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8ª BIENAL INTERNACIONAL DA ARQUITETURA

Workshop para Qualificação Urbana em Cidades-Sede da COPA 2014 - Natal

Contribuições à reflexão sobre o legado urbano

Batendo bola, antes de começar o Jogo - considerações iniciais

A escolha de Natal como uma das cidades a sediar a Copa do Mundo em 2014 clama
por uma discussão pública, democrática, acerca das oportunidades que investimentos
dessa monta podem representar para a melhoria da qualidade do espaço urbano,
requerendo, ao mesmo tempo, uma reflexão técnica e crítica sobre os perigos e
conflitos que podem advir da construção de estruturas permanentes e impactantes em
sítios de grande fragilidade ambiental com processos naturais tão expressivos e
dinâmicos em uma cidade que carece na atualidade, de infra-estrutura urbana
compatível à realização de evento desse porte.

Considerando os objetivos do presente Workshop - promovido pelo Instituto de


Arquitetos do Brasil e realizado no âmbito da 8ª Bienal Internacional de Arquitetura no
sentido de discutir e apresentar sugestões para o legado desse evento mundial à
escala urbana, um grupo de várias formações técnicas - arquitetos, urbanistas,
paisagistas, geólogos e estudantes de arquitetura e jornalismo - reuniu-se em outubro
de 2009, mantendo aquecida a discussão até o momento e atualizando informações
com visitas ao local de construção dos equipamentos esportivos, em janeiro de 2010,
para a conferência de dados sócio-ambientais e o Estado da Arte do Planejamento do
Complexo.

O projeto tomado com referência para este trabalho foi o apresentado pela Prefeitura
Municipal de Natal e Governo do Estado do Rio Grande do Norte à Confederação
Brasileira de Futebol (CBF). Deve-se ressaltar, entretanto, que na vistoria efetuada por
membros do workshop no começo do corrente ano, como também nas entrevistas
efetuadas a gestores públicos e à população em geral, pôde-se perceber o grau de
inquietação, por parte da sociedade, com relação aos destinos da área e o desejo de
maior transparência do processo e participação popular; por outro lado, os próprios
gestores públicos consultados, também manifestaram opiniões divergentes com
relação aos edifícios a serem construídos, sobretudo no que diz respeito à
implantação de prédios privados em área pública, o que de fato clama por um debate
mais amplo, aberto, transparente capaz de envolver vários atores sociais – entidades
de categoria, gestores públicos, Universidade, técnicos de diferentes disciplinas e
população em geral, a fim de que a sociedade como um todo possa, de fato, ter
ingerência sobre intervenções urbanas que afetarão seu cotidiano.
A Proposta apresentada

A concepção original de projeto publicada pela grande imprensa e apresentada à CBF


e à FIFA propõe para uma área de 45 hectares de grande centralidade urbana:

- A construção de novos estádio (intitulado Arena das Dunas) e ginásio, com projeto
executivo desenvolvido pela empresa inglesa POPULOUS (HOK SVE) em parceria
com os escritórios brasileiros Coutinho Diegues Cordeiro (RJ) e Felipe Bezerra
Arquitetos (RN), o que implicaria na demolição dos atuais Estádio de futebol, o
“Machadão” e Ginásio de Esportes Huberto Nesi, o “Machadinho”.

- A edificação de um novo Centro Administrativo para o Governo do Estado e


Prefeitura, o que acarretará a implosão do centro atual composto de cerca de 10
edifícios.

-A implantação de complexo imobiliário constituído de prédios comerciais, shopping


center, estacionamentos subterrâneos, hotéis e teatros, entre outros usos, além de
tratamento paisagístico,considerado sustentável, segundo seus autores. Chegou-se
mesmo a alardear, na grande imprensa, que se tratava de um dos projetos mais
ecologicamente corretos, entre os vários das cidades-sede do Mundial.

Todo esse complexo esportivo-governamental-imobiliário seria construído por meio de


PPPs (parcerias público-privadas) e verba do PAC da Copa (recursos do Governo
Federal).

NATAL – uma cidade que pode morrer na praia...

e/ou no parque.

