Vous êtes sur la page 1sur 46

Coleção Zero à Esquerda

Coordenadores: Paulo Eduardo Arantes e má Camargo Costa — Desafortunados

David Snow e Leon Anderson

- Diccionario de bolso do Almanaque philosophico Zero à Esquerda

Paulo Eduardo Arantes

—Globalização em questão

Paul Hirst e Grahame Thompson

— A ilusão do desenvolvimento

Giovanni Arrighi

— As metamorfoses da questão social

Robert Caste!

—Os moedeiros falsos

José Luís Fiori

—Poder e dinheiro: Uma economia política da globalização

Maria da Conceição Tavares e José Luís Fiori (ens.)

—Terrenos vulcânicos

Dolf Oehler

—Os últimos combates

Robert Kurtz

Conselho editorial da Coleção Zero à Esquerda:

Otília Beatriz Fiori Arantes Roberto Schwarz Modesto Carone Netto Fernando Haddad Maria Elisa Burgos Pereira da Silva Cevasco Ismail Norberto Xavier José Luís Fiori

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, Si', Brasil)

Castel, Robert

As metamorfoses da questão social : uma crônica do salário / Ro- bert Castel ; tradução de Iraci D. Poleti. — Petrópolis, RJ : Vozes, 1998.

Título original : Les metamorphoses de la question sociale. ISBN 85-326-1954-1

1. Desemprego 2. Salários 3. Sociologia industrial 4. Trabalho e classes trabalhadoras I. Título.

97-5815

CDD-306.36

Indices para catálogo sistemático:

1. Salários: Questão social: Sociologia do trabalho 306.36

Robert Castel

As metamorfoses da questão social

Uma crônica do salário

Tradução: Iraci D. Poleti

kf EDITORA

VOZES

Petrópolis

1998

VII — A sociedade salarial

Condição proletária, condição operária, condição salarial:

três formas dominantes de cristalização das relações de traba- lho na sociedade industrial, e também três modalidades das relações que o mundo do trabalho mantém com a sociedade global. Se, esquematicamente falando, elas se sucedem, seu encadeamento não é linear. Quanto à questão aqui levantada do estatuto da condição de assalariado enquanto suporte de identidade social e de integração comunitária, apresentam so-

bretudo três de suas figuras irredutíveis. A condição proletária representa uma situação de quase- exclusão do corpo social. O proletário é um elo essencial no processo de industrialização nascente, mas está condenado a trabalhar para se reproduzir e, segundo a expressão já citada de Auguste Comte, "acampa na sociedade sem se encaixar". Sem dúvida, não viria ao espírito de nenhum "burguês" dos inícios da industrialização —tampouco, em sentido inverso, ao de nenhum proletário — comparar sua situação com a dos ope- rários das primeiras concentrações industriais quanto ao modo

de vida, habitação, educação, lazer

Mais do que da hierarquia,

... trata-se então de considerar um mundo clivado pela dupla opo- sição do capital e do trabalho, da seguridade-propriedade e da vulnerabilidade de massa. Clivado mas também ameaçado. A "questão social" é então, exatamente, a tomada de consciência de que essa fratura central, posta em cena através das descri-

415

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

ções do pauperismo, pode levar à dissociação do conjunto da sociedade'. A relação da condição operária com a sociedade conside- rada como um todo é mais complexa. Constituiu-se uma nova relação salarial e, através dela, o salário deixa de ser a retri- buição pontual de uma tarefa. Assegura direitos, dá acesso a subvenções extratrabalho (doenças, acidentes, aposentadoria) e permite uma participação ampliada na vida social: consumo, habitação, instrução e até mesmo, a partir de 1936, lazer. Ima- gem, dessa vez, de uma integração na subordinação. Porque até os anos 1930, momento em que tal configuração se cris- taliza na França, a condição de assalariado corresponde essen- cialmente ao conjunto de assalariados operários. Remunera as tarefas de execução, as que estão situadas na base da pirâmide social. Porém, ao mesmo tempo, esboça-se uma estratificação mais complexa do que a oposição dominantes-dominados que compreende zonas interseqüentes através das quais a classe ope- rária vive a participação na subordinação: o consumo (mas de massa), a instrução (mas primária), o lazer (mas popular), a ha- bitação (mas a habitação popular) etc. É por isso que tal estrutura

I O termo "Central" deve ser entendido aqui em relação à sociedade indus- trial. Não seria possível esquecer que a França ainda está no início do século XIX e será, por muito tempo, uma sociedade predominantemente campo- nesa. Uma resposta indireta, mas essencial, para a questão social criada pela industrialização pode consistir em freá-la. Richard Kuisel descreve, sob o nome de "liberalismo equilibrado" essas estratégias cheias de desconfiança em relação a operários da indústria, ao crescimento das cidades, a unia instrução demasiado geral e abstrata que poderia "desarraigar" o povo etc., e, inversamente, de apoio às categorias que têm um papel estabilizador sobre o equilíbrio social: trabalhadores independentes, pequenos empresários e, sobretudo, pequenos camponeses. "Um crescimento gradual e equilibrado em que todos os setores da economia progrediriam no mesmo ritmo, sem que os grandes pudessem eclipsar os pequenos, sem que as cidades pudessem esvaziar o campo de sua substância: essa continuava a ser a imagem ideal da

prosperidade nacional" (R. ICuisel,

cit.,

Le capitalistne et l'État en France,

op.

p. 72). Stnall is beautiful. Esse contexto sócio-econômico deve ser con-

traposto aos processos que tento evidenciar. Explica a lentidão com que a

industrialização impôs sua marca ao conjunto da sociedade francesa. De fato, a França só se converteu ao "industrialismo" após a Segunda Guerra Mundial, algumas décadas antes dele desmoronar.

416

A SOCIEDADE SALARIAL

de integração é instável. O conjunto dos trabalhadores pode se contentar com estar acantonado em tarefas de execução, mantido à distância do poder e das honras, enquanto a socie- dade industrial desenvolve uma concepção demitirgica do tra- balho? Quem cria a riqueza social e quem dela se apropria indevidamente? O momento em que se estrutura a classe ope- rária é também aquele em que se afirma a consciência de classe:

entre "eles" e "nós", nada está definitivamente decidido. O advento da sociedade salarial2 não será, no entanto, o triunfo da condição operária. Os trabalhadores braçais foram menos vencidos numa luta de classes do que ultrapassados pela generalização da condição de assalariado. Assalariados "bur- gueses", funcionários, quadros, profissões intermediárias, se- tor terciário: a salarização da sociedade cerca o operariado e subordina-o novamente, desta vez sem a esperança de que possa, um dia, impor sua liderança. Se todo mundo, ou quase, é assalariado (mais de 82% da população ativa em 1975), é a partir da posição ocupada na condição de assalariado que se define a identidade social. Cada um se compara a todos, mas também se distingue de todos; a escala social comporta uma graduação crescente em que os assalariados dependuram sua identidade, sublinhando a diferença em relação ao escalão in- ferior e aspirando ao estrato superior. A condição operária ocupa sempre, ou quase sempre, a base da escala (há também os imigrantes, semi-operários, semibárbaros, e os miseráveis do quarto mundo). Mas que prossiga o crescimento, que o Estado continue a estender seus serviços e suas proteções e, quem merecer, poderá também "subir": melhorias para todos, progresso social e bem-estar. A sociedade salarial parece arre- batada por um irresistível movimento de promoção: acumu- lação de bens e de riquezas, criação de novas posições e de oportunidade inéditas, ampliação dos direitos e das garantias, multiplicação das seguridades e das proteções.

2 Emprego aqui o conceito de sociedade salarial no sentido que lhe dão Michel Aglietta e Anton Bender, Les métamorphoses de ia société salariale, Paris, Calmann-Lévy, 1984, e pretendo desenvolver suas implicações socio- lógicas neste capitulo.

417

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

Este capítulo visa menos a reconstituir essa história do que a evidenciar as condições que a tornaram possível e fizeram da sociedade salarial uma estrutura inédita, ao mesmo tempo que sofisticada e frágil. A tomada de consciência dessa fragi- lidade é recente, data do início da década de 70. Hoje é o nosso problema, pois continuamos a viver na e da sociedade salarial. Podemos acrescentar, com Michel Aglietta e Anton Render, que "a sociedade salarial é nosso futuro"3? É a questão a ser debatida no capítulo seguinte, mas, ainda que devesse ser as- sim, trata-se de um futuro bem incerto. Enquanto isso, com- preenderemos melhor de que é feita tal incerteza se nos reapropriarmos da lógica da promoção da condição de assa- lariado em sua força e em sua friabilidade.

A nova relação salarial

"Foi a industrialização que deu origem à condição de as- salariado, e a grande empresa é o lugar por excelência da re- lação salarial moderna"4. Este julgamento é, ao mesmo tempo, confirmado e nuançado pelas análises anteriores. De fato, a condição de assalariado existiu primeiro e fragmentada na so- ciedade pré-industrial, sem conseguir se impor antes de estru- turar a unidade de uma condição (cf. capítulo III). Com a revolução industrial, começa a desenvolver-se um novo perfil de operários das manufaturas e das fábricas, o qual antecipa a relação salarial moderna sem ainda manifestá-la em sua coe- rência (cf. capítulo V)3.

' Ibid., p. 7.

4R. Saiais, La fonnation du chômage comme catégorie: le moment da années 30, op. cir., p. 342.

5 Evidentemente, esse perfil não corresponde ao conjunto, tampouco à maio- ria dos trabalhadores do início da industrialização, na primeira metade do século XX (durante muito tempo, o peso determinante foi dos artesãos, da "proto-indústria", dos assalariados parciais que obtêm uma parte de seus recursos de uma outra atividade ou da economia doméstica etc.). Mas repre- senta o núcleo do que vai se tornar a condição de assalariado dominante na sociedade industrial, encarnada pelos trabalhadores da grande indústria.

418

A SOCIEDADE SALARIAL

Podem-se caracterizar assim os principais elementos dessa relação salarial do início da industrialização, correspondendo ao que se acaba de chamar de condição proletária: uma remunera- ção próxima de uma renda mínima que assegura apenas a repro- dução do trabalhador e de sua família e que não permite investir no consumo; uma ausência de garantias legais na situação de trabalho regida pelo contrato de aluguel (artigo 1710 do Código Civil); o caráter lábil"6 da relação do trabalhador com a empre- sa: muda freqüentemente de lugar, alugando-se ao que oferecer mais (sobretudo se tiver uma competência profissional reco- nhecida), e "fica desempregado" alguns dias da semana ou durante períodos mais ou menos longos, se puder sobreviver sem se submeter à disciplina do trabalho industrial. Formali- zando essas características, dir-se-á que uma relação salarial comporta um modo de remuneração da força de trabalho, o salário — que comanda amplamente o modo de consumo e o modo de vida dos operários e de sua família —, uma forma da disciplina do trabalho que regulamenta o ritmo da produção, e o quadro legal que estrutura a relação de trabalho, isto é, o contrato de trabalho e as disposições que o cercam. Ter-se-á reconhecido que acabo de destacar essas caracte- rísticas a partir dos critérios propostos pela escola da regulação para definir a relação salarial "fordista" 7. Pressuponho assim que, no seio de uma mesma formação social, o capitalismo, a relação salarial pode assumir diferentes configurações, sendo que a questão, pelo menos a questão apresentada aqui, é a de evidenciar as transformações que comandam a passagem de uma forma a outras . Isto é, para assegurar a passagem da re-

6 A expressão é utilizada por 5. Pollard para caracterizar a mobilidade dos trabalhadores das primeiras concentrações industriais, The Genesis of Hu-

man Management, Londres, 1965, p. 161.

7 Cf., por exemplo, R.

Boyer, La théorie de la régulation: une analyse critique,

Paris, La Découverte, 1987.

Quando se reduz a relação salarial à relação salarial moderna, "fordista", confundem-se as condições metodológicas necessárias para se chegar a uma definição rigorosa da relação salarial e das condições sócio-antropológicas características das situações salariais reais, que são diversas (cf. in Genese,

419

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

lação salarial que prevalecia no começo da industrialização à relação salarial "fordista", a reunião das cinco condições se- guintes.

Primeira condição: uma nítida separação entre os que tra- balham efetiva e regularmente e os inativos ou os semi-ativos que devem ser ou excluídos do mercado do trabalho ou inte- grados sob formas regulamentadas. A definição moderna da

condição de assalariado supõe a identificação precisa do que os estatísticos chamam de população ativa: identificar e men- surar aqueles que estão ocupados e aqueles que não o estão, as atividades intermitentes e as atividades de tempo integral, os empregos remunerados e os não-remunerados. Empreen- dimento de grande fôlego, e difícil. Um proprietário de terras, um latifundiário e uma pessoa que vive de rendas são "ativos"? E a mulher e os filhos do artesão ou do agricultor? Que estatuto conferir a esses numerosos trabalhadores intermitentes, sazo- nais, que povoam tanto as cidades como o campo? Pode-se • falar de emprego e, correlativamente, de não-emprego, de de- semprego, se não se pode definir o que verdadeiramente sig- nifica estar empregado? É somente na virada do século — em 1896 na França, em 1901 na Inglaterra — e após muitas hesitações, que a noção de população ativa é definida sem ambigüidade, permitindo o estabelecimento de estatísticas confiáveis. "Os ativos serão aqueles e somente aqueles que estiverem presentes num mer- cado que lhes proporcione um ganho monetário, mercado do

n° 9, 1991, vários pontos de vista sobre essa questão). De minha parte, defendo que se pode falar de situações salariais não só no início da indus- trialização, antes de ser instituída a relação "fordista", mas também na so- ciedade "pré-industrial" (cf. cap. III), desde, evidentemente, que não sejam confundidas com a relação salarial "fordista". Mas é impossível manter, de modo rigoroso, uma posição purista até mesmo para o período moderno, porque a relação estritamente "fordista", com cadeia de montagem, conta- gem rigorosa do tempo etc., sempre foi minoritária, mesmo no apogeu da sociedade industrial (cf. M. Verret, Le travail ouvrier, Paris, A. Colin, 1982, p. 34, que, para o fim dos anos 1970, estima em 8% o total dos operários que trabalham em cadeia propriamente dita, e em 32%a proporção dos que trabalham com máquinas automatizadas).

470

A SOCIEDADE SALARIAL

trabalho ou mercado dos bens ou serviços"9. Assim, a situação de assalariado, distinta da de fornecedor de mercadorias ou de serviços, torna-se claramente identificável, mas também a de desempregado involuntário, distinta de todos aqueles que mantêm uma relação errática com o trabalho. Mas uma coisa é poder localizar e contabilizar os traba- lhadores; uma coisa melhor seria poder regular este "mercado de trabalho", controlando seus fluxos. Os ingleses dedicaram-se seriamente a isso desde o início do século. William Beveridge, desde 1910, tinha visto de modo justo que o principal obstáculo à racionalização do mercado do trabalho era a existência desses trabalhadores intermitentes que se recusam a se submeter a uma disciplina rigorosa. Também é preciso domá-los:

Para quem quiser trabalhar uma vez por semana e ficar na cama o resto do tempo, a agência de empregos tornará esse desejo irrealizável. Para quem quiser encontrar um emprego precário de tempos em tempos, a agência de colocação tornará pouco a pouco impossível esse gênero de vida. Pegará essa jornada de trabalho que ele queria ter e a dará a qualquer outro que já trabalhe quatro dias por semana e, assim, permitirá a este último ganhar decentemente sua vida".

A agência de empregos deve efetuar uma divisão do tra- balho que consiste em traçar uma linha divisória entre os ver- dadeiros empregados em tempo integral e os que serão completamente excluídos do mundo do trabalho e passarão para a esfera das formas coercitivas de assistência, previstas para os indigentes válidos. Igualmente, os Webb fazem apelo

9 C. Topalov, "Une révolution dans les représentations dl, travail. lémer- gence de la catégorie statistique de 'population active' en France, en Gran- de-Bretagne et aux États-Unis", mimeografado, 1993, p. 24, e Naissance du chômeur, 1880-1910, op. cit.

Beveridge,

Royal Commission on Poor Lato and Reli( Distress, Appen-

C. Topalov, "Invention du

dix V8. House of Commons, 1910, citado in

cheimage et politiques sociales au début du siècle", Les temps modernes, n's

496-497, nov.-dez. de 1987. A obra de Beredige publicada na época, Unem-

ployment, A Problem of Industry, Londres, 1909, é que começa a tornar conhecido o futuro organizador e realizador da Seguridade Social inglesa.

421

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

a "uma instituição em que os indivíduos devem ser condenados a viver isolados, cumprindo pena e mantidos sob vigilância

[

...

]

absolutamente essencial para qualquer programa eficaz de

tratamento do desemprego"". Se foi impossível realizar rigorosamente tal "ideal", as ins- tituições implantadas na Grã-Bretanha, nas primeiras décadas do século XX, aproximaram-se dele. As agências municipais

de emprego e os poderosos sindicatos de trabalhadores que praticam o closed shop monopólio do emprego para os sin-

dicalizados — conseguiram, não a dominar o desemprego, pro- blema endêmico na Grã-Bretanha, mas a controlar melhor a contratação para os empregos disponíveis. Em razão principalmente do atraso no desenvolvimento da condição de assalariado industrial em relação à Grã-Breta- nha12 , esse tipo de política de emprego antecipada nunca as- sumiu na França semelhante caráter sistemático. Durante muito tempo, a contratação foi deixada à iniciativa dos traba- lhadores, em princípio "livres" de irem alugar-se a seu grado, à esperteza de "contratadores" ou de "empreiteiros" 13, à ve-

11 S. e B. IX7ebb, The Prevention of Destitution, op. cit. Em relação a esse ponto, há unanimidade entre os reformadores sociais ingleses. Cf. E Miei,,

The Unemployed, a National Question,

sintética dos

Londres, 1906, e uma apresentação

"polices of decasualisation" — que poderia ser traduzida como

o conjunto de medidas tomadas para acabar com o trabalho intermitente a

fim de se constituir um verdadeiro mercado do trabalho — ir: M. Mansfield, "Labour Exchange and the Labour Reserve in Turn of the Century Social

Reform"Jounia/

of Social Policy, 21,4, Cambridge University Press, 1992.

