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SUIETOE HISTORIA Joel Birman Diretor de cles oe Birman ‘Acoso Sujio « Hiss river interdisciplina. As obras nla {ncludasetabelecem um dlog vivo ene apical eos demas llncas humana, buscando compreendr o sje ass ss menses Istria, polities esocial ‘Tieulos jf publiad Mabestar a atuaidade, Joe Birman Metamorfoses ome o sxval eo soca, Catlos Augusto Peixoto Junior O pracoreomai, Giulia Ssa O corpo dodiabo ene aera calernb, Silvia Alexis Nunes Hpiettlag Gramaticas do Préximo titulo: Frodo ae, uh ar erotismo {A feminilidade e as suas formas de subjetivagao em psicandlise eu (FRO MUASILENEA io de Jano 2001 discurso frendiano. Entre um passo a frente e dois atris, para parafrasear um famoso titulo de Lénin sobre a derrotada Revo- ugio Russa de 1905, seré este, enfim, o meu percurso critico sobre 0 feminino em psicanslise. casiru.o Do sexo tinico a diferenca sexual ‘A consituigao de um discurso sobre a diferenga sexual é um acontecimento bastante recente na histéria do Ocidente, nio ‘obstante a naturalizacio daquele discurso, Com efeito, apenas no final do século XVII no inicio do século XIX tera se for- jndo um discurso sistemético sobre esta diferenca, pois até en- tio os sexos eram concebidos de mancira hierdrquica, sendo sempre regulados pelo modelo masculino, Ese era figuredo de ‘maneira indiscutivel como o sexo perfito, Foi ese iltimo mo- delo que prevaleceu, como referencia e paradigma, na tradicio ‘ocidental desdea Antigtidade, Deslocamo-nos, portanto, dem pparadigma fandado no sexo dnico para outro no qual exisiriam dois sexos, distintos e bem diferenciados.* Passar a conceber os sexos como essencialmentediferencia- dos nfo era apenas um exercfcio brilhante de argicia teGrica © seummulagio de novas informagées biolbgicas sobre a natureza los sexos, mas, principalmente, outra forma de percepeio € representagio da diversidade sexual, que teve entio efeitos bas- pm, geneaton abd he pols rprodsie loge nt et The Ming of Moder Bay, Calas, Caria ‘ante salientes nas prétias sciais. Da mesma maneira, o antigo paradigma do sexo ‘nico, com a postulada hierarquia entre © masculino e o feminino, nlo se limitava apenas ao deleite con- templativo dos sibios, mas desdobrava-se também em conse ‘qBéncias eruciais para as priticas das relagBes socials entre os sexos, Jé que convivemos de maneira naturalizada com omode~ lo da diferenga sexual hd duzentos anos pelo menos e, assim, perdemos de vista sua relatividade historia, € preciso que se enuncie com clareza o que tudo isso significa, £ preciso entio desnaturalizar essa questio, inscrevendo-a decididamente na temporalidade histrica. |. ADIFERENGA SEXUAL A IGUALDADE DOS DIREITOS ‘Assim, 0 novo paradigma da diferenga sexual que se instituiu ento como um imperative teceu-se pela reflexio e pela pesqui- s, pela formulagio do postulado da existencia de uma diversi- dade radical de fundamentos sobre o ser do homem e o ser da mulher, Estes teriam, assim, essEncias diferentes, que seriam enti irredutiveis entre si, Nesse contexto, nfo existiria qual- quer possibilidade de reversibilidade entre os sexos, dado que suas esséncias seriam radicalmente diferentes. Isso quer dizer, pportanto, que ser homem e ser mulher passaram a ser ento con- cebidos como matrizes da natureza plenamente diferenciadas absolutamente inconfundiveis. Consticuiu-se aqui uma leitura naturalista da diversidade sexual, Com efeito, a natuteza diferenciada dos sexos foi con- cebida como algo de ordem estritamente biolégica. Seria. abio- logia, nos seus aspectos anatomico ¢ fisiolégico, que funciona: ria como divisor de éguas na natureza, diferenciando de ma- neira cortante o ser do macho e o ser da fémea, Dessesubstrato cessencial se consttuiria, entio, o fndamento destes. Portan- to, essas esséncias diferentes esbocariam os horizontes poss= veise diversificados para ainsereio do macho e da fémea nio apenas nas relagSes entre si, mas também nas suas insrigées no espago social. Seriam, entio, as esséncias naturaisdiferen- tes que delineariam as possbilidades ¢ as finalidades sociais diversas para os sexos. Enfim, o discurso da diferenca sexual cesbocaria uma ontologia dos diversos sexos, que se discrimi nariam definitivamente, isto 6 de forma incontornavel e ie versivel. Estaria justamente af a marca insofismavel da modernidade, Com efeito, 0 paradigma da