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CDD: 521.3

A Força que Move os Planetas: Da Noção de Species Immate- riata na Astronomia de Johannes Kepler

ANASTASIA GUIDI ITOKAZU

Universidade Estadual de Campinas CAMPINAS, SP

anastasiaguidi@hotmail.com

Resumo: O heliocentrismo kepleriano estabelece uma relação de causalidade entre o Sol e os mo- vimentos dos planetas, mediada pela ação da força motriz solar. O conceito é formulado através de uma dupla analogia, com a luz e com o magnetismo. Discutimos aqui a explicação oferecida por Kepler para a geração e difusão da luz e da força motriz solares, procurando esclarecer o significado atribuído pelo astrônomo ao termo latino species, por ele empregado para designar emanações ima- teriais como a luz, a força motriz e o magnetismo, pelas quais os corpos afetam suas vizinhanças.

Palavras-chave: História da ciência. Kepler. Óptica. Astronomia. Física celeste. Ciência seiscentista.

A física celeste de Johannes Kepler (1571-1630) é fundamentalmente he- liocêntrica; nela todos os movimentos planetários, inclusive o da Terra, são expli- cados a partir da centralidade do Sol. 1 O Sol age sobre os planetas através de uma força (vis) ou potência (virtus). Pretendemos discutir a natureza da força solar a

1 Kepler publicou vários tratados astronômicos, dentre os quais destacam-se o Mistério Cosmográfico (Mysterium Cosmographicum, 1596), a Astronomia Nova (Astronomia Nova, 1609) e a Harmonia do Mundo (Harmonice Mundi, 1619). Estes trabalhos representam etapas decisivas no desenvolvimento da astronomia kepleriana, e embora apresentem diferenças metodo- lógicas marcantes, fazem parte de um mesmo programa, a fundação de uma astronomia heliocêntrica baseada em causas. Kepler ainda apresentaria sua nova astronomia no pri- meiro livro-texto a adotar o copernicanismo como sistema de mundo, a Súmula de Astro- nomia Copernicana (Epitome Astronomiae Copernicanae), publicada entre os anos de 1618 e 1621. Os originais em latim dos textos de Kepler, editados por Max Caspar, serão citados pelo título em português: Astronomia Nova, Mistério Cosmográfico, etc. As traduções serão referidas pelo nome de KEPLER seguido do ano de publicação. Quanto à Defesa de Tycho contra Ursus, empregamos a tradução e a edição do texto latino publicados por Nicholas Jardine em JARDINE, 1988.

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fim de obtermos uma explicação razoável, do ponto de vista da ciência kepleria- na, para o problema da discrepância entre as atenuações da luz e da força motriz. De acordo com a obra de Kepler, a atenuação das duas species imateriais emanadas do Sol se dá de maneira distinta: enquanto a luz é atenuada com o quadrado da distância ao Sol, a intensidade da força motriz decresce linearmente com a distância. A diferença entre as duas atenuações constitui o tema do trigé- simo sexto capítulo da Astronomia Nova, intitulado “Em que medida a potência motriz originada no Sol é atenuada na extensão do mundo.” 2 O capítulo discute a emissão da species da força a partir do Sol e a sua distribuição no espaço interpla- netário, e fornece uma solução para a aparente contradição. O problema é impor- tante, como salienta Bruce Stephenson, um dos mais eminentes estudiosos da astronomia kepleriana, “não pela oposição anacrônica entre a força solar de Ke- pler e a gravitação de Newton, mas por causa da analogia, estabelecida pelo pró- prio Kepler, entre a luz e a força motriz.” 3

1. A força motriz solar

Em 1596 Kepler publica sua primeira obra astronômica, o Mistério cosmográ- fico. O universo ali descrito é esférico, tem o seu centro ocupado pelo Sol e é limitado pela esfera das estrelas fixas. No espaço intermediário movem-se os seis planetas conhecidos à época, cujos períodos de translação são na mostrados em tabela 4 , que reproduzimos abaixo. A diagonal da tabela traz os períodos dos pla- netas, igual a 10759,12 dias (terrestres) para Saturno, 4332,37 dias para Júpiter, 686,59 dias para Marte, etc. Os números situados abaixo do período de cada

  • 2 QVA MENSVRA VIRTVS EX SOLE MOTRIX, PER MVNDI AMPLITV- DINEM ATTENVETVR Astronomia Nova, p. 248, KEPLER, 1992-b, p. 394.

  • 3 STEPHENSON, B. 1987, p. 74. Kepler, com efeito, abre o capítulo 36 da Astrono- mia Nova com uma afirmação da importância da analogia e da gravidade do problema da diferença na atenuação das duas species, que lhe teria atormentado durante muito tempo. Cf. Astronomia nova, p. 248; KEPLER, 1992-b, p. 394.

  • 4 Mistério Cosmográfico, p. 69; KEPLER, 1992-a, p. 192. De acordo com Kepler, os da- dos foram extraídos do De Revolutionibus, de Copérnico.

