Vous êtes sur la page 1sur 147
INTRODUÇÃO O direito canónico não é um conjunto de leis que, de maneira seca, modera o comportamento eclesial do povo de Deus. Uma comunidade específica, como é a Igreja, no contexto da Humanidade e no confronto com as outras sociedades organizadas em nações, tem um rosto institucional que, na mutabilidade da História, não pode deixar de transparecer a sua identidade, dada pelo seu Fundador, Jesus Cristo. Por isso, na sociedade humana que os cristãos constituem à face da Terra inscreve-se a "assinatura" divina, porque a Igreja nasce do desígnio de Deus em salvar a Humanidade, constituída na família dos filhos de Deus. Deste modo, as leis que regem o caminhar deste Povo pelos trilhos da história de cada época têm de ir beber a sua inspiração à realidade teológica da mesma Igreja e têm de direccionar-se no sentido de atender às necessidades desse mesmo Povo, ajudando-o a cumprir, no mundo e na Igreja, a missão que Deus lhe confiou. Assim, direito canónico, teologia e pastoral entrelaçamse para, numa mútua e indissociável articulação, caminharem ao serviço da identidade, irreformável, do povo de Deus, na historicidade, mutável, do seu existir, até ao fim dos tempos. Dado que ao Magistério da Igreja competem estes ensinamentos e esta pedagogia, na abertura destes apontamentos inserimos um dos muitos e notáveis discursos do Papa Bento XVI, este dando-nos conta do que deve ser o rosto do Direito Canónico1. O que é o Direito Canónico O “ius Ecclesiae” não é somente um conjunto de normas produzidas pelo Legislador eclesial para este especial povo que é a Igreja de Cristo. 1. Em primeiro lugar, ele é a declaração autorizada por parte do Legislador eclesial, dos deveres e dos direitos que estão assentes nos sacramentos e, por conseguinte, que derivaram da instituição do próprio Cristo. Este conjunto de realidades jurídicas, indicado pelo Código, compõe um admirável mosaico em que estão representados os rostos de todos os fiéis, leigos e Pastores, e de cada uma das comunidades, da Igreja universal e das Igrejas particulares. É-me grato recordar aqui a expressão autenticamente incisiva do Beato Antonio Rosmini: "A pessoa humana é a essência do direito" (Rosmini A., Filosofia del diritto, Parte I, lib. I, cap. 3). Aquilo que, com uma profunda intuição, o grande filósofo afirmava sobre o direito humano, temos que confirmar com maior razão a respeito do direito canónico: a essência do direito canónico é constituída pela pessoa do cristão na Igreja. 2. Além disso, o Código de Direito Canónico contém em si as normas do Legislador eclesial em vista do bem da pessoa e das comunidades em todo o Corpo místico, que é a santa Igreja. Como pôde dizer o meu amado predecessor João Paulo II, ao promulgar o mesmo Código de Direito Canónico no dia 25 de Janeiro de 1983, a Igreja é constituída como uma comunidade social e visível; e como tal, "ela tem necessidade de normas: para que a sua estrutura hierárquica e orgânica seja visível; a fim de que o exercício das funções que lhe são divinamente confiadas, de forma especial as da sagrada potestade e da administração dos Sacramentos, possa ser adequadamente organizado; para que as relações recíprocas dos fiéis possam ser reguladas segundo a justiça, fundamentada sobre a caridade, garantindo e definindo oportunamente os direitos dos indivíduos; e, finalmente, para que as iniciativas conjuntas tomadas em vista de uma vida cristã cada vez mais perfeita, através das normas canónicas, sejam sustentadas, revigoradas e 1 Discurso do Papa Bento XVI ao Pontifício Conselho para os Assuntos Legislativos (no 25º aniversário da promulgação do Código de Direito Canónico. Roma, 25.01.2008. 1 promovidas" (Constituição Apostólica Sacrae disciplina leges, em: Communicationes, XV [1983], 8-9). Deste modo, a Igreja reconhece às suas leis a natureza e a função instrumental e pastoral para buscar a sua própria finalidade, que é como se sabe a obtenção da "salus animarum". "Assim, o Direito Canónico revela-se vinculado à própria essência da Igreja; faz síntese com ela para o recto exercício do múnus pastoral"2 Requisitos da lei canónica Para que a lei canónica possa prestar este serviço precioso deve: 1. Em primeiro lugar, ser uma lei bem estruturada. Ou seja, ela deve estar vinculada, por um lado, àquele fundamento teológico que lhe confere bom senso e constitui um essencial título de legitimidade eclesial. 2. Por outro lado, ela deve estar em sintonia com as circunstâncias mutáveis da realidade histórica do Povo de Deus. 3. Além disso, há-de ser formulada de modo claro, sem ambiguidades, e sempre em harmonia com as restantes leis da Igreja. Metodologia na lei canónica Por conseguinte, é necessário: 1. abolir as normas que resultarem ultrapassadas; 2. interpretar à luz do Magistério vivo da Igreja as normas que forem incertas: 3. preencher as eventuais "lacunae legis". "Devem, como disse o Papa João Paulo II à Rota Romana, ter-se presentes e ser aplicadas as numerosas manifestações daquela flexibilidade que, precisamente por motivos pastorais, sempre distinguiu o direito canónico" (Communicationes, XXII [1990], 5). Cabe a vós, do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, velar a fim de que a actividade das várias instâncias, chamadas, na Igreja, a estabelecer as normas para os fiéis possam reflectir sempre no seu conjunto a unidade e a comunhão que são próprias da Igreja. Uma vez que o Direito Canónico traça a regra necessária a fim de que o Povo de Deus possa orientar-se de maneira eficaz para a sua própria meta, compreende-se que tal direito deve ser amado e observado por todos os fiéis. Antes de tudo, a lei da Igreja é “lex libertatis”: lei que nos torna livres para aderir a Jesus. Por isso: 4. é necessário saber apresentar ao Povo de Deus, às novas gerações e a quantos são chamados a fazer com que seja respeitada a norma canónica, o vínculo concreto que ela tem com a vida da Igreja, a) para a salvaguarda dos delicados interesses das realidades de Deus, b) para a salvaguarda daqueles que não dispõem de outras forças para se fazer valer, c) mas também em defesa daqueles delicados "bens" que cada fiel recebeu gratuitamente em primeiro lugar o dom da fé, da graça de Deus que na Igreja não podem permanecer desprovidos de uma adequada tutela da parte do Direito.” 2 João Paulo II, Discurso aos participantes no Congresso internacional por ocasião do X aniversário da promulgação do Código de Direito Canónico [23 de Abril de 1993], em: Communicationes, XXV [1993], 15. 2 Fundamentos do Direito Canónico Antropologia filosófica do direito Características das leis positivas humanas O primeiro limite que se põe à lei positiva é que seja lei e não corrupção da lei. Isto pressupõe a nota de instrumentalidade, constitutiva da lei. Significa o reenvio a uma realidade antecedente e superior. Outra característica da lei positiva é o seu carácter de provisoriedade, justificada pelo sentido diacrónico da existência histórica da natureza humana e, ainda, pela dimensão sincrónica da coexistência de grupos e culturas. Limite ainda da lei positiva é o seu carácter de fragmentariedade. De facto, a dimensão jurídica não pode tutelar plenamente a dimensão moral da pessoa. Na verdade, se a natureza humana se situa no espaço e no tempo, ao mesmo tempo transcende a dimensão espacio-temporal. Cada pessoa singular é a particularização histórica da natureza humana e, tanto a pessoa quanto a natureza, não se reduzem à mera factualidade. A função da lei positiva justa é: - impedir a arbitrariedade ou o capricho do homem, - impedir a redução do sujeito a objecto, - favorecer a realização da estrutura ontológica do sujeito na sua sociabilidade, - historicizar o direito natural, - fazer progredir na história o conhecimento sempre mais profundo do direito natural, - criar a obrigação responsável, como realidade que exprime o vínculo necessário entre a vontade subjectiva e a vontade objectiva. Deste modo, o direito positivo justo, isto é, baseado na justiça do direito natural, impede o subjectivismo (não confundamos subjectivismo com subjectividade). Por isso, o direito positivo estará sempre sujeito ao juízo crítico da consciência moral do homem, como controlo, para que tal ordenamento jurídico reconheça e exprima a normatividade contida na natureza humana e seja um direito justo. Se assim não fosse, cair-se-ia numa forma de totalitarismo jurídico e nunca seria possível uma convivência baseada na transcendência do homem relativamente à sua expressão histórica, isto é, tendo como horizonte das relações sociais, os direitos fundamentais da comum natureza dos homens. A lei positiva deve, assim, ter uma razoabilidade intrínseca, isto é, uma correspondência com os valores, bens, direitos inalienáveis de que é portadora cada pessoa pelo facto de existir. Daqui surge também a obrigação de respeito da parte do outro sujeito. Do ponto de vista da eficácia, direito é a própria lei jurídica, enquanto produz direitos subjectivos. Importância e insuficiência da antropologia filosófica do direito O horizonte fenomenológico da antropologia manifesta-se insuficiente para explicar na totalidade a realidade jurídica como experiência humana. De facto, pode-se e deve-se ir mais longe na investigação quer da natureza humana, quer da fonte dos direitos humanos fundamentais, como sobre a normatividade da natureza humana na sua actuação histórica. Se é verdade que no aprofundar as relações intersubjectivas, causadoras da experiência jurídica do homem e fundadoras do direito, a antropologia nos pode fazer perceber que a relacionalidade 3 pertence constitutivamente à essência da pessoa, passos em frente podem e devem ser dados, os quais a antropologia filosófica não poderá acompanhar. Seria um erro metodológico partir de princípios da filosofia do direito ou da filosofia política e, revestidos de uma cor teológica, aplicá-los, sem mais, ao direito eclesial, justapondo extrinsecamente a razão teológica à razão filosófica. As ciências humanas (filosofia política, do direito, da sociedade, sociologia, psicologia social e religiosa, história), embora úteis e necessárias, não podem, todavia, explicar o mistério do homem e, mais ainda, o mistério da Igreja, portanto, a dinâmica interna da vida eclesial e a normatividade das suas leis. Por isso, no direito eclesial não se pode aplicar só uma metodologia técnica do direito, mas deve seguir-se também uma metodologia teológica. Certo é que não se deve excluir o uso dos conceitos da filosofia da sociedade e da filosofia do direito na procura da natureza da lei no homem criado e remido e ainda na procura da natureza da lei para o cristão. Porém, tal uso necessário é subordinado aos dados que emergem da reflexão da antropologia teológica sobre o mistério do homem e da Igreja. O direito é para o homem. Por conseguinte, a verdadeira e plena compreensão do homem é fundamental para a justa impostação do direito. A jurisdicidade encontra-se sempre num estado de "expectativa ideal", isto é, na abertura à inserção numa ordem que não é só superior, mas que é também a sua verdadeira e suprema ordem, isto é, a ordem ética na qual o direito encontra a sua génese ideal, a sua legitimação, o seu fim, a sua razão suficiente, o seu equilíbrio estável. Para que o direito possa servir o homem na sua dimensão integral, não basta a filosofia do direito, mas torna-se necessária a teologia do direito, implicando a consideração da Revelação divina. De facto, "através da Incarnação, Deus deu à vida humana aquela dimensão que intentava dar ao homem desde o seu início, e deu-o de maneira definitiva. Em Cristo revelou-se, de modo novo e, também, mais admirável, a fundamental verdade sobre a Criação"3 Pontos nucleares da antropologia filosófica do direito 1. Uma reflexão sobre o direito canónico não pode prescindir de um estudo sobre a experiência jurídica do homem, enquanto ser sujeito de direitos naturais, inerentes à pessoa humana, e enquanto ser sociável e relacional, intrinsecamente ordenado a relações intersubjectivas. 2. Estes direitos e estas relações têm, ao mesmo tempo, uma obrigatoriedade moral e uma obrigatoriedade jurídica. A obrigatoriedade moral surge não porque a determina uma lei positiva, mas porque a exige a própria lei natural como respeito à própria natureza do homem, respeito ao seu "ser pessoa", natureza que é vinculativa para cada sua historicidade, isto é, para cada indivíduo singular que, na história em que se insere e na história que constrói, concretiza de maneira irrepetível o património comum de todo o ser humano, que é a natureza humana. A obrigatoriedade jurídica é consequente porque indica as relações intersubjectivas de justiça que devem estabelecer-se e ser respeitadas. 3. Um ordenamento jurídico é um sistema em si mesmo coerente que se funda sobre princípios ou valores fundamentais, como necessidade de tutelar a dignidade da pessoa. O direito positivo não pode ser só efeito de um compromisso para que a sociabilidade seja possível sob o aspecto prático, mas essencialmente uma expressão do fundamento moral do agir do ser humano: o ser humano age como uma realidade autónoma e, simultaneamente, interdependente com as outras pessoas, também elas autónomas, actuando, pela sociabilidade, a sua dignidade de pessoa, exprimindo-a e desenvolvendo-a. O direito positivo ou objectivo tutela os direitos subjectivos da pessoa humana, entre os quais o primeiro e fundamentalíssimo é o direito à existência e a uma existência digna do homem 3 João Paulo II, Redemptor hominis 1b,8 a. 4 4. As aportações a nível da antropologia fenomenológica e a nível da filosofia do direito são válidas para toda a experiência jurídica de relações intersubjectivas que o homem conduz, seja qual for o tipo de sociedade que construa ou em que se insira. Por isso, são válidas, também, na Igreja porque a Igreja é constituída por homens. Porém, aqui, são insuficientes. Antropologia teológica do direito A leitura teológica da antropologia é assumida pelo direito eclesial, na codificação vigente, nos termos seguintes: o Código de Direito Canónico mais não faz que, na instrumentalidade das suas leis, servir o homem cristão no cumprimento das suas obrigações decorrentes do Baptismo (natureza eclesial do cristão) para o ajudar a fazer da sua “existência eclesial” um crescimento contínuo para a plenitude, que consiste na sua santificação e, consequente, salvação (é o último cânon do Código - cânon 1752 - onde se expressa que a lei suprema da Igreja é a salvação das almas). A justiça, enquanto tal, é unicamente de Deus e foi revelada plenamente por Jesus Cristo. Nos homens, é verdadeira justiça quando é participação interna da justiça divina e visibilização dessa mesma justiça divina. Assim, a justiça humana não se pode separar da justiça divina; o direito humano depende directamente do direito divino. Se o homem não recebesse a justiça de Deus, que é justificação, misericórdia, graça, caridade, não poderia ser justo, quer no sentido bíblico de justificado, quer no sentido daquele que cumpre acções justas nas relações com os outros ou que faz leis justas ou que dá juízos justos. É uma nova justiça, a justiça revelada por Jesus Cristo e manifestada no Evangelho: - não exige apenas o respeito exterior da Lei nas relações intersubjectivas, mas exige uma atitude interior positiva de caridade; - exige o superar a conflitualidade pública na base de um entendimento fraterno. - exige a exclusão de todo o tipo de violência e de vingança, porque no reivindicar o próprio direito deve ser procurada a recuperação do malvado e do injusto ao bem e à justiça, por meio da caridade. - exige o exercício da perfeição da caridade (verdade na caridade) no amor pelos inimigos. Pontos nucleares da antropologia teológica do direito 1. Diversamente da sociedade civil, o fundamento imediato da lei canónica não é o direito natural. Esta é uma convicção implícita do Concílio Vaticano II (Optatam totius 16). A lei eclesial tem fundamentos antropológicos, filosóficos e teológicos, e eclesiológicos. 2. O direito, na sua instrumentalidade, serve o homem criado e remido, em ordem à sua recta e plena realização, como seguidor de Jesus Cristo: crescer, como imagem e semelhança de Deus, para a plenitude. Como este dom de Deus é percebido só à luz da fé (Vaticano II, Decreto Optatam totius, 16), só à luz da fé é que o direito canónico entende a sua diaconia ao mistério do próprio homem, onde a dimensão interior da relação com Deus não está dissociada da dimensão externa da comunhão que, em razão da sua origem e do seu fim, tem uma originária e radical força vinculativa na Igreja de Cristo. 3. Na base da antropologia teológica na Revelação, o direito, dentro de uma comunidade específica (a Igreja) que é um dom divino em rosto humano, torna-se direito eclesial, colhendo no mistério do Verbo incarnado a verdadeira e única dimensão do homem e do seu fazer-se histórico no mundo. É à luz da Revelação que o direito eclesial encontra os 5 critérios para iluminar o caminho dos cristãos, colhendo em Cristo o dinamismo da justiça divina e o rosto da comunhão sobrenatural, organizada na história. Eclesiologia do direito canónico A dimensão jurídica é constitutiva da Igreja Os elementos formais constitutivos da Igreja, sem os quais a Igreja não pode existir nem ser Igreja, são a Palavra, os Sacramentos, os carismas, o ministério apostólico. São elementos estruturantes da Igreja, de origem divina. Faltando algum deles, seja qual for, a Igreja não poderá subsistir. A Palavra de Deus constitui o homem crente, chama à fé. A fé vem da Palavra anunciada, escutada e assimilada. Os Sacramentos organizam a comunidade em estados de vida estruturantes da Igreja com específicos deveres e direitos. Assim, o sacramento do Baptismo estrutura o estado de “cristofidelidade” (“fiel de Cristo” ou “cristão”). O sacramento da Confirmação estrutura o estado laical. O sacramento da Ordem estrutura o estado hierárquico na Igreja. Os carismas, dons do Espírito Santo, suscitando aptidões nos crentes para missões ou ministérios ao serviço do bem comum eclesial, estruturam serviços no seio do Povo de Deus para a efectivação da ministerialidade da Igreja. Estes serviços eclesiais estabelecem relações jurídicas de comunhão e subordinação. O ministério apostólico confiado ao Papa e aos Bispos e participado, subordinadamente, pelos presbíteros e pelos diáconos, e constituído em comunhão hierárquica, tutela e discerne sobre a autenticidade dos elementos estruturantes da Igreja e garante a sua fidelidade à origem, que é Jesus Cristo. O carácter vinculativo da lei eclesial, em ordem ao destino sobrenatural do homem, brota da autoridade transcendente da Palavra e dos Sacramentos que, garantidas na sua objectividade pela sucessão apostólica, constituem a realidade intersubjectiva da comunhão na qual e através da qual se realiza a dimensão histórico-eclesial e a salvação escatológica do cristão. Trata-se de uma normatividade que, mais do que qualquer outra, tem uma força vinculativa porque profundamente radicada na própria normatividade do direito divino. O direito canónico, expressão teológica do Mistério da Igreja É no mistério da Igreja que o direito canónico encontra as suas raízes. O direito canónico exprime, em modo próprio e teológico, o mistério da Igreja e fá-lo sem deixar de ser verdadeiro direito porque sustém a jurisdicidade das relações intersubjectivas, a jurisdicidade do bem comum, a obrigatoriedade do direito natural e do direito divino revelado. Ao mesmo tempo, este direito é canónico porque tem a especificidade de servir e traduzir em normas a vida eclesial dos cristãos, numa perspectiva mais pedagógica que coercitiva. Trata-se, portanto, de uma verdadeira ciência jurídica e de uma verdadeira disciplina teológica, utilizando quer o método jurídico quer o método teológico na hermenêutica dos seus fundamentos e das suas normas. Pontos nucleares da Eclesiologia no Direito canónico 1. O direito canónico é um direito positivo específico em razão da sociedade específica que serve (a Igreja). Tem o seu fundamento radicado no direito divino revelado, presente na Bíblia e na Tradição apostólica. 6 2. Importa considerar a dimensão jurídica da Igreja à luz da fé e a partir da Revelação. As disposições de constituição divino-apostólica constituem o "quid faciendum" (“o que deve ser feito”) para a comunidade eclesial. A lei canónica estabelece o "quomodo faciendum" (“o modo como deve ser feito”), actuando em modo histórico a jurisdicidade intrínseca da Igreja. 3. A lei canónica é mais do que um fenómeno puramente sociológico que possa subsistir fora da existência teológica da Igreja. O direito canónico radica-se, por meio do direito divino, no agir histórico-salvífico de Deus em Cristo. O direito canónico é expressão teológica do mistério da Igreja. É neste mistério que a lei eclesial encontra as suas raízes. 4. Como consequência gnoseológica, conclui-se que o direito eclesial só na fé é que pode ser acolhido. Todo o direito eclesial exige uma interpretação a partir do centro da fé. Para se poder chegar cientificamente ao mais profundo da sua essência, a reflexão deve partir da fé e apoiar-se na fé, à luz da Revelação. 5. A lei canónica ou eclesial é essencialmente diversa e independente do direito estatal e de qualquer direito secular, mas tem a capacidade e, por isso, a responsabilidade, de ser diante desses ordenamentos um direito exemplar. 6. O direito canónico é primariamente um direito kerigmático e sacramental, um direito que primariamente está ao serviço da Palavra e dos Sacramentos para que se visibilize e robusteça a comunhão. 7. A Palavra e os Sacramentos exprimem a plenitude transbordante do mistério de Deus, que é um mistério de comunhão e que constitui a Igreja, vinculando normativamente os fiéis na profissão da mesma fé e sacramentos e na aceitação da garantia histórica desta fidelidade, que é a sucessão apostólica ou regime eclesiástico. 8. A lei positiva eclesiástica, ao serviço da palavra de Deus, do culto e dos sacramentos e da santidade de vida cristã, não pode ser simplesmente um ordenamento da razão do homem para obter um bem comum exterior, mas deve ser um ordenamento da razão do homem, iluminada pela fé e informada pela caridade do Espírito Santo. 9. O horizonte vinculativo das leis canónicas é a comunhão e as necessidades do povo de Deus. As leis da Igreja não servem para impor uma vontade do legislador, mas para construir uma comunidade na fé. A autoridade hierárquica não decide em nome ou em razão de uma maioria, mas como testemunha e garante da fé da Igreja que ela mesma (autoridade) professa e anuncia. Os limites constitucionais do exercício do poder brotam do carácter vinculativo dos elementos constitucionais da Igreja. O exercício do poder deve ter o horizonte daquilo que a utilidade dos fiéis exige nas várias circunstâncias históricas. 10. O direito canónico exprime de modo próprio e teológico o mistério da Igreja. E fá-lo sem deixar de ser verdadeiro direito porque assume a jurisdicidade das relações inter-subjectivas, além da obrigatoriedade vinculativa do direito natural e do direito divino revelado. Ao mesmo tempo, tal direito é canónico porque tem a especificidade de servir e traduzir em normas a vida eclesial dos crentes, numa perspectiva mais pedagógica que coercitiva, servindo as realidades ontológicas constitutivas da Igreja e robustecendo a sua essência, que é a comunhão. 7 11. O direito eclesial é, pois, uma ciência teológica (teologia canónica) em estreita relação com a antropologia cristã e com a eclesiologia. O cristão, sujeito do direito eclesial, é um ser humano redimido por Cristo, é uma natureza humana assumida pela graça divina; por isso, o direito que regula o seu agir entra na economia da salvação. O seu objectivo supremo é a salvação das almas (c.1752.) A eclesiologia, reflectindo sobre o mistério da Igreja como comunidade carismático-institucional, clarifica a necessidade e os limites do direito canónico e a sua relação com o direito divino, seja natural seja revelado. Tipicidade do direito canónico Com uma natureza própria, decorrente da essência da Igreja, com um fim específico que é a salvação eterna do cristão e com um bem comum singular, o direito canónico, nas suas normas, deve ter em conta a realidade mais profunda do cristão, isto é, a sua relação com Deus e a sua ordenação à salvação eterna. Tudo isto deve estar presente quer no legislador no momento da produção das leis, quer na autoridade competente, quer no juiz aquando da interpretação e aplicação das leis, quer no indivíduo cristão ao observá-las. Assim, para além do reconhecimento da fragmentariedade que incide também sobre o próprio direito canónico, incapaz de abranger todas as situações em que o fiel se possa encontrar, o direito eclesiástico, configurando-se como direito de comunhão eclesial, inscreve alguns institutos típicos que não encontram correspondente no direito civil. Antes de tudo, é a "equidade canónica", como qualidade intrínseca das leis canónicas, na sua constituição e na sua aplicação, tendo em vista o bem sobrenatural do cristão e o reflectir da justiça divina, exprimindo a caridade e conduzindo à caridade. Em razão da equidade canónica, o direito eclesial revela um carácter pastoral, procurando curar e educar, antes que punir. A "dispensa" das leis eclesiásticas não deve ser considerada como uma ferida ao direito, mas como um complemento da lei positiva, enquanto nela se actua o princípio fundamental de procurar o bem espiritual da pessoa nas circunstâncias concretas em que se encontra. Sobre mesmo princípio da caridade se baseia a previsão das "causas excusantes", das "causas eximentes", do princípio da "epikeia" e da prática da "tolerância". A lei é geral e abstracta nas suas proposições e obriga todos nas circunstâncias normais, não podendo providenciar aos casos particulares que obstaculizam a aplicação da lei. Se é moralmente certo que o legislador dispensaria da lei e não é possível pedir a dispensa, então a pessoa singular pode aplicar o princípio da epikeia. Típico do direito canónico é o exercício do poder de governo no e pelo "foro externo" como também no e pelo "foro interno", os quais, mesmo distintos, não se podem, todavia, separar. A própria finalidade das "censuras eclesiásticas" não é vindicativa, mas medicinal, para que o pecador chegue à conversão de coração e se salve. Não há na Igreja nem pena de morte, nem prisão perpétua nem penas a prazo. É sobre este princípio que se baseia a larga discrecionalidade reconhecida ao juiz na aplicação das penas. As leis canónicas obrigam em consciência porque o sujeito cristão deve fazer-se responsável diante de Deus e porque a obediência na Igreja não deve circunscrever-se a uma mera submissão exterior à autoridade. A lei canónica deve ter o sentido pedagógico de fazer crescer o fiel nas virtudes teologais. A lei positiva eclesiástica, ao serviço da palavra de Deus, do culto e dos sacramentos e da santidade de vida cristã, não pode ser simplesmente um ordenamento da razão do homem para obter um bem comum exterior, mas deve ser um ordenamento da razão do homem, iluminada pela fé e informada pela caridade, seguindo a justiça divina. Composição do Código de Direito canónico de 1983 Código de 1983 é composto por sete livros contendo 1752 cânones: 8 Livro I - Normas gerais (cc.1-203) Livro II - Povo de Deus (cc.204-746) Livro III - Múnus de ensinar da Igreja (cc. 747-833) Livro IV - Múnus de santificar da Igreja (cc.834-1253) Livro V - Bens temporais da Igreja (cc.1254-1310) Livro VI - Sanções na Igreja (cc.1311-1399) Livro VII - Processos (cc.1400-1752) Âmbito do Código de direito canónico A que parte da Igreja respeita este Código? Responde-se dizendo que é um Código de direito canónico para a Igreja Latina (c.1) e não para as Igrejas Orientais Católicas. Essas têm um Código próprio, promulgado em 1990, respeitando, desse modo, as tradições milenárias do Cristianismo nessas paragens, em matéria disciplinar, administrativa e litúrgica. Sujeito passivo da lei eclesiástica As leis eclesiásticas são leis dependentes da autoridade eclesiástica. Não repetem a lei divina. São leis que dependem da opção da autoridade eclesiástica. A autoridade decide que isto se deve fazer deste modo. Mas tal não significa que a lei eclesiástica não tenha relação com a lei divina. - Quem se submete às leis naturais? - Todos. - Quem se submete às leis divinas positivas? - Os baptizados. - Quem se submete às leis eclesiásticas? - Os baptizados na Igreja Católica ou nela recebidos. - Quem se submete ao CIC 83? - Os membros da Igreja Latina. Baptizados na Igreja Católica. Não apenas “baptizados”, mas na Igreja Católica. É intenção de distinguir de outras Igrejas cristãs ou comunidades eclesiais. É a recepção do baptismo com vontade de aderir à comunidade visível (à Igreja Católica), diziam os autores antes do Vaticano II. A seguir ao Vaticano II, já não se fala de pertença externa. Suficiente uso de razão, isto é, segundo a normal evolução. Suficiente, relativamente às leis eclesiásticas. Habitualmente dementes. Qual o sentido? Trata-se de pessoas que não gozam do suficiente uso da razão, não evoluíram normalmente e têm intervalos lúcidos. A questão é esta: nesses intervalos lúcidos gozam de suficiente uso da razão. Mas, bastará isso para que sejam obrigados às leis? No can 99 (1ª parte) afirma-se que “censentur non sui compotes” isto é, presume-se não terem o uso da razão. Porém, a presunção pode ceder à verdade, isto é, têm uso da razão se se provar que têm. No can.. 97,2, os “infantes”, isto é, com idade inferior aos 7 anos completos, “censentur non sui compotes”, ou seja, são considerados como não tendo o uso da razão. Mas podem de facto ter o uso da razão, pois até se admite que possam receber a comunhão. Portanto, poderão ter o uso da razão. Mas, por outro lado, parece negar-se no cân. 99 (2ª parte) “et infantibus assimilantur”. Ora aqui, não é uma semelhança quanto à idade mas sim quanto ao uso dos direitos, isto é, têm direitos os dementes mas "sicut infantes" não os podem exercer por si próprios (mas pelos pais ou tutores ou curadores). Portanto, se se assemelham no exercício dos direitos também se assemelham às obrigações. Ora os infantes não estão obrigados às leis eclesiásticas (Cânone 11). Portanto, também os dementes não estão obrigados às leis eclesiásticas. Outro argumento vem do cânone 1332: são tidos como incapazes de delito. Ora se são incapazes de delito não podem violar a lei. Portanto não são obrigados às leis. Conclusão: não são obrigados às leis eclesiásticas porque: * é este o teor cânone 9 * em razão dos lugares paralelos (cc.99,1322), não gozam de suficiente uso da razão. Completados os 7 anos de idade, isto é, 7 anos completos, portanto ao começar o 8º ano de idade. Leis irritantes e leis inabilitantes Cânon 10 - “Apenas se consideram irritantes ou inabilitantes as leis em que se estabelece expressamente que o acto é nulo ou a pessoa inábil” Lei irritante – refere-se ao acto. Torna-o nulo (acto nulo) Lei inabilitante – refere-se à pessoa – torna a pessoa inábil (acto nulo) Como se distingue irritante de inabilitante? Não se distinguem em razão dos efeitos. O efeito das duas é o mesmo: é sempre a nulidade do acto. Mas distinguem-se quanto ao modo, isto é, de quem depende o acto: a) a habilidade depende da pessoa b) se não depende da pessoa, mas de determinadas condições, a falta dessas condições torna a lei irritante. Dispensa das leis eclesiásticas Cân. 87 § 1 - O Bispo diocesano, sempre que julgar que isso possa concorrer para o bem espiritual dos fiéis, pode dispensá-los das leis disciplinares, tanto universais como particulares, promulgadas pela suprema autoridade da Igreja para o seu território ou para os seus súbditos, mas não das leis processuais ou penais, nem daquelas cuja dispensa esteja reservada especialmente à Sé Apostólica ou a outra autoridade. § 2. Se é difícil o recurso à Santa Sé e, ao mesmo tempo, há perigo de grave dano na demora, qualquer Ordinário pode dispensar dessas leis, mesmo se a dispensa for reservada à Santa Sé, contanto que se trate de dispensa que ela própria costuma conceder nessas circunstâncias, salva a prescrição do cân. 291. Circunstâncias extraordinárias na aplicação da dispensa As circunstâncias extraordinárias englobam um tríplice elenco complexivo: a). Ser difícil o recurso à Santa Sé Trata-se de uma situação em que se torna difícil esse recurso para pedir a faculdade de dispensar. Sabemos que o Bispo Diocesano não tem necessidade de recorrer à Santa Sé “nisi in reservatis” Mas aqui trata-se de qualquer Ordinário (isto é, também dos vigários do Bispo) quer ordinários religiosos, quer prelados pessoais, quer ordinários castrenses. Porém, estes não dispõem da faculdade de dispensa, como o Bispo Diocesano, em circunstâncias ordinárias. Só em circunstâncias extraordinárias. Quando é que há essa dificuldade de recorrer à Santa Sé? Por exemplo, em situação de guerra. Mas pode pôr-se uma dupla questão. O Núncio Apostólico tem faculdade de dispensar nesse caso. Deve o Ordinário recorrer ao Núncio Apostólico? Não é obrigado, porque o Núncio não é a Santa Sé. É delegado. Continua a dificuldade, pois, de recurso. O Ordinário pode recorrer ao Núncio. Mas não é obrigado. Se recorre ao Núncio para que envie as cartas pela mala diplomática, então, não é difícil o recurso. São, pois, duas questões: recorrer ao Núncio, recorrer pelo Núncio. Pode-se chegar à Santa Sé por telegrama, 10 telefone, telex, por e-mail. Ninguém é obrigado a usar estes meios. A razão é a segurança e o segredo. E estes meios técnicos de si não garantem o segredo. b) Perigo de grave dano, pela demora De que perigo se trata? De qualquer perigo, seja espiritual, seja material. É que o atraso nos correios (ida e volta) pode ser significativo. Vejamos, por exemplo, o caso de se tratar de alguma dispensa da Santa Sé para alienação por uma soma de dinheiro acima do máximo, consignado pela Conferência Episcopal do País. No atraso pode dar-se o caso da perda do lucro. Então, o Ordinário pode dispensar dessa lei que exigia licença da Santa Sé. c) Tratar-se de dispensa que a Santa Sé costuma conceder Não é o mesmo que “facilmente conceder”, mas que “costuma conceder nessas mesmas circunstâncias”. Não é conceder em circunstâncias extraordinárias, é, antes, o “solet” (é costume), isto é, algo bastante habitual. E como pode isso ser conhecido? Pela jurisprudência. Conhecem-se os casos em que isso acontece. Então, se há essas três circunstâncias o Ordinário pode dispensar, mesmo se a dispensa está reservada à Santa Sé. Quer o Bispo diocesano quer qualquer Ordinário em circunstâncias extraordinárias podem dispensar das ditas leis (87 §1 §2), sem prejuízo do c.291. Quem é o Ordinário? Está referido no c.134. O Bispo tem poder de dispensar. A dispensa é uma das possibilidades que o Bispo tem ao seu dispor para governo da Diocese. Modo de contar o parentesco Cân. 108 § 1. Conta-se a consanguinidade por linhas e graus. § 2. Em linha recta, tantos são os graus quantas as gerações, ou as pessoas, omitindo o tronco. § 3. Na linha colateral, tantos são os graus quantas as pessoas em ambas as linhas, omitindo o tronco. Como se define a proximidade? Linha – caminhos por onde corre o sangue Linha recta – directa, uma vem da outra por gerações Linha colateral – têm a mesma raiz porque têm o tronco comum, mas são gerações paralelas Linha recta – contam-se tantos graus quantas as pessoas, descontando o tronco. Linha colateral – contam-se tantos graus quantas as pessoas, descontando o tronco. Linha recta, quer dizer, o sangue comunica-se (consanguinidade), directamente às gerações sucessivas, que têm a mesma raiz, isto é, um tronco comum. A B ------------- C | | D -------------- E Pai -------- A Filhos ----- B e C ---- linha recta, relativamente ao tronco (A) Neto -------D --------- linha recta, relativamente ao tronco (A) Neto -------E --------- linha recta, relativamente ao tronco (A) B – C -------- consanguinidade, em linha colateral D – E -------- consanguinidade, em linha colateral 11 Pessoas jurídicas Cân. 113 § 1. A Igreja católica e a Sé Apostólica são pessoas morais pela própria ordenação divina. § 2. Na Igreja, além das pessoas físicas, há também pessoas jurídicas, isto é, sujeitos, no direito canónico, de obrigações e direitos, consentâneos com a índole delas. Cân. 114 § 1. As pessoas jurídicas são constituídas, ou por prescrição do próprio direito ou por especial concessão da autoridade competente mediante decreto, como universalidades de pessoas ou de coisas, destinadas a uma finalidade coerente com a missão da Igreja, que transcende a finalidade de cada indivíduo. § 2. As finalidades mencionadas no § 1 são as que se referem às obras de piedade, de apostolado ou de caridade espiritual ou temporal. § 3. A autoridade competente da Igreja não confira personalidade jurídica, a não ser às universalidades de pessoas ou de coisas que buscam uma finalidade verdadeiramente útil, e, tudo bem ponderado, dispõem de meios que se presume sejam suficientes para a consecução do fim pré-estabelecido. Esse fim transcendente não é o conjunto dos fins singulares, mas é um outro fim diverso dos fins singulares. Mas é um fim que significa unidade. É um elemento que se orienta para o bem da Igreja, para a unidade da Igreja. A Igreja atinge os seus fins por estas pessoas jurídicas. Universalidade de pessoas, significa muitas pessoas que formam uma unidade com um fim que transcende o fim dos singulares. Este fim dá a unidade na pluralidade. Não é um amontoado, um aglomerado de pessoas, porque aqui a unidade é meramente formal. Universalidade de bens ou coisas – é o mesmo raciocínio da universalidade de pessoas, feita a transposição. Exemplos: Um grupo carismático tem uma finalidade, a oração. Terá personalidade jurídica? Será considerado pessoa jurídica? Não. Não tem intervenção da autoridade. Não há um fim transcendente a cada um dos singulares. O fim da “universalidade de pessoas” é independente do fim dos singulares quer estes ajam ou não. Cân. 115 § 1. As pessoas jurídicas na Igreja são ou universalidades de pessoas ou universalidades de coisas. § 2. A universalidade de pessoas, que não pode ser constituída a não ser com o mínimo de três pessoas, é colegial, se os membros determinam a sua acção, concorrendo na tomada de decisões, com direito igual ou não, de acordo com o direito e os estatutos; caso contrário, será não-colegial. § 3. A universalidade de coisas, ou fundação autónoma, consta de bens ou coisas, espirituais ou materiais; dirigem-na, de acordo com o direito e os estatutos, uma ou mais pessoas físicas ou um colégio. Constituição da pessoa jurídica São exigidas, no mínimo, três pessoas, mesmo que agora já não existam (na vida). A pessoa jurídica age como pessoa, manifestando a vontade (não das pessoas) mas a vontade própria deste grupo (que resulta da votação da maioria; se fossem só duas pessoas poderia haver empate. Exigir três pessoas para se constituir uma pessoa jurídica é uma razão prática). Divisão das pessoas jurídicas 12 a) Colegiais – se os membros determinam a acção. Direitos iguais ou direitos desiguais. Exemplo: A Conferência Episcopal é uma pessoa jurídica. Todos são Bispos. Formam um colégio (universalidade de pessoas). Pessoa jurídica colegial. Direitos iguais – os membros são todos iguais. O Presidente é o 1º inter pares – não tem mais direitos que os outros. O Colégio Episcopal é uma pessoa jurídica. Todos os seus membros são Bispos. É uma pessoa moral colegial por ordenação divina. Mas nem todos têm no Colégio os mesmos direitos. Todos têm iguais direitos perante um. Há um que tem direito diferente e superior aos outros – a cabeça, o Papa. b) Não colegiais. Por exemplo, uma diocese. É uma universalidade de pessoas (não de “coisas”), é a comunidade do Povo de Deus, sob o Bispo. Não é o território, é aquela porção do Povo de Deus, isto é, pessoas, universalidade de pessoas. Não são as pessoas que determinam a acção porque a acção está determinada pelo direito. Portanto, não é colegial. Um exemplo para discernirmos melhor: serão os Institutos de vida consagrada pessoas jurídicas colegiais (universalidade de pessoas)? São as próprias pessoas que determinam a acção ou não? São pessoas jurídicas colegiais ou não? Não são os membros que criam a acção em cada momento porque senão tinham de ser convocados em cada momento. A acção já está determinada pelos Superiores, por isso, não é pessoa colegial, mas a acção é determinada em capítulo. Por isso, é pessoa colegial. Há dificuldade no discernimento canónico. No entanto, talvez se diga que são pessoas jurídicas não colegiais porque nem todos os membros determinam a acção. Universalidade de coisas ou bens Universalidade de coisas ou bens são unidades não de pessoas, mas de coisas. Consta de bens ou coisas quer materiais, quer espirituais. Por exemplo: um hospital consta de coisas: edifícios, instrumentos, etc. Os enfermeiros e corpo clínico embora trabalhem no hospital não são hospital. O hospital é um ente (pessoa jurídica) para um tal fim. Tem um fim que transcende o fim daquelas pessoas que trabalham nessa Instituição. Cân. 116 § 1. Pessoas jurídicas públicas são universalidades de pessoas ou de coisas constituídas pela competente autoridade eclesiástica para, dentro dos fins que lhe são prefixados, desempenharem, em nome da Igreja, de acordo com as prescrições do direito, o próprio encargo a elas confiado em vista do bem público; as demais pessoas jurídicas são privadas. § 2. As pessoas jurídicas públicas adquirem essa personalidade pelo próprio direito ou por decreto especial da competente autoridade que expressamente a concede; as pessoas jurídicas privadas adquirem essa personalidade somente por decreto especial da competente autoridade que expressamente concede essa personalidade. Elementos da pessoa jurídica pública a) Constituição pela autoridade. Não é elemento específico. Já no c. 114 se diz obrigatório (pelo direito ou pela autoridade). b) Agir em nome da Igreja – é específico. Não é agir sob a jurisdição da Igreja, mas é agir “ex commissione” da Igreja. É agir, não em nome próprio, mas como parte da Igreja, em nome da Igreja. A pessoa jurídica pública assume alguns fins da Igreja de tal maneira que a comunidade eclesial age por essa pessoa. Os fins da pessoa jurídica pública são propostos pela Igreja e não pela própria pessoa jurídica pública. 13 Exemplo: uma escola nasce da iniciativa de alguns professores. É iniciativa privada. Mas eles podem querer personalidade jurídica de tal maneira que, na comunidade eclesial, a Escola tenha direitos e obrigações. A Igreja dá-lhe essa personalidade. Se lhe dá personalidade pública então a Escola já não é privada. É a própria Igreja que ensina através desses professores: o fim já não é em benefício de alguns mas de toda a comunidade. Se tiverem só personalidade jurídica privada então já é diferente. c) Em ordem ao bem público. A pessoa jurídica age para o bem de toda a comunidade, não dos membros singulares. As pessoas jurídicas privadas não agem em nome da Igreja, não agem para o bem público mas para o bem dos singulares. As pessoas jurídicas privadas são constituídas por decreto para o efeito. Diversidade no modo de constituição da pessoa jurídica A pessoa jurídica pública (diocese, paróquia, instituto religioso, etc.) é constituída pelo direito ou por decreto da autoridade competente. A pessoa jurídica privada é constituída por decreto expresso para isso, nunca pelo direito. Governo da pessoa jurídica A pessoa jurídica pública é governada pelo direito universal (no CIC existem muitas normas para as pessoas jurídicas públicas) e também pelos estatutos próprios. Da pessoa jurídica privada nada diz o direito comum da Igreja, sobre o seu governo. Por isso, mas regem-se por estatutos aprovados. Actividade da pessoa jurídica Cân. 118 - Representam a pessoa jurídica pública, agindo em seu nome, aqueles a quem é reconhecida essa competência pelo direito universal ou particular ou pelos próprios estatutos; e a pessoa jurídica privada, aqueles a quem é conferida essa competência pelos estatutos. Representar quer dizer que alguém age “pro alio”, em nome desse, age no lugar desse. A acção do representante não é dele é do representado. Os efeitos são para o representado, a responsabilidade é primariamente do representado. Exemplo: casamento por procuração. Quem casa não é o procurador é o representado. Representação: - quanto à universalidade de pessoas – as pessoas não podem estar todas e agir todas e em todas as circunstâncias; - quanto à universalidade de coisas – muito mais vale o argumento. Quem são esses representantes das pessoas jurídicas? - das pessoas públicas, por exemplo a diocese – o Direito diz que é o Bispo da Diocese (Ele não é a Diocese mas é o representante). Da paróquia é o Pároco (age em nome da Paróquia, administra os bens que não são seus mas da Paróquia – c. 532). Agir em nome da Igreja, formalmente falando. O CIC não envolve nem exclui o uso de jurisdição, ultrapassa essa questão. Significa que o fim da Igreja é realizado, independentemente da jurisdição. A jurisdição não tem a ver com a pessoa jurídica. Só tem a ver com a natureza do indivíduo físico, nada com a pessoa jurídica. 14 Extinção das pessoas jurídicas Cân. 120 § 1. A pessoa jurídica, por sua natureza, é perpétua; extingue-se, porém, se for legitimamente suprimida pela autoridade competente ou se deixar de agir pelo espaço de cem anos; além disso, a pessoa jurídica privada, extingue-se, se a própria associação se dissolver de acordo com os estatutos, ou se, a juízo da autoridade competente, a própria fundação tiver deixado de existir, de acordo com os estatutos. § 2. Se restar um só dos membros da pessoa jurídica colegial e a universalidade de pessoas segundo os estatutos não tiver deixado de existir, compete a esse membro o exercício de todos os direitos da universalidade. Duração perpétua - Não no sentido metafísico mas jurídico. - Não se pode criar uma pessoa jurídica “ad tempus”, isto é, com definição de tempo. - A criação da pessoa jurídica é sem definição de tempo. - A pessoa jurídica perdura por sua natureza - enquanto age em nome da Igreja (pessoa jurídica pública); - enquanto está na comunidade (pessoa jurídica privada). Supressão pela legítima autoridade Quem é essa autoridade? Não se diz quem é para a erecção nem se diz quem é para a extinção. Mas é a mesma autoridade. Há diferenças. No caso da paróquia, o Bispo pode extingui-la, ouvido o Conselho Presbiteral. No caso de um Instituto de Vida consagrada, o Bispo pode elegê-lo (c.579) mas não pode suprimi-lo (c. 584). No c.616 põe-se normas: só a Santa Sé pode suprimir a única casa que subsista de um Instituto de Vida Consagrada. Há coisas que faltam no cânone. Que causa se requer para que a autoridade competente extinga uma pessoa jurídica? Arbitrariamente? Não pode! Então, que causa? Deve considerar o assunto segundo as circunstâncias concretas. Assim, por exemplo, quanto a associações, a autoridade deverá ponderar que haja graves causas. Deve ouvir o moderador e outros oficiais maiores para ponderar as causas. Das paróquias nada se diz no c. 515, §2 sobre as causas. Neste caso, a causa deve referir-se ao bem das almas. Se a Paróquia é erecta para o bem das almas, é também o bem das almas que deve determinar a sua extinção. A pessoa jurídica pública pode extinguir-se após 100 anos sem actividade. Dissolve-se esse corpo, esse substrato que era o fundamento da pessoa jurídica. Agiu intermitentemente? Os anos assim não contam. Têm de ser “contínuos”. Que acontece se for por coacção, por decisão da autoridade? A autoridade civil não é competente para extinguir a pessoa jurídica eclesiástica. Mas se a sua não actividade é contínua (ainda que seja por coacção)? Cessa mesmo. O cânone é claro em afirmá-lo. A pessoa jurídica privada pode cessar doutros modos Pode cessar pelo que vier referido nos estatutos (que prevê isso). No caso de ser uma universalidade de bens e se agora já não são bens, então não há o corpo, cessa o fundamento, por isso, a fundação desaparece. Essa decisão tem de vir da autoridade competente. Destino dos bens das pessoas jurídicas extintas Cân. 123 - Extinta uma pessoa jurídica pública, o destino dos seus bens, direitos patrimoniais e encargos rege-se pelo direito e pelos estatutos; se estes nada disserem a esse respeito, serão transferidos para a pessoa jurídica 15 imediatamente superior, salvos sempre a vontade dos fundadores e doadores e os direitos adquiridos; extinta uma pessoa jurídica privada, o destino dos seus bens e encargos rege-se pelos próprios estatutos. Os bens das pessoas jurídicas públicas são bens eclesiásticos (c.1257, §1). Segundo o c.584, os bens dos Institutos de vida consagrada pertencem à Sé Apostólica. Em ordem ao destino dos bens, deve atender-se: - ao direito universal - ao direito particular - e aos estatutos. Se os cânones ou os Estatutos silenciam, os bens devem passar à pessoa jurídica imediatamente superior. Qual é? Se se trata de pessoas jurídicas hierarquicamente estabelecidas, não há dificuldade. Por exemplo, no caso da paróquia e da diocese: a pessoa jurídica imediatamente superior à paróquia é a diocese. Relativamente à diocese é a Santa Sé. Não é claro dizer-se qual é a pessoa jurídica superior à Universidade Católica. Se há uma associação na Paróquia que é extinta, a pessoa superior é a que persegue o mesmo fim: será a paróquia. Mas a Paróquia persegue muitos fins! A Diocese persegue muitos fins! Não parece, portanto, claro, o cânone. Em conclusão: requer-se a intervenção da autoridade. Que decida! Salve-se sempre a vontade dos fundadores (na universalidade das coisas) ou dos benfeitores (que aumentaram os bens). E os bens adquiridos? Quanto às pessoas jurídicas privadas é o que estiver decidido nos estatutos. Actos jurídicos Can. 124 § 1. Para a validade de um acto jurídico requer-se que seja realizado por pessoa hábil, e que nele haja tudo o que constitui essencialmente o próprio acto, bem como as formalidades e requisitos impostos pelo direito para a validade do acto. § 2. Um acto jurídico, realizado de modo devido no que se refere aos seus elementos externos, presume-se válido. Capacidade jurídica e habilidade jurídica Para se entender estas duas realidades jurídicas, importa, primeiro, definir "acto jurídico". Em termos gerais, "actos jurídicos" são acções da pessoa humana e que de algum modo afectam as relações comunitárias. Cientificamente, "acto jurídico" é um acto voluntário que intenta mudar direitos (próprios ou alheios) e é sancionado pela lei. Expliquemos: Tem de ser um acto voluntário, isto é, um acto interno, deliberado, que procede da vontade = acto humano. Distingue-se de "acto do homem", que é, por exemplo, o acto da pessoa enquanto dorme. Se não houver deliberação é simulação, é aparência de acto mas não é acto. No campo canónico exigese que seja acto interno; doutro modo, não tem efeito. Tem de ser um acto que intenta alguma mudança concreta consignada pela lei. Se pretende algum efeito que a lei não permite, é um acto ilícito. Tem de ser um acto sancionado pela lei. Isto é, a autoridade intervém para sancionar (recebendo ou excluindo) esses efeitos. A lei pode requerer que o acto seja feito de certa forma e em certas circunstâncias, porque a autoridade tem o papel de moderador da comunidade. Se o acto produz efeito, vale, é eficaz. Se não produz efeito, é ineficaz, é inválido, mesmo que haja vontade real de produzir efeito. Ineficácia do acto jurídico 16 A ineficácia pode provir de duas causas: 1. Porque o acto não existe. Existe apenas a aparência (ora a aparência não é acto jurídico). Tal acontece quando faltam elementos constitutivos do acto. Por isso, o acto, não sendo constituído, não existe. É inexistente. E não existindo, não pode produzir efeito. 2. O acto pode existir e não produzir efeito. É um acto existente, mas nulo, inválido. Requisitos para a validade de um acto jurídico Esses requisitos provêm de três sectores: - da parte da pessoa que produz o acto; - da parte do próprio acto; - do modo de pôr o acto. Condições requeridas da parte da pessoa que produz o acto 1. Requer-se que seja pessoa "capaz". De notar a importância da distinção entre "pessoa capaz" e "pessoa hábil", isto é, entre "capacidade" e "habilidade". É que a pessoa incapaz produz um acto inexistente, isto é, não produz nada, produz a aparência de um acto; não pode pôr um acto jurídico. 2. Por sua vez, a pessoa capaz pode ser considerada "pessoa não hábil" juridicamente. Isto é, uma pessoa capaz é uma pessoa que pode agir mas deverá ter certas qualidades e realizar certas condições requeridas pelo direito canónico para que o seu acto valha. Assim, por exemplo, um pároco não pode ser pároco fora do seu território, presidindo a um casamento sem delegação. Não tem competência para tal, é não-hábil, e, por isso, põe um acto sem efeito, o acto é inválido. A capacidade jurídica pode ser regulada ou pelo direito natural (uma pessoa que não tem o uso da razão é "incapaz" de um acto humano; não pode, por exemplo, ser juiz eclesiástico) ou pelo direito divino positivo (um não baptizado é "incapaz" de receber a Eucaristia) ou pelo direito canónico (um baptizado que não é juiz eclesiástico é "incapaz" de dar uma sentença eclesiástica). Requer-se que tenha vontade deliberada (actual ou virtual) de agir, por uma declaração expressa (implícita ou explícita); a intenção basta que seja implícita, a declaração tem de ser expressa, isto é, uma declaração relativa a esse acto. Vontade deliberada significa acto interno. Se fosse somente acto externo seria simulação. Vontade actual exprime-se no "eu agora quero fazer isto". Vontade virtual significa uma vontade que uma vez foi expressa e perdura porque não foi retirada. Não serve a declaração tácita, isto é, aquela que não é expressa (seja explícita ou implícita), mas que se deduz logicamente. Requisitos para a validade do acto, da parte do próprio acto É necessário que o acto posto tenha todos os elementos constitutivos do acto. Isto é, cada acto tem certas normas concretas próprias desse acto, ou seja, cada acto tem uma configuração sua própria. Por exemplo, baptizar sem água não é acto de Baptismo, não há aquela figura jurídica do Baptismo. Outro exemplo: a configuração do acto do Matrimónio, do consentimento matrimonial, é a entrega dos mútuos direitos entre as duas pessoas e que inclui especificamente o direito conjugal dos corpos em ordem à geração dos filhos. Ora se dois homossexuais intentam contrair matrimónio, põem um acto inexistente porque no que intentam fazer não há a figura do contracto matrimonial. O objecto do acto jurídico deve ser completado na sua identidade substancial com aquelas qualidades próprias que permitem a identificação desse objecto. Requisitos para a validade do acto da parte do modo de pôr o acto 17 Há condições para a validade do acto, impostas pelo direito, chamadas “requisitos e solenidades”. Por exemplo, o consentimento mútuo matrimonial sem algo de externo, isto é, sem a sua forma jurídica, diante do Pároco e duas testemunhas, não vale. Um acto jurídico presume-se válido se foi realizado externamente rectamente. Rectamente quer dizer segundo as exigências dos próprios elementos, ou seja, se aparentemente há um perfeito acto jurídico (c.124 §2). Diz-se "presume-se", porque não se garante que seja. Mas se alguém diz que não "é" deve prová-lo. Resumindo 1. Actos "inexistentes" acontecem: - quando há um vício substancial da vontade, de modo a não permitir que o acto seja humano; - quando falta um dos elementos constitutivos do acto; - quando há um impedimento estabelecido por lei divina à realização do acto; - quando a pessoa não tem os requisitos necessários por lei divina. 2. Actos "existentes", mas ineficazes, acontecem: - quando há um impedimento estabelecido por lei humana à realização do acto; - quando a pessoa não tem os requisitos necessários por lei humana; - quando o acto é posto sem as formalidades requeridas. Importa fazer algumas observações: 1. Em todos estes casos, seja de actos inexistentes seja de actos existentes mas ineficazes, não se produz nenhum efeito. 2. Por isso, na prática, isto é, na letra da lei que vem no Código de Direito Canónico, actos inexistentes e actos existentes, mas ineficazes, equivalem-se porque tanto uns como outros aparecem como inválidos ou nulos. 3. O acto é nulo, é inválido desde a sua origem, mesmo que aparentemente seja perfeitíssimo. 4. Quando a lei canónica diz expressamente que o acto é inválido ou apresenta expressamente condições para a sua validade, a violação da lei significa que o acto realizado foi nulo, isto é, não produziu nenhum efeito. Assim, é inválido adquirir um ofício eclesiástico sem provisão canónica, é inválido um consentimento matrimonial fora da presença do pároco (ou seu delegado) e duas testemunhas, é inválido um testamento sem assinatura. 