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FUNDAMENTOS DA CIÊNCIA POLÍTICA

Autor

Nelson Rosário de Souza

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1.ª edição
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© 2007 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

S729

Souza, Nelson Rosário de.

Fundamentos da Ciência Política./Nelson Rosário de Souza. — Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2007.

124 p.

ISBN: 978-85-7638-753-4

1. Ciência política. 2. Poder e política. 3. Estado. I. Título.

CDD 320

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Sumário

A formação do pensamento político: dimensão histórica | 7

O que é a política? | 7 A política na Antiguidade Clássica | 9 A política como instância autônoma | 11

A formação do pensamento político: dimensão lógica I | 19

Aristóteles e as formas de governo | 19 A representação da política na modernidade | 22

A formação do pensamento político: dimensão lógica II | 27

O poder soberano | 27 A teoria da soberania | 29

A construção da Ciência Política Moderna | 37

A paternidade da Ciência Política | 37 O príncipe moderno | 39

O liberalismo | 47

O liberalismo como reação ao absoluto | 47 Locke: um pensador liberal | 48 O liberalismo e a defesa do indivíduo | 49 Ambiguidades do liberalismo | 51

A democracia liberal | 57

A difícil definição de democracia | 57 Significado formal de democracia | 58 O povo como fonte do poder | 60 A democracia liberal | 61

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A democracia direta | 67

A crítica à “civilização” moderna | 67 A propriedade como fonte do mal | 68 O pacto da igualdade | 70 Um projeto utópico e perigoso ou uma perspectiva necessária? | 71

O conceito de poder | 77

Uma definição inicial | 77 O exercício do poder | 79 O poder legítimo | 81

O Estado | 85

Estado e sociedade | 85 O Estado contemporâneo | 87 A concepção marxista de Estado | 89

Partidos políticos | 93

O surgimento dos partidos | 93 A tipologia dos partidos | 95 Os partidos na atualidade | 97

A cultura e a política

| 101

Os estudos de cultura política | 101 A cultura política tradicional | 102 A cultura política da modernidade | 104 A construção da cultura política moderna | 105

Participação política | 109

O que significa participar | 109 A participação em sociedades democráticas | 110 As lições da história | 111 Novas formas de participação política | 113

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Apresentação

Escrever uma obra com o objetivo de introduzir o aluno de Graduação em Ciências Sociais às principais temáticas e conceitos da Ciência Política é um grande desafio. A diversidade costuma marcar o universo de alunos que iniciam um curso de graduação. Os interesses são múltiplos e o nível de formação do corpo discente não é necessariamente homogêneo. Quanto às decisões sobre o conteúdo da disciplina, a tarefa não é menos difícil. A Ciência Política, como outras matérias das Ciências Humanas, está marcada pela multiplicidade de perspectivas. O debate é uma característica central da nossa área e não a construção de verdades absolutas. Para completar a complexidade do empreendimento proposto é necessário lembrar o dilema entre valorizar a apresentação de temas e autores filosóficos que formam a base da Ciência Política moderna, ou priorizar a discussão dos conceitos propriamente políticos.

O quadro de dificuldades acima descrito impôs a necessidade de escolhas no momento de confecção desta obra. Procurou-se, por exemplo, equilibrar a abordagem de temas e autores filosóficos com a definição de conceitos fundamentais da Ciência Política. Cada capítulo procura contemplar a diversidade de perspectivas, sem, no entanto, abrir mão de tomar posição. Espera-se que essa postura contribua com a formação de um aluno crítico, capaz de decidir se está de acordo, ou não, com os posicionamentos do autor a cada momento da leitura.

Enfim, o livro procurou apresentar os conteúdos de forma didática, mas sem abrir mão de contemplar a complexidade dos temas e conceitos. Desse modo, a expectativa é de que os alunos tenham neste livro uma fonte acessível de informação e também se sintam desafiados a investir em novas leituras e pesquisas. Uma boa forma de apreender esta obra é tomá-la como ponto de partida para a caminhada formativa e não como ponto de chegada.

