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“Silêncio”, o mais católico dos filmes

de Martin Scorsese não foi feito para
agradar
Shusaku Endō (1923-1996) foi um romancista católico japonês autor de

longos escritos que sondaram os conflitos e paradoxos da fé. Nasceu em

Tóquio, viveu na Manchúria, regressou ao Japão e foi batizado com 11 anos.

Após a universidade casou, teve um filho e viveu em França. O romancista

Graham Greene, com quem Endō foi muitas vezes comparado, afirmou que

ele era «um dos maiores romancistas vivos».

Em 1966 Endō publicou “Silêncio” (“Chinmoku”), obra de ficção histórica sobre missionários

jesuítas no Japão do século XVII. Muitos sustentam que é a sua obra-prima. Finalmente, 28

anos depois de ler o romance, o realizador oscarizado, argumentista, ator e produtor Martin

Scorsese traz esta história para o grande ecrã.

chega a informação de que o padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson).A Portugal. O seu fervor não conhece limites. padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garrpe (Adam Driver). Ainda assim. e depois a Roma. . onde os personagens do santo e do pecador estão sempre próximos. padre Alessandro Valignano (Ciarán Hinds). renunciou à fé e cometeu apostasia. ninguém podia acreditar que o padre Ferreira era apóstata e tinha deixado de pregar o Evangelho. com a permissão do seu superior. embarcam para o Japão para resgatar o seu antigo professor de seminário e mentor. o superior dos jesuítas no Japão. e agora a missão estava em dificuldades. Em 1635. quando todos tivermos processado este filme. Muitos clérigos e leigos tinham sido martirizados nos últimos anos quando as autoridades baniram o cristianismo do país. Um dia. penso que veremos que “Silêncio” marca o auge da sua arte e da sua forma de contar histórias como realizador católico. dois jovens jesuítas.

Depois de outra longa navegação chegam a uma ilha e dirigem-se à costa. onde os dois religiosos travam conhecimento com um japonês. Ele não admitirá que é cristão. mas quer voltar para casa. Os padres aguentam provações mas prosseguem o plano com um guia que parece pouco confiável. Ficam também a saber que Kichijiro é cristão quando ele lhes pede absolvição pela apostasia que o tinha levado a fugir do Japão. Os religiosos descobrem que os cristãos vivem escondidos. Kichijiro (Yôsuke Kubozuka). . de quem esperam que os guie até ao Japão.Após uma longa viagem e paragem em Goa. o barco aporta em Macau. Depressa os habitantes reconhecem-nos como padres e escondem-nos. batizando os seus filhos e rezando em segredo.

caso contrário matarão três. Os homens de Inoue amarram-nos a cruzes e erguem-nas no mar. recusam pisar numa imagem da Virgem Maria e do Menino. questionando-se se os cristãos terão mais fé nos sacramentais do que em Jesus. Conhecem cristãos gratos por os encontrarem. mas ao mesmo tempo com medo de que sejam capturados. um deles nos seus 80 anos. Os padres veem tudo de um subterrâneo. estaria em Nagasáqui. Rodrigues entrega todos os seus objetos religiosos. onde são incessantemente golpeados pelas ondas durante dias. crê-se. e por isso aventuram-se no exterior. até morrerem. Entretanto a palavra espalha-se e as autoridades investigam. Três homens. . inclusive as contas do seu terço. atónitos pelas consequências da sua presença.É pedir demasiado aos padres que fiquem escondidos. que. Um inquiridor malicioso. Os dois religiosos decidem separar-se na sua busca por Cristóvão Ferreira. Inoue (Issei Ogata) exige que os cristãos se mostrem e renunciem à fé. uma a uma.

revela a imagética católica e sacramental do cineasta no seu ponto mais apurado. Torna-se claro para Rodrigues que o frágil Kichijiro é uma figura de Judas. colaboradora frequente de Scorsese. O fervor de Kichijiro vai e vem. sendo conduzido a uma povoação onde os habitantes fazem troça dele e lhe atiram pedras. dado que comete apostasia sempre que é detido. Mais tarde. numa beleza inesquecível. uma e outra vez nega a fé e regressa à absolvição que Rodrigues lhe concede. a par da conseguida edição de Thelma Schoonmaker. Isto. Rodrigues acaba por ser capturado. desafiando o padre ao dizer que o . Inoue nunca está longe e dirige a inquirição de Rodrigues.A cinematografia de Rodrigo Prieto é atmosfericamente panorâmica ou intensamente próxima e pessoal. Rodrigues vê como Garrpe se afoga ao tentar salvar cristãos que tinham sido atirados ao mar.

