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A Cabala e o Fim dos Tempos - Introdução

Um bom tempo antes da chegada de 2012, começou a ser cada vez mais comum ouvir pessoas falando de "Apocalipse", "Fim do Mundo", "Fim dos Tempos", "Alinhamento Planetário", "Calendário e Profecias Maias", etc. De modo geral, todas estas pessoas estavam falando de um suposto momento (muito próximo a nós, é o que dizem) em que a Terra passaria por profundas mudanças e transformações. Frente a este panorama, podemos facilmente identificar e definir dois grupos distintos.

Um primeiro grupo "catastrófico", que diz que a Terra como a conhecemos deixaria de existir; e um segundo grupo que diz que miraculosamente algo aconteceria e mudaria a qualidade de vida e a consciência humana na Terra. É interessante saber que muito antes de todo este pandemônio sobre o assunto, a Cabalá já falava que realmente chegaria um momento marcante na história da Terra. Este momento seria caracterizado por mudanças e transformações profundas, e seria um período bem distinto e bem definido na história do mundo. Esta época impar da história foi chamada pelos cabalistas de ‘Icva de Meshicha’ (Calcanhar do Messias, em aramaico) e as profecias e textos cabalísticos que falam sobre este período ficaram conhecidos como ‘Nevuot Acharit Haiamim(Profecias do Fim dos Dias).

O objetivo deste estudo é estudar este assunto tão em voga e tentar, humildemente, colocar um pouco de ordem em toda essa discussão que se tem presenciado. De maneira direta, clara e acessível, o objetivo do estudo é explicar a todos os leitores o que se entende na literatura cabalística pelo período do Fim dos Dias.

O que significa Fim dos Dias? Que período da história é este? Quando ele ocorrerá? Será que já estamos nele? Quais fatos podemos esperar antes, durante e depois desta época? O mundo vai acabar?

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A Cabala e o Fim dos Tempos Parte 1

As Profecias

A maior fonte de informação para o assunto do Fim dos Dias e do que será discutido neste estudo é de textos cabalísticos antigos, muitos deles escritos na forma de profecia, isto é, falando de um momento futuro da história da humanidade. Muitos destes textos vem diretamente da Bíblia. E, como sempre ocorre com qualquer texto bíblico, mas especialmente os de cunho profético, precisamos sempre ler o que está nas entrelinhas, para além do sentido literal, se quisermos chegar a algum lugar. Por mais diversos que sejam os textos falando do período do Fim dos Dias, há uma coisa comum em todos eles: todos os seus autores se preocuparam em listar sinais claros para identificar esta época peculiar do mundo.

Porém, antes de falar destes sinais, precisamos nos perguntar: Por que é que todos estes autores do passado unanimemente decidiram se debruçar sobre um estudo como este? Por que é que estes autores consideraram importante definir sinais de uma época futura tão distante que eles sequer viveriam para ver? Este tipo de texto foi escrito pois a tradição cabalística sempre afirmou que o mundo como o conhecemos tem uma história bem definida, com começo, meio e fim. É assim que no Talmud encontramos escrito o seguinte: "O mundo existirá por seis mil anos: dois mil anos são de desolação, dois mil anos são de Torá e dois mil anos são dos Dias do Messias." Fica fácil ver que ao ler uma citação como essa, os cabalistas tiveram muito interesse em tentar definir quando seriam estes três grandes períodos de dois mil anos da história.

Como já foi dito antes, mas nunca é demais ressaltar, sempre que lidamos com textos tradicionais é preciso ter em mente a forma metafórica com que foram escritos. Portanto, antes de mais nada, é preciso dizer que os períodos de dois mil anos mencionados no Talmud não correspondem necessariamente a anos do jeito que concebemos este período de tempo. Antes, estes "dois mil anos" devem ser entendidos como fases de tempo que podem durar muito mais ou muito menos do que dois milênios de fato. Algo similar acontece com os relatos da Criação no Gênesis. Em alguns círculos religiosos surgiu a ideia de que a história da criação deve ser entendida literalmente, e que Deus teria criado o mundo em seis dias de 24 horas. Este tipo de visão de mundo não está somente incorreta do ponto de vista científico, mas tem falhas mesmo que queiramos adotar a leitura literal do texto. Se o Sol não foi criado antes do quarto dia, como poderia haver o nascer e o pôr do sol nos três primeiros dias? Os "dias" na história da criação claramente não são períodos de 24 horas. Em vez disso, eles podem ser mais bem entendidos como períodos de tempo indeterminado. Pode ser que cada um deles tenha durado bilhões de anos!

O que o relato da Criação indica é simplesmente que o universo foi criado em etapas; seis, para ser mais exato (ver Artigo Adicional "A Idade do Mundo"). Do mesmo modo, o trecho do Talmud só quer indicar que existem três etapas bem definidas na história do mundo. Com isso em mente, de modo geral, os cabalistas consideram que a primeira etapa - a dos dois primeiros milênios de desolação -teria começado com a criação do mundo e terminado por volta da época de Abrahão. Segundo a tradição, Abrahão teria nascido no ano de 1948 do calendário judaico (ver Artigo Adicional "Abrahão"). Alguns anos depois de seu nascimento, ele se lança à sua missão de propagar o monoteísmo ético pela humanidade. Assim, antes de Abrahão o mundo vivia em outro paradigma de crenças, valores e em um período que a tradição entendeu por "estado de desolação". Abrahão é, assim, um marco do início dos dois milênios seguintes, o período da Torá. Esta fase da humanidade teria se encerrado na época da redação da Mishná, por volta do ano 200 d.e.c (ver Artigo Adicional "Livros Fundamentais"). A Mishná foi escrita pelo Rabi Iehudá Hanassi, segundo o Talmud, por causa da perseguição dos judeus pelos romanos. Com o passar do tempo e alguns anos de domínio estrangeiro, a tradição oral do judaísmo estava sendo esquecida pelo povo. Assim, a Mishná foi escrita como tentativa de preservar as tradições da época, uma vez que o mundo estava entrando em uma fase de distanciamento da tradição. A Mishná representa, assim, o início do último período citado pelo Talmud os Dias do Messias. Como a data de início deste último período talmúdico é assim longínqua (200 d.e.c), hoje quase não há (se é que há algum) cabalista que relute em afirmar que já estamos, de fato, nos dois últimos milênios da história do mundo. Este período compreenderia, se entendermos os 2.000 anos como literais, o período do ano 4.000 a 6.000 do calendário judaico, ou o período que vai de cerca de 200 a 2.200 do calendário gregoriano. Portanto, nós, hoje, estaríamos vivendo em pleno período que o Talmud chama de "Dias do Messias". É preciso saber que desta divisão mais geral da história em três períodos se fizeram outras divisões mais específicas de tempo. Assim, dentro deste grande período de dois mil anos dos "Dias do Messias", existe uma época bem avançada que se chama Acharit Haiamim ou Kets Haiamim o "Fim dos Dias". Se a última fase da humanidade começou por volta do ano 200, talvez uma das primeiras perguntas que surjam é: quando começa, então, este período mais extremo do "Fim dos Dias"?

Pelo que já discutimos, fica claro que não existe uma resposta objetiva, concreta e científica para isso, pois a denominação "Fim dos Dias" tem mais por objetivo definir um momento da história do que datar exatamente este momento.

Mesmo assim, ao estudar o assunto fica difícil não achar que vivemos neste período. Os textos mais antigos tratam em especial desta época, e todos eles dizem que, ao chegar o momento do Fim dos Dias, alguns sinais começariam a se manifestar no mundo de maneira clara. O conjunto destes sinais foi chamado de Chevlei Hamashiach ou As dores do parto do Messias".

Chegando neste ponto do nosso estudo, é preciso dizer que muitos judeus mais ortodoxos dirão que se debruçar sobre um tema como o que trataremos aqui é terminantemente proibido. Esta visão das coisas reflete a maneira literal que estes judeus tem de olhar para os textos da tradição. Este grupo diz que existem proibições quanto a estudar o período do Fim dos Dias e principalmente os sinais que o identificam. Mas, isso não poderia estar mais longe da verdade, tanto é que os judeus ao longo da história, mesmo os mais religiosos, sempre olharam para os eventos ao seu redor para determinar em que ponto da história se encontravam. Tudo com o objetivo de tentar datar a sua realidade segundo o plano geral descrito pelo Talmud. Foi assim que os amoraítas sábios que viveram da época da Mishná até o ano 500 d.e.c. se preocuparam com os sinais históricos de seus tempos. O mesmo ocorreu com os gaonim (sábios de 589 a 1038 d.e.c.) e os rishonim (sábios de 1040 a 1400 d.e.c.). O que sim é verdade e nunca poderei enfatizar isso o suficiente é que não se deve falar de fatos concretos e certezas absolutas quando se trata do estudo de textos proféticos e/ou tradicionais. Estamos tratando de textos metafóricos por natureza e que, portanto, se dobram a diversas significações e interpretações. Nenhuma delas é mais correta ou mais errada do que a outra. Nenhuma delas pretende ser científica ou apontar datas específicas da humanidade. E ainda que as profecias fossem literais, jamais podemos ter certeza sobre as coisas que acontecerão no futuro, por diversos motivos, entre eles, o princípio cabalístico pouco conhecido que diz que ao falarmos de uma profecia devemos distinguir as boas das ruins. Toda profecia boa sempre se concretiza, mas as que são ruins podem não ocorrer. Isso se assemelha a um pai que diz para o filho: se você se comportar, eu vou te dar um presente; mas se você não se comportar, vou te colocar de castigo. Se a criança de fato se comportar, o pai se sente impelido a dar o presente, pelo amor que tem pelo filho. Mas mesmo que o filho não se comporte, não necessariamente o pai o colocará de castigo. Ele pode "abrandar" o castigo ou até mesmo "esquecer" de punir o filho. Como prova deste princípio, cita-se o relato encontrado no livro de Jonas, um profeta do século VIII a.e.c.

Logo no início do seu livro, Deus exorta Jonas a ir para Nínive a fim de avisar aos seus habitantes que a cidade seria destruída, já que a maldade do local era demais. Jonas tenta evitar cumprir a missão dada por Deus e pega um barco para ir na direção oposta a Nínive. Durante o trajeto, uma tempestade enorme fustiga o barco. Os marinheiros assustados com a tempestade fora do normal, começam a atirar coisas para fora do barco para aliviar a carga. Jonas informa que a culpa pela tempestade é dele, e que se ele fosse atirado ao mar, a tormenta cessaria. Os marinheiros ficam relutantes em acatar as ordens de Jonas, mas acabam fazendo isso, ao que a tempestade de fato cessa. Jonas é, então, engolido por uma baleia e depois é cuspido. Assim, ele acaba indo para Nínive e revela ao povo a profecia que fala de sua destruição. Ao escutar as palavras do profeta, o povo se arrepende e muda os seus caminhos. Por conta disso, Deus decide poupar a cidade. Contrariado, Jonas protesta contra a decisão divina. Ele relutara em ir para a cidade e, depois de ter ido, Deus anula o seu decreto?!

No final da história, Deus acaba respondendo a Jonas que Ele apenas está demonstrando Sua piedade com uma população que não sabe distinguir o bem do mal (Jonas 4). Então, ainda que alguém queira ler literalmente as profecias que estudaremos, por causa deste princípio de que uma profecia boa sempre se concretiza, e uma má nem sempre, não podemos esperar nada de catastrófico quando se fala do Fim dos Dias. É por isso que o filósofo Rambam, em seu livro Hilchot Melachim (12:2), diz: "Quando se trata dos eventos finais da época da Redenção, ninguém pode ter certeza total de como as coisas vão ocorrer e nem conseguir dar conclusões definitivas, mesmo usando as palavras dos profetas e dos sábios".

Portanto, o que podemos fazer é olhar os textos cabalísticos que falam sobre as dores do parto do Messias como o faremos em breve e tentar interpretar os sinais escritos ali. Como se verá, muitas vezes é inevitável a sensação de "dejávù"; a sensação de que conhecemos bem a situação relatada pelos profetas e de que estamos de fato vivendo na época do "Fim dos Dias", do "Calcanhar do Messias".

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A Cabala e o Fim dos Tempos Parte 2

As dores do parto do Messias

Ultimamente, independente de que lugar do mundo visitemos, parece ter se tornado comum ouvir que "O mundo vai mal." Ao ouvir esta frase antes de sequer concordarmos ou não com ela é preciso entender que uma avaliação como "mal" ou "bem" é uma avaliação pessoal e cultural e, portanto, subjetiva. Mais do que isso, ao dizer que o mundo está "mal", esse tipo de valoração é feita sobre algo que nos transcende (o mundo em si) e que nós, com a nossa percepção limitada do tempo e do espaço, não temos sequer como abarcar em sua completude. A rigor, só poderíamos dizer que o mundo está mal se tivéssemos acesso ao histórico completo de suas mudanças ao longo do tempo. Assim se há alguém que realmente poderia dizer algo desse tipo, sobre como anda o mundo, este alguém seria aquele que, por algum motivo, conseguisse transcender a história linear do tempo como a concebemos, e a visão de presente-passado-futuro que temos embutida em nossa cabeça. Esta pessoa, dentro da tradição cabalística, se costumou chamar "profeta". Isso quer dizer que se há alguém que pode dizer se o mundo vai bem ou mal, este alguém é o profeta, pois ele é o único que tem um acesso completo à questão temporal, sem restrições subjetivas da mente.

Mesmo assim, se ouvimos esta frase "o mundo vai mal" repetida tantas e tantas vezes e por várias pessoas, é de se supor que algo de fato está acontecendo. E mesmo que não possamos falar da história de um ponto de vista transcendente, como fazem os profetas, podemos falar do ponto de vista humano, que é o que nos interessa aqui. O fato de se ouvir esta frase tantas e tantas vezes mostra que, aos olhos do ser humano, o mundo parece ir mal pois nos vemos rodeados de tristeza, infelicidade, sofrimento, medo, injustiça, crueldade, fome, guerra, miséria, dor e um monte de outras coisas que o ser humano não costuma valorizar como "bom". Mas, por conta disso, talvez seja mais acertado dizer que quem realmente vai mal é o ser humano - criador e sofredor de todas estas coisas - e não o mundo propriamente dito. Do ponto de vista da linguagem, seria mais correto dizer que o mundo simplesmente vai. Ele segue sua trajetória e sua história, conforme definido por forças que desconhecemos. Já a humanidade, esta sim, segue um plano histórico muito específico e que foi alvo de estudos da tradição. Sobre a humanidade podemos dizer se ela vai mal ou não. Por definição, dizer que algo vai mal equivale a dizer que algo está em uma trajetória descendente, e daí que em português (e em outras linguas) temos expressões como "ir de mal a pior". Agora cabe nos perguntar, então, o que é que vai mal no ser humano? Por suposto não se trata da quantidade de seres humanos, pois não estamos indo de mais quantidade para menos quantidade; pelo contrário, estamos crescendo vertiginosamente e a humanidade alcançou um índice

populacional nunca visto antes, o que já leva alguns governos a exigirem o controle de natalidade um filho por família. Obviamente, o "mal" que buscamos também não se aplica à área das descobertas e invenções tecnológicas, pois elas crescem vertiginosamente nos tempos atuais, talvez até mais rápido e mais intensas do que a própria taxa de crescimento humano. Não é este ainda o domínio da trajetória descendente que procuramos. Se continuarmos com nossa busca e análise, veremos que a decadência que presenciamos - a ida do mal ao pior - está na própria condição do ser humano. Segundo a tradição, podemos dizer que estamos indo de um estado "mais humano" a um estado "menos humano". É assim que a Cabalá entende a famosa história da queda de Adão.

