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JACQUES LE GOFF &F JEAN-CLAUDE SCHMITT DICIONARIO MEDIEVAL @ EDUSC IMPERIO nogio de Império é complexa ¢ convém definir os diferentes sentidos ¢ ostrar as diversas concepgbes, a dos alemies ¢ a dos outros povos. Existiram na histéria numerosos impérios. Aqui, trata-se somente do E=pétio Romano ¢ do Império Germanico da Idade Média. Uma primeiro la- “cna existe entre as fontes medievais ¢ os historiadores modernos: a palavra la- - imperium tem, como “império”, simultaneamente, 0 sentido de poder ¢ 2 ertitério sobre 0 qual esse poder se exerce, Mas a ela se acrescenta, na Ida- 2: Média, a ideia de poder universal, disputado entre imperadores ¢ papas ¢ einido regularmente pelos te6ricos, clérigos ou leigos, de forma diferente se- gando 0 contexto politico em que viviam. Esse império teve uma histéria prépria, freqiientemente confundida com a dos paises germanicos, pois os reis designados pelos principes alemaes do século X ao século XIII foram titulares do Império. Entre as pessoas co- muns ¢ os historiadores da Idade Média, foi habitual chamar de império ter- itérios governados pelo imperador de origem alema ¢ considerados como quivalentes a um reino. Por “oposigao entre Sacerdécio ¢ Império” entende- se 0 conflito entre 0 poder sacerdotal, representado pelo papa, ¢ 0 poder tem- poral, representado pelo imperador. Por “Franga ¢ Império”, entende-se de tum lado o reino dos francos, depois dos franceses, de outro o Estado germa- nico ou alemao. Ora, mesmo se a distingao era dificil de se fazer na Idade Mé- dia, deve ser considerada aqui, para evitar lamentéveis confusdes, bem como se deve admitir que a idéia que se faz do Império e do papel do imperador foi muito diferente para um francés, um italiano ou um alemao. —~ Aidéia de império permaneceu viva em todo 0 Ocidente ao longo da Ida- de Média, o titulo de imperador foi cobigado, mas 0 tertitério do exercfcio do seu poder nao estava claramente definido. Uma discordancia incontestavel ma- nifesta-se entre, de uma parte, a idéia que os teéricos, os cronistas universais € 09s tedlogos faziam do poder, ¢ de outra parte a realidade verificada através da transmissao do titulo, as discussdes eleitorais, o real exercicio do poder imperial. 0 Império Romano de Augusto ¢ de Constantino nao morreu definiti- vamente com a deposi¢ao de Rémulo Augtistulo, em 476, pelo chefe bérbaro Odoacro. De inicio, sobreviveu na parte oriental, que se chamou Império 607 Diciondrio Temético do Ocidente Medieval Bizantino (do nome de sua capital, Bizéncio ou Constantinopla); depose recriado, no ano 800, em beneficio de Carlos Magno e sobreviveu no te até 1806, enquanto o do Oriente desaparecia em 1453. O ImpérIo ROMANO Na EPOCA CAROLINGIA A data de 25 de dezembro de 800 permaneceu na meméria de como a do renascimento do Império Romano com a coroacéo do rei Carlos Magno pelo papa Ledo III, na igreja de $40 Pedro, em Roma. acontecimento, embora preparado nos espiritos, parece ter surpreendid= guns no momento de sua efetivagio. Carlos Magno era o tinico rei dos cos e seu poder estendia-se a grande parte da Europa, da Frisia ao norte d= panha, do Adlantico & Turingia. Excetuadas as Ilhas Brivanicas, alon pelo interior do limes (fronteira) do Baixo Império, Vencedor dos lom cuja coroa de ferro usa, Carlos Magno recebeu o titulo de “patricio dos nos” e apresenta-se como protetor da Igreja cristae do papado. A idgia de promover o renascimento do império desaparecido p: se no reino franco, em Roma ¢ em Aix-la-Chapelle, no meio curial im do de nogées antigas. Entre 750 ¢ 760, um falsério criativo compés um mento chamado Doacéo de Constantino, onde relatava as condigdes cm se teria operado entre 0 imperador ¢ o papa Silvestre I uma diviséo do m edo poder sobre © mundo: ao soldado, 0 poder temporal, ao sacerdote, © der espiritual. Esse texto preparou os acontecimentos que se seguiram ¢ eles, antecipadamente, um aspecto particular, Carlos Magno encontrava-se Roma, a pedido do papa Ledo III, ¢ recebeu deste a coroa que fazia dele o imperador. Tal gesto, inteiramente novo, parecia reproduzir o de Silvestre roando Constantino. Na realidade, criava uma pratica, a entrega da coros @ perial por parte do papa ao principe eleito para reinar no mundo terresere O circulo de Carlos Magno elaborou uma férmula para Ihe dar um Io ¢ ele se ajustou a uma ticulacura explicita e prudente: Carlos, serenissime: ‘gusto, coroado por Deus, grande e pacifico imperador, governante do Impérie ‘mano, igualmente pela misericérdia de Deus, rei dos fiancos e dos lombardos. los Magno foi primeiramente rei dos francos, nao dos romanos. Entr ele sentia encarnar uma idéia nova e exigia de todos um juramento de dade & causa que representava. Nao ignorava a existéncia do imperador bi tino, cujas ambig6es eram universais. A intervengio pontificia fazia do rei francos um imperador cristo e dava-lhe uma autoridade suplementar. Ele =m 608 Impétio hesitou em assegurar a sobrevivéncia do novo império, fazendo coroar seu fi- Iho Luis, em 813, enquanto vivia, e sem a interyengao do soberano pontifice. Desde esse periodo, distingue-se novamente 0 Império oriental do Império ocidental. Recriava-se a situagio do Baixo Império Romano. iedoso, mostrou-se mais decidido, tomando 0 titulo simples ¢ imperador augusto” ¢ recebendo a ungao pontificia das maos do papa Estevao IV, em 816, em Reims. Um ano mais tarde, pela ordinatio imperii, Luis apresentou sua concep¢ao de Império: um tinico de seus descen- dentes poderia sucedé-lo e usar o titulo imperial, os outros reis francos eram- the subordinados; o papa devia ainda coroar o eleito, que foi Lotério, seu fi- Iho primogénito, Nessa época, 0 reino franco ainda era tinico e confundia-se com o Império; o que Lufs institufa era a nogao nova de um imperador rei- nando acima dos reis, separando assim 0 imperium dos regna que lhe eram submissos. A situagio degradou-se lentamente, Com a morte de Luis, 0 Pie- doso (840), seu sucessor ao titulo imperial, Lotdrio I, reinou em Roma ¢ em Aix-la-Chapelle, mas nao sobre as terras atribuidas aos seus irmaos Luis, 0 Germinico, e Carlos, 0 Calvo. A ficgo da unidade imperial mantinha-se, en- tretanto, gragas aos freqiientes encontros dos reis irmaos. expressivo de Lotatio deixou também a coroa imperial a seu filho primogenito, Luis, que nao dispunha sendo da Itélia e nao teve descendentes. O papel do papa- do tornou-se, entao, decisivo. Joao VIII (872-882) declarou que os reinos es- ravam submetidos ao Império e que este era concedido pela Igreja, o que efe- tivamente ocorreu quando entregou a coroa imperial ao mais poderoso ou a0 gue mais ofereceu: Carlos, 0 Calvo, rei da Francia Ocidental, por dois anos (875-877), depois Carlos, 0 Gordo, rei da Francia Oriental (879-888). Este reve a oportunidade de pela tiltima vez reunir sob sua autoridade tinica os rei- 0s francos, reconstituindo, assim, 0 Império de seu avé Luis, 0 Piedoso. Apés sua morte, em 888, 0 Impétio Romano dos carolingios, moribundo, transmi- ciu-se como um titulo jé vazio de poder efetivo, na Germania a Arnoldo, de- pois na Itélia a Lamberto de Spoleto (morto em 898), Lufs da Provenga (901) © Berengério do Friuli (915-924). O “Império Carolingio” no havia durado um século, mas teve 0 gran- de mérito de fazer renascer na terra uma instituigdo sempre presente nos espi- itos. A ascensio do rei dos francos ao Império nao era estranha, ela reprodu- zia outros acontecimentos de generais barbaros vencedores, que também ti- ham vindo a frente de suas tropas tomar o titulo em Roma, Esse renascimen- to respondia