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A Verdade Sobre os "Protocolos dos Sábios do Sião" Coletânea organizada por eBooksBrasil

A Verdade sobre os Protocolos dos Sábios de Sião RUI JUNG NETO rujung@sispro.com.br © 2000 Rui Jung Neto

Quem foi Gustavo Barroso? Fonte Digital:

ABL www.academia.org Copyright: Domínio Público

Parecer do MP/RS em apelação de Sentença Absolutória Proferida em Crime de Racismo Contra o Povo Judeu Carlos Otaviano Brenner de Moraes Documento Público Fonte Digital:

http://jus.com.br/pecas/racismo.html

ÍNDICE

Introdução

A Verdade sobre os Protocolos dos Sábios de Sião

Quem Foi Gustavo Barroso?

PARECER DO MP/RS EM APELAÇÃO DE SENTENÇA ABSOLUTÓRIA PROFERIDA EM CRIME DE RACISMO CONTRA O POVO JUDEU (LEI

7716/89)

INTRODUÇÃO Idéias se Combatem com Idéias. Mentiras se Combatem com Verdades.

Alguém, com o nickname de Ka'aba, fato que causou indignação entre adeptos do Islã, editou e colocou na Rocket- Library.com o título Os Protocolos dos Sábios do Sião. Na eBooksBrasil, que pretende reunir em uma eBiblioteca Pública os eBooks disponíveis em RocketEditions em português, colocamos o link para a edição e enviamos um e- mail de boas-vindas ao editor. Sem censuras, respeitando todas as manifestações de pensamento, mesmo as que abominamos, como é a Política da Casa. Porém recebemos diversos e-mails condenando a publicação e o link. No site depositário da edição, a Rocket- Library, Jeff Foster, destacado membro da comunidade, postou um comentário, do qual transcrevo apenas a parte que motivou a edição desta RocketEdition:

“Very few people in the West still find it credible, but it still gets a lot of circulation by demagogues in the less-educated parts of the Muslim world, Asia, Africa

and Latin America. (

)

If the keepers of the

RocketBook Library are going to practice censorship, here is a good place to start.”*

Sem entrar no mérito dos juízos de valor emitidos sobre os "menos educados", apenas lembramos, ao ler o comentário, que o site do editor está hospedado nos EE.UU. em um site em francês [http://www.multimania.com/kaaba/], idioma de

país reputado como "do primeiro mundo", que já deu ao

mundo o Caso Dreyfus

também a Resistência. Pessoalmente, há muito tempo atrás, li e desgostei deste livrinho. Como li e lamentei que não tivessem levado a sério, quando foi publicado, o Mein Kampf. Mas abomino mais do que essas idéias a de censura. Para que haja censura, é necessário que haja um censor, ou corpo de censores, que se arroguem, ou a quem seja dado, o poder de substituir meu bom senso e minha livre análise dos livros. Houve época em que um título para ser publicado exigia um Imprimatur e um Nihil Obstat. E a penalidade era a fogueira. Houve um tempo em que um Privilégio Real era buscado. E, aqui mesmo, nessa terrinha descoberta por Cabral, tivemos nossos DIPs e SNIs, com Censores Federais (além dos estaduais e municipais não empossados) vendo e lendo o que diziam, depois, que nós não poderíamos ver nem ler.

mas

mas

também

Zola,

Pétain

Os Protocolos dos Sábios do Sião, ePublicados por quem receia, penso eu, publicá-los (não retornou meu e-mail, nem assina seu nome), pode ser encontrado na web em diversos sites e em diversas línguas. Uma Editora, cujo responsável respondeu a processo por racismo, ao defender o que chama de "Revisão", pode ser encontrada na web [http://www.revision.com.br], com todos os livros que

pregam idéias autoritárias, racistas, nazistas, stalinistas,

bonarpistas. Gustavo Barroso e

peronistas, castristas

Plinio Salgado? Claro! (Encontrei até o raríssimo A História Secreta do Brasil, de Gustavo Barroso, que só localizei, quando precisei dela para minha tese, na Biblioteca da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco). O site tem o domínio .com.br – e, se for proibido por aqui, bastará que

passe a ter um .com.fr, ou qualquer outro. E não tenho nada contra o fato de estar na web, pelo contrário.

até

Há nele um erro (e grave!) para o qual alerto: O título "Os

Protocolos dos Sábios do Sião" é atribuído, na coluna Autor,

Erro que não comete sozinho: a biografia

da Gustavo Barroso disponível no site da A.B.L. e reproduzida aqui também o comete*. Na edição colocada na Rocket-Library, o nome de Gustavo Barroso, aliado ao fato de ter sido presidente da A.B.L., também é utilizado para dar maior credibilidade ao livro. (Para que o leitor possa conferir facilmente o que a A.B.L. tem a dizer sobre ele, reproduzimos aqui sua biografia disponível lá.)* E onde fica a verdade? Boa pergunta. Gustavo Barroso de fato foi presidente da A.B.L. e um ardoroso pesquisador da História Brasileira. Sua História Secreta do Brasil, com capítulos publicados na antiga revista "O Cruzeiro", é rica em documentos, tanto quanto em

a Gustavo Barroso

comentários que julgo equivocados, pois é verdade também que o autor foi fascinado pelas idéias autoritárias de então. No que, também é verdade, foi secundado por muitos outros patrícios aos quais a vida deu tempo de se redimirem, como Miguel Reale, Tristão de Athayde, Gofredo da Silva Telles e muitos mais. Não foram poucos também os que defenderam Stalin e o stalinismo, como Janer Cristaldo aponta em Engenheiros de Almas, obra que também está nas estantes da eBooksBrasil. As idéias que defendiam, de um e de outro lado, morreram? Não. Muitos dos que as defendiam não estão mais

entre nós, mas outros as defendem hoje

não só no Brasil e

na América Latina. Na América Latina, temos nosso Fujimori, eleito duas vezes em eleições supostamente livres, e

a Europa tem a Áustria e seu governo, eleito em eleição não

contestada. Se essas idéias e os que as defendem existem no mundo real, por que estranhar que se façam representar também no

e

mundo virtual? Ou alguém acredita, realmente, que fazendo- as silenciar, tais idéias desapareçam? Eu não. Quero mais que venham à luz do dia, se explicitem, para que todos vejam um dia quão falsas eram e como ridículos foram os que nelas acreditaram. Como, um dia, também assim julgarão aos que gostariam, hoje, de colocar peias à internet e às novas tecnologias, controlá-las, taxá-las, para manterem seus controles e/ou

privilégios. Isso, claro, se eles não vencerem e conseguirem o que intentam Tenho mais é que, aqui, publicamente, agradecer ao que contribuiu com o polêmico título à Rocket-Library.com, por ter permitido um teste de liberdade de pensamento à eBooksBrasil, eBiblioteca Pública.

se porventura for retirada da Rocket-

Library.com, sinta-se o eEditor à vontade para colocar seu

título direto na eBooksBrasil ou em seu site, se preferir, com link também na eBooksBrasil. Nós só o retiraremos a pedido do próprio editor, nunca por solicitação de quem quer liberdade para o seu pensamento, mas não para o dos

mais equivocados que sejam estes pensamentos

(como pessoalmente acho que é o caso). O respeito à liberdade de expressão não nos impede, contudo, pelo que se vê, da crítica e do exercício de nossa própria liberdade de expressão. Esta coletânea foi editada para que os leitores que prestigiam a eBooksBrasil com seus downloads possam ter mais informações para formar seu próprio julgamento. Aproveito para expressar meu agradecimento público a Rui Jung Neto, autor do texto que dá título à edição, por ter autorizado sua reprodução.

outros

Nela o link ficará

e,

por

Teotonio Simões livros@eBooksBrasil.com

A VERDADE SOBRE "OS PROTOCOLOS DOS SÁBIOS DO SIÃO" A FALSA CONSPIRAÇÃO DO JUDAÍSMO E DA MAÇONARIA

RUI JUNG NETO

Em uma fraternal conversa após um ágape (jantar entre Irmãos), um Irmão comentou sobre o Livro "Os Protocolos dos Sábios do Sião", perguntando se algum de nós já o havia lido. Ao responder, declarei que não e que não o leria por sabê-lo uma "bobagem" sem fundamento. Sei que os queridos Irmãos compreenderam minha observação de forma não agressiva mas, para não ficarem com a impressão de que meu comentário era do tipo "não li e não gostei", resolvi escrever esta Peça de Arquitetura. Ao contrário do que muitos Irmãos e profanos (não maçons) pensam, os Protocolos foi originalmente publicado em 1905 por um russo chamado Sergei A. Nilus. Esta triste obra, que não passava de um apêndice de um livro anterior do mesmo autor, seria por ele reeditado sempre em russo entre 1911 e 1919. Em 1919, um alemão sob o pseudônimo Gottfried zur Beck, patrocinado pela nobreza alemã, traduziu-o, acrescentou vários comentários e notas e publicou somente o apêndice, como um alerta aos príncipes

europeus contra a conspiração Sionista que ameaçava os Tronos e as Igrejas Cristãs. Desta versão em alemão foram traduzidas outras para o Inglês, Espanhol, Francês, Português, etc., espalhando-se pelo mundo. Naquela época a Europa era palco de grande agitação política e religiosa que levou à Primeira Guerra Mundial, a Revolução Bolchevique e a deposição de várias famílias nobres, principalmente na Europa Central, a mais atrasada. Os judeus eram então vistos como uma séria ameaça por seu poder econômico, cultura, idéias que pregavam (Marx, etc.) e pelo fato de não seguirem o Cristianismo. A Maçonaria, liberal e democrática, pregando a fraternidade entre os homens, assustava aos déspotas e fanáticos religiosos e políticos de todas as correntes. Não poderia haver caldo de cultura melhor para que originalmente Nilus, um agente da polícia secreta do Czar, e mais tarde para todos os interessados em atacar os judeus e a Maçonaria, divulgassem um livro que os atacava e comprometia, assustando a população e os governantes menos informados. Infelizmente, nas décadas de 30 e 40, auge do nazismo e do fascismo, este livreco voltaria a ser reeditado, sendo inclusive utilizado por Hitler na sua tristemente célebre obra Minha Luta. Estas versões e reedições realimentaram o ódio aos judeus, apresentados como conspiradores contra a sociedade cristã, justificando todas as perseguições e represálias. A Maçonaria também era perseguida por ser apontada como um instrumento de infiltração e dominação do judaísmo. Curiosamente, os Protocolos originais de Sergei A. Nilus não mencionava a Maçonaria mas sim, vagamente, as Sociedades Secretas. A Maçonaria passou a ser citada ao longo das traduções, adaptações e enxertos na simplória obra do policial russo.