Desde o começo dos tempos, a história da humanidade tem sido a de um "declínio", de uma "queda". O ser humano surgiu sobre a terra vivendo no Paraíso, para logo depois cair dali e viver em um estado inferior de existência. Assim, a Cabalá sempre expressou a crença de que a tendência natural da humanidade é de ir do mais para o menos. Aliás, não só a humanidade segue esta tendência, mas todo fenômeno que se desenrola no tempo. É precisamente isso que aprendemos na escola: o processo natural da vida é "nascer, crescer, se reproduzir e morrer". Do mesmo jeito que temos uma lei física como a da gravidade, que "puxa" tudo para baixo, podemos dizer que, do ponto de vista espiritual, temos uma lei que tende a trazer a humanidade (e todos os fenômenos humanos) do seu apogeu ao seu declínio, do ápice à decadência. Esta é a explicação para alguns relatos que vemos na Bíblia e que, quando lidos literalmente, deixam algumas pessoas de cabelo em pé. Principalmente no Gênesis, mas também em outros livros da tradição, abundam citações de homens que viviam muito mais e muito melhor do que vivemos agora, homens que tinham estatura descomunal (eram gigantes), homens com uma força e um vigor espiritual muito diferente do nosso, homens que viviam num estado de harmonia com a natureza, os animais e o seu ambiente, etc. Estamos acostumados a ler estes relatos e classificá-los, sem pensar duas vezes, como "mitologia", fantasia, invenção da criatividade de alguém ou de um povo. Deste modo, acaba-se por desprezar a profunda metáfora que existe por trás da fonte tradicional que é a Bíblia. Estes relatos só tem por objetivo nos mostrar que a humanidade já viveu em um estado que hoje, para nós, parece ser "miraculoso", ou "mitológico". Estas histórias só querem indicar que a humanidade já esteve melhor do que hoje. Isto é, já houve uma época em que o ser humano vivia mais, melhor, de maneira mais harmônica com o seu ambiente. No entanto, é interessante ver que embora para a média do ser humano haja esta sensação de que "estamos indo mal" e embora ouçamos isso com frequência, podemos notar que existe também um grupo que parece não ver as coisas deste modo.

Este segundo grupo constantemente repete que estamos "evoluindo", "progredindo", ou, em outros termos, melhorando (por definição, progredir precisa ser para melhor). É comum as pessoas deste segundo grupo chegarem a apresentar dados e estatísticas para mostrar (e "provar") que a humanidade está em progresso. Até mesmo cientificamente falando, a teoria atual da biologia diz que o ser humano atual é a evolução de um macaco, por exemplo. A este grupo que defende que estamos avançando mesmo que o ser humano continue repetindo que as coisas vão mal vamos chamar de "grupo do homem moderno", por oposição ao grupo cabalístico ou da tradição, que vê as coisas de modo ligeiramente diferente, que vê a humanidade em um declínio desde a queda de Adão. Assim temos aqui um paradoxo dos mais estranhos, em que um grupo diz e concorda, que o "mundo vai mal" e outro que afirma que a humanidade vai bem, e que nunca esteve melhor. Este embate sobre o modo de ver as coisas do ponto de vista contemporâneo e da Tradição é, na verdade, típico do período que os profetas hebreus chamaram de Fim dos Dias; e este é, na verdade, o que poderíamos definir como o primeiro sinal das "Dores do Parto do Messias". É assim que vivemos hoje numa situação extremamente paradoxal em que dia a dia batemos recordes de fome, guerra, violência, suicídio, crueldade etc; mas, ao mesmo tempo, ouvimos gente falando de liberdade, paz, ajuda humanitária e sentimento de fraternidade. Podemos dizer, então, que existem hoje duas "correntes" que interpretam o mundo de maneira distinta: a "corrente" da "Modernidade" que se opõe à "corrente da "Tradição", que define que o estado de apogeu do ser humano já ficou no passado. Alguns cabalistas mais ligados à religião preferem falar da Modernidade como um momento de "secularização do mundo", por oposição ao momento Tradicional do passado, ou de "espiritualização do mundo". Eu prefiro usar o termo "Modernidade" por ele ser, por enquanto, o mais "neutro" e menos carregado de conotações, sejam elas políticas, econômicas, sociais, religiosas ou de qualquer outro tipo. No entanto, do que discutimos brevemente, o importante é ficar claro que este embate entre Modernidade e Tradição é um fenômeno esperado e previsto há tempos pelos profetas e cabalistas. Ele é uma das marcas características da época que o Talmud chama de "Dias do Messias".

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A Cabala e o Fim dos Tempos Parte 3

A Modernidade

Vamos nos aprofundar um pouco mais sobre as duas maneiras antagônicas de ver o mundo, que foram apresentadas no capítulo anterior. Como se define um homem hoje em dia? Pense nisso por um instante. Se eu lhe perguntasse hoje o que é o homem, o que você diria? Talvez alguns digam algo como: o homem é um animal racional, ou um animal da espécie homo sapiens sapiens. Essa resposta deixa implícita a visão científica que já discutimos, na qual o homem é visto como uma espécie de macaco evoluído. Ao ouvir a mesma pergunta, talvez outros, certamente mais pessimistas, digam que o ser humano é um vírus sobre a terra, um parasita que foi posto aqui só para destruir, sugar e desolar o planeta. "O ser humano é o único animal que destrói o seu ambiente", é uma frase que já ouvi diversas vezes. Embora radicalmente opostas, estas duas definições do homem podem ser enquadradas na corrente "Moderna" e tem por base uma visão científica sobre o que é o ser humano. A primeira visão se baseia em estudos biológicos e de história natural; e a segunda visão se baseia em estudos de geografia, de história humana e de sociologia/ecologia. No entanto, do ponto de vista da Tradição, ambas as visões sobre o homem são errôneas. Para a Tradição, afirmar que o homem é um animal racional ou um vírus parasítico sobre a terra é uma distorção. O homem é muito mais antigo do que a ciência pode estudar e muito mais sábio do que as últimas teorias da inteligência humana podem compreender. O homem é muito maior do que os acadêmicos e cientistas modernos conseguem imaginar. Mesmo após sua queda, o homem é um ser tão completo e magnânimo que, na verdade, é quase impossível descrevê-lo sem ser reducionista. Do ponto de vista da tradição, o homem é o ponto alto da criação, o ápice de tudo que existe no Universo. No entanto, a corrente da modernidade parece querer cair neste reducionismo, definindo o homem apenas por meio de números, dados, estatísticas, fazendo deste homem nada mais do que um objeto. A maneira com que a Modernidade vê o homem mostra até que ponto a visão moderna é "anti humana" e o quanto ela, consciente ou inconscientemente, acaba fazendo com que a própria condição de ser humano vá se perdendo. Ao ver o homem apenas como objeto, a Modernidade não se preocupa se este objeto está caindo ou não.

A organização política na Modernidade

Um dos fatores da modernidade que talvez mais influenciam a queda humana pode ser vista na política. Os profetas da tradição afirmaram que o mundo em que vivemos passaria por quatro ciclos no que se refere à sua organização e domínio político.

Estes quatro períodos estão metaforizados em uma história relatada no livro de Daniel. Ali se conta que Nabucodonossor, rei da Babilônia, teve um sonho no qual viu uma grande estátua. Ela tinha a cabeça de ouro, a parte superior do torso de prata, a barriga e as coxas de cobre, as pernas de ferro e os pés eram parte de ferro e parte de barro. Sem achar significado para o seu sonho, Nabucodonossor pede que se procure alguém no reino capaz de revelar o sentido misterioso do que ele tinha sonhado. Depois de um certo período de buscas, o profeta Daniel é encontrado pelos homens da corte e apontado como capaz de interpretar o sonho. Assim, o profeta é trazido frente ao rei e revela o significado do que ele sonhara: cada parte da estátua vista por Nabucodonossor representa um reino diferente que assumiria o poder no mundo. A ordem dos reinos iria da cabeça até os pés, isto é, viria em ordem descendente. [É interessante ver a relação entre esta passagem bíblica e a tradição oriental, que fala das quatro eras humanas: a era do ouro, da prata, do bronze e do ferro.]

A metáfora do sonho deixa claro que o mundo iria de um "governo de ouro" até chegar a um "governo de barro", ou seja, de mal a pior. Segundo o profeta Daniel, em algum momento do período do Fim dos Dias, depois da passagem de três grandes impérios pela face da Terra (representados pelo ouro, prata e cobre), haveria uma constante centralização de poder no mundo.

Estas são suas palavras: "O quarto reino será forte como o ferro. E assim como o ferro quebra e esmigalha todas as coisas, esse reino há de quebrar e esmigalhar. Como em parte de ferro e em parte de barro eram os pés e os dedos que viste, em duas partes distintas será este reino dividido, mantendo a fortaleza do ferro, como indicam o ferro e o barro mesclados. À semelhança dos dedos dos pés, que eram em parte de ferro e em parte de barro, também será forte uma parte do reino e será destruída a outra. O ferro mesclado com o barro indica que mesclar-se-ão seus habitantes, por suas sementes, mas não se manterão unidos, assim como não se funde o ferro com o barro. E nos dias da existência daqueles reinos, o Deus dos

céus estabelecerá um outro reino que nunca será destruído, nem cederá a outros povos a sua soberania. Ele partirá em pedaços e consumirá os reinos à sua volta, e permanecerá para sempre." (Daniel 2:40-44.)

Se formos atentos às palavras do profeta Daniel, veremos que ele fala de um governo um tanto quanto "polar". Por um lado, ele seria extremamente forte como o ferro, um governo que "quebra e esmigalha", mas também se veria dividido e mesclado como o barro. Assim, o que Nabucodonossor viu nas pernas e pés da estátua representam uma força e uma centralização mas, ao mesmo tempo, uma fraqueza do quarto reino que viria a dominar o mundo. Muitos cabalistas dizem que esta profecia de Daniel se refere à Europa (União Européia) e à América, que hoje são os centros de poder do mundo. Estes dois blocos de domínio político realmente tem por característica serem extremamente centralizados e fortes, mesmo sendo dispersos e "mistos", o

que é mais visível no grande guarda-chuva que abarca os diferentes países do Bloco Europeu.

A destruição da família

A instituição mais importante para o desenvolvimento do ser humano e para a sua estrutura é a família. Portanto, o que acontece quando vemos a família sendo alterada como modelo de instituição tradicional? Na verdade, vemos a queda do ser humano ocorrendo novamente, como alertaram os profetas, o que contribui para que continuemos ouvindo cada vez mais que o mundo "vai de mal a pior". Sempre que a família se vê desestruturada, quem sofre esta falta de estrutura é, em primeiro lugar, o indivíduo; e, em segundo, a sociedade. Se alguém duvida que a família está se desintegrando, basta olhar honestamente ao seu redor e ver qual é a situação do núcleo familiar no mundo de hoje. O que vemos são casamentos baseados em mentiras ou em interesses, hipocrisia familiar, separações e divórcios em números recordes, paternidade ausente, maternidade que se define sem a paternidade, falta de comunicação familiar, crianças e filhos abandonados ao acaso, ausência de coesão e estrutura familiar, casamentos não consumados, o fenômeno dos "ajuntados" etc. Hoje em dia o conceito de família está totalmente mudado. A ideia do pai, mãe e filho/filha como instituição familiar está quase que somente no reino arquetípico. Ainda que encontremos o modelo tradicional de família em um lar, é interessante ver o papel da figura do pai e da mãe neste contexto. Em geral, nas famílias modernas, ambos os pais precisam trabalhar mais de quarenta horas semanais para sustentar a casa, o filho e a própria família. Sendo assim, eles não tem tempo para educar a criança e colocam isso a cargo de alguém ou de alguma instituição. É assim que as crianças estão entrando no ambiente escolar cada vez mais cedo. Em vários casos, elas não foram sequer desmamadas e já são postas em creches ou jardins de infância. A própria carga horária escolar tem aumentado consideravelmente nos últimos anos, fato que os pais agradecem erguendo as mãos aos céus, já que eles mesmos não podem dedicar tempo a seus filhos. A "falta de tempo" é generalizada. Ainda quando está em casa, a criança fica sozinha ou mal acompanhada. Sua diversão é, basicamente, a TV, a internet e o videogame. A educação extraescolar, que deveria ser de função dos pais, fica a cargo da babá, da rua ou, pior, da mídia: do que passa na TV, do que se publica na internet, do que se lança de jogos no mercado do mundo eletrônico etc. Num ambiente como esse, o que se pode esperar da educação desta criança? Como será que ela se desenvolverá e qual será a carga "humana" que ela carregará consigo? Que valores ela terá para o resto da sua vida? Não é à toa que cada vez mais vemos um estado de "inimizade" e "tensão" entre membros da mesma família.

Alguns chamam a isso de "conflito de gerações", mas me parece que se trata de algo muito mais grave. É por isso que, ao dar um sinal da época do Calcanhar do Messias, o profeta Miqueias diz: "o filho desonra ao pai; a filha se levanta contra sua mãe; a nora contra sua sogra e os inimigos de um homem são os homens da sua própria casa " .. Os casos de violência doméstica tem se tornado cada vez mais comuns e não poucas vezes acabam culminando em medidas drásticas, como assassinato. Já abundam casos de pais que matam os filhos, de filhos que matam os pais, de cônjuges que se assassinam. Os valores familiares e a própria noção de família como instituição necessária para o bom desenvolvimento do ser humano se perdeu e isso acentua ainda mais a queda humana, não só no ambiente interno do lar, mas também no mundo, na sociedade que vemos ao nosso redor.

Sistema educativo

Ao discutir a "falta de tempo" dos pais na educação dos filhos, falamos brevemente do papel do sistema educativo na vida da criança. Vimos como as crianças são colocadas nas escolas cada vez mais cedo. Sendo assim, é importante discutir um pouco a visão moderna do sistema educacional, pois se parte do tempo o ser humano está sujeito ao ambiente familiar, na outra parte (talvez a maior dele), ele está sujeito à escola. Quem conhece a beleza, sabedoria e vivacidade de uma criança com cerca de dois anos de idade deveria se perguntar o que acontece com toda esta esperteza quando a criança cresce um pouco mais e entra na escola. O processo educativo do mundo moderno prega a "formação" do indivíduo. Mas se a escola é o local que pretende dar uma "formação" a alguém, precisamos nos perguntar que "forma" é esta que está sendo apregoada como correta para as nossas crianças? A escola supostamente deveria formar seres humanos para o futuro, mais especificamente, para o mercado de trabalho. Mas se sequer sabemos como será o dia de amanhã, como uma escola pode formar hoje uma criança para um futuro que a espera daqui a 20 ou 30 anos?

Como se pode dar uma "forma" a alguém sem saber exatamente qual "forma" dar? E mesmo que por um momento aceitemos que a escola tem como fazer isso, por que devemos pressupor que a formação para um mercado de trabalho é a mais importante a ser escolhida? Mais do que isso, se é preciso entrar na escola para receber esta forma, significa que o ser humano nasce amorfo? Obviamente, não, diria a tradição, discordando veementemente disso. Nascemos como humanos e esta é precisamente a nossa forma! Não precisamos de nenhuma "formação" adicional. No entanto, o processo educativo moderno parece querer deformar deliberadamente esta forma humana com a qual nascemos. Nascemos livres e inteligentes, e o sistema educacional moderno nos cerceia a liberdade, nos coloca formas e valores que nos são alheios; nos castra. Em último caso, o sistema educacional acaba por nos deixar burros.

Não é que ficamos burros na questão da informação (isso temos aos montes

em qualquer escola, e até mesmo fora dela), mas burros para a vida e para a própria questão de ser humano. Os sábios do Talmud já alertaram que chegaria um momento em que isso ocorreria. Falando sobre a escola, disseram: "na época do Calcanhar do Messias ( local de encontro dos sábios vai ser usado para imoralidade; a sabedoria dos eruditos vai degenerar."

...