Convido o aluno leitor a enfrentar seu próprio desafio de formação, usando o presente trabalho como uma das ferramentas úteis à sua empreitada. Bons estudos a todos.

Nelson Rosário de Souza

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A formação do pensamento político: dimensão histórica

O que é a política?

Nelson Rosário de Souza *

Em Guerra do Fogo, filme dirigido por Jean-Jacques Annaud (1981), é possível observar, entre outras coisas, a precocidade na disputa por bens materiais e simbólicos na história da humanidade. O filme reconstrói o embate entre tribos de hominídeos que caminhavam no seu processo evolutivo, na justa medida em que a disputa em torno do fogo apresentava novos problemas e solicitava novas soluções. Nesse caso, o conflito estava associado à sobrevivência, à espiritualidade, à linguagem, enfim, à construção do ser humano.

Outra situação de conflito bastante conhecida era quando um novo líder espiritual emergia em meio ao povo sofrido e arregimentava um grande número de seguidores. Os altos escalões da religião vigente enxergam nesse fato uma ameaça aos valores tradicionais, à sua instituição e hegemonia; o conflito era iminente. A reação era conclamar a autoridade do Estado a tomar uma atitude que restabelecesse a ordem. O governante decidia não intervir, lavava as mãos. Abria-se, então, o caminho para que os religiosos condenassem à morte, pela crucificação, aquele que era visto como desafiador dos poderes estabelecidos. Religião e poder se confundiam.

Um terceiro episódio histórico: na Paris de 1968, estudantes descontentes com a ordem vigente na dimensão política, econômica, social e cultural encabeçaram uma greve geral e ocuparam as ruas durante vários dias. O poder exercido por instituições e autoridades tidas como democráticas avançava sobre os jovens. A coerção foi perceptível e disseminou-se em nome da ordem. De modo surpreendente, o movimento acabou como começou, de repente.

  • 8 Fundamentos da Ciência Política

8 Fundamentos da Ciência Política Greve geral na França. Os três episódios acima descritos têm um

Greve geral na França.

Os três episódios acima descritos têm um ingrediente em comum: o embate que perpassa mais de uma dimensão da realidade. No primeiro caso, o conflito confunde-se com o próprio processo de constituição da humanidade. Se o conflito está disseminado na realidade desde o passado mais distante até os nossos dias e se a política é a gestão do conflito, significa que a política sempre existiu e está em todas as relações? Como precisar o campo da política e, mais propriamente, o objeto da Ciência Política? Tais perguntas trazem consigo a resposta: a condição para que a política se constitua na sua dimensão própria é de que a dispersão do conflito, o seu caráter ilógico e sem rosto definido sejam transformados, concretamente, em concentração do jogo de poder, com uma face detectável e relativamente estável. A idéia de que a política é tudo, ou que tudo é político, inviabiliza o pensamento sobre a política. Esta pode estar em tudo: na arte, nos jogos amorosos, nas relações de trabalho, nas religiões etc., mas ela não é tudo. A política que interessa à ciência é justamente a atividade que busca, pela concentração institucional do poder, sanar os conflitos e estabilizar a sociedade pela ação da autoridade; é o processo de construção de uma ordem. Ao longo da história, a política se separou paulatinamente de outras dimensões, ganhando autonomia, ainda que relativa, diante da Economia, do Direito, da religião, da moral, enfim, da sociedade. O olhar do cientista político recai sobre os processos que objetivam gerenciar institucionalmente os conflitos sociais. As análises científicas sobre o significado desses processos variam numa escala que vai do otimismo ao realismo. Para alguns, a gestão dos conflitos tende para a construção de sociedades democráticas, ou seja, pretensiosamente de não-dominação. Para outros, as formas de dominação cada vez mais sofisticadas sucedem-se ao longo da história, o que explicaria as disputas entre os grupos sociais pela conquista da hegemonia no campo político.

