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E L I A N E C A N E D O D E F R
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C A N E D O
D E
F R E I T A S
P I N H E I R O
B AÍA
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G UANABARA
G UANABARA

Biografia de uma paisagem

Biografia de uma paisagem

BAÍA

BAÍA

DE

DE

GUANABARA

GUANABARA

Biografia de uma paisagem

BAÍA BAÍA DE DE GUANABARA GUANABARA Biografia de uma paisagem

1608

1710

1817

1930

2002

Guta, 2004

© Andrea Jakobsson Estúdio Editorial Ltda. 2005

supervisão geral

Andrea Jakobsson

concepção e textos | original concept and texts Eliane Canedo de Freitas Pinheiro

pesquisa iconográfica | image research Fernanda Carvalho | Bureau de Recherche

créditos iconográficos e fotográficos | iconographic and photographic credits Vide apêndice | See appendix

revisão | proofreading Teresa da Rocha | Sérgio Bellinello Soares

versão | english version Carolyn Joy Brissett

projeto gráfico e diagramação | design and desktop publishing Jair de Souza | Vinte Zero Um Comunicação Pablo Ugá | Designer assistente

assistente de produção | production assistant André Rodrigues Silva

pré-impressão | premidia Donnelley-Moore

impressão e acabamento | printing and binding Pancrom Indústria Gráfi ca

Todos os direitos reservados para | All rights reserved by Andrea Jakobsson Estúdio Editorial Ltda. Rua Xavier da Silveira 45 906 Copacabana 22061-010 Rio de Janeiro RJ

tel | fax

(21) 2267 6763

www.jakobssonestudio.com.br

eliane canedo de freitas pinheiro

BAÍA

BAÍA

DE

DE

GUANABARA

GUANABARA

Biografia de uma paisagem

eliane canedo de freitas pinheiro BAÍA BAÍA DE DE GUANABARA GUANABARA Biografia de uma paisagem

Fazer-nos compreender a Baía de Guanabara como um corpo vivo talvez seja um dos prin-

cipais méritos da presente edição.Vivemos há cinco séculos em torno dessa baía generosa, utilizan- do-a como fonte de alimentos e água, bem como via de transporte de passageiros e mercadorias. Somente agora, no limiar do terceiro milênio, atentamos para a magnitude de seu ecossistema e para a sua fragilidade. Hoje podemos olhar para esses séculos de ocupação e avaliar as experiências passadas para vislumbrar os caminhos que garantam a preservação de nossa artéria principal. A Brasympe e seus acionistas sentem-se orgulhosos de poder apoiar essa iniciativa, enten- do como fundamentais ações que gerem bem-estar social e cultural para a sociedade civil.

Helping us understand the Guanabara Bay as a living entity is perhaps one of the main merits of this book. For fi ve centuries we have lived around this bountiful bay, which has provided us with food and water, while serving as a thoroughfare for passengers and shipments of goods. But only now, at the dawn of the Third Millennium, are we becoming aware of the true magnitude of its eco-systems and their fragility. Today, we can look back at these centuries of settlement and assess past experiences in order to seek out paths to the future that will ensure the preservation of this crucial artery. Rating actions that foster the social and cultural well-being of civil society as fundamen- tal, Brasympe and its shareholders are proud to support this initiative.

Fazer-nos compreender a Baía de Guanabara como um corpo vivo talvez seja um dos prin- cipais

Fazer-nos compreender a Baía de Guanabara como um corpo vivo talvez seja um dos prin- cipais
Fazer-nos compreender a Baía de Guanabara como um corpo vivo talvez seja um dos prin- cipais
Fazer-nos compreender a Baía de Guanabara como um corpo vivo talvez seja um dos prin- cipais
Fazer-nos compreender a Baía de Guanabara como um corpo vivo talvez seja um dos prin- cipais

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A PRESENTAÇÃO

I NTRODUÇÃO

C APÍTULO 1

C APÍTULO 2

C APÍTULO 3

C APÍTULO 4

C APÍTULO 5

 

Muito antes

Uma visão

A natureza

Chega a

No interior

dos europeus

do paraíso

dominada

modernidade

da metrópole

162 C APÍTULO 6 Terras, fl orestas e matas da Guanabara 178 C APÍTULO 7 Riachos,

162

C APÍTULO 6

Terras, fl orestas e matas da Guanabara

178

C APÍTULO 7

Riachos,

rios, baía

e mar

202

C APÍTULO 8

Resistência

e regeneração

222

C APÍTULO 9

Baía e vida

241

E NGLISH

TEXTS

268

C RÉDITOS

HISTORIO -

GRÁFICOS

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B IBLIOGRAFIA

PREFÁCIO Eliane Canedo começa este livro afi rmando que “a baía atual não se compara, entretanto,