5. Na ciência canónica, acto inválido é diferente de acto juridicamente inexistente. Na prática jurídica, equivalem-se. 6. Capacidade jurídica é igual a ter capacidade radical, é igual a ter o direito; habilidade jurídica é igual a ter todas as condições para poder agir, é igual a ter as condições para exercer esse direito. Importa, finalmente, não esquecer a diferença entre "ter um direito" e "ter condições para o exercício desse direito". Vícios que tornam nulo um acto jurídico Violência infligida do exterior Can. 125 § 1. O acto praticado por violência infligida externamente à pessoa, e à qual esta de modo nenhum pode resistir, considera-se nulo. Trata-se da coacção (ou força) à qual a pessoa não pode resistir e que elimina a liberdade da pessoa no pôr o acto. O acto, mais do que nulo, é inexistente (é que o nulo pode existir) (c.125 §1). É que, em tais circunstâncias, o acto não é humano, porque não procede da livre vontade. Por exemplo, drogar uma pessoa para que assine um documento. O drogar alguém equivale a uma coacção física porque a droga afecta fisicamente, de maneira violenta, o organismo. Medo grave incutido injustamente 18 Cân. 125 § 2 - O acto praticado por medo grave incutido injustamente, ou por dolo, é válido, salvo determinação contrária do direito; mas pode ser rescindido por sentença do juiz, a requerimento da parte lesada ou de seus sucessores nesse direito, ou de ofício. Trata-se de uma perturbação da mente, embora momentânea, mas grave e injusta. Não basta o medo meramente subjectivo. Certamente que não se pode abstrair das condições subjectivas, porém, atende-se, primeiro, às condições objectivas (isto é, este medo será medo para todos). Tem, também, de ser um medo incutido, deliberadamente (isto é, para obter esse fim concreto em vista) ou indeliberadamente (não tinha intenção directa de atingir tal fim, porém, ele foi atingido indeliberadamente). Por exemplo, agir com perturbação por causa de um terramoto não é um medo injusto. O princípio jurídico-legal é que tais actos realizados são válidos. Porém, o direito canónico prevê, para casos de particular importância para o sujeito ou para o bem comum, que há certos actos que, executados com esse medo, são nulos, portanto inválidos. Tais actos são, entre outros: o matrimónio (c.1103), a admissão ao noviciado (c.643 §1,4º), a profissão religiosa (c.656,4º), votos de qualquer género (c.1191 §3), um sufrágio de qualquer género (c.172 §1,1º). Dolo O dolo é um estratagema para enganar outrem. Tal acto posto por alguém que foi enganado é válido. Tanto no dolo como no medo o acto é considerado válido desde que o dolo ou o medo não perturbem "totalmente" a pessoa. Se houvesse uma perturbação total, tirar-se-ia a deliberação da vontade e em tal caso o acto não seria humano. Trata-se, pois, neste cânone 125, das Normas gerais, de um acto em que a pessoa foi parcialmente coagida, já que se pressupõe que poderia resistir. Se age, age porque quer. Age com liberdade imperfeita, porém, sempre com liberdade. Porém, pelas mesmas razões do número anterior, referente ao medo, é declarado inválido em determinadas circunstâncias. O direito canónico refere, entre outros, os seguintes actos que são nulos ou inválidos: o matrimónio, se o dolo diz respeito a uma qualidade da pessoa cuja ausência pela sua natureza perturba gravemente a vida conjugal (c.1098), o ingresso no noviciado (c.643 §1,4º), a profissão religiosa (c.656,4º), um sufrágio de qualquer género (c.172 §1,1º). Portanto, o princípio geral do direito canónico (c.125 §2) é que o acto posto por medo ou dolo vale, excepto no caso de perturbar "totalmente" a pessoa. Porém, o direito canónico, pelas razões da particular importância do acto para o sujeito ou para o bem comum, determina que tais actos nem sempre sejam válidos, isto é, possam ser rescindidos. O seu valor é anulado pela autoridade competente. Ignorância ou erro substancial acerca ou da natureza ou do objecto ou da causa ou dos efeitos do acto jurídico Cân. 126 - O acto praticado por ignorância ou erro, que verse sobre o que constitui a sua substância ou que redunde numa condição sine qua non, é nulo; caso contrário, vale, salvo determinação contrária do direito; mas o acto praticado por ignorância ou por erro, pode dar lugar a uma acção rescisória, de acordo com o direito. Tem de ser um erro que afecte a substância do acto, isto é, que atinja a essência do acto, ou seja, que afecte algum dos seus elementos constitutivos. Na verdade, com ignorância ou erro substancial o que se intenta não é o acto, é outra coisa. Não é necessário que o erro afecte totalmente o objecto, basta que afecte uma parte, parte essa que seja substancial. Ignorância e erro distinguem-se. A ignorância é carência de ciência, é não saber nada. Por sua vez, erro é saber alguma coisa, mas mal. O erro é um juízo positivo falso, é saber mal, é saber falso. A ignorância não permite o erro. É que quem não sabe não é capaz de errar. Por exemplo, 19 um indivíduo fez uma doação aos pobres e, por erro, deu o dinheiro a uma pessoa rica. Tal acto é nulo por erro substancial. Outro exemplo: um indivíduo pensa que a permuta de direitos no matrimónio se refere a negócios temporais. O seu consentimento matrimonial não vale porque o erro afecta a substância daquele acto. Ou ainda, um indivíduo casa só para ter filhos e ignora todos os outros aspectos substanciais ou essenciais do matrimónio, isto é, a comunhão de vida. Acontece que, desse modo, não existe figura jurídica de Matrimónio. O acto de consentimento não vale; não houve, pois, Matrimónio. Tem de ser um agir que proceda da ignorância ou do erro, isto é, uma ignorância ou um erro antecedente. Não serve se for um erro concomitante. Por exemplo, um indivíduo quer casar. Conhece todos os fins do Matrimónio. Pensa, no entanto, que o Matrimónio é dissolúvel e quer casar porque o Matrimónio é dissolúvel. Há, aqui, um erro antecedente, um erro causante do acto. É um erro que move a vontade do indivíduo. Ele age a partir deste erro. Ora, trata-se de um erro substancial porque o indivíduo exclui uma propriedade essencial do Matrimónio, a indissolubilidade. Alterou a figura jurídica do Matrimónio, por isso, o seu acto não vale, o Matrimónio não vale. Porém, se o erro é concomitante, o acto vale. Seria o caso do indivíduo que quer verdadeiramente o Matrimónio. Pensa, no entanto, que ele é dissolúvel. Mas esse erro não move a sua vontade. O que move a sua vontade é o desejo de casar. Então o acto vale já que o erro permanece na região da teoria e não se torna a causa motora do seu agir. Erro que recai na condição indispensável ("sine qua non") Tal erro acontece quando o indivíduo liga a sua vontade a um aspecto de si marginal ou secundário do objecto próprio do acto, mas de tal modo que sem esse aspecto, que o indivíduo crê erroneamente presente, não teria posto o acto (c.126). Por exemplo, contrair matrimónio, acreditando, por erro, que a mulher está virgem e pondo isso como condição "sine qua non" do consentimento matrimonial. Poder ordinário, poder delegado (cân. 131) Can. 131 § 1. O poder de regime ordinário é aquele que pelo próprio direito está anexo a algum ofício; poder delegado, o que se concede à própria pessoa, mas não mediante um ofício. § 2. O poder de regime ordinário pode ser próprio ou vicário. § 3. Àquele que se diz delegado, cabe o ónus de provar a delegação. O poder ordinário é o poder anexo ao ofício. Não é todo o poder exercido por qualquer pessoa. A pessoa terá poder mediante o ofício. Quem for titular do ofício tem poder ordinário. Ofício significa responsabilidade e, no direito, significa obrigações e direitos. O ofício pode ser por direito divino (por exemplo, o ofício episcopal) ou por direito eclesiástico (por exemplo, o ofício paroquial). O poder ordinário pode ser dado por ofício, isto é, o poder está anexo ao ofício, de tal modo que obtendo-se o ofício obtém-se também a jurisdição (por exemplo, o poder ordinário do Pároco em presidir aos matrimónios canónicos na sua paróquia). O poder ordinário pode ser anexo pelo próprio direito, em razão do ofício, não por concessão do superior, isto é, trata-se de um poder ordinário que não pertence ao ofício mas que é dado, pelo direito, em razão do ofício. Pode, também, atribuir-se poder ordinário não “ex officio” nem em razão do ofício, mas pelo superior. Fala-se de poder delegado quando falta algum dos elementos acima referidos, quando é dado de pessoa a pessoa. Assim, por exemplo, o bispo diz a um padre que tem a faculdade de confessar. Este poder não é dado “ex officio”, mas é dado de pessoa a pessoa. Se um padre é nomeado pároco (trata-se de um ofício), ele não precisa de receber do bispo a faculdade de confessar porque “ex officio” já tem esse poder. O poder delegado não é concedido pelo direito, é 20 concedido pela pessoa. Não é parte do poder de ofício. Digamos isto mesmo de outro modo, mais esquemático. O poder ordinário é anexo ao ofício É concedido pelo direito (divino – no caso do Sumo Pontífice, do Colégio dos Bispos, do Bispo diocesano; humano – em todas as outras situações). Compete pelo próprio direito, em razão do ofício. Adquire-se com a posse do ofício. Perde-se com a perda do ofício. É exercido ou em nome próprio (poder ordinário próprio) ou em nome de outro (poder ordinário vicário). Ordinariamente pode ser delegado. É sujeito a uma interpretação lata. O poder delegado é cometido à pessoa É concedido pelo direito ou pela autoridade competente. Compete pelo direito de delegação. Adquire-se com a recepção do mandato. Perde-se: terminado o mandato, expirado o tempo, terminado o número de casos, extinta a causa final da delegação, revogado por intimação do delegante ou por renúncia do delegado aceite pelo delegante. É exercido sempre e só em nome do delegante. Ordinariamente não pode ser subdelegado. É delegável se se trata de poder dado ou pela Sé Apostólica ou para uma universalidade de casos ou com o poder de subdelegação. É sujeito a uma interpretação estrita. Poder próprio, poder vicário O poder ordinário pode ser poder próprio ou poder vicário. O poder é próprio quando compete a alguém por força do ofício, mas de tal modo que aquele que tem o ofício tem o poder como seu. Por exemplo, o pároco tem o poder ordinário, porque anexo ao ofício de pároco, e exerce-o como poder próprio, isto é, em seu nome e não como poder em nome do bispo. O poder vicário é o poder que compete a alguém por força do ofício (é, portanto, poder ordinário), mas não é poder seu porque o exerce em nome de alguém de quem é vigário (por exemplo o Vigário Geral ou o Vigário Judicial têm poder ordinário em razão do ofício, mas exercem esse poder vicariamente, isto é em nome do Bispo, de quem são Vigários – “vice gerens”; o mesmo se diga do vigário paroquial, que tem poder ordinário, em razão do ofício, mas o seu poder é o de auxiliar, vigário, substituto do pároco). De acrescentar que nem todo o poder que se atribui a um Vigário (geral, episcopal ou paroquial) se atribui mediante o ofício; pode ser transmitido à pessoa. Delegação do poder O poder legislativo não pode ser delegado validamente (c.135). Quando o §3 do c.135 diz que o poder judicial não pode ser delegado, não põe nenhuma cláusula “ad valorem”. Se for delegado, é válido mas ilícito. O poder ordinário pode ser delegado no referente ao poder executivo. No que concerne ao exercício do poder delegado, o Código diz que para o exercício de tal poder tem de se provar a sua delegação (c.131 §3). Este princípio é, de certo modo, ocioso. Porquê só para o poder delegado? Esta prova deve valer tanto para o poder delegado como para o poder ordinário. Admite-se que o Código tenha feito essa distinção baseando-se no facto do poder ordinário estar anexo ao ofício e o ofício ser uma realidade pública, como tal, conhecida com facilidade. Como o poder delegado é transmitido à pessoa, é um facto privado, não notório, daí o ter se se provar. O poder delegado não pode ser usado para além dos fins da delegação (c.133). O poder executivo ordinário pode ser delegado ou para um só acto ou para todos os actos (c.137). Quem tem um ofício e anexo a esse ofício tem poder ordinário, pode delegar, quer seja poder próprio quer seja poder vicário (que também é ordinário). Poderá alguém delegar todo o seu poder ordinário? Os canonistas dizem que não; só “ad tempus”. De facto, não faz sentido uma demissão com tal dimensão! Aquele que tem poder delegado poderá subdelegar o seu poder? Se recebeu o poder delegado da Santa Sé pode subdelegá-lo em toda a sua dimensão e este, por sua vez, pode subdelegá-lo “ad 21 casum”. Se o recebeu de outra autoridade (inferior à Santa Sé) e a delegação foi para a totalidade dos casos, pode subdelegá-lo mas apenas para um caso; se recebeu a delegação para um caso, não pode subdelegar o poder (c.137 §2). Ofícios eclesiásticos Cân. 145 § 1. Ofício eclesiástico é qualquer encargo constituído estavelmente por disposição divina ou eclesiástica, a ser exercido para uma finalidade espiritual. § 2. As obrigações e direitos próprios de cada ofício eclesiástico são definidos pelo próprio direito pelo qual o ofício é constituído, ou pelo decreto da autoridade competente com o qual é simultaneamente constituído e conferido. O ofício é peça chave de toda a organização eclesiástica – c.145. São quatro os elementos essenciais da definição de ofício eclesiástico: 1. Múnus (cargo) – conjunto de funções com as suas obrigações e direitos próprios, a determinar em cada caso. Se não constassem direitos-obrigações, não se tratava de múnus. 2. Estavelmente constituído – por tempo indefinido e com estabilidade objectiva (a estabilidade subjectiva seria em razão do sujeito; mas este pode mudar e o ofício não deixa de ser ofício). O ofício é que é estável. 3. Por ordenação divina ou eclesiástica. Há, por isso, a exclusão da iniciativa meramente privada e também da autoridade extra eclesiástica. Também a autoridade fora da comunhão eclesiástica não é competente para constituir um ofício eclesiástico. É a autoritativa ordenação que constitui o ofício. * Ordenação divina. Ex. o ofício do Primado do Papa e o ofício episcopal (in genere) – não o de cada Bispo em particular – para este são precisas determinações específicas. * Ordenação eclesiástica: quer “ipso iure” – por lei eclesiástica ou por costume (raro); quer por decreto (da autoridade competente que ao instituir simultaneamente confere o ofício). 4. Para um fim espiritual – dentro dos fins próprios da Igreja (ensino ou santificação ou regime). Os ofícios “in genere” são constituídos pelo direito. Ex.: múnus do Bispo, o ofício de Pároco,” in genere”. Os ofícios “determinados” são constituídos por decreto da autoridade competente. Ex.: a erecção de uma Paróquia. As obrigações e direitos próprios de cada ofício eclesiástico determinam-se: - quer pelo próprio direito pelo qual o ofício é constituído; - quer pelo decreto da autoridade competente que o constitui e simultaneamente o confere. Provisão do ofício Cân. 146 - Não se pode obter validamente um ofício eclesiástico sem a provisão canónica. A provisão é definida no CIC 17 (147 § 2) e não no CIC 83. A concessão faz-se ao atribuir o título, faz-se pela colação do título. Compreende três actos sucessivos a) a designação da pessoa b) a colação do título c) a tomada de posse O mais importante é o segundo geralmente posto pela autoridade de modo explícito. Elementos essenciais da provisão são os dois primeiros: * designação da pessoa * colação do título 22 A tomada de posse não parece essencial segundo o cânone 124 onde se fala do que é necessário para a validade de um acto jurídico. A tomada de posse” não será “formalidade” ou solenidade mas “requisito” (muitas vezes para a validade do acto). Conteúdo legislativo do cânone 1. Necessidade da provisão para a validade. 2. Sem a provisão falta o título – ser titular. 3. Quem não é titular, quem não tem título, quem não tem provisão é tido como intruso/usurpador – é ilegítima e inválida a obtenção e retenção do ofício. 4. Razão: da natureza hierárquica da Igreja e da índole pública do ofício. Renúncia (cc. 187-189) Cân. 187 Qualquer pessoa no uso da razão pode renunciar a um ofício eclesiástico, por justa causa. Cân. 188 A renúncia por medo grave, injustamente incutido, por dolo ou por erro substancial ou por simonia é nula pelo próprio direito. Cân. 189 § 1. A renúncia, para ser válida, necessite ou não de aceitação, deve ser apresentada à autoridade à qual compete a provisão do ofício em questão, por escrito ou oralmente diante de duas testemunhas. § 2. A autoridade não aceite a renúncia que não se fundamente em causa justa e proporcionada. § 3. A renúncia que necessitar de aceitação, se não for aceite dentro de três meses, não tem nenhum valor; a que não necessita de aceitação, produz efeito mediante a comunicação do renunciante, feita de acordo com o direito. § 4. A renúncia, enquanto não tiver produzido efeito, pode ser revogada pelo renunciante; uma vez produzido o efeito, não pode ser revogada, mas quem tiver renunciado pode conseguir o ofício por outro título. A renúncia é a voluntária demissão do ofício. Quanto à possibilidade da renúncia, quem quer que seja pode renunciar. Com duas condições: a) justa causa b) e agir com o uso da razão; porque a renúncia é um acto humano da vontade – Cân. 187. Modo de renúncia 1. Se a renúncia não é livre é “ipso iure” inválida. a) por medo grave injustamente incutido b) por dolo c) por erro substancial Por qualquer uma destas três razões a renúncia é “ipso iure” inválida. Que o erro substancial afecta substancialmente a liberdade, disso não há dúvida. Mas segundo o CIC, o medo grave injustamente incutido e o dolo não tolhem de tal modo a liberdade já que os actos postos são actos jurídicos e valem. Só que neste caso o legislador quis proteger de maneira especial a liberdade e por isso considera esse acto da renúncia inválido. 2. Feita simoniacamente, a renúncia não vale, nem é possível vender o ofício - cânone 188. 3. A renúncia deve ser feita à autoridade a quem compete a provisão do ofício e isso “ad valorem” (c.189 §1). Requer-se isso, mesmo que a renúncia não precise de aceitação. Portanto, se a renúncia não for comunicada à autoridade não vale. 23 4. A renúncia deve ser feita por escrito e diante de duas testemunhas. Esta forma “parece” necessária para a validade porque o cânone diz “et quidem” e cfr. o cânone 186 do CIC 17 que diz “ad validitatem”. Aceitação de renúncia Quando se requer a aceitação, esta deve responder aos seguintes requisitos: a) a renúncia deve ser por justa e proporcionada causa; se não é assim, a aceitação é ilícita (189 § 2); b) a renúncia que precisa de aceitação, se não é aceite no prazo de três meses, não valeu. E se passados esses três meses, a autoridade diz “então aceito”, o renunciante pode recorrer contra essa rejeição. A Santa Sé aceita imediatamente a renúncia dos Bispos mas a alguns pede para permanecerem durante mais algum tempo. Efeitos da renúncia A renúncia acontece no momento da intimação da aceitação da renúncia, se a renúncia precisa de aceitação. Se não precisa de aceitação, o efeito acontece na comunicação do próprio renunciante. Dado o efeito, não se pode revogar a renúncia – c.189 § 4. Transferência (cc. 190-191) Cân. 190 § 1. A transferência só pode ser feita por quem tiver o direito de prover o ofício que se perde e, simultaneamente, o ofício que se confere. § 2. Se a transferência se fizer contra a vontade do titular do ofício, requer-se uma causa grave, e, ressalvado sempre o direito de expor as razões contrárias, observe-se o modo de proceder prescrito pelo direito. § 3. A transferência, para produzir efeito, deve ser intimada por escrito. Cân. 191 § 1. Na transferência, o primeiro ofício vaga pela posse canónica do segundo, salvo determinação do direito ou prescrição contrária da autoridade competente. § 2. O transferido recebe a remuneração anexa ao primeiro ofício, até que tenha tomado posse canónica do segundo. A transferência é o acto do superior pelo qual tira o título de ofício a uma pessoa e transfere-a para outro. A transferência só pode ser feita pela autoridade competente e que é aquela que tem direito a conferir: - tanto o ofício que se perde - como o ofício que se comete – c. 190 § 1. No caso de transferência forçada: 1.requer-se causa grave; 2. ao titular é sempre reservado o direito a expor as razões contrárias. 3. deve observar-se o modo de proceder prescrito pelo direito. Efeito da transferência A transferência não tem nenhum efeito se não for intimada por escrito (é obrigatório como para a renúncia, tanto voluntária como forçada). O primeiro ofício fica vago quando a pessoa que o tinha toma posse do segundo a não ser que o direito disponha outra coisa ou o prescreva a autoridade competente – c.191 §1. O transferido recebe a remuneração correspondente ao primeiro ofício até que tome posse canónica do segundo – c. 191 §2. 24 Remoção (cc. 192-195) Cân. 192 A destituição de alguém de um ofício dá-se por decreto emanado pela autoridade competente, respeitados porém os direitos eventualmente adquiridos por contrato ou ipso iure, de acordo com o cân. 194. Cân. 193 § 1. Ninguém pode ser destituído de um ofício conferido por tempo indefinido, a não ser por causas graves e observando-se o modo de proceder determinado pelo direito. § 2. O mesmo vale para que alguém possa ser destituído de um ofício conferido por tempo determinado, antes de terminado aquele prazo, salva a prescrição do cân. 624, § 3. § 3. De um ofício que, segundo as prescrições do direito, é conferido a alguém por prudente discrição da autoridade competente, pode ele ser destituído por justa causa, a juízo dessa autoridade. § 4. O decreto de destituição, para produzir efeito, deve ser comunicado por escrito. Cân. 194 § 1. Fica "ipso iure" destituído de um ofício eclesiástico: 1°- quem tiver perdido o estado clerical; 2°- quem tiver abandonado publicamente a fé católica ou a comunhão da Igreja; 3°- o clérigo que tiver atentado o matrimónio, mesmo só civilmente. § 2. A destituição mencionada nos nº 2 e 3, só pode ser urgida, se constar dela por declaração da autoridade competente. Cân. 195 Se alguém, não já ipso iure, mas por decreto da autoridade competente, for destituído do ofício pelo qual se provê à sua subsistência, cuide essa autoridade que se providencie à sua subsistência por um período conveniente, a não ser que se tenha providenciado de outro modo. A remoção ou destituição de um ofício eclesiástico é um acto administrativo, não “ipso iure”, excepto os casos do cânone 194 onde estão enumerados os “ipso iure”. Aí, não se requer o acto administrativo. 1. Destituição pela autoridade Qual a autoridade competente? Por analogia com o c.190, §1 é aquela que tem direito a conferir ofício. 2. Modo - Por decreto - cânone 192 - Intimando por escrito – c. 193 §4 Três hipóteses: - Remoção de um ofício conferido por tempo indefinido § 1 - Remoção de um ofício conferido por tempo determinado § 2 - Remoção de um ofício conferido por tempo deixado à prudente discrição da autoridade § 3. O modo de proceder antes do decreto, no caso de se exigir causa grave, está prescrito pelo direito – c.193 § 1 e 2. 3. Causa - Causa grave, se o ofício é por tempo indefinido § 1 ou ad tempus § 2 - Causa justa, se é deixado à discrição da autoridade § 3. 4. Destituição “ipso iure” (c. 194) 25 - Se perdeu o estado clerical - Defecção publicamente da fé católica ou da comunhão eclesial - Clérigo que atentou o Matrimónio (mesmo só civil) Para algumas remoções requer-se um modo especial de agir (cfr. remoção dos Párocos – cc.1740-1747). Se contra o decreto de remoção se interpõe recurso, suspende-se a remoção até à decisão final. Portanto, o ofício não vaga mas também se suspende o poder ordinário do titular, como diz o cânone 143, §2 (e isto é importante). Se alguém, não pelo próprio direito mas por decreto da autoridade competente, é removido de um ofício, a mesma autoridade deve cuidar de que se providencie por tempo conveniente ao seu sustento, a não ser que se tenha providenciado doutro modo - cânone 195. Privação do ofício eclesiástico (c.196) Cân. 196 § 1. A privação do ofício, como pena de um delito, só pode ser feita de acordo com o direito. § 2. A privação produz efeito de acordo com as prescrições dos cânones do direito penal. Trata-se de uma remoção por pena (houve delito). Deve ser feita “ad normam iuris”. Figura entre as penas expiatórias e só pode impor-se segundo as normas do direito (cânones 13411353). POVO DE DEUS Cân. 205 — Encontram-se em plena comunhão da Igreja católica neste mundo os baptizados que estão unidos com Cristo no seu corpo visível, pelos vínculos da profissão de fé, dos sacramentos e do governo eclesiástico. Há, pois, “plena comunhão” e “não-plena comunhão”, mas sempre “comunhão”. “Comunhão”, em razão do Baptismo recebido e que, pelo facto de este Sacramento imprimir “carácter sacramental”, é indestrutível na alma do cristão. A ligação ou não ligação à Igreja Católica pelos vínculos enunciados no c. 205 é que determina a plena comunhão ou a não plena comunhão. Os fiéis como pessoas na Igreja Segundo o c.204 §1, são considerados fiéis aqueles que receberam o sacramento do Baptismo, com o qual são configurados a Cristo com um carácter indelével e incorporados à Igreja (cf.c.849). A categoria de "fiéis" é a categoria fundamental do Código. A consagração baptismal é, evidentemente, igual para todos os fiéis, que nela recebem o dom da fé e a graça da profissão de fé. Tal consagração é o pressuposto para qualquer ulterior consagração na Igreja. A 26 consagração baptismal está na base de qualquer outra vocação especial. Em virtude da mesma consagração baptismal, todos os fiéis são constituídos povo de Deus, enquanto participam da mesma missão ou múnus sacerdotal, profético e real de Cristo. Este é o estado fundamental comum a todos os baptizados. O conceito de "pessoa" na Igreja é sinónimo do de "fiel". O fiel é dito pessoa física na Igreja para o distinguir das pessoas jurídicas. Com o Baptismo, o fiel recebe os deveres e direitos que, tendo em conta a sua condição, são próprios dos cristãos. No entanto, para isso importa que se mantenha na comunhão eclesiástica e sobre ele não penda nenhuma sanção legitimamente infligida (c.96). Correlativo ao conceito de pessoa é o de "capacidade jurídica" que é a aptidão reconhecida pela lei a que sejam sujeitos de deveres e direitos (c.11). A criança, quando é baptizada, é constituída pessoa na Igreja, com alguns direitos e, enquanto não tem o suficiente uso da razão, sem quaisquer deveres. Por "fiéis" são designados, de modo técnico, só aqueles que estão em plena comunhão com a Igreja Católica. No c.205, afirma-se que estão em plena comunhão com a Igreja católica neste mundo aqueles baptizados que estão unidos com Cristo no seu corpo visível, a saber, pelos vínculos da profissão de fé, dos sacramentos e do regime eclesiástico. O c.205 faz, antes de tudo, referência à realidade invisível da união a Cristo, a qual se realiza visivelmente pelo tríplice vínculo público da profissão de fé, dos sacramentos e do governo. O Vaticano II (LG 14b) dá-nos os elementos da plena incorporação à Igreja. O primeiro elemento fundamental é ter o Espírito de Cristo, isto é, a graça, a participação da vida divina. O segundo elemento é a íntegra profissão da fé e de todos os sacramentos (cf.c.840). Assim, quem não professa a inteira fé dos Apóstolos e não aceita a celebração dos sete sacramentos não se encontra na plenitude da fé católica. No caso do repúdio total da fé cristã, isto é, de todas as verdades da fé, tem-se a apostasia. No caso de uma obstinada negação ou de dúvida obstinada de uma qualquer verdade que se deve crer por fé divina e católica, tem-se a heresia (cc.750,751). Esses são limitados ou excluídos no exercício dos direitos na Igreja, enquanto punidos com uma excomunhão "latae sententiae" (c.1364). O terceiro elemento é o da comunhão eclesiástica-hierárquica, isto é, a aceitação da autoridade suprema do Romano Pontífice e a dos bispos. Negar-se a esta aceitação é incorrer no cisma (c.751) e sujeitar-se à mesma situação dos heréticos e apóstatas. Diversa é a situação daqueles que foram baptizados numa comunidade cristã ou numa Igreja separada da Igreja católica. Estes não se encontram na integridade da fé ou na unidade do governo eclesiástico. Esses não são obrigados ao cumprimento das leis de direito eclesiástico (c.11) mas sim ao cumprimento das leis derivantes do direito divino natural e revelado. O exercício dos seus direitos é igualmente limitado da mesma maneira que aos hereges e cismáticos, no entanto com peculiaridades disciplinadas pelo direito, como, por exemplo a "comunhão nas coisas sagradas" (c.844 §2-4) e o matrimónio misto (cc.1124-1129). Torna-se oportuno referir que, no momento actual, a obstinação de um reduzido grupo autointitulado de ateus/agnósticos pretende eliminar o registo do baptismo para clarificar as estatísticas sobre o número (reduzindo-o) de baptizados católicos. A - Enquadramento do Motu próprio “Omnium in mentem” 1. A carta Apostólica “Omnium in mentem”, sob a forma de Motu próprio, de Bento XVI (26.10.2009) articula-se com a nota do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, de 13 de Março de 2006, sobre o “actus formalis defectionis ab Ecclesia Catholica”. É este documento que determina o enquadramento do “Omnium in mentem” e contextua a sua leitura e interpretação. 2. Nesse sentido, o “Omnium in mentem” retira o “actus formalis defectionis ab Ecclesia Catholica” dos cânones sobre o matrimónio, porque era na normativa sobre o matrimónio que o inciso deixava questões em aberto. E é só sobre este Sacramento que se deve ler o documento pontifício de Bento XVI. Não se pode extrapolar para outras situações canónicas. B – O “actus formalis defectionis ab Ecclesia Catholica” 27 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. No caso em mérito, o que se pretende saber é se o que é pretendido pelo requerente, relativamente ao seu Baptismo, é admitido pela norma canónica. Responde-se afirmativamente, com as seguintes clarificações. Do ponto de vista teológico, a doutrina não muda. O Baptismo imprime carácter e a condição de filho de Deus é irrevogável e inalterável. Assim, a pertença à Igreja, pelo Baptismo, como facto, é uma realidade histórica e a história não pode ser anulada nem adulterada. O separar-se dos elementos constitutivos, por direito divino (inalterável) da Igreja – e que são a fé, o culto e os sacramentos, e o ministério apostólico, como governo eclesiástico – constitui, respectivamente, um acto de heresia ou de apostasia ou de cisma. O acto jurídico-administrativo do abandono da Igreja de per si não pode constituir um acto formal de defecção no sentido designado pelo CIC, visto que poderia subsistir a vontade de perseverar na comunhão da fé. 4 Por outro lado, a heresia formal e, menos ainda, a material, o cisma e a apostasia não constituem sozinhos um acto formal de defecção, se não se concretizarem externamente e se não forem manifestadas do modo devido à autoridade eclesiástica. O não querer continuar como baptizado, isto é, como membro da Igreja, é uma opção pessoal que cada um assumirá ou não, por determinação própria, a todo o momento. No caso do requerente, que não quer assumir a sua condição de baptizado (sublinhe-se “assumir” – o que é diferente de querer negar que foi baptizado – o que é inadmissível), exigem-se os seguintes requisitos: 5.1. Deve tratar-se de um acto jurídico válido, isto é, um acto humano, posto por pessoa canonicamente hábil e em conformidade com as normas canónicas que o regulam (cc. 124-126). Isto implica que tal acto deverá ser emitido de modo pessoal, consciente e livre. 5.2. Assim, tal acto deverá concretizar-se na decisão interna de sair da Igreja Católica e na manifestação externa dessa decisão. 5.3. É exigida a recepção de tal decisão por parte da autoridade eclesiástica competente. Deste acto do requerente, depois de legalmente considerado e averbado à margem no registo do seu baptismo (cfr. c. 535 §2, mencionando explicitamente que, naquela data, “o requerente declarou a sua defecção da Igreja Católica”, daí decorrem as penas canónicas correspondentes (cc. 1364 §1 e 1331). A Cúria diocesana ou o pároco da paróquia do Baptismo constituem-se como autoridade eclesiástica competente. A resposta a dar a um requerente poderá ter o seguinte formulário: “Tendo sido recepcionado o seu pedido, datado de ….., cumpre-me informar que deverá dirigir-se ao Cartório Paroquial da Paróquia de……., e aí, perante o Pároco respectivo, formalizar a sua pretensão. Uma vez considerada a autenticidade do requerido e do requerente, será averbado à margem no registo do seu baptismo (c. 535 §2): “O requerente, na presente data, declarou, presencialmente e com um documento autêntico que fica em anexo, a sua defecção da Igreja Católica, daí decorrendo o enquadramento canónico do can. 1364 §1 com o can. 1331, do Código de Direito Canónico vigente.” Data ….. O Pároco Paróquia 4 Há quem o faça para fugir ao imposto de religião, em vigor em certos países da Europa Central. 28 Cân. 515 — § 1. A paróquia é uma certa comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, cuja cura pastoral, sob a autoridade do Bispo diocesano, está confiada ao pároco, como a seu pastor próprio. § 2. Compete exclusivamente ao Bispo diocesano erigir, suprimir ou alterar paróquias, o qual não as erija ou suprima, nem as altere notavelmente, a não ser depois de ouvido o conselho presbiteral. § 3. A paróquia legitimamente erecta goza pelo próprio direito de personalidade jurídica. Elementos do conceito "Paróquia" Encontramos no conceito “Paróquia” elementos constitutivos, portanto, essenciais, e elementos não constitutivos e, por isso, integrantes ou não essenciais, pelo facto de poder existir a realidade jurídica e eclesial “Paróquia” sem esses elementos. São elementos essenciais ou constitutivos da Paróquia, sem os quais não poderá existir a realidade jurídica e teológica "paróquia": - O elemento pessoal: a comunidade de fiéis. - O elemento institucional: o pastor próprio. São elementos integrantes da "Paróquia": - O território. Mesmo admitindo-se outros critérios (rito, língua, nacionalidade) para a divisão do povo de Deus, o critério do território foi e é, em regra, um critério importante (c.518). - A igreja. Cada comunidade de fiéis deve ter um lugar onde reunir-se para ouvir a palavra de Deus, celebrar a Eucaristia, receber os Sacramentos etc. Perguntar-se-á se os catecúmenos pertencem ou não à comunidade paroquial (c. 206). Diremos que, de certo modo, são já potenciais membros e, portanto, acolhidos na comunidade dos fiéis da paróquia, embora não gozando de todos os direitos da comunidade pois devem ser considerados como não ainda plenamente incorporados à Igreja, porque não são baptizados. Segundo as normas gerais (livro I do Código, cc. 48 e 51) a erecção, supressão ou alteração de paróquias deve ser formalizada por decreto escrito e publicado no órgão oficial da Diocese. Este decreto deverá ter a formalidade adequada, isto é, deve indicar os motivos da actuação jurídica (se se trata de erecção, de supressão ou de alteração), o critério da determinação de comunidade de fiéis, isto é, os limites do novo território paroquial e, inclusive, especificando os limites que afectaram as paróquias vizinhas, a indicação de qual é a Igreja Paroquial, a provisão do ofício de Pároco, os meios de sustentação do Pároco, o financiamento das actividades paroquiais e a data em que tal decreto entrará em vigor. Para esta actuação por parte do Bispo diocesano (erecção, supressão ou alteração notável da configuração da paróquia) o Bispo terá de ouvir o Conselho presbiteral (c. 515 § 2). 5 Sabendo que o parecer do Conselho presbiteral não é vinculativo, no entanto, dado que se trata de um acto relevante para a acção pastoral diocesana, o Bispo diocesano deverá ouvir o Conselho presbiteral. Tal procedimento é obrigatório e a omissão de tal audição tornaria nulo o acto episcopal (c. 127 §2 2º). O cânone 515 §3 determina que "a Paróquia legitimamente erecta goza pelo próprio direito de personalidade jurídica". Esta personalidade jurídica pública não é atribuída pelo Bispo mas é concedida pelo próprio direito. Convém clarificar que é a Paróquia, enquanto estrutura organizativa pública da Igreja particular, que aufere da categoria de pessoa jurídica pública. Trata-se, pois, não da comunidade de fiéis, como sendo uma pessoa jurídica não-colegial nem do Pároco, como sendo ele titular desse instituto canónico. Nada disso é dito pelo Código. É dito, apenas, que o Pároco é o representante legal (c.532) da pessoa jurídica que é a Paróquia. 5 CD 32; EI, 176-179; ES I, 21 §1. 29 Assim, a Paróquia, perante o direito canónico, tem obrigações e direitos consentâneos com a sua índole (c. 113 §2). Trata-se de direitos e obrigações próprias enquadradas no seu horizonte pastoral e na gestão do património afectado. De acordo com a Concordata entre a Santa Sé e o Estado Português, tal personalidade jurídica é reconhecida do ponto de vista civil. Cura pastoral “in solidum” Cân. 517 — § 1. Onde as circunstâncias o exigirem, pode a cura pastoral de uma paróquia ou simultaneamente de várias paróquias ser confiada solidariamente a vários sacerdotes, desde que um só deles seja o moderador da cura pastoral, o qual oriente a acção conjunta, e desta seja responsável perante o Bispo. § 2. Se em virtude da falta de sacerdotes, o Bispo diocesano julgar que a participação no exercício da cura pastoral da paróquia deva ser confiada a um diácono ou a outra pessoa que não possua o carácter sacerdotal, ou a uma comunidade de pessoas, constitua um sacerdote que, dotado dos poderes e das faculdades de pároco, oriente o serviço pastoral. Cân. 543 — § 1. Cada um dos sacerdotes, aos quais é confiada solidariamente a cura paroquial de alguma paróquia ou de várias paróquias simultaneamente, está obrigado, de acordo com o regulamento pelos mesmos estabelecido, a desempenhar os deveres e as funções de pároco que se referem nos câns. 528, 529 e 530; a faculdade de assistir aos matrimónios tal como todos os poderes de dispensar concedidos pelo próprio direito ao pároco, competem a todos, embora se devam exercer sob a direcção do moderador. § 2. Todos os sacerdotes pertencentes ao grupo: 1.° estão obrigados à residência; 2.° estabeleçam de comum acordo um regulamento segundo o qual um deles celebre a Missa pelo povo, nos termos do cân. 534; 3.º em assuntos jurídicos o moderador representa a paróquia ou o conjunto de paróquias que foram confiadas ao grupo. A cura pastoral "in solidum" é uma inovação do actual Código. Este cânone do Código do direito canónico enquadra uma tipologia de estrutura paroquial e pastoral que tem a ver com uma crescente falta de sacerdotes, com a constatação da existência de paróquias muito populosas, particularmente, nas grandes cidades ou, ainda, em zonas rurais com paróquias muito distantes entre si e com uma população cada vez mais rarefeita. O cânone 517 §1 estabelece a "paróquia in solidum" que tanto pode ser uma só como várias. Pensamos numa só paróquia, enorme e muito diversificada nos seus fiéis, a exigir uma adequação de acção pastoral, com ministérios bem determinados e exigentes. Para isso, seriam atribuídos dois ou mais sacerdotes para actuarem pastoralmente nessa paróquia, servindo-se dos talentos específicos de cada um em ordem a ministérios paroquiais também específicos. Podemos também falar da junção de mais paróquias, num território extenso e de pouca população, onde a união de esforços irá responder de maneira mais adequada pela actuação de dois ou mais sacerdotes do que se todo esse território fosse encomendado unicamente a um Pároco. De notar que as paróquias "in solidum" não são determinadas por uma mera conveniência mas trata-se de um recurso que deve ser muito bem justificado. Bastava-nos já constatar a ligação imediata que os fiéis de uma comunidade paroquial têm ao seu pastor em razão de uma pastoral de proximidade para se perceber que a estrutura pastoral "in solidum" deve tornar-se um recurso excepcional. O próprio texto legislativo a isso nos leva ao determinar que esta nova situação 30 deverá acontecer apenas "onde as circunstâncias o exigirem". Por isso, deve-se ter em conta que os mesmos problemas que induzem à constituição de paróquias "in solidum" podem ser resolvidos se as circunstâncias o aconselharem sem um recurso exclusivo à fórmula "in solidum". Neste enquadramento, as paróquias "in solidum" passam a significar um único ofício paroquial atribuído a um titular múltiplo com conteúdos semelhantes aos do ofício de Pároco. O Moderador não é o superior da comunidade presbiteral "in solidum". O Moderador é, apenas, “primum inter pares”. Orienta a acção conjunta e desta é responsável perante o bispo, como porta-voz, dado que “in solidum” todos os presbíteros são responsáveis pela cura pastoral das paróquias. Todos têm as mesmas faculdades e o mesmo voto deliberativo. Formam um grupo mas não constituem uma pessoa jurídica. Pessoa jurídica é a Paróquia, não os presbíteros. Na verdade, o relator deste texto legislativo considerou que não se atribuiria personalidade jurídica ao grupo de sacerdotes e o próprio Código parece excluir essa interpretação (c. 520 §1). Em razão da escassez de sacerdotes, o bispo diocesano pode confiar a um diácono ou a uma pessoa que não tenha o carácter sacerdotal ou a uma comunidade de pessoas a participação no exercício do cuidado pastoral de uma Paróquia. Esses agentes da pastoral paroquial actuam o múnus pastoral e exercem um verdadeiro ofício, com o necessário poder administrativo 6. Neste caso, porém, o Bispo diocesano deverá constituir um sacerdote o qual, com o poder e as faculdades de Pároco, seja o moderador da cura pastoral (c.517 §2). O diácono ou a outra pessoa que não possui o caracter sacerdotal ou uma comunidade de pessoas a quem se confia a participação no exercício do serviço pastoral da paróquia não poderão desempenhar funções que requeiram o poder de Ordem, pelo Presbiterado. Têm funções administrativas (cc. 532 e 535) e funções de animação espiritual e de formação da fé. A estas juntam-se, também, funções de carácter litúrgico, conforme determinação do Bispo diocesano (c. 230 §3). Ao Bispo compete determinar e avaliar as condições de idoneidade de tais pessoas. Ao abordarmos a análise a este cânone (517 §2), importa dizer que não só a Santa Sé, no seu Magistério, vai declarando que a escassez de sacerdotes não é motivo definitivo para suscitar tal suplência com a participação de leigos como, também, esclarece que o horizonte pastoral destas medidas não pode ser definitivo porque se empobreceria, de maneira determinante, a vida sacramental da comunidade dos fiéis, como, ainda, se favoreceria uma certa clericalização dos leigos. Isto para dizer que tais soluções devem ser tidas sempre como provisórias e excepcionais. Paróquia territorial e não territorial Cân. 518 — A paróquia, em regra geral, seja territorial e englobe todos os fiéis de um território determinado; onde porém for conveniente, constituam-se paróquias pessoais, determinadas em razão do rito, da língua, da nação dos fiéis de algum território, ou até por outra razão. Não há dúvida que a pertença à paróquia, tendo como critério o território, permite uma imediata, efectiva e adequada acção pastoral. Entretanto, os tempos mudam e assim o critério "território" não se tornou nem critério único nem critério exclusivo. Daí que, onde for conveniente, segundo o cânone 518, constituam-se paróquias pessoais, determinadas em razão do rito, da língua, da nação dos fiéis de algum território, ou até por outra razão. Nestes casos, os fiéis pertencem à paróquia pessoal mesmo que tenham domicílio noutra paróquia. Temos assim estruturas paroquiais não-territoriais. Segundo o Código de Direito Canónico, torna-se obrigatório que o Bispo diocesano ouça o Conselho Presbiteral (c. 515 §2) para ajuizar da conveniência de se constituir uma paróquia pessoal, em razão do rito (c. 383 §2) ou da língua ou 6 Cc. 274 §1; 228 §1. Múnus: cfr. cc. 230, 758, 759, 765, 766, 861 §2, 910 §2, 1112 §1, Ordo exequiarum, 19. Faculdades que lhes podem ser delegadas: cc. 1079 §2, 1080, 1196,3º, 1197, 1203, 1245. 31 da nacionalidade dos fiéis de um território ou por outra razão (como por exemplo "paróquias escolares", mencionadas no c. 813). Se tal constituição paroquial acontecer, é importante que o Bispo diocesano proveja cuidadosamente sobre a validade dos actos de jurisdição. Resta-nos, todavia, uma questão, de certo modo conexa com este cânone 518. Na actualidade, particularmente na dimensão urbana da sociedade, constatamos a fácil mobilidade dos fiéis de tal modo que, descontextualizando-se do domicílio paroquial, optam por uma determinada comunidade onde celebram a sua fé e que não é já a sua paróquia de residência. Chamaríamos a isto "paróquias de opção", onde esses fiéis participam dominicalmente, na Eucaristia, e que escolhem para a celebração dos sacramentos e para o incremento da sua vida cristã. Isto não nos dá direito de falar em paróquias pessoais, partindo tal denominação da vontade própria dos fiéis. Porém, do ponto de vista do enquadramento da jurisdição e de outros actos administrativos, estes fiéis estão muito mais integrados numa outra paróquia, a tal "de opção" do que na paróquia do seu domicílio. Conselho paroquial para os assuntos económicos Cân. 537 — Em cada paróquia haja um conselho para os assuntos económicos, o qual se rege pelo direito universal e pelas normas dadas pelo Bispo diocesano, e em que os fiéis, escolhidos segundo as mesmas normas, auxiliem o pároco na administração dos bens da paróquia, sem prejuízo do prescrito no cân. 532. O Conselho paroquial para os assuntos económicos (“Comissão Fabriqueira” ou “Fábrica da Igreja”, como é denominado em Portugal) encontra as orientações para a sua actuação, primeiramente, nas normas estabelecidas pelo Código de Direito Canónico, às quais acrescem eventuais determinações do bispo diocesano, como direito particular. Como Conselho, os seus membros têm voto consultivo. Compete ao Pároco, presidente do Conselho para os assuntos económicos, o voto deliberativo. É ele que compete tomar toda e qualquer decisão. Por isso o Conselho para os assuntos económicos da paróquia não é equiparado ao conselho de administração de uma empresa. Cessação do ofício paroquial Cân. 538 — § 1. O pároco perde o ofício por remoção ou transferência efectuada pelo Bispo diocesano nos termos do direito, por renúncia apresentada por causa justa pelo próprio pároco e, para ser válida, aceite pelo mesmo Bispo, e bem assim pelo decurso do prazo, se, de acordo com as prescrições do direito particular referido no cân. 522, tiver sido constituído por período determinado. § 2. O pároco, que for membro de um instituto religioso ou incardinado numa sociedade de vida apostólica, é removido nos termos do cân. 682, § 2. § 3. Pede-se ao pároco que, ao completar setenta e cinco anos de idade, apresente a renúncia do ofício ao Bispo diocesano, o qual, ponderadas todas as circunstâncias da pessoa e do lugar, decida sobre se a mesma deva ser aceite ou protelada; tendo em consideração as normas estabelecidas pela Conferência episcopal, deve o Bispo diocesano providenciar ao conveniente sustento e habitação do pároco que renuncia. O Pároco cessa o ofício: 32 - Por remoção. - Por transferência (cc.1740-1752). - Por renúncia feita pelo Pároco e aceite pelo Bispo (c.538 §1) 7. - Terminado o tempo, se por tempo determinado, foi constituído (c.186). - Completando setenta e cinco anos de idade, é convidado a apresentar a renúncia do ofício ao bispo diocesano o qual considerando todas as circunstâncias da pessoa e do lugar decidirá se deve aceitá-la ou diferi-la (c.538 §3). Não se trata de verdadeira obrigação. A remoção é a perda do ofício de Pároco decretada, como sanção canónica, pelo Bispo diocesano, mediante um processo legal estabelecido pelo Código 8. As causas da remoção têm de ser graves porque trata-se de situações também gravosas para a comunidade porque significam que o ministério do Pároco ou se tornou prejudicial ou se mostra ineficaz. Há, também, a remoção determinada pelo próprio direito (c. 194). Não se menciona neste parágrafo a privação do ofício. No entanto, trata-se de uma remoção, com carácter especial, traduzindo uma pena expiatória pelo facto de se ter cometido um delito 9 e que é aplicada mediante um processo penal. Seja de considerar-se, também, a transferência do Pároco pelo Bispo diocesano. Trata-se de perder o ofício anterior pela tomada de posse doutro ofício eclesiástico. Aqui funcionam, normalmente, razões pastorais: o bem do povo de Deus ou a utilidade da Igreja (c. 1748). Não se trata de modo nenhum de um juízo de valor negativo, ou, de certo modo, punitivo, sobre a qualidade do ministério do Pároco. É certo que a transferência não se deve fazer contra a vontade do Pároco (c.190 §2) mas isso não quer dizer que tenha de se exigir uma causa grave para accionar a transferência. Outro modo de se perder o ofício eclesiástico da cura de almas na paróquia é a renúncia apresentada pelo Pároco e aceite pelo Bispo diocesano 10. Outro modo ainda de se perder o ofício paroquial é ter expirado o prazo para o qual o Pároco foi nomeado. Isto, no caso de tal prazo ter sido determinado pelo direito particular. No caso de o Pároco ser membro de um Instituo religioso ou estar incardinado numa Sociedade de vida apostólica, é o cânone 682 §2 que irá determinar a perda do ofício. 11 Naturalmente, esta situação não tem a ver unicamente com o Bispo diocesano, autor da nomeação para Pároco desse membro do Instituto religioso ou Sociedade de vida apostólica. Tem a ver, igualmente, com o respectivo superior que, por razões internas do Instituto, poderá precisar desse sacerdote para outra missão. 7 Cfr. cc. 274 §2, 187-189. 8 Cfr. cc.192-195 e 1740-1747. 9 Cfr. c.1336 §1,2º. O processo penal está previsto nos cc. 1717-1728. 10 Cfr. cc.187-189. 11 C. 682, § 2. O religioso pode ser removido do ofício que lhe foi conferido, ao arbítrio quer da autoridade que lho conferiu, avisado o Superior religioso, quer do Superior, avisado quem lho conferiu, sem que se requeira o consentimento da outra parte. 33 SACRAMENTO DO MATRIMÓNIO Enquadramento pastoral 1. Este é o assunto que mais trabalho dá aos Tribunais da Igreja. São as causas de declaração de nulidade do matrimónio. 2. As recentes (8.12.2015) normas promulgadas pelo Papa Francisco, em muitos casos, acedidas pelos meios de comunicação social, continuam a causar inúmeros e graves equívocos em muitos cristãos. 3. Há uma mistura notória entre o aspecto social e a dimensão sacramental do Matrimónio canónico. O primeiro aspecto tem prevalecido sobre o segundo. 4. Muitos agentes pastorais não cuidam nem da preparação dos nubentes para o Matrimónio nem do acompanhamento dos novos casais. 5. Fé, amor e indissolubilidade são realidades mal esclarecidas e pouco assentes na mentalidade de muitos nubentes. Aparece no horizonte de alguns a possibilidade do “divórcio católico” ou “anulação do casamento católico por mútuo consentimento”. 6. A figura teológica e canónica do matrimónio sacramental aparece diluída e descaracterizada face a outras figuras bizarras de convivência matrimonial. 7. A antropologia subjacente à validade do consentimento matrimonial é diferentemente enunciada pela psiquiatria face ao Magistério da Igreja. Cân. 1055 - § 1. O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si o consórcio íntimo de toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, entre os baptizados foi elevado por Cristo Nosso Senhor à dignidade de sacramento. § 2. Pelo que, entre baptizados não pode haver contrato matrimonial válido que não seja, pelo mesmo facto, sacramento. 1ª tese: O Matrimónio é contrato pelo qual duas pessoas de sexo diferente constituem um consórcio de vida ordenado a determinados fins. 2ª tese: Este contrato é sacramento, é elevado por Cristo a essa dignidade. 3ª tese: Há identidade entre contrato e sacramento. Nenhum Matrimónio pode existir entre dois baptizados que não seja sacramento. Há inseparabilidade. "Comunhão de toda a vida" significa o aspecto temporal bem como todas as dimensões e expressões das pessoas dos contraentes e das suas actividades. É uma comunhão que se actua mediante a "mútua doação das duas pessoas" (Vaticano II, Gaudium et Spes 48). É uma comunhão conjugal, o que significa ser um vínculo 34 sagrado. Constitui a primeira forma de comunhão de duas pessoas (GS 12). Na sua índole e duração não depende do arbítrio dos homens (GS 48). O seu autor é Deus (GS 48). Esta comunhão conjugal tem bens (= valores que tornam o Matrimónio digno de ser escolhido) e tem fins (= objectivos a que o Matrimónio está ordenado na sua instituição originária), bens e fins que distinguem o contracto matrimonial de outros contractos humanos. Bens e fins do Matrimónio coincidem entre si. Não se pode determinar entre eles uma hierarquia taxativa. Nenhum pode ser separado do outro nem excluído da intenção dos nubentes. O bem dos cônjuges realiza-se na íntima comunhão das duas pessoas, tornando-se "uma só carne", comunhão que toca o seu vértice quando se lhe junta a união física (c.1061 §1). O bem da prole significa a geração e a educação de novas vidas. A sacramentalidade do Matrimónio não é uma aposição ao contracto matrimonial: é o próprio contrato que se torna sacramento. Por isso, quem exclui com um acto positivo de vontade a sacramentalidade exclui o próprio Matrimónio. É que entre baptizados o contracto conjugal e sacramento não são dois entes distintos, mas uma, única e a mesma, realidade inseparável. Sacramentalidade do Matrimónio A sacramentalidade significa que a realidade do Matrimónio é assumida no mistério de salvação Cristo-Igreja. Por isso, o amor que define esta relação Cristo-Igreja torna-se norma e figura intrínseca do Matrimónio, torna-se razão de ser da unidade e indissolubilidade do Matrimónio cristão. O Matrimónio participa, pois, da manifestação na história do empenho gratuito e incondicionado (fidelidade irrevogável e amor indissolúvel) de Deus que estabelece a Igreja como sacramento salvífico da unidade dos filhos de Deus. É a unidade entre a ordem da criação (Matrimónio natural) e a ordem da redenção (Matrimónio cristão) a dar origem à inseparabilidade "contracto-sacramento" no Matrimónio dos baptizados. Natureza e graça, Criação e Redenção, não são entidades justapostas, mas são realidades que se interpenetram. O Matrimónio cristão não é simplesmente coisa da natureza, mas assume uma dimensão nova no "homem novo em Jesus Cristo". O amor e a dedicação, sob o signo da cruz e da ressurreição, existente entre Cristo e a sua Igreja torna-se a norma e o modelo do Matrimónio cristão: desse modo, a cruz e a ressurreição não são qualquer coisa em que acreditar, mas algo de que apropriar-se na vida cristã matrimonial. Assim, nas situações de crise e de sofrimento importa manter uma aceitação irrevogável, apoiada no sim dado por Cristo na Cruz, que não termina ali, mas se constitui como origem de nova vida. Indissolubilidade do Matrimónio Cân. 1056 - As propriedades essenciais do matrimónio são a unidade e a indissolubilidade, as quais, em razão do sacramento, adquirem particular firmeza no matrimónio cristão. Propriedades do Matrimónio são leis dadas pelo Criador (GS 48) em ordem a favorecer os bens e os fins do Matrimónio: são a unidade e a indissolubilidade. Trata-se de leis divinas que a lei humana não pode mudar. As propriedades essenciais do Matrimónio dão ao Matrimónio não o ser (o ser do Matrimónio já está constituído por outros elementos, que são os bens e os fins), mas dão ao Matrimónio o seu modo de ser. Porque o pacto matrimonial, entre baptizados, foi elevado por Cristo à dignidade de sacramento, por este sacramento peculiar os cônjuges são robustecidos e consagrados para os deveres e dignidade do seu estado (c.1134). Além disso, a unidade e a indissolubilidade do Matrimónio adquirem peculiar firmeza (c.1056). Não quer isto dizer que sem o sacramento tais propriedades essenciais fossem menos firmes, por exemplo no Matrimónio entre baptizados. 35 A disposição do Criador é igual para todos os Matrimónios, sejam de pagãos, sejam de cristãos. Só que no Matrimónio dos baptizados essas propriedades essenciais assumem uma "particular firmeza", isto é, uma nova dignidade e um novo título de compromisso, juntando às exigências da lei natural as exigências da lei evangélica. A indissolubilidade do Matrimónio cristão inclui as razões de ordem natural (ordem da Criação) que convergem a favor da indissolubilidade (por isso, todos os Matrimónios são indissolúveis), mas junta também as razões da ordem da redenção (ordem da Aliança), ou seja, o Matrimónio cristão é símbolo e sinal da aliança definitiva e indissolúvel de Cristo com a sua Igreja. A indissolubilidade não é qualquer coisa que pertence ao Matrimónio como vindo de fora. O próprio consentimento inclui o compromisso de uma fidelidade indissolúvel. O consentimento conjugal num amor indissolúvel e numa fidelidade incondicionada pertence ao Matrimónio, querido por Deus, instituído pelo Criador. Querido como tal, não pode dar-se sem a graça divina. O sacramento do Matrimónio é precisamente este pacto natural elevado à ordem da graça, em razão do Baptismo. Ao não admitir o divórcio, a Igreja outra coisa não pode fazer que tornar-se testemunha da vontade definitiva de Cristo que reafirmou a vontade do Criador. Cân. 1057 - Origina o matrimónio o consentimento entre pessoas hábeis por direito, legitimamente manifestado, o qual não pode ser suprido por nenhum poder humano. § 2. O consentimento matrimonial é o acto da vontade pelo qual o homem e a mulher, por pacto irrevogável, se entregam e recebem mutuamente, a fim de constituírem o matrimónio. O Matrimónio, como instituição inserida na ordem da natureza e da graça divina, brota de Deus, como seu autor e fonte primeira. O Matrimónio, como união conjugal concreta entre um homem e uma mulher, tem início no acto de vontade concorde (Matrimónio "in fieri", isto é, "no fazerse", como realidade humana e eclesial). O elemento que cria o Matrimónio é o consentimento das partes. O consentimento é a causa eficiente do Matrimónio. O consentimento tem de ser:    acto humano (GS 48), acto de vontade pessoal - não pode ser suprido por ninguém, irrevogável - uma vez posto não se lhe pode tirar a eficácia. Indissolubilidade do Matrimónio rato e consumado Cân. 1061 - O matrimónio válido entre baptizados diz-se somente rato, se não foi consumado; rato e consumado, se os cônjuges entre si realizaram de modo humano o acto conjugal de si apto para a geração da prole, ao qual por sua natureza, se ordena o matrimónio, e com o qual os cônjuges se tornam uma só carne. (…) O Matrimónio válido entre baptizados diz-se somente "rato" (ratificado) se não foi consumado (c.1061 §1). Quer-se dizer, os nubentes prestaram um consentimento válido, na forma canónica prescrita pela Igreja e livres de qualquer impedimento. Celebraram o Matrimónio e que é sacramento. Este acto, que é o Matrimónio rato, isto é, ratificado ou celebrado, é dotado de uma indissolubilidade intrínseca. Matrimónio "rato e consumado" dá-se se os cônjuges consumaram o Matrimónio, isto é, se realizaram entre si a cópula conjugal, de modo humano, ou seja, a relação sexual de per si idónea à geração dos filhos (c.1061 §1). Os impedimentos dirimentes em geral Há impedimentos dirimentes, isto é, impedimentos que afectam a validade do Matrimónio: uns, por direito natural, outros, por direito eclesiástico. O impedimento dirimente é uma lei de direito divino ou de direito humano pela qual a pessoa, sob a base de uma circunstância objectiva, é 36 tornada não hábil para contrair validamente Matrimónio em geral ou um Matrimónio em particular (cc.1073,1058). Os impedimentos afectam apenas aqueles que estão em comunhão plena com a Igreja Católica. Só a autoridade suprema da Igreja, o Romano Pontífice e o Colégio dos Bispos com o Romano Pontífice, pode acrescentar cláusulas invalidantes (que valem só para os baptizados) e declarar autenticamente quando o direito divino, natural ou revelado, impede ou dirime o Matrimónio (c.1075). Nenhum impedimento certamente de direito divino pode ser dispensado, enquanto todos os de direito eclesiástico podem ser sempre dispensados, segundo as normas do direito canónico. Cân. 1073 - O impedimento dirimente torna a pessoa inábil para contrair validamente o matrimónio. Cân. 1078 - § 1. O Ordinário do lugar pode dispensar os seus súbditos, onde quer que se encontrem, e todos os que actualmente se encontrem no seu território, de todos os impedimentos de direito eclesiástico, exceptuados aqueles cuja dispensa esteja reservada à Sé Apostólica. § 2. Os impedimentos cuja dispensa está reservada à Sé Apostólica, são: 1.