12 Em maio de 1911, a população ativa francesa tem 47% de assalariados,

numa relação de 3 patrões para 7 assalariados, ao passo que a proporção

dos assalariados na Grã-Bretanha aproxima-se dos 90% (Cf. B. Guibaud, Ia mutualité à la sécurité sociale, op. cit., p. 54).

De

13 Cf. B. Motez, Systèmes de salaire et politiques patronato, Paris, edição do CNRS, 1967. O empreiteiro, ou o subempreiteiro, é pago pelo patrão para a execução de uma obra e paga os trabalhadores que contrata diretamente. Essa prática pouco aceita pelos operários foi abolida em 1848, mas restau- rada logo depois e defendida inclusive pelos liberais, como Leroy-Beaulieu, que vêem nela uma dupla vantagem: garantir uma vigilância direta dos ope- rários pelo empreiteiro e permitir a promoção de uma espécie de elite de pequenos empresários a partir da condição de assalariado (cf. P. Leroy-Beau-

lieu,

Traité théorique et pratique d'économie politique, t. II, p. 494-495).

422

A SOCIEDADE SALARIAL

nalidade das agências privadas de emprego, às quais é neces- sário acrescentar raras agências municipais, e às tentativas sin- dicais de controlar, e às vezes de monopolizar, a contratação. Fernand Pelloutier esgota-se em implantar as bolsas de traba- lho que devem, entre outras coisas, coletar todos os pedidos de emprego e organizar a admissão sob controle sindical". Mas o empreendimento, minado pelas divisões sindicais, du- rará muito tempo. No plano político, a ala reformista, repre- sentada pelos "republicanos progressistas" e pelos socialistas independentes, interessa-se pela questão. Léon Bourgeois, em especial, compreende a relação existente entre a regulação do mercado de trabalho e a questão do desemprego, que se torna preocupante no início do século com uma estimativa de 300 mil a 500 mil desempregadosis. Mas os remédios que preco- niza para combatê-lo são muito tímidos: "A organização da contratação aparece, evidentemente, em primeiro lugar'. Deplora a insuficiência das agências municipais e sindicais, evoca a necessidade de um seguro contra o desemprego, mas deixa esta responsabilidade aos agrupamentos profissionais. Os poderes públicos terão assim, e por muito tempo, ape- nas um papel muito modesto na organização do mercado de trabalho e na luta contra o desemprego. O Ofício do Trabalho, criado em 1891, dedica-se a reunir uma importante documen- tação e a elaborar estatísticas confiáveis. Esta atividade se pro- longa no quadro do Ministério do Trabalho, criado em 1906 17,

14 Cf. E Pelloutier, Histoire des bourses du travai!,

Julliard, Femand

Paris, 1902, e Jacques

Pelloutier et les origines du syndicalisme clictction directa,

Paris, Le Seuil, 1971.

'5 L. Bourgeois, "Discours à la Conférence internationale sur le ch6mage", Paris, 10 de setembro de 1910, in Politique de la prévoyance sociale, op. cit., p. 279.

"L. Bourgeois, "Le Ministère du Travail", discurso no congresso mutualista

de Normandie, em Caen, no dia 7 de julho de 1912,

kl Politique de la pré-

voyance sociale, op. cit., t. II, p. 206 sq. Bourgeois defende igualmente um controle do treinamento para melhorar a qualificação e a "ação do Estado

como moderador na execução das grandes obras públicas" (p. 207).

17 Cf. J.-A.

Tournerie, Le Ministère du Travail, origines et premiers dévelop-

pements, op. cit.

423

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

mas não é nada que possa funcionar como verdadeira política do emprego. O que funcionou como tal durante muito tempo foi o conjunto das políticas patronais anteriormente desenvolvidas (cf. capítulo V), mistura de sedução e de coerção para fixar os operários através das "vantagens sociais" e aniquilar sua resis- tência através de regulamentações rígidas. Foi o caso também, de modo mais geral, da espécie de chantagem moral exercida sobre os trabalhadores pelos filantropos, pelos reformadores sociais e pelos porta-vozes do liberalismo: adaptem-se ao mo- delo do bom operário, regular no trabalho e disciplinado em seus costumes ou terão parte desses miseráveis excluídos da sociedade industrial". Seria necessário citar aqui, novamente, toda a literatura repetitiva sobre a necessária moralização do povo. Pode-se ver um sinal de vitalidade dessa atitude — até o fim do século XIX e o início do século XX — na extraordinária onda de repressão da vagabundagem que então floresceu: cin- qüenta mil prisões a cada ano por vagabundagem na década de 1890, acarretando até vinte mil processos anuais julgados pelos tribunais19 , com ameaça de degredo em caso de reinci- dência. Conjunturalmente, essas medidas podem ser explica- das pela grave crise econômica que então se alastrou e pela miséria do meio rural. Mas é também uma maneira de lembrar, no momento em que uma nova ordem do trabalho se esboça com a segunda revolução industrial, o quanto custa escapar dela. O vagabundo torna-se novamente, durante um ou dois decênios, o contramodelo abominado que representou na so- ciedade pré-industrial (cf. capítulo II): a figura da associabili- dade que é necessário erradicar, porque destoa numa sociedade que volta a endurecer as regulações do trabalho".

19 Cf. J. Donzelot, P Estèbe, EÉtat anirnateur, Paris, Éditions Esprit, 1994, introdução. 19 Cf. M. Perrot, "La fin des vagabonds", EHistoire, no 3, julho-agosto 1978. 1° Para uma amostra dessa literatura que prega uma verdadeira cruzada contra a vagabundagem, cf. Dr. A. Pagnier, Un déchet social: le vagabond, Paris, 1910.

424

A SOCIEDADE SALARIAL

Mas logo um outro modo de regulação vai se impor de maneira mais eficaz. Todas essas dosagens de repressão e de mansidão filantrópica permanecem limitadas em seus efeitos, porque continuam exteriores à organização do trabalho pro- priamente dita. Enquanto se trata de converter o operário a uma conduta mais regular, procurando convencê-lo de que seu verdadeiro interesse exige principalmente disciplina, ele pode se revoltar, ou se furtar, pela fuga a essas obrigações que são da esfera moral. A máquina impõe outros tipos de coer- ções, objetivas desta vez. Com ela não se discute. Segue-se ou não se segue o ritmo que a organização técnica do trabalho impõe. A relação de trabalho poderá deixar de ser "volátil", se esta organização técnica for, em si mesma, suficientemente poderosa para impor sua ordem.

Segunda condição: a fixação do trabalhador em seu posto de trabalho e a racionalização do processo de trabalho no qua- dro de uma "gestão do tempo exata, recortada, regulamenta-

da'. As tentativas para regular a conduta operária a partir das coerções técnicas do próprio trabalho, que vão espandir-se com o taylorismo, não são do século XX. Já em 1847, o barão Charles Dupin sonha em realizar o trabalho perpétuo graças ao infatigável impulso do "motor mecânico":

Há, pois, uma extrema vantagem em fazer os mecanismos ope- rarem infatigavelmente, reduzindo à menor duração os interva- los de descanso. A perfeição lucrativa seria trabalhar sempre ... Portanto, foram introduzidos na mesma oficina os dois sexos e as três idades explorados em rivalidade, lado alado, se podemos falar nesses termos, arrastados sem distinção pelo motor mecâ- nico para o trabalho prolongado, para o trabalho de dia e de noite para se aproximar cada vez mais do movimento eterno s.

21 R. Saiais, "La formation du chômage comme catégorie", loc. cit., p. 325.

22 C.

Dupin, relatório apresentado à Câmara dos Pares, 27 de junho de 1874, citado in

L. Murard, R Zylberman, "Le petit travailleur infatigable",

Recher-

che, n° 23, novembro de 1976, p. 7. Precedentes de uma organização quase

"perfeita" da disciplina de fábrica poderiam ser encontrados antes mesmo

da introdução de máquinas sofisticadas e,

a fortiori,

antes da cadeia de mon-

tagem. É o caso da olaria fundada na Inglaterra, por volta de 1770, por

425

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

Mas essa maravilhosa utopia baseia-se na "exploração em rivalidade" das diferentes categorias de pessoal, isto é, sobre a mobilização do fator humano. Com a "organização científica" do trabalho, em compen- sação, o trabalhador é fixado não por uma coerção externa, mas pelo encadeamento das operações técnicas cuja cronome- tragem definiu rigorosamente a duração. Assim, acha-se eli- minado o "perambular" operário e, com ele, a margem de iniciativa e de liberdade que o trabalhador conseguia preservar. Mais ainda, as tarefas parceladas tornando-se simples e repe- titivas, uma qualificação sofisticada e polivalente é inútil. O operário é destituído do poder de negociação que o "ofício" 13

lhe propiciava. Mas os efeitos dessa "organização científica do trabalho" podem ser lidos de duas maneiras: como uma perda da auto- nomia operária e como o alinhamento das competências pro- fissionais sobre o mais baixo nível das tarefas reprodutivas. As análises mais freqüentes sobre o taylorismo e que enfatizam o aspecto da destituição são, entretanto, simplificadoras. De um lado, tendem a idealizar a liberdade do operário pré-taylorista, capaz de ir vender suas competências a quem oferece mais. Sem dúvida, isso é verdadeiro quanto aos herdeiros dos ofícios

Josiaph Wedgwood; passou para a posteridade como um modelo de estrita organização do trabalho. Não é mecanizada, mas associa a divisão do tra-

balho manual no interior da empresa a uma política de moralização dos operários, apoiada pela Igreja Metodista e por unia Sociedade pela Supressão

do Vício, animada pelo patrão.

and Factory Discipline", in

O. N. McKendrick, "Josiaph Wedgwood

op. cir.

D.S. Landes, The Bise of Capitalism,

Também podem ser destacadas formas de divisão de tarefas que antecipam

o trabalho em cadeia sem ser baseado na máquina. É o caso da

"tablée": um

objeto circula de mão em mão em torno de uma mesa; cada operário acres-

centa-lhe uma parte até que fique pronto (cf. B. Dorey, Le taylorisme, une folie rationnelle, Paris, Dunod, 1981, p. 342 sq). 23 Cf. B. Coriat, L:atelier et le chronomètre, Paris, Christian Bourgeois, 1979. Existem várias traduções francesas de F.W. Taylor que apareceram muito cedo, como Études sur l'organisation du travail dans les usines (412 p.), Anger, 1907. Para uma atualização das questões suscitadas pelo taylorismo hoje, cf. a obra coletiva, sob a direção de Maurice de Montmollin e Olivier Pastré, Le taylorisme, Paris, La Découverte, 1984.

426

A SOCIEDADE SALARIAL

artesanais, possuidores de competências raras e muito procu- radas. Entretanto, se é verdade que se instala sobretudo na grande empresa, na maioria das vezes o taylorismo teve que tratar com populações operárias de origem rural recente, sub- qualificadas e pouco autônomas.

De outro lado, foi sem dúvida a racionalização "científica" da produção que contribuiu de modo mais decisivo para a homogeneização da classe operária. Atacou a compartimenta- . ção estanque dos "ofícios" com os quais seus membros se iden- tificavam estreitamente: a pessoa se pensava ferreiro ou carpinteiro antes de se pensar "operário" (as rivalidades das associações de ofícios, que sobreviveram por muito tempo ao Antigo Regime, ilustram até chegar à caricatura essa crispação sobre a especificidade do ofício24). E ainda mais porque, no seio de uma mesma especialização profissional, existiam também dis- paridades muito importantes de salário e de status entre compa-

nheiro com formação completa, mão-de-obra, aprendiz

Assim,

... a homogeneização "científica" das condições de trabalho pôde forjar uma consciência operária que desemboca numa cons- ciência de classe aguçada pela penosidade da organização do trabalho. As primeiras ocupações de indústrias, em 1936, se darão nas empresas mais modernas e mais mecanizadas. É tam- bém nestas "cidadelas operárias" que a CGT e o Partido Co- munista recrutarão seus militantes mais combativos2s. Em terceiro lugar, a tendência à homogeneização das con- dições de trabalho não pode ir até o fim, ou melhor, na mesma medida em que se acentua, produz efeitos inversos de diferen- ciação. De fato, a produção de massa exige, por si mesma, distinções entre um pessoal de pura execução (é o caso do operário especializado, o 0E) e um pessoal de controle ou de manutenção (o operário técnico). A evolução técnica do tra- balho exige igualmente o fortalecimento e a diversificação de

  • 24 Cf. A. Perdignuier, Mémoires d'un compagnon, Paris, reedição Maspero,

1977.

  • 25 Cf. G. Noiriel, Les ouvriers dans la société française, op. cit.

427

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

um pessoal de concepção e de enquadramento — os que vão se tornar os "quadros". Homogeneização e diferenciação: este duplo processo já está em curso no início da segunda revolução industrial. Con- vida a não falar da "taylorização" como um processo homo- gêneo, lançado à conquista do mundo operário. Sua implantação é lenta e circunscrita a locais industriais muito particulares: antes da Primeira Guerra Mundial, apenas 1% da populasão industrial francesa é atingida por essa inovação americana 6. Ademais, o taylorismo não é senão a expressão mais rigorosa — embora se abrande quando é importada na França — da tendência mais geral para uma organização re- fletida do trabalho industrial, o que, nos anos 20, se chama de

"racionalização"28.

Enfim, esses métodos vão transpor os locais industriais que o "taylorismo" evoca para se implantarem nos escritórios, nas grandes lojas, no setor "terciário". Também, mais que de "tay- lorismo", seria melhor falar da implantação progressiva de uma nova dimensão da relação salarial, caracterizada pela ra- cionalização máxima do processo de trabalho, o encadeamen- to sincronizado das tarefas, uma separação estrita entre tempo de trabalho e tempo de não-trabalho, o todo permitindo o desenvolvimento de uma produção de massa. Neste sentido, é exato dizer que o modo de organização do trabalho coman- dado pela busca de uma produtividade máxima a partir do controle rigoroso das operações foi, de fato, um componente essencial na constituição da relação salarial moderna.

  • 26 Cf. M. Perrot, "La classe ouvrière au temps de Jaurès", in Jaurès et la classe ouvrière, Paris, Editions Ouvrières, 1981. Sobre o papel desempenhado pela

Grande Guerra quanto ao assunto, cf. Patrick Fridenson (ed.), Paris, Cahiers du mouvement social, 2, 1982.

L:Autre Frani,

  • 27 Sobre as modalidades de implantação do taylorismo nas indústrias Renault

e os problemas que suscitou, cf. P Fridenson, Paris, Le Senil, 1982.

Histoire des usine Renault,

  • 28 Cf. A. Moutet, "Patrons de progrès ou patrons de combat? La politique de rationalisation de l' industrie française au lendemain dela Pretnière Guerre

Mondiale", in Le soldai du travai!, tembro de 1978.

número especial 32-33, Recherche, se-

428

A SOCIEDADE SALARIAL

Terceira condição: o acesso por intermédio do salário a "novas normas de consumos operários"29 , através do que o próprio ope- rário se torna usuário da produção de massa. Taylor já defendia um aumento substancial do salário para incitar os operários a se submeterem às coerções da nova disciplina da indústria". Mas Henry Ford é quem sistematiza a relação entre produção de mas- sa (a generalização da cadeia de montagem semi-automática)

e consumo de massa. O "five dollars day"

não representa ape-

nas um aumento considerável do salário. É pensado como a possibilidade do operário moderno ter acesso ao estatuto de consumidor dos produtos da sociedade industrial'. Inovação considerável, se for situada na longa duração da história da condição de assalariado. Até essa virada, o traba- lhador é essencialmente concebido, pelo menos na ideologia patronal, como um produtor máximo e um consumidor mí- nimo: deve produzir o máximo possível, mas as margens de lucro que resultam de seu trabalho são mais importantes à proporção que seu salário é mais baixo. É significativo que as derrogações patronais à "lei de bronze" dos salários tenham consistido não em suplementos salariais mas, sim, em subven- ções sociais não monetárias em caso de doença, de acidente, na velhice etc. Estas subvenções podiam esconjurar a privação total das famílias operárias, mas não maximizar seu consumo. Significativo também o fato de que a eventualidade para o trabalhador de se encontrar mais à vontade não tenha sido pensada por esses mesmos patrões e reformadores sociais

  • 29 A expressão é de

Michel Aglietta in: Régulation et crises du capitalisme,

Paris, Calmann-Lévy, 1976, p. 160.

l'expérience des États-Unis,
30

Ele considera até mesmo a possibilidade de "diminuir o custo em propor- ções tais, que nosso mercado interno e externo se ampliaria consideravel-

mente. Assim, seria possivel pagar salários mais altos e reduzir o número de horas de trabalho, melhorando as condições de trabalho e o conforto da

casa"

(La direction scientifique des entreprises,

op. cit., p. 23).

  • 31 Cf. M. Aglietta, Régulation et crises du capitalisme ...

p. 23. Tradução francesa da obra de Henry Ford:

Paris, ed. Marabout,

My life, my work; ma ide

et mon oeuvre, Paris. Sobre a organização concreta do trabalho em fábrica

e as reações dos trabalhadores, cf. o testemunho de um antigo operário da

Ford, H.

Beynon, Working for Ford, Penguin Books, 1973.

