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FACULDADE SOCIAL DA BAHIA

LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO FÍSICA

LÁZARO SOUZA LEITE

VIVÊNCIAS LÚDICAS NO ENSINO DO FUTEBOL: UM ESTUDO NAS


ESCOLINHAS DE FUTEBOL

Salvador
2007
LAZÁRO SOUZA LEITE

VIVÊNCIAS LÚDICAS NO ENSINO DO FUTEBOL:UM ESTUDO NAS


ESCOLINHAS DE FUTEBOL

Monografia apresentada ao Curso de


graduação em Educação Física,
Faculdade Social da Bahia, como
requisito parcial para obtenção do grau
de Licenciatura em Educação Física.

Orientador: Prof. Ms. João Danilo B. de


Oliveira.

Salvador
2007
DEDICATÓRIA

Dedico minha monografia para você minha filha Giulia o amor mais belo da

minha vida,depois as minhas (ex) companheiras que de uma forma ou de

outra sempre me apoiaram nos momentos difíceis e a minha mãe que também

fez parte desse universo de mulheres especiais.


AGREDECIMENTOS

Agradeço, acima de tudo a Deus, por ter me dado força em todos os


momentos dessa caminhada difícil.

A todas as pessoas que de forma direta ou indireta contribuíram para a minha


formação acadêmica.

Ao professor Bahia

Ao meu grande orientador mestre João Danilo B.Oliveira

Ao meu tio Antonio que foi como um segundo pai apoiando financeiramente e
como se eu fosse teu filho.

Aos meus pais biológicos ,José Heider Leite e Celita Souza


.
Obrigado a todos os professores que passaram ao longo do caminho ,por
conhecimento adquirido existe um pouco de vocês em cada um de nos.

A Ana Rita por ter tido confiança nos meus obejetivos.


Bola de Meia, bola de gude

Há um menino, há um
moleque,
Morando sempre no meu
coração
Toda vez que o adulto balança
ele vem pra me dar a mão

Há um passado no meu presente,


o sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
o menino me dá a mão

E me fala de coisas bonitas


que eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade,
alegria e amor

Pois não posso, não devo, não quero


viver como toda essa gente insiste em viver
E não posso aceitar sossegado
qualquer sacanagem ser coisa normal.

Bola de meia, bola de gude,


o solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
o menino me dá a mão.

Há um menino, há um moleque
morando sempre no meu coração
toda vez que o adulto fraqueja
ele vem pra me dar a mão

Há um menino, há um moleque
morando sempre no meu coração
Toda vez que o menino balança
ele vem pra me dar a mão

Há um passado, no meu presente,


um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assusta
o menino me dá a mão.

(Milton Nascimento)
RESUMO

A imaginação, o simbolismo e a criatividade e o brincar especificamente tem a sua


importância não somente pelo resgate cultural, como também pelo grande benefício
que os mesmos proporcionam as crianças, na sua formação como cidadão mais
quando são trabalhados pelos professores nas aulas de futebol nas escolinhas.
Nesse sentido, visando discutir a importância do lúdico nas aulas de futebol nas
escolinhas e os fundamentos na formação de alunos atletas , o presente estudo se
preocupou em discutir a utilização da ludicidade e como os professores trabalham o
lúdico e o trato metodológico dado ao elemento brincar e simbolisar durante suas
aulas. Teve como objeto de estudo, levantar quais os momentos onde o lúdico
estava presente nas aulas de futebol nas escolinhas utilizados pelos professores
com os alunos e identificar como os jogos são tratados na relação ensino-
aprendizagem durante as aulas de futebol. A metodologia utilizada para o presente
estudo foi pesquisa de campo com caráter qualitativo. O embasamento teórico
obteve-se a partir de autores como: COSTA (2003) MUTTI (2003) KISHIMOTO
(1993), FREIRE (2003), GIL (1991), MINAYO (1994), MACHADO (2000) DAMATTA
(1982) Diante dos autores consultados e das entrevistas realizadas e analisadas,
conclui-se que o lúdico é imprescindível para a criança e quando este é inserido
como conteúdo nas aulas de educação física e aqui especifico no futebol irá
contribuir muito no processo ensino-aprendizagem e no desenvolvimento dos
aspectos psicomotores, cognitivos e sociais, sendo adquiridos de forma lúdica,
prazerosa e satisfatória pela criança.
INTRODUÇÃO

