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Seminário de P Andamento

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resumos

Catalogação na Publicação Serviço de Biblioteca e Documentação Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

S471r

Resumos do Seminário de Pesquisas em Andamento PPGAC/USP (3.1 : 2015 : São Paulo)

Resumos do 5º Seminário de Pesquisas em Andamento PPGAC/USP / organização: Charles Roberto Silva; Daina Felix; Danilo Silveira; Humberto Issao Sueyoshi; Marcello Amalfi; Sofia Boito; Umberto Cerasoli Jr; Victor de Seixas; – São Paulo: PPGAC-ECA/USP, 2015.

v.3, n.1, 205 p.

Resumos apresentados no Seminário, realizado de 8 a 11 de setembro de 2015, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Escola de Comunicações e Artes/USP.

ISSN 2318-8928

1. Teatro – Seminários 2. Teatro – Pesquisa I. Universidade de São Paulo. Escola de Comunicações e Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.

CDD: 792

COMISSÃO ORGANIZADORA DO SEMINÁRIO DE PESQUISAS EM ANDAMENTO PPGAC/USP

Comissão Organizadora Charles Roberto Silva Daina Felix Danilo Silveira Humberto Issao Sueyoshi Marcello Amalfi Sofia Boito Umberto Cerasoli Jr Victor de Seixas

Professora Responsável Profa. Dra. Elisabeth Silva Lopes

Realização Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas

Diagramação e Impressão Canal 6 Editora

Periodicidade

Anual

e Impressão Canal 6 Editora Periodicidade Anual Escola de Comunicações e Artes Av. Prof. Lúcio Martins

Escola de Comunicações e Artes Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443 Cidade Universitária – São Paulo – SP

REALIZAÇÃO

REALIZAÇÃO APOIO PATROCÍNIO

APOIO

REALIZAÇÃO APOIO PATROCÍNIO

PATROCÍNIO

REALIZAÇÃO APOIO PATROCÍNIO

Convidados

PENSANDO SOBRE PESQUISA EM ARTES DA CENA 1

Marília Velardi Universidade de São Paulo

Como pesquisadora, eu fui formada enquanto me sabia educadora e quando esta me parecia uma tarefa para a qual a pesquisa deveria estar a serviço. Amorosidade reflexiva, olhar e escuta atentos, conversa e diálogo foram princípios, não posturas, mas aquilo que devia nortear meu olhar para o mundo das escolas e práticas de ensino. Mais, o meu olhar deveria ser dialógico se eu quisesse fazer pesquisa que estivesse a serviço do outro. Eu não sou artista, não mesmo. Mas se o convívio com as pessoas das artes pode trazer-me algo ao longo da minha carreira – e trouxe e tem me trazido muito –, uma das coisas foi o resgate da amorosidade reflexiva e da escuta atenta às agruras e alegrias da vida na arte e, por consequência, das inquietações que transpiram aqueles que desen- volvem suas pesquisas mantendo as suas identidades como artistas, assim mesmo, sem suspensão, enquanto fazem seus estudos acadêmicos. Escutar, acolher, trazer à tona os dilemas daqueles que querem continuar sendo quem são enquanto são também outros e outras tem sido a minha tarefa voluntária. Sou educadora, mas com as vestes de pesquisadora não me vejo hoje noutro lugar, senão na- quele de quem questiona os dilemas de quem os tem. E investigar as experiências do ser artista que pesquisa na pós-graduação brasileira é, talvez, um dos grandes desafios que me proponho fazer. Lado a lado, pensando junto, sem ser um, eu consigo construir refle-

xões coletivas, elucubrar, formular questionamentos coautorais

O que eu falo nas linhas

que seguem são escritos que partem daqui e de onde tenho estado, ouvindo e sentindo os reclames e silêncios daqueles que fazem pesquisa acadêmica no campo das Artes. Os dilemas da construção da pesquisa acadêmica no campo das Artes trazem con- sequências importantes para os cursos de pós-graduação e para a produção científica. Não é rara a crença de que é necessário “cientificizar” o fazer artístico ou mesmo de que é fundamental reverter as experiências dos artistas/pesquisadores para uma linguagem academicamente normatizada, para que a pesquisa em artes cênicas seja configurada.

1 N. do E.: Na edição de 2014 do SPA a professora Marília Velardi foi convidada para tratar (na pales- tra que conferiu no encerramento do evento) das especificidades e desafios da pesquisa em Artes desde o ponto de vista da metodologia científica, ocasião em que defendeu a necessidade das artes produzirem metodologias próprias que respondam às necessidades e especificidades da área.