° o impedimento proveniente de ordens sacras ou do voto público perpétuo de castidade num instituto religioso de direito pontifício; 2.° o impedimento de crime, referido no cân. 1090. § 3. Nunca se concede dispensa do impedimento de consanguinidade em linha recta ou em segundo grau da linha colateral. Os impedimentos dirimentes em especial Cân. 1083 - § 1. O homem antes de dezasseis anos completos de idade e a mulher antes de catorze anos também completos não podem contrair matrimónio válido. § 2. As Conferências episcopais podem estabelecer uma idade superior para a celebração lícita do matrimónio. Idade mínima: 14 anos para a mulher, 16 anos para o homem. É um impedimento puramente canónico, só para os católicos, pode ser dispensado (c.1083). Cân. 1084 - § 1. A impotência antecedente e perpétua para realizar o acto conjugal, por parte quer do marido quer da mulher, tanto absoluta como relativa, dirime o matrimónio, pela própria natureza deste. § 2. Se o impedimento de impotência for duvidoso, com dúvida quer de direito quer de facto, não se deve impedir o matrimónio nem, enquanto durar a dúvida, declarar-se nulo. § 3. A esterilidade não proíbe nem anula o matrimónio, sem prejuízo do prescrito no cân. 1098. Impotência antecedente ao Matrimónio, perpétua, absoluta ou relativa. É um impedimento de direito divino natural. Ninguém pode dispensar (c.1084). Cân. 1085 - § 1. Atenta invalidamente contrair matrimónio quem se encontrar ligado pelo vínculo de um matrimónio anterior, ainda que não consumado. 37 § 2. Ainda que o matrimónio anterior tenha sido nulo ou dissolvido por qualquer causa, não é permitido contrair outro antes de constar legitimamente e com certeza da nulidade ou dissolução do primeiro. Existência de vínculo matrimonial precedente. É um impedimento de direito divino natural enquanto ligado às propriedades essenciais da unidade e indissolubilidade do Matrimónio (c.1085). Cân. 1086 - § 1. É inválido o matrimónio entre duas pessoas, uma das quais tenha sido baptizada na Igreja católica ou nela recebida e não a tenha abandonado por um acto formal, e outra não baptizada. § 2. Não se dispense deste impedimento a não ser depois de se encontrarem cumpridas as condições referidas nos cans. 1125 e 1126. (…) Casamento da parte baptizada com a parte não baptizada. Trata-se do impedimento de disparidade de culto. É um impedimento puramente canónico (c.1086). O impedimento, também puramente canónico, ao Matrimónio entre dois baptizados, um católico e outro de uma confissão cristã, é chamado impedimento de religião mista (cc.1124-1129). Cân. 1087 - Atentam invalidamente o matrimónio os que receberam ordens sacras. Vínculo de ordens sacras. A dispensa deste impedimento canónico é reservada à Santa Sé (c.1087). Cân. 1088 - Atentam invalidamente o matrimónio os que estão ligados por voto público perpétuo de castidade emitido num instituto religioso. Vínculo de votos públicos perpétuos de castidade num Instituto religioso. A dispensa deste impedimento canónico é reservada à Santa Sé (c.1088). Cân. 1089 - Entre um homem e a mulher raptada ou retida com intuito de com ela casar, não pode existir matrimónio, a não ser que a mulher, separada do raptor e colocada em lugar seguro e livre, espontaneamente escolha o matrimónio. Rapto ou retenção da mulher. Para que este impedimento canónico cesse é preciso que a mulher esteja definitivamente em lugar seguro e livre. O impedimento pode também cessar por dispensa, porém, normalmente não é dada porque teme-se que o Matrimónio seja celebrado por medo (c.1089). Cân. 1090 - § 1. Quem, com intuito de contrair matrimónio com determinada pessoa, tiver causado a morte do cônjuge desta ou do próprio cônjuge, atenta invalidamente tal matrimónio. § 2. Também atentam invalidamente o matrimónio entre si os que por mútua cooperação física ou moral, causaram a morte do cônjuge. 38 Matrimónio com o cúmplice da morte do cônjuge. A dispensa deste impedimento canónico é reservada à Santa Sé (c.1090). Cân. 1091 - § 1. Na linha recta de consanguinidade é inválido o matrimónio entre todos os ascendentes e descendentes, tanto legítimos como naturais. § 2. Na linha colateral é inválido o matrimónio até ao quarto grau, inclusive. § 3. O impedimento de consanguinidade não se multiplica. § 4. Nunca se permita o matrimónio, enquanto subsistir alguma dúvida sobre se as partes são consanguíneas em algum grau da linha recta ou em segundo grau da linha colateral. Consanguinidade. Segundo a tradição católica, é impedimento de direito divino (portanto, não dispensável) a consanguinidade em 1º grau de linha recta (pai-filha). Os impedimentos nos outros graus são canónicos e são dispensáveis pela autoridade eclesiástica (c.1091). Cân. 1092 - A afinidade em linha recta dirime o matrimónio em qualquer grau. Afinidade em linha recta em qualquer grau. É um impedimento puramente canónico (c.1092). Cân. 1093 - O impedimento de pública honestidade origina-se no matrimónio inválido após a instauração da vida comum ou de concubinato notório ou público; e dirime as núpcias no primeiro grau da linha recta entre o homem e as consanguíneas da mulher, e viceversa. Impedimento de pública honestidade. É um impedimento puramente canónico (c.1093). Cân. 1094 - Não podem contrair matrimónio válido os que se encontram vinculados por parentesco legal originado na adopção, em linha recta ou no segundo grau da linha colateral. Parentesco legal. É um impedimento puramente canónico (c.1094). O consentimento matrimonial Cân. 1095 - São incapazes de contrair matrimónio: l.° os que carecem do uso suficiente da razão; 2.° os que sofrem de defeito grave de discrição do juízo acerca dos direitos e deveres essenciais do matrimónio, que se devem dar e receber mutuamente; 3° os que por causas de natureza psíquica não podem assumir as obrigações essenciais do matrimónio. 39 Para que o consentimento seja eficaz é preciso: O uso da razão - sem isso não é possível acto humano (c.1095,1º). Capacidade de discrição do juízo, isto é, capacidade de discernir e apreciar com um juízo global as responsabilidades inerentes ao Matrimónio e aceitá-las com uma escolha ponderada (c.1095.2º). Da parte do sujeito a falta desta capacidade deve ser grave, para o incapacitar de contrair Matrimónio. Da parte do objecto deve versar não necessariamente sobre tudo o que diz respeito à comunhão de vida conjugal, mas aos direitos e deveres matrimoniais que os nubentes devem dar e aceitar reciprocamente. sem isso, a essência do Matrimónio ficaria alterada e tal figura não poderia constituir o objecto específico do consentimento. Compete à jurisprudência julgar desta situação. Não ter impedimento de natureza psíquica que impeça de assumir as obrigações essenciais do Matrimónio. É que as obrigações essenciais do Matrimónio entram no objecto específico do consentimento. Por exemplo, os homossexuais e os ninfómanos, masculinos ou femininos, ou os que têm problemas psíquicos que impedem a realização do acto sexual (distingue-se da impotência anatómica ou funcional que constitui impedimento ao Matrimónio - cf.c.1084 §1). O consentimento destes é nulo não porque excluem qualquer coisa do consentimento, mas porque é-lhes moralmente impossível assumir as obrigações essenciais do Matrimónio Na falta de qualquer uma destas condições, o nubente é considerado incapaz de contrair Matrimónio. Tal significa que o acto que põe é inexistente. Não se fala, no texto legal, de "graves anomalias psicossexuais". Nem de graves, nem de anomalias, nem de psicossexuais. Fala-se de causas que se estendem a doenças psíquicas no sentido mais amplo. Exemplos: homossexualidade, ninfomania, anomalias psicossexuais, narcisismo, alcoolismo, toxicodependência, sadismo (violência por constituição), masoquismo, negligência estrutural sobre o que diz respeito à outra parte, introversão até à incomunicação com a outra parte, incapacidade de comunicação interpessoal. Fala-se da impossibilidade de assumir. Os que têm impossibilidade de assumir são incapazes de consentir. Não é de admitir que se defenda ser possível alguém ser capaz de contrair e ao mesmo tempo não ser capaz de assumir. É que não se trata de um consentimento abstracto ou de um consentimento qualquer. Trata-se do consentimento matrimonial. E o consentimento matrimonial não pode ser dissociado do seu conteúdo, isto é, das suas obrigações essenciais. Quando uma pessoa consente no Matrimónio, consente neste Matrimónio determinado, isto é, neste negócio jurídico caracterizado, entre outras coisas, pelos direitos e deveres que se aceitam reciprocamente, entre pessoas perfeitamente determinadas. Ora aceitar as obrigações é o mesmo que assumi-las. É que as obrigações são elementos constitutivos do Matrimónio. Um consentimento matrimonial dissociado do seu objecto formal e material é um consentimento matrimonial não só abstracto, mas também um consentimento matrimonial vazio de conteúdo; por isso, não é consentimento matrimonial. Há, portanto, uma correlação temporal e estrutural entre a incapacidade de contrair e a impossibilidade de assumir. A impossibilidade de assumir dá origem à incapacidade de contrair. Assumir e cumprir distinguem-se. Assumir tem a ver com o momento do consentimento matrimonial, com o momento de contrair Matrimónio. E é essa impossibilidade ("non valent", não podem, diz o cânon) que torna o sujeito incapaz do consentimento matrimonial (diz o cânon no seu início). Trata-se de vícios do consentimento. O cumprir tem a ver com a posterior execução material, depois do consentimento matrimonial dado. Certamente, só é capaz de assumir quem for capaz de cumprir, doutro modo tratar-se-ia de um assumir sem conteúdo. Por isso, assumir e cumprir articulam-se. Note-se, ainda, que não será próprio falar-se de incapacidade de assumir; deverá dizer-se impossibilidade de assumir, para se entender a linguagem do cânon. O objecto desta impossibilidade são as obrigações essenciais. O Matrimónio é o "consortium totius vitae", é uma relação interpessoal que inclui a totalidade das duas pessoas que se dão e se aceitam mutuamente para constituírem uma só carne. As obrigações essenciais pertencem constitutivamente à essência do Matrimónio. Há obrigações que se poderão chamar acidentais. Como exemplo das obrigações essenciais do Matrimónio, apontamos: 40 - Os actos que por si são idóneos aos fins do Matrimónio, isto é, ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole. Aqui falar-se-á da comunhão de vida que inclui as relações interpessoais e uma convivência verdadeiramente humana. - As propriedades essenciais. No sentido contrário, opõem-se às obrigações essenciais do matrimónio: - Um carácter associável e conflituoso, que torna a vida conjugal um inferno; - A incomunicabilidade entre os esposos; - A incompatibilidade de carácter. Será o caso de uma pessoa que, por índole constitutiva, seja tal que se lhe torne impossível realizar no matrimónio a comunhão e a integração com a outra pessoa; - Toda a gama de perversões que, mesmo não lesando as faculdades intelectivas, influem de modo substancial sobre as faculdades volitivas, no sentido de tornarem a pessoa impossibilitada de assumir as obrigações essenciais de uma comunhão de vida, no matrimónio e, portanto, incapaz do consentimento. Se há uma patologia que se articula com uma imaturidade psíquica a afectar gravemente a esfera afectivo-volitiva da personalidade, configura-se a incapacidade de estabelecer uma válida e profunda relação interpessoal de natureza matrimonial. A pessoa pode estar consciente, ao momento do contracto matrimonial, da natureza do matrimónio canónico, mas, todavia, não está em condições de assumir com plena responsabilidade os compromissos que são próprios do matrimónio. Ora tal incapacidade torna nulo o matrimónio. Se se verificam graves perturbações do substrato psicofisiológico que tornam a pessoa incapaz de estabelecer aquela relação interpessoal (enquanto comporta a mútua doação de duas pessoas) perpétua, exclusiva e íntima, que é requerida pela comunhão de vida conjugal, necessária para atingir de modo verdadeiramente humano a finalidade própria do matrimónio, sem a qual o matrimónio não poderá existir, então o matrimónio é inválido. Neste caso, o problema fundamental não consiste tanto no diagnóstico clínico de uma doença quanto na apreciação psicológica da personalidade e dos seus bloqueios. O que interessa é colher as estruturas de tal personalidade em ordem à verificação da capacidade de assumir os deveres essenciais da vida conjugal. Tornaram-se notáveis e fundamentais estas considerações do Papa João Paulo II, a iluminar e a fazer norma para a jurisprudência canónica sobre casos matrimoniais 12: “Para o canonista deve permanecer claro o princípio que só a incapacidade, e não já a dificuldade em prestar o consentimento e em realizar uma verdadeira comunidade de vida e de amor, torna nulo o matrimónio. O malogro da união conjugal, aliás, jamais é em si uma prova para demonstrar tal incapacidade dos contraentes, que podem ter descuidado, ou usado mal, os meios tanto naturais como sobrenaturais à sua disposição, ou então não aceitaram os limites inevitáveis e os encargos da vida conjugal, quer por bloqueios de natureza inconsciente, quer por ligeiras patologias que não afectam a substancial liberdade humana, quer, enfim, por deficiências de ordem moral. Uma verdadeira incapacidade é conjecturável só diante de uma séria forma de anomalia que, qualquer seja a sua definição, deve afectar substancialmente as capacidades de entender e/ou de querer do contraente. A árdua tarefa do juiz – de tratar com seriedade causas difíceis, como as relativas às incapacidades psíquicas para o matrimónio, tendo sempre presente a natureza humana, a vocação do homem, e, em conexão com isto, a justa concepção do matrimónio – é certamente um ministério de verdade e de caridade na Igreja e para a Igreja. É ministério de verdade, enquanto vem salvada a genuinidade do conceito cristão do matrimónio, também no meio de culturas ou de costumes que tendem obscurecê-lo. É ministério da caridade para com a comunidade eclesiástica, que é preservada do escândalo de ver na prática destruído o valor do matrimónio cristão pelo multiplicar-se, exagerado e quase automático, das declarações de nulidade, em caso de malogro do matrimónio, sob o pretexto de qualquer uma imaturidade ou debilidade psíquica dos contraentes. É serviço de 12 Discurso do Papa João Paulo II aos Membros do Tribunal da Sagrada Rota Romana, 5 de Fevereiro de 1987, n. 7 e 9. 41 caridade também para com as partes, às quais, por amor da verdade, se deve negar a declaração de nulidade, uma vez que deste modo são pelo menos ajudadas a não se enganar acerca das verdadeiras causas do malogro do próprio matrimónio e são preservadas do perigo provável de se encontrar de novo nas mesmas dificuldades numa nova união, procurada como remédio ao primeiro revés, sem terem antes tentado todos os meios para superar os obstáculos experimentados no seu matrimónio válido. E, enfim, é ministério de caridade para com as outras instituições ou organismos pastorais da Igreja enquanto, refutando o Tribunal Eclesiástico de se transformar numa fácil via para a solução dos matrimónios fracassados e das situações irregulares, entre os esposos, impede de facto uma indolência na formação dos jovens para o matrimónio, condição importante para se aproximar do sacramento13 e estimula um aumento de empenho no uso dos meios para a pastoral pós-matrimonial14 e para a pastoral específica dos casos difíceis 15. Conhecimento mínimo exigido acerca do Matrimónio Cân. 1096 - § 1. Para que possa haver consentimento matrimonial, é necessário que os contraentes pelo menos não ignorem que o matrimónio é um consórcio permanente entre um homem e uma mulher, ordenado à procriação de filhos, mediante alguma cooperação sexual. § 2. Tal ignorância depois da puberdade não se presume. Para que possa haver consentimento matrimonial exige-se que os nubentes saibam que o Matrimónio é uma comunhão permanente, isto é, estável (que não admite limite de duração prédeterminado), mesmo que desconheçam que é indissolúvel. Exige-se que saibam que é contraído entre duas pessoas de sexo diferente (mulher e homem), mesmo que desconheçam a lei da unidade (um homem e uma mulher). Exige-se que saibam que é destinado à procriação de filhos, isto é, que é diferente de uma união amigável, de mútua ajuda ou de interesse. Exige-se que saibam que a procriação acontece mediante alguma cooperação sexual, mesmo que não saibam como é o acto sexual. Erros que invalidam o Matrimónio Cân. 1097 - § 1. O erro acerca da pessoa torna inválido o matrimónio. § 2. O erro acerca da qualidade da pessoa, ainda que dê causa ao contracto, não torna inválido o matrimónio, a não ser que directa e principalmente se pretenda esta qualidade. Cân. 1099 - O erro sobre a unidade, a indissolubilidade ou a dignidade sacramental do matrimónio, contanto que não determine a vontade, não vicia o consentimento matrimonial. O erro acerca da pessoa ou de uma qualidade pretendida directa e principalmente invalida o Matrimónio, por direito natural. Não existe o objecto próprio do Matrimónio, portanto não existe consentimento. Não torna nulo o Matrimónio o erro acerca de uma qualidade, mas sim quando essa qualidade do outro cônjuge é querida directa e principalmente, isto é, o erro da qualidade redunda em erro da pessoa (c.1097). Quando é que o erro da qualidade redunda em erro da pessoa? O Código fala do erro acerca da qualidade da pessoa que, ainda que dê causa ao contracto, não torna inválido o matrimónio, a não ser que directa e principalmente se pretenda 13 Familiaris Consortio, n. 66; cf. João Paulo II, Discurso à Rota Romana, 24 de Janeiro de 1981, AAS 73, 1981, 231, n.4. 14 Familiaris Consortio, nn. 69-72. 15 Ibid., nn. 77-85. 42 esta qualidade. O legislador quis afirmar que o erro sobre qualidades acidentais, mesmo se foi determinante no processo psicológico da formação do consentimento não tira o consentimento e, por consequência é juridicamente irrelevante. Há, todavia, casos em que uma determinada qualidade, por si mesma acidental, pode assumir valor essencial pela particular valorização subjectiva do nubente e pela sua positiva intenção de consentir no matrimónio com uma determinada pessoa só enquanto dotada de tal qualidade. O erro sobre uma qualidade acidental, em certos casos, torna-se, por isso, subjectivamente relevante e como tal é reconhecido. Se esta relevância não fosse reconhecida na normativa matrimonial canónica, tais erros criariam situações conjugais excessivamente injustas, infelizes e irreversíveis, levando-se o direito canónico a uma posição de intransigência jurídica incompatível com o princípio da "aequitas canonica" e nada ordenada à "salus animarum" que é a suprema lei da Igreja. O critério fundamental para a configuração da condição é a importância dada pelo nubente à qualidade requerida em ordem ao seu matrimónio, a "magna aestimatio" da qualidade por parte do sujeito. A condição não verificada torna inválido qualquer acto jurídico (c.126). O erro sobre uma qualidade directa e principalmente intentada provoca o involuntário e, por conseguinte, o vício no consentimento que nenhuma lei e nenhuma autoridade humana poderá suprir (c.1057 §1). Estamos a perguntar: o que é que verdadeiramente procurou a pessoa ao celebrar o seu matrimónio? Que valor, que peso atribuiu a essa intenção sobre essa qualidade? Isso condicionou o seu compromisso matrimonial? Isto para concluirmos que pode não ser fácil nem dogmático para a jurisprudência canónica apontar critérios para distinguir entre qualidades verdadeiramente substanciais e qualidades acidentais, chegando a uma visão objectivamente definida e juridicamente pacífica. Dolo para obter o consentimento matrimonial Cân. 1098 - Quem contrai matrimónio enganado por dolo, perpetrado para obter o consentimento, acerca de uma qualidade da outra parte, que, por sua natureza, possa perturbar gravemente o consórcio da vida conjugal, contrai-o invalidamente. Por exemplo, Epifânio contrai Matrimónio com Serafina que é estéril e esta, propositadamente, não o revelou. Por direito natural, o Matrimónio seria válido. Porém, por direito positivo canónico é nulo para evitar a injustiça e as graves consequências para a comunhão de vida conjugal. Erro e dolo não são realidades convertíveis. O erro diz respeito a um juízo falso acerca de um objecto ou de uma pessoa, traduzindo-se numa falta de adequação da ideia à realidade. Erra a pessoa, na sua incapacidade de leitura das coisas ou quando é induzida em erro por factores externos. O dolo, ao contrário, é provocado por um terceiro, mediante a apresentação de uma realidade falseada, que produz na pessoa, sujeita de dolo, o convencimento de "verdade" de algo que, em si mesmo, não o é. Neste erro dolosamente causado a que nos reportamos existe má fé, isto é, uma intenção de criar, na pessoa em causa, uma disposição para aceitar alguma coisa, formando e distorcendo o acto de entendimento, servindo, desse modo, os interesses fraudulentos e contra a lei daquele que emite o dolo. É assim atingido gravemente o processo de conhecimento, enquanto pressuposto da vontade. Cân. 1100 - A certeza ou a opinião acerca da nulidade do matrimónio não exclui necessariamente o consentimento matrimonial. Exclusão do essencial no Matrimónio (simulação total ou parcial) Cân. 110l - § 1. O consentimento interno da vontade presume-se conforme com as palavras ou os sinais empregados ao celebrar o matrimónio. § 2. Mas se uma ou ambas as partes, por um acto positivo de vontade, excluírem o próprio matrimónio ou algum elemento essencial do 43 matrimónio ou invalidamente. alguma propriedade essencial, contraem-no Se uma ou ambas as partes, por um acto positivo de vontade, excluírem o próprio Matrimónio ou algum elemento essencial do Matrimónio ou alguma propriedade essencial, contraem-no invalidamente (c.1101 §2). O acto positivo da vontade pode ser virtual, isto é, formulado antes e não revogado posteriormente. Excluir o próprio Matrimónio significa nada de consentimento interno, mas fazer-se apenas o acto externo unicamente para conseguir um fim útil à parte ou às partes, porém, estranho ou contrário à finalidade do pacto matrimonial. Por exemplo, por causa de uma herança. O objecto que existe no acto de vontade nada tem a ver com o Matrimónio. Portanto, nem sequer há consentimento. Excluir algum dos elementos essenciais do Matrimónio é excluir algo que constitui o "ser" do Matrimónio. Excluir, no acto de consentimento, a obrigação de fidelidade (unidade), com deliberada e prevalente vontade, reservando-se a liberdade de realizar actos sexuais com outrem significa contrair invalidamente o Matrimónio. Excluir a sacramentalidade é excluir o próprio Matrimónio: são inseparáveis. Trata-se de ver qual é a intenção prevalente: se for a de contrair Matrimónio válido, significa "ipso facto" sacramental; se for a de excluir a sacramentalidade, significa que não há Matrimónio válido. No cumprimento do estatuído neste cânon 1101, estabelece-se uma presunção de direito acerca da concordância entre as palavras expressas na celebração do Matrimónio e a vontade interna dos contraentes. Estes manifestam externamente o que desejam no seu interior. Uma vez que o consentimento é causa eficiente do Matrimónio, se falta a vontade interna, mesmo que aquele se manifeste externamente, será nulo. Existe, na verdade, discrepância quando o consentimento é simulado. Não havendo intenção nem vontade de realizar o acto, como ele se exprime na declaração, prevalecendo a vontade sobre a declaração, há simulação e, consequentemente, nulidade do acto realizado. Para que se verifique a simulação em sentido próprio, a discrepância entre a manifestação externa do consentimento e o que realmente se quer no interior da vontade deve ser consciente e voluntária. A "exclusão" invalida, em consequência, o Matrimónio, quando estão reunidas várias condições: a). Tem que haver um "acto positivo da vontade". Não há exclusão, sem um acto de excluir. São, então, irrelevantes certos estados psicológicos que não se configuram ou tipificam sob a forma de acto de exclusão. b) O objecto do acto de excluir pode ser atingido na sua totalidade (e, então, a simulação é total) ou incidir sobre algum elemento essencial do vínculo conjugal ou propriedade essencial do Matrimónio (no caso da simulação parcial). Cân. 1102 - § 1. Não se pode contrair validamente matrimónio sob condição de um facto futuro. § 2. O matrimónio contraído sob a condição de um facto passado ou presente é válido ou não, consoante existe ou não o objecto da condição. § 3. A condição referida no § 2 não se pode apor licitamente, a não ser com licença do Ordinário do lugar, dada por escrito. Cân. 1103 - É inválido o matrimónio celebrado por violência ou por medo grave, incutido por uma causa externa, ainda que não dirigido para extorquir o consentimento, para se libertar do qual alguém se veja obrigado a contrair matrimónio. Cân. 1104 - § 1. Para contraírem validamente matrimónio é necessário que os contraentes se encontrem simultaneamente presentes, por si mesmos ou por procurador. Cân. 1124 - O matrimónio entre duas pessoas baptizadas, uma das quais tenha sido baptizada na Igreja católica ou nela recebida depois do baptismo e que dela não tiver saído por um acto formal, e outra pertencente a uma Igreja ou comunidade eclesial sem plena comunhão 44 com a Igreja católica, é proibido sem a licença expressa da autoridade competente. Cân. 1125 - O Ordinário do lugar pode conceder esta licença se houver uma causa justa e razoável; todavia não a conceda se não se verificarem as condições seguintes: 1.° a parte católica declare estar disposta a evitar os perigos de abandonar a fé, e faça a promessa sincera de se esforçar para que todos os filhos venham a ser baptizados e educados na Igreja católica; 2.° dê-se oportunamente conhecimento à outra parte destas promessas feitas pela parte católica, de tal modo que conste que se tornou consciente da promessa e da obrigação da parte católica; 3.° ambas as partes sejam instruídas acerca dos fins e das propriedades essenciais do matrimónio, que nenhuma delas pode excluir. Leis que regulam o Matrimónio O direito ao Matrimónio é um direito fundamental da pessoa, mas o seu exercício pode ser regulado não só pela lei divina como também pela lei humana (cc.1057 §1,1058). Isso compete exclusivamente à autoridade suprema da Igreja (c.1075 §1). O Matrimónio entre dois nubentes baptizados católicos é regulado pelo direito divino e pelo direito canónico (direito oriental para os católicos da Igreja Oriental, direito latino para os católicos da Igreja Latina). O Matrimónio entre dois nubentes baptizados acatólicos é regulado pelo direito divino e pelo direito próprio. O Matrimónio entre dois nubentes baptizados da Igreja ortodoxa é regulado pelo direito divino e pelo direito próprio. O Matrimónio entre dois nubentes não baptizados é regulado pelo direito divino e pelo direito civil. Sobre o Matrimónio de dois nubentes não baptizados a autoridade civil pode pronunciar uma declaração de nulidade. Sobre o Matrimónio de dois nubentes baptizados a autoridade civil nada pode; qualquer pronunciamento compete exclusivamente à Igreja. O direito civil tem, apenas, competência sobre os efeitos puramente civis. Sobre o Matrimónio de dois nubentes, um católico e outro não católico (baptizado ou não), as leis que regulam os actos que os dois põem em conjunto, como um único acto (por exemplo, o consentimento) são leis canónicas. As leis que dizem respeito a cada um deles determinando se são hábeis ou não para o Matrimónio são as leis próprias de cada um deles. Assim, por exemplo, os impedimentos eclesiásticos para a parte católica não interessam à outra parte. A forma da celebração do matrimónio Cân. 1108 - § 1. Somente são válidos os matrimónios contraídos perante o Ordinário do lugar ou o pároco, ou o sacerdote ou o diácono delegado por um deles, e ainda perante duas testemunhas, segundo as regras expressas nos cânones seguintes e salvas as excepções referidas nos câns. 144, 1112, § 1, 1116 e 1127, §§ 1-2. Cân. 1110 - O Ordinário e o pároco pessoal, em virtude do ofício, só assistem validamente ao matrimónio quando ao menos um dos nubentes seja seu súbdito, dentro dos limites da sua jurisdição. Cân. 1111 - § 1. O Ordinário do lugar e o pároco, durante todo o tempo que desempenharem validamente o ofício, podem delegar a sacerdotes e 45 a diáconos a faculdade, mesmo geral, de assistir a matrimónios dentro dos limites do seu território. § 2. Para que seja válida a delegação da faculdade de assistir a matrimónios, deve ser dada expressamente a pessoas determinadas; se se tratar de delegação especial, deve ser dada para um matrimónio determinado; se se tratar de delegação geral, deve ser dada por escrito. Cân. 1112 - § l. Onde faltarem sacerdotes e diáconos, o Bispo diocesano, obtido previamente o parecer favorável da Conferência episcopal e licença da Santa Sé, pode delegar leigos para assistirem a matrimónios. § 2. Escolha-se um leigo idóneo, capaz de instruir os nubentes e apto para realizar devidamente a liturgia matrimonial. Em caso de falta de sacerdotes e diáconos, com o parecer favorável da Conferência Episcopal e a licença da Santa Sé, o bispo diocesano pode delegar leigos para assistirem a Matrimónios (c.1112). Assistir ao Matrimónio não é exercício do poder de ordem nem do poder de governo na Igreja. O leigo recebe do bispo diocesano poder delegado. Isto significa que o não pode delegar, por sua vez, a outrem. Cân. 1115 - Celebrem-se os matrimónios na paróquia, onde qualquer das partes tem o domicílio ou quase-domicílio ou residência durante um mês, ou, tratando-se de vagos, na paróquia onde actualmente se encontram; com licença do Ordinário próprio ou do pároco próprio podem celebrar-se noutro lugar. Dissolução do vínculo matrimonial Cân. 1141 - O matrimónio rato e consumado não pode ser dissolvido por nenhum poder humano nem por nenhuma causa além da morte. O matrimónio rato e consumado, que se dá somente entre dois baptizados, não pode ser dissolvido por nenhum poder humano nem por nenhuma causa, a não ser pela morte (c.1141) 16. Ao fazer esta afirmação, a Igreja dá uma interpretação autêntica declarativa do direito divino positivo. De maneira autêntica, isto é, com autoridade, a Igreja declara que ela própria não tem nenhum poder sobre aqueles Matrimónios que realizam a plenitude do sinal sacramental e que, por direito divino positivo, gozam de indissolubilidade também extrínseca e não apenas intrínseca. Quanto à qualificação teológica desta afirmação, se bem que se possa dizer que o concílio do Trento não tenha chegado a uma definição dogmática, todavia a indissolubilidade do Matrimónio sacramental consumado é de reter-se como pertencente ao património da fé 17. O matrimónio rato e não consumado, entre baptizados, se não é consumado - mesmo se é validamente contraído e, portanto, já sacramento, dotado da indissolubilidade intrínseca - não atingiu, no entanto, a plenitude do sinal sacramental e, portanto, não está dotado da indissolubilidade extrínseca. Por esta razão, o Romano Pontífice, em virtude da plenitude do poder de que foi investido por Cristo para o exercício da sua missão de Pastor supremo de toda a Igreja, para o bem das almas pode dissolver tal Matrimónio 18. É importante não confundir e igualar esterilidade com impotência. A esterilidade não é nenhum impedimento ao Matrimónio, 16 Celebrado o Matrimónio, se os cônjuges tiverem vivido em comum, presume-se que consumaram o Matrimónio, até que seja provado o contrário (c.1061 §2). 17 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta ao Prof.Carlo Curran,25.1.1986, in Acta Apostolicae Sedis 79(1987)117. 18 Se com um meio mecânico (preservativo) fosse impedida a inseminação, o Matrimónio permaneceria inconsumado, mesmo se tivesse havido a penetração completa. Nestes casos, porém, a dissolução do Matrimónio não é concedida. 46 a impotência sim. Do ponto de vista psicológico é requerido que a consumação seja um verdadeiro acto humano e que, portanto, a cópula seja realizada com advertência da razão e liberdade da vontade, já que deve ser manifestativa e actuação no plano físico da doaçãoaceitação mútua das pessoas, objecto do consentimento dado. Não se tem, por isso, consumação canónica se a cópula é realizada inconscientemente (por exemplo, sob o efeito do álcool ou de droga) ou sob pressão de violência física à qual não se pode resistir, ou por ódio ou vingança. A Santa Sé (Congregação para os Sacramentos) considera o Matrimónio consumado se a cópula é um acto virtualmente voluntário. No caso de pressão moral ou temor, permanecendo a vontade do acto, mesmo se condicionada, tem-se verdadeira consumação. De acrescentar que a cópula deve ser realizada com ânimo marital, isto é, com a intenção, ao menos implícita, de consumar o Matrimónio. Se existisse uma intenção meramente fornicatória ou de prostituição, não se poderia considerar um Matrimónio canonicamente consumado. O facto da inconsumação não basta por si só para a dissolução do Matrimónio: é necessária uma justa causa (c.1698 §1), isto é, provar-se que ao bem espiritual dos dois cônjuges não se pode prover de nenhum outro modo senão pela dispensa pontifícia. Causa justa pode ser, entre outras, resolver a situação de dois cônjuges já irreparavelmente separados, regularizar um casamento feito civilmente e o qual não pode já moralmente ser desfeito porque há filhos, evitar a ocasião de incontinência do cônjuge inocente. Cân. 1142 - O matrimónio não consumado entre baptizados ou entre uma parte baptizada e outra não baptizada pode ser dissolvido pelo Romano Pontífice por justa causa, a pedido de ambas as partes ou só de uma, mesmo contra a vontade da outra. Privilégio paulino Cân. 1143 - § 1. O matrimónio celebrado entre duas partes não baptizadas dissolve-se pelo privilégio paulino em favor da fé da parte que recebeu o baptismo, pelo mesmo facto de esta parte contrair novo matrimónio, contanto que a parte não baptizada se afaste. § 2. Considera-se que a parte não baptizada se afastou, quando não quer coabitar com a parte baptizada ou coabitar com ela pacificamente sem ofensa do Criador, a não ser que esta parte, após a recepção do baptismo, lhe tenha dado justa causa para se afastar. Cân. 1144 - § 1. Para que a parte baptizada contraia validamente novo matrimónio, deve interpelar-se sempre a parte não baptizada sobre: 1.° se também ela quer receber o baptismo; 2.° se, ao menos, quer coabitar pacificamente com a parte baptizada, sem ofensa do Criador. § 2. Esta interpelação deve fazer-se depois do baptismo; mas o Ordinário do lugar, por causa grave, pode permitir que a interpelação se faça ainda antes do baptismo, e mesmo dispensar dela, quer antes quer depois do baptismo, contanto que por meio de um processo, ao menos sumário e extrajudicial, conste não se poder fazer a interpelação, ou que ela seria inútil. Pontos nucleares sobre o Matrimónio    O que faz existir o Matrimónio como contracto natural é o consentimento das partes. O que faz existir o Matrimónio-sacramento é o Baptismo dos contraentes. Os cristãos não podem realizar um contracto válido que não seja necessariamente sacramento. 47       Se excluem a sacramentalidade ou algum elemento do consentimento ou alguma propriedade essencial do Matrimónio, desfiguram a realidade do Matrimónio e realizam um acto inexistente, porque essa figura "desfigurada" de Matrimónio não existe como Matrimónio cristão. Assim, o "casamento civil" pretende ser um contracto natural e não um sacramento. Porém, como para os cristãos não há duas realidades distintas (contracto natural e sacramento), o acto que tais baptizados realizam civilmente não é considerado pela Igreja; é tido pela Igreja como um acto inexistente. Para os cristãos o contracto natural sozinho não é Matrimónio. Matrimónio cristão é unicamente um contracto-sacramento. Os contraentes devem ter "capacidade" para o consentimento (há impedimentos que determinam a incapacidade para o Matrimónio, por exemplo, a impotência, nos termos definidos pelo c.1084) e para o sacramento: terem recebido o Baptismo. Não tendo tal "capacidade", realizam um acto inexistente. Tendo "capacidade" para o Matrimónio, devem ter "habilidade ou aptidão", doutro modo, realizarão um acto existente, mas ineficaz, um Matrimónio inválido. Se são atingidos por algum impedimento dirimente, o Matrimónio fica "in suspenso" porque os contraentes, tendo capacidade para o Matrimónio, não são, no entanto, "hábeis" para o Matrimónio, em razão desse impedimento dirimente (do qual se deve obter a dispensa, se tal impedimento é passível de dispensa). Sendo capazes e sendo hábeis, mas "não dispostos", os contraentes realizam um acto existente (têm "capacidade"), válido (têm "habilidade"), mas infrutuoso. Ser do Matrimónio Põem "in esse" o Matrimónio ou, o que quer dizer o mesmo, constituem o "ser" do Matrimónio, isto é, são elementos essenciais do Matrimónio: - o acto humano do consentimento: acto voluntário (interno e deliberado), intentando internamente mudar as relações inter-subjectivas e explicitando isso externamente, sancionado pela lei; - o objecto material do consentimento: a mútua dádiva/recepção dos nubentes; - as obrigações "ontológicas" do consentimento, isto é, o objecto formal do consentimento, ou seja, a razão porque os nubentes se dão e se recebem: o bem dos cônjuges e a geração e educação da prole. O bem dos cônjuges concretiza-se nas relações interpessoais sem as quais é moralmente impossível a comunhão conjugal; determiná-las em concreto pertence à jurisprudência dos tribunais eclesiásticos. Ao falar-se de geração, trata-se do direito perpétuo e exclusivo sobre o corpo em ordem à procriação. De notar que o essencial é que não se exclua o direito a- o que é diferente do exercício desse direito. Assim, por exemplo, o consentimento matrimonial com a cláusula de restringir o acto conjugal só ao período infecundo negando à outra parte o direito ao acto conjugal nos outros dias é um defeito essencial do consentimento porque o direito derivante do contracto é permanente, ininterrupto e não intermitente (Pio XII). Se, depois, o exercem apenas nos períodos infecundos, isso compete aos cônjuges (Cf. Paulo VI, in Humanae vitae). Modo de ser do Matrimónio 48 Configuram e fortalecem o "ser" do Matrimónio ou, por outras palavras, dão, pelo Criador, o "modo de ser" do Matrimónio ou, por outras palavras ainda, são propriedades essenciais do Matrimónio: a unidade e a indissolubilidade. Observe-se que não se deve confundir elementos essenciais do Matrimónio com elementos integrativos do Matrimónio. Os elementos essenciais são os que põem "in esse" o Matrimónio. Os elementos integrativos servem para estabelecer a estabilidade e a plenitude dos elementos essenciais do Matrimónio. Os elementos integrativos do Matrimónio são o amor e a convivência matrimonial (c.1151). Convalidação simples do matrimónio Cân. 1156 - § 1. Para convalidar um matrimónio inválido por motivo de impedimento dirimente, requer-se que o impedimento cesse ou seja dispensado, e renove o consentimento ao menos a parte conhecedora do impedimento. § 2. Esta renovação é exigida pelo direito eclesiástico para a validade da convalidação, ainda que inicialmente ambas as partes tenham prestado o consentimento e depois não o tenham revogado. Cân. 1157 - A renovação do consentimento deve ser um novo acto de vontade em ordem a contrair matrimónio, que a parte renovante saiba ou opine ter sido nulo desde o início. Cân. 1160 - O matrimónio nulo por falta de forma, para se tornar válido, deve contrair-se de novo sob a forma canónica, salvo o prescrito no cân. 1127, § 2. A convalidação de um Matrimónio inválido pode dar-se por convalidação simples ou sanação na raiz. Nestes casos de nulidade de Matrimónio, quem deve renovar o consentimento deve ser advertido que conserva a liberdade de permanecer na actual união ou de sair dela. Importa relembrar que o Matrimónio é nulo por:  defeito no consentimento,  impedimento dirimente,  defeito na forma canónica Convalidação no caso de defeito no consentimento: se se pode provar juridicamente, então, nesse caso é preciso o consentimento renovado pelos dois cônjuges na forma canónica adequada. Se não se pode provar juridicamente o defeito no consentimento (por exemplo, a parte excluiu antes do Matrimónio a prole ou a indissolubilidade e nada disse a ninguém, mas agora rectificou a sua decisão), cessando o defeito, a parte renova o consentimento, privadamente, dentro de si, em segredo, sem nada dizer ao outro ou aos outros. Convalidação no caso de impedimento dirimente: é necessário que cesse o impedimento (por exemplo, a parte não baptizada recebeu o Baptismo) ou que seja dispensado (por exemplo, mesmo sem receber o Baptismo, a autoridade competente dispensou esse impedimento de disparidade de culto). Torna-se, depois, necessário a renovação do consentimento nas seguintes modalidades: se o impedimento é público: o consentimento tem de ser dado em forma canónica; se o impedimento não pode ser provado mas é conhecido das duas partes: o consentimento é renovado pelos dois (é suficiente um acto de amor conjugal); se o impedimento é conhecido só de uma das partes: o consentimento é renovado apenas por essa parte (poderá fazê-lo do mesmo modo que no caso anterior). É, no entanto, necessário que a outra parte persista no consentimento. Convalidação no caso de defeito na forma: acontece este defeito quando se realizou apenas a "forma civil" ou então quando faltaram requisitos na forma canónica para a sua validade. Nestes casos, é sempre requerido o consentimento dos cônjuges em forma canónica. Para os que "casaram civilmente" não basta renovar o seu consentimento para dar ao seu "casamento" civil o carácter religioso. Têm de prestar o seu consentimento segundo a forma canónica. 49 Sanação do matrimónio na raiz Cân. 1163 - § l. O matrimónio inválido por impedimento ou por falta de forma legítima pode ser sanado, contanto que persevere o consentimento de ambas as partes. (…) OUTROS ACTOS DO CULTO DIVINO Exéquias eclesiásticas e cremação Enquadramento pastoral 1. A cremação já não é problema para os católicos. 2. O discernimento pastoral, em situações de funerais de suicidas, homossexuais e de recém-nascidos, deve ser iluminado e estruturado segundo o actual Magistério da Igreja. Cân. 1176 (…) § 3. A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã. “Evitando as formas de exibicionismo vão, é justo que se dê a devida honra aos corpos dos fiéis defuntos, que pelo Baptismo se tornaram templo do Espírito Santo; convém, portanto, que, ao menos nos momentos mais significativos entre a morte e a sepultura, se afirme a fé na vida eterna e se façam orações de sufrágio.”19 AS SANÇÕES NA IGREJA Enquadramento pastoral 19 Ritual Romano da Celebração das Exéquias, Conferência Episcopal Portuguesa, 3. 50 1. O direito penal da Igreja tem sofrido profundas alterações nos últimos tempos. Os delitos da pedofilia aparecem em primeiro plano, no horizonte destas alterações. 2. Aos bispos diocesanos são cometidas maiores responsabilidades nos delitos cometidos por clérigos, bem como lhes é atribuído pelo Magistério do Papa uma maior atenção à respectiva acção pastoral pelos danos físicos, morais, espirituais ou patrimoniais causados. 3. Confronto da mentalidade pagã de certos cristãos com a lei canónica sobre o aborto. 4. Há situações de conflito pela desobediência formal de clérigos e populares contra a autoridade hierárquica. A punição dos delitos em geral Cân. 1311 — A Igreja tem direito originário e próprio de punir com sanções penais os fiéis delinquentes. O poder coactivo é necessário na Igreja, ao serviço da caridade e da salvação das almas. O principal propósito da legislação vigente é respeitar o espírito do Vaticano II, limitar o direito penal eclesiástico apenas ao foro externo, dar importância à misericórdia cristã e às razões pastorais, e defender a dignidade e os direitos da pessoa humana. Três vectores fundamentais perpassam a legislação sobre o direito penal na Igreja: brevidade, pastoralidade e misericórdia, defesa dos direitos dos cristãos. A brevidade manifesta-se pelo princípio adoptado de redução das penas no Código vigente, comparativamente com o Código anterior, de 1917. Manifesta-se, ainda, pelo princípio de subsidiariedade, dando lugar ao direito particular, nesta matéria penal. O Código vigente, além disso, decide evitar definições e abolir repetições, bem como reformar alguns institutos legislativos penais, como a reserva de penas, as penas "latae sententiae", a remissão e cessação das penas. A pastoralidade e misericórdia visibilizam-se em determinadas opções feitas pelo legislador. Assim: 1. o recurso à pena não deve ser frequente; 2. a punição aplica-se à violação deliberada e, somente, se a lei ou o preceito expressamente o disserem; 3. só há presunção de imputabilidade e não de dolo; 4. por preceito não pode haver nem penas expiatórias perpétuas, nem penas indeterminadas, nem suspensão "latae sententiae" sem determinação ou limitação; 5. a lei particular não pode constituir pena de demissão do estado clerical; 6. não se devem constituir censuras (sobretudo a excomunhão) sem critérios graves; 7. o efeito das penas é mitigado; deve recorrer-se, primeiramente, a meios evangélicos e pastorais de correcção e o juiz pode abster-se de aplicar a pena. Cân. 1339 — § 1. O Ordinário, por si mesmo ou por meio de outrem, pode admoestar aquele que se encontrar em ocasião próxima de delinquir ou aquele sobre quem, depois de feita investigação, incidir grave suspeita de ter cometido um delito. § 2. Também pode repreender, por forma adequada às circunstâncias peculiares da pessoa ou do facto, aquele de cujo comportamento surja escândalo ou grave perturbação da ordem. § 3. Da admoestação ou da repreensão deve constar sempre ao menos por meio de um documento, que se guarde no arquivo secreto da cúria. 51 Cân. 1341 — O Ordinário somente cuide de promover o processo judicial ou administrativo para aplicar ou declarar penas, quando tiver verificado que nem a correcção fraterna nem a repreensão nem outros meios da solicitude pastoral são suficientes para reparar o escândalo, restabelecer a justiça, e emendar o réu. Princípios fundamentais do poder coactivo na Igreja O poder coactivo é natural em qualquer sociedade. Também, na Igreja, mas na Igreja terá um matiz próprio em razão da sua natureza. A Igreja não pode ficar indiferente perante o pecado porque o pecado contradiz a existência cristã contra Deus e contra a comunidade. Os meios da Igreja para debelar o pecado são meios pastorais, meios jurídicos não penais e meios jurídicos penais. Todo o delito é pecado. Porém, nem todo o pecado é delito. O pecado é delito se atinge a realidade externa; o pecado não é delito se não atinge a realidade externa. O campo do direito penal é de direito público porque atinge de modo directo e imediato o bem da comunidade. O direito penal na Igreja é um direito originário, nasce com a própria Igreja, pertence ao cumprimento da sua missão. É um direito próprio porque deriva da Igreja e não de outrem. É um direito que pressupõe o direito natural, a Revelação e o Magistério, mas é um direito positivo da Igreja. Noção de delito São três os elementos essenciais para se configurar um acto como delito:  elemento objectivo,  elemento subjectivo,  elemento penal. O elemento objectivo consiste numa violação externa. Violação duma lei (universal ou particular ou pessoal ou territorial) ou de um preceito (geral ou particular) e violação externa, isto é, externa porque atinge o mundo exterior (mesmo que ninguém veja ou saiba dessa acção delituosa, excepto o delinquente; trata-se sempre de um delito objectivo, porém, em ordem à aplicação da pena não é tido como tal, isto é, não é tido como consumado - c.1330). O elemento subjectivo significa haver imputabilidade (isto é, um acto posto de modo humano) e imputabilidade grave (em sentido moral, por isso, onde não houver pecado grave externo não há delito). O elemento penal existe se houver uma pena canónica, no direito (há apenas uma excepção no c.1399). Sanções canónicas Para além de remédios penais e penitências, há as penas propriamente ditas. É sobre estas, as penas, que importa referir alguns pontos, importantes no âmbito do direito penal na Igreja. As penas dividem-se em penas medicinais (ou censuras) e penas expiatórias. Cân. 1312 - § 1. As sanções penais na Igreja são: 1.° penas medicinais ou censuras, enumeradas nos câns. 1331-1333; 2.° penas expiatórias, referidas no cân. 1336. § 2. A lei pode estabelecer outras penas expiatórias, que privem o fiel de algum bem espiritual ou temporal, e sejam consentâneas com o fim sobrenatural da Igreja. § 3. Aplicam-se ainda remédios penais e penitências, aqueles, sobretudo para prevenir delitos, e estas de preferência para substituir ou aumentar a pena. 52 As penas medicinais ou censuras têm como finalidade a conversão ou emenda do delinquente. Há três espécies destas penas:  excomunhão,  suspensão,  interdito. Estas penas implicam determinadas condições: para as aplicar requer-se prévia monição nas "ferendae sententiae" (c.1347); são sem determinação de tempo, isto é, são até que acabe a contumácia; cessam, apenas, por intervenção do superior e acontece essa intervenção quando cessar a contumácia. As penas expiatórias têm como finalidade a expiação do delito e o bem da comunidade. As penas eclesiásticas privam somente dos bens que estão em poder da Igreja. Não privam dos bens meramente internos, como a graça de Deus. Não privam da salvação, mas privam dos meios de salvação, como são os sacramentos. Especificamente, as censuras privam dos meios de salvação de que a Igreja dispõe, por exemplo, os sacramentos, e dos bens conexos com os bens espirituais. As penas expiatórias privam de algum direito ou de algum ofício eclesiástico. As penas "ferendae sententiae", como o nome indica, são aquelas que são aplicadas (ou irrogadas, é o termo jurídico) a partir de uma sentença. Isto é, para que alguém incorra na pena que está estabelecida na lei é preciso que a autoridade intervenha aplicando a pena ou por via judicial ou por via administrativa. Cân. 1314 - A pena geralmente é ferendae sententiae, de modo que não atinge o réu, a não ser depois de lhe ter sido aplicada; é, porém, latae sententiae, de modo que nela se incorra pelo mesmo facto de se cometer o delito, se a lei ou o preceito expressamente assim o estatuir. O favor ou a tendência do direito é para este género de penas porque para serem "latae sententiae" é preciso que a lei ou o preceito estabeleçam isso expressamente. As penas "latae sententiae" são aquelas penas contraídas automaticamente, apenas violada a lei; isto é, a punição é simultânea à infracção. Se não houvesse penas "latae sententiae" (como o nome indica, penas de sentença dada), muitos delitos ficavam por punir, porque ocultos, e o legislador não tomava conhecimento deles, como, por exemplo, os delitos no sacramento da Confissão. As penas "latae sententiae" são só para alguns delitos dolosos, isto é, cometidos de maneira deliberada, delitos singulares e peculiares, e que são ou particularmente graves ou não possam ser eficazmente punidos com a pena "ferendae sententiae". Assim, o aborto é um delito peculiar na Igreja relativamente ao homicídio; o aborto é punido com excomunhão, o homicídio não. Cân. 1317 — Só se constituam penas na medida em que sejam verdadeiramente necessárias para se providenciar mais convenientemente à disciplina eclesiástica. A demissão do estado clerical não pode ser imposta por lei particular. Cân. 1318 — O legislador não comine penas latae sententiae a não ser porventura contra alguns delitos singulares dolosos, que possam constituir escândalo muito grave, ou que não possam ser punidos eficazmente com penas ferendae sententiae; não constitua, porém, censuras, sobretudo a excomunhão, a não ser com a maior moderação e só contra delitos mais graves. Cân. 1320 — Os religiosos, em tudo aquilo em que estão sujeitos ao Ordinário do lugar, podem por este ser punidos com penas. A pessoa sujeita às sanções canónicas 53 Cân. 1321 - § l. Ninguém é punido, a não ser que a violação externa da lei ou do preceito, por ele cometida, seja gravemente imputável por dolo ou por culpa. § 2. Incorre na pena estabelecida na lei ou no preceito aquele que violar deliberadamente a lei ou o preceito; o que proceder por omissão da diligência devida, não é punido, a não ser que a lei ou o preceito estabeleça de outro modo. § 3. Realizada a violação externa, presume-se a imputabilidade, a não ser que conste outra coisa. Cân. 1322 - Quem carecer habitualmente do uso da razão, ainda que tenha violado a lei ou o preceito quando parecia são, considera-se incapaz de delito. Cân. 1323 - Não está sujeito a nenhuma pena aquele que, ao violar a lei ou o preceito: l.° não tinha ainda completado dezasseis anos de idade; 2.° sem culpa ignorava que infringia a lei ou o preceito; à ignorância equiparam-se a inadvertência e o erro; 3.° agiu por violência física ou em caso fortuito, que não pôde prever, ou que, previsto, não pôde evitar; 4.° procedeu coagido por medo grave, mesmo que só relativamente, ou por necessidade ou grave incómodo, a não ser que o acto seja intrinsecamente mau ou redunde em dano das almas; 5.° agiu por causa de legítima defesa contra o agressor injusto seu ou alheio, guardando a devida moderação; 6.° carecia de uso da razão, salvo o prescrito nos câns. 1324, § 1, n.° 2 e 1325; 7.° sem culpa, julgou existir alguma das circunstâncias referidas nos ns. 4 ou 5. O delito exige pecado, isto é, uma imputabilidade moral grave. Ora se não há imputabilidade moral grave, não há delito, não há, portanto, imputabilidade penal. Todas as circunstâncias ou causas que tiram a imputabilidade moral grave tiram o delito. Mesmo havendo delito, nem sempre o legislador pune. Assim, há na legislação causas ou circunstâncias que não tiram o delito, mas tiram a punibilidade, como, por exemplo, não ter completado os dezasseis anos, ignorar sem culpa, etc. (cc.1323,1321 §2). Há casos em que o legislador determina quais são as circunstâncias que diminuem ou agravam a imputabilidade (cc.1324-1326). Só é punido quem age por dolo. Por culpa não se é punido, só se o direito o estabelecer. Não é que não haja delito, por culpa, porém, o legislador não considera necessário punir porque a imputabilidade não é tão grave. O dolo (penal) é a vontade deliberada de violar a lei ou o preceito. Acontece quando o indivíduo tem conhecimento da obrigação legal e quando age livremente contra a lei. É incapaz de delito aquele que carece habitualmente do uso da razão, mesmo que parecesse estar são de juízo (intervalos lúcidos) no momento da infracção da lei ou preceito (c.1322). Mesmo que haja delito, tira a punibilidade o não ter ainda dezasseis anos, o actuar coagido por medo grave, por necessidade, para evitar um grave prejuízo, desde que o acto não seja intrinsecamente mau ou redunde em dano das almas (c.1323). Tira o delito e, como é óbvio, tira a punibilidade, a ignorância sem culpa grave, o erro, a inadvertência, o agir coagido por violência, o agir por um caso fortuito imprevisto ou previsto, mas que não se pôde evitar, o agir em legítima defesa, o agir sem uso da razão, a não ser que essa perturbação da mente tivesse sido culpável ou provocada para cometer o delito (c.1323). O cânon 1324 apresenta dez circunstâncias que diminuem a imputabilidade. Estas circunstâncias, no caso de penas "latae sententiae" tornam-se eximentes, isto é, não se contrai a pena. 54 Cân. 1324 - § 1. O autor da violação não se exime à pena, mas esta, imposta por lei ou preceito, deve atenuar-se ou em seu lugar aplicar-se uma penitência, se o delito for praticado: 1.° por aquele que tinha apenas o uso da razão imperfeito; 2.° por aquele que carecia do uso da razão por embriaguez ou outra perturbação mental semelhante, que tenha sido culpável; 3.° pelo ardor grave da paixão, que no entanto não tenha precedido e impedido toda a deliberação da mente e o consentimento da vontade, e contanto que a própria paixão não tenha sido voluntariamente excitada ou alimentada; 4.° por um menor que tenha completado dezasseis anos de idade; 5.° por aquele que for coagido por medo grave, mesmo só relativamente, ou por necessidade ou por grave incómodo, se o delito for intrinsecamente mau ou redundar em dano das almas; 6.° por aquele que agiu por causa da legítima defesa contra o agressor injusto de si ou de outrem, mas não guardou a devida moderação; 7.° contra alguém que o tenha provocado grave e injustamente; 8.