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O Jardim que a ausência permite

Uma leitura da obra Amigo e Amiga de Maria Gabriela Llansol

Rui Pedro Vasconcelos Bíblia, Espiritualidade e Cultura (Doutor José Tolentino Mendonça) UCP | Curso de Doutoramento em Teologia | Janeiro 2017

«Eu sempre sonho que uma coisa gera, nunca nada está morto.

O

que não parece vivo, aduba.

 

O

que parece estático, espera.» 1

«

lembrei-me (

)

que era necessário falar com intrepidez para os que ficavam, e do lado

dos que ficavam, da experiência abusiva da morte. Quem tinha decidido que eu deveria sofrer aquilo? Mas decidir sofrer aquilo

sou eu.» 2

O presente trabalho insere-se no âmbito de um curso semestral com o título Bíblia, Espiritualidade e Cultura e tem como pano de fundo os exercícios de leitura literária da Bíblia e auscultação teológica das expressões literárias. O seu movimento é por isso recíproco: por um lado, o levantamento do vocabulário bíblico eventualmente presente numa obra literária; por outro, o exercício de leitura e escuta da experiência espiritual presente nessa obra 3 . O escrito escolhido para esta análise consiste no livro Amigo e Amiga curso de silêncio de 2004 de Maria Gabriela Llansol; após uma abordagem à marca e originalidade da escrita de Llansol, o nosso trabalho procurará destacar duas dimensões nos quais se desenrola este curso, tentando discernir as suas ressonâncias bíblicas: ausência e parasceve.

1 Adélia Prado, Tudo o que existe louvará, Lisboa 2016, p. 17 2 M. G. Llansol, Amigo e Amiga curso de silêncio de 2004, Lisboa 2006, p. 16. Os itálicos são do texto original. 3 A. Spadaro fala de discernimento cultural evangélico para referir este trabalho de reconhecimento da criatividade literária e poética como acção do Espírito no mundo. Ver A. Spadaro, O Batismo da Imaginação, Lisboa 2016, p. 33

1.

Em torno da obra de Maria Gabriela Llansol 4

A escrita de Maria Gabriela Llansol representa certamente uma das mais originais e paradoxais entre as surgidas nas últimas décadas em Portugal: a sua leitura, difícil, exige um esforço de compromisso e ao mesmo tempo de ausência (de ideias, preconceitos, esquemas de pensamento), que nos recorda, em certos traços, uma teologia negativa ou apofática. A sua obra pede uma leitura não-neutra ou sequencial, dramática, expressa pela figura do legente como tipo de leitura que entra em comunhão com o texto. A escrita de Llansol faz a passagem de um mundo-objecto (passivo, dominável através de um discurso lógico, apto a uma acção masculina de catalogação-domínio), a um “Alguém-mundo”, o contexto de uma epifania, de um encontro vivencial e sensível 5 . Para Mourão,

«Talvez a principal novidade desta Obra assente nas intuições fulgurantes com que, fora do “atalho das representações” ou “fora da luz comum”, nos mostra o Aberto e a Dobra do mundo, na ordo amoris com que o faz, movida pelo prazer

de “ver

almas crescendo”.» 6

Encontramos em Llansol uma obra que desperta para os sentidos do quotidiano, dos objectos, do corpo. A escrita está na apreensão e experiência destes sentidos, numa emergência de vida por entre os processos de real. A obra de Llansol situa-se fora do comum e das representações mais comuns, apresenta-se como um encontro de amor com o leitor/legente na captação dos excessos, do mundo como Aberto e Dobra (não encerrado nem plano). Hélia Correia exprime também esta dimensão de abertura da obra de Llansol: de um modo diferente face à ficção, Llansol propõe mediante uma escrita de fragmentos uma aprendizagem das capacidades e sentidos de escuta e acolhimento do que a realidade nos oferece. Tal aprendizagem implica um sentido novo para o leitor/legente, uma abertura à bondade, à demissão de todas as formas de defesa, de violência e de domínio; estaremos longe da linguagem cristã da conversão e da experiência espiritual?