429

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

como uma possibilidade de consumir mais, porém como um dever de poupar ou de contribuir para aumentar sua seguri- dade. O único consumo legítimo para o trabalhador é reduzido ao que lhe é necessário para reproduzir decentemente sua força de trabalho e manter sua família no mesmo nível de medio- cridade. A possibilidade de consumir mais deve ser proscrita, porque leva ao vício, à bebedeira, ao absenteísmo ... Quanto aos trabalhadores, é também com o início de uma produção de massa que aparece explicitamente uma preocu- pação de bem-estar por meio do desenvolvimento do consu- mo. Alphonse Merrheim, então secretário geral da CGT, declara em 1913 — o que corrige um pouco a representação dominante de um sindicalismo de ação direta mobilizado uni- camente para preparar a "Grande Noite":

Não há limites para o desejo de bem-estar. O sindicalismo não contradiz isso, ao contrário. Nossa ação, nossas reivindicações de redução das horas de trabalho e aumento de salário, não tem por objetivo mínimo aumentar no presente os desejos, as facili- dades de bem-estar da classe operária e, conseqüentemente, suas possibilidades de consumo?'

Essa preocupação operária com o consumo, que aparece no início do século, responde a uma transformação dos modos de vida popular, acarretada pelo recuo das economias domés- ricas e afeta sobretudo os trabalhadores das grandes concen- trações industriais33. Se o mundo do trabalho, já na sociedade

'1A. Merrheim,."La méthode Taylor", La vie ouvrière, março de 1913, p. 305, citado in J. julliard, Autonomie ouvrière. Études sur le syndicalisme d'action directe, op. cit., p. 61. Neste artigo, Merrheim dedica-se não ao método de Taylor, mas à sua "falsificação" pelo patronato francês. Também é significativa a seguinte declaração de outro grande líder sindicalista da época, Victor Griffuelhes: "De nossa parte, pedimos que o patronato francês seja parecido com o patronato americano e que assim, aumentando nossa atividade industrial e comercial, disso resulte para nós uma segurança, uma certeza que, melhorando nossa condição material, nos arraste para a luta, facilitada pela necessidade de mão-de-obra" ("Linfériorité des capitalistes français", Le mouvement social, dezembro de 1910, citado ibid., p. 55).

33 B. Coriat, L'atelier et le cbronomètre, op. cit., cap. IV

430

A SOCIEDADE SALARIAL

pré-industrial e depois no começo da industrialização, sobre- viveu a salários de miséria, é, em muito, porque uma parte importante, ainda que difícil de traduzir em números, de seu consumo não dependia do mercado: vínculos mantidos com o meio rural de origem, disposição de um pedaço de terra, participação sazonal nos trabalhos do campo, mesmo para pro- fissões tão "industriais" quanto a de mineiro'''. Essa situação se transforma com a expansão das concen- trações industriais. A homogeneização das condições de tra- balho é acompanhada de uma homogeneização dos meios e dos modos de vida. Processo complexo e que se estendeu por várias décadas. Concerniu ao habitat, aos transportes e, de modo mais geral, à relação do homem com seu meio ambiente tanto quanto o "a sacola da dona-de-casa". Porém, uma parte cada vez mais importante da população operária encontra-se objetivamente numa situação próxima da que alimentou as pinturas do pauperismo na primeira metade do século XIX:

operários separados de sua família e de seu meio de origem, concentrados em espaços homogêneos e quase reduzidos aos recursos fornecidos por seu trabalho. Para que as mesmas cau- sas não produzam os mesmos efeitos, a saber, uma pauperiza- ção em massa, é necessário que a remuneração desse trabalho não continue um salário de sobrevivência. Chama-se "fordismo" a articulação, que Henry Ford foi sem dúvida o primeiro a pôr em prática conscientemente, da produção de massa e do consumo de massa. Henry Ford de- clara: "A fixação do salário da jornada de 8 horas em cinco dólares foi uma das mais belas economias que já fiz na vida, mas elevando-o a seis dólares, fiz uma economia melhor ain- da"33 . Percebe, assim, uma nova relação entre o aumento do salário, o aumento da produção e o aumento do consumo. Não se trata apenas do fato de que um salário elevado aumen-

" Cf. R. Trernpé, Les mineurs de Carnaux, op. cit.,

que mostra a resistência

obstinada dos mineiros para salvaguardar uma organização dos horários de trabalho compatível com a realização de atividades agrícolas. 35 H. Ford, Ma vie et mon oeuvre, op. cit., p. 168.

431

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

tarja a motivação pelo trabalho e pela produção. Esboça-se uma política de salários ligada aos progressos da produtividade através da qual o operário tem acesso a um novo registro da existência social: o do consumo e não mais exclusivamente o da produção. Deixa assim essa zona de vulnerabilidade que o condenava quase que a viver "cada dia com o que nele ga- nhou", satisfazendo uma por vez as necessidades mais premen- tes. Tem acesso ao desejo — retomo o termo de Merrheim — cuja condição social de realização é a decolagem em relação à urgência da necessidade. Ou seja, essa forma de liberdade que passa pelo domínio da temporalidade e se satisfaz no consumo de objetos duráveis, não estritamente necessários. O "desejo de bem-estar", que incide sobre o carro, a moradia, o eletro- doméstico etc., permite — gostem ou não os moralistas — o acesso do mundo operário a um novo registro de existência. Sem dúvida, atribuir o mérito dessa quase-mutação antro- pológica da relação salarial a Ford é enaltecê-lo demais. Trata-se de um processo geral que está longe de se basear exclusivamente na invenção da "cadeia de montagem quase automática" e na política salarial de um industrial americano. Entretanto, é a partir de Ford que se afirma uma concepção da relação salarial segundo a qual "o modo de consumo é integrado nas condições de pro- dução"". E isso é suficiente para que amplas camadas de tra- balhadores — mas não todos os trabalhadores — saiam da situação de extrema miséria e de insegurança permanente que tinha sido sua condição desde há séculos.

Quarta condição: o acesso à propriedade social e aos ser-

viços públicos — o trabalhador é também um sujeito social suscetível de participar do estoque de bens comuns, não co- merciais, disponíveis na sociedade. Lembro apenas, aqui, que se tentou, no capítulo anterior, a elaboração da "propriedade de transferência" que se insere na mesma configuração salarial. Se o pauperismo foi o veneno da sociedade industrial em seu começo, o seguro obrigatório constitui seu melhor antídoto.

36 M. Aglietta, Régulation et crises du capitalisme, op. cit., p. 130.

432

A SOCIEDADE SALARIAL

Uma rede mínima de seguridades ligadas ao trabalho pode ser desenvolvida nas situações fora do trabalho para colocar o operário protegido da privação absoluta. Sem dúvida, sob essa primeira forma dos seguros sociais, tais subvenções são me- díocres demais para ter uma verdadeira função redistributiva e pesar significativamente sobre a "norma de consumo". Con- tudo, respondem a essa mesma conjuntura histórica da condi- ção de assalariado em que esta pode ser classificada e re- pertoriada (só se podem vincular direitos, mesmo modestos,, a um estado claramente identificável, o que supõe a elaboração da noção de população ativa e a separação de múltiplas formas de trabalho intermitente), definida e estabilizada (um direito como a aposentadoria supõe um trabalho contínuo durante muito tempo), autonomizada como um estado que deve bas- tar-se a si mesmo (deixa-se de contar, para assegurar as prote- ções, com os recursos das economias domésticas e da "proteção próxima"). Evidentemente, esse modelo se aplica de forma privilegiada aos operários da grande indústria, mesmo que tenha sido aplicado muito além dessa população. Reconhece a especificidade de uma condição salarial operária e, ao mesmo tempo, consolida-a, visto que tende a assegurar-lhe recursos para ser auto-suficiente em caso de acidente e de doença, ou após a cessação de atividades (aposentadoria)".

(;) fato de que a primeira lei francesa de seguro-aposentadoria obrigatório

tenha sido a lei de 1910 sobre as aposentadorias de operários e camponeses parece contradizer esse atrelamento privilegiado da proteção social à con-

dição dos operários da indústria. Porém, como observa Henri Hatzfeld

(Ou

paupérisme à ia sécurité sociale, op. cit.), esse tratamento paritário dos cam- poneses e dos operários correspondia a uma exigência política numa França "radical", que tratava com desvelos sobretudo seu campesinato e queria evitar, acima de tudo, a desestabilização do campo e o êxodo rural. No caso, essas boas intenções foram mal recompensadas. A lei de 1910 sobre as apo- sentadorias mostrou-se quase inaplicável no campo devido, particularmente, à dificuldade de se identificar aí quem era um assalariado "puro" e à fone resistência dos empregadores para se submeterem a uma injunção percebida como uma intromissão inadmissível do Estado nas formas "paternais" das relações de trabalho. O conjunto dos assalariados camponéses apresentava, então, uma condição diferente demais da do conjunto dos assalariados in- dustriais para se prestar ao mesmo tratamento.

433

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

Lembremos igualmente que essa promoção da proprieda- de de transferência se inscreve no desenvolvimento da pro- priedade social e, sobretudo, dos serviços públicos. Estes

enriquecem a participação das diferentes categorias sociais na "coisa pública", ainda que esta participação permaneça desi- gual. A classe operária voltar-se-á a esse ponto, vai ter maior acesso a bens coletivos, tais como a saúde, higiene, moradia, instrução.

Quinta condição: a inscrição em um direito do trabalho que reconhece o trabalhador como membro de um coletivo dotado de um estatuto social além da dimensão puramente

individual do contrato de trabalho. Assiste-se também a uma transformação profunda da dimensão contratual da relação salarial. O artigo 1710 do Código Civil definia-a como um "contrato por meio do qual uma das partes se compromete a fazer alguma coisa para a outra mediante um preço". Transação entre dois indivíduos, em princípio "livres" um e outro, mas cuja dissimetria profunda foi várias vezes sublinhada. Léon Duguit vê aí a expressão do "direito subjetivo", isto é, "o poder que tem uma pessoa de impor a uma outra sua própria perso- nalidade"38. Será substituído por um direito social "unindo entre si, pela comunidade das necessidades e pela divisão do trabalho, os membros da humanidade e, particularmente, os membros de um mesmo grupo saciar". A consideração dessa dimensão coletiva faz a relação con- tratual passar da relação de trabalho ao estatuto de assalariado. "Na idéia de estatuto, característico do direito público, existe a idéia de definição objetiva de uma situação que escapa ao jogo das vontades individuais"". Um reconhecimento jurídico do grupo dos trabalhadores como interlocutor coletivo já apa- rece através da lei que abole o delito de greve (1864) e da que

  • 38 L Duguit, Le droit social, le droit individuel et la transfonnaticm de l'État,

op. cir., p.

4.

  • 39 ibid., p. 8.

  • 48 J. Le Goff, Du silence à la parole, op. cit., p. 112. Cf. também E Sellier, La confrontation sociale en France, 1936-1987, op. cit.

434

A SOCIEDADE SALARIAL

autoriza as coalizões operárias (1884). Porém, tais conquistas não tem incidência direta sobre a estrutura do próprio contrato de trabalho. Igualmente, durante muito tempo, as negociações entre os empregadores e o coletivo dos trabalhadores que ti- veram lugar no seio das empresas — em geral por ocasião de uma greve ou de uma ameaça de greve — não têm nenhum valor jurídico. A lei de 25 de março de 1919 é que, após a aproximação devida à "união sagrada" e à participação ope- rária no esforço de guerra, dá um estatuto jurídico à noção de convenção coletiva. As disposições estipuladas pela convenção prevalecem sobre as do contrato individual de trabalho. Léon Duguit extrai sua filosofia imediatamente:

1

O contrato coletivo é uma categoria jurídica totalmente nova e inteiramente estranha às categorias tradicionais do direito civil. É uma convenção-lei que regula as relações de duas classes sociais. É uma lei que estabelece relações permanentes e duráveis entre dois grupos sociais e o regime legal segundo o qual deverão ser concluí- dos os contratos individuais entre os membros desses grupos'''.

Com efeito, a convenção coletiva ultrapassa o face-a-face empregador-empregado da definição liberal do contrato de tra- balho. Um operário admitido a título individual numa empresa beneficia-se das disposições previstas pela convenção coletiva. A aplicação dessa lei foi, num primeiro momento, muito decepcionante pelo fato da repugnância, manifestada ao mes- mo tempo pela classe operária e pelo patronato, em entrar num processo de negociação. Essas reticências (a palavra é um eufemismo) dos "parceiros sociais" para negociar"! explicam

41 L. Duguit, Les transformations générales du droit privé, Paris, 1920, p.

135, citado in J. Le Goff, Du silence à Ia

parole, op. cit., p. 106.

c Para uma análise do contexto sócio-histórico que explica essa má vontade tanto patronal quanto sindical para entrar num acordo— e sobre as diferenças em relação à Alemanha e à Grã-Bretanha —, cf. E Sellier, La confrontation sociale en France, op. cit., p. 1 e 2. Sobre as medidas iniciadas durante a Primeira Guerra Mundial e seu questionamento logo após o restabelecimen- to da paz, cf. M. Fine, "Guerre et réformisme en France, 1914-1918", in Le solda: du travai!, op. cit.

435

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

o papel desempenhado pelo Estado para implantar procedi- mentos de negociação. Desde os esforços de Millerand, em 1900, para criar conselhos operários43, é realmente o Estado que parece ter tido um papel decisivo na constituição do direito do trabalho. Pelo menos até que uma parte da classe operária, que aderiu às reformas (como objetivo privilegiado ou como etapa de um processo revolucionário), entra em cena para im- por seu ponto de vista. O ano de 1936 representa, sob esse aspecto, uma estréia histórica: a conjunção de uma vontade política (o governo do Front Popuíaire com uma maioria so- cial-comunista que, através de suas divergências, quer impor uma política social favorável aos operários) e de um movimen- to social (perto de dois milhões de operários que ocupam as fábricas em junho). Os acordos de Matignon lançam nova- mente as convenções coletivas e impõem delegados de empresa eleitos pelo conjunto doe p ssoar. Mas, além dessa "conquista social" e de algumas outras, o período do Front Populaire representa uma etapa particu- larmente significativa, decisiva e frágil, da odisséia da condição de assalariado.

A condiçiio operária

Ainda que sempre haja um pouco de arbitrariedade quan- do se tenta datar transformações que só os processos de longa duração explicam, gostaria de, por um instante, concentrar a atenção em 1936. Realmente, pode-se ver aí um momento de

43 Decreto de 17 de setembro de 1900. "Há o maior interesse em instituir, entre os patrões e a coletividade dos operários, relações contínuas que per- mitam trocar a tempo as explicações necessárias e resolver alguns tipos de

dificuldades

Tais práticas só podem ajudar a aclimatar os novos costumes

... que se gostaria de generalizar. Introduzindo-as, o governo da República permanece fiel a seu papel de pacificador e de árbitro" (citado in J. Le Goff, Du silence 4 la parole, op. cit., p. 102). Mas o decreto nunca foi aplicado.

" Em 1936, são assinadas 1.123 convenções coletivas e, em 1937, 3.064, cf. A. Touraine, La civilisation industrielle, t. ix de L.H. Parias, Histoire générale du travail, Paris, Nouvelie Librairie de France; 1961, p. 172-173.

436

A SOCIEDADE SALARIAL

cristalização e, ao mesmo tempo, um ponto de virada dessa relação salarial moderna que acabo de apresentar. Etapa sig- nificativa da promoção da condição de assalariado operária:

é um certo reconhecimento da condição operária que, sobre- tudo, as reformas de 1936 sancionam. Mas talvez se tratasse de uma vitória de Pirro. Qual é então o status da classe operária na sociedade? De um lado, 1936 marca uma etapa decisiva de seu reconhecimento como força social determinante, uma ex- tensão de seus direitos e uma tomada de consciência de seu poder que pode fazê-la sonhar em se tomar um dia o futuro do mundo. De outro, 1936 sanciona o particularismo operário, sua destinação para ocupar um lugar subordinado na divisão do trabalho social e na sociedade global. Do lado da consagração operária, há um belo verão que ainda não teme o outono. Vitória eleitoral da esquerda, os ope- rários se antecipam às decisões do governo Blum (ou o pressio- nam), ocupam as fábricas e obtêm imediatamente um avanço, sem precedentes, dos direitos sociais. Os patrões entram em pâ- nico e vêem chegar o reino do poder operário45. "Tudo é possí- vel", escreve Marceau Pivert, líder da ala esquerda do Partido Socialista, no dia 23 de maio de 1936, numa tribuna livre do Populaire46 . Nem tudo é possível, com certeza47, mas algo mu- dou substancialmente. Prova disso é uma medida que poderia

  • 45 Cf. in S. Weil, La condition ouvrière, Paris, Gallirnard, 1951 (carta a Au- guste Deboeuf, p. 188-190), testemunhos dessas reações patronais. Os acor- dos de Matignon foram vividos pela maioria do patronato, que não deixará de voltar a eles, como uma exigência absoluta do mais forte.

  • 46 Citado in H. Noguères, La vie quotidienne en France au moment du Front populaire, Paris, Hachette, 1977, p. 131.

  • 47 É a resposta de Maurice Thorez num discurso de 11 de junho de 1936 e que dá a chave da frase citada com freqüência: "É preciso saber terminar uma greve": "É preciso saber terminar urna greve desde que se tenha atingido os objetivos. É necessário até mesmo saber fazer acordos, se todas as reivin- dicações ainda não foram aceitas, mas [desde que] se tenha conseguido ven- cer quanto às reivindicações mais essenciais. Nem tudo é possível" (citado ibid., p. 131); sobre as posições do Partido Comunista, distante da vontade da CGT e de algumas tendências do Partido Socialista de promover reformas de estrutura, como as nacionalizações e o planejamento da economia, cf. R.F. ICuisel, Le capitalisme et l'État en France, op. cit., cap. IV

437

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

Lembremos igualmente que essa promoção da proprieda- de de transferência se inscreve no desenvolvimento da pro- priedade social e, sobretudo, dos serviços públicos. Estes enriquecem a participação das diferentes categorias sociais na "coisa pública", ainda que esta participação permaneça desi- gual. A classe operária voltar-se-á a esse ponto, vai ter maior acesso a bens coletivos, tais como a saúde, higiene, moradia, instrução.