diferenca sexual é fundante e correlato da modernidade no Ocidente. Isso porque, até o final do século XVIII, o modelo do sexo tnico dominava ainda 0 imagindrio sexual da nossa tradigio. Este modelo, constituido na Antigtidade, teve, no entanto, uma perenidade impressio- nante nesta tradigio. Nao obstante os ru(dos provocados pelo novo modelo da diferenga sexual — que jf apareciam, aqui e ali, desde o ntcio do século XVII — paradigma do sécul tinico ‘mostrou ainda, de maneira surpreendente, sua pregnancia até 0 final do século XVIII, quando a igualdade de direitos dos cida- «dios impos de modo irreversfvel, como decorréncia direta das cexigenciasforjadas pela Revoluio Francesa. De acordo com Laqueus, foi a igualdade dos direitos dos «idadios, propagada esustentada a0 longo do século XVII, que stbverteu definitivamente 0 modelo hier4rquico do sexo nico imperante no Ocidente desde a Antighidade." Seria, portanto, 1 impossibilidade de sustentar a hierarquia entre © homem € a mulher pelo paradigma do sexo Gnico, em fungio do discurso da igualdade dos cidados diante da lei, que teria solapado tal paradigma, construfdo no mundo greco-romano, ¢ criado as, condigbes concretas de possbilidade para a construgio de ou- tro modelo sexual. Com efeito, como seria possvel sustentar uma hierarquia entre o homem ea mulher diante do imperativo juridico da igual~ ios? Foi justamente este paradoxo que funcionou histérica de possibilidade para aconstituigio do discurso da diferenca sexual. De acordo com o moderno paradigma da diferenca, a insercio funcional dos diversos sexos ‘no espaco social se fundaria agora nas suas finalidades biol6gi- cas diversas. Porém, é fundamental sublinhar que a hierarquia entre os sexos nfo deixou absolutamente de existr, mas foi apenas deslocada e passou.ase fundar no registro biol6gico da natureza, (Com efeito, as diferentes insereSes sociais dos sexos passaram a ser legitimadas agora pelo determinismo natural dos corpos, que delineavam entio horizontes diversos e bem discriminados para fo macho e a fmea. De tudo iss0, pode-se depreender que os poderes hierarquizados entre os sexos ganharam agora novo contorno, fundando-se numa caugio biol6gica, sendo aqueles legitimados, enfim, pelo discurso da ciéncia, Paraque te possa compreender, adequadamente, a dimensio « oaleance da transformacio e as conseqiéncias dessa interpre ogame Tem. GrAMATICAS 90 ERotisWO ‘ago para uma leiara renovada do discurso freudiano sobre a diferenca sexual, & preciso que, antes de mais nada, se posta ‘enunciar esquematicamente a construgio dos modelos ac 1. Sexo Unico ‘© modelo do sexo tinico e da relagio hierérquica entre © ho- ‘mem e a mulher fi construfdo na Antighidade, como ji afir- mamos, Se Galeno foi o responsivel pela versio final deste paradigma,” foi Arist6teles, contudo, quem estabeleceu seus alicerces fundamentais. Com efeito, sem as reflexes deste so- lire a reproducio e a geragio, aiada & teoria grega dos quatro lementos e dos humores, tera sido impossivel a construsio talnica esta fadada a uma longa histéra, ‘Assim, partindo de sua teoria das quatro causas — material, formal, eficientee final —, Arist6teles concebeu ageragio como Uliversamente distibufda entre as figuras do homem e da mu- ther. Com efeito, ea mulher seria a sede eo vetor da causa ‘material da geracéo, caberia ao homem o poder da causa for- ‘mal. Sendo essas causas concebidas de maneira hierdrquica na ontologia atistotélica — isto 6 a causa formal sendo considera «da superior ea causa material, inferior —, a superioridade mas- culina estaria propriamenteinscrita em ato na prépria geragio dos seres, jf que sem a forma de nada valeria a matrz feminina rng sta materialidade bruta, Seria aquela, pois, que imprimiria tivamente seu trago sobre esta, produzindo entio uma (idem. hierarquia indelével entre o ser masculino ¢ 0 ser fe ato da geragio. [A figura do macho entio sera a responsivel pela transmis ‘so da humanidade propriamente dita, j que apenasaquele seria ‘o portador do principio divin. Isso porque a forma, enquanto cesstncia, seria o ato, sendo esta, pois, a perfeigio em que setrans- mite a marca do divino. Por isso mesmo, o macho seria, on- tologicamente falando, o principio motor e gerador, isto é 0 ‘inico ser que poderia engendrar um outro. Em contrapartida, a figura da fEmea, enquanto matéia,esperaria passivamente para ser engendrada, A figura do macho seria, pois, atividade e a da fémea, passividade. Enfim, o macho seria 0 artesto, que com a forma engendra 0 sex, enquanto a fémea ofereceria apenas a rmatétia sobre a qual o macho trabalharia a sua artesania divina.