a uma necessidade de que se ressentiam os pensadores e os his- 609 Dicionério Temético do Ocidente Medieval toriadores. A Igreja crista tinha necessidade dele porque desde Constantino identificava-se com 0 Império, e s6 podia ganhar em prestigio se um imperz- dora assistisse ea amparasse. Como foi o papa 0 impulsionador do movimen- to, a Igreja conheceu um acréscimo de poder, que iria obstinadamente defen- der enquanto pudesse. Ela desejava reconstituir o Império cristio universal. que Ihe permitiria fazer frente & Igreja do Oriente. A estréia de Carlos Magno no poder imperial nao tinha sido a intervengao na querela das imagens que ensangiientava Constantinopla? Nao havia ele mandado compor os livros que ditavam a doutrina aos fidis de Roma? O Ipfrio Romano GERMANICO ‘A coroagao imperial do rei Oto I (que se dizia apenas imperador, sem de- terminante), a 2 de fevereiro de 962 pelo papa Joao XII seguia a mesma linha de Carlos Magno. A Francia oriental foi anexada em 925 & Lotaringia, ainda chamada Gallia ou Francia, O soberano havia conquistado a coroa de ferro dos Jombardos, em 952, depois se impés em Lechfeld frente aos htingaros, em 955, como Carlos diante dos saxGes. Desde entao, na corte real, o titulo imperial es- tava em todas as bocas e esperava-se sua concretizagao em Roma. Oto foi na- uralmente conduzido para ld. © papa também continuava a desempenhar pa- pel decisivo. A 12 de fevereiro, Joao XIT enfatizava o papel da Tgreja romana que esperava grandes servigos daquele a quem havia distinguido. A coroagio realizada em Roma tinha valor constitutivo, o goyerno da Itélia ¢ a ocupacso da Cidade Eterna estavam indissoluvelmente ligados ao titulo imperial. O Im- pério guardou, entretanto, seu carter universal, mas dessa ver, se a idéia € 0 te tulo estavam ainda presentes, era outro espago: o Império Ordnida estendia- se apenas sobre as terras alemas ¢ lotaringias ¢ o norte da Itilia. Nao tinha mais 6 reino franco, separagio com a “Francia ocidental” que iria continuar no fu- turo. A Franca encontrava-se definitivamente excluida. A nogio de império também era retomada em outras regides do Ocidente, mas de maneira eféme- ra, pelo reino de Leao, na Espanha, ¢ por Aethelstan nas lhas Britanicas. ‘Como em 800, alguns contempordneos do imperador ficaram perplexos ¢ nao admitiam limitar o papel do soldado diante do sacerdote. Oto olhava de soslaio para Bizincio e sonhava unir seu filho e herdeiro a uma princesa bi- zantina, Oto Il, que recebeu a coroa imperial em 25 de fevercito de 967, co- imperador de seu pai, casou-se com uma parente de Joao Taimiskes, Tedfano. Ele inovou, tomando a partir de 976 o titulo mais completo de Romanorum 610 Império imperator augustus, que se enraizava mais na tradigdo reverenciada ¢ igualava 0 imperador do Ocidente ao basileus Romaion de Constantinopla. Foi de Oto III que 0 Império recebeu o maior impulso. O filho de Oto Il e Teéfano havia recebido rara e primorosa formagio, que compreendia 0 grego ¢ alimentava-se de diversas ideologias. Se Bernward, 0 futuro bispo de Hildesheim, havia-lhe inculcado principios saxénicos, Jodo Philagathos o ti- nha iniciado na histéria dos impérios antigos e no papel desempenhado por Roma. Aos 16 anos, Oto If escolheu o dia da Ascensio, 21 de maio de 996, para ser coroado imperador pelo seu primo Bruno de Carfntia, que ele tinha feito papa alguns dias antes, sob 0 nome de Gregério V. Roma devia tornar- se o centro do mundo, do Império universal, da Cristandade, com a alianga do trono ¢ do altar. Renovatio imperii Romanorum, a intengao era claramente anunciada, tudo 0 comprovava: o traje do imperador, 0 globo na sua mao, a bula que pendurava nos seus diplomas com a representacio de Roma, aurea Roma. A ideologia foi levada ainda mais longe com a ascensio de Gerberto de