Quinta condição: a inscrição em um direito do trabalho que reconhece o trabalhador como membro de um coletivo dotado de um estatuto social além da dimensão puramente

individual do contrato de trabalho. Assiste-se também a uma transformação profunda da dimensão contratual da relação salarial. O artigo 1710 do Código Civil definia-a como um "contrato por meio do qual uma das panes se compromete a fazer alguma coisa para a outra mediante um preço". Transação entre dois indivíduos, em princípio "livres" um e outro, mas cuja dissimetria profunda foi várias vezes sublinhada. Léon Duguit vê aí a expressão do "direito subjetivo", isto é, "o poder que tem uma pessoa de impor a uma outra sua própria perso- nalidade"". Será substituído por um direito social "unindo entre si, pela comunidade das necessidades e pela divisão do trabalho, os membros da humanidade e, particularmente, os membros de um mesmo grupo social"". A consideração dessa dimensão coletiva faz a relação con- tratual passar da relação de trabalho ao estatuto de assalariado. "Na idéia de estatuto, característico do direito público, existe a idéia de definição objetiva de uma situação que escapa ao jogo das vontades individuais"". Um reconhecimento jurídico do grupo dos trabalhadores como interlocutor coletivo já apa- rece através da lei que abole o delito de greve (1864) e da que

  • 38 L. Duguit, Le droit social, le droit individuel et la transforrnation de l'État, op. cit., p. 4.

  • 39 Ibid., p. 8.

J. Le Goff, Du silence à la parole, op. cit., p. 112. Cf. também E Seilier, La confrontation sociale en France, 1936-1987, op. cit.

434

A SOCIEDADE SALARIAL

autoriza as coalizões operárias (1884). Porém, tais conquistas não têm incidência direta sobre a estrutura do próprio contrato de trabalho. Igualmente, durante muito tempo, as negociações entre os empregadores e o coletivo dos trabalhadores que ti- veram lugar no seio das empresas — em geral por ocasião de uma greve ou de uma ameaça de greve — não têm nenhum valor jurídico. A lei de 25 de março de 1919 é que, após a aproximação devida à "união sagrada" e à participação ope- rária no esforço de guerra, dá um estatuto jurídico à noção de convenção coletiva. As disposições estipuladas pela convenção prevalecem sobre as do contrato individual de trabalho. Léon Duguit extrai sua filosofia imediatamente:

O contrato coletivo é uma categoria jurídica totalmente nova e inteiramente estranha às categorias tradicionais do direito civil. É uma convenção-lei que regula as relações de duas classes sociais. É uma lei que estabelece relações permanentes e duráveis entre dois grupos sociais e o regime legal segundo o qual deverão ser concluí- dos os contratos individuais entre os membros desses grupos".

Com efeito, a convenção coletiva ultrapassa o face-a-face empregador-empregado da definição liberal do contrato de tra- balho. Um operário admitido a título individual numa empresa beneficia-se das disposições previstas pela convenção coletiva. A aplicação dessa lei foi, num primeiro momento, muito decepcionante pelo fato da repugnância, manifestada ao mes- mo tempo pela classe operária e pelo patronato, em entrar num processo de negociação. Essas reticências (a palavra é um

eufemismo) dos "parceiros sociais" para neg ocia/12

explicam

  • 41 L. Duguit,

Les transformations générales du droit privé,

Paris, 1920, p.

135, citado in J. Le Goff, Du silence à la parole, op. cit., p. 106.

  • 42 Para uma análise do contexto sócio-histórico que explica essa má vontade tanto patronal quanto sindical para entrar num acordo e sobre as diferenças

em relação à Alemanha e à Grã-Bretanha —, cf. E Sellier,

La confrontation

sociale en France, op. cit., p. 1 e 2. Sobre as medidas iniciadas durante a

Primeira Guerra Mundial e seu questionamento logo após o restabelecimen-

to da paz, cf. M. Fine, "Guerre et réformisme en France, 1914-1918", in Le soldas du travail, op. cit.

435

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

o papel desempenhado pelo Estado para implantar procedi- mentos de negociação. Desde os esforços de Millerand, em 1900, para criar conselhos operário?", é realmente o Estado que parece ter tido um papel decisivo na constituição do direito do trabalho. Pelo menos até que uma parte da classe operária, que aderiu às reformas (como objetivo privilegiado ou como etapa de um processo revolucionário), entra em cena para im- por seu ponto de vista. O ano de 1936 representa, sob esse aspecto, uma estréia histórica: a conjunção de uma vontade política (o governo do Front Populaire com uma maioria so- cial-comunista que, através de suas divergências, quer impor uma política social favorável aos operários) e de um movimen- to social (perto de dois milhões de operários que ocupam as fábricas em junho). Os acordos de Matignon lançam nova- mente as convenções coletivas e impõem delegados de empresa eleitos pelo conjunto do pessoal'''. Mas, além dessa "conquista social" e de algumas outras, o período do Front Populaire representa uma etapa particu- larmente significativa, decisiva e frágil, da odisséia da condição de assalariado.

A condição operária

Ainda que sempre haja um pouco de arbitrariedade quan- do se tenta datar transformações que só os processos de longa duração explicam, gostaria de, por um instante, concentrar a atenção em 1936. Realmente, pode-se ver ai um momento de

43 Decreto de 17 de setembro de 1900. "Há o maior interesse em instituir, entre os patrões e a coletividade dos operários, relações contínuas que per- mitam trocar a tempo as explicações necessárias e resolver alguns tipos de

dificuldades ...

Tais práticas só podem ajudar a aclimatar os novos costumes

que se gostaria de generalizar. Introduzindo-as, o governo da República permanece fiel a seu papel de pacificador e de árbitro" (citado in J. Le Goff, Du silence à la parole, op. cit., p. 102). Mas o decreto nunca foi aplicado.

44 Em 1936, são assinadas 1.123 convenções coletivas e, em 1937, 3.064, cf. A. Touraine, La civilisation industrie//e, t. n{ de L.H. Parias, Histoire générale du travail, Paris, Nouvelle Librairie de France, 1961, p. 172473.

436

A SOCIEDADE SALARIAL

cristalização e, ao mesmo tempo, um ponto de virada dessa relação salarial moderna que acabo de apresentar. Etapa sig- nificativa da promoção da condição de assalariado operária:

é um certo reconhecimento da condição operária que, sobre- tudo, as reformas de 1936 sancionam. Mas talvez se tratasse de uma vitória de Pirro. Qual é então o status da classe operária na sociedade? De um lado, 1936 marca uma etapa decisiva de seu reconhecimento como força social determinante, uma ex- tensão de seus direitos e uma tomada de consciência de seu poder que pode fazê-la sonhar em se tornar um dia o futuro do mundo. De outro, 1936 sanciona o particularismo operário, sua destinação para ocupar um lugar subordinado na divisão do trabalho social e na sociedade global. Do lado da consagração operária, há um belo verão que ainda não teme o outono. Vitória eleitoral da esquerda, os ope- rários se antecipam às decisões do governo Blum (ou o pressio- nam), ocupam as fábricas e obtêm imediatamente um avanço, sem precedentes, dos direitos sociais. Os patrões entram em pâ- nico e vêem chegar o reino do poder operáriots. "Tudo é possí- vel", escreve Marceau Pivert, líder da ala esquerda do Partido Socialista, no dia 23 de maio de 1936, numa tribuna livre do Populaire". Nem tudo é possível, com certeza'', mas algo mu- dou substancialmente. Prova disso é uma medida que poderia

  • 45 Cf. in S. Weil, La condition ouvrièm, Paris, Gallimard, 1951 (carta a Au- guste Deboeuf, p. 188-190), testemunhos dessas reações patronais. Os acor- dos de Matignon foram vividos pela maioria do patronato, que não deixará de voltar a eles, como uma exigência absoluta do mais forte.

  • 46 Citado in H. Noguères, La vie quotidienne en France au moment du Front populaire, Paris, Hachette, 1977, p. 131.

  • 47 É a resposta de Maurice Thorez num discurso de lide junho de 1936 e que dá a chave da frase citada com freqüência: "É preciso saber terminar uma greve": "É preciso saber terminar uma greve desde que se tenha atingido os objetivos. É necessário até mesmo saber fazer acordos, se todas as reivin- dicações ainda não foram aceitas, mas [desde que] se tenha conseguido ven-

cer quanto às reivindicações mais

essenciais. Nem tudo é possível" (citado

ibid., p. 131); sobre as posições do Partido Comunista, distante da vontade da CGT e de algumas tendências do Partido Socialista de promover reformas de estrutura, como as nacionalizações e o planejamento da economia, cf. R.F. Kuisel, Le capitalisme et l'État en France, op. cit., cap. IV

437

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

parecer secundária mas que se reveste de significação simbólica excepcional quando situada na história da "indigna condição de assalariado ": as férias remuneradas. Alguns dias por ano o operário pode deixar de perder sua vida em ganhá-la. Não fazer nada do que é obrigado a fazer: é a liberdade de existir para si. Inscrever tal possibilidade na lei é reconhecer ao tra- balhador o direito de existir simplesmente —quer dizer também como os outros, os que vivem de rendas, os "burgueses", os aristocratas, os abastados, todos aqueles que, no imaginário operário pelo menos, gozam a vida por ela mesma e por eles mesmos, desde a noite dos tempos. A redução do tempo de trabalho foi uma das mais antigas e mais apaixonadas reivindicações operária Parece que as primeiras "cabalas" ilícitas de companheiros tenham sido de- sencadeadas muito mais para controlar o tempo de trabalho do que para obter um aumento dos salários". A revolução de fevereiro de 1848 arranca a jornada de 10 horas, medida re- vogada em seguida. O sindicalismo do início do século faz do repouso semanal (conquistado em 1906) e da jornada de 8 horas uma de suas principais reivindicações, a única talvez, para os sindicalistas de ação direta, que não seja "reformista". E a palavra de ordem mais popular dos 10 de Maio de luta, e cobre os cartazes de propaganda da CGT". Porém, mais sim- bolicamente significativa do que a redução do tempo de tra- balho (a semana de 40 horas é conquistada em junho de 1936), mais profundamente libertadora do re o acesso ao consumo permitido pelo aumento dos salários °, a remuneração de um tempo livre equivale a um reconhecimento oficial da humani-

  • 49 Cf. H. Hauser, Ouvrier du temps ¡adis, op. cit.

  • 49 A insistência sindical em exigir uma redução da jornada de trabalho é

alimentada por uma dupla razão: ajudar o trabalhador a recuperar sua dig-

nidade, rompendo com o embrutecimento de tun trabalho contínuo; lutar

contra o desemprego, dividindo o trabalho com o maior número de operá-

rios.

  • 39 Os acordos de Matignon aprovaram um aumento imediato dos salários

de 7 a 15%. Entre 1926 e 1939, o salário real (aumento dos preços no

consumo e inflação deduzidos) do operário qualificado parisiense progrediu

cerca de 60%. Cf. E Sellier, Les salariés en France, Paris, PUF, 1979, p. 67.

  • 438

A SOCIEDADE SALARIAL

Jade do trabalhador e da dignidade humana do trabalho. O trabalhador é também um homem e não um eterno tarefeiro, e seu trabalho lhe paga o acesso à qualidade de homem en- quanto tal, de homem em si, deixando de ser a lei inexorável de cada jornada. Revolução cultural além de seu caráter de "conquista social", pois tratava-se de mudar a vida e as razões de viver, ainda que só durante alguns dias por ano. Parece que os contemporâneos viveram as férias remuneradas dessa ma- neira, pelo menos os que partilharam o entusiasmo desses mo- mentos — porque não faltaram bons espíritos para dizer que havia chegado o tempo da vergonha, quando se começou a pagar a folga e quando os "sujos de casquetes" começaram a invadir as praias reservadas à boa sociedades'. Será dar importância demais a uma medida, aliás, modesta — a concessão de alguns dias por ano de férias pagas? De fato, este episódio (a única "conquista social" de 1936 que não foi posta em causa) pode exemplificar a posição, que se poderia chamar de suspensa e portanto instável, ocupada pela classe operária na sociedade do fim da década de 30. De um lado, após uma longa quarentena, sua condição se aproxima do re- gime comum. As férias remuneradas podem simbolizar a apro- ximação de duas condições e de dois modos de vida que tudo separava. Na praia, por um tempo muito curto, a vida operária experimenta uma característica essencial da existência "bur- guesa", uma liberdade de escolher o que fazer ou nada fazer, porque a necessidade cotidiana de sobreviver relaxa a pressão. Em alguns dias do ano, a condição operária e a condição bur-

guesa são interseqiientes.

51 Cf. H.Noguères, La vie quotidienne en France au temps du Front populaire,

op. cit., que fala, ele próprio, de "revolução cultural" e descreve, ao mesmo

tempo, o entusiasmo das primeiras partidas de viagens em férias e as reações

da imprensa conservadora diante dos "trens de prazer" organizados por

iniciativa de Léo Lagrange para levar os trabalhadores e suas famílias à praia.

Sutil desprezo do redator do Figaro: "Depois, alegremente, comeram muito

sanduíche na areia da praia junto à histórica Promenade des Anglais [trata-se

da Avenida Passeio dos Ingleses, em Nice], e se enxaguaram na água

...

A

multiplicação dos trens vermelhos na ate d'Azur está a todo vapor. E a

redução dos trens azuis igualmente" (p. 156).

439

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

Mas, ao mesmo tempo, subsiste de modo muito forte um

particularismo operário vivido na subordinação e que alimenta

um antagonismo de classe. A hostilidade "burguesa" às férias

pagas — partilhada pelos pequenos trabalhadores inde-

pendentes, pelos comerciantes etc., por toda a França não-as-

salariada — manifesta, realmente, a perenidade dessa clivagem. É o caso da atitude reativa, usando um eufemismo, do desprezo

secular das classes proprietárias diante do trabalhador-que-

não-trabalha e que só pode estar desocupado, porque sofre de

uma tara moral, não tendo outro uso possível de uma liberdade

roubada ao trabalho senão saciar seus vícios, preguiça, em-

briaguez e luxúria. Não há nenhuma outra modalidade de

existência possível para o trabalhador que não o trabalho: isto

não é uma tautologia mas, sim, um julgamento moral e social

ao mesmo tempo, partilhado por todos os bem-pensantes e

que aprisiona o operário no papel de estar debruçado para sempre sobre as tarefas materiais.

Do lado dos operários, a atitude diante das férias remu-

neradas também trai a permanência do sentimento da depen-

dência social. Lazer, sim, mas lazer "popular". Um orgulho de

ser como os outros, mas uma consciência de que, longe de ser

evidente, essa liberdade é um milagre e é necessário, a partir

de agora, merecê-la, aprendendo seu bom uso, ainda que seja

aprendendo a se divertir. "A classe operária soube conquistar

o lazer, agora deve conquistar o uso do lazer", diz Léon La-

grange

52

. A organização do lazer popular — uma parte impor-

tante e original das realizações do Front Populaire traduz

essa preocupação em escapar da ociosidade gratuita. Expres-

são, simultaneamente, de uma forte consciência da diferença

de classes e de um certo moralismo pragmático: o lazer é algo

merecido e deve ser bem preenchido. É necessário distinguir-se

dos ricos ociosos, que são parasitas sociais. A cultura, o esporte,

52 Citado in

Noguères, La vie quotidienne en France du temps du Front

populaire, op. cit., p. 188. Para urna apresentação do conjunto da obra de Léo Lagrange, "subsecretário de Estado para o Esporte e o Lazer" cf. J.-L.

Chappat, Les chemins de Pespoir: combats de Léo Lagrange, Paris, Editions des Fédérations Léo Lagrange, 1983.

440

A SOCIEDADE SALARIAL

a saúde, o contato com a natureza, relações saudáveis (e não

sexualizadas) entre os jovens etc. devem saturar o tempo não

dedicado ao trabalho. Nada de tempo morto, a liberdade não

é nem a anarquia nem o puro prazer. É necessário fazer melhor

do que os burgueses, e trabalhar o lazer.

Mais profundamente, esse curto tempo de liberdade frágil

remete a seu avesso: a permanência do trabalho alienado que

representa a base a partir da qual se constrói o estatuto social

da classe operária. Para a obtenção das conquistas sociais de

1936, os operários da grande indústria desempenharam o pa-

pel motor". Ora, as condições de trabalho nas fábricas ocu-

padas em junho de 1936 são geralmente comandadas pela

"organização científica do trabalho", ou por seus equivalentes:

as cadências, a cronometragem, a vigilância constante, a ob-

sessão de ser produtivo, a arbitrariedade dos patrões e o des-

prezo dos chefes do pequeno escalão. Basta ler a obra de

Simone Weil: já contém a temática do "trabalho em migalhas"

que marcará o começo da Sociologia do Trabalhos'. Mas essa

relação de trabalho não é comandada apenas pelas exigências

tecnológicas da produção, da divisão das tarefas, da rapidez

das cadências ...

E. uma relação social de subordinação e de

privação da posse que se instala pela mediação da relação téc-

nica de trabalho. Simone Weil insiste sobre o "torniquete da

subordinação"-" que caracteriza a situação do operário no tra-

balho. É destinado às tarefas de execução. Tudo o que é con-

cepção, reflexão, imaginação lhe escapa. Ora, porque é uma

55 As primeiras ocupações de fábricas se dão nos setores metalúrgico e aero- náutico, isto é, nas regiões industriais mais "modernas". Sobre as mudanças ocorridas no movimento operário desde o início da década de 30, que põem em primeiro plano os operários das grandes indústrias em detrimento dos setores presos às tradições artesanais ou aos funcionários do Estado, cf. G. Noiriel, Les ouvriers dans la société française, op. cit., cap. V Sobre as trans- formações que se deram no interior da CGT propriamente dita (reunificada,

1935), cf. A.

