Article · June 2010
DOI: 10.15600/2236-9767/impulso.v20n49p75-84
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Leisure and the Use of Drugs: a sociological view
Resumo Lazer, juventude e consumo de drogas: eis os elementos que compõem a temática central das reflexões aqui desenvolvidas, com o
intuito de reiterar a necessidade do diálogo entre as áreas do conheci-
mento. O uso abusivo de drogas representa uma das questões de maior evidência na sociedade moderna, uma vez que o número de jovens con-
sumidores aumenta na mesma proporção da diminuição da faixa etária.
Assim, este artigo tem por objetivo salientar a necessidade de aproxima- ção entre algumas áreas do conhecimento, tendo em vista que as situa-
ções de uso e suas consequências ocorrem no âmbito social. Trata-se de pesquisa com abordagem sociológica desenvolvida por meio de estudo
bibliográfico, cujos resultados expõem o problema e a necessidade da
interlocução entre áreas, considerando a urgência de um enfoque multi-
disciplinar visando à diminuição das consequências negativas que o uso
abusivo promove, pois, além de complexo, o fenômeno em questão tem
características biopsicossociais que exigem diferentes olhares. Por se tra- tar de um fenômeno complexo e multifatorial, resultante de um modo
de funcionamento da própria sociedade na qual é verificado, o uso de
drogas deve ser enfocado pelos diferentes campos do conhecimento e, para além da efetivação do necessário diálogo entre as áreas, deve estar desvencilhado de possíveis preconceitos e ranços moralistas comumen- te vinculados ao tema aqui proposto.
Palavras-chave
juventude ; droga ; lazer .
Abstract Leisure, youth, and drug use: these are the elements compos- ing the central theme of the present reflections, which aims at reiterat- ing the need for a dialogue between different fields of knowledge. Drug
abuse is one of the most evidenced problems in modern society, since the number of young consumers increases proportionally to the decrease in age range. Thus, this article’s aim is to emphasize the closeness of some
fields of knowledge, since the situations of use and their consequences occur within the social scope. With its sociological approach, this research was developed through literature review. Its results expose the problem
and the need for dialogue between fields, considering the urgency of a
multidisciplinary focus aiming at decreasing the negative consequences
caused by abuse, for besides its complexity, the phenomenon has biologi- cal, psychological, and social features that demand different views. Due to being a complex and multifactorial phenomenon resulting from a mode
of functioning of the society itself, the problem of drug abuse must be
approached by different fields of knowledge, and beyond the necessary
dialog between fields, it must be free of possible bias and moralist feelings
commonly attached to this subject.
Keyword s youth ; drug ; leisure .
Introdução
E ste artigo visa provocar reflexões sobre um dos fenômenos sociais que, atualmente,
mais consequências têm trazido a uma par-
cela da população jovem. Assim, propõe tratar da questão do uso abusivo de drogas e suas relações com o lazer a partir de uma abordagem sociológi- ca. Tal esforço se dá pelo fato de os pesquisadores do presente trabalho entenderem o uso de drogas
como uma questão permeada por aspectos biológi- cos e legais e que deve ser estudada também à luz da sociologia, uma vez que os diferentes usos das várias drogas e pelos mais diversos motivos dão-se no âmbito social. Nota-se que há escassez de diálogo entre as diversas áreas do conhecimento, assim como no interior das Ciências Sociais, e as consequentes contribuições que tais diálogos e abordagens po- deriam oferecer às discussões de temas sociais são pouco encontradas, ocasionando estudos e com- preensões a partir de uma única vertente. Alguns problemas sociais apresentam tal grau de complexidade que não podem ser con- templados por um único olhar, ou pela visão de uma única área do conhecimento, sob pena de ter seu entendimento limitado por concepções fragmentadas. Nesse sentido, torna-se necessária a união de diferentes olhares, de múltiplas com- preensões, de enfoques trazidos pelos diversos campos do conhecimento. O lazer e o uso de drogas, temas cujas con-
fluências são aqui trazidas à reflexão, exigem a
composição de olhares de diferentes áreas do co-
nhecimento, pois, mesmo quando debatidos sepa- radamente, em geral são acompanhados de pre-
conceitos e moralismos e, quando se apresentam reunidos para a discussão, a discriminação e os ran-
ços moralistas fazem-se ainda mais intensificados. Dessa forma, este artigo pretende enfocar a
intersecção dos temas visando chamar a atenção para a necessidade da comunicação entre diferen- tes áreas do conhecimento, pois, embora ambos os problemas sejam recorrentes na sociedade atu- al, as discussões e os estudos encontram-se ain- da marcados por um número restrito de diálogos
multi e interdisciplinares.
