro Deus, ainda que tendo eu dito que o artifício pelo qual
nele se possam descobrir novas perfei- os quadros de Apeles são distintos dos
ções que até então não se haviam per- outros não é diferente dos próprios
cebido, sua ideia não foi, entretanto, quadros, objetásseis que tais quadros
acrescida ou aumentada, mas apenas não passam, portanto, de um artifício,
tornada mais distinta e mais expressa, que não são compostos de matéria al-
visto que essas novas perfeições deve- guma e que são apenas uma maneira
riam estar todas contidas nesta mesma de pintar, etc.?
ideia que se tinha anteriormente, já que 533. E quando, para negar que
se supõe que era verdadeira; da mesma tenhamos sido feitos à imagem e seme-
maneira que a ideia do triângulo não é
aumentada quando se notam nele mui- 95
Cf. Meditação Terceira, § 39. A partir desse
tas propriedades que até então se igno- ponto, Gassendi critica e escarnece o conhecimento
ravam. Pois não penseis que a ideia que as Meditações nos proporcionam de Deus.
"Como se pode concebê-lo por razão natural?. . .
Já o haveis visto face a face para poder assegurar,
94
fazendo comparação entre vós e ele, que lhe sois
Cf. Meditação Terceira, § 38. conforme?"
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 203

Ih anca de Deus, dizeis que Deus tem, obra, como parece quando um pintor
pois, a forma de um homem e em faz um quadro que se lhe assemelha.
seguida relacionais todas as coisas nas 534. Mas, com quão pouca fideli-
quais a natureza humana é diferente da dade apresentais minhas palavras
divina, sois nisto mais sutil do que se, quando fingis que eu disse que não
para negar que quaisquer quadros de concebo essa semelhança que tenho
Apeles tenham sido feitos à seme- com Deus na medida em que conheço
lhança de Alexandre, dissésseis que ser uma coisa incompleta e depen-
Alexandre se assemelha, portanto, a dente, visto que, ao contrário, só disse
um quadro e, todavia, que os quadros isso para mostrar a diferença existente
são compostos de madeira e de cores e entre Deus e nós, de medo que se acre-
ditasse que eu queria igualar os ho-
não de carne como Alexandre? Pois
mens a Deus e as criaturas ao criador!
não é da essência de uma imagem ser Pois, nesse mesmo lugar, disse que não
em tudo semelhante à coisa de que ela concebia somente que eu era nisso
é imagem, mas basta que se lhe asse- muito inferior a Deus, e que aspirava,
melhe em alguma coisa. E é mui evi- no entanto, a essas maiores coisas que
dente que essa virtude admirável e mui eu não possuía, mas também que essas
perfeita de pensar que concebemos coisas maiores a que eu aspirava
existir em Deus é representada por encontravam-se em Deus atualmente e
aquela que existe em nós, ainda que de maneira infinita, às quais no entan-
muito menos perfeita. E, quando prefe- to encontrava em mim alguma coisa de
ris comparar a criação de Deus com a semelhante, já que ousava de algum
operação de um arquiteto a fazê-lo modo aspirar a elas.
com a geração de um pai, vós o fazeis Enfim, quando dizeis que há motivo
sem nenhuma razão; pois, embora de espantar porque todo o resto dos
essas três maneiras de agir sejam total- homens não tem os mesmos pensa-
mente diferentes, a distância não é tão mentos de Deus que eu tenho, já que
grande entre a produção natural e a di- ele imprimiu neles sua ideia do mesmo
vina quanto entre a artificial e a modo que em mim, é como se vos
mesma produção divina. Mas não pen- espantásseis do fato de que, tendo todo
seis nem que digo que há a mesma mundo a noção do triângulo, cada um,
relação entre Deus e nós que a que entretanto, não notasse a mesma quan-
existe entre o pai e seus filhos; nem que tidade de propriedades, e que haja tal-
é verdadeiro também que jamais haja vez mesmo alguns que lhe atribuam
qualquer relação entre o operário e sua falsamente muitas coisas.

DAS COISAS QUE FORAM OBJETADAS


CONTRA A MEDITAÇÃO QUARTA

535. I. Já expliquei suficientemente modo algum. E, quando dizeis que


qual é a ideia que temos do nada e entre as obras de Deus vejo algumas
como participamos do não-ser, cha- que não estão inteiramente acabadas,
mando esta ideia de negativa e dizendo inventais uma coisa que não escrevi
que isso nada significa senão que não em parte alguma e em que jamais pen-
somos o soberano ser e que nos faltam sei; mas apenas disse que se certas coi-
muitas coisas; mas vós sempre procu- sas fossem consideradas, não como
rais dificuldades onde não as há de fazendo parte de todo este Universo,
204 DESCARTES

mas como totalidades destacadas e suadam de bem conhecê-las 98 . Enfim,


coisas singulares, então elas poderiam já que me perguntais tão engenhosa-
parecer imperfeitas. Tudo o que dizeis mente quais ideias considero que meu
em seguida a respeito da causa final espírito teria recebido de Deus e de si
pode ser relacionado à causa eficien- mesmo se, desde o momento em que
te 9 6 ; assim, do uso admirável de cada tivesse sido infundido dentro do corpo,
parte nas plantas e nos animais, etc., é permanecesse até agora de olhos fecha-
justo admirar a mão de Deus que as dos, orelhas tampadas e sem uso ne-
fez e conhecer e glorificar o artesão nhum dos outros sentidos, respondo-
pela inspeção de suas obras, mas não vos também ingénua e sinceramente
para adivinhar para que fim foram que (desde que suponhamos que não
criadas todas as coisas. E, ainda que tenha sido impedido nem auxiliado
pelo corpo a pensar e a meditar) não
em matéria de Moral, onde é amiúde
duvido de que teria tido as mesmas
permitido utilizar conjeturas, seja algu- ideias que tenho presentemente, ou
mas vezes piedoso e útil considerar o mesmo que as tivesse tido mais claras
fim que Deus se propôs para a conduta e mais puras; pois os sentidos impe-
do Universo, certamente na Física, dem-me em muitas ocasiões e em nada
onde todas as coisas devem ser apoia- me auxiliam a concebê-las99. E, de
das em sólidas razões, é uma coisa fato, nada há que impeça todos os ho-
inteiramente ridícula. E não se pode mens de reconhecer igualmente que
supor que haja alguns fins mais fáceis têm neles essas mesmas e semelhantes
de descobrir do que outros; pois estão ideias senão porque são ordinaria-
todos igualmente escondidos no abis- mente ocupados demais pela conside-
mo imperscrutável de sua sabedoria9 7 . ração das coisas corpóreas.
E não deveis também supor que não
536. II. Em toda esta parte, inter-
haja homem algum que possa com-
pretais mal o ser sujeito ao erro como
preender as outras causas; pois não há uma imperfeição positiva, embora isto
nenhuma que não seja muito mais fácil seja apenas (principalmente no que se
de conhecer do que aquela do fim que refere a Deus) a negação de uma maior
Deus se propôs na criação do Univer- perfeição nas criaturas 100 . E a compa-
so; e mesmo aquelas que aduzis para ração dos cidadãos de uma república
servir de exemplo da dificuldade que não se enquadra com as partes do Uni-
há em conhecê-las, são tão notórias verso; pois a malícia dos cidadãos,
que há poucas pessoas que não se per-
98
Trata-se da explicação mecanicista da fisiologia
96
"É de temer que rejeiteis o principal argumento do coração. "Ninguém, entre os naturalistas, conse-
pelo qual a sabedoria de Deus, sua potência, provi- guiu ainda compreender e explicar essas coisas",
dência e até existência podem ser provadas por acrescenta Gassendi.
99
razão natural." Gassendi é, assim, levado a defen- A posição de Gassendi é aqui muito forte e Des-
cartes, por seu turno, parece passar da Filosofia à
der o uso da finalidade em Anatomia e Fisiologia Mitologia. É que se vê obrigado pelo adversário a
contra o mecanicismo. colocar-se no terreno da verdade psicológica e
97
"Nem todo mundo é tão feliz a ponto de ter empírica e a deixar a análise de essências. Mas essa
como vós, desde o nascimento, esta ideia de Deus ambiguidade (análise de essências ou descrição
tão perfeita e tão clara" que o dispense "de pesqui- empírica) reside no âmago do cartesianismo.
sar qual o fim que Deus se propôs, ao criar todas as 100
Segundo Gassendi, Descartes não logrou des-
coisas". O reconhecimento da necessidade da teleo- culpar Deus do erro enquanto defeito situado no ato
Iogia seria, assim, como que uma confissão de do juízo. Resposta de Descartes: introduzis na
modéstia. Para Descartes, a condenação da teleolo- possibilidade do erro um elemento positivo que não
gia constitui simplesmente o corolário da Física admito e concluís, por conseguinte, que Deus per-
mecanicista. manece a causa positiva do erro.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 205