) o

Deixando de lado a questão da imoralidade no local de encontro dos sábios (que é por demais evidente e extensa para precisar ser descrita), vamos analisar um pouco a segunda parte da profecia, a degeneração da sabedoria dos eruditos.

Antigamente, a educação se dava por meio de um mestre, que tinha um grupo - mais ou menos extenso - a quem ele iniciava em todos os conhecimentos que considerava importantes ou necessários, principalmente os que concerniam à tradição. Assim, a educação respeitava o livre arbítrio humano nem todos se preocupavam em estudar estas coisas, e os que se preocupavam sempre achavam um mestre disposto a ensinar e também ensinavam ao homem o que é de verdadeiro valor: a tradição do seu povo. Era por isso que um hebreu recebia a tradição judaica de seu Rabino, um grego recebia a cultura grega de seu mestre, um árabe recebia a tradição muçulmana de seu Imã e um chinês ou japonês recebia a tradição budista de seu mestre zen. Hoje, por outro lado, a educação está toda sistematizada e organizada em um complexo sistema centralizado na mão do Estado. Não é a toa que na modernidade temos algo que se chama "Ministério da Educação". É pelo mesmo motivo a centralização do ensino na mão do Estado que nos últimos anos vimos nascerem novas ciências e novos títulos acadêmicos dos quais até então nunca tínhamos ouvido falar: pedagogia, psicopedagogia, construtivismo social, psicologia educacional etc. Foi visando estruturar, teorizar, e dar "forma" ao ensino e ao homem que esses ramos de pesquisa surgiram. Assim, do mesmo modo que notamos uma centralização de poder politico crescente no mundo, podemos ver que hoje as diferentes reformas educacionais são extremamente centralizadas e sempre convergem para a mesma questão: "formar" o ser humano para um mercado de trabalho. Se antigamente o hebreu aprendia a sua tradição, o muçulmano a sua e assim por diante; hoje em dia vemos que um chinês pode estudar na Inglaterra, no Chile ou no Brasil e um argentino pode estudar nos Estados Unidos, na Alemanha ou no Japão e ambos vão ser "formados" do mesmo modo. Ambos serão adestrados para entrar no mercado de trabalho, passando por uma cerimônia em que receberão uma beca e um papel que os "diploma" em uma profissão. O sistema de ensino tradicional era totalmente verticalizado, com o conhecimento indo de mestre a discípulo e não era, como já vimos, de modo algum "democrático", ou dirigido a todos. O conhecimento tradicional tinha por objetivo "iniciar" a pessoa nos mistérios da vida do mundo, e não "formar" ninguém.

Para isso, o sistema tradicional punha muita ênfase em adaptar as lições do mestre de acordo com o discípulo. Obviamente, na antiguidade o Estado intervia muito pouco na transmissão do conhecimento. Raramente havia uma definição estatal do que ensinar e de que maneira ensinar aos alunos. Isso era mais comum apenas em casos de domínios estrangeiros, onde o povo dominante forçava os dominados a estudarem certas coisas, como o idioma do poder controlador. Mas, via de regra, não havia ministérios da educação ou instituições pedagógicas que regulassem o ensino. E justamente aqui está o ponto mais marcante de diferenciação do sistema de ensino tradicional com o moderno: a autoridade do conhecimento. Antigamente, era a autoridade de conhecimento do mestre que fundamentava o ensino como sendo verdadeiro. Era assim que se media a idoneidade de ensino e a reputação das "escolas" ou "academias" que se desejava frequentar. É por isso que o Talmud, por exemplo, coloca tanta importância no modelo pessoal que o mestre deveria manter frente aos alunos. Para os antigos sábios, de nada adiantava ter o conhecimento se o exemplo não fosse dado de maneira viva pela própria figura do mestre. E eis que hoje, modernamente, qualquer pessoa, mesmo sem autoridade de conhecimento (ou autoridade de qualquer outro tipo), pode se tornar professor. E se alguém duvida desta falta de autoridade do professor, basta ver qual é o tipo de formação e o nível das pessoas que saem das faculdades modernas e dos cursos de pedagogia para depois irem lecionar nas escolas de todo o mundo. E a estas pessoas que os pais confiam os seus filhos. O próprio fato de antes chamarmos às pessoas dedicadas ao ensino de mestre e hoje de professores nos devia fazer pensar um pouco sobre o assunto. Até mesmo no mundo acadêmico onde, supostamente, a situação deveria ser melhor, o que vemos é que a ciência se afasta cada vez mais do centro metafísico e tradicional da humanidade e, portanto, ficamos cada vez mais com um ensino de matérias puramente utilitaristas, focadas no chamado "mercado de trabalho". A preocupação moderna tem se focado no ensino especializado e específico que, no final das contas, não prepara o homem para nada, a não ser fazer uma atividade mais ou menos mecânica, como um robô poderia fazer. Não é à toa que hoje se fala de processo de automação do trabalho para dar mais tempo de lazer ao homem moderno. Se falamos de "automação do trabalho" isso mostra que o homem moderno pode ser substituído por um robô com facilidade. Alguém já parou para se perguntar por que hoje não temos mais os chamados "homens renascentistas"? Por que não temos mais homens como Leonardo da Vinci, que estudavam de física à música, de artes à engenharia, mas apenas técnicos cada vez mais e mais especializados em minúsculas fatias do conhecimento humano?

Mas, voltando à questão de autoridade de ensino, se o professor moderno não tem esta autoridade de conhecimento que encontrávamos nos mestres

da tradição, deveríamos nos perguntar o que faz com que ele seja o professor e o aluno seja o aluno. Em princípio, quem define isso é o autoritarismo e o poder abusivo do Estado. Hoje em dia não importa mais se o professor é bom ou mal, se sabe ou não sabe do que fala, se é simpático ou antipático, se respeita o modo de aprender do aluno ou não, se respeita a tradição ou não, se pode ser chamado de mestre ou não. Hoje uma pessoa se faz professora porque seguiu um padrão estabelecido pelo Ministério da Educação e recebeu um papel (chamado de diploma) que diz que ela tem a autoridade e o poder de ensinar. Este professor formado recebe, então, das mãos do próprio Ministério da Educação, uma lista do que deve ensinar. Aí este professor entra na sala e ensina um conhecimento, digamos, A. O aluno deste professor deve se subordinar a ele e aprender aquele conhecimento A. Se o aluno por acaso achar que aquele conhecimento é Bou C, ele não pode manifestar esta duvida, pois na hora da prova o professor vai perguntar sobre o conhecimento A. Se na hora do exame o aluno falar do assunto Ado modo om que o professor deseja, ele passa de ano como em um jogo de videogame mas se ele falar que aquilo é Bou C, o aluno é reprovado e o professor passa a dizer que aquele aluno tem problemas de aprendizado. Sempre me perguntei se deveríamos falar problemas de aprendizado ou de problemas de ensino. E é assim que os pais destes alunos pagam mensalidades exorbitantes para que o filho continue subindo de grau em grau no sistema educacional, pois só assim ele poderá, eventualmente, ter uma vaga na universidade (onde continuará pagando uma mensalidade absurda). E frente a tudo isso, eu pergunto: e o que esta pessoa aprendeu sobre a vida ou a própria natureza, a sua natureza como ser humano? Nada!

Sistema de saúde

Outro assunto que se vê radicalmente afetado com a chegada do Fim dos Tempos e que influencia diretamente no nível de vida é a saúde humana. Se a própria condição humana tem decaído com o tempo, é lógico pensar que a saúde também deve ter sofrido neste processo. É óbvio que o homem moderno possui uma preocupação constante com a sua saúde: ele tem seguro de saúde, plano de saúde, faz check-up de sua saúde, come e faz coisas que acredita serem boas para sua saúde. Para que toda esta preocupação possa se manter, existe toda uma área de saúde como nunca houve igual na história do mundo. Esta área é composta por autoridades sanitárias e profissionais da saúde. Mas quem outorga os "poderes" sobre a saúde a estes profissionais? Quem define que um médico ou uma enfermeira podem atuar no que atuam? Parecido ao que ocorre no caso de formação de professores, são as instituições oficiais de ensino, que estão dentro do modelo educacional discutido anteriormente. Em um sistema todo centralizado e estruturado, estas faculdades passam normas e métodos de cura.

Os alunos que se enquadram e se adaptam a eles, se formam. Os outros são reprovados e excluídos "do jogo". Isto também é visível, por exemplo, no modo com que a medicina moderna trata os métodos tradicionais de cura, como a acupuntura, por exemplo. Mas, a verdade é que quando se fala de profissionais e organizações de saúde, não estamos falando de regular propriamente a saúde, mas, mais corretamente, de regular as doenças. E só o fato de existirem doenças que possibilita a existência de uma autoridade sanitária, o surgimento de um ramo da saúde, e a criação de planos e seguros de saúde. Se não existissem doenças, se o ser humano não padecesse de nada, não seria necessário todo este aparato para organizar a "saúde". E talvez um dos assuntos mais tratados nas profecias hebraicas seja justamente o do aumento no número das doenças que surgiriam na Época do Fim dos Tempos. Mesmo sem se debruçar sobre isso, por ser bem evidente, podemos fazer uma análise similar à que fizemos no caso do mestre e do professor.

Como vivia um médico nos tempos antigos? Pense por um momento em que tipo de vida ele tinha, que estudos empreendia e como ganhava o seu sustento. Qual era o seu status frente a outros trabalhadores da sociedade, por exemplo, os ferreiros, carpinteiros ou marceneiros? E hoje, qual é o status de um médico? Qual é o estudo pelo qual passa um médico, qual é o salário que ganha e qual o tipo de vida que ele leva quando comparado a um professor, artesão ou comerciante? Com esta breve análise, sem precisar ir muito longe, fica fácil perceber que antigamente a medicina e a saúde se baseavam em uma relação entre um médico e seu paciente. Nada mais. Hoje, no entanto, poderíamos falar mais adequadamente de uma relação médico-cliente. A verdade é que hoje o ramo da saúde se tornou um comércio, um negócio, e não mais uma questão humana. Prova disso é que nos tempos modernos já ouvimos falar até em um novo tipo de indústria: a indústria farmacêutica (e este é o nome que de fato se dá a ela); uma das mais ricas e poderosas da atualidade. Assim chegamos a mais um aspecto da vida do ser humano - a sua saúde - que vem sendo tratada cada vez mais como um objeto de mais ou menos valor, um objeto de barganha, um bem negociável.

Vida moderna

Destes poucos sinais que analisamos aqui, deve ficar claro que todos eles foram abordados pelos profetas porque, em maior ou menor grau, afetam o ser humano e sua própria natureza de modo lastimável. Muitas das questões que discutimos, por mais externas que possam parecer, afetam diretamente a vida do ser humano e a sua própria humanidade. A preocupação dos profetas foi nos alertar. Ao olhar estes sinais identificamos um último sinal que, de certo modo, aparece como de pano de fundo em todos os outros sinais.

Este é, quiçá, o sinal mais marcante da civilização moderna: o fato de ignorarem e virarem de costas para os princípios tradicionais. A distância que se instalou entre o modo de vida de hoje e modo de vida da tradição já é enorme e insuperável. Dentro da Cabalá, este fenômeno ficou conhecido como o problema do "abandono da Torá" e milhares e milhares de livros, artigos, cartas e textos foram (e continuam sendo) escritos sobre o assunto. Hoje chegamos a tal ponto de "abandono da Torá", isto é, da tradição (ver Artigo Adicional "Torá"), que já vimos que alguns cabalistas preferem definir a nossa sociedade como sendo "secular". A questão mais importante aqui, no entanto, é perceber que não se trata de promover um debate moralista sobre "modernização e secularização", ou entre "tradição e religiosidade". O estudo destes sinais deve, no entanto, nos levar ao reconhecimento de que esta rejeição do tradicional cria uma sociedade vazia de valor do sagrado, vazia de qualidade humana e vazia de conhecimento verdadeiro e autêntico. É justamente esta negação dos valores tradicionais que faz com que vivamos em uma época em que parece não mais existirem valores morais e éticos que pautem os comportamentos dos seres e das nações. É aí que começamos a ter a impressão de que "as coisas vão mal". Nós "sentimos" que há algo errado.

Outros Sinais

Embora eu tenha me debruçado especificamente sobre alguns sinais por questões de economia, já que seria impossível falar de todos os sinais do Fim dos Dias neste estudo, é interessante encerrar este capítulo vendo brevemente outros pontos que os sábios da Cabalá apontaram como indícios da época moderna. Na Mishná do Tratado de Sotá 9:15 lemos um trecho bastante interessante:

"Na época do Calcanhar do Messias, a insolência vai crescer e a honra vai definhar; a vinha vai dar seu fruto de forma abundante e ainda assim o vinho será valorizado [Isso é geralmente entendido como um aumento da embriaguez no mundo.]; o governo se voltará para a heresia [A secularização dos Estados]; o local de encontro dos sábios vai ser usado para imoralidade; a Galileia será destruída e Gablan desolada [Esta é uma das profecias mais debatidas, já que seu significado é incerto. A própria referência a Gablan é estranha. Alguns dizem que se trata de Guebal, local citado nos Salmos 83:8; a parte Norte do Monte Seir. Alguns dizem que a referência é a Gaulan, localizada a leste do Mar da Galiléia, na parte superior do Jordão. De qualquer modo, Galileia e Gablan parecem representar a sabedoria da Tora, e, assim a profecia estaria indicando que este conhecimento tradicional seria perdido]; os que moram perto das fronteiras vão vagar de cidade em cidade (esmolando) sem que ninguém se compadeça deles; a sabedoria dos eruditos vai degenerar; os que temem o pecado serão ridicularizados; e a verdade vai estar em falta. Os jovens vão envergonhar os velhos e os velhos vão se erguer na presença dos jovens (para mostrar respeito a eles); o filho vai insultar o seu pai e a filha vai se levantar contra a sua mãe; a nora vai se levantar contra sua sogra e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa; o rosto da geração vai ser como o rosto de um cachorro [O cachorro é o símbolo talmúdico do animal alheio à vergonha, pelo fato de praticar a cópula em

qualquer local, a qualquer momento e na frente de qualquer pessoa]; o filho não vai se sentir envergonhado perante o seu pai."

Continua

A Cabala e o Fim dos Tempos Parte 4

Gog e Magog

De todas as profecias do Fim dos Tempos, talvez uma das mais importantes e famosas, e uma das que mais atrai atenção das pessoas, é a que se relaciona com os capítulos 38 e 39 de Ezequiel. Nestes capítulos, Ezequiel fala de um líder chamado Gog, da terra de Magog, que formará uma coalisão militar para guerrear contra os judeus na terra de Israel. Por conta dos nomes citados, este conjunto específico de profecias ficou conhecido como as profecias da "Guerra de Gog e Magog".

Para ser exato, a primeira menção aos nomes Gog e Magog aparece em Ezequiel 38:2: "O filho do homem! Volta teu rosto para Gog, da terra de Magog, príncipe e chefe de Méshech e Tuval, e profetiza contra ele." Ao comentar a expressão "volta teu rosto para Gog", o comentarista bíblico Malbim diz o seguinte: "Os sábios receberam a informação de que por três vezes Gog virá sobre Jerusalém. Aqui se explicam as duas primeiras vezes e a terceira vez é tratada por Zacarias." A voz do Malbim ecoa uma visão bem comum que entende as profecias deste trecho bíblico como uma guerra que uma certa pessoa de nome Gog faria contra Jerusalém. Mais do que isso, este conflito ocorreria em três partes. Ao ler estas profecias, muitos cabalistas (e até mesmo não-cabalistas) entenderam, então, que a primeira batalha de Gog e Magog teria sido a primeira Guerra Mundial. Um dos que defendia esta hipótese era o grande cabalista Chafets Chaim. Nascido em 1838 e falecido em 1933, o Chafets Chaim vivenciou a Primeira Guerra. Quando lhe questionaram sobre o assunto, em certa ocasião, no ano de 1917, ele disse que depois de mais ou menos 25 anos (o que coincidiria com o ano de 1942) haveria uma segunda Guerra Mundial que faria a primeira parecer insignificante. De fato, como se sabe, em 1939 estourou a Segunda Guerra Mundial. Como o Chafets Chaim era um cabalista de muito renome, isso reforçou a crença de muitos de que ele estava falando, por conta de sua sabedoria, do segundo conflito de Gog e Magog. Segundo estas profecias, os conflitos de algum modo deveriam envolver a cidade de Jerusalém. Curiosamente, embora nas duas Guerras Mundiais o conflito não tenha girado ao redor de Jerusalém propriamente dita, em ambas as guerras a cidade foi palco de disputas e acabou envolvida. Assim, se seguirmos a linha de raciocínio do Malbim, supostamente haverá uma terceira batalha de Gog e Magog, mais uma vez com Jerusalém envolvida. Agora, mesmo que adotemos a interpretação mais metafórica, como é preferível aos olhos da Cabalá, é interessante se perguntar quem ou o que são propriamente Gog e Magog? O que estes dois nomes representam?