O terceiro episódio revela, por um lado, a crise que acomete a dimensão política quando o conflito social se generaliza e se sobrepõe às instituições e às autoridades. A disputa não é localizável e passível de gerenciamento institucional. É como se a sociedade, formada por instituições como a família, a igreja, associações, empresas, sindicatos etc., não aceitasse mais a fronteira que demarca o político e marchasse sobre ela. Por outro lado, o restabelecimento da ordem pelas vias institucionais, no mesmo evento, indica a restauração da autonomia da esfera política, em que os atores sociais voltam a ocupar suas posições na sociedade, deixando a política para os especialistas.

Quais condições precisaram ser preenchidas para o aparecimento da Ciência Política? É possível afirmar que dois caminhos se combinaram para o surgimento dessa ciência. De um lado, ocorreu o desenvolvimento lógico. Questões filosóficas que, no seu amadurecimento, se desdobraram em problemas científicos sobre aspectos específicos da realidade possibilitaram a configuração desse

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A formação do pensamento político: dimensão histórica

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novo campo de saber. Paralelamente a esse desdobramento reflexivo, aconteceram as transformações na própria realidade histórica. Sobre elas, novos olhares foram lançados e delineamentos teóricos singulares emergiram. Com o desenrolar da história, práticas, processos e relações concretas que, num primeiro momento, formavam um todo ao mesmo tempo social, político e jurídico, ganharam espessura própria, agregando atores específicos e demarcando fronteiras, se não rígidas e palpáveis, com certeza, nítidas e decifráveis pela perspectiva científica. Não há sentido em perguntar o que aconteceu primeiro:

novas reflexões transformaram a realidade ou novos acontecimentos transformaram a forma de pensar o mundo? As mudanças resultam do revezamento entre inovações representativas e transformações concretas, uma agindo sobre a outra. Uma dinâmica difícil de congelar numa relação causal unívoca. Aliás, a questão da causalidade, aqui, não faz sentido e também pouco colabora para o entendimento da história.

A ciência tem o hábito de separar para analisar, dividir para compreender. A análise do surgimento da Ciência Política inicia-se pela dimensão dos processos concretos, ou seja, pelas condições históricas que favoreceram a autonomia da política em relação às outras dimensões da realidade. Não que a pretensão seja de conferir maior importância, ou força causal à realidade histórica em relação às suas formas de representação.

A política na Antiguidade Clássica

Não é exagero recuar até a Antiguidade Clássica grega. Muito do ordenamento político moderno tem como fonte de inspiração a organização grega. Esse fato, entretanto, pode gerar alguma confusão. Existiria na Grécia uma dimensão da realidade propriamente política? A polis grega apresentava uma distinção entre Estado e sociedade? Aristóteles quando proclamou que o “homem é um animal político” (zoon politikón) estava precocemente recortando uma dimensão da realidade, a dimensão política e reconhecendo sua autonomia? A resposta a essas questões é uma só: não. Como bem lembra Giovanni Sartori (1981) a afirmação de Aristóteles aparece num contexto de definição da vida como um todo e não de um aspecto dela. O “homem” na Grécia Antiga só realizaria plenamente sua essência se estivesse inserido na polis e esta, por sua vez, compreendia mais do que uma suposta dimensão política, dizia respeito à cidade. Polis significava a comunidade de homens adultos participando de forma isonômica no exercício do poder. Esse verbo, participar, tem aqui um sentido profundo. Na polis, as dimensões social e política não se distinguiam, elas formavam um todo; tal separação só vai se cristalizar na Modernidade. Nem mesmo a palavra social existia no vocabulário grego, ela é uma elaboração latina posterior.

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Aristóteles.

