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(ies DA SILVEIRA eee ATR J [No comero do séeuo - em 905 asc em Macei6 ua menina Nise ~ qe anos depois ta esudar Medl- Cina a Baba, onde se forme emt 36 ‘im Salvador, fzendo sua tee de fu de curso, ivestigona vida em um resilo de mutheres e tve entzo 0 Drimeiro conta com doentes men Nasa al a Dra, Nie da Sie, ‘que revluconaria 0 ratamento de ena ment eiando em 19 & sgh de terapautiea ocupacinal no centr Paquito Pedro no Rio de Janeiro, © muscu de imagens do Inconsciente em 1952, € mas tarde, em 136, Casa das Paletras. Seu trabalho tnsprou a ciao demu seus, cetrs clara nstiusces Priqutrcas no Brasil eno exterior, Fo responsive pela introfugio dt pricologa jungulana no Bras Sempre rebelde © revoludonaea, suns posts levaramna a ser pest 0 dia 26 de outubro de 1996, ro residio da run Fret Canes, onde exteve ao ado de figuras como Ole Benito, Mara Weeneck Graciano Ramos, que eta 0 prinero encom tro entre os dls no tizo Memoria do carcere: No patamar,abixo de meu obser ‘até, wna cortina de fon oc | Praga Veet poe | Cartas a Spinoza NSE \A SILVEIRA Francisco Alves 1 1905 Nise da Siveira Reservas todos os direitos. Neshuma parte desta cra pote ser reproduida, trmsmiida por qualguer proceso Slasénica au scinto, feroopinds oa ratada sem StorizagSo expres do editor” capa 387 Ana Laisa scored Fororata Paulo Marcos Mendonca Lims Revit Henrigie Tamapoiky, Blisabeto Muniz, Marcelo Effasia Editeracto: Parle Informatica ISBN 65.265.0358-8 Inmpreso no Brasil Printed Brasil Apresentacao Introdugao As Cartas I 0 Tl 9 17 31 45 63 7 87 99 A Marco Lucchesi, diletissimo APRESENTACAO Um Bilhete as Cartas As cartas sao veiculos por exceléncia da intimidade, estio além da imagem, s4o con- ‘versa com o outro sem vaidade. E, quando nos pomos além da vaidade, criamos. E ao criar, reverenciamos 0 outro, fundamentalmente. A filosofia brota de uma irredutivel inti- midade com 0 Set, num certo sentido € so- ‘mente intimidade. Por isso, pode ser graciosa, pode ser ousada, Como Dra, Nise. Nise sonha alto, Sonha passear com Spinoza, © no passeio fazer ligacoes, espanto- sas ligagoes, ligagbes que nos abrem o mundo dda espantosa unidade. Mundo do encantamen- to € do rigor. Poesia a passear nas alamedas douradas do mundo, a descobrir relagao em tudo, a brindar a tudo sua infinita dignidade. E, assim, a ser simples e profunda, Cartas a Spinoza — que livto bora! Ler um filosofo € passear com o namorado pelas ruas de Amsterda, inventando o mando no mais preciso rigor. Ave Nise! Pedro G. Pellegrino 9 | I | INTRODUGAO, De Nise a Spinoza: Uma Cultura Etica ‘Quando Nise da Silveira publicou Jmagens do Inconsciente, a psiquiatria tradicional foi aba- tida sem piedade. Foi um marco. Um livro ex- traordinario, de um singularidade tal, que cau- sou espanto ¢ admiracio, Fruto de anos e anos de intensa pesquisa, escrito numa prosa exem- plar, as Imagens perturbaram pela rara e estra- nha beleza, Era uma dendincia total, sem meias ppalavras, Seus autores foram fixados com mes tia, Jamais esqueceremos de Carlos, Adelina, Otivio, Fernando, Emygdio, Rafzel, cujas his- térias comoventes aproximaram-nos de Michkin, Raskolnikov, Policarpo Quaresma, transitando no vasto Cemitério dos Vivos. O asilo era posto em xeque. Nise escrevia a His- t6ria dos Subtirbios, da exclusdo, recuperan- do-a, contudo, em sua dupla dimensio de sta~ u Cartas a Spinoza tus politico ¢ ontolégico, sobrepostos, como se depreende, por exemplo, do tema da casa, vis- ta através de Fernando: “Menino pobre, cria- do junto a sua mae, modesta costureira, em promiscuos casardes de cémodos, aspirava a habitar uma casa somente dele, lugar intimo € seguro. Esta casa jamais exist, A casa de Fer- nando foi uma casa onfrica. Ele no a sonhou vista de fora. Imaginou-a no interior, onde pudesse levar uma vida aconchegante e secre- {a O aleance de sua obra encontra-se no bi- némio preciso a que nos referimos. Nise sabe que a sociedade €, por si s6, um imenso hospi- tal, onde a disciplina, a ordem, a exclusio do prazer, 0 abuso da moral impdem a todos a légica do capital, mas nao se esquece dos inu- meraveis estados do ser, dos outros arrabaldes cada ver mais perigosos, como the inspirou Antonin Artaud. “Inagens veio antes do tempo. £ uma espécie de preficio critico de um livro futuro, i fir, escri- to por quanto historicamente cingiu-se ao pé-de- ‘pagina, eque agora pass integra a mancha de papel. Abivngrafia em lugar do caso. E 0 psiquiatra _asuiindo a undigio de w-autor oude keitoraten- toasvozes de seus antigoshéspedes compulsérios, silenciados por teriveis expedientes. Um preficio que implique, na expressio de Agnes Heller, mu- dara vida, encerrando o triste capitulo do Hos- 12 } | | | pital. Graciliano leria Imagens com indisfarcivel emogio, tragando os raios da Caralampia, em caajos céus Carlos acena para a Barca Solar Britho do Principio-Horus. ‘As Carlas @ Spinoza adequam-se a esse mundo, Profunda conhecedora do fil6sof, ha- bituada a freqienté-lo, como ele uma contracorrente, empenhada no estudo dos sig- nos, coloca-se ao lado dos mais eminentes es- tudiosos brasileiros, tais como Farias Brito, Alcantara Nogueira, Livio Xavier, Marilena Chaui, entre outros. Apoiadas em Gebhardt e Deleuze, servindo-se, porém, de um itinerério préprio, as Cartas contém sua marca inconfun- divel, vazada num estilo de confronto e de wto- pia. O livro fundamental é a Etica e Spinoza € seu mito, Voz, legenda e destino, como afitma Montale, cada capitulo é uma conversa incisi- ‘va, amorosa, entretecida com os fios da me~ moria, de Maceid, da Faculdade de Medicina, da Sala 4, do Engenho de Dentro. f bem Nise por Nise. Figura ¢ Personagem no arco da ‘apientia barthesiana. As Cartas sao 0 espelho sutil de sua vida ¢ de sna obra, com aquele vigor descrito nas Memérias do Cércere. Spinoza € 0 ‘Tu, O Hospital ¢ o topos. AGeometia, um pro: jeto, um conceito de seguranga. Clara pres {a da Totalidade, que Spinoza chama de infi- nito, reportando-se a0 disefputlo Mayer. Temos 13 Cartas a Spinoza assim a base mais geral do seu trabalho na psi- quiatria, o sentimento do mundo ¢ os prinet- pios gerais do /magens do Inconsciente. As Car- {as sio uma das chaves para o entendimento de sua obra. O emblema Nise da Silveira assume a literatura en- quanto visio do mundo estruturante, arquetipica, mas sobretudo como lugar da transgressio e da Esperanca, como arremata Bloch. A literatura nao é mera ilustracio do saber médico, embora o critico e o psiquiatra possam tristemente coincidi, como aves de ra- pina, ao tornar doente o corpo sobre o qual se debrugam. Forma de conhecimento, entreme- ada de esséncia e aventura, 0 espaco literdrio € 0 espaco do risco absoluto. Da Criagio, do Inconsciente. As Cartas a Spinoza so um exem- plo cabal disso, Do peso da literatura, que elide © cixo espaco-tempo, num encontro mediado pelo signo: “Ainda ontem a noite pensei mui- to em vocé, mergulhado na contemplacio do Doutor Faustus, ou imével, diante do Filésofo com o livro aberto, olhos perdidos muito além das letras, ranqiilo, sentado ao lado de uma cescada que se alonga em movimento espiralado nao se sabe para onde”. A exceléncia da litera- {ura consiste nisso, na superacio do intervalo, fixado justamente na imagem da escada, mis- teriosa ligacio entre Nise ¢ o Filésofo. u De Garlos a Spinoza, ébrios de Deus (Gottbetrunken), dos cies Baleia e Sertanejo, da Casa Verde ao Engenho de Dentro, de Maceié a Rijinsburg, a marca de um tempo aion, do intervalo supervel. As Cartas sio o melhor tes temunho de uma cultura ética, generosa, consubstanciada em Nise da Silveira. Marco Lucchesi Carta! Mr caro s Voce é mesmo singular. Através dos sécu- los continua despertarclo admiragées fervoro- sas, oposigées, leituras diferentes de seus livros, no s6 no mundo dos fildsofos, mas, curiosa- mente, atraindo pensadores das mais diversas Areas do saber, até despretensiosos leitores que insistem, embora sem formagao filos6fica (€ este é 0 meu caso), no dificil e fascinante estu- do da filosofia. Mais surpreendente ainda é que, & atra- io intelectual, muitas vezes venham juntar-se sentimentos profundos de afeicio. Assim, Einstein refere-se a vocé como se, entre am- bos, houvesse “familiaridade cotidiana”, De- 19 Cartas a Spinoza dica-the poemas. O poema para A Btica de Spinoza’ transborda de afeto: “Como ew amo este homem nobre/mais do que passo dizer por palavras”. E este belo soneto de Sully Prud'homme exprime sentimentos de terna devocio: Cétat un homme don, de chetive santé (Qui, tout en polisant de veres des lunetes, Mit essence divine enformales tris nats ‘Sinetes, que le monde on fut cpoucante, C2 sage demonstrat, aveesiplict Que leben tee mal sont antiques mets, Ecles libres moves dhumbles marionettes, Dont le fl est aus mains dela necesité. Pie aimiratewr de a Szinte Keriture ns voulait pas vor un Diew contre nature, A giv fa Synagogue en rage ¢ppoca Lain delle polissant des vere des lentes, Maida ls savantsd compter les plates, Cait un homme dons Baruch de Spinoza? ‘Talver voc® se surpreenda em saber que o ‘maior escritor brasileiro, Machado de Assis, es- creveu para vocé um soneto: Tatra 5 a 2 BANDERA Mas ie dg Noa eR 20 Carta 1 Gosto de verte grave ¢slitario sob o emo de esqualida candeia, nas nos a forramenta de operirin, @ na cabega a coruscante ieia. E enguanto 0 pensamento delineia tuna filsofa, 0 io didrio ‘a tua mao a labutar granjeia fachas na independéncia o teu salivio, Soem li fora agitagiese lutas silileo bafo aspérrimo do inverno, tic trabalhas, tu pensas,eexecutas sébrio, rangiilo, desvelado eterno lei comum, e mores, e transmutas ‘0 suado labor no rémio eterno. E até um mestre budista, Maida Sebi também escreveu versos para vocé: Gate fo bie Pg Pel sevi torBida chamade Spv emo ore tr Bia Some st do Grn es sind qe di btn sto pe de tp, Td eh 300 Spina ha 30, Feet a sera am Eran de Buona, Cartas a Spinoza Aguele homem ‘nnan cantinho de sua cidade viven como artesdo polidor de lentes, vivew aulenticamente a Verdade! Nao sei de fil6sofo algum a quem tenhai sido dedicadas poesias ou comovidas evocacbes de encontros decisivos. Ha, naturalmente, os eruditos, € esta é a maioria, os conhecedores € interpretadores de sua obra, olhada de angu- los diversos. A.esses nada acontece de realmen- te importante. Mas ha, também, outros que ‘vocé marcou no cerne do ser. Goethe permaneceu em reclusio durante meses para estudar a Btica ¢, a partir dai, pas- sou por um processo de transformacio. "Na Etica de Spinoza encontrei apaziguamento para has paixdes; pareceu-me que se abria ante meus olhos uma visio ampla e livre sobre 0 mundo fisico e moral. A imagem deste mundo é transitoria; desejaria ocupar-me somente das coisas duradouras e conseguir a eternidade para meu espirito, de acordo com a doutrina de Spinoza”.! Deu-me prazer anariagio que faz Romain Roland do encontro com voeé, quando ainda adolescente. Ele vinha sendo, como bom fran- TC URBRARDT Cac non ie ona 10, pA 22 tarta 1 