Este trabalho se configura como um esforço de um acadêmico do curso de


Educação Física da FSBA ao analisar o quadro atual do trabalho com o ensino do
futebol em escolinhas. Este exercício é importante para o próprio pesquisador na
medida em que trata da análise de um contexto que envolve também sua prática
pedagógica, quando se insere como professor de escolinhas de futebol.
É com a curiosidade e o intenso desejo de investigar essas realidades em que
se configura o trato com o esporte nas escolinhas de futebol, compreendendo que
as estratégias utilizadas baseadas no modelo tradicional de métodos analíticos não
dão conta da formação efetiva dos alunos, dos elementos que os ligam ao esporte e
ao futebol que se inicia a intenção da pesquisa.
A pesquisa alcança uma relevância pública na medida em que se dá conta do
número de escolinhas de futebol que surgem a todo o momento, percebendo-se a
forma acritica e baseada em modelos que “moldam” os alunos em “formas”,
produzindo robôs que não contribuem efetivamente para o domínio dos elementos
ligados ao futebol.
Outro ponto para ao qual este estudo se preocupa diz respeito a carência de
estudos voltados para esta problemática de investigação. Para tanto este estudo
contribui com a área na medida em que pode suscitar e servir de base para outros
estudos.
Para muitos dos autores, como também é vinculado no senso comum, esta é
a grande paixão do povo brasileiro. Daí inicialmente relatar-se um dos elementos de
relevância do nosso trabalho, fala de cultura, de símbolo de uma nação, de paixão e
principalmente de um fenômeno de relevância social, política e econômica.
A educação física tem por meio de vários autores se questionado como a
área de conhecimento, objeto de estudo e as abordagens teórico-metodológicas de
trato com o ensino. É uma das áreas de conhecimento da educação física, talvez a
mais influente e importante, que este estudo volta-se a questionar: O estudo do
esporte, mais específico o futebol, fenômeno que envolve de forma intensa e total
quase toda a nossa população.
É muito comum vermos entre os pesquisadores da área como também entre
cronistas esportivos, comentaristas, técnicos e torcedores, mesmo que nosso país
ainda apresente o melhor futebol do mundo, que a qualidade técnica dos nossos
jogadores, principalmente em sua criatividade e no reconhecimento do futebol como
futebol-arte.
Muito dos comentários e justificativas atribuem a isso diversos fatores. Algum
tempo atrás, onde o espaço era grande e as brincadeiras se faziam presente a cada
momento, não se ouvia falar nas escolinhas de futebol, eram dos campinhos dos
babas “várzea” que saiam os Garrinchas, os Rivelinos, os Jairzinhos. Para Freire
(2003) essa pode ser um dos pilares de sustentação de uma formação de qualidade
de nossos atletas, habilidosos, criativos e diferenciados.
As escolinhas de futebol foram criadas somente porque as pessoas dos
grandes centros viram que o espaço para jogar bola foi diminuindo e então o
surgimento das primeiras escolinhas de futebol e o surgimento dos primeiros
professores, que eram, ex-atletas aposentados. Talvez o ensino do esporte centrado
nas experiências destes atletas, muitas vezes voltado apenas para a repetição,
como que foi feito com ele durante seu treinamento voltado para o rendimento das
equipes esportivas, esteja inadequado às necessidades das crianças em processo
de aprendizado e desenvolvimento.
Visando um melhoramento na formação dos alunos da escolinha de futebol
onde a prioridade é na formação de atletas, percebi que estamos como nos diz
Freire (2003) formando robôs para tocar a bola para os lados. Ao compararmos o
futebol jogado há 20 anos atrás com o atual, veremos que tecnicamente houve uma
queda acentuada de jogadores tecnicamente bons, criativos e com autonomia em
campo.
Voltamos nosso estudo para verificar as possibilidades de utilização de uma
metodologia que utilize do lúdico no processo ensino-aprendizagem dos elementos
do futebol, baseada no domínio efetivo do desporto, sem que se perca a criatividade
e autonomia em campo e, desta forma, contribuir para a busca de novos modelos
pedagógicos para o ensino do futebol em escolinhas de esporte a partir dos estudos
dentro da Educação Física brasileira no sentido de uma maior adequação às
finalidades educativas.
Com isso questionamos a atual metodologia do ensino dos desportos nas
escolinhas centradas apenas nos métodos tradicionais que primam pela repetição e
pela exaustiva fragmentação no trato com a modalidade esportiva. Diversos autores
têm dedicado um espaço em seus estudos para críticas ao modelo do ensino do
esporte centrado apenas no método parcial (MUTTI,2003; VOSER e GIUST,2002).
Segundo Costa (2003) são três os métodos básicos de ensino: o método
parcial, global e misto. O parcial seria o trabalho com os fundamentos e habilidades
motoras trabalhadas fragmentadamente, por etapas, essas habilidades serão
associadas durante o jogo. No segundo, o global, o ensino é centrado num método
onde o aprendizado decorre das experiências no jogo e através do jogo, e no
terceiro e último, o misto, são associados elementos dos dois métodos anteriores.
Autores como Freire (2003) tem em seus estudos tem discutido a importância
de experiências com atividades lúdicas no ensino do futebol, o autor chega a propor
inclusive a possibilidade dos professores centrarem no ensino do esporte o que
chama de “pedagogia da rua”, utilizando os conhecimentos e experiências da cultura
popular no ensino do futebol.
Com isso ao brincar de zerinho, pontinho, embaixadas, gol a gol, salãozinho e
outras vivências lúdicas passar a ser entendidas como experiências essenciais para
o desenvolvimento e o aprendizado efetivo do esporte pelas crianças nas escolinhas
de futebol.
Para esse autor, alguns profissionais ainda insistem em não colocar as
brincadeiras, os jogos como forma prazerosa de ensinar e aprender o futebol, e
sempre dão prioridades ao ensino de forma mecânica dos fundamentos tidos como
obrigatórios para o futebol.
Esse estudo, portanto, a priori, afirma que uma metodologia adequada é o
melhor caminho para se atingir os objetivos e as metas desejadas.
Daí extrairmos a nossa problemática central desse estudo, investigar quais as
representações dos professores das escolinhas de futebol de Salvador sobre a
importância do Lúdico no processo ensino-aprendizagem do futebol?
Estabelecemos como objetivos do estudo:
Levantar as representações dos professores sobre ludicidade;
Investigar como os professores vêem o lúdico nas aulas de futebol;
Discutir a importância do lúdico na formação esportiva dos alunos das
escolinhas de futebol preservando o futebol-arte.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para dar conta de investigar o objeto escolhido para este estudo adotamos a
pesquisa qualitativa como referencia teórico-metodológica para o trabalho. Segundo
Minayo (1994) a metodologia é considerada como um elemento importante na
pesquisa, sendo esta, elemento central para a abordagem do contexto investigado.
Neste estudo nossa preocupação volta-se não só para quantificar e/ou
descrever os fenômenos e sim para estudá-los. Para tanto, iremos investigar o
contexto em que está sustentada a produção teórica na área acerca das
metodologias utilizadas no ensino dos esportes, buscar entender seus
desdobramentos no ensino do esporte nas escolinhas de futebol e se possível
intervir no contexto da prática de ensino do futebol na cidade de Salvador-Ba,
propondo a utilização de uma nova abordagem para o ensino do futebol dentro das
escolinhas do futebol, campo da pesquisa.
A pesquisa qualitativa segundo Minayo (1994), volta-se para estudar questões
particulares que envolvem um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou
seja, “trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores
e atitudes o que corresponde a um espaço mais rico das relações, dos processos e
dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis”.
Esse estudo tem como princípio a abordagem qualitativa do objeto
investigado, adotando como referência o estudo de caso. A pesquisa qualitativa,
segundo Ludke e André (1986), ao citar Bogdan e Biklen (1982), “envolve a
obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a
situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em
retratar a perspectiva dos participantes”. Seguindo essas autoras a pesquisa
qualitativa pode tomar algumas formas, dentre elas o caráter de um estudo de caso.