A cidade de Natal se acomoda entre dunas, rios e mar, estende-se por uma área de
170, 298 km² e conta com uma população de 801.752 habitantes (dado de 2007). Sua
paisagem natural é deslumbrante e fonte de geração de divisas da atividade turística:
céu claro, quase todo o ano (o que lhe rendeu o apelido de Cidade do Sol); ventos
alísios providenciais e generosos, que sopram do quadrante sudeste,
predominantemente, configurando um micro clima prazeroso para quem estiver na orla
e sob as árvores no ambiente mais urbanizado; dunas alvíssimas e de granulometria
tão fina que permite um re-desenho cotidiano de sua topografia pelo vento se
espraiam pelo litoral, demandando um cuidado todo especial na consolidação de
estruturas permanentes em ecossistemas tão dinâmicos, uma arquitetura própria,
capaz de entender características geomorfológicas, hidrológicas e climáticas tão
singulares sem comprometer funcional ou esteticamente um sítio natural de tão rara
beleza. As dunas, por outro lado, abrigam um aqüífero subterrâneo que, há algumas
décadas atrás, podia ser considerado de qualidade ímpar para o consumo, devido ao
filtro que as areias representam. Sobre as dunas, uma vegetação típica de tabuleiros
também se deita ao sabor dos ventos, e é responsável pela integridade do
ecossistema, impedindo ainda que a areia migre para o espaço urbano consolidado.

Em uma cidade de pequena extensão territorial, notabilizada pelos seus atributos


naturais, sem indústrias expressivas, o Turismo é sem dúvida um grande gerador de
divisas atraindo pessoas e investimentos do Brasil e do mundo, o que acelerou o
processo de expansão urbana (adentrando a chamada Grande Natal), impactando
profundamente o seu sítio original, gerando um processo de rápida verticalização
urbana e ocupação de praticamente toda a área municipal, completamente tomada
pela urbanização, sem área rural.

Essa ocupação desenfreada, com muitos conflitos e apesar das instâncias normativas,
defensoria pública e esforços de técnicos e população em geral, consolidou uma
cidade que, a despeito dos seus atributos naturais possui muitos problemas sócio-
ambientais, por vezes invisíveis aos olhos dos visitantes e até mesmo pela população;
citaremos aqui apenas alguns, que fundamentarão a nossa argumentação posterior,
nesse trabalho.

No que diz respeito ao ambiente urbano como um todo:

- O lençol freático encontra-se comprometido em sua pureza, pela nitrificação


decorrente da predominância de fossas sépticas; a cidade é bastante deficiente no
que concerne ao sistema de esgotamento sanitário, tanto no que diz respeito à coleta
quanto ao tratamento. O fato de não haver área municipal para a construção de
estações de tratamento, impele à busca de terrenos na região metropolitana e a
dificuldade de encontrar zonas de deposição final dos efluentes clama por modelos
alternativos (biodigestores e alagados construídos entre outros).

- As lagoas naturais, que compunham a fisionomia dunar original, com suas


configurações curvilíneas e povoadas por vegetação palustre e aquática, tornaram-se,
no curso da urbanização, “tanques de detenção” escondidos e indesejados, perdendo
sua identidade paisagística e respondendo tão somente pelo seu aspecto funcional de
lagoa de drenagem, verdadeiros “piscinões” edificados a céu aberto.

- O clima, antes ameno, do ambiente urbano, encontra-se alterado, em função das


superfícies reflexivas da urbanização, da impermeabilização do solo, do incremento da
frota automobilística, da verticalização e da ausência de um sistema de áreas verdes
capaz de fazer frente ao processo acelerado de urbanização, sobretudo a partir das
duas últimas décadas.

- O conjunto dos espaços livres públicos encontra-se sobremaneira comprometido;


faltam: praças, parquinhos para o cotidiano, parques públicos com diversidade de
equipamentos capazes de atender à pluralidade das demandas sociais, parques
lineares às margens dos poucos córregos, um passeio público às margens do Rio
Potengí, valorizando seu waterfront como identidade ribeira, calçadas e passeios
acessíveis (que permitam o usufruto por pessoas com dificuldades de locomoção) e
arborizados e ciclovias em uma cidade essencialmente plana; as praias, por sua vez,
sofrem processos explícitos ou sutis de privatização (vide as praias da chamada Via
Costeira), entre outros desmandos da apropriação do espaço público. A população,
quando consultada, ressente-se da presença de espaços livres públicos em
quantidade, diversidade e qualidade, inclusive na orla marítima.