és, “nourri de la moelle cartesienne, pendant deux 3 trois années”... Mas, continua ele, 0.ca- minho natural do espirito levou-me a Spino- za, diretamente, instintivamente, tal um cio pelo olfato na trilha de duas ou trés palavras. E diz da intensa emogio sentida quando lew seus escritos, Muitos anos depois, os volumes que 0s continham permaneceram para ele “li- ‘ros sagrados”.! ssim, através do tempo € dos hugares, vocé foi fascinando grandes, pequenos, pequenissimos. E, correndo mundo, seu Livro maior — a Etiea — chegou as minhas maos, numa pequena cidade do nordeste do Brasil, chamada Macei6. Parece incrivel. Eu estava vi- ‘vendo um perfodo de muito sofrimento e con- tradicées. Logo as primeiras paginas, fui atin- gida, As dez mil coisas que me inquietavam dis- siparam-se quase, enfraquecendo-se a impor- tancia que eu thes atribufa. Outros valores im- punham-se agora. Continuei sofrendo, mas de ‘uma maneira diferente. F desde entio, desejo intensamente aproximar;me de voce, como disefpula e amiga. Este é 0 motivo por que Ihe escrevo essas cartas. “Tenho para mim que vocé vivencion de sibi- TTHOTTAND Rin aide spine, i Eons du Sab, 23 pO Cartas a Spinoza toa experignca da totalidade, “a mais importante tinea de todas as experiencasepinas"! \ Mas como exprimir em palavras algo to assombroso? tao voce nos fla de uma substincia nie cacujoconceitonio necesita de qualquer ov tra coisa para sua formmulagio. E aquilo que é, ou seja, Deus, ser absolutamente infinito, enfeixando infinidade de atribatos, cada tim dios quaisexprime uma esséncia eterna einfi- rita, Todas as coisas existentes so modes, isto 6, modificagdes,afecgoes da substanca, m0 podem ser concebidas sem a substincia ou fora Ga susbstincia, sua causa imanente. Aexistén- cia dos modes € preciria. Existem ou deixam de exist, enquanto 6 eterna a substincia. (Os humanos Seriam mos, Mas me pare- ce que, pelo menos a estes mods, os humanos, voce concede uma latente capacidade de dite. Tenciagio e esforgase, através de toda a iia, para ajudictosa se diferenciarem de mancira Especial, reformando o entendimento, traba- Ihando idéias confusas, a fim de tornécas cla- ras, indicando-Thes ocaminho para libertarem- se da escravidiio das paixdes © mesmo atingi- TURE, Gat Ginn: Ltn, Now Jersey inet University Prens 1975 vo 2, p62 ey Carta t rem abeatitude. Esta arte de diferenciagio, que ‘voc’ propée, chega ao ponto de admitir a pos- sibilidade de um modo, perecivel por defini- co, saltar, gracas a assiduo trabalho, de sua instavel condicio de existéncia para conquis- tar a eternidade. Seria um verdadeiro pulo olimpico. Ouso até propor para seu livro magnum o subtitulo: “Arte de diferenciagio do modo humano”. Estarei dizendo um absurdo? ‘Acconcepcio que vocé tem de Deus, causa imanente ¢ nio transitiva de todas as coisas, confandiu muita gente. Insultos pessoais, de- turpacoes grosseiras de suas concepgdes, rétu- los de panteista, de ateu. Ateu, voce, para quem. amor devotado a Deus deve ocupar 0 espi- rito acima de tudo” (V, XVI), amor completa- mente depurado, que nada pede em troca, se~ quer o amor do grande amado (V, XIX), Quanto a mim, repito com Novallis, que vocé é “um homem ébrio de Deus”. Outros negam-Ihe originalidade. Referem influéncias sobre seu pensamento, partindo de Uriel da Costa, Daniel Prado, Giordano Br no. Decerto, todos sufieus a influéncia da épo- ca em que vivem. Seu vocabulirio bem 0 de~ monstra para desespero de seus leitores de hoje. Mas, essas influencias, por fortes que se~ jam, podem contribuir para modelamentos de 25 Cartas a Spinoza formas expressio, Entretanto jamais conse- sguiriam provocar profundas transformagoes da visio do universo, segundo aconteceu a voce. Em compensacio, outros Ihe compree! deram, no todo ou em parte, admiravam ¢ es- ‘reveram livros € mais livros sobre a sua filoso- fia. Quero apenas perguntar se vocé tem noti- cia de um filésofo do’Terceiro Mundo, chama- do Farias Brito. Ele aprendeu sua idéia funda- mental de maneira mais sintética: “Deus esta no universo como o universo esta em Deus” Farias Brito vé em vocé um pensador isolado. Escreve: “sua filosofia apresenta-se na hist6ria do pensamento com a mesma importancia com ‘que se apresentaria em vasto deserto uma gran- dle montanha de cristal dominando o alto ena ‘qual bateriam em cheio 0s raios de sol” = ‘Agora vou continuar; entrando num assun- to dificil. Talvez tenham ocorrido, para abrit caminho a sua grande vivencia original, cir- ccunstincias especiais de sua vida: — Vocé nao aceitou, desde ainda muito jovem, os rigidos ensinamentos dos mestres do Jjudaésmo e foi, por isso, expulso da comunida- ‘de judaica como um maldito. — Suas tentativas de atividade no comér- [TT HRTTO Fav Pld Manda, Race ani INE, 1975, 26 Carta l cio de exportacio, legado por seu pai, fracas- —E, mais ainda, o amor pela filha de sent professor de latim trouxe-Ihe amarga decepcio. Perdoe-me se toco em assuntos pessoais delicados. Receio aborrecer voce, sempre tio discreto, Mas se o faco é movida por um dese- jo deo conhecer melhor: Greio que me encan- ‘taaimagem que vocé escolheu para seu sinete: ‘uma rosa e, em torno da flor, as palavras — Cumnano, Eb TeNno esmvuos, Nao seriam cer- tamente espinhos para ferit, mas espinhos para manter & distincia indiscretos que pretendes- sem aproximacio impertinente. Haviam sido cortadas todas as amarras, nenhum apego Ihe retinha. Vocé estava livre para receber, em todo o seu esplendor, aemer- séncia da experiéncia interna da totalidade e, a partir daf, desdobré-la numa visio unitéria do universo, que acredito ter sido vivenciada por vocé, a ponto de ousar pedir-lhe permis- so para abordé-la usando conceitos e vocabu- lario que me sio familiares. ‘Um concurso de circunstancias adversas, aceitas por voce sem qualquer crispagao do Ego, criaram um vazio que permitin 0 surgimento da profundidade da psique, do arquétipo do Self — “um termo de uma parte bastante preciso para exprimir a esséncia da 7 Cartas a Spinoza totalidade humana e bastante impreciso, de ‘outra parte, para exprimir também o cardter indescritivel e indeterminavel da totalidade” 3, Jung, 12, 10) Ao arquétipo do Self, no seu cardter indeterminado, vocé teria denominado s tiincia infinita, ou seja, Deus. Deus na acepeao de Natura Naturans, energia criadora englobante do mundo na sua totalidade. Muitos fildsofos devem ter pressentido & aspirado a este encontro com 0 arquétipo do Self. Na Experience Métaphysique, Jean Wal diz. {que os grandes fil6sofos intufram mais ou me- nos vagamente a existéncia de algo para além de si préprios e tentaram exprimir e alcangar teste algo por caminhos diversos.' “Em Spinoza, a visdo intelectual do uni- verso apresenta-se de um s6 golpe quase per feita”, escreveu Karl Jaspers? “Também aqui aconteceu que muitos po- derio ser chamados e poucos os escolhidos. ‘Uma coisa me perturba e quase me causa vertigens: €a sua afirmacao de que Deus con- siste de uma infinidlade de atributos, dos quais © entendimento humano apenas alcanga dois TWAT Fan prin ni ai Pain, 165 2 Yast a: nnd Me, Pn 1p. 28, 28 Carta — pensamento ¢ extensio. Teremos, pois, de reconhecer as limitagdes de nosso entendimen- to, na condigéo de modos da substincia infini- ta, Em carta a Oldenburg (XXXID), vocé com- para o homem a um verme que vivesse no san- gue. Este verme poderia discernir os globulos do sangue em circulagio constante, mas nao conheceria a natureza do sangue na sta totali dade. "Assim vivemos nés numa parte do univer- so. Poderemos realizar pesquisas em torno de nds ¢ em nds mesmos, mas no alcangaremos a compreensio da natureza infinita, pois so- mos finitos. Conhecer as limitagées para entio tentar supera-las, eis 0 belo itinerdrio que voce nos aponta. Gratissima, mestre! Nise. 29 Carta Il Me canto Srinoza, A vida em Amsterda, depois da absurda excomunhio ¢ de outros dissabores, devia ter sido bastante penosa para vocé, apesar da aco- Ihida que desde logo Ihe ofereceram os Colegiantes, esse curioso grupo de cristios, que reunia individuos interessados na interpreta- io da Biblia, estudiosos de filosofia cartesiana, e ainda outros, abertos a fontes neoplat6nicas a obras de misticos como Jacob Boehme. Foi no cfrculo dos Colegiantes de Amster- da que vocé encontrou Ambiente para expor suas idéias sob a forma ousada em que jé se apresentavai no esboco do Breve Tralado, fon- te onde eu gosto muito de beber. 38 Cartas a Spinoza Mas creio que deveria ainda haver algo de hostil no clima de Amsterda quando voee, em 1660, decidiu mudar-se para a aldeia de Rijinsburg, centro dos Colegiantes, Ali voce es- taria tranqgilo para pensar, Conviveria num ambiente cordial. ‘As veres chego a imaginar-me em Rijinsburg, invisivel ouvinte do efrculo dos Colegiantes, que voct ali freqaentava. Era um prazer vélo, 208 28 anos, moreno, de cabclos ¢ olhos escuros, os olhos que deveriam ser se- melhantes aos de sua mie, a portuguesa Ana Débora. Tenho quase cetera de que as prime as palavras que voc® balbuciou foram em por- tugués, Eso me comove Ali estava vocé, no meio de homens lou- ros ou ruivos, que o escutavam surpreendidos etalver mesmo perturbados, Essa inhas ima ginagBes o acompanham até o fro s6ta0, onde Yoce habitava nuin quarto alugado, Parece-me ‘é-lo debrugado sobre sua mesa de trabalho, ituminada por lampada de luz hestante, tras balhando e retrabalhando pensamentos ¢ sen- timentos nascidos de sua experiencia deta da uinidade. Lembrei-me entéo desses versos de Baudelaire, embora fossem trangiias as ruas a Rijinsburg es6fosse ouvido.o sopro de ven tanias flgidas: 34 Carta IL “Lemeute tempitant vainement a ma vite ne fora pas lever mon front de mon pupitre, car je erai plongé dans cette voluplé, éooquer le printemps avec ma volonté de tirer wn soleil de mon coous, et de faire ddes mes pensées brilantes une tide atmosphere Carateristica muito simpatica dos Golegiantes é nunca haverem exigido de voce a.adesio ao cristianismo, ao batismo, nem que vocé aceitasse a encarnacio do Deus infinito num homem. Mas nao deixa de surpreender voce ad- miitir que “Pode ser que Deus tenha impresso ‘em vos uma idéia clara d’Ele mesmo, de modo ‘que, por amor, vés esqueceis o mundo ¢ amais 0s outros homens comoa v6s mesmos. Em todo ‘caso, é evidente que a um homem dotado de tal disposi¢io repugne tudo quanto é chama- do de mal e, por esta razo, 0 mal nao pode existir n'Ele” (Carta XXIII a Blyenbergh — Voorburg 1665 — O.C,, p. 1220). Esse homem bem poderia ser o Cristo. E talvez algo semelhante haja acontecido a ou- tos raros seres humanos. Muito provavelmen- te avvocé, querido amigo. E inegavel que a doutrina de Cristo tenha marcado seu pensamento, principalmente na primeira etapa de suas cogitacées floséficas. 