«O trabalho, que é um trabalho intenso e, certas vezes, de exigência cruel, está todo feito. Fê-lo a Maria Gabriela para nós. É um trabalho de abertura e captação, de cérebro, de ouvido e de bondade, sendo a bondade o órgão dos sentidos que permite o maior conhecimento. Pois eu não sei chamar senão bondade àquilo que liberta deste esquema tão empobrecedor do pensamento que nos confina na porção de tempo e espaço, de conexão exclusivamente

4 Seguimos, neste apartado, a reflexão de J. A. Mourão, “Maria Gabriela Llansol: coisas radicais, coisas de textos”, in Chão de Signos, São Paulo 2011, pp. 121-133

5 J. A. Mourão, “Maria Gabriela Llansol”, p. 121

6 J. A. Mourão, “Maria Gabriela Llansol”, p. 122

humana, que o adulto tomou por existência. E, se não trabalhassem certas mãos, nunca o outro contacto se faria. Se não cobrisse esta Mulher com a sua tinta o universo que deixámos de apreender, um grande encontro havia de falhar.» 7

Trata-se de uma “escrita do desassossego”, não dando tréguas a uma leitura superficial ou anestesiada 8 (recorde-se o Livro do Desassossego de Bernando Soares). Encontramos em Llansol uma escrita de criatividade, de laboratório, que não se limita

a um rígido esquema narrativo ou de uma linearidade discursiva fechada (um texto que cresce com o leitor, na expressão de Gregório Magno).

É possível aproximar-nos da escrita de Llansol através da seguinte reflexão de Michel

de Certeau sobre a experiência mística e a sua identificação com as vozes excluídas de

uma escritura canónica:

«Desde el siglo XIII, es decir, desde que la teología se profesionalizó, los espirituales y los místicos reconstruyen el desafío de la palabra. Es así como quedan desplazados del lado de la 'fábula'. Se solidarizan con todas las lenguas que todavía hablan, marcadas en sus discursos por la asimilación al niño, a la mujer, a los iletrados, a la locura, a los ángeles o al cuerpo. Insinúan por doquier algo 'extraordinario': se trata de las citas de voces - voces cada vez más alejadas del sentido que la escritura ha conquistado, voces cada vez más cercanas al canto o al grito-. Sus movimientos atraviesan una economía escrituraria y parecen agotarse cuando ésta triunfa. La figura pasajera de la mística aún nos interroga sobre lo que nos queda de la palabra.» 9

Com Llansol somos desafiados a reconstruir a palavra, através de expressões habitualmente não reconhecidas a da criança, da mulher, dos anjos e do corpo, do

pobre, figuras muito presentes nos seus escritos. Passamos do âmbito do sentido para

o do canto, do grito, do fragmento, do quotidiano, pedindo a construção por parte do

leitor/legente de um espaço de silêncio em relação a preconceitos, ideias pré- estabelecidas e formas de pensar. Será o mesmo exercício exigido ao discípulo que se aproxima das Escrituras?

A própria escrita fragmentária de Llansol presente de modo evidente em Amigo e

Amiga constitui uma janela para a condição fragmentária da vida humana, dispersa

por entre experiências, quotidianos, feridas e epifanias. A construção do texto e a sua leitura representam um caminho de elaboração de uma narrativa, de um sentido que unifique essa pluralidade fragmentária do real, sem a abafar ou diluir numa ficção

imposta:

7 Hélia Correia, "Entre as coisas vivas" in VV.AA., O Livro das Transparências, Sintra 2007, p. 5

8 J. A. Mourão, “Maria Gabriela Llansol”, p. 123

9 Michel de Certeau, La fábula mística, Madrid 2006, p. 22

«Sou pobre. Ficar tão pobre desorienta-me, neste caudal de sentimentos de

é essa a

linguagem. É isso, a língua sente a perda da língua companheira

descoberta do dia. Quem não sente esse contacto directo

é repulsivo para o silêncio.» 10

ficciona. Ficcionar

Maria Gabriela Llansol nasceu em Lisboa em 1931. Formada em Direito, viveu na Bélgica entre 1965 e 1984, onde fundou com Augusto Joaquim (seu companheiro de uma vida e o primeiro e mais próximo intérprete), uma escola pedagógica. Seria também na Bélgica que teria início, com o Livro das Comunidades, uma obra com 26 títulos. Na nota biográfica publicada na edição brasileira de Um falcão do punho, é realçado o carácter inclassificável da obra de Llansol face às representações dominantes do género do romance e da ficção. Trata-se de uma escrita sob o signo da ruptura, da forma não-linear e não-sequencial, nas “cenas-fulgor”, no fragmentário e na manifestação e transformação da realidade como um Vivo 11 .