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planeta representam os períodos que os planetas interiores a ele teriam caso des- crevessem seus percursos em torno do Sol com velocidade igual à do planeta em questão. Assim, 6159 dias seria o período de Júpiter caso ele fosse tão lento quan- to Saturno, 1785 seria o período de Marte com a mesma velocidade, etc. A tabela construída dessa maneira mostra que o aumento nos períodos dos planetas com o aumento da distância ao Sol não resulta apenas do aumento nos raios de suas órbitas, mas também de uma correspondente diminuição nas veloci- dades. Os planetas mais externos descrevem seus percursos anuais com velocidade inferior àquela dos planetas mais internos, e a diminuição da velocidade translacio- nal média dos planetas com o aumento da distância ao Sol é linear. 5 Essa tabela indica a Kepler uma idéia que ele jamais abandonaria, e que vi- ria a se tornar o núcleo de sua astronomia física: a diminuição nas velocidades dos planetas com o aumento da distância ao Sol resulta do mecanismo físico respon- sável por esses movimentos. De acordo com o Mistério, os movimentos planetá- rios em torno do Sol são causados por uma alma ou potência motriz (motricem animam, motrice virtute) situada no centro do sistema, o corpo solar. A alma motriz é responsável pela variação de posição dos planetas, isto é por suas velocidades. Para que a diminuição linear das velocidades translacionais dos planetas com o aumento da distância ao Sol seja explicada, a alma ou potência motriz deve se atenuar de maneira igualmente linear com a distância ao centro do mundo. 6

Períodos dos planetas (dias)

 

Saturno

Júpiter

Marte

Terra

Vênus

Mercúrio

Saturno

10759 12

Júpiter

6159

4332 37

Marte

1785

1282

686 59

Terra

1174

843

452

365 15

Vênus

844

606

325

262 30

224 42

Mercúrio

434

312

167

135

115

87 58

  • 5 Mistério Cosmográfico, p. 69; KEPLER, 1992-a, p. 192.

  • 6 Cf. Mistério Cosmográfico, p. 71; KEPLER, 1992-a, p. 194.

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Na Astronomia Nova 7 , publicada em 1609, a idéia de alma motriz é substi- tuída pelo conceito mais detalhado de força motriz solar 8 , em grande medida formulado a partir do exemplo fornecido por outras species imateriais. A propaga- ção da força motriz, bem como a sua ação sobre os corpos dos planetas, são avaliados segundo o exemplo da luz. Kepler observa que a força solar não pode no entanto ser identificada com a luz, ou os planetas se moveriam mais lentamen- te quando parte dessa luz fosse obstruída por outro corpo celeste (como ocorre por ocasião dos eclipses), o que não é observado. 9 Já o magnetismo demonstra a possibilidade de que o movimento de um corpo seja causado por um outro corpo espacialmente distante, e visto que fora recentemente demonstrada a natureza magnética da Terra, Kepler considera plausível considerar que a força solar seja magnética ou quase-magnética. 10 O magnetismo terrestre é apontado como a causa do movimento mensal da Lua em torno do nosso planeta, o que sugere a Kepler que a natureza da força motriz solar também seja magnética. O movimento mensal da Lua em torno da Terra é explicado na Astronomia Nova através do magnetismo terrestre, species ima- terial capaz de transmitir à Lua o movimento de rotação diária do planeta em torno de seu próprio eixo. De maneira similar, a força motriz solar age transmi- tindo aos planetas o movimento de rotação do Sol em torno de seu próprio

  • 7 A Astronomia nova é considerada o mais influente dos trabalhos astronômicos de Ke- pler. Cf. RUSSEL, 1964, p. 1-24. A descoberta das duas primeiras leis dos movimentos planetários é apresentada no livro como o resultado de um método de pesquisa onde a hipótese física da força solar funciona como critério de seleção entre modelos geométri- cos equivalentes do ponto de vista da representação dos movimentos aparentes.

  • 8 O conceito de força motriz solar é apresentado nos capítulos 33-38 da Astronomia no- va: Astronomia nova, p. 236 - 256; KEPLER, 1992-b, p. 376-406.

  • 9 Cf. Astronomia nova, p. 240; KEPLER, 1992-b, p. 380. 10 Tanto no Suplemento a Vitelo quanto na Astronomia Nova Kepler faz menção à desco- berta do magnetismo terrestre, anunciada em 1600 por William Gilbert no seu De Magnete. Cf. Astronomia Nova, p. 246; KEPLER, 1992-b, p. 390-391; Suplemento a Vitelo, p. 198; KEPLER, 2000, p. 237.

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eixo. 11 A força motriz percorre, necessariamente, o mesmo caminho que os pla- netas, analogamente ao que se observa em catapultas e outros movimentos vio- lentos. 12 A species immateriata possui um movimento circular em torno do Sol, e esse movimento é transmitido aos planetas:

Assim a species é transportada em um círculo, de modo que este movimento cause os movimentos dos planetas; o corpo do Sol, ou a fonte, deve necessariamente se mover ao mesmo tempo, não certamente de uma posição para outra no mundo – visto que eu disse depositar, com Copérnico, o corpo do Sol no centro do mundo – mas sobre o seu centro ou eixo, ambos imóveis, suas partes passando de um lugar a outro ainda que o corpo [tomado como um] todo permaneça no mesmo lugar. 13

O movimento rotacional transmitido à força motriz tem velocidade finita, pois resulta da rotação do Sol, um corpo material. Essa velocidade de rotação da força motriz é a mesma em todo o espaço interplanetário; as diferentes velocida- des dos planetas são explicadas pela densidade da força solar na região corres- pondente, e não por uma variação na sua velocidade de rotação. Como todos os planetas são corpos materiais e portanto têm uma tendência natural ao repouso 14 , aqueles situados mais externamente, onde a força motriz é mais rarefeita, ofere-

  • 11 O movimento impresso pelo Sol nos planetas é circular. A forma elíptica das órbitas é explicada na quarta parte da Astronomia nova pela interação da força solar com o magne- tismo de cada planeta, que produz uma variação contínua na distância entre os dois astros e, composta com o movimento circular, resulta na órbita elíptica.