Com relação à área do novo complexo esportivo-governamental-imobiliário, alguns


aspectos são importantes para a nossa consideração:

-Trata-se de um sítio de grande sensibilidade ambiental, no que abriga duas lagoas


naturais de drenagem, atualmente bastante comprometidas em termos de poluição,
assoreamento, erosão das bordas e onde se observou também o depósito de resíduos
sólidos. Deve-se salientar ainda que , nos anos 80 , em função de problemas
decorrentes de enchentes, tais lagoas foram drenadas para o sistema de galerias
pluviais e bombeadas para o Rio Potengi; a rigor, as águas das chuvas apenas
enchiam o que era antes a planície de inundação do sistema lacunar,
impermeabilizada para a construção do Centro.

- A Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte possui poços artesianos


para abastecimento de água; os recursos hídricos locais já foram considerados os
mais puros da cidade.

- O terreno, um próprio público do Governo do Estado e Prefeitura Municipal, é


também um mosaico confuso, quanto à sua apropriação; além de estádio, ginásio e
edificações governamentais, possui um kartódromo, ”papódromo”, um setor alugado
para um parque de diversões, bares e até um pequeno estabelecimento (segundo
informações colhidas no local) de peças automotivas.

- O local é de grande centralidade; em vários segmentos possui vegetação arbórea,


exuberante e arbustiva e forrageira em bom estado, sendo ainda, conforme
observado, local de passagem da população do Bairro de Lagoa Nova.

Por um... Fair play

Considerando, entre outros, os aspectos elencados, e também levando em conta o


que a infra-estrutura a ser construída para abrigar as atividades da Copa do Mundo
pode representar para a melhoria da qualidade da vida urbana, o Grupo do Workshop
da Bienal, contribuiu com as recomendações que se seguem, esperando que
acrescentem insumos ao debate em curso sobre o tema, na cidade. É evidente que o
escrito abaixo representa tão-somente um dos itens da ampla gama de aspectos
relevantes a serem considerados na melhoria da infra-estrutura urbana para
acomodação dos eventos da Copa, do fluxo de visitantes e na permanência dos
benefícios para a população.

Fazem parte dos aspectos infra-estruturais outros itens relevantes como, por exemplo,
a ampliação da rede hoteleira e a elaboração de um plano de mobilidade urbana,
capaz de aperfeiçoar e incrementar o sistema viário, adotando ainda outros meios de
transporte de baixo impacto, nunca testados na cidade. O atual sistema de transportes
circunscreve-se aos automóveis e uma frota precária de ônibus. Congestionamentos já
fazem parte dos horários de pico de tráfego; uma densidade funcional (como a
prevista na idéia original do mercado imobiliário) atrairia, para o local, um fluxo de
veículos além da capacidade de acomodação da infra-estrutura atual.

O Legado local

No que diz respeito a um projeto contemplando as características socioambientais


locais, deve-se considerar que:

- Não se pode, nem se deve abrir mão do sentido público do local; por ser um
próprio público de grande centralidade, deve abrigar funções e acesso públicos. A
construção de edifícios pertencentes ao setor imobiliário, da forma como ensejada no
projeto, é inadequada à capacidade de suporte do ecossistema local; do ponto de vista
da paisagem urbana é altamente impactante, desfigurando a identidade do lugar com
edificações verticalizadas que privatizam por sua vez o espaço público. Um projeto
que se diz sustentável, por outro lado, não se constrói apenas com edifícios verdes,
eficientes em sua otimização energética.

- A revitalização da paisagem e do ambiente, como lagoa de acomodação pluvial,


garantindo a integridade dos recursos hídricos locais é condição imprescindível
em qualquer projeto para o local.

Uma vez garantidas às prerrogativas da propriedade e da apropriação públicas bem


como a manutenção das qualidades paisagístico-ambientais locais, sugere-se os
seguintes cenários:

1) Mais “conservador”

Implantação do Parque da Lagoa Nova, o “Central Park” de Natal, público e


acessível a toda a população; recuperação do caráter público do espaço com a
retirada do kartódromo, parque de diversão (acomodar em outro local) e edificações
privadas existentes no terreno; recuperação da Lagoa Nova, integrando a paisagem
do novo parque e, como pedagogia da paisagem, evidenciando que as lagoas fazem
parte da fisionomia natural da cidade e não se constituem “tanques de detenção”
grosseiramente edificados; demolição do ginásio para a construção de um novo;
reforma do Machadão para atender às exigências da FIFA; manutenção do Centro
Administrativo do Governo.

