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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 32: 51-69 FEV.

2009

RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO:


O DUPLO PROCEDIMENTO DE DESNATURALIZAÇÃO
E TEMPORALIZAÇÃO1

Diego Santos Vieira de Jesus

RESUMO

Este artigo tem como objetivo explicar por que um duplo procedimento de desnaturalização e temporalização
oferece um primeiro passo rumo a uma teorização que aponte para a dissolução das noções de autoridade
e identidade do conceito de Estado e a redefinição do problema da ordem política internacional, bem como
identificar, nos debates recentes da teoria política e da teoria de Relações Internacionais, abordagens
alternativas que sigam na direção desse duplo procedimento. A hipótese central cuja correção pretende-se
verificar é a de que o duplo procedimento de desnaturalização e temporalização permite a desestabilização
simultânea das segmentações internas que fortalecem o Estado e que o diferenciam como locus de autoridade
contraposto a forças apolíticas da sociedade doméstica, e das divisões externas, que o distinguem de
entidades internacionais similares. A partir dessa desestabilização, problematizam-se interpretações estatistas
de autoridade, e redefinem-se discussões sobre a ordem política internacional, gerando-se novas matrizes e
renovando-se o entendimento do político: organizações alternativas do espaço podem ser pensadas a
partir da apreciação da diferença como meio de auto-reflexão e crítica social, bem como se pode chegar a
perspectivas que considerem incoerências e ambivalências das práticas estatais e questionem o controle do
Estado sobre espaços e corpos na busca de preservação de seu status ontológico e prático.
PALAVRAS-CHAVE: Teoria Política; Teoria de Relações Internacionais; teoria pós-moderna; Estado;
desnaturalização; temporalização.

I. INTRODUÇÃO como principal condicionante da realização de tais


questionamentos. Para fortalecer-se como fonte
Ao conceber que o discurso moderno
de autoridade, o Estado revigora o silêncio sobre
controverte a autoridade, mas circunscreve esse
suas fundações ao expor sua superfície às críticas.
questionamento, Jens Bartelson (2001) procurou
Nesse sentido, o conceito de Estado – cujas
elucidar que o conceito de Estado exerce uma
predisposições são reforçadas em vez de minadas
função constitutiva dos discursos político e
pelos críticos – é compreendido não apenas
científico modernos e torna-se parte não-
empiricamente como objeto focal da pesquisa
problematizada da reflexão política a partir de
científica, mas transcendentalmente como
iniciativas de sua própria contestação e redefinição.
condicionante do conhecimento autônomo e
A conservação da autoridade virtual e simbólica
considerado “científico”.
do Estado repousa no seu próprio desvelo,
permitido pelo espírito crítico da modernidade; O ataque pluralista dos teóricos da
particularmente pela sua problematização interdependência complexa (KEOHANE & NYE,
sistemática e pela incorporação de sua negação ao 1977) e dos analistas que deram destaque ao
discurso: a crítica caracteriza-se como uma processo de formulação das decisões de política
seqüência de transgressões discursivas motivadas externa (SNYDER, BRUCK & SAPIN, 1961)
pela proibição da contestação à autoridade, e a problematizou o valor analítico de tal conceito,
presença simbólica do Estado no discurso age mas acabou por meramente substituí-lo por
equivalentes semânticos que traziam soluções
estatais para questões políticas. O Estado –
determinado na sua dependência de forças
1 Agradecemos ao apoio do Conselho Nacionald e
socioeconômicas e na aptidão de conciliar essas
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que
realidades – foi posteriormente reposicionado no
concedeu ao autor uma bolsa de doutorado.

Recebido em 29 de setembro de 2007. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v. 17, n. 32, p. 51-69, fev. 2009
Aprovado em 19 de maio de 2008.
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RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

foco analítico com autonomia suficiente para externas, que o distinguem de entidades
explicar os pré-requisitos de reprodução da ordem internacionais similares. A partir dessa
capitalista; porém, a indivisibilidade da autoridade desestabilização, problematiza-se interpretações
política foi preservada, naturalizando-se estatistas de autoridade, e redefine-se discussões
segmentações Estado-sistema internacional e sobre a ordem política internacional, gerando-se
Estado-sociedade. Mais recentemente, a novas matrizes e renovando-se o entendimento do
desnaturalização do Estado a partir de fora – político: organizações alternativas do espaço
estratégia retórica que destitui a simplicidade podem ser pensadas a partir da apreciação da
fundacional da distinção entre Estado e sistema diferença como meio de auto-reflexão e de crítica
internacional como “natural” ou “dada” e concebe- social, bem como pode-se chegar a perspectivas
a como um artifício cultural –, e a temporalização que considerem incoerências e ambivalências das
a partir de dentro – estratégia retórica que questiona práticas estatais e questionem o controle do Estado
a aparente imutabilidade da segmentação entre sobre espaços e corpos na busca de preservação
Estado e sociedade civil –, viabilizaram, a partir de seu status ontológico e prático.
de críticas imanentes, a reconstrução da história
Procuro investigar a correção da suposição de
do conceito de Estado como definidor da própria
que a perspectiva analítica proposta por David
modernidade política. Porém, foram incapazes de
Blaney e Naeem Inayatullah (2004) aponta para a
isoladamente “dissolver” o Estado e repensar as
desestabilização das segmentações internas e
condições gerais de autoridade: num procedimento
externas que fortalecem o conceito de Estado: o
de fora para dentro, a desnaturalização dos
reconhecimento do Outro interno não-conformado
aspectos externos da condição de Estado preserva
ao processo de homogeneização cultural
a separação entre Estado e sociedade e não lida
sistemática representa um desafio ao exercício da
com os fatores que tornam tal segmentação
autoridade do Estado sobre forças sociais numa
possível; já a temporalização, num movimento de
comunidade cuja coesão e integridade procura
dentro para fora, concebe a distinção entre Estado
preservar, e o compartilhamento de experiências
e sociedade como historicamente contingente, mas
de sofrimento com Outros externos visando à sua
a soberania externa é tratada como constante trans-
superação no pensamento e na prática questiona a
histórica que circunscreve o local de
rigidez de barreiras externas supostamente
temporalização (BARTELSON, 2001, p. 154-155,
imutáveis entre identidade e diferença. Tais
183-184).
iniciativas funcionam como fontes de auto-reflexão
Tendo em vista que grande parte dos conceitos e transformação cultural, e estabelecem a
de ordem política ainda permanece condicionada conversação entre tradições que respondem à
ao Estado e que os principais questionamentos do opressão nas “zonas de contato”, permitindo
conteúdo e da forma da autoridade preservam a pensar formas de organização espacial alternativas
fonte dessa mesma autoridade, o objetivo central às demarcações cristalizadoras do Estado.
deste artigo é explicar por que um duplo Examino também a suposição de que a abordagem
procedimento de desnaturalização e temporalização de Phillip Darby (1998) transcende a rigidez de
oferece um primeiro passo rumo a uma teorização binarismos essencializados pelas segmentações
que aponte para a dissolução das noções de internas que reificam o Estado a partir da ênfase
autoridade e identidade do conceito de Estado e a nos elementos particulares que operam fora das
redefinição do problema da ordem política regras de engajamento estipuladas para a relação
internacional. Além disso, busco identificar, nos entre Estado e forças sociais e configuram-se
debates recentes da teoria de Relações como limites ao exercício efetivo do seu poder,
Internacionais, abordagens alternativas que sigam indicando que tais elementos podem também ser
na direção desse duplo procedimento. A hipótese fontes de transformação sistêmica.
central cuja correção pretendo verificar é a de que Simultaneamente, tal perspectiva questiona
o duplo procedimento de desnaturalização e segmentações externas pretensamente dadas ao
temporalização permite a desestabilização salientar a cultura simbiótica entre colonizador e
simultânea das segmentações internas que colonizado, a heterogeneidade de sentido e o
fortalecem o Estado e que o diferenciam como hibridismo, o qual, em vez de se sustentar
locus de autoridade contraposto a forças apolíticas isoladamente, é colocado em diálogo com
da sociedade civil doméstica, e das divisões perspectivas de comportamento político que