Os estudos de caso revelam experiência vicária e permitem generalizações


naturalísticas. O pesquisador procura relatar as suas experiências durante
o estudo de modo que o leitor ou usuário possa fazer as suas
generalizações naturalísticas. Em lugar da pergunta: este caso é
representativo do quê? O leitor vai indagar: o que eu posso (ou não) aplicar
deste caso na minha situação? A generalização naturalística (Stake, 1983)
ocorre em função do conhecimento esperiêncial do sujeito, no momento em
que este tenta associar dados encontrados no estudo com dados que são
frutos das suas experiências pessoais. (LUDKE & ANDRÉ, 1987)

Para se adequar a esse tipo de estudo o pesquisador tem que estar aberto a
novas descobertas, ficar sempre atento a novos elementos que surjam durante a
pesquisa, pois o conhecimento não é acabado e sim uma construção que se realiza
durante todo o processo da pesquisa.
De acordo com Ludke e André (1986), na pesquisa qualitativa o pesquisador
mantém um contato direto e prolongado com o ambiente e a situação a ser
investigada, onde a coleta de material, feita através da observação e o contato direto
entre o pesquisador e o objeto de estudo, espaço rico em pormenores que em
muitos casos passariam despercebidos, mas que auxiliam na compreensão do
problema que está sendo estudado. Esse tipo de pesquisa se interessa em observar
como o problema se manifesta no seu cotidiano, no seu ambiente natural, sendo
respeitado o ponto de vista dos participantes e suas perspectivas.

Tipo de estudo

Segundo Trivinos (1987), o estudo de caso, dentro da pesquisa qualitativa é


um estudo que volta-se para o estudo aprofundado de uma unidade ou de um
conjunto de unidades com características semelhantes. Neste sentido o estudo de
caso tem por objetivo investigar a natureza e abrangência da unidade, de um caso,
ou de alguns casos com características semelhantes, utilizando-se de diferentes
instrumentos.
Instrumentos de investigação

Para a fase exploratória do trabalho utilizar-se-á como coleta de dados


algumas estratégias de exploração de campo como: observação direta extensiva,
realizando-se por meio do questionário.
Conforme definição de Lakatos (2003, p.100): “Questionário e um instrumento
de coleta de dados constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser
respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador”.
Ao escolher o questionário como uma das estratégias de exploração de
campo, observaram-se as vantagens desse método descritas por Lakatos (2003, p.
100):
a. Economiza tempo, viagens e obtém grande número de dados.
b. Atinge maior número de pessoas simultaneamente.
c. Abrange uma área geográfica mais ampla.
d. Economiza pessoal, tanto em adestramento quanto em trabalho de
campo.
e. Obtém respostas mais rápidas e mais precisas.
f. há maior liberdade nas respostas, em razão do anonimato.
g. Há mais segurança, pelo fato de as respostas não serem identificadas.
h. Há menos risco de distorção, pela não influência do pesquisador.
i. Há mais tempo para responder e em hora mais favorável.
j. Há mais uniformidade na avaliação, em virtude da natureza impessoal do
instrumento.
l. Obtém respostas que materialmente seriam inacessíveis.

A coleta de dados será realizada pela observação das aulas pelo


pesquisador, que estará inserido no campo de pesquisa como participante
observador deixando claro para o grupo que a sua relação é restrita ao momento
que é feita a pesquisa de campo (MINAYO,1999).
O procedimento da técnica de observação participante, segundo (Minayo, 2002,
p.59) “se realiza através do contato direto do pesquisador com o fenômeno
observado para obter informações sobre a realidade dos atores sociais em seus
próprios contexto”. Nesse processo, ele, ao mesmo tempo, pode modificar e ser
modificado pelo contexto.
Análise de conteúdo

O método utilizado para a análise do conteúdo é o método de análise de


Bardin. Para este autor, a análise de conteúdo define-se como:

[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando, por


procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das
mensagens, obter indicadores quantitativos ou não, que permitam a
inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção
(variáveis inferidas) das mensagens (BARDIN, 1977 apud TRIVINOS,
1987, p.160).

O processo da análise de conteúdo passa por três etapas, sendo a primeira


delas a pré-análise que consiste na organização do material; em seguida tem-se a
descrição analítica onde o material pré-analisado é submetido a um estudo
aprofundado, orientado pelas hipóteses e referencial teórico; e finalmente, tem-se a
interpretação referencial que consiste o tratamento dos resultados (BARDIN, 1977
apud TRIVINOS, 1987).

Contexto da pesquisa

Esta pesquisa através do estudo qualitativo, tipo estudo de caso, realiza-se na


escolinha de futebol do esporte clube Vitória e Bahia - no clube do Baneb, no bairro
do Costa Azul. Essa escolinha funciona com a chancela do Vitória e atende a
crianças nas faixas etárias de 06 a 14 anos. O objetivo principal destas escolas é a
iniciação esportiva do futebol a essas crianças com o seu possível aproveitamento
nas divisões de base do clube.
Sujeitos da pesquisa

Os sujeitos que fazem parte deste estudo são os professores das crianças
matriculadas nas escolinhas. Como forma de delimitar os sujeitos a serem
investigados nesta pesquisa, sem perder a singularidade do campo investigado,
optou-se neste em sua delimitação para a entrevista e participação entre as
categorias infantis, que corresponde respectivamente às crianças na faixa etária de
06 a 14 anos. A escolha por esta categoria e faixa etária, justifica-se por estes
estarem numa fase de formação geral das habilidades para o esporte e não em fase
que agrega uma preparação física específica para o jogo do futebol.
Além de estarem numa fase em que os jogos e brincadeiras (elementos de
vivência lúdica) fazem mais parte do universo deles.
REFERENCIAL TEÓRICO

ASPECTOS HISTÓRICOS DO FUTEBOL NO BRASIL: FUTEBOL ARTE X


FUTEBOL TÈCNICO/FORÇA

A Gênese do Esporte Moderno: “o pai da criança”