2) Mais “conciliador”

Implantação do Parque da Lagoa Nova; recuperação do caráter público do espaço;


revitalização da lagoa como identidade mor da paisagem local; demolição do Ginásio e
construção de um novo; demolição do Machadão e construção do Estádio Arena das
Dunas (uma vez considerada inviável a reforma do Machadão, a exemplo de outros
estádios brasileiros); manutenção do Centro Administrativo do Governo. Vale salientar,
entretanto, a bela arquitetura do estádio atual - a forma matemática do símbolo do
infinito possui leveza e movimento, o que é raro em construções tão pesadas;
justamente por seu desenho inteligente articula-se com a paisagem do lugar; de vários
pontos do Machadão é possível vislumbrar o entorno, ao contrário de muitos estádios
brasileiros e mundiais cujas arquiteturas e implantações “travam” o diálogo com a
cidade. A despeito dos seus atributos, entretanto, cabe à sociedade natalense refletir e
decidir sobre o assunto da demolição do atual estádio para construção de um novo,
contemplando a relação custo-benefício (para a cidade) de sediar uma Copa do
Mundo e as reais demandas de um equipamento esportivo para atender a um evento
dessa magnitude, exigidas pela FIFA,

3) Mais “transformador”

Todos os itens mencionados no cenário de número 2, à exceção do


último(manutenção dos edifícios de propriedade do estado ); nessa caso efetuar-se-ia
a demolição do Centro Administrativo do Governo, considerando que o mesmo,
construído nos anos 70 sobre lagoas de drenagem em área de captação hídrica ,
demandou expressivos aterramento e drenagem das lagoas com o conseqüente
solapamento das condições hídricas do lugar, desfigurando a fisionomia paisagística
original; há que se considerar que nessa época, sustentabilidade era um conceito
inexistente na cultura ambiental. Nessa configuração mais radical, a cidade de Natal
traria uma contribuição ambientalmente modelar no âmbito nacional. A centralidade do
lugar contribuiria para dar mais visibilidade aos propósitos de políticas públicas sócio-
ambientalmente centradas.

Note-se que em todos os cenários, a perspectiva da apropriação da área pelos


edifícios do mercado imobiliário encontra-se banida; considera-se essa perspectiva
absolutamente danosa às necessidades públicas urbanas e uma vez que o PAC da
Copa tenha garantido os recursos necessários para a implantação do Complexo
Esportivo, além da proposta de financiamento apresentada recentemente pelo BID à
Prefeitura, a PPP torna-se completamente sem sentido ao ter como ônus a
apropriação privada do espaço público.

Espera-se ainda que a recuperação dos recursos hídricos e a consolidação de um


parque façam parte da verba do PAC/BID, viabilizando um espaço público com projeto
exemplar, adequado ao ecossistema dunar, eco-revelando-o nas soluções de uso e
ocupação do solo, na drenagem das águas pluviais e na recuperação da vegetação,
entre outros aspectos.

O LEGADO PARA O AMBIENTE HUMANO – Por uma infra-estrutura verde

A cidade de Natal possui, como já foi dito, uma série de atributos biofísicos os quais,
na interação com a ocupação humana, dão, para o bem ou para o mal, a identidade do
lugar. Possui algumas áreas de sensibilidade ambiental protegidas nos termos da lei,
pouquíssimas áreas de recreação e lazer a céu aberto (talvez somente o Bosque dos
Namorados faça juz ao título de parque urbano), lagoas naturais cujo tratamento
tornou-as lugares perigosos e insalubres e, como já foi dito, um aqüífero subterrâneo
comprometido pela contaminação de resíduos sólidos e líquidos. Além disso, a
sensação térmica na cidade, na percepção da população, é a de que o ambiente
urbano tem gradativamente ficado mais quente, o que evidentemente demanda
trabalhos científicos para a sua comprovação, sendo, porém voz corrente.