Abordagens em Campos Específicos
Há muito tempo, na área da saúde, a Me-
dicina, além de ser a principal interlocutora das questões relacionadas ao uso e abuso de drogas, tem desenvolvido pesquisas cujo foco, na maioria das vezes, refere-se a estudos clínicos e epidemio-
lógicos com ênfase nas terapias e nos medica- mentos. Ou então, debruçam-se sobre os efeitos que o uso e abuso provocam no corpo humano, apontando as reações das drogas e seus impactos nas redes neurais, no sistema nervoso, além das consequências hepáticas, cardíacas, neurológicas, dentre outras. No campo jurídico, os estudos encontram-se relacionados às questões legais, mais preocupadas com a venda e distribuição das drogas ilícitas. Ocu-
pam-se das ações promovidas pelo tráfico ou da
elaboração de leis referentes à legalização e descri- minalização, dentre outras questões que caminham, invariavelmente, na direção da repressão à distribui- ção e ao uso de drogas, especialmente as ilícitas.
Mesmo quando outras áreas do conhecimen- to são trazidas à discussão, os discursos são condu-
zidos, geralmente, por profissionais da saúde, sem
considerar que o uso de drogas se dá no âmbito so- cial, e que os sujeitos devem ser tomados de forma
contextualizada, histórica e socialmente.
Ainda que alguns aspectos relativos ao uso
de drogas sejam de ordem social, pois é no co- tidiano que eles ocorrem, a escassez de aborda- gens interdisciplinares visando ao diálogo entre áreas do conhecimento e, consequentemente, maior intercâmbio entre elas restringe as possibi- lidades de efetivação de uma compreensão mais
ampla do fenômeno.
As abordagens de caráter interdisciplinar, embora ainda bastante escassas, são necessárias para que intervenções sejam efetivadas no sentido da diminuição das consequências que o problema promove tanto em termos individuais (físicos e emocionais nos usuários) como sociais (na famí- lia, no trabalho, na religião, na educação, no siste- ma de saúde, no trânsito, no lazer, etc.). Historicamente, as ciências apresentam-se recortadas por áreas de conhecimento que pou- cas trocas realizam entre si, consequências de res- quícios da mentalidade positivista que persiste na atualidade. Há quase meio século Japiassu (1976) fazia referência ao fato, denominando-o de pa- tologia geral do saber. Ao tecer a crítica sobre a
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compartimentarização do saber, o autor defende
a necessidade de se fazer ciência de forma inter- disciplinar e argumenta: “Encontramo-nos diante
de uma alienação científica. Diagnosticar o mal é
apenas o primeiro momento. O interdisciplinar se apresenta como o remédio mais adequado à can-
cerização ou à patologia geral do saber” (JAPIAS- SU, 1976, p. 31). A interdisciplinaridade representa o cami- nho possível para que cada especialização trans- cenda seu espaço, estabelecendo as trocas favo- ráveis ao avanço do conhecimento. Assim, no prefácio da obra de Japiassu, é Gusdorf (1976,
p. 26) quem destaca: “A exigência interdisciplinar
impõe a cada especialista que transcenda sua pró- pria especialidade, tomando consciência de seus próprios limites para acolher as contribuições de outras disciplinas”. O encontro entre especialistas não deve se resumir à troca de dados, mas promover ricas oportunidades de intercâmbios entre as áreas, se- gundo o autor:
Existem especialistas de estudos da
sociedade, especialistas do estudo da personalidade e muitos outros, cada grupo a trabalhar como se estivesse em
sua torre de marfim. Dentro dos seus
limites, cada grupo produz, sem dúvi- da, importantes resultados de pesqui-
sas, mas existem vários problemas que
não podem ser explorados dentro das
fronteiras de uma única especialidade.