Mas qual a verdadeira origem dos Protocolos ?

O autor, Nilus, afirma ser uma transcrição da reunião

secreta realizada pelo Movimento Sionista na Basiléia, Suíça,

em 1897. Seu propósito era expor aos judeus ali reunidos um plano para conquista do mundo. Este plano vazou graças ao trabalho de um espião do Czar da Rússia, que com risco da própria vida conseguiu apoderar-se de uma cópia (parece brincadeira mas é esta a estória contada pelo autor).

O irônico é que o Congresso realmente aconteceu, foi

público, acompanhado por jornalistas de diversos países, reuniu 204 delegados judeus vindos do mundo inteiro, visando organizar como movimento político o Sionismo, para "assegurar ao povo judeu um lugar na Palestina, garantido pelo Direito Público". Nada tinha portanto de secreto ou conspiratório, a não ser para quem lutava contra um Estado judeu e contra a Liberdade. E o mais curioso é que os Protocolos foram desmascarados pelo Times em uma reportagem publicada nos dias 16, 17 e 18 de agosto de 1921, que relatava que seu correspondente em Constantinopla encontrara uma caixa com livros pertencentes a um antigo oficial da polícia política do Czar. Entre eles, um volume escrito em Francês, do qual faltavam as primeiras páginas, que tinha enorme semelhança com os Protocolos. O livro original fora publicado em 1864 pelo advogado parisiense Maurice Joly, intitulado Diálogo nos Infernos entre Maquiavel e Montesquieu, ou A Política de Maquiavel no Século XIX. Trata-se de uma crítica ao governo do Imperador Napoleão III. O russo Nilus simplesmente transformou o diálogo fictício, mas calcado em irônica crítica às práticas políticas do II Império Francês, em um monólogo no qual as respostas de Maquiavel (na verdade ações praticadas pelo imperador) passam a ser planos para conquista do mundo pelos judeus e

maçons. O plágio é tão evidente que começa de forma abrupta

no texto da página do livro encontrado pelo Times, na qual faltavam as primeiras folhas, evidência de que o autor copiara precisamente aquele exemplar incompleto, deixando de fora

as primeiras páginas. Muito mais poderia ser escrito, inclusive reproduzindo trechos dos dois livros comparando-os e provando que os Protocolos são uma cópia mal feita de uma obra escrita para

criticar as falhas de um governo autoritário e que foi utilizada para acirrar o ódio contra o povo judeu e, por extensão, contra

a Maçonaria identificada como inimiga pelos tiranos e

fanáticos. Creio no entanto, ter atingido meu objetivo de esclarecer

os fatos e recolocar os Irmãos no caminho da Verdade. Para

aqueles que quiserem buscar mais informações, recomendo consultarem a bibliografia que utilizei neste texto e que justifica minha afirmação inicial de que os Protocolos são uma bobagem, porém perigosa pela divulgação e repercussão que ainda hoje alcançam. Nossa Ordem já foi acusada de ter sido criada pela Igreja Católica, pelos Jesuítas, pelos Judeus, etc. Um dos motivos é a nítida inspiração no Antigo Testamento: O Templo de Salomão, a Lenda de Hiram, as Palavras e Sinais, etc. Todas estas passagens foram agregadas no Século 18, para embelezar e dar mais simbolismo às nossas cerimônias e rituais. Assim, são evidências da influência bíblica e não do domínio judeu (ou da Igreja) na Maçonaria. Vale recordar que nos Séculos 18 e 19 muitas Lojas não admitiam judeus por eles não aceitarem a religião Cristã. Mas, como dizia nosso Irmão Kipling, isto já é outra história

RUI JUNG NETO rujung@sispro.com.br

Bibliografia:

Maçonaria X Satanismo – páginas 119 a 175 – Editora Maçônica "A TROLHA", 1ª edição, 1995. Autor: Padre Jesuíta José A Ferrer Benimeli – Professor Catedrático de História Contemporânea na Universidade de Zaragoza, Espanha. O Pe. Benimeli, infelizmente já falecido, foi um grande pesquisador sobre Maçonaria. Em Português encontramos ainda: "Maçonaria X Satanismo II" e "Gafes & Mancadas Maçônicas e Antimaçônicas", este em conjunto com o também Padre Jesuíta Valério Alberton, um entusiasta defensor da Maçonaria, ambos da Editora A Trolha.

Quem Foi Gustavo Barroso?

GUSTAVO BARROSO

“Gustavo Barroso (G. Dodt B.), advogado, professor, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista, nasceu em Fortaleza, CE, em 29 de dezembro de 1888, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de dezembro de 1959. Eleito em 8 de março de 1923 para a Cadeira n. 19, na sucessão de D. Silvério Gomes Pimenta, foi recebido em 7 de maio de 1923, pelo acadêmico Alberto Faria. Filho de Antônio Filinto Barroso e de Ana Dodt Barroso. Fez estudos nos externatos São José, Parthenon Cearense e Liceu do Ceará. Cursou a Faculdade Livre de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1911 pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Redator do Jornal do Ceará (1908-1909) e do Jornal do Commercio (1911-1913); professor da Escola de Menores, da Polícia do Distrito Federal (1910-1912); secretário da Superintendência da Defesa da Borracha, no Rio de Janeiro (1913); secretário do Interior e da Justiça do Ceará (1914); diretor da revista Fon-Fon (a partir de 1916); deputado federal pelo Ceará (1915 a 1918); secretário da Delegação Brasileira à Conferência da Paz de Venezuela (1918-1919); inspetor escolar do Distrito Federal (1919 a 1922); diretor do Museu Histórico Nacional (a partir de 1922); secretário geral da Junta de Juriconsultos Americanos (1927); representou o Brasil em várias missões diplomáticas, entre as quais a Comissão Internacional de Monumentos Históricos (criada pela Liga das Nações) e a Exposição Comemorativa dos Centenários de Portugal (1940-1941).

Participou do movimento integralista. Embora não concordasse com o rumo dos acontecimentos a partir de 1937, manteve-se fiel à doutrina filosófica do integralismo. Estreou na literatura, aos 23 anos, usando o pseudônimo de João do Norte, com o livro Terra de sol, ensaio sobre a natureza e os costumes do sertão cearense. Além dos livros publicados, sua obra ficou dispersa em jornais e revistas de Fortaleza e do Rio de Janeiro, para os quais escreveu artigos, crônicas e contos, além de desenhos e caricaturas. A vasta obra de Gustavo Barroso, de 128 livros, abrange história, folclore, ficção, biografias, memórias, política, arqueologia, museologia, economia, crítica e ensaio, além de dicionário e poesia. Pseudônimos: João do Norte, Nautilus, Jotanne e Cláudio França. Sua atividade na Academia Brasileira de Letras também foi das mais relevantes. Em 1923, como tesoureiro da instituição, procedeu à adaptação do prédio do Petit Trianon, que o Governo francês ofereceu ao Governo brasileiro, para nele instalar-se a sede da Academia. Exerceu alternadamente os cargos de tesoureiro, de segundo e primeiro secretário e secretário-geral, de 1923 a 1959; foi presidente da Academia em 1932, 1933, 1949 e 1950. Em 9 de janeiro de 1941 foi designado, juntamente com Afrânio Peixoto e Manuel Bandeira, para coordenar os estudos e pesquisas relativos ao folclore brasileiro. Era membro da Academia Portuguesa da História; da Academia das Ciências de Lisboa; da Royal Society of Literature de Londres; da Academia de Belas Artes de Portugal; da Sociedade dos Arqueólogos de Lisboa; do Instituto de Coimbra; da Sociedade Numismática da Bélgica, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e de vários Estados; e das Sociedades de Geografia de Lisboa, do Rio de Janeiro e de Lima. Obras – CONTOS, CRÔNICAS E NOVELAS

REGIONAIS: Praias e várzeas (1915); Idéias e palavras (1917); Mosquita muerta (1921); Mula sem cabeça (1922); Pergaminhos (1922); Alma sertaneja (1923); Mapirunga (1924); O anel das maravilhas (1924); Livro dos milagres (1924); O bracelete de safiras (1931); Mulheres de Paris (1933); Fábulas sertanejas (1948). ROMANCES: Tição do inferno (1926); A senhora de Pangim (1932); O santo do brejo (1933), FOLCLORE, CRÍTICA, ERUDIÇÃO E FILOLOGIA: Terra do sol. Natureza e costumes do Norte (1912); Casa de marimbondos (1921); Ao som da viola (1921); O sertão e o mundo (1924); Através dos folclores (1927); Mythes, contes et legendes des indiens du Brésil (1930); As colunas do templo (1933). HISTÓRIA, ENSAIOS E EPISÓDIOS HISTÓRICOS:

Tradições militares (1918); Tratado de Paz (1919); A ronda dos séculos (1920); Coração da Europa (1922); Uniformes do Exército (1922); Antes do bolchevismo (1923); En el tiempo de los Zares (1924); O ramo de oliveira (1925); Almas de lama e de aço (1928); A guerra do Lopez (1928); A guerra do Flores (1929); A guerra do Rosas (1929); A guerra de Vidéo (1930); A guerra de Artigas (1930); O Brasil em face do Prata (1930); Inscrições primitivas (1930); Aquém da Atlântida (1931); Brasil – Colônia de banqueiros (1934); História secreta do Brasil, 3 vols. (1936, 1937 e 1938); A destruição da Atlântida, 2 vols. (1936); Espírito do século XX (1936); Os protocolos dos sábios de Sião (1936); Os civilizados (1937); O livro dos enforcados (1939); O Brasil na lenda e na cartografia antiga (1941); Portugal – Semente de impérios (1943); Anais do Museu Histórico nacional, vols. I a V (1943- 1949); História do Palácio Itamarati (1953). HISTÓRIA REGIONAL E BIOGRAFIAS: Heróis e bandidos. Os cangaceiros do Nordeste (1917); Osório, o Centauro dos pampas (1932); Tamandaré, o Nélson brasileiro (1933); Caxias (1945).