enquanto relacionada à república, é e não vos apartais facilmente de vossas


algo de positivo; porém, o mesmo não opiniões, nem abandonais de bom
se dá pelo fato de ser o homem sujeito grado vossos juízos. Assim, quando
a erro, isto é, de não possuir ele todas julgais que uma maçã ocasionalmente
as formas de perfeição, considerando- envenenada será boa para vosso ali-
se o bem do Universo 101 . Mas a mento, concebeis, na verdade, muito
comparação pode ser melhor estabele- bem que seu odor, sua cor e mesmo seu
cida entre aquele que desejaria que o gosto são agradáveis, mas não conce-
corpo fosse coberto de olhos a fim de beis por isso que essa maçã vos deva
que parecesse mais belo, posto que não ser útil se dela fizerdes vosso alimento;
mas, porque assim o desejais, vós a jul-
há nele parte mais bela do que o olho,
gais dessa maneira. E assim confesso
e aquele que pensa que não deveria realmente que não queremos coisa al-
haver criaturas no mundo que não fos- guma da qual, de algum modo, não
sem isentas de erro, isto é, que não fos- concebamos algo, mas nego que nosso
sem inteiramente perfeitas. entender e nosso querer sejam de igual
Demais, o que supondes em seguida extensão 103 ; pois é certo que podemos
não é de modo algum verdadeiro, a ter muitas vontades de uma mesma
saber, que Deus nos destina a más coisa, e no entanto podemos conhecer
obras e que nos dá imperfeições e ou- dela muito pouca coisa; e quando não
tras coisas semelhantes. Como tam- julgamos bem, não desejamos mal por
bém não é verdadeiro que Deus tenha causa disso, mas talvez alguma coisa
dado ao homem uma faculdade de jul- de mal; e pode-se mesmo dizer, que
gar incerta, confusa e insuficiente para nada concebemos de mal, mas somente
essas poucas coisas que ele quis sub- que se diz que concebemos mal quan-
meter a seu juízo. do julgamos que concebemos algo
537. III. Quereis que vos diga, em além daquilo que efetivamente conce-
poucas palavras, ao que pode a vonta- bemos.
de estender-se que ultrapasse os limites 538. Ainda que negueis, em segui-
do entendimento^02? É, numa palavra, da, que a indiferença da vontade seja
a todas as coisas nas quais erramos. de si mui manifesta, não quero entre-
Assim, quando julgais que o espírito é tanto tentar prová-lo a vós1 ° 4 , pois
um corpo sutil e ténue, podeis, na ver- isto é tal que cada um deve senti-lo e
dade, conceber que ele é um espírito, experimentá-lo em si mesmo mais do
isto é, uma coisa que pensa, e também que persuadir-se disto pela razão; e
que um corpo ténue é uma coisa exten- certamente não é uma maravilha se, no
sa; mas que a coisa pensante e a exten- papel que interpretais, e dada a natural
sa sejam apenas uma mesma coisa, desproporção existente entre a carne e
isto certamente vós não o concebeis, o espírito, pareça que não cuidais e
mas somente quereis acreditá-lo, por- não notais a maneira pela qual o espí-
que já acreditastes nisto anteriormente rito age no interior de si mesmo. Não
sejais portanto livre, se a tanto vos
1
° ' Parece que o Universo seria mais perfeito, diz apraz; quanto a mim gozarei de minha
Gassendi, se cada uma de suas partes fosse isenta de
faltas, assim como uma república é melhor se todos
os cidadãos são gente de bem. 103 "Não vejo por que devíeis estender a vontade
102
Gassenai sustenta que o entendimento tem além dos limites do entendimento, visto que ela não
pelo menos tanta extensão quanto a vontade e que a julga coisas que o entendimento não concebe."
104
responsabilidade do erro incumbe menos ao livre A tese da dependência do livre arbítrio para
arbítrio por julgar mal do que ao entendimento por com o entendimento chega em Gassendi até a nega-
não conceber bem. ção do livre arbítrio.
206 DESCARTES

liberdade, pois não só a sinto em mim portanto, voltar-se para coisas às quais
mesmo como também vejo que, tendo o entendimento não a dirige, e no
0 desígnio de combatê-la, em lugar de entanto era isto o que negáveis há
opor-lhe boas e sólidas razões, vós vos pouco e no que consiste presentemente
contentais simplesmente em negá-la. E o tema de nossa discussão; se ela é
talvez eu encontrasse mais crédito no determinada pelo entendimento, não é
espírito dos outros afirmando o que ela, portanto, que se mantém sob sua
experimentei, e que cada um pode tam- guarda; mas somente ocorre que, como
bém experimentar em si mesmo, do
ela se voltava anteriormente em dire-
que vós, que negais uma coisa pelo
simples fato de que jamais talvez a ha- ção ao falso que lhe era por ele propos-
veis experimentado10 5 . E, no entanto, to, da mesma maneira por acaso ela se
é fácil julgar por vossas próprias pala- volta agora para o verdadeiro, porque
vras que algumas vezes a experimen- o entendimento lho propõe. Mas, além
tastes: pois, quando negais que possa- disso, eu desejaria saber qual é a natu-
mos impedir-nos de cair em erro, reza do falso que concebeis e como
porque não quereis que a vontade se pensais que pode ser objeto do entendi-
dirija a coisa alguma sem que a tanto mento. Pois, para mim, que não enten-
seja determinada pelo entendimento, do pelo falso nada que não seja a pri-
vós estais de acordo que podemos pro- vação do verdadeiro, julgo haver uma
ceder de maneira a não perseverarmos inteira repugnância que o entendi-
nisto, o que não se pode fazer de modo mento apreenda o falso sob a forma ou
algum sem a liberdade que tem a von- a aparência do verdadeiro, o que seria
tade de se dirigir a isto ou aquilo sem todavia necessário se ele jamais deter-
esperar a determinação do entendi- minasse a vontade a abraçar a falsida-
mento; liberdade que, todavia, não
de.
quereis reconhecer. Pois, se o entendi-
mento determinou uma vez a vontade a 539. IV. No que concerne ao fruto
fazer um falso juízo, eu vos pergunto, destas Meditações, parece-me ter ad-
quando ela começa pela primeira vez a vertido suficientemente no prefácio, o
querer cuidar de não perseverar no que penso que lestes, que ele não será
erro, o que é que a determina a grande para aqueles que, não se dando
tanto 1 0 6 ? Se for ela própria, poderá, ao trabalho de compreender a ordem e
o nexo de minhas razões, cuidarem
1 5
° Até agora a dialética parece mais brilhante do apenas de procurar em todas as oca-
que convincente: por que deveria Gassendi apresen- siões motivos de disputas. E quanto ao
tar razões onde Descartes se contenta em invocar o
testemunho do "que se pode sentir e experimentar método pelo qual poderíamos discernir
em si mesmo"? Qual a sua culpa, se se recusa a as coisas que concebemos de fato cla-
admitir o que não experimentou? Mas Descartes irá ramente das coisas de que apenas nos
justamente demonstrar (pelo absurdo) que seu
adversário não podia deixar de efetuar essa expe persuadimos conceber clara e distinta-
riência do livre arbítrio. mente, embora eu pense tê-lo ensinado
106
O dilema é o seguinte: Gassendi admite que
podemos nos coibir de perseverar no erro; mas de maneira bastante exata, como já o
como é determinada a vontade para isso? disse, não ousaria prometer que seria
A) ou por si própria — e a tese de Gassendi se
esboroa; facilmente compreensível aos que tra-
B) ou pelo entendimento — solução que engen balham tão pouco em se despojar de
dra um absurdo, pois cumpriria admitir que o enten- seus prejuízos, a ponto de se queixar de
dimento mesmo nos pode induzir a perceber o falso
sob a forma do verdadeiro. Vemos por aí no que a que fui demasiado longo e exato no
tese do livre arbítrio e da vontade responsável pelo mostrar o meio de se desfazer de tais
erro é inseparável do princípio da clareza e da
distinção. prejuízos.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 207