35 Cartas a Spinoza Assim, na introdugio do Breve Tratado, voc® diz que visa a “curar aqueles que se acham doen tes em seu entendimento por meio de um es- pirito de dogura e paciéncia, segundo o exem- plo do Senhor Cristo, nosso mestre maior” (0.G,,71).E, bem mais tarde, no Tratado Teolé- ico Politico, publicado em 1670, vocé escreve: 1u nao li em lugar algum que Deus tenha aparecido ao Cristo, ou que Ihe tenha falado, ‘mas 0 texto ensina que Deus se revelou aos apéstolos pela intermediagio do Cristo © que Ele € a via da salvagio, ao passo que a Lei anti- ga havia sido transmitida por uma voz ecoan- do no ar, mas nao imediatamente... Por conse- guinte, se Moisés falava face a face com Deus, como um homem com seu semelhante (isto 6, pela interposigio de seus corpos), 0 Cristo, ele préprio, comunicou-se com Deus de espirito a espirto. Em conclusio, nés deckaramos que, & €x- ego do Cristo, ninguém recebeu jamais a re- velagio de Deus sem 0 auxitio da imaginacio, isto é, de palavras ou imagens visuais" (CTP, oe, 681) . ‘ Gostei muito de ler essas suas palavras, por- «que sou muito amarrada 20 Gristo, Pegohe per- dio por @lastranscitotiolongamente numa carta ‘voc mesmo, Mas isso me deu prazer. Entre os Colegiantes de Rijinsburg, como 36 Carta It _jahavia acontecido no grupo de Amsterda, voce fez. grandes amigos, Uma carta de Simon de Vries (Carta VIII) bem demonstra 0 contato mantido entre os dois grupos. Além de Simon de Vries, outro amigo delicadissimo foi Jarig Jelles, firme até a morte. Eainda o editor Juan ‘de Rieuwertz, Balleing, para nao citar outros. Vooé, que tanto amava a solido, a meditagio, tinha o dom de fazer amizades slidas, Insisto nisso porque é coisa rara. Quase sempre as ami- zades sio instaveis e deixam na gente tracos dde magoa. Pergunto-me mesmo, se, entre os mais figis de seus amigos, todos entendiam a profundeza de sua filosofia, Nao tenho divida de que sta personalidade, sua atitude para com o outro, irradiassem algo como a forca do ims, vinda do amago de seu se Voeé polia lentes. Comentam alguns que teste trabalho era feito como um oficio, como meio de manter a vida. Mas outros 0 negam. Sua subsisténcia modesta estava assequrada por amigos fraternos (Vries). As lentes eram poli- das a fim de serem utilizadas em seus préprios trabalhos cientificos, tal como faziam varios sé- hiios da época. E possivel queealgumas fossem vendidas, pois seriam procuradas por sua per feigao, mas néo como meio de subsistencia Aqui fago uma hipstese. O polir lentes obede- ce a leis geométricas. Vocé as polia com pra- 37 Cartas a Spinoza Carta IE zer, usando as prOprias aos. Divertiu-me 0 que vocé diz, em carta a Oldenburg, a propé- sito das lentes polidas por Huygens que “se dedicou e se dedica inteiramente ao polimen- todas lentes; em vista disso, ele construiu uma bela maquina para a fabricacio de varias len- tes. Eu nao sei ainda quais tenham sido os re- sultados, ¢, com efeito, nem sequer me inte- resso. A experiéncia, em verdade, mostrou-me suficientemente que com a mio é possivel po- liras lentes esféricas muito melhor e com m: or seguranga do que lograria uma maquina’ (Carta XXXI1, Voorburg, 1665) Vocé. admitiria a possibilidade de existir uma relagio estreita entre o polir de lentes, com as préprias maos, dentro de regras geo- métricas, e as transformagées que fizeram do Breve Tratado, iniciado em Amsterda —a Evica —construida sob forma geométrica, sem ces- sar, polida e repolida, ate 1775? 'Nosso Machado de Assis percebeu algo dessa relagio quando disse num soneto, que jé citei na carta anterior: “nas maos a ferramen- ta do operdrio/no cérebro a coruscante idéia’, Dando um passo a mais, ver-se-A ficar transparente, em vocé préprio, relagio estrei- ta entre pensamento e corpo (stas mais) tra- balhando, cada um em sua clave, numa perso- nalidade bem integrada, 38 Foi no retiro de Rijinsburg que voce ¢s- creveu 0 Tiatado sobre a Reforma do Entendimen- to, Desejei muito este seu livro, mas s6 conse- gui anos depois de ja ter comigo a Etica. As- sim, foi uma grande alegria quando 0 encon- trei, Nas primeiras paginas fiquei logo como- vida Iendo 0 que vocé diz.de si proprio, de maneira tio discreta, mas que deixa transparecer um softido e profundo trabalho interior. ‘Sem maior demora, segue-se a exposi de seu método de filosofar, téo ligado & sua ‘maneira de viver. ‘Amigo, vocé nem avalia a onda de lem- brancas que logo se ergueu dentro de mim. Revieme quando ainda ginasiana. Depois de prestados meus exames de algebra e geo- metria no Liceu Alagoano (Macei6), logo no inicio das férias, eu estava um dia arrumando meus livros: separei os volumes de algebra, _geometria e cadernos correspondentes, guar- dei-os num armério proximo de minha peque- na mesa de estudo (era linda essa pequena ‘mesa com seus elegantes pés volteados), € co- oquei sobre ela livros de fisica, quimica e his- {dria natural, que seriam as matérias no ano letivo seguinte, de acordo com os programas daquela época, ‘Meu pai estava perto, sentado numa ca- 39 Cartas a Spinoza deira de balango. Parecia totalmente absorvi- do na sua leitura. se: Fn om sutpres. que ous perguntar- —Vocé vai recolher seus livros de geome- wwia? 5 — Sim, agora terei outras matérias par estudar. ms —Lamento, porque geometria nao é uma ‘matéria como as outras. Néo é apenas 0 estu- do das propriedades das figuras. Ensina a arte de pensar. Meu pai, em poucas palavras, mostravac ‘me uma perspectiva nova de estudo. Eu tinha nna ocasido quatorze anos de idadle, mas me fe- riu a expressio “arte de pensar” Peguei logo meu preferido tratado de geo- metria € coloquei-o a0 lado dos livros progra- mados para. tltimo ano de preparatérios, con- forme se dizia naqueles distantes tempos. Le- vei-o também comigo para a Bahia, onde fui fazer 0 curso médico. De quando em vez, abria-o a0 acaso ficava seguindo linhas tracad: las no espace, que conduziam sempre a demonstragdes exatas, Assim, cedo tomei o hibito de pro- curar ordenar e deduzir, embora niio con- seguisse chegar ao clissico “como queria- mos demonstrat” esbarrasse tanta, an 40 Carta I tas vezes, diante de portas misteriosas, Nas ciéncias biolégicas as coisas so muito com- plicadas. ‘Nessa época eu estava longe de supor que ‘meu pai havia me impulsionado para 0 segun- ido género de conhecimento, conforme voc® o des- ‘reve: conhecimento dedutivo regido pela ra- Yio, que deixa para tris o “ouvi dizer” ou as “experiéncias vagas” do primeim género de co- anhecinento Muito mais tarde, quando comecei a estu- dar apaixonadamente sua filosofia, embora de rmaneira dispersiva, verfiquei o quanto ainda ‘mais dificil que a pratica do segundo género de fonkecimento ser a penetragio para além da ‘adeia de operacées intelectuais dedutivas, até {que se consiga atingir 0 lrceir género de comhe- Ginento, ou seja, a apreensio imediata da es- séncia das coisas. Foi um relimpago deste ditimo género de conhecimento que deslumbrow Antonin ‘Artand, quando ele de subito descobriu o Ser da abelha: “/ai va un Etre, celui de Pabeille vivre, cela me sulfite pour toujours”. Vivencias Semelhantes jé aconteceram a muitos outros misticos, poetas, pintores, mtisicos © mesmo a homens e mulheres comuns em instantes pric vilegiados, que parecem etemnos, mas quase sempre sio fugazes. 41 Cartas a Spinoza ‘Voce visa transmitira maneira de aleangar a «esséncia das coisas com maior estabilidade. Para galgar esta escalada, seu método en~ sina que sera necessario, preliminarmente, “uma meditacio assidua ea maior firmeza de propésitos”, além de tracar uma regra de vida € prescrever para si proprio um objetivo bem determinado” (Carta XXXVI, a J. Bauwmester), O pensamento deter-se-4 sobre uma idéia verdadeira, pois “deve existir em nds, como instrumento inato, uma idéia verdadeira” Neste dificil caminhar, quanto maior for o né- mero de idéias verdadeiras, ou seja, das essé cias das coisas existentes, compreendidas pela reflexio, mais se ampliara o espirito daquele que pratica este método. F, sobretudo, acen- tua voce, 0 método alcancaré maior perfeigio quando 0 espirito se aplica ao conhecimento do Ser absolutamente perleito (Tratado da Re {forma do Entendimento, 39), Desde 0 inicio, pois, ‘convira dedicarmo-nos a chegar 0 mais rapi= «lamente possivel ao conhecimento daquele Ser (49 TRE), Nao sei se o entendo bem. Mas nio cons g0 aceitar que voeé seja um extremado racio- nalista, segundo se repete habitualmente. $6 em Jaspers encontrei um justo comen- trio: “Spinoza comunica sua filosofia pelos meios que a razéo fornece, mas estes nio es- a2 Carta UL gota seas fundamentos decisvos Jaspers. oP Be o16), Estes “fundamentos decsvos” pro- str, parece me da experigneia da toalidade {que vod apreenden intutiamente como uma Verda about erdoc me se comparo sia concepgo da unidacteoniginal das cosa a visgo do “plane- tariode Devs" vshmbraa por Carls Pertuis, So Cavs era aco, Sm porsonatiade st Thagourse sob o impacto da visio extraordimé= tia acaou internat, pelo resto da vida, num hospital psiqulstrco Moeé suport, dec falgor da experiencia font de sua personaldade mantevese cosa Mass expertonc diteta era ineavel. Como falar aos homens? Seria preciso recorer&lin- fuuagem racional Assit voc o fez, desdobran- Go pensamentos, desvelando paindes ¢ ae Cravidao que elas impoem, ateando Fog grado 20 deseo de liberdade e de beaitude, ererurbande mundo afora nits eabecas. In. ive, queridoamigo, seu corto pense mew 10 destumbrado, 0 mas a estrutura Nise 48 Carta Ill Mev cao Spinoza, ‘Senos apercebemos somente de dois atribu- tos — pensamento ¢ extensio—, dentre os infini- tos atrbutos inerentes& substncia tinica, nem sei o que seria de nosso entendimento se formisse- ‘mos ao menos uma vaga nogio de mais alguns ‘outros atibutos da substancia inca 'As discussbes, referentes & substincia ¢ seus dois atributos conheciveis, j4 dio pano para as mangas, como se diz no Nordeste. ‘Deus infinito, causa imanente de todas as coisas e nfo Deus pessoal, distante criador do ‘mundo, ja era dificil de conceber mesmo pe- los nao ateus a7 Cartas a Spinoza Oldenburg queixa-se de quevocé fala de Deus ‘eda Natureza em termos ambiguos (Carta LXXD), Voce Ihe respond, tentando esclaecer seu pensa- ‘mento: “Detséa causa imanente de todasas coisas «mio causa transitiva. Afirmo com Paulo que todas as coisas existem em Deus e se movem em Deus” (Carta LXXIID, Apesar da referéncia ao discurso feito no Aer6pago por Paulo, apéstolo de Cristo, ao dizer “éem Deus que temos a vida, omovimen- to €0 ser” (Atos, 7,28), vocé continuou incompre- endido pelo cristo Oldenburg e pela grande mai- ‘tia de seus contemporineos. Mais ainda Ihes parecia estranho voce si ‘tuar pensamento ¢ extensio, ambos como atri butos divinos. ‘Num clima de opinio cartesiano, em que a Yarfo (pensamento) rena absoluta, muito distante «aextensio (matéria), certamente escandalizava sia afirmagio de “ndo saber por que a matéria seria indigna da natureza divina’ (E:, LXV esodlio). E ‘mais: que “a ordem e a conexio das idéias sio as ‘mesmas que a ordem e a conexio das coisas" TLV), No escétio desta titima proposigio, voce sublinha ainda: “substincia pensante e substincia ‘extensa constituem uma s6 e mesma substincia, «que é compreendida seja sob um auibuto,seja sob outro”. ‘S6recentemente