Com a iminência da Copa do Mundo, poder-se-ia adotar um mote, uma espécie de


paradigma capaz de referenciar um modelo para a cidade que poderia ser
paulatinamente reconhecida, não só como “aquela das praias e dunas bonitas”, mas,
também como a que consolidou um processo de planejamento inteligente e sensível,
com relação à utilização dos seus recursos naturais, por meio da criação de uma infra-
estrutura verde que acomode espaços projetados capazes de prestar serviços
ambientais de alto desempenho, balizando não somente os desígnios dos
empreendimentos esportivos locais, mas, o da cidade como um todo. As questões de
ambiente e paisagem passariam a ser não mais residuais e ornamentais apenas ou
insulares, mas, fariam parte de forma infra-estrutural do processo de urbanização,
dando sustentação efetiva e eficaz às inovações funcionais humanas. Natal poderia
então rever seu modelo de urbanização, entendendo que as cidades nas quais tem se
referenciado, privilegiaram um processo de desenvolvimento baseado na construção
desenfreada em detrimento de um desenho que contemplasse os processos biofísicos
e sociais; tal paradigma (de cidade industrial baseada no consumo dos recursos
naturais e geração de resíduos) levou cidades brasileiras a enfrentar impasses de
grande complexidade com ônus para os cofres públicos e sofrimento da população.

É importante ressaltar os esforços do Ministério Público, de algumas políticas públicas


e de setores da população, no sentido de proteger áreas ambientalmente sensíveis; o
Plano Diretor define Zonas Especiais de Interesse Ambiental, resguardando glebas
generosas ao redor da cidade e algumas no intra-urbano. Entretanto, na esfera
cotidiana, a questão ambiental em Natal ainda se encontra longe de um
encaminhamento razoável. A população se ressente da falta de espaços públicos de
qualidade, com formas e funções diversas; o fato de se ter uma orla generosa (mesmo
assim com tratamento deficiente nos espaços públicos) mascara e não supre as
demandas cotidianas da população, que sofre ainda em função da precária
arborização urbana, da ausência de calçadas amenas e acessíveis e de toda a sorte
de apropriações privadas do espaço público; tudo isso pode ser facilmente verificado
em passeios peatonais por Natal.

Preconiza-se, dessa forma, o desenvolvimento de um Sistema de Espaços Livres


(onde se incluem as Áreas Verdes), capaz de: contribuir para a amenização do clima
urbano, contemplando a melhoria das “ilhas de calor” que já existem em Natal (a
despeito do clima privilegiado) e arrefecendo ainda a “cultura do ar condicionado” em
uma cidade litorânea; tal Sistema poderia conectar lagoas de drenagem, córregos e
canais, contribuindo para a consolidação de corredores de fluxo gênico, promoção da
avi-fauna e proteção do solo urbano; outra contribuição seria a consolidação da
identidade paisagística da cidade com a valorização dos atributos locais, o “genius
locci” o que inclui a ênfase na vegetação nativa e na vegetação aclimatada histórica
(como a mangueira –mangifera indica, entre outras que já fazem parte da fisionomia
da paisagem litorânea nordestina), na contra-mão das cidades “internacionais” que
homogeneizaram suas arquitetura e paisagem.
A infra-estrutura verde poderia abrigar ainda várias outras funções como um sistema
de ciclovias conectando os espaços livres públicos, tanto na periferia como no intra-
urbano; a planície natalense convida a essa apropriação.

O enfrentamento das questões da base biofísica, entretanto, deve ter sempre em


mente a relação com os processos sócio-culturais do lugar. Requalificar e integrar o
ambiente urbano requer construir um lugar também com um olhar antropológico,
concentrando-se nos métodos com suas diferenças e semelhanças culturais; um lugar
é definido por suas identidades, relações, história e memórias; seu nascimento
acontece com a experiência vital da sociabilidade, intimamente relacionada com a
cidade e sua arquitetura, em um discurso espacial que exprima a identidade do grupo,
contendo transparência entre cultura, sociedade e indivíduo. Construir um lugar
antropológico é enfrentar conflitos, vicissitudes e contradições da vida social, inclusive
na sua relação com os processos naturais. Dessa forma, torna-se imprescindível a
participação plural, diversificada (não só por lideranças representantes de grupos
sociais) da sociedade natalense como um todo nesses processos que interferem em
seus lugares de vida.

E por falar em sustentabilidade...

(á guisa de Conclusão)

Além da já citada discussão acerca da sustentabilidade sócio-ambiental e paisagística


da Copa em Natal, faz-se necessário, ainda, um debate sobre o possível legado
esportivo do evento. São inúmeros os exemplos de obras de grande magnitude que,
construídas para abrigar eventos de grande porte, converteram-se, com o tempo, em
problemas administrativos. No Pan-Americano do Rio de Janeiro, por exemplo, o tão
discutido “legado do Pan” não deixou aos cariocas mais do que um complexo
aquático, batizado de Maria Lenk, que, hoje, encontra-se no mais gritante estado de
abandono, além do estádio João Havelange, o Engenhão, considerado o mais
moderno do país, mas de administração extremamente custosa e que, hoje, só não
representa grandes gastos públicos, graças a seu arrendamento por parte do Clube de
Regatas Botafogo. O próprio Botafogo, porém, discute hoje projetos para rentabilizar o
estádio, já que seu arrendamento, até agora, tem representado um déficit ao clube. O
curioso é que o Engenhão, apesar de sua alardeada modernidade, não deve sediar
sequer uma partida da Copa do Mundo, preterido que foi pelo folclórico estádio Mário
Filho, o Maracanã.