PREFÁCIO

Eliane Canedo começa este livro afi rmando que “a baía atual não se compara, entretanto, àquela de águas límpidas, contornada e adornada por pequenas enseadas, tendo como fundo a densa fl oresta tropical: uma visão do paraíso que extasiou os portugueses que a contemplaram pela primeira vez em 1502” (vide Introdução). Essa visão do paraíso ainda hoje deslumbra tanto aqueles que pela primeira vez contemplam a Baía de Guanabara quanto os que a vêem pela milionésima vez. Não há pessimismo que resista a um pouso no Aeroporto Santos Dumont numa clara tarde de maio. E não há otimismo que resista a uma visita ao Rio Sarapuí, cujas águas putrefatas desaguam na Baía de Guanabara. Senti-me profundamente pessimista por volta de 1995, ao utilizar uma pequena lancha para navegar o trecho do Rio Sarapuí entre a Rodovia Washington Luís e a foz, numa das múltiplas incursões na Baixada Fluminense que fazia na época para acompanhar as obras con- tra inundação do Programa Reconstrução-Rio. E o cheiro nauseante do Sarapuí não deixava dúvidas: o inferno pode se incrustar no paraíso e devorá-lo por dentro. No século XIX, tudo fazia crer que seria possível manter o paraíso. “Em 1862, o governo imperial deu um passo importante na área de saneamento: o Rio recebeu a sua primeira rede de esgotos sanitários, algo de que poucas cidades do planeta poderiam se orgulhar naquela época. Na verdade, apenas Londres. O serviço foi concedido, por um prazo de 90 anos, à empresa inglesa City Improvements Company Limited – ou simplesmente City, como os cariocas passaram a chamá- la” (vide capítulo 4). Segundo o censo de 1890, cerca de 60% dos prédios estavam conectados

à rede de coleta de esgotos, que eram tratados com a melhor tecnologia existente à época, antes de serem despejados na baía. Passados 115 anos estamos em situação bem pior. Continuamos coletando esgoto de cerca de 60% das residências e praticamente todo o esgoto – coletado ou não coletado – chega sem tratamento à baía, resultando numa carga poluidora cerca de 40 vezes maior do que exis- tente no fi nal do século XIX. “Ocupação desordenada da bacia hidrográfi ca, ausência quase absoluta de sistemas de saneamento básico adequados para atender às áreas urbanizadas, poluição industrial, aterramento de grandes extensões da baía, desmatamento de encosta, assoreamento, redução de profundidade – tudo isso ocorreu ao longo do século XX, principalmente na segunda metade” (vide cap. 5). Para recuperar efetivamente a Baía de Guanabara seriam necessárias, pelo menos, duas atitudes. Primeira, criar um mecanismo para garantir a continuidade de ações que maturam em prazos muito superiores ao intervalo entre as eleições. O ideal seria criar uma entidade técnica, impermeável às injunções circunstanciais da política e com o poder de assegurar a governabilidade na condução de ações nas próximas décadas. Segunda, o governo, em vez de nanciar a construção de obras, deveria pagar por resultados. No caso, esgoto tratado e lixo com disposição fi nal adequada. A visão futura da Baía de Guanabara será a do paraíso se tivermos a determinação cole- tiva de recuperar o que já foi. Se não formos por nós, quem o será? Jerson Kelman | Professor da COPPE-UFRJ

APRESENTAÇÃO Escrever sobre a Baía de Guanabara não é tarefa fácil. Seria supérfl uo apresentá-la como

APRESENTAÇÃO

Escrever sobre a Baía de Guanabara não é tarefa fácil. Seria supérfl uo apresentá-la como uma bela paisagem ou simplesmente um acidente geográfi co. Descrevê-la signifi ca, sobretudo, refl etir sobre um lugar rico em biodiversidade, em marcos naturais, registros históricos e testemunhos da cultura local. Signifi ca ressaltá-la como testemunha viva da nossa história e um dos mais conhecidos símbolos da beleza natural da cidade. Valorizá-la pelas inúmeras possibilidades de lazer que ela democraticamente proporciona enquanto, simulta- neamente, abriga diversifi cadas atividades econômicas. Signifi ca mostrá-la como é: um universo onde a vida está em permanente mutação e que, mesmo debilitado pelas graves agressões sofridas ao longo de cinco séculos, conserva a capacidade de regenerar-se por seus próprios meios. O importante é chamar atenção para a riqueza desse ecossistema que engloba diferentes ambientes como costões rochosos, praias de areia grossa e de sedimentos fi nos, planícies de maré, manguezais e outros nichos ecológicos onde se desenvolvem inúmeras formas de vida, tanto aquá- ticas quanto terrestres. É induzir o leitor a ser curioso, atento, observador. É demonstrar que não é difícil conhecê-la e entender sua linguagem pois, como todo corpo vivo, a baía tem características únicas e individuais. É lembrar que, ao longo de sua história de vida, a baía foi tentando adaptar- se aos fatos e a cada nova condição que lhe era imposta – esforça-se para sobreviver. Essencial é, portanto, ajudá-la, garantir que seja cercada de cuidados e partilhar com ela a esperança de voltar a ser brilhante, luminosa e cheia de vida.

