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êC D RT EZ

~ED I T O RA

CAPíTULO I

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Discurso e argumentação

. o relacionamento do homem tanto com a natureza quanto com os seus semelhantes é mediatizado por símbolos; em outras palavras, as relações homem-natureza e homem-homem se estruturam simbo- licamente. Ora, ao passo que o relacionamento entre o homem e a linguagem como representação do mundo é tratado à luz da Semân- tica, a interação social do homem na e pela linguagem constitui obje- to de estudo da Pragmática.

A interação social por intermédio da língua caracteriza-se, funda-

mentalmente, pela argumentatividade. Como ser dotado de razão e vontade, o homem, constantemente, avalia, julga, critica, isto é, forma juízos de valor. Por outro lado, por meio do discurso - ação verbal dotada de intencional idade - tenta influir sobre o comportamento do outro ou fazer com que compartilhe determinadas de suas opiniões. É por esta razão que se pode afirmar que o a t o d e a r g um e n t ar, isto é, de orientar o discurso no sentido de determinadas conclusões, consti- tui o ato linguístico fundamental, pois a tod o e qualque r d iscurso subja z um a id eol o gia, na acepção mais ampla do termo. A neutrali- dade é apenas um mito: o discurso que se pretende "neutro'; ingênuo, contém também uma ideologia - a da sua própria objetividade.

A aceitação desse postulado faz cair por terra a distinção entre

o que tradicionalmente se costuma chamar de disse r tação e de ar- gumenta ç ão, visto que a primeira teria de limitar-se, apenas, à expo-

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INGEDORE G. VILLAÇA KOCH

sição de ideias alheias, sem nenhum posicioname nt o

porém, que a simples implica, por si mesma,

narrativos e descritivos, a argumentatividade se faz presente em

maior ou menor grau.

ressaltar, ainda, q u e os termos argumentação e retó-

seleção das opiniões a sere m reproduzidas já uma opção. Também nos textos denominados

pessoa l . Ocorre ,

É preciso

rica são aqui u ti l izados como "q u ase s i nônimos " , postula n do-se, conforme se d i sse, a presença de arnbas, em gra u maior o u m enor, em

todo e qua l quer tipo de discurso .

Foi com o surgimento da Pragmática que o estudo do discurso e, em decorrência, o da argumentação ou retór i ca - passou a ocupar

um lugar central nas pesquisas sobre a linguagem .

em que s e passou a

incorporar a enunc i ação ao estudo dos enunciados li ngu í sticos, o q u e

deu origem à Teoria da Enunciação.

Os fi l ósofos analíticos de Oxford, particu l armente Aust i n, e tam- bém Searle, nos EUA, entre outros , dedicaram-se ao e s tudo dos atos de linguagem - aqui l o que se faz quando se fala -, post ul ando a existên- cia de atos ilocucionários, que encerram a "força" com que os enun- ciados são produzidos, e de atos perlocucionários, que dizem respei- to aos efeitos v i sados pelo uso da linguagem, entre os qua i s os de

convencer e de persuadir.

fi l ósofo e jurista -

tação visa a p r ovocar ou a incrementar a "adesão dos espíritos" à s

Essa preocupação

teve início no mome n to

Perel man (1970 ) -

ressalta que a argumen-

teses apresentadas ao seu assent i mento, caracteriza n do-se, po r tanto, como um ato de persuasão . Enq u anto o ato de convencer se dirige unicamente à razão, através de um racio c ínio estritamente l óg i co e por meio de provas objetivas, sendo, assim, capaz de atingir um "au -

e

atemporal (as conclusões decorrem naturalmente das p r e m issa s , c omo ocorre no raciocínio matemático ) , o ato de persuadir, por sua vez, procura atingir a vontade, o sentimento do ( s ) i n t er l ocutor( es ) , por meio de argumentos plausíveis ou ve r ossímeis e t e m caráter ideo l ógi - co, subjetivo , temporal , dirig i ndo - se, pois, a u m " a u ditóri o particular " :

o primeiro conduz a certezas, ao passo que o segundo l eva a inferê ncias

ditório universal", possuindo caráter purame n te demonst r ativo

ARGUMENTAÇÃO E LINGUAGEM

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que po d em l eva r esse auditório

g u mentos aprese nt ados.