LÍNGUA E DICIONÁRIO: A ortografia oficial (1931); Pequeno dicionário popular brasileiro (1938). MEMÓRIAS E VIAGENS: Coração de menino (1939); Liceu do Ceará (1941); Consulado da China (1941); Seca, Meca e Olivais de Santarém, descrições e viagens (1947). POESIA: As sete vozes do espírito (1950). PENSAMENTO: Luz e pó (1932). POLÍTICA: O integralismo em marcha (1933); O integralismo de norte a sul (1934); O quarto império, integralismo (1935); A palavra e o pensamento integralista (1935); O que o integralista deve saber (1935); O integralismo e o mundo (1933); Integralismo e catolicismo (1937); A maçonaria: seita judaica (1937); Judaísmo, maçonaria e comunismo (1937); A sinagoga paulista (1937); Corporativismo, cristianismo e comunismo (1938).”

Fonte: ABL

PARECER DO MP/RS EM APELAÇÃO DE SENTENÇA ABSOLUTÓRIA PROFERIDA EM CRIME DE RACISMO CONTRA O POVO JUDEU (LEI 7716/89)

Elaborado pelo então procurador de Justiça Carlos Otaviano Brenner de Moraes, hoje corregedor-geral do MP/RS. Este parecer foi vencedor de três prêmios: Melhor Arrazoado Forense, concedido pela Associação do Ministério Público do RGS; Direitos Humanos – Personalidade, pelo Movimento de Justiça e Homem Comunidade, pela B'nai B'rith do Rio Grande do Sul.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL PROCESSO Nº 695 130 484 APELAÇÃO – PORTO ALEGRE APELANTES: MAURO JUAREZ NADVORNY E FEDERAÇÃO ISRAELITA DO RGS APELADO: SIEGFRIED ELLWANGER RELATOR: DES. MOACIR DANILO RODRIGUES PARECER DO MINISTÉRIO PÚBLICO

"Queremos afirmar desde já que não temos a intenção de incriminar o povo alemão. Se a massa anônima do povo

alemão tivesse aceitado voluntariamente o programa do Partido Nacional Socialista, não teriam sido necessárias as SA nem os campos de concentração ou a Gestapo."

Eram dez horas da manhã do dia 20 de novembro de 1945. Com essas palavras, ressaltando que não pretendia de qualquer modo atentar contra a raça alemã, para não incorrer em uma outra e criminosa discriminação racial, o acusador público americano Robert Jackson instalou solenemente, em Nuremberg, Alemanha, o Tribunal Militar Internacional que iria julgar os 23 réus – os sobreviventes da alta cúpula do III Reich que foram capturados ou se entregaram aos aliados ao final da Segunda Guerra, o maior conflito da humanidade. As acusações: conjuração contra a paz, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Do recurso

Trata-se de apelação da sentença absolutória proferida em favor de Siegfried Ellwanger, acusado da prática do crime previsto no art. 20, caput, da Lei nº 7.716, de 5 de março de 1989, com a redação que lhe foi dada pela Lei nº 8.081/90, que é a seguinte: "Praticar, induzir ou incitar, pelos meios de comunicação social ou por publicação de qualquer natureza, a discriminação ou preconceito de raça, cor, religião, etnia ou procedência nacional: pena de reclusão de dois a cinco anos".

O recurso é interposto pelos Assistentes da Acusação, regularmente admitidos no processado, Sr. Mauro Juarez Nadvorny e a Federação Israelita do Rio Grande do Sul, representada pelo Sr. Samuel Burg.

Da imputação

Descansa a imputação no fato de que o apelado, na

qualidade de escritor e sócio dirigente da Revisão Editora Ltda, com sede em Porto Alegre, de forma reiterada e sistemática, tem editado e distribuído ao público, mediante venda, obras de autores nacionais e estrangeiros que "abordam e sustentam mensagens anti-semitas, racistas e discriminatórias, procurando incitar e induzir a discriminação racial, semeando em seus leitores sentimentos de ódio, desprezo e preconceito contra o povo de origem judaica" (fl. 2). De acordo com a denúncia, os livros de sua responsabilidade, em termos de edição, distribuição e comercialização, são as seguintes: O Judeu Internacional, de Henry Ford, 2ª reedição, 1989; A História Secreta do Brasil, de Gustavo Barroso, 1ª reedição, 1990; Protocolos dos Sábios de Sião, apostilado por Gustavo Barroso, 4ª reedição, 1989; Brasil Colônia de Banqueiros, de Gustavo Barroso, 1ª reedição; Hitler – Culpado ou Inocente, de Sérgio Oliveira, 2ª edição, 1990; Os Conquistadores do Mundo – Os Verdadeiros Criminosos de Guerra, de Louis Marschalko, 3ª edição. Obra de sua autoria, sob o pseudônimo S.E. Castan: Holocausto Judeu ou Alemão? – Nos Bastidores da Mentira do Século, com mais de vinte e nove edições. A peça reproduz vários trechos destas obras que expressam as mensagens anti-semitas, racistas e discriminatórias imputadas.

Do fundamento absolutório

A absolvição está fundamentada no inc. I do art. 386 do CPP. "Os textos dos livros publicados não implicam induzimento ou incitação ao preconceito e discriminação étnica ao povo judeu. Constituem-se em manifestação de opinião e relatos sobre fatos históricos contados sob outro ângulo. Lidos, não terão, como não tiveram, porquanto já o foram e, por um grande número de pessoas, o condão de gerar sentimentos discriminatórios ou preconceituosos

As outras manifestações

apresentadas pelas obras, com relação aos judeus, outra coisa não são, senão simples opinião, no exercício constitucional da liberdade de expressão" (fls. 861 e 862). Portanto, sob a ótica da sentença, o réu não obrou com dolo, suas ações não incitaram nem induziram à discriminação racial, desprezo ou preconceito contra o povo de origem judaica e, ao realizá-las, exercia direito constitucional de opinião.

contra a comunidade judaica

Das preliminares de nulidade

Argúem os apelantes a nulidade da sentença por falta de fundamentação e desvio no objeto da causa. Desenvolvem raciocínio procurando demonstrar que a Dra. Juíza não leu as obras, residindo aí o porquê da falta de fundamentação. A Promotoria de Justiça discorda da alegação de desvio e observa que a fundamentação somente é exigível no caso de sentença condenatória.

Antes de qualquer outra consideração, é de se registrar que seria injustificável tivesse sido proferido sentença sem a prévia leitura das publicações incriminadas. Na oficialidade do processo, naquilo que de capa-à-capa contém, até a chegada dos autos a essa Câmara, as publicações realmente não estavam apensadas, mas isto não exclui a possibilidade de que a Dra. Juíza tenha lido alguma ou todas as obras. Caso contrário, o feito teria sido decidido com certa dose de desdém, com desprezo aos relevantes valores que lhe subjazem, em uma outra postura discriminatória ou preconceituosa, que seria grave pela fonte de que emanaria, o próprio aparelho judiciário, em seu primeiro grau de atuação.

Independentemente disso, porém, vale notar que o devido processo legal não foi respeitado. Este princípio-garantia

constitucional pressupõe decisões fundamentadas do Poder Judiciário (1), sob pena de nulidade, e fundamentar significa o magistrado dar as razões, de fato e de direito, que o convenceram a decidir a questão daquela maneira. A fundamentação tem implicação substancial e não meramente formal, donde é lícito concluir que o juiz deve analisar as questões postas a seu julgamento, exteriorizando a base fundamental de sua decisão (2). Em se tratando de processo penal, mais avulta a inadmissibilidade de motivação implícita, aliunde ou per relationem. Absolutamente indispensável, na sentença condenatória, a demonstração da correlação entre o fato punível e o modelo legal. Na sentença absolutória, não menos imperiosa a indicação das razões justificativas ou excludentes da autoria, da criminalidade ou da tipicidade (3).

A afirmação é de Mário Guimarães: "Não se compreende

possa um juiz aplicar a pena a alguém sem dizer por que motivo o faz. Igualmente, quando absolve, em face de uma acusação, que é afinal repelida, a sociedade e o próprio réu precisam saber o que, na verdade, se apurou" (4). E Heleno Cláudio Fragoso a complementa: "a motivação se constitui também em garantia para o Estado, já que a este interessa seja aplicada e corretamente administrada a justiça" (5).

Daí que, vênia da Dra. Promotora, sua posição é isolada e insustentável à luz dos princípios reitores do processo penal. A sentença, como decisão do Poder Judiciário, deve ser fundamentada, para condenar ou absolver (art. 93, IX, da CF).

E a motivação é de extrema precariedade. Não passa de

um discurso puramente teórico, com frases ou expressões de efeito, sem o enfrentamento exegético e valoração dos trechos postos pela denúncia frente à norma incriminadora e ao

sentido protetivo que esta veicula: "Os textos dos livros publicados não implicam induzimento ou incitação ao preconceito e discriminação étnica ao povo judeu.