Prost, La CGT à ['Epoque du Front populaire, 1934-1939, Paris,

A. Colin, 1964.

54 Cf. G. Friedmann, Le travail en miettes, Paris, Gallimard, 1963. SS S. Weil, La condition ouvrière, op. cit., p. 242.

441

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

situação social e não somente uma relação técnica de trabalho,

essa condição de dependência não é deixada no vestiário quan-

do se sai da fábrica. Ao contrário, como cantará Yves Montand

em Luna Park, ela o acompanha do lado de fora como contra-

ponto. Sem dúvida, pode-se dizer com Alain Touraine que "a

consciência operária é sempre orientada por uma dupla exi-

gência: criar obras e vê-las reconhecidas socialmente enquanto

tais"". Mas então, na maioria das vezes, é uma consciência

infeliz, a consciência de um déficit, dentro da fábrica e fora

dela, entre a importância do papel de trabalhador-produtor

na raiz da criação da riqueza social e o reconhecimento, ou

melhor, o não-reconhecimento, que lhe é conferido pela co-

letividade. É essa relação entre uma situação de dependêncií

nos locais de trabalho e uma posição socialmente desvalorizada

que ata o destino dos operários: "Nenhuma intimidade liga

os operários aos locais e aos objetos entre os quais sua vida se

esgota, e a fábrica faz deles, no seu próprio país, estrangeiros,

exilados, desaraigados"57.

Certamente, tal contradição é particularmente legível a

partir da situação dos operários da grande indústria, submetidos

às formas modernas de racionalização do trabalho, e são mino-

ritários na classe operárias'. Mas ela não faz senão pressionar até

o limite uma característica geral da condição dos trabalhadores:

a consciência do papel socialmente subordinado, destinado ao

trabalho braçal. Essa concepção do trabalho operário, reduzi-

do só às tarefas de execução, indispensáveis mas sem nenhuma

dignidade social, parece evidente e vale para todas as formas

de trabalho braçal. É a tese central da primeira análise com

pretensão científica da condiçãO operária:

56 A. Touraine, La conscience ouvrière, Le Seuil, 1966, p. 242. 57 S. Weil, La condition ouvrière, op. cit., p. 34.

5g Em 1936, as 350 maiores empresas empregam 900.000 operários (H. Noguères, La vk quotidienne au temps du Front populaire, op. cit., p. 97). Os estabelecimentos com mais de 500 assalariados empregam mais ou menos um terço dos 5,5 milhões dos assalariados da indústria (cf. F. Sellier, Les salariés en France, Paris, PUF, 1975).

442

A SOCIEDADE SALARIAL

A situação do operário contrasta com a do empregado, do fun- cionário, como ele não comerciantes, mas a quem são remune-

rados, ao mesmo tempo que o trabalho, a antigüidade de serviço,

as qualidades intelectuais ou morais. [

...

]

Do trabalho operário,

só são remuneradas operações mecânicas e quase automáticas,

porque o operário deve abster-se de toda iniciativa e visar so-

mente a se tornar um instrumento seguro e bem adaptado a uma

tarefa simples ou complexa, mas sempre monótona s'.

O operário não pensa, todos sabem disso, e a Sociologia

nascente prova até mesmo que ele não pode pensar. É ainda,

como se verá, a idéia condutora da monumental síntese que

François Simiand dedica à condição de assalariado em 1932

60

.

O trabalho operário continua a ser definido como o estrato

inferior do trabalho, tecnicamente o mais grosseiro e social-

mente o menos digno. Os operários não partilham necessariamente essa concep-

ção do trabalho que as construções eruditas da Sociologia e

da Economia, bem como as representações das classes dominan-

tes apresentam. O movimento operário começou, desde a origem (é já o leitmotiv do Atelier, composto e publicado pelos próprios

operários entre 1840 e 1850), a afirmar a dignidade do trabalho

braçal e sua preeminência social enquanto verdadeiro criador

das riquezas. Mais tarde, até se vai ver a transformação em heróis

de algumas figuras operárias, como o mineiro ou o metalúrgico,

portadores de uma concepção prometeica do mundo'''. Mas a

exaltação do trabalho não suprime o sentimento da dependência

operária. É exatamente essa coexistência de uma afirmação da

dignidade e de uma experiência da privação de posse que está

no princípio da consciência de classe operária. Esta se forjou

no conflito, a partir da tomada de consciência coletiva do fato

"M. Halbwachs, La classe ouvrière et les niveaux de vie, Paris, 1912, p. 118 e 121.

  • 60 E Simiand, Le salaire, l'évolution sociale et la monnaie, 3 tomos, Paris,

1932.

  • 61 Para um protótipo dessa literatura, cf. A. Stil, Le mot mineur, cama rade,

Paris, 1949.

443

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

de ser expoliada dos frutos de seu trabalho. A própria postura

reivindicativa não se dá, pois, sem a consciência da subordi-

nação. Sentir-se dependente constitui o motor da luta para se

reapropriar da dignidade social do trabalho "alienado" pela

organização capitalista da produção.

Seria possível, portanto, caracterizar o lugar que a condi-

ção operária ocupa na sociedade da década de 30 por uma

relativa integração na subordinação. Os fatores de pertenci-

mento foram sublinhados: seguros sociais, direito do trabalho,

ganhos salariais, acesso ao consumo de massa, relativa parti-

cipação na propriedade social e até mesmo no lazer. O traço

comum dessas conquistas é que contribuíram para estabilizar

a condição operária, instaurando uma distância em relação à

imediatidade da necessidade. Neste sentido, a condição ope-

rária difere muito da condição proletária do começo da indus-

trialização, marcada por uma vulnerabilidade de todos os

momentos. E também nesse sentido, pode-se falar de integra-

ção: a classe operária foi repatriada da posição de quase-ex-

clusão que ocupava quando na margem extrema da sociedade.

Entretanto, esse repatriamento se insere num quadro que

ainda contém traços dualistas. Entendamos bem: sociedade

ainda dualista, mas não dual. Uma sociedade dual é uma so-

ciedade de exclusão em que certos grupos não têm nada e não

são nada, ou quase. No modelo que evoco aqui, coexistem

cortes e interdependência, prevalecem relações de dominação

que não correspondem, entretanto, a situações em que os su-

bordinados estão entregues à arbitrariedade. Mas a coexistên-

cia de independência na dependência alimenta o sentimento

de uma oposição global de interesses entre dominantes e su-

bordinados. Semelhante estrutura social é vivida através da

bipolaridade entre "eles" e "nós", tão bem evidenciada por

Richard Hoggart62. "Nós", a gente não é zumbi; temos a nossa

dignidade, nossos direitos, nossas formas de solidariedade e

de organização. Que nos respeitem: o operário não é uni do-

62 R. Hoggart, La culture du pauvre, trad. fr. Paris, Éditions de Minuit, 1970.

444

A SOCIEDADE SALARIAL

méstico, não está completamente sob o domínio da necessida-

de, nem à mercê da arbitrariedade de um senhor. Orgulho

operário que sempre preferirá se virar para "juntar as duas

pontas" ao invés de pedir ajuda: "nós", a gente ganha nossa

vida. Mas "eles", é realmente outra coisa. "Eles" têm riqueza,

poder, acesso à cultura legítima e a uma multidão de bens que

nunca conheceremos. "Eles" são pretensiosos e esnobes, e é

necessário desconfiar deles mesmo quando pretendem querer

nosso bem, porque são astutos e capazes de manhas que nunca poderemos controlar.

A consciência dessa clivagem é mantida pela experiência

que a classe operária vive nos principais setores da existência

social, o consumo, a habitação, a instrução, o trabalho. O

consumo, como já foi dito, não se reduz mais à satisfação das

necessidades básicas para a sobrevivência e a classe operária

tem acesso a um "consumo de massa". Porém, a parte destinada

à alimentação nos orçamentos operários ainda é de 60% nos anos 1930 (é superior a 70% em 1856 e a 65% em 1890 6

).

Maurice Hal bwachs, como Veblen, mostrou as incidências an-

tropológicas da diminuição de uma parte majoritária do orça-

mento sobre o consumo alimentar: é a participação na vida

social que se acha amputada pela fragilidade das despesas que

não têm por finalidade a reprodução biológica". Suas análises

são de 1912, mas a situação não mudou substancialmente 25

anos mais tarde: do fim do século XIX até a década de 30, a

parte das despesas não alimentares nos orçamentos operários ganhou apenas cinco pontos.

A habitação popular também não é exatamente o "inferno

da moradia" que Michel Verret evoca para o século XIX, mas

a insalubridade e o superatravancamento ainda são o quinhão

da maioria das moradias populares. Em relação a Paris, uma

63 R. Boyer, "Les salaires en longue période",

Économie et statistiques,

103, set. 1978, p. 45. Somente no final dos anos 1950 é que o item alimen-

tação, no orçamento dos operários, passa a ficar abaixo de 50%.

64 M. Halbwachs,

La classe ouvriére et les niveaux de vie, op. cit., cf. E. Veblen, The Theory of the Leisure Class, Londres, 1924.

445

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

pesquisa de 1926 mostra que um habitante em cada quatro

dispõe de menos de meio cômodo e que os horríveis "quartos

mobiliados" alojam ainda 320 mil pessoas. A situação quase

não melhora nos anos seguintes: constroem-se apenas 70 mil

habitações por ano na França no fim dos anos 30, contra 250

mil na Alemanha". O urbanismo das "cidades-jardins" per-

manece restrito a algumas municipalidades socialistas ou ra-

dicais, e as experiências do tipo Cidade Radiosa à moda de Le

Corbusier são excepcionais. Ademais, são para os empregados

e as classes médias nascentes mais do que para os operários".

Quanto à instrução, a gratuidade do ensino secundário só

é conquistada em 1931. Os efetivos deste ensino permanece-

ram constantes entre 1880 e 1930, 110 mil alunos em média °.

É o mesmo que dizer que as crianças das classes populares

estão acantonadas nas fileiras "primárias". O tema do perigo

de uma instrução avançada demais que "desarraiga" o povo é

uma constante da literatura da época". Jean Zay, ministro do Frota Populaire, prolonga até 14 anos a escolaridade obriga-

tória e senta impor uma classe de orientação e um tronco co-

mum para todos os alunos. Mas a "democratização" (relativa)

do ensino deverá esperar a década de 50 para se impor.

Em relação ao emprego, sublinhou-se a situação de depen-

dência social dos operários nos locais de trabalho. Mas, além

disso, o mercado de trabalho ainda é dominado, nos anos 30,

por uma mobilidade feita de incerteza sob a ameaça de demis-

são contra o que a legislação do trabalho não protege. As con-

tratações por tarefa, por hora ou por jornada são as mais

freqüentes. Na maioria das vezes, não existe nem contrato

escrito nem estipulação preliminar da duração da contrafação.

  • 65 Cf. J.-E Flamand, Loger le peuple. Essai sur l'histoire du logement social,

Paris, La Découverte, 1989.

  • 66 L. Haudeville, Pour une civilisation de ('habitat, Paris, Editions ouvrières,

1969.

  • 67 ct A. Prost, Histoire de l'enseignement en France, 1800-1967, Paris, A.

Colin, 1968.

  • 611 Desde M. Barrès, Les Déracinés, Paris, 1897.

446

A SOCIEDADE SALARIAL

O operário "pede sua conta" ou o empregador o "despede",

um e outro com uma facilidade espantosa". E há, evidente-

mente, a ameaça do desemprego que a crise do início dos anos

30 acaba de reativar. Os imigrantes sofrem-na de frente: 600

mil, de cerca de dois milhões de estrangeiros que vieram se

instalar na França na seqüência da punção demográfica devida

à Grande Guerra, são expulsos. Mas os autóctones não são

poupados. Em 1936, recenseia-se cerca de um milhão de de-

sempregados". O momento do Frota Populaae é também um

período de instabilidade econômica e social a que logo vai suceder o drama da derrota.

Enfim, insistiu-se longamente sobre isto: o seguro obriga-

tório é um dispositivo que vai se mostrar decisivo para afastar

a vulnerabilidade operária. Porém, nos anos 30, começa apenas

a fazer sentir seus efeitos. As aposentadorias operárias são ir-

risórias e, dadas a duração da capitalização e a mortalidade

operária, há então menos de um milhão de beneficiário». Na

década de 30, os velhos operários que devem recorrer à assis-

tência para sobreviver são quase tão numerosos quanto os que

podem se beneficiar de subvenções sociais obrigatória».

A associação desses traços mostra a persistência de um

forte panicularismo operário. Nível de vida, nível de instru-

ção, modos de vida, relação com o trabalho, grau de partici-

pação na vida social, valores partilhados desenham uma

configuração específica que constitui a condição operária em

69 Cf. R. Saiais, "La formation du chiSmage corrune catégorie", loc. cit. Para um testemunho autobiográfico sobre a vida operária na época, cf. R. Mi- chaud, favais vingt ans, Paris, Editions syndicalistes, 1967, que mostra a permanência da mobilidade profissional e do caráter "lábil" da relação com o empregador.

Cf. J.-J. Carrê, E Dubois, E. Malinvaud, La croissance française, Paris, Le

Seuil, 1972. Os desempregados representam, então, 8,5% dos assalariados e 4,5% da população ativa (F. Sellier, Les salariés en France, Paris, PUF, 1979,

p.87).

Cf. A. Prost, "Jalons pour une histoire des retraites et des retraités", loc.

71

cit.

72 A.-M. Guillemard, Le déclin du social, Paris, Le Seuil, 1986.

447

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

classe social. Não é mais a "casta flutuante [

...

]

que se extravaza

na nação" que evocava Lamartine quando da primeira fase da

industrialização (cf. capítulo V). Mas "o isolamento social e

cultural dos operários continua bastante grande para que re-

lações de classes se estabeleçam entre suas unidades sociais que

ainda constituem grupos reais"". Sem dúvida, é necessário

desconfiar das pinturas, que hoje assumem uma tonalidade

nostálgica, da vida operária com suas solidariedades e sua mo-

ral, seus prazeres simples e suas formas intensas de sociabili-

dade. Entretanto, não é menos verdadeiro que, tanto pelo

lugar subordinado que ocupa na hierarquia social quanto por

sua coesão interna, o mundo operário aparece, simultanea-

mente, fazendo parte da nação e organizado em torno de in-

teresses e de aspirações próprios.

Essa situação mostra o quanto permanece instável o mo-

delo de integração que caracteriza os anos 30 e que continua

dominante até os anos 50. Será que a classe operária não se

tornou demasiado consciente de seus direitos — ou demasiado

ávida, dirão seus adversários—, demasiado combativa também

para que se perpetue sua dependência? Esta conjuntura incerta

poderia desembocar em dois tipos de transformação: prosse-

guimento das "conquistas sociais", corroendo progressiva-

mente a distância entre "eles" e "nós", ou então tomada do

poder pela classe operária organizada. Ou seja, para simplifi-

ca; reformas ou revolução. Tal poderia ser a reformulação da

questão social no fim da década de 30.

Trata-se menos de duas fórmulas antagônicas do que de

duas opções que se evidenciam a partir de uma mesma base

de práticas, de uma mesma condição. A classe operária não

está mais na situação de "não ter nada a perder além de suas

correntes". Donde a consolidação, no movimento operário,

"de um princípio positivo de objetivos a defender e a atinge'''.

Tal realismo caminha para a consolidação de um reformismo

73 A. Touraine, La conscience ouvrière, op. cit., p. 215. p. 353.

448

A SOCIEDADE SALARIAL

que já deu suas provas, pois que conquistas importantes foram

obtidas. Mas não implica necessariamente no fim do messia-

nismo operário. No imaginário militante, 1936 ocupa um lu-

gar, ao lado de 1848 e da Comuna de Paris, entre esses

momentos fundadores durante os quais se esboçou a possibi-

lidade de uma organização alternativa da sociedade. A "gera-

ção" que se levantou em 1936 vai viver a Ocupação através

da Resistência e animar lutas sociais muito duras após a Liber-

tação, formando o núcleo, na CGT principalmente, de uma

atitude de classe combativa".

Principalmente porque não faltam inimigos pela frente. A

outra parte da alternativa é representada pela ameaça fascista

e por uma França conservadora que — como em 1848 ou em

1871 — espera sua revanche. Basta percorrer a imprensa da

época para perceber até que ponto foi um período de antago-

nismos políticos e sociais agudos. Desde o dia 5 de maio de

1936, Henry Béraud, no Gringoire, tenta mobilizar os medos

do francês médio contra a ameaça dos Vermelhos deste modo:

"Você gostava de seu jardinzinho, meu caro, de seu café, seus

amigos, seu carrinho, seu título de eleito; seus jornais salpi-

cados de sátiras e de variedades. Pois bem, amigo, você vai

dizer adeus a tudo isso"76. E do outro lado quando, no início

do ano de 1938, a derrota do Front Populaire está mais ou

menos consumada no plano político, Paul Faure escreve em le

Populaire, órgão oficial do Partido Socialista: "Negar a luta de

classes seria negar a luz do dia"77.

A destituição

Entretanto, a classe operária não foi vencida na ocasião

de uma luta frontal, como foram, por exemplo, os operários

parisienses em junho de 1848. Haveria, certamente, muito a

75 CL G. Noiriel, Les ouvriers dans la société française, op. cit., cap. V1. 76 Citado in P Reynaud, Mémoires, t. II, Paris, Flammarion, 1963, p. 51. " Ibid., p. 151.

449

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

dizer sobre as peripécias do período da Ocupação e sobre a

participação de uma parte da classe operária na Resistência,

sobre o contexto da libertação, das greves quase insurrecionais

de 1947 e das lutas contra o "imperialismo americano", e tam-

bém sobre a obstinação da CGT e do Partido Comunista em

manter, pelo menos verbalmente, uma postura revolucionária:

são outros tantos episódios de um enfrentamento social cris-

talizado nos anos 30 e que permanecerão vivos até os anos 60.