Os traba l hos de Pe r e l man de r am novo i mp ul so aos estudos s obre

a argumen t ação . T entando a l iar os prin c ipais elementos da Retó r ica

de A r istóteles a u ma visão atualizada do assunto, empen h ou - se

-

ou parte dele -

à adesão aos ar -

na

e

l aboração de u ma "N ova Retór i ca".

D

esse m odo, o d i scurso fo i -se tor n a n do o b jeto ce ntral d e diver -

s

as tendências da l inguística mode r na, como a A n á li se do D i scurso, a

T eor i a d e Texto e a Semântica Argu m e n tativa. Esta última, preocupa-

da co m a c onstrução de uma macross i ntaxe do discu r so, postula uma

pragmá t ica i n tegrada à des c rição l inguística, isto é, como um

in t e rmed i ár i o e n tre

os t rês n ívei s como indissoluvelmente i n terligados. Em decorrência, postu la q u e a arg u mentat iv idade está i nscr i ta n o n í vel fundamental da l í ngua.

o si n tático e o semâ n tico, cons i dera n do, portanto,

n í vel

Se a frase é um a unidade sintático-semânt i ca, o discurso consti-

t u i uma unidade prag m ática, atividade capaz de produz i r efeitos,

reações, ou, como diz Benveniste ( 19 7 4 ) , "a língua assumida como exercíc i o pelo i ndiví d u o". Ao produzir um discurso, o homem se apro-

pria da língua, não só com o fim de ve i cular mensagens, mas, princi - palmente, com o ob j et i vo de atuar, de interagir soc i al m ente, instituin-

do - se como E U e constituindo, ao mesmo tempo, como i nterlocutor,

o out r o, que é por s ua vez constitutivo

do próprio E U , por me i o do

j ogo de representações tabe l ecem.

e de imagens recíprocas que entre eles se es-

Ora, o discurso, para ser bern - estrut u rado , deve c onter, im p lí citos

o u explíc i tos, todos os e l ementos necessários à sua comp r ee n são, de v e obedecer às co n d i ções de progresso e coerência, para, por si só, p r o-

d u zir c omunicação: em outras palavras, deve con s t i tuir um texto. '

1. o ter mo texto, co m o tam b ém oco r re co m o termo discurso, tem s i do conce i t u ado

de m a n e i ras basta nt e d i versas . Bas i came n te, pode-se torná - l o em duas acepções: em se n -

da ca p ac i dade text u a l d o ser hurn a -

n o, q u e r se t r ate de um ro m ance

fi l m e, um a esc u l tura etc., i sto é, d e qu a l q u e r t i po de co m u n i cação

s i ste m a d e s i g n os. Em se tra t a n do da l ing u age m ver b al , te m -se o discurso, a t i v i dade co mu -

n i cati va de u m l oc u to r , num a s i t u ação de co m u ni cação determ i nada,

t i d o l ato , pa r a des i gnar toda e qua l que r m a ni festação

o u de u m poema, q ue r de uma música, u m a p int ura, u m

rea l iza d a at r a v és de u m

eng l o b a n do

n ão só

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INGEDORE G. VILLAÇA KOCH

T odo tex to c a r a ct e riza- se p e l a t e xtu al i dad e (te s s itu ra) , re d e d e relaçõe s qu e f a zem c om qu e u m texto s e j a u m t e xto ( e não u ma s imples so- matória de f r ases) , rev e l and o um a c o n exã o e n tre a s int ençõe s , as ideias

e a s unidades linguí s ticas

to d e enu n ciados de nt ro do quadro e stabel e c i d o pe l a e nu nc i ação .