Aurillac, Silvestre II, ao trono de Sao Pedro, Constantino e Silvestre I, Oto III ¢ Silvestre II. O imperador nao estava enganado conhecia a falsidade da “Doagéo de Constantino”. Nao havia necessidade de apoiar-se em tal texto, cle fundava um novo Lmpério, ele que se dizia também “servidor de Jesus Cris- to”, como seu compadre era “servo dos servos de Deus”. Nenhum 1 em condigées de rivalizar com ele, ainda menos Hugo Capeto. Oto podia pe- regrinar até Gniezno, criar metrépoles, dar o titulo real aos principes da Po- lénia e da Hungria. Ele era 0 imperador cristo por exceléncia. O sonho de Oro III foi claramente rompido com sua morte prematura. O lugar da Itdlia no Império tomou desde entio um destino pouco brilhante. Esse reino estava doravante e por muito tempo indissoluvelmente ligado aos dacados germinicos, porque era a chave de Roma e do titulo imperial. Desde | | entao, os candidatos ao Império deviam se sacrificar ¢ ir & Itdlia, fato absoluta- mente necessdrio para que sua autoridade ao sul dos Alpes nao fosse apenas simbélica, O titulo imperial mudava de dinastia segundo a vontade dos prin- | cipes alemdes eleitores. Com a morte de Henrique Il (1024), a coroa voltou aos Sélios; em Kamba, a designacéo do arcebispo de Mogtincia favoreceu Conra- , do, eujo filho, Henrique (II), foi o primero a usar o titulo de “rei dos roma nos”, préhidio necessétio ao de “Augusto”. De pai para em filho, em 1046, | 1084, 1111, ele foi retomado por Henrique III, Henrique IV e Henrique V. O reinado de Oro III deu considerével impulso & idéia de Império ¢ inti- meros sinais manifestavam seu singular desenvolvimento. Assim, por exem- ou Dicionério Temético do Ocidente Medieval plo, em torno de 1030 foi composto em Roma um “Livro de ceriménias m= corte imperial” muito singular porque o Império jamais teve capital fixa nem corte organizada além daquela que cercava o rei alemao. Fundamentando-se em tradigées da Doagao de Constantino acima evocada, 0 autor do tratado fae minuciosa descrigo dos ritos imperiais, da pompa semelhante & do basilen: bizantino (tinica, manto, cetro, cabelo, penteado). Um ordo da consagracso imperial havia sido claborado desde o inicio do século X, foi retomado no XIE (chamada Cencius, do nome do cardeal que conservou 0 texto). A sagraco af descrita demonstra a analogia da ceriménia com a que consagrava os pontifi- ces cristaos: ungdo, como a do batismo, consagracao por trés prelados. Depois a entrega de uma coroa simbélica, formada de um diadema de oito plaquetas de ouro, para quem se designava “principe cristianissimo”, e objetos igual- mente simbélicos: o glidio, 0 cetro, a vara € 0 ane (0s dois tltimos desapar= ceram depois da querela das investiduras). A fixagio germanica em Roma fo! consagrada pela manutengao do uso da bula com a aurea Roma, com o desen volvimento da expresso Imperium Romanorum e com a adocio do titulo de “rei dos romanos”, que exprime bem 0 que Wipo, bidgrafo de Conrado II, in- terpretou quando via no eleito dos principes alemaes um “futuro César” Acrescentemos que a nogio de espago imperial enriqueceu-se com a anexago do reino da Borgonha (1032) aos dois outros, da Germania e da Itdlia, for mando a Trfade. Tem-se, entdo, o sentimento de uma progressio lenta ¢ segu- ra da nogao de Império, de sua confuséo com os reinos do rei getmanico, de sua ligago mais estreita com os rituais de consagracio, do controle que ele exercia sobre 0 papado e sobre Roma. periodo seguinte devia transtornar muitos desses dados, na aparénci= solidamente estabelecidos, ¢ pdr novamente em questo as vantagens obtidas, se se tem em mente a expresso “querela do Sacerdécio e do Império”, mais exata para essa regido do que “querela das Investiduras”, consagrada pelo uso. ‘Como o perfodo sdlio (1024-1125) foi determinante para a idéia