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operam na base de conflitos não somente dentro novas, integradas, fluidas e sobrepostas até mesmo
de sociedades, mas também na interação à do Estado ainda prevalecerem demarcando
internacional. antagonismos, mesmo que não permaneçam onde
estavam até então. A demarcação de fronteiras
Além disso, busco averiguar a correção da
continua a significar a definição de autoridade sobre
suposição de que a abordagem de Michael Shapiro
um espaço, revelando-se que, mesmo que exista
(2004) avança no sentido da temporalização, pois,
maior interação com a diferença presente além das
enquanto o Estado-nação é concebido pelo autor
fronteiras nacionais, isso não trouxe
como um ator biopolítico que traduz o corpo
necessariamente o engajamento com ela, pois
biológico como social e tenta aprisioná-lo num
continuamos a perpetuar mecanismos de exclusão
aparato de sujeição que desvela o projeto particular
desses “Outros” (WALKER, 2005, p. 9). As
de produção de unidade cultural etnonacional,
“novas fronteiras” podem assumir formas
trabalhos artísticos fora da governança cultural
alternativas ou difusas, mas continuam a reproduzir
estatal desenvolvem mecanismos alternativos de
uma concepção totalizante que o Estado – enquanto
adesão e questionam a homogeneidade das culturas
instituição responsável pela organização primordial
nacionais e a imutabilidade dos procedimentos
do espaço no mundo moderno – ajudou a
estabelecidos para a interação entre Estado e
cristalizar. No pensamento e na prática políticos,
sociedade civil, demonstrando a flexibilidade e a
o conceito de Estado ainda preserva a sua
capacidade de transformação dessa segmentação.
centralidade ao funcionar como ponto de
Simultaneamente, Shapiro desnaturaliza o Estado
referência e condicionar o próprio pensamento
ao salientar que o conceito de biopoder envolve
sobre organizações alternativas a ele, autorizando
uma dimensão expansionista e militante voltada
formas alternativas de organização espacial que
para a contenção de ameaças ao Estado no nível
complementem suas funções sem que minem a
internacional, desestabilizando segmentações
sua autoridade, descartando outras que propõem
supostamente dadas entre Estado e sistema
sua superação, abandono ou destruição e
internacional ao concebê-las como artifícios
circunscrevendo os questionamentos feitos a ele.
flexíveis que operam demarcando a diferença
O que proponho aqui é que, para pensarmos em
também no nível externo.
outras organizações do espaço que não estejam
Antes de prosseguir à investigação, cabem submissas ao condicionamento estatal, é produtivo
algumas observações importantes. Primeiramente, primeiramente questionar as fronteiras internas e
cumpre lembrar que a simples consideração da externas que fortalecem a autoridade estatal – em
existência de múltiplas identidades e de outras relação à sociedade civil e ao sistema internacional,
organizações do espaço que convivem com o respectivamente –, evidenciando sua artificialidade
Estado não necessariamente pressupõe ultrapassar e arbitrariedade. O questionamento do controle que
e abandonar uma concepção de fronteira como a o Estado exerce sobre espaços e corpos pode
ambição reguladora moderna que o conceito de representar um primeiro passo importante na
Estado ajudou a cristalizar. Hoje, temos múltiplas redefinição de discussões sobre a construção da
formas de construção de territórios no globo ordem internacional e, assim, pensar num mundo
terrestre, que vão desde a fixidez e o encaixamento pós-vestfaliano marcado sim por uma
hierárquico dos territórios-zona até a fragmentação multiterritorialização e identidades distintas, mas
e a descontinuidade dos territórios-rede. Porém, no qual a diferença seja considerada como meio
o que ressalto é que, mesmo que o sujeito possa de auto-reflexão e crítica social, não como
hoje construir múltiplos territórios e desenvolver disfunção ou anomalia.
o multipertencimento a experiências espaciais
Ademais, o fato de conceber o Estado como
integradas e diversas, isso não necessariamente
uma realidade discursiva não significa
trará uma superação da noção de fronteira
necessariamente a desconsideração da presença
enquanto ambição reguladora, disciplinadora e
material e modelar dos aparelhos estatais na vida
excludente, cristalizada pelo conceito de Estado:
internacional dos indivíduos, no controle de
embora falemos em fronteiras diluídas em face
organizações ou na sistematização de processos
das novas tecnologias e do desenvolvimento do
comerciais, financeiros e tecnológicos. Um ponto
ciberespaço ou em múltiplas fronteiras sobrepostas
central do argumento é a consideração de que o
estabelecidas pela globalização ou pelos processos
significado dessa presença material depende de
de integração regional, várias dessas fronteiras

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RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

uma rede conceitual que constitui a autoridade circunstâncias e tolhido, assim, o desenvolvimento
política, confere indisputabilidade à entidade estatal de concepções alternativas de organização do
e atribui-lhe a prerrogativa de controlar recursos espaço que minassem completamente a sua
e de utilizar legitimamente a violência organizada. autoridade. Ao sinalizar que essa autoridade
Nesse sentido, o reconhecimento da presença constrói-se de forma performática e interpretativa
material do Estado não conduz necessariamente à – sem necessariamente ignorar a sua presença
sua reificação; porém, o que pode sim levar a tal material –, a abordagem proposta neste artigo
reificação é a compreensão desse Estado como desestabiliza o caráter supostamente essencial e
um fato dado e não-problematizado por sua fundacional dessa autoridade ao evidenciar suas
suposta existência como parte irredutível da incoerências e ambivalências, abrindo assim
realidade internacional, algo que será criticado mais espaço para novas formas de pensamento sobre a
adiante nessa abordagem. Cumpre também organização do espaço sem as amarras do conceito
observar que, historicamente, cidadãos estatal e permitindo a reconsideração da diferença
submeteram-se à realidade material do Estado, e, como um meio de autocrítica e de reflexão social,
hoje, ao redor do planeta, existe uma demanda de não como um elemento desestabilizador de uma
indivíduos por tal instituição, como os casos de ordem estatal reificada e supostamente dada.
palestinos e curdos exemplificam. Essas são Evidentemente, o Estado enquanto instituição
apenas provas da força do conceito que transcende jamais desapareceria completa e imediatamente
a própria discussão no âmbito da produção do diante da proposição de novas formas de
conhecimento: a centralidade assumida pelo Estado organização do espaço, nem seria ingênuo a ponto
fez com que tal conceito fosse colocado como de acreditar que as assimetrias materiais geradas
referência para o entendimento de vários outros, por ele podem desaparecer instantaneamente nas
de forma que se desenvolve a perspectiva de que dimensões doméstica e internacional. Além disso,
a instituição estatal é a mais habilitada – não existe garantia de que, ao conduzir tal processo
materialmente, inclusive – para garantir a de desestabilização das fronteiras que conferiram
segurança e o bem-estar dos indivíduos, sendo a centralidade do conceito, o resultado do
flexível o suficiente na contemporaneidade para empreendimento será bem sucedido ou
conviver com outras organizações espaciais que necessariamente levará ao abandono ou à
complementem a sua ação, mas que não superação desse Estado tanto na prática política
necessariamente trarão o seu abandono, minarão como na produção acadêmica. Porém, um
completamente a sua autoridade ou romperão com primeiro passo na direção de um pensamento
o entendimento de fronteira que ele ajudou a alternativo sobre a organização do espaço de forma
cristalizar. Isso limita a imaginação política, pois a criar zonas de engajamento com a diferença e
1) instituições alternativas ao Estado que poderiam superar as experiências de sofrimento que a
ser dotadas da capacidade material de preservar o organização estatal promoveu pode ser válido para
bem-estar desses indivíduos e que garantiriam um a reflexão sobre a possibilidade de construção de
verdadeiro engajamento com a diferença são uma nova ordem internacional que garanta o bem-
concebidas como utópicas ou ainda dependentes estar e a segurança dos indivíduos.
do consentimento estatal para sua operação; 2)
Após tais considerações, explicitarei na seção
relega-se em segundo plano a noção de que o
seguinte o processo pelo qual o Estado assumiu o
Estado pode ser um dos principais promotores da
status duplo de objeto potencial e de condição do
violência contra seus próprios cidadãos, não
conhecimento, estabelecendo não apenas a história
funcionando como um espaço coeso numa
possível e a identidade moderna, mas os
realidade dada e não-problematizada.
parâmetros da discordância teórica, de forma a
A “teoria de Estado” subjacente ao argumento preservar-se dessas problematizações. Apontarei
aqui proposto traz uma crítica à concepção que, embora as estratégias de desnaturalização e
anistórica do conceito. A perspectiva aqui temporalização busquem questionar a autoridade
desenvolvida considera esse Estado um conceito e a identidade do conceito de Estado, elas
que conduz ao exercício de controle sobre isoladamente acabam fortalecendo demarcações
indivíduos e recursos em circunstâncias históricas que conservam tal conceito; porém, teorizações
específicas ao ter assumido centralidade no alternativas que realizem simultaneamente essas
pensamento e na prática políticos em tais críticas podem desreificar tal conceito, abrindo

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espaço para o desenvolvimento de novas matrizes sem que esse deixasse de ser um esforço
ou a indicação de loci alternativos de enunciação “científico” ou “político”.
do político. Posteriormente, examinarei como as
As fontes da ambigüidade conceitual a partir
abordagens do mainstream da teoria de Relações
das quais o Estado assume sua identidade são,
Internacionais reificaram o Estado e como as
para Bartelson (2001, p. 10-25), as práticas de
principais críticas feitas ao conceito por grande
definição – que, no esforço de clarificação do
parte das perspectivas pós-positivistas
sentido, resultam na reprodução daquilo que se
preservaram a autoridade estatal. Antes de tecer
propõem a questionar – e o posicionamento
as considerações finais, indicarei que as
conceitual no discurso: quanto mais central for o
abordagens de Blaney e Inayatullah (2004), Darby
conceito, maior é a facilidade de utilizá-lo na
(1998) e Shapiro (2004) apontam para a realização
definição de outros conceitos e de colocá-lo como
do procedimento duplo de desnaturalização e
fundacional e constitutivo do discurso político
temporalização ao questionarem delimitações
moderno. A pressuposição da presença do Estado
rígidas externas e internas que fortalecem o Estado
no discurso político resulta da lógica de
e, a partir disso, propondo perspectivas alternativas
centralidade e ambigüidade, condicionando sua
de autoridade e identidade que não estejam restritas
identidade conceitual e a própria imaginação política
de maneira imutável a um Estado supostamente
pela diferenciação categórica do Estado quanto às
homogêneo. Cumpre lembrar que, embora essa
relações interestatais no nível internacional e à
discussão esteja pautada nos termos colocados
sociedade doméstica e orientando questionamentos
por Bartelson, ela é apenas uma dentre tantas
que reproduzem tal ambigüidade. Transcendendo
formas alternativas possíveis de se pensar
a tensão entre a necessidade de validação conceitual
caminhos para uma teorização que vá além do
filosófica e a contextualização historicamente
Estado. Tal autor não será, de forma alguma,
variável dos conceitos, a abordagem conceitualista
situado como um gatekeeper que estipula termos
de Bartelson viabiliza o entendimento do conceito
absolutos e únicos para uma discussão no perfil
de Estado como entidade discursiva autônoma em
dessa que será aqui apresentada.
relação ao status ontológico de conceitos fora do
II. O CONCEITO DE ESTADO E OS PROCE- texto, mas não em relação a outras entidades
DIMENTOS DE DESNATURALIZAÇÃO E lingüísticas. Os critérios de coerência e
TEMPORALIZAÇÃO consistência variam no tempo por serem
conceituais – preservando a abertura histórica e a
As “fundações” da autoridade definem-se,
possibilidade de julgamento filosófico –, e a história
segundo Bartelson (2001, p. 7-9), por meio de
do conceito pode ser traçada em relação a outros
“mecanismos de esquecimento” de sua origem –
conceitos, mas sem que se torne uma abstração
de maneira que tal autoridade antecede e constitui
ou uma condição transcendental de subjetividade.
a comunidade política relacionada a ela – e também
organizam as condições de questionamento que Com o objetivo de entender como o Estado
garantem sua reprodução. Com enfoque nos despontou como objeto de pesquisa científica mas
modos de enunciação dos argumentos acerca do sem incorrer nas categorias reificadoras da
status ontológico do Estado e nas pressuposições historiografia tradicional, Bartelson salienta a
da estrutura conceitual mantida pelos múltiplos interdependência lógica entre tal conceito e a
discursos estatais, o autor desvela que as críticas ciência política, que conquista coerência teórica e
compartilham condições de possibilidade com seu identidade discursiva a partir da relevância
objeto: ao admitirem “fundações míticas” da auto- ontológica oferecida ao Estado, num processo de
identidade conceitual do Estado como ponto inicial, deslocamento dos atributos do objeto para o campo
tais críticas consolidam a presença fundacional de conhecimento que mascara problemas da
do seu alvo. O conceito de Estado definiu identidade estatal e disciplinar e sinaliza a
parâmetros da discordância teórica sem que fosse pressuposição da autoridade no discurso. O Estado
sujeito à contestação pela forma como a assume status duplo, pois, além de objeto potencial
problematização foi delimitada: a cienticação e o de conhecimento, é condição desse conhecimento,
questionamento dessa ambição motivaram o integral à definição da história possível e da
declínio da contestabilidade, já que, embora se identidade moderna: justapondo-se o empírico e o
pudesse discordar do status ontológico do Estado, transcendental, ele coloca-se não apenas como
dificultava-se a concepção de autoridades além dele fenômeno histórico desdobrado no tempo –