Olhando apenas para o texto bíblico, fica claro que Gog é o nome de um líder de uma coalizão militar de nações chamadas, por sua vez, de Magog.

A Bíblia em si oferece poucas informações adicionais sobre o assunto. No entanto, o próprio Malbim foi um dos cabalistas que se debruçou sobre esta questão e teceu comentários mais aprofundados que podem ser esclarecedores para a nossa discussão.

Eis o que ele diz: "Ezequiel profetizou que no Fim dos Dias todos os povos lutarão por Jerusalém. De um lado estarão guerreando o Egito, a Assíria e Elam, que são os ismaelitas; e do outro lado estarão Meshech e Tuval, e os príncipes de Edom e os reis do Norte. E todos matarão uns aos

outros, mesmo entre irmãos, e vários tombarão. (

)

Quando chegar o fim

... (dos tempos), depois que o povo de Israel já tiver se assentado na terra de

Israel; no futuro, as nações se unirão para conquistar Jerusalém. E virá (sobre ela) Gog, príncipe de Meshech e Tuval, dos países do norte, que são os não-circuncisados, também chamados de Edom. Meshech e Tuval são filhos de Jafet, que moram na Europa. E do outro lado estarão a Pérsia, Etiópia e Pot, e sabemos que todos estes são circuncisados e ligados à religião de Ismael. E eles (os circuncisados) se unirão aos filhos de Edom para conquistar a terra da mão de Israel. Mas na sua empreitada haverá uma discórdia e as pessoas começarão a brigar entre si, irmão contra irmão, ou seja, Edom e Ismael brigarão entre si, pois sua religião é distinta".

Aqui é a primeira vez que vemos registrados nomes definidos de pessoas ou grupos que se veriam envolvidos no conflito de Gog e Magog (ver Artigo Adicional "Países envolvidos na guerra de Gog e Magog") Apesar de ser um trecho longo e com vários nomes citados, de modo geral podemos dizer que, segundo o Malbim, a guerra envolveria uma coalizão militar com dois grupos distintos:

- De um lado temos o que o Malbim chamou de Gog, príncipe de Meshech e Tuval (filhos de Jafet), identificado ainda a Edom e conhecido por ser um grupo de não-circuncisados. - Do outro lado, mas aliado a este primeiro grupo, teríamos os ismaelitas, envolvendo países como Egito, Assíria, Elam, Pérsia, Etiópia e Pot, conhecidos por serem circuncisados.

A Bíblia em si oferece poucas informações adicionais sobre o assunto. No entanto, o próprio Malbim

Independente dos textos judaicos sobre o assunto que peguemos, todos eles parecem apontar que são estes dois grupos que se uniriam com o objetivo de atacar a cidade de Jerusalém. Assim, os dois grandes envolvidos na Guerra de Gog e Magog ficaram conhecidos na tradição como os "Edomitas" e os "Ismaelitas".

Edom

O Malbim afirma que Gog é o nome do próprio povo de Edom, como uma

espécie de sinônimo. O nome Edom aparece pela primeira vez na Bíblia em Gênesis 25:30, quando Jacó decide chamar assim a seu irmão, Esaú. Um pouco mais adiante, em Gênesis 32:4, o termo Edom passa a ser também usado para designar o território onde moravam os edomitas, situado ao sul da Terra de Canaã (Números 20:23), conforme mostra o mapa na página seguinte. Na literatura pós-bíblica, como no Midrash e no Talmud, o nome ainda era um modo de se referir ao Império Romano, daí o fato de o Malbim também identificar a nação de Gog-Edom como sendo habitante da Europa. E como na época dos sábios do Talmud o Império Romano abraçou o cristianismo, Edom passou a designar, por fim, na literatura rabínica, os cristãos e o cristianismo de modo geral. Por isso que o Malbim diz que este povo também pode ser chamado de os não-circuncisados, pois comparados aos muçulmanos (os descendentes de Ismael), o costume de Edom é não se circuncidar. Assim, deve ficar claro, antes de mais nada, que Gog não representa uma pessoa, nem mesmo um líder, como alguns querem fazer crer, e muito menos um país ou um estado. Para a visão da Cabala, Edom/Gog representa antes uma ideologia, uma forma de pensar o mundo. Mas que forma seria esta?

Ao ouvir o nome Edom fica difícil não ver uma relação com a palavra hebraica Adam (Adão). Aliás, em hebraico ambas as palavras são escritas exatamente com as mesmas letras, só o que mudam são as vogais. Dentro da tradição cabalística há muita especulação sobre a origem do nome Adam. Uma primeira hipótese faz Adam derivar da palavra hebraica dam, sangue. Uma segunda corrente diz que Adam é derivado de adamá (terra), já que Adão foi tirado da terra, como nos relata o Gênesis. No entanto, me parece mais correto supor que Adam vem da palavra hebraica adom, vermelho, como já veremos. Mesmo com as diferenças de opinião, fica fácil ver que todos estes vocábulos Adam, Edom, Adamá, Dam, Adom tem uma mesma raiz, e, portanto, significados cognatos. Primeiramente, cabe ressaltar que do ponto de vista puramente linguístico, não há porque supor que o termo Adam surge de Adamá, e o mais provável é que seja exatamente o contrário o que ocorreu. Por outro lado, também parece estranho supor que Adam teria sido chamado assim por causa do vocábulo dam(sangue), afinal esta não é uma característica propriamente distintiva de Adão.

Todos os outros animais que estavam no Jardim do Éden também tinham sangue, e, se fosse

Todos os outros animais que estavam no Jardim do Éden também tinham sangue, e, se fosse assim, poderiam reivindicar para si o nome Adam. É claro que alguns dizem que o sangue se chama damjustamente por ser vermelho (adom), mas, mesmo assim, acabamos novamente voltando ao significado que parece ser o mais primitivo: "vermelho". É mais curioso ainda notar que mesmo que assumamos que Adam tenha vindo de Adamá (terra), na Bíblia existem sete palavras para designar o que nós chamamos de "terra", e Adamá não é o mesmo que a terra geral (érets), ou o pó da terra (afar) ou ainda a terra seca e dura por oposição ao mar (iabashá). Adamá representa justamente a terra de tipo roxo-vermelho, ou o que hoje chamamos de argila, e que é bastante plástica e facilmente moldável, como que para fazer o homem a partir dela. E por tudo isso que me parece mais correto interpretar que Adam foi chamado assim por ter uma característica peculiar: a de ser vermelho, adom. E, daí, por sua vez, teria vindo o próprio nome Edom.

Esta teoria fica corroborada quando vemos que a Bíblia insiste em ressaltar o fato de que Esaú nasceu ruivo: "E saiu o primeiro, ruivo, todo ele como se vestido de pêlo, e chamaram seu nome Esaú (Gênesis 25:25)." Como já vimos, é o próprio Esaú, que, além de nascer ruivo, depois passa a ser chamado de "Edom" por seu irmão. E por que motivo? A passagem de Gênesis 25:30 diz: "E Esaú disse a Jacob: Enche minha boca, rogo-te, dessa coisa vermelha, pois estou cansado. Por isto, chamou seu nome Edom (Vermelho)". Ora, que coisa! Por pedir uma comida vermelha, Esaú passa a ser chamado de Edom! Portanto, é plausível supor que foi da raiz "vermelho" que surgiu o nome Edom, que descreve tanto o personagem bíblico, bem como os seus descendentes, os edomitas, e até a região que eles habitavam, a Idumea (em hebraico, Edom também, mas no feminino). Definir isso é importante pois assim conseguimos entender o que Gog e Edom simbolizam no imaginário da Cabalá. O vermelho representa a Sefirá de Guevurá símbolo do Julgamento Severo (ver diagrama abaixo).

Esta teoria fica corroborada quando vemos que a Bíblia insiste em ressaltar o fato de que

A palavra "Edom" também remete o cabalista imediatamente à figura dos "sete reis de Edom" que aparecem na Bíblia (Gênesis 36:31) e que são discutidos extensivamente no Zohar (ver Artigo Adicional, Sete Reis de Edom).

No texto bíblico, os sete reis de Edom são citados e há especial cuidado em se falar de sua morte. Só o oitavo rei é citado sem que sua morte seja anunciada. Com este rei a Bíblia faz questão de mencionar o nome de sua mulher, algo que não acontecera com os outros. Essa passagem foi entendida como um símbolo cabalistico que alude aos estados de criação que precederam este mundo em que vivemos. A ideia em si vem do Midrash do livro do Gênesis, que diz que Deus criou e destruiu vários mundos antes de criar o nosso mundo. Mais especificamente, a morte dos reis de Edom se refere, então, a uma incapacidade cosmológica do mundo surgir antes que uma estrutura harmoniosa e equilibrada fosse preparada, representada pela mulher do oitavo rei. A Cabalá ensina que os reis Edomitas eram Julgamento Puro (Guevurá vermelho) e não tinham nada de Misericórdia em si. É exatamente por este motivo que o mundo ainda não conseguia existir nesta fase. Outro dito dos sábios afirma que "No começo, Deus quis criar o mundo apenas com o Julgamento Puro. Mas Deus viu que o mundo não poderia existir desta maneira, então Ele misturou o Julgamento com a Misericórdia para que o mundo pudesse subsistir". Sendo assim, Edom simboliza um estado "não-retificado" de existência, um estado de Julgamento Puro não temperado pela Misericórdia. Edom e sua vermelhidão representam um estado anterior à existência do mundo, um estado imperfeito, de desequilíbrio e de conflitos.

Ismael

O outro povo que aparece envolvido nas profecias de Gog e Magog são as

nações representadas pelo filho de Abrahão e Hagar, Ismael, que fundou o islamismo. O nascimento de Ismael é anunciado a Hagar em Gênesis O texto parece dar importância particular ao fato de Hagar ser egípcia e frequentemente seu nome é acompanhado da expressão "a egípcia". Dizer que Hagar era egípcia implica dizer que seu filho, Ismael, também é ligado às forças do Egito que, na Cabalá, representam a escravidão. Mais do que egípcia, Hagar é apresentada como "a escrava egípcia", o que corrobora o simbolismo da escravidão. Assim, Ismael pode ser entendido como representante da mentalidade escrava, sendo o contraponto de Isaac, filho de Sara, que representaria, então, a liberdade. Mas, se Ismael é uma metáfora da mentalidade escrava, devemos nos perguntar qual é o conceito de escravo para a Cabalá. Embora o tema seja suficiente para escrever uma tese e um (ou vários) livros, dado a sua importância, tratarei o assunto de modo breve.

O tema da escravidão é recorrente ao longo da Bíblia e ocupa grande parte da narrativa mosaica. Se olharmos as passagens que tratam do "fenômeno" da escravidão, podemos concluir que ser escravo, para Cabalá, equivale a estar num estado de impotência, de desespero, de falta de possibilidades.

Na questão puramente espiritual, a escravidão e o estado de Ismael representam, assim, ter o conhecimento necessário para evoluir e, no entanto, não o fazer. Para a Cabalá, estudar um assunto é muito diferente de colocar o assunto em prática. É assim que se distingue um teórico da Cabalá de um cabalista; um teórico do cristianismo de um cristão e um teórico do sufismo de um sufista. Muitos se aproximam do conhecimento espiritual como um assunto puramente intelectual, como um assunto para ser estudado, compreendido, analisado, e tratado cerebralmente. Geralmente, estas são as pessoas que ficam apenas no nível do conhecimento, acumulando informações de maneira mais ou menos enciclopédica sobre uma ou diversas correntes espirituais do mundo. Mas, ter todo este conhecimento e não aplicá-lo isto é, não ser uma pessoa melhor e viver uma vida mais feliz equivale a estar no estado de Ismael. O próprio nome Ismaelque em hebraico se diz Ishmael tem a raiz no verbo "ouvir" (shamá, ).

O estado de Ismael simboliza, assim, aquelas pessoas que apenas "ouvem" os ensinamentos. Mas, no ramo da espiritualidade, ouvir não basta. É preciso fazer. É por isso que no episódio da entrega dos Dez Mandamentos lemos que ao se comprometer com a nova lei que era dada, o povo respondeu "Faremos e ouviremos" — ‘naassê venishmá’ — indicando a importância da ação vir antes da "audição". O mais importante é sempre fazer, não apenas ouvir. O fato de que a conduta de Ismael não é aquela a ser emulada para uma evolução espiritual pode ser aprendida do que aparece em Gênesis 17:20-21: "E sobre Ismael, te escutei. Eis que o tenho abençoado e o farei frutificar, e o multiplicarei mais e mais; 12 príncipes gerará e dele farei uma grande nação. Mas Minha aliança estabelecerei com Isaac, que Sara dará à luz para ti, neste tempo determinado, no ano vindouro." O texto diz que apesar de Ismael ter a chance de crescer e se reproduzir, de ampliar seus conhecimentos e seu domínio no mundo, a Aliança símbolo do compromisso de evolução espiritual é firmada apenas com Isaac, símbolo dos livres, dos que fazem algo. Assim, este mesmo "antagonismo" entre Ismael (escravidão) e Isaac (liberdade) reaparece depois em Rebeca, mulher do próprio Isaac, que dá a luz a mais dois filhos "polares" Esaú (Edom) e Jacó, que analisamos anteriormente. A "polaridade" representada por Ismael e Isaac, e posteriormente por Esaú (estado de Julgamento) e Jacó (estado de Misericórdia), são polaridades de nossa própria alma. São os lados de nossa alma considerados negativos Ismael e Esaú que se unirão para empreender um ataque durante a Guerra de Gog e Magog.

Continua

A Cabala e o Fim dos Tempos Parte 5

Jerusalém

Do que foi discutido, podemos ver que a Guerra de Gog e Magog é, então, uma guerra que une dois modos de vida Edom e Ismael duas atitudes da alma humana, em um conflito dividido em três partes. Esta guerra é considerada pelas profecias como um evento extremamente necessário na história do mundo antes de que se chegue à Redenção. Ela simboliza o período que antecede uma época de justiça que começaria a se estabelecer sobre a humanidade logo antes do Fim dos Tempos. A Guerra de Gog e Magog também é muito citada como um meio propício para "santificar o nome de Deus", como se vê em Ezequiel 38:16 e 23.

A guerra seria, assim, um modo de fazer com que a humanidade se lembre de que existe um Deus que rege e governa tudo. Por meio do simbolismo que começamos a analisar, se pode entender por que a guerra tem todos estes valores atribuídos a ela. A Guerra de Gog e Magog representa o conflito que se faz necessário para levar à humanidade a uma nova era, de mais justiça, de mais espiritualidade, de mais ligação com o divino. É só com este conflito que o ser humano pode realmente mudar internamente, em sua alma. Assim, este conflito "redentor" envolve, de um lado, as forças do estado de julgamento e caos representadas por Edom e o estado de escravidão representado por Ismael. Mas quem é o outro lado nesta guerra? Qual é a outra parte envolvida no conflito?