Constituem-se em manifestações de opinião e relatos sobre

Os fatos

históricos, é sabido, não possuem uma só versão. Interpretá-los ou relatá-los sob ângulo diverso da maioria, questionando fatos até então não questionados, ainda que a conclusão seja desfavorável a um determinado povo, não pode ser considerada conduta criminosa, na forma do art. 20 da Lei 8081/90. A irresignação da comunidade judaica, com relação as obras do acusado é perfeitamente compreensível, porquanto é a sua própria história, sofrendo outra interpretação e avaliação, do que aquela narrada nos compêndios de História até agora publicados, dando-lhe a condição de povo sofrido. As outras manifestações apresentadas pelas obras, com relação aos judeus, outra coisa não são, senão simples opinião, no exercício constitucional da liberdade de expressão" (fls.

fatos históricos contados sob outro ângulo

861/862).

Se substituídos fossem os textos incriminados reproduzidos pela denúncia, a motivação poderia ser mantida, tal como está, funcionando como decisão padrão, já que a eles não se refere uma só vez. Nem mesmo art. 20 a Lei nº 8.081 possui (o art. 20 é da Lei nº 7.716/89).

Os pontos questionados na causa, e que mereceriam o enfrentamento sentencial, dizem com a dignidade do homem e da raça judaica, execrada pelas obras. Não se esgotam em fatos históricos que permitam ou mereçam revisão ou reexame sob ótica ou ângulo diversos, nem na específica história dos judeus.

Basicamente dizem com atributos pejorativos, juízos (e não fatos) infamantes do homem e da raça judaica. Por exemplo, dentre outros: Horda de judeus; judeus desafetos do bem e protagonistas de uma incessante luta contra toda e qualquer forma de organização social, política e econômica; autocratas encarniçados.

Uma vez imputados na denúncia, deveriam ser analiticamente examinados pela sentença, inclusive para verificação da regularidade no exercício do direito de opinião que simplistamente proclamou, correlação indispensável mesmo em sede de decisão absolutória. O sistema processual é alicerçado na paridade das partes. O processo penal é instrumento de realização da Justiça e a Justiça não está unicamente no interesse do acusado.

O prejuízo desta precária e incompleta fundamentação é manifesto, apesar do pedido de absolvição feito pela Promotoria em suas alegações escritas. O Assistente também é interessado na averiguação da verdade substancial e tem direito à decisão justa (6).

Com efeito, o parecer do Ministério Público é pela declaração de nulidade da sentença. Toda a vez que houver infringência a princípio ou norma constitucional-processual, que desempenhe função de garantia, o ato processual inconstitucional, quando não juridicamente inexistente, será sempre nulo, sanção que decorre da própria Constituição ou dos princípios gerais do ordenamento, devendo a nulidade ser decretada de ofício, independentemente de provocação da parte interessada. É que as garantias constitucionais- processuais, ainda que aparentemente postas em benefício da parte, visam ao interesse público na condução do processo segundo as regras do devido processo legal (7). Há, ainda, a

cominação expressa de nulidade na CF (art. 93, IX) e lei processual (CPP, art. 564, III, alínea m).

Quanto à outra preliminar, o parecer é pela rejeição. Não houve o alegado desvio, devido ao entrelaçamento dos temas, e disso bem se encarregou a Dra. Promotora em demonstrar.

Do error in judicando

Dentre os ingredientes do juízo absolutório, está o de que

os livros, "lidos, não terão, como não tiveram, porquanto já o foram e, por um grande número de pessoas, o condão de gerar sentimentos discriminatórios ou preconceituosos contra a comunidade judaica" (fl. 81).

A sentença não revela, porém, a base concreta de tal assertiva. E aí mais uma vez peca em termos de fundamentação. É de se supor, em face desta injustificável omissão, tenha procurado expressar que as obras, apesar de lidas por um vasto número de pessoas, não produziram, como

resultados fenomenológicos, sensíveis no mundo da realidade, sentimentos discriminatórios ou preconceituosos contra a comunidade judaica, em evidente error in judicando. É que

o crime não exige a produção de resultado material.

Consuma-se com a simples realização da conduta típica. Irrelevante tenham sido ou não aflorados nos leitores os sentimentos discriminatórios ou preconceituosos a que se refere. A Lei nº 8.081, de 21 de setembro de 1990, foi editada com a finalidade de estabelecer os crimes e fixar as penas aplicáveis aos atos discriminatórios ou de preconceitos de raça, cor, religião, etnia ou procedência nacional, praticados por meio de comunicação social ou por publicação de qualquer natureza, buscando preservar o tratamento igualitário que a ordem jurídica se propõe a assegurar.

Tratamento igualitário que é princípio estrutural das

democracias modernas, no sentido de que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza" (art. 5º, caput, da CF). Para assegurá-lo, a própria Carta estabeleceu que "a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais" (art. 5º, inc. XLI). Nesse vinculante contexto constitucional é que surgiu a Lei, com a nítida e necessária tendência de punir as práticas discriminatórias de qualquer natureza, como meio asseguratório e protetivo do princípio da igualdade e de maneira mais ampla do que originariamente feito pela Lei nº

7.716/89.

Especificamente em relação ao crime definido no art. 20, que é o delito imputado ao réu, as ações nucleares de praticar, induzir ou incitar devem ser desenvolvidas pelos meios de comunicação social ou por publicações de qualquer espécie ou natureza, compreendendo-se por meios de comunicação social todos os que servirem a "manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo" (art. 220, caput, da CF). Praticar é levar a efeito; fazer, realizar, cometer, executar; expor ou exprimir por palavras; dizer, proferir. Induzir consiste em causar, inspirar, incutir; sugerir, persuadir. Incitar significa instigar, impelir, mover; estimular, instigar, açular, excitar; provocar.

Crime formal ou de mera conduta, cuja característica é o da consumação antecipada, configura-se independentemente da produção de qualquer resultado fenomenológico. "Basta, para o aperfeiçoamento do crime, a realização de qualquer ato caracterizador da prática, induzimento ou realização de discriminações ou preconceitos através dos meios de comunicação e de publicações de qualquer natureza" (8), sendo indiferente que se concretizem ou não

as finalidades de discriminação e de preconceito de raça, cor, religião, etnia ou procedência nacional. Discriminação como ato ou efeito de discriminar, de separar, de apartar, de segregar uma raça, cor, religião, etnia ou procedência nacional, como política de segregação, de isolamento de um grupo social. Preconceito como conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos, geradores de suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões, etnias etc.

Assim, em termos de adequação típica da conduta e consumação do delito, o importante é a aptidão ou potencialidade das abordagens veiculadas nas obras em termos de malferimento da igualdade constitucional e, de modo especial, a probabilidade de lesão aos valores protegidos pela norma.

Esta probabilidade de lesão, ou lesão potencial, que é a alma da ilicitude, é pura valoração acerca do caráter lesivo de uma ação humana, relação entre o fato e o valor como objeto da tutela. Aliás, é a noção de lesividade que fundamenta e dá conteúdo ao tipo. As condutas previstas no art. 20 são sancionadas não porque anti-jurídicas, mas porque juridicamente desvaloradas pelo Direito. A norma traduz o desvalor do Direito à conduta. Quando o legislador define o ilícito penal, significa postura axiológica negativa referente à conduta descrita. O Direito Penal é na sua essência tutela de valores, complexo de normas predispostas à garantia das exigências ético-sociais domi-nantes. Fora do resguardo aos valores, o Direito Penal perde a razão de sua existência e se transforma fatalmente num instrumento de terror ou num meio técnico de profilaxia social (9). Lesividade que não se esgota nem se confunde com o dano material provocado pela conduta (10). É uma noção normativa pura, intelectiva (11).

Exatamente por isso, diz Carnelutti, "a ilicitude resolve-se em um juízo da lesividade do fato praticado, pois uma antijuridicidade sem conteúdo não tem razão de ser"(12).

Nesse ótica, percebe-se, em definitivo, a irrelevância do aspecto a que a sentença deu tamanho destaque, pois, ainda que milhares de pessoas possam ter lido as obras incriminadas sem se sentirem tomadas por preconceito contra a comunidade judaica, o que releva notar é a potencialidade dos textos em induzir ou incitar o leitor a sentimento discriminatório ou preconceituoso em relação aos judeus, como povo, raça, etnia, procedência nacional. O art. 20 contém um tipo de crime de perigo. Perigo como probalidade de lesão ao bem jurídico tutelado. E os trechos denunciados, lidos e avaliados no conjunto de cada obra, materializam a tese acusatória quanto à potencialidade discriminatória e preconceituosa:

Agora, porém, compreenderam os alemães, que

foram explorados por uma horda de judeus, que haviam preparado tudo para tirar enormes proveitos da miséria geral do povo teutônico. Onde quer que se pudesse especular com as necessidades do povo, ou que se apresentasse ocasião de obter ganâncias intermediárias, seja em Bancos, sociedades de guerra, empréstimos públicos, ou em ministérios que formulavam os gigantescos pedidos de apetrechos bélicos, alí apareciam os judeus" (O Judeu Internacional, Henry Ford, 2ª reedição, pág. 23).

"

Horda como bando indisciplinado de malfeitores, amigos e construtores do mal. Grupo malfazejo movido pela ganância e especulação, no sentido mais sórdido que possam estas expressar, para fazer desabrochar no espírito do leitor os

sentimentos de discriminação e preconceito devido à ambição ilícita e desmedida da raça, usuária de meios degradantes e baixos para alcançar fins ignóbeis e infames.