alguns fisicosestio vindo ao seu encontro, sem divida usando outro vocabulé- 48, Carta UL ¥o, Assim David Bo, fc contemporine anece-me ter muitas afinidades com voc€. Exist- Fatuma dimensio ocala de infinta profiad, que Bohm denomina ordem implicita, Da ordem implicta originar-e-ia a ordem explicita, comes- pondente a0 nosso mundo dos objetos, que se ‘movem no espago e tempo. ‘A totalidade da ordem implicita, oceano de energia, nfo € manifesta para nds; apenas nos apercebemos de alguns de seus aspectos, pois é condigio de nosso pensamento nao con- seguir apreender a totalidade em seu comple- to esplendor! ‘Vejo em David Bohm aproximagdes com 4 sua visio do universo. De acordo? Também {jo era sem tempo que esses encontros acon: tecessem. ‘Quanto & unio entre os atributos da subs- tncia, pensamento e extensio, vém ocorren- do igualmente aproximagoes entre voc’ € nos- sos contemporaneos. Depois de muitas polé- micas e hipéteses varias, algumas que até Ihe devem ter divertido, outras menos distantes, surge enfim, no século XX, C.G. Jung, esere- fertlo:splque emattia sto dob rents aspectos de uma € mesma coisa”*. E acentua TWEEN ReDim Cts Shin SP Cal rope Wk: Novae, rnctom Unnesty 49 Cartas a Spinoza fortemente que nao considera a psique mero epifendmeno da matéria cerebral: “a psique... € uma realidade objetiva & qual o observador podera ter acesso por meio das ciéncias natu- ras?! Dada minha area de estudo, desde cedo interessei-me particularmente pelas “conexdes” corpo-psique. E aqui me acon- teceu 0 encontro com a figura sinistra de Descartes. Enquanto os viajantes costumam fazer provisées para as jornadas, eis que Descartes, a0 contrario, despojou-se de tudo quanto po- dia abandonar para partir mais livre em busca daverdade. Rejeitou todas as contribuigées tra- zidas pelos sentidos; todos os raciocinios que aceitara como demonstragées; todas as idéias {que ja Ihe haviam ocorrido, pois talvez fossem {Go fantasticas quanto os sonhos. Despiu-se do proprio corpo. E admitiu que nio existisse ‘mundo ou lugar algum onde habitasse. Impos- sivel seria desfazer-se de seu proprio pensa- mento. Bu penso, logo existo. Se largasse 0 cor- po, como quem despreza um manto instil, con- tinuaria no pleno poder de pensar. Portan- to, conclui Descartes, o pensamento é comple- tamente distinto do corpo. Tite ite ps, 50 Carta IIL $6 0 homem é capaz de pensar. Somente ohomem possui razao. Se o corpo do homem e 0 corpo dos ani- ‘mais sio maquinas bastante semelhantes, en- tretanto diferencas fundamentais os separam. E conclu afirmando que 0s animais no pos- suiem apenas menos raziio que os homens, mas nao possuem absolutamente nenhuma razéo. Se gritam ou se agitam, trata-se apenas do ef to de movimentos que se produzem na méqui- na de seus corpos. Li este famoso discurso, ainda muito jo- vem, num volume da biblioteca de meu pai Fiquei revoltada, Jamais admitiria que meus ‘queridos cies Top e Jiqui fossem incapazes de pensar e de sentir. Entre nés trés, compreen- so e afeto se encontravam estreitamente, num relacionamento profundo. Mais tarde, na Faculdade de Medicina, passei por uma formagio cartesiana. Cabia-me, a meus colegas, o estudo das pecas comp. nentes das engrenagens da maquina que seria ‘corpo humano. E, para tornar mais fécil essa tarefa, muitas vezes recorria-se a vivisseccio, ‘ou seja, ao estudo dessa outra maquina mi simples, 0 corpo do animal, no flagrante vivo de seu funcionamento, Lembro-me, como se fosse hoje, de uma aula pratica de fisiologia, que tinha por tema 0 mecanismo da circula- Bl Cartas a Spinoza 10. Uma ri foi distendida e pregada pelos qua- tro membros (crucificada) sobre placa de cor- ticae o peito aberto cruamente para que visse- ‘mos seu pequeno coracio palpitando. Os olhos ar estavam esbugalhados ao maximo e pa- reciam perguntar-nos: por que tanta ruinda- de? Para nada. Ninguém aprendeu coisa algu- ‘ma naquela estiipida aula, ‘A nica novidade no ensino médico, de ori centagio cartesiana, era que nfo se falava mais em razio independente do compo. rao, o psiquisino em toda a sua complexidade, eram epifendmenos de fiancionamentos cerebrais Tudo isso parecia-ane muito insatisfat6rio, Quando tive conhecimento de que voce estava a mil anos-luz adiante de seu contem- pordneo Descartes, senti-me feliz Logo me dispus a novas caminhadas. Comecei a estudar seus livros, nao sistema- tizadamente, mas como diletante, diletante no sentido de gostar, de sentir fascinio por aquilo de que a pessoa se ocupa.' Nao levianamente, a0 contrario, muito a sério € com muito pra- ver (diletto) Li no Breve Tiatado (segunda parte) que ‘voce, depois de afirmar ser a alma do homem tum mode do atributo do pensamento, nao uma 82 + Carta Ut substincia, desdobra este conceito em varios itens, Para melhor conversarmos vou destacar apenas aqueles referentes a um tema apsixonante para mim: unidade de toda a ratureza sew ifein 4) Um pensamento perfeito deve possum cect, it a, na mmaneira de pensar, de todas as coisas real mente existentes e de cada uma em partica- las, tanto das substncias quanto dos modos, sem nenbuima excegio. item 6) Este conhecimento, esta idéia de cada coisa particular que vem a exist = falmente, 6, diremos 6s, aalma de cada uma dessas coisas particule Fertant, mew cao, vo amie qe toda 8 coisas particulars possnem alma, alma especfica, eer para ua del eu puado de area, planta, animal, mulheres, homens Fiquei encantadissima. Procurei acompa- nhar, na Etica, o desenvolvimento de seu con- ceito referente & alma de todas as Coisas. ‘A absurda negacio da alma dos animais sempre me havia revoltado. E por que as plan tas, do evidentemente sensiveis para quem as saiba entender, nao possuiriam alma? E por que o gro de arcia ficaria exclufdo numa con- cepeao unitiria do mundo? ‘Com toda atengio, leio na fica (1,XII} 53 Cartas a Spinoza © objeto dada que consi o Espt vito Humano € 0 Corpo, ou sea, umn cevo modo da Extensio existent em ato mala Ia Desc seqe que eomem conse de tum Esptito de wm Compo, e que 0 Cor humano existe tl como novo sentinos. ino ue dissemos€cxatamente ge- rale no pertence mais aos homens que aos tutrosindvus, ov quis 0 toon dae dos de almas, embora em gras diferentes Continuo fendo mais adiante (ILI,LVI): “odo sentimento de um indivio difere do sentimento de outio na medida em que aes, séncia de um dere da esncia do outro, segues dl qe 8 entinetor dos animais, cits privados de razio (pois no podemes de maneir alguma duvidar que os Animas tenham sentimentos, agora que cor nhecemossorgem do espiito) fee dos sentimentos dorhomem, na medida em que sua natureza dfere da natureza humana, Cer tamente,o cavalo e 0 homem conhecem deseo sexual (iidne), mao primeiro in Pulbionado por um descjo de caval, o se- fondo por ui desde home. uae € dos passaros deve diferiruns dos outros ‘Assim, embora cada indvidao viva stsfeto coma natureza de que €consutuido enela poss compraners,entretanto aida que satiate contentamento que esta le pro- Carta UIT potciona constituem precisamente a idéia ou ‘alma do individuo ¢, conseqiientemente, © Contentamento de um difere por sua natu- rezado contentamento do outro, tanto quan to a esséncia de um difere da esséncia do outro Tortanto, da se pode concuir que no pequena a diferenga entre o prazer senti- do pelo ébrio, por exemplo, « 0 prazer de aque pode gorar 0 filésofo — fato este que dlesejei acentuat aqui de passagem. "Agradou-me muito verificar que voce nao se detém na tarefa de classificar os diferentes seres em prateleiras ascendentes, tomando, como eritério classificatério, diferengas mor- folbgicas menos ou mais complexas, segundo fazem ordinariamente os bidlogos. Vocé toma para referéncia a alma dos diversos seres, isto é, sua esséncia, ou seja, sua natureza espectfi- ca, Os apetites e 0 prazer, usuftufdos na stia satisfac plena, sio peculiares& natureza des- (© homem vivencia seus apetites, senti- mentos, pensamentos, de acordo com sua na tureza humana. E possui a capacidade de diferencié-los de maneira menos ou mais apu- rada. Vocé procurow ajudi-lo muito nessa es- calada de aperfeigoamento. Pergunto se vocé ni acha admissvel tam- bém a latente existéncia de possibilidades de 55 Cartas a Spinoza diferenciagdes nas caracteristicas essenciais es- pecificas cesses ou daqueles animais? Umma tarde chegou & minha casa um ra- paz visivelmente perturbado. Ele estudava psi- cologia € havia sido encarregado, na faculda- de onde fazia seu curso, de observar © com- portamento sexual dos ratos. O estudante es- tava atordoado, pois algo de inesperado acon- tecera, fora dos moldes behavioristas, ensina- dos por seus professores. Havia ratos que es- colhiam suas parceiras ¢ vice-versa, segundo preferéncias individuais. CO jovem exclamou emocionado: Descobri que os ratos se amam! Continuei, caro Spinoza, acompanhando sua maneira de ver 0 animal. Foi uma amarga decepgao, muito grande mesmo, Nao me era possivel compreender voc Claro, que o melhor para 0 homem sera associar-se a outros homens, cuja natureza se hharmoniza com a sua natureza. ‘Nada de mais ttl ao homem que o ho- ‘mem; os homens, afirmo, nada podem de- sejar de melhor para a conservacio de seu set que permaneterer todos de acordo.em todas as coisas, de mancira a que os espiitos os corpos de todos componham, por assim dizer, um s6 espirito e um 6 corpo; que se esforcem todos ao mesmo tempo, tanto quanto possam, para conservar o proprio ser 36 Carta UL ‘6, a0 mesmo tempo, todos busquem aquilo que possa ser itil a todos (IV;XVIL,esedlio}. ‘Sem divida, essa associagao harmoniosa ‘entre 0s homens seria o ideal. Mas, mesmo nao sendo plenamente realizivel, "nada de mais til ao homem que © prdprio homem”. Nin- guém o negara Prossigo minha leitura e, pouco adiante, assombro-mne com suas palavras a lei que proibe imolar animais nao tem fundamento na si Razio, mas decorre de uma inconsistent superstcio e sentimen- talismo feminino, Com efeito, a razo nos ensina a procurar aquilo que nos € ttl, con- duz-nos a reunirmo-nos aos homens € nio aos animais ¢ 3s coisas euja natureza & dife rente da natureza dos homens, O mesmo di- reito (natural) que esses tém sobre nds, nés ‘0 temos sobre eles, Entretanto, como 0 di- reito de cada um é delinido pela virtwde ou ‘ pader' de cada um, 0s homens tem sobre os animais um direito muito maior do que es- tes t2m sobre os homens. Nao nego que os animais tenham consciéncia ou sintam; mas inogo que por este motivo sejainterdito pen- sar em nossa utilidade © aus serviriaios dos animais segundo nossa vontade e traté-los segundo melhor nos convenha, uma vez que Cartas a Spinoza cles nao se acordam por suas naturezas conosco € que os sentimentos sio diferentes dos sentimentos humanos (IV, XXXVI, eseélio) Eu jé me havia impressionado desagrada- velmente, quando li na sua biogratia, escrita por Colerus, que voce, para distrair-se, procu- Tava aranhas e as provocava a combater entre si, ou que langava moscas na teia das aranhas € acompanhava esta batalha com tanto prazer que as vezes soltava gargalhadas.