O surgimento das diversas formas de manifestação esportivas, em sua


maioria, tem sua origem as práticas corporais lúdicas das distintas civilizações e que
ganham reconhecimento como esporte com o advento da modernidade. Os
primeiros esportes como conhecemos hoje, esportes modernos, são um advento das
novas formas de organização social surgidas a partir da revolução industrial, e
datam-se do final do séc XIX.
A partir do desenvolvimento do esporte moderno no século XVIII, e com
estreita relação com o desenvolvimento capitalista inglês, vão se formando as
atividades esportivas, com intenções de divertimento, onde as classes dominantes
(Aristocracia e Burguesia emergencial) eram as grandes favorecidas,
proporcionando então, o crescimento do esporte, e a sua modernização nos séculos
XIX e XX.
Segundo (BETTI, 1991) o desenvolvimento industrial fez ascender a classe
média, com poder político e influência social. Essa classe média reivindicou
privilégios educacionais e conseguiu a criação de um número considerável de novas
escolas públicas. Esse fato foi decisivo para a multiplicação dos jogos esportivos.
Através de alguns aspectos como a industrialização, a urbanização, o
surgimento dos sistemas nacionais de ensino e posteriormente o surgimento das
organizações vão formando os grupos de clubes, as federações inclusive a de
futebol, essa promovendo competições a nível regional e nacional (organização
formal) e posteriormente, o aparecimento de alguns esportes novos fazendo assim
com que as práticas corporais vão sendo exploradas comercialmente, surgindo
assim o profissionalismo. (BRACHT, 2004)
Porém, com o surgimento do profissionalismo/amadorismo surge o conflito
básico social capitalista entre capital x trabalho.
As críticas postas a esses esportes e as suas características relacionadas ao
capitalismo e a burguesia fez com que os movimentos populares inserissem em
suas bandeiras de luta e temática esportiva. Os trabalhadores tiveram o apoio de
muitos críticos acadêmicos que via no esporte a reprodução dos valores
hegemônicos da elite e a manutenção do status quo. Diversos foram os autores de
tradição marxista ou neo-marxista que procuraram em seus textos questionar os
aspectos do esporte. (BRACHT,2004)
Tendo este cenário como pano de fundo às décadas de sessenta e setenta
foram palco de inúmeros encontros para discutir o esporte para todos culminando no
ano de 197 da publicação da Carta Internacional da Educação Física Esporte e
Lazer (TUBINI, XX). Documento que passa a balizar as proposições do esporte em
diversos países, inclusive no Brasil onde a partir da constituição de 88 passa a ser
em três dimensões, esporte educação, participação e rendimento.
Galvão, Silva, Rodrigues (2005) reitera que o esporte, hoje, é classificado nas
dimensões supra citados.
O esporte-educação localizado na escola visa à democratização gerando
cultura pelo movimento de expressão do individuo com as manifestações sociais,
banindo a exclusão social. A relevância do exercício crítico da cidadania e outro
aspecto da formação integral do ser humano (TUBINO, 2005 GALVÃO, SILVA,
RODRIGUES, 2005).
Já o esporte educação diz respeito ao prazer lúdico, onde os locais e espaços
livres de obrigações da vida cotidiana, e a descontração, a divisão e a integração
social são fatores fundamentais na construção desse momento (TUBINO, 2005;
GALVÃO, SILVA, RODRIGUES, 2005).
O esporte de rendimento privilegia a relevância na vitória sobre os
adversários. As diversas modalidades estas filiadas as federações, comitês
olímpicos, órgãos esses que são responsáveis por organizar os campeonatos,
eventos e fazer cumprir as regras universalmente preestabelecidas. Outro fator
importante é a prioridade nessa prática de participação só de talentos esportivos,
mostrando com esses aspectos que esse tipo de esporte tem uma tendência que o
caracteriza de antidemocrático (TUBINO, 2005, GALVÃO, SILVA, RODRIGUES,
2005).
“Nasce o primo rico dos esportes que se populariza no Brasil”

O futebol, assim como outros esportes, tem sua origem, em manifestações


lúdicas presentes nas tradições de vários povos, manifestados desde a pré-história,
através da influência e evolução de vários jogos de bola com os pés. Entretanto,
como manifestação sistematizada sua origem, pois, remota aos jogos modernos,
cuja origem se refere ao século XIX, nas escolas públicas inglesas.
Esse esporte passou pelo mesmo processo de elitização das demais
modalidades esportivas e mereceu as mesmas críticas feitas pelos principais
estudos.
Com o crescimento do esporte na sociedade atual e com parâmetro nos
espaços que são dados na mídia sem falar nas grandes revistas de atualidades e
jornais de grande circulação, percebe-se que o esporte como um fenômeno social
contemporâneo estimula reflexões sobre o que deveremos construir, refletir, e quais
as possibilidades para propor possibilidades de tratamento didático no sentido da
construção de uma identidade escolar do esporte (DARIDO, 2005).

No Brasil, esta modalidade esportiva remota à volta de um brasileiro que


havia ido estudar na Inglaterra no ano de 1894. Charles Miller assim era chamado,
trouxe duas bolas e alguns materiais indispensáveis para a prática do futebol. No
ano seguinte os primeiros jogos foram realizados em um campo da companhia de
Aviação Paulista e na várzea do Carmo. Sendo assim, Miller organizou o primeiro
jogo oficial entre Associação do São Paulo Athletic Club formando duas equipes: o
da Companhia de gás e a do São Paulo Railway ,de ferroviários,com a vitória do
São Paulo Railway de ferroviários por 4 x 2.
No Brasil, o futebol era praticado no inicio apenas por brancos, e aos poucos
os negros e mulatos foram integrando as equipes superando preconceitos racistas.
A possibilidade de jogar em vários espaços e com materiais simples e de fácil
adaptação e sem falar nas regras simples que são assimiladas com facilidade.
Claramente percebe-se a evolução do futebol através de fatos como esses aqui
citados.
Segundo Damatta (1997), o futebol é uma forma que a sociedade brasileira
encontra para se expressar. É uma maneira do homem nacional extravasar
características emocionais profundas tais como, paixão, ódio, fidelidade, felicidade,
tristeza, prazer, dor, resignação, coragem fraqueza e muitas outras .
Ao longo do século, assim como no carnaval o brasileiro encontrou no futebol,
formas para se expressar extravasando as emoções das pessoas, talvez por ser um
esporte universal, que emociona a todos sem distinção de raça, status social,
gênero, entre outras.
Desperta paixões, alegrias, e da voz as aspirações dos indivíduos frente à
impotência, tédio, sofrimento e alienação que envolve o mundo moderno (OLIVEIRA,
1999). O futebol é hoje o desporto coletivo mais praticado no mundo e carrega a
identidade social e cultural de nosso país que se tornou referência por ter os
jogadores de futebol considerados os melhores do mundo.
Dentre todos os assuntos que circulam no mundo, poucos despertam tanto
interesse e mobilizam tantas pessoas como o futebol.
O futebol consegue chamar a atenção do mundo até mais do que a própria
política, esfera que define os rumos de nossa sociedade e rege nossas vidas de
forma direta e indiretamente.
Ele está presente em todas as rodas de conversas com amigos, com a
família, na escola e no trabalho. Tem programas especiais de televisão e nas rádios,
adernos em jornais, além de ter um lugar garantido na programação de domingo.

O “primo rico / futebol”: filho rebelde ou que sujeita as normas do pai?