A afirmação de Elias e Dunning (1992) cla-
ma por necessidades semelhantes àquelas levanta- das por Japiassu (1976) e visa evidenciar o impe- rativo das trocas entre as áreas do conhecimento tanto no âmbito interno de uma mesma ciência
quanto no externo, culminando nas abordagens
em que emerge a interdisciplinaridade.
Também fazendo referência às abordagens interdisciplinares e dando ênfase à intensidade das trocas entre os especialistas, Marcellino (1988, p.
107) sugere “O interdisciplinar exige muito mais
do que a soma de conhecimentos; o que se busca
|
[ |
] |
esses encontros serão considerados |
é superar os limites de cada disciplina”. Marcelli- |
|
o lugar e a ocasião em que se verificam |
no (1988) propõe as possibilidades do diálogo no |
||
verdadeiras trocas de informações e
de críticas, em que explodem as ‘ilhas’
epistemológicas mantidas pela com- partimentarização das instituições ain-
da às voltas com as ‘fatias do saber’, em
que as comunicações entre especialis- tas reduzem os obstáculos ao enrique- cimento recíproco, em que os confli-
tos, o espírito de concorrência e de prosperidade epistemológica entre os pesquisadores devem ceder o lugar ao trabalho em comum em busca de in-
teração [
...
]
(GUSDORF, 1976, p. 26).
Não se trata, no entanto, da perda da espe- cificidade de cada área, e sim das possíveis cola-
borações que cada uma possa ofertar às demais a partir do diálogo, da troca e das possíveis inter- ferências que o saber de um determinado campo do conhecimento possa apresentar como contri- buição a outro. Comungando do mesmo pensamento, Elias
e Dunning (1992, p. 49) ressaltam:
conhecimento e afirma que a colaboração entre os
setores heterogêneos de uma mesma ciência con- duz a interações e reciprocidade nos intercâmbios, enriquecendo todo o processo. Embora passados mais de trinta anos das denúncias do sociólogo, e supondo que elas já tivessem sido mencionadas anteriormente, ainda não são verificadas mudanças efetivas no univer- so da ciência, especialmente no que concerne aos
estudos sobre o uso de drogas e o lazer, temas
propostos nesta reflexão.
O Uso de Drogas na Sociedade
Sabe-se ainda muito pouco a respeito da in-
fluência dos distintos fatores que incidem sobre o
uso de drogas, mas é certo que, de modo geral, o
uso tem se dado, ao menos no início, preferencial- mente nas situações de lazer, de vivência do ócio, do tempo disponível das pessoas. Nesse sentido, Henriques (2002) ressalta que novas drogas associadas a novas práticas de consumo obrigam que questões antigas sejam recolocadas de uma nova forma, sendo conside-
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radas à luz da complexidade das sociedades con- temporâneas. Para Henriques (2002), ao longo dos tem- pos tem sido corrente a utilização de várias subs- tâncias em diferentes culturas, sempre com o
poder de aliviar o sofrimento e de modificar o hu- mor, porém os consumos estão generalizando-se
e intensificando-se. Em tempos de globalização e
de consumismo, também os consumos de drogas
encontram-se massificados e diversificados.
Com relação às bebidas, Adorno (2008) faz referência à presença do álcool em situações de lazer, pautado em estudos de Alain Ehrenberg
(1995), sociólogo francês que denominou de “lu-
brificantes da sociabilidade popular” as bebidas,
mostrando que o uso delas faz parte das situações
de lazer e recreação de diferentes camadas sociais. Ainda assim, não é prudente delegar unica- mente ao campo do lazer a responsabilidade pelos
usos que dele se faz. O olhar deve se estender a todas as vertentes sociais, considerando também suas confluências, para então supor a possibili- dade de algum entendimento do fenômeno aqui
proposto à análise, sem perder de vista que tais respostas serão parciais, considerando-se a com-
plexidade que o fenômeno encerra.