Eliane Canedo de Freitas Pinheiro

INTRODUÇÃO Apesar de densamente urbanizado, o Rio de Janeiro guarda, ainda, como principal atrativo, a força

INTRODUÇÃO

Apesar de densamente urbanizado, o Rio de Janeiro guarda, ainda, como principal atrativo, a força de sua natureza. Mar, sol, praias, montanhas e fl orestas compõem a deslumbrante paisagem que, dominada pela estátua do Cristo Redentor sobre o Morro do Corcovado, circunda a Baía de Guanabara. Em torno dela se desenvolve a segunda mais importante região metropolitana do país. Mesmo sofrendo as conseqüências decorrentes do processo de colonização e de urbani- zação iniciado no século XVI, a Baía de Guanabara até hoje resiste bravamente nesse trecho do litoral fl uminense cuja paisagem se tornou, mais que qualquer outro monumento brasileiro, símbolo do sonho tropical que o Rio de Janeiro exporta ainda hoje para todo o mundo. A baía atual não se compara, entretanto, àquela de águas límpidas, contornada e ador- nada por pequenas enseadas, tendo como fundo a densa fl oresta tropical: uma visão de paraíso que extasiou os portugueses que a contemplaram pela primeira vez em 1502. Há muito tempo desapareceram os cardumes de baleias e botos que ali deslizavam mansamente e encontravam em suas águas calmas e piscosas o local ideal e seguro para dar à luz e criar os fi lhotes antes de se aventurarem nos mares oceânicos. Este talvez ainda fosse o cenário de hoje caso o Brasil

  • 18 não houvesse sido descoberto e os tupinambás continuassem a habitar as ilhas e a orla da baía, mantendo-a preservada e garantindo que sua beleza selvagem permanecesse quase intocada. O processo histórico foi, entretanto, inexorável. Ao chegarem ao Brasil, no século XVI,

Baía de Guanabara

biografia de

uma paisagem

INTRODUÇÃO Apesar de densamente urbanizado, o Rio de Janeiro guarda, ainda, como principal atrativo, a força

I NTRODUÇÃO

os portugueses ocuparam o território recém-descoberto com o objetivo único de explorar ao máximo as riquezas das terras conquistadas. Não havia intenção de ali se fi xarem; no Brasil,

como em inúmeras outras colônias, o extrativismo foi a forma econômica praticada durante o

período de domínio português, nos primeiros séculos. A extração do pau-brasil para o fabrico

de tintas e a caça às baleias eram atividades corriqueiras. Além disso, os europeus julgavam

necessário subjugar a natureza local que, embora deslumbrante, era extremamente ameaçadora,

pois abrigava inúmeros perigos: índios e animais ferozes e venenosos, além de insetos incômo-

dos e transmissores das desconhecidas doenças tropicais.

“Há um lugar horrível, forte e guerreiro, sobre todos os que formou a natureza no âmbito da América [

...

].

Demora vinte e três graus da equinocial junto ao Trópico do Capricórnio. Consta de uma baía formosa e de

dilatado recôncavo, e é chamado pelos naturais Niterói, e, pelos portugueses Rio de Janeiro. Este lugar quero

descrever, ao tosco, como saiu das mãos da natureza, que assim serve mais ao intento; virá tempo em que o

pintaremos mais ao galante com as cores que depois lhe darão a arte e o esforço dos portugueses.” 1

Nos séculos seguintes, a expansão das cidades brasileiras seguiu um padrão de urbani-

zação semelhante ao de quase todos os países submetidos ao regime colonial. Havia apenas

pequenas vilas dispersas ao longo do litoral e alguns aldeamentos no interior, próximos às áreas

de extração de minério. Os indígenas mantinham as mesmas taxas de crescimento vegetativo,

enquanto o número de portugueses aumentava muito lentamente. Ao contrário, a população

formada pelos escravos de raça negra trazidos da África crescia vertiginosamente.