A idéia do futebol criativo relacionado às características do povo brasileiro,


desde o início, foi o maior responsável pela rotulação e divulgação do estilo,
denominado futebol-arte, como sendo marca nacional. Essa característica serviu
para mudar o conceito e o preconceito existente no futebol.
Segundo Souza (2001, p.20) “a correspondência entre futebol-arte e nação
não é exclusiva nem baseada em preferência absoluta, todavia, persiste entre nós
combinando-se criatividade com outros modelos e estilos”. Gil (1994) reitera essa
perspectiva apresentada por Souza relacionando o futebol com a criação de um dos
aspectos da nação brasileira, demonstrando como a imagem do futebol-arte se
vincula com a idéia de povo brasileiro harmonicamente miscigenado.
O entendimento que temos é de que no cenário mundial possam existir duas
escolas distintas quanto ao estilo de jogo de futebol. As nações que praticam um
futebol mais criativo pertencem à escola do chamado futebol-arte e as que visam
somente o resultado, pertencem ao futebol-força.
No cenário internacional, ligado a própria lógica do esporte moderno e a seu
processo de mercadorização do esporte, entre os dois distintos estilos de jogo
apresentados por Giglio há uma hegemonia do futebol baseado em resultados,
prevalecendo assim o futebol força/técnico e não o futebol arte.
Poucas são as seleções que assistimos jogar no “grande baile de gala do
primo rico, regado a show pirotécnico, caviar e champanhe”, estamos nos referindo
a copa do mundo, que apresentam um estilo de jogo regado pelo futebol arte. Por
exemplo, na última edição do “baile de gala” a equipe que se sagrou campeã, a
seleção da Itália, é conhecida pelo seu estilo “sério” de jogar, prevalecendo o seu
sistema defensivo, a marcação dura, a racionalidade nas jogadas, a disposição
física e a determinação pela vitória.
Sendo assim é a tensão entre a exigência do “pai do primo rico” pela
manutenção no futebol dos valores e sentidos a ele atribuído e as características do
povo brasileiro que torna o futebol no Brasil “um filho rebelde”. “O drama social
provocado pela oposição entre “futebol-força” e “futebol-arte” termina por conciliar o
contraste por meio de um “arranjo” ou talvez um “jeitinho brasileiro”, que introduz a
técnica do futebol-arte no seio do futebol moderno”.
Segundo Dois (2005), o estilo “rebelde” de nosso futebol surge pela alegria do
povo brasileiro, pela sua relação com o corpo, com a bola, por os jogadores
brasileiros aprenderem a jogar brincando, na picúla e nos demais jogos de bola com
os pés, que fazem parte do grande e rico repertório cultural brasileiro de jogos com
bola. Para o autor é mais do que preciso ensinar de novo ao mundo, que o futebol é
a arte do drible, do passe, do lançamento, da finta, da tabelinha, da alegria de jogar.
Que deve ser tão descontraída como brincar de picula ou soltar arraia, pipa ou
papagaio, ou jogar bola de gude ou peão, ou fazer um golaço no futebol de botão.
Brasil tem ao longo dos tempos sido um dos grandes representantes, talvez o
maior, no cenário mundial do futebol arte “rebelde”, podemos dizer até que em
alguns momentos isso contagiou outras seleções, é possível lembrar da “laranja
mecânica/ carrossel holandês” a grande seleção holandesa que atraiu todas as
atenções no “baile de gala” de 1974, pelo futebol alegre, criativo e em sintonia
apresentado pelos jogadores em campo.
Carrossel holandês foi o nome dado ao esquema tático utilizado pela seleção
de futebol da Holanda na Copa de 1974. O esquema parecia uma versão melhorada
do da Hungria de 1954 e foi chamado de carrossel holandês porque os jogadores,
com exceção do goleiro, não tinham posições fixas e circulavam pelo campo. Nesta
copa, a Holanda não foi campeã, mas o seu esquema tático e o seu futebol “forte”
ficaram marcados na memória das pessoas.
A partir de 1974, o modelo de futebol praticado pelo Brasil (futebol-arte) entra
em crise como conseqüência do fracasso da seleção brasileira. Depois disso, passa-
se a modernizar o futebol, que se tornou mais tático, cada vez mais parecido com o
futebol europeu e cada vez menos artístico.
O futebol “rebelde” volta a apresentar-se como “rebelde” na participação do
futebol brasileiro na copa do mundo de 82. A equipe era reconhecida com uma das
melhores da história do Brasil nas copas do mundo, o futebol apresentado
empolgava a todos, no entanto a derrota para o futebol força, a seleção da Itália,
eliminou o Brasil da competição e colocou em crise o futebol apresentado pela
seleção brasileira, o filho “rebelde” se viu “sem eira nem beira”. Seria a “rendição” do
filho “rebelde”, teria ele se curvado aos desejos do “pai”? Teria o filho “rebelde”
entregado os pontos? Ou a partir desse momento o futebol brasileiro expressou-se
como dizia nosso grande poeta baiano Raul Santos Seixas “eu prefiro ser esta
metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinão formada sobre tudo...”?
O período, que dura desde aquela copa, que os brasileiros gostariam de
esquecer, até os dias atuais foi marcado por rendições e emancipações do futebol
brasileiro ao futebol força/técnico. Muitos têm tentado dar ao nosso futebol uma nova
face, atribuindo-lhe característica do futebol força, mas nas várzeas, nas ruas, nos
terrenos baldios, quase não mais existentes no nosso país, o futebol arte insiste em
resistir. Mesmo diante deste contexto restritivo ao futebol arte, sem falar nos “clones”
de jogadores de futebol “todos iguais”. Não é isso que as escolinhas desejam fazer!
O Brasil ainda é reconhecido internacionalmente pela característica diferenciada de
sues atletas, pela criatividade, ginga e malandragem de seus atletas. Malandros,
mas não mais rebeldes.
Para Machado (2000), hoje, no Brasil, há um consenso em torno da imagem
do jogador de futebol “moderno”, forte, disciplinado, combativo, bem preparado
fisicamente e taticamente consciente, brasileiramente convivendo com o jogador
criativo e talentoso que desequilibra o jogo tático. No meio ao futebol dito moderno,
o futebol-arte sobrevive no jogador que sozinho desequilibra a partida com lances de
magia.

O LÚDICO E O ENSINO DO FUTEBOL: ENCONTROS E DESENCONTROS

Em alguns momentos quando saíamos e principalmente quando


freqüentávamos outros lugares apropriados para adulto como, por exemplo: feira,
aniversários de adultos, reuniões de condomínios etc. Às vezes me perguntava o
que estava fazendo ali?
Bom o que eu queria mesmo era estar brincando com os meus amigos,
saltando, pulando e criando minhas brincadeiras e não sendo alienado e manipulado
pelas mãos adultas.