Encontramos na sua escrita “territórios de risco: a “restante vida”, os “perigos do poço”, o “ponto voraz”. A criação de Llansol pode ser recebida como uma pedagogia ou iniciação a uma sabedoria de vida atenta às suas manifestações frágeis: da natureza, dos objectos, do outro, dos afectos. É a aprendizagem de um corpo como espaço de bondade: «Tenho a experiência de trabalhar o espírito feito corpo no nosso corpo» 12 . Ao legente é pedido a entrega do seu corpo, o deixar-se transformar ou envolver pelo processo de configuração da escrita:

«Penso muito intimamente para quem lê

Exponho-nos. Mas, se quem pensar não der o seu corpo,

o que pensará?» 13

os legentes, desejo.

O espanto provocado por um texto paradoxal conduz o leitor à interrogação, e não a

uma passiva recepção própria de uma actividade de lazer; a leitura conduz à interrogação, e esta a um esforço ético de bondade. Assim, os textos de Llansol são, na expressão de João Barrento, lugares de passagem, «de uma voz que os gera (os

leitores/legentes) para um corpo que os recebe 14 ». Podemos estabelecer o paralelo com as parábolas de Jesus?

O livro Amigo e Amiga curso de silêncio de 2004 surge na experiência da morte de

António Augusto nesse ano. Trata-se de um texto formado por 181 breves capítulos mais uma adenda, interligados sob a forma da anadiplose, em que cada fragmento se

10 Amigo e Amiga, p. 26

11 M. G. Llansol, Um falcão no punho, São Paulo 2011, p. 149

12 Amigo e Amiga, p. 115

13 Amigo e Amiga, p. 19

14 João Barrento, “O Livro das Transparências – quase uma paráfrase”, in O Livro das Transparências, p.

18

inicia com a última palavra ou frase do anterior processo que poderia corresponder, nas medievais “cantigas de amigo” ao “leixa-pren” 15 . Amigo e Amiga, segundo a síntese de João Barrento, é «o livro de uma perda e de uma ressuscitação a caminho da transparência da luz, do desespero e do reencontro» 16 . Não obstante o seu traço auto-biográfico, o livro recebeu em 2007 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o que revela bem o seu carácter pluriforme. Nas palavras da Autora:

«Estes fragmentos, curso de silêncio de 2004, estão desprovidos de um elo lógico. Eles contêm a maior experiência de dor de uma mulher existente. Serviram de matéria de ensino oral sobre a ferida de morte nas escolas do vale e o aberto silêncio envolvente; uma pequena aluna disse a outra pequena aluna que estudava o que tem sete dobras, ou sete láminas, num nevoeiro claro.» 17

Surge a questão: qual o sentido de efectuar um trabalho de leitura de Amigo e Amiga no âmbito de uma unidade curricular de teologia bíblica? Uma exegeta norte-

americana, Kathleen E. Corley, defende a possibilidade de que o núcleo originário dos relatos da Paixão e das aparições do Ressuscitado se insira no contexto das lamentações funerárias rituais exercidas por mulheres, e não a partir de uma liderança comunitária formada por varões. A memória narrativa da vida do defunto e os banquetes comunitários realizados em sua memória (dois processos nos quais as mulheres desempenhavam um papel-chave) estariam na origem da experiência de encontro com o Ressuscitado. Os relatos da Paixão e do túmulo vazio não seriam elaborados num ambiente de escribas, mas poderiam conter uma lamentação oral

mais

antiga, protagonizada por mulheres 18 .

Para Maria Zambrano, a escrita representa uma defesa da solidão em que se vive 19 . Afirmação paradoxal: a exposição pela escrita a um leitor representaria a procura de uma comunhão. Mas a escrita exige a fidelidade a um silêncio, a uma solidão na qual o autor cria um texto que se torna independente de si. O Curso de Silêncio é precisamente este mergulhar numa solidão, para dela emergir a consciência de uma nova presença.

15 João Barrento, “O Livro das Transparências”, p. 15

16 João Barrento, “O Livro das Transparências”, p. 14

17 M. G. Llansol, Amigo e Amiga, p. 35

18 Ver K. E. Corley, Maranatha: Ritos funerários de las mujeres y los orígenes del Cristianismo, Estella

2011.

19 M. Zambrano, A metáfora do coração e outros escritos, Lisboa 1993, p. 37.

2.

Ausência e silêncio: a atracção do invisível

«Se o teu coração fala silêncio, fala com a sua águia. E descodificamos a ausência porque é assim o silêncio descodificado da morte leve que leva à transparência a dor com que eu escrevia» 20 .