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  • 10 Fundamentos da Ciência Política

Isso significa que a polis grega era horizontal. No que dizia respeito à vida pública, os cidadãos gregos estavam em igualdade e juntos decidiam, pela via dos debates, os caminhos da comunidade. Não existia uma hierarquia rígida entre os homens, a verticalidade das relações estava limitada à esfera privada. No mundo do lar, o homem se sobrepunha às mulheres e aos servos. Na cidade, os cargos de magistratura, distribuídos entre os cidadãos, eram ocupados segundo o princípio do revezamento. Até mesmo o espaço urbano estava configurado segundo a lógica da horizontalidade, da participação igualitária e da totalidade sociopolítica. A ágora era uma praça que abrigava o mercado onde se realizavam os debates e ao mesmo tempo sucediam-se as tomadas de decisão e a vida política acontecia. Era o que hoje chamamos de vida social. Esfera pública por excelência, a ágora era o espaço de exercício da democracia direta e da convivência dos cidadãos, era o lugar onde a vida ateniense acontecia. A atividade política harmonizava a experiência individual com os interesses da comunidade, a vida na polis iluminava o caminho de cada cidadão constituindo uma ética (MAAR, 1982). O homem adulto ateniense que não vivia a “cidade” não participava e era considerado pelos demais como anormal. Participar da construção da polis confunde-se com desenhar o caminho da própria vida. Sartori (1981, p. 158-159) explica esse caráter unitário da polis e a identidade que dela emerge:

A polis era a unidade constitutiva indecomponível e a dimensão suprema da existência. No viver “político” e na “politicidade” os gregos viam não uma parte, ou aspecto, da vida, mas seu todo, sua essência. Inver- samente, o homem “não-político” era um ser deficiente, um ídion 1 , um ser carente (significado original do nosso termo “idiota”, cuja insuficiência consistia justamente em ter perdido (ou não haver adquirido) a di- mensão e a plenitude da simbiose com sua polis. Em breve, um homem “não-político” não era apenas um ser inferior, era menos-que-homem.

O significado da polis enquanto dimensão indistintamente sociopolítica, configurada e reproduzida espacialmente, foi bem apreendida por Richard Sennett (1997). Ele nos mostra, numa bela narrativa, como a horizontalidade e a integralidade da cidade grega começou a ruir, quando importantes debates e decisões foram transferidos da ágora para o teatro grego. No novo espaço, o discurso entre interlocutores em condições de igualdade foi substituído pela distinção entre cidadãos que tomavam a palavra no espaço por excelência da fala, o palco, e aqueles que passivamente assistiam a tudo da platéia. Aqueles cidadãos gregos que demonstraram ou desenvolveram uma técnica de dramatização do discurso foram mais eficientes no convencimento em relação aos outros. Vê-se aí o início de uma especialização e, associado a ela, o nascimento de uma hierarquia entre os cidadãos. O resultado foi trágico: passado um tempo das decisões, os cidadãos não se reconheciam mais nelas. A horizontalidade da polis com a sua unidade sociopolítica e espacial desmoronou e junto se desmanchou a identidade dos cidadãos. O efeito disso foi a fragilidade dos gregos diante da invasão estrangeira. Aí talvez identifique-se um primeiro e pequeno passo rumo à autonomia da esfera política em relação à dimensão social. Passo tímido, mas de efeitos históricos monumentais.

A realidade do mundo romano antigo mostrou-se mais propícia à separação entre as dimensões do social e do político, ou melhor, à substituição do homem político pelo homem social. Os romanos herdaram os princípios da vida na polis da tradição ateniense, mas, já num contexto em que as cidades atingiam uma dimensão que inviabilizava a participação direta dos cidadãos na ágora. Diante da nova realidade, os romanos traduziram polis por civitas, cujo significado remete a relações de outra ordem. Civitas traz consigo a conotação de associação sob um conjunto de leis, ou seja, uma civilis

A formação do pensamento político: dimensão histórica

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societas e, finalmente, uma iuris societas (sociedade jurídica). A idéia de sociedade vai se configurando dissociada da política. O homem político de Aristóteles vira homem social na formulação de Sêneca (4a.C.-65d.C.). A vida social remete, progressivamente, à convivência pacífica entre os homens a partir da adesão a um conjunto de leis. A gestão das leis era feita pelo imperador, visto como um tutor a cuidar dos seus pupilos e impor os interesses dos mesmos ao restante da população. O caráter positivo que acompanhava a idéia ateniense de participar da construção da polis, paralelamente à elaboração da própria trajetória de vida, vai sendo substituído pela condição negativa de fazer parte da sociedade, agora uma “cosmópolis” (SARTORI, 1981). Não se trata, ainda, de uma relação hierárquica entre política e sociedade e sim da substituição da fórmula ateniense caracterizada pela polis – “o homem é um animal político”, pelo modelo romano centrado no social e que vai resultar na concepção de que o “homem é um animal social”.