Os fatores apontados como responsáveis pelo uso de drogas na sociedade moderna são tão diversos quanto contrários. Os problemas são
antagônicos e o uso de drogas é verificado nas
distintas camadas sociais, assim como os usos das diferentes drogas. Com o objetivo de determinar a prevalência do uso pesado de drogas por estudantes de primei- ro e segundo graus de uma cidade de médio porte
no interior do Estado de São Paulo, a partir de uma
amostra de escolas públicas e particulares, pela qual foram identificados fatores demográficos, psi- cológicos e socioculturais associados, Soldera et al.
(2004) notaram que o uso pesado de drogas lícitas
e ilícitas apresentou-se assim distribuído em ter- mos percentuais: álcool (11,9%), tabaco (11,7%),
maconha (4,4%), solventes (1,8%), cocaína (1,4%),
medicamentos (1,1%), ecstasy (0,7%). A referida pesquisa aponta ainda que o uso pesado foi maior entre os estudantes da escola pú- blica central do período noturno. Esses estudantes
trabalhavam, pertenciam aos níveis socioeconô-
micos A e B e sua educação religiosa na infância foi pouco intensa. A maior disponibilidade de di- nheiro e os padrões específicos de socialização fo- ram identificados como fatores associados ao uso
pesado de drogas entre os estudantes analisados.
Com objetivo de verificar possíveis associa- ções entre o nível socioeconômico, o estilo de vida
e o consumo de drogas, a partir de estudos desen- volvidos por Silva et al. (2006), foram apresenta-
das as seguintes relações sobre o nível econômico:
a renda familiar mensal mostrou-se relacionada ao uso de álcool e drogas ilícitas. Os alunos com ren- da familiar superior a quarenta salários-mínimos mensais apresentaram o maior uso para o álcool (92,2%) e drogas ilícitas (39,2%). Em contrapar- tida, os alunos cuja renda familiar era inferior a dez salários-mínimos mensais obtiveram o menor uso de álcool (75,2%) e de drogas ilícitas (16,7%). O consumo de tabaco e de medicamentos com potencial de abuso não apresentou relação com a renda familiar mensal.
Portanto, observa-se que não há um crité- rio único, não há um padrão ou uma regra que determine a camada social na qual será detectado
o maior uso. Existem, sim, inúmeras dúvidas e a
constatação do crescente número de usuários a
cada novo estudo apresentado. Observa-se tam- bém que algumas drogas são usadas por públicos específicos, com fins e situações igualmente espe- cíficos (BUCHER, 1992).
No entanto, a compreensão simplista e in- gênua comumente verificada é, em parte, resul- tante da visão fragmentada acerca do problema, reforçada pelo fato de ele não ser situado histo-
ricamente com o propósito de entender o uso de droga em sua dimensão dialética, isto é, influen- ciando ao mesmo tempo em que também recebe a influência do modo de funcionamento da socie- dade na qual esse uso é verificado.
O uso abusivo de drogas lícitas ou ilícitas re- presenta um problema de ordem biopsicossocial e, deve ser abordado considerando-se as dimen-
sões que o compõem, quais sejam, o indivíduo, a droga e o contexto social, segundo Bucher e Oli- veira (1994) e MacRae e Vidal (2006). Desse modo, refletir sobre estudos que
abordem o uso de drogas ou o lazer dos indiví-
duos os quais não sejam simultaneamente estudos
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da sociedade são análises parciais e desprovidas
de contexto. MacRae e Vidal (2006) tecem uma crítica a
estudos que privilegiam abordagens epidemiológi- cas e denunciam que as pesquisas têm se desviado dos fatores socioculturais que plasmam o uso de drogas, buscando, por meio do modelo de causali- dade biomédico, relações entre o agente patogênico (droga) e o organismo enfermo (usuário de droga). Sob esse aspecto, constata-se ainda a for-
te influência da área médica sobre questões que
ultrapassam os limites do corpo biológico para
adentrarem o corpo sociológico e todas as inter- ferências vividas por este.
A visão fragmentada da ciência dificulta a
possibilidade de um olhar mais abrangente, espe- cialmente sobre problemas de cunho social, quan- do o olhar não tem um alcance global para analisar
fenômenos cujas características são multifatoriais.