Nessa perspectiva a criança, enquanto corpo infantil brincante,


vem sendo manobrado no sentido de tornar-se alienado do
processo e do produto de suas ações corporais, tornando-se
um instrumento de reprodução e não de criação (WERNECK,
1997, p.104).

É relevante frisar que as atividades quando são construídas coletivamente por


todos aqueles que se colocam em jogos com prazer, faz com que as atividades
tenham um resultado satisfatório.

A vivência lúdica no esporte fala, pois, do prazer em participar das ações


construídas, coletivamente por todos aqueles que se colocam em jogo.
Nessa perspectiva os jogadores - sujeitos das ações pedagógicas
realizadas - compartilham entre si a alegria de vivenciar o processo e em
se apropriar do produto de suas ações. Assim, na vivência lúdica todos
reconhecem seu compromisso com o avançar da experiência, com chance
de brincar com os conhecimentos - conteúdos culturais -, com o espaço,
com o tempo, com diferentes materiais com as ações desenvolvidas, com o
corpo dos colegas e com o próprio corpo. (WERNECK, 1997, p.107)
O lúdico tem sua origem na palavra latina “ludus”, que do ponto de vista
etimológico, quer dizer “jogo”, mas se ficasse confinado somente à sua origem, o
termo lúdico estaria se referindo apenas ao jogar, ao brincar, ao movimento
espontâneo.
O lúdico é uma necessidade básica da personalidade, do corpo e da mente,
faz parte das atividades essenciais da dinâmica humana, e que segundo Feijó
(1992, p.61) “[...] caracteriza-se por ser espontâneo, funcional e satisfatório, onde
nem todo o lúdico é esporte, mas todo o esporte deve ser integrado no lúdico”.
Brincar e jogar com ou sem regras significa que mediante um ritual de
atitudes e gestos, prazeres e divertimentos a ludicidade se faz presente na formação
do indivíduo, percebe-se também que assimilaremos todas nossas tarefas com mais
facilidade de que quando são impostas como obrigações e deveres.
É relevante dizer que o momento de brincar, simbolizar e de participar das
atividades lúdicas não significa que essas atividades não sejam sérias, pelo
contrário, para elas é de grande importância.
Segundo Huizinga (1951), numa tentativa de resumir as características
formais do jogo poderíamos considerá-lo como uma atividade livre, conscientemente
tomado como não sério e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de
absorver o jogador de maneira intensa e total.
É de grande importância que a criança esteja em constante movimento
(Platão). E qual a melhor maneira de conseguir esse feito e que não seja através de
brincadeira?
Nessas brincadeiras as crianças desenvolvem e experimentam coisas,
estudam causa e efeitos, resolvem problemas e é através do brincar que a criança
expressa suas fantasias, seus sentimentos, suas ansiedades e suas experiências.

O ato de brincar é uma atividade inerente ao ser humano; é parte da sua


natureza, favorecendo o desenvolvimento das pessoas, principalmente das crianças.
Quando se é criança, quase toda atividade é jogo e é pelo jogo que ela adivinha e
antecipa as condutas superiores.
O brincar, para Piaget (apud KIHIMOTO, 1996, 2001), não recebe uma
conceituação precisa, é uma ação assimiladora, aparece como forma de expressão
da conduta, cheia de características metafóricas como espontaneidade e prazer. Ao
inserir a brincadeira dentro do conteúdo da inteligência e não na estrutura cognitiva,
Piaget distingue a construção de estruturas mentais da aquisição dos
conhecimentos. Nesse sentido, a brincadeira, enquanto processo assimilativo,
participa do conteúdo da inteligência, igual à aprendizagem e também é
compreendida como conduta livre, espontânea, que a criança expressa por sua
vontade e pelo prazer que lhe dá. Portanto, ao manifestar a conduta lúdica, a
criança demonstra o nível de seus estágios cognitivos e constrói conhecimentos de
acordo com seu nível de desenvolvimento.
Para Châteu (1987, p. 15): “A criança tenta se realizar no seu mundo lúdico,
sendo que o jogo proporciona a fuga do real, é uma evasão”.
APRESENTAÇÃO E ANALISE DE DADOS

Nesta parte do estudo, apresentamos e discutimos os dados colhidos junto


aos professores que trabalham nas escolinhas de futebol, mapeando através da
análise do conteúdo das respostas dos mesmos; sobre a importância do lúdico e de
que forma que essas atividades são passadas experiências no processo de ensinar-
aprender futebol. Para tanto, utilizou-se para a coleta de dados neste estudo de
caso, a entrevista, feita aos cinco professores sujeitos desta investigação.
A partir dessa análise teórico-metodológica das falas produzidas pelos
professores, embasado pelo referencial teórico constituído, buscou-se compreender
a variedade de informações expressas em sua prática de ensino do futebol nessas
escolinhas e a significação desses profissionais que atuam nas escolinhas de
futebol sobre a importância do brincar e principalmente da inserção do lúdico no
ensino do futebol.

O trabalho de perspectiva qualitativa nesta pesquisa nos permite apresentar


os dados obtidos em forma direta ou indireta, através de citações ou interpretação
do conteúdo da fala dos professores. Desta forma, organizamos e apresentamos os
dados em dois itens, a seguir: o primeiro apresenta uma categorização das falas dos
professores e o segundo apresenta a análise dos dados apresentados no primeiro
item.

OS DADOS DO CAMPO DE PESQUISA

Este quadro apresenta as categorias que selecionamos para organizar as


falas dos entrevistados de acordo com os objetivos propostos para este estudo, e a
partir daí iniciar a análise dos dados coletados após terem sido feitas às entrevistas
com os professores. Na primeira coluna aparecem os itens utilizados na entrevista
feita aos sujeitos participantes da pesquisa e na segunda coluna apresentamos o
conteúdo da fala dos entrevistados que melhor se adequou ao questionamento feito.
(H) Visando ao não comprometimento
Quando comparado a outras gerações com os clubes e visando,
de atletas de futebol a geração atual é principalmente o lado financeiro [...] e a
alvo de criticas. O que você acha formação educacional, dedicação para
disso? Que habilidades você acha que a pratica da sua profissão.
falta aos nossos atletas hoje?
(J. A) Honrava a camisa que vestia [...]

(L) Acho que não falta habilidade [...]

(A. M.) Força de vontade, garra, pois os


atletas só jogam por dinheiro e não por
amor.

