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CONTEÚDO

PROFº: NETO
06 Estrutura Política na 1ª República
A Certeza de Vencer GE230408

E
sse período da história da República foi marcado pelo domínio política, os latifundiários passaram a influenciar na criação de leis que
político e social de uma oligarquia* que estava essencialmente beneficiavam a proposta federalista de República. O Brasil passou a se
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ligada ao latifúndio cafeicultor da região sudeste, principalmente chamar República Federativa do Brasil e ficou definido que o país
São Paulo e Minas Gerais. Ligados aos dois principais partidos garantiria a autonomia dos estados diante do poder do presidente.
políticos republicanos, o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido As disputas tornaram-se cada vez mais conflituosas, a ponto
Republicano Mineiro (PRM), esses latifundiários chegaram a controlar de Deodoro ter sido obrigado a renunciar à presidência após curtos sete
quase todos os níveis da política brasileira. meses de ter assumido efetivamente o governo. Sucedeu-o em novembro
A oligarquia agrária cafeeira era um grupo muito coeso e de 1891, o militar Marechal Floriano Peixoto em decorrência da tentativa
articulado politicamente que chegou mesmo a criar uma série de de Deodoro em reforçar o seu poder, tentando restaurar o já extinto
mecanismos de controle político que se estendia desde a esfera federal, Poder Moderador imperial. Floriano, embora fosse militar e positivista,
passando pelos governos estaduais e finalmente chegando mesmo até o na prática não ofereceu grandes resistências aos projetos dos civis
nível dos pequenos municípios do interior do país, aonde os coronéis se cafeicultores. Muito pelo contrário, seu governo foi envolto em uma série
esforçaram principalmente para controlar o processo eleitoral. de conspirações dentro das próprias forças armadas que o impediram de
construir uma vigorosa oposição aos latifundiários.
*Oligarquia: governo formado por pequeno grupo de pessoas pertencentes a um
A revolta dos marinheiros (Revolta da Armada), as lutas entre
mesmo partido ou família. Esse grupo se perpetua no poder, impedindo a
maragatos e pica-paus do Rio grande do Sul (Revolta Federalista) e a
alternância no governo por meios autoritários e antidemocráticos.
insurreição social dos marinheiros (Revolta da Chibata) praticamente
A base desse poderio esteve assentada principalmente na paralisaram qualquer ação política de unificação/centralização que
influência política e social dos “coronelões” do interior do país. A relação viesse do presidente. A República estava em perigo e cabia ao
de interdependência que se formou desde os presidentes oligárquicos e governante apresentar uma solução viável para o país. Dessa forma, a
governadores estava sustentada por um mecanismo que se mostrou ser presidência de Floriano acabou atrelada ao principal projeto que todos os
quase infalível durante grande parte da história política nacional: o republicanos defendiam, independentemente de suas ideologias
coronelismo**. Esse fenômeno político e social de grande importância políticas: o da consolidação do novo regime. Na realidade, a “República
para a história da República merecerá uma abordagem bem mais da Espada” representou um momento de crises que ameaçavam o recém-
detalhada de nossa parte nesse capítulo. O objetivo central da discussão inaugurado regime e, em virtude disso, um período de indefinições de
sobre essa unidade é compreender os mecanismos de controle e instabilidades internas. O novo regime começou realmente a ser definido
dominação construídos por esses grupos oligárquicos durante o início com a sucessão de Floriano, quando um civil, o primeiro da história da
de um regime que foi bastante definido como sendo “democrático”. República, assumiu a presidência: Prudente de Morais (1894-1898).
Durante mais de 36 anos, esses latifundiários praticamente definiram os Iniciava-se aí a chamada “República das Oligarquias”.
rumos da nação. Mas como conseguiram fazer isso? Essa pergunta você
3- A REPÚBLICA OLIGÁRQUICA E A BASE DE SEUS
deverá responder ao fim do nosso estudo.
MECANISMOS DE CONTROLE: O CORONELISMO (1894-1930):
**Coronelismo:. tipo de dominação que se caracteriza pela presença de um chefe A posse de prudente de Morais representou o principal
político, o coronel, geralmente um grande proprietário de terras. Ele controla o rompimento na novíssima República. Com ele subiram ao poder todos
eleitorado da região por meio de favores e intimidações. os ricos e poderosos latifundiários de todo o país que procuravam,
desde a proclamação, um espaço para comandar a nação.