Mas essa postura de oposição radical se corrói progressiva-

mente porque, aquém das vicissitudes políticas, está minada

por uma transformação de natureza sociológica. A classe ope-

rária foi destituída da posição de ponta de lança que ocupava

pela promoção da condição de assalariado. Esquematizando

a transformação que se realizou durante cerca de 40 anos (dos

anos 30 aos anos 70), dir-se-á que o "particularismo operário"

não foi abolido, mas deixou de desempenhar o papel de "atra-

tivo"78 que tinha tido no processo de constituição da sociedade

industrial. O salariado operário foi literalmente esvaziado das

potencialidades históricas que o movimento operário lhe em-

prestava. A condição operária não deu à luz uma outra forma

de sociedade, apenas se inscreveu num lugar subordinado na

sociedade salarial. Quais os processos que subentendem tal

transformação? A quase-sinonímia do salariado e do salariado operário é

patente até o início dos anos 30. François Simiand, em sua

obra de 1932 que pretende ser uma súmula sobre o salário,

confirma-a pura e simplesmente:

A denominação de salário parece-nos, no uso corrente, aplicar-se

em sentido próprio, de maneira ao mesmo tempo geral e tópica,

78 Tomo emprestado de Luc Boltansld o termo "infiuenciador",

Ia formation d'un

Les cabes,

groupe social, Paris, Éditions de Minuit, 1982, p. 152, que

especifica o papel dominante desempenhado por um grupo social na reor-

A SOCIEDADE SALARIAL

à categoria dos operários, distintos dos serviçais na agricultura, dos empregados no comércio, na indústria e também na agri-

cultura, dos chefes de serviço, de exploração, engenheiros, di- retdres de todos os gêneros".

De fato, somente a classe operária produz "uma prestação

de puro trabalho" que constitui "um quadro econômico dis-

tinto"80 . Mas o que é uma "prestação de puro trabalho"? Um

trabalho puramente braçal, sem dúvida, mas há também o tra-

balho nas máquinas, e Simiand é obrigado a acrescentar uma

nuance: o operário aluga "um trabalho braçal ou, ao menos, cuja parte manual é essencial"81. É também um trabalho de

pura execução, mas os empregados não são freqüentemente

puros executores? Simiand acrescenta uma outra correção que

trai seu embaraço: o empregado "aluga um trabalho não-braçal

ou, pelo menos, cujo efeito material não é essencial"82. E como

ficam os chefes de serviço, engenheiros, diretores, que não são

proprietários da empresa? Também eles fornecem, exclusiva-

mente, uma "prestação em trabalho". Por que lhes recusar o

estatuto de assalariados do estabelecimento? Mas, para Si- miand, isso não se discute.

De fato, Simiand ocupa uma posição defensiva, já em via

de ser ultrapassada e que remete ao modelo de sociedade do

começo da industrialização, caracterizado pela predominância

das tarefas de transformação direta da matéria. Ora, o processo

de diferenciação da condição de assalariado já está muito en-

gajado nos anos 30. Relativiza progressivamente o peso do

salariado operário e, portanto, o da condição operária na or-

ganização do trabalho. Será evidenciado o sentido dessas trans-

79 F. Simiand, Le salaire, l'évolution sociale et Ia monnaie,

op. cit., t. 1, p.

151. É por isso que a remuneração das outras formas de trabalho deve ter

outras designações: "vencimentos", "ajudas de custo", "emolumentos",

"gratificação de função" etc., mas não "salários".

ganização de um campo profissional. Poder-se-ia dizer que o conjunto dos

Ibid., p. 173.

assalariados operários desempenhou primeiro esse papel quanto à reestru-

Ri

n Ibid., p. 171.

.

 

turação da condição de assalariado, antes de ser suplantado por um conjunto

de assalariados empregados de classes médias.

Ibsd., p. 171.

450

451

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

formações até 1975, data que pode ser tomada para marcar a

apoteose da sociedade salarial 3.

Crescimento maciço da proporção dos assalariados na po-

pulação ativa em primeiro lugar: representa menos da metade

(49%) desta população em 1931, perto de 83% em 1975. Em

números absolutos, quando se incluem os operários agrícolas, o

número dos trabalhadores braçais caiu de 9 milhões e 700 mil

para 8 milhões e 600 mil; em compensação, o total dos operários

não-agrícolas aumentou ligeiramente, de 7 milhões e 600 mil

para 8 milhões e 200 mil. Mas a transformação essencial da

composição da população ativa é o aumento dos assalariados

não-operários. Eram 2,7 milhões em 1931; são 7,9 milhões em

1975. Portanto, seu número quase alcançou o dos operários (e

o ultrapassou amplamente depois). Mas também são considerá-

veis as transformações internas a esse grupo. Ainda que os dados

estatísticos não permitam comparações de precisão absoluta (as-

sim, mesmo que se contem então cerca de 125.000 "peritos e

técnicos", as categorias de "quadros médios e de quadros supe-

riores" não existem nos anos 30), pode-se afirmar que a grande maioria dos assalariados não-operários eram pequenos empre-

gados dos setores público e privado, cujo status, se não era

considerado superior ao dos operários, permanecia, em geral,

medíocre. Em 1975, entretanto, os "simples empregados" re-

presentam menos da metade dos assalariados não-operários,

diante de 2.700.000 "quadros médios" e 1.380.000 "quadros

superiores": são esses grupos que representam um salariado

de grau alto que conheceram o aumento mais considerável84.

83 Geralmente se situa em 1973 a "crise" a partir de que a condição salarial

começou a degradar-se. Mas, além do fato de que os primeiros efeitos só

são sentidos depois de um certo tempo (assim, o desemprego aumenta de

modo muito significativo apenas em 1976), 1975 representa uma data cô-

moda, porque inúmeros levantamentos estatísticos fixam-na como um mo-

mento de transição. Também se pode observar que é em 1975 que a

população operária chega ao máximo na França. A partir daí, começa a

diminuir regularamente.

Principais fontes utilizadas aqui, bem como, salvo menção contrária, nas

páginas seguintes: L. Thévenot "Les catégories sociales en 1975. Uextension

du salariat", Économie et statistiques, n° 91, julho-agosto de 1977; C. Bau-

452

A SOCIEDADE SALARIAL

Assim, as mudanças inventariadas pelas estatísticas traduzem

uma transformação essencial da estrutura salarial. Se, em núme-

ro, o salariado operário mais ou menos se manteve, sua posi-

ção, nessa estrutura salarial, fundamentalmente se degradou.

Em primeiro lugar, porque a classe operária perdeu, seria

possível dizer, o estrato salarial que lhe era inferior quanto ao

status social, ao salário e às condições de vida. Os operários

agrícolas representavam, ainda no início dos anos 30, um quar-

to dos trabalhadores braçais (eram mais da metade em 1876).

Em 1975, praticamente desapareceram (375.000). A classe

operária representa, desde então, a base da pirâmide salarial

— de fato, a base da pirâmide sociais'. Em contrapartida, acima

dela desenvolveram-se não só um salariado empregado — que

pode não ser amiúde, segundo a expressão consagrada, senão

um "proletariado de colarinho branco"86—, mas sobretudo um

delot, A. Lebaupin, "Les salaires de 1950 à 1975", Économie et statistiques,

n° 113, julho-agosto de 1979; E Sellier, Les ralaria eis France, Paris, PUF,

1979; M. Vem; Le travail ouvrier, Paris, A. Colin, 1988; F. Sellier, "Les

salariés, croissance et diversité", et M. Verret, "Classe ouvrière, conscience

ouvrière", is J.-D. Reynaud, Y. Graffmeyer, Francais, qui êtes-vous?, Paris,

La Documentation française, 1981. Na falta de fontes homogêneas, a data

de referência para os anos 30 pode variar de 1931 a 1936, mas as conse-

qüências dessa disparidade são mínimas no que diz respeito à argumentação

geral.

83 O crescimento do conjunto de assalariados da indústria alimenta-se de

duas fontes principais: a redução das profusões independentes e o êxodo

rural. Sobre o último ponto, cf. E Sellier, Les salanês es France, op. cit., p.

10 sq, que insiste numa grande resistência do campesinato à atração da cidade

e da indústria (em 1946, a população ativa agrícola é praticamente tão nu-

merosa quanto em 1866). Disso resulta que quem deixa o campo primeiro

são os operários agrícolas e não os agricultores, também os filhos antes dos

adultos, mas os filhos de assalariados antes dos filhos de agricultores. Assim,

para esses operários agrícolas e seus filhos, o acesso à classe operária pôde

representar, durante muito tempo, uma relativa promoção social. Mas quan-

do esse recrutamento se esgota, a condição operária torna-se a última das

posições: aquela em que se fica quando não se pode "se levantar", ou na

qual se cai por mobilidade descendente.

86 O mundo dos empregados é atingido, principalmente após a Primeira

Guerra Mundial, pela racionalização do trabalho: o trabalho de escritório

mecaniza-se (a máquina de escrever aparece no início do século), especiali-

za-se, coletiviza-se e também se feminiza, o que sempre marca uma perda

453

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

salariado "burguês". O salariado operário corre o risco, então,

de ser submerso numa concepção cada vez mais extensiva da

condição de assalariado e, ao mesmo tempo, esmagado pela

proliferação de situações salariais sempre superiores à sua. Em

todo caso, despossuído do papel de "atrativo" que pôde de-

sempenhar para a constituição da condição de assalariado.

A análise da promoção da condição de assalariado dos anos

30 aos anos 70 confirma essa progressiva destituição da classe

operária. Luc Boltanski mostrou a dificuldade com que um

"salariado burguês" tinha começado a se impor segundo uma

lógica da distinção que aprofunda sua diferença em relação às

características do salariado operário. Nessa ocasião, foi apre-

sentado um novo episódio da oposição entre o trabalho assa-

lariado e o patrimônio, que já havia marcado o século XIX no

momento• das discussões sobre o seguro obrigatório: força da

tradição tornando difícil pensar posições respeitáveis que não

sejam assentadas sobre a propriedade ou sobre o capital social

vinculado aos "ofícios" e às profissões liberais. Assiste-se assim

a curiosos esforços para fundar a respeitabilidade de novas

posições salariais sobre um "patrimônio de valores que são,

de fato, os valores das classes médias, o espírito de iniciativa,

a poupança, a herança, uma modesta abastança, a vida sóbria,

a consideração"". A situação é então mais confusa à medida

que muitas dessas posições salariais de alto grau são primeiro

ocupadas por filhos de família detentoras de um patrimônio.

Tiram eles sua respeitabilidade de sua ocupação ou de sua

herança? Essas duas dimensões são difíceis de dissociar. Uma

de status social. Como muitos operários, o empregado das grandes lojas de departamentos ou dos escritórios da fábrica perde a polivalência do clássico empregado, tipo escrivão de tabelião, espécie de subempreitador de seu empregador.

87 Abade J. Lecordier, Les classes moyennes en marche, Paris, 1950, p. 382, citado por L. Boltanski, Les cabes, op. cit., p. 101, que observa o caráter "tardio" desse texto de 1950 apresentando o mesmo tom que a literatura dos anos 1930, empenhada em justificar a realidade de uma "classe média". (É o caso de A. Desquerat, Classes moyennes françaises, crise, programme, organisation, Paris, 1939).

454

A SOCIEDADE SALARIAL

ilustração da força desses obstáculos tradicionais para pensar

um salariado "burguês" integral: em 1937, a Corte de Cassa- ção se recusa a reconhecer a qualidade de acidentado do tra-

balho a um médico: um homem da arte "não pode manter

uma relação de subordinação" com um diretor de hospital.

Esse médico ferido enquanto trabalhava não é, pois, o assala-

riado do estabelecimento público que o emprega".

É significativo que o primeiro grupo profissional "respei- tável" a reivindicar a condição de assalariado seja o dos enge-

nheiros e, também, que tal iniciativa seja tomada em 1936: o

Sindicato dos Engenheiros Assalariados foi criado no dia 30

de junho de 1936 9. Afirmação de uma posição "média" entre os patrões e os operários, preocupação também, sem dúvida,

em beneficiar-se das vantagens sociais conquistadas pela classe

operária, mas marcando a diferença em relação a ela. Em todo

caso, essa atitude será absolutamente clara após a guerra. A

Confederação Geral dos Quadros dedicará, então, uma parte importante de sua atividade a reivindicar uma ampliação da

hierarquia dos salários e, ao mesmo tempo, um regime de

aposentadoria específico que evite qualquer risco de confusão com as "massas" operárias.

Se constituíram, sem dúvida, a ponta-de-lança da promo-

ção de um salariado "burguês", os engenheiros estão longe de

representar o conjunto dos quadros da indústria. Desde sua

fundação, no final de 1944, a Confederação Geral dos Qua-

dros recruta de modo amplo. Define como quadro todo agente

de uma empresa pública ou privada, investido de uma parcela

de responsabilidade, o que inclui os agentes do magistério. Por

outro lado, os sindicatos operários são obrigados a implantar

estruturas

especiais para receber "engenheiros e quadros": a

(Fédération Française des Syndicats d'In-

CGT, em 1948 (Union Générale des

CFTC, desde 1944

génieurs a Cadres); a

Ingénieurs et Cadres").

Citado por L. Boltanski, Les cadres, op. cit., p. 107.

119 Ibid.,

p. 106.
90 p. 239 sq.

455

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

Paralelamente a essa transformação da estrutura salarial

das empresas, o desenvolvimento das atividades "terciárias"

está na origem da proliferação de um salariado não-operário:

multiplicação dos serviços no comércio, nos bancos, nas ad-

ministrações das coletividades locais e do Estado (só a Educa-

ção Nacional conta perto de um milhão de agentes em 1975),

abertura de novos setores de atividade, a comunicação, a pu-

blicidade" ...

A maioria dessas atividades são atividades assa-

lariadas. A maioria também supera em remuneração e em

prestígio o salariado operário. Desde 1951, Michel Collinet

pinta uma "classe operária assalariada" já muito complexa,

que compreende alguns empregados, os funcionários médios,

os chefeâ de escritório, os quadros, os aAentes de mando in-

termediário, os técnicos, os engenheiros ... Não só a condição operária é contornada e dominada por

uma gama cada vez mais diversificada de atividades salariais,

mas sua coerência interna enfrenta dificuldades. Em 1975,

contam-se mais ou menos 40% de operários qualificados, 40%

de operários especializados e 20% de operários não qualifica- dos. A parte das mulheres cresceu para constituir 22,9% da

população operária, sobretudo nos empregos subqualificados (46,6% dos não qualificados são mulheres). Quase um operá-

rio em cinco é imigrante. O desenvolvimento do setor público

(um quarto do conjunto dos assalariados) fortalece um outro

tipo de clivagem: os empregados do Estado, das coletividades locais e das empresas nacionalizadas beneficiam-se, em geral,

de um estatuto mais estável do que aqueles do setor privado. O

9' A distinção entre as atividades primárias (agrícolas), secundárias (indus- triais) e terciárias (os serviços) foi introduzida por C. Clark, The Cortditions o( Economic Progress, Londres, Macmillan, 1940, e popularizou-se na Fran- ça através da obra de Jean Fourastié. O desenvolvimento econômico e social se traduz pelo desenvolvimento das atividades terciárias. Mas além do setor terciário comercial e do administrativo, pode-se identificar um "terciário industrial" que ganha importância cada vez maior. Trata-se de categorias de empregos do setor industrial que não são diretamente produtivas, como o caso dos datilógrafos, dos contadores ... 92 M. Caba, L'ouvrier (rançais, essai sur Ia condition ouvrière, Paris, Edi- tions ouvrières, 1951,2* parte, cap. IV

456

A SOCIEDADE SALARIAL

tema da segmentação do mercado do trabalho, isto é, distinção

entre núcleos protegidos e trabalhadores instáveis aparece no

início dos anos 7093. Sem dúvida, a unidade da classe operária

nunca foi realizada: por volta de 1936, as disparidades entre

diferentes categorias de trabalhadores quanto à sua qualificação,

ao seu status público ou privado, à sua nacionalidade, à sua im-

plantação em grandes indústrias ou em pequenas empresas

etc., deviam ser grandes também. Mas, então, parecia estar em

curso um processo de unificação através da tomada de cons-

ciência de interesses comuns e da oposição ao "inimigo de

classe". Porém, por razões que serão evocadas, desde antes da

década de 70, essa dinâmica parece quebrada, deixando a con-

dição operária entregue às suas disparidades "objetivas"".

Uma outra mudança, sublinhada com menos freqüência,

sem dúvida tem uma importância maior ainda para explicar

as transformações da condição operária considerada no longo

prazo. Uma pesquisa de 1978 — mas o movimento começou

bem antes — que, dentre outras, incide sobre o "principal tipo

de trabalho efetuado" pelos operários constata que os que se

dedicam a tarefas de fabricação representam apenas mais de

um terço da população operária? . Em outros termos, uma

maioria de operários dedica-se a tarefas que poderiam ser cha-

madas de infraprodutivas, do tipo manutenção, entrega, em-

" De fato, o tema emerge nos Estados Unidos durante os anos 60 e encontra audiência na França nos anos 70, cf. M.J. Piore, "On the Job Training in the Dual Labour Market", in A.A. Weber (ed.), Public and Private Manpower Policies, Madison, 1969, e M.J. Piore, "Dualism in the Labour Market", Revise économique, n° 1, 1978.

94 Faço minha a tese central de E.E Thompson segundo a qual uma classe social não é apenas um "dado" ou uma coleção de dados empíricos. É "fa- bricada" através de uma dinâmica coletiva que se forja no conflito (cf. E.P. Thompson, La formation de la classe ouvrière anglaise, op. cit.).