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RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

“resultado da evolução” –, mas sua presença como desestabilizar noções de autoridade e identidade
meio trans-histórico dessa evolução torna-se do conceito de Estado, elas acabam reforçando
condicionante de passado e presente. Ele segmentações que fortalecem tal conceito
posiciona-se como fundacional ao mesmo tempo (BARTELSON, 2001, p. 150-151).
em que é inscrito como paradigma da ordem
Começando com identidades e modos de
política. Organizam-se em categorias trans-
autoridade presentes, a desnaturalização desvela
históricas comunidades individualizadas dotadas
que a diferenciação entre Estado e sistema
de passados específicos – um “museu vivo” – e
internacional é resultado de hábitos discursivos.
encapsula-se a totalidade dessa experiência numa
Porém, a dissolução do Estado ocorre somente
“história universal” que circunscreve ordens
de fora para dentro: ao interpretar-se o Estado
políticas históricas no presente (BARTELSON,
como um espaço intermediário entre o doméstico
2001, p. 30-74; 182-183).
e o internacional e que parece contingente a partir
Conceituado como um amálgama historicizado de fora, negligencia-se que tal espaço também seja
de identidade/comunidade e autoridade a partir de construído a partir da diferenciação em relação à
sua diferenciação quanto às entidades sociedade doméstica. As condições de possibilidade
internacionais similares e à sociedade civil pela dessa divisão interna são marginalizadas, tendo em
concepção de locus de autoridade contraposto a vista que a desnaturalização está voltada para a
forças domésticas, o conceito de Estado é aplicado desconstrução dos aspectos externos da condição
trans-historicamente e opera como ponto de de Estado. Já a temporalização procura desfazer
convergência de uma rede conceitual que constitui mitos de origem ou fundações últimas por meio
a autoridade da ciência política, naturalizando da relativização histórica da autoridade política ao
demarcações disciplinares e conferindo-lhe longo do tempo e revelar a “impureza” da
indisputabilidade. Tal aplicação relaciona-se à identidade como resultado de forças históricas além
historiografia “presentista” e às aspirações do controle da identidade constituída. Ao
nomotéticas da ciência política ligada à ordem e conceber-se a soberania como ficção jurídico-
ao progresso. Oferece, assim, resposta para política, a separação entre Estado e sociedade é
problemas políticos “eternizados” ao situar o vista como historicamente mutável, de forma que
Estado como fonte única de autoridade, as instituições estatais são tratadas como
possibilitando investigações do passado como se expressões de técnicas variadas de governo, não
estados sempre estivessem presentes e reforçando como sua justificativa implícita ou explicação
a autoridade da ciência na sua identificação com a teórica. Contudo, a soberania externa ainda é
autoridade estatal (BARTELSON, 2001, p. 65-76). tratada como constante através da história, o que
delimita o espaço de temporalização possível
Uma série de abordagens teóricas de cunho
(BARTELSON, 2001, p. 154-155; 168-180).
pós-moderno ou pós-estruturalista assumiu o
Estado como contingente ao discurso e criticou o Embora isoladamente tais estratégias de crítica
uso desse conceito nas perspectivas mais imanente acabem assumindo aquilo que criticam
tradicionais. Tais críticos afirmavam que as – as interpretações estatistas de autoridade e
vertentes dominantes pressupunham o Estado identidade –, é possível imaginar teorizações
como dado ao conhecimento político. Enquanto alternativas que conduzam simultaneamente esses
há abordagens como a de Rose e Miller (1992) procedimentos e, assim, desestabilizem noções
que procuram desestabilizar tal pressuposição pela reificadas de autoridade e identidade associadas
desconstrução das segmentações entre Estado e ao Estado, criando novas matrizes ou apontando
sociedade doméstica, outras como as de Ashley outros loci de enunciação do político. Enquanto a
(1987) e de Walker (1993) fazem-no a partir do desnaturalização das demarcações de dentro e fora
questionamento da demarcação rigorosa entre permite questionar a cristalização da tensão entre
Estado e sistema internacional. O principal ordem e anarquia, a temporalização concomi-
obstáculo a ambos os perfis de abordagem crítica tantemente viabiliza maior ênfase às condições
é o fato de que cada forma de crítica ao Estado mutáveis que estabelecem padrões de interação
acaba concebendo como “dado” ou “não- entre Estado e sociedade. Mais especificamente,
problematizado” aquilo que a outra procura o Estado pode ser considerado uma reivindicação
questionar. Embora ambas tentem reconceituar o específica do monopólio da violência, o que permite
problema da ordem política de forma a compreendê-lo como uma possibilidade

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contestável cuja realização completa é impossível III. O ESTADO E SEUS CRÍTICOS


e cuja legitimidade depende de seu sucesso relativo
Antes de examinar tais caminhos alternativos,
em vez do contrário. Tal Estado é entendido, assim,
cumpre primeiramente explicar por que o
como palco de desordem antes de apresentar-se
mainstream da teoria de Relações Internacionais
como fonte de identidade e ordem política,
reificou o Estado, oferecendo um tratamento não-
evidenciando-se a violência interpretativa de sua
problematizado às delimitações internas e externas
autoridade. Ao mesmo tempo, toda política passa
que cristalizam o conceito, e por que as principais
a ser concebida como “internacional”, já que a
críticas feitas ao conceito contribuíram para
idéia de internacional não mais ocorre numa
conservar a autoridade estatal. Em face à
dimensão pré-dada, mas remete às práticas espaço-
multiplicidade de abordagens nesse debate, seria
temporalmente específicas que estabelecem tal
impossível abarcar a totalidade de autores
dimensão num processo de busca de supostos
envolvidos; por isso, serão consideradas obras que
princípios políticos primordiais (BARTELSON,
apresentaram alguns dos principais parâmetros de
1998, p. 321-322). A ficção jurídico-política do
discussão teórica na área nos últimos cinqüenta
Estado auto-identificado e seu corolário – o
anos. A seleção dessas obras foi feita a partir do
sistema internacional – são entendidos, nas
tratamento central oferecido por elas em relação a
palavras de Bartelson (1998, p. 322), como
três critérios indicados por Bartelson (1998):
“estabilizações momentâneas das práticas
indivisibilidade dos estados, distinguibilidade entre
históricas da política de poder”.
eles e continuidade espaço-temporal estatal. A
O procedimento duplo de desnaturalização e consideração desses elementos permite verificar
temporalização pode apontar para uma teorização o processo pelo qual se constrói a acomodação
além do Estado na medida em que evidencia que do conceito de Estado numa posição de
noções supostamente subjacentes ou fundacionais centralidade para a explicação de outros conceitos
são, na verdade, exercícios de controle interno e não apenas nas obras em foco, mas naquelas que
externo em circunstâncias históricas específicas. as tiveram como referência ou inspiração. Esses
Explicita, assim, que existem entendimentos três pontos foram discutidos de forma explícita
alternativos de autoridade e identidade que não nas obras consideradas nessa pesquisa, embora
estão encapsulados de forma imutável num Estado estejam também presentes de forma mais sutil ou
pretensamente coeso e homogêneo. Trazendo à coadjuvante em produções como as de
tona as ambivalências na interação com a diferença, Morgenthau, Bull, Wallerstein e Onuf.
não apenas é possível dar-se um primeiro passo Evidentemente, tal critério de seleção não é isento
na direção da desestabilização das segmentações de questionamento, nem a leitura das obras aqui
internas e externas que reificam o Estado, mas apresentadas é a única possível. Autores relevantes
apontar para uma renovação do entendimento do foram deixados de lado pela própria limitação de
político no processo de teorização, que se volte, espaço, mas a minha expectativa é a de que, a
por exemplo, para a personalização das questões partir da análise aqui feita, estudos futuros possam
da ordem internacional e para o engajamento com debruçar-se sobre a centralidade que tal conceito
a diferença no nível local e global. Com tal assumiu em outros estudos relevantes na área de
iniciativa, encoraja-se a produção de novos corpos Relações Internacionais.
de conhecimento que transcendam o rigor das
Para Waltz (1979), os estados, vistos como
demarcações internas entre Estado e sociedade civil
unidades fundamentais de organização política, têm
e externas entre Estado e sistema internacional e
autonomia suficiente em relação a suas sociedades
que permitam pensar em organizações alternativas
para buscar racionalmente interesses nacionais e
do espaço a partir dos impulsos de regeneração e
são dotados de unidade e capacidade de ação
apreciação da diversidade como meio de auto-
coerente, executando respostas às restrições
reflexão e crítica social. Além disso, podem
sistêmicas. Waltz enfatiza o contexto da ação, em
desenvolver-se interpretações que questionem a
que se observa a falta de autoridade central para
autoridade do local de enunciação dominante,
qual os estados possam apelar por proteção: no
proporcionem a auto-reflexão a partir da
meio anárquico marcado pela auto-ajuda, unidades
consideração de incoerências e alteridades nas
similares na natureza diferem em capacidade e
práticas estatais e problematizem o controle que o
respondem a ameaças tomando ações que
Estado exerce sobre espaços e corpos.