DAS COISAS QUE FORAM OBJETADAS


CONTRA A MEDITAÇÃO QUINTA

540. I. Na medida em que, após nada me atinge, pois os concebo de


haver aqui apresentado algumas de mi- maneira bem diferente da deles. Mas,
nhas palavras, acrescentais que é tudo no que concerne às essências que
quanto disse no que se refere à questão conhecemos clara e distintamente,
proposta, sou obrigado a advertir o lei- como a do triângulo ou de alguma
tor de que não cuidastes suficiente- outra figura de Geometria, far-vos-ei
mente da sequência e da conexão facilmente confessar que as ideias das
daquilo que escrevi; pois creio que ela essências que existem em nós foram
é tal, para a prova de cada questão, tiradas das ideias das coisas singula-
que todas as coisas que a precedem res; pois o que vos leva a dizer que elas
para isso contribuem e grande parte são falsas é apenas que elas não se
das que a seguem: de sorte que não acordam com a opinião que conce-
poderíeis relatar fielmente tudo quanto bestes a respeito da natureza das coi-
disse de alguma questão se não apre- sas. E mesmo um pouco depois dizeis
sentásseis ao mesmo tempo tudo o que que o objeto das Matemáticas puras,
escrevi a respeito das outras.
como o ponto, a linha, a superfície e os
541. Quanto ao que dizeis, afir- indivisíveis que deles são compostos,
mando que vos parece duro ver estabe- não pode ter nenhuma existência fora
lecer algo de imutável e de eterno além do entendimento; donde se segue ne-
de Deus, teríeis razão se se tratasse de cessariamente que jamais houve um
uma coisa existente, ou apenas se eu triângulo no mundo, nem coisa alguma
estabelecesse algo de tal modo imutá- de tudo quanto concebemos pertencer
vel que sua imutabilidade mesma não à natureza do triângulo, ou à de algu-
dependesse de Deus. Mas, assim como ma outra figura de Geometria, e por-
os poetas fingem que os destinos foram
tanto que as essências dessas coisas
na verdade feitos e ordenados por Júpi-
não foram tiradas de quaisquer coisas
ter, mas que, uma vez por ele estabele-
existentes. Mas, dizeis vós, elas são fal-
cidos, ele próprio é obrigado a guar-
dá-los, da mesma maneira não penso, sas. Sim, segundo vossa opinião, uma
na verdade, que as essências das coisas vez que supondes que a natureza das
e essas verdades matemáticas que se coisas é tal que elas não lhe podem ser
podem conhecer sejam independentes conformes. Mas, se não sustentais tam-
de Deus, mas penso todavia que, como bém que toda a Geometria é falsa, não
Deus assim o quis e dispôs, elas são poderíeis negar que nela se demons-
imutáveis e eternas 1 0 7 . Ora, que isto tram muitas verdades, que, não mu-
vos pareça duro ou não, pouco me dando e sendo sempre as mesmas, não
importa; para mim, basta que seja é sem razão que são chamadas imutá-
verdadeiro. veis e eternas.
542. O que alegais em seguida con- 543. Mas o fato de elas não serem
tra os universais dos dialéticos em talvez conformes à opinião que tendes
da natureza das coisas, nem mesmo
107
Alusão à teoria da criação das verdades àquela que Demócrito e Epicuro cons-
eternas. truíram e compuseram de átomos, não
208 DESCARTES

é em relação a elas senão uma denomi- a tenhamos concebido ela própria, mas
nação exterior, que não lhes causa antes o verdadeiro triângulo. Da
nenhuma transformação; e, todavia, mesma maneira que, quando lançamos
não se pode duvidar que elas sejam o olhar sobre um papel onde há alguns
conformes a esta verdadeira natureza traços dispostos e arranjados de tal
das coisas que foi feita e construída modo que representam o rosto de um
pelo verdadeiro Deus: não que haja no homem, a visão não excita tanto em
mundo substâncias que tenham com- nós a ideia dos próprios traços quanto
primento sem largura, ou largura sem a ideia de um homem: o que não ocor-
profundidade; mas porque as figuras reria, se o rosto de um homem não nos
geométricas não são consideradas fosse conhecido de outro lugar, e se
como substâncias, mas somente como não estivéssemos mais acostumados a
os limites nos quais a substância está pensar nele do que em seus traços, os
contida. No entanto, não concordo quais mui amiúde não poderíamos dis-
com que as ideias dessas figuras nos tinguir uns dos outros se estivéssemos
tenham jamais caído sob os sentidos, um pouco distanciados. Assim, certa-
como cada um se persuade ordinaria- mente, não poderíamos jamais conhe-
mente; pois, ainda que não haja dúvida cer o triângulo geométrico através
que possam existir no mundo, tal como daquele que vemos traçado sobre o
os geómetras as consideram, nego, no papel, se nosso espírito não 108
recebesse a
entanto, que existam quaisquer em sua ideia de outra parte .
torno de nós, a não ser que sejam tão 544. II. Não vejo aqui a que género
pequenas que não nos impressionem os de coisas quereis que a existência per-
sentidos: pois são ordinariamente com- tença, nem por que ela não pode ser
postas de linhas retas, e não penso que denominada uma propriedade 109 ,
jamais tenha tocado nossos sentidos como a onipotência, tomando o nome
parte alguma de uma linha que fosse de propriedade para toda espécie de
verdadeiramente reta. Por isso, quando atributo ou para tudo o que pode ser
chegamos a olhar através de uma lune-
ta aquelas que nos haviam parecido as 1 0 8 Para refutar a doutrina cartesiana das essên-
mais retas, vemo-las inteiramente irre- cias como verdades eternas, Gassendi expunha que
as essências são generalidades constituídas empiri-
gulares e curvadas em todas as partes, camente, que só tiram sua verdade das coisas singu-
como ondas. E, portanto, quando per- lares de que são abstraídas. Responde Descartes:
cebemos pela primeira vez em nossa Como poderíamos extrair as ideias geométricas do
sensível, visto que elas jamais aí se encontram?
infância uma figura triangular traçada 1 0 9 A recusa de Gassendi em considerar a exis-
sobre o papel, tal figura não nos pôde tência como uma propriedade ou uma perfeição
anuncia a crítica kantiana da prova ontológica.
ensinar como era necessário conceber Gassendi escreve, por exemplo: "O que existe e que,
o triângulo geométrico, posto que não além da existência, tem muitas perfeições, não tem a
representava melhor do que um mau existência como perfeição singular. . . mas como
forma ou ato pelo qual a coisa mesma e suas perfei-
desenho representa uma imagem per- ções são existentes, e sem a qual nem a coisa nem
feita. Mas, na medida em que a ideia suas perfeições existiriam de modo a l g u m . . . Se
uma coisa carece de existência, não se diz que está
verdadeira do triângulo já estava em privada de alguma perfeição, mas que é nula ou que
nós, e que nosso espírito podia conce- ela não é absolutamente". Em Gassendi, como em
bê-la mais facilmente do que a figura Kant, esta recusa provém da impossibilidade de
menos simples ou mais composta de considerar a existência de outro modo, a não ser
como existência sensível, tal como notará Hegel
um triângulo pintado, daí decorre que, (Enciclopédia, Introdução § 51). Quanto à crítica de
Marx à posição kantiana, cf. a Dissertação sobre
tendo visto essa figura composta, não Demócrito e Epicuro, in fine.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 209