«A palavra voltar-se-á para o que parece ser o seu contrário e mesmo inimigo:

o silêncio. Quererá unir-se a ele, em vez de o destruir. É 'música calada', 'solidão sonora' (João da Cruz), bodas da palavra com o silêncio» 21 .

Para João Barrento, no Curso de Silêncio assistimos a uma «transmutação da dor e da perda em silêncio e escrita, em silêncio de escrita, e depois em diversas formas de silêncio, num ser-d’espanto que sobre-vive olhando para o mundo e procurando entender-se nele» 22 . O silêncio atravessa na obra de Llansol uma dimensão corpórea e simbólica: não se trata apenas de ausência de palavras e de comunicação, mas representa a abertura a um sentido novo. O silêncio abre o espaço para o escrito, para a geração de um texto que conduz a autora a uma percepção nova da realidade que a envolve (os objectos domésticos, os livros que pertenceram a Augusto Joaquim e que já não serão folheados e inquiridos). A entrega silenciosa ao texto abre paradoxalmente o círculo fechado da dor e do luto, perante a recusa a permanecer-se nestes. Podemos comparar este processo com o caminho das mulheres rumo ao túmulo, para nele encontrarem a revelação de que o Senhor não está ali (cf. Jo 20, 1-

18)?

O silêncio parte da experiência da dor, da fissura introduzida no mundo pela morte. Nele brota a pergunta fundamental: «eu quero saber mais do mundo para onde irei» 23 . É a pergunta escutada na relação, e que inicia um primeiro princípio de reconstrução dessa mesma relação. «Eu preferia que ele tivesse dito: ‘eu quero permanecer na terra, à superfície da árvore’. Mas aceitei» 24 .

«No nosso caso, a perda era um amor crescendo, à semelhança do que fora uma

a árvore do silêncio que

alma crescendo, no interior de um texto já escrito (

não era (eu sentia) o reverso da árvore da vida. ‘Meu amoroso silêncio’, disse,

pulsando» 25 .

)

20 Amigo e Amiga, p. 136.

21 M. Zambrano, A metáfora do coração, p. 45.

22 João Barrento, “O Livro das Transparências”, p. 17.

23 Amigo e Amiga, p. 31 e 42

24 Ibidem.

25 Amigo e Amiga, p. 15. Os sublinhados são do texto original.

João Barrento realça como em nenhum outro livro de Llansol se diz tão insistentemente ‘eu’ como em Amigo e Amiga 26 . Trata-se de um relato fortemente biográfico, de lidar com uma perda (uma ‘decepação’ na linguagem do texto: a morte

do ser querido afecta o próprio corpo da Autora, recordando-nos Génesis 2,24). A Autora mergulha num exercício de escuta dos sinais, ritmos e silêncios do seu espaço

e do seu quotidiano, anteriormente habitados por Augusto Joaquim e agora órfãos da sua ausência.

«Surgiam na linha do horizonte, como mendigos a pedirem tardias desculpas por terem roubado, e não implorado o que me perturbava contundentemente -,

o

silêncio alvo,

o

silêncio quente,

e o silêncio mudo. Cada um deles trazia para mim, em linhas gerais que só a subtileza destrinçava a ausência. 27 »

A Autora lança-se na escrita, não de uma narrativa autobiográfica, mas na criação de

um universo figural contemplado no quotidiano. A ausência assume-se paradoxalmente como um trabalho: é um exercício, uma opção consciente, um caminho ou itinerário. «Através do trabalho da ausência, do luto, do vazio, sempre pulsional, não é o silêncio a manifestação de um indizível?» 28 .

A escrita é um instrumento de ressuscitação, de abertura da memória e emergência de uma figura: o silêncio é fecundo. Quem pede “dá-me de beber”? É quem pede para ser escrito, o rosto do homem, que pede “sem voz”, com um sentido do silêncio – como no capítulo quarto do Evangelho de João, onde o Messias conduz o diálogo mas quem o escreve é a comunidade, mediante o testemunho da Samaritana e dos discípulos. O Ressuscitado pede, segundo João Barrento, para escrever a sua eternidade. A escrita, o texto, é uma busca sem fim: a sua leitura é infinita, tece com novos laços ou fios, novas palavras procuradas num dicionário, a relação que se rompeu e se perdeu na dispersão; trata-se de reunir os sinais, de configurar um encontro novo e diverso.