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RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

impeçam o crescimento de poder dos adversários conservar tais elementos gerais que caracterizam
e adotando uma política de equilíbrio a condição de Estado – mesmo em face de
sistemicamente induzida, que reduz a violência mas mudanças na distribuição de capacidades entre
não elimina completamente a incidência de guerra. estados específicos – e a compreender o Estado
As mudanças no comportamento desses atores e como fato bruto e inteligível por sua existência
os resultados no sistema são explicados não com como parte irredutível da realidade internacional.
base na variação das características das unidades, Busca confirmar suposições sobre a essência desse
mas na mudança na distribuição de capacidades. Estado com base numa autoridade supostamente
Para o autor, o entendimento da estrutura do primordial ou fundacional. Ao mesmo tempo, Waltz
sistema internacional permite explicar padrões de fortalece a autoridade da sua teoria ao identificá-
comportamento estatais, pois os estados la com a autoridade do Estado, já que tal conceito
determinam interesses e estratégias com base nos na abordagem neo-realista visa a representar uma
cálculos de suas posições no sistema. A ligação realidade política dada, tornando-a acessível ao
entre tal estrutura e o comportamento dos atores conhecimento (BARTELSON, 1998, p. 298-302).
é dada pela suposição da racionalidade, que permite
Na efervescência intelectual das décadas de
prever que os líderes responderão aos incentivos
1970 e 1980, diversos ataques ao realismo e ao
e às restrições impostas pelos seus meios (WALTZ,
neo-realismo foram lançados. Grande parte deles
1979; GRIECO, 1997, p. 165-177).
incidia sobre o pouco espaço oferecido pelos neo-
Ao promover a segmentação entre as relações realistas para mudanças sistêmicas proporcionadas
internacionais e o contexto em que se pelas unidades, enquanto outros eram voltados
desenvolvem, Waltz postula generalizações sobre para a negação dos grandes níveis de
uma lógica supostamente uniforme da ordem interdependência econômica e a marginalização da
internacional, e sua abstração com relação aos política doméstica na definição do comportamento
desenvolvimentos espaço-temporais específicos do Estado por tais teóricos. Keohane desafiou a
impede a consideração de dinâmicas contingentes, perspectiva de que a anarquia inevitavelmente
com isso limitando a antecipação e a explicação levava estados ao conflito, primeiramente com o
da mudança. Produzindo um regime sobre a conceito de “relações transnacionais” – que atacava
“verdade”, o autor também marginaliza variações a idéia de um Estado unitário e coeso como
introduzidas nos padrões comportamentais dos unidade de análise – e depois com o
estados pelos processos subestatais e pelos “institucionalismo neoliberal”, que defendia que as
indivíduos. Além de invocar a universalidade da instituições poderiam superar obstáculos à
ordem política internacional baseada na soberania cooperação. O autor destacou a importância de
a fim de cristalizar a separação entre os níveis outros atores no sistema internacional além dos
doméstico e internacional, legitima a inevitabilidade estados – como os subestatais, transestatais e não-
das relações internacionais como zona de conflito estatais –, numa dinâmica de movimentos sociais
(LEBOW, 2007, p. 415-435). O realismo estrutural complexos que envolvia a formulação da política
adquire, assim, coerência e identidade a partir da externa e os processos transnacionais, abarcando
relevância ontológica atribuída ao Estado, que, as questões de barganha, coalizão e compromisso
além de objeto, é colocado como condição desse (GOUREVITCH, 1999). Em vez da interação entre
conhecimento. Ademais, Waltz reafirma estados unitários preocupados primariamente com
segmentações desse Estado em relação a entidades a segurança nacional definida em termos militares,
internacionais funcionalmente semelhantes – Keohane e Nye (1977) viram múltiplas áreas
apontando que a diferenciação entre elas dá-se pela importantes, bem como indicaram a ruptura da
distribuição de capacidades – e a sociedade hierarquia entre áreas temáticas – as questões
doméstica, em contraposição à qual tem autoridade militares não eram sempre as dominantes –, a
e autonomia para responder a desafios políticos utilidade declinante da força, a importância dos
eternos. Tratando os critérios de indivisibilidade regimes internacionais e a fragmentação da
dos estados, distinguibilidade entre eles e autoridade em cada Estado. Posteriormente, com
continuidade espaço-temporal estatal como o desenvolvimento do institucionalismo neoliberal,
constantes trans-históricas, Waltz concebe tais Keohane passou a compartilhar mais aspectos com
atributos como inferencialmente conectados e os neo-realistas: aceitava a anarquia internacional
definidos em termos uns dos outros, de forma a e o egoísmo racional dos estados, mas mostrava

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que egoístas poderiam cooperar estrategicamente (BARTELSON, 2001, p. 77-113). Era mantida,
num sistema anárquico e ressaltava a relevância assim, a ambivalência sobre a fonte de autoridade
das instituições para se evitarem trapaças. que preservava a coesão entre grupos e indivíduos.
Conforme a produção de Keohane caminhou na
Elementos como interdependência e regimes
direção de um maior estatocentrismo com o
internacionais foram acomodados dentro do neo-
institucionalismo neoliberal, reificavam-se ainda
realismo na década de 1980, ao mesmo tempo em
mais as distinções entre estados concebidos como
que o neoliberalismo redefiniu-se de uma
egoístas racionais e a anarquia internacional na
interdependência complexa para uma versão
qual tais unidades poderiam cooperar
estatocêntrica mais compatível com o realismo.
estrategicamente, bem como entre Estado e atores
Houve uma maior aceitação do neo-realismo pela
da sociedade doméstica, que atuavam e interagiam
sua compatibilidade, após adaptações, com as
num sistema em que a maior parte dos canais de
perspectivas de escolha racional e a teoria dos
ação ainda eram definidos por estados.
jogos, que ganhavam adeptos na área de Relações
Internacionais (KAHLER, 1997). Naquele contexto Nos estudos sobre integração regional, também
de maior aproximação entre tais abordagens, é bastante evidente a permanência da centralidade
Keohane (1986) propôs uma perspectiva do conceito de Estado tanto no processo de
multidimensional que relaxava suposições do teorização como nas aplicações empíricas. Por
realismo estrutural e apontava para o exemplo, autores como Haas enfocam o ciclo
desenvolvimento de melhores teorias de política diacrônico da integração regional ao conceberem
doméstica, formulação de decisão e a convergência de interesses e de expectativas de
processamento da informação a fim de cobrir o elites nacionais acerca dos benefícios advindos
vácuo entre as esferas interna e externa de forma da integração e a ênfase no papel das instituições
sistemática. Tal programa de pesquisa reteria a supranacionais como meios mais efetivos para a
parcimônia característica do realismo estrutural e solução de dilemas comuns. Os teóricos
sua ênfase nos incentivos e nas restrições do neofuncionalistas reconhecem que as barganhas
sistema internacional, adaptando-as para melhor intergovernamentais convencionais representam
lidar com a realidade contemporânea e com o apenas o mínimo denominador comum e vêem
contexto da ação antes de entender a ação que a competência adequada de uma terceira parte
propriamente dita. pode mudar as negociações de forma a levar a
resultados que representam a conciliação das
Tanto na produção sobre a interdependência
diferenças. Se a terceira parte tiver poderes formais
complexa como na argumentação do
suficientes, as negociações podem apresentar
institucionalismo neoliberal, o Estado ainda era
resultados melhores de interesse comum
situado como fundação da teorização de Keohane,
(KELSTRUP, 1998, p. 29-30). Porém, como
já que condicionava o domínio da objetividade
sinalizado anteriormente acerca das abordagens
tanto pela permanência da distinção do locus da
de orientação liberal, os neofuncionalistas
ordem política internacional como pela introdução
problematizam a noção do Estado como ator
de equivalentes semânticos que viabilizavam a
unitário e destacam o papel dos atores
continuidade dessa ordem. Keohane compartilhava
sociopolíticos na dimensão interna, mas o Estado
suposições da tradição política ocidental de
coloca-se novamente como condição para se
centralidade do conceito de Estado, reificando-o:
considerar, por exemplo, a explicação da
num momento em que o conceito ainda operava
construção e da interação entre esses atores. Além
como o princípio da identidade disciplinar, tal
disso, a integração auto-sustentada imaginada por
crítico simplesmente atestava a centralidade
esses autores no caso europeu não ocorreu em
discursiva desse conceito. O esforço de
face de crises internacionais como as do petróleo
reconceituação teórica – como a redução do
na década de 1970, que explicitaram a crença de
Estado a componentes mais tangíveis, como os
que o Estado era a instituição mais habilitada a
atores subestatais e não-estatais, que questionavam
contornar os efeitos deletérios desses impactos.
a noção do ator monolítico – enfrentava o dilema
Autores de outras orientações dentro dos estudos
de explicar a constituição dessas partes e a
sobre Integração Regional examinam formas
interação entre elas e revelava dificuldade de
alternativas de organização do espaço, enfocando
solucionar tal problema sem incorporar o conceito
perspectivas como “federações de estados”
monista do Estado ou algum equivalente lógico

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RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