atribuído a uma coisa, como efetiva- ter sido tão fácil de resolver. No que
mente deve ser aqui entendido. Mas, concerne ao que acrescentais em segui-
antes, a existência necessária é verda- da, já respondi suficientemente; e enga-
deiramente em Deus uma propriedade nai-vos grandemente quando dizeis
tomada no sentido menos amplo, por- que não se demonstra a existência de
que apenas a ele convém, e porque só Deus como se demonstra que todo
nele faz parte de sua essência. Eis por triângulo retilíneo tem seus três ângu-
que também a existência do triângulo los iguais a dois retos; pois a razão é
não deve ser comparada com a exis- semelhante nos dois casos, exceto que
tência de Deus, porque ela tem em a demonstração que prova a existência
Deus lima relação manifestamente di- de Deus é muito mais simples e evi-
ferente com a essência, que não tem no dente do que a outra. E enfim, silencio
triângulo 110 ; e não cometo mais aqui sobre o restante do que prosseguis,
o erro que os lógicos chamam de peti- porque, quando dizeis que não explico
ção de princípio, quando coloco a exis- bastante as coisas e que minhas provas
tência entre as coisas que pertencem à não são convincentes, penso que a me-
existência de Deus, do que quando, lhor título poder-se-ia dizer o mesmo
entre as propriedades do triângulo, co- de vós e das vossas.
loco a igualdade da grandeza de seus 545. III. Contra tudo o que apre-
três ângulos com dois retos. Não é ver- sentais aqui de Diágoras, de Teodoro,
dade também que a essência e a exis- de Pitágoras e de vários outros, opo-
tência em Deus, tanto quanto no triân- nho-vos os céticos, que colocavam em
gulo, podem ser concebidas uma sem a dúvida as próprias demonstrações de
outra, porque Deus é seu próprio ser e Geometria, e sustento que eles não o
o triângulo não. E, todavia, não nego teriam feito se tivessem tido o conheci-
que a existência possível seja uma per- mento certo da verdade de um
feição na ideia do triângulo, como a Deus 1 1 1 ; e mesmo se uma coisa pare-
existência necessária é uma perfeição cer verdadeira a mais pessoas, isto não
na ideia de Deus, pois isso a torna provará que essa coisa seja mais notó-
mais perfeita do que o são as ideias de ria e mais manifesta do que outra;
todas essas quimeras que supomos não prová-lo-á antes o fato de que aqueles
poderem ser produzidas. E, portanto, que têm um conhecimento suficiente de
não diminuístes em nada a força de uma e de outra reconhecem que uma é
meu argumento e permaneceis sempre primeiramente conhecida, mais evi-
enganado por este sofisma que dizeis dente e mais segura do que a outra.

110
Gassendi considera sofisma a assimilação da ' ' n Gassendi invoca o exemplo dos geómetras
existência em Deus a uma propriedade necessária antigos para mostrar que o conhecimento da neces-
no triângulo: a existência de Deus e a existência do sidade das verdades geométricas independe do
triângulo é que deveriam ser postas no mesmo conhecimento da existência de Deus. De resto, pros-
plano. Ora, para Descartes, neste caso, não se leva segue ele, "essas demonstrações são de tal evidência
mais em conta a distinção essencial entre a exis- e certeza que, sem esperar nossa deliberação, elas
tência necessária, inclusa na essência de Deus, e a nos arrancam, por si mesmas, o nosso consentimen-
existência somente possível, inclusa na do triângulo. to", ao mesmo título que o Cogito.
210 DESCARTES

DAS COISAS QUE FORAM OBJETADAS


CONTRA A MEDITAÇÃO SEXTA

546. I. Já refutei acima o que ne- forma do corpo humano e de algumas


gais aqui, a saber, que as coisas mate- outras coisas muito simples, muito
riais, enquanto objeto das Matemá- leves e imperceptíveis. Pois quem quer
ticas puras, possam ter qualquer que se represente Deus desta maneira,
existência. No que se refere à intelec- ou mesmo o espírito humano, tenta
ção de um quiliógono 112 , não é de imaginar uma coisa que não é absolu-
maneira alguma verdadeiro que seja tamente imaginável, e apenas figura
confusa, pois dele pode-se mui clara e uma ideia a que atribui falsamente o
mui distintamente demonstrar várias nome de Deus ou de espírito; pois na
coisas, o que não se poderia de manei- verdadeira ideia de espírito nada há
ra nenhuma fazer se o conhecêssemos contido senão o tão-só pensamento
apenas confusamente, ou, como dizeis, com todos os seus atributos, entre os
se lhe conhecêssemos apenas o nome; quais não há nenhum que seja corpó-
mas é mui certo que o concebemos mui reo.
claramente na sua totalidade e num só 547. II. Mostrais aqui claramente
momento, embora não o possamos que vos apoiais somente em vossos
assim claramente imaginar; donde é prejuízos, sem nunca vos desfazer
evidente que as faculdades de entender deles, posto que não quereis que tenha-
e de imaginar não diferem apenas mos a menor suspeita de falsidade em
segundo o mais e o menos, mas tam- relação às coisas em que jamais nota-
bém como maneiras de agir totalmente mos alguma; é por isso que dizeis que
diferentes. Pois na intelecção o espírito quando olhamos de perto e tocamos
não se serve senão de si mesmo, ao quase com a mão uma torre, estamos
passo que na imaginação ele contem- certos de que ela é quadrada, se assim
pla alguma forma corpórea; e, ainda ela nos parece; e que, quando estamos
que as figuras geométricas sejam intei- de fato acordados, não podemos estar
ramente corpóreas, todavia não é pre- em dúvida se estamos despertos ou se
ciso que nos persuadamos de que essas sonhamos, e outras coisas semelhan-
ideias que servem para no-las fazer tes; pois não tendes nenhuma razão de
conceber sejam também corpóreas acreditar que tenhais alguma vez exa-
quando não se apresentem à imagina- minado e observado bastante cuidado-
ção; e, enfim, isto não pode ser senão samente todas as coisas em que pode
digno de vós, ó carne, pensar que as acontecer que erreis; e talvez não fosse
ideias de Deus, do anjo e da alma do penoso demonstrar que vos enganais
homem sejam corpóreas ou quase algumas vezes em coisas que admitis
corpóreas, por terem sido tiradas da como verdadeiras e como seguras.
Mas, quando voltais a falar que pelo
1 2
' Sobre a Meditação Quarta, §§ 2 e 3. Gassendi menos não se pode duvidar de que as
nega que se possa distinguir a imaginação e a inte- coisas nos pareçam como elas são, vol-
lecção pura. "Se, desde o heptágono e o óctogono,
quisermos percorrer todas as outras figuras até o tais ao que eu disse; pois isto mesmo
quiliógono e o miriágono. . . poderíamos dizer em está em termos expressos na minha
que lugar, ou melhor, em que figura a imaginação Meditação Segunda; mas aqui se trata-
cessa e só a intelecção permanece?"
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 211