° por aquele que por erro, mas com culpa, julgou existir alguma das circunstâncias referidas no cân. 1323, ns. 4 ou 5; 9.° por aquele que, sem culpa, ignorava a existência de pena anexa à lei ou ao preceito; l0.° por aquele que agiu sem plena imputabilidade, contanto que esta tenha permanecido grave. § 2. O mesmo pode fazer o juiz, se existir outra circunstância que diminua a gravidade do delito. § 3. Nas circunstâncias referidas no § l, o réu não incorre nas penas latae sententiae. Cân. 1325 - A ignorância crassa ou supina ou afectada nunca pode ser levada em consideração na aplicação das prescrições dos câns. 1323 e 1324; o mesmo se diga da embriaguez e de outras perturbações da mente, se propositadamente tiverem sido procuradas para perpetrar o delito ou para o escusar, e da paixão que voluntariamente tiver sido excitada ou alimentada. O cânon 1325 apresenta as circunstâncias que não admitem qualquer eximência ou diminuição da imputabilidade. Trata-se do caso da ignorância crassa, supina, afectada, isto é, uma ignorância inadmissível para o tirar da qual nada se fez ou, inclusive, foi mantida de propósito para mais tranquilamente se violar a lei; trata-se, também, da embriaguez, de perturbações mentais e de paixão, tudo isso fomentado expressamente para se cometer o delito. Cân. l326 - § 1. O juiz pode punir com maior gravidade do que a estabelecida pela lei ou pelo preceito: l.º quem depois da condenação ou da declaração da pena, de tal maneira continuar a delinquir, que das circunstâncias se possa prudentemente inferir a sua pertinácia na má vontade; 2.° quem estiver constituído em alguma dignidade, ou abusar da sua autoridade ou ofício para perpetrar o delito; 3.° o réu, que, embora a pena tenha sido constituída contra um delito culposo, previr o facto e não obstante omitir as precauções para o evitar, que qualquer pessoa diligente tomaria. § 2. Nos casos referidos no § 1, se tinha sido cominada uma pena latae sententiae, pode acrescentar-se outra pena ou penitência. 55 Excomunhão A excomunhão é a pena mais grave de todas. Pode ser "latae sententiae", isto é, incorre-se nela "ipso facto" (= automaticamente), apenas cometido o delito; posteriormente, a autoridade competente pode declará-la. Pode ser "ferendae sententiae", isto é, aplicada pela intervenção do juiz (por sentença judicial) ou do Superior (por decreto administrativo). O facto de uma excomunhão ser declarada ou ser aplicada faz agravar os seus efeitos. É que, por esse facto, torna-se uma pena do domínio público. Por isso, os efeitos da excomunhão aplicada (as de "ferendae sententiae") ou da excomunhão declarada (as de "latae sententiae") são todos os efeitos da excomunhão simples, abaixo assinalados, mais o tornar os actos de governo inválidos, além de outros efeitos. Assim, os efeitos de uma excomunhão simples são: a proibição da celebração da Eucaristia e cerimónias de culto, a proibição da celebração dos Sacramentos e da recepção dos Sacramentos, a proibição de desempenhar ofícios eclesiásticos, ministérios, cargos eclesiásticos ou actos de governo. Cân. 1331 - § 1. O excomungado está proibido de: 1.° ter qualquer participação ministerial na celebração do Sacrifício Eucarístico ou em quaisquer outras cerimónias de culto; 2.° celebrar sacramentos ou sacramentais e receber sacramentos; 3.° desempenhar quaisquer ofícios ou ministérios ou cargos eclesiásticos ou exercer actos de governo. § 2. Se a excomunhão tiver sido aplicada ou declarada, o réu: 1.° se intentar agir contra a prescrição do § 1, n.° l, deve ser repelido ou a acção litúrgica deve cessar, a não ser que obste uma causa grave; 2.° exerce invalidamente os actos de governo, que, em conformidade com o § 1, n.° 3, são ilícitos; 3.° está-lhe vedado usufruir dos privilégios antes concedidos; 4.° não pode obter validamente qualquer dignidade, ofício ou outro cargo na Igreja; 5.° não faz seus os frutos da dignidade, do ofício ou de qualquer outro cargo, ou da pensão que porventura tenha na Igreja. Ao falar-se de proibição acrescente-se que os actos proibidos se forem realizados não são inválidos (c.1331 §1). O efeito da excomunhão, bem como das outras censuras, é suspenso, para um ministro sagrado, no caso dos fiéis em perigo de morte. Também, fora de perigo de morte, essas penas são suspensas desde que tais penas não tenham sido declaradas ou aplicadas. Se o foram, tornaram-se públicas e, por isso, o padre não deve actuar. Interdito e suspensão Cân. 1332 - A pessoa interdita está sujeita às proibições referidas no cân. 1331, § l, ns. 1 e 2; se o interdito tiver sido aplicado ou declarado, deve observar-se o prescrito no cân. 1331, § 2, n.° 1. Cân. 1333 - § 1. A suspensão, que só pode aplicar-se aos clérigos, proíbe: 1.° todos ou alguns actos do poder de ordem; 2.° todos ou alguns actos do poder do governo; 3.° o exercício de todos ou de alguns direitos ou funções inerentes ao ofício. § 2. Na lei ou no preceito pode determinar-se que, após sentença condenatória ou declaratória, não possa o suspenso realizar validamente actos de governo. § 3. A proibição nunca abrange: 56 1.° ofícios ou poder de governo, que não estejam sob a alçada do Superior que impõe a pena; 2.° o direito de habitação, se porventura o réu o tiver em razão do ofício; 3.° o direito de administrar os bens, que porventura pertençam ao ofício do próprio suspenso, se a pena for latae sententiae. § 4. A suspensão que proibir receber rendimentos, estipêndio, pensões ou outros bens semelhantes, acarreta a obrigação de restituir o que tenha sido recebido ilegitimamente, ainda que de boa fé. Cân. 1335 — Se a censura proibir celebrar sacramentos ou sacramentais ou exercer um acto de governo, a proibição suspende-se todas as vezes que for necessário para atender os fiéis que se encontrem em perigo de morte; se a censura latae sententiae não tiver sido declarada, a proibição suspende-se ainda, todas as vezes que o fiel pede o sacramento ou o sacramental ou um acto do governo; e é-lhe lícito pedi-lo por qualquer causa justa. Quando o clérigo (bispo, presbítero ou diácono) atenta matrimónio civil, fica suspenso, pelo Direito Canónico. O bispo emana um decreto, formalizando a suspensão. Penas expiatórias Cân. 1336 - § 1. As penas expiatórias, que podem atingir o delinquente perpetuamente ou por tempo determinado ou indeterminado, além de outras que porventura a lei tiver estabelecido, são as seguintes: 1.° proibição ou preceito de residir em determinado lugar ou território; 2.° privação do poder, ofício, cargo, direito, privilégio, faculdade, graça, título, insígnias, mesmo meramente honoríficas; 3.° proibição de exercer as coisas referidas no n.° 2, ou a proibição de as exercer em certo lugar ou fora de certo lugar; tais proibições nunca são sob pena de nulidade; 4.° transferência penal para outro ofício; 5.° demissão do estado clerical. § 2. As penas expiatórias latae sententiae só podem ser as enumeradas no § 1, n.° 3. A aplicação das sanções canónicas Cân. 1341 - O Ordinário somente cuide de promover o processo judicial ou administrativo para aplicar ou declarar penas, quando tiver verificado que nem a correcção fraterna nem a repreensão nem outros meios da solicitude pastoral são suficientes para reparar o escândalo, restabelecer a justiça, e emendar o réu. Cân. 1350 - § 1. Nas penas a aplicar a um clérigo sempre se deve cuidar que ele não venha a carecer do necessário para a sua honesta sustentação, a não ser que se trate da demissão do estado clerical. § 2. No entanto, o Ordinário procure providenciar do melhor modo que for possível acerca daquele que foi demitido do estado clerical, e que em razão da pena, fique em verdadeira indigência. 57 Delitos contra a religião e a unidade da Igreja Incorrem em excomunhão "latae sententiae"  O apóstata, o cismático, o herético (c.1364). Cân. 1364 - § 1. Sem prejuízo do cân. 194, § 1, n.° 2, o apóstata da fé, o herege e o cismático incorrem em excomunhão latae sententiae; o clérigo pode ainda ser punido com as penas referidas no cân. 1336, § 1, ns. l, 2 e 3. § 2. Se o exigir a contumácia prolongada ou a gravidade do escândalo, podem acrescentar-se outras penas, sem exceptuar a demissão do estado clerical.  Quem profanar as espécies eucarísticas (c.1367). Cân. 1367 - Quem deitar fora as espécies consagradas ou as subtrair ou retiver para fim sacrílego incorre em excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica; o clérigo pode ainda ser punido com outra pena, sem excluir a demissão do estado clerical. Delitos contra as autoridades eclesiásticas e contra a liberdade da Igreja  Quem atentar fisicamente contra o Papa (c.1370). Cân. 1370 - § 1. Quem usar de violência física contra o Romano Pontífice, incorre em excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica; se o delinquente for clérigo, pode acrescentar-se outra pena segundo a gravidade do delito, sem excluir a demissão do estado clerical. § 2. Quem fizer o mesmo contra aquele que tem carácter episcopal, incorre em interdito latae sententiae e, se for clérigo, também em suspensão latae sententiae. § 3. Quem usar de violência física contra um clérigo ou religioso por menosprezo da fé ou da Igreja ou do poder eclesiástico ou do ministério, seja punido com pena justa. Usurpação das funções eclesiásticas e delitos no exercício das mesmas  Incorre em excomunhão o sacerdote que absolver o cúmplice em pecado contra o sexto mandamento (fora do caso de perigo de morte) (c.1378 §1). Cân. 1378 - § 1. O sacerdote que agir contra a prescrição do cân. 977 (absolver o cúmplice em pecado contra o sexto Mandamento do Decálogo), incorre em excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica.  Incorre em excomunhão o bispo que consagrar um bispo sem mandato pontifício. O bispo consagrado também fica excomungado (c.1382). 58 Cân. 1382 - O Bispo que, sem mandato pontifício, conferir a alguém a consagração episcopal, e também o que dele receber a consagração, incorrem em excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica.  Incorre em excomunhão o sacerdote que violou directamente o sigilo sacramental (c.1388). Cân. 1388 - § 1. O confessor que violar directamente o sigilo sacramental, incorre em excomunhão latae sententiae, reservada à Sé Apostólica; o que o violar apenas indirectamente seja punido segundo a gravidade do delito. Delitos contra a vida e a liberdade do homem  Quem deliberadamente procurou e quem colaborou num aborto (c.1398). Cân. 1398 - Quem procurar o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae. Quem pode remir as penas canónicas? A Santa Sé reserva para si a remissão de cinco excomunhões: a profanação das espécies eucarísticas, o atentado físico contra o Papa, a violação do sigilo sacramental, a ordenação episcopal sem mandato pontifício e a absolvição do cúmplice em pecado torpe. As outras excomunhões são remidas pela autoridade competente (que é diversificada). Reduzindo a problemática da remissão das penas eclesiásticas no foro externo e no foro interno sacramental ou não, e simplificando, pela exemplificação, apontar-se-á uma situação possível e que nos fará entender este "mecanismo" penal. Alguém praticou um aborto. Se sabe que incorreu em excomunhão vem confessar-se do seu pecado (um homicídio) e acusar-se do seu delito (um aborto). Ora a excomunhão (pelo delito) impede essa pessoa de se confessar e ser absolvida: é uma das consequências da excomunhão. Então, a primeira coisa a fazer-se é ser-lhe remida a pena pela autoridade competente. Se o confessor tem esse poder, então, será ele a fazê-lo. Se não tem esse poder, ele ou o penitente devem recorrer à autoridade competente. Se, no entanto, ao penitente é duro permanecer nessa situação eclesial (de excomunhão) e espiritual (de pecado grave), isto é, em estado de pecado e sem acesso aos sacramentos, até que seja accionado esse recurso à autoridade competente, o confessor levanta a pena, remindo-a, e, seguidamente, pode perdoar o pecado, impondo-se ou ao penitente ou ao confessor (se isso for difícil ao penitente) recorrer, dentro de um mês, à autoridade competente, solicitando-lhe a remissão dessa pena de excomunhão por aborto, sem todavia mencionar, nesse recurso, o nome da pessoa que o praticou ou nele colaborou. Normas da Santa Sé sobre os delitos mais graves Congregação para a Doutrina da Fé Síntese das modificações introduzidas nas reservados à Congregação para a Doutrina da Fé 59 “Normae de gravioribus delictis” 21 de Maio de 2010 Foram introduzidos os delicta contra fidem, ou seja, heresia, apostasia e cisma, relativamente aos quais foi prevista em particular a competência do Ordinário, ad normam iuris, a proceder judicialmente ou extra iudicium em primeira instância, salvo o direito de apelar ou recorrer perante a Congregação para a Doutrina da Fé (art. 1 §1 e art. 2); Nos delitos contra a Eucaristia, os casos delituosos do attentatio liturgiae eucharistici Sacrificii actionis, em conformidade com o cân. 1378 §2 n. 1 CDC, e a simulação da mesma, em conformidade com o cân. 1379 do CDC e 1443 do CCIO, já não são consideradas unitariamente no mesmo número, mas são avaliadas separadamente (art. 3 §1 nn. 2 e 3); Sempre nos delitos contra a Eucaristia, foram eliminados, em relação ao texto precedentemente em vigor, duas frases, precisamente: "alterius materiae sine altera", e "aut etiam utriusque extra eucharisticam celebrationem", respectivamente substituídos com "unius materiae vel utriusque" e com "aut extra eam" (art. 3 §2); Nos delitos contra o sacramento da Penitência, foram introduzidos os casos delituosos conforme ao cân. 1378 §2 n. 2 do CDC (tentar conceder a absolvição sacramental, não a podendo conceder validamente, ou ouvir a confissão sacramental) e aos cânn. 1379 do CDC e 1443 do CCIO (simulação da absolvição sacramental) (art. 4 §1 nn. 2 e 3); Foram inseridos os casos da violação indirecta do sigilo sacramental (art. 4 §1 n. 5) e da captação e divulgação, cometidas maliciosamente, pelas confissões sacramentais (iuxta decreto da Congregação para a Doutrina da Fé de 23 de Setembro de 1988) (art. 4 §2); Foi introduzido o caso penal da tentada ordenação sagrada de uma mulher, segundo quanto estabelecido no decreto da Congregação para a Doutrina da Fé de 19 de Dezembro de 2007 (art. 5); Nos delicta contra mores: foi equiparado com o menor a pessoa de maior idade que habitualmente faz um uso imperfeito da razão, tudo com expresso limite do número em questão (art. 6 §1 n. 1); Aém disso, acrescentou-se o caso que inclui a aquisição, a detenção ou a divulgação, a clerico turpe patrata, de qualquer modo e com qualquer meio, de imagens pornográficas que têm como objecto menores com idade inferior a 14 anos (art. 6 §1 n. 2); Esclareceu-se que i munera processui praeliminaria, podem, e já não devem ser cumpridos pela Congregação para a Doutrina da Fé (art. 17); Foi introduzida a possibilidade de adoptar as medidas cautelares, conforme ao cân. 1722 do CDC e ao cân 1473 do CCIO, também durante a fase da averiguação prévia (art. 19). Congregação para a Doutrina da Fé Carta circular para ajudar as conferências episcopais na preparação de linhas directrizes no tratamento dos casos de abuso sexual contra menores por parte de clérigos 3.5.2011 Breve relatório da legislação canónica em vigor relativa ao delito de abuso sexual de menores perpetrado por um clérigo No dia 30 de abril de 2001, o Papa João Paulo II promulgou o Motu Própio Sacramentorum Sanctitatis Tutela (SST), com o qual se inseriu o abuso sexual de um menor perpetrado por um clérigo no elenco de delicta graviora, reservado à Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). A prescrição de um tal delito foi fixada em 10 anos a partir do 18º aniversário da vítima. A legislação do Motu Próprio vale tanto para os clérigos latinos quanto para os clérigos orientais, igualmente para o clero diocesano como para o religioso. Em 2003, o então Prefeito da CDF, o Cardeal Ratzinger, obteve de João Paulo II a concessão de algumas faculdades especiais para oferecer maior flexibilidade nos 60 processos penais para os casos de delicta graviora, dentre os quais o uso do processo penal administrativo e o pedido da demissão ex officio nos casos mais graves. Estas faculdades foram integradas na revisão do Motu Próprio aprovada pelo Santo Padre Bento XVI aos 21 de Maio de 2010. Segundo as novas normas a prescrição é de 20 anos, os quais nos casos de abuso de menores se calculam a partir do 18º aniversário da vítima. A CDF pode eventualmente derrogar às prescrições em casos particulares. Especificou-se também o delito canónico da aquisição, detenção ou divulgação de material pedo-pornográfico. A responsabilidade de tratar os casos de abuso sexual contra menores é, num primeiro momento, dos Bispos ou dos Superiores Maiores. Se a acusação parecer verossímil, o Bispo, o Superior Maior ou o seu delegado devem proceder a uma inquisição preliminar de acordo com os cân. 1717 do CIC, 1468 CCEO e o art. 16 SST. Se a acusação for considerada crível – digna de crédito, pede-se que o caso seja remetido à CDF. Uma vez estudado o caso, a CDF indicará ao Bispo ou al Superior Maior os ulteriores passos a serem dados. Ao mesmo tempo, a CDF oferecerá uma directriz para assegurar as medidas apropriadas, seja garantido um procedimento justo aos clérigos acusados, no respeito do seu direito fundamental à defesa, seja tutelando o bem da Igreja, inclusive o bem das vítimas. É útil recordar que normalmente a imposição de uma pena perpétua, como a dimissio do estado clerical requer um processo penal judicial. De acordo com o Direito Canónico (cf. can. 1342 CIC) os Ordinários não podem decretar penas perpétuas por decretos extra-judiciários; para tanto devem se dirigir à CDF, à qual compete o juízo definitivo a respeito da culpabilidade e da eventual idoneidade do clérigo para o ministério, bem como a consequente imposição da pena perpétua (SST Art. 21, § 2). As medidas canónicas aplicadas contra um clérigo reconhecido culpado de abuso sexual de um menor são geralmente de dois tipos: 1) medidas que restringem o ministério público de modo completo ou pelo menos excluindo os contactos com menores. Tais medidas podem ser acompanhadas por um preceito penal; 2) penas eclesiásticas, dentre as quais a mais grave é a dimissio do estado clerical. Em alguns casos, prévio pedido do próprio clérigo, pode-se conceder a dispensa, pro bono Ecclesiae das obrigações inerentes ao estado clerical, inclusive do celibato. A inquisição preliminar e todo o processo devem se desenvolver com o devido respeito a fim de proteger a discrição em torno às pessoas envolvidas, e com a devida atenção à sua reputação. Ao menos que existam razões graves em contrário, o clérigo acusado dever ser informado da acusação apresentada, a fim de que lhe seja dada a possibilidade de responder à mesma, antes de se transmitir um caso à CDF. A prudência do Bispo ou do Superior Maior decidirá qual informação deva ser comunicada al acusado durante a inquisição preliminar. Compete ao Bispo ou ao Superior Maior prover ao bem comum determinando quais medidas de precaução previstas pelo can. 1722 CIC e pelo can. 1473 CCEO devam ser impostas. De acordo com o art. 19 SST, isto se faz depois de começada a inquisição preliminar. Recorda-se finalmente que se alguma Conferência Episcopal, excetuado o caso de uma aprovação da Santa Sé, julgue por bem dar normas específicas, tal legislação particular dever ser considerada como um complemento à legislação universal e não como substituição desta. A legislação particular dever portanto harmonizar-se com o CIC/CCEO, bem como com o Motu Próprio Sacramentorum Sanctitatis Tutela (30 de abril de 2001) como foi actualizado aos 21 de maio de 2010. Se a Conferência Episcopal decidir estabelecer normas vinculantes, será necessário requerer a recognitio aos Dicastérios competentes da Cúria Romana. III. Indicações aos Ordinários sobre o modo de proceder As linhas directrizes preparadas pela Conferência Episcopal deveriam fornecer orientações aos Bispos diocesanos e aos Superiores Maiores no caso em que fossem informados de possíveis (presunti) abusos sexuais contra menores perpetrados por 61 clérigos presentes no território da sua jurisdição. Tais linhas diretrizes devem levar em conta as seguintes considerações: a.) o conceito de "abuso sexual contra menores" deve coincidir com a definição do Motu Próprio SST art. 6 ("o delito contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor de dezoito anos"), bem como com a praxe interpretativa e a jurisprudência da Congregação para a Doutrina da Fé, levando em consideração as leis civis do País; b.) a pessoa que denuncia o delito dever ser tratada com respeito. Nos casos em que o abuso sexual esteja ligado com um outro delito contra a dignidade do sacramento da Penitência (SST, art. 4), o denunciante tem direito de exigir que o seu nome não seja comunicado ao sacerdote denunciado (SST, art. 24); c.) as autoridades eclesiásticas devem se empenhar para oferecer assistência espiritual e psicológica às vítimas; d.) o exame das acusações seja feito com o devido respeito do princípio de privacidade e da boa fama das pessoas; e.) ao menos que haja graves razões em contrário, já durante o exame prévio, o clérigo acusado seja informado das acusações para ter a possibilidade de responder às mesmas; f.) os órgãos consultivos de vigilância e de discernimento dos casos particulares, previstos em alguns lugares, não devem substituir o discernimento e a potestas regiminis dos Bispos em particular; g.) as linhas directrizes devem levar em consideração a legislação do País da Conferência, especialmente no tocante à eventual obrigação de avisar as autoridades civis; h.) seja assegurado em todos os momentos dos processos disciplinares ou penais um sustento justo e digno ao clérigo acusado; i.) exclua-se o retorno o clérigo ao ministério público se o mesmo for perigoso para os menores ou escandaloso para a comunidade. Carta Apostólica em forma de Motu Proprio do Papa Francisco “Como uma Mãe amorosa” “Como uma mãe amorosa, A Igreja ama todos os seus filhos, mas cuida e protege com um particularíssimo afecto os mais pequenos e indefesos. Trata-se de uma tarefa que o próprio Cristo confiou a toda a comunidade cristã no seu conjunto. Consciente disso, a Igreja dedica um vigilante cuidado à protecção das crianças e dos adultos vulneráveis. Tal tarefa de protecção e cuidado dizem respeito a toda a Igreja, mas é especialmente pêlos seus Pastores que deve ser exercida. Portanto, os Bispos diocesanos, os Eparcas e aqueles que têm a responsabilidade de uma Igreja particular devem exercer uma particular diligência em proteger aqueles que são os mais débeis entre os que lhes foram confiados. O Direito canónico já prevê a possibilidade de remoção do ofício eclesiástico “por causas graves”: isto diz respeito também aos Bispos diocesanos, os Eparcas e àqueles que que a esses são equiparados pelo direito (cfr can. 193 §1 CIC; can. 975 §1 CCEO). Com a presente Carta pretendo precisar que entre as ditas “causas graves” compreendese a negligência do Bispos no exercício do seu ofício, em particular relativamente aos casos de abusos sexuais sobre menores e adultos vulneráveis, previstos no MP Sacramentorum Sanctitatis Tutela, promulgado por S. João Paulo II e emendado pelo meu amado predecessor Bento XVI. Em tais casos observar-se-á o seguinte procedimento: Artº 1 §1. O Bispo diocesano ou o Eparca ou aquele que, mesmo se a título temporário, tem a responsabilidade de uma Igreja particular ou de uma outra comunidade de fiéis a ela equiparada no sentido do ca. 368 CIC e do can. 313 CCEO, pode ser legitimamente removido do seu cargo se tiver, por negligência, posto ou omitido actos que tenham provocado um grave dano a outros, quer se trate de pessoas físicas, quer se trate de uma comunidade no seu conjunto. O dano pode ser físico, moral, espiritual ou patrimonial. 62 §2. O Bispo diocesano ou o Eparca pode ser removido somente se tiver objectivamente faltado, de maneira muito grave, à diligência que lhe é pedida pelo seu ofício pastoral, mesmo sem culpa grave moral da sua parte. §3. Caso se trate de abuso sobre menores ou sobre adultos vulneráveis, é suficiente que a falta da sua diligência seja grave. §4. Ao Bispo diocesano e ao Eparca são equiparados os Superiores Maiores dos Institutos religiosos e das Sociedades de vida apostólica de direito pontifício. Artº 2 §1. Em todos os casos em que apareçam sérios indícios do quanto previsto no artigo precedente, a competente Congregação da Cúria romana pode iniciar uma apropriada investigação, informando o interessado e dando-lhe a possibilidade de apresentar documentos e testemunhas. §2. Ao Bispo será dada a possibilidade de se defender, o que poderá fazer com os meios previstos pelo direito. Todos os passos desta investigação lhe serão comunicados e serlhe-á dado sempre a possibilidade de encontrar os Superiores da Congregação. Tal encontro, se o Bispo dele não tomar a iniciativa, ser-lhe-á proposto pelo próprio Dicastério. §3. Tendo em conta os argumentos apresentados pelo Bispo, a Congregação pode decidir uma investigação suplementar. Artº 3. §1 Antes de tomar a sua decisão, a Congregação poderá encontrar, de acordo com a oportunidade, outros Bispos ou Eparcas pertencentes à Conferência Episcopal ou ao Sínodo dos Bispos da Igreja sui iuris, da qual faz parte o Bispo ou o Eparca interessado, com a finalidade de discutir o caso. §2. A Congregação assume as suas determinações, reunida em sessão ordinária Artº 4 Considerando oportuna a remoção do Bispo, a Congregação estabelecerá, tendo em conta as circunstâncias do caso: 1. Dar, o mais brevemente possível, o decreto de remoção; 2. Exortar fraternamente o Bispo a apresentar a sua renúncia, no prazo de 15 dias. Se o Bispo não responder dentro do prazo previsto, a Congregação poderá emitir o decreto de remoção. Artº 5 A decisão da Congregação. Segundo os art.os 3-4, deve ser submetida à aprovação específica do Romano Pontífice, o Qual, antes de assumir uma decisão definitiva, se fará assistir de um Colégio de juristas, designados para esse fim. Tudo isto que eu deliberei com esta Carta Apostólica em forma de Motu Proprio, ordeno que seja observado em todos as suas partes, não obstante qualquer coisa em contrário, mesmo se digna de particular menção, e estabeleço que seja publicado no comentário oficial Acta Apostolicae Sedis e promulgado no quotidiano “L’Osservatore Romano” entrando em vigor no dia 5 de Setembro de 2016. Dado no Vaticano, 4 de Junho de 2016 Francisco P.P. PROCESSOS 63 Necessidade do Direito processual “A institucionalização do instrumento de justiça que é o processo, representa uma progressiva conquista de civilização e de respeito pela dignidade do homem, para a qual contribuiu, de modo não irrelevante, a própria Igreja com o processo canónico. Ao fazer isso, a Igreja não renegou a sua missão de caridade e de paz, mas apenas dispôs um meio adequado para aquela confirmação da verdade, que é condição indispensável da justiça animada pela caridade e, por isso, também da verdadeira paz. É verdade que, se possível, devem ser evitados os processos. Todavia, em determinados casos eles são requeridos pela lei, como a via mais idónea para resolver questões de grande relevância eclesial, como são, por exemplo, as relativas à existência do matrimónio. O processo justo é objecto de um direito dos fiéis (cf. cân. 221) e constitui ao mesmo tempo, uma exigência do bem público da Igreja. As normas canónicas processuais, portanto, devem ser observadas por todos os protagonistas do processo, como outras tantas manifestações daquela justiça instrumental que conduz à justiça substancial.” 20 Assim se pronuncia o Papa Bento XVI, no seu Magistério: “A instituição do processo em geral, enfim, não é em si um meio para satisfazer um interesse qualquer, mas um instrumento qualificado para obedecer ao dever de justiça de dar a cada qual o que lhe pertence. O processo, precisamente na sua estrutura essencial, é instituição de justiça e de paz. De facto, a finalidade do processo é a declaração da verdade por parte de um terceiro imparcial, depois de ter sido oferecida às partes iguais oportunidades de aduzir argumentações e provas no âmbito de um adequado espaço de debate. Este intercâmbio de pareceres normalmente é necessário, para que o juiz possa conhecer a verdade e, por conseguinte, decidir a causa segundo justiça. Qualquer sistema processual deve tender, por conseguinte, a garantir a objectividade, a tempestividade e a eficiência das decisões dos juízes.” 21 Natureza das leis processuais As leis processuais, estabelecidas no Código de Direito Canónico, têm três características: - são leis universais - são leis adjectivas - são leis formais. As leis processuais são leis universais que vigoram em toda a parte, com excepção dos Tribunais da Sé Apostólica (c. 1402). Admitem, no entanto, prescrições particulares. As leis universais são leis comuns em toda a Igreja latina. Essas prescrições particulares podem ser estabelecidas, em razão da matéria, como são os casos seguintes: - c. 1470 §1 - Admite-se ser a lei particular a estabelecer quem deva estar na sala do Tribunal para o andamento do processo; - c. 1509 §1 – A lei particular pode estabelecer meios determinados (CTT, correio público, ou outros) para fazer a notificação dos actos judiciais; c. 1520 - A lei particular pode estabelecer outros prazos peremptórios de caducidade (que não seis meses) da instância; 20 Discurso de João Paulo II aos Membros do Tribunal da Sagrada Rota Romana, 18.01.1990, 7. 21 Discurso do Papa Bento XVI, por ocasião da inauguração do Ano judiciário do Tribunal da Rota Romana, 28.01.2006. 64 - c. 1561 - A lei particular pode estabelecer outra coisa que não “as partes fazerem as suas perguntas ao juiz para que este as faça às testemunhas”. Essas prescrições particulares devem ser estabelecidas, em certos casos. Assim: - c. 1602 §3 - O tribunal terá de ter um regulamento sobre a extensão das defesas, o número de exemplares e outras circunstâncias semelhantes; - c. 1649 – O Bispo tem de estabelecer normas sobre a implicação económica dos processos. As leis processuais são leis adjectivas. Leis adjectivas são aquelas leis que estão ao serviço dos direitos e obrigações, isto é, existem por causa das leis substantivas. Leis substantivas são leis que constituem direitos ou impõem obrigações ou determinam os limites dos direitos ou obrigações e que, por isso, existem “per se” (isto é, são substantivas). As leis adjectivas não existem “per se”. Assim, no Código de Direito Canónico Latino, as leis dos livros I-V são consideradas leis substantivas, enquanto as leis dos Livros VI e VII, como regra geral, são leis adjectivas. Na verdade, no Livro VII há leis substantivas. Também diremos que fora do Livro VII há leis processuais, como é o caso dos cc. 104 (sobre o domicílio dos cônjuges) e 694 (sobre a demissão de um religioso). As leis processuais são leis formais no sentido de que as leis que dão matéria para os processos são consideradas como leis “materiais”. As leis processuais dizem respeito ao futuro (c. 9). Uma vez abrogadas, não mais vigoram. Processos O processo é o instrumento estruturado pela lei para o exercício da função jurisdicional tutelar dos direitos subjectivos. Este exercício pode funcionar por um juízo ou por um acto administrativo. Elementos essenciais de todo o processo judicial: - sujeito activo: é o órgão jurisdicional - sujeito passivo: são as partes em litígio - forma legítima – é o jogo das afirmações e contestações, realizado segundo as solenidades requeridas. - objecto: é aquela pretensão para cuja satisfação se invoca o ministério judicial. Podemos distinguir entre: - processo decisório - processo não decisório. - O processo decisório é o processo em sentido estrito. - O processo não decisório é o processo em sentido lato. Exemplo típico é a remoção do pároco. Não se trata de uma pena é apenas para o bem das almas. É, ainda, o facto da causa de canonização. Não é propriamente um processo. Não se trata de um direito estrito. Está fora do Livro VII. Por sua vez, o processo decisório, que é um processo para tomar uma decisão estrita ou para encerrar uma controvérsia, através de uma decisão em sentido estrito, pode ser: - judicial - ou administrativo. - Diz-se processo judicial porque é diante do juiz que se desenrola. É o processo no sentido rigoroso do termo. - Diz-se processo administrativo pelo facto de ser diante do superior, como administrador. O processo judicial pode ser: - contencioso - ou penal. - O processo contencioso é para defender um direito ou declarar um facto jurídico. - O processo contencioso pode ser ordinário ou administrativo. - O processo contencioso ordinário é entre privados. 65 - O processo contencioso administrativo é contra o Superior. É um processo diante do juiz mas contra o Superior. Quem assume estes processos é a Assinatura Apostólica. - O processo penal é para impor uma sanção (será, portanto, “ferendae sententiae) ou para declarar uma sanção canónica (no caso de sanção “latae sententiae”). Em esquema: Judicial Decisório Processo Administrativo ordinário contencioso administrativo penal hierárquico contencioso não hierárquico penal Não decisório Tipicidade dos processos Ordinário (entre privados) (ex: Nulidade Matrimonial)) Contencioso Para garantir um direito ou Declarar um facto jurídico Administrativo Diante do Juiz, contra o Superior Tribunal da Assinatura Apostólica Judicial “Coram Judice” Perante o Juiz Penal Para impor uma pena “ferendae sententiae” (ou) Para declarar uma pena “latae sententiae” Processo decisório em sentido estrito Para Para tomar uma decisão Estrita ou que encerra a controvérsia por uma decisão “sricto sensu” Hierárquico Contra o Superior que está abaixo daquele diante do qual se põe a causa. (ex: para a Santa Sé) Ainda não se instituiu este Tribunal, 66 Actualmente é exercido pelo Tribunal da Assinatura Apostólica Contencioso Esta distinção vale para os processos administrativos para garantir um direito ou declarar um facto jurídico Não Hierárquico È Diante do Superior, mas não contra o Superior. (Entre Privados) Administrativo Diante do Superior como Administrador Penal Para impor uma pena “ferendae sententiae” ou para declarar uma pena “latae sententiae” Processo não decisório: é um processo para pôr um acto administrativo que não é uma decisão stricto sensu. Ex.: processo de remoção de um pároco: não é uma pena; é para o bem das almas. Matéria jurídica submetida a julgamento Cân. 1400 - § 1. São objecto de juízo: 1.° a defesa ou a reivindicação dos direitos das pessoas físicas ou jurídicas, ou a declaração de factos jurídicos; 2.° os delitos, no que respeita à aplicação ou à declaração da pena. § 2. Contudo, as controvérsias provenientes de um acto do poder administrativo só podem deferir-se ao Superior ou ao tribunal administrativo. “São objecto de juízo” é o mesmo que dizer “o que é que se pede”, isto é, qual é a matéria jurídica que se pretende submeter a julgamento para que se faça justiça. Pretende-se defender ou reivindicar direitos de pessoas físicas ou pessoas jurídicas, bem como a declaração de factos jurídicos. Ora, o que se pede terá de se inserir naquilo que o Direito considera como legal, como legítimo. Por isso, tal pretensão não ficará enquadrada na mera vontade subjectiva daquele que pede ou reivindica. Trata-se de agir segundo as leis, portanto, uma actuação “legítima”. Não basta ser segundo o “aequo et bono”, porque tal actuação daria lugar a arbitrariedades. Muito menos se pode agir contra as leis! O que se pede, para ser defendido ou para ser reivindicado, deve ser matéria sobre a qual a Igreja tem poder de julgar. Isso será, então, submetido ao juízo eclesiástico, isto é, à discussão e definição de um tribunal eclesiástico que actuará segundo as normas estabelecidas pelo direito canónico. Tal defesa ou reivindicação bem como a declaração dos factos jurídicos actuam-se no juízo contencioso, através da acção que a pessoa física ou a pessoa jurídica interpõe (c. 1491). A declaração dos delitos ou a aplicação das penas pelos delitos acontece num processo penal judicial, pela acusação (c. 1721 §1). A causa declarativa de nulidade de matrimónio enquadra-se no §1 do c. 1400, porque se trata da defesa de direitos de uma pessoa física. Factos jurídicos 67 “Facto jurídico” é um acontecimento que determina uma mudança da situação jurídica da pessoa. Há factos jurídicos naturais e factos jurídicos humanos. Factos jurídicos naturais são aqueles acontecimentos que não dependem da vontade humana, por exemplo, o nascimento, a morte, um terramoto, etc. Factos jurídicos humanos têm a ver com a responsabilidade da pessoa, por exemplo, uma doação, um testamento, o matrimónio ou um contracto, qualquer que ele seja. Direito da Igreja em conhecer causas Cân. 1401 - Por direito próprio e exclusivo, a Igreja conhece: 1° das causas que respeitam a coisas espirituais ou com estas conexas; 2.° da violação das leis eclesiásticas e de tudo aquilo em que existe a razão de pecado, no respeitante à definição da culpa e à aplicação de penas eclesiásticas. A Igreja julga, com direito próprio e exclusivo: 1. As causas que se referem a realidades espirituais, por exemplo, a fé, a moral, os sacramentos (entre eles o Matrimónio), culto e ritos sagrados, condição jurídica dos clérigos e religiosos, as funções eclesiásticas, etc.. 2. As causas conexas com as realidades espirituais, por exemplo, os benefícios eclesiásticos, o património eclesiástico, as ofertas, a sepultura eclesiástica, etc... Uma pia fundação autónoma é uma realidade temporal inseparavelmente conexa com uma realidade espiritual (c. 1303 §1). 3. As causas relativas à violação das leis eclesiásticas e tudo aquilo que contenha razão de pecado (objectivamente ou subjectivamente) enquanto se refere à determinação da culpa e imposição de penas eclesiásticas. Nada impede que a Igreja possa julgar da violação das suas leis também por causa de outros fins, como por exemplo, para ressarcir os danos. Trata-se da missão da Igreja, da lei do Evangelho, da caridade, da salvação das almas. Poder judicial do Romano Pontífice Cân. 1405 - § l. É direito exclusivo do Romano Pontífice, nas causas referidas no cân. 1401, julgar: 1.° os que exercem a suprema magistratura do Estado; 2.° os Cardeais; 3.° os Legados da Sé Apostólica, e os Bispos em causas penais; 4.° outras causas que ele tiver avocado ao seu juízo. § 2. O juiz não pode conhecer de um acto ou instrumento confirmado pelo Romano Pontífice em forma específica, a não ser que tenha precedido mandato do mesmo. § 3. Está reservado à Rota Romana julgar: 1.° os Bispos em causas contenciosas, sem prejuízo do cân. 1419, § 2. 2.° o Abade primaz, ou o Abade superior de uma congregação monástica, e o Moderador supremo dos institutos religiosos de direito pontifício; 3.° as dioceses e outras pessoas eclesiásticas, quer físicas quer jurídicas, que não tenham Superior abaixo do Romano Pontífice. Porquê o julgar os Bispos em causas penais ser um direito exclusivo do Romano Pontífice? Por causa da sua singular gravidade. Mas será que nestes casos, bem como nos outros, o Romano Pontífice age pessoalmente? Normalmente, não age “per se”, mas através dos órgãos romanos competentes para o efeito, isto é, “por meio dos Tribunais ordinários da Santa Sé ou por meio de juízes por si delegados” (c. 1442). Pode o Romano Pontífice, em razão das 68 circunstâncias do caso, entregar o assunto a uma comissão de Cardeais. A decisão torna-se inapelável. Nas causas referentes aos que “exercem a suprema magistratura do Estado” é um costume vigente na Cúria Romana, no que se refere a causas matrimoniais. Os Cardeais “in pectore” não estão incluídos nesta reserva pontifícia “a iure” (nº2). Esta reserva pontifícia abrange os Cardeais, até à sua morte, mesmo que tenham cessado o seu ofício aos 75 anos ou aos 80 anos. Quem são as “outras pessoas eclesiásticas, quer físicas quer jurídicas, que não tenham Superior abaixo do Romano Pontífice” mencionadas no c. 1405 §3? - Pode entender-se como a pessoa física (o Superior Geral do Instituto secular de direito pontifício ou de uma Sociedade de vida apostólica de direito pontifício) ou o próprio Instituto (como pessoa jurídica), associações públicas internacionais (c. 312 §1,1º), santuários internacionais (c.1231-1232) ou alguns ateneus pontifícios (se isso constar do acto de erecção canónica ou de algum privilégio). - Podem ser Igrejas Particulares equiparadas a dioceses como a prelatura territorial, a abadia territorial, o vicariato apostólico e a prefeitura apostólica e ainda a administração apostólica estavelmente erecta (c. 368). - Podem ser os ordinariatos militares e as prelaturas pessoais. 22 Causas penais Cân. 1412 - Nas causas penais o acusado, ainda que ausente, pode ser mandado perante o tribunal do lugar em que o delito foi cometido. O acusado é demandado pelo Tribunal do lugar onde cometeu o delito. Este foro judicial é concorrente com outros foros existentes. Se o delito for cometido em diversos locais, o foro judicial é o do juiz que primeiro citar o acusado. A causa contenciosa originada pelo delito é conhecida simultaneamente com a causa penal (c. 1729 §1). A parte lesada pode apresentar a denúncia ao Ordinário. Este deve investigar a situação para ver se deve ou não instaurar um processo penal. A denúncia, como denúncia, não tem nenhum valor. Se o Ordinário começa o juízo penal, a parte lesada pode intervir e cumular com a acção penal a acção contenciosa de danos (indemnização). Se não há causa penal, então, a causa de danos (nascida do libelo) far-se-á independentemente. Graus e espécies de Tribunais Há Tribunais de 1º grau, Tribunais de 2º grau, Tribunais de 3º grau. O termo “grau” interliga-se com o termo “instância” (1ª instância, 2ª instância, 3ª instância), mas nem sempre se identificam. Assim, um Tribunal de 2ª instância pode julgar uma causa em 1º grau. Um Tribunal metropolitano é Tribunal de 2ª instância para as dioceses sufragâneas e, no entanto, julga as causas da sua própria Metrópole em 1ª instância. Quanto às classes de Tribunais, há: - Tribunais da Santa Sé - Tribunais das Igrejas Particulares. No âmbito das Igrejas Particulares há: - Tribunais diocesanos - Tribunais metropolitanos - Tribunais interdiocesanos Tribunais dos Religiosos (cc. 1427 §4 1-2, 1438, 3º). Tribunal de 1ª instância Cân. 1419 - § 1. Em cada diocese, e para todas as causas não exceptuadas expressamente pelo direito, o juiz de primeira instância é o 22 Cfr. Pastor Bonus, 76, 80 e 89. 69 Bispo diocesano, que pode exercer o poder judicial por si mesmo ou por meio de outros, em conformidade com os cânones seguintes. § 2. Se se tratar de direitos ou de bens temporais de pessoa jurídica representada pelo Bispo, julga em primeiro grau o tribunal de apelação. O bispo diocesano é o único que julga na Diocese com poder ordinário próprio. Todos os outros julgam com poder ordinário vicário (ex. Vigário judicial). O bispo diocesano nunca poderá deixar de se sentir responsável pela administração da justiça na sua diocese. Vigário judicial Cân. 1420 - § l. Todo o Bispo diocesano tem obrigação de constituir Vigário judicial ou Oficial com poder ordinário de julgar, distinto do Vigário geral, a não ser que a pequenez da diocese ou o pequeno número de causas aconselhe outra coisa. § 2. O Vigário judicial constitui um único tribunal com o Bispo, mas não pode julgar as causas que o Bispo se reservar a si mesmo. § 3. Ao Vigário judicial podem ser dados auxiliares, que recebem a designação de Vigários judiciais adjuntos ou de Vice-oficiais. § 4. Tanto o Vigário judicial como os Vigários judiciais adjuntos devem ser sacerdotes, de fama íntegra, doutores ou ao menos licenciados em direito canónico, com idade não inferior a trinta anos. § 5. Durante a vagatura da sé, não cessam no cargo nem podem ser removidos pelo Administrador diocesano; com a entrada do novo Bispo, necessitam de confirmação. Há grande diferença entre Vigário geral e Vigário judicial. Se o Vigário geral acumula com o múnus de Vigário judicial, terá de ser nomeado expressamente para Vigário judicial porque, enquanto Vigário geral, goza unicamente de poder administrativo. Na Sé vacante, o Vigário judicial não cessa o seu múnus nem pode ser removido. O Administrador diocesano não pode remover o Vigário judicial. Se a diocese for provida pela Santa Sé com um Administrador Apostólico, então, no referente ao Vigário judicial é necessário conferir nas cartas de nomeação do Administrador Apostólico o poder que a Santa Sé lhe atribui. O c. 1420 §5 fala do Vigário judicial e adjuntos. Nada refere sobre os outros juízes diocesanos. Há aqui uma lacuna da lei. No entanto, deverá estender-se aos outros juízes diocesanos aquilo que se determina sobre o Vigário judicial e adjuntos. O “staff” do Tribunal deverá continuar em funções. Se entretanto, enquanto decorre a situação de Sé vaga, terminar o mandato de algum oficial do Tribunal, parece dever ser prorrogado “ipso iure” o mandato do juíz, até vir novo Bispo para a Diocese. Se o novo Bispo toma posse da Diocese e ainda não tiver terminado o mandato dos membros do Tribunal, é necessária a confirmação do mandato pelo novo Bispo. Juiz eclesiástico “O juiz, como todos sabem, é o intérprete do “ius” objectivo, isto é, da lei, mediante o uso do próprio "ius” subjectivo, ou, por outras palavras, daquela “potestas et libertas” de que deve poder dispor em grau máximo. Consequentemente, deve possuir uma grande objectividade de juízo, e, ao mesmo tempo, uma grande equidade, para poder avaliar todos os elementos que, paciente e tenazmente, conseguir obter, e julgar depois, com equidistância imperturbável e imparcial.”23 “Estais em contacto diário com a realidade e com as dificuldades da vossa profissão. É necessário manter sempre a imparcialidade, o que supõe uma 23 Discurso do Santo Padre Paulo VI aos Prelados Auditores, Oficiais e aos Advogados do Tribunal da Rota Romana, 29 de Janeiro de 1970 [AAS LXII (1970) 111]. 70 honestidade profunda e inalterável. É necessário agir desinteressadamente, para evitar o perigo de que finalidades alheias ao juízo, venalidades políticas, favoritismos e outros interesses exerçam pressão sobre os Tribunais.” 24 Extensão do poder judicial do bispo diocesano 1. O bispo diocesano tem o direito nativo de julgar todas as causas não expressamente exceptuadas pelo direito. Quais são essas causas? 1.1 - As causas determinadas no c. 1405 §§ 1, 2, 3 (reservadas ao Papa e ao Tribunal da Rota Romana). 1.2 – As causas que a Santa Sé tiver avocado ao seu juízo (c. 1405 §1,4º). 1.3 - O que é determinado pelo c. 1419 §2. Quando se trata de direitos ou bens temporais de uma pessoa jurídica representada pelo Bispo (= Diocese) tem de ser o Tribunal de apelação. É que, nestes casos, o bispo diocesano é uma das Partes em causa e “ninguém pode ser juiz em causa própria”. O bispo diocesano não pode ser, ao mesmo tempo, Parte e juiz. O Tribunal de apelação é, segundo o c. 1405 §3, o Tribunal da Rota Romana. Diz o c. 1480 que “o bispo … pode actuar por si ou por outrem”. Mas, neste caso não pode. É o c. 1419 §2. 2. Se o juiz está interessado em alguma causa, por razões de afinidade, consanguinidade, interesses vários, e não larga a causa, a Parte pode recusá-lo. Nesse caso, o Vigário judicial decide da recusa e, se também ele é recusado, então o bispo preside ao Tribunal. O bispo pode julgar todas as outras causas. Tem o direito nativo para isso. No entanto, deverá cometê-las ao Vigário judicial. Quando o c. 1419 §1 diz que “o bispo diocesano pode exercer o poder judicial por meio de outros” está a referir-se não somente à estruturação do Tribunal na sua própria diocese, mas pode referir-se ao Tribunal constituído em conjunto com outros bispos diocesanos (Tribunal regional ou interdiocesano – c. 1423). O bispo goza do pleno poder administrativo para com o seu Tribunal em nomear e punir os juízes e seus auxiliares. Falamos, com isso, de actos reservados ao bispo diocesano. Podemos elencar outros: - nomear o Vigário judicial (c. 1420 §1) -nomear os vigários judiciais adjuntos (c. 1420 §3) - nomear os juízes diocesanos (c.1421 §1) - nomear o Promotor de justiça e o Defensor do vínculo (c.1435) - confirmar ou não no seu ofício o Vigário judicial e os Vigários judiciais adjuntos, depois de tomar posse da diocese (c.1420 §5) - aprovar os advogados que desejam exercer a sua actividade no foro canónico (c. 1483) - excluir os advogados do elenco (c.1488) - aprovar as pessoas que vão exercer a função de auditores (c.1428 §4, 1 e 2) - reservar a si algumas causas (c.1420 §2) - atribuir causas mais difíceis ou de maior importância a um maior número de juízes (c. 1425 §2) - atribuir uma causa a juízes, sem seguir o turno previsto (c. 1425 §3) - com a permissão da Conferência episcopal confiar a um juiz único as causas reservadas ao colectivo de três juízes (c. 1425 §4) - decidir a causa incidental da recusa do Vigário judicial (c. 1449 §2) - permitir que um juiz de outra diocese recolha provas no território da sua jurisdição (c.1469 §2) - ser informado que irá julgar na sua diocese um juiz que foi expulso violentamente do seu território ou impedido de exercer a sua jurisdição (c. 1469 §1) - estabelecer normas sobre as taxas que hão-de aplicar-se no seu tribunal (c.1649 §1) - mandar executar a sentença, pessoalmente ou por meio de outros, a não ser que a lei particular estabeleça outra coisa (c. 1653 §1) 24 Discurso do Santo Padre Paulo VI aos Prelados Auditores, Oficiais e aos Advogados do Tribunal da Rota Romana, 29 de Janeiro de 1970 [AAS LXII (1970) 111]. 71 - no que concerne ao processo penal, realizar pessoalmente ou designar uma pessoa para que faça a investigação prévia (c. 1717 §1) e decidir, posteriormente, se há-de procederse e de que modo (c. 1718) - no mesmo âmbito (penal) encarregar o Promotor de justiça para que apresente o libelo acusatório (c. 1721 §1) - tomar as devidas precauções no decorrer do processo penal (c. 1722) - mandar ou permitir que o Promotor de justiça renuncie à instância (c. 1724 §1). Importa dizer que todos estes actos referenciados não são actos judiciais, estritamente ditos, mas são actos administrativos anexos ao foro judicial. Juízes diocesanos Cân. 1421 - § 1. O Bispo constitua na diocese juízes diocesanos, que sejam clérigos. § 2. A Conferência episcopal pode permitir que também leigos sejam constituídos juízes; de entre estes, quando a necessidade o aconselhar, pode ser escolhido um para formar o colégio. § 3. Os juízes sejam de fama íntegra, e doutores ou ao menos licenciados em direito canónico. O juiz é uma pessoa pública que goza de jurisdição eclesiástica para conhecer e definir controvérsias, segundo o prescrito pelo direito. O seu poder é, antes de mais, um poder judicial. Determina a lei a aplicar. Se necessário, deve interpretá-la ou supri-lo, se há lacuna de direito. Deve definir, autoritariamente, a controvérsia. O seu poder é, também, administrativo (urgir a observância das leis processuais) e coercitivo (penal) cfr. can. 1457 §2. Espécies de juízes: 1. Em razão da importância: 1.1 Juiz principal (presidente). Pode ser singular ou colegial. Dirige todo o processo, de princípio ao fim. 1.2 Juiz auxiliar (adjunto). Pode ser juiz instrutor ou auditor (aquele que ajuda na instrução da causa). Pode ser assessor (c. 1425 §4). Pode ser o Relator ou Ponente) da sentença. 2. Em razão da jurisdição: 2.1 Juiz ordinário 2.2 Juiz delegado. Tribunal colegial Cân. 1425 - § 1. Reprovado o costume contrário, reservam-se ao tribunal colegial de três juízes: 1.° as causas contenciosas: a) acerca do vínculo da ordenação sagrada; b) acerca do vínculo do matrimónio, sem prejuízo dos câns. 1686 e 1688; 2.° as causas penais: a) que possam importar a pena de demissão do estado clerical; b) acerca da aplicação ou declaração de excomunhão. § 2. O Bispo pode confiar as causas mais difíceis ou de maior importância ao juízo de três ou cinco juízes. 72 § 3. Para conhecer cada uma das causas, o Vigário judicial convoque por ordem e por turnos os juízes, a não ser que o Bispo para cada caso estabeleça outra coisa. § 4. No primeiro grau do juízo, se eventualmente não for possível constituir o colégio de juízes, a Conferência episcopal, enquanto perdurar a impossibilidade, pode permitir que o Bispo confie as causas a um único juiz clérigo, que, quando for possível, agregue a si um assessor e um auditor. § 5. Uma vez designados os juízes, o Vigário judicial não os substitua a não ser por causa gravíssima que deve ser indicada no decreto. Falando-se de Tribunal colegial de três juízes, fica determinado que: - não pode ser um juiz único, - nem ter um número incompleto de juízes. - Se se cometer uma destas faltas, o processo fica afectado por uma nulidade sanável na sentença (c. 1622,1º). Não se exclui que em certas causas se proceda com mais do que três juízes, sendo cinco e nunca quatro (para evitar “empate” na votação), segundo o c.1425 §2. No concernente às causas contenciosas, elencadas no c. 1425 §1,1º, não entram as causas de separação dos cônjuges porque não se trata de vínculo e tais causas são regidas pelo direito positivo, através de um processo contencioso oral, sob um juiz único (cc. 1692 §1, 1693 §1, 1657). Quanto à pena de demissão do estado clerical, tal pena tanto pode ser imposta pelos cânones como pelo Tribunal colegial. Nunca por decreto. 25 Cân. 1426 - § 1. O tribunal colegial deve proceder colegialmente, e proferir as sentenças por maioria de votos. § 2. Na medida do possível, deve presidi-lo o Vigário judicial ou o Vigário judicial adjunto. Os juízes devem agir colegialmente: - obrigatoriamente, na sentença. A decisão é dada por maioria de votos. - facultativamente, nas restantes partes do processo. Quando falamos em sentenças, não se deve pensar na sentença final de um processo. Há a possibilidade de outras sentenças, no decurso de um processo: sentenças interlocutórias. Assim, o Colectivo de juízes, designado para uma causa, deve agir colegialmente em várias situações: - no recurso face à rejeição do libelo (c. 1505 §4), - no recurso perante uma causa incidental (c.1590) - na decisão dos juízes em estabelecer um prazo mais dilatado para ser apresentada a sentença (c. 1610 §3) - revogar ou reformar o decreto ou a sentença interlocutória (c. 1591) - pronunciar-se sobre a querela de nulidade (c.1624-1625) - pronunciar-se sobre a petição da restituição “in integrum” (c. 1646 §41,2). Presidente do Tribunal colegial O juiz presidente do Tribunal colegial deve ser o Vigário judicial ou o Vigário judicial adjunto, se o houver. Caso tal não seja possível, poderá ser designado algum dos juízes. Tratar-se-ia, 25 Delitos punidos com excomunhão “latae sententiae” são mencionados nos cânones 1364 § 1 (reservado ao bispo diocesano), 1367, 1370 §1, 1378, 1382, 1384 §1 (todos reservados à Santa Sé) e 1358 (reservado ao bispo diocesano). Sobre a excomunhão “ferendae sententiae”, cfr. Cc. 1378 §3 e 1388 §2. Segundo os cc. 1318 e 1342 §1, o bispo diocesano pode irrogar uma excomunhão “ferendae sententiae” por decreto. Se se seguir a via judicial, então, tem de ser por um Tribunal colegial. 73 nesse caso, de uma excepção, justifcada, apenas, por não ser possível agir doutro modo. O juiz presidente do Tribunal colegial é um “primum inter pares” 26 A função de Juiz presidente não pode ser confiada a um juiz leigo. Funções do Juiz Presidente - Designar o auditor (c. 1428 §1). Nas causas de nulidade matrimonial poderá ser, também, o Relator a designar o auditor (c. 1677 §4). - Designar o juiz Relator (c. 1429). - Decidir sobre a recusa do juiz por alguma das Partes (c. 1449 §4). - Admitir ou rejeitar o libelo (c. 1505 §1). - Citar a julgamento a Parte Demandada e, se intervêm, o Promotor de justiça e o Defensor do vínculo, assim como, quando for preciso, convocá-los para a concordância da dúvida (c. 1507 §1. Nas causas de nulidade matrimonial poderá essa função ser entregue ao Relator (c. 1677 §§ 1 e 2). - Decidir, mediante decreto, as questões incidentais que o Colectivo de juízes lhe encomendar (c. 1590 §2). - Convocar os juízes para a sentença e dirigir essa reunião (c. 1609 §§ 1 e 3). - Decidir sobre a necessidade ou não de um advogado (c. 1481). - Admitir um procurador sem que este tenha apresentado o mandato (c. 1484 §2). - Definir os termos da controvérsia (c. 1513 §1). Nas causas de nulidade matrimonial poderá ser, também, o Relator a exercer essa função (c. 1677 §2). - Decidir as questões incidentais (c. 1589 e em analogia com o c. 1501 §1). - Declarar Parte ausente aquela Parte que, legitimamente notificada, nunca compareceu em juízo (c. 1592 §1). - Fazer o decreto da publicação dos autos e sobre outras decisões anexas (c. 1598 §1). - Fazer o decreto da conclusão da causa (c. 1599 §2). - Determinar o prazo para a apresentação das alegações e observações, bem como as respectivas réplicas (c. 1603 §1). - Dar licença para se imprimirem as defesas com os principais documentos (c. 1601 §2). Tribunal interdiocesano Cân. 1423 - § 1. Com aprovação da Sé Apostólica, vários Bispos diocesanos de comum acordo podem constituir um único tribunal de primeira instância nas suas dioceses em vez de tribunais diocesanos referidos nos câns. 1419-1421; neste caso ao conjunto dos mesmos Bispos ou ao Bispo por eles designado competem todos os poderes que o Bispo diocesano tem sobre o seu tribunal. § 2. Os tribunais referidos no § 1 podem ser constituídos para quaisquer causas ou somente para alguns géneros de causas. As dificuldades na administração da justiça acontecem, realmente, em determinadas dioceses. É a falta de clérigos devidamente preparados, é a falta de advogados, é a carência de meios logísticos e económicos. Dá-se, também, a situação de atrasos clamorosos na administração da justiça, o que torna tal justiça uma verdadeira injustiça. Os Tribunais interdiocesanos são constituídos para suprir estas carências e problemas. Os bispos, estando todos de acordo, portanto, unanimemente, podem erigi-los com a aprovação da Santa Sé. O pedido deve ser feito, primeiramente ao jeito de aconselhamento, ao Tribunal da Assinatura Apostólica. Depois, tornase mais fácil todo o processo. O Tribunal interdiocesano, a ser constituído, deverá sê-lo não só para as causas matrimoniais, que são as mais frequentes, mas também para todas as causas. Na verdade, o Tribunal interdiocesano poderá, em razão das pessoas que o compõem, responder melhor às diversas 26 Cfr. cc. 1501, 1507 §1, 1428 §1, 1449 §4, 1609§1. 