Ainda que o problema na atualidade venha
sendo discutido de modo mais abrangente, Ma-
cRae e Vidal (2006, p. 647) comentam:
Assim, embora tenha se tornado mui-
to difundida e bem aceita a idéia de que a questão das drogas só pode ser
apreendida em toda sua complexidade
por meio de uma abordagem biopsi-
cossocial, as ciências da saúde detêm uma quase hegemonia sobre o discur- so considerado legítimo e competente para esse tema.
Cabe, pois, estabelecer algumas aproxima- ções entre os temas com o objetivo de contribuir para que novas reflexões e debates ocorram, vi-
sando promover o maior diálogo entre as áreas e provocando futuras pesquisas a partir de diferen- tes olhares que compõem o universo da ciência
tanto quanto dos fenômenos por ela estudados.
Lazer e Uso de Drogas
Desde a Pré-História, diferentes substâncias psicoativas vêm sendo usadas para um grande le- que de finalidades que se estendem do seu empre- go lúdico, com fins estritamente prazerosos até o desencadeamento de estados de êxtase místico/ religioso, segundo MacRae (2009).
Uma pesquisa de Martins (2006) sobre a re- lação entre as drogas e os jovens estudantes de uma cidade de médio porte, no interior do Es-
tado de São Paulo, detectou o uso de álcool em duas situações: nos fins de semana e em eventos
esporádicos, classificados como festas populares,
festas com amigos, bar ou boate e festas em fa-
mília. Pode-se afirmar que são todas ocupações
de lazer, uma vez que correspondem a situações de livre adesão e realizadas num tempo disponível dos indivíduos. Scivoletto e Morishisa (2001) também se referem ao uso de drogas de modo recreativo, res- saltando que este se dá em situações de lazer. Silva et al. (2006) desenvolveram estudos
com o objetivo de verificar o quanto o estilo de
vida e a situação socioeconômica estão relacio- nados ao uso de álcool, tabaco, medicamentos e drogas ilícitas por parte de universitários da área de ciências biológicas de uma universidade públi- ca do Estado de São Paulo. Os resultados do es- tudo apontam uma relação entre o uso de drogas
ilícitas e número de horas livres por dia de fim de
semana, detectando-se maior satisfação quanto à frequência do lazer entre os alunos que utilizavam drogas ilícitas Tal diferença na satisfação quanto ao número de horas livres não foi percebida entre usuários e não usuários de álcool, tabaco e medi- camentos com potencial de abuso. Madu et al. (2003) encontraram também uma correlação entre o aumento do uso de tabaco
e de drogas quando os alunos estão mais cansa- dos, estressados, deprimidos ou em festas. O uso de álcool foi maior quando os alunos estavam em festas ou durante os fins de semana e horários li- vres. Essa observação condiz com os resultados obtidos no presente trabalho, mostrando que os usuários dessas substâncias estão mais fora de
casa e, consequentemente, mais expostos ao uso. Os fenômenos sociais carregam em si dife- rentes aspectos que o compõem, perfazendo sua totalidade. Nesse sentido, para que eles possam ser compreendidos, todas as nuanças devem ser consideradas e analisadas.
Para Leme (1988, p. 98),
Uma vez que a realidade social se com-
põe de fenômenos que se relacionam
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entre si, é importante destacar que es- sas relações não se dão livremente, ao acaso, mas, sim, obedecem sempre a de- terminações históricas, ou seja, são con- figuradas num espaço tempo determi- nado que lhes garante a especificidade.
As especificidades são aquelas presentes tanto na sociedade quanto no fenômeno em si.