va da verdade das coisas que existem algum vapor, algum ar, ou qualquer
fora de nós, no que não vejo que corpo que seja, por sutil e ténue que
tenhais dito coisa alguma de verda- possa ser 11 4 ; mas, quanto a saber se
deiro. efetivamente era diferente do corpo,
548. III. Não me detenho aqui em disse nessa ocasião que não era o
coisas que tantas vezes repisastes e que momento de discuti-lo. Tendo-o reser-
ainda nesta passagem repetis tão vã- vado para esta Meditação Sexta, foi
mente; por exemplo, que há muitas nela que tratei amplamente de tal tema
coisas que adiantei sem prova, as quais e onde decidi esta questão por uma
afirmo, não obstante, ter demonstrado demonstração mui forte e verdadeira.
mui evidentemente; como também que Mas vós, ao contrário, confundindo a
somente quis falar do corpo grosseiro e questão que concerne a como pode o
palpável quando excluí o corpo de espírito ser concebido com aquela que
minha essência; ainda que, todavia, se refere ao que ele é efetivamente, não
meu desígnio tenha sido excluir de dais a entender outra coisa senão que
minha essência toda espécie de corpo, nada compreendestes distintamente de
por pequeno e sutil que possa ser 113 , e todas estas coisas.
outras coisas semelhantes; pois, que se 549. IV. Perguntais aqui como
poderá aqui responder a tantas pala- considero que a espécie ou a ideia do
vras ditas e adiantadas, sem qualquer corpo, que é extenso, pode ser recebida
fundamento razoável, se não negá-las em mim que sou uma coisa inexten-
mui simplesmente? Contudo, direi de sa 11 5 . Respondo que nenhuma espécie
passagem que gostaria de saber sobre corporal é recebida no espírito, mas
o que vos fundamentais para dizer que que a concepção ou intelecção pura
falei mais do corpo maciço e grosseiro das coisas, corpóreas ou espirituais, é
do que do corpo sutil e ténue. É, decla- feita sem qualquer imagem ou espécie
rais, porque eu disse que tenho um corpórea; e quanto à imaginação, que
corpo ao qual estou conjugado e tam- não pode ser senão das coisas corpó-
bém que é certo que eu, isto é, minha reas, é verdade que para elaborar uma
alma, é distinta de meu corpo, onde é necessário uma espécie que seja um
confesso que não vejo por que tais verdadeiro corpo e à qual o espírito se
palavras não poderiam também ser aplique, mas não que seja recebida no
relacionadas ao corpo sutil e impercep- espírito. O que dizeis da ideia do sol,
tível, assim como àquele que é mais que um cego de nascença forma pelo
grosseiro e palpável; e não creio que simples conhecimento que tem de seu
tal pensamento possa ocorrer ao espí- calor, é facilmente refutável11 6 ; pois
rito de outrem além de vós. De resto, esse cego pode perfeitamente ter uma
mostrei claramente, na Meditação Se-
gunda, que o espírito poderia ser con- ' ' 4 Gassendi lembra que a Meditação Segunda
não prova absolutamente que eu não seja "um
cebido como uma substância existente, vento, um fogo, um vapor, um ar", o que Descartes
antes mesmo que soubéssemos se há recusa em nome da ordem das razões.
11 5
no mundo algum vento, algum fogo, Como poderia a ideia do corpo, pergunta Gas-
sendi, representá-lo, se ela não fosse, por sua vez,
extensa? E se nosso espírito não fosse uma coisa
,13
Sobre a Meditação Quarta, § 17. A dificul- extensa, como poderia ela residir nele?
1 6
dade, julga Gassendi, não está em saber se meu ' Gassendi: se um cego de nascença dissesse que
espírito difere do "corpo maciço e grosseiro" — o sol é uma "coisa que esquenta", não teria disso
isso é certo —, mas em saber se o espírito não é uma ideia clara e distinta. Quem vos garante que
"um corpo sutil e fino difuso neste corpo espesso e tendes uma ideia clara e distinta de vós mesmo
maciço". quando vos definis como uma "coisa que pensa"?
212 DESCARTES

ideia clara e distinta do sol como de houvesse alguém que quisesse dizer
uma coisa que aquece, embora não a que Bucefalo é uma música, não seria
tenha como a ideia de uma coisa que em vão e sem razão que tal coisa seria
aclara e ilumina. E é sem razão que me negada por outrem. E certamente em
comparais a esse cego; primeiramente todo o resto que acrescentais aqui para
porque o conhecimento de uma coisa provar que o espírito tem extensão 119 ,
que pensa se estende muito mais longe na medida, dizeis vós, em que ele se
do que aquele de uma coisa que aque- serve do corpo que é extenso, não me
ce, e mesmo é muito mais amplo do parece que raciocinais melhor do que
que qualquer conhecimento que tenha- se, pelo fato de Bucefalo relinchar e
mos de qualquer outra coisa que seja, assim emitir sons que podem ser rela-
como mostrei no devido lugar, è tam- cionados com a música, tirásseis a
bém porque não há ninguém que possa consequência de que Bucefalo é, por-
mostrar que essa ideia do sol que o tanto, uma música. Pois, ainda que o
cego elabora não contenha tudo o que espírito seja unido a todo o corpo, não
se possa conhecer dele, exceto aquele se segue daí que ele seja extenso por
que, sendo dotado do sentido da vista, todo o corpo, pois não é próprio do
conhece, além disso, sua figura e sua espírito ser extenso, mas somente pen-
luz; mas, quanto a vós, não só não sar. E ele não concebe a extensão por
conheceis mais do que eu no tocante uma espécie extensa que exista nele,
ao espírito como também não perce- embora imagine voltando-se e aplican-
.beis aí tudo o que vejo11 7 , de sorte que do-se a uma espécie corpórea que é
nisto seja antes vós que pareceis um extensa, como o disse anteriormente.
cego, e posso no máximo, do vosso E, enfim, não é necessário que o espí-
ponto de vista, ser chamado de vesgo rito seja da ordem e da natureza do
ou pouco clarividente, com todos os corpo, conquanto tenha a força ou a
demais homens. virtude de movê-lo.
550. De resto, não acrescentei que o 551. V. O que dizeis nessa passa-
espírito não era extenso para explicar gem, no que se refere à união entre o
como ele é e dar a conhecer sua nature- espírito e o corpo, é semelhante às difi-
za, mas somente para advertir que se culdades precedentes. Nada objetais
enganam aqueles que pensam que ele é contra minhas razões, mas colocais
extenso1 n 8 . Da mesma maneira que, se somente dúvidas que vos parecem deri-
1 7
var de minhas conclusões, embora
' Por "pensamento", Gassendi e Descartes não efetivamente não vos ocorram ao espí-
entendem a mesma coisa: Gassendi recusa-se a ver
o atributo principal da res cogitans no pensamento- rito senão porque desejais submeter ao
entendimento. Poder-se-á consultar, acerca dessa exame da imaginação coisas que de
questão, o debate que opôs Alquié e Guéroult no
Congresso Descartes de Royaumont (Descartes, sua própria natureza não estão sujeitas
Ed. Minuit, págs. 33-71). Alquié sustentava que a a tal jurisdição. Assim, quando quereis
res cogitans é algo mais do que o pensamento comparar aqui a mistura que se faz
enquanto entendimento, sendo este apenas um
modo de substância pensante ao mesmo título que a entre o corpo e o espírito com a de dois
vontade. "Não sei absolutamente", replicava Gué- corpos misturados, basta-me responder
roult, "de textos em que Descartes oponha um
suporte, uma qualidade oculta, um ser que não que não se deve fazer entre essas coisas
pudesse ser atingido pelo pensamento visto que não comparação alguma, pois que são de
seria
1 8
o pensamento..." (pág. 39). dois géneros totalmente diferentes, e
' Gassendi: "Dizeis que não sois uma coisa
extensa; certamente, fico sabendo por aí o que não 119
sois, mas não o que sois. . . Ter-se-ia uma ideia Gassendi pergunta nesta passagem como pode
bastante clara e distinta do Bucefalo se se conhe- a alma ser unida ao corpo todo ou a parte do corpo,
cesse pelo menos que ele não é uma música?" se ela não é extensa.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 213

não se deve imaginar que o espírito de sua doutrina, e cuja amizade me


tenha partes, ainda que conceba partes será sempre muito cara; por isso pro-
no corpo. Pos, quem vos ensinou que testo, e ele próprio o pode saber, que
tudo aquilo que o espírito concebe procurarei sempre, tanto quanto me for
deve existir realmente nele? Certa- possível, as ocasiões de adquiri-la. E
mente, se isto acontecesse, quando ele por isso que lhe suplico não ver mal se,
concebe a grandeza do Universo, teria refutando suas objeções, usei da liber-
também em si essa grandeza e assim dade comum aos filósofos; como tam-
não somente seria extenso mas seria bém de minha parte asseguro-lhe que
também maior do que o mundo inteiro. nelas nada encontrei que me não fosse
552. VI. Não dizeis nada aqui que mui agradável; mas sobretudo fiquei
me seja contrário, e no entanto falais maravilhado com o fato de um homem
muito; donde o leitor pode descobrir de seu mérito, num discurso tão longo
que não se deve julgar da força de vos- e tão cuidadosamente elaborado, não
sas razões pela prolixidade de vossas ter apresentado nenhuma razão que
palavras. destruísse e derrubasse as minhas, e
Até aqui o espírito discorreu com a igualmente nada ter oposto contra mi-
carne e, como era razoável, em muitas nhas conclusões a que não me tenha
coisas não seguiu seus sentimentos. sido muito fácil responder 120 .
Mas agora eu levanto a máscara e 120
reconheço que verdadeiramente falo ao A ironia de Descartes é feroz. Ele tem a sensa-
ção de que Gassendi nada compreendeu de suas
Sr. Gassendi, personagem tanto reco- "razões", e é verdade. Mas ainda assim as Quintas
mendável pela integridade de seus cos- Objeções são as mais interessantes de todas, porque
são as melhores estruturadas: Gassendi é um filóso-
tumes e pela candura de seu espírito fo; fala em nome de uma doutrina constituída e
quanto pela profundeza e pela sutileza exprime um pensamento original.
CARTA
DO SENHOR DESCARTES AO SENHOR CLERSELIER,
SERVINDO DE RESPOSTA A UMA COI.ETÃNEA DAS PRINCIPAIS
INSTÂNCIAS FEITAS PELO SENHOR GASSENDI CONTRA
AS PRECEDENTES RESPOSTAS'z'