imperial, o afrontamento com 0 Sacerdécio, representado pelo papado, foi de grande in- tensidade. Henrique III, como anteriormente Oto III, tinha ido a Roma im- por seu papa, Clemente II, que o fez imperador no dia seguinte ao de sua en- tronizagio, 25 de dezembro de 1046. O rei é rei que era um imperador em embrido. A Igreja no podia admitir por muico tempo mais tal situacao. Com Gregério VIR 6 combate foi violento. Nos Dic- tatus papae, © papa declarava que faria-o imperador a seu modo, ¢ também que gue tinha feito 0 papa, mas um -dispunha de meios para destituir reis, se 0 desejasse, jd que no conflito que ir- 61a Império rompeu entre Henrique IV ¢ cle, a partir de janeiro de 1076, langou uma ex- comunhio cuja conseqiiéncia pratica devia ser a deposigao do soberano, caso nao se submetesse. Gregério VII teve parte na progressiva fusio que se operou centre imperium e regnum, entre Império € reino (alemao): ele designou Hen- rique IV como rex Teutonicorum, desejando reduzir o rei a uma dimensao ger- mianica, 0 que era novo e ia contra o habitual titulo romano. Essa limitagéo geografica & Alemanha consumava a ruptura com a Franga ¢ a0 mesmo tem- po aprofundava a ligagio do Império com o reino “teutonico”. Apesar do que se diz, Henrique IV foi o vencido de Canossa ¢ 0 Impé- rio perdeu muito com ele. Ele tinha, contudo, ganho terreno, se se julga pelo fato de que podia servir de referéncia fora de seus Estados: em 1066, um ato auténtico de Guilherme, duque da Normandia, fundador da abadia da Trin- dade de Caen, citava-o: “Filipe, rei felizmente reinante na Franga, Henrique, que governa o pais romano por direito imperial, o piedosissimo papa Alexan- dre, ocupante da cétedra da Sé Apostélica”. Essa meng mostra que 0 nome daquele a quem estava prometido 0 Império era conhecido fora da Germania no como soberano dos ducados alemaes, mas como tei dos romanos. Sabia~ se, contudo, na Franga ¢ em toda a parte, que o Império era universal, mes- mo se o imperador alemao reinava sobre um espaco limitado. A idéia geral de império mantinha, portanto, sua forga. Mas & Igreja apossava-se dela cada ver mais com energia, insistindo em seu aspecto catdlico ¢ romano. Desde o rei- nado de Leio IX (1049-1054), o cardeal loreno Humberto, inimigo mortal dos simonfacos ¢ que participou do decreto de Nicolau II que instituiu a elei- a0 do papa pelos cardeais (1059), referia-se ao império universal de Leao I (cuja lembranga tinha sido reavivada pela escolha do nome de Leo TX) e nao concebia império que ndo fosse o da Igreja de Roma, cuja cabega era a Sé Apostélica. Para completar esse agambarcamento, a ctiria pontificia, em vias de constituigao, tomou o lugar da inexistente ciiria imperial ¢ 0 uso das insig- nias imperiais foi reivindicada por Gregério VII (um gorro branco simboliza © regnum ¢ anuncia a mitra, j4 usada por Ledo IX e destinada a tornar-se a tr{- plice tiara: 0 papa tornava-se um senhor temporal). “O ornato do Império ¢ fixado pelo papado” (R. Folz). Mai Diritual de um leigo (0 imperador) nfo podia exceder o de um clérigo exor- cista (um nivel das ordens menores); 0 imperador perdia na nova ungio da co- roagio tudo 0 que podia assemelhar-se & ungdo episcopal. E para a sagracio, abandonou-se o santo dleo dos prelados pelo dleo bento dos simples catecti- menos. O recuo era considerivel. : Gregério VII considerava que o poder 613 2 or? Dicionério Temittico do Ocidente Medieval O Sacerdécio e o Império defrontavam-se, entao, para saber quem devia dominar, quem éfa 0 verdadeiro senhor do mundo, quem fazia o outro. Desde Oto I, e sobretudo Oto III, o vento tinha virado, e Henrique IV nao teve meios de prevalecer. Suas vitérias militares nao tiveram futuro. Foi um papa nio reco- nhecido por todos, Clemente III, quem o fez imperador em 1084. Henrique