" Num mundo de Estados territoriais organizados, o

judeu tem apenas duas fórmulas: derrubar os pilares de

todos os sistemas nacionais dos Estados ou criar o próprio

Estado nacional"

social não judaica"

encarniçado"

utilizado pelos agitadores judeus, para se elevarem a um nível superior àquele que se julgam subjugados. Assim que conseguem, empregam imediatamente seus métodos, para obter determinadas preferências, como se estas lhes

"Porque todo judeu é

coubessem por direito natural"

"O judeu é adversário de toda ordem

"O judeu é um autocrata

"A democracia é apenas o argumento

impelido pela mesma tendência, que se enraíza no sangue:

o anseio de dominação"

classes baixas judaicas não visam somente a libertar-se da repulsão social, mas anelam francamente o poder. É essa

"não

existe raça alguma que suporte a autocracia mais

voluntariamente do que a raça judia, que deseje e respeite

mais do que esta o poder"

fortunas, principalmente porque, até este momento, só o dinheiro lhe tem proporcionado os meios de conquistar

"O supremo intuito que eles denotam

consiste em solapar toda ordem humana, toda constituição de Estados, para erigir um novo poder, em forma de despotismo ilimitado" (O Judeu Internacional, Henry Ford, 2ª reedição, 1989, págs. 24, 25, 65, 75 e 79).

certo poderio"

"O judeu é um caçador de

vontade de dominar que caracteriza seu espírito"

"Os métodos de ação das

Referindo-se aos judeus como inimigos mortais de toda a ordem social não judaica, autocratas encarniçados comprometidos com a quebra dos sistemas nacionais dos

Estados e protagonistas deliberados de uma falsa adesão e defesa da democracia, a obra os coloca como perigosos agentes da anarquia, que inspirados na negação da autoridade, e por congênita deficiência moral, buscam romper o equilíbrio das estruturas política, social e econômica, colocando sob risco os fundamentais interesses da sociedade e do Estado, pela confusão ou desordem gerada por essa situação, para conseguirem o poder soberano, ilimitado e absoluto, próprio dos déspotas tirânicos e opressivos, poder sem restrição nem neutralização, como dominação poderosa da classe, que é baixa, dissimulada, vaidosa e arrogante. Sem a menor dúvida, por mais liberal que se queira ser na interpretação de tais textos, há afronta aos princípios da não- discriminação e do não-preconceito racial, com correlata exposição destes valiosos interesses constitucionalmente protegidos à perigo de dano.

" Que os outros lavrem a terra: o judeu, quando

pode, viverá do lavrador. Que os outros suem nas indústrias e ofícios: o judeu preferirá assenhorar-se dos frutos de sua atividade. Esta inclinação parasitária deve, pois, formar parte de seu caráter" (O Judeu Internacional, Henry Ford, 2ª reedição, 1989, pág. 171).

Mais uma vez, a marca inconfundível das obras, de dis- criminação e preconceito com a raça judaica, mostrando-a não só ga-nanciosa ou anárquica, mas, como se disse antes, de caráter profun-damente vil, como que por defeito de nascença, que sabe e quer en-ganar, manhosa e maldosamente, agindo do mesmo modo que o animal que se alimenta do sangue de outro, para viver, sem trabalhar, à custa do esforço e da miséria alheia. Raça chupim e arrimadiça.

Em Os Conquistadores do Mundo Os Verdadeiros Criminosos de Guerra (de Louis Marschalko, 3ª edição), numa clara evidência da articulação em discriminar, já no prefácio, novas e veementes referências ao caráter repulsivo, simulado e parasitário dos judeus:

"Qualquer pessoa que esteja de olho no mundo e nos negócios deste, poderá perfeitamente compreender esse

plano (totalitarismo perfeito e absoluto), que já tomou

forma

raças naturais, criadas por Deus, e pelas nações. Hoje em dia, até as nações estão divididas. A Alemanha esta dividida em Oriental e Ocidental, o mesmo acontecendo com a Coréia: do Sul e do Norte. A China e a Indochina estão divididas ou separadas, enquanto a Europa está dividida pela Cortina de Ferro. As populações são separadas e divididas em pessoas brancas e de cor, capitalistas e bolchevistas, empregadores e empregados, gente rica e classes operárias, católicos e protestantes, supressores e suprimidos, vencedores e vencidos. Mas, como veremos adiante, toda essa divisão, toda essa

A humanidade está dividida não apenas pelas

desordem, todo esse caos, é dirigida pela mesma vontade

férrea,

pela

mesma

força

secreta

que

age

segundo

o

interesse

dos

líderes

de

uma

raça

de

15

milhões

de

pessoas

São elas que instigam multidões furiosas a

fazerem greves e passeatas, enquanto ao mesmo tempo elas dão aumento de salários e promovem a inflação

Elas são as arqui-inimigas dos ideais patrióticos; pregam contra a soberania dos Estados e contra a discriminação

racial,

representam um nacionalismo racial de uma veemência até hoje sem paralelo na história de todos os países do

elas

enquanto

que

durante

todo

esse

tempo

globo terrestre"

tem o poder mundial na mão"

"Esse diabólico nacionalismo tribal

"O judeu jamais foi um

internacionalista;

consciente de um nacionalismo tribal que visava dominar todos os outros países do mundo" (págs. 9/10 e 18 – as transcrições da denúncia estão grifadas).

representante

ele

foi,

isto

sim,

o

Na mesma linha editorial, com o indisfarçável ânimo de afetar a dignidade do judeu e de sua raça, passagens não desvincu-ladas do contexto discriminatório das obras, do tipo "Povos antijudaicos do mundo, uni-vos, antes que seja tarde demais" (Os Conquistadores do Mundo, pág. 112), "Como o sírio, o judeu não passa sem prestações. É uma

"Judeu sem prestação não é

Um dia, os povos compreenderão a

verdadeira origem de todos os seus males e, então, as bichas vorazes e nojentas serão duramente castigadas" "O nosso Brasil é a carniça monstruosa ao luar. Os

banqueiros judeus, a urubuzada que a devora" (Brasil, Colônia de Banqueiros – Gustavo Barroso, 1ª reedição, págs. 34, 37, 46 e 95), "Em vista de seu número relativamente pequeno, os judeus, sozinhos, certamente não podem vencer a população no meio da qual vivem como parasitas, mas inventaram um modo de suicídio para os cristãos, provocando habilmente entre eles discórdias intestinas e uma desorganização maldosamente

preparada"

Todas as religiões serão abolidas, salvo a de Moisés. Para mostrar seu poder, os judeus esmagarão e escravizarão pelo assassínio e o terrorismo cada um dos povos da Europa" (Os Protocolos dos Sábios de Sião, Gustavo Barroso, 4ª reedição, pág. 95). Em Hitler - Culpado ou Inocente?, de Sérgio Oliveira, dentre várias outras manifestações preconceituosas, é dito que os judeus seguem o Torah, cujo teor aponta para o ódio a tudo que não for judeu, para a desarmonia, desigualdade e desentendimento entre os

judeu"

inclinação racial" "

"Para os judeus, o único direito é a força

povos. Em Holocausto: Judeu ou Alemão? – Nos Bastidores da Mentira do Século, de autoria do réu, sob o pseudônimo S.E. Castan, a expressão máxima da discriminação, baseada em inversões dos fatos que marcaram a história deste século, pretensamente mascaradas com dados relativos a fatos verdadeiros (13).

Em uma síntese, os livros publicados e editados pelo apelado tentam negar o holocausto, atribuindo aos judeus, como substrato da ação dos Aliados, e exatamente pela congênita perversão de caráter, a falsificação de documentos e a montagem de fotografias e filmes, simulando episódios que não teriam ocorrido na Alemanha e nos territórios por esta ocupados, em uma criminosa distorção da realidade histórica, realidade que é pública e notória, oficialmente reconhecida pela própria Alemanha, e veiculam, explicita e implicitamente, nas linhas e entrelinhas, mensagens de cunho nitidamente anti-semitas, discriminatórias e preconceituosas.

Ainda a respeito desta potencialidade lesiva das obras incriminadas ao bem jurídico protegido pelo tipo, cumpre ressaltar que os autos reúnem manifestações de repúdio emanadas de diferentes setores da sociedade civil (Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira – fl. 75; Associação Riograndense de Imprensa – fls. 76/77; Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Marítimos Fluviais e Aéreos – fls. 78/79; Instituto Solano Trindade – fl. 80; Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Porto Alegre - fl. 81; Associação Gaúcha de Escritores - fls. 82/84; da Secção do Rio Grande do Sul da Ordem dos Advogados do Brasil – fl. 87; Movimento Negro Brasileiro e Movimento Popular Anti-Racismo – fls. 109/126) e de diversas pessoas vinculadas ao judaísmo, que pelo fato de serem judias não

perderam a condição moral para depor (fls. 44/47; 53/59; 139/153). São dados concretos que não poderiam ter sido tão facilmente desprezados pela decisão apelada.

Desse modo, e que no pertine ao mérito da sentença, não há como mantê-la com base na falta de produção de dano ao bem jurídico protegido. Não se deve permitir a confusão entre dano (ofensa material e sensível) e lesão (ofensa potencial e negativa-mente valorada pelo cotejo da norma com as concretas exigências sociais de tutela).

Da ausência de dolo

O dolo, como vontade de realização da conduta proibida pelo tipo, revelador de um estado de psíquico-espiritual do agente, geralmente é demonstrado com o auxílio do raciocínio (14). O delito do art. 20, apesar de unicamente previsto na modalidade dolosa, admite o dolo direito e eventual (15). A conduta do réu, na global análise que se impõe em face das circunstâncias concretizadas, e no que se inclui a valoração do próprio bunker que edificou, talvez debochadamente com o nome Editora Revisão, é nitidamente dolosa, e por dolo direto. Sua obstinada atuação voltada ao anti-semitismo e ao nazismo, feita através das publicações que promove e pelos sentimentos espúrios que procura difundir, é amplamente conhecida no Brasil e no exterior (16), e não se concilia à simples luz do razoável com propósitos diversos daqueles que o tipo penal em questão pretende evitar. A propósito, o parecer do Ministério Público integralmente endossa as alegações finais da Assistência da Acusação, que, lastreadas em circunstanciado exame dos trechos, torna irrecusável compreensão diversa, seja por inexistência de dolo, seja pela existência de dolo diverso e não compreendido pelo tipo em questão (fls. 802/803).

Do direito ou liberdade de opinião

Correlata à crítica sobre o terceiro e último elemento formador da convicção absolutória expressada no julgado recorrido – direito constitucional de opinião, pela afinidade que com este tema encerra, complementando o que acima foi dito a respeito do agir doloso do réu, sua sistemática e agressiva postura discriminatória e preconceituosa para com a raça judaica, revelada até mesmo no decorrer do processo, dá a medida exata do elemento subjetivo. As inverdades sobre fatos notoriamente conhecidos pela humanidade e as deformações de episódios históricos incontroversos, constituem-se em provas definitivas do ânimo de incitar e induzir à discriminação e ao preconceito racial. Não há outra conclusão plausível. E o dolo, como dito por Mittermayer, é detectado pelo uso do raciocínio.