O sociólogo destaca ainda que:
A relação que se estabelece entre lazer e sociedade é dialética, ou seja, a mes- ma sociedade que o gerou, e exerce in- fluências sobre o seu desenvolvimento
também pode ser por ele questionada,
na vivência dos seus valores. (MAR- CELLINO, 2008, p. 12).
|
Não basta o olhar acusatório para o uso de dro- gas ou para determinados comportamentos dele |
É importante ressaltar ainda que o lazer, de Tratando-se do lazer como veículo |
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advindos. Há de se considerar o contexto social |
acordo com o autor, tem duplo aspecto educativo, |
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|
no qual ele se dá, além de perceber o indivíduo historicamente situado. Nenhuma questão social é passível de ser |
sendo veículo de educação e objeto de educação: |
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|
compreendida isoladamente. O uso de drogas, as- sim como as manifestações de lazer do público jovem, deve ser entendido a partir do todo, sem incorrer em fragmentações que reforcem olhares |
de educação, é necessário considerar suas potencialidades para o desenvol- vimento pessoal e social dos indivídu- os. Tanto cumprindo objetivos con- |
||
|
recortados que pouco contribuem para a compre- |
sumatórios como para o relaxamento |
||
|
ensão dos problemas e das possíveis proposições, |
e prazer propiciados pela prática ou |
||
|
seja em termos de políticas públicas de lazer, de |
pela contemplação [ |
] |
Por outro lado, |
|
prevenção, ou outras formas de intervenção. |
para o desenvolvimento de atividades |
||
|
O aumento do número de usuários de dro- |
no ‘tempo disponível’, de atividades de |
||
|
gas lícitas e ilícitas e as consequências sociais, |
lazer, quer no plano da produção, quer |
||
diretas e indiretas, provocadas pelo uso abusivo representam problemas que não podem ser trata- dos dentro das fronteiras da área médica ou legal ou de qualquer outra área do conhecimento que se proponha a fazê-lo de forma isolada, ou que
desconsidere o contexto sociocultural.
Tampouco a vivência do lazer e os modos
de ocupação do tempo disponível podem ser
responsabilizados, de modo descontextualizado
e independente dos demais aspectos da vida em
sociedade, pelo uso que dele se faz. Marcellino (2008, p. 12) defende que:
no plano do consumo não conformis- ta e crítico, é necessário aprendizado
(MARCELLINO, 2008, p. 12).
Ainda que grande parte do uso de drogas
se dê em situações de lazer, conforme explicitado
anteriormente, e que o lazer possa desempenhar
seu duplo aspecto educativo, como veículo e ob- jeto de educação, há de se considerar que o modo de vivência desse tempo tem relação direta com as demais esferas da vida humana.
Desse modo, as funções do lazer só podem
|
O entendimento do lazer de modo iso- |
ser compreendidas se forem consideradas parte constituinte de um todo indissociável, que se re- |
||
|
lado, sem considerar as mútuas influ- ências que podem ocorrer, e certamen- te ocorrem, com as várias esferas da vida social, tem provocado uma série |
fere à vida em sociedade. Portanto, não se trata de colocar o lazer no banco dos réus, como se fosse a manifestação social responsável pelo uso de dro- gas, mas de buscar compreender as relações aqui |
||
|
de equívocos [ |
] |
Quanto mais comple- |
apresentadas de modo mais abrangente, uma vez |
|
xa se torna a sociedade, maiores são as |
que vinculadas às demais esferas da vida. |
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necessidades de inter-relações entre os vários componentes da vida social para o seu entendimento.
Lazer e Prazer
A complexidade que envolve a questão do
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uso de drogas foi ressaltada por Bucher (1992), ao advertir que, em muitas abordagens a respeito do consumo, o aspecto do prazer proporcionado pelo uso não era considerado, como se o prazer fosse secundário à vida humana. No entanto, há de se admitir que a desconsi-
deração do prazer não é restrita às questões e aos estudos sobre drogas. É tema intrínseco das discussões da socio- logia que abordam o lazer que, por também estar relacionado a um tempo e espaço de manifestação do prazer, não recebe o mesmo tratamento de ou-
tros fenômenos que compõem a dinâmica social.
Assim, sobre os tabus que acompanham as discussões que envolvem a temática do prazer,
Elias e Dunning (1992, p. 123) afirmam:
Dentro do contexto de uma tradição
como a nossa, as discussões sobre pro- blemas de prazer tendem a ser desequi- libradas: a propensão para banir o lazer
como tema de conversas sérias ou de in- vestigações correspondente à tendência para vincar excessivamente a sua rele- vância, o que é característico do esforço que é necessário fazer quando alguém
se aproxima de uma zona de tabus.