A resposta é: a cidade de Jerusalém, apontada pelas profecias, como alvo dos ataques na Guerra de Gog e Magog. Em todas as profecias sobre o assunto, Jerusalém é apontada como o elemento que sofrerá as agruras do conflito bélico e militar. Frente a isso, somos levados a analisar o simbolismo de Jerusalém como um todo dentro do imaginário da Cabalá.

O ponto de interesse da Cabalá e, portanto, da minha obra em particular, é sempre o homem. A Cabalá afirma que o homem é um microcosmos, o que quer dizer, literalmente, que ele é uma miniatura de todo o universo. E isso que simboliza a própria figura de Adam Cadmon, o Adão Primordial. É por isso que, segundo a Cabalá, todas as profecias deixadas para nós, tem, na verdade, uma perspectiva que se dirige e se foca no homem, visto como próprio centro de todo o universo. Quando os profetas falam de um período em que Jerusalém será atacada por Edom e Ismael, eles estão se referindo, na verdade, a um ataque dirigido ao próprio homem. Este ataque ocorre dentro do próprio homem e fere o seu centro interno. É o Edom e o Ismael em cada um de nós que decide atacar a nossa própria Jerusalém, nos impedindo de chegar a ela. Assim, quando alguns profetas dizem que a guerra de Gog e Magog seria necessária para fazer retornar os judeus à Jerusalém, eles estão falando, na

verdade, dos conflitos implicados na viagem feita por todos aqueles seres humanos (e não só judeus) que se dirigem ao centro do mundo. Este centro é o interno do ser humano, o centro do mundo do próprio homem. No entanto, como avisam as profecias, para viajar para este centro, é preciso lutar antes com Edom e Ismael, isto é, sair do estado caótico e escravo em que vivemos. Este centro do mundo que também é o centro do ser humano é aludido metaforicamente na Bíblia de diversas maneiras, uma delas, talvez a mais conhecida, seja a do Paraíso o Éden irrigado por seus quatro rios. Chegar ao centro significa, então, em outras palavras, chegar ao Éden. Na metáfora do Fim dos Tempos que estamos explorando, no entanto, chegar ao centro equivale a entrar na cidade santa, voltar para Jerusalém. Jerusalém é o símbolo central da viagem que o ser humano faz para dentro de si quando quer evoluir espiritualmente. Este é o sentido de redenção para o cabalista, e é isto que simboliza, ainda, a própria travessia que o povo hebreu fez do Egito a Israel.

Aprofundando-se mais no simbolismo de Jerusalém, veremos que sempre que se fala da cidade uma área especial parece ser destacada. É a região que se chama de Codesh Hacodashim, o Santo dos Santos, ou o Sancta Sanctorum, como ficou conhecido em latim.

verdade, dos conflitos implicados na viagem feita por todos aqueles seres humanos (e não só judeus)

O Codesh Hacodashim é descrito como o local mais sagrado do mundo. De tão sagrado, dele emana um raio de luz que atinge todos os cantos do mundo!

É ao redor do Codesh Hacodashim que a lei pede que se construa o Templo de Jerusalém. Para se ter uma ideia da pureza e santidade que habita neste local, a tradição nos conta que quando o Templo existia só uma pessoa podia entrar nesta área sagrada e, mesmo assim, apenas uma vez por ano: o Sumo Sacerdote, no dia do Iom Kipur. Antes de entrar no recinto, o Sumo Sacerdote precisava passar por um processo de purificação que envolvia banhos rituais e caso algo saísse errado, isto é, se o sacerdote entrasse ali em estado impuro, por exemplo, ele era fulminado e morria imediatamente, por ter profanado um local sagrado. A história nos conta que o Templo de Jerusalém junto com o Codesh Hacodashim foi destruído duas vezes pelos inimigos de Israel, mas que ele deverá ser reconstruído uma terceira vez na Era Messiânica. Assim, a ligação entre o período do Fim dos Tempos e a cidade de Jerusalém é íntima. Por isso as profecias falam tanto de voltar a Jerusalém, entrar no Codesh Hacodashim, reconstruir o Terceiro Templo todas indicações de uma viagem importante que o ser humano deve fazer ao seu centro: o seu próprio coração.

Na Cabalá, o coração é visto como a forma de expressão da mente. Uma prova disso é que no corpo humano o coração para de funcionar imediatamente após a mente cessar, o que se define por morte. Por outro lado, é o próprio coração que bombeia sangue para que o cérebro e a mente possam funcionar corretamente. Assim, o coração, na verdade, tem uma característica "dupla". Ele é sustentado pela mente, expressando-a, mas ao mesmo tempo é ele quem sustenta e nutre o cérebro, permitindo à mente trabalhar.

Assim, talvez o coração possa ser mais bem entendido como um ponto de vínculo entre a mente e o corpo. Como importante ponto de ligação da mente etérea e do corpo físico, o Sêfer Ietsirá chama o coração de "rei sobre a alma" (6:3) e descreve a experiência mística como um "correr do coração" (1:8). Indo mais longe em nossa análise, o Sêfer Ietsirá repetidas vezes fala de um Palácio que é o Centro do Mundo e que fica no meio das seis direções espaciais (os quatro pontos cardeais, mais o acima e o abaixo). Na verdade, como a Cabalá deixa bem claro algo que a física moderna descobriu recentemente, a relação entre espaço e tempo é muito forte no mundo em que vivemos. É verdade que esta relação pode ser quebrada por algumas pessoas, como os profetas e os cabalistas, embora isso não nos interesse neste momento, mas fato é que para a nossa vida cotidiana, sempre que falamos de espaço devemos falar também de tempo, ou do que hoje se chama a dimensão espaço-tempo. Assim, este Palácio que está no centro do espaço também se encontra, na verdade, no centro do próprio tempo que, deste modo, teria seis fases ou estágios, cada um representado por uma direção espacial e por um milênio, como já vimos na citação do Talmud (três períodos de dois mil anos cada), além de também aparecer em diversas citações do Zohar.

O fato de o Talmud falar dos seis milênios dois a dois mostra apenas que ele está trabalhando no eixo de oposições espaciais: norte-sul, leste-oeste e acima-abaixo. Esta medição de seis fases de tempo é geralmente trazida para indicar também a existência de uma sétima fase um sétimo milênio que indica o retorno às origens, o período sabático, a era messiânica e que discutiremos no próximo capítulo.

Na simbologia espacial do Sêfer Ietsirá, as seis direções constituem os próprios eixos que conduzem alguém ao Palácio, que é o sétimo ponto, a junção de todos os outros e, portanto, origem de toda manifestação espacial. Quando o Sêfer Ietsirá fala da ida ao Palácio, está falando, então, de voltar ao centro, mais uma vez; de ir a Jerusalém, de ir ao Templo. A própria palavra usada no Sêfer Ietsirá para falar do Palácio Hechal também é usada para designar o Templo de Jerusalém, como se vê em Isaías 6:1. Daí que este Palácio de que fala o Sêfer Ietsirá também pode ser entendido perfeitamente bem como se referindo ao próprio Templo, com o seu Santo dos Santos representando o coração humano. Se nos aprofundarmos mais no simbolismo do Santo dos Santos, veremos que ele é tido como o local mais sagrado do mundo, pois é considerado o local da própria manifestação divina o local onde a Shechiná habitava. A Shechina é a própria presença da Divindade. As passagens da Bíblia que falam desta presença são especialmente aquelas que tratam da instituição de um centro espiritual: o Tabernáculo na época do Êxodo ou o Templo na época da conquista de Israel. A própria palavra hebraica para Tabernáculo mishcan tem a mesma raiz da palavra Shechiná.

Esta é a importância cabalística de todas as passagens que mencionam a construção do Tabernáculo e do Templo. Em ambos os casos, a Bíblia deixa claro que um centro como este devia ser construído dentro de medidas e regras muito bem definidas; afinal de contas, este é o local onde o próprio Deus habitará! Todos estes detalhes e preocupação com as minúcias podem ser entendidos como um símbolo da minúcia e dos cuidados que nós mesmos precisamos ter na construção de um local central e sagrado em nós. Isso é preciso se quisermos evoluir espiritualmente. Sendo assim, construir este local central em nós é voltar a um estado primordial do próprio ser humano, ao Éden, a um estado divino, no qual o homem se vê afetado apenas por suas tradições e origens o centro do seu ser mas não pela modernidade e seus inimigos arquetípicos Edom e Ismael. Fazer esta volta ao centro é ter dentro de si no próprio coração a presença Divina, a Shechiná. É isso que significa construir o Tabernáculo e o Terceiro Templo. E é assim que, após empreender a Guerra de Gog e Magog, derrotar a Edom e Ismael, voltar a Jerusalém e construir o Templo, o ser humano chega ao sétimo milênio do mundo, a "Era Messiânica".

Continua

A Cabala e o Fim dos Tempos Parte 6

A Era Messiânica

Dentro do assunto do Fim dos Tempos e das profecias sobre o Fim do Mundo, sempre, mais cedo ou mais tarde, acaba-se chegando às profecias sobre a Redenção, a Era Messiânica e a própria figura do Messias. É com base nesta área de abordagem das profecias que se tem gerado um movimento cada vez mais forte e crescente ao redor do mundo: o movimento messiânico, ou messianismo.

O movimento messiânico, embora mais forte no âmbito religioso (e ele ocorre em todas as religiões do mundo), não se restringe só a esta área. Se entendermos o movimento messiânico como a espera de algum agente o Messias que trará o bem para a humanidade, veremos que muitas pessoas podem ser consideradas messiânicas sem sequer saberem disso. Estas pessoas são messiânicas simplesmente pelo fato de estarem esperando o seu "ungido". Assim, os new-age, os neonazistas, os marxistas e/ou socialistas, os comunistas, e alguns ufologistas podem ser considerados messiânicos, pois ficam esperando por algo (uma pessoa, um E.T., uma era, um período, um sistema) que vai melhorar o difícil presente em que vivem. Os neonazistas esperam o seu messias Führer; os comunistas esperam o seu messias fim do capitalismo e luta de classes; os ufólogos esperam o seu messias nave-mãe vir lhes buscar; os membros de partidos políticos esperam o seu messias subir ao poder; ou os new-age esperam seu messias era de Aquário ou ano de 2012. Todos os messiânicos, por mais distintos que sejam, estão esperando que algo ou alguém exterior lhes diga qual é a realidade das coisas, a "verdade", e lhes diga "o que fazer". Em última instância, todos os messiânicos estão à espera de um líder que lhes guie, lhes dê esperança e os salve, os redima. No entanto, encarar as coisas deste modo é extremamente prejudicial, e se envolver com este tipo de crença messiânica nada mais é do que delegar a responsabilidade pessoal para algo externo; é uma fuga do presente sempre sentido como doloroso em troca de um futuro idealizado e esperado como sendo melhor. É por causa de crenças como estas que, infelizmente, vemos muitos ganhando dinheiro vendendo nada mais do que esperança aos outros.

Algumas pessoas perceberam o grande negócio que é vender esperança e começaram a vender planos messiânicos para a massa. Para mim, no entanto, o mais triste não é isso, mas saber que se há quem vende essas esperanças é porque há quem esteja interessado em comprá- las. É assim que milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro dão o dízimo esperando a redenção, pagam a mensalidade ou a doação do seu grupo esperando a salvação, contribuem para um partido político esperando a solução etc. Esta espera pelo "Messias" é, na verdade, um processo de auto aniquilação; pois, enquanto esperam, as pessoas cruzam os braços, falam das

catástrofes da humanidade, e ficam na torcida para que o Messias chegue logo. Ao ter este tipo de crenças, as pessoas acham que a mudança não depende delas, e que só lhes resta esperar.

O Real Messias

O termo Messias é, quiçá, um dos mais mal compreendidos de toda a modernidade.

A origem do termo é bíblica, vindo do hebraico, Mashiach. Historicamente, este termo se aplicava a qualquer sacerdote ou rei judeu que fosse ungido com o óleo sagrado, como se vê em Levítico 4:3 "se o sacerdote ungido" e em 1 Samuel 2:10 "O Eterno julgará as extremidades da terra e dará força ao Seu rei, e exaltará o poder do Seu ungido". O termo mashiach então, significa simplesmente o "ungido", o "escolhido" Em termos modernos, a figura do mashiach é o que chamaríamos de "líder", que, por definição, pode ser político, religioso, ou de qualquer outro tipo. Existe um interessante trecho do Talmud (Sanhedrin 97a) que diz que existe um cronograma de sete anos que antecedem a vinda do Messias:

"Nossos sábios ensinaram: com respeito ao ciclo de sete anos no final dos quais o filho de David virá, no primeiro ano este versículo será cumprido:

"fiz com que numa cidade chovesse e em outra não; no segundo ano, as setas da fome serão lançadas; no terceiro ano, uma grande fome virá, na qual homens, mulheres, crianças, homens pios e sábios morrerão, e a Torá vai ser esquecida por seus alunos; no quarto ano, haverá plenitude parcial; no quinto ano, uma plenitude total, na qual o homem comerá, beberá e se regozijará, e a Torá vai retornar a seus discípulos; no sexto ano, sons (celestiais) se farão ouvir; no sétimo ano, haverá guerras; e, ao fim dos sete anos, o filho de David virá." "O Rabi Iossef objetou: Mas já passamos tantas vezes por "sétimos anos" e o Messias ainda não veio!" "O Abaie respondeu: Mas por acaso antes houve sons no sexto ano e guerra no sétimo? E, mais do que isso, os problemas vieram nesta ordem?"

Esta passagem é de uma profundidade e de um valor muito significativos! A objeção que o Rabi Iossef faz nos mostra que há algo "errado" com todas as profecias sobre o Messias. Quando ele diz que já passamos tantas vezes por sétimos anos e o Messias não veio, está dizendo que as profecias parecem estar todas erradas! O Rabi Iossef parece ser a voz que questiona a própria ideia messiânica e a crença na vinda de um redentor. A resposta do Abaie a ele é ainda mais reveladora! Ele diz: "Mas por acaso já vieram os sons no sexto ano e a guerra no sétimo? E, mais do que isso, os problemas vieram nesta ordem?" Portanto, em sua fala fica implícito que o Messias não teria chegado porque um "cronograma não foi cumprido", uma certa ordem não foi respeitada. Em outras palavras, o Messias ainda não chegou pois "os carros foram postos na frente dos bois". Da resposta do Abaie deve ficar claro que os sábios entenderam que existe um "plano em etapas" do que deve ocorrer para a vinda do Messias, e que essas etapas devem obedecer uma ordem pré-estabelecida.

Fazer o que é preciso na "ordem errada" "confundir as bolas" é a causa para o Messias ainda não ter vindo ao mundo. Então nos cabe ver qual é esta ordem discutida pelo Rabi Iossef e pelo Abaie e qual é o real significado do Messias e da Redenção o período que se inicia após a Guerra de Gog e Magog.

Messias e Liderança Vimos anteriormente que o termo "Messias" pode ser entendido como uma figura de liderança, seja ela religiosa, politica ou de outra espécie. Do mesmo modo que a escravidão é um tema recorrente do texto bíblico, a questão da liderança e da eleição dos líderes e das cabeças do povo de Israel ocupa grande parte do texto. No vasto mundo simbólico-metafórico da Cabalá, a nação israelita toda é vista como metáfora de um homem completo. Assim, do mesmo modo que o povo hebreu se dividia em 12 tribos (vide mapa na parte 4), o homem é visto como um ser com doze membros, que são paralelos ainda aos 12 signos do zodíaco e aos doze meses do ano (ver Artigo Adicional, As Tribos de Israel). Além destes doze membros físicos representados pelas tribos de Israel, a Cabalá diz que o ser humano tem cinco níveis de alma. Do mais inferior ao mais elevado eles são: Néfesh, Ruach,Neshamá, Chaia e Iechidá. Os dois últimos níveis Chaia e Iechidá são tão elevados que não se alojam em parte alguma do corpo humano. Com exceção deles, os outros três níveis se alojam cada um em uma parte do corpo humano. O cérebro é visto como a sede da Neshamá; o coração abriga o nível de alma imediatamente inferior, o de Ruach; e, por fim, a Néfesh fica no fígado. Ao pegarmos as três primeiras letras das palavras hebraicas para estes três órgãos-sede moach (, cérebro), lev (, coração) e

caved (, fígado) obtemos o termo melech (), que significa "rei".