Tamanho o exagero nas inverdades históricas, criadas por sua inteligência ou pela de outros, cujas obras publica, e a vora-cidade nos assaques contra os judeus, homem e etnia, que somente podem ser entendidas em um contexto deliberadamente criminoso, atentatório de um dos bens mais valiosos que o ser humano pode titular, bem que a Conferência de Puebla disse ser inviolável, a dignidade do ser humano e da raça a que pertence, e que a CF erigiu em princípio fundamental, sem que haja mínimo espaço a uma discussão rotulada pelo sugestivo título do revisionismo (17), de que se vale o réu para fazer crer que seu único propósito é o de revisar a história, como se esta trágica passagem da história, aliás o maior conflito da história de humanidade e o momento decisivo da história do século XX, fosse passível de revisão em suas principais circunstâncias e, especialmente, em seus efeitos sobre a dignidade humana (18). Revisar o que é notório, fazendo-se de conta que o racismo (19), as idéias de

eugenia (20) e o anti-semitismo (21) não tenham dado corpo à

ideologia nazista, ideologia excludente e condenatória (22), é querer acobertar inverdades e preconceitos. Nada além disso.

O anti-semitismo como ideologia e, depois, o extermínio dos

judeus (23), funcionaram como elementos centrais na

configuração ideológica e na organização do Estado nazista.

O genocídio de seis milhões de judeus, fato histórico que não

permite discussão ou revisão, era e foi prioridade do nazismo,

levado a cabo como uma linha de produção da morte, medida em termos de custo e benefício (24). Na visão nazista do mundo, não havia lugar para os judeus, e o espaço foi sendo reduzido cada vez mais, até que significou a morte. A tese

principal de Mein Kampf, um tratado sobre sua filosofia política, concluído por Hitler durante a prisão na fortaleza de Landsberg (25), era simples: o homem era um animal combativo; portanto, sendo a nação uma comunidade de combatentes, ela era uma unidade de combate. Qualquer organismo vivo que deixasse de lutar por sua existência estava fadado à extinção. Um país ou raça que deixasse de lutar estava igualmente condenado. A capacidade de luta de uma raça dependia de sua pureza. Daí a necessidade de livrá-

la dos elementos contaminadores estrangeiros. A raça judaica,

por sua universalidade, era necessariamente pacifista e internacionalista. O pacifismo era o mais letal dos pecados, pois significava a rendição da raça na luta pela vida. O primeiro dever de todo país, portanto, era nacionalizar as massas (26). Surgiram, assim, o racismo, a eugenia, o anti- semitismo e o anticomunismo como instrumentos de concreção de um Estado totalitário e lastros de uma política de exclusão e mais tarde de eliminação dos judeus, a terrível Endlösung, que também serviram para implementar as políticas e os alvos que definiram a IIª Guerra Mundial (27).

Do mesmo traço ideológico se revestem as publicações de

responsabilidade do acusado, em que pesem os disfarces que lhes busca dar, em clara adequação de suas ações ao tipo incriminador que dá embasamento à pretensão punitiva deduzida na denúncia. Jescheck, certamente o maior escritor de Direito Penal da atualidade, secundado pelos não menos renomados Maurach e Welzel, adverte de que, quando o agente não tenha querido atuar juridicamente, em conformidade com o Direito, não lhe pode ser reconhecida uma causa de justificação, mesmo que, por acaso, de sua conduta resulte algo valioso, pelo que não se há de aceitar tenha o réu atuado ao abrigo de um direito constitucional de opinião.

Se esta cegueira jurídica (28) não fosse o bastante para afastar a hipótese de exercício de um direito constitucional, há de se considerar que inexiste direito que comporte exercício ilimitado, direito que prescinda de regularidade em seu exercício (29).

A CF assegura o direito de manifestação do pensamento (30) (art. 220 e §§), como direito inerente ao status libertatis do indivíduo em suas relações com os outros, no que se distingue da liberdade de pensamento, que é direito do indivíduo sozinho, de per si, e da inviolabilidade da correspondência, que é a liberdade de não emitir o pensamento (31). É a liberdade de opinar, de criticar, de discutir, de propagar crenças, de pregar opiniões (32). É esta liberdade conhecida em todos os tempos, em todos os quadrantes, em todas as latitudes, desde Sócrates quando preferiu beber cicuta a abjurar o seu direito de expender o próprio pensamento, de difundir suas idéias, até a célebre Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, hoje bandeira de todos os povos cultos, fruto do liberalismo francês (33).

Mas nem por isso está imune a uma limitação em termos de exercício, como condição da própria licitude da conduta. É a própria Carta consigna que: "Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte" (art. 5º, inc. LXXVII). Pelo Pacto de San José, ao qual o Brasil aderiu, conforme Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992, publicado no D.O.U de 9 de novembro do mesmo ano, "a lei deve proibir toda a propaganda a favor da guerra, bem como toda a apologia ao ódio nacional, racial ou religioso que constitua infração à discriminação, à hostilidade, ao crime ou à violência" (Cláusula 13).

É elementar a noção de que todo o direito tem o seu limite lógico na fronteira dos direitos alheios. A ordem jurídica não pode deixar de ser um equilíbrio de interesses. Não é lógico nem razoável a possibilidade de uma colisão de direitos, autenticamente tais. O exercício de um direito degenera em abuso, e torna-se atividade antijurídica, quando invade a órbita de gravitação do direito alheio.

Relativamente ao direito de opinião, em quase todo o mundo civilizado tem sido objeto de regulamentação especial (34), que lhe traça limites (35), não podendo, por outro lado, ficar alheio a uma interpretação sistêmica do Direito, e aqui surge o princípio constitucional da isonomia, que é indesjungível da lei, nos casos de conflito (aparente) com outro direito constitucional, pois inexistem contradições entre dispositivos internos da Constituição, e a CF assegura que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza" (art. 5º, caput), que "a lei punirá qualquer

discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais" (art. 5º, inc. XLI), como meio garantidor de um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, que é o de "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação" (36), e também dispõe que "a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei" (art. 5º, inc. XLII).

A partir desse espírito de tratamento igualitário, e como

condição de seu resguardo e efetivação, proíbe-se a prática de

discri-minações e preconceitos de raça, cor, origem étnica, preferência religiosa e procedência nacional.

Havendo o conflito entre normas constitucionais, entre a que impõe o dever de não-discriminar e a que consagra o direito de expressar o pensamento, deve-se buscar a conservação do valor de não-fazer e, nesse passo, a liberdade de pensamento não pode desprezar outros direitos fundamentais, sendo primordial a tutela do interesse público prevalente (37). Nenhum direito fundamental, calcado na Constituição, possui, em verdade, valência absoluta frente a outros direitos também fundamentais (38).

A CF garante a livre manifestação do pensamento. Mas

esta disposição é sobre a liberdade de pensamento em si e não

sobre os crimes que por seu intermédio possam ser cometidos, adverte Marrey Neto (39).

Aliás, a garantia da CF ao direito de opinião não atinge os excessos que em nome dessa liberdade sejam praticados, muito menos quando em detrimento de outros valores constitucionais. O direito à opinião termina exatamente na

fronteira do território inerente à dignidade do ser humano, que dá fundamento e conteúdo ao princípio constitucional da igualdade.

Quando direitos fundamentais estão em conflito com outros bens ou direitos constitucionalmente protegidos, é mister a ponderação dos bens e direitos a fim de se obter, se possível, uma concordância prática entre os vários bens e direitos protegidos em nível jurídico-constitucional. Estas tarefas de ponderação e concordância prática são formas de concretização das normas consagradoras de direitos fundamentais (concretização-restrição) (40).

Na busca de solução concreta do conflito entre o direito de opinião e o dever constitucional da não-discriminação e do não-preconceito, não se pode descurar da teoria das limitações horizontais, através da qual se percebe que o exercício de direitos pressupõe uma reserva de amizades e de não prejudicialidade, como limites dos pressupostos jurídicos e fáticos desses mesmos direitos (41). Aplicada à espécie, como caso concreto, e observados os pressupostos que propõe, a teoria das limitações horizontais conduz o intérprete à conclusão da supremacia do direito à não- discriminação e ao não-preconceito sobre o direito de opinião.

No cotejo entre o direito de opinar (titulado pelo réu), e o direito à não-discriminação e ao não-preconceito (neste caso titulado pelos judeus como gente, raça, etnia), é forçoso convir que a regularidade no exercício do direito de opinião, em detrimento daquele outro, somente se as informações fossem verdadeiras, conhecida-mente verdadeiras, inevitáveis para passar as mensagens (42) e desde que estas não afetassem a bens jurídicos tutelados, o que não se verifica, até mesmo porque, em sua maioria, as obras finalisticamente se

prestam para veicular opiniões desairosas à raça e não propria-mente informações sobre os fatos em que esta raça ou etnia se viu envolvida ao longo de sua trajetória na história da humanidade.

Sanções devem ser reservadas para as situações em que a evidente intenção da opinião é a de discriminar raça, credo, seg-mento social ou nacional, muito embora disfarçada de revisionismo.

Como conseqüência, a licitude da resolução deste conflito está na supremacia valorativa do dever de não-discriminar, considerando-se, para tanto, que a própria Constituição do Brasil estabelece restrição no exercício do direito de opinião e suas formas de exteriorização, quando potencialmente capaz de malferir o princípio isonômico ou da igualdade, na medida em que expressamente proíbe os preconceitos de raça, cor, etnia, por motivos religiosos e de procedência nacional. Essa franca limitação constitucional inclusive permite a prévia censura judicial. Prevê a lei a busca e apreensão do material destinado a divulgar a postura discriminatória ou preconcei- tuosa (art. 20, § 1º, incs. I e II da Lei nº 7.716/89, c/c o art. 1º da Lei nº 8.081/90) (43)(43).

