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ESTADO DE MINAS//PENSAR

5 . S Á B A D O , 2 6 D E J U N H O D E 2 0 1 0

MUSEU D’ORSAY/REPRODUÇÃO

L A N Ç AM E N TO S
FILOSOFIA

COMO LER LACAN


De Slavoj Zizek
Editora Jorge Zahar,
160 páginas, R$ 29

Estudo de autoria de
um dos filósofos mais
importantes da
atualidade, o livro
pretende colocar o
leitor face a face com
J. ZAHAR/REPRODUÇÃO
os textos do mestre
francês da
psicanálise, fazendo associações com diferentes
áreas. Zizek procura mostrar que há Lacan em
Shakespeare e em Casablanca, em Nietzsche e
num radical muçulmano, em Stanley Kubrick e
nas novelas mexicanas. A conhecida dificuldade
de linguagem e dos conceitos de Lacan são
tratados com utilização de recursos vindos de
diversas áreas do conhecimento e da arte, além
da indicação de uma cronologia biográfica e de
indicações de leitura. O esloveno Slavoj Zizek,
além de escrever sobre temas como política,
filosofia, estética e psicanálise, mantém intensa
militância política em seu país, tendo concorrido
às eleições para presidente em 1990.

ROMANCE

O FARAÓ NEGRO
De Christian Jacq
Editora Bertrand
Brasil, 434
Portrait de Stéphane Mallarmé, de Edouard Manet, de 1876, óleo sobre tela da coleção do Museu d’Orsay, Paris páginas, R$ 46

Mais um romance

LER, reler Mallarmé


escrito pelo francês,
especialista na
cultura do antigo
Egito, autor de
BERTRAND BRASIL/REPRODUÇÃO
Ramsés e A rainha