«tantos frutos tem ‘feliz’ na sua morte, / que a sua consolação é o seu nome. / O

sem frases, paradoxal,

descomunalmente amigo da mulher sentada sobre o dicionário. De sentidos

sobrepostos, recolho-me nele (

natureza é uma pessoa de silêncio». 29

ficar à espera reparando até que ponto a

tempo do silêncio da consolação é uma delícia

)

26 João Barrento, “O Livro das Transparências”, p. 17.

27 Amigo e Amiga, p. 155

28 J. A. Mourão, “Os rostos do silêncio” in Didaskalia xxxix (2009)1, p. 125

29 Amigo e Amiga, p. 151. Os sublinhados são do texto original.

«O enigma de não ser inteira» 30 . P. Beauchamp sugere que o desejo amoroso é em si mesmo um estado de sonolência, um corpo abandonado: tal excesso de liberdade e dinamismo é expresso de modo transparente pelo poema, cujo desejo cria a presença. 31 A ausência de um corpo amante abre paradoxalmente o espaço para uma escrita rememorativa, para a procura de um tempo de consolação: a dada altura, a Autora declara “basta” ao encerramento da dor, entrega-se à ausência e ao silêncio dos livros que não voltarão a ser folheados e inquiridos. Tal entrega abre os ouvidos para a escuta de uma presença nova, através da memória e dos símbolos domésticos e quotidianos.

«Assisti à doçura da sua morte. O que me rompe o coração de estrelas. Traçando os pés, a síntese do seu rosto estava completa. Sempre tive uma tendência para estudar, por escrito, o nascimento. Agora, experimentalmente, estudo a morte que se apaga em escrita. Escrita nossa. ( ) Simultaneamente, a ausência de dor cresce, mas é como um enleamento de alegria num lugar sombrio e húmido. O meu próprio corpo que, na impotência, se desvanece.» 32

A ausência tem um lugar na economia da experiência cristã: as mulheres e os

discípulos encontram o túmulo vazio, experiência da qual se possibilita o encontro com o Ressuscitado. O risco e a coragem de enfrentar a ausência, a experiência do invisível, conduz à convicção de que “ele não está ali”, de que “não há mortos, há apenas incógnitas”. Encontramos na escrita de Llansol uma leitura sofrida do enigma e do sem-sentido da morte, e da ausência do companheiro que se torna o Nómada, o não fixado num espaço e num tempo. Não poderemos apontar algo de similar à

experiência de luto das mulheres e dos discípulos em Parasceve, no dia de preparação

da Páscoa?

Michel de Certeau ajuda-nos, mais uma vez, a compreender esta experiência de ausência como acontecimento fundante do Cristianismo, como “rutura instauradora” 33 . A ausência do corpo do fundador abre espaço, paradoxalmente, a um corpo comunitário (dos discípulos) e a um corpo escriturístico (os evangelhos e o cânon neo-testamentário). O fundador desaparece, e não deixa qualquer tipo de regra ou testamento: a re-leitura da sua vida conduz os discípulos a uma experiência plural impossível de ser retida numa só formulação. Dá-se um interdito e um entredito. Nas palavras de Llansol, a perda transforma-se num amor crescendo.

30 Amigo e Amiga, p. 107

31 P. Beauchamp, El Uno y el outro testamento: cumplir las Escrituras, Madrid 2015, pp. 159.163

32 Amigo e Amiga, p. 36

33 Cf. Michel de Certeau, "La Ruptura Instauradora", in La debilidad de creer, Buenos Aires 2006, pp.

121-229.

Não é evidente que a obra Amigo e Amiga seja escrita nos traços e passos dos relatos evangélicos sobre o encontro com o Ressuscitado: as referências, na nossa opinião, são muito escassas. Nem será esse o objectivo e o interesse do livro/curso. A dolorosa experiência de desvanecimento de um corpo impotente converte-se no estudo da morte em vez do nascimento, ou como novo nascimento. O invisível, a ausência não afasta nem atormenta: é espaço e convite a uma nova convivência com os objectos do real, dos livros às pequenas figuras e imagens que decoram a sala da casa de Sintra, tal como será, para os discípulos, o encontro com a memória das palavras, parábolas e gestos, do pão partido e repartido.

