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O dogma antidogma

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto
28 de Dezembro de 2010 · Opinião
Todo o dogma é uma crença, mas nem toda a crença é um dogma. Uma crença é qualquer
representação, susceptível de ter valor de verdade, que um agente cognitivo faz das coisas. Todos
cremos, por exemplo, que Hitler existiu e que a água nos mata a sede. Toda a fé é uma crença, mas
nem toda a crença é uma fé. A fé é uma crença especificamente religiosa, e, como os dogmas,
poderá ter outros elementos além dos puramente epistémicos.
Os dogmas têm uma componente epistémica e uma componente psicológica, e caracterizam-se pela
relação pouco recomendável existente entre ambas. A componente epistémica do dogma é ser uma
crença que a pessoa que a tem é incapaz de justificar adequadamente; a componente psicológica é
uma forte adesão, emocional ou pessoal, a essa crença. Uma pessoa é tanto mais dogmática quanto
maior discrepância existir entre a força das razões ou justificações de que dispõe a favor de uma
dada crença e a força da sua adesão.
Todos temos inúmeras crenças injustificadas ou inadequadamente justificadas, pela simples razão
de que nenhum de nós pode analisar cuidadosamente todas as suas crenças. Assim, no que respeita à
justificação de crenças, é inevitável uma certa distribuição do trabalho intelectual. Eu creio que a
água é H2O, mas a minha justificação a favor desta crença, ainda que adequada, é secundária, no
sentido em que se baseia no que os cientistas afirmam. Apesar de eu não dispor de uma justificação
epistemicamente primeira para esta crença, não é um dogma para mim porque não tenho em relação
a ela um apego desproporcional: se amanhã eu ler uma notícia na Nature declarando que vários
cientistas confirmaram que há um erro subtil que os fez pensar que a água era H2O quando na
realidade é outra coisa qualquer, não terei dificuldade em abandonar a minha crença anterior.
Outras crenças injustificadas ou inadequadamente justificadas são no entanto acompanhadas de uma
forte convicção, em tudo desproporcional relativamente às justificações disponíveis. Entre essas
crenças inclui-se alguns casos de crenças políticas, religiosas e relativas a comportamentos sociais.
São aqueles casos em que as pessoas insistem tanto mais veementemente nas suas ideias quanto
mais frágeis são as razões que conseguem articular a favor delas.
Um dos dogmas contemporâneos mais persistente, incluindo nas zonas mais anémicas da cultura
académica, é o que à primeira vista parece um metadogma: um dogma acerca de dogmas. Trata-se
do dogma de que devemos combater os dogmas. Não se trata realmente de um metadogma porque
alberga uma confusão quanto ao conceito de dogma. Apesar de enganadoramente se falar em
combater dogmas, trata-se na realidade de combater ou defender certas ideias feitas, ao mesmo
tempo que se rotula de dogmáticas, sem qualquer justificação, as ideias contrárias.
Os exemplos são muitos, mas vou mencionar apenas três.
O primeiro é a ideia de que devemos tudo fazer para ter uma sociedade igualitária — sem que
qualquer das pessoas empenhadas em tal coisa faça a mínima ideia de como justificar a opinião de
que uma sociedade igualitária é melhor do que uma que não o seja. A bibliografia sobre o tema é
desprezada com a atitude típica dos ignorantes: é como se não existisse.
O segundo exemplo é a ideia de que toda a gente é culta, sendo proibido dizer que uma pessoa é
inculta se não sabe ler, não faz a mínima ideia do que é o Sol nem que existe um sistema solar, e
nem sequer tem noção da dimensão do planeta Terra nem da história da humanidade. Deste singular
ponto de vista, toda a gente é culta porque ter cultura é ter costumes: uma manobra semântica mais
ou menos equivalente a dizer que toda a gente é rica porque “rico” passou a querer dizer “digno de