  • 12 Esse tipo de analogia entre sistemas mecânicos como balanças e alavancas e os mo- vimentos astronômicos é típico da física celeste kepleriana. Cf. TOSSATO, 2003, p. 48-49.

    • 13 Specie ergo mota in gyrum, ut eo motu motum Planetis inferat, corpus Solis, seu fontem, una moveri

necesse est; non quidem de spacio in spacium mundi: dixi enim me id corpus Solis cum COPERNICO in centro mundi relinquere: sed super suo centro, seu axe, immobilibus; partibus ejus de loco in locum (in eodem tamen spacio, toto corpore manente) transeuntibus. Astronomia Nova, p. 243; KEPLER, 1992-b, p. 386. O movimento rotacional do Sol seria observado por Galileu poucos anos mais tarde através das manchas solares, confirmando a previsão de Kepler. O autor da Astronomia Nova responde entusiasticamente às observações telescópicas na sua Dissertatio cum Nuncio Sidereo, a Dissertação com o Mensageiro das Estrelas, publicada em 1610.

  • 14 Cf. Astronomia Nova, p. 245; KEPLER, 1992-b, p. 384.

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cem mais resistência ao movimento, o que implica em períodos mais longos. O período de rotação do Sol é estimado por Kepler em cerca de três dias, através de uma comparação entre os movimentos da Lua e de Mercúrio e suas distâncias respectivas à Terra e ao Sol. 15

2. O problema da atenuação da força motriz solar

À época da redação do Mistério cosmográfico, Kepler ainda não havia desco- berto a lei de atenuação da luz com o quadrado da distância. A atenuação linear da alma ou potência motriz, indicada pelos períodos dos planetas, havia sido então justificada através de uma analogia com a luz, cuja intensidade Kepler então acreditava diminuir linearmente com a distância até a fonte. 16 Em 1602, como atesta carta datada de 1 o de outubro ao astrônomo frísio David Fabricius 17 , Kepler já havia descoberto a lei de atenuação da luz com o quadrado da distância à fonte. No Suplemento a Vitelo 18 , publicado em 1604, Ke- pler define a luz como uma superfície esférica em expansão sem sofrer perdas, e deriva a sua intensidade a uma distância ‘r’ da fonte a partir da área da superfície esférica correspondente, dada por 4 π r 2 . 19 No entanto, uma força que se atenu- asse com o quadrado ou com o cubo da distância ao Sol causaria velocidades planetárias diferentes daquelas que são observadas. No Mistério a atenuação linear da alma motriz solar havia sido deduzida dos períodos dos planetas, e na Astrono-

  • 15 Cf. Astronomia Nova, p. 241-242; KEPLER, 1992-b, p. 389.

  • 16 Cf. Mistério Cosmográfico, p. 71; KEPLER, 1992-a, p. 194.

  • 17 David Fabricius (1564-1617) foi o principal correspondente de Kepler entre 1602 e 1609, período que compreende os anos de composição da Astronomia nova. Foi numa carta a Fabricius que Kepler afirmou pela primeira vez que a órbita de Marte era elíptica. (carta 358, K.G.W. XV, p. 240-280)

  • 18 Ad Vitellionem paralipomena, quibus astronomiae pars optica traditur. O Suplemento inaugura a teoria moderna da visão, e é considerado um dos textos mais importantes da óptica do século XVII.

    • 19 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 22; KEPLER, 1980, p. 112.

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mia Nova ela é confirmada pela variação observada na velocidade de um planeta em sua órbita conforme ele se aproxima ou se afasta do Sol. 20 A natureza da luz é o tema do primeiro capítulo do Suplemento a Vitelo. De acordo com a cosmogonia ali apresentada, quando Deus, em uma ação voluntá- ria, escolheu criar o mundo, ele decidiu fazê-lo da maneira mais perfeita possível, concedendo-lhe uma forma esférica, igual à sua própria. Assim a criação do mun- do se deu pela emanação do ponto central em infinitas direções, dando origem a um cosmos esférico finito e heliocêntrico, limitado pela esfera das estrelas fixas. Os corpos naturais, Kepler nos diz, são limitados por suas superfícies, mas imi- tam o movimento de criação do mundo pela multiplicação de diferentes potên- cias (virtutibus) lançadas esfericamente ao seu redor, tais como a luz e o magnetis- mo. A luz é, portanto, uma dentre as várias emanações pelas quais os corpos afetam suas vizinhanças. Essas emanações podem ser materiais, como os odores, ou imateriais:

Por conseguinte os próprios corpos, embora sejam por si mesmos contidos pelos limites de suas superfícies, e não possam multiplicar-se a si mesmos em uma esfera, são dotados de potências diversas, certamente abrigadas neles mas um pouco mais livres, desprovidas de matéria corpórea mas constituídas de uma certa matéria própria que admite as dimensões geométricas, e que emanam dos corpos e afetam suas vizinhanças, como aparece claramente sobretudo no caso do Magneto, mas também em diversos outros. 21

  • 20 A investigação da variação de velocidade dos planetas em suas órbitas excêntricas constitui um dos temas mais importantes da Astronomia Nova, e tem como resultado a lei das áreas, de acordo com a qual a linha que liga um determinado planeta ao Sol varre áreas iguais em tempos iguais. A lei, que Kepler finalmente descobre ser exata, é introduzida como uma aproximação da chamada lei das distâncias, que estabelece que a velocidade de um planeta em um determinado trecho de sua órbita é proporcional a sua distância ao Sol nesse trecho. Cf. Astronomia Nova, p. 233-234, 248; KEPLER, 1992-b, p. 373, 394.