74 causas, do que um tribunal diocesano. Constituído o tribunal interdiocesano, o bispo, cujo território está integrado nesse Tribunal, já não tem o direito a ter, na sua diocese, o seu Tribunal de 1ª instância para a mesma matéria. Isto não impede que, para obviar ao inconveniente de ter de alguém se deslocar à sede do tribunal interdiocesano (que pode ficar muito distante da residência das Parte ou das Testemunhas) na diocese haja “secções instrutórias” desse Tribunal interdiocesano, compostas por um (ou mais) Auditor (c. 1428), um Defensor do vínculo (c. 1432) e um notário (c. 1437). Quem é o Moderador desse Tribunal? Tanto podem ser todos os bispos diocesanos que constituíram esse único Tribunal, como pode ser um bispo apenas, sendo designado pelos outros. Conviria que, por razões administrativas, tal bispo fosse perito em direito canónico e o Tribunal estivesse implantado no território da sua diocese. Quanto às competências do Bispo Moderador, cfr. c. 1419. Se todos os Bispos forem sufragâneos da mesma Metrópole, é o Tribunal metropolitano que se constitui como Tribunal de 2ª instância. Quanto às nomeações do Vigário judicial, juízes, Promotor de justiça, Defensor do vínculo e dos seus substitutos para este Tribunal interdiocesano, embora a lei canónica disso não fale, julga-se dever ser o grupo dos bispos, que solicitaram à Santa Sé esse Tribunal interdiocesano, que deverá escolher tais oficiais da justiça. Controvérsias entre Religiosos Cân. 1427 - § 1. Se a controvérsia for entre religiosos ou entre casas do mesmo instituto clerical de direito pontifício, o juiz de primeira instância, se não se determinar outra coisa nas constituições, é o Superior provincial ou, se se tratar dum mosteiro autónomo, o Abade local. § 2. Salvo prescrição diversa das constituições, se o contencioso se originar entre duas províncias, julga em primeira instância, por si mesmo ou por delegado, o Moderador supremo; se entre dois mosteiros, o Abade superior da congregação monástica. § 3. Se, finalmente, a controvérsia surgir entre pessoas físicas ou jurídicas religiosas de diversos institutos religiosos, ou ainda do mesmo instituto clerical de direito diocesano ou laical, ou entre uma pessoa religiosa e um clérigo secular ou leigo ou pessoa jurídica não religiosa, julga em primeira instância o tribunal diocesano. O Código de direito canónico reconhece aos Institutos religiosos (c. 607 §2) clericais (c. 588 §2) de direito pontifício (c. 589) poder de jurisdição sobre os seus membros (cc. 134 §1, 596 §2) e, portanto, também poder judicial (cc. 1427 §41,2 e 1438, 3º). Os Institutos religiosos laicais não usufruem desse poder (c. 588 §3) nem os Institutos religiosos clericais que sejam apenas de direito diocesano (c. 589). Os titulares do poder de jurisdição nos Institutos acima mencionados são os Superiores maiores (cc. 134 §1 e 596 §2), isto é, aqueles que governam (c. 620): - todo o Instituto – são os Moderadores supremos ou Superiores gerais do Instituto (c. 622) - ou uma Província – são os Superiores provinciais (c. 621) - ou uma parte do Instituto equiparada a Província (c. 620) - ou uma Casa “sui iuris” – são os Priores ou Abades (c. 613) - e, também, os seus respectivos vigários - o Abade primaz (c. 620) - o Superior maior da congregação monástica (c. 620). Embora estes dois últimos não tenham todo o poder que o direito universal atribui aos Superiores Maiores, no entanto, o Código de direito canónico reconhece, explicitamente, poder judicial ao Abade superior da congregação monástica (c. 1438, 3º). Tudo quanto é dito sobre o poder de jurisdição dos Institutos religiosos de direito pontifício e sobre os titulares desse poder (os Superiores maiores) deve ser aplicado às Sociedades de Vida Apostólica, quando são clericais de direito pontifício (cc. 731-746, 134 §2 enquanto remete para 75 o c. 596 §2 e c. 620). Não vale, no entanto, para os Institutos Seculares de que se ocupam os cc. 710-730. Reparemos que o c.1427 não aborda a questão de Tribunais dos Institutos religiosos clericais de direito pontifício, nem dos das Sociedades de Vida Apostólica, quando são clericais de direito pontifício. Vemos que a lei se limita a indicar os titulares do poder judicial nas controvérsias surgidas dentro desses Institutos. Porém, essa titularidade permite constituir os Tribunais respectivos, de modo estável ou “ad casum”. Quanto à sua organização, serão as Constituições dos Institutos a prever tais órgãos. Se tal não estiver contemplado nas Constituições, então, funciona a lei geral do Direito canónico (c. 1427 §§1 e 2). O âmbito das controvérsias entre religiosos ou entre casas do mesmo Instituto clerical de direito pontifício abrange não só causas contenciosas como causas penais. O §2 do c. 1427 diz que o Moderador supremo pode julgar, por si mesmo ou por delegado, em primeira instância, o contencioso entre duas províncias. Aqui aparece expressamente o poder de delegação. Podemos concluir que também os Superiores provinciais ou o Abade local de um mosteiro autónomo, de que fala o c. 1427 §1, também podem delegar o seu poder judicial ou seja constituir um Tribunal “ad casum”. No caso de apelação, segue-se o que está determinado no c. 1438, 3º. Promotor de justiça Cân. 1430 - Para as causas contenciosas em que possa estar implicado o bem público, e para as causas penais, constitua-se na diocese o Promotor da justiça, que por ofício está obrigado a velar pelo bem público. O Promotor de justiça tem a missão de velar pelo bem público (não pelo bem privado). A sua figura corresponde, em certa medida, à do Ministério público, existente em muitos países, como em Portugal. É de constituição obrigatória, em cada diocese: “constituatur in dioecesi Promotor iustitiae” (c. 1430). O seu múnus deve gozar da estabilidade prevista no direito (c.145 §1). O Promotor de justiça não é membro do Tribunal porque o seu ofício não é o de decidir, nem individualmente nem colegialmente. Não deixa, no entanto, de ser uma figura que exerce um ofício eclesiástico perante o Tribunal, como parte pública, cumprindo funções de Parte em causa. A sua actividade aproxima-o da configuração jurídica dos juízes, no sentido em que lhe são colocadas normas a cumprir. Assim, pode ser recusado (cc. 1448, 1449 §4, 1451), deve prestar juramento de prestar fielmente o seu múnus (c. 1454), pode exigir-se-lhe responsabilidades, inclusive de carácter penal, se infringe as regras que são, também, prescritas para os juízes e membros do Tribunal (cc. 1455-1457). O seu múnus, que não é jurisdicional, é actuado: - nas causas contenciosas (segundo a norma do c. 1431) se estiver em causa o bem público, - nas causas penais (c. 1721), porque aí está sempre em causa o bem público. Convém advertir que a determinação de estar implicado nessas causas contenciosas o bem público é uma decisão que compete ao bispo diocesano (c. 1431 §1), sem anular aquelas situações em que o Vigário judicial ou o Tribunal possa decidir, colegialmente ou por decreto do seu Presidente, que, em razão da natureza do assunto, se torna evidente que o Promotor de justiça intervenha, por se entender que está implicado na causa o bem público (c. 1431 §1). Defensor do vínculo Cân. 1432 - Para as causas em que se trate da nulidade da sagrada ordenação ou da nulidade ou da dissolução do matrimónio, constitua-se na diocese o Defensor do vínculo, que por ofício está obrigado a apresentar e expor tudo o que razoavelmente se puder aduzir contra a nulidade ou dissolução. 76 O Defensor do vínculo, como o nome diz, tem por missão defender razoavelmente (“rationabiliter”) o vínculo da Ordem sacra e o vínculo do Matrimónio. “Pro vinculo, salva sempre veritate” foi uma expressão do Papa Pio XII. A sua função será a de opor-se, razoavelmente, à nulidade ou dissolução, isto é, se tiver razões suficientes para manter tal oposição. A sua actuação será sempre “pro rei veritate”. O Defensor do vínculo actua nos processos canónicos com a qualificação jurídica de “Parte”. O Defensor do vínculo intervém: - no processo de nulidade do matrimónio (c. 1678) - no processo documental (c. 1686), bem como na apelação do mesmo (c. 1688) - no processo para a dispensa do matrimónio rato e não consumado (c. 1701 §1). - nas causas de nulidade da sagrada ordenação. Cân. 1435 - Compete ao Bispo nomear o Promotor da justiça e o Defensor do vínculo, os quais sejam clérigos ou leigos, de fama íntegra, doutores ou licenciados em direito canónico, e de comprovada prudência e zelo da justiça. Promotor de justiça e Defensor do vínculo – acumulação de funções Cân. 1436 - § 1. A mesma pessoa pode desempenhar o ofício de Promotor da justiça e de Defensor do vínculo, mas não na mesma causa. § 2. O Promotor da justiça e o Defensor do vínculo podem ser constituídos quer para todas as causas, quer para cada uma delas; por justa causa, podem ser removidos pelo Bispo. O c. 1436 regula três situações distintas: - a compatibilidade e incompatibilidade dos ofícios de Promotor de justiça e Defensor do vínculo - a possibilidade de dois tipos de nomeação: nomeados para todas as causas ou para algumas delas - a remoção destas duas figuras jurídicas. Na verdade, não faz sentido algum, a mesma pessoa ser Promotor de justiça e Defensor do vínculo na mesma causa, por exemplo, numa causa de nulidade matrimonial. É que, como Promotor de justiça defenderia a nulidade desse matrimónio e, como Defensor do vínculo, faria o contrário, isto é, defenderia a validade desse matrimónio. Colaboradores do juiz: auditor e assessor Assessor Cân. 1424 - Em qualquer juízo, o juiz único pode agregar a si, como consultores, dois assessores, clérigos ou leigos de vida comprovada. M.P. Mitis iudex Dominus Iesus: Art. 5 - O processo matrimonial mais breve diante do Bispo Cân. 1685. O vigário judicial, no mesmo decreto com que determina a fórmula da dúvida, nomeie o instrutor e o assessor e cite para a sessão, que se deve celebrar nos termos do cân. 1686, não para além de trinta dias, todos aqueles que devem nela participar. Cân. 1687 § 1. Recebidos os autos, o Bispo diocesano, depois de consultar o instrutor e o assessor, avaliadas as observações do defensor do vínculo e, se houver, as alegações das partes, se chegar à certeza 77 moral sobre a nulidade do matrimónio emane a sentença. Caso contrário, envie a causa para o processo ordinário. A faculdade de agregar a si assessores está atribuída, pelo c. 1424, unicamente tratando-se de juiz único, nunca de um colectivo de Juízes ou Tribunal colegial. Na normativa, introduzida em 8 de Dezembro de 2015, pelo Papa Francisco, no Motu próprio Mitis Iudex Dominus Iesus, sobre o “processo mais breve” nas causas de nulidade do matrimónio, o juiz deve agregar a si um assessor. No Tribunal unipessoal, o juiz é clérigo. Porém, o juiz clérigo pode agregar a si, como consultores, dois assessores, clérigos ou leigos (homem ou mulher), de vida comprovada. Podem ser designados pelo Vigário judicial, mas quem os nomeia é o bispo diocesano. Quanto à necessidade de um assessor nada consta da sua obrigatoriedade, nos processos ordinários comuns. No entanto, o c. 1425 §4 determina que “no primeiro grau do juízo, se eventualmente não for possível constituir o colégio de juízes, a Conferência episcopal, enquanto perdurar a impossibilidade, pode permitir que o Bispo confie as causas a um único juiz clérigo, que, quando for possível, agregue a si um assessor.” Sublinhe-se “quando for possível”. O múnus do assessor é aconselhar o juiz. Intervém na parte decisória, aconselhando o juiz (voto consultivo). Não pode desempenhar validamente a função de assessor: - quem interveio na causa como juiz, Promotor de justiça, Defensor do vínculo, procurador, advogado, testemunha ou perito; - quem estiver afectado pelas circunstâncias elencadas no c. 1448 §1 (ter algum interesse em razão da consanguinidade ou afinidade em qualquer grau da linha recta ou até ao quarto grau da linha colateral, ou em razão da tutela e curatela, intimidade de vida, grande aversão, obtenção de lucro ou prevenção de dano), conforme determinado no c. 1448 §2. O assessor deve prestar juramento de cumprir rectamente e fielmente o seu cargo (c. 1456) e está obrigado a guardar segredo de ofício (c. 1455). A figura de assessor está, igualmente, prevista no procedimento administrativo para a imposição de uma sanção canónica (c. 1720, 2º). Auditor Cân. 1428 - § 1. O juiz ou o presidente do tribunal colegial pode designar um auditor para realizar a instrução da causa, escolhendo-o de entre os juízes ou outras pessoas aprovadas pelo Bispo para esse múnus. § 2. Para o múnus de auditor o Bispo pode aprovar clérigos ou leigos que se distingam pelos bons costumes, prudência e doutrina. § 3. Ao auditor apenas compete, em conformidade com o mandato do juiz, coligir as provas e, uma vez coligidas, entregá-las ao juiz; pode ainda, a não ser que obste mandato do juiz, decidir, entretanto, quais as provas e o modo como elas se devem coligir, se eventualmente surgir uma questão sobre esta matéria, enquanto ele exerce o múnus. O Auditor é uma pessoa pública cujo múnus é citar as testemunhas, ouvir e coligir as provas e, uma vez coligidas, entregá-las ao juiz. O Auditor pode, entretanto, decidir quais as provas que devem ser apresentadas e o modo como devam ser coligidas e decidir se, eventualmente, surgir alguma questão sobre essa matéria e enquanto ele está a exercer o seu munis. Mas tudo em conformidade com o mandato do juiz. O Auditor actua, praticamente, no meio da causa. Não faz a introdução da causa, mas a instrução da causa. Entra algo na discussão, nunca no período decisório. No período executório, só por mandato. O Auditor pode ser designado pelo Juiz ou pertencer ao elenco das pessoas aprovadas pelo bispo diocesano para essa função. O múnus do auditor é um múnus eclesiástico e não um ofício estavelmente constituído. Muitas vezes exerce jurisdição, mas nem sempre. O seu poder não é ordinário, mas é delegado do juiz. Pode não ser juiz. 78 Advogados e procuradores O procurador é aquele que é mandatário e representa a Parte. O advogado é aquele que defende os direitos da Parte. O Código de direito canónico trata, por vezes, destas duas figuras “ad modum unius”. Constituição de procuradores forenses e advogados 1. Quanto à sua índole: 1.1 – É facultativa. Há, no entanto, excepções, tornando-se necessários: 1.1.1 Para ambos, por disposição do juiz, nos casos previstos pelo direito (c. 1481 §1) 1.1.2 Para o advogado, nos casos previstos pelo direito (c. 1481 §§ 2 e 3: no juízo penal e no juízo contencioso se se tratar de menores ou de juízo em que esteja em causa o bem público, exceptuadas as causas matrimoniais. 1.2 – O procurador é único. Os advogados podem ser vários (c. 1482). 1.3 – Poderão acumular o múnus, isto é, a mesma pessoa ser, ao mesmo tempo e na mesma causa, procurador e advogado? O Código actual faz silêncio sobre esta matéria. O CIC 1917, no c. 1656 §4, diz: “Ambos os ofícios, o de procurador e o de advogado, podem ser desempenhados pela mesma pessoa, mesmo que seja na mesma causa e em nome do mesmo cliente”. Portanto, pode acumular. É o que se faz, normalmente, nas causas de nulidade matrimonial. 2. Quanto aos requisitos: 2.1 – O c. 1483 pronuncia-se deste modo: “Procurador e advogado devem ser de maior idade, e de boa fama; o advogado além disso deve ser católico, a não ser que o Bispo diocesano permita outra coisa, e doutor em direito canónico, ou pelo menos verdadeiramente perito, e aprovado pelo mesmo Bispo” 2.2 – Se for acatólico, o bispo pode aceitá-lo. De que bispo se trata? Trata-se do bispo diocesano do Tribunal. 2.3 – Os advogados necessitam da aprovação do bispo diocesano. 3. Quanto ao mandato: 3.1 – O CIC 1917 obriga a isso, no c. 1659. Cfr. o Código actual, no c. 1484 §1: O procurador e o advogado antes de iniciarem o ofício, devem apresentar ao tribunal uma procuração autêntica. 3.2 – Há uma excepção – c. 1484 §2: Para impedir a extinção de um direito, o juiz pode admitir um procurador mesmo sem ainda este ter apresentado a procuração.” Esta determinação salvaguarda o que está determinado no c. 1620, 6º que diz que a sentença está ferida de nulidade insanável se alguém tiver agido em nome alheio, sem ter mandato legítimo. 3.3 - Requer-se mandato especial para, segundo o c. 1485, “renunciar validamente à acção, à instância ou a actos judiciais, fazer transacções, pactuar, aceitar compromissos arbitrais, e em geral praticar aquilo para que o direito exige procuração especial.” Mas não se requer mandato especial para apelar (c. 1486 §2). Mesmo que a Parte desconheça as leis processuais e actue e responda por si mesma, sem advogado, mantém-se intacto o seu direito de defesa. No entanto, se ao juiz parece que a Parte não se defenderá, convenientemente, sem a intervenção de um advogado ou de um procurador, poderá exigir que tal presença seja necessária. O procurador tem uma função representativa. O advogado tem uma função de assistência e de defesa da Parte. Remoção de procuradores forenses e advogados 1. Intimada pela parte mandante. É condição “ad valorem”. O c. 1486 §1 diz: “Para que a remoção do procurador ou do advogado surta efeito, requer-se que lhe seja intimada.” 2. Intimada pelo juiz: 79 2.1 – “Ex officio” ou a instância das Partes. É o can. 1487 - Tanto o procurador como o advogado podem ser rejeitados pelo juiz quer oficiosamente quer a instância da parte. 2.2 – Por causa grave. É o can. 1487: “Por causa grave, tanto o procurador…” Cân. 1481 - § 1. A parte pode livremente constituir advogado e procurador; mas fora dos casos previstos nos §§ 2 e 3, pode também agir e responder por si mesma, a não ser que o juiz julgue necessária a intervenção de procurador ou de advogado. § 2. No juízo penal o acusado deve ter sempre advogado constituído por si mesmo ou dado pelo juiz. § 3. No juízo contencioso, se se tratar de menores ou de juízo em que esteja em causa o bem público, exceptuadas as causas matrimoniais, o juiz constitua um defensor oficioso à parte que dele careça. Cân. 1482 - § 1. Qualquer pessoa pode constituir um único procurador, que não pode substabelecer em outrem, a não ser que lhe tenha sido dada expressamente tal faculdade. § 2. Se, por justa causa, forem constituídos vários procuradores pela mesma pessoa, designem-se de tal forma, que entre eles haja lugar a prevenção. § 3. Podem constituir-se simultaneamente vários advogados. O can. 1482 não aborda a possibilidade das funções de procurador e advogado serem assumidas pela mesma pessoa. Esta faculdade estava expressamente assumida nos projectos da revisão do novo Código.27 Permanece, no Código de 1983 tal possibilidade: unir as duas funções na mesma pessoa. É assim, de maneira comum, nas causas matrimoniais. Curador e advogado é que parece não serem funções acumuláveis na mesma pessoa. Na verdade, segundo a lei, o curador, podendo nomear o advogado, pode, também, rejeitá-lo, caso não esteja satisfeito com o seu trabalho. Cân. 1483 - Procurador e advogado devem ser de maior idade, e de boa fama; o advogado além disso deve ser católico, a não ser que o Bispo diocesano permita outra coisa, e doutor em direito canónico, ou pelo menos verdadeiramente perito, e aprovado pelo mesmo Bispo. Além destas condições e uma vez verificadas, estes profissionais são admitidos ao exercício das suas tarefas ou “ad casum” ou inscritos no elenco dos profissionais habilitados para o exercício da profissão forense, junto do bispo diocesano. A inscrição no elenco, junto do Tribunal diocesano, por autorização do bispo diocesano, e a aprovação destes profissionais “ad casum” é um acto necessário e obrigatório. Agir sem mandato legítimo acarreta a nulidade insanável da sentença (c. 1620, 6º). Cân. 1484 - § 1. O procurador e o advogado antes de iniciarem o ofício, devem apresentar ao tribunal uma procuração autêntica. O mandato do procurador ou do advogado deve ser por escrito e autêntico. O mandato pode ser conferido pela Parte, como também pelo juiz. Quem afere dessa autenticidade será a autoridade eclesiástica (o chanceler da Cúria diocesana, o notário, o pároco – cfr. cc. 482, 535). Cân. 1485 - A não ser que tenha procuração especial, o procurador não pode renunciar validamente à acção, à instância ou a actos judiciais, 27 Cfr. Comm. 10 (1978) 269. 80 nem fazer transacções, pactuar, aceitar compromissos arbitrais, e em geral praticar aquilo para que o direito exige procuração especial. Cân. 1486 - § 1. Para que a remoção do procurador ou do advogado surta efeito, requer-se que lhe seja intimada, e, se a lide já tiver sido contestada, o juiz e a parte contrária sejam notificados da remoção. § 2. Proferida a sentença definitiva, o procurador conserva o direito e o dever de apelar, a não ser que o mandante se oponha. A remoção do mandato do procurador ou do advogado partirá da iniciativa da Parte ou do juiz, tal como a nomeação dos mesmos que partiu da iniciativa da Parte ou “ex officio” do Juiz. Para ser eficaz deve ser intimada. Isso implica a suspensão da instância (c. 1519 §1) até que a Parte indique um novo procurador ou, se a Parte negligenciar o assunto, o juiz nomeie outro procurador (c. 1519 §2). A intimação deve ser feita por escrito, tal como a nomeação foi feita por escrito. Não é exigido que seja aceite nem que seja motivada. O mesmo se diga do advogado. Cân. 1487 - Por causa grave, tanto o procurador como o advogado podem ser rejeitados pelo juiz quer oficiosamente quer a instância da parte. Não se trata, apenas, de justa causa para se remover seja o procurador como o advogado. Tem de ser causa grave. Entre as causas graves poderemos mencionar a heresia, apostasia, perda da boa fama, viver em união de facto ou atentar matrimónio civil. Nestas situações, podem ser rejeitados. Quem os rejeita é o juiz, não são as Partes. O juiz rejeitá-los-á, seja oficiosamente, isto é, a partir do próprio juiz, como os rejeitará, a partir da instância ou pedido da Parte. Cân. 1488 - § 1. Proíbe-se a um e ao outro comprar a lide ou pactuar entre si acerca de emolumentos excessivos ou acerca da parte reivindicada da coisa em litígio. Se o fizerem, tal pacto é nulo, e podem ser multados pelo juiz com pena pecuniária. Além disso, o advogado pode ser suspenso não só do ofício, mas também, em caso de recidiva, ser riscado da lista dos advogados pelo Bispo que preside ao tribunal. § 2. Podem ser punidos do mesmo modo os advogados e procuradores que, com fraude da lei, subtraiam as causas aos tribunais competentes, para serem julgadas mais favoravelmente por outros tribunais. Três coisas são proibidas aos advogados e aos procuradores: 1. Comprar a causa. Isto significa o advogado pagar à Parte uma quantia monetária para levar a causa da Parte até ao fim, no compromisso da Parte lhe pagar uma percentagem fixada previamente sobre o que a Parte ganhou com essa causa. 2. Exigir emolumentos excessivos. Evidentemente que, para se poder falar do carácter excessivo dos emolumentos, é preciso que exista uma tabela que fixe os honorários. 3. Pactuar uma parte da causa levada a litígio. É a mesma situação da alínea 1, acima referida, mas versando só sobre uma parte da causa. O §2 deste c. 1488 é novo no Código actual. Trata-se de uma artimanha que é desviar as causas dos respectivos Tribunais competentes para as colocar em Tribunais que se julga serem mais favoráveis aos interesses, tanto das Partes como dos advogados e procuradores. Cân. 1489 - Os advogados e procuradores que traírem o seu dever graças a donativos, promessas ou por qualquer outra forma, sejam 81 suspensos de exercício do patrocínio, e punidos com multa pecuniária ou outras penas adequadas.28 “As injustiças podem encontrar-se na preparação do processo quando, pelas manipulações de profissionais sem escrúpulos, as causas vos fossem apresentadas já fundamentalmente alteradas na sua realidade jurídica, com motivos infundados, provas inconclusivas, testemunhas subornadas, documentos contrafeitos ou manipulados.”29 As injustiças podem, também, encontrar-se nos emolumentos excessivos que impedem os pobres de ter acesso à justiça da Igreja. Lembramos o c. 1649 sobre “as custas judiciais e o patrocínio gratuito”: Cân. 1649 - § 1. O Bispo, a quem compete superintender no tribunal, estabeleça normas acerca: 1.° da condenação das partes ao pagamento ou à compensação das custas judiciais; 2.° dos honorários dos procuradores, advogados, peritos e intérpretes, bem como das indemnizações às testemunhas; 3.° da concessão do patrocínio gratuito ou da redução das custas; 4.° da reparação dos danos devida por aquele que não só perdeu a causa, mas que litigou temerariamente; 5.° do depósito da quantia ou da garantia para pagamento das custas ou da reparação dos danos. § 2. Da decisão acerca das custas, honorários ou reparação dos danos não se dá apelação distinta, mas a parte pode apresentar recurso dentro do prazo de quinze dias perante o próprio juiz, que pode modificar a taxação. A Santa Sé pronuncia-se deste modo: “Afastar-se de qualquer sombra de suspeição no custo da administração da justiça é um dever moral que implica a responsabilidade individual para assumir altas implicações sociais, dado que seria de "per se" uma injustiça, inadmissível no seio da Igreja, que um privado não possa pensar em obter justiça senão a alto preço. Desta reprovação estão longe os Tribunais eclesiásticos - e podem como tal considerar-se diante dos homens e diante de Deus -, porque eles são largamente generosos em conceder o benefício da assistência gratuita. A Sagrada Rota Romana, como vós me fizeste conhecer, também este ano tratou com patrocínio gratuito ou com redução das despesas processuais um número de causas correspondente a quarenta por cento. Disto nos alegramos vivamente especialmente convosco, dilectos e ilustres Senhores Advogados, que estais habilitados a patrocinar nos Tribunais da Igreja. Porém um modo diverso de proceder, que a vós não é conveniente, seria tanto mais reprovável quanto ofereceria um desmerecido motivo de crítica no interior da própria Igreja.”30 Por sua vez, o Papa Francisco, no Motu Proprio Mitis Iudex afirma: “Juntamente com a proximidade do juiz, as Conferências Episcopais cuidem, tanto quanto possível, que, sem prejuízo da justa e digna retribuição dos operadores dos tribunais, seja assegurada a gratuidade dos processos, para que a Igreja, mostrando-se aos fiéis mãe generosa, numa matéria tão estreitamente ligada à salvação das almas, manifeste o amor gratuito de Cristo pelo qual todos fomos salvos.” Cân. 1490 - Em cada tribunal, na medida do possível, constituam-se patronos estáveis, estipendiados pelo mesmo tribunal, para exercerem o múnus de procurador ou de advogado especialmente nas causas matrimoniais para as partes que os preferirem. 28 Cf. câns. 1386; 1389; 1391, n. 2; 1470, § 2; 1488-1489. 29 Discurso do Santo Padre Paulo VI aos Prelados auditores, Oficiais e aos Advogados do Tribunal da Rota Romana, 11 Janeiro de 1965 [AAS LVII (1965), 233 ss.]. 30 Ibidem. 82 A lei fala de procuradores e advogados estáveis, pagos pelo Tribunal, para as Partes em causa que os desejarem como seus patronos. Não se trata de uma obrigação mas de uma medida pastoral interessante a implementar, se possível. A Parte continua com o seu direito de escolher o patrono que entender, desde que esteja inscrito no elenco diocesano ou seja admitido “ad casum” pelo bispo diocesano. Tribunal de segunda instância Cân. 1438 - Sem prejuízo do prescrito no cân. 1444, § 1, n.° 1: 1.° do tribunal do Bispo sufragâneo apela-se para o tribunal do Metropolita, salvo o prescrito no cân. 1439; 2.° nas causas decididas em primeira instância no tribunal do Metropolita apela-se para o tribunal que ele, com a aprovação da Sé Apostólica, tiver designado de modo estável; 3.° para as causas decididas perante o Superior provincial, o tribunal de segunda instância é o do Moderador supremo; para as causas decididas perante o Abade local, é o do Abade superior da congregação monástica. No c. 1438 são apresentados, de modo taxativo, os Tribunais a que se recorrer, em apelação, para a 2ª instância. Importa referir que o Tribunal da Rota Romana funciona como Tribunal de apelação (2ª instância) relativamente a qualquer Tribunal de 1ª instância, no mundo católico. Temos em conta o que foi determinado pelo c. 1427 §3: “Se a controvérsia surgir entre pessoas físicas ou jurídicas religiosas de diversos institutos religiosos, ou ainda do mesmo instituto clerical de direito diocesano ou laical, ou entre uma pessoa religiosa e um clérigo secular ou leigo ou pessoa jurídica não religiosa, julga em primeira instância o tribunal diocesano.” Cân. 1439 - § 1. Se se tiver constituído um único tribunal de primeira instância para várias dioceses, em conformidade com o cân. 1423, a Conferência episcopal, com aprovação da Sé Apostólica, deve constituir o tribunal de segunda instância, a não ser que todas as dioceses sejam sufragâneas da mesma arquidiocese. § 2. A Conferência episcopal, com a aprovação da Sé Apostólica, pode constituir um ou mais tribunais de segunda instância, mesmo fora dos casos previstos no § l. § 3. Com respeito aos tribunais de segunda instância referidos nos §§ 12, a Conferência episcopal ou o Bispo por ela designado tem todos os poderes que competem ao Bispo diocesano relativamente ao seu tribunal. Podemos considerar três possibilidades: - Existir um Tribunal interdiocesano de primeira instância para as dioceses da mesma província eclesiástica. O Tribunal de apelação será o Tribunal da diocese metropolitana. Não é obrigatório que sejam todas as dioceses sufragâneas a integrarem esse Tribunal interdiocesano. Basta que as que quiserem integrá-lo pertençam à mesma província eclesiástica. - Se a diocese metropolitana integrar esse Tribunal interdiocesano, competirá à Conferência episcopal, com a aprovação da Sé Apostólica, indicar qual seja o Tribunal de 2ª instância para a diocese metropolitana. Isto é, tal decisão de ser o Arcebispo metropolitano a constituir uma diocese sufragânea como seu Tribunal de apelação, não vale. E não vale, mesmo que tal seja decidido em conjunto com as dioceses que integram o tribunal interdiocesano de primeira instância. Tem de ser a Conferência episcopal, com a aprovação da Sé Apostólica, a indicar qual seja o Tribunal de 2ª instância para a diocese metropolitana. 83 - Se o Tribunal interdiocesano for constituído por dioceses pertencentes a mais do que uma província eclesiástica, haja ou não haja um Arcebispo metropolitano nesse conjunto de dioceses, será sempre a Conferência episcopal, com a aprovação da Sé Apostólica, a indicar qual seja o Tribunal de 2ª instância. Romano Pontífice, Juiz supremo Cân. 1442 - O Romano Pontífice é o juiz supremo para todo o orbe católico, e julga ou por si mesmo ou por meio dos tribunais ordinários da Sé Apostólica, ou por meio de juízes por si delegados. Sendo o Romano Pontífice o juiz supremo para todo o mundo católico, fica determinada: - a impossibilidade de alguém julgar os actos do Romano Pontífice (cc. 1404, 1406 §1, 1732) - a impossibilidade de apelação ou recurso contra as sentenças ou decretos do Romano Pontífice (cc. 333 §3, 1629, 1º). Modos como o Romano Pontífice julga as causas 1. O Romano Pontífice julga as causas pessoalmente. Da sua decisão não há qualquer recurso. A única coisa que se poderá pedir ao Romano Pontífice é um novo exame da causa. 2. O Romano Pontífice julga as causas mediante os Tribunais ordinários da Santa Sé (a Rota Romana e a Assinatura Apostólica). Este é o modo ordinário do exercício do poder judicial, por parte do Romano Pontífice. Mesmo assim, as decisões não podem ser tidas como decisões do Romano Pontífice e, por isso, podem ser impugnadas. 3. O Romano Pontífice julga as causas mediante juízes delegados por Ele próprio. Quando o Romano Pontífice avoca a si alguma causa judicial, normalmente a entrega ao Tribunal da Rota Romana ou, se se tratar de uma controvérsia administrativa, entrega-a ao Tribunal da Assinatura Apostólica. Pode, no entanto, delegar noutros juízes e para qualquer causa. Neste caso, pertence ao Romano Pontífice determinar as normas que se devem observar e o carácter impugnável ou não das decisões. Tribunais da Sé Apostólica - Penitenciaria Apostólica - Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica - Tribunal da Rota Romana Penitenciaria Apostólica A Constituição Apostólica Pastor Bonus (28.6.1988) confirma que a competência do Tribunal da Penitenciaria compreende tudo o que diz respeito ao foro interno, mesmo não sacramental, e, além disso, tudo o que diz respeito à concessão e ao uso das indulgências, salvo o direito da Congregação da Doutrina da Fé de examinar o que diga respeito à doutrina dogmática acerca das indulgências. Para o foro interno, tanto sacramental como não sacramental, ela concede as absolvições, as dispensas, as comutações, as sanções, as remissões e outras graças. Tribunal da Rota Romana O Tribunal da Rota Romana é Tribunal exclusivo de 3ª instância. Há, no entanto, excepções institucionalizadas, como são o caso da Rota da Nunciatura Espanhola e da Polónia. Pode dar-se 84 o caso de, pontualmente, o Tribunal de alguma diocese ser chamado a tornar-se, para aquela causa, Tribunal de 3ª instância. 31 Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica Este Tribunal da Cúria Romana não é apenas Tribunal porque, na realidade, desempenha outras funções. É uma instituição em evolução e está dividida em três secções, no sentido de três espécies distintas de actividades, como consta do c. 1445 e dos artigos 122-124 da Constituição Apostólica Pastor Bonus: - Primeira Secção – causas contenciosas e penais - Segunda Secção – causas contencioso-administrativas - Terceira Secção – órgão administrativo com competência sobre a administração da justiça na Igreja (semelhante a um Ministério da Justiça estatal). Normas processuais para os delitos canónicos mais graves No novo texto das Normae de gravioribus delictis, tal como foi modificado após a decisão do Romano Pontífice Bento XVI de 21 de Maio de 2010, estão presentes várias emendas, quer na parte relativa às normas substanciais, quer na relativa às normas processuais. As modificações introduzidas no texto normativo são as seguintes: A) após a concessão, por obra do Santo Padre João Paulo II, a favor da Congregação para a Doutrina da Fé, de algumas faculdades, sucessivamente confirmadas pelo sucessor Bento XVI com data de 6 de Maio de 2005, foram inseridos: 1. o direito, prévio mandato do Romano Pontífice, de julgar os Padres Cardeais, os Patriarcas, os Legados da Sé Apostólica, os Bispos e outras pessoas físicas segundo os câns. 1405 §3 CDC e 1061 CCIO (art 1 §2); 2. a ampliação do termo de prescrição da acção criminosa, que foi aumentado para 20 anos, salvo sempre o direito da Congregação para a Doutrina da Fé de o derrogar (art. 7); 3. a faculdade de conceder aos funcionários do Tribunal e aos Advogados e Procuradores a dispensa do requisito do sacerdócio e da licenciatura em direito canónico (art. 15); 4. a faculdade de corrigir as actas em caso de violação unicamente das leis processuais por obra dos Tribunais inferiores, salvo o direito de defesa (art. 18); 5. A faculdade de dispensar da via processual judiciária, ou seja, de proceder per decretum extra iudicium: neste caso a Congregação para a Doutrina da Fé, avaliado o caso individualmente, decide de cada vez, ex officio ou por solicitação do Ordinário ou do Hierarca, quando autorizar o recurso à via extrajudiciária (contudo, para a irrogação de penas expiatórias perpétuas é necessário o mandato da Congregação para a Doutrina da Fé) (art.21 §2n.1); 6. a faculdade de apresentar directamente o caso ao Santo Padre para a dimissio e statu clerical ou para a depositio, una cum dispensatione a lege caelibatus: nesta hipótese, excepto sempre a faculdade de defesa do acusado, além da extrema gravidade do caso, deve resultar manifestamente a comissão do delito objecto de exame (art. 21 §2 n. 2); 7. a faculdade de recorrer ao grau superior de julgamento da Sessão Ordinária da Congregação para a Doutrina da Fé, no caso de recursos contra providências administrativas, emanadas ou aprovadas pelos graus inferiores da mesma Congregação, relativos aos casos de delitos reservados(art. 27). B). Além disso foram inseridas no texto ulteriores modificações, e principalmente: 8. Foram introduzidos os delicta contra fidem, ou seja, heresia, apostasia e cisma, relativamente aos quais foi prevista em particular a competência do Ordinário, ad normam iuris, a proceder judicialmente ou extra iudicium em primeira instância, 31 Os cânones 1443 e 1444 foram abrogados e o seu conteúdo legislativo foi substituído pelos artigos 126-130 da Constituição Apostólica PASTOR BONUS, de João Paulo II. 85 salvo o direito de apelar ou recorrer perante a Congregação para a Doutrina da Fé (art. 1 §1 e art. 2); 9. Nos delitos contra a Eucaristia, os casos delituosos do attentatio liturgiae eucharistici Sacrificii actionis, em conformidade com o cân. 1378 §2 n. 1 CDC, e a simulação da mesma, em conformidade com o cân. 1379 do CDC e 1443 do CCIO, já não são consideradas unitariamente no mesmo número, mas são avaliadas separadamente (art. 3 §1 nn. 2 e 3); 10. Sempre nos delitos contra a Eucaristia, foram eliminados, em relação ao texto precedentemente em vigor, duas frases, precisamente: "alterius materiae sine altera", e "aut etiam utriusque extra eucharisticam celebrationem", respectivamente substituídos com "unius materiae vel utriusque"e com "aut extra eam" (art. 3 §2); 11. Nos delitos contra o sacramento da Penitência, foram introduzidos os casos delituosos conforme ao cân. 1378 §2 n. 2 do CDC (tentar conceder a absolvição sacramental, não a podendo conceder validamente, ou ouvir a confissão sacramental) e aos cânn. 1379 do CDC e 1443 do CCIO (simulação da absolvição sacramental) (art. 4 §1 nn. 2 e 3); 12. Foram inseridos os casos da violação indirecta do sigilo sacramental (art. 4 §1 n. 5) e da captação e divulgação, cometidas maliciosamente, pelas confissões sacramentais (iuxta decreto da Congregação para a Doutrina da Fé de 23 de Setembro de 1988) (art. 4 §2); 13. Foi introduzido o caso penal da tentada ordenação sagrada de uma mulher, segundo quanto estabelecido no decreto da Congregação para a Doutrina da Fé de 19 de Dezembro de 2007 (art. 5); 14. Nos delicta contra mores: foi equiparado com o menor a pessoa de maior idade que habitualmente faz um uso imperfeito da razão, tudo com expresso limite do número em questão (art. 6 §1 n. 1); 15. Além disso, acrescentou-se o caso que inclui a aquisição, a detenção ou a divulgação, a clerico turpe patrata, de qualquer modo e com qualquer meio, de imagens pornográficas que têm como objecto menores com idade inferior a 14 anos (art. 6 §1 n. 2); 16. Esclareceu-se que i munera processui praeliminaria, podem, e já não devem ser cumpridos pela Congregação para a Doutrina da Fé (art. 17); 17. Foi introduzida a possibilidade de adoptar as medidas cautelares, conforme ao cân. 1722 do CDC e ao cân 1473 do CCIO, também durante a fase da averiguação prévia (art. 19).32 Primeira Parte - NORMAS SUBSTANCIAIS Art. 1 §1. A Congregação para a Doutrina da Fé, nos termos do art. 52 da Constituição Apostólica Pastor bonus, julga os delitos contra a fé e os delitos mais graves cometidos contra os costumes ou na celebração dos sacramentos e, se for o caso, procede a declarar ou a irrogar as sanções canónicas nos termos do direito, quer comum quer próprio, salva a competência da Penitenciaria Apostólica e salvaguardando a Agendi ratio in doctrinarum examine. § 2. Nos delitos a que se refere o §1, por mandato do Romano Pontífice, a Congregação para a Doutrina da Fé tem o direito de julgar os Padres Cardeais, os Patriarcas, os Legados da Sé Apostólica, os Bispos, assim como as outras pessoas físicas a que se refere o cân. 1405 §3 do Código de Direito Canónico e o cân. 1061 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais. § 3. A Congregação para a Doutrina da Fé julga os delitos reservados que constam no §1 nos termos dos artigos seguintes. Art. 2 32 Roma, Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 21 de Maio de 2010. 86 § 1. Os delitos contra a fé, a que se refere o art. 1, são a heresia, a apostasia e o cisma, nos termos dos câns. 751 e 1364 do Código de Direito Canónico e dos câns. 1436 e 1437 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais. § 2. Os casos a que se refere o §1, nos termos do direito compete ao Ordinário ou ao Hierarca anular, se necessário, a excomunhão latae sententiae e realizar o processo judiciário em primeira instância ou extrajudiciário por decreto, salvo o direito de apelo ou de recurso à Congregação para a Doutrina da Fé. Art. 3 § 1. Os delitos mais graves contra a santidade do augustíssimo Sacrifício e sacramento da Eucaristia reservados ao julgamento da Congregação para a Doutrina da Fé são: 1° a ablação ou a conservação para fins sacrílegos, ou a profanação das espécies consagradas, a que se refere o cân. 1367 do Código de Direito Canónico e o cân. 1442 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais; 2° a tentada acção litúrgica do Sacrifício eucarístico segundo o cân. 1378 §2 n. 1 do Código de Direito Canónico; 3° a simulação da acção litúrgica do Sacrifício eucarístico segundo o cân. 1379 do Código de Direito Canónico e o cân. 1443 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais; 4° a concelebração do Sacrifício eucarístico proibida pelo cân. 908 do Código de Direito Canónico e pelo cân. 702 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, a que se refere o cân. 1365 do Código de Direito Canónico e o cân. 1440 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, juntamente com os ministros das comunidades eclesiais que não têm a sucessão apostólica e não reconhecem a dignidade sacramental da ordenação sacerdotal. § 2. Está reservado à Congregação para a Doutrina da Fé também o delito que consiste na consagração para fim sacrílego de uma só matéria ou de ambas, na celebração eucarística ou fora dela. Quem comete este delito, seja punido segundo a gravidade do crime, sem excluir a demissão ou a deposição. Art. 4 § 1. Os delitos mais graves contra a santidade do sacramento da Penitência reservados ao julgamento da Congregação para a Doutrina da Fé são: 1° a absolvição do cúmplice no pecado contra o sexto mandamento do Decálogo, a que se refere o cân. 1378 §1 do Código de Direito Canónico e o cân. 1457 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais; 2° a tentada absolvição sacramental ou a escuta proibida da confissão a que se refere o cân. 1378 §2, 2° do Código de Direito Canónico; 3° a simulação da absolvição sacramental a que se refere o cân. 1379 do Código de Direito Canónico e o cân. 1443 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais; 4° a solicitação ao pecado contra o sexto mandamento do Decálogo no acto ou por ocasião ou com o pretexto da confissão, a que se refere o cân. 1387 do Código de Direito Canónico e o cân. 1458 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, se destinada ao pecado com o mesmo confessor; 5° a violação directa e indirecta do sigilo sacramental, de que fala o cân. 1388 §1 do Código de Direito Canónico e o cân. 1456 §1 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais. § 2. Sem alterar quanto disposto no §1 n. 5, à Congregação para a Doutrina da Fé fica reservado também o delito mais grave que consiste na gravação, feita com qualquer meio técnico, ou na divulgação com os meios de comunicação social realizada com malícia, de quanto é dito pelo confessor ou pelo penitente na confissão sacramental, verdadeira ou falsa. Aquele que comete este delito, seja punido segundo a gravidade do crime, sem excluir a demissão ou a deposição, se é um clérigo. Art. 5 À Congregação para a Doutrina da Fé é reservado também o delito mais grave de tentada sagrada ordenação de uma mulher: 87 1° Ficando estabelecido quanto disposto no cân. 1378 do Código de Direito Canónico, quer quem tenta conferir a ordem sagrada, quer a mulher que tenta a recepção da ordem sagrada, incorrem na excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica; 2° Depois se quem tenta conferir a ordem sagrada ou a mulher que tenta a recepção da ordem sagrada for um cristão sujeito ao Código dos Cânones das Igrejas Orientais, ficando estabelecido quanto disposto no cân. 1443 do mesmo Código, seja punido com a excomunhão maior, cuja remissão também é reservada à Sé Apostólica; 3° se depois o réu é um clérigo, pode ser punido com a demissão ou com a deposição. Art. 6 § 1. Os delitos mais graves contra os costumes, reservados ao julgamento da Congregação para a Doutrina da Fé, são: 1° o delito contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor de dezoito anos; neste número, é equiparada ao menor a pessoa que habitualmente tem um uso imperfeito da razão; 2° a aquisição ou a detenção ou a divulgação, para fins de libidinagem, de imagens pornográficas de menores com idade inferior aos catorze anos por parte de um clérigo, de qualquer modo e com qualquer instrumento. § 2. O clérigo que pratica os delitos a que se refere o §1 seja punido segundo a gravidade do crime, não excluída a demissão ou a deposição. Art. 7 § 1. Salvaguardando o direito da Congregação para a Doutrina da Fé de derrogar à prescrição para cada um dos casos, a acção criminal relativa aos delitos reservados à Congregação para a Doutrina da Fé extingue-se por prescrição em vinte anos. § 2. A prescrição decorre segundo o cân. 1362 §2 do Código de Direito Canónico e do cân. 1152 §3 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais. Mas no delito a que se refere o art. 6 §1 n. 1, a prescrição começa a decorrer a partir do dia em que o menor completou dezoito anos. Segunda Parte - NORMAS PROCESSUAIS TÍTULO I - Constituição e competência do Tribunal Art. 8 § 1. A Congregação para a Doutrina da Fé é o Supremo Tribunal Apostólico para a Igreja Latina, assim como para as Igrejas Orientais Católicas, para julgar os delitos definidos nos artigos precedentes. § 2. Este Supremo Tribunal julga também os outros delitos, dos quais o réu é acusado pelo Promotor de Justiça, em virtude da conexão da pessoa e da cumplicidade. § 3. As sentenças deste Supremo Tribunal, emitidas nos limites da própria competência, não estão sujeitas à aprovação do Sumo Pontífice. Art. 9 § 1. Os juízes deste Supremo Tribunal são, pelo mesmo direito, os Padres da Congregação para a Doutrina da Fé. § 2. Preside ao Colégio dos Padres, como primeiro entre iguais, o Prefeito da Congregação e, em caso de vacância ou de impedimento do Prefeito, desempenha o cargo o Secretário da Congregação. § 3. Compete ao Prefeito da Congregação nomear também os outros juízes estabelecidos ou encarregados. Art. 10 É necessário que sejam nomeados juízes sacerdotes de idade madura, munidos de doutoramento em direito canónico, de bons costumes, sobretudo que se distinguem por prudência e experiência jurídica, mesmo se exercem contemporaneamente o cargo de juiz ou de consultor noutro Organismo da Cúria Romana. Art. 11 88 Para apresentar ou defender a acusação, é constituído um Promotor de Justiça, que seja sacerdote, munido de doutoramento em direito canónico, de bons costumes, que se distinga particularmente por prudência e experiência jurídica, que desempenhe o seu cargo em todos os graus de juízo. Art. 12 Para as tarefas de Notário e de Chanceler são designados sacerdotes, quer Oficiais desta Congregação, quer externos. Art. 13 Desempenha a função de Advogado e Procurador um sacerdote, munido de doutoramento em direito canónico, que é aprovado pelo Presidente do colégio. Art. 14 Nos outros Tribunais, depois, para as causas a que se referem as presentes normas, podem desempenhar validamente os cargos de Juiz, Promotor de Justiça, Notário e Patrono apenas sacerdotes. Art. 15 Ficando estabelecido quanto prescrito pelo cân. 1421 do Código de Direito Canónico e pelo cân. 1087 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, à Congregação para a Doutrina da Fé é lícito conceder as dispensas dos requisitos do sacerdócio, assim como do doutoramento em direito canónico. Art. 16 Todas as vezes que o Ordinário ou o Hierarca recebe a notícia, pelo menos verosímil, de um delito mais grave, realizada a averiguação prévia, a dê a conhecer à Congregação para a Doutrina da Fé, a qual, se não avoca para si a causa por circunstâncias particulares, ordena ao Ordinário ou ao Hierarca que proceda ulteriormente, ficando estabelecido contudo, se necessário, o direito de apelo contra a sentença de primeiro grau apenas ao Supremo Tribunal da mesma Congregação. Art. 17 Se o caso for entregue directamente à Congregação, sem fazer a averiguação prévia, os preliminares do processo, que por direito comum competem ao Ordinário ou ao Hierarca, podem ser feitos pela mesma Congregação. Art. 18 A Congregação para a Doutrina da Fé, nas causas a ela legitimamente entregues, pode sanar os actos, salvaguardando o direito à defesa, se foram violadas leis meramente processuais por parte dos Tribunais inferiores que agem por mandato da mesma Congregação ou segundo o art. 16. Art. 19 Salvaguardando o direito do ordinário ou do Hierarca, desde o início da averiguação prévia, de impor quanto estabelecido no cân. 1722 do Código de Direito Canónico ou no cân. 1473 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, também o Presidente de turno do Tribunal, por solicitação do Promotor de Justiça, tem o mesmo poder com as mesmas condições determinadas nos mencionados cânones. Art. 20 O Supremo Tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé julga em segunda instância: 1° as causas julgadas em primeira instância pelos Tribunais inferiores; 2° as causas definidas em primeira instância pelo mesmo Supremo Tribunal Apostólico. TÍTULO II A ordem judiciária Art. 21 § 1. Os delitos mais graves reservados à Congregação para a Doutrina da Fé devem ser perseguidos em processo judiciário. § 2. Contudo, à Congregação para a Doutrina da Fé é lícito: 89 1° Em cada caso, por competência ou por solicitação do Ordinário ou do Hierarca, decidir proceder por decreto extrajudiciário, segundo o cân. 1720 do Código de Direito Canónico e o cân. 1486 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais; contudo, com o propósito de que as penas expiatórias perpétuas sejam infligidas unicamente por mandato da Congregação para a Doutrina da Fé; 2° Remeter directamente à decisão do Sumo Pontífice em mérito à demissão do estado clerical ou à deposição, juntamente com a dispensa da lei do celibato, os casos mais graves quando consta manifestamente a prática do delito, depois de ter sido dado ao réu a faculdade de se defender. Art. 22 Para julgar uma causa, o Prefeito constitua um Turno de três ou de cinco juízes. Art. 23 Se, no grau de apelo, o Promotor de Justiça apresenta uma causa especificamente diversa, este Supremo Tribunal pode admiti-la e julgá-la, como se fosse em primeira instância. Art. 24 § 1. Nas causas para os delitos aos quais se refere o art. 4 §1, o Tribunal não pode tornar público o nome do denunciante, nem ao acusado, nem ao seu Patrono, se o denunciante não deu expresso consentimento. § 2. O mesmo Tribunal deve avaliar com particular atenção a credibilidade do denunciante. § 3. Contudo, é preciso providenciar a que seja evitado absolutamente qualquer perigo de violação do sigilo sacramental. Art. 25 Se sobressai uma questão acidental, o Colégio defina o caso por decreto com a máxima rapidez. Art. 26 § 1. Salvaguardando o direito de apelo a este Supremo Tribunal, terminada de qualquer modo a instância noutro Tribunal, todas as actas da causa sejam transmitidas por competência quanto antes à Congregação para a Doutrina da Fé. § 2. O direito do Promotor de Justiça da Congregação de impugnar a sentença decorre a partir do dia em que a sentença de primeira instância foi notificada ao mesmo Procurador. Art. 27 Contra as actas administrativas singulares emitidas ou aprovadas pela Congregação para a Doutrina da Fé nos casos dos delitos reservados, admite-se o recurso, apresentado no prazo peremptório de sessenta dias úteis, à Congregação Ordinária (ou seja, Feria iv) da mesma Congregação, a qual julga o mérito e a legitimidade, eliminando qualquer ulterior recurso a que se refere o art. 123 da Constituição Apostólica Pastor bonus. Art. 28 A questão passa em julgado: 1° se a sentença foi emitida em segunda instância; 2° se o apelo contra a sentença não foi interposto no prazo de um mês; 3° se, em grau de apelo, a instância prescreveu ou se renunciou a ela; 4° se foi emitida uma sentença nos termos do art. 20. Art. 29 § 1. As despesas judiciárias sejam pagas segundo quanto estabelecido pela sentença. § 2. Se o réu não puder pagar as despesas, sejam pagas pelo Ordinário ou pelo Hierarca da causa. Art. 30 § 1. As causas deste género são sujeitas ao segredo pontifício. 90 § 2. Quem quer que viole o segredo ou, por dolo ou negligência grave, cause qualquer dano ao acusado ou às testemunhas, a pedido da parte lesada ou também por competência seja punido pelo Turno superior com penas côngruas. Art. 31 Nestas causas, juntamente com as prescrições destas normas, às quais são obrigados todos os Tribunais da Igreja Latina e das Igrejas Orientais Católicas, devem-se aplicar também os cânones sobre os delitos e as penas e sobre o processo penal de ambos os Códigos. Obstáculos ao exercício de funções judiciais Cân. 1448 - § l. O juiz não aceite conhecer de uma causa em que possa ter algum interesse em razão da consanguinidade ou afinidade em qualquer grau da linha recta ou até ao quarto grau da linha colateral, ou em razão da tutela e curatela, intimidade de vida, grande aversão, obtenção de lucro ou prevenção de dano. § 2. Nas mesmas circunstâncias devem abster-se de desempenhar o seu ofício o Promotor da justiça, o Defensor do vínculo, o assessor e o auditor. O juiz e os demais agentes do Tribunal devem pautar a sua acção pela imparcialidade. Pede-selhes imparcialidade, pastoralidade e competência. Duração das instâncias Cân. 1453 - Os juízes e os tribunais procurem que todas as causas terminem rapidamente, salvaguardada a justiça, para que não se demorem no tribunal de primeira instância mais de um ano, e no tribunal de segunda instância mais de seis meses. Há sentenças que, dadas tarde demais, se tornam inúteis. Claramente isso acontece em muitas causas de nulidade matrimonial. Refazer uma vida e amparar a vida dos filhos não se compadece com o transcorrer dos anos. O Papa Francisco, no referido M.P. Mitis Iudex, afirma: “O impulso reformador é alimentado pelo ingente número de fiéis que, embora desejando prover à sua própria consciência, muitas vezes foram afastados das estruturas jurídicas da Igreja por causa da distância física ou moral; ora, a caridade e a misericórdia exigem que a própria Igreja como mãe se torne próxima dos filhos que se consideram separados. Neste sentido, apontaram também os votos da maioria dos meus Irmãos no Episcopado, reunidos no recente Sínodo Extraordinário, que imploraram processos mais rápidos e acessíveis. Em total sintonia com tais desejos, decidi, com este Motu Proprio, dar disposições que favoreçam, não a nulidade dos matrimónios, mas a celeridade dos processos, no fundo, uma justa simplificação, para que, por causa da demora na definição do juízo, o coração dos fiéis que aguardam pelo esclarecimento do seu próprio estado não seja longamente oprimido pelas trevas da dúvida.” Segredo de ofício dos membros do Tribunal Cân. 1455 - § l. Os juízes e os auxiliares do tribunal estão obrigados a guardar segredo de ofício, no juízo penal sempre, e no contencioso quando da revelação de algum acto processual possa advir prejuízo para as partes. § 2. Também têm sempre obrigação de guardar segredo acerca da discussão havida entre os juízes no tribunal colegial antes de proferirem sentença, e bem assim acerca dos vários votos e das opiniões então expendidas, sem prejuízo do prescrito no cân. 1609, § 4. 91 § 3. Além disso, sempre que a natureza da causa ou das provas seja tal que da divulgação dos autos ou das provas resultar perigo para a fama de outrem, ou se oferecer ocasião de dissensões, ou surgir escândalo ou outro incómodo semelhante, o juiz poderá obrigar com juramento as testemunhas, os peritos, as partes e os seus advogados ou procuradores a guardarem segredo. Há situações práticas de questões melindrosas quando a revelação de certos actos processuais pode dar aso a difamações, calúnias, escândalos, ou outros conflitos que, do ponto de vista do direito civil, poderá conduzir a queixas-crime. Assim, no caso do libelo, em causas de declaração da nulidade do Matrimónio, sendo, por regra, comunicado à Parte Demandada, aquando da sua citação, no enquadramento do direito de legítima defesa, o Código de Direito Canónico prevê a possibilidade, com a tal justa causa avaliada pelo juiz, de tal documento serlhe enviado apenas em resumo e publicitado à Parte Demandada, no todo, somente aquando do seu depoimento, em sede de Tribunal (c.1507 §1). Proibição de donativos aos membros do Tribunal Cân. 1456 - Os juízes e todos os ministros do tribunal estão proibidos de, por ocasião da actuação nos juízos, aceitarem quaisquer donativos. A imparcialidade do juiz e de todos os ministros do Tribunal a isso o obrigam: não aceitarem quaisquer donativos, como suborno para corrupção da verdade. Quem pode agir em juízo Cân. 1476 - Qualquer pessoa, baptizada ou não, pode agir em juízo; a parte legitimamente demandada deve responder. 1. Podem agir “in iudicio” por si próprios: 1.1 – Todos, mesmo os não baptizados (c. 1476) 1.1.1 - Estende-se a todas as causas. 1.1.2 - Admitem-se, também, os excomungados. 1.2 – Desde que sejam maiores e com o uso da razão (c. 1478 §1). 1.3 – Podem usar um procurador, a não ser que sejam obrigados a comparecer pessoalmente (c. 1478 §1). 2. Não podem agir “in iudicio”: 2.1 – Absolutamente: 2.1.1 - Os que estão destituídos do uso da razão. Estes só podem agir pelos pais, tutores ou curadores (cc. 1478 §1; 1508 §3). 