q u e o compõem, por m eio d o e nc adea m e n -

É nesse sent id o qu e Ha l lida y ( 1973 ) , ao im a g i n a r um sis t e m a

capaz de exp l icitar tanto a estrut u ra do enu n c i a d o

enunciação , define o texto como "realização verba l ente n d i da c o m o

uma organização de sentido, que tem o v a l or de uma mensagem

completa e válida num contexto dado" . Assim , " o texto é uma unidade de língua em uso, unidade semântica : não de f o rma e sim de s i gnifi - cado". Para e l e, a text u a l idade depe n de de determ in ados fatores res-

ponsáveis pe l a coesão textual e seu trabal h o dest in a-se

desses fatores. As coorden adas do s i stema proposto por H a ll iday ( 19 7 6 ) de fi-

nem-se a partir de três funções: ideacional , interpessoa l e text u a l . A ideadonal corresponde ao que se cost u ma c h ama r de f unção cogni - tiva ou referendal da linguagem; a interpessoal , l i gada à pos i ção q ue o locutor assume diante do ou v inte no processo da enunciação, diz respeito às diferenças de " modo" ou "moda l idade", ou seja , d i fere nças entre afirmações, negações, perg u ntas , ordens etc . A função textual diz respe i to à criação de textos de modo pert in ente ao context o , de-

c omo o j ogo de

ao e stu do

I I

v endo a língua conter, em sua estrutu r a, e l eme n tos capazes de just ifi- car e explicar essa ade q uação. Duas e s truturas fornecem ao fa l ante a poss i bil i dade de co n strução do texto : a temática e a informadonal.

Numa, de s empen h am papel dado e o novo . Ta n to uma

enunciativa e discursi v a , já que p e rm i tem evidenc i ar as in tenções do

às ne-

falante e constitu i r sequências de sentido prec i so e adeq u ado

pr i n c ipa l o tema e o rema; n a out ra, o como outra tê m n at u reza c l ara m e n te

cessidades de comuni c ação.

o con jun to d e e nunc i a dos

i

so manifesta- se l i ng ui st i came n te

em q u a l quer p ass a g em fa l ada ou e scr i ta , capaz de for m ar um t o d o s i g n i f icat i vo, i nd e p e n -

dente d e s u a ex t e n s ão. T rat a- se, ass im , de u ma uni dade s e m â n t i co - pr ag m áti ca, de u m co n tínuo comunicativo t ex tual q u e se cara c teriza , entre o u t r os f a to r es , p e l a coerência e

p e la coesão, conjunto de r e la ç õ es r esponsáve i s pela tessitura do texto.

por e l e prod u z i d o s

e m ta l s i t u ação -

o u os s e u s e os d e s e u

O d i sc ur -

nterlocutor,

no c as o do d i á l o g o - co m o ta mb é m

o eve n to d e s u a e nun c i ação .

po r m e i o d e t extos - e m sen t i do es t r i t o - qu e co n s i s t e m

ARGUMENTAÇÃO E LINGUAGEM

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E mb ora O sa k abe (19 79 ) apresente o s trabalhos d e Ha llid a y c om o

a "síntese id ea l " entre u ma lin g uís ti c a do en u n ci a d o e u ma l inguística

da e nun ciação , e mesmo reconhecendo qu e e l es podem tra z er subsí-

dios v a liosos, e n ten de - se que fa l ta às teor i as

de t exto a l go q u e p ode se r e nc ontrado n a S e m â n t i ca Ar g um e n tat iv a

e qu e,

lín g u a

Chom sky (o bjeto idea l , l ugar d a l i berdade, da c ri ati vi dade in d iv idua l ):

a v i são da l íngua como i nters u bjetividade, como ação dramática, no dizer de V ogt (1980).

a n osso v er, se ri a j u stamente a "síntese id ea l " entre a v isão de de Saussu re ( o bj eto soc i al , da q u al o in d iví duo é escra v o ) e a de

de texto e às g r amáti cas

Dentro desta v i são de discurso, considera - se, de acordo com

G uimarães (1981), o texto escrito (texto em sentido estrito, portanto)

c omo um tipo específico de discurso, cu j a d i ferenc i ação e m relação ao

d iál ogo pode s e r estabe l eci da a part i r da "re l ação factua l " que se esta -

be l ece entre l ocutor e dest i natár i o .

c o m o l oc ut or, f ixan do o ( s) outro ( s) como destinatário(s), não havendo

a possibi l idade de u m a troca ( pe l o menos , i m ediata) de papé i s entre ambos; predomi na, nesse t i po d e d i scurso, um a orga ni zação interna ,

p e l o fato de não h aver possib il idade de reajustes de r elação entre os

N o tex t o escr i to, a l g u ém se f i xa

i n terlocutores para cada evento particular de enunciação. No diá l ogo,

por sua vez , como o destinatário é o " l ocutor de daqui a pouco'; há uma

constante troca de papéis entre as pessoas envo l v i das no e v ento, pos-

s ib i l itando, a cada m om ento, tais reajustes.