O
Liberdade. Os
templos do Norte do Egito estão desertos, os
Reintroduzir a obra do escritor no Brasil é gesto que destaca poesia deuses foram esquecidos. Todos têm um
único objetivo: a obtenção máxima de lucro.
e crítica, mostrando que teoria e poema são, de fato, inseparáveis É o reinado da injustiça e da corrupção. Cinco
séculos depois de Ramsés, o império, longe
do esplendor do passado, parece caminhar
rapidamente para a ruína irreparável. E só
EDUARDO JORGE AO LER SEUS to projeto estético. E nessa sede pa- quem pode evitar esta fatalidade é o núbio
Piankhy, chamado de o Faraó Negro. Ao
ra reler Mallarmé, simultaneamen-
poeta francês Stéphane Mallarmé TEXTOS SOBRE te, foi editado Divagações. No en- narrar um período marcante da história
egípcia, o autor mistura ficção e fatos reais.
(1842-1898) é autor de uma obra de- tanto, a tradução de Fernando
terminante no século 20. Em seus TEATRO, NOTA-SE Scheibe segue por outro caminho.
poemas e ensaios coincidem a cria- Recentemente lançado pela editora
ção poética (enquanto ato de fazer) UM POETA da Universidade Federal de Santa
e uma tarefa crítica para com o pró- Catarina (UFSC), o volume contém
prio poema, em que Mallarmé se de- IMPREGNADO apenas a tradução em língua portu-
BIOGRAFIA
bateu com a forma do poema-críti- guesa, o que em momento algum
co. Un coup de dés, na versão brasi- DE MUNDO compromete o livro. Aliás, compro-
ALEXANDRE, O
leira Um lance de dados, que integra va a necessidade de múltiplas vias
GRANDE
o volume Mallarmé, foi traduzido de entrada para o poeta e suas leitu-
De Pierre Briant
criticamente por Augusto e Haroldo ras críticas. Mallarmé fica em outra
Editora L&PM, 128
de Campos com Décio Pignatari. divisa, a da apresentação de um
páginas, R$ 12
Tradução crítica, no aspecto das inú- conjunto que compreende seus
meras notas e cuidados que o grupo poemas em prosa, intitulado “ane-
Buscando ir além do
tomou para apresentar o poeta ao por Mallarmé, mantiveram nesse dotas ou poemas”, bem como os
seu personagem,
público brasileiro. Essa apresenta- ponto um diálogo sutil. textos “Quanto ao livro” e “Crise do
Alexandre, o Grande
ção, no entanto, não está ausente de Assim, reintroduzir Mallarmé no verso”. A tradução de Scheibe fez
(356-323 a.C), o
um projeto estético em que a forma Brasil, em distintos sinais de entrada, parte de um pós-doutorado na Uni-
estudo biográfico vai
crítica do poema de Mallarmé era é um gesto de enfatizar que poesia e camp e conta com um texto crucial L&PM/REPRODUÇÃO
às origens da
partilhada por uma comunidade de crítica, enfim, teoria e poema são, de para uma releitura do poeta. Trata-
dominação e os
autores reagrupados pela poesia fato, inseparáveis. O pensamento crí- se de “O túnel, o poeta e seu palácio
objetivos do imperador, trata da natureza e da
concreta nos meados dos anos 1950. tico de Mallarmé está justamente no de vidro”, de Marcos Siscar. É justa-
importância das resistências que enfrentou,
Augusto de Campos, inclusive, fazer (poiesis) que aproxima da ma- mente nos tempos de esgotamento
discorre sobre a organização de um exército de
elaborou um tombeau para Mallar- téria do poema o mais silencioso dos das vanguardas que reler Mallarmé,
milhares de homens em territórios hostis e
mé que consiste em: “Ah mallarmé/ gestos, como o que está contido em segundo o crítico, o despe de redu-
analisa as relações entre conquistadores e
a carne é triste/ e ninguém te lê/ tu- “Mímica”, na tradução de Tomaz Ta- cionismos e altera sua recepção nos
populações conquistadas. Alexandre, o Grande,
do existe/ pra acabar em tv”. Em deu: “O silêncio, único luxo após as dias atuais. E a partir da questão Sis-
filho do rei da Macedônia Felipe II e aluno de
maio, Augusto de Campos publicou rimas, uma orquestra não fazendo car acentua: “O nome do poeta foi,
Aristóteles, se espelhava nos heróis homéricos
na revista Poiesis, editada pela Casa com seu ouro, seus raspões de pen- durante o século 20, não só uma gri-
para tomar decisões no campo administrativo,
das Rosas, em São Paulo, um novo samento e de fim de tarde senão de- fe para atiçar os fogos de artifício do
político e cultural. O livro faz parte da série
tvgrama para Mallarmé que, saindo talhar-lhe a significação igual a uma experimentalismo, como também
Encyclopaedia da editora L&PM, que publica
de sua apresentação gráfica, se mos- ode calada e que cabe ao poeta, sus- o bode expiatório preferido do ve-
volumes sobre personagens e fatos