V. que ganhou o poder contra seu pai, também obteve a coroa imperial em condi- Ges de desordem politica, lutando passo a passo contra Pascoal II, fazendo con- cesses rapidamente retomadas. Nao se tratava tanto da questo de dominio do mundo, mas de controle das investidura dos bispos. O grandioso enfrentamen- to de Canossa teve por continuagio as deploraveis negociagées de Worms_ (1122), quando se separaram claramente 0 imperium e 0 regnum teutonicum. O Imp£rio Dos STAUFEN Com Frederico I Barba-Ruiva ¢ Frederico II, o Império Romano Germ’- nico conheceu novos momentos de gléria. Entretanto, desde sua ascensio, 0 papa cisterciense Eugénio Ill chamou a ordem Frederico I, porque o eleito, que se dizia rei dos romanos, deveria ter solicitado sua confirmacéo a Roma. O Staufen nao estava decidido a dobrar-se. Sua concepgio era a de um impé- rio independente, ligado & realeza que tinha recebido diretamente de Deus por intermédio dos principes, sem recurso ao papado. Indo & Itdlia, em 1155, para af receber a coroacio (0 que teve lugar a 18 de junho, um sabado co- mum), pretendia submeter a cidade & sua autoridade. Dois anos mais tarde, 0 imperador, coroado “rei da Borgonha’, reuniu a Dieta em Besangon. Um erro de tradugéo, sem dtivida provocado pelo chanceler Reinaldo de Dassel, sobre 0 sentido de “beneficios” concedidos pelo papa ao imperador, provocou ten- séo com Roma ¢ conduziu ao cisma de 1159: 0 cardeal Bandinelli, que esta- va em Besancon, tornou-se papa com 0 nome de Alexandre III, a ele o impe- rador op6s Vitor IV. Esses cisma da Igreja do Ocidente era a conseqiiéncia do confronto violento sobre os respectivos papéis do Sacerdécio ¢ do Império. As teorias, defendo um e outro, refinavam-se. Barba-Ruiva tinha & sua disposigao especialmente a teoria de seu tio Oro de Freising) autor de uma profunda r- flexio sobre as “duas cidades”, Para esse autor, que olhando a histéria univer- sal vé nos francos 0 povo eleito para continuar o Império Romano, a direcéo deste esté confiada ao soberano franco-germanico, que é igual ao soberano pontifice como representante de Cristo ¢ chefe da Igreja. Desde 1157 foi usz- daa expressio sacrum imperium, que enfatizava o carter sagrado do Império, 64 Império © que nao € corretamente traduzido pela expressdo francesa “Sacto Império”. Da mesma maneira, o adjetivo “romano” reproduzia mal a f6rmula “dos ro- manos”, distingo que nao é imitil, como se vé na utilizagao da expressio “rei alemao”, que nao é a mesma coisa que “rei dos alemaes”, que nunca existiu. A 29 de dezembro de 1165, a canonizagéo de Carlos Magno atestava a continuidade do poder imperial desde 0 grande imperador franco até seu re- moto sucessor do século XII. Convém lembrar a sucesso genealégica em li- nha difeta do imperador de Aix até Frederico. Era também 0 momento em que o direito antigo recobrava seu vigor, inspirava os reis do Ocidente: os mes- tres de Bolonha estavam Id para ajudar o imperador a definir seus direitos, como estiveram sob Justiniano ¢ Teodésio. O imperador recebia seu poder de Deus, certamente, mas pela eleicao dos principes: a sagracao pontificia ratifi- caya uma escolha que escapava ao papa. Por volta do ano 1200, instalaram-se os primeiros elementos de um colégio eleitoral germanico, de onde saiu mais tarde 0 grupo dos sete grandes eleitores, um colégio cujo papel era especifica- mente o de designar o imperador. O filho ¢ sucessor de Frederico I, Henrique VI, acrescentou aos trés rei- nos (a'Triade) o da Sicilia, que lhe abria 0 acesso a0 Mediterraneo romano. Ele nao podia obter novas vantagens e desapareceu (setembro de 1197) pouco tem- po antes da ascenso ao trono pontificio daquele que melhor iria estabelecer em base crista ¢ romana a id¢ia de ImpérioInocéncio I Yjaneiro de 1198). Cabe ao papa designar quem seria o