(CAMARGO, 2004) ou “ordens neomedievais”, das normas e regras e seus efeitos sobre
com princípios de territorialidade e soberania sendo recompensas; a distribuição de informação e as
substituídos por padrões de identidade e de vinculações entre áreas temáticas, que trabalham
autoridade em sobreposição (HURRELL, 1995). com a maior incidência de problemas de barganha
Herz e Hoffmann (2004, p. 167-175) destacam na cooperação. Continuaram, assim, a conceber
que a dinâmica dos processos de intensificação o Estado como elemento fundacional e paradigma
em profundidade – extensão de harmonização das da ordem política internacional ou, mantendo-se
políticas – e abrangência – gama de questões as suposições estatistas, simplesmente
inclusas – das relações entre atores pode levar à substituíram o Estado por atores mais tangíveis
criação de novas formas de governança político- como grupos domésticos ou formuladores de
institucionais de escopo regional e conduzir a uma decisão oficiais, que tomavam decisões calculadas
multiplicidade de resultados institucionais. Porém, em nome do Estado ou comportavam-se como
a desestabilização dos limites entre o nacional e o os atores unitários das abordagens anteriores.
internacional trazidas pelos processos de integração
Embora grande parte do ataque pós-positivista
regional não significa que a noção de fronteira
buscasse questionar o compromisso do
cristalizada pelo conceito de Estado tenha sido
mainstream com uma visão de ciência unificada e
superada enquanto ambição reguladora da vida
a adoção de metodologias das ciências naturais
moderna: ao contrário, as novas fronteiras
para explicar o mundo social, tais perspectivas
estabelecidas por tais processos revelam-se
também acabaram preservando, por diferentes
altamente flexíveis a ponto de ainda prevalecerem
razões, a autoridade do Estado. Wendt (1992;
demarcando antagonismos, mesmo que não
1999) verifica que identidades são relacionais e
permaneçam onde estavam até então. A delimitação
que os atores definem seus interesses nos
de fronteiras continua a significar a definição de
processos de definição da própria situação. Numa
autoridade sobre um espaço, revelando-se como
teoria sistêmica socializada como a proposta pelo
o discurso moderno limita nossa percepção de que,
autor, identidades e interesses não resultam da
mesmo que nos engajemos com os “Outros” além
anarquia de forma lógica ou causal ou são
das fronteiras nacionais, continuamos a reproduzir
elementos essenciais da anarquia, mas são
práticas de discriminação desses “Outros”
socialmente construídos. Com ênfase nos
(WALKER, 2005, p. 9). Nesse sentido, noções de
processos sociais de interação e aprendizado,
organização espacial cristalizadas pelo conceito de
Wendt esclarece que as estruturas sociais não
Estado continuam sendo o parâmetro seguido por
apenas regulam o comportamento, mas constroem
tais estudos, e os questionamentos feitos ao
identidades e interesses, de forma que o
conceito são circunscritos de forma a preservar a
conhecimento que os define é endógeno à
sua centralidade no processo de teorização.
interação. Tais estruturas da associação humana
A proposta mais pragmática das perspectivas são primariamente culturais em vez de fenômenos
racionalistas ia além do neo-realismo e do materiais, de forma que o significado de forças
neoliberalismo ao desenvolver abordagens mais materiais e o conteúdo dos atores dependem das
modestas que oferecessem respostas mais precisas idéias compartilhadas nas quais estão envolvidos.
às questões do mundo pós-Guerra Fria em vez de Na visão de estrutura relacional de Wendt, os
formulações teóricas gerais. Porém, tais atores agem dentro de certa lógica e, por meio de
perspectivas limitaram-se a formular quebra- sua ação no processo, podem problematizar e
cabeças envolvendo atores individualistas e mudar essa lógica. Assim, enquanto Waltz
racionalidade instrumental na estrutura de jogos desenvolve uma teoria da recorrência marcada por
que abarcam idéias de cooperação e conflito um claro determinismo estrutural, Wendt diz que,
(KATZENSTEIN, KEOHANE & KRASNER, na construção de uma teoria social que inclua a
1998). Embora tenham oferecido uma importante interação e a co-constituição entre agente e
contribuição para uma reformulação mais estrutura, a recorrência do sistema de estados dá-
consistente do mainstream teórico, tais se por meio das idéias e a mudança é possível,
perspectivas contentaram-se em apresentar novas pois os agentes podem transformar a realidade por
reflexões e novos pontos focais de estudo, como meio da prática. O agente não só é construído
a intensidade de competição e cooperação com a pela estrutura, mas é construtor do mundo numa
verificação de hipóteses testáveis; a importância concepção que busca superar a impessoalidade e

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o determinismo do estruturalismo tradicional e as em relação a outros estados. Além de reificar a


limitações inerentes ao individualismo centralidade do Estado no estudo das Relações
metodológico. Internacionais, Wendt (idem, p. 208-209; 243-244)
recai no essencialismo ao conceber o Estado como
Enquanto para Waltz a composição dos estados
um ator homeostático dotado de propriedades,
é semelhante e suas características são dadas, é
motivações e interesses intrínsecos –
possível para Wendt haver formas estatais
aproximando-se da visão individualista de que o
diferenciadas como resultados de processos
Estado é ontologicamente anterior ao sistema de
distintos de construção social. Os estados são
estados (idem, p. 198-199) – e reconhece que, ao
vistos por Wendt (1999) como atores corporativos,
buscar generalizações acerca de propriedades
entidades auto-organizáveis cujas estruturas
trans-históricas desses atores, concebe em tais
internas conferem capacidades para ação coletiva
aspectos os estados como exógenos ao sistema e
institucionalizada. As identidades permitem a
que agente e estrutura não são mutuamente
mobilização de fatores culturais, materiais e
constitutivos na sua totalidade.
intelectuais que dão capacidade de ação a esse
Estado, concebido como ator organizacional Com base no materialismo histórico, Cox
inserido em uma ordem institucional-legal – (1986; 1993) aplicou conceitos gramscianos às
propriedade marxista do Estado-como-estrutura relações internacionais e desenvolveu uma visão
–, que o constitui com soberania e monopólio do da política global na qual forças sociais, estados e
uso legítimo da violência organizada – propriedades ordens mundiais são aspectos organicamente
weberianas do Estado-como-ator – sobre uma relacionados da realidade social, historicamente
sociedade – propriedade pluralista do Estado- produzida por processos em que as relações
como-sociedade – num território. Tal ator é pré- materiais e os auto-entendimentos sociais estão
social em relação a outros estados e pode ter profundamente interligados. Assim, vê os homens
diversos interesses baseado em múltiplas como produtores das formas históricas de vida e
identidades que variam cultural e historicamente; fornece elementos para a transformação da
porém, compartilha com outros atores semelhantes realidade, estando atento ao compromisso com a
propriedades essenciais em virtude de sua emancipação. Em relação ao Estado, Cox vê-lo
identidade corporativa como Estado, tendo como construção histórica, permitindo pensá-lo
interesses intrínsecos e generalizáveis como como monopolizador da força coerciva e espaço
sobrevivência física, autonomia, bem-estar em que o consenso deve ser exercido –
econômico e auto-estima coletiva (idem, p. 233- participação de instituições, intelectuais etc.
238). Embora o autor aponte os riscos de reduzir-se a
vida social, política e material nas relações
Embora reconheça que as segmentações entre
internacionais às relações interestatais, as
Estado e sociedade e entre Estado e sistema
mudanças na ordem internacional estão ligadas às
internacional são socialmente construídas e que a
transformações do Estado e a como isso se reflete
indivisibilidade, a distinguibilidade e a continuidade
nas ordens, instituições e forças que o mantêm.
espaço-temporal que identificam o Estado são
Na atualidade, Cox vê a transformação do Estado
condições cuja aplicabilidade varia com o contexto
a partir da rearticulação das forças produtivas e
histórico (BARTELSON, 1998, p. 305), Wendt
da internacionalização do capital. A práxis liga
(1999, p. 203-214) não problematiza a idéia de
política e economia, estrutura e agente, liberdade
que tal Estado é o locus supremo de autoridade
e necessidade, surgindo dessa ligação a
política pautada numa estrutura organizacional
necessidade de emancipação. É também notório
unificada e não-rivalizada em face das divisões
o desafio do autor à rígida separação analítica entre
internas, nem questiona a noção de que o Estado
ordem doméstica e internacional – “ortodoxa como
é o responsável pela manutenção da ordem – o
a divisão entre economia e política” –, que pode
que envolve a reprodução das condições domésticas
servir como um dispositivo que fragmenta a
de construção da sociedade, particularmente a
realidade de forma a obscurecer a relação orgânica
coincidência entre as fronteiras e as políticas do
entre as experiências global e local. O argumento
Estado e as fronteiras e as necessidades de grupos
do autor é o de que a Teoria Crítica é, assim,
pré-existentes sob seu controle (idem, p. 210-211)
holística, ligando questões de ordem moral,
– e pela proteção da integridade dessas condições
autoridade e justiça às questões de eficiência, de

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RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

forma que nem a sociedade nem o mercado são abordagem de Walker sobre as distinções
redutíveis um ao outro. Contudo, mesmo gozando condicionantes de sua possibilidade apresenta
de autonomia apenas relativa, o Estado – e não o claras limitações. O Estado é compreendido como
modo de produção ou a estrutura de classes articulação historicamente específica da relação
derivados dele – ainda é fundamental para a entre a universalidade e a particularidade no tempo
preservação da coesão da ordem política e a e no espaço, que soluciona o problema constante
resolução do antagonismo entre classes da comunidade política; contudo, embora o
(BARTELSON, 2001, p. 145), de modo que Cox procedimento de desnaturalização proposto por
acaba também por reificar tal conceito. Walker pressuponha a desestabilização dos
binarismos responsáveis pela arbitrariedade de
Já Walker (1993; 2005) apontou para a
arquiteturas que constituem o Estado em oposição
possibilidade de desestabilização de categorias
ao sistema internacional, a dissolução do Estado é
mutuamente constitutivas entre dentro e fora e a
conduzida a partir de fora, não de dentro. Apesar
implementação da crítica às práticas logocêntricas
de compreender o Estado como uma abstração
modernas de oposição binária. O autor desvela que,
localizada entre as dimensões interna e externa,
dentro do “Internacional Moderno”, a preservação
Walker não problematiza o entendimento desse
da integridade soberana foi possível a partir do
espaço como segmentado da sociedade civil,
estabelecimento de uma hierarquia em
preservando tal distinção e as condições de sua
circunstâncias espaço-temporalmente específicas,
possibilidade intocadas. Nesse sentido, ao não
na qual o sujeito moderno coloca-se como centro
desestabilizar a separação entre Estado e sociedade
interpretativo soberano, uma “realidade maior e
doméstica, traz-nos de volta às fundações da
privilegiada” ou uma “presença não-
autoridade política: o Estado parece contingente a
problematizada”, e o “Outro”, concebido em
partir de fora, mas a segmentação entre Estado e
referência a tal centro, é compreendido como uma
forças internas que o torna possível ainda é
negação dessa identidade e objetificado num
preservada no núcleo do conceito. Não é possível
processo de produção do exterior pelo sujeito.
afirmar que Walker conceba uma suposta
Simultaneamente, o “Internacional Moderno”
inevitabilidade do Estado por sua pretensa natureza
remete a uma articulação espaço-temporalmente
universal ou dada, mas tal Estado persiste como
específica das relações entre estados soberanos
conceito central na sua obra ao reforçar-se sua
como expressões de povos e culturas particulares
presença fundacional na imaginação política
e do sistema internacional como uma expressão
(BARTELSON, 2001, p. 167-169).
da humanidade universalmente concebida. A partir
disso, desenvolvem-se a incorporação e a IV. RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO
subjetivação do mundo ao “mundo do moderno”
Embora tais perspectivas teóricas tenham
e a exclusão de “outros mundos”, apontando-se
incorrido na reificação do Estado, uma série de
para uma indicação específica das opções políticas
abordagens críticas vem apontando possíveis
e filosóficas que devem ser reconhecidas,
caminhos para uma teorização que vá além desse
definindo-se claros limites à capacidade de
conceito, desestabilizando as segmentações
levarem-se em conta outras possibilidades. A
internas e externas que cristalizam o Estado e
modernidade é estabelecida como uma “forma
redefinindo o entendimento do político e da própria
cultural específica” (WALKER, 2005, p. 4),
área de Relações Internacionais. Em vez de
segmentada de outras formas espaço-temporais
encapsularem a diversidade em categorias de um
específicas de vida num segundo processo de
centro interpretativo soberano que macula visões
exclusão: cria-se um “exterior” à produção de
culturais do Outro, Blaney e Inayatullah (2004)
subjetividade moderna, de forma que suposições
trazem à tona a inabilidade das Relações
modernas sobre soberania e sistema internacional
Internacionais na oferta de respostas criativas à
– marcadas pela marginalização e depreciação da
diferença – ainda vista pelas abordagens
diferença – asseguram sua continuidade por
tradicionais como “ameaça” ou “disfunção” – e
fortalecerem a ausência de elementos “não-
propõem a reimaginação crítica das origens e do
modernos” (idem, p. 4-6).
perfil da área como teoria sobre relações
Embora tenha desnaturalizado o Estado interculturais a partir de uma perspectiva
concebendo-o como artifício discursivo, a etnológica. A diferença é concebida como recurso