2- A FARDA CONTRA A CASACA: A REPÚBLICA DA ESPADA Nesse momento, o Estado brasileiro passou a estar atrelado aos
(1889-1894): interesses das áreas rurais do país. A política exercida no interior passou
O desrespeito à Constituição no Governo a, praticamente, determinar a estrutura política nacional. No poder dos
Deodoro. latifundiários dos municípios estava o centro giratório das principais
Apud. Bóris Fausto. História do Brasil, p. 250. relações de poder que passaram a caracterizar a república oligárquica.
Vejamos isso mais de perto.
O movimento que foi responsável
pela queda política da monarquia e pela *Coronel: patente militar atrelada à Guarda Nacional imperial. D. Pedro I, na
proclamação da República foi composto época das independência, transferiu parte do poder do Estado para os influentes
senhores de terras do interior do Brasil, para exercerem a função da vigilância e
por, pelo menos, três grupos que se opunham ao Estado imperial. Das
manutenção da ordem social em meio a um contexto de crescentes revoltas e
três facções que criticavam o governo, somente duas encabeçaram
insatisfações populares.
diretamente a proclamação: os oficiais do Exército (positivistas) e os
fazendeiros paulistas (federalistas). O outro grupo, os “jacobinos”, que 3.1- A questão do clientelismo:
propunham um regime popular baseado em um liberalismo radical foi
As oligarquias agrárias iniciaram seu processo de dominação
marginalizado do movimento que culminou com a parada militar do dia
através da utilização de um tipo de poder construído na época imperial.
15 de novembro de 1889, que marcou simbolicamente o fim do período
Esse poder foi vulgarmente chamado pela historiografia de
imperial. Entretanto, após a proclamação formal, as propostas
Coronelismo. Quem eram os coronéis*? Eram donos de vastas
republicanas que formaram-se ao longo das discussões políticas entre
extensões de terra do interior do país. Durante a Primeira República os
militares e fazendeiros passaram a causar uma série de choques entre os
coronelões estavam concentrados principalmente na região nordeste e
dois grupos. Isso é fácil de compreender na medida em que os oficiais
possuíam um sólido esquema de dominação sobre os habitantes da
militares defendiam uma proposta centralizadora para o Estado
região chamado de clientelismo.
(ditadura) com ênfase em um processo de industrialização e os
Essa prática fora construída no campo nordestino desde os
cafeicultores do PRP que pregavam uma estrutura descentralizada em
tempos coloniais e tinha sua lógica baseada em uma intensa troca de
que o Estado fosse o mediador da autonomia dos estados da Federação.
favores entre os coronéis e seus agregados (trabalhadores das
2.1- Os gabinetes da “República da Espada” (1889-1894): fazendas), sendo que entre esses dois sujeitos existia uma série de
relações de interdependência que permaneceram no tempo até a
As duas posições conflituosas começaram a colidir com a luta
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República. O agregado tem o dever de servir o coronel em variadas


entre o gabinete provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891) e a
Assembléia Constituinte que fora composto por latifundiários dos tarefas, desde a ajuda nas plantações até apoio nas possíveis disputas de
PR’s. As hostilidades tornavam a administração do presidente muito terras que eram freqüentes no interior do país. Em troca o coronel
difícil, pois buscava-se, acima de tudo, manter o novo regime vivo e dispensava um tratamento de proteção em vários sentidos ao agregado,
escapar às investidas de grupos políticos que ainda teimavam em além de ceder-lhe um pedaço de terra para desenvolver um plantio
recompor a monarquia. O primeiro grande momento de aparição da próprio dentro da fazenda.