Por o u tro l ado, partindo do postu l ado de q u e a argu m entativi da- de está inscr i ta n o us o da linguage m , adota- se a pos i ção d e q ue a a r gu-

men tação co nstitui at i v i dade estruturante d e to d o e q ua l q ue r d i scurso, já q u e a p rogressão d este se dá, ju stamente, p or me i o das ar t i c ulações

a r g umentativ as, de modo que

m e n tat iv a dos e nu n ci ados q u e compõem u m texto co m o fator básico

n ão só de coesão, m as , pr i ncipa l mente , de coerência textua l .

argu-

s e de v e con si derar a orien t a ç ão

1. A INTENCIONALlDADE NA PRODUÇÃO DA LINGUAGEM

Segundo Vogt (1980), todo enunciado diz algo, mas o diz de um

certo modo. Ao dizer, o enunciado representa um estado de coisas do mundo - tem-se aqui o que se pode chamar de significação ou

de sentido 1. Por outro lado, ele mostra (e o faz por meio linguísticas) o modo como o enunciado é dito, ou seja,

como se representa a si mesmo: é o sentido 2. É com base nestas afirmações que se pode dizer que todo enunciado é sui-referencial e que a linguagem é representação 2 de representação 1; representação 2 utilizada numa acepção teatral, para designar os d i ferentes papéis

distribuídos nas cenas dramáticas, que são os atos de fala, cujo de- sempenho cabe aos interlocutores, através de um mascaramento recíproco que é parte constitutiva essencial do jogo argumentativo da linguagem. '

Já que cada enunciação pode ter uma multiplicidade de signifi- cações, visto que as intenções do falante, ao produzir um enunciado, podem ser as mais variadas, não teria sentido a pretensão de atri- buir - Ihes uma interpretação única e verdadeira. O conceito de intenção é, assim, fundamental para uma concepção da linguagem como ativi- dade convencional : toda atividade de interpretação presente no coti- diano da linguagem fundamenta-se na suposição de que quem fala tem certas intenções ao comunicar-se. Compreender uma enunciação é, nesse sentido, apreender essas intenções. A noção de intenção não tem, aqui, nenhuma realidade psicológica : ela é puramente linguística, determinada pelo sentido do enunciado, portanto linguisticamente constituída . Ela se deixa representar de uma certa forma no enunciado, por meio do qual se estabelece entre os interlocutores um jogo de representações, que pode corresponder ou não a uma realidade psi- cológic a ou social .

Assim, o sen t ido de um enunciado (sentido 2) se constitui, tam- bém, pelas r elações i nterpessoais que se estabelecem no momento da

de marcas a mane i ra

por Vo g t e m

v

(19 8 0), e " Doi s v e rb o s 'achar' em portu g u ês?" ( e m coautor i a com Ros a Athi é F i gueir a ), mim e ograf a do.

em Vo g t

2. A co n ce p ç ã o

d a lin g u age m c omo aç ão dram á tica é de senvo l v ida

e n t r e e l es: " Por uma pragm á ti ca

á ri o s de se u s t r a balh o s,

d as r e pre se nt ações " ,

,I

ARGUMENTAÇÃO E LINGUAGEM

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em que entram atualizam suas

intenções persuasivas . É por isso que Ducrot e Vogt ressaltam em suas obras que a noção de sentido linguístico deverá ser entendida não só como identidade ou diferença entre a estrutura do fato e a estrutura do enunciado utilizado para descrev ê -to , isto é , em termos de verdade

ou falsidade (o dizer), mas, principalmente, como a direção , as conclu-

sões, o futuro discursivo, aponta (o mostrar) .

enunciação, pela estrutura desse jogo de representações o locutor e o alocutário, quando na e pela enunciação

enfim, o alvo para onde esse enunciado

A Pragmática, num sentido restrito , deve ser vista como o estudo

da atividade i nterindividual realizada no discurso. A estrutura da sig- nificação em l íngua natural seria o conjunto de relações que se insti- tuem na atividade da linguagem entre os indivíduos que a utilizam,

ativ i dade que se inscreve sistematicamen t e no interior da própria língua .