2.1.2 - As pessoas jurídicas. Estas só poderão agir através do seu legítimo representante (c. 1480 §1). Se, entretanto, houver negligência, actuará o Ordinário, por si ou por outros (c. 1480 §2). O “acto jurídico” tem de: - ser posto por pessoa hábil, segundo o direito - ser um acto com todos os elementos essenciais constitutivos do acto - ser posto com as solenidades e requisitos impostos pelo direito, para a validade. São três os requisitos, “ex natura rei”, para se pôr um acto jurídico: - capacidade jurídica - capacidade de agir juridicamente, “in genere” - capacidade de agir juridicamente “in casu”. Capacidade jurídica = gozar de personalidade jurídica na sociedade perante a qual age – a Igreja. Gozar de capacidade jurídica não tem a ver com o Baptismo mas tem a ver com ser pessoa. Capacidade de agir juridicamente, “in genere” = maturidade, quer de idade quer de mente. Significa a capacidade de estar “in iudicio, in genere”. 92 Capacidade de agir juridicamente “in casu” = posse do direito requerido para pôr o acto jurídico que está em questão. Significa a capacidade de estar “in iudicio, in specie”. Por exemplo: possuir o direito de propriedade sobre uma casa para a poder vender. Parte – é a pessoa jurídica que perante o Tribunal pede, em nome próprio, a defesa de um direito controverso, desde que o juiz tenha admitido a petição e citado o réu. Em oposição à Parte Autora está a Parte Demandada. A lei, segundo este c.1476, classifica como Parte Autora aquele que “potest in iudicio agere” e como Parte Demandada aquele que “respondere debet”. Fases do processo canónico ordinário Introduçã o da Causa Instrução Apresentação do libelo Constituição do Tribunal Exame do libelo pelo Presidente Citação das Partes Contestação da Lide Fixação da Dúvida Audição das Partes Prova documental Audição das testemunhas Perícias Causas Incidentais Publicação dos Autos Conclusão da Causa Alegações dos Advogados e Defensor do Vínculo Discussão Decisão Permuta das alegações Possibilidade de réplica Permuta de réplicas Possibilidade de tréplica pelo Defensor do Vínculo Sentença do Tribunal Remédios contra a sentença Species facti: descrição do processo In facto: Configuração dos factos In iure: Exposição doutrinal e jurisprudencial In facto et in iure: Análise do alegado e provado à luz do Direito proposto Conclusão que se pretende que o tribunal acolha Apelação Querela de Nulidade O libelo introdutório da lide Nenhum juízo sem Parte Autora Cân. 1501— O juiz não pode conhecer nenhuma causa, sem que, nos termos dos cânones, tenha sido apresentada petição pelo interessado ou pelo Promotor da justiça. O princípio fundamental é este: “nemo iudex sine actore”. Julgamento sem petição judicial resulta em nulidade insanável (o c. 1620, 4º prescreve: “A sentença está ferida de nulidade insanável se o juízo for realizado sem a petição judicial, referida no c. 1501, ou não for 93 instaurado contra alguma Parte Demandada”). Não há nenhum processo no direito canónico que possa ser iniciado pelo juiz “ex officio”, isto é, por iniciativa sua. Portanto, a petição inicial para a introdução de um qualquer processo deve ser feita por alguém distinto do juiz que conhecerá a causa. A Parte Autora de uma petição judicial é o interessado ou o Promotor de justiça. O Promotor de justiça apresenta ao juiz a petição judicial em duas circunstâncias: - quando a nulidade do matrimónio já está divulgada e não possa ou não convenha convalidar-se o matrimónio (c. 1674, 2º); - no processo penal judicial (c. 1721 §1). Como as causas da separação dos cônjuges dizem, também, respeito ao bem público, nelas deve intervir sempre o Promotor de justiça (c. 1696). Nas causas penais, o único que tem legitimidade para introduzir a acção penal perante o tribunal competente é o Promotor de justiça, enquanto os que foram afectados por esses delitos não gozam do direito de serem constituídos como Partes, no processo. O que podem fazer, como lesados, é, por sua iniciativa, reclamar, contenciosamente, à Igreja, no próprio juízo penal, o ressarcimento pelos danos causados (c. 1729). Cân. 1502 — Quem quiser demandar alguém, deve apresentar ao juiz competente o libelo, em que se proponha o objecto da controvérsia e se solicite o ministério do juiz. “Libelo” é o nome tradicional usado no direito canónico de um documento escrito e breve, que se envia ao juiz competente e onde se manifesta a vontade de alguém em iniciar uma causa, dando a conhecer, nesse documento, quais são os factos que invoca e a conclusão que pretende, como decisão do juiz. “Libelo” e “petição” acabam por significar a mesma coisa. No c. 1502, sumariamente, são indicadas as duas coisas essenciais no libelo: - qual é o objecto da controvérsia, - solicitar o ministério do juiz. Claro está que a matéria jurídica exarada no libelo deverá enquadrar-se na actividade jurisdicional que compete aos tribunais eclesiásticos. As outras formalidades para um libelo ser aceite vêm discriminadas nos cânones seguintes. Modo de apresentar a petição ao juiz A petição dirigida ao juiz pode ser feita de duas maneiras: - ou por escrito, através de um libelo (c. 1502) - ou por petição oral (c. 1503): - se a Parte Autora está impedida de apresentar o libelo, por escrito (ser analfabeta ou deficiente) - ou se a causa é de fácil investigação e de menor importância. No caso da petição oral, o notário lavra o auto por escrito, que é lido ao Autor e por ele assinado. As causas de nulidade matrimonial não podem ser tratadas por processo contencioso oral (c. 1690). Libelo Cân. 1504 — O libelo, pelo qual se introduz a lide, deve: 1.° especificar o juiz perante o qual a causa é introduzida, o que se pede, e contra quem; 2° indicar o direito em que se fundamenta o autor e, ao menos de forma genérica, os factos e provas em que se baseia para demonstrar o que afirma; 94 3.° ser assinado pelo autor ou pelo seu procurador, com indicação do dia, mês e ano, e bem assim o lugar em que o autor ou o seu procurador habitam, ou digam residir em ordem a aí receberem os actos; 4.° indicar o domicílio ou o quase-domicílio da Parte Demandada. No libelo solicita-se o ministério do juiz e propõe-se o objecto da controvérsia (c. 1502). Solicita-se o ministério do juiz (“coram quo” = juiz), especificando o tribunal ao qual a Parte Autora se dirige. Inicia-se o libelo nos seguintes termos: “Ao Tribunal Eclesiástico da diocese de…”. Tem de ser indicada a identidade da Parte Autora e a sua residência. Tem de ser indicado domicílio ou quase-domicílio da Parte Demandada. Indica-se a data e o local do casamento católico. Propõe-se o objecto da controvérsia: - delimitando o objecto da causa (“quid petitur”), por exemplo, pedir a declaração de nulidade do seu matrimónio católico. - Indicando contra quem se pede (Parte Demandada = “a quo petitur”). Se for contra uma pessoa jurídica (Confraria, por exemplo), deve indicar-se quem é o seu representante. - Indicando com que direito se pede (“quo iure”). Neste caso, são os capítulos de nulidade que se invocam. Não é suficiente invocar, no libelo, normas canónicas sobre a validade do matrimónio, se tais normas não se enquadrarem no alegado. Terá de haver uma adequação, ainda que mínima, entre o alegado e o direito, doutro modo, ter-se-á uma causa sem “fumus boni iuris”. - Apontando, genericamente, os factos e as provas. O libelo deve ser datado (dia, mês, ano) e assinado pela Parte Autora ou pelo seu procurador/advogado. No libelo para causas matrimoniais: - Tem de se juntar o mandato do Advogado/Procurador. - Tem de se juntar a fotocópia autenticada da acta do casamento católico e do baptismo da Parte Autora - Devem ser indicadas as testemunhas (nome, residência e contacto). - Outros documentos de interesse para a causa devem ser anexos ao libelo. Admissão ou rejeição do libelo Cân. 1505 — § 1. O juiz único ou o presidente do tribunal colegial, depois de verificarem que a causa é da sua competência e que o autor não carece de personalidade legítima para estar em juízo, devem quanto antes por decreto admitir ou rejeitar o libelo. § 2. O libelo só pode ser rejeitado: 1.° se o juiz ou o tribunal for incompetente; 2.° se constar sem dúvida que o autor carece de personalidade legítima para estar em juízo; 3.° se não tiverem sido observadas as prescrições do cân. 1504, n.º 1-3; 4.° se do próprio libelo se deduzir com certeza que a petição carece totalmente de fundamento, e não se possa esperar que do processo venha a surgir algum fundamento. § 3. Se o libelo tiver sido rejeitado por deficiências que possam ser supridas, o autor pode apresentar ao mesmo juiz outro libelo devidamente elaborado. § 4. Contra a rejeição do libelo a Parte tem sempre o direito de, no prazo útil de dez dias, interpor recurso devidamente fundamentado quer para o tribunal de apelação, quer para o colégio, se o libelo tiver sido rejeitado pelo presidente; a questão da rejeição deve ser decidida com a maior brevidade. 95 Se o Tribunal requerido não for competente, o juiz nem sequer examinará o libelo. Se o tribunal requerido for o do domicílio da Parte Autora, mas não o do domicílio da parte Demandada, então, o primeiro tribunal deverá entrar em contacto com o Tribunal do domicílio da Parte Demandada para que, esse Tribunal, na pessoa do Vigário judicial, consultando a Parte Demandada, autorize a que a causa seja tratada pelo Tribunal do domicílio da Parte Autora (c. 1673, 3º). Como vemos, há deficiências no libelo que poderão ser supridas ou rectificadas e outras, não. Quando as deficiências puderem ser corrigidas, disso se notificará a Parte Autora (o seu advogado/procurador), indicando essas deficiências e ficando a aguardar o libelo rectificado. Quando se julgar haver fundamento para a não admissão do libelo, o juiz presidente deverá fundamentar a rejeição, indicando, ao menos sumariamente, os motivos de tal não admissão, num decreto a enviar à Parte Autora (c. 1617). Isto é obrigatório, para que o decreto seja considerado válido. Importa ter em atenção que não se faça um processo, antes do processo. Porém, a Instrução Dignitas Connubii indica, com clareza, quais os motivos para rejeitar um libelo: - se os factos em que se baseia a Parte Autora são absolutamente inadequados para causar a nulidade do matrimónio; - ou se, muito embora o facto se inclua entre os que tornam nulo o matrimónio, é manifesta a falsidade do que se afirma. O recurso da rejeição do libelo, numa causa de nulidade de matrimónio, rejeição essa que foi exarada pelo presidente do Colectivo de três juízes, é proposto a esse mesmo Colectivo ou Colégio. Se o Colégio de juízes confirmar a rejeição do libelo, este fica, definitivamente, rejeitado. É inapelável essa decisão (c. 1629, 5º). Na questão do recurso, o juiz deve consultar o Defensor do vínculo. Quando o artº 124 §1 da DC diz que o recurso da rejeição do libelo pode ser apresentado ao tribunal de apelação, está a referir-se ao caso de ser um juiz único a actuar, rejeitando o libelo. Sabemos que o Código permite situações excepcionais e transitórias em que as causas de nulidade matrimonial sejam julgadas por um juiz único, clérigo, com a colaboração de um assessor e um auditor (c. 1425 §4). Dizer que é inapelável a decisão de rejeição de um libelo é questão que, segundo os canonistas, não parece de todo pacífica. Vejamos: haverá uma segurança absoluta, diríamos, dogmática, em afirmar que os factos em que se baseia a Parte Autora são absolutamente inadequados para causar a nulidade do matrimónio? Não haverá mesmo nenhuma possibilidade para a incerteza, ainda que seja mínima? Poder-se-á, então, considerar tal decisão como “re iudicata”, sem qualquer processo prévio. É que se for assim, então, fez-se um processo antes do processo. O decreto de rejeição do libelo tornou-se como uma sentença inapelável. O mesmo se diga se o fundamento para a rejeição inapelável do libelo foi a outra razão inscrita na Instrução Dignitas connubii: “ou se, muito embora o facto se inclua entre os que tornam nulo o matrimónio, é manifesta a falsidade do que se afirma.” Haverá parâmetros seguríssimos para decretar que houve falsidade nas afirmações? Não poderá funcionar, nesta situação, o recurso à “querela de nulidade” ou à “restitutio in integrum”? Quanto ao recurso à “querela de nulidade”, a doutrina é pacífica em admiti-lo. É que, segundo o Código, o recurso à “querela de nulidade” pode ser accionado perpetuamente, como excepção perante quem decidiu a rejeição ou como acção, no prazo de dez anos, contados desde o dia da publicação. É o que diz o c.1621. Quanto ao accionar a “restitutio in integrum”, a propósito da rejeição inapelável de um libelo, as opiniões dividem-se. É que a “restitutio in integrum”, segundo o Código (c. 1645), aplica-se a uma sentença que transitou em julgado. Ora não se pode aplicar à rejeição de um libelo a configuração de uma sentença transitada em julgado, até porque ainda nem sequer começou o processo. O processo judicial começa, no sentido estrito do termo, com a citação da Parte Demandada. E o libelo é uma formalidade jurídica anterior a essa citação. Assim sendo, não havendo, claro está, razão para a querela de nulidade sobre a decisão do Tribunal, seria razoável mandar retocar o libelo nesses defeitos e, se for caso disso, as vezes necessárias, até se encontrar uma formulação aceitável. 96 Prazos para a admissão ou rejeição do libelo Cân 1506 — Se o juiz, no prazo de um mês depois da apresentação do libelo, não tiver lavrado decreto a admiti-lo ou a rejeitá-lo nos termos do cân. 1505, a Parte interessada pode instar para que o juiz exerça o seu ofício; se, apesar de tudo, o juiz nada resolver, decorridos inutilmente dez dias depois de feita a instância, o libelo tenha-se por aceite. Concretizemos o que a lei prescreve. A Parte Autora apresenta o libelo ao Tribunal (cc. 15011503). Após a recepção do libelo, o Vigário judicial constitui o Tribunal, quanto antes, exarando um decreto e mandando o notário notificar os juízes constituídos e o Defensor do vínculo. Determinará, ainda, nesse decreto quais as funções atribuídas aos juízes, isto é, quem será o instrutor e o relator. O presidente poderá acumular as funções de juiz instrutor e juiz relator. O notário notificará os juízes desse decreto e das funções atribuídas. Uma vez constituído o tribunal, o Presidente do Colectivo de juízes verifica a competência do Tribunal para essa causa, verifica a legitimidade da Parte Autora e analisa o libelo. O Presidente tem trinta dias, contínuos, isto é, medidos segundo os dias do calendário, para analisar o libelo. O prazo de um mês começa a ser contado desde o dia em que o libelo chegou à secretaria do Tribunal, foi carimbado com a chancela do Tribunal, apondo-se a data da recepção, e assinado pelo notário. Se, passado esse tempo, o juiz nada disser, é porque nada tem a dizer em contrário sobre a admissão do libelo. “Qui tacet consentire videtur”. Ser assim, é uma medida para se agilizar o processo. Se, entretanto, o juiz presidente rejeitar o libelo e essa rejeição for apenas em aspectos formais, que podem e devem ser corrigidos, o juiz ordenará essa rectificação à Parte Autora, certamente, na pessoa do seu Advogado/procurador. Este agirá em conformidade e enviará ao Tribunal o libelo com as correcções solicitadas. Erros formais no libelo e que são susceptíveis de fácil e rápida correcção são, por exemplo: faltar a assinatura do Advogado, faltar a data no libelo, faltar a morada da Parte Demandada, faltar a certidão autenticada do casamento católico, haver imprecisão na localização de paróquias/concelhos. Uma imprecisão frequente é a acumulação de capítulos de nulidade num só item ou artigo ou, ainda, a deficiente formulação de determinados capítulos de nulidade apoiando-se, desapropriadamente, em alguns cânones que nada têm a ver com o assunto. Quando o libelo é rejeitado pelo juiz Presidente, por razões substanciais e descritas no decreto de rejeição, a Parte Autora tem dez dias úteis, a partir de quando recebeu esse decreto do Tribunal, para interpor recurso, devidamente fundamentado (c. 1505 §4). A partir do prazo terminado de trinta dias contínuos de silêncio do Juiz, sem ele se ter pronunciado sobre o libelo (admitindo-o ou rejeitando-o), o Autor da causa, quando assim o entender (o cânon 1506 não estabelece um prazo para o fazer), pode instar com o juiz, para ele se pronunciar sobre se admite ou não o libelo. Desde o dia em que o Autor da causa apresentar no Tribunal esse seu pedido, o Presidente terá dez dias úteis para se pronunciar sobre a admissão ou rejeição do libelo. Acontecendo que o Presidente se remeta ao silêncio, passados mais dez dias da instância da Parte Autora, o libelo é, automaticamente, isto é, “ipso iure”, tido como admitido (c. 1506). Passado este prazo, o presidente dimanará um decreto, no prazo de dez dias, de admissão do libelo, decreto esse que é, simultaneamente, de citação das Partes (c. 1507 §2). Esse decreto deverá ser, imediatamente, notificado (isto é, dado a conhecer) pelo notário às Partes (c. 1508 §). Não esqueçamos que “Partes” nas causas de nulidade matrimonial são a Parte Autora, a Parte Demandada e o Defensor do vínculo. Estes três deverão, obrigatoriamente, receber a notificação do decreto do juiz presidente. Esse decreto deverá ter as formalidades e os conteúdos, determinados nos cânones seguintes. Do ponto de vista da lei canónica, sobre o libelo introdutório da causa, lembramos os pontos nucleares. - Necessidade do libelo, porque “non datur actio sine actore” e “nullo actore nullo iudice”. - Conteúdo do libelo. 97 - Exame do libelo. - Correcção do libelo. - Recurso contra a rejeição do libelo. - Resolução do recurso. - Admissão do libelo “ipso iure”. - Efeitos da admissão do libelo. Citação das Partes Cân. 1507 — § l. No mesmo decreto em que se admite o libelo do autor, o juiz ou o presidente deve chamar a juízo as outras Partes ou citá-las para contestar a lide, determinando se elas devem responder por escrito, ou comparecer pessoalmente perante ele para concordar as dúvidas. Se da resposta escrita inferir a necessidade de convocar as Partes, pode fazê-lo com novo decreto. Cân. 1508 — § 1. O decreto de citação para o juízo deve ser imediatamente notificado à Parte Demandada, e ao mesmo tempo aos outros que devem comparecer. § 2. À citação junte-se o libelo introdutório da lide, a não ser que o juiz, por causas graves, julgue que o libelo não se deve comunicar à Parte, antes de ela depor em juízo. A citação é o acto judicial mediante o qual a Parte Demandada, a pedido da Parte Autora e por autoridade do próprio juiz, é chamada, pela primeira vez, a juízo para que, depois de ter sido legitimamente notificada, se faça presente no processo. Se as Partes litigantes vierem espontaneamente à presença do juiz, não é necessário o decreto de citação. Nesse caso, o notário referirá nos actos processuais que as Partes vieram ao Tribunal. O decreto de citação (decreto, esse, que começa por afirmar que o libelo foi admitido) deverá ser exarado no decurso dos trinta dias, desde que o libelo foi recebido no Tribunal. Se o libelo foi admitido “ipso iure”, o juiz tem dez dias, a partir dessa data da admissão (ou seja, vinte dias após a instância da Parte Autora), para exarar o decreto de admissão do libelo/citação das Partes. Vejamos os elementos essenciais da citação 1. A citação é um acto judicial. O sujeito activo deste acto processual é o juiz, que actua num duplo momento: - faz o decreto de citação - e manda que o mesmo decreto seja executado pela notificação à Parte Demandada. Da citação deve ser notificado, também, o Defensor do vínculo, porque é Parte no processo de nulidade matrimonial. A emanação do decreto de citação é um verdadeiro acto de jurisdição. A notificação, não. 2. Finalidade da citação: a citação é chamar a Parte Demandada para que intervenha no processo e tem como objectivo último a garantia do seu direito de defesa, perante a pretensão da Parte Autora. Tal finalidade pode revestir-se de formas diversas segundo as circunstâncias da causa e que o juiz avaliará (c. 1507 § 1). 3. Legitimidade da citação: a legitimidade da citação tem a ver com a competência do juiz, com a capacidade processual da Parte Demandada, com o conteúdo e a forma da notificação. A legitimidade reveste a citação de uma qualidade extremamente importante que é o ser peremptória: uma vez feita, legitimamente, a citação produz todos os efeitos. 4. Efeitos da citação: a citação e a legítima notificação dos actos judiciais têm, como efeito geral, a validade do acto processual em causa, independentemente da colaboração ou não colaboração das Partes, chamadas a intervir. Em particular, a citação tem os efeitos processuais e substanciais, referidos no c. 1512. 5. Efeitos processuais da citação: com o acto de citação, imediatamente, são produzidos os seguintes efeitos: 98 5.1 Com o acto de citação, “a coisa deixa de estar íntegra”, isto é, a matéria em causa torna-se litigiosa e submetida à decisão final do julgamento. 5.2 Com o acto de citação, consolida-se a jurisdição do juiz perante o qual foi introduzida a causa. Deste modo, com a citação, produz-se o efeito da prevenção entre juízes igualmente competentes. Assim, a causa torna-se própria do juiz que citou em primeiro lugar (c. 1415). A citação, por si, não confere nenhum título de competência ao juiz, se este já não o possuísse antes de emanar o decreto. Por isso, a Parte Demandada pode desencadear uma medida de excepção à incompetência relativa do juiz, no momento da contestação da lide (c. 1460 §2). 6. Efeitos substanciais da citação: os efeitos substanciais são acertados só no momento da sentença definitiva, porque condicionados do acolhimento do pedido ou causa em mérito. Se a causa é rejeitada ou se cessa o processo (por exemplo, por perempção ou renúncia), tais efeitos substanciais não se alcançam. Leitura dos cânones 1507-1509 1. A citação é feita no mesmo decreto da admissão do libelo. No decreto de citação, o juiz tem duas hipóteses previstas pelo Código: 1.1. Ordenar que a Parte Demandada apresente por escrito as suas observações relativamente ao que foi proposto pelo Autor e se refira, aceitando ou contestando (com razões justificativas de suspeição), à constituição do Colectivo de Juízes. 1.2. Se o juiz o julgar necessário, poderá convocar as Partes com um novo decreto, para assim configurar melhor a participação da Parte Demandada no processo ou ordenar à Parte Demandada que compareça pessoalmente diante do juiz, para concordar as dúvidas juntamente com a outra Parte. 2. A citação deve conter os contornos do pedido e da causa do pedido que resultam do libelo. Por isso, o c. 1508 § 2 estabelece que se junte a cópia do libelo ao decreto de citação. A hipótese de não enviar cópia do libelo à Parte Demandada e de o não dar a conhecer, antes de ela depor em sede de julgamento, fica ao critério do juiz, que se apoiará em causas graves e deve justificá-las num decreto. No entanto, o conteúdo mínimo da citação deve ser tal que permita à Parte Demandada conhecer o pedido da Parte Autora. Doutro modo, ficar-se-ia com o direito de defesa profundamente mutilado e sem contraditório para uma adequada fórmula da dúvida. Enviando o libelo à Parte Demandada, não será despiciendo adverti-la que o uso difamatório do mesmo libelo poderá incorrer em sanções por parte do direito civil do País. 3. O segundo momento fundamental do acto de citação é a notificação do decreto do juiz à Parte Demandada. Isto será trabalho do notário. A execução deste decreto poder fazer-se de vários modos. O c. 1509 exige que o meio utilizado para fazer chegar à Parte Demandada a notificação da citação seja absolutamente seguro, ficando isso a cargo da lei particular. Os modos tradicionais de notificação são estes: A entrega do documento em mão à Parte, ficando essa entrega exarada numa declaração, assinada pela própria Parte e pelo notário do Tribunal, em duplicado. Envio do documento pelo correio público registado, com aviso de recepção. Não respondendo, à primeira vez, repetir-se-á o envio do decreto/notificação, pela mesma via. Não respondendo ao segundo envio, ter-se-á a Parte Demandada como ausente do processo. Os documentos do registo do correio público devem ficar nos autos, como prova. Quando não se conhece o domicílio da Parte Demandada, por edital publicado no Boletim oficial da Diocese e em dois periódicos da região. Por carta rogatória, se se tornarem necessários os serviços de outro Tribunal. Os efeitos processuais da citação decorrem a partir da data da notificação. Importante é que o notário inclua nos autos o facto da citação e o modo como foi feita (c. 1509). Isto significa incluir no processo os registos do Correio. 4. A citação é sempre necessária porque corresponde ao direito natural da defesa da Parte Demandada. Faltando, comportará a nulidade insanável da sentença. O facto de não chamar a Parte Demandada a juízo, pelo decreto legítimo, comportaria a negação à 99 Parte Demandada do direito de defesa (c. 1620, 7º) ou significaria que o Tribunal assumiu um processo contra ninguém numa situação de Parte Demandada (c. 1620, 4º). A contestação da Parte Demandada O terceiro momento do processo é a contestação da lide (cc. 1513, 1516). Vejamos os passos que foram dados, até aqui: - Primeiro, foi a iniciativa da Parte Autora que propôs a causa, com a introdução do libelo. - A seguir, foi a constituição do Tribunal, como foro competente para julgar esta causa. - Depois, foi a actividade do juiz, examinando o libelo e pronunciando-se, através de um decreto em que admite o libelo e cita as Partes. - Depois, foi a participação da Parte Demandada, como sujeito interveniente neste processo, recebendo a notificação da citação. - Agora, são as reacções da Parte Demandada ao decreto de citação, o que é de fundamental importância para o prosseguimento da causa. Desta reacção dependerá o conteúdo do objecto da controvérsia. Três observações: 1. O Defensor do vínculo não pode ficar de fora deste momento. Deverá requerer-se o seu parecer. 2. Se a Parte Demandada recusar receber a notificação da citação ou impedir que tal documento lhe chegue às mãos, considera-se legitimamente citada (c. 1510). 3. Se a citação não foi notificada, os actos do processo são nulos, excepto se as Partes se fizeram presentes, espontaneamente (c. 1511). Institutos jurídicos que convergem para a contestação da lide Em primeiro lugar, temos a petição da Parte Autora expressa no libelo que deve ser enviado à Parte Demandada ou, em casos excepcionais, dado a conhecer apenas nos seus elementos essenciais. A Parte Autora poderá ainda acrescentar eventuais declarações (c. 1513 § 2), no sentido de determinar o libelo em melhores termos. Em segundo lugar, compete ao juiz interpretar rectamente as manifestações de vontade da Parte Demandada, evitando intenções dolosas. Em terceiro lugar, a Parte Demandada deve responder à petição da Parte Autora, o que o juiz avaliará, antes de emitir o decreto da fórmula da dúvida. As hipóteses de resposta da Parte Demandada mais frequentes são: 1. Coincidência com o pretendido pela Parte Autora. Não será propriamente uma contestação, dado que falta a oposição. 2. Oposição, apresentando excepções dilatórias. A Parte Demandada limita-se a afirmar alguns factos relativos às pessoas e às modalidades do julgamento, por vezes com a tentativa principal de diferir a solução da controvérsia. 3. Oposição, apresentando excepções peremptórias. Neste caso, a Parte Demandada responde afirmando a existência de factos que extinguem o direito pretendido pelo Autor e no qual estaria fundado o seu pedido. As excepções peremptórias tendem a impedir que o processo se realize. 4. Oposição, negando o pedido da Parte Autora. Nestes casos, a Parte Demandada responde com uma verdadeira oposição jurídica. 5. Oposição, apresentando uma acção reconvencional. Desse modo, a Parte Demandada não só nega o pretendido pela Parte Autora mas apresenta, por sua vez, uma petição contra a Parte Autora. 6. Permanecer inactiva diante da citação recebida. Tal atitude significa ausentar-se do processo. Nestes casos, o juiz pode declarar a Parte Demandada como sendo Parte ausente e o processo segue os seus trâmites até ao fim. 7. Submeter-se à justiça do tribunal, sem afirmar nem negar quanto foi dito da Parte Autora. 100 Extinção da instância Cân. 1520 — Extingue-se a instância, se, não tendo surgido algum impedimento, no decurso de seis meses as Partes não tiverem realizado nenhum acto processual. A lei particular pode estabelecer outros prazos peremptórios. A inactividade injustificada das Partes é entendida como desinteresse da instância, como sendo uma renúncia tácita da causa. Por isso, extingue-se a instância, ao fim de seis meses (contados pelo calendário) de inactividade das Partes. Se surgir algum impedimento plausível das Partes (e o juiz avaliará dessa congruência), o prazo não decorre. Pode a Parte anular a extinção da instância? Responde-se afirmativamente, se provar a sua inculpabilidade. A extinção da instância, por perempção, acontece “ipso iure”. Transcorridos seis meses, sem qualquer actuação das Partes, o juiz deve, “ex officio”, declarar, por decreto, concluída a instância. Disso se notificarão as Partes. Cân. 1522 — A perempção extingue os actos do processo, mas não os da causa; mais, estes podem ter valor, mesmo noutra instância, contanto que a lide seja entre as mesmas pessoas e acerca do mesmo objecto; mas, com relação a estranhos, só têm valor de documentos. A extinção da instância, portanto, o arquivamento da causa, obriga-nos a pensar no destino dos actos do processo e dos actos da causa. Não esqueçamos que por “actos do processo” se entendem os decretos, as notificações e outros documentos notariais, como sendo o itinerário processual. Por “autos da causa” entendem-se os depoimentos, os relatórios, as perícias e os documentos que têm a ver com a substância da causa. Por isso, o que se extingue e, por conseguinte, o que perde o seu valor são os decretos, as notificações e os outros documentos notariais, como itinerário processual. Por sua vez, os actos da causa, isto é, aquilo que tem a ver com a substância da causa, não se extinguem e podem ser utilizados noutra instância, se a controvérsia é entre as mesmas pessoas e acerca do mesmo objecto. Se, entretanto, não houver uma perfeita identificação entre uma causa e outra que se venha a propor, poderão os documentos, relatórios, depoimentos, perícias serem úteis, mas terão, unicamente, um valor documental. Pergunta-se: acontecendo a extinção da instância, poderá a Parte pedir para se reabrir o processo? Responde-se afirmativamente. Pergunta-se: acontecendo a extinção da instância, poderá a Parte abandonar o Tribunal onde fora interposta a acção de nulidade do seu matrimónio e optar por outro Tribunal concorrente, para propor novamente a causa? Responde-se afirmativamente. Pergunta-se: acontecendo a extinção da instância, a causa passa a “res iudicata”? Responde-se negativamente, se tratar de uma causa, ainda em 1ª instância. Porém, responde-se afirmativamente, isto é, passa a “res iudicata” se a inactividade, por seis meses, acontecer em 2ª instância. No entanto, note-se que as causas de nulidade matrimonial nunca passam a “res iudicata”. Renúncia à instância Cân. 1524 — § 1. O autor pode renunciar à instância em qualquer fase e grau do juízo; do mesmo modo, tanto o autor como o demandado podem renunciar aos actos do processo, quer a todos quer a alguns deles. § 2. Os tutores e administradores das pessoas jurídicas, para poderem renunciar à instância, necessitam do parecer ou do consentimento 101 daqueles cujo concurso é necessário para realizar actos que ultrapassem os limites da administração ordinária. § 3. Para a validade da renúncia, requer-se que seja feita por escrito e assinada pela Parte ou pelo seu procurador, munido de mandato especial; deve notificar-se à outra Parte, e ser aceite, ou ao menos não ser impugnada, por esta, e admitida pelo juiz. Cân. 1525 — A renúncia, uma vez aceite pelo juiz, produz, com relação aos actos a que se renunciou, os mesmos efeitos que a perempção da instância, e também obriga o renunciante a satisfazer as custas dos actos a que renunciou. Nestes cânones, o Código refere-se à renúncia à instância, mas não à renúncia à acção. Por isso, é que, tendo a Parte Autora desistido da instância, poderá, mais tarde, desde que não tenha prescrito, abrir novamente o processo com a causa inicial. Em princípio, quem pode desistir da instância é a Parte Autora porque é ela a Autora do processo. Mas não se trata de uma liberdade absoluta. Assim, a Parte Autora pode desistir do processo em qualquer fase do processo ou em qualquer grau (instância) do processo. No entanto, se a Parte Autora desiste, antes do decreto de citação, não se pode dizer que desistiu da instância porque ela ainda não começou. Nesse caso, não precisa de qualquer consentimento, ainda que implícito, da outra Parte, porque o processo ainda não começou. O processo só começa com a contestação da lide, isto é, com o decreto da citação da Parte Demandada. Se for a Parte Demandada a renunciar ao processo, a sua decisão terá o mesmo valor como a Parte Demandada ser declarada Parte ausente. Assim sendo, o processo continuará o seu rumo até à sentença definitiva. Se a determinação da Parte Autora é a de desistir, depois da citação da Parte Demandada, é necessário que a Parte Demandada aceite essa desistência, ao menos implicitamente. Cada uma das Partes é livre para desistir, mas a renúncia só é válida desde que todas as Partes envolvidas não se oponham a ela. Para a validade da renúncia, requer-se que seja feita por escrito e assinada pela Parte ou pelo seu procurador, munido de mandato especial. A renúncia deve ser notificada à outra Parte e ser aceite, ou ao menos não impugnada por esta, e admitida pelo juiz Presidente ou pelo relator (DC. artº 150 §2). O Defensor do vínculo deve, igualmente, ser informado da renúncia. Se for a Parte Demandada a fazer a apelação, ela pode renunciar à instância porque se tornou, no grau de apelação, Parte Autora. Não esqueçamos que a renúncia de que fala o c. 1524 é a renúncia aos actos do processo. Não é renúncia aos actos da causa. Se for a renúncia aos actos da causa, o que corresponde à renúncia à acção, dado que a Parte Autora foi quem introduziu a acção, também se comunicará às outras Partes intervenientes (Demandada e Defensor do vínculo). Porém, não se trata de um requisito para a validade porque se trata de um acto unilateral que não requer ser aceite pela outra Parte. Para a validade da renúncia, a renúncia tem de ser admitida pelo juiz e tal admissão é feita por um decreto do juiz nesse sentido e que deverá ser notificado às Partes. Esse decreto produz os mesmos efeitos que a caducidade (ou perempção) da instância. Período das provas – Instrução da causa (cc. 1526-1529) O período das provas é de grande importância porque dele depende o êxito da pretensão das Partes e a decisão do juiz. Anotamos o ensinamento do Papa S. João Paulo II: “Um momento importante da busca da verdade é o da instrução da causa. Ela está ameaçada na sua própria razão de ser e degenera em puro formalismo, quando o êxito do processo se dá por certo. É verdade que também o dever de uma justiça tempestiva faz parte do serviço concreto da verdade e constitui um direito das pessoas. Todavia, uma pressa falsa que prejudique a verdade é ainda mais gravemente injusta.” 33 E ainda: 33 Cfr. João Paulo II, Discurso na solene inauguração do ano judiciário do Tribunal da Rota Romana, 20.01.2005,6. 102 “A deontologia do juiz encontra o seu critério inspirador no amor pela verdade. Portanto, ele deve estar sobretudo convencido de que a verdade existe. Por isso, é necessário procurá-la com o autêntico desejo de a conhecer, apesar de todos os inconvenientes que possam derivar de tal conhecimento. É preciso resistir ao medo da verdade, que por vezes pode nascer do temor de ferir as pessoas. A verdade, que é o próprio Cristo (cf. Jo 8, 32 e 36), liberta-nos de todas as formas de compromisso com as mentiras interessadas. O juiz que verdadeiramente age como tal, ou seja, com justiça, não se deixa condicionar por sentimentos de falsa compaixão pelas pessoas, nem por falsos modelos de pensamento, mesmo que sejam difundidos no ambiente. Ele sabe que as sentenças injustas nunca constituem uma verdadeira solução pastoral e que o juízo de Deus acerca do próprio agir é o que conta para a eternidade.” 34 O período das provas é o mais longo de um processo. Começa com a contestação da lide (c.1516) e acaba quando acontece a conclusão da causa (cc. 1599-1600). A fase das provas é denominada também fase instrutória porque se refere a um momento de actividade processual destinado a fornecer os materiais e os instrumentos úteis para conhecer o mérito da causa. Trata-se de uma actividade vinculativa para o juiz que deverá decidir com base na instrução da causa (“ex actis et probatis”). Definição de prova processual A prova é a demonstração feita ao juiz por legítimos argumentos de factos duvidosos ou controversos relevantes no processo. Finalidade da prova O fim último da prova não é apenas demonstrar que os actos aconteceram de um determinado modo, mas conseguir articular tais factos de modo que se possa formar no juiz a necessária convicção e certeza antes de pronunciar a sentença. Trata-se de uma certeza que não é física nem matemática, de modo a excluir a possibilidade de erro, mas de uma certeza moral (c.1608) que exclui a probabilidade de erro acerca da verdade dos factos que foram alegados. Na prova pretende-se articular, demonstrar, clarificar pela afirmação ou negação sobre a existência, as circunstâncias, o valor jurídico, a responsabilidade em tais factos. O objecto da prova não coincide com o objecto do libelo mas com os factos em que se funda o libelo. Na prova não basta afirmar a existência dos fundamentos de facto, como no libelo, mas demonstrá-la ao juiz. Da prova devem excluir-se os factos que não são controversos (c. 1526 § 2) ou porque são factos notórios ou porque são admitidos por todos e conhecidos publicamente na sua verdade ou falsidade. Valorização das provas Antes de mais, importa valorizar a actividade instrutória. O juiz avalia as provas e pondera-as segundo a sua própria consciência (c. 1608 § 3). Importa dizer que nem sempre o método silogístico se mostra eficiente. Em segundo lugar, as diversas provas, que possam ser apresentadas durante a instrução da causa, não tem necessariamente o mesmo valor. Em certos casos, o valor é ajuizado pelo juiz, noutros vem indicado pela lei. Interessa conhecer as diversas espécies de provas possíveis e a sua distinção. As provas mais importantes são: a) Prova livre e prova legal Será prova livre se a força probatória do facto depende exclusivamente do juiz. Será prova legal se a lei dispuser expressamente o valor que se lhe deva atribuir. Na prova legal indica-se que valor deve ser atribuído ao facto, como, por exemplo, a 34 Ibidem, nº5. 103 presunção legal tem como valor fazer recair no adversário o ónus de provar factos contrários àquilo que é presumido (c. 1585). b) Prova plena e prova semi-plena Prova plena é aquela que cumpre os requisitos da lei, produzindo a devida certeza jurídica quer no juiz, se a prova plena é livre, quer na lei se a prova plena é legal, como, por exemplo, muitas testemunhas dignas de crédito ou um documento público original e autêntico. A prova semi-plena não atinge o devido grau de certeza, mas produz alguma probabilidade que o juiz deverá avaliar. Será o caso de testemunhas de credibilidade duvidosa. c) Prova directa e prova indirecta É prova directa quando a argumentação proposta se baseia num facto que foi visto ou ouvido pela pessoa. Será prova indirecta, quando ela é apresentada com base em indícios (c. 1584 – 1586). d) Prova simples e prova pré-estabelecida Prova simples é aquela que é formada no decurso do processo, como é o caso do interrogatório das Partes e testemunhas. Prova pré-estabelecida é quando se forma previamente, por exemplo, apresentando documentos. Esta prova torna-se processual quando é apresentada ao juiz. e) Prova judicial e prova extrajudicial A prova judicial é recolhida em juízo e observando as regras processuais, como é, por exemplo, a confissão da Parte, no decurso do interrogatório. A prova extrajudicial é recolhida fora do processo e sem observância das formalidades. Análise dos cânones (cc. 1526-1529) O sujeito da prova (c. 1526 § 1) Com o c. 1526 § 1, são especificados não só os possíveis sujeitos da prova mas também as suas posições jurídicas relativamente à prova. É sujeito activo da prova a pessoa que afirma os factos. A sua posição jurídica tem uma carga própria. As afirmações como prova O Autor, que no libelo afirmou a existência de factos que lhe garantem um bem reconhecido pela lei, é o sujeito activo da prova. Ao Autor pertence-lhe o encargo de provar os factos que sustentam a sua pretensão. Aplica-se, neste caso, o princípio geral “actore non probante reus absolvitur” (c. 1608 § 4). A Parte Demandada, que se defenderá afirmando factos contrários ao Autor, poderá também ela tornar-se sujeito activo da prova, porque “reus in excipiendo fit actore”. Trata-se de um ónus subordinado porque, muitas vezes, a Parte Demandada defenderse-á apenas negando, e quem nega não é sujeito da prova. No entanto, muitas vezes, as negações da Parte Demandada incluem verdadeiras e próprias afirmações para contrastar às do Autor. O Juiz é o sujeito passivo da prova Não só o juiz é o sujeito passivo da prova como é o seu destinatário. No entanto, pode tornar-se sujeito activo da prova (c. 1452 § 2), quando tiver de afirmar e provar alguns factos, suprindo a negligência das Partes, e para evitar uma sentença gravemente injusta em qualquer tipo de causas. O juiz tem a “faculdade” de interrogar as Partes, em qualquer causa e em qualquer momento do processo, para melhor conhecer a verdade. O juiz tem a “obrigação” de interrogar as Partes, se tal é reclamado pela outra Parte ou pelo Defensor do vínculo ou pelo Promotor de justiça (c. 1530). 104 A posição jurídica do ónus da prova A posição das Partes que devem provar os factos alegados é um ónus jurídico e não exactamente uma obrigação. Trata-se de um peso que deve ser suportado por quem afirma, se quiser obter aquilo que declara que lhe pertence, mas não é um dever que possa ser exigido de modo absoluto. O ónus é um requisito obrigatório para obter certos benefícios, mas é sempre opcional o seu cumprimento dado que é opcional a obtenção em causa. Se não se cumpre ou exercita o ónus, impede-se a obtenção dos benefícios previstos, mas não se incorre em sanção. Assim, concretamente: a) O Autor ou a Parte Demandada, quando afirmam factos em seu favor no processo, devem cumprir o ónus da prova para ganhar a causa. Se não o fazem, não incorrem em ilegitimidade mas não obtêm uma sentença favorável. b) Sendo verdade que nunca uma Parte está obrigada a demonstrar o que vai contra a sua pretensão (“nemo contra se edere tenetur”), no entanto, há situações de excepção. Uma dessas situações inscreve-se numa matéria de ordem documental quando o juiz exige que a Parte apresente um documento comum às Partes (por exemplo, um contracto), segundo o c. 1545 que diz: “O juiz pode mandar que se apresente no processo um documento comum às Partes”. Sendo negada a apresentação desse documento, isso reverterá em presunção negativa, por parte do juiz, de que tal documento conteria elementos probatórios desfavoráveis à Parte que se negou em apresentá-lo. c) A posição jurídica do juiz, na fase instrutória, é, simultaneamente, de poder e sujeição: ele pode ou deve, conforme os casos, admitir e praticar as provas propostas pelas Partes. A sua actividade supletória é, igualmente, um ónus (pode), e não uma obrigação. Objecto da prova (c. 1526 §2) O objecto da prova são os factos e os actos jurídicos 35 afirmados como fundamento de facto daquilo que é pedido. As intenções e as opiniões não entram no campo do objecto de prova. Provar significa acertar a existência de factos duvidosos ou controversos. Também se pode provar a inexistência de factos como, por exemplo, provar que não roubou. O c. 1526 § 2, determina o objecto da prova, estabelecendo duas excepções ao ónus previamente previsto no § 1: a) Os factos afirmativos que a própria lei presume (presunção de direito) não devem ser provados. No entanto, contra esses podem ser propostas provas directas ou indirectas, o que significa que se verifica a inversão do ónus da prova, o qual, nestes casos, recai sobre a Parte contrária à presunção (c. 1585) 36. As principais presunções legais que interessam ao processo encontram-se no direito substantivo matrimonial, nos cc. 1060, 1061, 1096, 1101, 1107, 1138. b) Os factos admitidos pela outra Parte, isto é, em que ambas as Partes estão concordes são isentos de prova. Trata-se, não apenas de factos sobre os quais as Partes estão de acordo, mas também daqueles que resultam provados por uma Parte e não são impugnados pela outra. No entanto, há um princípio de prudência: os factos concordes não têm necessidade de prova, a não ser que o juiz ou a lei o exijam. De facto, o perigo de combinação entre as Partes pode ser advertido pelo juiz, especialmente nas causas em que os direitos em discussão não são deixados unicamente ao dispor das Partes. Nesse caso, o juiz admitirá ou não, segundo a sua discrição, o acordo entre as Partes como isento de prova. No c. 1536 §2, a lei exige provas ulteriores de factos concordes nas confissões em causas de bem público. 35 Referimo-nos àqueles factos aos quais o Direito atribui algum efeito. Há factos jurídicos involuntários, como o nascimento e a morte e há-os voluntários, como o roubo, os maus tractos, a mudança de domicílio. 36 Cân. 1585 - Quem tem por si a presunção de direito, fica liberto do ónus da prova, que recai sobre a parte contrária. 105 Tipos legítimos de prova (c. 1527) No que diz respeito à legitimidade nos meios de prova é necessário distinguir entre a proposição da prova e a admissão da prova, para se perceber o limite estabelecido pelo c. 1527, relativo à utilidade e liceidade. Proposição das provas No processo canónico, podem ser propostas provas de todo o género. O proponente não encontra nenhum limite, mesmo se se deva ter em conta que serão admitidas apenas as provas lícitas e úteis para definir a causa. Portanto, todas as espécies de provas, judiciais ou extrajudiciais, plenas ou simples indícios, e, também, as provas que estão contidas no título IV, podem ser propostas. Isto significa que a proposição das provas é absoluta e ilimitada. A liceidade diz respeito à admissão das provas e não à proposição das provas. Admissão das provas Para admissão das provas existe o duplo limite da liceidade e da utilidade para a causa: são estes os dois critérios gerais que o juiz deverá considerar, no momento de aceitar as provas que as Partes tenham proposto. a) A liceidade não é estabelecida com critérios estritamente processuais porque o Código é amplíssimo em admitir qualquer meio de prova, seja perfeito ou não. Os critérios de legitimidade processual interessam, somente, em sede de valorização das provas, não de admissão das provas. Assim, por exemplo, um documento manipulado nunca será legítimo para interesse de valorização, mas nada impede que possa ser apresentado a juízo (c. 1543). A liceidade, que pode condicionar a admissão das provas, tem em vista os valores humanos e eclesiais que emergem do respeito pelas pessoas e pela sua dignidade. Se estes valores correm o risco de serem lesados, admitindo uma determinada prova, por exemplo, fazendo o interrogatório a uma pessoa que, por circunstâncias próprias, possa ser gravemente prejudicada, o juiz pode decidir não fazer tal interrogatório, tentando acertar os factos por outros meios. b) Sobre a utilidade das provas para a causa, o juiz dará preferência àquelas que se realizam imediatamente e evitará as provas que possam provocar excessivos prolongamentos. c) Se a Parte recorre contra a recusa da prova (c. 1527 §2), o juiz deverá resolver a questão “expeditissime”, isto é, “rapidamente”, mediante decreto, que poderá ser formulado ou revogado, segundo o c. 1591, como uma causa incidental. Tratando-se de um tribunal colegial (como é o caso nas causas de nulidade matrimonial), o recurso é interposto a esse mesmo tribunal colegial. Contra o decreto de rejeição de uma prova, não há lugar para apelo mas não se excluem outros remédios. Modo de recolher as provas (c.1528) Segundo o Código, a recolha das provas pertence ao juiz ou a um seu delegado ou auditor, que deve ser assistido pelo notário (cc. 1530, 1561, 1578 §3). O juiz que se ocupa da instrução pode ser o juiz presidente ou o juiz instrutor, cujas funções e competências são plenas e totais relativamente às provas, isto é, para a sua recolha. O c. 1528 permite também o interrogatório feito por um leigo, designado pelo juiz, ou um depoimento feito diante de um notário público, quando a Parte ou a testemunha não quer depor diante do juiz eclesiástico. O juiz pode recolher as provas de qualquer modo legítimo, também por escrito, por telefone, com gravador. Deverá, no entanto, ponderar o valor das provas recolhidas desta maneira como também a recusa da Parte ou da testemunha em comparecer diante do juiz eclesiástico. Tempo das provas (c. 1529) 106 Normalmente, a fase probatória efectua-se entre a contestação da lide e a conclusão da causa. Só nesse momento é que se podem efectuar as provas. As Partes devem propor as provas dentro do prazo estabelecido pelo juiz (c. 1516) que, sendo um prazo judicial, pode ser prorrogado (c. 1465 § 2). No entanto, o c. 1529 prevê a antecipação da prática de algumas provas, mas, unicamente, por causas graves, como, por exemplo, uma longa ausência ou a inspecção de coisas que poderão desaparecer. Para além desta antecipação, permitida unicamente por excepção, há sempre a possibilidade de exibir provas pré-estabelecidas (documentos) juntamente com o libelo ou em sede de contestação. Uma outra excepção pode existir, isto é, a admissão de uma prova para além do prazo estabelecido pelo juiz e antes da conclusão da causa. Será o caso de uma Parte, que foi declarada ausente do processo, vir agora apresentar uma prova fora de prazo (c. 1593 § 1) ou o caso de um suplemento de prova pedido para completar as que já existem (c. 1598 § 2). Depois da conclusão da causa, o c. 1600 regula as hipóteses de admissão de provas conforme se trate de causas privadas, para as quais se requer o consentimento das Partes ou de causas públicas para as quais basta ouvi-las, mas sempre por causas graves, evitando o perigo de fraude. Poderão ser sempre admitidas novas provas se a recusa dessas provas puder vir a comprometer a justiça da sentença. Também os documentos, que não foram apresentados antes, inculpavelmente, podem ser apresentados depois da conclusão da causa. Problemas doutrinais sobre as provas 1. O ónus da prova Embora o direito canónico sempre tenha aceitado o princípio romano segundo o qual o encargo da prova diz respeito a quem afirma, seja Parte Autora ou Parte Demandada, na prática, este princípio não é de fácil aplicação porque nem sempre é fácil distinguir com precisão o facto afirmativo do facto negativo. Às vezes, a negação inclui afirmação ou poderá mesmo ser o fundamento do pedido. Por isso, a doutrina tem tentado concretizar como deve ser a distribuição do ónus da prova, distinguindo entre factos constitutivos (a existência de um contracto, ou testamento) e factos impeditivos extintivos da acção (a nulidade do contracto, por erro ou por se ter verificado o pagamento). Compete à Parte Autora a demonstração dos factos constitutivos e à Parte Demandada a prova dos factos impeditivos. No entanto, sobre os factos constitutivos a Parte Autora não é obrigada a demonstrar as condições genéricas desses factos (por exemplo, que o acto jurídico foi realizado com plena consciência, porque tais condições são presumidas pela lei). A Parte Autora deve unicamente provar as condições específicas (preço da compravenda, a data do pagamento). Se a Parte Autora não provar as condições específicas dos factos constitutivos que afirma, a Parte Demandada será absolvida. Por sua vez, esta, provando os factos extintivos, deverá demonstrar a falta das condições genéricas (a nulidade do acto) e impugnar as condições específicas. Seja como for, as regras acerca da distribuição do encargo da prova não podem ser aplicadas rigidamente. Compete ao juiz agir com critério justo, tendo em conta as circunstâncias de cada caso, e distribuir equitativamente o ónus da prova. Nas causas de nulidade matrimonial, a lei presume as condições genéricas de nulidade. Compete provar os factos impeditivos a quem afirma a sua existência (Parte Autora) mas, entendendo o contraditório como dialéctica em ordem a descobrir a verdade, o juiz poderá distribuir o encargo da prova com a Parte Demandada. 2. A actividade supletiva do juiz na instrução Na fase instrutória do processo, o princípio da iniciativa da Parte que caracterizou a fase inicial do processo é agora equilibrado com o princípio de iniciativa oficial, pelo que o juiz pode ser sujeito activo da prova, em qualquer tipo de causa (não só as de interesse público, como no Código de 1917). A normativa do c. 1452 §2 configura esta actividade do juiz como uma suplência da negligência das Partes e para evitar uma sentença injusta. Portanto, não se trata de uma faculdade concedida indiscriminadamente ao juiz, mas de uma cautela de acordo com a especificidade do processo 107 canónico para evitar injustiças e melhor garantir o alcance da verdade. O juiz não pode ser proibido de considerar como verdadeiros os factos não provados pelas Partes e de, para tal, procurar, ele próprio, as provas. Se não pudesse ser assim, então, a verdade seria sempre indicada unicamente pelas Partes. Ora, a verdade, desde que não se demonstre o contrário, é sempre una e única. Esta norma não é uma presunção legal sobre a falsidade daquilo que as Partes afirmam em seu favor. O juiz é sempre juiz e não é advogado. A sua actividade é avaliar as provas e não apresentá-las. Mesmo sendo lógico equilibrar a disposição da Parte, no período probatório não se podem ampliar, para além da medida, os poderes do juiz, sem que isso comprometa seriamente a defesa das Partes e a sua liberdade no processo. Concretamente, deve constar a negligência das Partes, inclusive as Partes públicas se agem no processo. Coisa difícil de estabelecer é que o juiz possa, na fase de admissão das provas, advertir que uma determinada prova seja necessária para evitar a injustiça. Para considerar negligentes as Partes, é necessário que se torne clara a existência de provas que eles não apresentam e a possível injustiça de uma sentença que proveio da sua inactividade instrutória. Não poderá, no entanto, fazer da sua suplência uma punição para a Parte diligente e um prémio para a Parte negligente. A solução doutrinal mais adequada parece ser que o juiz não use esta faculdade, que o tornaria advogado, e actue segundo as faculdades concretas que em cada meio de prova lhe são concedidas: - a obrigação de interrogar as Partes (c. 1530), - ordenar que se apresentem documentos comuns (c. 1545), - acareação entre testemunhas não concordes (c. 1560 § 2), - novo exame de testemunhas (c. 1570), - ordenar perícias (c. 1574). As declarações das Partes O Código estabelece como primeiro meio de prova as declarações das Partes. Isso significa que as suas afirmações ou respostas, no período instrutório, ocupam o primeiro lugar, entre os meios de prova, e revestem uma superioridade moral sobre os outros. Por isso, devem ser tidas em grande consideração. A declaração das Partes é uma fórmula muito ampla que inclui diversos institutos jurídicos ligados entre si, mas com diferente importância relativamente aos fins da instrução. 1. Declarações processuais das Partes Em sentido amplo, “declarações das Partes” são afirmações ou negações das Partes privadas quer no libelo, quer na contestação da lide ou numa eventual audiência para concordar a dúvida. Estas declarações não têm valor estritamente probatório, mesmo se algumas delas oportunamente compaginadas com as provas verdadeiras e próprias contribuirão ou não para criar a convicção do juiz sobre o mérito da causa. Quando são declarações afirmativas, importa prová-las posteriormente, mas, se são negações, não é preciso prová-las, a não ser que estejam na base da acção. 2. Interrogatório das Partes As declarações das Partes, como meio de prova, são aquelas que são feitas durante o período de instrução, a partir de um interrogatório que tenta esclarecer, genericamente, os factos duvidosos emergentes na controvérsia. O interrogatório pode reportar-se directamente aos factos expressos no libelo para conhecer-lhes a sua verdade ou versar sobre factos provenientes de outras provas. 3. Confissão das Partes A confissão é toda a declaração da Parte (Autora ou Demandada) consistindo na admissão da verdade de um facto proposto pela Parte adversária, contrário aos interesses processuais daquele que o confessa e favorável à Parte adversa. Aquele que confessa admite um facto que resulta contrário à sua posição mantida no processo. Há 108 diversas espécies de confissões, mas o Código conhece apenas a divisão entre confissão judicial, feita diante do juiz e confissão extrajudicial, feita fora do juízo e diante de uma terceira pessoa. 