  • 21 Propterea corpora ipsa, cum per sese suarum superficierum finibus continerentur, nec sese ipsa mul- tiplicare possent in orbem; variis sunt praedita virtutibus, quae nidulantes quidem in corporibus, seipsis verò paulò liberiores, et materiâ carentes corporeâ, sed suâ quadam constantes materiâ, quae dimensiones suscipit Geometricas, egrederentur, orbemque adfectarent: vt praecipuè in Magnete, sed et in multis aliis clarè apparet. Suplemento a Vitelo, p. 19; KEPLER, 1980, p. 107-108.

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Kepler define a luz como uma superfície esférica, que flui (effluxus) ou é lançada (eiaculatio) a partir de cada ponto da superfície da fonte luminosa em infi- nitas as direções. 22 Isso significa que Kepler entende a luz como algum tipo de emissão esférica, continuamente lançada do Sol. Os raios luminosos nada mais são além do movimento da luz, que é, ela própria, uma superfície. 23 Cada super- fície luminosa é imediatamente precedida e seguida por superfícies semelhantes, que também se afastam do Sol com velocidade infinita. A luz é imaterial, e a sua imaterialidade tem conseqüências diretas sobre a maneira como ela se propaga. Em primeiro lugar, a luz se propaga com velocidade infinita, pois ela não tem peso nem sofre nenhuma resistência do meio. 24 Além disso, como ela se propaga sem sofrer resistência, a luz é apta a se propagar infinitamente ou, como diríamos hoje, ela não é em nenhuma medida absorvida pelo meio. 25 Kepler esclarece que a atenuação da luz se dá in latum, conforme os raios luminosos se afastam mutu- amente uns dos outros, mas não in longum, o que significa que os raios não são, eles mesmos, atenuados ou enfraquecidos. Por outro lado, embora a luz seja uma entidade imaterial, ela participa do gênero da quantidade, e é provida de estrutura geométrica. Criada por Deus para reproduzir eternamente o movimento de cria- ção do mundo esférico, a gênese da esfera a partir do ponto central, a luz é conti- nuamente lançada a partir do Sol em direção à esfera da estrelas fixas com veloci- dade infinita. Na Astronomia Nova, a força ou potência motriz é definida por Kepler co- mo uma species immateriata, o que garante que, a exemplo da luz, ela não sofrerá nenhum tipo de enfraquecimento em sua propagação, que pode assim ser descrita em termos puramente geométricos: “A emissão portanto é imaterial como a luz, e não como os odores que são acompanhados de uma diminuição da substância, nem como o calor de uma fornalha em chamas, ou como qualquer coisa similar

  • 22 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 20, KEPLER, 1980, p. 108.

  • 23 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 21; KEPLER, 1980, p. 111.

  • 24 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 21; KEPLER, 1980, p. 110.

  • 25 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 20; KEPLER, 1980, p. 109.

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que preencha os meios [onde venha a se propagar].” 26 Se a força motriz não sofre perdas ao se propagar, e se como a luz ela tem a estrutura geométrica de uma superfície esférica, seria de se esperar que a sua atenuação se desse com o quadra- do da distância até a fonte. À época do Mistério, a idéia de explicar os movimentos planetários através de uma força central, lançada do Sol junto com a luz havia sido sugerida a Kepler por um fato experimental, as velocidades translacionais médias dos planetas tabu- ladas por Copérnico, que são maiores para os planetas mais distantes do Sol. Uma força que se atenuasse de maneira diferente da linear simplesmente deixaria de explicar a tabela. Ela também não explicaria as variações de velocidade observa- das ao longo do percurso de um planeta, tradicionalmente expressas pelo ponto equante da astronomia ptolomaica, e explicada por Kepler pela diferença na ação da força solar sobre o planeta conforme ele se afasta ou se aproxima do Sol em sua órbita excêntrica. A analogia direta com a luz sugere uma atenuação quadrática para a força motriz, mas esta é descartada porque entra em conflito com as observações, que indicam uma atenuação linear. A interpretação tradicional da diferença entre as atenuações da luz e da força motriz propõe que, diferentemente do que acontece com a luz, a força motriz kepleriana não se expande como uma superfície esférica em torno do corpo solar mas como um disco, que se propaga somente no plano da eclíptica, e sobre o qual se movem todos os planetas. Esse plano de força esta- ria situado sobre o equador solar, o que explicaria a atenuação com o inverso da distância, corroborada pelas observações. 27 Esse tipo de leitura é sugerido por uma passagem freqüentemente citada da Astronomia Nova, onde se lê:

  • 26 Effluxus igitur, quemadmodum et lucis, immateriatus est; non qualis odorum cum diminutione

substantiae, non qualis caloris ab aestuante fornace, et si quid est simile, quibus media implentur. Astro- nomia nova, p. 240; KEPLER, 1992-b, p. 381.