Assim, dos doze membros do homem, três são considerados "reis" sobre todos os outros, por abrigarem os níveis de nossa alma o cérebro, o coração e o fígado. Sendo assim, estes três membros estão mais intimamente ligados à própria figura do líder eleito, do "ungido", como o era um rei nos tempos antigos. Destes três órgãos, o cérebro é o mais elevado de todos, sendo que a tribo de Judá é a naturalmente ligada à cabeça e, portanto, a que representa o cérebro. A tribo de Judá é conhecida na Bíblia por ser líder das outras tribos. É por isso, ainda, que ela é sempre considerada a principal dentre todas as tribos do povo israelita e é a cabeça do povo. Assim, a tribo de Judá está naturalmente ligada ao cérebro e à neshamá. Assim, do mesmo modo que a figura do Messias é vista como a de alguém que pode redimir o mundo; a centelha do Messias individual pode ser usada para modificar o mundo ao nosso redor da melhor maneira possível. O desejo interno de corrigir o mundo, melhorar a realidade das coisas e revelar a santidade ao nosso redor está ligada com a missão redentora do Messias interno.

Mas ainda falta questionar o que é preciso para sermos este líder ungido, este mensageiro escolhido, este Rei Messias? Como fazer o cérebro reinar o corpo?

A chave, diz a Cabalá, se encontra na Sefirá de Malchut, localizada na base da árvore cabalistica e que, não por acaso, se traduz por "Reinado".

Mas ainda falta questionar o que é preciso para sermos este líder ungido, este mensageiro escolhido,

Malchut representa o Reinado Messiânico e é o próprio Rei David o arquétipo associado a esta Sefirá. A Shechiná a presença divina que deve se assentar no mundo e no coração do homem e que discutimos na metáfora de Jerusalém reside em Malchut, segundo o que nos ensina a Cabalá. Malchut é uma síntese de todas as Sefirot da Árvore da Vida, justamente por estar no fim dela. Antes de Malchut, toda a Árvore da Vida é dividida na coluna da direita ou da Misericórdia e na coluna da esquerda ou do Rigor. Malchut, no entanto, está em um ponto central e abaixo de todas as colunas, unindo a ambos os lados da Árvore. Assim, para a Cabalá, se quisermos chegar ao Reinado Messiânico do Rei David, prenunciado por Malchut, é preciso que reencontremos estes dois aspectos humanos dentro de nós.

Os dois aspectos em nós que devem ser conjugados são o nosso lado de Justiça e o nosso lado de Amor; ou, em termos bíblicos, os braços esquerdo e direito de Deus.

Os dois tipos de Redenção e os dois Messias

É curioso ver que, na verdade, a tradição hebraica fala da possibilidade de dois tipos de redenção e de duas, e não uma, figura messiânica. O primeiro tipo de redenção é aquela que ocorreria a seu tempo, na época

em que deve ocorrer (beitá); a outra é a que ocorre de maneira acelerada (achishená), antes do previsto.

A principal diferença entre as duas, além, obviamente, do tempo em que ocorreria, é a "quantidade de sofrimento pela qual o mundo tem que passar antes de vir a Redenção propriamente dita." Segundo a visão religiosa nos diz, se o mundo se aperfeiçoar e as pessoas se corrigirem, temos uma redenção do tipo achishená, que vem antes do previsto e do planejado. Caso contrário, é preciso que o mundo passe por alguns sofrimentos e receba a redenção beitá, só quando é chegado o momento para tanto. Assim, os sábios disseram que a redenção achishená é do tipo que acontece "de repente", como que por milagre. Já a redenção beitá passa por um processo longo e difícil até se manifestar no mundo. Algumas fontes chegam a dizer que neste último caso, dois terços da população mundial poderiam vir a morrer em guerras e outros desastres naturais. Quando vemos que a tradição distingue dois tipos de Redenção, devemos entender que, dependendo da pessoa ou, antes, de sua consciência ela pode passar por uma redenção "milagrosa", na qual a mudança é rápida e repentina; ou ela pode passar por "guerras e sofrimentos" antes de encontrar a sua liberdade pessoal.

Isto significa, em outras palavras, que para assumir a sua posição de liderança e ser um Messias, a pessoa tem dois caminhos a escolher: o rápido e o lento. Associado a este tema, o Talmud nos diz que dois tipos de Messias podem surgir na história. Em Zacarias 12:12 vemos escrito o seguinte: "E a terra se lamentará, cada família à parte: a família da Casa de David e suas mulheres." Os sábios da guemará de Sucá 52a se debruçam sobre este trecho e se perguntam do que trata esta lamentação que afligirá a terra e a casa de David? Uma das opiniões trazida pelos sábios é que os lamentos serão pelo Messias da tribo de José, que será morto em batalha. Vimos anteriormente que o Messias esperado é o de David, símbolo de Malchut e de liderança judaica; mas se os sábios falam de um Messias de José, vemos que duas figuras messiânicas podem existir. Se lembrarmos da discussão das doze tribos e de sua relação com o corpo humano, podemos entender que um dos Messias é o do coração (José), e o outro é do cérebro (Judá/David). Ao comentar este tema, o comentarista bíblico Maharsha explica que o Messias de José só tem o poder de aniquilar os descendentes de Esaú; mas

como haverá muitas nações atacando a Jerusalém, este Messias será morto e a redenção completa não ocorrerá até que o Messias filho de David apareça. Daqui deve ficar claro que o Messias filho de José é um símbolo do período em que o homem está tentando se governar pelo coração, ou pelo seu nível de alma chamado Ruach. Para a Cabala, este modo de seguir na vida pode ter relativo sucesso aniquilar as forças de Esaú no entanto, o resultado acaba sendo efêmero, pois não é o coração o órgão feito para reinar. Com o coração o ser humano consegue combater apenas o estado caótico de sua vida, o seu estado não retificado. O Messias de José pode ser entendido, então, como o caminho de elevação espiritual pelo coração, que é naturalmente mais sofrido, mais longo e que, portanto, está ligado à redenção beitá, a que vem na sua hora determinada. Já o uso do cérebro, do intelecto e da cabeça, a capacidade de se tornar um líder no caminho de evolução espiritual, se constitui num caminho mais curto, que traz o Messias do Rei David, com muito menos sofrimento e que promove a redenção do tipo achishená, acelerada.

Continua

A Cabala e o Fim dos Tempos Parte 7

O Que Fazer?

Ao ler tudo o que foi dito aqui, ainda haverá quem insista em ver as profecias antigas de modo literal, esperando por uma guerra catastrófica, pelo fim do mundo e por um Messias que salve a humanidade. Não é necessário temer o início da Guerra de Gog e Magog. Ela já começou. Alguns querem nos levar a crer que as profecias de Gog e Magog são literais e que os sinais são claros no mundo: mísseis iranianos, ataques nucleares, investidas terroristas, homens-bomba, guerra no Iraque etc. No entanto, apesar de tudo isso, a Guerra de Gog e Magog é espiritual. É verdade que nossos corpos podem ser danificados facilmente na época em que vivemos, mas devemos nos preocupar mais com os danos que se dirigem e afetam a nossa alma. O ataque que devemos temer e que os profetas anunciaram com antecedência é aquele que se dirige contra a centelha de Deus que vive em nós. É o ataque contra o próprio Messias interno. Um ataque mortal à alma e à condição de ser humano é muito pior do que um ataque mortal ao corpo. Tudo o que foi exposto aqui tem por objetivo mostrar que o ser humano possui total responsabilidade pelo que acontece a si e, em última instância, ao mundo. Frente aos sinais que foram discutidos a influência da época moderna na condição de ser humano a missão redentora deve ganhar um sentido de urgência na vida de cada um de nós. As maiores tribulações que enfrentamos no mundo de hoje são, na verdade, aquelas que atentam contra a nossa própria humanidade, contra os nossos valores, contra a nossa própria essência. A nossa guerra é contra a atual situação em que vivemos: os problemas financeiros, maritais, educacionais, e a política internacional que minam a própria característica do ser humano. Nossa guerra não é um embate contra terroristas suicidas ou mísseis lançados do Oriente Médio. Talvez, ao invés de planejarmos retaliações ao Irã, que podem levar a uma Terceira Guerra Mundial, estaríamos muito melhor se estivéssemos planejando uma missão universal de crescimento humano. E aí sempre surge a pergunta: mas, então, o que fazer para isso? Eu diria que o problema está justamente em esperar que se deva "fazer" algo. O "fazer" físico não tem nada de especial, não é isso que leva o homem a lugar algum. O fazer deve ser espiritual. A tendência humana é querer fazer e muitos acham que para mudar o mundo é preciso fazer: fazer revoluções, fazer guerras, fazer passeatas, fazer protestos etc. Mas o fazer, repito, não leva a nada e, neste ponto, somos como os animais: eles fazem diversas coisas e não por isso são mais ou menos animais.

Se os ataques dirigidos a nós afetam o nosso nível de humanidade, que é algo extremamente interno, o fazer pode remediar apenas situações externas a nós. O fazer atua somente no mundo externo e pouco, ou nada, muda internamente. O que devemos buscar é como restaurar este nível interno que foi perdido. Sendo assim, a questão mais pertinente aqui seria: existe algo que é propriamente humano e que deve ser perseguido como ideal para o tempo em que vivemos? Obviamente, sim, e este algo é o conhecimento. Isso fica claro do que já discutimos. É o cérebro humano, sede da Neshamá, que distingue o humano e que fundamenta a sua existência. É com o cérebro que recebemos o Messias. Então, do ponto de vista da Cabalá, em vez de procurar "o que fazer", "que ações tomar" e "que atitudes adotar", deveríamos perguntar: "o que estudar?", "o que conhecer?", "que tópicos discutir?" Quando perguntaram ao Rabi Simeon ben Pazzi o que fazer frente às ameaças do fim do mundo, ele disse que aprendeu do seu mestre, o Rabi Joshua bar Levi em nome do Bar Kapara, o seguinte: Todo aquele que faz três refeições no Shabat é salvo de três punições: as dores do parto do Messias, o julgamento do inferno e a Guerra de Gog e Magog (Talmud, Shabat 118a). Qualquer pessoa de bom senso deveria se perguntar como é que fazer três refeições no Shabat pode salvar alguém de uma guerra, do inferno e dos sofrimentos do Fim dos Tempos. Dizer que as três refeições do Shabat salvam a alguém é igual a dizer que ir à missa, fazer a circuncisão, jejuar, ou qualquer outro "mandamento" religioso é a chave da salvação. O que o Rabi Simeon ben Pazzi quis ilustrar é que para ser salvo dos três castigos do Fim dos Tempos é preciso se ater à sua tradição, e nada mais. E isso é feito, antes de mais nada, com o estudo, com a sabedoria e com o conhecimento de suas raízes. Isto é, com o autoconhecimento e o auto aperfeiçoamento. (Ver Artigo Adicional, Os Modos de Evolução Humana.

Epílogo

Vivemos numa época que os profetas chamaram de Fim dos Tempos. Esta época é caracterizada principalmente pelo aparecimento de uma visão de mundo Moderna, por oposição à visão da Tradição. Dentro deste panorama, se desenvolve uma Guerra de consequencias enormes, nas quais combatem o Povo de Israel o lado de nossa alma que quer evoluir e Edom e Ismael, símbolos do lado de nossa alma que quer nos ver presos em um estado de caos e servidão. A luta de Israel é em nome da evolução espiritual, dos valores, da sacralidade das coisas. A luta do outro lado é contra estes valores e em prol do mundo moderno. Os inimigos de Israel sabem que perder esta batalha traz a Redenção e, consequentemente, a chegada do Messias, o que implica no fim do lado de Edom e Ismael.

Continua

A Cabala e o Fim dos Tempos Parte Final

Artigos Adicionais

1 - A Idade do Mundo

Um dos assuntos mais discutidos quando se fala de religião e ciência é a questão da idade do mundo. Esta é uma das maiores contradições entre a teoria do texto bíblico e a teoria científica moderna. O universo tem bilhões de anos ou alguns milhares de anos, como diz a Bíblia? Para ser mais específico, a Bíblia diz que o Universo tem pouco mais de 5.700 anos. Já a ciência, com a ajuda do telescópio Hubble, diz que o Universo tem cerca de 15 bilhões de anos. Em 1959 foi feita uma pesquisa com os maiores cientistas americanos. Entre as perguntas feitas a eles, estava: "Qual é a sua concepção para a idade do Universo?". Em 1959, a astronomia era popular, mas a cosmologia - o campo da física que estuda a origem do universo - estava só engatinhando. A resposta que os cientistas deram a esta pergunta acaba de ser republicada na Scientific American. Dois terços dos cientistas entrevistados responderam algo do tipo: "Não podemos falar de idade do Universo pois o Universo não teve início e nem terá fim. O Universo é eterno, como Aristóteles e Platão ensinavam a 2.400 anos. Apesar de a Torá dizer que houve um "começo", sabemos que isso não é verdade". Seis anos mais tarde, em 1965, Penzias e Wilson descobriram o eco do Big Bang e o paradigma mudou: o Universo deve ter tido um início. Depois de 3.000 anos, a ciência concluiu o que a Torá já dizia há tempos. Mas a questão mais importante ainda é: quando este "começo" aconteceu? Há 5.700 anos ou há 15 bilhões de anos? A primeira coisa que devemos entender é onde se baseia a Torá quando diz que o mundo tem 5.700 anos. Esta cifra é contada a partir da criação de Adão. Mas antes de Adão surgir, houve seis dias de criação que também são importantes e não entram na conta dos 5.700 anos. Assim, o ponto zero da contagem do tempo para o judaísmo é a criação de Adão, considerada a data do Rosh Hashaná, o ano novo judaico. Mas todos os sábios do Midrash concordaram que o Rosh Hashaná comemora a criação do homem e "deixou de lado" os seis dias da criação. Então, em seguida, os sábios se perguntam o óbvio: por que estes seis dias foram deixados de lado na contagem do calendário? A resposta deles é: porque o tempo é descrito diferentemente nestes seis dias, por meio da frase "e foi tarde e foi manhã". O fato de o tempo ser descrito assim apenas nos seis primeiros dias indica que a contagem de tempo era feita de um modo diferente ao que se usou depois da criação de Adão. Além disso, no Talmud (Chaguigá, capítulo 2) os sábios deixam bem claro que toda a porção do início do Gênesis até o capítulo dois é uma parábola que não deve ser entendida literalmente. Sendo assim, é interessante analisar o que houve nestes seis dias.