Os principais núcleos urbanos do país permaneceram, entre os séculos XVII e XIX,

pouco populosos se comparados aos padrões europeus. A situação se manteria relativamente

estável até a última década do século XIX quando, abolida a escravidão no país, um enorme

contingente humano se tornou dispensável do ponto de vista econômico e começou a migrar

das regiões rurais para os centros urbanos, buscando novas possibilidades de trabalho. Some-

se aos deslocamentos campo-cidade o início de políticas de incentivo à imigração estrangeira.

A partir daí verifi cou-se um súbito aumento populacional das cidades em geral sendo que, no

Rio de Janeiro, essa tendência assumiu proporções de uma verdadeira explosão demográfi ca:

dos 50 mil moradores que tinha ao fi nal dos Setecentos, saltou para cerca de 500 mil habitantes

em meados dos Oitocentos e para quase 1 milhão nos primeiros anos do século XX.

Os principais centros, embora já dispusessem de alguns serviços de infra-estrutura, estavam

completamente despreparados para abrigar esse fl uxo contínuo de população que viria a se intensifi -

car ainda mais a partir da década de 1930, com o início do processo de industrialização. A partir dos

anos entre 1950-1960, quando o país adota defi nitivamente o modelo industrial de crescimento em

detrimento do desenvolvimento agrícola, essa tendência à concentração demográfi ca nos principais

centros urbanos se consolida. Invertia-se a relação campo-cidade, com predominância da população

urbana sobre a rural. As cidades, principalmente as maiores, viram-se invadidas por imensos bol-

sões de pobreza. Os novos habitantes, na falta de alternativas, passaram a ocupar áreas insalubres

ou consideradas de risco, tais como encostas instáveis, margens de rios e zonas inundáveis.

De um modo ou de outro assistiu-se, durante quase 500 anos, a um lento mas contínuo

processo de uso e ocupação do território baseado na crença de que os recursos naturais eram

infi nitos e toda aquela abundância, eterna. Florestas inteiras foram quase totalmente dizimadas,

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como em inúmeras outras colônias, o extrativismo foi a forma econômica praticada durante o período de

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sistemas hídricos alterados, desmontes de morros realizados, mangues e faixas de mar aterrados

e dejetos lançados nos corpos d’água. Poderia, entretanto, a história ter seguido outro rumo?

O homem, que durante todo esse tempo se sentia o centro do mundo, embriagado pela expan-

são de suas conquistas territoriais e por sua capacidade de acumular riquezas, poderia ter muda-

do de trajetória ou ter sido substituído por um outro ser, mais preocupado com a harmonia do

universo? Como seria isso possível se não havia ainda percebido que a natureza sobre a qual

avançava era, na realidade, um sistema complexo, frágil e diversifi cado cujo equilíbrio, ao ser

irremediavelmente rompido, poderia acarretar enormes prejuízos aos sistemas produtivos e,

principalmente, sérias ameaças à sua própria sobrevivência?

SEMENTES DO PENSAMENTO AMBIENTALISTA

O homem dominador, que se impõe sobre a natureza, era a ideologia que norteava

naquele tempo o comportamento da sociedade ocidental. Há muitos séculos, no entanto, este

conceito vinha sendo questionado, porém de forma circunscrita a grupos de cientistas e estu-

diosos que se debruçavam sobre questões relacionadas ao equilíbrio do meio ambiente e aos

impactos gerados pelas práticas civilizatórias adotadas à época.

Considera-se que Teofrasto de Efeso, morto em 287 a.C., sucessor imediato de Aristóteles,

teria sido o primeiro homem a se preocupar com a ecologia, embora a palavra só viesse a ser utili-

zada cerca de 1.600 anos depois. Ele descreveu as relações dos organismos entre si e com o meio.

Muitos séculos depois, no período seiscentista, foram encontrados documentos com registros de

pesquisas realizadas sobre a sucessão das espécies naturais após a ocorrência de queimadas nas

fl orestas. Aos poucos, os mais diversos estudos desenvolvidos em diferentes pontos do mundo

foram convergindo para uma única interpretação. Num determinado momento passou a ser acei-

ta a idéia de que plantas e animais, em suas mais variáveis formas, não viviam em comunidades

separadas e independentes. Ao contrário, eram todos integrantes de um mesmo sistema biótico

no qual exerciam funções integradas e complementares. Foi apenas em 1866, no entanto, que a

Enciclopédia Britânica incluiu pela primeira vez em suas páginas o vocábulo ecologia utilizando

o enunciado criado pelo naturalista alemão Ernst H. Haeckel para designar “ciência do conví-

vio”. Este conceito foi, muitos anos depois, ampliado para “ciência que estuda as relações dos

seres vivos entre si e com o meio ambiente” ou “sociologia da natureza”.