A política como instância autônoma

Se a história vivida na Grécia e na Roma antigas não favoreceram a autonomia da esfera política, tampouco, ao longo da Idade Média a política apresentou-se com densidade própria. Durante o período feudal, a dimensão política esteve associada à esfera religiosa. Um dos efeitos desse vínculo era a subordinação da política à moral religiosa. O exercício da autoridade pelo Estado tinha como base de legitimidade a tradição fundada em concepções teológicas a respeito do ordenamento do mundo. A força do Estado combinada com a persuasão religiosa formavam o cimento que estabilizava as relações no feudalismo (MAAR, 1982). Os conflitos eventuais entre a monarquia e a igreja apenas evidenciavam a força da segunda diante da primeira. Não havia, ao longo deste período, uma clara separação entre a esfera pública e a privada. O critério de sucessão no poder, por exemplo, se dava pela herança familiar. Os códigos do espaço familiar informavam o funcionamento do campo político.

A relativa estabilidade do mundo feudal também estava assentada sobre uma rede de relações que tinham como base a posse da terra pela nobreza e pelo clero. A concessão para o uso da terra partia dos estratos mais elevados da sociedade e chegava até os camponeses, gerando uma aliança de compromissos. De um lado, a concessão descia a estratificação social e tomava a forma de favor associada à segurança, às vezes ilusória, de pertencer a um reino. Por outro lado, a contrapartida ascendente dos estratos mais baixos assumia o caráter de lealdade e fidelidade em relação aos que governavam. É importante sublinhar o caráter, ao mesmo tempo, social, econômico, religioso, moral e político dessa engrenagem. Paralelamente ao arranjo econômico e político feudal, operava a representação teocêntrica do mundo, cujo principal ingrediente era a idéia de destino. Uma configuração que, por certo, não desenhava um ambiente propício ao desenvolvimento de relações políticas autônomas.

O declínio da sociedade feudal apresentou um duplo movimento, com forças aparentemente contraditórias, mas que se mostraram complementares e úteis ao surgimento da sociedade contemporânea. Não convém conferir à dimensão econômica a condição de única fonte causadora das transformações em foco. Muito já se escreveu com o objetivo de criticar as perspectivas que adotam o determinismo econômico para explicar a derrocada do feudalismo. Mas as mudanças econômicas tiveram um papel relevante na transição do mundo feudal para a sociedade moderna, não por acaso, fortemente associada ao mercado. O primeiro movimento a impulsionar esse processo foi a descentralização do poder jurídico-político. Dependendo do momento ou do lugar, as cidades-Estado,

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  • 12 Fundamentos da Ciência Política

os principados ou os burgos ganhavam autonomia, constituíam-se em espaços com legislação própria. Esse movimento foi importante para viabilizar a livre circulação dos mercadores, suas mercadorias e seus novos comportamentos num mundo em transformação. Novas relações de trabalho se estabeleciam, enfim, novos costumes e atores sociais apareciam e, com o aspecto de resistência ao antigo, entravam em concorrência com a tradição a partir de espaços alternativos, relativamente independentes. É difícil dimensionar o impacto cultural dessas novas práticas. Após a descentralização ter propiciado a liberação de novas energias, processos e sujeitos, num jogo de desmonte das amarras jurídicas e morais próprias da Idade Média. O desdobramento seguinte foi justamente no sentido contrário, mas de efeito complementar.