* Todo corpo projeta inconscientemente ‘uma sombra, pensei eu, e bloqueei completa- ‘mente esses estranhos divertimentos, narrados por Colerus, no meu destumbramento pela sua visio metafisica da unidade. Todos 0s seres, to- clos 0s elementos da natureza, todas as coisas deveriam ser tratadas com reveréncia, ainda ‘que nunca as confumdissemos com a substncia divina, Assim estava certa que vocé pensasse. Se a idéia de que todos os modos da subs- tancia infinita existem em Deus, embora pos- suindo caracteristicas peculiares, como enten- der que vocé os discrimine, a partir do poder ‘que 0 homem, também um modo, possa exer- cer sobre esses outros mados, que vocé reconhe- ‘ce, sao também dotados de “consciéncia e se 58. Carta 111 sibilidade"? Perplexa, fai procurar o que voce entende por virtude ¢ poder. Por virtude e poder entendo a mesma coisa, isto é, que a virmde, no que diz res- peito ao homem, € a prépria esséncia do hhomem, ou sua natureza, na medida em que cle tem o poder de fazer certas coisas que podem ser compreendidas pelas leis da na tureza (IV, VII, definigoes). Foi uma dolorosa surpresa descobrir em voce desinteresse pelos mados que diferissem do modo humano, modos aqueles bem mais in- tegrados as leis divinas da natureza do que 0 ‘modo humano, muito inclinado a descarrilhar ddessas leis. De fato, s6 0 homem merece sua atenio concentrada. Vocé 0 conhece melhor que nin- ‘guém, sem quaisquer ilusbes. Nao Ihe ¢ igno- ada a expressio de Hobbes —o homem € um lobo para o préprio homem. Mas seo homem € mau, egoista, na esséncia de sua natureza, vocé encontra nele a vontade de compreen- der. Entao, vocé se dedica a clarear-Ihe os sen- timentos, as paixdes que o dividem, paciente- ‘mente, sem entretanto ditar-the regrasmorais, nna acepgio comum do conceito de ética. So- bretudo, vocé o ensina a desenvolver a Razio € conquistar a liberdade. Mas, para vocé, so se- melhantes apenas os homens que, sob todos 59 Cartas a Spinoza os aspectos, dirigem-se segundo a si Razio, Unicamente estes poderiam viver de acordo. ‘Onde jamais voce encontrou tais homens? Sua concepeio da unidade do mundo, tal como eu a havia compreendido, levarseme a esperar que vocé se abrisse ao reconhecimen- toe ao amor de todos 0s seres, Assim, sta sofia tomaria lugar como uma modalidade de religiio metafisica. Enganei-me. Nao me en- vergonho, porém, de ter pensado assim. Gebhart, uma das maiores autoridades no es- tudo de sua obra, escreveu: “A filosofia de Spi: noza é uma religiio metafisica tal como 0 so as doutrinas de Buda, La0:Tsé ou Plotino” Na solitéria grande montanha de cristal que €a sua filosolia, segundo Farias Brito, pen sei vishumbrar a unidade de todas as coisas. E de repente, percebo, desolada, fissuras negeas nna brancura do cristal Nao se zangue comigo, Nive. PS.: Acabo de ler na revista Crinica da Holanda (n" 105) wm resumo de sua filosolia & também alguns dados pessoais, de autoria de Rubem Franca, Entre estes, vein a referencia TOTRITRRT a Spon. Wis ody 10, ps 60. Carta IHL de que voce morava no seu s6tdo “na compa: hia de dois gatos de estimagéio, um grande, ‘outro pequeno. Para evitar 0 trabalho de se Jevantar e abrir a porta para que os felinos sais- sem, com paciéncia abriu dois buracos na par= te inferior da mesma. Certo dia, um menino {que ovisitava perguntou-lhe para que serviam eles, Sao para os gatos poderem entrar sain, quando quiserem, explicou. Mas que boba- gem|, disse 0 garoto. Bastava abrir 0 buraco grande!” Vocé, Spinoza, que parecia tio hostil ao animal, tinha por companheiros de quarto dois gatos de estimacio. Voce se ocupava cleles. Res- peitavaclhesa liberdade, abrindo caminho para que entrassem e saissem fivremente. Se mesmo radicais as diferencas de essén tre 0 fil6sofo e os gatos? Sera possivel que sem nenhuma afinidade estreitem-se relacoes afetivas entre os seres? O gato, tal 0 fildsofo, silencioso, capaz de prolongadas concentra- oes, discreto, sutil nas suas manifestagées afetivas, Talvez seus gatos Ihe fossem bastante proximos, caro Spinoza. im abraco. Nise. 61 Carta lV Meu canto Srinoza, Trtrigou-me de infcio que vocé houvesse dado o titulo de Fea ao sen grande, perturba- dlorlivro. A palavta “tia” logo sugere sermoes fos, regras de conduta que ninguém quer fouvir e muito menos ler, Seu livro nada tem a ver com esses fastidiosos assuntos. TLogo vocé desmancha qualquer malen- tendido, esclarecendo que nio visa a ditar re- gras de conduta e sim “pretende objetivar as fg6es 0s apetites huumanos tal como se estu- diasse linhas. planos, corpes, sempre segundo © método geométrico” (Etica, preficio, 11D Sem modéstia nem imodéstia, voc® diz que até Tia pen 65 Cartas a Spinoza centéo ninguém investigara a natureza dos sen- timentos, sua forca impulsivae, inversamente, opoder moderador do espirito sobre os senti- mentos. I: 0 que vocé se propée mostrar aos atribulados seres humanos. Esta nova perspec- tiva atraiu-me imediatamente. Alids, vocé possuia 0 dom inato de pene- trar no interior das pessoas. Achei deliciosa a historieta que narra Gebhardt! sobre o meni- no Baruch, quando ainda nao tinha dez anos, a0 fazer a cobranca de uma conta veneida a ‘uma velha senhora, por ordem de seu pai, co- ‘merciante de Amsterda. Esta senhora lia a Bi- blia, na ocasiéo, ¢ fez 0 menino esperar longo tempo. Por fim entregou-lhe o dinheito, simul- taneamente, aconselhando-o a ser sempre um homem honrado e jamais se afastar da lei mosaica. O pequeno Baruch ouviu com respei- to o sermio, mas antes de guardar o dinheiro, contou as moedas, verificando que a mulher Ihe havia pago dois ducados a menos Vocé se lembra? Parece uma anedota, mas revela que munca as aparéncias o enganaram. £ extraordindrio que vocé, tendo convivi- do sempre no ambito de circulos restritos, haja atingido conhecimento to profundo, tio de- talhado, da esséncia da natureza humana. [sto 2GEBHARDT, C:Sjoras. Aies,140 p 66. Carta 1V demonstra que os homens, em toda parte €em todos 0s tempos, néo variam muito na mane ra de se comportarem. O que vatia € a capa dade de observi-los por dentro. ‘Muita gente faz de vocé a imagem de um fil6sofo austero, rigoroso em seus julgamentos morais. Tive uma experiéncia dessa opinido que se propagou por “ouvir dizer”. Eu jé havia adquirido a tia, mas ainda niio conseguira 0 Tratado da Reforma do Enten- dimento. Numa manha, véspera de viajar do Rio para o Nordeste, entro numa livraria ¢ vejo © livreiro, que sempre me atendia, fazendo gran- des arrumagées. Ele descera os livros da mais alta prateleira, desempocirava-os antes de colociclos no mesmo ou noutro lugar, nfo sei Sei € que de sibito, em meio a0 tumulto de livros espalhados, vejo uma pequena brochura 0 Tratado da Reforma do Entendimento, na tra- ducio de A. Koyré. Tomei-o nas miios imedi tamente. Mas aconteceu que o livreiro me dis- se: este livro jé foi eservado por outro fregués. Ble vird busci-lo a tarde. Decepcionada, argu- mentei que viajaria no dia seguinte e esta era ‘uma chance imperdivel, Aceitet entio a suges- ‘ao do livreiro: eu tentaria convencer a pessoa aque havia feito a reserva do livro. Voltei & tar de, esperei. Por fim, chega um jovem muito lido, louro. Vai direto ao livro cobigado. 67 Cartas a Spinoza Aproximei-me, disse-Ihe do men grande dese- jo de adquirir aquele livro, que viajaria no dia seguinte, insisti, quase supliquei. E, para meu espanto, disse-me que precisava do TRE como material de estudo, mas que nao tinha especi- al simpatia por Spinoza, “Ele € demasiado dis- tante das fraquezas humanas. Prefiro Platio que se acovardou, dando parte de doente para desculpar-se de nao estar presente entre os discipulos cle Sécrates, no dia em que o mestre teria de beber cicuta Isso aconteceu no perfodo da Segunda Guerra Mundial, quando a i vyros era praticamente impos Quetn estudar a Biica, com um atengio, verd logo o quanto vocé valoriza aale- aria e desdenha os sentimentos de tristeza. Alegria, vocé afirma, € a passagem do homem de uma perfeicio menor a uma per- feigio maior e, inversamente, a tristeza a pas- sagem de uma maior a uma menor perfeicio. Alegria aumenta o poder de agir, enquanto a tristeza o diminui. ‘Quanto 20 amor, voeé o define como a ale- gia acompanhada da idéia de uma causa ex- terior ¢ 0 6dio, a tristeza acompanhada da idéi de uma causa exterior (B,, TIL, VD), Vocé frisa, para ser bem compreendido, a necessidade de ter em mente que 0s sentimen- 68 carta IV tos de amor ou édio acham-se sempre ligados a uma idéia exterior. Portanto, existitiam tan- tas espécies de amor ou édio quantas espécies de objetos nos afetem.E cita o mais claro exem- plo, lembrando a grande diferenga existente entre 0 amor pelos filhos ¢ o amor pela esposa (E,, IL LVD. Depois de estudar amor e Odio, tal como se fossem Tinhas ou planos, vocé destrincha, sem pieguices, 0 processo psicol6gico que po- dera levar o amor a vencer 0 ddio, e mesmo admite que, se isso ocorrer, o amor poder§ vir a ser maior do que era antes do objeto amado se haver tornado coisa odiada (E., Ill, XL € XLV). Sinceramente, creio que esta transposicio sera muito dificil de acontecer. Inclino-me mais para a possbitidade, tam- bém ensinada por vocé, de esvaziar os senti- ‘mentos de amor e 6dio, tornando claros 0s la- cos que 0s vinculavama objetos externos, como se fossem correntes de escravidao. Esses obje- tos, que antes haviam sido amados ou odia- dos, perdem, por assim dizer, a consisténcia Esvanecem-se. Este breve método, as veres muito sofrido, traz, dentro de tempo curto, uma serena alegria. Obrigada por me haver conduzido a aprendé-to. ‘Seus amigos gostariam que muita gente 69 Cartas a Spinoza lesse em Ftica TV, XLV, escdlio: quanto maior é 2 alegria que nos afeta tanto maior aperleigio aleancada, o que sig nifica ser tanto mais necessirio participar~ tos da natureza divina. Eis porque o sibio sara das coisas dela retard o maximo prazes possvel (sem chegar a0 ponto de sen: firse enfastiado, pois entio nao havera mais prazer). E, pois, correto que o homem sibio Tefacase ¢ reanime-se fazendo uso de ali- ricntagio e bebidas agradaveis,usadas com ‘moderayio, bem assim de perfumes, do en- canto das plantas, adomos, sia, exerchci- oscorporais, eat ¢ outras cosas semelhan- tes, que todos podem usufruir sem eausar prejutzo a ninguém. Portanto, voce munca cogitou de mortifi- cagbes, sacificis, a fim de escalarmos niveis mais altos de perfeicio. Trabalho constante de polimento sobre si mesmo, concentrada refle- xo, sim. Alids, coisas essas que também proporcionam uma forma muito especial de prazer. ‘Mas, carfssimo, seu leitor correrd 0 risco de assustar-se quando voeé aborda o tema do them edo mal eaté de ver em voce um homem egotsta e demasiado pratico, Sar. Lem anette ratio 70 Carta 1V et Nas definigdes de E., IV, voce diz 1 — Por bem entenderei tudo aquilo que sabemos com certeza ser-n0s titi 2 — Por mal, ao contrario, aquilo que sabemos com certeza impedir-nos que pos siamos algum bem. ‘Afim de melhor entender estas