95 A.-F. Moliné, 5. Volkoff, "Les conditions de travail des ouvriers et des ouvrières", Économie et statistiques, n° 118, janeiro de 1980. Essa mudança é fortemente ligada ao declínio das formas mais tradicionais do trabalho operário. Assim, os mineiros, que eram 500.000 em 1930, não vão além dos 100.000 em 1975; as operárias do setor têxtil passaram de 1,5 milhão a 200.000 no mesmo período (cf. E Sellier, "Les salariés: croissance et diver- sité", loc. cit., p. 48).

457

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

balagem, serviços de guarda etc., ou a atividades mais próximas

da concepção e da reflexão do que da execução, do tipo con-

trole das máquinas, regulagens, testes, manutenção, estudos,

organização do trabalho. Trata-sede uma mudança considerável, se não da realidade

de todas as formas do trabalho operário, pelo menos da repre-

sentação dominante que lhe era dada na sociedade industrial.

O operário aparece aí como o homo [abes por excelência,

aquele que transforma diretamente a natureza através de seu

trabalho. O trabalho produtivo encarna-se num objeto fabri-

cado. Para a tradição da economia política inglesa, bem como

para o marxismo, o trabalho é essencialmente a produção de

bens materiais, úteis, consumíveis96. A atividade de fabricação

presta-se, aliás, a duas leituras opostas. Para Halbwachs, por

exemplo, evidencia o caráter limitado da condição operária

que "só se encontra em relação com a natureza e não com os

homens, permanece isolada em face da matéria, choca-se ape-

nas com as forças inanimadas". É por isso que a classe operária

parece "uma massa mecânica e inerte"97. Marx, ao contrário,

faz dessa atividade de transformação da natureza o próprio do

homem, a fonte de todo valor, e funda, assim, o papel demicir-

gico que atribui ao proletariado. Mas é provável que um e

outro — bem como Simiand, conforme foi visto — refiram-se à

concepção do trabalho operário que prevalecia no início da

industrialização e que começa a se tornar obsoleta com os

progressos da divisão do trabalho. O trabalho operário deixa

de ser o paradigma da produção das "obras"98.

  • 96 Cf. R Lama, "Travail: concept ou notion multidimensionnelle", Futur an-

térieur, n° 10, 1992.

  • 97 M. Halbwachs, La classe ouvrière et les niveaux de vie, op. cit., p. 118, e p.

XVII.

  • 98 H. Arendt, em La condition de l'homme moderne, op. cit., cap. 111, critica a confusão entre o trabalho e a obra que teria caracterizado a reflexão sobre o trabalho no período moderno, não só em Marx mas já em Locke e Adam Smith. Porém, poder-se-ia acrescentar que Harmah Arendt pode elaborar essa crítica na metade do século XX, isto é, após quase dois séculos de transformação da concepção do trabalho industrial tal como emergiu no início da industrialização.

458

A SOCIEDADE SALARIAL

Essas transformações em profundidade, tanto do trabalho

operário quanto do lugar que ocupa no seio da condição de

assalariado, não podem deixar de abalar a concepção do papel

que era atribuído à classe operária na sociedade industrial.

Poderá ela conservar a centralidade que, simultaneamente, lhe

emprestam os que exaltam seu papel revolucionário e os que

a percebem como uma ameaça para a ordem social? O debate

está lançado desde o final dos anos 50, e Michel Crozier é um

dos primeiros a proclamar que "acaba-se a era do proletaria-

do": "Uma fase de nova história social deve ser definitivamente

encerrada, a fase religiosa do proletariado"".

Entretanto, a sorte não está lançada completamente, por-

que as transformações da condição operária podem dar lugar

a duas interpretações aparentemente opostas. Uma "nova clas-

se operária" seria constituída através do desenvolvimento das

formas mais recentes que a divisão do trabalho assume. Mas

os novos agentes que desempenham um papel cada vez mais

decisivo na produção, operários das indústrias "de ponta",

mentores mais do que executores, técnicos, desenhistas, qua-

dros, engenheiros etc. continuam a ser destituídos do poder

de decisão e do essencial clos benefícios de seu trabalho pela

organização capitalista da produção. Ocupam assim, no que

se refere ao antagonismo de classes, uma posição análoga àque-

la do antigo proletariado e são, de agora em diante, os herdei-

ros privilegiados para retomar o empreendimento de

transformação revolucionária da sociedade que a classe ope-

rária tradicional, seduzida pelas sereias da sociedade de con-

sumo e enquadrada por aparelhos sindicais e políticos

reformistas, abandonamm.

99 Arguments, "Qu'est-ce que la classe ouvrière française", número especial, janeiro-fevereiro-março de 1959, p. 33. O debate é retomado com a emer- gência do tema da "nova classe operária", cf. o número especial da Revise

française des sciences politiques, vol. XXII, n°3, junho de 1972, particular-

mente o artigo de J.-D. Reynaud, "La nouvelle classe ouvrière, la technologie et l'histoire". 100 Cf. Serge Mallet, La nouvelle classe ouvrière, Paris, Le Seuil, 1966.

459

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

Inversamente, a tese do "aburguesamento" da classe ope-

rária apóia-se na elevação geral do nível de vida que atenua

os antagonismos sociais. O "desejo de integrar-se numa socie-

dade onde prima a busca do conforto e do bem-estar" I°1 leva

a classe operária a dissolver-se progressivamente no mosaico

das classes médias.

Realmente, essas duas posições opostas são complemen-

tares, pelo menos quanto ao fato de que a mola propulsora de

sua argumentação é mais política do que sociológica. Serge

Mallet superestima o peso dessas novas camadas salariais in-

dustriaisw2. Sobretudo, superestima a capacidade da.classe

operária em representar o papel de "atrativo" para essas cate-

gorias novas que se afirmam através das transformações da

produção (particularmente, o desenvolvimento da automação,

tema privilegiado na Sociologia do Trabalho dos anos 60). No

entanto, desde 1936, a CGT tinha feito a amarga experiência

do "desafeto dos técnicos em relação ao movimento opera-

rio"us. Por volta de 1968, com raras exceções, a análise dos

conflitos sociais, mesmo "novos", mostra que o principal tro-

pismo dos técnicos, quadros e engenheiros leva-os a defende-

rem seus interesses específicos, passando pela manutenção da

diferenciação social e pelo respeito da hierarquia, mais do que

a fechar com as posições da classe operária. A não ser que

tenham fortes convicções políticas. Mas justamente: a convic-

ção que subentende a exaltação do papel histórico da "nova

classe operária" na década de 60 é de essência política. Trata-se

1°1 G. Dupeux, La société française, Paris, A. Colin, 1964. A literatura sobre essa temática da marcha para a abundância e da apoteose das classes médias é pletórica. Pode-se tomar a obra de Jean Fourastié, particularmente Les Trente Glotieuses, Paris, Fayard, 1979, como sua melhor orquestração.

  • 102 Um estudo da década de 70 estima que a proporção dos operários da indústria que correspondem a esse perfil seja de 5% (cf. P. Hugues, G. Petit, E Rerat, "Les emplois industrieis. Nature. Formation. Recrutement", Ca- hiers du Centre d'étucles de l'emploi, n°4, 1973).

  • 103 s. Weil, no relatório que encaminha à CGT após as greves de 1936, "Remarques sur les enseignements à tirer des confiits du Nord", in La con- dition ouvriére, op. cit.

460

A SOCIEDADE SALARIAL

de salvaguardar a chama da revolução e de não desesperar;

não mais Billancourt, mas a CFDT e o PSUI".

Porém, o discurso oposto que proclama a dissolução da

condição operária na nebulosa das classes médias parece su-

bentendido pelo desejo, também ele mais político do que cien-

tífico, de exorcizar definitivamente os conflitos sociais. É a

ideologia de todos os que proclamam o fim das ideologias.

Perscrutam com avidez o apetite de consumo da classe operária

e constatam com satisfação 05• o enfraquecimento dos investimen-

tos políticos e sindicais

Mas omitem frisar que, a despeito

da incontestável melhoria de suas condições de existência, a

classe operária não se dissolveu, absolutamente, nas classes

médias. As pesquisas desenvolvidas nos anos 50 e 60 confir-

mam a persistência de um particularismo operário e de uma

consciência da subordinação operária próxima da que foi ana-

lisada anteriormente para o fim dos anos 30 106 . Dependência

quanto às condições de trabalho cujas modalidades mudaram

1 " Essa interpretação não trai o pensamento de Serge Mallet que apresen- tava, ele próprio, seu procedimento inicial não como "o de um homem de ciência que, de modo objetivo, formula problemas de conhecimento, mas o de um militante do movimento operário, mais exatamente do movimento sindical", (La nouvelle classe OUVTière, op. cit., p. 15). Pode-se apenas acres- centar que a aposta de Mallet quanto ao tropismo revolucionário desses novos agentes engajados no processo de produção durou muito tempo.

1" Assim, Dupeux já fala de "despohtização", de "declínio do mito revolu- cionário" e de "declínio também da participação política" dos operários (La société française, op. cit., p. 252).

104 k Ligneux, J. Lignon, Eouvrier d'aujourd'hui, Pais, Gonthier, 1960; J.-M. Rainville, Condition ouvrière et intégration sociale, Paris, Editions ouvrières, 1967; G. Ajam, E 13on, J. Capdevielle, R. Moureau,Eoutnierfrancaisen 1970, Paris, A. Colin. A síntese de J.H. Goldhorpe, D. Locicwood, E Bechhofer, J. Piau, The Affluent Work Series, 3 volumes, Cambridge University Press, 1968- 1969, não tem o equivalente na França. Eis aqui entretanto, à medida que o título "o operário da abundância" pode dar margem a interpretações equivo- mais, uma das maiores conclusões da obra: "A integração às claçses médias não é um processo em curso atualmente, nem um objetivo desejado pela maioria de

nossos operários

Vimos que o aumento dos salários, a melhoria das condições

... de trabalho, a aplicação de políticas de emprego mais oportunas, mais liberais etc., não modificam de modo fundamental a situação de classe do trabalhador industrial no interior da sociedade contemporânea" (edição francesa resumida, touvrier de l'abondance, Paris, Le Sella', 1972, p. 210).

461

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

relativamente pouco no que diz respeito à relação de subor-

dinação, indissociavelmente técnica e social, que implicam' 07

e que se traduz sempre pelo sentimento dos operários de es-

tarem situados "socialmente embaixo""9. Particularismo,

também, dos modos de vida e das formas de sociabilidade:

"Quer se trate dos hábitos de consumo, do estilo de vida, da

utilização do espaço urbano, os índices numerosos e variados

manifestam uma especificidade dos comportamentos no meio

operário""9. Todo mundo consome, mas não os mesmos pro-

dutos; há mais diplomas, mas não têm o mesmo valor; muitos

viajam em férias, mas não para os mesmos lugares etc. Inútil

retomar aqui todas essas análises que relativizam o discurso

do ecumenismo social. Este exprime um pensamento superfi-

cial e decreta a homogeneidade pelo alto. Apóia-se, com certeza,

em numerosos quadros estatísticos e curvas de crescimento.

Mas cai num impasse quanto ao sentido que as transformações

assumem para os atores sociais. Um único exemplo dessas cons- truções sofisticadas cuja abstração nunca encontra a realidade

social que pretendem traduzir. Jean Fourastié, um mestre na ma-

téria, calculou com erudição que "um 0E, começando por volta de 1970 e permanecendo toda sua vida 0E, terá conquistado,

antes de completar 60 anos, um poder de compra superior ao

que terá ganho desde sua entrada em serviço um conselheiro

de Estado que se aposentasse hoje"°. Seria fascinante encon-

1W Uma das mudanças mais importantes é, sem dúvida, a parte dos imigrantes

e das mulheres nos trabalhos mais penosos e mais desvalorizados. Mas o

desenvolvimento de novas formas de organização industrial não aboliu as

obrigações nem a penosidade de inúmeras tarefas, em especial nas cadeias

de montagem. É possível comparar, com quarenta anos de intervalo, dois

testemunhos cujos autores apresentam a mesma característica: ter trabalhado

em fábrica sem ser operário, S. Weil, La condition ouvrière, op. cit., e R.

Linhart, tétabli, Paris, Éditions de Minuit, 1977.

  • 108 A. Ligneux, J. Lignon, L'ouvrier d'aujourd'hui, op. cit., p. 26. Trata-se de

um fragmento da entrevista de um operário dentre várias outras de teor

semelhante, em que os trabalhadores retomam a percepção que lhes é passada

de seu status social: o operário "é um imbecil", "um pobre tolo", "a lanterna

vermelha" etc.

  • 109 J.-M. Itainville, Condition ouvrière et intégration sociale, op. cit., p. 15.

  • 110 J. Fourastié, Les Trente Glorieuses, op. cit., p. 247.

462

A SOCIEDADE *SALARIAL

trar, em 1995, esse feliz OE e perguntar-lhe o que pensa de

tal ajuste, tendo como referência uma posição de conselheiro

de Estadonl. A transformação decisiva que amadureceu ao longo dos

anos 50 e 60 não é, pois, nem a homogeneização completa da

sociedade, nem o deslocamento da alternativa revolucionária

sobre um novo operador, a "nova classe operária". O que se

deu foi, sobretudo, a dissolução dessa alternativa revolucio-

nária e a redistribuição da conflitualidade social conforme um

modelo diferente daquele da sociedade de classes: a sociedade

salarial. Dissolução da alternativa revolucionária: a realidade his-

tórica da classe operária não é redutível a um conjunto de

modos de vida que se descrevem, de curvas de salários 9ue se

comparam, ou a um folclore populista que se lamenta. E tam-

bém uma aventura que durou um pouco mais de um século,

com seus altos e baixos, marcada por tempos fortes — 1848, a

Comuna, 1936, 1968 talvez — que parecem antecipar uma

organização alternativa da sociedade. O enfraquecimento da

convicção de que a história social podia desembocar em um

lugar, o que Crozier chama desde 1959 "a fase religiosa do

proletariado", não tem uma data rigorosamente definida. Mes-

mo em seus momentos de glória, sempre foi sustentada apenas

por uma minoria operária

12

e sempre pode ressurgir pontual-

mente, fazendo reviver, como flashes, rápidas explosões que

evocam a "juventude da greve"113 e despertam utopias ador-

I I Para se ter uma idéia de até onde pode levar o fascínio pelas curvas de

crescimento, pode-se ler hoje, divertindo-se ou irritando-se, a obra de Jean

Fourastié, La civilisation de 1995, Paris, PUF, 1970.

112 Minoria de grevistas em 1936 apesar da amplitude do movimento: menos

de 2 milhões para 7 milhões de assalariados operários; fenômeno essencial-

mente parisiense que foram junho de 1848 e a Comuna. Mais: os indiferentes

e os "amarelos" eram tão operários quanto os sindicalistas e os militantes,

e, em junho de 1848, as tropas mais combativas da Guarda e que dominaram

o subúrbio Saint-Antoine eram formadas por jovens operários. Ao mesmo

tempo e no entanto, junho de 1848, a Comuna de Paris e 1936 viveram na

memória de toda uma classe.

113 M. Perrot, Jeunesse dela grève, Paris, Le Senil, 1984.

463

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

mecidasI14. Entretanto, tornou-se cada vez menos acreditável

que um dia serão institucionalizados os amanhãs que cantam.

A oscilação entre revolução e reforma, que sempre percorreu

o movimento operário, vem fixar-se com insistência cada vez

maior no segundo pólo, e a clivagem entre "eles" e "nós" deixa

de alimentar um imaginário da mudança radical. Desencanto

do mundo social, reduzido a uma unidimensionalidade sem

transcendência: as transformações sociais não são mais deci-

didas na base do tudo ou nada e deixam de ser arbitradas por

um sentido da história. Paradoxalmente, talvez seja maio de

68 que cristaliza esta tomada de consciência: a classe operária,

desta vez, aderiu ao movimento ao invés de ser seu epicentro

e contentou-se em obter ganhos "reformistas". Em todo caso,

é significativo que, imediatamente após 68, os trabalhadores

imigrantes tenham sido chamados a retomar a chama de um

messianismo revolucionário, abandonado por uma classe ope-

rária autóctone "integrada ao sistema"ns.

114 .

A questão de saber quando morre uma utopia não tem sentido, dado que

a utopia está fora da história (assim, para os índios do México, Zapata não

morreu). A questão — difícil — é saber quando uma utopia deixa de influenciar

a história e de lhe impor, ainda que parcialmente, sua marca. Assim, a refe-

rência à Revolução foi, durante muito tempo, carregada de uma aura de

absoluto até mesmo para as medidas prosaicamente reformistas. Desde quan-

do isso deixou de acontecer?

115 Cf., por exemplo, J.-I? de Gaudemar: Mobilité du travail et accumulation du

capital, Paris, Maspero, 1976, que expressa o consenso do conjunto das cor-

rentes "esquerdistas" do início da década de 70. Trata-se de um deslocamento

análogo ao que havia ocorrido dez anos antes quanto à "nova classe operária",

e que pode ser interpretado como uma nova etapa do processo de destituição

da classe operária "clássica" de seu papel revolucionário, inclusive aos olhos dos

ideólogos que pretendem ser os herdeiros do profetismo revolucionário do

século XIX. De fato, os trabalhadores imigrantes foram os agentes e as disputas

principais das lutas sociais mais duras do início dos anos 70. Do lado da classe

operária "autóctone", o conflito Lip foi, sem dúvida, o último a mobilizar o

potencial alternativo do movimento operário (cf. I? Lantz, "Lip et l'utopie",

Politique d'aujourctbui, n° 11-12, nov.-dez./1980). Mas o conflito Lip também

pode ser interpretado como uma das últimas lutas do período de crescimento

do após Segunda Guerra Mundial. Como declara solenemente a assembléia

geral dos empregados, do dia 12 de outubro de 1973: "Não aceitaremos nem

demissão, nem reclassificação, nem desmantelamento" (fot. cit., p. 101). Tais

declarações seriam impensáveis hoje.