O declínio da sociedade feudal, ao mesmo tempo, oferecia a oportunidade do surgimento de novos valores e comportamentos e desenhava um cenário de instabilidade, conflitos generalizados, enfim, desequilíbrios sociais. O desafio que se apresentou, principalmente à classe ascendente, a burguesia e seus representantes, foi de harmonizar as relações no novo contexto. É ilusório imaginar que os caminhos percorridos pela história apenas concretizam os planos bem elaborados pelos poderosos de cada momento. É mais prudente pensar que o jogo complexo de ação e resistência abre virtualidades, nem sempre previstas pelos sujeitos históricos, e que são preenchidas por atores os quais, muitas vezes, ao buscarem objetivos mais imediatos, acabam calçando o caminho do grupo que, mais tarde, será reconhecido como vencedor. A ação que começa individual pode ganhar um sentido social que ultrapassa o horizonte do ator que a protagonizou. Nesse sentido, é surpreendente, mas não ilógico, que o último estágio do feudalismo tenha sido marcado pelos Estados de poder absoluto, centralizadores, organizados pela monarquia, mas adequados às necessidades do mercado naquele instante. Não há dúvida de que a nova configuração foi uma resposta à autonomia das cidades, embora houvesse tido um alcance muito maior. Sob o absolutismo começou o ordenamento das novas relações e, principalmente, a formação dos Estados nacionais. Não por acaso, o novo modelo de poder emergiu da aliança entre burguesia ascendente e monarquia decadente. Seu efeito foi propiciar maior autonomia do poder temporal em relação ao poder espiritual. Idéias como livre arbítrio, direito divino dos reis e vontade do povo indicavam resistência aos limites religiosos impostos ao exercício do poder profano (ARANHA; MARTINS, 1986).

Depois de um longo percurso histórico, finalmente as condições concretas para uma autonomia do poder político frente aos poderes paralelos estão dadas. A centralização do poder no monarca, a sua colocação acima das autoridades religiosas, a aquisição de prerrogativas ilimitadas, o seu apartamento da moral cotidiana, enfim, a criação da estabilidade como seu objetivo são características que distinguem o exercício do poder na modernidade em relação às suas formas anteriores. A política passa a ter um fim específico a ser buscado por uma lógica do próprio jogo político. Paradoxalmente a nobreza na sua despedida preparou o cenário para a encenação da política com roupagem singular e pelas mãos de novos atores sociais.

Sob o Estado centralizado começa o processo de racionalização burocrática. O poder, aos poucos, vai adquirindo um caráter impessoal, isso significa que o mundo público ganhou dimensão própria e estabeleceu as fronteiras que o separam, desde então, da vida privada. O Estado, como potência acima da religião, desce verticalmente sobre a sociedade, concentrando a força em nome da solução dos conflitos dispersos e da construção da estabilidade capaz de gerar a harmonia. Ao menos é este o efeito real que o poder gera na modernidade (LEBRUN, 1984). O poder político passa a ser visto como instância, relativamente autônoma, capaz de ordenar a vida social. Ainda que a fórmula seja contestada em certos momentos por determinados grupos, do Estado se espera a demonstração de capacidade

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A formação do pensamento político: dimensão histórica

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para gerenciar o mundo do contrato garantindo o bom andamento das instâncias econômica e social. Não se trata mais de reivindicar a participação horizontal na polis como condição para construção da própria vida, ao cidadão moderno restou fazer parte do social: trabalhar, cuidar da família e conviver com os amigos, desde que o Estado garanta a estabilidade.

É correto pensar que o fracasso do Estado em harmonizar a sociedade e a economia faz emergir demandas por participação, transparência, enfim, controle da política pelos cidadãos. Nesses momentos ao que se assiste é o social tentando envolver o político. Crise da política? Sim, pois a sua autonomia não é absoluta. Dizer que a política ganha densidade própria não é afirmar que o sistema de poder institucional apresenta-se totalmente separado das outras esferas da vida, ou mesmo acreditar que o mundo político impõe o tempo todo os limites às outras dimensões da vida. Trata-se, antes, de perceber que o mundo político adquire uma lógica própria, na qual, na maior parte do tempo, as causas do seu funcionamento são encontradas dentro das suas próprias fronteiras e, muitas vezes, fatores políticos se apresentam como causas até mesmo de fenômenos no campo social, econômico, cultural etc.