entre dizer e mostrar permite penetrar nas r e lações

entre linguagem , homem e mundo: é sob esse aspecto que se torna

na linguagem . A enunciação faz-se presente

no enunciado através de uma série de marcas. É por meio delas _ marcas linguísticas que são - que se poderá chegar à macrossintaxe do discurso, o que constitui o objetivo da Semântica Argumentativa.

possível falar de ideologia

A distinção

2. OS NíVEIS DE SIGNIFICAÇÃO

Ducrot (1978b) ressalta a existência, na linguagem ordinária, de uma estratificação do dizer : para se descrever o discurso de alguém, não basta indicar o que a pessoa disse, mas também em que nível ela o disse: o sentido "explícito" (aquele cuja transmissão é apresentada como objeto do discurso) constitui , nas línguas naturais, apenas um nível semântico, de modo que, subjacentes a ele, podem-se dissimular outros níveis de significação " implícitos". Além disso, existe um implí-

cito "absoluto" - aquilo que se introduz por si mesmo no discurso e que o locutor diz sem que o queira e mesmo sem que o saiba - e um implícito " relativo ' : interno àquilo que o locutor "quer dizer" . A ativi- dade de interpretação, que está em ação a todo momento no proces- so de comunicação , funda-se na suposição de que quem fala tem determinadas intenções, consistindo a intelecção justamente na cap- tação dessas intenções, o que leva a prever, por conseguinte, uma plural idade de interpretações . Compreende-se o quere r dizer como um quer er fazer; desse modo, introduzem-se no sentido todas as intenções de ação (i.é, os atos ilocucionários) e admite-se que o locu- tor deseja, de algum modo, fazer conhecer essa intenção. Daí a neces- sidade de o ato ilocucionário possuir um caráter públ i co, declarado, o que , porém, não impede que o locutor negue a responsabilidade do implícito; além disso, o querer dizer do locutor pode tomar a forma ,

bastante indireta, de um consentimento ao que

fazê-lo dizer você que o está dizendo

O sentido, portanto, não se apresenta como algo preexistente à

decodificação, mas, sim, como constituído por ela. Assim, admitir que a jnte r pretaç ã o derivada é , muitas vezes, imposta pela língua , obriga

a recorrer a u m concei t o ao mesmo tempo próximo e diferente da

noção tradicional de sentido literal - aquele que seria devido unica- mente à f r ase da qual o enunciado const i tui uma realização, antes de

toda e qua l quer interpretação. O valor semântico de uma frase - a sua significaçã o - não é objeto de qualquer comun i cação possível ,

po i s ele consiste num conjunto de instruções para a sua interpretação ,

que comport a uma série de vazios a serem preenchidos por indicações que apenas a situação de discu r so pode fornecer . Além disso, pelo fato

os outros queiram

"),

ARGUMENTAÇÃO E LINGUAGEM

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de conter marcas de atos ilocucionár i os , que só têm realidade quando

a frase é objeto de uma enunciação, a frase só se torna inteligível uma vez que é enunciada . Nessa acepção, o sentido literal não existe .

Por outro lado, se os atos derivados possuem realidade linguísti- ca e sua decodificação faz parte da compreensão, é lícito afirmar que

é a própria língua que comanda, em certos casos, a leitura implicitada . Depende de uma decisão do intérprete dar ao enunciado o sentido mais próximo possível da significação da frase que este realiza, redu-

zindo ao mínimo o recurso à situação . Aliás, para justificar essa indi- ferença com relação à situação , é necessário mostrar que ela mesma

convida a isso, o que permite dizer

que o "sentido literal " nada mais é

senão um efeito de sentido ent r e outros.