definigoes, de aparéncia tio fspera e pratica, recuemos, ‘como voce proprio indica, aos ultimos pari sgrafos do preficio desse mesmo livro IV, onde se Ié com alivio: For bem, entenderei, por conseguinte, ino que vai segui-se, 0 que sabemos com cer teva ser meio pata aproximar-nos cada vez ‘mais do modelo da natureza humana que nos propomnos. Por mal [entenderei) aquilo que Eabemos a0 certo que nos impede de repro- uzir'o mesmo modelo, Além disso, diremos {que os homens si mais perfeitos ow mais imperfeitos na medida em que se aproxima- rem mnais ou menos deste mesmo exemplar! ‘O tema é quentissimo, Buscando mais am: plos esclarecimentos, recorri a sua correspon Géncia, Muitas vezes me aconteceu encontrar ‘em suas cartas mais acessivel conhecimento de Seu pensar que nos préprios textos filosoficos de seus livros. Assim, foi na leitura das cartas, de G. Blyenburg, que Ihe interpela sobre o bem Viva n Cartas a Spinoza € o mal e nas suas respostas a este “amigo des- conhecido”, que progredi um pouco nesse ter- reno movedigo. Depois de alertar G. Blyenbung quanto & posicéo antropomarfica que ele toma, muito distante da sua, vocé desdobra miiltiplos argu- mentos em circunvolucées dificeis de seguir, fortes exercicios para o pensamento do leitor. Muitas vezes perdi-me pelo caminho, voltei atrs, voltarei. Seu leitor talvez haja estreme- cido antes de compreender seu totalmente novo raciocinio na Carta XVII1a G. Blyenburg, face a estas palavras: "..os maus exprimem & sua maneira a vontade de Deus... ‘As coisas comecam aesclarecer-se um pou- co quando vocé escreve ao mesmo Blyenburg, nna Carta XX: “Na verdade aquele que se abs- tém de cometer um crime unicamente por te- mor do castigo (..) néo age de maneira algu- ‘ma por amor ¢ nao possui nenhum valor mo- ral, Quanto a mim, se me abstenho ou me es- forgo para abster-me, é porque o crime repug- naa minha natureza particular”. A correspon- déncia com G. Blyenburg interrompe-se em marco de 1665. Mas em setembro do mesmo ano, vocé retoma 0 assunto em carta a Oldenburg (Carta XXX): “nio me julgo com o direito de ironizar a natureza ¢ menos ainda queixar-me, quando penso que os homens, 72 Carta WV como os ontros seres, slo parte da natureza ¢ {que ignoro como essas partes se ajustam com 6 todo (..); € por esta falta de conhecimento que certos seres da natureza, dos quais cu ti- nha tido apenas uma percepcao incompleta ¢ ilada, portanto nao de acordo com uma visio filoséfica, pareceram-me, no passado, vvaos, desordenados e absurdos, Mas agora dei- xoa cada um a liberdade de viver segundo sua propria natureza; aqueles que o desejarem, certo, podem morrer se Ihes agrada, contanto {que me seja permitido viver para a verdade” Pode-se imaginar quanto seu convencional cor- respondente ingles ficou chocado, lendo es carta Sera que vocé também antecipou a gené~ ‘ica? Estou muito longe da pretensio de entre- ter uma conversa com vocé sobre o bem 0 mal, Escrevo-lhe cartas despretensiosas, de coragio aberto, correndo 0 risco de incorrer ‘em muitos erros. Para vocé o bem e 0 mal ndo tém existe so meras imaginacdes que dependem da- {quilo que nos traz alegria ou tristeza, recom: pensas ou castigos. Minha experiencia € ou- tra. O hem é dificil de ser visto por nés, tal a volatilidade e as circunvolugées estranhas que waca para tocar-nos como uma asa levissima, 3 Cartas a Spinoza Nunea conseguimos saber de onde voa. Mas 0 mal, caro amigo, digo-lhe que jé vi o mal con- cretamente. J 0 vi como dura matéria que houvesse passaclo por muitas destilagbes até ficar depurado de quaisquer outros elementos ‘que © atenuassem. Foi no fundo dos olhos de alguns humanos que vi o mal faiscar. Sua devotada discipula, Nise uM Carta V Meu cao Seisoza, Voce, habituado a saltar por cima de sé- culos, decerto julgard que a ciéncia é “exasperantemente lenta”, como dizia 0 poeta Rimbaud. E surpreendente que psicélogos ¢ psicar nalistas (nem cito 0s psiquiatras) muito pouco se tenham interessado pelas suas extraordind- rias contribuigdes ao conhecimento da psique. ‘A primeira aproximagio que encontrei en- tre vocé © a psicologia do séeulo XX foi em Groddeck, ott mais precisamente entre voce, Groddeck e Freud. Cartas a Spinoza Através da pritica clinica, Groddeck en- controu, por conta prépria, a presenca da psi- {que nas doengas organicas, 0 simbolismo de seus sintomas. Verificando em seus achados estreitas aproximagées com a psicanilise, Groddeck es- creve em 1917 uma extensa carta a Freud! Alias, nesta carta, desde logo ressalta sua pre- senca, Spinoza. O conceito de Es (Id), tal como Groddeck o formula, aparenta-se estreitamente 8 substancia, segundo sua concepgio. Entre- tanto, isso nao impediu que Freud incorporas- se o vocabulo Bs & psicanilise, decerto dando- Ihe sua marca pessoal: instancia que constitui o reservat6rio primeiro de energia psiquica. Es, na definicao de Groddeck, ¢ eterno € infinito, imutavel e indivisivel. E 0 principio de vida que determina a criagio e a destruigio de todas as coisas. Tudo quanto existe ¢ a ma- nifestacio sua, mas nao Ihe é idéntica Este conceito é puro spinozismo. Enttretanto, na resposta do mestre da psi- canilise, ele afirma que Groddeck “é um es- pléndido analista”. , apenas no final da carta, mantendo sua habitual reserva diante de qualquer especula- Tar oad Lunes, The Boggart Pes 196, a wit 78 Carta V 10 filésofica, Freuel escreve: “Temo que voce seja também um fildsofo e tenha inelinacio monista no sentido de desprezar todas as be- las diferencas da natureza em proveito das s duces da unidade”. O “espléndido analist Groddeck nio admite diferenga essencial en- tte psique e corpo, os quais se interpenetram na unidade que é 0 individuo. Tese spinozista brsica Nii é raro que Groddeck sejacitadlo como fundador da medicina psicossomatica. Ha af ‘um mal-entendido, A colocagio da psicosso- mitica, introduzida aos tropecos no modelo médico vigente, nao passa de win prolonga- mento do dualismo cartesiano. Para Groddeck, de acordo com Spinoza, psique e corpo consti- twem um todo tinico, © primeito estudo sistematizado que li, estabelecendo aproximacées entre voce € Freud, o grande inovador da psicologia mo- derna, segundo se repete todos 0s dias, foi es- crito por Walter Bernard, em 1947. E muito possivel que existam outros trabalhos do mes- mo género, lesconhecidos por mim. Aqui vou apenas acompanhar Walter Bernard, toman- do-o como referéncia para orientar-me, sem saber se Ihe agradam esses estudos que apenas assinalamm coisas bvias para voce, desde o sé- culo XVI. 79 Cartas a Spinoza Walter Bernard comeca resaltando uma concordancia que the parece fundamental ene tre voct e Freud: ambos defendem o mais 1 goroso determinismo em todas as manifesta~ S6es doumiverso, inclusive einexoravelmente haquelas pecullares ao ser human, tanto fs as quanto paiquicas. VA seguir, lembra que voce jé afirmava com fenfase ser 0 apetite (cupidists) a prépria es- séncia do homenm. Esta afirmagio, acentva Bernard, aproxima-se muito do conceito de libido, pulsio inconsciente bisica, de natureza sexual, sempre presente através de maltiplas transformagoes, “hidéia de uma psique inconsciente, con- tinua Bernard, ndo Ihe era estranha. Voc® jé sabia que o espirto (psique) & composto de grande nimero de partes (E, 2, 15). Bernard ta o que vocé diz no preficio da Bia, WV: "..08 homens ignoram as causas de seus apetites. Els so de fato conscientes de suas agdes c de seus apetites, mas gnoram ascausas que os de- terminam a apetecer”. Voce nunca perdia de vista a presenca subjacente da psique inconsciente e seus po- eres, Assim, Bernard ressalta, como exemplo, THERRARD, Wer: Yorbnk f Pyctocnaist: Nova York International Unversity Pre, 147 80 Carta V sua definigio das emogées como “idéias con- fusas”, ou seja, acontecimentos psiquicos dos 4quais © homem tem apenas conhecimento li- mitado. Outro item posto em relevo por Bernard esté no “principio de prazer”, cuja fuancao, se- gundo Freud, €impulsionar as forcas libidinais imconscientes na busca de plena realizagio. Mas essas forgas encontram obsticulos no “princi- pio de realidade”, que as deteriam em seu cego impulso, a fim de assegurar ao individuo mai- or seguranga na vida social, onde muitas res- trigdes sio impostas. Spinoza falaria aqui, segundo Bernard, dt funcao da razao (ratio), que deve interpor-se entre desejo e acto. ‘Tanto Freud como Spinoza, prossegue, consideram caracteristica fundamental do or- ganismo humano 0 esforgo por sua autopre- servacio, como tendéncia primordial. apenas nos primeiros trabalhos, antes de admitir a cexisténcia do instinto de morte. Aqui, porém, nao concordam Freud e Spinoza. O fil6sofo nega a tendéncia regressiva, acentuando repe- tidas veres o esforgo petsistente de todos os seres para preservarem sua existéncia Muitos outros conceitos correntes na teo- ria psicanalitica encontram ainda, no estudo de Bernard, paralelos marcantes na filosofia 81 Cartas a Spinoza spinoziana. O superego apresenta-se na psica~ nilise como herdeiro da instancia parental. E Spinoza frisa que a tristeza, decorrente de atos habituais considerados viciosos €, a0 contré- rio, alegria, conseqitente de atos julgados cor- retos, “dependem da educacao, do posiciona- mento dos pais em referéncia a tais atos” (E., IID). Ainda outros exemplos seriam: narcisismo, correspondendo ao orgulho do homem, que faz de si mesmo melhor opiniio do que seria justo (E., III, XXVIII, definic6es); ambi- valencia, correspondendo a coexisténcia de dois sentimentos contrarios, estado que Spinoza denomina de flutuaco da alma (Gnimae fluctuato in E., 1, XXVI), Bernard considera espantoso (astonishing) ‘o encontro dos dois pensadores, no que se T= fere a terapia das pertubagoes de estados afetivos. (0 tratamento psicanalitico visa a trazer & conscigncia contetidos reprimidos no incons- ciente, interpreté-los, levar o sofredor a ‘entendé-los em termos racionais. Vocé ja sabia de tudo isso e de mais algu- rma coisa, quando escreveu: “Um seutimento, que € uma paixio, deixa de ser uma paixio desde que dele formemos uma idéia clara ¢ distinta (E., VIII". E desdobra esta proposi- ‘gio argumentando que, sendo a paixdo uma 82 Carta V idéia confusa, se conseguirmos trabalhé-la a fundo, a paixao se tornara um sentimento do ‘qual teremos idéia clara, um sentimento liber- to dos grilhées, agora conhecidos, da possessividade e de outros inferiores apegos 20 objeto exterior, alvo da paixio, Sera muito belo o sentimento de amor que atinja esta rara ‘qualidade! ‘Se um pavloviano estudar suas teorias, en- contrard também antecipagées surpreenden- tes. Voc8 jé observara que “se o corpo humano for afetacio uma vez por dois ou varios corpos a0 mesmo tempo, quando posteriormente 0 espirito imaginar um deles recordaré logo os outros” (E., II, XVID. ‘Na mesma linha de raciocinio, vocé pros- segue: Enquanto nfo obtivermos conhecimien- to perfeito de nossos sentimentos, o melhior ‘que podemos fazer & conceber uma maneira correta de viver, ou seja, prinefpios