Em resumo, este capítulo demonstrou que o conflito pode estar em muitas relações, mas nem toda relação é política e, principalmente, a Ciência Política tem um objeto específico: as relações de poder institucionalmente constituídas. A construção desse objeto solicitou que, ao longo da história, a política fosse se separando das demais dimensões: sociedade, religião, moralidade etc. Na Antiguidade grega, uma totalidade, ao mesmo tempo social e política, formava a polis, cuja principal característica era a horizontalidade. O Império Romano deu um primeiro passo no sentido de verticalizar as relações entre o Estado e a sociedade, mas enfatizou o social como comunidade jurídica. Na Idade Média, a política e a religião aparecem mescladas e só com o declínio do mundo feudal é que a política ganha autonomia em relação à moralidade cristã e passa a formar uma dimensão específica da realidade. O próximo desafio é analisar as condições lógicas de construção da Ciência Política.

Texto complementar

Política

Capítulo II

Aristóteles

[

]

A primeira associação formada por diversas famílias para suprir necessidades que não se

limitam à vida cotidiana é a aldeia (kóme), cuja forma mais natural parece ser a de uma colônia da

família, e seus membros são chamados, por alguns, de homogálactas (que sugaram o mesmo leite), e compreendem os filhos e os filhos desses filhos; é justamente por isso que as cidades (póleis) foram originalmente governadas por reis, como ainda o são em nossos dias as nações (éthne), pois elas se formaram pela reunião de pessoas submetidas aos reis. Toda família, de fato, submete-se ao reinado do patriarca, o mesmo ocorre com as extensões da família, em razão do parentesco de seus mem- bros. É o que diz Homero:

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  • 14 Fundamentos da Ciência Política

“Cada qual prescreve leis a suas mulheres e filhos” 2

pois as famílias andavam dispersas, e era assim que se vivia antigamente. Quanto aos deuses, a razão pela qual se admite unanimemente que eles são governados por um rei é que os próprios ho- mens são, ainda hoje, ou foram, no passado, governados dessa maneira; os homens não apenas repre- sentam os deuses à sua imagem, mas também atribuem-lhes um modo de vida semelhante ao seu.

Por fim, a comunidade formada por muitas aldeias é a cidade (pólis) no pleno sentido da palavra; da qual se pode dizer que atinge desde então a completa auto-suficiência (autarkéias). Surgindo para permitir viver (tôu zên), ela existe para permitir viver bem (tôu êu zên). Portanto, se as primeiras comu- nidades são um fato da natureza, também o é a cidade, porque ela é o fim daquelas comunidades, e a natureza de uma coisa é o seu fim: aquilo que cada coisa se torna quanto atinge seu completo de- senvolvimento, nós chamamos de natureza daquela coisa, quer se trate de um homem, de um cavalo ou de uma família. [p. 1253a] Além disso, a causa final e o fim (télos) de uma coisa é o que é o melhor para ela; ora, bastar-se a si mesma é, ao mesmo tempo, um fim e um bem por excelência.

Essas considerações tornam evidente que a cidade é uma realidade natural e que o homem é, por natureza, um animal político (politikón zôon). E aquele que, por natureza e não por mero aciden- te, não faz parte de uma cidade é ou um ser degradado ou um ser superior ao homem; ele é como aquele a quem Homero censura por ser

“sem clã, sem lei e sem lar” 3 ;

um tal homem é, por natureza, ávido de combates, e é como uma peça isolada no jogo de damas. É evidente, assim, a razão pela qual o homem é um animal político em grau maior que as abelhas ou todos os outros animais que vivem reunidos. Dizemos, de fato, que a natureza nada faz em vão, e o homem é o único entre todos os animais a possuir o dom da fala. Sem dúvida os sons da voz (phoné) exprimem a dor e o prazer e são encontrados nos animais em geral, pois sua natureza lhes permite experimentar esses sentimentos e comunicá-los uns aos outros. Mas quanto ao discurso (lógos), ele serve para exprimir o útil e o nocivo e, em consequência, o justo e o injusto. De fato, essa é a característica que distingue o homem de todos os outros animais: só ele sabe discernir o bem e o mal, o justo e o injusto, e os outros sentimentos da mesma ordem; ora, é precisamente a posse co- mum desses sentimentos que engendra a família e a cidade.