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 32: 51-69 FEV. 2009

de auto-avaliação capaz de transformar visões do hierarquizante e disciplinadora restringe o


Eu com relação ao Outro e à sua própria cultura reconhecimento dos Outros internos e a apreciação
no “momento etnológico” todoroviano. Abalizado do Eu como parte do Outro além das fronteiras. A
no potencial de “autodescoberta cultural” de violência perpetua-se com relação às minorias não-
Nandy, o diálogo cultural viabiliza a desestabilização conformadas dentro dessas unidades, e
de tendências polarizantes que objetificam as desestabiliza-se a idéia essencializada do Estado
diferenças interna e externa. Tal iniciativa como a autoridade provedora de segurança de uma
proporciona respostas aos desafios da interação sociedade civil supostamente homogênea (BLANEY
com a diversidade por meio da auto-reflexão e da & INAYATULLAH, 2004, p. 21-28; 32-45).
aliança entre críticas sociais culturalmente diversas
Concomitantemente, a soberania externa desse
à desigualdade. Nesse sentido, as Relações
Estado não é tratada como uma constante trans-
Internacionais redefinem-se como um campo de
histórica que delimita o local dessa temporalização:
conhecimento heterológico a partir do tratamento
ao contrário de examinarem a segmentação em
das ambigüidades geradas na interação com a
relação a outras unidades do sistema internacional
diferença e da exploração das possibilidades
como “natural” ou “dada”, os autores salientam
alternativas das “zonas de contato” psicológico e
que a resposta hierarquizante e disciplinadora à
social, particularmente do diálogo potencial que
diferença domesticamente transbordou para seu
colabora para a elucidação mútua das culturas.
tratamento na esfera externa e, no processo
Ao se abandonar a busca por uma ordem
dinâmico de relações interculturais, figurou tal
isomórfica com a “provincialização” das Relações
diferença como uma ameaça constante interditada
Internacionais, os particularismos da experiência
nas fronteiras, enfrentada militarmente ou
ocidental com a diferença e do processo histórico
colonizada. A defesa das fronteiras externas visa
de delimitação espaço-temporal de fronteiras
a preservar a diferença fora dos limites estatais,
rígidas são desvelados a fim de se transcender
de forma que a tolerância entre tais unidades
sua hegemonia (BLANEY & INAYATULLAH,
políticas no nível internacional procede do
2004, p. 7-17).
equilíbrio de poder e não do reconhecimento
Ao invés de conceberem um espaço doméstico genuíno da diversidade. Nesse sentido,
não-problematizado marcado pela homogeneidade simultaneamente à temporalização, Blaney e
e pela imutabilidade de delimitações naturalizadas Inayatullah caminham também no sentido da
entre a autoridade estatal e forças domésticas, desnaturalização do Estado: a segmentação entre
Blaney e Inayatullah apontam na direção da “dentro” e “fora” constitutiva da “sociedade de
desestabilização das segmentações internas que estados” – que consolida as delimitações
reificam o Estado ao captarem que a diferença geopolíticas como receptáculos espaciais da
político-cultural foi entendida no processo de diversidade cultural e mantém-nos reféns do
construção dos estados modernos como elemento entendimento depreciativo da diferença – opera
desestabilizador da harmonia interna. Por isso, como pré-requisito para o adiamento do “problema
tentou-se gerenciá-la com hierarquia, erradicação, da diferença” e a diluição de oportunidades para
assimilação ou expulsão na “cruzada interna” pela maior engajamento com a diversidade, desvelando
unidade da comunidade política estatal. Atenta-se, a operação de um processo de homogeneização
assim, para as condições suscetíveis à cultural sistemática acompanhado da constituição
transformação que estabelecem os padrões de uniformizadora das unidades políticas na dimensão
interação entre Estado e sociedade, além de se internacional (BLANEY & INAYATULLAH, 2004,
ressaltar a pluralidade presente numa dimensão p. 44-45).
doméstica que antes se supunha homogênea e
Além da problematização das estratégias
coesa, com o destaque à presença de forças
temporais de emprego das noções de
históricas não-conformadas à autoridade estatal.
desenvolvimento e modernização – que cristalizam
Os autores salientam que, embora se esperasse
a diferença como “atraso” –, tal releitura crítica
que a diversidade fosse administrada na dimensão
da construção da área pauta-se no questionamento
doméstica e que a construção de uma “diferença
da concepção convencional da Paz de Vestfália
internacionalizada” pudesse resolver o “problema”
como marco de transição para uma modernidade
ao negociarem-se regras para o relacionamento
mais tolerante e na ênfase à influência deletéria da
entre comunidades políticas, tal resposta
Guerra dos Trinta Anos no discurso intelectual

63
RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

sobre a diferença, administrada a partir de Superando a marginalização da cultura e a


estratégias espaciais de segmentação. Em nível despersonalização da área de Relações
teórico, Blaney e Inayatullah (idem, p. 93-125) Internacionais e questionando a limitação de sua
evidenciam que a repulsa ao reconhecimento de matéria-prima ao formalmente político, a
oportunidades de tratamento da diferença como abordagem crítica de Darby (1998) propõe uma
recurso potencial – sendo inclusive vedado a ela concepção ainda mais ampla da disciplina ao
status ontológico independente – é revigorada por explorar a ênfase da literatura na dimensão pessoal
teorias de neomodernização como as abordagens e a relevância da narrativa ficcional no
do mainstream das Relações Internacionais, que engajamento cultural entre o local, o civilizacional
naturalizam as delimitações espaciais de dentro/ e o global. Com tal iniciativa, procura encorajar
fora – cristalizando a tensão entre ordem e anarquia novos corpos de conhecimento que transcendam
e protelando a resolução do “problema da a rigidez das linhas de demarcação e problematizar
diferença” ao tentar circunscrevê-la dentro dos os pressupostos mecanicistas da teorização
estados – e essencializam a seqüência de tradição/ dominante em Relações Internacionais, que
modernidade, espacializando o tempo e situando concede privilégios ao centro e subestima a
a diferença ao longo do espaço em “estágios de agência de povos subordinados. Ao apontar que
desenvolvimento”. Tal crítica elucida que o os encontros coloniais envolvem ambivalência do
impulso homogeneizante dessas teorias opera colonizador e do colonizado e que podem existir
numa lógica comparativa que forja uma momentos de cumplicidade com a diferença
uniformidade relativa dos sistemas políticos e localizada dentro e fora, a orientação pessoal e
desenvolve esquemas classificatórios espaço- cultural da literatura desestabiliza segmentações
temporais hierarquizantes. A visão liberal de internas e externas que reificam o Estado e viabiliza
soberania é universalizada por tais teorias, que a contínua redefinição do entendimento do político.
estabelecem padrões generalizáveis como a
Tendo em vista que a política adquire seu
concepção de estados como “unidades
sentido a partir da cultura, a obra artística torna-
funcionalmente semelhantes” e assumem uma
se um repositório desse entendimento e, numa
interpretação linear do tempo.
perspectiva inclusiva das múltiplas facetas da vida
Demonstrando a forma como a teoria e a humana, contextualiza à vida cotidiana a política,
prática cristalizam a integridade do “império da em vez de concebê-la como uma esfera autônoma
uniformidade” doméstico num impulso dominante de ação e pensamento. As experiências dos
de localização da diversidade como ameaça, Blaney indivíduos são contadas ao longo das do seu grupo,
e Inayatullah (idem, p. 203-204; 215-217) e, como os sistemas de troca são mediados pela
reconsideram o papel da diferença na constituição experiência vivida, o mundo exterior – por
da área de Relações Internacionais a partir da exemplo, a dimensão da interação internacional –
exploração do contra-impulso de regeneração e é concebido em relação ao interior sociocultural,
apreciação da diversidade como meio de auto- pessoal e subjetivo, que abarca formas de
reflexão e crítica social. A proposta para uma comportamento e emoções. A personalização das
perspectiva etnológica da “política de comparação” questões direciona a atenção para condições
como um entendimento mais holístico da diferença mutáveis que estabelecem padrões de interação
– definindo espaços de conexão e diálogo entre o social, e a literatura viabiliza a integração entre o
Eu e os Outros externo e interno, que evidenciam moral e o político, promovendo a reavaliação de
a especificidade histórico-cultural dos sensibilidades e valores. Ao reconceituarem o
entendimentos – relativiza categorias e permite imperialismo, narrativas ficcionais evidenciam a
pensar “formas mistas” de arranjos do espaço vulnerabilidade e a transitoriedade da supremacia
global que reconheçam a heterogeneidade e a ocidental e salientam contra-movimentos que
coexistência das múltiplas práticas político- introduzem perspectivas de mudança. Ademais,
culturais. Tal esforço complexo de criação e explicitam que as linhas divisórias que conduzem
negociação de autoridades compartilhadas e à dominação e ao absolutismo moral na rejeição
sobrepostas desestabiliza a noção de espaço estatal do Outro são traçadas para proteção em relação à
homogêneo, absoluto e rigidamente segmentado insegurança, particularmente em face do desejo
tanto em relação à sociedade civil como às demais em relação ao Outro pelos seus elementos de
unidades no sistema internacional. diferença e sua similaridade com tempos passados
(idem, p. 46-50, 71-73, 220-234).