de vida bem determinados, gravé-los na meméria e aplicé-los incessantemente As coisas particu- lates, que sio encontradas com freqléncia nna vida, de maneira que nossa imaginacio scja por clas afetada e que estejam sempre a nosso dispor: For exemplo, entre os princ pos de vida, estabelecemos que 0 ddio deve ser vencido pelo amor ou pela generosidade enio pelo édio recfproco, Ora, para manter 83 Cartas a Spinoza sempre este preceito da razio a0 nosso al- cance € necessario pensar muitas vezes nas ofensas que os homens freqiientemente se favem entre si ¢ meditar como, e por qual caminho, sera possivel afast-las pela gene- rosidade; assim, com efeito, associaremos a jmagem da ofensa imaginacio deste prin- cpio e o teremos sempre a nosso dispor, {quando nos for feita uma ofensa (E., V, X, eseslio), (© nivel dos condicionamentos de idéias seré ail num plano de vida mediocre, quando ainda mio houver sido alcangada a libertagio das paixdes. ‘Mas eis que vocé é ainda levado a pronun- ciar-se sobre fendmenos parapsicol6gicos, pro- vocado por cartas de amigos. Pierre Balling, um dos seus amigos mais, préximos, escreve-the contando que em um so- ho ouviu gemidos de seu filho, na ocasido em boa satide, e mais tarde, quando o filho adoe- ‘ceu, gemia de maneira exatamente idéntica até ‘0 momento de morrer. Balling ficou profun- damente impressionado. Na resposta a seu amigo, voc@ diz.que nao se tratavam de verda- deiros gemidos, mas de produgoes da imagi- nagio do préprio Baling. E sugere a curiosissima interpretagio de que imaginati- vamente possam ocorrer pressdgios de acon- tecimentos futuros, pois 0 espirito € capaz de 84 Cavta V pressentir confusamente coisas que virio de- pois a acontecer. Se um pai ama seu filho a ponto de ele proprio e o filho amado forma- rem um s6 € mesmno ser, 0 pai podera imagi- nar vivamente acontecimentos da vida do fic tho (Carta) Desculpe se restumi mal sua carta a Pierre Balling. Minha intengio foi a tentativa de se- urar dlepressa sua opiniio sobre tema tio fas- cinante, ‘Anos mais tarde, € outro amigo, Hugo Boxel, quem pede seu pronunciamento sobre a existéncia dle espectros, citando relatos de ppersonalidades ilustres que os haviam visto. E Spinoza, 0 que pensava sobre tal fendmeno? Voeé logo percebe que sera impossivel demover Boxel de sua crenca por meio de argumentos. Com fina ironia, responde-the: “Se os fil6s fos denominarem espectros as coisas que n ignoramos, entio eu no negarei sua existén- ia, pois hi uma infinidade de coisas que eu ignoro” (Carta). agora se eu Ihe disser que sonhei com Sua figura nao se apresentava nitida, mas im aquilly que vouE me communica va: “A loucura é a pior forma de escravidlio humana”, ‘Quanto mais reflito, mais me eonvengo de sua sabedoria. A loucura é acorrentamento a 85 Cartas a Spinoza ‘uma paixio, a uma idéia, éfixacio na visio de imagens horrendas ou belas, um emara- nhamento num espago e tempo imutéveis. Obrigada mestre, Nise. 86 Carta VI Meu cao Srinoza, Estou lendo agora um livro sobre sua fi- losofia — Spinoza et 'maginaire,! que me tem agradado muito. Ha inumerdveis livros erudi- tos sobre sua filosofia, tantas leituras diferen- tes, intepretagées contraditorias de seu pensa- mento, As vezes até irritantes, que prefiro ir & fonte de seus proprios escritos, procurando entendé-los segundo minhas intuigdes, Permi- to-me esta liberdade, como permito-me a li- berdade de escrever-Ihe. Estou certa de que vocé nio se aborrecer, pois lendo agora stia “THRRTRAND, Michie Spine ana tai PUR, 18 89 Cartas a Spinoza correspondéncia do século XVI, espanta-me sua paciéncia com alguns de seus correspon- dentes. Espero que tenha também paciéncia comigo. Voltando a Spinoza et l'Imaginaire. A ins- tancia racional sempre foi glorificada, enquan- to 0 imaginario atrafa pouco 0s fil6sofos. As- sim, fiquei feliz aprendendo com Michéle Bertrand, sempre baseada em seus textos, a estudar mais de perto seus pontos de vista so- bre o imaginério. Este tema me apaixona, pois esté no préprio centro do trabalho que vem ‘me ocupando quase a vida inteira. ‘Vocé distingue na dindmica da psique, en- tre tantas outras coisas que seu olho de longo alcance percebeu, diferentes tipos de configu- ragio de imagens. ‘Vou enumeré-las para té-las bem presen- tes diante de mim: a) imagens configuradas em decorréncia de perturbagées do corpo, isto é, febre e ou- trasalteracbes organicas: esas sio imagens ru- dimemtares ¢ desconexas; 'b) imagens das coisas exteriores, percebi- das gracas as modificagbes que essas coisas exercem sobre o proprio corpo daquele que as observa. Portanto, a percepeio nfo é uma re- producio, um cliché da coisa percebida: “as idéias que nés temos dos corpos exteriores in- 90 Carta VI dicam mais a constitnicio de nosso corpo que a natureza dos corpos exteriores” (II, XVI, cot.11). E ainda “o espirito humano néo per- cebe nenhum corpo exterior como existente em ato, a nao ser pelas idéias das afecgies de seu proprio corpo” (II, XXVI). Jaaqui voce faz ‘um grande avango, pois concede ao observa- dor importiincia de relevo face aos objetos per- cebidos, coisa que ainda hoje muitos psicélo- gos no conseguem assimilar; 6) idéias imaginativas ou imaginagSes do espirito, criadas por faculdade propria da psi- ‘que: o poder de imaginar em toda liberdade, independente de imposigées exteriores. sna imaginagbes do espirito, conside- rradas em si mesmas, nfo contém erro ou, rnoutras palavras,o espirito no comete erro porque imagina, mas somente se € conside- ado destitufdo da idéia que exclui a exis- téncia das coisas que imagina presentes.Pois se oespifito, quando imagina presentes coi- sas que no catem, sues 20 mesmo te ae essas coisas no t€m existéncia real- mente, consideraria este seu poder de ima- nar uma vrtude de sua natureza eno wan fico, sobretudo se exe facildade de magi nar dependesse unicamente de sua nature- ‘2a, isto é, se fosse livre (Il, XVI, escélio). ‘Aclaboragio do imagindtio seria compa- ravel & elaboracio do pensamento racional, a Cartas a Spinoza sem Ihe ser entretanto idéntica; imaginario pensamento racional, possuindo cada um sua ordem e sua produtividade peculiares. Sunge entio a pergunta: a linguagem do imagindrio seria traduzivel em termos racio- nais? Ou seria radicalmente heterogénea 20 discurso racional?’ Colocar este problema parece-me muito atual para a psicologia e para a psiquiatria O imaginario seria perfeitamente legit ‘mo, gozando da liberdade de encadear, segun- do sua ordem propria, as imagens que cont gura. Apenas uma restricio voc® Ihe faz: 0 es- piito nao erra pelo fato de imaginar, mas se assume nas imaginagdes como algo realmente existente no mundo exterior. aqui que vem se inserir muito daquilo que acontece nos estadlos do ser chamados lou- ‘cura, Imagens visualizadas no mundo interno apresentam-se com forga to convincente, que dominam o individuo, seja pelo terror ou pelo deslumbramento. " n Entio poderd ocorrer o que narra o mito: ‘Teseu e seu amigo Perithous aventuraram-se a descer as profunderas do mundo subterrneo. Sentaram-se sobre uma rocha e nio mais conse- ‘guiram erguer-se. Hérenles resgatou ‘Teseu, mas Perithous la ficou, “esquecido de si mesmo”. Carissimo, € triste ver o que acontece em 92 Carta VI nossos dias quanto a posi¢do face ao imaginé- Na frea das letras houve movimentos de revolta. Inconformados com as maquinagoes racionais usadas pelo poder econdmico duran- te a Primeira Guerra Mundial, poetas e escri- tores buscaram o imaginério. Lemos no Mani- festo Surreatista de 1924 “...forcar as portas daquilo que era até entio convencionado cha- mar hermetismo, fazendo tabula rasa da visto racional das coisas para substitul-las por co- mhecimento irracional e de certo modo primé- rio dos objetos”. Os surrealistas exageraram. Este movimento foi valido na sua tentativa com pensatéria, mas néo poderia suster-se. As cla- ridades do pensamento racional sio muito belas. Nao seriam abandonadas. Evidentemente vocé jamais cogitou de substituiro real pelo imaginrio. Creio que no fiz qualquer confusio! Compreendo que a or dem do imagindrio e a alta ordem do pensa- mento racional sao diferentes. E também que ‘oimagindrio nio seria redutivel a termos racio- nis. Ai esta o nervo da questao. ‘Um grande mestre da psicologia do século XX, Sigmund Freud, de influéncia compardvel & dde Descartes, fez a cabeca das ttimas geracoes. Paradoxalmente, ele, que abriu as portas da psi- ‘que inconsciente, onde se configuram as imagens 98 Cartas a Spinoza primordiais, os mitologemas,enfim, o imaginati, sob suas miltiplas formas, inclusive aquelas que nu- tem asratzes das eorias cientifcas, mesmo as mais racionais, rebaisa os produtos da imaginacio e di rige sua téenica no sentido de traduzi-os em lin- guagem verbal. E que ele permanecen fils con- cepcies filosoficas do fim do século XIX, racionalistas inveteradamente. Dai decorre que, para os muitos seguido- res de Freud, as imagens pintadas livremente nos hospitais psiquidtricos serviriam apenas de medium para associagies verbais, unicamente cessas capazes de trazer o material que acredi- tam esteja disfarcado, oculto, nessas imagens até o nivel consciente. Nao constituiram em si ‘mesmas ¢ em sua ordenagao peculiar uma lin- ‘guagem independente. Deveriam sempre ser traduzidas em termos verbais. ‘Sem divida 0 imaginétio estaré mais pré- ximo do inconsciente que a ordem racional. Mas coisa diferente sera negar-Ihe valor pré- prio, nao vendo outra maneira de entendé-lo senio esfrangalhando as imagens até esvazis- las de sua quente substancia prépria. Trabalhando em hospital psiquidtrico, sempre procurei abrir aos doentes, que fre- glientavam nossos ateliés de pintura e mode- Jagem, oportunidade para a livre expressio de seus processos imaginativos. Esses individuos om Carta VI habitam um mundo de imagens tio vivas, que se Ihes afiguram absolutamente reais, situacdo {que vocé previu em II, XVII, escélio, jé citado no inicio desta carta. Muitas vezes me perguntaram se as ima- gens pintadas ou modeladas em nossos ateliés serviam como ponto de partida para insistir- ‘mos junto a sets autores, a fim de que as tra- duzissem em palavras. Nunca recorri a este método. ‘Ao contrario, esforcei-me para estudar a linguagem do imaginério, seus arcaismos, seus simbolos condensadores de intensos afetos, nio raro contraditorios. sso me parecia menos di ficil que transpor tais formas de expresso para nosso falar cotidiano. ‘Cada ver fii mais me convencendo de que as imagens poderiam permitr vislambrar-nos ‘ocultas vivénciassofridas por aqueles eres que sehaviam afastado da nossa relidade, que tor- navam “o invisivel visivel”, ou quase. Comega- iamos possivelmente anos comunicar, ‘Masa cigncia entrincheirada na ordem ra- cional nfo aceita esses caminhos. Médicos € psic6logos passavam diante das imagens livres, nascidas do imaginario de homens mulheres hospitalizados, sem Iancar-lhes um golpe de vista, sequer por curiosidade. Entretanto, aque- las imagens eram retratos auténticos