  • 27 Westman, Aiton e Gingerich, por exemplo, são dessa opinião. Cf. WESTMAN, 1975, p. 716; AITON, 1969, p. 78; GINGERICH, 1993, p. 316.

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Por outro lado a luz escoa esfericamente por linhas retas enquanto a potência mo- triz, embora escoe por linhas retas, o faz circularmente; isto é, ela só faz esforço em uma região do mundo, do poente para o nascente, e não o oposto, nem em direção aos pólos, etc. 28

A primeira parte dessa passagem pode de fato levar à conclusão de que a força motriz solar se difunde somente no círculo que corresponde ao plano da eclíptica. Essa interpretação é motivada pela explicação direta por ela fornecida para a diferença nos modos de atenuação da luz e da força motriz, a partir da própria estrutura geométrica de cada propagação imaterial. Além disso, se a força solar só existe no plano da eclíptica, o fato observacional de que todas as órbitas planetárias se situam aproximadamente sobre este plano é automaticamente ex- plicado. No entanto, essa leitura possui a desvantagem de enfraquecer a fundamen- tação metafísica da astronomia física de Kepler. Toda a análise das propagações imateriais encontrada no primeiro capítulo do Suplemento a Vitelo depende da for- ma esférica dessas propagações e de sua coincidência com a forma esférica do mundo. E quando Kepler, na Astronomia Nova, invoca a semelhança entre a luz e a força motriz, ele o faz porque a luz constitui um paradigma, previamente estu- dado, em analogia com o qual ele pode compreender a natureza da força que move os planetas. Bruce Stephenson 29 foi perspicaz ao perceber que essa solução de fato não é admissível. É certo que a atenuação da força motriz se dá linearmente com o inverso da distância, mas isso não pode significar que ela só se espalhe no círculo situado sobre o equador solar. Ele cita uma passagem do capítulo 36 da Astrono- mia Nova, dedicado à atenuação da força motriz. Kepler escreve claramente que força solar não se confina à eclíptica:

  • 28 Rursum lux rectis effluit orbiculariter, virtus movens rectis quidem sed circulariter; hoc est in unam

tantum plagam mundi ab occasu in ortum nititur, non contra, non ad polos etc. Astronomia nova, p. 240; KEPLER, 1992-b, p. 380-381. Donahue cometeu um pequeno deslize, e em sua tradução aparece ‘de leste para oeste’. Seguimos a opção de Cathérine Chevalley e tradu- zimos effluo pelo verbo escoar (écouler). Cf. CHEVALLEY, In: KEPLER, 1980, p. 78.

  • 29 STEPHENSON, 1987, p. 68-75.

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Pois ainda que os filamentos magnéticos do corpo solar sejam ordenados conforme o comprimento do zodíaco, e embora apenas o singular círculo máximo do corpo do Sol se situe sob o zodíaco ou a eclíptica, e aproximadamente sob a órbita do planeta, e, finalmente, mesmo que os outros círculos menores (diminuídos até a pequenez de um ponto sobre os pólos) sejam arranjados sob seus círculos corres- pondentes na esfera [que contém a órbita] do planeta, ainda assim os raios escoam a partir de todos os filamentos do corpo solar (que se encontram em um hemisfério do corpo solar) e convergem não apenas em todos os pontos do caminho de algum planeta, mas nos próprios pólos sobre os pólos do corpo do Sol. E o corpo do pla- neta é arrastado proporcionalmente à densidade dessa species inteira, composta a partir de todos os filamentos. 30

Essa passagem mostra indubitavelmente que a força motriz se espalha por todo o espaço esférico em torno do Sol. Kepler considera que a força solar seja de natureza magnética, e que existam no Sol filamentos paralelos ao equador solar. A força se distribui por toda a região esférica onde se movem os planetas, inclusive sobre os pólos do Sol, e a sua ação sobre um planeta qualquer é deter- minada pela soma de todos os filamentos voltados para ele 31 , conforme a Figura 1 abaixo. Porém, se a distribuição espacial da força motriz é esférica, resta explicar porque a sua intensidade decresce linearmente com a distância. Stephenson expli- ca a atenuação linear da força motriz optando por traduzir o termo latino species empregado por Kepler no sentido clássico, como imagem ou aparência. 32 A pas- sagem (citada anteriormente) que indicaria a forma plana da propagação da força

  • 30 Nam etsi filamenta corporis Solaris magnetica ordinantur secundum longitudinem zodiaci: etsi eti- am unicus tantummodo circulus maximus corporis Solis subest zodiaco sive eclipticae, et quam proxime orbitae Planetae: denique etsi alteri circelli minores (tandem sub polis in puncti angustiam attenuati) subor- dinantur respondentibus suis circulis in sphaera Planetae: tamen ab omnibus Solaris corporis filamentis (ab uno hemisphaerio corporis stantibus) radii defluunt et confluunt tam ad puncta singula itineris alicujus Plane- tae, quam ad ipsos polos polis corporis Solis imminentes; et Planetae corpus vehitur ad modulum densitatis, hujus integrae speciei, ex filamentis omnibus compositae. Astronomia Nova, p. 251; KEPLER, 1992-b, p. 398. A passagem é reproduzida em STEPHENSON, 1987, p. 72-73.