3. A passagem ou Parasceve

«Entre duas, ou mais folhas, o Nómada fala de mim:

‘julga que precisa de companhia, quando o que precisa é de matéria figural para transformar.’» 34

«Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor.» (Ct 8,6)

Vemos surgir no texto personagens e nomes já conhecidos de outros livros de Llansol:

João da Cruz, o cão Jade, as beguínas, Ana de Peñalosa. A figura de João da Cruz é particularmente significativa para a nossa leitura, pois trata-se do percurso da “noite escura” do silêncio e da ausência e, ao mesmo tempo, o “cântico espiritual” que o amigo canta ao seu amado. Infere-se aqui como a experiência amorosa transporta consigo uma dimensão de sofrimento e de angústia: o outro pode-nos ser retirado, o «noivo lhes será arrebatado». Amor e morte seguem unidos pela sua dimensão insaciável: pedem e procuram o absoluto.

«na leitura do Cântico pela manhã basta reparar na profusão dos seus vocativos como a língua se expande e se objetiva em torno do facto incompreensível de o amor ser tão insaciável como a morte, uma morte dando a morte à outra.» 35

34 Amigo e Amiga, p. 49 35 M. G. Llansol, Onde vais drama-poesia?, Lisboa 2008, p. 147

O surgimento de uma carta revela uma passagem essencial:

« é como chegar à porta para aspirar a manhã, e concluir que a própria

torrente de linguagem é o barqueiro do sentido que corre pelo silêncio das

palavras. Quando escrevo, navego entre o meu corpo e o Outro

e outra margem. Mas o Outro é também o teu corpo, sobretudo o d’Ele. Eis por que não há mortos e há incógnitas.» 36

entre uma

Hélia Correia refere como o dom da escrita – a “torrente de linguagem” – e o universo em simpatia representam as armas marcadamente femininas pelas quais é possível “coser a fissura” aberta pela morte; tal escrita converte o corpo num corpo de escrita, ou corpo a escrever, cujo começo de narrativa se dá no próprio gesto de se levantar e de começar o dia 37 .

A passagem:

«Ouço-o escrever, na folha de leitura permeável ao vento:

Esta árvore é um metrosideros. Eu estou bem.» 38

«Uma carta para ensinar a curar, ao mesmo tempo contrastada e simples, de uma simplicidade que completa, sedenta de movimentos que se troquem. Era fico bem.» 39

O elo não se quebrou. Uma escrita a caminho da luz e da transparência. A descoberta

de que tanto a morte como a vida não se encontram nos lugares onde as conhecemos

e as supomos 40 . A chegada de uma carta possui o efeito de tranquilizar, numa

expressão fundamental: «estou/fico bem». Não é possível o toque, o retorno à relação anterior, como o Ressuscitado junto de Maria Madalena; mas permanece a certeza

possibilitada por uma confiança insinuada, oferecida pelo anjo presente em tudo.

«Nómada ausente, resta o jardim da ausência; que este seja o jardim que a ausência permite; continuou a oscilar o ramo de linguagem, minha espera é o jardim da ausência, devo atenção às jovens flores preteridas que são a imagem de um ocultamento o seu. No concreto das horas, sempre um espelho a fender-se em fragmentos frágeis.» 41

36 Amigo e Amiga, p. 103

37 Hélia Correia, "Entre as coisas vivas", p. 7

38 Amigo e Amiga, p. 159

39 Amigo e Amiga, p. 171

40 J. A. Mourão, Quem vigia o vento não semeia, Lisboa 2011, p. 261

41 Amigo e Amiga, p. 177

Amigo e Amiga surge-nos, de certo modo, como uma re-escrita do cântico maior, onde a procura da união se entrecruza com a constante ausência do amado. O próprio amado surge, no texto, a dirigir-se à sua amiga: as palavras, recebidas como fechadas, pedem para ser abertas e para unir aqueles que foram separados pela lei da morte.

«Amiga, Nenhuma palavra é poética. Nenhuma. (Nem o verbo ser.) Tudo é hermético pelos que vieram antes de nós. Amiga, Queres vir abrir comigo algumas palavras (só as que forem suficientes para continuarmos juntos Não gostam de ser utilizadas E sem elas morremos sós.» 42

)

A composição do texto representa, finalmente, o desejo de despertar o amado, adormecido no quarto ao lado, até já não estar presente.