tra assim: “Ah mallarmé/ a poesia citado por um desafio, traduzir!”. E lho tribunal contra o ‘esteticismo’
históricos e culturais.
resiste/ se a tv não te vê/ o cibercéu Mallarmé traduziu as múltiplas es- sem consciência política”.
te assiste/ em quick time e flv/ já critas do corpo, como a bailarina, co- Enfim, a velha separação entre
pairas sobre os sub/ tudo existe/ pa- mo um “poema liberado de todo estética e política que assombrou
ra acabar em youtube”. Augusto de aparato do escriba”. Frequentar o tea- os mais diversos regimes e perío-
ARTE
Campos se apropria do verso clássi- tro, para Mallarmé, isto é, ver uma dos do século 20, e que parecia se
co e sarcástico do poema “Brisa ma- montagem de Hamlet ou uma apre- esgotar com o esfacelamento das CARTAZES MUSICAIS
rinha”: “A carne é triste, sim, e eu li sentação de dança, era criar elemen- vanguardas, pelo menos em tese. De Kiko Farkas
todos os livros”. tos para uma teoria do poema. É nes- Em Mallarmé seria interessante ob- Editora Cosac &
O poeta francês não leu tão so- se aspecto que se nota que epítetos, servar que nenhum desses lados se Naify, 156 páginas,
mente todos os livros, mas também cujo objetivo seria diminuí-lo, tal co- sobressai quando o poema torna 126 ilustrações,
foi ao teatro, frequentou espetácu- mo “hermético”, seriam para Mallar- única a experiência da teoria e do R$ 49
los de dança, pantomima e fez críti- mé algo que não se sustenta. Ao ler fazer. Nesse sentido, a simultanei-
cas e comentários, cujos textos pu- seus textos sobre teatro, nota-se um dade das duas edições, uma com Destinado a
blicados integraram o livro Divaga- poeta impregnado de mundo ou ain- uma atenção para o fragmento Ra- interessados em
ções, em 1897. O único livro publica- da das técnicas de sua época. Mas a biscado no teatro e a outra apre- design gráfico, o livro
do em vida de Mallarmé. Rabiscado técnica pode ser um naufrágio. E, a sentando Divagações, favorece ca- apresenta os
no teatro foi editado pela capricho- partir de Mallarmé, nota-se que o tra- madas múltiplas que enriquecem COSAC & NAIFY/REPRODUÇÃO
cartazes de Kiko
sa coleção Mimo, da Autêntica Edi- balho do poeta hoje não se resumiria a leitura de Mallarmé no Brasil. Por Farkas e seus
tora. O livro tem autonomia justa- a seguir as novas tecnologias, mas a isso Rabiscado no teatro e Divaga- elementos, como escala, forma,
mente porque Divagações é um li- ultrapassá-las, surpreendê-las. ções são duas peças fundamentais, complexidade, padrão, textura, linha, cor,
vro sem arquitetura, como o próprio A edição de Rabiscado ao teatro é que tornam Mallarmé nosso con- minimalismo, tensão, força e lirismo. Kiko
autor ressalta na apresentação. Boa bilíngue e a tradução de Tomaz Ta- temporâneo do futuro. Farkas é um dos mais premiados designers
parte das crônicas de Mallarmé foi deu tem um conjunto cuidadoso brasileiros, criador de mais de 300 cartazes
publicada entre 1886 e 1887, ou seja, com várias notas de leitura. O tradu- para concertos da Orquestra Sinfônica do
10 anos antes da publicação de Diva- tor, ao compartilhar suas notas, res- DIVAGAÇÕES Estado de São Paulo, entre outros grupos
gações. O destaque de Rabiscado no salta que elas devem ser vistas como De Stéphane Mallarmé, tradução e apre- musicais. O volume, que reproduz os cartazes
teatro vai para a questão da dança: “apontamentos que se emprestam a sentação de Fernando Scheibe com riquezas de detalhes e qualidade gráfica,
valendo-se dos próprios movimen- um amigo ou a uma amiga que vai Editora da UFSC, 270 páginas, R$ 41 agrupou os trabalhos por núcleos temáticos,
tos de Loïe Fuller, Mallarmé fala da ler, ou até já leu, o mesmo livro”. Mas permitindo assim, além da visualização, um
“vertigem de uma alma como que tais notas não passam despercebidas RABISCADO NO TEATRO estudo de maior profundidade analítica. O
posta no ar por um artifício”. Depois quando notamos que traduzir De Stéphane Mallarmé, tradução e notas crítico Arthur Nestrovski, no primeiro capítulo,
de Mallarmé, por exemplo, temos o Mallarmé é uma tarefa que põe a tra- de Tomaz Tadeu aproxima a produção do designer ao universo
encadeamento de um contato con- dução como procedimento. Autêntica Editora, 286 páginas, R$ 41,90 da música.
tínuo entre poesia e dança de onde
surgem nomes como os de Paul Va- ESTÉTICA E POLÍTICA Enfim, ler, reler
léry e João Cabral de Melo Neto, poe- Mallarmé. Sobretudo sua prosa, que Eduardo Jorge é mestre em
tas que, notadamente influenciados não se afasta de sua poesia enquan- estudos literários pela UFMG.