oligarquia agrária foi na Constituição de 1891. Com grande influência

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Em muitos casos, essas relações clientelistas de interdependência enfrentar os poderoso coronéis era, por vezes, selar mais um espaço no
entre coronéis e agregados eram transformadas em relações de cemitério. A República, portanto, passou a ser uma extensão do poder
parentesco, quando os agregados permaneciam por gerações nas rural. Será que mudou muita coisa em relação à política imperial? Essa
fazendas dos coronéis ou quando os dois grupos sociais selavam a pergunta é facilmente respondida se olharmos para os grupos
aliança familiar através do batismo dos filhos dos agregados. Dessa dominantes dos dois regimes e constatarmos que eram todos
forma, os coronéis passavam a ser “padrinhos” daquela criança e latifundiários exercendo o poder do Estado em benefício de interesses
daquela família e os agregados passavam ser seus “afilhados”. Essa particulares,
relação foi denominada pelos estudiosos do coronelismo como
4- O CONTROLE A NÍVEL ESTADUAL: A “POLÍTICA DOS
compadrio. Na realidade, as relações coronelistas no interior do país
GOVERNADORES”
eram bastante baseadas nesses antigos e profundos laços culturais que
Além das formas de controle eleitoral exercidas a nível
acabavam formando uma outra forma de família baseada no compadrio
municipal, as oligarquias também desenvolveram um interessante
e no clientelismo. O coronel, em muitos casos, era definido como um
mecanismo de dominação visando monopolizar os governos estaduais
“pai” ou “padrinho” de toda uma região e tinha sob sua “proteção”
da federação. Essa política ficou conhecida vulgarmente como política
milhares de pessoas que, em troca, reconheciam e respeitavam sua
dos governadores e foi desenvolvida primeiramente no governo do
autoridade. É a partir dessa lógica que o coronelismo transformou-se em
presidente Campos Sales (1898-1902).
suporte de poder político das oligarquias que dominaram o país até 1930.
Essa política foi fruto das necessidade das elites cafeeiras de se
3.2- As formas de dominação política dos coronéis: adaptarem ao momento de crise econômica que atingiu a produção de
Os laços culturais que uniam há muitos séculos os grupos que café e as exportações do produto desde a década de 1880. A “grande
faziam parte da hierarquia de poder nos campos do país começaram a depressão” que atingiu a Europa entre 1873-1896 praticamente fechou o
ser ampliadas, na Primeira República, para formas de dominação mercado externo para o café brasileiro e era preciso armar um
políticas direcionadas para manter nas diversas esferas de poder uma mecanismo parta minimizar os prejuízos internamente.
maioria de representantes do latifúndio. Coma subida ao poder de Uma das soluções urgentes tomadas foi o fechamento das
Prudente de Morais, as oligarquias latifundiárias de todo Brasil alianças políticas entre as variadas oligarquias estaduais e possibilitar
passaram a definir diretamente os destinos da nação. A República sua aproximação com o poder federal. Nesse sentido, as elites agrárias
tornou-se um apanágio dos senhores de terras. Entretanto para manter especialmente da região sudeste do país passaram a construir uma
essa estrutura funcionando em favor das elites agrárias, os latifundiários relação mais próxima visando o monopólio dos governos estaduais para
necessitavam controlar mais efetivamente o processo que podia lhes tirar facilitar medidas presidenciais para favorecer os interesses oligárquicos.
o poder: as eleições. Uma troca de apoio político foi selado entre a presidência e
os governos estaduais, em que os governadores apoiavam o presidente
É nesse sentido que os coronéis tornaram-se a base de
em seus projetos garantindo a maioria de parlamentares indicados ao
efetivação do poder oligárquico pois tiveram a importante função de
congresso nacional e, em troca, o presidente liberaria generosos
determinar a eleição de representantes do latifúndio para a estrutura
recursos financeiros para os governadores estaduais.
política nacional (governos municipais, governos estaduais, congresso
Essa negociação ainda foi intermediada pela Comissão
nacional e presidência da República). Dessa forma, os coronéis passaram
Verificadora de Poderes, que consistia em um grupo de parlamentares
a usar sua influência social nos municípios para sempre buscar eleger
oligárquico que tinham a função de selecionar os parlamentares vindos
candidatos favoráveis à continuidade da política oligárquica em todo
dos estados para conseguir formar a maioria no congresso. Dessa forma,
país. Mas como intervir nas eleições? Podemos dizer que a própria
as oligarquias sempre teriam em suas mãos o poder estadual, legislativo,
organização das eleições** políticas brasileiras naquele momento
executivo e municipal, isto é, toda a estrutura política da República.