Deveria ser desnecessário dizer que. até porque nem sequer se sabe consultar documentos científicos sobre o estado ecológico do planeta. esta atitude está longe de ser epistemicamente virtuosa. se uma pessoa vive numa sociedade maioritariamente cristã. Para não fazer confusões é preciso não esquecer que o termo “dogmático. A ideia é que é arriscado levar a sério a hipótese de estarem erradas as ideias feitas que aceitamos sem razões. sem que no entanto se faça a mais pálida ideia dos indícios a favor de tal coisa. Em particular. a favor da qual o combatente não tem qualquer justificação ponderada. O termo foi usado por alguns filósofos cépticos. Não porque as ideias veementemente afirmadas sejam falsas — penso que algumas são verdadeiras — mas apenas porque quem as afirma tão veementemente não dispõe de justificações adequadas para pensar que são verdadeiras.” O terceiro é o dogma ecológico: a ideia de que “o planeta está doente” (notável expressão). Assim. filósofos perfeitamente antidogmáticos. Combater dogmas torna-se assim um dogma: uma atitude impensada e veemente. nada tem a ver com o sentido popular actual do termo. poderá ser bastante mais dogmático quanto à inexistência de Deus do que Tomás de Aquino era quanto à sua existência — porque este tem vários argumentos bem pensados a favor da existência de Deus. ser antidogmático seria. além de nada se saber da história da humanidade nem do planeta. deste ponto de vista. que significa parecer. A palavra portuguesa “dogma” é de origem grega. como os próprios cépticos faziam. Na história da humanidade. Todos estes casos. quem as afirma tão veementemente tem como principal objectivo silenciar quem pensa o contrário e portanto impedir a discussão ponderada das razões a favor e contra as suas ideias preferidas. para descrever os filósofos que defendiam teorias sobre vários assuntos. no mínimo. por sistemas educativos deficientes e por autores bombásticos mas falhos de raciocínio cuidadoso e articulado. Mas não é realmente um metadogma porque em muitos casos o que se combate não são dogmas.” tal como era usado por Kant ou pelos cépticos gregos. alguém que nunca estudou detidamente os argumentos contra e a favor da existência de Deus. Um dogma era apenas algo que parecia verdadeiro. a origem de muitas das suas desgraças não está apenas na imoralidade elementar e infantil de considerar que os meus interesses. Que isto é uma ilusão deveria ser óbvio: pois uma pessoa que acredita em Deus pode não ser dogmática se tiver justificações adequadas para isso e não aderir desproporcionalmente à sua crença. são considerados dogmáticos nessa enganadora terminologia. digamos. por serem meus. XVIII em alguns textos de Kant. estudo e argumentação cuidadosa é um passo . são mais importantes do que os dos outros. afirma-se ideias a favor das quais as pessoas que as defendem não dispõem de justificações minimamente adequadas — até porque se trata de pessoas cuja mundividência é na sua quase totalidade formada pelo que ouvem dizer na rua e pelo que vêem na televisão. ao invés de argumentarem infindavelmente a favor da impossibilidade de se saber seja o que for. e uma pessoa ateia pode ser dogmática se não tiver justificações adequadas para isso. declarar a morte de Deus. há três mil anos. Assim. Assim. Originalmente. como parece o caso de Nietzsche. porém. porque toda a atitude falha de ponderação. Na verdade. são exemplos de dogmas. e que nunca justificou a sua descrença. articulada e adequada. a falta de ponderação e a pura tolice estão em pé de igualdade como causas das misérias humanas. como Aristóteles. e segundo essa classificação. o termo era próximo de dokein. pois poderemos descobrir que estão mesmo erradas. de modo que não se sabe sequer se o planeta está hoje mais ou menos “doente” do que. fingir que se luta contra os dogmas quando na realidade se cultiva a expressão imediatista de sentires imponderados é duplamente perverso: por um lado. sob a aparência de se estar a combater dogmas. Não sei se esta confusão terminológica está na origem da ilusão de que ser antidogmático é ser do contra. O uso do termo neste sentido grego ocorria ainda no séc. e muitos outros. Deste modo. o que hoje provoca confusão — pois parece que a única maneira de não se ser dogmático é parar de estudar as coisas e ser céptico.consideração e respeito. É defensável que a ignorância. são apenas ideias de que não se gosta porque se foi cegamente treinado para isso pelos meios de comunicação. ao mesmo tempo que adere veementemente ao seu ateísmo.

Tudo isto implica estudo. Não é. e é preciso usá-la cuidadosamente. Em sociedades muito inseguras. aprender. segundo os seus prosélitos. A imagem paralela desta situação é a circunstância epistémica em que ficam muitas pessoas depois de ler filósofos supostamente antidogmáticos. A aposta de Pascal é neste caso clara: mais vale crer. A sedução retórica impede o pensamento crítico com bastante mais eficácia do que o édito papal ou o Santo Ofício. a argumentar com proficiência. que é precisamente o oposto da afirmação de sonoros slogans publicitários. esforço e honestidade intelectual. a pensar rigorosamente. Frases feitas. A única maneira de real e honestamente lutar contra os dogmas é cultivar a análise cuidadosa de ideias. a argumentação ponderada e a teorização pormenorizada. Mas é muitíssimo mais promissor — e tem a vantagem não negligenciável de não ser uma mentira. mais fácil nem mais atraente. Isto tem o efeito real de a simples hipótese de deixar de crer em Deus aterrorizar a pessoa de sociedades muito inseguras — pois as consequências podem ser muito graves. antes de mais. E para crer é preciso crer com muita convicção e sinceridade. porque bloqueia a verdadeira luta contra os dogmas. pois. caso contrário podemos ser apanhados em falso. e depois ensinar. é algo arriscado não crer num Deus que. em que a mortalidade infantil é altíssima. a teorizar minuciosamente e com precisão. por outro. Lutar contra dogmas é. à primeira vista. teorização paciente e minuciosa e consideração de alternativas — tornam-se obstáculos epistemológicos à luta contra os dogmas. tantas vezes disfarçados de aforismos supostamente profundos. Uma das características capitais da fé de Abraão — ainda que talvez não de todas as fés — é tratar- se de uma atitude que tem no seu próprio seio mecanismos para impedir a dúvida e portanto a possibilidade de defecção. inibe-se obviamente de ponderar cuidadosamente as razões e de adaptar a força das suas convicções aos argumentos disponíveis. não vá o diabo — ou Deus — tecê-las. a fome e a doença são intermitentes e uma pessoa com 45 anos é uma anciã. conhecimento das bibliografias. Lutar contra dogmas não é afirmar as ideias em que já cremos. pois mesmo que nenhuma boa razão a pessoa tenha para crer que Deus existe. toda a suposta luta contra os dogmas incompatível com isto é pura mentira. do que a imagem do rebelde social que debita slogans sonoros. aforismos bombásticos e rendilhados frásicos inspiradores não servem senão para impedir a análise cuidadosa de ideias e argumentos. Torna-se um obstáculo epistemológico ao combate ao dogma. castiga quem nele não crê.na direcção da miséria humana. porque somos falíveis e cometemos erros. Porque esses filósofos instilam uma desconfiança na “razão” — leia-se: análise cuidadosa de argumentos. Pois não há outra maneira de lutar contra os dogmas a não ser usando a razão. Desidério Murcho . se tiver a sorte de lá chegar.