Isto. a par da conseguida edição de Thelma Schoonmaker. responde que a verdade. Mas onde. há a compressão do tempo e a personagem de Inoue é uma amálgama de todos os inquisidores ou autoridades da história. está Ferreira? E Rodrigues pergunta onde está Deus no sofrimento dos crentes e na sua própria angústia Porque é que Deus está em silêncio? “Silêncio” está repleto de temas humanos. surge nas primeiras cenas. Mónica. em tudo isto. mulher cristã apresentada na parte final do livro. inflexível. Então Inoue ameaça o religioso prometendo que ele e o grupo serão pendurados de cabeça para baixo sobre um excremento. até à morte ou até renunciarem à fé.Japão é um pântano onde a mensagem cristã não pode fixar raízes. é a mesma. Para quem conhece o livro. teológicos e espirituais que os argumentistas Jay Cocks e Scorsese impregnam de respeito. que eu deixo ao espetador para julgar. Rodrigues prega a um pequeno grupo de cristãos preso com ele. A cinematografia de Rodrigo Prieto é panorâmica ou intensamente próxima e pessoal. Rodrigues. colaboradora frequente de Scorsese. revela a imagética católica . quer seja na Europa ou no Japão. Scorsese acrescentou algo ao fim da história.

algo que me surpreendeu tendo em conta a crueza explícita de muitas das suas obras. quando todos tivermos processado este filme. e Drive tem o aspeto de um Cristo de El Greco. Rodrigues diz que a Igreja é a fonte da verdade e é incapaz de sair dos argumentos que aprendeu no católico Portugal. mas ineficazes. numa beleza inesquecível. Garfield e Drive são muito bons. A inculturação do Evangelho e a adaptação. ainda hoje. continuam a ser um desafio para quem evangeliza. Um dia. onde os personagens do santo e do pecador estão sempre próximos.e sacramental do cineasta no seu ponto mais apurado. penso que veremos que “Silêncio” marca o auge da sua arte e da sua forma de contar histórias como realizador católico. Há cenas violentas no filme mas Scorsese ateve-se ao livro e mostra controle visual. As suas respostas a Inoue serão talvez nobres. no próprio país ou em território longínquo .

Ele desafia Rodrigues. Uma vez preso.No topo da lista de temas estão fé e dúvida como companheiras. com as suas maneiras educadas e adocicadas mas de sorriso sinistro. Rodrigues leva no seu coração a imagem de Jesus a ele tão querida quando criança e seminarista. não mascaram a sua intenção de quebrar a determinação dos cristãos. as suas perguntas e a escolha que enfrenta. numa dança perigosa a partir do momento em que os religiosos sabem da apostasia do padre Cristóvão Ferreira. essa imagem vem até ele no sofrimento dos cristãos e na noite. O tom agudo do altamente inteligente e informado inquiridor Inoue. fortalecidos por uma fé ainda por testar. É este Jesus com quem ele conversa sobre as suas dúvidas. Eles deixam Portugal e Roma com o seu olhar focado numa terra distante. tal como Ferreira quando ambos finalmente se encontram. afirmando que o cristianismo é demasiado ocidental e não se pode adaptar ao .

no próprio país ou em território longínquo. é emblemático dos pecadores que estão conscientes do seu pecado e cientes da misericórdia de Deus.Japão. e como passou um ano em vários pontos do globo para discutir a obra. sendo incapaz de sair dos argumentos que aprendeu no católico Portugal. Kichijiro entristece Rodrigues. continuam a ser um desafio para quem evangeliza. absolvido uma e outra vez por causa da sua apostasia. filme de 1988. que ofereceu o livro “Silêncio” ao realizador . e levará ao padre muito tempo a compreender que ele. é um ser humano fraco que não é muito diferente daquele. clérigo episcopaliano de Nova Iorque. Scorsese falou sobre “A última tentação de Cristo”. mas ineficazes. Rodrigues diz que a Igreja é a fonte da verdade. também. As suas respostas a Inoue serão talvez nobres. e como as pessoas ou o detestavam ou o adoravam. Um dos que gostou do filme foi Paul Moore. Kichijiro. ainda hoje. A inculturação do Evangelho e a adaptação.

tendo passado um ano em vários pontos do globo para discutir a obra. quando atuou no filme “Dreams” para o cineasta japonês Akira Kurosawa. Scorsese. falou a uma sala cheia de público em S. A primeira coisa que ela disse. e como as pessoas ou o detestavam ou o adoravam. foi: «Bom. contudo. de onde foi convidado a sair. Francisco. não foi feito para o ser. assim que as luzes da sala se acenderam. Scorsese recordou que cresceu como católico romano em Manhattan e passou um ano na escola do seminário menor. clérigo episcopaliano de Nova Iorque. com atores e membros da equipa de filmagem. Falou também sobre “A última tentação de Cristo”. mas em 1989.A 5 de dezembro. Passaram dias e eu e a minha irmã não conseguimos deixar de pensar no filme. Na verdade. este não é um filme para agradar». após o visionamento de “Silêncio”. . filme de 1988. Na sessão de perguntas e respostas. que ofereceu o livro “Silêncio” a Scorsese e sugeriu-lhe que o lesse. Um dos que gostou do filme foi Paul Moore. Scorsese leu o livro e decidiu que iria fazer dele um filme "Silêncio" estreia a 19 de janeiro em Portugal. O volume ficou um ano na prateleira.