Senhor,

553. Devo-vos muita obrigação que se deram ao trabalho de fazê-lo


pelo fato de, vendo que negligenciei devem agora julgar, como eu, que
responder ao grosso livro de instâncias todas as objeções que esse livro con-
que o autor das Quintas Objeções ela- tém são apenas fundamentadas em
borou contra minhas respostas, que algumas palavras mal compreendidas
tenhais pedido a alguns de vossos ami- ou algumas suposições falsas; visto
gos que recolhessem as mais fortes que todas aquelas que eles notaram
razões desse livro e que me tenhais são de tal sorte e todavia foram tão
enviado o extrato que dele fizeram. diligentes que mesmo acrescentaram
Tivestes nisso mais cuidado pela algumas que não me lembro de ter
minha reputação do que eu mesmo; lido.
pois eu vos asseguro que me é indife- Eles notam três objeções contra a
rente ser estimado ou desprezado por Primeira Meditação, a saber: 1.° que
aqueles que semelhantes razões pode- eu peço uma coisa impossível ao pre-
riam persuadir. Os melhores espíritos tender que sejam abandonadas todas
de meu conhecimento que leram o as formas de prejuízo; 2." que, pen-
livro dele me testemunharam que nada sando abandoná-los, revestimo-nos de
nele encontraram que os detivesse; é a outros que são mais danosos; 3." e que
eles somente que desejo satisfazer. Sei o método de duvidar de tudo, que pro-
que a maioria dos homens repara me- pus, não pode servir para encontrar
lhor nas aparências do que na verdade qualquer verdade.
e julga antes mal do que bem; eis por 554. A primeira das objeções fun-
que não creio que a sua aprovação da-se no fato de que o autor desse livro
valha a pena que eu faça tudo o que não considerou que a palavra prejuízo
seria útil para adquiri-la. Mas não não se estende a todas as noções que
deixo de me sentir à vontade em face existem em nosso espírito, das quais
da coletânea que me enviastes, e sinto- confesso ser impossível nos desfazer-
me obrigado a respondê-la mais por mos, mas somente a todas as opiniões
reconhecimento do trabalho de vossos que os juízos que fizemos anterior-
amigos do que por necessidade de mente deixaram em nossa crença; e, já
minha defesa; pois creio que aqueles que julgar ou não julgar é uma ação da
vontade, como expliquei no devido
12
' Gassendi fizera novas objeções às Respostas de lugar, é evidente que ela está a nosso
Descartes e Clerselier mandara fazer extratos delas. alcance; pois, enfim, para se desfazer
216 DESCARTES

de toda espécie de prejuízo, nada mais existo, o autor das Instâncias quer que
é preciso do que se resolver a nada eu suponha esta premissa maior: aque-
afirmar ou negar de tudo o que ante- le que pensa é; e, assim, que tenha já
riormente se afirmou ou negou, senão esposado um prejuízo. No que ele se
após havê-lo novamente examinado, engana novamente quanto ao uso da
ainda que não se deixe de reter todas palavra prejuízo: pois, embora se
as mesmas noções na memória. Disse, possa dar esse nome a tal proposição
todavia, que seria difícil expulsar quando a proferimos sem atenção, e
assim de nossa crença tudo o que aí quando somente acreditamos que ela é
anteriormente se havia colocado, em verdadeira porque recordamos já tê-la
parte porque é necessário ter alguma assim julgado anteriormente, não se
razão de duvidar antes de se determi- pode dizer, todavia, que ela seja um
nar a tanto (e foi por isso que propus prejuízo quando a examinamos, por-
as principais dessas razões em minha que parece tão evidente ao entendi-
Primeira Meditação), e em parte tam- mento que este não poderia impedir-se
bém porque, qualquer que seja a reso- de crer nela, ainda que seja a primeira
lução que tomemos de nada afirmar ou vez em sua vida que nela pense e que
negar, esquecemo-nos facilmente dela por conseguinte não tenha quanto a
em seguida se não a imprimirmos for- isso qualquer prejuízo 122 . Mas o erro
temente na memória; eis por que dese- que é aqui mais considerável é que esse
jei que se pensasse nisso cuidadosa- autor supõe que o conhecimento das
mente. proposições particulares deve sempre
ser deduzido das universais, segundo a
555. A segunda objeção é apenas ordem dos silogismos da dialética 123 ,
uma suposição manifestamente falsa; no que mostra saber bem pouco de que
pois, embora eu houvesse dito ser maneira se deve procurar a verdade;
mesmo necessário esforçar-se por pois é certo que para encontrá-la cum-
negar as coisas que anteriormente pre sempre começar pelas noções par-
eram tidas por demasiado asseguradas, ticulares, para em seguida chegar às
limitei expressamente que isto só se gerais, embora seja possível também,
deveria fazer durante o tempo em que reciprocamente, tendo-se encontrado
se dirigisse toda a atenção à procura as gerais, deduzir delas outras particu-
de algo mais certo do que tudo quanto lares. Assim, quando se ensina a uma
assim se poderia negar, tempo em cujo criança os elementos da Geometria,
transcurso é evidente que não se pode- não a faremos entender em geral que,
ria deixar de se revestir de algum pre- quando, de duas quantidades iguais,
juízo que fosse danoso. tiramos partes iguais, os restos perma-
necem iguais, ou que o todo é maior do
556. A terceira também nada con- que suas partes, se não lhes mostrar-
tém senão uma cavilação; pois, embo- mos exemplos em casos particulares. E
ra seja verdadeiro que a dúvida apenas foi por não ter cuidado disso que nosso
não basta para estabelecer qualquer autor enganou-se em tantos falsos
verdade, ela não deixa de ser útil para raciocínios, com os quais engrossou
preparar o espírito a estabelecê-la seu livro; pois ele nada fez senão com-
após, e é somente nisto que eu a por falsas premissas maiores à sua fan-
empreguei.
122
557. Contra a Meditação Segunda, O Cogito só se toma um prejuízo (ante a prova
da existência de Deus) quando não é reativado
vossos amigos notam seis coisas. A atualmente.
123
primeira é que dizendo: penso, logo Cf.Princípios,1,49.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 217