(E. F.) Acho que o futebol de hoje é


criticado porque o que nós víamos do
velho futebol arte, jogado com muita
técnica, habilidade e com muita
inteligência foi substituído pelo futebol
de força, onde prevalece o porte físico,
portanto, o futebol de hoje é feio [...].
Falta realmente técnica e habilidade
com a bola.
(H) Quando estão praticando futebol
O que mais lhe chama atenção em livre e o contato permanente com a
seus alunos quando eles têm a bola.
oportunidade de estarem em um
momento livre (antes das aulas, (J. A.) Antes do começo das aulas eles
durante os intervalos, entre as formam o baba onde ficam mais
atividades, no baba)? descontraídos

(L).

(A. M.) Individualismo de um só querer


ficar com a bola e o resto esperar.

(E. F.) [...] quando inicia as atividades


eles ficam super ativos, demonstrando
uma energia incrível.
(H) Pega Pega dentro da grande área
Que tipo de jogos e brincadeiras você do goleiro [...]
utiliza? Descreva algumas.
(J. A) Competição coloco dois grupos
lado a lado e cada aluno faz chutes a
gol o grupo que perdeu será obrigado
a pagar uma prenda.
(L) O gato e o Rato. São feitas
corredores com as mãos dadas [...]

(A. M.) Golzinho, futebol, dois toques,


pega-pega.

(E. F.) Estafetas e pega-pega [...]


(H) Motivação para o desempenho dos
Caso lhe fosse dado esse poder, o que alunos nas suas atividades [...]
mudaria na forma como se trabalha
futebol nas escolinhas, hoje. Por que? (J. A) Hoje eu coloco na cabeça dos
alunos que eles não são profissionais
ali é uma terapia ,as escolinhas coloca
na cabeça que eles vão jogar no
Flamengo,Bahia ,Santos etc.
ANALISE DOS DADOS

Para a análise dos dados extraídos do campo empírico apresentado no item


anterior, organizaremos nosso estudo em três itens: o lúdico na ótica dos
professores das escolinhas de futebol; o lúdico no ensino do futebol e futebol arte x
futebol força: interfaces com a ludicidade.

O lúdico na ótica dos professores das escolinhas de futebol

Para chegar a ótica dos professores a acerca da ludicidade organizamos essa


categoria estabelecida a partir do conteúdo das informações dos professores, em
quatro itens: a identificação das características do jogo, o momento em que o lúdico
aprece nas aulas, os tipos de atividade lúdica e os benefícios da atividade lúdica.
Ao falarem sobre a atividade lúdica, embora uma compreensão clara não
tenha sido apresentada pelos entrevistados, diversas características dessas
atividades aparecem no enunciado emitido por estes professores, como prazer,
alegria, diversão, atividade social, motivação, descontração, entre outros.
Essas características podem ser encontradas em estudos de diversos autores
da área (KSIHIMOTO, ANO; HUIZINGA, ANO), como exposto no referencial teórico
deste trabalho. Uma exposição de características da atividade lúdica podem ser
encontrada nas falas dos sujeitos “E. F”, “H” e “A. M”.
A um consenso entre os entrevistados quando se referem à atividade lúdica
de sua característica de ser uma atividade social, como pode ser visto no
fragmentos abaixo:

(E. F.) É o momento sem sombra de dúvidas da integração


entre os alunos.
(H) Descontração, integração, socialização alegria não
tornando as aulas estressadas.
(A. M.) Atividades lúdicas, minha aula sempre tem uma visão
de socialização e integração.

Ao serem interrogados acera do espaço destinado ao lúdico em suas aulas


diferentes foram os enunciados emitidos pelos entrevistados. Suas falas expressam
que o lúdico é utilizado como forma de descontração, como forma de integração e
até mesmo como forma de desenvolver a motivação dos alunos. Isso pode ser
percebido na fala dos entrevistados “J. A.”, “E. F.” e “H”:

(J. A.) Antes do começo das aulas eles formam o baba onde
ficam mais descontraídos;
(E. F.) Normalmente no início das aulas. Tem como finalidade
a integração entre os atletas;
(H) Quando há necessidade de melhor desenvolvimento
aspecto motivador atenção interesse,alegria e vontade de
pratica [...].

Embora os professores supracitados descrevam o lúdico presente em suas aulas


os professores entrevistados não demonstraram ter uma compreensão ampla da
presença do lúdico nas suas aulas, visto que, esse, aparece com um caráter
secundário e não como atividade principal das aulas. Os professores não
conseguem atribuir um significado ao lúdico, que não o da recreação, da
descontração e da dimensão compensatória.

O Lúdico no ensino do futebol

Quando foram interrogados sobre a importância do lúdico no ensino do


futebol, percebemos que a grande maioria dos professores percebem os bons
resultados que podem ser alcançados com uso dessa atividade em suas aulas,
como estratégia metodológica, entretanto, não sabem explicar o porque, e nem
compreende as relações da ludicidade com a aprendizagem de habilidades e
competências, entre elas as habilidades e competências próprias do jogar futebol.
Quando perguntados sobre essa relação ludicidade e ensino-aprendizagem
do futebol, os professores ora falaram sobre o momento em que esses aparecem
nas aulas, ora falaram da necessidade de uso dessas atividades nas aulas.
Percebe-se isso no recorte feito dos depoimentos dos professores “E.F”, “A.M”, “H”

(H) Quando há necessidade de melhor desenvolvimento


aspecto motivador atenção interesse, alegria e vontade de
pratica [...]
(E. F.) Normalmente no início das aulas. Tem como finalidade
a integração entre os atletas.
(A. M.) Aprendem a lidar com o outro e a participação em
grupo.

Embora não tenha um entendimento claro da relação lúdico versus


desenvolvimento de habilidades e competências, os professores em suas falas
fazem referencia ao potencial motivador, de integração e de socialização da
experiência lúdica dentro das aulas de futebol. Nesse sentido, os professores não
percebem que ao tratar o ensinar-aprender futebol de forma lúdica está sendo
garantido o aprendizado dos fundamentos básicos do futebol. Durante a atividade
lúdica são desenvolvidas e apropriadas pelos alunos, de forma prazerosa e em
contextos, muitas vezes muito mais próximos da situação real de uso desses
fundamentos, diversas habilidades e competências para se jogar futebol.