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O fazer artístico é, muitas vezes, amarrado em “camisas de força” epistemológicas para que se configure como pesquisas e, como tal, atenda às características de construção de conhecimento próprias ao meio acadêmico. Eu tenho conversado muito sobre isso com os meus alunos artistas e com os artistas com quem trabalho, meus companheiros da companhia de ópera. E tem ficado claro que muito daquilo que é considerado como norteador da pesquisa acadêmica está alicerçado

– e, porque não dizer, encarnado em cada um – nos modelos científicos de construção do conhecimento e de busca da verdade. Ao buscarmos reconhecer o sentido da pesquisa científica, é importante revisitarmos

a ideia do método científico como forma de operação mental em busca da verdade. Esse

conceito, forjado e cunhado ao longo dos séculos, é provavelmente um dos mais impor-

tantes assuntos do nosso tempo. Vivemos, de certo modo, sob a hegemonia da Ciência como forma universalmente válida de conhecimento sobre as coisas, uma vez que é quase senso comum o fato de que o acesso à verdade científica trará à luz aquilo que o mundo é. Mais do que isso, pela ciência vencerás, venceremos! Intimamente os artistas e pesquisadores acadêmicos, inquietos que são, relativizam tudo isso, aceitando essas frases como postulados historicamente instaurados, mas advo- gam pela sua contextualização. Não querem render-se ao método científico “tradicional”,

Mas será que isso é o suficiente para pensa-

acreditam que devam agir de outros modos

rem de outras formas quando buscam construir conhecimento, no momento em que se debruçam a pesquisar na universidade? Aqui, neste ponto, coloco-me como sujeito desta escrita, junto com vocês, pois a per-

gunta que quero deixar aqui é também minha: como nós pensamos? Noutras palavras, quais são os percursos do nosso pensamento quando da elaboração de uma proposta de

pesquisa

Aliada a essa questão, quais premissas norteiam aquilo que nos propomos investigar nos nossos projetos: a ideia de contribuição para a área, a tentativa de provar algo, de com-

parar, de testar? É preciso recortar, focar, encontrar e delimitar o objeto de pesquisa? É fundamental encontrar referenciais teóricos tradicionalmente solidificados e universal- mente aceitos nas ciências humanas, sociais, da matéria ou da vida para poder olhar para

o campo/área/lócus da pesquisa? É preciso rever minuciosa e atentamente tudo (ou quase)

o que já foi escrito na tentativa de demonstrar o quanto aquilo que nós faremos trará avan- ço significativo na refutação, corroboração ou modificação daquilo que já foi produzido? Como pesquisador, é preciso separar-se em vários e/ou distanciar-se do objeto para não correr o risco de interferir nos processos de investigação? Lidamos, mesmo, com objetos?

Na universidade, devemos produzir

ciência apresentada em artigos, teses e dissertações que contribuam para a área, que nos conduzam à colaboração para o bem comum. O modo de fazer isso pode ser encontrado

O conhecimento científico nos trará a verdade

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resumidamente nas questões anteriores. Essa lógica nos acompanha pari passu, pois or- ganiza a razão sobre o conhecimento no mundo em que vivemos e está, provavelmente, encarnada em nós. O nosso discurso cotidiano, o “verbo”, é de não rendição à Ciência clássica, à sua hegemonia, aos seus postulados estanques e rígidos, à sua pretensa busca pela verdade. Muitas vezes, nas nossas conversas, parece que queremos transformar a Ciência, dizendo “ela pode ser mais, pode ser outras coisas”! No entanto, talvez seja a hora de pensarmos no que (e se) queremos transformar: a Ciência, a universidade ou a nossa visão sobre a pesquisa? Talvez uma primeira transgressão seja necessária: pequena, local e íntima, sobre o nosso pensamento. Nesse sentido, é preciso considerarmos a resposta àquela questão básica posta ante- riormente: como nós pensamos? O método científico é historicamente alicerçado na ideia de que, para identificarmos a verdade, pensamos de um determinado modo. Isso nos levou, no curso da história, a tomarmos contato com os métodos indutivos, dedutivos,