4. Juramento das Partes O juramento é uma declaração das Partes feita exclusivamente diante do juiz para reforçar e garantir a verdade das suas outras declarações. Não é, portanto, um meio de prova mas uma maneira de oferecer uma garantia de que a Parte depôs de acordo com a sua consciência e com a verdade. O juramento pode assumir diversas formas quer no seu conteúdo quer segundo as circunstâncias. As formas mais comuns são o juramento de prometer dizer a verdade, o juramento de que disse a verdade e o juramento de que observa o segredo. Condições objectivas para a prática da prova a) Os artigos sobre os quais as Partes devem ser interrogadas podem ser propostos pelas Partes ou seus representantes, pelo Promotor de justiça e pelo Defensor do vínculo (c. 1533). Na verdade, a actuação do Promotor de justiça ou do Defensor do vínculo não deverá contrariar a sua condição de “Parte”, durante o interrogatório. As suas observações acerca da inadequação dos quesitos apresentados têm o mesmo valor que eventuais oposições ou excepções, tais como as que podem ser apresentadas pelas Partes privadas. b) Normalmente, as perguntas dos advogados da Parte privada são submetidas à visão das Partes públicas, mas esta praxis não é a única possível e, menos ainda, a mais observante das disposições do Código. Permanece intacto o direito do juiz de corrigir as perguntas e incluir outros quesitos “ex officio” (cc. 1530, 1452). c) Os patronos das Partes privadas e as Partes públicas podem assistir ao interrogatório (cc.1534, 1559) e, nesse caso, poderão apresentar ao juiz novas questões para serem propostas à Parte que está a ser interrogada (c. 1561). Porém, as Partes não podem assistir a tal exame. d) Na prática da declaração das Partes, devem observar-se as normas acerca da especificidade das testemunhas (c. 1534), em particular o que diz respeito ao segredo de ofício (c.1548 §2, 1) o prazo para apresentar as perguntas (c. 1552 § 2) e as várias modalidades do interrogatório (cc. 1558 – 1565). e) A confissão extrajudicial vem de fora do processo, mas deve ser referida pelas pessoas em sede de julgamento. Por isso, para a sua produção no processo importa praticar a prova acerca da fonte de onde vem essa confissão (por exemplo de um documento) e a credibilidade de quem a refere. Condições subjectivas para a prática da prova Requer-se que todo o tipo de declaração seja feita sem erro de facto. A possibilidade de erro será superada pela Parte, pela revogação da sua declaração, a qual é admitida sem necessidade de prova, se feita imediatamente depois do interrogatório, quando é lido o que disse, e antes de assinar o Auto. É nula a declaração feita com violência ou temor grave de acordo com o c. 125 sobre a nulidade dos actos jurídicos. Aqui, importa fazer uma observação. Dada a tecnologia da informática, quando a testemunha, no final do seu depoimento, quer corrigir o que disse, aquando das perguntas feitas pelo juiz, o notário não deve utilizar a técnica do “delete”, no corpo do texto, para introduzir a nova versão da Testemunha. Deverá, antes, manter o depoimento, tal como foi prestado, em primeira mão, e, então, no final do depoimento, acrescentar o que a testemunha quiser corrigir. Valorização da prova 109 Têm carência de força probatória as declarações feitas por erro de facto, violência ou temor grave. Declarações que não são confissões As declarações que não sejam confissões, dado que a Parte tem obrigação de responder à verdade, devem ser avaliadas sem prevenções de suspeita, mas tendo em conta os interesses directos postos na causa. Também nas causas de bem público, estas declarações, quando são sufragadas por outros elementos de prova, mesmo não plenos, como são os indícios, podem permitir alcançar um grau de certeza suficiente que, todavia, permanece na discrecionalidade do juiz (cc. 1531 § 1 e 1536). Confissões judiciais As confissões judiciais são prova plena legal nas causas de interesse privado, produzindo efeito de isentar o adversário do encargo da prova. O fundamento é a disponibilidade dos direitos em discussão (fundamento jurídico) assim como a presunção de verdade nas declarações desfavoráveis (fundamento psicológico). Nas causas de interesse público, o juiz deve ter em conta o fundamento psicológico da confissão, mesmo devendo juntar outros elementos de prova que apoiem a confissão para ter certeza plena. Para as causas de nulidade deve observar-se o c. 1679 que, para tal plenitude, requer ao juiz socorrer-se de testemunhos sobre a credibilidade das pessoas e de usar outros indícios. Isto significa que, na falta de outras provas, tendo acertado a credibilidade das Partes, a certeza moral pode provir não exclusivamente da confissão, mas principalmente dela. Confissões extrajudiciais As confissões extrajudiciais nunca fazem prova plena. É sempre necessária uma comprovação ulterior. Compete ao juiz decidir que valor atribuir a essas confissões, pesando todas as circunstâncias. Na prática jurídica, tem grande valor o ter sido feita em tempo não suspeito, isto é, quando não se pensava na introdução da causa e quando não havia motivos para obscurecer a verdade. Interessará igualmente a credibilidade da fonte que produziu em juízo tal confissão (testemunho, documento). As circunstâncias a ponderar dizem respeito aos factos existentes na prova. Por exemplo, nas causas de nulidade matrimonial por simulação, a jurisprudência considera circunstância determinante estabelecer qual tenha sido a causa de simulação. Recusa em responder A recusa em responder deve ser avaliada pelo juiz (c. 1531), em ordem à prova dos factos. A lei não faz equivalência entre essa recusa e uma resposta tácita, nem em sentido afirmativo nem negativo. Mesmo que alguns autores a façam equivaler a um indício, isto é, a uma prova não plena, a sua interpretação compete ao juiz e pode variar de caso para caso. Juramento O juramento qualifica a declaração acerca da verdade subjectiva do declarante. Porém, a verdade objectiva pode ser diversa da que brota das declarações juradas e, por isso, o juramento não acrescenta nada que directamente incida sobre a valorização dos factos declarados, mesmo se indirectamente incide sobre a credibilidade do declarante. Cân. 1531 — § 1. A Parte, legitimamente interrogada, deve responder e expor toda a verdade. § 2. Se recusar responder, compete ao juiz avaliar o que daí se pode concluir para a prova dos factos. 110 Sublinhamos que as perguntas do juiz devem ser “legítimas” para que “legitimamente” se possa exigir que se responda. Portanto, as perguntas devem ocupar-se unicamente da controvérsia em causa e devem ser formuladas segundo as normas do c. 1564 que diz: “As perguntas sejam breves, acomodadas à capacidade do interrogado, não abrangendo muitas coisas ao mesmo tempo, não sejam capciosas, nem dolosas, nem sugiram a resposta, e sejam destituídas de ofensas a alguém e pertinentes à causa de que se trata.” No caso de recusar responder, que conclusão se poderá tirar? Não se deduza, imediatamente, que “qui tacet consentire videtur” porque quem cala, à partida, está, simplesmente, calado. Os indícios extraídos do silêncio da Parte podem significar diversas coisas e coisas diversas, segundo o caso e as circunstâncias. Cân. 1533 — As Partes, o Promotor da justiça e o Defensor do vínculo podem apresentar ao juiz artigos, sobre que se há-de interrogar a Parte. As Partes, o Promotor de justiça e o Defensor do vínculo são informados pelo notário do Tribunal de que podem apresentar quesitos para o interrogatório das Partes e das testemunhas. Cân. 1534 — Acerca do interrogatório das Partes observe-se, com a devida proporção, o que se estabelece nos cans. 1548, § 2, n.° 1, 1552 e 1558-1565 acerca das testemunhas. Este cânon remete para cânones seguintes. Importa sublinhar, apenas, que o interrogatório às Partes é, por sua natureza e em função das circunstâncias, diferente do interrogatório a fazer às Testemunhas. Cân. 1535 — Confissão judicial é a afirmação escrita ou oral acerca de algum facto, feita, perante o juiz competente, pela Parte sobre a matéria do juízo contra si mesma, tanto espontaneamente como a interrogatório do juiz. A confissão judicial, a que se refere o c. 1535, é uma declaração: - oral ou escrita, - feita por alguma Parte na causa (não por outros), - feita perante o juiz competente, - acerca da matéria da causa, - feita contra si mesma, isto é, contra a própria pessoa, - feita tanto espontaneamente como a interrogatório do juiz. A confissão judicial da Parte não significa que seja verdadeira. Pode ser uma declaração falsa. O Juiz deverá discernir sobre a veracidade ou não dessa confissão. Uma confissão “qualificada” aponta o facto e aduz razões para o facto. Cân. 1537 — Compete ao juiz, ponderadas todas as circunstâncias, apreciar o valor que se há-de dar à confissão extrajudicial aduzida em juízo. Na avaliação da força probatória de uma confissão extrajudicial, é de se ter em conta se foi feita em tempo suspeito ou em tempo não suspeito. Em tempo suspeito significa uma menor força probatória porque pode ter sido feita em vista à causa que se irá tratar. Ao juiz compete o seu discernimento possível, assentando os seus critérios na ponderação de diversas circunstâncias dessa confissão extrajudicial em tempo não suspeito, como, por exemplo, onde foi feita, a quem foi feita, em que circunstâncias, por que razão, em que estado de espírito, etc.. Cân. 1538 — A confissão ou qualquer outra declaração da Parte carece inteiramente de valor, se constar que a proferiu por erro de facto, ou tiver sido extorquida por violência ou por medo grave. A violência ou o medo grave perturbam a deliberação necessária para acontecer um acto jurídico válido. Sobre esta matéria pronunciam-se os cc. 125-126, com determinações específicas. O erro de facto pode dever-se a causas diversas: ignorância, conhecimento inexacto, falta de 111 atenção, engano, etc.. Se alguma destas circunstâncias influiu na confissão ou qualquer outra declaração da Parte, então, tirou-lhes o valor probatório. As testemunhas e seus depoimentos Cân. 1547 — Admite-se em todas as causas a prova testemunhal, sob a direcção do juiz. Ao juiz o que lhe interessa é encontrar a verdade objectiva, é chegar a uma certeza moral para, depois, decidir em conformidade. Recordamos as advertências do Papa Paulo VI aos Membros do Tribunal da Rota Romana: “Vós estais bem conscientes de como na administração da justiça se poderão verificar dolorosas e deploráveis injustiças que seriam muito nocivas também ao recto funcionamento do vosso Tribunal. Dizemos isto apenas hipoteticamente. As injustiças podem encontrar-se na preparação do processo quando, pelas manipulações de profissionais sem escrúpulos, as causas vos fossem apresentadas já fundamentalmente alteradas na sua realidade jurídica, com motivos infundados, provas inconclusivas, testemunhas subornadas, documentos contrafeitos ou manipulados.” 37 Cân. 1548 — § 1. As testemunhas devem declarar a verdade ao juiz que legitimamente as interrogue. § 2. Sem prejuízo do prescrito no cân. 1550, § 2, n.° 2, estão isentos da obrigação de responder: 1.° os clérigos, no respeitante ao que lhes foi manifestado em razão do sagrado ministério; os magistrados civis, médicos, parteiras, advogados, notários e outros que estão obrigados ao segredo profissional, inclusive por motivo de conselho dado, no respeitante aos assuntos sujeitos a tal segredo; 2.° quem temer que do seu testemunho sobrevenham infâmia, vexações perigosas, ou outros males graves para si mesmo ou para o cônjuge ou consanguíneos ou afins próximos. Quem pode ser testemunha Cân. 1549 — Todos podem ser testemunhas a não ser que no todo ou em Parte sejam excluídos expressamente pelo direito. Cân. 1550 — § 1. Não se admitam a depor como testemunhas os menores de catorze anos e os débeis mentais; podem, no entanto, ser ouvidos por decreto do juiz em que se declare que tal é conveniente. § 2. Consideram-se incapazes: 1.° os que são Partes na causa ou comparecem em juízo em nome das Partes, o juiz e os seus auxiliares, o advogado e os que na mesma causa prestam ou prestaram assistência às Partes; 2.° os sacerdotes, no respeitante a tudo quanto conhecem por confissão sacramental, ainda que o penitente peça que o manifestem; mais, o que de qualquer modo tiver sido ouvido por alguém por ocasião da confissão, não pode sequer ser aceite como indício da verdade. O número de cânones dedicados pelo Código (cc.1547-1573) evidencia a preocupação da Igreja para uma recta actuação da prova testemunhal. Definição de “prova testemunhal” 37 Papa Paulo VI aos Membros do Tribunal da Rota Romana, Discurso de 11.01.1965 in AAS 57 (1965) 233. 112 A prova testemunhal é o acto processual que consiste numa declaração diante do juiz por uma pessoa estranha à causa (dita testemunha), a partir da ciência ou conhecimento sobre um facto passado. A testemunha é uma pessoa idónea que refere factos que percebeu com os sentidos. Torna-se testemunha judicial aquela pessoa idónea que, legitimamente citada, vem depor em juízo sobre um facto controverso e estranho a ela segundo as formalidades do direito. As suas afirmações chamam-se testemunhos. Testemunhas públicas ou qualificadas são pessoas públicas que depõem sobre coisas em razão do seu ofício. As testemunhas de credibilidade limitam-se a dar crédito às declarações proferidas em juízo por outras pessoas (c. 1679). É o caso de um qualquer pároco a quem o Tribunal pede que se pronuncie sobre a idoneidade do seu paroquiano que veio depor no Tribunal Eclesiástico. Testemunhas espontâneas são aquelas que se apresentam sem ser citadas pelo juiz e cuja admissão fica ao critério do juiz. Qualidades da testemunha Todos podem ser testemunhas, a menos que sejam excluídas por direito, total ou parcialmente (1c.1549). Esta norma é ampla para que possa ser admitida a testemunhar qualquer pessoa, desde que seja apta para cumprir tal acto processual, isto é, tenha conhecimento dos factos sobre os quais é interrogada e os possa comunicar. A qualidade da testemunha não deve ser demonstrada por ela. Se uma Parte pediu a exclusão de uma testemunha, deverá fornecer ao juiz os elementos gerais que demonstrem a inconveniência dessa testemunha para que isso possa ser admitido pelo juiz. Isto quer dizer que o ónus de provar as faltas de qualidade recai sobre a Parte que pediu a exclusão da testemunha ou sobre o juiz que excluiu uma testemunha, “ex officio”. Compete ao juiz, no momento de admitir o depoimento de uma testemunha, verificar a sua identidade, a relação com as Partes e o modo como chegou ao conhecimento dos factos (c.1563). Outras qualidades relativas ao crédito e à coerência da testemunha interessam só no momento de avaliar o próprio depoimento (c. 1572) e que o juiz deverá fazer numa nota pessoal, quando tiver terminado o depoimento e já na ausência da testemunha, para dessa nota fixar apensa aos autos. A capacidade ou habilidade de ser testemunha é geral. Qualquer exclusão deve ser interpretada em sentido estrito (c. 18). Pelo direito é prevista uma incapacidade parcial e uma incapacidade total por diversos motivos: 1º Não são admitidos a testemunhar os menores de catorze anos, porque se lhes pressupõe falta de discernimento e de maturidade. Aos débeis mentais pressupõe-se o impedimento para conceber os factos e os comunicar. Mas trata-se de uma presunção relativa que pode variar de grau, caso a caso. Por isso, o juiz tem a faculdade de estabelecer, com decreto, que, no entanto, sejam ouvidos, se considerar oportuno o seu testemunho. 2º São totalmente incapazes para testemunhar, por motivo de parcialidade ou pela falta da necessária independência, aqueles que realizam no mesmo juízo uma outra função incompatível com a de testemunha: são as Partes em causas, públicas e privadas, o juiz, os advogados, os oficiais. Não são excluídos os familiares, mesmo que próximos. 3º São incapazes de testemunhar, por motivo de sigilo sacramental, os sacerdotes, no referente ao que lhes foi revelado em confissão, e também, em razão do segredo sacramental, os intérpretes (c. 983 § 2) e quem, por motivo da confissão, ouviu qualquer coisa. O penitente não pode dispensar essas pessoas de tal segredo. As notícias recolhidas dessa maneira não têm qualquer valor probatório nem sequer como indícios. Obrigação e dispensa de testemunhar Em razão do público interesse toda a pessoa é obrigada a testemunhar quando tal lhe é pedido legitimamente (c. 1548). Por isso, não há dispensa senão nos casos previstos pela lei (c.1558). Sendo pública a obrigação, a ordem para depor não pode vir senão do juiz, interessado em conhecer a verdade dos factos. Na obrigação de testemunhar entra também a obrigação de responder, segundo a ciência e a verdade quando se é interrogado legitimamente. O próprio bem público fixa os limites da obrigação em testemunhar. 113 1º Estão isentos de testemunhar os clérigos acerca de tudo o que lhes foi manifestado em razão do seu ministério. Também os leigos são obrigados ao segredo de ofício (c. 1548 § 2, 1). Podem porém ser dispensados da observância do segredo, excepto o sacramental (c. 1550 § 2, 2) por razões mais graves de interesse público, quer do juiz quer da própria Parte. 2º Também, por razões de interesse privado, verifica-se a dispensa da obrigação de testemunhar para aqueles que temem razoavelmente incorrer, pelo facto de testemunhar, na infâmia ou outros danos materiais ou morais, para si ou para os seus familiares (c. 1548 § 2, 2). 3º A obrigação de responder para quem foi legitimamente citado pelo juiz liga-se à outra obrigação de dar a conhecer ao juiz os motivos da ausência (c. 1557), comunicando ao juiz as razões de interesse público ou privado pelo qual alguém se sentiu dispensado de tal obrigação ou impedido de a cumprir. No caso de impedimento, pode pedir-se ao juiz a aplicação de um depoimento extraordinário (c. 1558 § 3). A obrigação de responder e a de dizer a verdade, caso não seja cumprida, não é motivo de sanção expressa. A apresentação e a exclusão das testemunhas Cân. 1551 — A Parte que apresentou uma testemunha pode renunciar à sua inquirição; mas a Parte contrária pode pedir que, apesar de tudo, a testemunha seja ouvida. Cân. 1552 — § 1. Quando se pede a prova por meio de testemunhas, indiquem-se ao tribunal os seus nomes e domicílio. § 2. Apresentem-se, dentro do prazo determinado pelo juiz, os artigos sobre que se pede que sejam interrogadas as testemunhas; de outro modo a petição tenha-se por deserta. Cân. 1553 — Compete ao juiz reduzir o número excessivo de testemunhas. Perante um excessivo número de testemunhas poderemos supor que se trata de inutilidade, com despesas acrescidas e demora no processo. A força da prova não está no maior número de testemunhas possível, mas no seu peso. Nas causas de nulidade matrimonial, quem mais sabe da causa, nos seus problemas, são, evidentemente, as Partes. Depois, são as pessoas mais chegadas que conheceram as Partes, antes do casamento, e, porventura, acompanharam, de algum modo, a convivência conjugal. A partir daí, começa o número excessivo e inútil de testemunhas que acabam por nada acrescentar ao que as outras já disseram ou, então, vêm repetir o que já está dito ou dizer o que as Partes lhes disseram. Ao juiz compete manifestar o equilíbrio ditado pelo bom senso, o qual assentará na atençaõ à qualidade das testemunhas e à gravidade do assunto. Se a Parte que se julgar lesada recorrer da decisão do juiz, que limitou o número de Testemunhas, dessa oposição não cabe apelação. O que o juiz fez foi dizer à Parte que reduzisse para aquele número determinado o quantitativo de Testemunhas que a Parte apresentou. É, pois, a Parte que vai excluir aqueles que são excedentários. A decisão do juiz não comporta o direito de apelação pela Parte (c. 1629, 5º). Cân. 1554 — Antes de as testemunhas serem inquiridas devem notificar-se às Partes os seus nomes; mas se, segundo a prudente apreciação do juiz, isto não puder fazer-se sem grave dificuldade, faça-se ao menos antes da publicação dos depoimentos. Cân. 1555 — Sem prejuízo do prescrito no cân. 1550, a Parte pode pedir a exclusão da testemunha, se antes da sua inquirição se demonstrar existir causa justa para a exclusão. O que é poderá ser motivo para a Parte pedir ao juiz a exclusão de alguma testemunha? Poderemos hipotizar algumas situações tais como a testemunha estar subornada com compensações, a testemunha estar previamente preparada para responder de uma determinada 114 maneira, a testemunha ser subalterna da Parte e isso determinar pressão sobre essa testemunha para depor num determinado sentido. Trata-se, claramente, de uma matéria sensível para o juiz e nem sempre tão nítida e segura, como possa parecer. Daí que o conceito de “justa causa” nesta exclusão não parece de fácil determinação. Cân. 1556 — A citação da testemunha faz-se por decreto do juiz legitimamente notificado à testemunha. Na notificação da citação, feita pelo notário à testemunha, tem de constar o nome e o domicílio da testemunha, constar que é citada para comparecer na causa matrimonial identificada, indicar a data e o local da comparência. O modo de fazer chegar a notificação da citação à testemunha é o correio normal. Cân. 1557 — A testemunha legitimamente citada compareça ou comunique ao juiz a causa da sua não comparência. A inquirição das testemunhas Cân. 1558 — § 1. As testemunhas devem ser inquiridas na própria sede do tribunal, a não ser que o juiz considere oportuna outra coisa. § 2. Os Cardeais, os Patriarcas, os Bispos e aqueles que, segundo o direito do país, gozam de semelhante prerrogativa, sejam ouvidos no lugar por eles escolhido. § 3. O juiz decida onde devem ser ouvidos aqueles a quem pela distância, saúde ou outro impedimento, seja impossível ou difícil apresentar-se na sede do tribunal, sem prejuízo do prescrito nos câns. 1418 e 1469, § 2. Pode haver necessidade de “cartas rogatórias” pedidas a outro Tribunal, onde a Parte Demandada ou Testemunhas possam ser ouvidas. Cân. 1559 — As Partes não podem assistir à inquirição das testemunhas, a não ser que o juiz, sobretudo quando estiver em causa o bem privado, julgue que devem ser admitidas. Podem, no entanto, assistir os seus advogados ou procuradores, a não ser que o juiz, dadas as circunstâncias das coisas ou das pessoas, julgue que se deve proceder secretamente. Cân. 1560 — § l. Cada testemunha deve ser inquirida em separado. § 2. Se as testemunhas discreparem entre si ou com a Parte em matéria grave, o juiz pode acareá-las ou compará-las entre si, evitando-se, quanto possível, as dissensões e o escândalo. Esta norma é categórica e sempre esteve presente no direito canónico. Cân. 1561 — A inquirição da testemunha faz-se pelo juiz ou pelo seu delegado ou auditor, e a ela deve assistir o notário; pelo que, as Partes, o Promotor da justiça ou o Defensor do vínculo, ou os advogados que assistirem à inquirição, se tiverem outras perguntas a propor à testemunha, não as dirijam a esta, mas ao juiz ou quem fizer as suas vezes, para que ele as proponha, a não ser que a lei particular determine de outro modo. O juiz delegado ou o auditor tanto pode ser clérigo como leigo. No decurso do depoimento da Parte ou da Testemunha, o auditor pode fazer perguntas, suscitadas pelo desenrolar do depoimento, ditas “ex officio”, e que são acrescentadas às que foram, previamente, preparadas pelo Juiz instrutor com eventuais acrescentos de quesitos propostos pelo Defensor do vínculo e pelas Partes, na pessoa dos seus advogados. Ao auditor não compete ser ele a preparar os 115 questionários para as Partes e para as testemunhas, conforme determina o c. 1428 §3, que citamos: “Ao auditor apenas compete, em conformidade com o mandato do juiz, coligir as provas e, uma vez coligidas, entregá-las ao juiz; pode ainda, a não ser que obste mandato do juiz, decidir, entretanto, quais as provas e o modo como elas se devem coligir, se eventualmente surgir uma questão sobre esta matéria, enquanto ele exerce o múnus.” Cân. 1562 — § 1. O juiz lembre à testemunha a obrigação grave de dizer toda e só a verdade. § 2. O juiz defira à testemunha o juramento em conformidade com o cân. 1532; e se a testemunha se negar a prestá-lo, seja ouvida mesmo sem juramento. O juramento não é garantia plena de veracidade. Porém, a negação de prestar juramento pode merecer uma valoração por parte do juiz e isso deve constar na apreciação que o juiz fará, por escrito, após o depoimento, depois da testemunha se ter retirado. Se assim não fosse, seria inútil esta prescrição canónica. Cân. 1563 — Primeiramente o juiz comprove a identidade da testemunha, e investigue as relações que tem com as Partes, e, quando lhe fizer perguntas específicas acerca da causa, deve interrogá-la também acerca das fontes do seu conhecimento e exactamente quando soube aquilo que afirma. Negligenciar estas determinações canónicas poderá significar uma causa mal instruída, com prejuízos notórios para o encontro da certeza moral, aquando da sentença. Ilumina esta determinação canónica o Magistério de S. João Paulo II, quando afirma: “A tendência a ampliar estruturalmente as nulidades, esquecendo-se do horizonte da verdade objectiva, comporta um desvio estrutural de todo o processo. Neste caso, a instrução perde a sua incisividade, dado que o êxito é predeterminado. A própria investigação da verdade, à qual o juiz é gravemente obrigado ex officio (cf. CIC, cân. 1452; CCIO, cân. 1110) e para cujo alcance se serve do defensor do vínculo e do advogado, resolver-se-ia numa sucessão de formalismos desprovidos de vida. Uma vez que no lugar da capacidade de investigação e de crítica prevalecesse a construção de respostas predeterminadas, a sentença perderia ou atenuaria gravemente a sua tensão constitutiva para a verdade. Conceitos-chave, como os de certeza moral e de livre consideração das provas, permaneceriam desprovidos do seu necessário ponto de referência na verdade objectiva (cf. CDC, cân. 1608; CCIO, cân. 1291), que se renuncia a buscar ou então é considerada fora do alcance. Cân. 1564 — As perguntas sejam breves, acomodadas à capacidade do interrogado, não abrangendo muitas coisas ao mesmo tempo, não sejam capciosas, nem dolosas, nem sugiram a resposta, e sejam destituídas de ofensas a alguém e pertinentes à causa de que se trata. O interrogatório é um meio para se poder unir o alegado com o provado. O alegado é o que vem no libelo e, eventualmente, na manifestação da Parte Demandada. Ora não é sobre o alegado que os juízes vão construir a sentença, mas é no provado. Daí que, um interrogatório mal conduzido, defeituoso, desviado dos capítulo de nulidade invocados, torna-se um mau serviço prestado aos que têm a missão de decidir. Perguntas capciosas são perguntas que pela ambiguidade que transportam e pela confusão que criam na Testemunha, a levam a dar a resposta pretendida por quem fez a pergunta. Ora, não é a versão do juiz que interessa para a causa, mas é a verdade dos factos. A testemunha não pode ser sujeita a uma posição mental de responder, apenas, “sim” ou “não” às perguntas do juiz. Isso será desviá-la do conhecimento que terá dos factos alegados e colocala ou num patamar de matéria factual que ignora (e até poderá estranhar que tenha acontecido) ou no patamar de responder ao que o juiz pretende, deixando pelo caminho assuntos relevantes 116 para a causa. É ao juiz que compete decidir se tal ou tal pergunta, vinda do advogado ali presente, é ou não pertinente. Na verdade, a arte de perguntar é uma técnica que exige conhecimento da causa que está a ser tratada, exige, também, experiência forense e estar isento de preconceitos. Cân. 1565 — § l. As perguntas não se devem dar a conhecer antecipadamente às testemunhas. § 2. Contudo, se os factos que deve testemunhar se tenham de tal modo apagado da memória que não possam ser afirmados com certeza sem serem recordados previamente, o juiz poderá indicar antecipadamente à testemunha alguns pontos, se julgar que tal se possa fazer sem perigo. A existência de testemunhos subornados ou encomendados não é novidade nenhuma. Porém, o legislado no §2 do c.1565 não está a permitir que se entregue, em tais circunstâncias e previamente, o interrogatório à Testemunha. Pensemos, por exemplo, no caso de um médico que vem depor sobre o que observou no paciente e não é informado de quem se trata, não se recordando, por isso, de nada a esse respeito. Cân. 1566 — As testemunhas prestem oralmente o seu depoimento, e não leiam nada escrito, a não ser que se trate de cálculos ou de contas; neste caso podem consultar as notas que tiverem trazido. Nas causas de nulidade matrimonial poderemos falar de perícias, isto é, de relatórios escritos sobre consultas e tratamentos hospitalares, prévias à introdução desta causa, que são trazidos para a sessão instrutória e lidos nessa circunstância. No entanto, outros documentos poderão ser úteis para o depoimento. Cân. 1567 — § l. As respostas sejam imediatamente reduzidas a escrito pelo notário, e devem conter as próprias palavras do depoimento, ao menos no que se refere directamente ao objecto do juízo. § 2. Pode admitir-se o uso de máquina magnetofónica, contanto que depois se consignem por escrito as respostas e sejam assinadas, se for possível, pelos depoentes. As respostas são transmitidas pelo juiz ao notário. Manter as mesmas palavras do depoimento pode não ser coisa fácil. O que não se pode admitir é adulterar o que a Testemunha acabou de dizer. Por isso, usando algumas palavras suas (do juiz) mas sendo sempre fiel ao que a testemunha acabou de dizer, pode considerar-se que o juiz está a respeitar objectivamente a verdade do depoimento. É que, nesse momento e a todo o momento, a Testemunha poderá observar que o envio para a acta das palavras do juiz não corresponde ao que a Testemunha quis dizer. Cân. 1568 — O notário mencione nas actas se o juramento foi prestado, dispensado ou recusado, a presença das Partes e de outras pessoas, as perguntas acrescentadas oficiosamente e, em geral, tudo o que acontecer durante o interrogatório das testemunhas e pareça digno de memória. Ser o notário a mencionar nos autos, de sua livre iniciativa, tudo o que acontecer durante o interrogatório das testemunhas e pareça digno de memória, sendo isso de sua iniciativa, não parece ser essa a mente do legislador. Isso compete ao juiz. Cân. 1569 — § l. No final da inquirição, deve ler-se à testemunha o que o notário redigiu acerca do seu depoimento, ou fazer-lhe ouvir o que ficou gravado na fita magnetofónica, dando-se à testemunha a faculdade de acrescentar, suprimir, corrigir ou modificar o que entender. § 2 Por fim devem assinar a acta a testemunha, o juiz e o notário. 117 Com os meios informáticos de que dispomos, actualmente, não deixa de ser oportuno salientar que, após lido o depoimento, a Testemunha poderá acrescentar o que entender e isso far-se-á no final do texto. Se a Testemunha quiser suprimir alguma coisa ao que disse anteriormente, isso deverá fazer-se, também no final do texto, acrescentando-se isso mesmo e, por isso, não se deve ir ao corpo do texto e suprimir o que a Testemunha quer suprimir. Quanto ao querer corrigir ou modificar alguma coisa daquilo que disse, dever-se-á proceder do mesmo modo, isto é, inserir isso no fim do depoimento. Podem fazê-lo mas não é necessário que o advogado e o defensor do vínculo, estando presentes, assinem a acta. Cân. 1570 — Se o juiz o julgar necessário ou conveniente, e contanto que se evite todo o perigo de colusão ou de corrupção, as testemunhas, embora já ouvidas, podem, a requerimento da Parte ou oficiosamente, ser de novo chamadas a depor. Pode ser necessário esclarecer melhor o alegado, esclarecer pontos duvidosos, dissipar contradições. Daí a razão de ser deste cânon 1570. Acontece a “colusão” quando a testemunha atraiçoa deliberadamente a Parte, que a propôs como Testemunha, e vem favorecer a outra Parte. Pode dar-se o caso da Testemunha ter constatado que, no seu depoimento, cometeu erros que queria, agora, corrigir. Poderá ser ela própria a pedir para ser ouvida novamente? O c. 1570 não contempla essa possibilidade. No entanto, nada impede que o juiz decida e considera essa petição, à luz dos critérios expostos no cânon 1570. Que valor dar às segundas declarações em relação às do primeiro depoimento? Várias sentenças do Tribunal da Rota Romana privilegiam as primeiras declarações, a não ser que haja motivos evidentes para pensar o contrário. Valor dos testemunhos Cân. 1572 — Ao avaliar os testemunhos, o juiz, solicitadas, se for necessário, cartas testemunhais, considere: 1.° qual seja a condição da pessoa e a sua honestidade; 2.° se depôs por ciência própria, principalmente por ter visto ou ouvido, ou por mera opinião sua, pela fama, ou pelo que ouviu a outras pessoas; 3.° se a testemunha se mostrou constante e firmemente coerente consigo própria, ou variável, incerta ou vacilante; 4.° se o depoimento condiz com os das outras testemunhas, ou se é confirmado ou não com outros elementos de prova. A primeira questão que colocamos, face a esta legislação, é perguntar quem é que passa essas “cartas testemunhais”. Estamos a pensar, em alguém idóneo e com credibilidade, conhecedor da testemunha. Portanto, alguém qualificado para o efeito. Podemos, por isso, pensar que o Pároco dessa Testemunha possa ser a tal pessoa qualificada para se poder pronunciar sobre o que o c. 1572 determina. Entretanto, torna-se claro que a indagação possível junto do Pároco acerca da Testemunha, que ele bem conhecerá, ficará reduzida apenas à primeira determinação: “avaliar qual seja a condição da pessoa e a sua honestidade.” E ficamos por aí, porque, de modo algum, o Pároco poderá pronunciar-se sobre os outros pontos fixados no c. 1572. Cân. 1573 — O depoimento de uma única testemunha não pode fazer fé plena, a não ser que se trate de testemunha qualificada que deponha acerca de coisas executadas em razão do ofício, ou as circunstâncias das coisas ou das pessoas persuadam outra coisa. A moderação do juiz na prova testemunhal O c. 1547 estabelece o princípio geral pelo qual, em qualquer causa, é admitida a prova testemunhal. São excluídas as testemunhas do processo documental nas causas para a declaração de nulidade de matrimónio (cc. 1686-1688). A expressão “sob a moderação do juiz” 118 indica que a posição do juiz neste meio de prova é superior em relação a outros meios, dado que, para além de avaliar os testemunhos, a ele respeita admitir, rejeitar e interrogar as testemunhas e, além disso apresentar testemunhas “ex officio” nas causas de interesse público (cc. 1478 § 4, 1550 § 1). A proposição de testemunhas compete às Partes, privadas e públicas (c. 1434), que devem indicar ao tribunal o nome, domicílio ou quase domicílio (c. 102). Não é indicado o número máximo ou mínimo de testemunhas, deixando o seu limite ao critério do juiz (c. 1553) o qual deverá impedir o número excessivo, tendo em conta a dificuldade do caso. A admissão diz respeito ao juiz, considerando, sobretudo, a qualidade da testemunha. O juiz deve excluir deste ofício as testemunhas apresentadas que sejam incapazes ou que não devam ser admitidas (c. 1550). Exclusão da testemunha A rejeição de uma testemunha é uma excepção contra a pessoa apresentada, excluindo-a da instrução (c. 1554). Compete normalmente à Parte contrária propor a exclusão de uma testemunha apresentada pela outra Parte. A reprovação deve ser pedida antes do interrogatório da testemunha, mas não basta o pedido. Deve indicar-se e demonstrar-se que há um justo motivo para a sua exclusão. Tais motivos podem referir-se às qualidades legais da testemunha (c. 1550) que possam ter escapado ao juiz, mas também a motivos pessoais, como inimizade, infâmia, má-fé. Trata-se de um incidente que, normalmente, não interrompe a instrução. Nada proíbe que possa ser solicitada a exclusão de uma testemunha pela mesma Parte que pediu a sua inclusão. Essa renúncia deve ser feita segundo as normas do c. 1524 § 3. Porém, se a outra Parte não aceita, compete ao juiz decidir (c. 1551). Preliminares no depoimento da testemunha As Partes devem indicar os nomes e os argumentos sobre os quais desejam que venham a ser interrogadas as testemunhas (c. 1552 §2). Faltando tal indicação, dentro do prazo estabelecido pelo juiz (o qual poderá ser prorrogado – c. 1465 §2), o pedido tem-se por abandonado. A apresentação faz-se mediante pedido dirigido ao juiz que, depois de o ter examinado, comunicará à outra Parte o nome das testemunhas (c. 1554) para tornar possível eventuais excepções (c.1555). Não é proibido que as Partes ou advogados se informem mutuamente porque o cânone não estabelece quem deva fazer tal comunicação; pode decidi-lo o juiz. No que respeita às perguntas há a proibição de as comunicar antecipadamente à testemunha (c. 1565). O juiz pode diferir a comunicação do nome das testemunhas à Parte contrária, até à publicação dos depoimentos (que coincide com a publicação dos Autos – c. 1598) se tal comunicação se torna gravemente difícil. Tal gravidade pode dizer respeito a motivos vários que o juiz deve indicar no momento de ordenar a comunicação. Não se poderá negar o direito à reprovação da testemunha e, por isso, dado que a não comunicação do seu nome poderia comprometer o exercício de tal direito, dever-se-á permitir a reprovação dos depoimentos no momento da publicação. Depois da comunicação à Parte contrária, o juiz deve citar legitimamente a testemunha, tornando com isso público o acto e notificando-a segundo as normas de segurança estabelecidas no c. 1509. A citação deve indicar com precisão, a data, a hora e o local do interrogatório (c.1556). Pode ser possível a apresentação espontânea da testemunha, que isenta da obrigação de citação, mas obriga a considerar o valor da testemunha espontânea. Desenvolvimento do interrogatório à testemunha Normalmente, o lugar do interrogatório para as testemunhas é a sede do tribunal (c.1558). São excepção os Cardeais, os Patriarcas, os Bispos ou personalidades civis que usufruem desse direito segundo as leis do seu país. Todos estes escolhem o lugar onde querem ser ouvidos. Ao juiz é reconhecida a faculdade de determinar um outro lugar para o interrogatório. Deverá fazer tal determinação no caso de se tratar de testemunhas impedidas que, não podendo deslocar-se à 119 sede do tribunal, serão ouvidas onde o juiz tiver decidido. O juiz poderá enviar cartas rogatórias a um outro tribunal (c.1418) e pode dirigir-se também para fora da sede do tribunal, depois de ter ouvido as Partes, com a permissão do Bispo diocesano e na sede que este lhe tenha designado (c.1469 §2). Não se exclui interrogatório por telefone (c. 1527) mas, nesse caso, deve constar a identidade e a liberdade da testemunha e deve ser atestada a autenticidade da declaração pelo juiz ou pelo notário. As Partes não podem assistir ao interrogatório das testemunhas a não ser que o juiz, principalmente nas causas de interesse privado, considere dever admiti-las (c.1559). Tal admissão é sempre obrigatória no processo contencioso oral (c.1663 § 2) mas é absolutamente proibida nas causas matrimoniais (c.1678 §2). A restrição para as Partes é mais forte, porque a pessoa que está a depor facilmente pode sentir-se limitada na sua liberdade com a presença das Partes. Parece que a lei presume que também o juiz se torna mais livre ao interrogar as testemunhas sem a presença das Partes. Os patronos das Partes podem assistir ao exame das testemunhas em todas as causas, a não ser que o juiz, considerando as circunstâncias das pessoas e das coisas, considere que se deva proceder em segredo (c. 1559). Para excluir os advogados dos interrogatórios requer-se um motivo. A sua presença é útil para evitar suplementos de instrução (c. 1598 §2) e para resolver dificuldades que possam surgir durante o interrogatório, mesmo, tendo em conta que a sua assistência não significa permissão para interrogar directamente a testemunha, a não ser que a lei particular o permita (c. 1561). O Promotor de justiça e o Defensor do vínculo podem assistir aos interrogatórios sempre que não sejam deles excluídos pela norma do c. 1559. Deve assistir sempre um notário (c. 1561) de tal modo que os actos não assinados pelo notário são nulos (cc. 1437 §1 e 1568). As testemunhas devem ser interrogadas separadamente (c. 1560 §1) de modo a garantir melhor a sua liberdade e a evitar que se deixem influenciar mutuamente. A única excepção é o confronto entre duas testemunhas (“acareação”) que o juiz possa ordenar quanto à discordância sobre uma questão importante. A leve discrepância pode ser interpretada como sinal de independência e de sinceridade da testemunha. Não é obrigatório para o juiz recorrer à acareação. Trata-se de um poder que pode usar especialmente quando não há outra via para obter a clarificação desejada. 1. O desenvolvimento do interrogatório é precedido da comprovação da identidade da testemunha: nome completo, idade, naturalidade, profissão, religião, etc. Deve incluirse uma pergunta sobre a relação com a Parte e se conhece o que é o matrimónio católico e o que isso implica. 2. A seguir, serve-se do questionário que o Juiz instrutor preparou acerca do objecto específico da controvérsia e pode servir-se dos artigos preparados pelas Partes ou seus patronos, pelo Defensor do vínculo ou Promotor de justiça. 3. O interrogatório deve compreender a indicação da fonte pela qual a testemunha chegou ao conhecimento dos factos que afirma, bem como a indicação do tempo de tal conhecimento. O juiz faz as perguntas (c. 1561) também no caso em que surjam ulteriores questões, diversas das propostas inicialmente pelas Partes (c. 1552 §2), a não ser que a lei particular permita fazer de outro modo. Tal acréscimo é uma faculdade, não uma obrigação, para o juiz que pode juntar outras perguntas “ex officio” (c. 1452 §1). 4. Compete ao juiz recordar à testemunha a obrigação de dizer toda e só a verdade. (c. 1562). Nas causas de interesse privado, o juiz é livre de pedir ou dispensar as testemunhas do juramento. Nas causas de interesse público deve pedi-lo, a não ser que uma causa grave sugira diferentemente. A testemunha pode recusar prestar juramento, mas, mesmo assim, deverá ser ouvida. Desse juramento prestado ou dispensado ou recusado deve haver menção nos autos (c. 1568). 5. As perguntas devem ser simples e breves, não contendo várias questões numa só, de tal maneira que a testemunha possa perceber cada pergunta e responder a todas. O juiz deve ter em conta a inteligência e mentalidade da testemunha adaptando-se ao seu nível de compreensão. 6. As perguntas não devem ser obscuras nem com duplo ou múltiplo sentido. 120 7. Não se devem admitir perguntas dolosas nem sugestivas que contenham já indicação da resposta. 8. As perguntas não podem ser ofensivas para ninguém e devem dizer respeito à causa. Se o juiz não respeita estas normas, abre-se o campo a possíveis excepções e oposições incidentais. 9. O c. 1565 diz que é proibido comunicar antecipadamente às testemunhas as perguntas. Assim se evitará que a testemunha se prepare para o depoimento, evitando o perigo de um pré-estabelecimento das respostas. Apenas, quando se tratar de um interrogatório sobre factos de difícil memória, na ocasião, o juiz pode prevenir a testemunha sobre esse particular para actualizar a sua memória, mas sempre evitando o perigo de corrupção. 10. A testemunha deve responder oralmente (c.1566) e sem atrasos. 11. Pode servir-se de elementos escritos quando o seu depoimento versar sobre números. O auto processual do depoimento 1. O notário deve escrever o depoimento (c. 1567) incluindo os preliminares e reportando integralmente as palavras da testemunha, ditadas pelo juiz instrutor (ou pelo auditor) naquilo que se refere directamente ao objecto da controvérsia. O juiz deverá tentar uma fidelidade material e nunca interpretar, com modificações, as respostas da testemunha. 2. O notário escreverá as perguntas e respostas “ex officio”. Escreverá as últimas formalidades do interrogatório (cc. 1568-1569), se a testemunha prestou juramento, se a testemunha usou qualquer apontamento escrito, se foram mais sessões, bem como outras circunstâncias dignas de ser recordadas: incertezas, autocorrecção, retratação, etc. Obs. É permitido o uso do gravador para registar o depoimento. Para se evitar abusos, as respostas gravadas devem ser transcritas e assinadas pelas testemunhas. Uma cuidada redacção deste depoimento é ainda mais importante no caso do juiz que interroga ser diferente daquele que deva decidir. É o que acontece quando se tratar de um auditor. 3. No fim do interrogatório, far-se-á a leitura do depoimento ou a escuta da gravação (c.1569) concedendo à testemunha a faculdade de acrescentar, suprimir, ou corrigir o depoimento. O notário refira no auto se a testemunha fez ou não uso desta faculdade e subscreve o auto juntamente com o juiz e a testemunha. 4. É de todo relevante que, após a sessão terminada e em privado, o juiz instrutor (ou o auditor) escreva, para os autos, a impressão que teve da Parte ou Testemunha que acabou de depor. Deverá anotar se lhe pareceu firme ou titubeante nas respostas, se se mostrou serena ou agitada, se manifestou ou não ciência certa do que afirmou, etc. Os outros assistentes não assinam mas deve incluir-se no auto o facto da sua presença. Nada impede, porém, que possam assinar. Pode ser necessária a repetição do interrogatório ou um novo exame das testemunhas (c.1570). Os já dispensados poderão ser interrogados novamente, a instância da Parte ou “ex officio”, quando o juiz retiver essa audição como necessária ou útil, com a condição de não haver conluio (quando a testemunha procura favorecer a Parte) nem corrupção (pagamento material do favor). O modo de evitar essas situações seria fazer o segundo interrogatório numa única sessão, evitando o contacto com a Parte antes de acabar o novo exame e baseando o interrogatório, preferentemente, em perguntas “ex officio”. Este segundo exame deverá acontecer antes da publicação dos autos. Depois da conclusão da causa, é permitida a audição da testemunha, segundo a norma do c.1600. Valorização da prova testemunhal É um acto livre do juiz, que deve ter em conta a condição da testemunha, a sua honestidade, a constância e a coerência das suas afirmações. Objectivamente, interessa analisar a fonte donde provêm essas afirmações e a concordância com as outras testemunhas (c. 1572). O documento 121 secreto de pedido de idoneidade (as ditas “cartas testemunhais) também entra neste juízo de valor. Se é verdade que “testis unus, testis nullus” do direito romano serve para o direito canónico, no entanto, o c. 1573 estabelece duas excepções que significam um testemunho que pode ter a eficácia de prova plena: - o testemunho de uma pessoa qualificada ou pública, que depõe em razão do seu ofício, - e o testemunho de uma pessoa privada ou pública sobre coisas não oficiais quando apoiada em outros elementos probatórios. Problemas doutrinais sobre testemunhas Credibilidade da testemunha Pedir documentos secretos de credibilidade acerca das testemunhas é um subsídio por vezes criticado na doutrina por ser inútil e, muitas vezes, feito com ligeireza e imprecisão. Dado que se trata de um suplemento de ajuda ao juiz, torna-se, por isso mesmo, um documento probatório que deverá ser publicado para ser submetido à crítica das Partes, tendo em conta o segredo, segundo o cânon 1598 § 1º. Se se considerar este documento como confidencial, isto é, que não deve ser dado a conhecer, tal documento não poderá ser publicado. Tal publicação tornar-se-ia ilegítima. Em segundo lugar, não é pacífico que se estabeleça correspondência absoluta entre credibilidade e bons costumes da testemunha, nem sequer quando dela se diz que tem religiosidade. Muitas vezes, uma testemunha confunde deveres de caridade para com quem tem necessidade das suas declarações (por exemplo, ocultar) com a verdade objectiva. A excessiva predisposição a favor ou contra as Partes pode diminuir a veracidade relativamente ao caso concreto. Ciência da testemunha Do cânone 1572 emerge uma quádrupla distinção acerca da ciência da testemunha que a doutrina e a jurisprudência nos ajudam a especificar. a) Assim os mais atendíveis são os testemunhos de ciência própria. Na verdade, são os únicos que podem realizar a verdadeira e própria função de um testemunho, isto é, referir factos concretos. É necessário saber se verdadeiramente uma testemunha teve possibilidade de presenciar o facto, se o facto era facilmente cognoscível ou não e quais as condições da testemunha (idade, maturidade, etc.). Sobre determinados extremos do interrogatório é possível que uma testemunha afirme ignorar a realidade. Tal ignorância não significa que não seja testemunha por ciência própria. Dependerá do conteúdo em questão. b) No extremo exposto dos testemunhos de ciência própria, estão os testemunhos de “ter ouvido dizer” que obrigam a distinguir entre a verdade dos factos que ouviram dizer e a conformidade dessa verdade com a verdade objectiva. A credibilidade destes testemunhos não depende da sua veracidade mas da fonte dos seus conhecimentos. Tal fonte poderá ser a própria Parte o que obriga o juiz a examinar se a informação favorece ou prejudica a questão ou se foi feita em tempo não suspeito, etc. A jurisprudência dá pouco valor ao testemunho daqueles que receberam informação da Parte em tempo suspeito. Podem provar alguma coisa se a sua informação foi recebida em tempo não suspeito ou por uma terceira pessoa. Porém, quando tal fonte é desconhecida (foram rumores, etc.) o testemunho fica privado de qualquer valor. c) Aquilo que chamamos de opinião comum constante, sólida e uniforme, num determinado lugar e sobre um determinado facto, dá lugar a uma terceira categoria de testemunhos. É uma categoria intermédia que torna necessária a distinção entre a existência da fama e a verdade. Na jurisprudência, considera-se que há fama quando existem duas testemunhas, dignas de crédito, que declaram ter ouvido dizer, pelo menos a outras duas pessoas, o que a maioria da população tem por certo, pelo facto de existirem determinadas provas, o facto de que se trata. Para a jurisprudência, provar a existência da fama é 122 muito difícil e, se não vierem a ser provados, os testemunhos de fama passam a pertencer à categoria anterior, isto é, a testemunhos por aquilo que se ouviu dizer. Esta categoria goza da presunção de verdade, mas normalmente deve articular-se com outros elementos de prova. d) Por último, também como categoria intermédia estão os testemunhos de opinião. A opinião de uma testemunha vale de acordo com a força do seu fundamento, objectivamente considerado. Tal fundamento deve ser certo. Ausência da Parte Demandada (cc. 1592-1593) Cân. 1592 — § 1. Se a Parte Demandada, uma vez citada, não comparecer nem apresentar justificação idónea da sua ausência ou não responder nos termos do cân. 1507, § 1, o juiz declare-a ausente do juízo e mande que a causa, observando-se o que está determinado, prossiga até à sentença definitiva e sua execução. § 2. Antes de o decreto, referido no § 1, ser lavrado, deve constar, inclusivamente por nova citação, se for necessário, que a citação, feita legitimamente, chegou em tempo útil às mãos da Parte Demandada. Considera-se que a Parte Demandada é Parte ausente quando: - foi legitimamente citada (não esquecer ter sido citada duas vezes, por meios idóneos de correio, e isso ficou apenso aos autos), - não compareceu perante o juiz ou não respondeu por escrito (segundo o c. 1507 §1), - não apresentou nenhuma justificação plausível. Assim acontecendo, o juiz presidente emite um decreto em que afirma que a Parte foi legitimamente citada, que a citação foi repetida e que chegou em tempo útil e que, por fim, a Parte Demandada não respondeu, nem se apresentou ao juiz, nem apresentou nenhuma razão para a sua passividade. Se, posteriormente, no decurso do processo, a Parte Demandada “der sinais de vida”, o juiz tenha isso em consideração e permita que a Parte Demandada intervenha no processo, naquilo que lhe diz respeito. Se a causa já está decidida, isto é, com a sentença dada, a Parte ausente pode, mesmo assim, intervir no processo, propondo, nos termos estabelecidos pela lei, qualquer meio de impugnação previsto, como se tivesse participado no processo. A Parte Demandada, ausente, apresenta-se, posteriormente Cân. 1593 — § 1. Se depois a Parte Demandada se apresentar em juízo ou der resposta antes da decisão da causa, pode apresentar conclusões e provas, sem prejuízo do prescrito no cân. 1600; evite, porém, o juiz que o juízo intencionalmente se prolongue demasiado com longas e não necessárias demoras. § 2. Ainda que não tenha comparecido ou respondido antes da decisão da causa, a Parte Demandada pode impugnar a sentença; e se provar que tinha sido estorvada por um impedimento legítimo, que antes sem culpa sua não pôde demonstrar, pode interpor querela de nulidade. Ausência da Parte Autora (c. 1594) O c. 1594 fala da ausência da Parte Autora. Com efeito, a Parte Autora do processo pode tomar uma atitude semelhante à da Parte Demandada, tornando-se ausente do julgamento. Cân. 1594 — Se no dia e hora determinados para a contestação da lide o autor não comparecer nem apresentar justificação idónea: 1.° o juiz cite-o de novo; 123 2.° se o autor não obedecer à nova citação, presume-se que renunciou à instância nos termos dos câns. 1524-1525; 3.° se, depois, quiser intervir no processo, observe-se o cân. 1593. Como se depreende da lei, o facto da Parte Autora se tornar ausente do processo abre caminho a considerar-se a presunção da sua vontade em renunciar à instância. Para que esta presunção desagúe em decisão legítima, o juiz deverá emanar uma nova citação. Tal procedimento deverá ficar registado, com documentos, nos autos do processo. Nas causas de nulidade matrimonial, tendo sido a Parte Autora declarada, legitimamente, como Parte ausente, resta ainda no processo a acção das outras Partes: a Parte Demandada e o Defensor do vínculo. Ora, poderá acontecer que a Parte Demandada não aceite a renúncia do Autor ao processo e inste para que o processo continue, em ordem à declaração de nulidade do seu matrimónio com a Parte Autora. A Instrução Dignitas connubii, no artº 140, 3º, diz que isso é possível. Nesse caso, a Parte Demandada torna-se Parte Autora em tal processo, porque aqui se aplica o princípio geral do Direito (“regras do Direito”) que diz: “reus excipiendo fit actor”. Entregar ou não a cópia dos autos A prática de entregar uma cópia dos autos pode o juiz segui-la relativamente apenas para com os advogados, quando o peçam, bem como para com as Partes públicas. Não se trata, portanto, de um direito das Partes. A entrega da cópia dos autos não é exigida ao juiz, sob pena de nulidade. É uma decisão livre do juiz. A lei nada diz a propósito das Partes, o que significa que a elas não compete a faculdade de receber a cópia dos autos. Importa, no entanto, sublinhar que se trata de uma norma injustificada, pela simples razão de a Parte poder estar sozinha em juízo, se ela resolveu escolher a faculdade de autodefesa concedida pelo c. 1481. São medidas que parecem denunciar o receio de que os actos da causa sejam utilizados fraudulentamente. Porquê a lei denunciar uma certa diferença entre os advogados e as Partes? Parece-nos que a razão estará nisto: os advogados estão sujeitos, canonicamente, a leis mais estreitas no exercício das suas funções, junto dos tribunais eclesiásticos. Por isso, podem, inclusive, ser destituídos dessa função eclesial, pela lei canónica enquanto as Partes não estão, pela lei canónica, submetidas a idêntico controlo. Se prevaricarem, isto é, se usarem os autos para outros fins, poderão estar sujeitas a sanções da justiça civil. Com cópia ou sem cópia, a publicação dos autos é um acto processual obrigatório, que traduz que os autos foram postos à disposição dos interessados e essa permissão de conhecer os autos é que é exigida, sob pena de nulidade. Trata-se de um enquadramento do direito de defesa que compete às Partes. Exame dos autos ainda não publicados Nas causas de nulidade matrimonial, os advogados e as Partes públicas têm o direito de examinar os autos ainda não publicados com menção explícita dos documentos produzidos pelas Partes (c. 1678, § 1, 2). Trata-se de um direito. Portanto, é obrigatório para o juiz permitir o seu exercício. Possibilidade de acréscimo de outras provas Depois do exame aos autos publicados, as Partes podem apresentar ao juiz outras provas que julguem dever completar as já publicadas, quando não estão satisfeitas com a possibilidade de convencer o juiz acerca da posição que manifestaram no processo. Trata-se de um normal encargo instrutório. O juiz deverá admitir este pedido de suplemento de prova, examinando as razões aduzidas pelas Partes, quando o julgar necessário. As novas provas acrescentadas devem ser publicadas, com um novo decreto de “publicação dos autos”. Fase discussória da causa 124 Cân. 1601 — Efectuada a conclusão da causa, o juiz estabeleça um prazo conveniente para se apresentarem as defesas ou alegações. Cân. 1602 — § 1. As defesas ou alegações apresentem-se por escrito, a não ser que o juiz, com o consentimento das Partes, considere suficiente a discussão em audiência do tribunal. § 2. Requer-se licença do juiz para se imprimirem as defesas com os principais documentos, salvaguardada a obrigação do segredo, se a houver. § 3. No concernente à extensão das defesas, número de exemplares e outras circunstâncias semelhantes, observe-se o regulamento do tribunal. Cân. 1603 — § 1. Uma vez permutadas as defesas e alegações entre as Partes, cada uma delas pode replicar, dentro de um prazo breve estabelecido pelo juiz. § 2. As Partes somente gozam deste direito uma única vez, a não ser que por causa grave o juiz considere que deve concedê-lo outra vez; nesse caso, feita a concessão a uma Parte, considera-se feita também à outra. § 3. O Promotor da justiça e o Defensor do vínculo têm o direito de replicar de novo às alegações das Partes. Cân. 1606 — Se as Partes negligenciarem apresentar a defesa no prazo útil, ou se se remeterem à ciência e consciência do juiz, este, se considerar que o caso está plenamente dilucidado com o alegado e provado, pode proferir imediatamente a sentença, depois de pedidas as alegações do Promotor da justiça ou do Defensor do vínculo, se tiverem participado no juízo. A fase decisória do processo gira à volta do acto fundamental que é o pronunciamento do juiz. A fase decisória envolve não somente o titular do poder judicial mas também os destinatários da decisão cuja participação no momento final continua a ser activa antes do pronunciamento do juiz (com a discussão da causa) e depois desse pronunciamento (com os actos de impugnação previstos pelo direito) Definição de discussão da causa e institutos jurídicos A discussão é um acto processual que consiste na avaliação feita pelas Partes dos resultados da instrução para defender as suas pretensões, com base no material recolhido nesse período instrutório. Dado que o juiz deve decidir a partir do alegado e provado e não a partir das discussões, não se pode reter como objectivo principal da discussão o posterior convencimento do juiz. Dado que se trata de um acto que implica o contraditório, a discussão implica a participação das Partes na descoberta da verdade, mediante a apresentação das defesas ou das observações. As defesas competem às Partes privadas, as observações competem ao Defensor do vínculo. Estão também previstas as respostas e o debate oral, como vimos. Alegações das Partes Trata-se das alegações e documentações que as Partes apresentam como sustentáculo das suas pretensões, pontualmente apoiadas nos elementos favoráveis da instrução. Tornam-se inúteis as defesas que não tenham referência aos autos da causa. De resto, é proibido dar ao juiz informações não constantes dos autos (c. 1604 §1). Essas informações são consideradas juridicamente inexistentes. Estrutura das alegações Podemos indicar, servindo-nos da jurisprudência corrente, a estrutura das alegações: 1. Facti species 1.1. Narração dos factos 1.2. Exposição do processo junto do Tribunal Eclesiástico 125 2. In iure (princípios do direito) 2.1. Direito substantivo (na lei, na doutrina, na jurisprudência) 2.2. Direito processual 3. In facto (aplicação do direito aos factos) 4. Conclusão Seja observado que o ponto 1 (facti species) deve ser breve: uma página poderá chegar. O mesmo se diga do direito substantivo: uma página chegará. Trata-se de alegações e não da relação de uma sentença. Processo para dispensa de matrimónio rato não consumado (cc. 1697-1706) Trata-se de um processo administrativo. Não existe Autor, mas Suplicante, que apresenta pedido para obter a graça da dispensa (c. 1697). Não há Juiz que resolve a causa pendente, mas sim Instrutor que recolhe as provas. O processo encerra com a concessão da dispensa. Suplicante do matrimónio rato não consumado: podem ser suplicantes ambos os cônjuges ou só um deles. Quem concede a dispensa do matrimónio rato não consumado é unicamente o Santo Padre. O processo é julgado pelo Tribunal da Rota Romana. Exame do libelo do matrimónio rato não consumado O libelo é dirigido ao Santo Padre, mas apresentado ao Bispo do lugar do domicílio do suplicante. O Bispo examina o libelo, quanto ao fundamento e oportunidade da dispensa. O Bispo pode no exame: a) ordenar instrução, quanto á consistência do fundamento; b) proceder a consulta à sé apostólica, quanto a particulares dificuldades de facto ou de direito c) determinar a rejeição do libelo, havendo, nesse caso, recurso para a Congregação da Disciplina dos Sacramentos. Instrução do matrimónio rato não consumado Intervêm o Instrutor, Notário, Defensor do Vínculo e as Partes. Não há intervenção do advogado. A instrução visa: a) facto objectivo da não consumação b) existência de acusa proporcionadamente grave para a concessão da dispensa. Provas do matrimónio rato não consumado 1. De carácter moral: a) Confissão jurada das Partes e testemunhos de credibilidade pedidos pelo Instrutor (c. 1679). b)Depoimento jurado de testemunhas e testemunhos de credibilidade pedidos pelo Instrutor (c. 1672). c) Presunções e indícios legítimos (ex: casamento por procuração sem coabitação). 