favoreceram o domínio oligárquico. As eleições embora fossem “diretas”
Essas formas de dominação foram muitas vezes direcionadas
(ver quadro acima) eram abertas, ou seja, os votantes definiam a votação
para recuperar a decadente economia do café, que não parava de
na frente das principais autoridades da região: o juiz, o padre e, acredite,
acumular prejuízos desde a proclamação da República. Tal foi a
o próprio coronel.
oportunidade de intervir pela primeira vez na economia para favorecer
**Eleições na Primeira República: pela Cosntituição de 1891, ficou os interesses dos cafeicultores com o Convênio de Taubaté (1906),
definido que a república seria representativa e baseada em eleições quando o s estados cafeicultores (São Paulo, Minas Gerais e Rio de
diretas e universais. Ficavam excluídos minorias sociais como os Janeiro), mesmo contrariando o presidente Rodrigues Alves, acabaram
analfabetos, as mulheres, os religiosos e os praças-de-pré (soldados de forçando compra do excedente de café não exportado pelo Estado
baixa patente). Federal (União) e pelos estados não produtores de café. Esse foi um
exemplo de árias práticas políticas e econômicas que visavam fincar os
Por outro lado, os coronéis desenvolveram formas de controle
interesses oligárquicos no país.
eleitoral que passavam pela lógica da garantia da vitória de seus
5- A CONTRADIÇÃO DA REPÚBLICA: O “CAFÉ-COM-LEITE”
indicados ao poder político. Podemos destacar pelo menos três formas
“Política do café-com-leite” é o nome dado ao monopólio
de controle político do coronelismo nesse momento:
político sobre a presidência da República feito principalmente por dois
● Voto de Curral ou Curral Eleitoral: consistiu em uma forma de
estados: São Paulo e Minas Gerais. Essa política originou-se de um
controle do voto baseado na persuasão do coronel sobre seu “rebanho”
acordo, uma negociação feita entre os dois mais fortes partidos políticos
de eleitores que eram transportados em grandes grupos para a comarca
republicanos, o PRP (Partido Republicano Paulista) e o PRM (Partido
de votação e lá passavam a noite em meio a festas e presentes dados
Republicano Mineiro) feita em 1913 na cidade mineira de Ouro Fino. O
pelos coronéis/padrinhos para garantir o voto do curral para o
PRP e o PRM representavam as oligarquias mais influentes do país, pois
candidato do latifúndio;
eram provenientes das elites cafeicultoras que largaram na frente para
● Voto de Cabresto: forma de controle eleitoral baseado na intimidação
controlar a política nacional.
e na força que era exercida pelos coronéis sobre os eleitores dissidentes,
Essa política tinha como principal objetivo evitar que outras
isto é, que se negavam a votar no candidato do “padrinho. Essa pressão
oligarquias ascendentes naquele momentos chegasse à presidência, como
dava-se na mesa de votação, pois o voto aberto possibilitava a
era o caso do estado do Rio Grande do Sul, que desde o início do século
fiscalização direta do coronel, e também fora dela através da figura do
XX crescia em importância econômica através da produção para o
capataz ou “jagunço”, que persegui e ameaçava o votante com
mercado interno.
promessas de “viagem” para sempre;
Dessa forma, o “café-com-leite” serviu como uma forma de
● Voto de Caixão (fraudes): esta forma de controle do voto baseou-se na
definir os presidentes previamente às eleições e executar um
violação das urnas eleitorais sempre com o intuito de acrescentar votos
revezamento no poder federal: ora um presidente paulista, ora um
ao candidato do latifúndio. Muitas vezes, as votações recebiam o
mineiro, sempre através de indicações dos presidentes predecessores. A
estranho acréscimo de votos de pessoas que já haviam morrido, pois os
união dos dois estados cafeicultores foi tão sólida que parecia um
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coronéis utilizaram as listas dos necrotérios e cemitérios da região parta


casamento perfeito; combinavam-se tão bem quanto o café com o leite e
reforçar a eleição de seus candidatos. Parece brincadeira, mas o voto de
permaneceram na presidência, com relativa tranqüilidade, até 1930.
caixão foi largamente usado para definir eleições municipais, estaduais e
até presidenciais durante a Primeira República.
Dessas três formas, a estrutura política nacional sucumbiu ao
domínio desonesto e permanente das minorias latifundiárias do país.
Ficou muito difícil escapar desses mecanismos de dominação porque
FAÇO IMPACTO – A CERTEZA DE VENCER!!!