Para expressar a derradeira manifestação sobre a tese sustentada pelo réu, parafraseando Rudolf Von Ihering, consigna o Ministério Público que, se um direito concreto se vangloria da sua existência para pretender um exercício ilimitado, sem fronteiras, faz recordar o filho que levanta a mão contra a própria mãe, insultando a idéia do direito, porque a idéia do direito será eternamente um movimento progressivo de transformação com vistas ao bem comum, à realização do homem e dos mais caros interesses da sociedade, objetivos inatingíveis quando atingida a dignidade

do ser humano, gratuita, leviana e criminosamente, considerado o ser humano em sua individualidade ou como membro de grupo, raça, etnia.

As Nações Unidas, em Assembléia Geral realizada há mais de trinta anos (20 de novembro de 1963), à unanimidade, aprovou a declaração sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial, recomendando aos países subscritores a efetivação de medidas concretas especiais à proteção deste interesse superior, pois qualquer incitamento ou quaisquer atos de violência praticados, quer por pessoas ou organizações, contra qualquer raça ou grupo de pessoas de outra cor ou origem étnica serão considerados como uma ofensa à sociedade e puníveis em conformidade com a lei (art.

9º).

Do parecer

Diante do exposto, reafirmando o posicionamento quanto à questão preliminar, o Ministério Público opina pela declaração de nulidade da sentença, devido à falta de fundamentação, em flagrante violação da regra constitucional de que as decisões judiciais serão fundamentadas, sejam elas condenatórias ou absolutórias. O processo é uma relação. À exemplo de uma moeda, possui duas faces. Acusação e Defesa, sociedade e cidadão.

Relativamente ao mérito, se a Colenda Câmara não acolher a preliminar de nulidade, o parecer é pelo provimento da apelação, para que o réu seja punido pelas graves ações praticadas ao longo das publicações apontadas na denúncia, subsumíveis na norma incriminadora, objetiva e subjetivamente, sopesando-se, no respectivo apenamento, o alto grau de sua culpabilidade. Sua postura de vida, quase condição de vida (o emprego do pseudônimo S. E. Castan

talvez para acobertar a descendência étnica – Ellwanger; a criação da Editora Revisão, como verdadeiro bunker de proteção aos ideais segregacionistas que oxigenizam suas ações; as manifestações públicas, orais e escritas; e as relações próximas e contactos que habitualmente mantém com os movimentos de ideologia racista – os autos possuem vários documentos comprobatórios), fruto de consciente e voluntário ânimo racista, discriminatório e preconceituoso, que tem de provocado desvaliosos sentimentos no seio da comunidade judaica (também em outras – manifestações de repúdio antes indicadas), é juridicamente proibida e socialmente intolerável, recomendando apenamento severo. Em uma culpabilidade normativa, consideradas as condições pessoais de saúde mental, pleno conhecimento da ilicitude e poder-agir-de-outro-modo, a censura é de peso, proporcional à intensidade do ânimo ativo juridicamente repreensível. Não há como juridicamente admitir, a pretexto de exercício da liberdade de opinião, tenha ou possa o réu impunemente promovido as publicações segregacionistas, na medida em que a segregação racial é expressamente vedada e incriminada pela Constituição e legislação penal brasileira.

As eventuais discriminações feitas pelos judeus a outros povos, ou à sua própria gente, por racismo contra os negros, preconceito religioso contra os palestinos cristãos ou por inconfor-midade com a dissidência de militares; a procedência ou improcedência das críticas ao movimento sionista; a correção ou incorreção das ações políticas e governamentais dos líderes Begin, Sharon e Eltan, ou das ações dos membros do Estado Maior do exército israelense; as críticas que se possam fazer à política desenvolvida pela Confede-ração ou Federações Israelitas (fls. 337/338; 419/425), ou os prece-dentes absolutórios relativos às mesmas obras, emanados de autori-dades judiciárias de outros países

(fl. 287), não afetam nem prejudicam o exame da conduta imputada a Siegfried Ellwanger, ou S. E. Castan, à luz do direito brasileiro e dos valores fundamentais cultuados por nossa sociedade, como se à raça judaica não se pudesse endereçar a máxima de Kant: "Não deixeis calcar impunemente o vosso direito aos pés de outrem" (44).

E o juízo de censura a Siegfried Ellwanger, ou S. E. Castan, não permite, modo algum, a chamada à memória, para fins comparativos, dos episódios históricos envolvendo Giordano Bruno ou Galileu, como quis ele fazer através da publicação juntada à fl. 289.

Esta colocação foi unicamente da Defesa, pessoal e técnica, como expediente defensivo, pois o ponto nuclear da demanda está na propositada violação da igualdade, da não- discriminação e do não-preconceito, como regras de direito natural, historicamente consa-gradas nos textos constitucionais do Brasil, feridas pela realização das ações hipotizadas no art. 20 da Lei, imputadas e imputáveis ao réu.

A advertência final é de Sebastian Soler: "Las penas más crueles han sido fundadas en la afirmación de que un sujeto era brujo o hereje. En nuestros propios tiempos hemos visto fundar las más extremas medidas sobre la base de la condición óntica de judío o de negro" (45).

Porto Alegre, 27 de dezembro de 1995

CARLOS OTAVIANO BRENNER DE MORAES, Procurador de Justiça.

NOTAS

1. Cf. art. 93, inc. IX, da CF: "todos os julgamentos dos

órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei, se o interesse público o exigir, limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes". CPP, art. 381: "A

sentença conterá:

III – a indicação dos motivos de fato e

de direito em que se fundar a decisão".

2. Cf. Nélson Nery Júnior, Princípios do Processo Civil, pág.

156.

3. Cf. Benedetto Pellingra, La motivazione della sentenza

penale, pág. 108.

4. O Juiz e a Função Jurisdicional, pág. 347.

5. Justitia 65/23.

6. Nesse sentido: R.Esp. 35.320-3-TO, 6ª Turma, Rel. Min.

Luiz Vicente Cernicchiaro, DJU, 08-08-94, p. 19.575.

7. Cf. Ada Pellegrini Grinover, Das Nulidades do Processo

Penal, pág. 21.

8. Cf. Fábio Medina Osório e Jairo Gilberto Schafer, Dos

Crimes de Discriminação e Preconceito – Anotações à Lei 8.081, de 21.9.90, Revista do Ministério Público do RGS, nº

34, pág. 194.

9. Cf. Giuseppe Bettiol, Direito Penal, p. 361.

10 A noção material de lesividade não diferencia o latrocínio

do homicídio em legítima defesa, já que em ambos há o resultado material danoso à vida. A ilicitude é uma qualificação do fato, qualificação que é global, vale para todos os demais ramos. Ela se resolve num juízo de que o fato é lesivo de um bem jurídico. Esta lesão realmente não tem realidade perceptível aos sentidos. Sob o aspecto naturalista, o homicídio cometido em estado de legítima defesa e o homicídio premeditado não apresentam diferenças porque na realidade naturalista o que se pode verificar em ambos os casos é a causação da morte de um homem. Se dizemos que falta no primeiro ilicitude porque a lesão do bem jurídico é justificada enquanto no segundo esta lesão é ilícita, julgamos o fato em relação às exigências da norma jurídica enquanto norma de tutela de interesses. Mas a lesão como tal não é perceptível de um ponto-de-vista sensível (Giuseppe Bettiol, ob. cit., pág. 365).

11. Giuseppe Bettiol, ob. cit., pág. 365.

12. Teoria Generale, pág. 24.

13. Segundo o professor José Roberto Lopez, do

Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor de livro que discute o revisionismo pregado pelo réu, um dos problemas do Holocausto: Judeu ou Alemão?, "é que ele apresenta erros históricos misturados com verdades indiscutíveis" (vide Zero Hora de 23 de julho de 1992, fl. 363 dos autos).

14. Cf. Mittermayer, Tratado da Prova em Matéria Criminal,

pág. 181.

15. Cf. Fábio Medina Osório e Jairo Gilberto Schafer, ob.

cit., pág. 193.

Estado e Estado de Minas, "A Universidade de Telavive, em Israel, publicou em 1994 um relatório que alerta para o quanto as aparências podem enganar: o Brasil, diz o documento, é um dos lugares do mundo em que a ideologia hitlerista mais cresce. O documento foi feito com base em pesquisas realizadas em 1993, e aponta os grande centros urbanos de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (onde também são incluídas pequenas cidades do interior, como focos do pensamento hitlerista. Em São Paulo, o relatório de 92 páginas da Universidade de Telavive refere-se às gangues de skinheads (cabeças peladas). No Rio Grande do Sul, é destacada a ampla circulação do livro Judeu ou Alemão: nos Bastidores da Mentira do Século, de S.E. Castan. A "mentira" seria o holocausto". Também a respeito de sua notoriedade e influência no Neonazismo no Brasil, a Revista Isto É publicou: "O ódio de S.M.C. contra judeus, negros e nordestinos surgiu há pouco mais de três anos, quando abandonou a gangue Carecas do Subúrbio, na qual estava desde 1984. Passou a ler a biografia de Adolf Hitler e os livros sobre o neonazismo. Entrou em contato com os defensores do Führer no Brasil, como o carioca Armando Zanine Júnior, 62 anos, presidente do Partido Nacionalista Revolucionário Brasileiro, e com o gaúcho Siegfried Ellwanger Castan, autor de livros que

desmentem o holocausto" (págs. 45 e 46, edição nº 1.201, de

7 de outubro de 1992, exemplar juntado a fls. 445/446).

17. Os devotos de Hitler, e no Brasil o réu é o líder do

movimento devido aos livros que publica, negam a existência das câmaras de gás nos campos de concentração e a morte de

6 milhões de judeus que, como o réu, qualificam de parasitas

dispostos a dominar o mundo – Cf. Zero Hora de 30.7.95, fl.

944.