A cidade, portanto, é por natureza anterior à família e a cada homem tomado individualmente, pois o todo é necessariamente anterior à parte; assim, se o corpo é destruído, não haverá mais nem pé nem mão, a não ser por simples analogia, como quando se fala de uma mão de pedra, pois uma mão separada do corpo não será melhor que esta. Todas as coisas se definem sempre pelas suas funções e potencialidades; por conseguinte, quando elas não têm mais suas características próprias, não se deve dizer mais que se trata das mesmas coisas, mas apenas que elas têm o mesmo nome (homónima). É evidente, nessas condições, que a cidade existe naturalmente e que é anterior aos in- divíduos, pois cada um destes, isoladamente, não é capaz de bastar-se a si mesmo e está [em relação

à cidade] na mesma situação que uma parte em relação ao todo; o homem que é incapaz de viver em comunidade, ou que disso não tem necessidade porque basta-se a si próprio, não faz parte de uma

cidade e deve ser, portanto, um bruto ou um deus [

...

].

  • 2 Odisséia, IX, 114.

  • 3 Ilíada, IX, 63.

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A formação do pensamento político: dimensão histórica

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O impulso que leva todos os homens para uma comunidade desse tipo tem sua origem na na- tureza; mas aquele que em primeiro lugar fundou essa comunidade é ainda assim credor dos maio- res benefícios. Pois se o homem, ao atingir sua máxima realização, é o melhor dos animais, também é, quando está afastado da lei e da justiça, o pior de todos eles. A injustiça que tem armas nas mãos é a mais perigosa e o homem está provido, por natureza, de armas que devem servir à prudência e à virtude (phronései kài aretêi) mas que ele pode empregar para fins exatamente opostos. Eis por que o homem, sem a virtude, é a mais ímpia e feroz das criaturas, e a que mais vergonhosamente se orienta para os prazeres do amor e da gula. E a virtude da justiça é um valor político, pois a comu- nidade política tem como sua regra a [administração da] justiça (ou seja, a discriminação do que é justo).

Disponível em: <www.unicamp.br/~jmarques/cursos/1998-hg-022/politica.doc>. Acesso em: 31 jul. 2007.

Atividades

  • 1. A formação da Ciência Política pressupõe a autonomia da política. Qual o sentido dessa afirmação?

  • 16 Fundamentos da Ciência Política

    • 2. Por que a frase de Aristóteles “O homem é um animal político” só ganha pleno significado no contexto da Grécia Antiga?

  • 3. Os gregos da antiguidade participavam da polis, os cidadãos modernos fazem parte da sociedade. Qual a diferença entre as duas situações?

A formação do pensamento político: dimensão histórica

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  • 4. O contexto da Idade Média não favorecia a autonomia da esfera política. Explique.

Gabarito

  • 1. A atividade política se separou da atividade religiosa, social e econômica. Foi quando a política ganhou especificidade que as condições para o surgimento da Ciência Política apareceram.

  • 2. Porque naquele contexto os cidadãos eram integrantes da polis e suas vidas só faziam sentido na polis, que é espaço social e político ao mesmo tempo.

  • 3. Participar da polis é construir a dimensão coletiva ao mesmo tempo em que se faz o percurso individual, é estar integrado ativamente ao social e político. Fazer parte do social significa estar distante do político que se constituiu numa instância separada. Os homens passam a se dedicar ao social e a política vira coisa de especialistas.

  • 4. Na Idade Média, política e religião estavam misturadas, a política não aparecia como uma ativi- dade com regras e lógica próprias.

Esse material é parte integrante do Videoaulas on-line do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.videoaulasonline.com.br

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