O maior problema

que se coloca diante da posição de Grice ,

Searle e outros teóricos da comunicação é o da suposição de que quem fala, fala sinceramente. Nem sempre a comunicação se dá de maneira transparente, com a única intenção de informar . A alusão , a ironia, o "blefe" ocorrem com frequência , devendo , pois, ser explicitados em

termos de atos de fala derivados e considerados como aspectos cons - titutivos do uso normal da linguagem . O subentendido é construído como uma explicaç ã o da enunciação, em que o locutor apresenta seus atos de linguagem como um enigma a ser decifrado . Ao dizer que ele

dá às suas palavras um dado sentido, deve-se entender que ele orien -

ta a interpretação para

sibilidade de renegá-Ia em seguida, ou fingir que a renega - daí a denominaç ã o de implícito relativo . Na realidade, todo o sentido se dá

sob esse modo; mas, se tudo é implícito, não o é da mesma maneira, podendo-se distinguir d i ferentes formas e diferentes níveis. Daí as tentativas que se têm feito de chegar a uma tipologia desses atos .

uma certa leitura . Mas ele tem sempre a pos-

Anscombre (1980) estabeleceu quatro classes de atos : os primi-

tivos, os derivados marcados, os derivados não marcados ou alu-

sivos (subentendidos)

cionários.

- todos eles ilocucionários

-

e os perlocu-

é

marcada para esses atos. Pode ocorrer, porém, que um enunciado, cuja frase é marcada para um ilocucionário primit i vo, realize de fato um outro, não primitivo, o que não pode ser explicado por meio de leis do discurso ou princípios conversacionais.

São primitivos os atos ilocucionários

cuja frase subjacente

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INGEDORE G. VILLAÇA KOCH

Um ato será derivado marcado quando a existência na frase de

certos marcadores de derivação exige a intervenção de leis do dis-

curso para a interpretação dos enunciados que a realizam. É o caso de:

"Você pode (ou quer) abrir a janela?".

Os derivados alusivos são aqueles em que a possibilidade

derivação não está indicada na frase e que não se ligam, também, a nenhuma forma superficial particular. Além disso, o ato primitivo do qual eles derivam é sempre realizado, ao contrário do que acontece com os derivados marcados. Como resultam de um cálculo do locutor ou do alocutário, eles podem ser recusados . É por essa razão que o derivado alusivo é frequentemente utilizado na estratégia do suben- tendido e da insinuação, já que o ato primitivo de que se origina serve de parachoque a uma manobra discursiva. Entre estes atos, há aque- les a que se aplicam as mesmas leis do discurso que se aplicam aos derivados marcados.

Os atos perlocucionários, finalmente, são de natureza totalmen- te diversa, embora partilhem algumas propriedades com os derivados não marcados . São perlocucionários certos efeitos, como humilhar, ofender, atemorizar, gabar etc . , que o locutor produz por intermédio de suas enunciações. Um ato perlocucionário não é jamais marcado e nenhum enunciado se apresenta como realizando o ato, ainda que seja

destinado a rea l izá-lo . Se o ato ilocucionário é um ato realizado no e pelo discurso (portanto, uma entidade totalmente linguística), o pe ~ - locucionário pertence a uma outra ordem, tanto que se pode sempre

de

recusar a sua paternidade linguística, mesmo quando rialmente clara.

ela está mate-

Aceitando-se estas últimas posições, percebe-se

que é possível

explicar todos os "efeitos de sentido" ou usos "não sérios" da linguagem

por meio da noção de atos derivados .

Como já se disse acima, a significação explícita da frase é obser- vável, já que só interessa o contexto frasal, g r amatical, linguístico no sentido estr i to . Reconhece r a significação explícita faz parte da com- petência linguística, em que o dicionário desempenha papel impor- tante. É preciso notar, porém, que apenas o enunciado de uma frase é que pode ser considerado verdadeiro ou falso (as frases analíticas são pouco comuns em língua natural). A mesma frase, enunciada em momentos diferentes, pode ser contraditória . Ex.: "O dia está chuvoso" .

ARGUMENTAÇÃO E LINGUAGEM

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Já se ressaltou, também, que existe a significação implícita, mais

sutil, onde se encontram as indicações modais, das intenções do fa-

lante, ou seja, o modo como o conteúdo é comunicado

lece, no enunciado, as condições particulares no interior das quais se dá a comunicação. Ocorre mesmo, com frequência, usarem-se enun- ciados cujo sentido literal nada (ou quase nada) tem a ver com o sentido que Ihes está sendo atribuído naquela situação.

e que estabe-

O termo implicação, ou melhor, implicitação, abrange uma

área relativamente ampla. Segundo Ducrot (1972), é possível identifi- car três formas de implícito:

a) implícito baseado na enunciação - se digo: Está calor aqui

dentro , para i ndicar que desejo que abram a janela (subentendidos).