Os autores ressaltam que, apesar da impor-
tância social de alguns fenômenos, por exemplo,
os desportos (pode-se estender tal projeção tam- bém ao lazer), seus estudos foram desprezados
como áreas de investigação da sociologia e argu-
mentam explicações possíveis:
parte constituinte de um todo indissociável, que
se refere à vida humana em sociedade.
Para Bosi (1978), a indissociabilidade das
relações entre trabalho e lazer finda por provo- car vivências alienadas. Argumenta a autora: “[ ] ... se no trabalho e no lazer corre o mesmo sangue
social, é de se esperar que a alienação de um gere a evasão e processos compensatórios de outro”
(BOSI, 1978, p.76).
Bosi (1978) observa a transferência de situ-
ações alienantes vivenciadas em um domínio da
vida, provocando reflexos em demais setores, o
que permite afirmar que, na atual sociedade ca- pitalista, o modelo de trabalho alienado gera, consequentemente, a possibilidade de vivência de lazeres alienados.
Desse modo, para se compreender o lazer
e os modos de ocupação do tempo disponível, é prudente buscar também a compreensão de ou- tras esferas da vida humana que não somente o la-
zer ou trabalho, por exemplo, a família e a religião.
O mesmo critério pode ser empregado em estudos que busquem a compreensão do uso de
drogas quer em situações de lazer ou não, porém considerando, principalmente, que tal uso se dá em situações de convívio social, também se de- vendo buscar compreender as demais esferas da vida do homem.
Elias e Dunning (1992, p. 21) mencionam
os modos fragmentados de se olhar para o ho-
mem e para a sociedade e desenvolvem sua teoria visando resolver essa dicotomia cuja tendência
está em: “reduzir os estudos das pessoas e das so- ciedades a um ou a outro plano, num conjunto de
sobreposições dicotômicas”.
|
[ |
] |
a sociologia orientou-se para o |
Homem e sociedade fazem parte de uma Consideram ainda os sociólogos menciona- |
|
campo restrito dos aspectos ‘sério’ |
natureza que, embora não se constitua num tecido |
||
|
e ‘racional’ da vida, o que teve como |
homogêneo, representa um todo diferenciado que |
||
|
efeito que o divertimento, o prazer, o jogo, as emoções e as tendências ‘irra- cionais’ e ‘inconscientes’ do homem e da mulher tivessem merecido escassa |
se inter-relaciona. dos que, para se estudar questões do lazer, não basta apenas abandonar as limitações impostas |
||
atenção no âmbito da teoria e da inves- tigação sociológicas (ELIAS; DUN- NING, 1992, p. 16).
Entretanto, as funções do lazer só podem ser compreendidas se forem consideradas como
pela dicotomia trabalho-lazer, afirmando que os
problemas relacionados ao tempo disponível só podem ser entendidos se os seres humanos forem estudados de modo global. Eles ressaltam a importância de se tomar o lazer sob um aspecto bastante abrangente e des-
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|
tacam que: “[ |
] |
sua principal função parece ser a |
no entanto, a complexidade que a articulação en- pelo debate entre cientistas sociais e cientistas na- |
|
de ativar formas de excitação agradáveis, estas não |
tre os temas requer. A violência social tem raízes |
||
|
podem ser devidamente compreendidas por meio |
em fatores distintos e polissêmicos e, portanto, |
||
|
de uma abordagem sociológica que ignore as suas |
exige, tanto no âmbito da ação quanto no da re- |
||
|
dimensões psicológicas e fisiológicas” (ELIAS; DUNNING, 1992, p. 34). Os autores defendem que o controle das so- |
flexão, que o estudo da temática seja respaldado turais, entre organizações não governamentais e |
||
|
ciedades industrializadas coincide com o domínio |
representantes das secretarias e coordenações de |
||
das expressões das emoções em público, pois nas
sociedades mais avançadas são menos frequentes as situações críticas sérias que originam compor-
tamentos de excitação nos indivíduos, uma vez
que aumentou o controle social e o autodomínio
da excitação exagerada.