64
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 32: 51-69 FEV. 2009

Ao considerar que a área despersonalizou-se nos âmbitos doméstico e internacional. Indo-se


com o enfoque em atores monolíticos extraídos além da consideração de atributos materiais e
do contexto humano e que a cultura não apenas manifestações externas, a releitura da dominância
afeta o comportamento dos estados mas está a partir desse procedimento comprova que existem
ligada à transformação social, Darby desnaturaliza traços de cultura compartilhada entre as partes –
divisões rígidas que localizam espacialmente a os quais expõem a ambivalência da relação entre
diferença no exterior e consegue, a partir da dominador e dominado – e reforça-se o papel
consideração das obras literárias, verificar o alegórico das categorias derivadas do
estabelecimento de áreas de congruência, comportamento interpessoal para a sondagem do
acomodação, contato cultural e sobreposição de político, de forma a evidenciar que o pessoal é
medos e esperanças entre a identidade e a político ou representa a extensão dele: o sentido
diferença. A maior inclinação ao engajamento do poder não pode ser desvinculado do
emocional pela literatura explicita que idéias e pensamento daqueles que o exercem e dos que o
processos são realizados no comportamento de experimentam.
indivíduos e grupos. A sensibilidade moral pode
Já Shapiro (2004) avança ainda mais no
estimular a reconfiguração do pensamento,
questionamento ao problematizar conceitos de
dirigindo-se o foco do Estado para a subjetividade
construção e manutenção dos estados-nação e
da experiência vivida por indivíduos situados em
métodos de formação de nações culturalmente
contextos de intercâmbio cultural e de negociação
coesas, além de promover o reconhecimento de
com a diferença, os quais se relacionam a aspectos
mecanismos de expressão política alternativos às
das relações intersociais e da política internacional,
práticas estatais de criação das culturas nacionais.
e, com isso, a questões morais integradas à
O autor não somente contraria modelos
política. A redefinição do conceito de Relações
referenciais do real empregados por uma ciência
Internacionais opera a partir do desafio às
supostamente “não-tendenciosa” e a concepção
concepções “estatocêntricas” e etnocêntricas da
monológica e universalizante do sujeito de
disciplina, compreendidas como frutos da fixação
conhecimento, como salienta a operação de
da área com o poder como elemento definidor da
interações semióticas entre indivíduos que aplicam
política mundial e do descaso com relação a
múltiplos meios de produção de significado e
desenvolvimentos internos das sociedades do
assumem diferentes perspectivas sobre elementos
Terceiro Mundo, que poderiam afetar a dinâmica
envolvidos no entendimento. Shapiro também
de engajamento com o Norte e o sistema
oferece um tratamento complexo à linguagem:
internacional (idem, p. 9-19, 39-42).
transcendendo a mera relação entre declarações e
Simultaneamente à problematização da referentes, a perspectiva semiológica proposta
concepção dada e reificada de segmentação externa considera sistemas de significado como produtores
que cristaliza o Estado, Darby (idem, p. 55-56, – não apenas referenciais – e examina a
71-73) elucida momentos de cumplicidade e inteligibilidade inter-relacionalmente num sistema
intimidade com a diferença localizada dentro da simbólico. Elucida-se, assim, como perspectivas
comunidade sociopolítica. A partir disso, a culturais particulares apontam para a imposição
insegurança, a dúvida e o temor em relação à de ordens de significado às custas de outras. A
diferença que opera fora das regras de engajamento partir de uma perspectiva foucaultiana, Shapiro
estipuladas também internamente são trazidos à desvela que discursos de conhecimento sobre
tona pela ficção e configuram-se como limites ao “razão” ou “verdade” não remetem a noções
exercício efetivo do poder e da autoridade de subjacentes ou fundacionais, mas são gerados
lideranças estatais sobre os indivíduos. Nesse como exercícios de controle em circunstâncias
sentido, o autor aponta concomitantemente rumo históricas específicas. O poder implicado nos
à temporalização, num momento em que a sistemas de conhecimento compõe novos objetos
dificuldade no tratamento da diferença traz desafios discursivos e locações privilegiadas a partir das
à estrutura do poder vigente e subversões às quais é possível a expressão legítima e inteligível
noções cristalizadoras de política, que pressupõem e é examinado no seu caráter relacional, sendo
a negação do Outro interior, a marginalização do que tal poder estende-se inclusive ao corpo do
discurso do Outro e a perpetuação de uma indivíduo, investido por relações de dominação.
concepção auto-referencial do exercício do poder

65
RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

A partir desse ponto, Shapiro permite avançar demarcações entre Estado e sociedade civil são
na direção da temporalização do Estado, pois, ao mutáveis. O poder não é mais concebido de forma
ampliar a esfera de subjetivação e não assumir uma essencializada em termos do comando e da
retórica despolitizante da diferença, rejeita a obediência à autoridade soberana, mas de práticas
padronização e, ao enfocar a dinâmica de múltiplas que revelam a operação de novas vozes
encontros históricos entre perspectivas distintas contestadoras (idem, p. 33-67).
de produção de significado, oferece uma
Simultaneamente na obra de Shapiro,
interpretação que desafia a autoridade do local de
transcendendo-se uma concepção limitada de
enunciação dominante e proporciona a auto-
governança como simples gerenciamento de
reflexão a partir da consideração de incoerências
pessoas num território, a mobilização de múltiplos
e alteridades nas práticas de inteligibilidade. Tal
modos de governança cultural como complementos
procedimento expõe não apenas a distância entre
de monopólios coercitivos é compreendida como
linguagem e o mundo de referência, mas os
um processo histórico de imposição de fronteiras
projetos silenciadores de múltiplas vozes numa
e hierarquização de povos em níveis distintos de
política totalizante contida nas culturas unitárias
coesão cultural, resultantes do exercício de poder.
nacionais, forjadas por um sistema único de
Além disso, Shapiro destaca que o conceito de
significado. Memórias contestadoras da produção
biopoder envolve uma dimensão expansionista e
estatal revelam que a nação não é homogênea ou
militante, de forma que o Estado de segurança
fundacional e que as segmentações internas que
moderno, visando a proteger sua população, tem
fortalecem o Estado como locus de autoridade são
gradualmente percebido a necessidade de conter
instáveis: em nível histórico, como o controle dos
ameaças no nível internacional. Nesse sentido, em
estados-nação sobre espaços e corpos foi
vez de oferecer um tratamento não-problematizado
gradualmente problematizado, sua autoridade
às divisões entre Estado e sistema internacional,
mostra-se interpretativa e performática, de forma
Shapiro caminha na direção da desnaturalização
que eles “atuam” visando à preservação de seu
num momento em que verifica que as delimitações
status ontológico e prático (idem, p. XI-XVII).
estatais não são dadas ou estagnadas, mas
Shapiro observa que os aspectos coercitivos e artifícios flexíveis que preenchem uma ambição
econômicos de controle estatal foram reguladora. Em seu processo de expansão, a
complementados pelo gerenciamento de soberania imperial envolve não apenas uma
disposições e significados dos corpos dos cidadãos militarização expansionista e uma biopolítica de
com o objetivo de compatibilizar fronteiras vigilância da diferença também localizada fora do
territoriais e culturais; contudo, as práticas Estado, mas o apoio a múltiplos gêneros de
materiais e interpretativas que sustentam expressão que podem ser mobilizados a fim de
metafisicamente os estados-nação são desafiadas, garantir essas práticas e inibir aquelas que apontam
de forma que as nações são concebidas como na direção contrária. Diante da falta de antagonistas
processos contenciosos historicamente facilmente discerníveis, a representação da ameaça
específicos, os quais garantem sua permanência assume uma dimensão expansiva, de forma que
simbólica a partir de práticas institucionalizadas. escolhas violentas são feitas a fim de defender-se
A arbitrariedade na busca de fundações espaço- uma humanidade politicamente qualificada, e as
temporais para a nacionalidade torna-se evidente distinções entre a luta contra ameaças
na instabilidade do processo de construção criminalizadas na dimensão doméstica e o aparato
nacional: produções culturais nativas ressaltam de guerra global vêm sendo paulatinamente
“geografias de identidade” locais em vez de diluídas, já que a soberania opera num processo
nacionais e revelam a incompletude da integração de estabelecimento de exceções para o uso de força
nacional pela “máquina de captura” estatal, que extralegal (idem, p. 177-182).
tenta espacializar o tempo para estabilizar sua
Além da consideração histórica da diversidade
existência como receptáculo desse tempo – onde
de locais de enunciação de vozes definidoras do
não há Estado, não há tempo, e, conseqüentemente,
status do Estado-nação, Shapiro (idem, p. 26-31)
não há história ou perspectiva de futuro. Shapiro
busca uma abordagem teórica alternativa que
viabiliza a problematização de segmentações
viabilize a crítica à trajetória de discursos políticos
internas que fortalecem o Estado e evidencia que
“estatocêntricos” e eurocêntricos sobre a
o espaço doméstico é heterogêneo e as
construção nacional, evidenciando que a ciência

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 32: 51-69 FEV. 2009

política geo-historicamente localizada ofereceu reflexão.