464

A SOCIEDADE SALARIAL

Aquém da dimensão política dessas peripécias, é a signifi-

cação antropológica dominante do salariado que oscilou ao

longo desses decênios. A classe operária mantinha seu poten-

cial revolucionário pelo fato de que encarnava essa "indigna

condição de assalariado" que nada tinha a perder senão suas

correntes e cuja emancipação mudaria a face do mundo. Marx,

quanto a este ponto, não fez senão radicalizar uma estrutura

antropológica da condição de assalariado conotada, parecia

que desde sempre, por situações de dependência através das

quais um homem põe à disposição de um outro sua capacidade

de trabalho. É o sentido literal da expressão "trabalho aliena-

do": trabalhar para outro e não para si mesmo, deixar a um

terceiro, que vai consumi-lo ou comercializá-lo, o produto de

seu trabalho. Que esta coerção se torna eufêmica quando toma

uma forma explicitamente contratual com o liberalismo, ou

que perca seu caráter de dependência personalizada quando

se trabalha, por exemplo, para uma sociedade anônima regida

por convenções coletivas, não muda a dissimetria da relação:

de fato, o assalariado procede a uma espécie de abandono do

fruto de seu trabalho para uma outra pessoa, ou para uma

empresa, ou para uma instituição, ou para "o capital".

Nessa lógica, as atividades de um sujeito social autônomo,

mesmo tomando a forma de serviços prestados, não deveriam

entrar numa relação salarial. Um produtor independente não

poderia ser assnlariado. Isso não é uma simples tautologia mas,

sim, a conseqüência do fato de que certas atividades são ina-

lienáveis, portanto não assalariáveis, mesmo se correspondem

a um trabalho efetuado para outro. Um sapateiro, um tecelão

podem ser trabalhadores independentes ou assalariados. Um

médico não pode ser um assalariado, como demonstra, ainda

em 1937, a sentença do Supremo Tribunal, anteriormente ci-

tada. Essa concepção secular do trabalho assalariado apaga-se

por volta dos anos 50 e 60, acarretando a retração do papel

histórico da classe operária. A lenta promoção do salariado

burguês abriu o caminho. Desemboca num modelo de socie-

dade que não é mais atravessado por um conflito central entre

465

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

assalariados e não-assalariados, isto é, entre proletários e bur-

gueses, trabalho e capital. A "nova sociedade"116, para retomar

um slogan do início da década de 70 e que pretendia ser a

tradução política dessa mudança, é organizada principalmente

em torno da concorrência entre diferentes pólos de atividades

salariais. Sociedade que não é homogênea nem pacificada, mas

cujos antagonismos assumem a forma de lutas pelas colocações

e classificações mais do que a forma de luta de classes. Socie-

dade em que, de contraponto, a condição de assalariado se

torna modelo privilegiado de identificação.

A condição salarial

É a partir da metade da década de 50 que emerge um novo

discurso sobre "os homens dos tempos que virão", espécie de

puros assalariados que conquistaram suas credenciais de bur-

guesia'. Este perfil se evidencia no quadro da modernização

da sociedade francesa que opõe os agentes do crescimento e

do progresso aos representantes das classes médias tradicio-

nais, pequenos patrões e comerciantes malthusianos, notáveis

conservadores. De um lado, uma França resistente ao progres-

so, "poujadista", impaciente na defesa do passado; de outro,

uma França dinâmica que quer, enfim, esposar seu século e

cujos novos assalariados constituem a ponta-de-lança118.

"Como se sabe, é o nome dado por Jacques Chaban-Delmas a seu programa político e que corresponde a um período de grande expansão económica e a uma vontade, derrotada pouco tempo depois, de desbloqueio da sociedade após 1968 ..

117 "Eliminar das classes médias os quadros assalariados e uina grande parte dos funcionários seria reduzi-las a uma caricatura da burguesia" (P Bleton,

Les hommes destemps

viennent), Paris, Editions ouvrières, 1956, p. 230).

1111 Cf. J. Donzelot, "D'une modernisation à Pautre", Esprit,

setembro, e M. Winock, La Republique se meurt,

1986, agosto-

Paris, Florio, 1985. É

impossível deixar de citar a saborosa descrição que esse autor faz dos defen- sores de uma organização pré-capitalista da sociedade: "No outro lado, florescem os glorificadores da vida de aldeia, dos pequenos comerciantes, dos botecos que enriqueciam M. Paul Ricard, a França do século XIX, ra-

466

A SOCIEDADE SALARIAL

Nesse contexto, urna nova constelação salarial se vê atri-

buir a função de atrativo com a tarefa de "puxar" a dinâmica

social, do mesmo modo que se diz que tal setor industrial ou

comercial "puxa" o crescimento econômico de toda uma so-

ciedade. Assiste-se, então, a uma quase-mitologização de um

perfil de homem (e acessoriamente de mulher 119) eficaz e di-

nâmico, liberado dos arcaísmos, ao mesmo tempo descontraí-

do e performante, grande trabalhador e grande consumidor

de bens de prestígio, com férias inteligentes e viagens ao ex-

terior. Um homem que se pretende liberto da ética puritana e

tesauradora, do culto do patrimônio e do respeito das hierar-

quias consagradas que caracterizam a burguesia tradicional. Jornais como EExpress "EExpress, jornal dos quadros'"1" —

ou EExpansion testemunham a audiência dessa representação

do mundo social e, por sua vez, a difundem. Diferentes cate-

gorias de assalariados são portadoras dessa representação:

quadros médios e superiores, professores, publicitários, espe-

cialistas em comunicação e, em sua camada inferior, repre-

sentantes de um certo número de profissões intermediárias,

como animadores culturais, pessoal paramédico, educadores

etc. 121 Ganhando consistência, formam o que Henri Mendras

dical, protecionista, com seus pavilhões de habitação, com sua marca de notários, advogados, oficiais de justiça, padres conservadores, jogadores de bola com boina basca, cachorros bravos, muros guarnecidos de cacos de vidro, membros ativos da Associação Guillaume-Budé, destiladores de seus próprios frutos, administradores coloniais, antigos donos de bordei, a que se juntavam os adeptos do marechal Pétain". Acrescento, por minha conta, que nesse "lado" não há, ou quase não há, assalariados.

  • 119 À medida que as mulheres continuam sendo bem minoritárias no topq

do conjunto dos assalariados, por exemplo: 3,8% de engenheiros em 1962 e 4% em 1975; 12% de quadros da administração superior em 1962 e 17,3%

em 1975 (L. Boltansld, Les cabes, op.

cit.).

  • 120 ibid., p. 179.

  • 121 Certas profissões liberais podem pertencer à mesma área, mas são muito minoritárias em relação a essa configuração salarial. Em 1975, contam-se

172.000 membros de profissões liberais contra 1,270 milhão de quadros superiores e 2,764 milhões de quadros médios (cf. L. Thévenot, "Les caté-

gories sociales en 1975", loc. cit.).

467

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

chama de "constelação central" e da qual faz o núcleo de di-

fusão da "segunda revolução francesa"ln. A expressão "se-

gunda revolução francesa" é, sem dúvida nenhuma, exagerada.

Mas é verdade que existe um conjunto (ou melhor, uma inter-

conexão de subconjuntos) de prestadores de serviços que cons-

tituem o núcleo mais móvel e mais dinâmico da sociedade, o

principal difusor dos valores da modernidade, do progresso,

das modas e do sucesso. É também, em relação ao conjunto

da sociedade, o agrupamento que teve o crescimento mais

contínuo e mais rápido desde a "decolagem" subseqüente ao

fim da Segunda Guerra Mundial.

Essa promoção da condição de assalariado atropela a opo-

sição secular entre trabalho e patrimônio. Bons salários, posi-

ções de poder e de prestígio, liderança em matéria de modos

de vida e de modos culturais, segurança contra os acasos da

existência não estão mais necessariamente ligados à posse de

um grande patrimôniow. Em último caso, as posições social-

mente dominadas poderiam até mesmo ser asseguradas por

"puros" assalariados, isto é, por pessoas cujos salários e cuja

posição na estrutura social dependeriam exclusivamente de

seu emprego.

Somente em último caso. A promoção dessas posições sa-

lariais está ligada a um desenvolvimento de setores profissio-

  • 122 H. Mendras, La Seconde Révolution française, Paris, Gallimard, 1988.

123 Uma pesquisa de 1977 sobre "o montante médio do patrimônio conforme a categoria sócio-profissional dos casais" (in J.-D. Reynaud, Y. Graffmeyer, Français, qui êtes-vous?, op. cit., gráfico 5, p. 136) mostra que as categorias "quadros superiores" e "quadros médios", que agrupam o essencial dessas novas camadas assalariadas, dispõem de um patrimônio quatro vezes menor que o dos "industriais e comerciantes" e que o do grupo das "profissões liberais"; nitidamente menor que o dos "agricultores", e mesmo duas vezes menor que o dos "artesãos e pequenos comerciantes". Outra pesquisa (ibid., gráfico 3, p. 133) mostra que há disparidades enormes na distribuição do patrimônio: 10% dos casais mais ricos possuem 54% do patrimônio, e os 10% dos menos ricos, 0,03%. Em compensação, as curvas comparadas da distribuição de renda e do patrimônio mostram que pode haver renda bas- tante elevada assnciada a um pequeno patrimônio.

468

A SOCIEDADE SALARIAL

nais que, particularmente no terciáriou4, exigem títulos e di-

plomas. Ora, sabe-se que o capital escolar é freqüentemente

ligado à herança cultural familiar, ela própria fortemente de-

pendente do capital 'econômico. De outro lado, a condição de

assalariado pode, de agora em diante, estar na origem da cons-

tituição de um patrimônio, especialmente por intermédio do

crédito e do acesso à propriedade. As relações entre patrimônio

e trabalho tornam-se, assim, muito mais complexas do que

eram no início da industrialização. Esquematizando, a posse

de um patrimônio, naquele momento, dispensava de se con-

sagrar a atividades assalariadas, ao passo que a aquisição de

um patrimônio, pelos trabalhadores, mesmo sendo modesto,

estimulava-os a escaparem da condição de assalariado e de se

estabelecerem por conta própria. Agora, a condição de assala-

riado e o patrimônio interferem nos dois sentidos: o patrimônio

facilita o acesso a posições salariais elevadas por intermédio

dos diplomas, enquanto que o estabelecimento em posições

salariais sólidas pode comandar o acesso ao patrimônio ns.

Assim, a "constelação central" não representa uma confi-

guração de posições salariais "puras". Também não ocupa a

posição hegemônica de uma "burguesia sem capital" que quase

afastou a "burguesia tradicional" que lhe atribuem seus lison-

jeadores mais entusiastas'26. Continua existindo um núcleo de

124 Entre 1954 e 1975, a proporção dos empregos do setor terciário passa de 38 a 51%, cf. M. Maruani, E. Reynaud, Sociologie de remploi, Paris, La Découverte, 1993, p. 49. 124 Em 1977, residências principais e residências secundárias representavam 37,8% do conjunto do patrimônio dos franceses (cf. J.-D. Reynaud, Y Graff-

meyer,

Français, qui êtes-vous?, op. cit., gráfico 3, p. 133). Sabe-se que as

facilidades de empréstimos para o acesso à propriedade dependem muito do perfil profissional dos que tomam empréstimos e da capacidade de seu orçamento para pagar o empréstimo, apostando antecipadamente na esta- bilidade e na progressão da renda salarial, donde a possibilidade para os próprios operários de terem acesso ao patrimônio: em 1973, 38% deles

eram proprietários de suas casas (cf. M. Verret, J. Creusen, Eespace ouvrier, Paris, A. Colin, 1979, p. 114).

126 "Assim, a burguesia tradicional ligada à posse das coisas evolui para uma neoburguesia sem capital e que amplia em sua base a expansão do terciário.

469

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

posições dominantes que acumula e entrelaça capital econô-

mico, capital social e capital cultural, direção das empresas

públicas e privadas e poderes exercidos no aparelho de Estado.

Desta "nobreza de Estado", Pierre Bourdieu diz:

Poucos grupos dirigentes já reuniram tantos princípios de legi-

timação tão diferentes e que, mesmo aparentemente contradi-

tórios, como o aristocratismo do nascimento e o meritocratismo do sucesso escolar ou da competência científica, ou como a ideo-

logia do "serviço público" e o culto do lucro disfarçado em exaltação da produtividade, se combinam para inspirar aos no-

vos dirigentes a mais absoluta certeza de sua legitimidadem.

De fato, muitas profissões da "constelação central" são

mais dependentes do que confessam do capital econômico:

quadros cujo destino está ligado ao da empresa, mas também

produtores culturais, profissionais da área de comunicação

para quem o reconhecimento de uma legitimidade passa pela

obtenção de meios de financiamento. Igualmente, a oposição

clássica entre patrões à moda antiga e dirigentes assalariados

das empresas ("owners" e "managers") merece ser relativizada.

Os PDGs das grandes empresas, por exemplo, considerados,

de bom grado, a franja superior da condição de assalariado,

escolhida por seu profissionalismo e sua competência técnica,

freqüentemente são também acionistas importantes da empre-

sa e saíram de meios que, há muito tempo, pertencem ao mun-

do dos negócios'. Se a onipotente "duzentas famílias" foi um

mito da esquerda, continua sendo verdade que o essencial do

Em resumo, a propriedade herdada tende a dar lugar à propriedade merecida

(na medida em que o diploma sanciona o mérito). Mas que pode haver de

mais pessoal do que semelhante propriedade?" (A. PiCtee, "La propriété

heritée ou méritée",

le Monde, janeiro de 1978, citado por P. Bourdieu, La

noblesse d'État, op. cit., p. 479).

Ir E Bourdieu, La noblesse d'État, op. cit., p. 480.

In Ibid., p. 478. Cf. também J. Marchai, J. Lecaillon, La répartition du revenu

national, Paris, Editions Génin, 1' parte, t. I, que mostram que as vantagens

em gêneros, gratificações e emolumentos diversos de que se beneficiam os

quadros superiores de alto nível representam um tipo de remuneração não

salarial que é, de fato, uma participação nos lucros da empresa.

470

1

A SOCIEDADE SALARIAL

poder econômico é detido por meios cuidadosamente escolhi-

dos (conferir a composição dos "núcleos sólidos" das grandes

sociedades). Mas justamente: se não há osmose entre os diferentes blo-

cos que constituem a sociedade salarial, também não há alte-

ridade absoluta. O salariado de alto grau desempenhou o papel

de atrativo, inclusive em relação aos grupos dominantes tra-

dicionais, cujas frações mais dinâmicas conseguiram seu ag-

giornamento conquistando, sem renunciar às antigas prerro-

gativas, os novos atributos do sucesso e das honras que passam,

por exemplo, por freqüentar as grandes escolas e ter os me-

lhores diplomas. Agindo assim, uma parte das classes domi-

nantes tradicionais também ingressou, e no nível mais alto, no

mercado do salariado. Assim, mesmo no seio dos grupos dominantes, há menos

homogeneização do que concorrência, luta pelas colocações.

Esse espaço social é atravessado pelo conflito e pela preocu-

pação da diferenciação. Um princípio de distinção opõe e reú- ne os grupos sociais. Opõe e reúne, porque a distinção

funciona a partir de uma dialética sutil do mesmo e do outro,

da proximidade e da distância, da fascinação e da rejeição. Supõe uma dimensão transversal para os diferentes agrupa-

mentos, a qual reúne exatamente os que se opõem e lhes per-

mite que se comparem e se classifiquem. "Classificadores

classificados por suas classificações", eles se reconhecem atra-

vés de sua distância em relação às outras posições que formam,

assim, um continuumw . Esta lógica da diferenciação se dis-

tingue de um modelo baseado no consenso e, ao mesmo tempo,

de um modelo baseado no antagonismo do enfrentamento

classe contra classe. Para caracterizar essa constelação, poder-

se-ia aproximá-la do que dizia Georg Simmel sobre a "classe

média", ainda mima representação tripartida da sociedade:

"O que ela tem de verdadeiramente original, é que faz trocas

contínuas com as duas outras classes e que essas eternas flu-

as análises de Pierre Bourdieu, in La distinction, critique du jugement

social, Paris, Editions de Minuit, 1979.

471

AS METAMORFOSES NA QUESTÃO SOCIAL

tuações apagam as fronteiras e as substituem por transições

perfeitamente contínuas"130. "Transições perfeitamente contí-

nuas", seria necessário discutir isso. Mas a idéia do continuum

das posições próprias a uma sociedade salarial está muito pre-

sente.

Assim, seria possível representar-se a sociedade salarial a

partir da coexistência de um certo número de blocos131, simul-

taneamente separados e unidos por essa lógica da distinção

que age no seio de cada conjunto como entre os diferentes

conjuntos. Nesta configuração, seria necessário dar lugar ao

bloco das profissões independentes com o patrimônio não-re-

convertido, o bloco dos vencidos da modernização que Michel

Winock evocava de modo pitoresco. É porque esses grupos

foram marginalizados, que a sociedade salarial pôde desenvol-

ver-se: morte daquele que vive de rendas como paradigma do

burguês, inexorável regressão do pequeno comércio e do ar-

tesanato (900.000 artesãos, 780.000 comerciantes e assimila-

dos no início dos anos 80132), revolução do mundo agrícola

que acarretou o fim dos camponeses tradicionais133. Ou bem

essas frações do patrimônio souberam se reconverter, adap-

tando-se às novas exigências da sociedade salarial (conferir,

por exemplo, o relativo dinamismo das pequenas e médias

13° G. Simmel, Sociologia a épistérnologie, trai fr. Paris, PUF, 1981, p. 200.

  • 131 Prefiro o termo bloco ao classe, não em nome de uma ideologia do

consenso (não há mais classe; logo, não há mais conflitos etc.), mas porque uma classe, no sentido pleno da palavra, só existe quando é tomada numa dinâmica social que a torna portadora de um pr