Futebol arte x futebol força: interfaces com a ludicidade

Ao emitirem sua opinião sobre futebol arte e futebol força e as interfaces com
a ludicidade percebemos que a pouca informação que esses “profissionais da bola”,
os professores, tem, diante disso, esses só se preocupam com o rendimento ou
resultado. O mais importante para eles é que seja garantido ao aluno o ensino-
aprendizado dos fundamentos, tais como: passe com perna direita, perna esquerda,
chute curta distância, chute média distância, chute longa distância, cabeceio,
domínio ou controle de bola, condução, etc, do que necessariamente, levar os
alunos a desenvolver uma “autonomia relativa” dentro do jogo de futebol.
Desenvolver essa competência “a autonomia” é reconhecer que as situações
de uso desses fundamentos só se dão em um contexto concreto de uso, que se dá
em um envolvimento com uma situação de oposição e cada ação desse aluno se
constituirá a partir dessa situação de oposição, reconhecido isso é necessário que o
aluno tenha desenvolvido uma autonomia para fazer a melhor opção em
determinada situação. Nessa perspectiva a o predomínio do ensino do futebol
técnico, ou melhor, tecnicista, visto que o ato de ensinar-aprender se prende a
repetição mecânica do gesto técnico e não a possibilidades de construir cada jogada
diante de suas possibilidades reais de superação da situação de oposição, próprias
do jogo.
Ensinar na perspectiva de desenvolver a autonomia implica em matricular a
criança nas aulas de futebol “de corpo inteiro” e explorar destas todas as suas
potencialidades, a ação motora, o equilíbrio emocional e seu potencial criativo,
inventivo e não apenas restringir-se ao ensino do gesto mecânico de movimentos.
Como para esses professores o que importa é a capacidade técnica dos alunos e
não a aquisição de habilidades mais amplas para se jogar futebol, muitas vezes o
único aspecto trabalhado além do motor são as habilidades físicas dos alunos, vistos
que essas são por esses vistas como fundamentais para o bom desempenho técnico
dos alunos.

(L) Coordenação motora, conhecimento corporal


condicionamento físico e aprimoramento dos fundamentos.
(E. F.) Fundamentos técnicos e específicos, a depender da
faixa etária. [...]
(J.A) Todas as aulas como eu trabalho só a parte técnica, fica
difícil colocar a parte física.

Outros elementos da relação de interface entre a ludicidade, o ensinar


aprender futebol, num contexto do futebol arte versus futebol técnico-força,
aparecem na fala dos entrevistados. Essa significação toma dois sentidos distintos,
no primeiro as falas de “E. F” e “H”, aponta para o necessário desenvolvimento de
habilidades corporais, físicas e técnicas para os alunos e para a diminuição da carga
de stresse desses alunos quando vivenciam o jogo “lúdico”. No segundo o processo
de significação, presente nas falas do professor “E. F.” e “A. M.”, aparece, mesmo
que de forma não tão explicita, uma crítica ao futebol técnico-força, quando
desprovido da apresentação de outras habilidades. O professor “A. M”, por exemplo
cita o lúdico como espaço de desenvolvimento dessas habilidades:

(E. F.) Eu mudaria a metodologia, já que os professores hoje


das escolinhas só colocam o baba, acho que teríamos que
trabalhar com os garotos, a depender da faixa etária -
psicomotricidade, habilidade e muito fundamento como passe,
condução, cruzamentos e finalização.
(H) Descontração, integração, socialização alegria não
tornando as aulas estressadas.

(E. F.) Acho que o futebol de hoje é criticado porque o que nós
víamos do velho futebol arte, jogado com muita técnica,
habilidade e com muita inteligência foi substituído pelo futebol
de força, onde prevalece o porte físico, portanto, o futebol de
hoje é feio [...]. Falta realmente técnica e habilidade com a
bola..

(A. M.) Brincar ensina muitas coisas que só praticando, ou


seja, só brincando aprende a driblar, lançar, correr, chutar, é
um momento livre e único

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo trata do papel do professor de Educação Física na atividade de


ensinar-prender futebol em escolinhas de esporte, mais precisamente de futebol,
para tanto, o faz a partir do levantamento das representações dos profissionais que
atuam nessas instituições, sobre o significado que esses atribuem ao lúdico nesse
processo pedagógico.
Ao término desta pesquisa percebeu-se a partir da revisão teórica que o
lúdico quando usado nas aulas de futebol nas escolinhas é um importante recurso
para o processo de ensino – aprendizagem, pois, através da vivência com o brincar,
a criança tem a possibilidade de se desenvolver integralmente.

Outro fato encontrado na literatura é que no jogo, a criança tem a


oportunidade de vivenciar e experimentar situações e momentos que a levem a
crescer e a se desenvolver de forma lúdica, criativa e prazerosa. Para autores como
Freire (ANO), o jogo quando é utilizado nas aulas das escolinhas de futebol
constitui-se como um instrumento para que seja alcançado o desenvolvimento físico,
motor, afetivo e social da criança. Desenvolvimento no aspecto psicomotor
(estruturação espacial e temporal, coordenação geral), no aspecto afetivo-social,
desenvolvem a (autonomia e a consciência corporal), sendo satisfatória para a
criança, pois, estará adaptando-se e interagindo com o meio que as cerca, sentindo-
se capazes e confiantes para se expressarem e através dessa ludicidade garantir
sua aprendizagem.

Após a análise dos dados obtidos, ficou evidente a utilização mesmo pelos
sujeitos investigados sem um pleno conhecimento e compreensão da ludicidade nas
aulas de futebol. Alguns professores mostraram-se preocupados em adequar o
brincar de acordo com as necessidades das crianças, além de resgatar e valorizar
as brincadeiras o lúdico em suas aulas possibilitando as crianças de se divertirem,
vivenciando atividades prazerosas, no entanto atribuem a esse elemento um caráter
secundário.

Pode-se perceber, também, que os professores não estão preocupados


também em respeitar a individualidade dos alunos, seus níveis de desenvolvimento
e seus níveis de aprendizagem, para que a partir daí seja alcançado um
desenvolvimento em sua totalidade. Percebe-se apenas que os professores dão
prioridade ao ato de repetir, para conseguir uma performance e utilizam o lúdico
apenas com aspecto motivacional, como meio para o desenvolvimento do interesse
dos alunos pelo aprendizado que eles consideram importantes, o desenvolvimento
de habilidades técnicas e físicas.
Também percebe-se pela fala dos professore que o lúdico esta presente
como elemento de motivação, atenção para um bom desenvolvimento nas aulas
,também como momento de integração entre os atletas e na socialização entre eles.

Percebemos a importância do lúdico na formação dos alunos nas


escolinhas preservando o futebol-arte quando no momento do brincar com a bola
,no momento do coletivo onde o professor participa só como mero espectador
(rachão) formas livre de domínio de bola ,jogos e brincadeiras, dando oportunidade
aos alunos para criar, recriar.
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