tasia, como se eu tivesse delas dedu- substância pensante haver julgado que
zido as verdades que expliquei. é intelectual, porque notou em si todas
558. A segunda objeção que ano- as propriedades das substâncias inte-
tam aqui vossos amigos é que, para lectuais, e não pôde advertir aí nenhu-
saber que se pensa, é preciso saber o ma das pertencentes ao corpo, pergun-
que é o pensamento; o que não sei de ta-se-lhe ainda como sabe se não é um
modo algum, dizem eles, porque tudo corpo mais do que uma substância
neguei. Mas eu apenas neguei os pre- imaterial.
juízos e nunca as noções, como estas, 561. A quinta objeção é seme-
que se conhecem sem qualquer afirma- lhante: Embora eu não encontre exten-
ção ou negação. são em meu pensamento, não se segue
559. A terceira é que o pensamento que ele não seja extenso, já que meu
não pode existir sem objeto; por exem- pensamento não é a regra da verdade
plo, sem o corpo. Onde é preciso evitar das coisas. E também a sexta: Pode
o equívoco da palavra pensamento, acontecer que a distinção que descubro
que se pode tomar como a coisa pen- por meu pensamento entre o pensa-
sante e também como a ação dessa mento e o corpo seja falsa. Mas cum-
coisa 12 4 ; ora, nego que a coisa pen- pre notar aqui particularmente o equí-
sante tenha necessidade de outro obje- voco que existe nestas palavras: meu
to além de si mesma para exercer sua pensamento não é a regra da verdade
ação, embora ela possa também esten- das coisas; pois se quer dizer que meu
dê-la às coisas materiais quando as pensamento não deve ser a regra dos
examina. outros para obrigá-los a crer em uma
560. A quarta é que, embora eu coisa que penso verdadeira, estou de
tenha um pensamento de mim mesmo, pleno acordo; mas isto não vem aqui a
não sei se este pensamento é mais uma propósito, pois não quis obrigar nin-
ação corporal ou um átomo que se guém a seguir minha autoridade; ao
move do que uma substância imaterial; contrário, adverti em diversos lugares
no que o equívoco do nome pensa- que não nos devemos deixar persuadir
mento é repetido, e não vejo aqui nada apenas pela evidência das razões. Ade-
afora uma questão sem fundamento e mais, se tomamos indiferentemente a
que é semelhante à seguinte: julgais palavra pensamento por todas as espé-
que sois um homem porque percebeis cies de operações da alma, é certo que
em vós todas as coisas na ocorrência podemos ter muitos pensamentos dos
das quais chamais de homens aqueles quais nada se pode inferir no referente
em que elas se encontram; mas, como às coisas existentes fora de nós; mas
sabeis se não sois um elefante e não isso também não vem a propósito
um homem, por algumas outras razões nesse lugar, quando se trata apenas de
que não podeis perceber? Pois, após a pensamentos que são percepções cla-
ras e distintas e de juízos que cada um
124
A respeito dessa distinção, cf. Princípios, I, deve fazer consigo em seguida a essas
63-64. E nomeadamente: "Quando os consideramos percepções12 5 . Eis por que, no sentido
(o pensamento e a extensão) como as propriedades
das substâncias de que dependem, distinguimo-los 125
facilmente dessas substâncias e os tomamos tais Distinção entre: a) meu pensamento indivi-
como são verdadeiramente; ao passo que, se quiser- dual; b) o pensamento na medida em que recobre
mos considerá-los sem substância, isso poderá não importa qual cogitatio; c) o pensamento claro e
levar-nos a tomá-los por coisas que subsistem por si distinto que, só ele, constitui autoridade. Para Des-
mesmas". Todavia, esta distinção de razão entre a cartes, o pensamento (ou razão) não é uma facul-
cogitatio e a res cogitans não significa que o ser dade psicológica que a gente declararia arbitraria-
pensante enquanto tal seja outra coisa senão o mente infalível, mas um domínio engendrado pela-
pensamento. evidência intelectual.
218 DESCARTES

em que essas palavras devem ser enten- persuadiram delas; 4.° e que, do fato
didas aqui, digo que o pensamento de de que me reconheço imperfeito, não se
cada um, isto é, a percepção ou conhe- segue que Deus exista. Mas, se se toma
cimento que tem de uma coisa, deve a palavra ideia da maneira pela qual eu
ser para ele a regra da verdade dessa disse expressamente que a tomava, sem
coisa, isto é, que todos os juízos que se escusar pelo equívoco daqueles que
sobre ela tiver feito devem ser confor- a restringem às imagens das coisas
mes a essa percepção para serem bons; materiais que se formam na imagina-
mesmo no tocante às verdades da fé, ç ã o 1 2 7 , não se poderia negar que
devemos perceber alguma razão que temos alguma ideia de Deus, a não ser
nos persuada de que elas foram revela- que não se entenda o que significam
das por Deus, antes de nos determi- estas palavras: a coisa mais perfeita
narmos a crer nelas 12 6 ; e, ainda que os que possamos conceber; pois é isto que
ignorantes façam bem em seguir o todos os homens chamam de Deus. E é
juízo dos mais capazes quanto às coi- chegar a estranhos extremos, para que-
sas de difícil conhecimento, é preciso rer levantar objeções, dizer que não se
todavia que seja a sua percepção que entende o que significam as palavras
lhes ensine que são ignorantes e que que são mais comuns na boca dos
aqueles cujos juízos querem seguir não homens 1 2 8 ; além do que, a confissão
o são tanto, talvez; de outra maneira, mais ímpia que alguém possa fazer é
fariam mal em segui-los e agiriam mais dizer de si mesmo, no sentido em que
como autómatos ou como animais do tomei a palavra ideia, que não tem
que como homens. Assim, é o erro nenhuma ideia de Deus: pois não con-
mais absurdo e mais exorbitante que siste somente em dizer que não o
um filósofo possa admitir o querer conhece pela razão natural, mas tam-
fazer juízos que não se relacionem às bém que, nem pela fé ou qualquer
percepções que ele tem das coisas; e outro meio, poderia saber coisa algu-
todavia, não vejo como nosso autor ma dele, porque se não se possui qual-
poderia escusar-se de ter caído nesse quer ideia dele, isto é, qualquer percep-
erro na maioria de suas objeções; pois ção que corresponda à significação
ele não quer que cada um se detenha dessa palavra Deus, em vão se dirá
em sua própria percepção, mas pre- crer que Deus é, pois equivale a afir-
tende que se deva crer nas opiniões ou mar que se crê que nada é e assim se
nas fantasias que lhe apraz propor-nos, permanece no abismo da impiedade e
embora não as perceba de modo no extremo da ignorância.
algum. 563. O que acrescentam, dizendo
que, se eu tivesse essa ideia, eu a
562. Contra a Meditação Terceira, compreenderia, é afirmado sem qual-
vossos amigos notaram: 1.° que todo quer fundamento: pois, já que a pala-
mundo não experimenta em si a ideia vra compreender significa alguma limi-
de Deus; 2." que, se eu tivesse essa tação, um espírito finito não poderia
ideia, eu a compreenderia; 3.° que mui- compreender Deus, que é infinito; mas
tos leram minhas razões e não se isto não impede que ele o perceba,
assim como se pode tocar uma monta-
12 6
"Ainda que se diga que a fé tem por objeto nha, ainda que não se possa abraçá-
coisas obscuras, não obstante a razão pela qual
acreditamos nelas não é obscura, mas é mais clara
127
do que qualquer luz natural." (Segundas respostas.) Cf. as definições 2 e 3 da exposição geométrica
Mesmo no domínio da fé, a decisão permanece das Segundas Respostas.
128
racional e a vontade não pode dispensar as razões. Cf. Cartas, a Mersenne, julho de 1641.
OBJEÇÕES E RESPOSTAS 219