da ativi- 95 Cartas a Spinoza dade psiquica, que se havia configurado e ha- viam sido cuidadosamente dispostos sobre as paredes da sala do grupo de estudos do Mu- seu de Imagens do Inconsciente com a inten- Gio de ajudar possfveis estudiosos a enxergar © desdobramento, a peculiar ordenacio de enigmas do mundo interno. Mas nunca Ihes despertava interesse pesquisar, nas longas sé- ries de imagens, um fio subjacente, indo e vin- lo através de percursos labirinticos. O ensino universitario, o clima geral de ‘opiniao de nossa época, impermeabilizara-os, coitados, para esse tipo de leitura [As vezes ficava triste, confesso a voce. Disse o pintor Jean Dubuffet, fundador do ‘Museu de Arte Bruta, em Lausanne: “o mun- lo esta repleto de pessoas que se tornaram inaptas para a apreensio direta das coisas. Elas unicamente conseguem apreendé-las através dda grade das palavras. Nada thes é perceptvel ano ser depois da transcricio sobre grades”." Felizmente, tive asorte de encontrar um gran- dde mestre: C. G, Jung. Embora nem sempre ele estivesse de acondo com suas posicées, caro Spino- za, Jung eraum homem que, como vor’, navegava na contracorrente de seu tempo. Assim, divergin- Tb fri ra ne hi ret a 96 Carta do de seus contemporiineos, Jung stvibui grande importincia’imaginagio, polarizando-acomoati- vidade psiquica legitima, Atividade caracterizada pelo poder de configurar imagens. Imagens inte- ores que apreendem contetidos profundos davida ppsiquica, inacessiveisao pensamento racional. Jung frisa ainda queaatividade imaginativa ndo temem si cariter patol6gico, segundo lhe é de ortinario atribuido na érea médica, pos se origina de dados ‘objetivos inerentes as basicosfandamentos da psi- que de todos os homens. Agora, aqui em segredo, ouso supor voeé tenha descoberto os poderes do imagin: ioe de suas possibilidades de organizacio, ad- mirando, contemplando longamente as pintu- ras de seu contemporineo Rembrandt. De cer- tonao the escapou que Rembrandt nao se pren- dia & realidade objetiva, segundo preferiam ‘grandes mestres da pintura holandesa de sua Epoca. Nao estaria ele buscando no claro-es- curo do imaginério segredos muito intimos, aspiracies inefaveis? Se numa tela célebre Rafael representou Platio com o indicador voltado para o alto € Aristoteles como indicador voltado para ter- ra, Rembrandt exprimiu talvez coisas mais dis- tantes, pintando Aristételes com a mao respei tosamente pousada sobre a cabeca de um bus- to de Homero cego. 97 Cartas a Spinoza Ainda ontem a noite, pensei muito em vocé, mergulhado na contemplacio do Dou- tor Faustus, ou imével, diante do Filésofo com o livro aberto, olhos perdidos, muito além das letras impressas, tranqhilo, sentado ao lado de ‘uma escada que se alonga em movimento espi- ralado nio se sabe para onde. Perdoe tanta ousadia, A sua menor disci pula, Nise. 98, Carta VII ‘Meu cao Srinoza, Voce sabe que o estudo da fitica é dificil. ‘Sem davida. Mas também é fascinante acom- panhar o percurso labirintico desse livre uma proposigio remetendo a outra muito anterior, © desdobramento para diante nunca perden- do 0s fios que ficaram para tras; outras vezes, fazendo rapidos movimentos qué levam a sal- tos de nivel. Nio ha extravios a temer. Sente- se logo que sua mao é forte, seu pensamento, seguro, Mas aconteceu que desta vez.eu me assus- tei, tio absorvida estava na procura de com- preender os sentimentos, suas engrenagens 101 Cartas a Spinoza ‘obscuras, suas claras belezas, quando voce, de sGbito, partiu para outras alturas. Tudo quan- to antes havia sido dito quase parecia uma in- trodugio preliminar. O alvo principal era, nada mais, nada menos, que 2 conquista da eternidadel Leio surpreendida: “f tempo agora que eu passe ao que concemne a duracéo do espfti- to sem relacio com 0 corpo” (V, XX, escélio). ‘Lembro-me muito bem do que voce dis- se, nas partes IIe III, a respeito da unio da alma e do corpo: “a alma ¢ 0 corpo sto uma s6 mesma coisa, concebida seja sob 0 atributo do pensamento, seja sob o atributo da exten- siio, Daf decorre que a ordem, ou seja, 0 enca- deamento das coisas, é um s6, quer a Natureza seja concebida sob um ou outro desses atribu- tos" (IIL, IL, escélio). ser humano, sendo um modo da subs- tincia infinita tem sua existéncialimitada, du- ragio dependente de cansas exteriores. E como é frégil este modo, por mais que se esforce para persistir em sua existencia, ante tantas forgas destrutivas, que se agitam em torno dele. S6.a substineia infinita € eterna. Toi isso que entendi da leitura de partes anteriores da Ftica e de sua carta a Louis Mayer (Carta XI), Mas insisto em compreender suas perturbadoras palavras: “E tempo agora que 102 Carta VIL eu passe a0 que concerne & duragio do espiri- to sem relacio com o corpo” (XX, V, escélio) Na proposicio seguinte (XXI, V) I estava a reafirmacio da estreita uniao do espirito € do corpo: “O espirito nao pode imaginar nem recordar das coisas passadas, a nao ser duran- tea duragio do corpo”. Junto a inexoravel de- sagregacio do corpo la se iam também as lem- brangas de momentos felizes e de momentos amargos. ‘Daqui em diante, para tentar segui-lo, sera preciso muito folego. Receio ser obrigada a de- ter-me no meio do caminho. Quando voce monta 0 cavalo alazao do terceiro género do conhecimento, ser4 dificil acompanh-lo, mes- mo porque, apesar de seu método geométri- co, quem Ihe inspira € a ciéncia intuitiva, nas- cida de experiéncias internas quase impossi- veis de serem transmitidas, pelos menos sem perderem muito de sua intensidade original. Em passo tardo, vou tentando acompanhélo nessa etapa, certamente a mais dficll da Bice. “Acende-se uma luz: Vocé jé havia dito no livro T que Deus é no somente causa eficiente das coisas, mas também de sua esséncia. Daf decorre, sem cki- vida, a presenca em Deus de uma idéia que exprima a esséncia dos corpos humanos, sob espécie de eternidade (V, XXII). 103 Cartas a Spinoza Sendo assim, o espirito hmano nao pode absolutamente ser destmuido com o corpo, ms esse espirito subsist alguma coisa (0 grifo & meu), que € eterna Embora nfo atribuamos ao expitito huma- no duragio que exceda a duragao do corpo no tempo, a parte que pertence a esséncia do es: pirito (aquela alguma coisa) sera necessaria~ mente eterna. Nao se extinguird com 0 corpo. Sentimos ¢ experienciamos que somos exernos (V, XXIID. Essas idéias que voce desenvolve na parte ‘V da Btica nao deve causar estranheza. Como cao de bom faro, fai encontrar no Breve Tratado, escrito antes de 1668: "...a alma pode estar uni- ia a0 corpo do qual ela é a idéia ou entao a Deus, sem o qual nao pode ser concebida”. E dat decorve: Is, se a alma esta somente tunida ao corpo e este corpo € perecivel, ela deve também perecer, pois ficando privada do corpo, que € 0 fundamento de seu amor, tera também de perecer com ele. Mas, 2, sea alma esta unida a outra coisa, que é © permanece inaiteravel, devera também permanecer inal- terdvel! ‘Tenho para mim que esta idéia-intuicéo hegou a voce junto coma grande experiéncia SRST TnI in owes Coma Pari, alia, 1984 104 interna da totalidade, tema da primeira parte da Bitica Experindia tinica. Vocéatrabalhou a vida in- teira. E por fim conchuiu que o insirumento apto para abordéla seria, assim mesmo “com grande exforco”, 0 terceiro género de conhecimento. ‘Além dos dois géneros de conhecimen- to, experiéncia vaga e conhecimento racional de idéias adequadas, vocé descobriu um ter- ceiro género de conhecimento: a ciéncia in- tuitiva, que “progride da idéia adequada da esséncia das coisas” (E., XL, II, escdlio 2). Eé por meio desse terceiro género que seré feita a escalada até o cume da sua “montanha de cristal’ De ordinério concebemos as coisas em relagao a um certo tempo € a um certo Iu- gar, mas, através do terceiro género, passa- mos a concebé-las contidas em Deus, ot seja, sob a espécie da eternidade (E., XXIX, V). lo fica diferente concebido sob este as- pecto, E muito superior ao conhecimento pelo primeiro ou segundo género, aos quais estamos habituados. Este terceiro género conduz ao conhecimento da esséucia das coisas, proporcionando ao espirito amplia- ao da sua parte eterna, grande alegria ¢ capacidade para um amor liberto de quais- quer sentimentos esptirios ou egoistas, amor 105 Cartas a Spinoza ‘que nio poder4 ser destruido por nenhuma forga da natureza (amor intelectual). ‘Agora vocé vai permitir que eu me dete- nha, com sua ajuda, frente ao emocionante tema da morte. ‘Come¢o relembrando suas palavras: “Uma vez que os corpos humanos sao aptos a um grande miimero de acées, nao é para duvidar que possam ser de tal natureza que estejam unidos a espiritos possuidores de grande co- mhecimento deles proprios ¢ de Deus, em cuja maior ou principal parte seja eterna. Por con- seqiléncia, mio terdo medo da morte” (XXXIX, V). A parte que perece com 0 corpo nao tera nenhuma importincia comparada a parte que persiste (E., V; XXXVIID. Alias, vocé ja havia ditoem E., LXVI, 1V:"O homem livre em nada pensa menos que na morte, e sua sabedoria é ‘uma meditagio nao sobre a morte, mas sobre avida”, Perdoe todas essas citagdes; elas visam a reavivar em mim idéias que me impressiona- ram, e nao para vocé, € ébvio. Desejaria demarcar bem o seu conceito de ewernidade, ¢ o conceito de inortalidade, se~ gundo o cristianismo, ‘A ressurreigio € um dogma cristo, que inclui corpo e espirito. Uma corrente admite que ohomem é constituido de duas realidades 106 Carta VIE diferentes — corpo e alma. O corpo seria uma espécie de cércere da alma, de onde a morte a libertaria, Outra corrente afirma a unidade do homem: “O homem forma uma unidade. Todo cele inteiro é carne, corpo, alma ¢ espitito. Pode viver das opeées fundamentais: como homem ‘carne contenta-se consigo mesmo ¢ fecha-se em seu préprio horizonte. Gomo homem es- pirito abre-se para Deus, de quem recebe a existéncia e a imortalidade”. Alma ¢ corpo (corpo glorioso) ressuscitam, 'Na sua concepeio, porém, s6 uma parte do esplrito seria eterna, Ea amplitude dessa parte eter~ na variaria, segundo a capacidade que ela possuis- se para penetragio na esséncia das coisas ‘Uma vida conduzida segundo os prin pios da Razio, baseada na firmeza, generosi- dade e concepgio de idias adequadas, jé se- ria uma grande conquista. Vocé, porém, cami- nha para mais alto ainda, Impressiona-me que vocé nao demarque fronteiras entre vida e morte, O que importa, nna sua visio, seré a amplitude da eternidade conquistada e com ela o gozo da beatitude. Spinoza, voc? me faz lembrar o poema de Kabir, o persa: TWF Lamar: enero Ns Rese ne ‘Mar ero Wz, 1978p. 20. 107 Cartas a Spinoza “O amigo! Busca-o durante tua vida, conhece ‘enquanto vives, compreende enquanto vives: pois na vida esté a libertacdo. Se tew cativeivo 1ndo se romper enquanto viveres, que esperanga de libertagdo haverd na morte? Se obténs agora a unido, estards wnido a Ele ‘para sempre, ‘Merguiha na verdad” Vocé talvez dissesse: Mengulha desde ja na Substncia Infinita, ‘Agora e sempre, Nise. 108,