A agradável excitação-prazer que as
pessoas procuram nas suas horas de lazer, representa assim, ao mesmo tempo, o complemento e a antítese da tendência habitual perante a banalida-
de das valências emocionais que se de- param nas premeditadas rotinas ‘racio-
programas de saúde e de outros setores da ação pública, ultrapassando preceitos normativistas da conduta dos indivíduos e preconceitos sociais. As autoras reforçam a necessidade de ações conjuntas, embasadas por compreensões abran- gentes que tomem o homem integralmente e den-
tro de um contexto sócio-histórico, que possam
contribuir para as mudanças necessárias.
Considerações Finais
Considerando que grande parte das discus- sões relativas às drogas lícitas ou ilícitas diz res-
peito ao uso feito pelo público jovem e que entre
os principais contextos de uso destacam-se os de
|
nais’ da vida [ |
] |
(ELIAS; DUNNING, |
lazer, estreitamente vinculados ao prazer e à liber- Há de se considerar que, dentre os aspectos |
|
1992, p. 115). |
dade, as pesquisas de caráter sociológico fazem-se |
||
|
Quando se comparam as sociedades me- |
tão necessárias quanto aquelas das demais áreas do conhecimento, que historicamente desenvol- |
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nos desenvolvidas com as sociedades industriais, observa-se que nestas últimas são menos fre- quentes as situações que permitem aos indivídu- os comportamentos de excitação. Estabeleceu-se |
vem importantes estudos sobre o tema. característicos da vivência do tempo disponível, destaca-se a busca pela liberdade, possibilidade de |
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aos poucos nessas sociedades uma necessidade de
autodomínio das manifestações exageradas, tendo
por consequência a necessidade de outras formas
de expressão. Nesse sentido, os comportamentos
promovidos como resultado do uso de drogas po-
dem representar uma das situações de expressão de comportamentos de excitação nos indivíduos,
uma vez que, dentre os efeitos do uso, é caracte- rística a ausência do autodomínio.
Em estudos que relacionaram o compor-
tamento sexual de jovens estudantes com o uso
de drogas, Scivoletto et al. (1999) apontam a ma-
conha e o álcool como as substâncias que apre - sentaram maior associação com comportamento
sexual de risco.
Ainda acerca da ausência do autodomínio, Minayo e Deslandes (1998) mostram a relação en- tre o uso de drogas e a violência, considerando,
expressão das emoções socialmente reprimidas
e conquista de prazeres, tornando-se ocasião fa-
vorável para a experimentação e o uso de drogas
lícitas e ilícitas.
Por se tratar de um fenômeno complexo e
multifatorial, resultante de um modo de funciona-
mento da própria sociedade na qual é verificado, o
uso de drogas deve ser enfocado pelos diferentes campos do conhecimento e, para além da efeti- vação do necessário diálogo entre as áreas, deve estar desvencilhado de possíveis preconceitos e ranços moralistas comumente vinculados ao tema aqui proposto. Mesmo considerando o fato de que teremos de aprender a conviver com as drogas lícitas ou ilí- citas, uma vez que não há sociedade livre da pre- sença das drogas, torna-se imprescindível o esforço direcionado à conscientização da sociedade, por
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entender que não há outro caminho para o abran-
damento do fenômeno que não seu conhecimento
mais aprofundado. Tal conhecimento deverá ser promovido pelo diálogo entre áreas e pela interdis- ciplinaridade composta por resultados de estudos e pesquisas dos distintos campos do conhecimento,
pois, dada a complexidade do tema, cabe a união
dos olhares dos especialistas do assunto. Por con- ta ainda de alguns dos aspectos ressaltados neste artigo, avalia-se que o diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento poderá contribuir para o
avanço da compreensão do fenômeno, seguido das
necessárias proposições de abrandamento de suas consequências sociais e individuais.
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d ados dos a U tores
Liana Abrão Romera Professora doutora do curso de Educação Física da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Membro do Grupo de Pesquisa em Lazer (GPL)
neLson CarvaLho marCeLLino
Professor doutor do Programa de Mestrado em Educação Física da UniversidadeMetodista de Piracicaba (Unimep) Líder do Grupo de Pesquisa em Lazer (GPL)
Recebido: 25/3/10
Aprovado: 25/8/10
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