«Compor um texto, meu Deus, sem a tua presença ao lado, do outro lado do corredor, pouco a pouco, tornou-se-me menos difícil. Simplesmente, o texto a compor fazia

mais barulho, como se eu quisesse acordar-te ficares presente no quarto ao lado.» 43

para

Para João Barrento, o texto oferece à autora e ao legente a matéria para ler o mundo e descobrir-lhe a beleza. Não se trata de um sistema de pensamento, de uma utopia ou uma ideologia de redenção e de esperança na morte; trata-se, antes, de procurar e aceitar um desvio no modo habitual de pensar e de viver, caminhando na percepção do intenso e do belo que se dá nos elementos, nas relações e em nós próprios 44 . A abertura a um mistério («abriram-se-lhe os olhos») permite uma percepção nova dos processos que norteiam a vida. A escrita de Llansol não afasta do real através de uma ficção ou de uma ideologia: pelo contrário, ajuda o leitor a mergulhar na realidade de um modo inteiramente novo, acolhendo o simbólico e o silente que é proposto e recebendo através dos sentidos de bondade e de gratidão. A. Nómada (nome que recorda o movimento de Abraão) revela-se assim como um modo de viver e de encontrar o real.

42 Amigo e Amiga, p. 38. A comparação é estabelecida por Fernanda Abreu, O devir poético do amor:

margens de silêncio e escrita em Maria Gabriela Llansol, Belo Horizonte 2012, p. 33ss

43 Amigo e Amiga, p. 16

44 João Barrento, “O Livro das Transparências”, p. 34.

Interlúdio

A leitura da escrita de Llansol representa uma aventura arriscada: a passagem pelo

texto suscita um conjunto de intuições e aberturas difíceis de sistematizar, na mesma medida em que abrem novos horizontes. Mais difícil se torna do ponto de vista de uma leitura no âmbito da teologia e dos estudos bíblicos: mas haverá um ponto de contacto, uma ressonância, uma referência, por tangente que seja?

A conclusão não é fácil. Retomando a intuição de Michel de Certeau, a linguagem

marginal da mulher, do pobre e da criança representam um som frágil e ténue aos ouvidos de uma teologia escriturística e profissional: a escrita de Llansol no caso que nos ocupa, o livro Amigo e Amiga propõe-nos uma textualidade diferente, frágil, assente na experiência de uma mulher marcada pela dor da perda e pela busca de um sentido novo do real através da escrita. Mas não poderá ser, de certo modo, esta a experiência da jovem comunidade cristã - representada nas mulheres que se dirigem ao sepulcro - que tenta exprimir, de um modo frágil, biográfico e simbólico, a nova e encantadora realidade divina presente no jardim pascal?

«Entre as coisas vivas, a que mais aprecio é a ressuscitação das coisas mortas, dar-lhes o lugar no eterno retorno do mútuo que elas merecem.» 45

«Como não podia comunicar-lhe isto de viva voz, e face-a-face, e precisava de um ouvido concreto, lancei esta confidência às águas do Curso de Silêncio que certamente há-de encontrar alguém legente que saiba do que falo quando me refiro ao ruah, e ao espírito de encanto das operações divinas» 46 .

Bibliografia

Adélia Prado, Tudo o que existe louvará, Lisboa 2016 António Spadaro, O Batismo da Imaginação, Lisboa 2016 Fernanda Abreu, O devir poético do amor: margens de silêncio e escrita em Maria Gabriela Llansol, Belo Horizonte 2012 Hélia Correia, "Entre as coisas vivas" in VV.AA., O Livro das Transparências, Sintra 2007 João Barrento, “O Livro das Transparências – quase uma paráfrase”, in O Livro das Transparências José. A. Mourão, Chão de Signos, São Paulo 2011 “Os rostos do silêncio” in Didaskalia xxxix (2009)1 Quem vigia o vento não semeia, Lisboa 2011 K. E. Corley, Maranatha: Ritos funerários de las mujeres y los orígenes del Cristianismo, Estella 2011 Maria. G. Llansol, Amigo e Amiga curso de silêncio de 2004, Lisboa 2006 Um falcão no punho, São Paulo 2011 Onde vais drama-poesia?, Lisboa 2008 Maria Zambrano, A metáfora do coração e outros escritos, Lisboa 1993

45 Amigo e Amiga, p. 141

46 Amigo e Amiga, p. 244

Michel de Certeau, La fábula mística, Madrid 2006 La debilidad de creer, Buenos Aires 2006 Paul Beauchamp, El Uno y el outro testamento: cumplir las Escrituras, Madrid 2015