b) implícito baseado no enunciado - João veio me procurar,

logo deve estar em situação difícil (inferência).

c) implícito do enunciado (pressuposição linguística de Ducrot

ou pensamento lateral de Frege, 1892) - algo intermediário entre o dizer e o não dizer, que constitui uma forma de significação contida de modo implícito no enunciado (pressuposto) , em oposição àquilo

que é posto.

que o

ouvinte tenha condições de reconhecer no enunciado a forma parti-

cular sob a qual a proposição

indicações que permitam esse reconhecimento : é o modo do mostrar, do indicar, do implicitar que constitui a forma do enunciado. A signi- ficação se dá, portanto, sob dois modos distintos: o da mostração (implícito) e o da representação " (explícito), que correspondem à diferença entre o mostrar e o dizer, a que se fez referência.

Não basta conhecer o significado literal das palavras ou sentenças de uma língua: é preciso saber reconhecer todos os seus empregos possíveis, que podem variar de acordo com as intenções do falante e as circunstâncias de sua produção .

Adotando-se este ponto de vista, o conceito de situação deverá englobar: a) a situação real dos fatos no mundo, à qual se remete ao

Para o reconhecimento

do implícito, faz-se necessário

vem expressa. Por isso, o falante lhe dá

3. o termo representação significa aqui o que se está chamando de representação 1, ou seja , representação de um estado de coisas do mundo extralinguístico , razão pela qual se situa no nível do explícito, ao contrário do que ocorre com a representação 2.

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INGEDORE G. VILLAÇA KOCH

emiti r -se um en u nc i ad o

de / fa l sidade

const i tu i ção, de rep r es e n taçã o da s id entida d e s , que constitui o ponto

de ligação entre o texto e a rea l idade - a estr u tura de um texto e o

real se articu l am p el o fato

mediação, de repres e ntaçã o , de i n teração verba l . É nesse sentido que

se pode afirmar q u e a lin g u age m é const i tut iv a das próprias possibili -

d ades de s i gnif i cação.

Cada ato de lin guagem é, p ois, const i tu í do dos três atos mencio- nados : falar, dizer e mostrar .

de ser possí v e l constr ui r uma estrutura de

e que p ode s e r ava l iada e m termos de v erda-

b ) a s i t u açã o

e l a bo ra d a

no processo

de

( referência ) ;

a falar consi s te na pro du ção de frases, decorrentes da capaci-

dade do falante de produzir determina d os sons de acordo com deter- minadas regras gram ati c a i s, i sto é, de comporta r -se gramaticalmente

de acordo com essas r egras . É o nível gramatical, a que se refere Be n -

v eniste ( 1966 ) , corres p o n de n do ao ato locuc i onário de A u sti n ( 1962 ) .

A frase é uma ent id ade fo n o- rn orfo-s i nt á tica, decorrente das l eis se-

gundo as quais os s i g n os se combinam n uma dada l íngua.

a dizer consi s te em produz i r en u nc i ados, estabelecer relação

entre uma sequên c ia

uma ent i dade semân tica .

de son s e u m estado de coisas . a enunciado

é

a mostra r e st á li gado à en u nciação .

Visto à lu z do processo de

enunciação, o enu n c i a d o

processo de signifi c ação e mostra a d i reção para a qual o en u nciado aponta, o seu futuro discursiv o .

Um produto l inguístico necessita, sem dúvida, se r garantido por certas regras estrut u ra i s, mas v a l e, basic amente, pe l o que significa, quando a f r ase se atua li za e m enu nc iado . Só como s i gnificação é que

se dá es s a transcen d ê n c i a,

qual se conc r et i za no que denominamos tex t o. Dize r e mostra r cons- tituem dois níve i s ou modos de prod u ção da significaç ã o que funcionam de manei ras dif er entes: enquanto a significação do enunciado é dada pela re l ação entre a linguagem e o mu n do , const i tuindo, como já se disse, o dom í nio da Sem â ntica , o sentido é dado pe l a re l ação entre a linguage m e o s homens, constit ui ndo o campo da Pragmática .

para um sentido, o

o

passa a ter u m sentido , que incorpora

q u e te n de a encam i n h ar