uma série de veículos conceituais para a
Em termos analíticos e práticos, Blaney e
normalização do espaço estatal e limitou o escopo
Inayatullah (2004) ofereceram um passo
de perspectivas de entendimento de mundo. Tal
importante nessa direção ao problematizarem as
abordagem também procura trazer desafios aos
divisões internas e externas que conduzem à
efeitos despolitizantes e legitimadores da
centralidade do conceito de Estado. A concepção
perspectiva liberal sobre igualdade. Seus méritos
do Outro interno que não foi absorto pela
são elucidar a resistência à homogeneização estatal
homogeneização cultural desafia a autoridade
e revelar que o conhecimento é fruto da dinâmica
performática do Estado sobre os atores sociais.
interação de perspectivas em constante
Ademais, o engajamento com as experiências dos
transformação, não de circunstâncias
Outros externos tanto na prática política como na
essencializadas nas fronteiras reificadas do Estado-
própria produção do conhecimento sobre a
nação. Ao situar-se a produção de conhecimento
diferença pode conduzir a uma desestabilização
no centro da análise histórico-política sem apartá-
da fixidez das fronteiras externas que marginalizam
la da produção de poder, a ênfase na resistência à
e hierarquizam a diversidade. Com o entendimento
inscrição de corpos em ordens semióticas
alternativo das “zonas de contato” entre o Eu e o
impostas por uma autoridade centralizadora e no
Outro, torna-se possível a autocrítica e o
desafio às tentativas de homogeneização permite
aprendizado com as experiências de outras
problematizar a suposta naturalidade das práticas
sociedades, o que pode culminar em novas formas
que as viabilizaram. Tal atitude interpretativa não
de organização do espaço alternativas ao Estado.
somente identifica como as práticas de poder são
Já Darby (1998) também sinaliza nessa direção
criadas e consolidadas, mas desconstrói as
ao desessencializar as demarcações internas que
concepções deterministas de sociedade e evidencia
cristalizam o Estado, focalizar os desvios às regras
quão arbitrárias são as estruturas reificadoras que
de interação estabelecidas para o relacionamento
marcam o pensamento.
entre Estado e forças sociais e, ao mesmo tempo,
V. CONCLUSÕES problematizar segmentações externas ressaltando
a cultura simbiótica entre colonizador e colonizado
O Estado preservou uma autoridade simbólica
e o hibridismo.
pelo seu questionamento sistemático no discurso;
porém, a condução simultânea dos procedimentos Ao conceber o Estado-nação como um ator
de desnaturalização e temporalização permite biopolítico que traduz o corpo biológico como
desreificar as segmentações que cristalizam o social, Shapiro (2004) traz à tona a forma como o
status ontológico e prático do Estado e desenvolver aparato estatal tenta aprisionar esses corpos,
uma nova concepção do político. Transcendendo revelando o processo historicamente específico
os esforços de categorização imutável de autores de produção de homogeneidade e coesão cultural
em “reificadores” ou “não-reificadores do Estado” etnonacional. Nesse processo, um dos méritos de
e a assimilação de versões simplificadas ou sua abordagem é desvelar que obras de arte
estereotipadas de suas obras, a abordagem aqui produzidas fora da “máquina de captura” da
desenvolvida demonstrou que, enquanto grande governança cultural estatal elaboraram formas
parte da produção na teoria de Relações alternativas de adesão e colocam em xeque a
Internacionais tem reafirmado a centralidade do uniformidade das culturas nacionais e a fixidez
Estado na imaginação política e limitado o dos processos voltados para a relação entre Estado
pensamento sobre alternativas além dele, novos e sociedade civil. Ao mesmo tempo, Shapiro
caminhos teóricos abertos que desestabilizem desnaturaliza o Estado ressaltando que o biopoder
concomitantemente as divisões entre Estado e expande-se num processo de preservação em
sistema internacional e Estado e sociedade civil relação a ameaças ao Estado advindas do sistema
permitem a identificação das incoerências e das internacional. Com isso, ele questiona o caráter
ambivalências nas práticas dos estados, o supostamente essencial de segmentações entre
questionamento de seu poder sobre os indivíduos Estado e sistema internacional, vendo que elas são
e a consideração de formas alternativas de maleáveis e que cristalizam a diversidade como
organizar-se o espaço, problematizando as noções uma anomalia ou uma disfunção. Esta abordagem,
de segmentação rígida e absoluta e concebendo a bem como as de Blaney e Inayatullah e de Darby,
diversidade como meio de crítica social e de auto-

67
RUMO À TEORIZAÇÃO ALÉM DO ESTADO

são apenas algumas alternativas de pensarem-se apontam questões relevantes que nos oferecem
caminhos para uma teorização que vá além do pelo menos a possibilidade de dar um primeiro
Estado. Em vez de estabelecer uma direção única passo na direção de um pensamento político mais
para esse empreendimento, tais abordagens apenas crítico e emancipatório.

Diego Santos Vieira de Jesus (dsvj1408@terra.com.br) é Mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Professor de Relações Internacionais da mesma
instituição.

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69
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 32: 189-193 FEV. 2009

VERS UNE THÉORIE AU-DELÀ DE L’ÉTAT: LA DOUBLE DÉMARCHE DE


DÉNATURALISATION ET TEMPORALISATION
Diego Santos Vieira de Jesus
L’article a pour objectif non seulement d’expliquer pourquoi une double démarche de dénaturalisation
et temporalisation favorise un premier pas vers une théorie envisageant la dissolution des notions
d’autorité et d’identité du concept d’État et la redéfinition du problème de l’ordre politique international,
mais encore d’identifier, dans les débats récents de la théorie politique et de la théorie de Relations
Internationales, des approches alternatives allant vers cette double démarche. L’hypothèse centrale
dont la justesse on envisage de vérifier est que la double démarche de dénaturalisation et temporalisation
permet l’affaiblissement en simultanée des segments internes qui confortent l’État et qui le distinguent
comme locus d’autoritié opposé à des forces apolitiques de la société domestique et des divisions
externes qui le différencient des organisations internationales similaires. A partir de ce manque de
stabilité, on met en question les interprétations étatiques de l’autorité et on redéfinit les débats sur
l’ordre politique international, tout en générant de nouvelles matrices et en renouvelant l’entendement
du politique : non seulement des organisations alternatives de l’espace peuvent être considérées à
partir de l’appréciation de la différence comme moyen d’auto-reflexion et de critique sociale, mais
aussi on peut admettre des perpectives envisageant des incohérences et ambigüités des pratiques
étatiques et mettant en question le contrôle de l’État sur des espaces et des corps à la recherche de
préservation de leur statut ontologique et pratique.
MOTS-CLÉS : Théorie Politique ; théorie des Relations Internationales ; théorie post-moderne ;
État ; dénaturalisation ; temporalisation.
* * *
NOUVEAUX LEADERS SUD-AMÉRICAINS: CLIVAGE SUR LE BINÔME STABILITÉ-
INSTABILITÉ POLITIQUE
Rafael Duarte Villa
L’article traite de l’instabilité politique en Amérique latine, surtout au Brésil et dans les pays composant
la Région Andine et le Cône Sud. Nous étudions les causes de l’apparition des nouveaux leaders
politiques dans ces pays et leur rapport aux situations de stabilité ou d’instabilité politiques. L’article
défend que l’avènement de nouveaux leaders en Amérique latine, qui ont émergé dans un contexte
de stabilité et instabilité politique, ne peut être compris seulement par des hypothèses mettant en
relief les caractéristiques populaires ou les défaillances de la modernisation politique, vu que la
casuistique plus profonde de cette émergence devrait être cherchée dans de nouveaux clivages
d’identité éthnique et sociale ainsi que d’un nouveau modèle de rapport entre mouvements sociaux
et nouveaux leaders. Nous concluons que l’ascension des nouveaux leaders politiques dans les pays
analysés est souvent liée à une crise de légitimité du système politique. Nous assumons aussi que le
« néo-populisme » peut être une variable explicative de l’émergence de nouveaux acteurs dans des
contextes d’instabilité politique, à condition que cette variable ne soit pas descontextualisée.
MOTS-CLÉS : élite politique ; néo-populisme ; Région Andine ; instabilité politique ; légitimité
politique ; économicisme.
* * *

190
REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 17, Nº 32: 181-185 FEV. 2009

TOWARD THEORIZING BEYOND THE STATE: THE TWO-FOLD PROCEDURE OF


DENATURALIZATION AND PROVIDING TEMPORALITY
Diego Santos Vieira de Jesus
This purpose of this article is to explain why a two fold procedure of denaturalization and providing
temporality offers the first step toward a new type of theorizing. We refer to the dissolution of
notions of authority and identity of the State and the re-definition of the problem of the international
political order, as well as identifying alternative approaches that pursue the course offered by this
two-fold procedure within recent debates on political theory and theories of international relations.
The central hypothesis whose correctness we intend to verify here is that this twofold procedure of
denaturalization and providing temporality (time-boundedness) allows the simultaneous destabilization
of the internal segments that strengthen the State and differentiate it as a locus of authority
counterposed to apolitical forces of domestic society and of the external divisions that distinguish it
from similar international entities. Through this destabilization, Statist interpretations of authority are
problematized and discussions on the international political order are re-defined, creating new matrixes
and renewing our understanding of the political. Alternative forms of organizing space can thereby
be thought up, on the basis of appreciation of difference as a means for self-reflection and social
critique, and perspectives that consider the inconsistencies and ambivalence of State practices and
that question State control over spaces and bodies, in favor of the preservation of their ontological
and practical status, can be developed.
KEYWORDS: Political Theory; International Relations Theory; Post-modern Theory; State;
denaturalization; temporalization.
* * *
NEW SOUTH AMERICAN LEADERSHIP: CLEAVAGES IN THE STABILITY-INSTABILITY
BINOMY
Rafael Duarte Villa
This article looks at political instability in Latin America, particularly for the countries that make up
the Andean region, the Southern Cone and Brazil. We inquire into the causes behind the emergence
of new political leadership in these countries and the relationship that such leadership has with
situations of political stability or instability. We sustain that the emergence of new leadership in Latin
America, which has emerged within a dynamic of political stability and instability cannot be understood
solely through hypotheses that give salience to populist traits or flaws in processes of political
modernization. Rather, deeper causal explanation for the appearance of such new leadership should
be sought in the new cleavages that demonstrate the renovation of elite groups, as well as the
emergence of ethnic and social divisions and of new patterns of relationship between social
movements and new leadership. We conclude that the rise of new political leadership in the countries
that we analyze is generally linked to a legitimacy crisis within the political system. We also hold that
“neo-populism” may be an explanatory variable for the emergence of new actors in contexts of
political instability, but care must be taken to give adequate emphasis to contextual factors.
KEYWORDS: political elite; neo-populism; Andean region; political instability; political legitimacy;
economicism.
* * *

182