    • 31 Cf. Astronomia Nova, p. 251-252; KEPLER, 1992-b, p. 398-399.

  • 32 Cf. STEPHENSON, 1987, p. 74. James Voelkel segue a interpretação de Stephen- son e traduz ‘species’ como ‘aparência’. Cf. VOELKEL, 2001, p. 180. Donahue opta por conservar o termo species em latim. Cf. KEPLER 1992-b, p. 23-24 e p. 382, n. 5.

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  • 222 Anastasia Guidi Itokazu

motriz, na qual se lê que a luz escoa esfericamente por linhas retas, enquanto a força motriz, embora escoe por linhas retas, o faz circularmente, recebe desse modo uma interpretação em termos da imagem do corpo solar em rotação.

222 Anastasia Guidi Itokazu motriz, na qual se lê que a luz escoa esfericamente por linhas

Figura 1: A força solar é emitida por todo o corpo do Sol, e preenche todo o espaço ao seu redor. (a) Um planeta situado sobre o equador solar se move com a maior velocidade possível, visto que nessa região a contribuição de todos os filamentos tem o mesmo sentido. Conforme o planeta hipoteticamente se afastasse da região; (b) a presença de uma porção cada vez maior da species giran- do em sentido contrário implicaria em uma diminuição na sua velocidade, até que sobre os pólos; (c) as contribuições se tornariam iguais e a velocidade do planeta se anularia. Apud. STEPHEN- SON, 1987, p. 73.

Se a força solar é uma imagem (image) do Sol em rotação, Stephenson con- clui que o advérbio “circularmente” diz respeito à imagem das fibras circulares paralelas ao equador solar. O movimento dessa imagem perderia eficácia linear- mente, conforme o círculo aumentasse, o que explica as velocidades planetárias observadas. 33 Visto a partir da eclíptica, que na construção de Kepler está situada acima do equador solar, o Sol exibe todos os seus filamentos em rotação conjunta numa mesma direção. As rotações dos filamentos se somam, e o resultado líquido é um movimento de rotação no mesmo sentido que o movimento do Sol, isto é, um movimento circular em longitude.

33 Cf. STEPHENSON, 1987, p. 74, 75. A explicação de Stephenson nos parece algo nebulosa neste ponto específico.

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A interpretação de Stephenson tem a vantagem de associar a forma linear da atenuação da força motriz ao movimento circular do Sol. Porém, a tradução de species como “imagem” nos parece inadequada por uma série de motivos. Em primeiro lugar, como o próprio Stephenson admite, ela impõe algum tipo de percepção da imagem ou aparência do Sol por parte do planeta, fator que Kepler certamente não pretendia associar de maneira necessária a sua interpretação física do heliocentrismo. Ademais, a tradução entra em conflito com as palavras do próprio Kepler. A discussão sobre a discrepância entre as duas atenuações, no trigésimo sexto capítulo da Astronomia Nova, é introduzida pela refutação de uma objeção, na qual é considerada como causa da atenuação da força solar a variação com a distância do disco aparente do Sol. Após uma interessante análise de como se dá essa variação, o autor conclui:

Em segundo lugar, supõe-se que o aumento óptico do diâmetro ou do disco [do Sol] contribua para a força dos raios, embora este [aumento] seja apenas uma falácia da faculdade visual, e pertença ao gênero dos entes racionais, os quais não são do- tados de nenhuma potência. E esta [a expansão geométrica da esfera] é a única cau-

sa da atenuação, não a diminuição da fonte δε [o Sol], que na realidade não aconte- ce senão por uma ilusão visual. 34

A atenuação da força motriz, a causa eficiente dos movimentos celestes, não pode ser governada pela variação aparente do diâmetro do Sol porque uma tal variação não tem o estatuto ontológico adequado. Kepler nos parece eliminar aqui qualquer possibilidade de interpretação da força que move os planetas como uma imagem ou aparência do Sol. A tradução de species como “imagem” tem também a desvantagem de não abranger a associação feita pelos autores da escola de Oxford entre as species e as causalidades naturais, que nos parece importante em vista dos fatos de que a força solar kepleriana atua como causa eficiente dos movimentos planetários e de

34 Secundo fingitur amplificatio Optica diametri vel disci addere fortitudini radiorum, cum sit tantum

deceptio visoriae facultatis, et ex genere rationalium entium; quibus nulla est efficientia. (

...

)

Et haec sola

causa est debilitationis, non evanescentia fontis δε, quae revera non accidit sed per visus deceptionem.

Astronomia Nova, p. 250; KEPLER, 1992-b, p. 397.