* Galeno trabalhou sobre esse terreno inicial forjado por ‘Arist6teles, complexificando-o bastante, contudo, pela introdu- ‘gio da teoria dos humores. Para aquele, com efeito, sera a pre tenga e a dominincia do humor quente no ato da geragio que produziria 0 exo masculino e sua auséncia, o feminino, Assim seria a dominfincia do quente enquanto tal que condensaria em siasvireudes do masculino, enquanto 0 feminino seria forjado pela sua auséncia ou pela sua subalternidade na circulagio geral dos humores. Portanto, a morfologia corporal seria decorrente da circulagio dos humores. ‘Com efeito, 0 equilibrio entre os humores configuraria @ sorfologia genital dos sexos. Porém, o humor quente seria além seo vr Aine, Del gdm et dele coeption Pi Bales Teen, 167 te La Mopper i 968, disso, o responsivel pela distibuigéo daquela morfologia tanto no corpo quanto no espaso.Is0 porque Galeno supunha exis- tir uma equivaléncia bem precisa entre cada um dos elementos presentes nos aparelhos genitas do homem e da mulher. Have- fia entéo uma homologia precisa entre as genitilias no macho © 1a fémea, Daf paradigma do sexo nico. Contudo, no obsante ‘a cquivaléncia ea homologia morfolégias, as formas se discri- rninariam minimamente e se insereveriam ainda de manciras ‘opostas no espago, de acordo com a presengvauséncia do hu- ‘mor quente nos corpos. ‘Com efeito, a morfologia assumida pela genitslia masculi- 1a, assim como sua projegio no espago exterior, seria devida as virmides do humor quent. Em conteapartda, as formas anaté- ‘micas da genitélia feminina e sua inclusio no espago interior do corpo seriam decorrentes da auséncia ou da subalternidade do Jnumor quence no corpo das mulheres. Com isso enfim, a inva sinagio dos diversos elementos da genitlia feminina seria a conseqUéncia direta da ausénciarelativa do humor quente na circulagdo humoral no corpo das mulheres.” Pode-te depreender dessa letura como os pélos masculino «feminino se oporiam como a luminosidade ea obscuridade, jé {que 0 masculino se associara, pela projesio para fora, com a cexterioridade, enquanto o feminino sigari, pela invaginagio, om ainterioridade. Esta oposigho se desdobraria em outra, pela ‘qual a verdade estaria no pélo masculino, considerando-se que a luminosidade se articularia com a via da verdade, enquanto © feminino pela escuridio, isto ¢, coma nio-verdade, Além disso, agus Fabius du see. Op. it. preciso evocar que o pélo masculino sera a representagio da atividade e da asio, isto 6, o que faz protuberancia e penetra no cexpago exterior, enquanto o feminino seria a representacéo da passividade eda recepsto,Enfim,rodasesss oposgdes estariam condensadas¢ intrincadas na oposicio maior dentrolora,re- gulada pelo humor quente. esse contexto, a equivaléncia ea homologia morfolégicas centre 08 sexos se inscrevem numa l6gica marcadamentehierdr- auica. As vérias oposigbesacima destacadasjé revelam eviden- temente as linhas de forga presentes na arquiteturahierérquica entre 0s sxos, Com efeito, o polo masclino seria caracteriza- do pelaperfcigo, como jdssera Arstteles ao aproximé-lo do divino,enquanto o pélo feminine seria marcado, noseu se, pela imperfeisho, dada a oustacia do humar quente. Contudo, na medida mesmo em que o sexo era considerado tnico, exisiria sempre a possibilidade de transformacio de um no outro, desde que, evidentemente, ahierarquia entre eles fosserespeitada em sua Logica infalivel Nessa perspectva 0 feminino poderia ser transformado no masculine, desde que o humor quente pudesse se tornar domi- nanteno corpo da mulher. Com isso, ainvaginasio morfol6gica ‘da genitliafeminina seria projetada para o exterior para fora, de forma quea ftmea se tomnarafinalmente macho. Conseqien- temente, a passvidade se transmutaria entio em atividade, a recepgio emacio ea obscuridade se fara subtamente lz, Enfim, ‘averdade se imporia efetivamentesobrea no-verdade, no lusco- fusco da transformacio tépicaregulada pelo humor quente. Portanto, a equivalénca virtual entre @ masculino e ofemi- nino possibiltaria, pois, transformacio do segundo no primei- +0, mas maseulino no poderia jamais se tornar feminino. Isso ‘porque o imperfeito poderia ser transformado no perfeito, des- de que a presenga do humor quente pudesse ser 0 operador da transformagso, de acordo com os pressupostos valorativos pre- sentes da l6gicahierdrquica, No entanto, nio exisiia recipeo- cidade entre os sexos. Uma mulher poderia efetivamente ser teansformada num homem, i que o imperfeito poderia sempre se transformar no perfeito, mas a operacio oposta no se reali- ‘aria jamais, pela razio oposta, Portanto, nesse paradigma te6ticos6 exstria um fnico sexo, ariagbes ¢ matizagées polares entre o masculinoe o femi- 1c seria finalmente decidido pela dominéneia do quente na cieulagio dos humores. Iso promoveria ainda sejaa proje- ‘gio sja a invaginaglo da morfologia da genicilia, para dentro do corpo. Finalmente, seria pela unicidade ontol6- do sexo que a transformagio da mulher em homem seria \erbida, dada a homologia ea equivaléncia dos 6rgios genitais. Por mais espantoso que possa parecer para nossa represen- 10 moderna sobre os sexos, no entanto, esse paradigma per- \durou no imagingrio ocidental rante séculos evidenciando-se por diversos signos, Assim, até o infio do século XVII os dese- inhos nos livros médicos de anatomia se baseavam no corpo ‘masculino, considerado 0 modelo da perfeigfo, isto €, 0 estudo «to corpo do homem possibilitariando apenas o saber anatémico adequado, mas também perfeito sobre a morfologia corpérea. [Nao obstante 0 inicio das descobertas anat®micas no Renasci- mento, como também a expansio das priicas de dissecsio, o8 tas de anatomia mantinbam ainda de maneira anacrOnica 0 ‘modelo sexual da Antiglidade. No infcio do século XVII, no ara fora ow centanto, comesaram a aparecer, de manera esparsae difusa, os primeiros atlas anat6micos nos quis as diferengas morfol6gicas centre os corpos do homem e da mulher comegaram a se deter- ‘mina e até mesmo ase impor. Portanto, comesou a se esbogar aqui uma nova relagio entre os sexos, no sentido de enfatizar no apenas a diferenca ontol6gica, como também a impossibili- dade de transformagio de um no outro. Tado isso culminaré, cenfim, na formulagio da teoria natural da diferenca sexual, que se impord progressivamente ao longo do século XVIII e no ink- io do século XIX. ‘Outro signo bastante destacado da pregnincia do modelo sexual da Antighidade slo os repetidos relatos da transforma ‘gio de mulheres em homens, que perduraram durante séculos até 0 inicio do Renascimento, quando lentamente teve inicio 0 processo de crise ea desconstrusio do paradigma do sexo tini- ‘co. Encontra-se em Montaigne, num dos fragmentos de seus Enszios™ e do Didrio de viagem a Itlia urna das iimas refe- rncias de uma transformaglo sexual ocorrida com uma jovem ‘0 atravessar um rio, “hinges Ls The Mind Hat wo Sext Woman om the Origin of Moder ‘See, Cas, Harvard Unters Pres, 1989, sclbinge "Skeleton in the Glace The Fa eton ofthe Female Seleton i tbe Eighnest- ‘ear Anatomy" Ins alla, Lagos The Making of th Moder Body. Opt Montaigne, M. atl, Livro f, ep. XXL Ins Montaigne, M, Ootres complies Pai, Callzard ude) 1962, 936, Monte, Me "Journal de voyage en Uni” Km, p. 119 a ‘enauaricas 00 exoriemo i, ONTOLOGIA SEXUAL ‘Com a perda inrevrsvel de legiiidade do paradigma do sexo “nico e sua progressvasubstigio pelo modelo da diferenga se- xaul, 0 que pasou a caracterizaracondigio do homer e da mai- ther foi a presenga de marcas natraisessencas Ser homem ou mulher, entéo, seria a conseqiénca inevitivel einsofismivel de tragosinsritosnaestrutura do organismo. Essesagosseriam nde- leves, na medida em que seriam produzidos pela naturce biolgi- ¢a, Conseqientemente,pasou a exisr um abismo intansponivel ‘entre 0 sexo, jf que una essuca particular eperene os difeen- ciava. Com isso, a posiblidade de transformagio da figura da imerna do homem passou para o registro do masini, sendo algo no apenas da ordem do improvivel edo impratcsvel, mas ‘rincipalmente do impensivel.Enfir a marca sexual que cada um portava, sja masculina ou feminina,pasou para nel da exsén- cia, consttuindo-, entio, uma ontologia da diferenca sexual. ssa esncia passou a ser concebida no registro esttamente bioligco, que pason a caacterzaroser do homem eo da mulher por marcas inserts em suas configuragSes anatmicas € em sat regularidadesfisiol6gicas. Com efit, com 0 deseavalvimento da biologia no século XIX, pasou-se aconfigurar os dos sexos por