E sempre que se fala deste debate, vem à tona o que está escrito em Salmos 90:4: "Ante Ti, mil anos são como um dia que passou". Este versículo dos Salmos deixa claro que talvez a perspectiva de tempo seja diferente entre os humanos e o mundo espiritual. Isso sempre chamou a atenção dos sábios. Uma outra "inconsistência" do texto que sempre chamou a atenção dos sábios foi que, ao relatar os dias da criação, a Torá diz que houve um "dia um", mas não fala de um "dia dois", "dia três" etc; ela fala de "segundo dia", "terceiro dia" e por aí vai. Por que a Torá diferencia o primeiro dia chamando-o de "dia um" e não de "primeiro dia", seguindo a lógica usada com os outros dias? Nachmânides, o comentarista bíblico, explica que esta diferença no texto existe para ensinar que neste dia, no dia um, o tempo foi criado. Ou seja, apesar de contarmos o tempo a partir do sexto dia, o tempo foi criado no primeiro dia. A observação de Nachmânides é impressionante! Qualquer leitor da Bíblia poderia dizer que a matéria, o espaço, e o Universo foram criados de um "início", mas dizer que o tempo - algo imaterial - também foi criado, é chocante! Nachmânides estava falando do que Einstein viria a falar 800 anos depois, de que no Big Bang houve a criação não só de espaço e matéria, mas do tempo! Segunda a Teoria da Relatividade, o tempo é uma dimensão como o espaço. Por isso, do ponto de vista físico moderno, é incorreto falarmos que vivemos em um mundo tridimensional ou 3-D (altura, largura e comprimento), mas que vivemos em um mundo 4-D (as três direções espaciais mais o tempo). Mais do que isso, Einstein ensinou que como o tempo está ligado ao espaço, o tempo é relativo. O tempo passa de maneira diferente - mais rápido ou mais devagar - dependendo do local (o espaço) em que se encontra o observador deste tempo. Para entender isso melhor, vamos ver um exemplo: imagine um planeta no qual o tempo é tão alongado de modo que quando se passam dois anos na Terra, só três minutos se passaram naquele planeta. Se uma pessoa de, digamos, 22 anos, viajasse para este planeta e passasse três minutos ali, quando ela voltasse para a Terra(supondo que a viagem não leva tempo algum), quantos anos esta pessoa teria? A resposta é: 22 anos e três minutos. Mas as pessoas que nasceram juntos com este viajante e que ficaram na Terra teriam 24 anos. As pessoas da Terra envelheceram de 22 para 24 anos, e o viajante envelheceu de 22 anos para 22 anos e três minutos, pois ele estava em outro espaço e, portanto, sob a ação de outro tempo. Se estando no planeta este viajante olhasse para a Terra, ele veria que tudo estaria se movendo muito rápido, porque nos seus três minutos de estadia ali teriam que ocorrer os eventos de dois anos terrestres. De modo inverso, se nós na Terra olhássemos para este planeta, as coisas pareceriam muito lentas por lá. Demoraria dois anos para se dar um evento que ali ocorreria em três minutos.

Mas a questão principal aqui é: quanto tempo realmente se passou nesta viagem? Dois anos ou três minutos? A resposta correta é: as duas coisas. Ambos os tempos estão passando simultaneamente, e tudo depende do ponto de vista adotado, se o do viajante, ou se o das pessoas que ficaram na Terra. Hoje se sabe que se pudéssemos atingir a velocidade da Luz - 300 milhões de metros por segundo - o tempo não passaria. Nesta velocidade também não existiria matéria, mas apenas energia. E foi isso que ocorreu justamente no início da criação.

O Universo todo estava concentrado em um ponto de alta densidade, cheio de energia, que explodiu e se expandiu gerando a matéria. Quando falamos que o universo tem 15 bilhões de anos, está implícito que isso é medido conforme as nossas coordenadas espaço-temporais na Terra. Pode muito bem ser que quando o Universo era compacto e denso, na hora do "início", passaram-se apenas seis dias até que o homem surgisse, se adotarmos a perspectiva da luz, da energia e da matéria. Aplicando-se as teorias da cosmologia moderna, que inclui os efeitos da relatividade, sabemos que à medida que o Universo se expandia, a contagem de tempo ia sendo diferente, por causa da relação entre espaço e tempo. De modo geral, cada vez que o Universo dobra de tamanho, a percepção de tempo cai pela metade. Quando o Universo começou a se expandir no Big Bang, fica claro que ele estava dobrando de tamanho rapidamente. Quando ele foi ficando maior, o tempo para ele dobrar de tamanho também é maior. Assim, sabemos que o Universo possui uma taxa de expansão exponencial. Se formos aplicar estes conceitos cosmológicos ao texto bíblico, teríamos o

seguinte:

  • - Se o primeiro dia bíblico durou 24 horas, a contar do ponto de "início", da

nossa perspectiva na Terra isso equivale a 8 bilhões de anos.

  • - Se o segundo dia bíblico durou 24 horas, na nossa perspectiva ele durou

metade do dia anterior: 4 bilhões de anos.

  • - Se o terceiro dia bíblico durou 24 horas, ele também equivale a metade dó dia anterior: 2 bilhões de anos.

  • - O quarto dia de 24 horas: um bilhão de anos.

  • - O quinto dia de 24 horas: meio bilhão de anos.

  • - O sexto dia de 24 horas: um quarto de bilhão de anos.

Somando tudo, chegamos a uma data de 15 e 3/4 bilhões de anos para o Universo, o mesmo valor que a ciência moderna aceita como correto hoje

em dia. Será uma coincidência? Mas a coisa não para por aí!

É sabido que a Torá se preocupa em detalhar o que aconteceu em cada um dos dias da Criação. Então, nós podemos ir além e usar a cosmologia, a paleontologia e a arqueologia para olhar a história do mundo e ver se as épocas do mundo correspondem às seis etapas narradas no texto do Gênesis.

Não vou me aprofundar neste tema, mas vou deixar uma dica: os fatos da ciência e da Torá são próximos o bastante para causar espanto.

2 - Abrahão

Segundo os cálculos da Torá, Abrahão teria nascido em 1948 a contar da criação do mundo e teria vivido 175 anos (Gênesis 25:7). Há mais de 200 tentativas de sábios judeus relacionarem a cronologia bíblica com datas históricas, mas a mais famosa é a tentativa tradicional que coloca Abrahão vivendo de 1812 a 1637 a.e.c. Segundo o Livro dos Jubileus (às vezes chamado "Gênesis Menor"), um texto de aceitação bíblica polêmica, Abrahão teria nascido 1.876 anos após a criação do mundo e 534 anos antes do Êxodo do Egito. Uma terceira opinião, do Seder Olam Rabá (ver tabela adiante) diz que Abrahão nasceu em 1976 a.e.c. Apesar destas datas tão exatas trazidas pelas fontes, o que se pode afirmar com um pouco menos chance de erro é que Abrahão deve ter nascido e vivido nos primeiros anos do segundo milênio a.e.c. Grande parte do problema em datar os eventos bíblicos com o calendário atual é que a Torá parece medir a passagem do tempo por meio de genealogias, gerações, períodos de reinado e outros modos, mas não por anos do modo como concebemos o ano. Nas primeiras páginas do Gênesis, o método preferido de contagem do tempo são as gerações. O texto afirma que certa pessoa viveu tantos anos, teve um filho e morreu com tantos anos. Nestes casos, somando os anos de cada geração posterior se teria, então, o total de tempo que se passou. Posteriormente, a passagem dos anos começa a ser contada por eventos relatados no texto, como, por exemplo, o Êxodo do Egito, a construção do Templo etc. Os fatos do período monárquico de Israel (do X ao VII século a.e.c) são os mais fáceis de datar historicamente e de comparar com as pesquisas da história. Mas eventos mais distantes, como o nascimento de Moisés, o Êxodo ou até mesmo o Dilúvio, tem sido debatidos por muito tempo sem que se chegue a um consenso de datas. Mesmo assim, podemos ver que alguns números parecem ser mais importantes no relato bíblico da passagem do tempo: 12, 40 (considerado uma geração) e 480 (12 gerações de 40 anos). Outros números que aparecem frequentemente nos anos de vida das pessoas são 100, 60, 20 e 10. Segundo o Seder Olam Rabá, um livro que se propõe a narrar e datar a história do mundo, os eventos chaves da Torá e suas respectivas datas históricas são:

Não vou me aprofundar neste tema, mas vou deixar uma dica: os fatos da ciência e
3 - Livros Fundamentais Uma das coisas que mais confunde algumas pessoas (judias e não-judias) ao

3 - Livros Fundamentais

Uma das coisas que mais confunde algumas pessoas (judias e não-judias) ao ouvir falar do Judaísmo é o nome dos livros mais importantes. O texto mais importante para o Judaísmo é a Torá, também chamada de Pentateuco, e que compreende os cinco livros de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Além destes cinco livros, os judeus consideram importantes outros 19 livros (vide lista adiante), chamados em conjunto de "Profetas". Por fim, outros 11 livros que não são da Torá e nem dos Profetas, mas que são chamados de "Escritos" são essenciais ao Judaísmo. A reunião dos cinco livros da Torá, com os 19 livros dos Profetas e os 11 livros das Escrituras se chama Tanach, uma palavra formada das iniciais hebraicas de Torá, Profetas e Escritos. É o Tanach que corresponde ao que se chama de Antigo Testamento ou Bíblia Hebraica. Do ponto de vista judaico, no entanto, o mais correto é falar de Bíblia Hebraica e não de Antigo Testamento, pois se afirmamos que existe um Antigo Testamento, fica implícito que existe um Novo Testamento. Mas os textos do Novo Testamento não são partes das escrituras judaicas. O Tanach, por oposição aos próximos livros que veremos, é muitas vezes chamado de "Torá Escrita".

Livros dos profetas:

Josué Juízes Samuel Reis Isaías Jeremias Ezequiel Os Doze (tratados como um só livro) Oséias Joel

Amós Obadias Jonas Mihá [Miquéias] Nahum Habacuc Tsefaniá [Sofonias] Hagai [Ageu] Zacarias Malaquias

Livros dos escritos:

Salmos Provérbios Jó Cântico dos Cânticos Rute Lamentações Eclesiastes Ester Daniel Ezra Neemias Crônicas

O Tanach por si só, apesar de ser um livro fundamental para os judeus, muitas vezes é vago demais quando se trata de definir as leis e costumes da vida judaica. O Judaísmo ensina, então, que junto com a Torá Escrita no Monte Sinai, Moisés recebeu também uma Torá Oral, uma série de conceitos explicando como se interpretar os textos escritos. Ao receber este corpo de ensinamentos, Moisés foi ensinando a pessoas escolhidas do povo tudo o que precisava, de maneira oral. E assim os ensinamentos continuaram a ser transmitidos, de geração em geração, junto com o texto escrito da Torá. No entanto, com o passar do tempo, os judeus que detinham esta tradição oral começaram a ver que ela estava se perdendo. Frente às novas circunstâncias, o povo judeu vinha esquecendo ou confundindo ensinamentos da tradição oral. Sendo assim, por volta do ano 200, o grande sábio Rabi Iehudá Hanassi resolveu compilar este ensinamento que estava a ponto de se perder em um livro escrito, que ele chamou de Mishná. A Mishná foi dividida em seis volumes - chamados de "ordens" - que, por sua vez, contém tratados, no total de 63 tratados. Desta época em diante, um judeu religioso estudava, portanto, todo o Tanach, e os seus comentários interpretativos na Mishná. Com o passar do tempo, os sábios começaram a perceber que mesmo com a Mishná escrita, os judeus não mais conseguiam ler e interpretar o texto bíblico sozinhos. Sendo assim, novamente os sábios da época se reuniram e compilaram um texto de comentários da Mishná, com o intuito de torná-la mais acessível. Este texto foi escrito por volta do ano 500 (três séculos depois da Mishná) e foi chamado de Guemará.

Portanto, a partir do ano 500, um judeu religioso já possuía três textos básicos a estudar: Torá, Mishná e Guemará. Para facilitar as coisas, um grupo de sábios resolveu unir a Mishná e a Guemará em um único volume, já que ambos os livros eram comentários interpretativos da Torá. Esta união dos dois livros foi feita por volta do ano 600 e recebeu o nome de Talmud. Mas, na verdade, existem dois Talmuds: o Talmud de Jerusalém e o Talmud da Babilônia, que recebem estes nomes pelos locais em que foram compilados. Como o Talmud da Babilônia é mais completo e tem uma organização melhor entre os textos da Mishná e Guemará, este é o mais estudado entre os judeus e, geralmente, ele é chamado simplesmente de Talmud, sem fazer distinção com o outro volume.

Portanto, a partir do ano 500, um judeu religioso já possuía três textos básicos a estudar:

4 - Tora

A palavra Torá é uma das mais comuns do Judaísmo, mas, ao mesmo tempo, uma das mais difíceis de definir, dada a sua larga acepção e os diversos significados que ela pode adquirir em diferentes contextos. No seu sentido mais restrito, Torá é o nome dado aos cinco primeiros livros do Tanach - Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

A palavra Torá provém da raiz iud-resh-hê () que significa "ensinar",

como aparece em Levítico 10:11: "e para ensinar aos filhos de Israel todos os estatutos de que lhes falou o Eterno por meio de Moisés". Portanto, o significado mais amplo da palavra é o de "ensinamento", "doutrina", "instrução". Por ser um ensinamento basicamente passado de geração a geração, pode- se entender a palavra Torá como significando especificamente o "ensino tradicional" ou "ensino de uma tradição". Assim, é comum que se fale, por exemplo, da "Torá de Moisés" (Josué 8:31-32, 23:6 e 1 Reis 2:3), significando "o ensinamento da tradição de Moisés". É por este motivo que hoje, no hebraico moderno, Torá se tornou sinônimo de "teoria" ou hipótese de alguma linha de pensamento, como as ciências. Por exemplo, no hebraico moderno se fala da "Torá" da Relatividade de Einstein, da "Torá" Quântica da Física Moderna ou da "Torá" Marxista do Capital. Assim, quando os sábios falam que vivemos numa época de abandono de Torá, eles não estão falando do sentido estrito da palavras, mas da falta de conhecimento tradicional que vem se demonstrando na modernidade.

5 - Países envolvidos na guerra de Gog e Magog

A profecia do Malbim sobre a Guerra de Gog e Magog diz:

"Ezequiel profetizou que no Fim dos Dias todos os povos lutarão por Jerusalém. De um lado estarão guerreando o Egito, a Assíria e Elam, que são os ismaelitas; e do outro lado estarão Meshech e Tuval, e os príncipes de Edom e os reis do Norte.

E todos matarão uns aos outros, mesmo entre irmãos, e vários tombarão. E do outro lado estarão a Pérsia, Etiópia e Pot, e sabemos que todos

(

...

)

estes são circuncisados e ligados à religião de Ismael."

Por causa das referências explícitas ao Egito, Assíria, Elam, Pérsia, Etiópia e Pot, muitos cabalistas tentaram definir qual é o sentido metafórico de todos estes inimigos do povo de Israel. Mesmo os religiosos e os que optam por uma visão literal, debatem para tentar definir quem seriam as nações citadas pelo Malbim. Segundo a Bíblia, os três filhos de Noé - Ham, Shem e Iafét - foram os responsáveis por repovoar o mundo após o Dilúvio. Deles, Shem foi o filho mais importante nesta tarefa. Shem viria a ser o pai da linha semítica (daí a origem da palavra), originando, portanto, os hebreus, os sírios e os arameus, por exemplo.

Um episódio que começa a ser narrado em Gênesis 9:21 se torna fundamental para entender a história do povo de Israel e a sua relação com os outros povos, todos descendentes de Noé, bem como as profecias do Malbim.

Segundo o que nos conta a Bíblia, em algum momento após o Dilúvio, Noé plantou uma vinha e com o seu fruto produziu vinho pela primeira vez na história do mundo. Noé bebeu do vinho, se embebedou e começou a dançar nu dentro de sua tenda. Enquanto fazia isso, um de seus filhos, Ham, viu o seu pai nu e contou a seus dois irmãos o que vira. Segundo a análise bíblica, Ham fez mais do que "ver" a nudez de seu pai. Mas, sem entrar em detalhes sobre isso, o texto deixa implícito que Ham agiu de maneira desrespeitosa com o pai, indo contar aos dois irmãos o que tinha visto, achando graça da cena. Esse episódio fez com que Noé, depois de ébrio, amaldiçoasse os descendentes de Ham. Shem e Iafét, os outros dois filhos, ao contrário de Ham, entraram imediatamente na tenda do pai, de costas para ele, para não vê-lo pelado, e cobriram o seu corpo nu. Assim se estabeleceu uma importante distinção entre os futuros descendentes de Noé.