la 1 2 9 . Aquilo que dizem também de tas noções que existem em nós, dizen-
minhas razões, afirmando que muitos do em seguida que não se pode estar
as leram sem por elas serem persuadi- certo de coisa alguma sem saber antes
dos, pode facilmente ser refutado, pois que Deus existe; 2.° e que o conheci-
há alguns outros que as compreen- mento de Deus de nada serve para
deram e ficaram com elas satisfeitos; adquirir o das verdades matemáticas;
pois deve-se crer mais em um só que 3." e que ele pode ser enganador. Vede
diz, sem intenção de mentir, que viu ou a respeito minha resposta às Segundas
que compreendeu alguma coisa, do que Objeções e o fim da segunda parte da
em mil outros que a negam pelo sim- Resposta às Quartas.
ples fato de que não puderam vê-la ou 566. Mas eles acrescentam no fim
compreendê-la: assim como na desco- um pensamento que não sei se nosso
berta dos antípodas acreditou-se muito autor escreveu em seu livro de Instân-
mais no relato feito por alguns mari- cias, embora seja um pensamento bas-
nheiros que fizeram a volta da terra do tante semelhante aos seus: Muitos
que em milhares de filósofos que não excelsos espíritos, dizem eles, acredi-
acreditaram que ela fosse redonda. E tam ver claramente que a extensão
já que alegam aqui os Elementos de matemática, a qual estabeleço como
Euclides, como se fossem fáceis para princípio de minha Física, não é outra
todo mundo, peço a eles que conside- coisa senão meu pensamento, e que ela
rem que entre aqueles que se estima não tem nem pode ter nenhuma subsis-
serem os mais sábios na Filosofia da tência fora de meu espírito, sendo ape-
Escola não há um entre cem que os nas uma abstração que faço do corpo
compreenda e que não há um em dez físico; e portanto que toda a minha Fí-
mil que entenda todas as demonstra- sica só pode ser imaginária e fictícia,
ções de Apolônio ou de Arquimedes, como o são todas as Matemáticas
embora elas sejam tão evidentes e tão puras; e que, na Física real das coisas
certas quanto as de Euclides. que Deus criou, é preciso uma matéria
564. Enfim, quando afirmam que real sólida e não imaginária. Eis a
do fato de que reconheço em mim al- objeção das objeções, e a suma de toda
guma imperfeição não se segue que a doutrina dos excelsos espíritos, que
Deus exista, com isso nada provam; aqui são alegados. Todas as coisas que
pois eu não a deduzi imediatamente podemos entender e conceber não são
disso sem acrescentar-lhe algo mais; e para eles senão imaginações e ficções
apenas me fazem recordar o artificio de nosso espírito e que não podem ter
desse autor que costuma truncar mi- qualquer subsistência: donde se segue
nhas razões e não apresentar delas que nada há, exceto o que não se pode
senão algumas partes para fazê-las de modo algum entender, conceber ou
parecer imperfeitas. imaginar, que se deva admitir como
130
565. Nada vejo em tudo o que nota- verdadeiro : isto é, que é preciso fe-
ram a respeito das três outras Medita- char inteiramente a porta à razão e
ções a que não tenha já amplamente 130
A objeção — de espírito ao mesmo tempo
respondido alhures, como àquilo que empirista e aristotélico — pretende que "a extensão
objetam: 1." que cometi um círculo dos geómetras" não passa de uma ficção forjada
provando a existência de Deus por cer- por nosso espírito. Descartes traduz: é uma ficção
porque podemos concebê-la clara e distintamente, e
não poupa trabalho em denunciar, por conseguinte,
129
O conhecimento da natureza de Deus pode ser um absurdo no antimatematicismo de seus adversá-
fiel sem ser total. rios.
220 DESCARTES

contentar-se em ser macaco ou papa- procede apenas de uma suposição que


gaio e não mais homem, para merecer é falsa e que de modo algum pode ser
ser colocado ao nível desses excelsos provada, a saber, que, se a alma e o
espíritos. Pois, se as coisas que pode- corpo são duas substâncias de natu-
mos conceber devem ser consideradas reza diversa, isto as impede de poder
falsas pelo simples fato de podermos agir uma sobre a outra 1 3 3 ; pois, ao
concebê-las, que restará se não que contrário, aqueles que admitem aci-
devemos apenas receber como verda- dentes reais, como o calor, a gravidade
deiras aquelas que não concebemos, e e semelhantes, não duvidam que esses
compor com elas nossa doutrina imi- acidentes possam agir sobre o corpo; e
tando os outros sem saber por que os todavia há mais diferença entre eles e o
imitamos, como procedem os maca- corpo, isto é, entre os acidentes e uma
cos, e proferindo apenas palavras cujo substância do que entre duas substân-
sentido não entendemos, como fazem cias.
os papagaios? Mas tenho muito com o 568. De resto, já que estou com a
que me consolar, porque eles associam pena na mão, notarei ainda aqui dois
aqui minha Física às Matemáticas dos equívocos que encontrei neste livro
puras, às quais desejo antes de mais de Instâncias, porque são aqueles que
nada que ela se assemelhe 131 . me parecem poder mais facilmente
surpreender os leitores menos atentos;
567. Quanto às duas questões que e desejo assim testemunhar-vos que, se
eles acrescentam também ao fim, a aí tivesse encontrado algo mais que
saber, como a alma move o corpo se acreditasse merecer resposta, não o
não é material, e como pode dele rece- teria negligenciado.
ber as espécies dos objetos corporais, 569. O primeiro encontra-se à pági-
somente me proporcionam aqui oca- na 63, onde, no concernente ao que eu
sião de advertir que nosso autor não disse em certo lugar que, enquanto a
teve razão quando, a pretexto de me alma duvida da existência de todas as
opor objeções, propôs-me muitas ques- coisas materiais, ela só se conhece
tões semelhantes cuja solução não era precisamente, praecise tantum, como
necessária para a prova das coisas que uma substância imaterial; e, sete ou
escrevi e que os mais ignorantes oito linhas abaixo, para mostrar que
podem formular mais objeções em um por estas palavras, praecise tantum,
quarto de hora do que as que todos os não entendo de modo algum uma total
mais sábios poderiam resolver durante exclusão ou negação, mas apenas uma
toda a sua vida; razão pela qual não abstração das coisas materiais, eu
me dei ao trabalho de responder a disse que, não obstante isso, não*se es-
nenhuma delas. E estas, entre outras, tava seguro de que nada houvesse na
pressupõem a explicação da união alma que fosse corpóreo; embora nada
existente entre o corpo e a alma, da
qual ainda não tratei 1 3 2 . Mas dir-vos- , 3 3 Axioma da medida comum: "Só uma inteli-
ei que toda a dificuldade nelas contida gência pode atuar sobre uma inteligência". Sobre a
rejeição a priori deste axioma por Descartes, cf.
Guéroult, II, págs. 80-81. "Que o espírito que é
13
' Cf. Cartas, a Mersenne, de 27 de julho de incorporai possa mover o corpo, não há raciocínio
1638: "Toda a minha Física não é mais do que nem comparação extraída de outras coisas que nos
Geometria" (o que não significa de modo algu possam ensinar; mas, não obstante, não podemos
instauração de uma Física matemática na acepção duvidar disso, posto que experiências demasiado
atual). certas e demasiado evidentes no-lo mostram todos
os dias manifestamente." (A Arnaud, 29 de julho de
13 2
Este será o objeto do Tratado das Paixões. 1648.)
OBJEÇÕES E RESPOSTAS .221

se conheça a respeito disso, tratam-me utilidade para conhecê-la13 4 ; ao passo


tão injustamente a ponto de querer per- que, se apenas separarmos por abstra-
suadir o leitor de que, dizendo praecise ção essa substância de seus acidentes,
tantum, eu quis excluir o corpo e, isto é, se a consideramos sozinha sem
assim, de que me contradisse, em pensar em seus acidentes, isto impede
seguida, afirmando que não o preten- que a possamos conhecer tão bem, de-
dia excluir. Nada respondo à acusação vido ao fato de ser pelos acidentes que
que me é feita a seguir, segundo a qual se manifesta a natureza da substân-
eu teria suposto algo na Meditação cia 13 5 .
Sexta sem tê-lo provado anteriormente, 571. Eis, Senhor, tudo o que creio
cometendo assim um paralogismo; dever responder ao alentado livro das
pois é fácil reconhecer a falsidade Instâncias; pois, embora satisfizesse
dessa acusação, que não é senão muito talvez mais aos amigos do autor se
comum em todo este livro, e que pode- refutasse todas as suas instâncias, uma
ria fazer-me suspeitar que seu autor após outra, creio que não satisfaria
não teria agido de boa-fé, se não tanto aos meus, que teriam ocasião de
me repreender por ter despendido
conhecesse seu espírito e não acredi-
tempo em uma coisa tão pouco neces-
tasse que foi ele o primeiro a ser sária e por assim tornar senhores de
surpreendido por uma crença tão falsa. meu lazer todos os que quisessem per-
570. O outro equívoco está na pági- der o seu em propor-me questões inú-
na 84, onde ele pretende que distin- teis. Mas agradeço-vos pelos vossos
guere e abstrahere sejam a mesma cuidados. Adeus.
coisa; e todavia há uma grande dife-
rença, pois distinguindo uma subs- 134
Cf. Princípios, 1,61, sobre a distinção modal.
tância de seus acidentes deve-se consi- 135
Cf. Princípios, I, 62, sobre "a distinção que se
derar a ambos, o que é de muita faz pelo pensamento".

Centres d'intérêt liés