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que Kepler demonstra, em seus escritos sobre a óptica, ter sofrido uma grande influência dos oxonianos. 35 Se no latim clássico o termo species é estreitamente relacionado à visão e pode significar vista, olhar, imagem, aspecto, forma ou apa- rência externa, entre outros sentidos, com Roberto Grosseteste (c. 1175 – 1253) e seus seguidores o campo semântico do termo se expande e ultrapassa o domínio da percepção. Grosseteste explica toda causalidade e todo movimento natural através de species que correspondem a potências (virtutem) que se propagam segun- do leis geométricas, através das quais um ser age sobre outro espacialmente dis- tante. O efeito da species depende da natureza do ser que a recebe; se este for um sujeito sensível, então neste caso a species produzirá uma sensação. 36 Rogério Ba- con (c. 1220 – 1292) define species no primeiro capítulo do seu tratado De multipli- catione specierum como “o primeiro efeito de qualquer agente”. 37 Finalmente, a tradução é claramente incompatível com a concepção keple- riana da natureza, emissão e propagação tanto da luz quanto da força solar. Os verbos effluo (fluir) e eiaculor (lançar) dificilmente poderiam caracterizar a emissão de uma imagem no sentido clássico, e o trecho citado acima, onde se lê que as potências emanadas dos corpos são “desprovidas de matéria corpórea mas cons- tituídas de uma certa matéria própria que admite as dimensões geométricas”, tornaria-se de difícil compreensão. A ciência kepleriana é profundamente marcada pela distinção entre as apa- rências e os mecanismos reais subjacentes por elas responsáveis. Isso é patente nas obras astronômicas com a adoção do heliocentrismo, mas também na óptica, uma vez que de acordo com a teoria kepleriana da visão abre-se um abismo entre a formação da imagem invertida na retina e a sua interpretação na mente do sujei-

  • 35 O título do Suplemento a Vitelo aponta para a influência dos autores de Oxford sobre o pensamento de Kepler. Vitelo (c. 1230–c. 1275) é o autor da Perspectiva, texto sobre óptica amplamente difundido na Europa até meados do século XVII, e fora profunda- mente influenciado por Grosseteste e Bacon. Cf. CROMBIE, 1971, p. 213-214.

    • 36 Cf. CROMBIE, 1971, p. 109-116.

  • 37 Essa discussão se encontra em CROMBIE, 1971, p. 104-116, 144-147, em NAS- CIMENTO, 1995, p. 96-104 e na introdução de Lindberg à tradução para o inglês do De Multiplicatione em LINDBERG, 1983, p. liii-lxxi.

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to. No Suplemento o olho é tratado como um mecanismo óptico onde, após ser refratada no humor aquoso e no cristalino, a luz forma uma imagem invertida sobre a superfície da retina. Na teoria Kepler distingue claramente a luz, entendi- da como uma propagação matematizada, da imagem formada na retina, que será posteriormente transmitida à sede das sensações na alma do sujeito. A imagem (idolum) 38 , pintura (pictura) 39 , simulacro (simulachrorum) 40 ou aparência (figura) 41 é formada na retina por um processo análogo ao funcionamento da câmera escura, instrumento amplamente empregado no século XVI para a observação de eclip- ses solares. A imagem invertida formada na retina é transmitida até a sede das sensações por um processo que já não é óptico e de cuja natureza Kepler não trata, mas no qual essa imagem é de alguma maneira reorientada de maneira a coin- cidir orientação real dos objetos vistos. 42 O termo species é preferido quando o que está em jogo é a propagação da luz ou sua passagem de um meio para outro (ou o trânsito da imagem formada na retina até a faculdade visual da alma, que já não é óptico mas em cuja descrição Kepler emprega a expressão). Em todo caso, na ópti- ca de Kepler a imagem percebida deixa de ser identificada com a luz que a provoca no sujeito, e a tradução de species como imagem dissolve essa importante distinção. Pela complicada interação entre a óptica e a astronomia de Kepler, consi- deramos mais seguro conservar o termo species em latim, pois não parece haver tradução livre de problemas, como já havia concluído Donahue na sua tradução da Astronomia Nova. 43

  • 38 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 151; KEPLER, 1980, p. 317.

  • 39 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 151, 153; KEPLER, 1980, p. 317, 319.

  • 40 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 186; KEPLER, 1980, p. 371.

  • 41 Cf. Suplemento a Vitelo, p. 157; KEPLER, 1980.

  • 42 O problema deixado em aberto pela nova teoria da visão, que implica em uma des- continuidade entre as imagens tal como as percebemos e os objetos tomados em si mes- mos seriam explorados por filósofos posteriores a Kepler, especialmente por Descartes nas Meditações Metafísicas e no Discurso do Método. Cf. CROMBIE, 1994, p. 1125-1135; HAMOU, 2002.

  • 43 Cf. KEPLER, 1992-b, p. 23. Donahue também rejeita a tradução de species como emanação ou como forma.

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3. Da natureza da força solar

Se a força solar não deve ser entendida como uma imagem do Sol em ro- tação mas como uma propagação ou emissão esférica, resta explicar a discrepân- cia entre sua atenuação linear e sua distribuição esférica no espaço em torno do Sol. Acreditamos com Stephenson que a forma linear da atenuação da força seja explicada pelo movimento rotacional do Sol, e não pela forma plana de sua dis- tribuição espacial. Isso exige uma reinterpretação da passagem citada acima, onde Kepler compara a propagação das duas species:

Por outro lado a luz escoa esfericamente por linhas retas, enquanto a força motriz, embora escoe por linhas retas, o faz circularmente; isto é, ela só faz esforço em uma região do mundo, de oeste para leste, e não o oposto, nem em direção aos pólos, etc. 44