2. De carácter físico: inspecção corporal (c. 1702). Tarefas Instrutor - decreta a conclusão do processo. Elabora relatório dos trabalhos e entrega-o com o processo ao Bispo. Defensor do vínculo - examina os autos e faz as suas advertências por escrito. Bispo - apoia-se na verdade objectiva dos factos e emite um voto “pro rei veritate”, assente no facto da inconsumação, na existência de causas proporcionadamente graves para a dispensa, na oportunidade da concessão da graça solicitada e envia tudo para o Tribunal da Rota Romana. 126 Decisão sobre o matrimónio rato não consumado È proferida pelo Santo Padre. A Santa Sé pode: a) pedir complemento de instrução; b) rejeitar o pedido c) conceder a graça por Rescrito (documento), que tem efeito a partir da sua assinatura, sendo anotado no registo de baptismos. Causas de nulidade do matrimónio - alterações legislativas Carta apostólica em forma de «motu proprio» do Sumo Pontífice Francisco MITIS IUDEX DOMINUS IESUS Sobre a reforma do processo canónico para as causas de declaração de nulidade do matrimónio no código de direito canónico O Senhor Jesus, manso Juiz, Pastor das nossas almas, confiou ao Apóstolo Pedro e aos seus Sucessores o poder das chaves para realizar na Igreja a obra de justiça e de verdade; este poder supremo e universal, de ligar e desligar aqui na terra, afirma, corrobora e reivindica o dos Pastores das Igrejas particulares, em virtude do qual eles têm o sagrado direito e o dever, perante o Senhor, de julgar os seus súbditos.38 No decorrer dos séculos, a Igreja, em matéria matrimonial, adquirindo uma consciência mais clara das palavras de Cristo, compreendeu e expôs com maior profundidade a doutrina da indissolubilidade do sagrado vínculo do matrimónio, elaborou o sistema das nulidades do consentimento matrimonial e disciplinou de forma mais adequada o relativo processo judicial, de modo que a disciplina eclesiástica fosse cada vez mais coerente com a verdade da fé professada. Tudo isto foi sempre feito tendo como guia a lei suprema da salvação das almas 39, já que a Igreja, como sabiamente ensinou o Beato Paulo VI, é um desígnio divino da Trindade, pelo que todas as suas instituições, embora sempre perfectíveis, devem tender para o fim de comunicar a graça divina e favorecer continuamente, segundo os dons e a missão de cada um, o bem dos fiéis, enquanto objectivo essencial da Igreja. 40 Ciente disso, decidi empreender a reforma dos processos de nulidade do matrimónio e, para esse efeito, constituí um Grupo de pessoas eminentes por doutrina jurídica, prudência pastoral e experiência forense que, sob a guia do Excelentíssimo Decano da Rota Romana, fizesse o esboço de um projecto de reforma, permanecendo firme, contudo, o princípio da indissolubilidade do vínculo matrimonial. Trabalhando arduamente, este Grupo preparou um esquema de reforma que, depois de meditada consideração, com a ajuda de outros especialistas, é agora vertido neste Motu Proprio. É, portanto, a preocupação pela salvação das almas, que continua a ser – hoje como ontem – o fim supremo das instituições, das leis, do direito, que impele o Bispo de Roma a oferecer aos 38 Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Const. dogm. Lumen Gentium, 27. 39 Cf. Código de Direito Canónico, cân. 1752. 40 Cf. Paulo VI, Alocução aos participantes no II Convénio Internacional de Direito Canónico (17 de Setembro de 1973). 127 Bispos este documento reformador, enquanto partilham com ele esta tarefa da Igreja, isto é, tutelar a unidade na fé e na disciplina relativamente ao matrimónio, centro e origem da família cristã. O impulso reformador é alimentado pelo ingente número de fiéis que, embora desejando prover à sua própria consciência, muitas vezes foram afastados das estruturas jurídicas da Igreja por causa da distância física ou moral; ora, a caridade e a misericórdia exigem que a própria Igreja como mãe se torne próxima dos filhos que se consideram separados. Neste sentido, apontaram também os votos da maioria dos meus Irmãos no Episcopado, reunidos no recente Sínodo Extraordinário, que imploraram processos mais rápidos e acessíveis.41 Em total sintonia com tais desejos, decidi, com este Motu Proprio, dar disposições que favoreçam, não a nulidade dos matrimónios, mas a celeridade dos processos, no fundo, uma justa simplificação, para que, por causa da demora na definição do juízo, o coração dos fiéis que aguardam pelo esclarecimento do seu próprio estado não seja longamente oprimido pelas trevas da dúvida. Fi-lo seguindo naturalmente os passos dos meus Antecessores, os quais quiseram que as causas de nulidade do matrimónio fossem tratadas por via judicial, e não administrativa, não porque o imponha a natureza da coisa, mas porque o exige a necessidade de tutelar ao máximo a verdade do sagrado vínculo, sendo isso assegurado, sem dúvida, pelas garantias da ordem judiciária. Assinalam-se alguns critérios fundamentais que conduziram o trabalho de reforma. I. – Uma única sentença favorável à nulidade é executiva: Pareceu oportuno, antes de mais, que já não seja exigida uma dupla decisão conforme a favor da nulidade do matrimónio para que as partes sejam admitidas a novas núpcias canónicas, mas que seja suficiente a certeza moral alcançada pelo primeiro juiz nos termos do direito. II. – O juiz único, sob a responsabilidade do Bispo: A constituição do juiz único, certamente clérigo, em primeira instância é confiada à responsabilidade do Bispo que, no exercício pastoral do seu poder judicial, deverá assegurar que não se consinta qualquer forma de laxismo. III. – O próprio Bispo é juiz: A fim de que seja finalmente traduzido na prática o ensinamento do Concílio Vaticano II num âmbito de grande importância, estabeleceu-se evidenciar que o próprio Bispo na sua Igreja, da qual está constituído pastor e chefe, é por isso mesmo juiz no meio dos fiéis a ele confiados. É desejável, portanto, que o próprio Bispo, tanto nas grandes como nas pequenas dioceses, ofereça um sinal da conversão das estruturas eclesiásticas, 42 e não deixe completamente delegada aos serviços da Cúria a função judiciária em matéria matrimonial. Valha isto especialmente no processo mais breve, que é estabelecido para resolver os casos de nulidade mais evidente. IV. – O processo mais breve: De facto, além de se tornar mais ágil o processo matrimonial, estabeleceu-se uma forma de processo mais breve – juntando-se ao documental actualmente em vigor –, que se aplicará nos casos em que a acusada nulidade do matrimónio seja sustentada por argumentos particularmente evidentes. Não me passou, todavia, despercebido quanto um juízo abreviado possa colocar em risco o princípio da indissolubilidade do matrimónio; por isso mesmo, quis que em tal processo fosse constituído juiz o próprio Bispo, o qual, em virtude do seu cargo pastoral é, com Pedro, o maior garante da unidade católica na fé e na disciplina. 41 Cf. Relatio Synodi, 48. 42 Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 27: AAS 105 (2013), 1031. 128 V – A apelação à Sé Metropolitana: É necessário que se restabeleça a apelação à Sé Metropolitana, já que tal ofício de chefia da província eclesiástica, estável ao longo dos séculos, é um sinal distintivo da sinodalidade na Igreja. VI. – A tarefa própria das Conferências Episcopais: As Conferências Episcopais, que devem viver impelidas sobretudo pelo zelo apostólico de alcançar os fiéis dispersos, sintam fortemente o dever de partilhar a conversão acima mencionada e respeitem absolutamente o direito dos Bispos de organizarem o poder judicial na sua Igreja particular. O restabelecimento da proximidade entre o juiz e os fiéis, na realidade, não será bem sucedido se das Conferências Episcopais não chegar a cada Bispo o estímulo, juntamente com a ajuda, para pôr em prática a reforma do processo matrimonial. Juntamente com a proximidade do juiz, as Conferências Episcopais cuidem, tanto quanto possível, que, sem prejuízo da justa e digna retribuição dos operadores dos tribunais, seja assegurada a gratuidade dos processos, para que a Igreja, mostrando-se aos fiéis mãe generosa, numa matéria tão estreitamente ligada à salvação das almas, manifeste o amor gratuito de Cristo pelo qual todos fomos salvos. VII. – A apelação à Sé Apostólica: É necessário, no entanto, que se mantenha a apelação ao Tribunal ordinário da Sé Apostólica, isto é, à Rota Romana, no respeito de um princípio jurídico muito antigo, de modo que seja reforçado o vínculo entre a Sé de Pedro e as Igrejas particulares, tendo porém o cuidado, na disciplina de tal apelação, de impedir qualquer abuso do direito, para que daí não receba dano a salvação das almas. A lei própria da Rota Romana será, quanto antes, adequada às regras do processo reformado, nos limites do necessário. VIII. – Previsões para as Igrejas Orientais: Considerando, enfim, o peculiar ordenamento eclesial e disciplinar das Igrejas Orientais, decidi emitir separadamente, nesta mesma data, as normas para reformar a disciplina dos processos matrimoniais no Código dos Cânones das Igrejas Orientais. Tendo oportunamente considerado tudo isto, decreto e estabeleço que o Livro VII do Código de Direito Canónico, Parte III, Título I, Capítulo I, sobre as causas para a declaração de nulidade do matrimónio (câns. 1671-1691), a partir do dia 8 de Dezembro de 2015, seja integralmente substituído como segue: Art. 1 - O foro competente e os tribunais Cân. 1671 § 1. As causas matrimoniais dos baptizados competem por direito próprio ao juiz eclesiástico. § 2. As causas relativas aos efeitos meramente civis do matrimónio pertencem ao magistrado civil, a não ser que o direito particular estabeleça que essas causas, se surgirem de modo incidental e acessório, possam ser examinadas e decididas pelo juiz eclesiástico. Cân. 1672. Para as causas de nulidade do matrimónio que não estejam reservadas à Sé Apostólica, são competentes: 1° o tribunal do lugar em que se celebrou o matrimónio; 2° o tribunal do lugar em que uma ou ambas as partes têm domicílio ou quase-domicílio; 3° o tribunal do lugar em que de facto se hão-de recolher a maior parte das provas. Cân. 1673 § 1. Em cada diocese, o juiz de primeira instância para as causas de nulidade do matrimónio, não exceptuadas expressamente pelo direito, é o Bispo diocesano, que pode exercer 129 o poder judicial por si mesmo ou por meio de outros, em conformidade com as normas do direito. § 2. O Bispo constitua para a sua diocese o tribunal diocesano para as causas de nulidade do matrimónio, salva a faculdade que o mesmo Bispo tem de aceder a outro tribunal diocesano ou interdiocesano mais próximo. § 3. As causas de nulidade do matrimónio são reservadas a um colégio de três juízes. O mesmo deve ser presidido por um juiz clérigo, os restantes juízes podem ser também leigos. § 4. O Bispo Moderador, se não for possível constituir o tribunal colegial na diocese ou no tribunal mais próximo que foi escolhido nos termos do § 2, confie as causas a um único juiz clérigo que, onde for possível, associe a si dois assessores de vida exemplar, especialistas em ciências jurídicas ou humanas, aprovados pelo Bispo para esta função; ao mesmo juiz único competem, a menos que resulte diversamente, as funções atribuídas ao colégio, ao presidente ou ao ponente. § 5. O tribunal de segunda instância, para a validade, deve ser sempre colegial, segundo o prescrito no § 3 anterior. § 6. Do tribunal de primeira instância apela-se para o tribunal metropolitano de segunda instância, sem prejuízo do prescrito nos câns. 1438-1439 e 1444. Art. 2- O direito de impugnar o matrimónio Cân. 1674 § 1. Para impugnar o matrimónio, são hábeis: 1° os cônjuges; 2° o promotor da justiça, quando a nulidade já está divulgada e não possa ou não convenha convalidar-se o matrimónio. § 2. O matrimónio que não foi acusado em vida de ambos os cônjuges não pode ser acusado depois da morte de um deles ou de ambos, a não ser que a questão da validade seja prejudicial para resolver a controvérsia no foro canónico ou no foro civil. § 3. Se, entretanto, um cônjuge morre, estando pendente a causa, observe-se o cân. 1518. Art. 3 - A introdução e a instrução da causa Cân. 1675. O juiz, antes de aceitar a causa, deve ter a certeza de que o matrimónio está irremediavelmente perdido, de modo que seja impossível restabelecer a convivência conjugal. Cân. 1676 § 1. Uma vez recebido o libelo, se o vigário judicial considerar que o mesmo goza de algum fundamento, admita-o e, com decreto colocado no fim do próprio libelo, ordene que uma cópia seja notificada ao defensor do vínculo e, a não ser que o libelo tenha sido assinado por ambas as partes, à parte demandada, dando-lhe o prazo de quinze dias para exprimir a sua posição relativamente à petição. § 2. Transcorrido o mencionado prazo, depois de ter novamente advertido – se e na medida em que o considerar oportuno – a outra parte para manifestar a sua posição, ouvido o defensor do vínculo, o vigário judicial por decreto próprio determine a fórmula da dúvida e decida se a causa deve ser tratada com o processo ordinário ou o processo mais breve nos termos dos câns. 16831687. Tal decreto seja imediatamente notificado às partes e ao defensor do vínculo. 130 § 3. Se a causa deve ser tratada com o processo ordinário, o vigário judicial, com o mesmo decreto, disponha a constituição do colégio dos juízes ou do juiz único com os dois assessores, segundo o cân. 1673 § 4. § 4. Se, pelo contrário, se estatuiu o processo mais breve, o vigário judicial proceda nos termos do cân. 1685. § 5. A fórmula da dúvida deve determinar por que capítulo ou capítulos é impugnada a validade do matrimónio. Cân. 1677 § 1. O defensor do vínculo, os advogados das partes e, se intervier no juízo, também o promotor da justiça têm direito de: 1° assistir ao interrogatório das partes, das testemunhas e dos peritos, sem prejuízo do prescrito no cân. 1559; 2° ver as actas judiciais, mesmo ainda não publicadas, e examinar os documentos apresentados pelas partes. § 2. Ao interrogatório referido no § 1, n. 1º não podem assistir as partes. Cân. 1678 § 1. Nas causas de nulidade do matrimónio, a confissão judicial e as declarações das partes, apoiadas eventualmente por testemunhas sobre a credibilidade das mesmas, podem ter valor de prova plena, que há-de ser avaliado pelo juiz considerados todos os indícios e subsídios, se não houver outros elementos que as contestem. § 2. Nas mesmas causas, o depoimento de uma só testemunha pode fazer fé plena, se se tratar de uma testemunha qualificada que deponha sobre coisas feitas ex officio, ou as circunstâncias de factos e pessoas o sugiram. § 3. Nas causas de impotência ou de falta de consentimento por enfermidade mental ou por anomalias de natureza psíquica, o juiz utilize a colaboração de um ou mais peritos, a não ser que conste pelas circunstâncias, com evidência, que isso seria inútil; nas demais causas, observe-se o prescrito no cân. 1574. § 4. Quando na instrução da causa surgir a dúvida muito provável de que o matrimónio não foi consumado, o tribunal, ouvidas as partes, pode suspender a causa de nulidade, completar a instrução para a dispensa super rato, e por fim transmitir os autos à Sé Apostólica, juntamente com a súplica de dispensa, por parte de um dos cônjuges ou de ambos e com o parecer do tribunal e do Bispo. Art. 4 - A sentença, as suas impugnações e a sua execução Cân. 1679. A sentença que em primeiro lugar declarou a nulidade do matrimónio, expirados os prazos estabelecidos nos câns. 1630-1633, torna-se executiva. Cân. 1680 § 1. A parte que se julgue agravada e, igualmente, o promotor da justiça e o defensor do vínculo têm o direito de interpor querela de nulidade da sentença ou apelação contra a mesma sentença nos termos dos câns. 1619-1640. § 2. Decorridos os prazos estabelecidos pelo direito para a apelação e para a sua prossecução, depois de o tribunal da instância superior receber os autos judiciais, constitua-se o colégio dos juízes, designe-se o defensor do vínculo e as partes sejam advertidas para apresentar as suas observações dentro do prazo pré-estabelecido; transcorrido tal prazo, o tribunal colegial, se a apelação resultar manifestamente dilatória, confirme com decreto próprio a sentença de primeira instância. § 3. Se a apelação foi admitida, deve-se proceder da mesma maneira como na primeira instância, com as devidas adaptações. 131 § 4. Se no grau de apelação for introduzido um novo capítulo de nulidade do matrimónio o tribunal pode admiti-lo e julgá-lo como se fosse em primeira instância. Cân. 1681. Se foi emitida uma sentença executiva, pode-se recorrer, em qualquer momento, ao tribunal de terceiro grau para a nova proposição da causa nos termos do cân. 1644, aduzindo-se novas e ponderosas provas ou argumentos, dentro do prazo peremptório de trinta dias a partir da apresentação da impugnação. Cân. 1682 § 1. Depois de a sentença que declarou a nulidade do matrimónio se tornar executiva, as partes cujo matrimónio foi declarado nulo podem contrair novas núpcias, a não ser que isso seja vedado por uma proibição aposta à própria sentença ou determinada pelo Ordinário do lugar. § 2. Logo que a sentença se torne executiva, o vigário judicial deve notificá-la ao Ordinário do lugar onde o matrimónio foi celebrado. Este deve velar por que, quanto antes, o decreto da nulidade do matrimónio e as proibições porventura impostas se averbem no livro dos matrimónios e no dos baptismos. Art. 5 - O processo matrimonial mais breve diante do Bispo Cân. 1683. Ao próprio Bispo diocesano compete julgar as causas de nulidade do matrimónio com o processo mais breve, sempre que: 1° a petição for proposta por ambos os cônjuges ou por um deles, com o consentimento do outro; 2º houver circunstâncias de factos e de pessoas, apoiadas por testemunhos ou documentos, que não exijam uma mais acurada discussão ou investigação e tornem evidente a nulidade. Cân. 1684. O libelo com o qual se introduz o processo mais breve, além dos elementos elencados no cân. 1504, deve: 1° expor de maneira breve, integral e clara os factos em que se baseia a petição; 2° indicar as provas que possam ser imediatamente recolhidas pelo juiz; 3º exibir, em anexo, os documentos em que se baseia a petição. Cân. 1685. O vigário judicial, no mesmo decreto com que determina a fórmula da dúvida, nomeie o instrutor e o assessor e cite para a sessão, que se deve celebrar nos termos do cân. 1686, não para além de trinta dias, todos aqueles que devem nela participar. Cân. 1686. O instrutor, na medida do possível, recolha as provas numa única sessão e fixe um prazo de quinze dias para a apresentação das observações em favor do vínculo e das alegações das partes, se as houver. Cân. 1687 § 1. Recebidos os autos, o Bispo diocesano, depois de consultar o instrutor e o assessor, avaliadas as observações do defensor do vínculo e, se houver, as alegações das partes, se chegar à certeza moral sobre a nulidade do matrimónio emane a sentença. Caso contrário, envie a causa para o processo ordinário. § 2. O texto integral da sentença, com a motivação, seja notificado o mais rapidamente possível às partes. § 3. Contra a sentença do Bispo, dá-se apelação ao Metropolita ou à Rota Romana; se a sentença foi emitida pelo Metropolita, dá-se apelação ao sufragâneo mais idoso; e contra a sentença de outro Bispo que não tenha uma autoridade superior sob o Romano Pontífice, dá-se apelação ao Bispo por ele estavelmente escolhido. 132 § 4. Se a apelação resultar, com evidência, meramente dilatória, o Metropolita ou o Bispo referido no § 3, ou o Decano da Rota Romana, rejeite-a liminarmente com um seu decreto; se, pelo contrário, a apelação for admitida, envie-se a causa para o exame ordinário de segundo grau. Art. 6 - O processo documental Cân. 1688. Uma vez recebida a petição apresentada nos termos do cân. 1676, o Bispo diocesano ou o vigário judicial ou o juiz designado, omitidas as solenidades do processo ordinário, mas citadas as partes e com a intervenção do defensor do vínculo, pode declarar por sentença a nulidade do matrimónio, se de um documento, a que não possa opor-se nenhuma objecção ou excepção, constar com certeza da existência de um impedimento dirimente ou da falta de forma legítima, contanto que com igual certeza conste que não foi dada dispensa, ou conste da falta de mandato válido do procurador. Cân. 1689 § 1. Se o defensor do vínculo considerar prudentemente que os vícios referidos no cân. 1688 ou a falta da dispensa não são certos, deve apelar desta declaração para o juiz de segunda instância, ao qual devem ser transmitidos os autos, e também avisá-lo por escrito de que se trata de um processo documental. § 2. A parte que se julgue agravada tem o direito de apelar. Cân. 1690. O juiz de segunda instância, com a intervenção do defensor do vínculo e ouvidas as partes, decida, do mesmo modo como referido no cân. 1688, se a sentença deve ser confirmada ou, pelo contrário, se deve proceder-se na causa segundo os trâmites ordinários do direito; neste caso, remeta-a ao tribunal de primeira instância. Art. 7 – Normas gerais Cân. 1691 § 1. Na sentença advirtam-se as partes acerca das obrigações morais e até civis que porventura tenham uma para com a outra e com os filhos, no referente à prestação do sustento e à educação. § 2. As causas de declaração da nulidade do matrimónio não podem tratar-se através de processo contencioso oral, do qual tratam os câns. 1656-1670. § 3. Nas restantes coisas referentes ao modo de proceder, a não obstar a natureza da coisa, devem aplicar-se os cânones dos juízos em geral e do juízo contencioso ordinário, com a observância das normas especiais acerca das causas relativas ao estado das pessoas e às causas respeitantes ao bem público. *** O prescrito no cân. 1679 aplicar-se-á às sentenças declarativas da nulidade do matrimónio publicadas a partir do dia em que este Motu Proprio entrar em vigor. Ao presente documento, vão anexas as regras de procedimento, que considero necessárias para a aplicação correcta e acurada da lei renovada e que se hão-de observar diligentemente para tutela do bem dos fiéis. O que foi por mim estabelecido com este Motu Proprio ordeno que seja válido e eficaz, não obstante qualquer disposição em contrário, mesmo se merecedora de especialíssima menção. 133 À intercessão da gloriosa e bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe de misericórdia, e dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, entrego confiadamente a diligente execução do novo processo matrimonial. Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 15 do mês de Agosto, solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, do ano 2015, terceiro do meu Pontificado. Francisco Regras de procedimento ao tratar das causas de nulidade matrimonial A III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, celebrada no mês de Outubro de 2014, constatou a dificuldade dos fiéis em chegar aos tribunais da Igreja. Uma vez que o Bispo, à semelhança do Bom Pastor, tem obrigação de ir ao encontro dos seus fiéis que precisam de particular cuidado pastoral, dada por certa a colaboração do Sucessor de Pedro e dos Bispos em difundir o conhecimento da lei, pareceu oportuno oferecer, juntamente com as normas detalhadas para a aplicação do processo matrimonial, alguns instrumentos para que a acção dos tribunais possa dar resposta às exigências daqueles fiéis que pedem a verificação da verdade sobre a existência ou não do vínculo do seu matrimónio falido. Art. 1. O Bispo, em virtude do cân. 383 § 1, é obrigado a seguir com ânimo apostólico os esposos separados ou divorciados que, pela sua condição de vida, tenham eventualmente abandonado a prática religiosa. Ele partilha, portanto, com os párocos (cf. cân. 529 § 1) a solicitude pastoral para com esses fiéis em dificuldade. Art. 2. A investigação preliminar ou pastoral, dirigida ao acolhimento nas estruturas paroquiais ou diocesanas dos fiéis separados ou divorciados que duvidam da validade do seu matrimónio ou estão convencidos da nulidade do mesmo, visa conhecer a sua condição e recolher elementos úteis para a eventual celebração do processo judicial, ordinário ou mais breve. Tal investigação desenrolar-se-á no âmbito da pastoral matrimonial diocesana de conjunto. Art. 3. A mesma investigação será confiada a pessoas consideradas idóneas pelo Ordinário do lugar, dotadas de competências mesmo se não exclusivamente jurídico-canónicas. Entre elas, conta-se em primeiro lugar o pároco próprio ou aquele que preparou os cônjuges para a celebração das núpcias. Esta função de consulta pode ser confiada também a outros clérigos, consagrados ou leigos aprovados pelo Ordinário do lugar. A diocese, ou várias dioceses em conjunto, segundo os agrupamentos actuais, podem constituir uma estrutura estável através da qual fornecer este serviço e redigir, se for caso disso, um Vademecum onde se exponham os elementos essenciais para um desenvolvimento mais adequado da investigação. Art. 4. A investigação pastoral recolhe os elementos úteis para a eventual introdução da causa por parte dos cônjuges ou do seu advogado diante do tribunal competente. Indague-se se as partes estão de acordo em pedir a nulidade. Art. 5. Recolhidos todos os elementos, a investigação encerra-se com o libelo, que deve ser apresentado, se for o caso, ao tribunal competente. Art. 6. Uma vez que o Código de Direito Canónico deve ser aplicado sob todos os aspectos, salvas as normas especiais, mesmo aos processos matrimoniais, segundo a mente do cân. 1691 § 134 3, as presentes regras não entendem expor minuciosamente o conjunto de todo o processo, mas sobretudo esclarecer as principais inovações legislativas e, onde for necessário, completá-las. Título I - O foro competente e os tribunais Art. 7 § 1. Os títulos de competência, mencionados no cân. 1672, são equivalentes, salvaguardado, tanto quanto possível, o princípio de proximidade entre o juiz e as partes. § 2. Mediante a cooperação entre tribunais, pois, em conformidade com o cân. 1418, cuide-se que todos, parte ou testemunha, possam participar no processo com o mínimo de despesa. Art. 8 § 1. Nas dioceses que não têm um tribunal próprio, o Bispo cuide em formar quanto antes, mesmo mediante cursos de formação permanente e contínua, promovidos pelas dioceses ou pelos seus agrupamentos e pela Sé Apostólica em comunhão de intentos, pessoas que possam prestar o seu serviço ao tribunal a constituir-se para as causas matrimoniais. § 2. O Bispo pode desligar-se do tribunal interdiocesano constituído em conformidade com o cân. 1423. Título II - O direito de impugnar o matrimónio Art 9. Se o cônjuge morrer durante o processo, antes da causa estar concluída, a instância é suspensa até que o outro cônjuge ou outra pessoa interessada requeira a sua prossecução; neste caso, deve-se provar o legítimo interesse. Título III - A introdução e a instrução da causa Art. 10. O juiz pode admitir a petição oral sempre que a parte esteja impedida de apresentar o libelo; todavia, o juiz deve ordenar ao notário que redija por escrito um auto que deve ser lido à parte e por ela aprovado, e que substitui o libelo escrito pela parte, para todos os efeitos da lei. Art. 11 § 1. O libelo seja apresentado ao tribunal diocesano ou ao tribunal interdiocesano escolhido, nos termos do cân. 1673 § 2. § 2. Considera-se que não se opõe à petição a parte demandada que se remete à justiça do tribunal ou que, devidamente citada uma segunda vez, não dá qualquer resposta. Título IV - A sentença, as suas impugnações e a sua execução Art. 12. Para se alcançar a certeza moral necessária por lei, não basta uma prevalecente importância das provas e dos indícios, mas é preciso que fique totalmente excluída qualquer dúvida prudente positiva de erro, de direito e de facto, embora não esteja excluída a mera possibilidade do contrário. Art. 13. Se uma parte declarou expressamente recusar receber qualquer informação relativa à causa, considera-se que tenha renunciado a obter a cópia da sentença. Em tal caso, pode ser-lhe notificado o dispositivo da sentença. Título V - O processo matrimonial mais breve diante do Bispo Art. 14 § 1. Entre as circunstâncias que podem permitir o tratamento da causa de nulidade do matrimónio através do processo mais breve, segundo os câns. 1683-1687, contam-se, por exemplo: aquela falta de fé que pode gerar a simulação do consentimento ou o erro que determina a vontade, a brevidade da convivência conjugal, o aborto procurado para impedir a 135 procriação, a permanência obstinada numa relação extraconjugal no momento do matrimónio ou imediatamente depois, a ocultação dolosa da esterilidade ou de uma grave doença contagiosa ou de filhos nascidos de uma relação anterior ou de um encarceramento, a causa do matrimónio que seja completamente alheia à vida conjugal ou uma gravidez imprevista da mulher, a violência física infligida para extorquir o consentimento, a falta de uso da razão comprovada através de documentos médicos, etc. § 2. Entre os documentos que sustentam a petição, estão todos os atestados médicos que, com evidência, podem tornar inúteis a aquisição de uma perícia ex officio. Art. 15. Se for apresentado o libelo para introduzir um processo ordinário, mas o vigário judicial considerar que a causa pode ser tratada com o processo mais breve, ele, ao notificar o libelo nos termos do cân. 1676 § 1, convide a parte demandada que não o tenha assinado a comunicar ao tribunal se pretende associar-se à petição apresentada e participar no processo. O vigário judicial, sempre que necessário, convide a parte ou as partes que assinaram o libelo a completá-lo o mais rapidamente possível, de acordo com o cân. 1684. Art. 16. O vigário judicial pode designar-se a si próprio como instrutor; porém, na medida do possível, nomeie um instrutor pertencente à diocese de origem da causa. Art. 17. Na citação que se deve expedir nos termos do cân. 1685, informe-se as partes de que podem exibir, pelo menos até três dias antes da sessão instrutória, os pontos dos argumentos sobre os quais se pede o interrogatório das partes ou das testemunhas, a não ser que tenham sido anexados ao libelo. Art. 18. § 1. As partes e os seus advogados podem assistir à excussão das outras partes e das testemunhas, a não ser que o instrutor considere, por circunstâncias concomitantes de coisas e de pessoas, que se deva proceder diversamente. § 2. As respostas das partes e das testemunhas devem ser redigidas por escrito pelo notário, mas sumariamente e somente naquilo que se refere à substância do matrimónio controverso. Art. 19. Se a causa for instruída junto de um tribunal interdiocesano, o Bispo que deve pronunciar a sentença é o do lugar que serve de base para estabelecer a competência de acordo com o cân. 1672. Se, pois, forem mais do que um, observe-se, tanto quanto possível, o princípio da proximidade entre as partes e o juiz. Art. 20 § 1. O Bispo diocesano estabeleça, segundo a sua prudência, o modo de pronunciar a sentença. § 2. A sentença, naturalmente assinada pelo Bispo juntamente com o notário, exponha de forma breve e acuradamente os motivos da decisão e, de modo ordinário, seja notificada às partes no prazo de um mês a partir do dia da decisão. Título VI - O processo documental Art. 21. O Bispo diocesano e o vigário judicial competentes determinam-se nos termos do cân. 1672. 136 APÊNDICE PROCESSO DE DECLARAÇÃO DE NULIDADE MATRIMONIAL INFORMAÇÃO PRELIMINAR IDENTIFICAÇÃO - Requerente: Nome completo, idade, filiação, data de nascimento, naturalidade, profissão actual, morada completa, paróquia onde foi baptizado, contactos (telefone, telemóvel e e-mail). - Dados do outro cônjuge: Nome completo, idade, filiação, data de nascimento, naturalidade, profissão actual, morada completa, paróquia onde foi baptizado, contactos (telefone, telemóvel e e-mail). - Dados da celebração do casamento: local e data do casamento canónico. INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA 1. Descreva o ambiente familiar onde nasceu e cresceu; - Que tipo de educação recebeu? - Que relação tinha com familiares e amigos; - Formação e prática religiosa; - Namoros anteriores. 2. Características pessoais: descreva-se a si próprio/a, indicando os aspectos mais relevantes do seu carácter, do seu temperamento e do seu modo de se relacionar com os outros. 3. Faça o mesmo tipo de descrição sobre a outra parte. NAMORO 4. Fase de conhecimento: - Como se conheceram e em que circunstâncias? - Quanto tempo passou entre que se conheceram e que começou o namoro? 5. Namoro: - Em que circunstâncias começou? - Que idade tinham quando iniciou o namoro? - De quem foi a iniciativa? - Como decorreu? 6. Durante o namoro, houve problemas e discussões? De que tipo? Como procuraram resolvê-los? - O tempo de namoro foi contínuo até ao casamento, ou houve interrupções? - Relate episódios relevantes: desavenças, hesitações, rompimentos, reconciliações. 7. Como reagiram os familiares e amigos ao namoro? Alguém o desaconselhou? Em caso afirmativo, porque motivos? 8. Durante o tempo de namoro, que actividade profissional tinham as partes (estudavam, trabalhavam, estavam à procura de emprego)? 9. Descreva a relação que existia entre as partes e o ambiente que se vivia com familiares e amigos. 10. Houve pressões? Alguém se opôs a este namoro e à possibilidade de casamento? Quem e por que motivos? Como reagiram os noivos? 11. Concepção de casamento no tempo de namoro: - Que pensava acerca de o casamento ser uma união para toda a vida? E que pensava a outra parte a este respeito? - Que pensava acerca da obrigação de serem fiéis um ao outro? E a outra 137 parte? - Que pensava a respeito de ter filhos e de os educar segundo os princípios da moral e da doutrina cristãs? E a outra parte? IV. CASAMENTO 12. Preparativos: de quem partiu a iniciativa do casamento? - Quem se encarregou dos preparativos para a boda? 13. Por que razão queriam casar pela Igreja? - Fizeram alguma preparação para o matrimónio? 14. Cerimónia religiosa - Como decorreu a cerimónia de casamento? - Houve algum episódio significativo do estado de espírito de uma e outra parte. 15. Festa e viagem de núpcias - Descreva o ambiente e algum pormenor relevante que tenha ocorrido durante o copo-d’água. - Refira se, e quando, se realizou a viagem de núpcias; quem escolheu o destino da viagem, qual a reacção da outra parte, como decorreu e quanto tempo durou. V. VIDA CONJUGAL 16. Descreva como decorreu a vida conjugal: o tempo de vida em comum, o início e o porquê dos desentendimentos, as dificuldades vividas e como foram ultrapassadas. 17. (Se têm filhos) Fale da relação com os filhos; o tipo de educação que recebiam as crianças. Se não tiveram filhos, refira porquê. Se algum dos dois não queria ter filhos, diga qual e por que motivos? 18. Descreva a participação de cada um na manutenção e cuidado da casa; - a contribuição para os encargos domésticos. 19. O que tem a dizer sobre o relacionamento íntimo? 20. Como era a relação das Partes com familiares e amigos? 21. Refira a forma como foram vividos estes aspectos do matrimónio: - o viver juntos para sempre; - o ser fiel um ao outro; - a geração e educação cristã dos filhos. 22. Refira (se houve) interferências de terceiros na vida do casal. 23. Houve separações temporárias? Se sim, como reataram o convívio e por iniciativa de quem? VI. SEPARAÇÃO DEFINITIVA E SITUAÇÃO ACTUAL 24. Indique os motivos e a causa próxima da separação definitiva: quando se deu, qual o cônjuge que tomou a iniciativa, qual a reacção da outra Parte. 25. Já houve divórcio? Se sim, por iniciativa de quem foi pedido e quando foi decretado? 26. Há alguma possibilidade de reconciliação? Em caso negativo, indique os motivos. 27. A que razões atribui o fracasso deste matrimónio? 28. Acha que, ao tempo de solteiro(a), já havia alguma deficiência que iria pôr em risco este matrimónio? Qual? VII. Enquadramento canónico Com base nos factos alegados, indique o/ou capítulo(s) do Código de Direito Canónico pelos quais este matrimónio deve ser declarado nulo. LISTA DE TESTEMUNHAS - Indique o nome completo, morada e contacto de cada testemunha que apresenta. 138 DOCUMENTAÇÃO Anexar: - fotocópia do assento de baptismo de cada uma das Partes; - fotocópia do assento de casamento canónico; - documentação relativa ao divórcio civil (no caso de ter existido). - outros documentos que possam interessar à causa (cartas, relatórios Médicos, etc.). Observações: 1. Esta informação preliminar (chamada “libelo”) deve ser dirigida ao Tribunal, encabeçada nos seguintes termos: Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo (do Porto): 2. Segue-se a Informação Preliminar, de acordo com a grelha apresentada. No texto elaborado não se devem colocar as perguntas, mas as respostas com o pressuposto da pergunta. Um exemplo: à pergunta nº7 poderá responder-se desta maneira: 7. Os meus familiares reagiram bem, à ideia de eu namorar. No entanto, a mãe do meu namorado disse que não concordava que ele começasse a namorar tão cedo. Excepto uma colega minha de trabalho que conhecia o meu namorado e me disse que para ele já não era o primeiro namoro, ninguém desaconselhou o nosso namoro. 3. Esta informação preliminar (libelo) deve, no fim, ser datada e assinada pela Parte interessada. 139 ÍNDICE O que é o Direito Canónico …………………………………………………. 1 Requisitos da lei canónica............................................................................... 2 Metodologia na lei canónica............................................................................ 2 Fundamentos do Direito Canónico ……………………………………...…… 3 Antropologia filosófica do direito ………………………………………...….. 3 Características das leis positivas humanas …………………………………… 3 Importância e insuficiência da antropologia filosófica do direito …………… 3 Pontos nucleares da antropologia filosófica do direito …………………….… 4 Antropologia teológica do direito ……………………………………….…… 5 Pontos nucleares da antropologia teológica do direito ………………………. 5 Eclesiologia do direito canónico …………………………………………...… 6 A dimensão jurídica é constitutiva da Igreja.................................................... 6 O direito canónico, expressão teológica do Mistério da Igreja .………………… 6 Pontos nucleares da Eclesiologia no Direito canónico ……………….……..…. 6 Tipicidade do direito canónico…………………………………………………… 8 Composição do Código de Direito canónico de 1983 ……….…………………… 8 Âmbito do Código de direito canónico ………………………..…………………. 9 Sujeito passivo da lei eclesiástica …………………………………………….…. 9 Leis irritantes e leis inabilitantes …………………..………………………...…... 10 Dispensa das leis eclesiásticas …………….…………………………..……...…. 10 Modo de contar o parentesco ………………….……………………..…….….… 11 Pessoas jurídicas …………………………………………..………..…………… 11 Constituição da pessoa jurídica ……………………………………………....…. 12 Divisão das pessoas jurídicas ……………………………..…………………….… 12 Universalidade de coisas ou bens ……………………………..………………… 13 Elementos da pessoa jurídica pública............................................................... 13 Diversidade no modo de constituição da pessoa jurídica …………………..……. 14 Governo da pessoa jurídica …………………………………………….……..…. 14 Actividade da pessoa jurídica........................................................................... 14 Extinção das pessoas jurídicas …………………………………..……………… ..14 Destino dos bens das pessoas jurídicas extintas …………………………………. 15 Actos jurídicos................................................................................................. 16 Capacidade jurídica e habilidade jurídica …………………..………………... 16 Ineficácia do acto jurídico …………….……………………..................…. 16 Requisitos para a validade de um acto jurídico ………………….……….….… 16 Vícios que tornam nulo um acto jurídico ………………………………………… 18 Violência infligida do exterior …………………………………………..…. 18 140 Medo grave incutido injustamente ……………………………..……………….… Dolo ……………………………..……………………………………………...… Erro que recai na condição indispensável………………………………………. Poder ordinário, poder delegado (cân. 131) ……………………..…………..……. Poder próprio, poder vicário ……………………………………………………….. Ofícios eclesiásticos ……………………………………………………………... Renúncia (cc. 187-189) ………………………………………………………… Transferência (cc. 190-191)……………………………………………………….. Remoção (cc. 192-195) ………………………………………………………….. Privação do ofício eclesiástico (c.196) ………………………………………… Os fiéis como pessoas na Igreja ………………………………………….…… Enquadramento do Motu próprio “Omnium in mentem” ……………………… Elementos do conceito "Paróquia"…………………………..…………………. Cura pastoral “in solidum” …………………………………………….……..…. Paróquia territorial e não territorial…………………………………………….... Conselho paroquial para os assuntos económicos ………………..……………… Cessação do ofício paroquial ………………………..………………………..…. Matrimónio – enquadramento pastoral…………………………………………… Sacramentalidade do Matrimónio …………………..…………………………...... Indissolubilidade do Matrimónio …………….………………………………...…. Indissolubilidade do Matrimónio rato e consumado ………………….…….….… Impedimentos dirimentes do matrimónio ………………………………………… O consentimento matrimonial ………………………………………………….…. Conhecimento mínimo exigido acerca do Matrimónio …………..…………….… Erros que invalidam o Matrimónio ……………………………..………………… Dolo para obter o consentimento matrimonial …………………………………… Exclusão do essencial no Matrimónio (simulação total ou parcial)………………. Leis que regulam o Matrimónio ………………………………………………..…. A forma da celebração do matrimónio ……………………………………………. Dissolução do vínculo matrimonial ……………………………………………… Privilégio paulino ………………………..………………………………….……. Pontos nucleares sobre o Matrimónio ……………………………………………. Ser do Matrimónio …………………..…………………………………….……... Modo de ser do Matrimónio …………….…………………………………...…. Convalidação simples do matrimónio ………………………….….……….….… Sanação do matrimónio na raiz ………………………………………………… Exéquias eclesiásticas e cremação……………………………………..…….…. As sanções canónicas – enquadramento pastoral ………….………………….… 141 18 19 20 20 21 21 22 24 24 25 26 27 28 29 31 31 32 34 35 35 36 37 39 42 42 43 43 45 45 46 47 47 48 48 49 49 50 51 A punição dos delitos em geral ……………………………..…………………… Princípios fundamentais do poder coactivo na Igreja …………….……….….… Noção de delito …………………………………………………….…………… Sanções canónicas ………………………………………………………..….…. A pessoa sujeita às sanções canónicas ………………..…………………….… Excomunhão ……………………………..…………………………………..… Interdito e suspensão ………………….……….…………………………….… Penas expiatórias ……………………………………………….……………… A aplicação das sanções canónicas ………………………………………….…. Delitos contra a religião e a unidade da Igreja ……….…………………………. Delitos contra as autoridades eclesiásticas e contra a liberdade da Igreja ………. Usurpação das funções eclesiásticas e delitos no exercício das mesmas ……….… Delitos contra a vida e a liberdade do homem ……………………………………. Quem pode remir as penas canónicas? …………………………………..…….…. Normas da Santa Sé sobre os delitos mais graves ……………………………… Necessidade do Direito processual ……………………………….……………... Natureza das leis processuais ……………………………….…………………... Tipicidade dos processos ……………………………….………………………. Matéria jurídica submetida a julgamento ……………………………….……... Direito da Igreja em conhecer causas ……………………………….………….. Poder judicial do Romano Pontífice ……………………………….……………. Graus e espécies de Tribunais ……………………………….………………….. Tribunal de 1ª instância ……………………………….…………………………. Vigário judicial ……………………………….………………………………….. Juiz eclesiástico ……………………………….…………………………………. Extensão do poder judicial do bispo diocesano ……………………………….…. Juízes diocesanos ……………………………….………………………………... Tribunal colegial ……………………………………………………………...…. Funções do Juiz Presidente ……………………………….……………………... Tribunal interdiocesano ……………………………………………………….…. Controvérsias entre Religiosos ………………………………………….…….…. Promotor de justiça …………………………………………………………… …. Defensor do vínculo ……………………………….…………………………….... Assessor ……………………………………………………………………….…. Auditor ………………………………………………………………………..…. Advogados e procuradores …………………………………………………….… Tribunal de segunda instância ………………………………………………...…. 142 51 52 52 53 54 56 57 57 58 58 58 59 59 59 60 65 65 68 69 69 70 71 71 71 72 72 73 74 75 76 76 77 78 79 79 80 84 Tribunais da Sé Apostólica ……………………………….…………………… Normas processuais para os delitos canónicos mais graves ……………….….…. Obstáculos ao exercício de funções judiciais ………………………………..…. Duração das instâncias ……………………………….………………………... Segredo de ofício dos membros do Tribunal ……………………………….…. Proibição de donativos aos membros do Tribunal ……………………………… Quem pode agir em juízo ……………………………….…………………….. Fases do processo canónico ordinário……………………………….…………. O libelo introdutório da lide ……………………………….………………….. Nenhum juízo sem Parte Autora ……………………………………………….. Admissão ou rejeição do libelo ……………………………….……………….. Prazos para a admissão ou rejeição do libelo ……………………………….……. Citação das Partes ……………………………………………………………... A contestação da Parte Demandada ………………………………………….…. Institutos jurídicos que convergem para a contestação da lide …………………. Extinção da instância ……………………………….………………………. Renúncia à instância ……………………………………………………….…. Instrução da causa (cc. 1526-1529) …………………………………….…….…. Prova processual …………………………………………………………..…. Valorização das provas ………………………………………………………. Problemas doutrinais sobre as provas ………………………………………..…. As declarações das Partes ………………………………………………….…. As testemunhas e seus depoimento…………………………………………..…. Ausência da Parte Demandada (cc. 1592-1593) ……………………………….. Ausência da Parte Autora (c. 1594)………………………………………….…. Entregar ou não a cópia dos autos ………………………………………….…. Possibilidade de acréscimo de outras provas ……………………………….…. Fase discussória da causa …………………………………………………...…. Alegações das Partes …………………………………………………..….…. Processo para dispensa de matrimónio rato não consumado ………………….. Alterações legislativas nas causas de nulidade matrimonial ………………… Regras de procedimento ao tratar das causas de nulidade matrimonial ……… Informação preliminar para a causa de nulidade matrimonial ……………….…. 143 85 86 92 92 92 93 93 94 94 94 96 97 98 100 101 101 102 103 104 104 107 108 112 123 124 124 125 125 125 127 128 135 138 ÍNDICE ALFABÉTICO A aplicação das sanções canónicas ………………………………………….…. 58 A contestação da Parte Demandada ………………………………………….…. 100 A dimensão jurídica é constitutiva da Igreja..................................................... 6 A forma da celebração do matrimónio ………………………………………… 45 A pessoa sujeita às sanções canónicas ………………..…………………….…. 54 A punição dos delitos em geral ……………………………..…………………… 51 Actividade da pessoa jurídica.......................................................................… 14 Actos jurídicos................................................................................................. 16 Admissão ou rejeição do libelo ……………………………….……………….. 96 Advogados e procuradores …………………………………………………….… 80 Alegações das Partes …………………………………………………..…….…. 125 Alterações legislativas nas causas de nulidade matrimonial ……………….…… 128 Âmbito do Código de direito canónico ………………………..…………………. 9 Antropologia filosófica do direito ………………………………………........….. 3 Antropologia teológica do direito ……………………………………….…….… 5 As declarações das Partes ………………………………………………………. 108 As sanções canónicas – enquadramento pastoral ………….………………….… 51 As testemunhas e seus depoimento…………………………………………..…. 112 Assessor ……………………………………………………………………….…. 79 Auditor ………………………………………………………………………..…. 79 Ausência da Parte Autora (c. 1594)………………………………………….…. 124 Ausência da Parte Demandada (cc. 1592-1593) ……………………………….. 123 Capacidade jurídica e habilidade jurídica …………………..…………………... 16 Características das leis positivas humanas ……………………………………… 3 Cessação do ofício paroquial ………………………..………………………..…. 32 Citação das Partes ……………………………………………………………... 98 Composição do Código de Direito canónico de 1983 ……….…………………… 8 Conhecimento mínimo exigido acerca do Matrimónio …………..…………….… 42 Conselho paroquial para os assuntos económicos ………………..……………… 31 Constituição da pessoa jurídica ……………………………………………....…. 12 Controvérsias entre Religiosos ………………………………………….…….…. 76 Convalidação simples do matrimónio ………………………….….……….….… 49 Cura pastoral “in solidum” …………………………………………….……..…. 29 Defensor do vínculo ……………………………….…………………………….... 78 144 Delitos contra a religião e a unidade da Igreja ……….…………………………. 58 Delitos contra a vida e a liberdade do homem ……………………………………. 59 Delitos contra as autoridades eclesiásticas e contra a liberdade da Igreja ………. 58 Destino dos bens das pessoas jurídicas extintas …………………………………. 15 Direito da Igreja em conhecer causas ……………………………….………….. 69 Dispensa das leis eclesiásticas …………….…………………………..……...…. 10 Dissolução do vínculo matrimonial ……………………………………………… 46 Diversidade no modo de constituição da pessoa jurídica …………………..……. 14 Divisão das pessoas jurídicas ……………………………..…………………….… 12 Dolo ……………………………..……………………………………………...… 19 Dolo para obter o consentimento matrimonial …………………………………… 43 Duração das instâncias ……………………………….…………………………... 92 Eclesiologia do direito canónico ……………………………………………....… 6 Elementos da pessoa jurídica pública............................................................... 13 Elementos do conceito "Paróquia"…………………………..…………………. 28 Enquadramento do Motu próprio “Omnium in mentem” ……………………… 27 Entregar ou não a cópia dos autos ………………………………………….…. 124 Erro que recai na condição indispensável………………………………………. 20 Erros que invalidam o Matrimónio ……………………………..………………… 42 Exclusão do essencial no Matrimónio (simulação total ou parcial)………………. 43 Excomunhão ……………………………..…………………………………...… 56 Exéquias eclesiásticas e cremação……………………………………..…….…. 50 Extensão do poder judicial do bispo diocesano ……………………………….…. 72 Extinção da instância ……………………………….……………………………. 101 Extinção das pessoas jurídicas …………………………………..……………… .. 14 Fase discussória da causa …………………………………………………...…. 125 Fases do processo canónico ordinário……………………………….…………. 94 Funções do Juiz Presidente ……………………………….……………………... 75 Fundamentos do Direito Canónico …………………………………….......…… 3 Governo da pessoa jurídica …………………………………………….……..…. 14 Graus e espécies de Tribunais ……………………………….………………….. 71 Impedimentos dirimentes do matrimónio ………………………………………… 37 Importância e insuficiência da antropologia filosófica do direito ………………… 3 Indissolubilidade do Matrimónio …………….………………………………...…. 35 Indissolubilidade do Matrimónio rato e consumado ………………….…….….… 36 145 Ineficácia do acto jurídico …………….……………………...........................…. Informação preliminar para a causa de nulidade matrimonial ……………….…. Institutos jurídicos que convergem para a contestação da lide …………………. Instrução da causa (cc. 1526-1529) …………………………………….…….…. Interdito e suspensão ………………….……….…………………………….… Juiz eclesiástico ……………………………….…………………………………. Juízes diocesanos ……………………………….………………………………... Leis irritantes e leis inabilitantes …………………..………………………...…... Leis que regulam o Matrimónio ………………………………………………..…. Matéria jurídica submetida a julgamento ……………………………….……... Matrimónio – enquadramento pastoral…………………………………………… Medo grave incutido injustamente ……………………………..……………….… Metodologia na lei canónica ......................................................................….. Modo de contar o parentesco ………………….……………………..…….….… Modo de ser do Matrimónio …………….…………………………………...…. Natureza das leis processuais ……………………………….…………………... Necessidade do Direito processual ……………………………….……………... Nenhum juízo sem Parte Autora ……………………………………………….. Noção de delito …………………………………………………….…………… Normas da Santa Sé sobre os delitos mais graves ……………………………… Normas processuais para os delitos canónicos mais graves ……………….….…. O consentimento matrimonial ………………………………………………….. O direito canónico, expressão teológica do Mistério da Igreja .………………… O libelo introdutório da lide ……………………………….…………………….. O que é o Direito Canónico …………………………………..…………………. Obstáculos ao exercício de funções judiciais ………………………………..…. Ofícios eclesiásticos ……………………………………………………………... Os fiéis como pessoas na Igreja ………………………………………….……… Paróquia territorial e não territorial…………………………………………….... Penas expiatórias ……………………………………………….……………… Pessoas jurídicas …………………………………………..………..…………… Poder judicial do Romano Pontífice ……………………………….……………. Poder ordinário, poder delegado (cân. 131) ……………………..…………..… Poder próprio, poder vicário …………………………………………………… Pontos nucleares da antropologia filosófica do direito …………………..…… Pontos nucleares da antropologia teológica do direito ………………………. 146 16 138 101 103 57 72 73 10 45 69 34 18 2 11 48 65 65 94 52 60 86 39 6 94 1 92 21 26 31 57 11 70 20 21 4 5 Pontos nucleares da Eclesiologia no Direito canónico ……………….……..…. Pontos nucleares sobre o Matrimónio ……………………………………………. Possibilidade de acréscimo de outras provas ……………………………….…. Prazos para a admissão ou rejeição do libelo ……………………………….……. Princípios fundamentais do poder coactivo na Igreja …………….……….….… Privação do ofício eclesiástico (c.196) ………………………………………… Privilégio paulino ………………………..………………………………….……. Problemas doutrinais sobre as provas ………………………………………..…. Processo para dispensa de matrimónio rato não consumado ………………….. Proibição de donativos aos membros do Tribunal ……………………………… Promotor de justiça …………………………………………………………… …. Prova processual …………………………………………………………..…. Quem pode agir em juízo ……………………………….…………………….. Quem pode remir as penas canónicas? …………………………………..…….…. Regras de procedimento ao tratar das causas de nulidade matrimonial ……… Remoção (cc. 192-195) ………………………………………………………….. Renúncia (cc. 187-189) ………………………………………………………… Renúncia à instância ……………………………………………………….…. Requisitos da lei canónica............................................................................... Requisitos para a validade de um acto jurídico ………………….……….….… Sacramentalidade do Matrimónio …………………..…………………………...... Sanação do matrimónio na raiz ………………………………………………… Sanções canónicas ………………………………………………………..….…. Segredo de ofício dos membros do Tribunal ……………………………….…. Ser do Matrimónio …………………..…………………………………….……... Sujeito passivo da lei eclesiástica …………………………………………….…. Tipicidade do direito canónico…………………………………………………… Tipicidade dos processos ……………………………….………………………. Transferência (cc. 190-191)……………………………………………………….. Tribunais da Sé Apostólica ……………………………….…………………… Tribunal colegial ……………………………………………………………...…. Tribunal de 1ª instância ……………………………….…………………………. Tribunal de segunda instância ………………………………………………...…. Tribunal interdiocesano ……………………………………………………….…. Universalidade de coisas ou bens ……………………………..………………… Usurpação das funções eclesiásticas e delitos no exercício das mesmas ……….… Valorização das provas ………………………………………………………. Vícios que tornam nulo um acto jurídico ………………………………………… Vigário judicial ……………………………….………………………………….. Violência infligida do exterior …………………………………………..…. 147 6 47 125 97 52 25 47 107 127 93 77 104 93 59 135 24 22 102 2 16 35 49 53 92 48 9 8 68 24 85 74 71 84 76 13 59 104 18 71 18