imperador legitimo, tendo os principes alemdes eleito sucessivamente Filipe da Sudbia e Oto de Brunswick. Apés lon- gas hesitages, tendo optado por Oro IV, reagiu diante das ambigGes italianas desse tiltimo, colocando em primeiro plano Frederico de Hohenstaufen, filho de Henrique VI. A eleigéo podia ser a expresso da vontade dos principes, mas apenas ao papa competia a decisio de coroar ou nao o imperador. A opgao fei- ta por Inocéncio III foi confirmada por seus sucessores, Gregério IX ¢ Inocén- cio IV. A idéia que prevalecia entdo era a de que 0 Império havia sido delega- do a Carlos Magno, mas\que o papa era seu verdadeiro depositério, Este entre- gava, por conseguinte, ao leigo a espada temporal a servico do mundo cristéo. Sustentado pelo direito romano, o papado adotava o cerimonial imperial, pre- tendia, sozinho, a dominagao universal. Os dois glédios estavam em suas mos. As fortes teorias do tempo de Frederico I estavam’arruinadas, eliminadas As vantagens do papado eram tais, que as opges de Frederico II ti- nham pouca probabilidade de éxito. O destino excepcional desse soberano foi o tiltimo sobressalto do Império, ¢ 0s meados do século XIII marcam 0 615 Diciondrio Temdtico do Ocidente Medieval fim de uma época. No plano espacial, 0 “rei dos romanos” havia ganho ter~ reno. Aos reinos de seus predecessores, aumentados da Sicilia, que era seu bergo, ele soube anexar a coroa de Jerusalém ¢ alimentou um sonho medi- terraneo, realizével visto que o império de Constantinopla estava nas maos dos venezianos ¢ de uma dinastia ocidental. O “espago imperial” era, em suma, mais verossimil que no tempo de Carlos Magno. Mas no plano teé- rico sofria com o recuo recente de seus predecessores. Cerca de 1220-1230. os canonistas confirmaram que o glidio temporal era entregue pelo papa < que esse tiltimo era o verdadeiro imperador. Frederico foi coroado em 22 de novembro de 1220, mas as tergiversagées jf comegavam a respeito de su2 participagao na cruzada de reconquista da Terra Santa, ¢ foi um imperador excomungado que tomou junto ao Santo Sepulcro a coroa de Jerusalém. Herdeiro distante de Oto III, Frederico II nao se sentia alemao ¢ abando- nou aos principes eclesidsticos e laicos da Germania privilégios considerdveis que destrufram definitivamente a possibilidade de dar origem a um verda- deiro reino alemao. Uma vez mais, ressentia-se a anomalia que representava a confusao entre o eleito dos principes alemaes ¢ o imperador. O Império era cada vez mais uma nogio vazia e cada vez menos um governo. A idéia de um império universal, no sentido temporal do termo, era fortemente con- tra-atacada pela existéncia de um reino como o de Filipe Augusto e de Sao Luis. Fazia um bom tempo que a Franca balbuciante de Hugo Capeto tinha se tornado um reino coerente ¢ bem governado. A preeminéncia do impe- rador sobre os reis nao existia mais e admitia-se, no inicio do século XIII, que “o rei era imperador em seu reino”. Durante essa época, entretanto, os tedricos, aqueles que escreviam his- t6rias universais, continuavam a considerar 0 Império com os olhos da tra- dicao. Os ensinamentos que nos trazem o Speculum historiale, de Vicente de Beauvais, préximo de Séo Luts, sao significativos a esse respeito. Como Oto ,, de Freising no século precedente, ele relata a sucesso de impérios desde 2 ‘origem do mundo. Sucessivas translagées fizeram 0 poder supremo passar | dos hebreus aos gregos, aos romanos, depois aos francos. Quando escteveu, _/ ém 1244, ele sabia, por exemplo, que se estava “no trigésimo terceiro ano do império de Frederico” (II) e, em 1250, nota que “o império romano esté va- cante”. O império universal permanece uma referéncia obrigatéria. E. nor- mal que a atitude dos clérigos e dos monges historiadores nao seja a da cor- te do rei da Franca, 16