O tema ecologia só entrou no domínio público na segunda metade do século XX. E isto

só ocorreu porque, associados ao tão sonhado progresso civilizatório proporcionado pelos avanços

tecnológicos, pelo intenso processo de industrialização e pelas vantagens do mundo urbanizado,

  • 20 começaram a ser percebidos sinais evidentes de desequilíbrios ambientais cujos danos, ultrapassan-

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sistemas hídricos alterados, desmontes de morros realizados, mangues e faixas de mar aterrados e dejetos lançados

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do limites político-territoriais, atingiam regiões inteiras até assumirem proporções de caráter global.

A partir desse contexto, na época ainda muito incipiente, promoveu-se a I Conferência Internacional

das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano em 1972, em Estocolmo, Suécia. Reunindo

representantes de todos os países do mundo, o encontro conseguiu chamar atenção sobre os riscos

aos quais o planeta estava sujeito, caso a questão ambiental não se tornasse uma prioridade a ser

assumida não apenas pelos dirigentes políticos mas, também por toda a sociedade.

A iniciativa das Nações Unidas surtiu resultados quase imediatos. À semelhança de vários

outros países, o governo brasileiro criou, em seguida à Conferência, em 30 de outubro de 1973,

a Secretaria Especial do Meio Ambiente. Sob sua coordenação, iniciaram-se os estudos de leis e

padrões para controle da poluição até que, em 31 de agosto de 1981, foi aprovada pelo Congresso

Nacional a Lei n° 6.938, que estabeleceu fi nalmente a Política Nacional de Proteção Ambiental.

Vários assuntos – poluição atmosférica, chuvas ácidas, mudanças climáticas, processo de

desertifi cação, contaminação de rios e oceanos, além da ameaça nuclear – antes debatidos ape-

nas por uma minoria começariam a aparecer com insistência na mídia, nas universidades e nas

manifestações de grupos ambientalistas. A partir daí, foram incorporados às discussões mais

cotidianas, tornando-se temas constantes de plataformas eleitorais e de políticas públicas.

Poucos anos depois a Secretaria Especial do Meio Ambiente assumiu o status de

Ministério. Seus dirigentes, confrontados com as dimensões continentais do país, decidiram

promover a descentralização do controle ambiental. Hoje, todos os estados da Federação têm

suas respectivas secretarias de Meio Ambiente e, nos últimos anos, vem sendo ampliado conti-

nuamente o número de municípios dotados de órgãos específi cos para a gestão ambiental.

O Rio de Janeiro foi um dos primeiros estados a criar uma instituição cuja função exclu-

siva seria implementar uma política de preservação ambiental. Criada em 1975, a Fundação

Estadual de Engenharia do Meio Ambiente – Feema, desde o início adotou, como uma de suas

prioridades, a despoluição da Baía de Guanabara.

A realização, em 1992, da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente

e Desenvolvimento – ECO 92 foi de extrema importância para a comunidade mundial e,

particularmente, para a Baía de Guanabara. Foi aprovado um conjunto de compromissos a

serem cumpridos por todos os países signatários da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio

Ambiente e Desenvolvimento e o plano de ação da Agenda 21, destacando a miséria dos países

em desenvolvimento como fator relevante na pauta das questões ambientais. Foram criadas,

assim, condições extremamente favoráveis para a obtenção de apoio internacional para recu-

perar a baía. Talvez a iniciativa mais importante tenha sido o trabalho desenvolvido por uma

equipe integrada por técnicos da FEEMA e consultores da empresa Kokusai Kogyo Ltda, que

já havia realizado o programa de despoluição da baía de Tóquio. Com fi nanciamento da Japan

International Cooperation Agency / Jica, foram desenvolvidos de 1992 a 1994 detalhados estu-

dos sobre todo o ecossistema. Como resultado, a equipe de especialistas apresentou o conjunto

de medidas que deveriam ser realizadas a curto, médio e longo prazos e alertou que “despoluir”

a Baía de Guanabara exigiria um complexo, longo e custoso trabalho cujas metas só seriam

atingidas se houvesse um comprometimento da sociedade e do Estado no sentido de garantir a

participação de todos e a continuidade na execução dos empreendimentos planejados. Portanto,

cada cidadão tem um importante papel a desempenhar.

  • 1 Vasconcelos, Padre Simão de. Vida do venerável Padre José de Anchieta. Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro, 1943, p. 66.

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aos quais o planeta estava sujeito, caso a questão ambiental não se tornasse uma prioridade a

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