Apesar da forma semelhante das palavras, o termo ‘circularmente’ nessa passagem não se opõe a ‘esfericamente’ como forma da propagação espacial da força solar, mas refere-se ao esforço (nititur) exercido por essa força, como escla- rece a segunda oração introduzida por hoc est. Vimos que o movimento dos plane- tas é em última instância causado pelo movimento rotacional do Sol, a eles transmitido pela species immateriata da força solar, que também ela tem uma movi- mento rotacional. Mais adiante Kepler irá comparar a força solar a uma rápida torrente (rapidus quidam torrens) 45 ou à correnteza de um rio (torrente fluminis) 46 , que transmite aos planetas a rotação do Sol em torno do seu próprio eixo. A analogia com a correnteza de um rio, ainda que prejudicada pela imaterialidade da força,

  • 44 Rursum lux rectis effluit orbiculariter, virtus movens rectis quidem sed circulariter; hoc est in unam tantum plagam mundi ab occasu in ortum nititur, non contra, non ad polos etc. Astronomia Nova, p. 240; KEPLER, 1992-b, p. 380-381. Donahue cometeu um pequeno deslize, e em sua tradução aparece ‘de leste para oeste’.

    • 45 Cf. Astronomia Nova, p. 255; KEPLER, 1992-b, p. 405.

  • 46 Cf. Astronomia Nova, p. 261; KEPLER, 1992-b, p. 413. No capítulo 57, onde Kepler desenvolve uma explicação física para a recém-descoberta forma elíptica da órbita de Marte, ele compara a força solar à correnteza de um rio circular (flumen circulare). Cf. Astro- nomia Nova, p. 349; KEPLER, 1992-b, p. 549.

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mostra que Kepler entende a sua ação sobre os planetas como a transmissão de um movimento. A species immateriata da força solar é emitida esfericamente e ocupa todo o espaço esférico em torno do Sol, mas a sua atenuação é geometricamente deter- minada pelo movimento circular que ela compartilha com o Sol e transmite aos planetas. Se a ação da força sobre cada planeta corresponde a um movimento circular que lhe é transmitido, a sua intensidade depende somente do raio do círculo que o planeta deve percorrer, e portanto decresce linearmente com o aumento da distância ao Sol. A atenuação linear da força é explicada pela rotação circular do Sol, em termos do mecanismo que governa a sua ação sobre os planetas. Porém, não há no capítulo 36 uma demonstração geométrica de que as emissões esféricas gera- das por cada filamento do Sol em rotação se combinam de maneira a exibir a atenuação linear mostrada pela experiência. 47 A obscuridade do capítulo certa- mente decorre do fato de que a definição geométrica da força como uma esfera em expansão entra em conflito com a atenuação linear indicada pelas observa- ções, mas reflete também as dificuldades matemáticas enfrentadas pelo autor da Astronomia Nova, obra de grande importância para a história do cálculo diferencial graças ao tratamento dado pelo astrônomo a esse e a outros problemas que en- volvem variações contínuas, o mais notório dos quais é a descrição da variação de velocidade de um planeta durante o seu percurso em torno do Sol, expressa pela lei das áreas. Em todo caso, podemos afirmar que Kepler entende sua força motriz so- lar como uma sorte de propagação ou emissão imaterial e esférica, uma species lançada do Sol de maneira a preencher todo o espaço interplanetário. O efeito da força sobre cada planeta depende da ação conjugada da species emitida por todos os filamentos do Sol. Essa species não é uma imagem ou aparência do Sol que deva ser de alguma maneira percebida pelos planetas, mas uma potência “que não pertence ao gênero dos entes racionais”. Como a correnteza de um rio, a força

47 Cf. Astronomia Nova, p. 250-251; KEPLER, 1992-b, p. 397-398.

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motriz age sobre os planetas transmitindo-lhes o movimento circular do Sol, e é esse movimento circular que entra em jogo quando da determinação da forma linear de sua atenuação. Vale lembrar que estamos tratando aqui da explicação fornecida por Ke- pler para uma atenuação cuja forma ele já conhece de antemão, a partir das velo- cidades planetárias observadas. As observações dos movimentos dos astros cons- tituem o objeto das investigações do astrônomo, e toda teoria, como esta que explica os movimentos planetários através da força solar, é construída em vista das observações e por elas moldada. Porém, o autor da Astronomia Nova não se satisfaz com uma força cujas propriedades são determinadas unicamente pelas observações. A analogia com a luz é importante para justificar a adoção de uma força que não pode ser observada diretamente 48 , e a discussão previamente apre- sentada no Suplemento a Vitelo sobre a natureza da luz e sua estrutura esférica deve ser compatível com o conceito de força solar. A explicação da ação força sobre os planetas em termos da transmissão do movimento circular de rotação do Sol abre espaço para a formulação de uma explicação geométrica para a forma linear dessa atenuação, ainda que esta seja apenas esboçada na Astronomia Nova.

Abstract: Keplerian heliocentrism establishes a causal relation connecting the sun and the planets. The planetary motions are thus explained by means of a solar force, conceived by Kepler through a double analogy with light and magnetism. In the present article we discuss the explanations offered by Kepler for the generation and diffusion of solar light and the solar motive force, attempting to elu- cidate the meaning attributed by the astronomer to the latin term species, employed by him to des- ignate light, the motive force and magnetism, immaterial emmanations by means of which bodies may affect their surroundings.

48 Kepler observa que a luz não pode ser observada diretamente, mas apenas através dos corpos que ilumina. A força motriz, da mesma maneira, só pode ser observada atra- vés dos movimentos planetários por ela causados. Cf. Astronomia Nova, p. 240; KEPLER, 1992-b, p 382.

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