E tal problema não é exclusividade do Brasil. Nas olimpíadas de Pequim, o luxuoso


estádio Ninho do Pássaro, considerado obra prima da arquitetura e engenharia, e que
custou 500 milhões de dólares ao governo chinês, só deixou de ser um prejuízo a
partir do momento em que foi aberto aos turistas, que pagavam a visita. Menos sorte,
porém, tiveram portugueses e gregos que, até hoje, não são capazes de gerir os
complexos esportivos construídos, respectivamente, para a Euro-copa e as
Olimpíadas de Atenas. Tais situações levaram Zhang Hengli, administrador do Ninho
do Pássaro a afirmar: “A maioria dos estádios do mundo, administrados com métodos
normais, não consegue dar lucro”. A frase parece, hoje, ser um consenso ao redor do
mundo.

É, portanto, fundamental a pergunta: Será Natal capaz de arcar com a administração


da Arena das Dunas no período pós-copa? Se o Botafogo do Rio de Janeiro, uma das
camisas mais importantes do Brasil, que disputa campeonatos de elite e tem a 9ª
maior torcida do país, pena em administrar o Engenhão, a resposta é, certamente,
não.

Os dois maiores clubes de Natal, o América Futebol Clube e o ABC Futebol Clube,
encontram-se, hoje, na segunda divisão. Suas torcidas, segundo o instituto Datafolha,
não figuram entre as 20 maiores do Brasil. Outros clubes do estado (RN) vivem em
situação de penúria financeira, como o Alecrim Futebol Clube, de passado
relativamente expressivo no cenário local e que, só em 2009 conquistou seu acesso à
série C do Brasileirão.

É, porém, justamente em função da atual inexpressividade do futebol Potiguar, que a


Copa pode ser positiva, no sentido de seu legado. Se bem administrada, a condição
de Natal como cidade-sede pode dar aos clubes locais, não só um bom estádio, como
projetos capazes de alavancar a prática futebolística da região. Uma idéia viável é
alugar o estádio para jogos dos três clubes “grandes” da cidade, de modo a aliviar as
despesas, por exemplo, do ABC com seu recém-construído estádio Frasqueirão, além
de dar ao Alecrim e ao América uma casa, já que ambos realizam seus jogos no
Machadão, que,pelo projeto apresentado à FIFA, deve ser demolido para a construção
do novo estádio. Além disso, a nova arena pode abrigar shows e eventos diversos e
até se transformar em atração turística, com visitas pagas, o que já ocorre com o
Morumbi, estádio do Clube São Paulo. Também podem ser promovidos campeonatos
amadores, a exemplo da Copa Kaiser, em São Paulo, que traz atletas de várias
regiões do país o que tem, inclusive, importante função social, ainda mais em um
estado com elevados índices de pobreza, como o Rio Grande do Norte.

Além disso, a Copa pode e deve trazer à cidade uma discussão acerca de seus
campeonatos. É necessário que os clubes de menor expressão do estado não passem
por longos períodos de inatividade, deixando diversos jogadores e empregados, sem
trabalho, como ocorre hoje. Tal discussão tem, inclusive, trazido à tona uma possível
retomada da antiga Copa Nordeste, que reunia clubes de toda a região.

De qualquer modo, é possível pensar formas, não só de rentabilizar o estádio após a


Copa, como de usar o Arena das Dunas para promover as atividades futebolísticas no
estado e região.

Não há projeto que se sustente sem um plano de gestão racional do complexo


construído capaz de vislumbrar os reais ganhos econômicos, sociais e ambientais
para a população natalense como um todo. Desnecessário enfatizar que a gestão
deve ser sempre transparente, participativa, contemplando o momento e se
consolidando no tempo e no espaço.
Só assim poderemos dizer que a candidatura de Natal terá, de fato, valido à pena.