Ham

Ham é pai de Canaan, que, na verdade, é o objeto das maldições de Noé quando ele desperta de sua embriaguez. Como Ham era seu filho direto, Noé não consegue amaldiçoá-lo, e assim,

ele amaldiçoa o seu neto, Canaan, que recebe a sina de ser um servo para os outros dois filhos de Noé - Shem e Iafét. Assim, embora a maldição não seja dirigida a Ham diretamente, ela afeta a seus descendentes por meio do seu filho, Canaan. Além de Canaan, Ham foi pai de Cush, Mitsraim e Pot. Três de seus filhos, com exceção de Canaan, participariam na Guerra de Gog e Magog segundo o Malbim. Cush foi o filho de Ham que se estabeleceu na atual Etiópia. O filho mais famoso de Cush foi Nimrod, o responsável por construir a Torre de Babel. O nome Cush indica algo "queimado", "torrado" e, portanto, a cor preta como no carvão. Sendo assim, Cush representa o pensamento obscuro no qual o homem por vezes se vê preso. Mitsraim (Egito), seu outro filho, é um dos que mais aparecem no texto bíblico e que está ligado ao lado de escravidão em nossa alma, o lado de nossa alma que tem o potencial para se elevar espiritualmente e não o faz. A palavra Mitsraim é etimologicamente ligada à palavra hebraica Tsar (),

significando "estreiteza" e "limitação" de alma. O seu próximo filho, Pot, teria sido o que se estabeleceu na atual Líbia e redondezas do noroeste africano. Seu nome tem duas etimologias possíveis, ambas representando lados negativos de nossa alma. Pot pode vir do verbo "Pat", que significa encontrar-se encurralado, sem saída, sem alternativas. E, por outro lado, Pot pode vir do verbo Lepatpet, que significa "falar demais", "tagarelar", ou ainda "mexericar". Deste modo, o envolvimento de Pot na Guerra de Gog e Magog estaria indicando o quanto precisamos combater o lado "mexeriqueiro" e "tagarela"

de nossa alma se quisermos evoluir espiritualmente, evitando viver a vida como se estivéssemos "encurralados" e sem saída.

Iafét

Dos três filhos de Noé, Iafét é o único cujos descendentes não aparecem como inimigos de Israel na Guerra de Gog e Magog. Isso indica que a descendência de Iafét representa potenciais de nossa alma, ou coisas com as quais não devemos nos preocupar, pois não atrapalham a nossa evolução espiritual. Talvez por isso, a descendência de Iafét seja a menor e a descrita com mais brevidade na Bíblia. Em Gênesis 9:27 aparece uma interessante observação sobre Iafét:

"Aumente Deus a Iafét e habite em tendas de Shem, e seja Canaan servo deles." A palavra "aumente" é uma tradução pouco usual do palavra hebraica

"Patach" (), etimologicamente ligada ao próprio nome de Iafét ().

"Patach" poderia ser melhor traduzido como "abra" ou "alargue", no entanto, ao contrário de "Rachav" (), que indica um alargamento físico

e geográfico, como ganhar um território. "Patach", a bênção que Iafét recebe, parece estar ligada a um alargamento mental. Assim, Iafét pode ser visto como o filho com a mente mais aberta de todos, sendo assim, seus descendentes também o seriam e, por isso, são os únicos a não participarem na Guerra de Gog e Magog. Iafét e seus descendentes representam, então, o lado de nossa alma que é intelectualmente curioso, que estimula o pensamento, que explora novas ideias e princípios. Iafét representa o nosso lado "mente aberta", o nosso lado que não possui preconceitos e que vê a humanidade como um grupo único e particular.

Shem

Os descendentes de Shem começam a ser descritos em Gênesis 10:21. Como visto, Shem é o filho de destaque de Noé, sendo o mais encarregado de repovoar o mundo após o dilúvio. Shem teve cinco filhos: Elam, Ashur, Arpachshad, Lud e Aram. Os dois primeiros aparecem como envolvidos no conflito de Gog e Magog. Elam é o primogênito de Shem e pai dos Elamitas, um povo precursor dos Persas. Os Elamitas são citados frequentemente no texto bíblico, geralmente para indicar a sua influência e poderio. Por exemplo, no capítulo 14 de Gênesis, Kedorlaómer, rei de Elam, é mostrado como rei de uma confederação de reis da região de Israel, devido ao grande poder que ele detinha.

Elam parece vir etimologicamente de ayin - lamed - mem (), a raiz

hebraica que significa "ocultar" ou "esconder". Assim, Elam parece ser o lado de nossa alma mais oculto de nós mesmos, o mais secreto e inacessível e, por isso, justamente o mais poderoso, pois nos influencia sem que nos apercebamos dele. Elam pode ser o que modernamente se costumou chamar do nosso "lado sombra", o nosso lado sabotador. Por fim, o último povo a participar da Guerra de Gog e Magog são os Assírios, descendentes de Ashur, segundo filho de Shem.

Como no caso dos Elamitas, os descendentes de Ashur, os Assírios, acabam se tornando um grande e poderoso império na região de Israel. O nome Ashur vem da raiz hebraica de Ishur (), que significa "permissão", "licença" ou "concessão". Assim, Ashur parece representar o lado de nossa alma que frequentemente nos dá permissão de fazer certas coisas, mesmo que saibamos que não deveríamos fazê-lo, ou mesmo sabendo que segundo normas aquilo é proibido.

6 - Sete Reis de Edom

Os sete reis de Edom são mencionados em Gênesis 36:31. Estes reis - que a Torá faz questão de dizer que morreram - representam o Mundo do Tohu (do Caos) que existia antes do nosso mundo ser criado. O oitavo rei citado é o único cuja morte não aparece registrada na Torá, indicando, então, o começo da existência deste nosso mundo. O texto literal diz:

"E estes são os reis que reinaram na terra de Edom, antes que houvesse um rei aos filhos de Israel. E em Edom reinou Béla ben Beor, e o nome de sua cidade era Din'hava. E Béla morreu, e reinou em seu lugar Iovav ben Zérah, de Botsrá. E Iovav morreu, e reinou em seu lugar Husham, da terra dos Temaneus. E Husham morreu, e reinou em seu lugar Hadad ben Bedad, o qual feriu a Midian no campo de Moav, e o nome de sua cidade era Avit. E Hadad morreu, e reinou em seu lugar Samlá, de Masrecá. E Samlá morreu, e reinou em seu lugar Shaul, de Rehovot-Nahar. E Shaul morreu, e reinou em seu lugar Báal-Hanan ben Ahvor. E Báal-Hanan ben Ahvor morreu, e reinou em seu lugar Hadar; e o nome de sua cidade era Páu, e o nome de sua mulher, Mehetavel bat Matred, neta de Me-Zaav."

Como se vê, nesta passagem a Torá cita os oito reis, os sete que morreram, e um oitavo, Hadar, que não morreu e que, além disso, tem o nome da sua mulher mencionado (Mehetavel). Como sempre na Cabalá, os nomes das coisas não são fortuitas, em especial quando se tratam de personagens bíblicos. A análise hebraica dos nomes sempre podem trazer lições importantes para nós. Sendo assim, vamos analisar a origem dos nomes dos reis de Edom, representando estados incapazes de existir no mundo:

Béla ben Beor - Béla (), em hebraico, significa "engolir", "tragar" ou "absorver" algo. Ben significa "filho de" e Beor () pode estar ligado à raiz Biur (), que quer dizer "limpeza pela queima", "incineração". Assim, Béla ben Beor parece indicar o lado de nossa alma que quer "engolir" e "consumir" diferentes coisas por meio do desejo excessivo e o apego a estas coisas, representado, muitas vezes, pelo fogo.

Iovav ben Zérah - Iovav () está ligado à raiz hebraica que significa "chorar", "prantear" (). E Zérah () está ligado a Lizroach (), verbo que indica "brilhar", "ganhar luz".

Assim, Iovav parece representar o lado de nossa alma que consegue evoluir e "brilhar", mas somente à duras penas, por meio de muito esforço e em meio a lágrimas.

Husham - Este é um dos poucos reis cujo nome do pai não é mencionado. Mas o seu nome é deveras ilustrativo e significa literalmente "tolo", "bobo", "pateta", que se diz exatamente Husham (). Este rei indica as pessoas que não possuem as condições intelectuais suficientes, ou o interesse intelectual necessário, para evoluir espiritualmente.

Hadad ben Bedad - Hadad () vem de "hed" (), que significa "ecoar" ou "responder por eco". Bedad () vem de "boded" (), significando "sozinho", "isolado",

"recluso". Além do próprio nome ter uma ressonância que lembra o eco - Hadad ben Bedad - ele parece indicar o ser humano que vive uma vida isolada e que só recebe respostas do mundo por meio do eco dos sons que ele mesmo produz. Esta é a pessoa que se fecha em si mesma e que só consegue ouvir à sua própria voz ecoando dentro de si, mas que não tem abertura nenhuma para se relacionar com o ambiente ao redor e com outros, aproveitando isso para crescer espiritualmente.

Samlá - Outro rei cujo nome dos pais não é mencionado. Seu nome parece estar ligado à "Simlá" (), que significa "vestido" ou "túnica". Embora ofereça proteção, a túnica esconde a verdadeira identidade da pessoa, e pode ser usada como disfarce, para aparentar algo que não somos. O mesmo ocorre com algumas pessoas que, em nome da proteção, preferem se vestir atrás de camadas e camadas de roupagem, em vez de se mostrar desnuda, como realmente é, sem barreiras. É interessante notar que o nome de Samlá () é praticamente o mesmo nome de outro rei muito famoso, mas com as duas letras do meio invertidas, Salomão (). Por oposição a Samlá, o nome de Salomão significa "completude", "inteireza" e "paz de espírito".

Shaul - O nome deste rei também pode ser lido como "Sheól" (), o

nome que a Torá dá ao mundo dos mortos que fica abaixo da terra. O nome também pode indicar "abismo". Curiosamente, este também é o nome de outro famoso rei de Israel: Saul, antecessor de David. Dos três principais reis de Israel - Saul, David e Salomão - Saul realmente representa o estágio mais básico de ser humano e o que tinha mais coisas a corrigir em sua existência terrestre. Além disso, de todos os reis, Saul é o único que realmente chega a ter contato com o mundo dos mortos quando, por meio de uma necromante, conversa com o profeta Samuel.

Assim, Shaul parece representar o lado de nossa alma que se envolve com o oculto, o subterrâneo e o que é, muitas vezes, proibido.

Báal-Hanan ben Achvor - Baal () significa "dono", "possuidor" ou "proprietário". Hanan () é ligado a "Hen" (), que significa "misericórdia" ou "graça". Achvor () tem a mesma raiz de "rato", "camundongo" ().

Assim, Báal Hanan ben Achvor é, literalmente, o rei que tem a graça de um rato. O nome pode ser entendido como uma ironia, mas também pode indicar uma espécie de totemismo - em que um rato é louvado como se fosse um deus. Neste último caso, este rei representaria as pessoas de fé e crenças deturpadas, que endeusam coisas que por natureza não são elevadas.

Hadar, casado com Mehetavel bat Matred, neta de Me-Zaav - Hadar é o único nome "positivo" dos reis, indicando a culminação do processo cosmológico e uma boa qualidade dos seres humanos e do mundo. Hadar () vem de "brilho", "esplendor".

O nome de sua mulher não é menos revelador. Mehetavel () é etimologicamente ligado a "bom", "belo",

"maravilhoso" ().

Como o nome vem acompanhado do final "el", pode ser entendido como "A quem Deus fez o bem". Matred significa "ocupação" ou "preocupação". E "Me Zaav" significa, literalmente "águas de ouro". Assim, este rei indica o brilho, e a bondade que aqueles que se "ocupam" do caminho espiritual recebem. O nome ainda parece indicar que este brilho e bondade podem ser comparados a "águas de ouro."

7 - As Tribos de Israel

As doze tribos de Israel ocupam um importante papel na metáfora narrativa bíblica e revelam lições sobre diversos assuntos. Dentre eles, um dos mais importantes é a relação que se pode fazer entre as tribos e as partes do corpo humano, e entre elas e os signos do zodíaco e meses do ano.

Assim, Shaul parece representar o lado de nossa alma que se envolve com o oculto, o

8 - Os modos de Evolução Humana

Basicamente, existem três modos que uma pessoa pode usar para melhorar como pessoa.

1) Imitação A pessoa se espelha em uma ou mais pessoas que ela considera um modelo de vida e tentando imitá-la total ou parcialmente, ela vai melhorando como ser humano. Este modo é usado, por exemplo, quando um aluno se espelha em seu mestre e tenta imitar os seus atos para viver uma vida mais saudável e melhor. Apesar de eficiente, a imitação é um modo cômodo demais e, portanto, um tanto quanto passivo demais. Embora a pessoa possa melhorar pela imitação, na verdade isso não está sendo fruto total de seus esforços.

2) Experiência Este método é o mais utilizado hoje em dia pela maioria dos seres humanos. Consiste simplesmente em ir vivendo a vida e ir adquirindo experiência das coisas que acontecem. Assim, pessoas que passaram por muitas coisas na vida tendem a ser consideradas gente de mais experiência frente às outras. É daqui que vem a ideia de que se deve respeitar e valorizar os mais velhos, pois eles têm mais experiência. No entanto, é preciso dizer que nem sempre isto corresponde a verdade. O método de melhoria por meio da experiência depende muito do indivíduo, ou antes, do que ele faz frente aos fatos da vida. Uma pessoa pode passar por diversas experiências na vida e ainda assim sair dos fatos vividos exatamente igual ao que era. Por outro lado, uma outra pessoa pode passar por poucos eventos "marcantes", mas com o pouco que viveu e experienciou, pode adquirir muita sabedoria e força para se melhorar como ser humano. Embora muito usado hoje em dia, melhorar por meio da experiência não é a melhor opção pois este é basicamente um método de tentativa e erro. Sendo assim, este pode ser um método de evolução um tanto quanto lento, em que a pessoa precisa passar por muitas experiências antes de elevar um pouquinho o seu nível humano.

3) Razão O último modo que o ser humano tem ao seu dispor para melhorar é o uso do cérebro, a razão. Por meio da razão, uma faculdade distintiva do ser humano, o homem tem o caminho mais seguro para melhorar. Para a Cabalá, este é o método mais indicado - o melhor - a ser usado. A grande vantagem da razão é que ela nos permite melhorar sem que tenhamos que passar por uma certa experiência. Por exemplo, eu posso analisar a situação de vida de um amigo meu e as coisas pelas quais ele está passando e com essa análise, com o uso da minha razão, eu tiro lições que servirão para a minha própria vida.

Mesmo que eu não queira usar um referencial externo, por meio da razão eu posso estudar e analisar fatos da vida e por meio deste estudo melhorar como pessoa, mesmo sem vivenciar o fato ou me espelhar em alguém. Por exemplo, eu posso estudar o que é o amor e o papel dos relacionamentos humanos. Por meio deste estudo eu adquiro sabedoria suficiente para cultivar e ter relacionamentos mais significativos na minha vida. Se continuarmos neste exemplo do amor e dos relacionamentos, repare que se a pessoa optasse pelo modo da imitação, ela teria que se inspirar em alguma pessoa que ela considera boa em relacionamentos e precisaria tentar agir como ela. Se ela preferisse usar o modo da experiência, ela teria que ir vivendo os relacionamentos da vida e através dos sabores e dissabores do convívio humano, ir acertando às suas atitudes e as medidas para se relacionar melhor com os outros.

Por: Yair Alon