18. Como discutir o holocausto, o nazismo e o anti- semitismo enquanto fatos? O que se dizer do pedido de desculpas feito pelo ex-chanceler da Alemanha Oriental, Lothar de Maizière, pelo massacre executado sobre a população judaica? As obras incriminadas poderiam discutir os motivos dos assassi-natos nazistas (como, por ex., há quem sustente que tanto a teoria como a prática nazista tiveram como ponto central a aplicação de uma política biológica – Dr. Robert Proctor, higiene Racial – A Medicina na Época dos Nazistas), ou a colaboração criminosa, por omissão, dos Aliados no holocausto, ou a injustiça pela impunidade dos crimes cometidos pelos Aliados – Hiroshima e Nagasaki, por exemplo, sem que estivessem a atentar contra os princípios constitucionais fundamentais da não-discriminação e do não- preconceito. Aí sim estariam a revisar a história. O historiador gaúcho Décio Freitas, autor de vários artigos de alerta sobre os perigos do renascimento do nazismo, assegura que os livros de Castan não têm compromisso científico. Para o historiador, eles são uma propaganda neonazista travestida de revisionismo histórico – Cf. Zero Hora de 31.7.95, fl. 948 dos autos.

19. Erich Goldhagen, do Russian Research Center, da Universidade de Harvard, em um estudo sobre o assunto, destaca que, para os nazistas, a história da humanidade era entendida como uma guerra de raças em contraposição ao que pregavam os marxistas a respeito da luta de classes. Ocupando importantes funções dentro da economia, artes, meios de comunicação e literatura, os judeus atingiram, segundo os nazistas, seu objetivo para a conquista do poder através do liberalismo e democracia em alguns países e, em outros, sob a máscara do socialismo e do comunismo. Ainda como práticas racistas, as leis de Nuremberg, proibitivas de várias relações envolvendo judeus e do acesso destes a meios

de transporte coletivo, uso de bancos das praças públicas, contas bancárias, direito aos seus bens etc.

20. Estavam em evidência as teses sobre eugenia e em nome dela os médicos nazistas cometeram várias atrocidades. Para os nazistas, os não-arianos eram inferiores. Inferioridade racial. Robert Lifton, na obra The Nazi Doctors, cita o caso do médico Eduard Wirths, de Auschwitz, que inoculava o bacilo do tifo em judeus sãos, sob a justificativa de que estes, naturalmente condenados a morrer, poderiam servir de cobaias para teses de vacinas. Muitos morreram em experiências médicas que incluíam a exposição a alta pressão e congelamento. Muitos médicos nazistas obtiveram destaque pela crueldade dos métodos de que se utilizavam para assassinar. Josef Mengele, o Anjo da Morte, fazia experimentos genéticos especialmente com crianças e gêmeos, tudo para melhoramento da raça.

21. O nazismo construiu uma ideologia que excluía e condenava à morte todos os que eram diferentes e pensavam diferente do modelo (imaginário) de homem ariano. A Segunda Guerra foi desencadeada também para impor uma ordem mundial baseada nesse modelo, no extermínio dos judeus e na idéia de que outros povos deveriam se submeter aos alemães – Cf. Roney Cytrynowicz, O anti-semitismo no nazismo, CD-ROM IIº Guerra Mundial.

22 Que digam os guetos, como o de Varsóvia, mundialmente conhecido pelo levante, palco das mais variadas atrocidades à dignidade. Fotografias ainda hoje ilustram a trágica cena dos judeus humilhados aos substituírem animais de tração. E os campos de extermínio, meios de consecução da chamada Solução Final? Que dizer de Klaus Barbie, o Carniceiro de Lyon, ou de Adolf Eichmann? Ben Abraham, em documentário autêntico, Holocausto: O Massacre de 6

Milhões, mostra os crimes contra a humanidade e praticados contra os judeus com eloqüência definitiva (CD-ROM IIª Guerra Mundial). A propósito de Ben Abraham e de seu documentário, consta dos autos cópia de sentença penal condenatória proferida na ação que ajuizou contra o apelado, por crime contra a honra (art. 140 do CP). Siegfried Ellwanger, ou S.E. Castan, foi condenado porque, no livro S.O.S. Alemanha, atribuiu a Ben Abraham os negativos

atributos de mentiroso e farsante, além de acoimá-lo de deturpador dos fatos e divulgador de mentiras para inocentar

o sionismo dominador (fls. 630/649).

23. Por ex., revisar Auschwitz ou Belsen? No complexo de Auschwitz, localizado no sul da Polônia, junto à cidade de Oswiecim, na alta Silésia, as estimativas mais confiáveis indicam que tenham sido exterminadas entre 1,3 milhão e 1,5 milhão de pessoas em câmaras de gás. Este foi o maior entre os dois mil campos de concentração e trabalhos forçados construídos pelos nazistas. Nele foram mortos cerca de 1,2 milhão de judeus, equivalente a 25% do total de judeus mortos na guerra, 150 mil poloneses, 23 mil ciganos e 15 mil soviéticos (Cf. CD-ROM II ª Guerra Mundial).

24 A indústria da morte instalada pelo nazismo começou a operar a plena força com a invasão da União Soviética, em junho de 1941. No início os nazistas obrigavam os judeus a cavarem as próprias valas onde seriam enterrados.

Enfileiravam os prisioneiros à frente delas e os fuzilavam – a técnica poupava o trabalho de carregar os corpos até o local onde seriam enterrados, os judeus caiam diretamente nas valetas. Depois foram utilizados caminhões com o escapamento voltado para o interior de um baú montado sobre

o chassis, onde as vítimas eram asfixiadas pelo monóxido de carbono. Em 1941 foram criados os campos de extermínio equipados com câmaras de gás. Durante o julgamento pelo

Tribunal de Nuremberg, Rudolf Höss, um dos chefes mais

cruéis do campo de Auschwitz, prestou este depoimento: "Em junho de 1941 recebi a ordem de organizar o extermínio de Auschwitz. Permaneci em Treblinka para observar como era

utilizava

óxido de carbono. No entanto, seus métodos não me pareciam eficazes. Minha escolha era pelo cianeto de potássio. Nós também conseguimos melhorar o procedimento em Treblinka, construindo câmaras de gás que poderiam abrigar duas mil pessoas de uma vez" (CD-ROM IIª Guerra Mundial).

25. Cf. Winston S. Churchill, Memórias da Segunda Guerra,

feito o extermínio. O comandante de Treblinka (

)

pág. 31, quando Hitler chegou ao poder, foi o livro mais cuidadosamente lido pelos governantes políticos e militares dos países Aliados.

26. Cf. Winston S. Churchill, ob. e pág. cits.

27. Sobre o assunto: Roney Cytrynowicz, Memória da

Barbárie – A História do Genocídio dos Judeus na Segunda

Guerra Mundial, A Vida Secreta dos Relógios e outras Histórias, Integralismo e Anti-Semitismo.

sabidamente

28. Cegueira

contrária aos valores protegidos pelo sistema jurídico.

jurídico

no

sentido

de

ação

29. Cf. art. 23, inc. III, do CP – "Há, entretanto, limites

para que o exercício de um direito possa reputar-se lícito. Esse limite vem definido na palavra regular, utilizada pelo legislador pátrio. Só o exercício regular de um direito justifica o fato, não o eventual exercício abusivo desse mesmo direito. Admite-se, assim, que o abuso de direito afaste a incidência da norma permissiva. Exercício regular de direito é o que se contém nos limites impostos pelo fim econômico ou social do direito em causa, pela boa fé e pelos costumes. Assim, o exercício de um direito com o

intuito de prejudicar caracteriza o seu irregular exercício, ou seja, o abuso de direito"(Francisco de Assis Toledo, Ilicitude Penal e Causas de sua Exclusão, pág. 110).

30. Art. 220: "A manifestação do pensamento, a criação, a

expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição".

31. Cf. Pontes de Miranda, Comentários à CF de 1967, vol.

V, pág. 139.

32. Cf. Sampaio Dória, Direito Constitucional, vol. I, tomo

II, pág. 721.

de

Imprensa, pág. 103.

34. Cf. Nelson Hungria, Comentários ao Código Penal, vol.

VI, pág. 261.

35. Quando se pretende proteger os direitos de liberdade,

como, por ex., o de opinião, há de se distinguir entre os direitos individuais para os quais a Constituição não prevê, expressamente, qualquer possibilidade de limitação legislativa genérica, e que, por isso, são restringidos apenas em razão da

33. Cf.

Darcy

Arruda

Miranda,

Comentários

à

Lei

salvaguarda de interesses prevalentes, e os direitos de liberdade para os quais há, expressamente, esta previsão constitucional, como no caso da Constituição do Brasil.

36. Art. 3º, inc. IV, da CF.

37. Cf. Garcia de Enterria, La Constituzione come norma

giuridica. La Cons-tituzione spagnola del 1978.

38. Cf.

Especiais e sua

Interpretação Jurisprudencial, pág. 1150.

Silva

Franco,

Leis

Penais

39.

RJD 9/240.

40.

Cf. José Gomes Canotilho, Direito Constitucional, pág.

601.

41.

Cf. Fábio Medina Osório e Jairo Schafer, ob. cit., pág.

190.

42.

Nesse sentido, e relativamente ao conflito com o direito à

honra, de bem mais tênue proteção penal, vide RT 699/337 e RJD 17/206.

43. Cf. Fábio Medina Osório e Jairo Schafer, ob. e pág. cits.

44. A Luta pelo Direito, Rudolf Von Ihering, pág. cit.

45. Derecho Penal,vol. 2, pág. 8.

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Junho 2000

Tradução “Muitos poucos no Ocidente ainda acreditam nele (no livro), mas ainda tem ampla circulação graças a demagogos nas partes menos educadas do mundo Muçulmano, Ásia, Áfria e

Se os mantenedores da RocketBook

América Latina. (

Library vão praticar censura, aqui está um lugar para começar.” – O texto integral pode ser encontrado na Rocket-

Library.com

* * *

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)