Vale lembrar que, aqui, a ideia de método é o caminho

ou percurso de pensamento e ação. Muitas vezes somos impelidos a formular nossos projetos e pesquisas, construindo hipóteses ou formulando problemas com base numa forma de pensamento que não se relaciona à nossa forma de inquirir a realidade. Em áreas nas quais o pensamento cien- tífico pode ou não ser adequado às investigações ou, noutras palavras, onde a pesquisa científica e os métodos clássicos não são hegemônicos (ou não deveriam ser), a pergunta inicial prévia a todo projeto de investigação deveria ser “como eu penso”? Vejam que aqui eu mudei o sujeito da questão: saí da terceira pessoa do plural posta nos enunciados ante- riores e assumi a primeira do singular. Isso demonstra que, em princípio, no princípio e por princípio, talvez seja necessário assumir o protagonismo e a autoria da investigação. De quais maneiras articulo o meu pensamento ou quando olho, observo, reflito ou ques- tiono as experiências? Em seguida, pensando desse modo, será possível compreender, traduzir, explicar, testar, trazer à tona aquilo que me instiga? Por onde devo começar? Por um mergulho no campo das experiências ou pelo olhar sobre aquilo que já foi feito? Nesse tempo, deveria surgir outra questão: qual é a teoria e qual é o lugar da teoria numa pesquisa acadêmica no campo das Artes? O clássico modelo de investigação científica nos apontará para a necessidade de revisarmos o conhecimento construído sobre a nossa temática ou assuntos adjacen- tes a ela antes de iniciarmos a investigação. Desse modo, não correríamos o risco de reinventarmos a roda. Essa preocupação singular e recorrente na pesquisa parte da premissa de que, se a roda já tiver sido inventada, não se poderia ou não se deveria fazer isso novamente. Ora,

hipotético-dedutivos, intuitivos

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por que fazer mais do mesmo? Ou você abandona essa ideia repetitiva ou, então, tenta descobrir aquilo que falta para completar/ampliar o conhecimento sobre algo já consti-

tuído. Vamos lá, contribua! E lá vem, logo na introdução, a justificativa para o estudo que

enuncia: com esta pesquisa, pretendemos contribuir com

geral, são discussões sobre achados científicos ou não. Postulados, formas de explicação,

discussão ou compreensão. Falam sobre coisas que, uma vez descobertas, não têm mais nada a trazer senão serem aplicadas para que todos tenhamos uma vida melhor. Outro tipo de teoria é aquela que nos permite elucubrar: um dia o mundo se dará conta de que é preciso um equipamento que transporte coisas pesadas de modo que te-

nhamos possibilidades de: a) pensarmos mais e melhor; b) ao nos deslocarmos, levarmos mais do que o essencial; c) ao carregarmos mais do que o básico, percebermos que o essencial é mais do que imaginávamos; d) considerando que a roda já existe, que funcio- na e que é como é, como seria se a colocássemos na parede; e) quais sentidos há para as experiências com a roda; f) criar metáforas sobre a roda Por que faço essas elucubrações? Primeiro para sabermos que não há apenas uma função para a teoria, depois porque não há apenas um ou dois tipos de teoria que possam ser agrupadas em categorias x ou z. Depois, para percebermos que o lugar e o papel que atribuímos à teoria são intrínsecos ao modo como organizamos nossos pensamentos so- bre a construção e “produção” do conhecimento. Num sentido mais amplo, é também preciso considerar que uma teoria não tem ne- cessariamente a função de, mas que as teorias permitem que. São espaços de liberdade e não regras de delimitação. Essa última é dependente da ação de quem pensa, sente, ouve, vê. Depende da ação das pessoas sobre, a partir ou no encontro com. E algumas das teorias nos dirão que, algumas vezes, é preciso, necessário, urgente e

Rodas reinventadas são quase as mesmas não sendo nem de

desejante reinventar rodas

As teorias que cabem aqui, em

perto as mesmas Os sentidos da roda, as descobertas das suas funções por uma criança é algo signi- ficativo. As experiências proporcionadas pelo transporte de coisas sobre uma superfície apoiada por rodas também. Os balanços, os não balanços, as estabilidades, os desequi- líbrios. Como trazem à tona os sentidos dessa experiência aqueles que sempre usaram a roda como meio de transporte escondido sobre as lindas carcaças dos carros contempo- râneos? Sabe, você, quais sensações podem ser suscitadas quando o seu corpo está mais próximo da roda? A mesma roda, outras funções, a mesma história contada por outras pessoas, noutros espaços, noutras durações. Tenho impressão de que, aqui, os lugares das teorias são ou- tros, distintos daqueles estabelecidos pelo método tradicional que diz que, para alcançar a verdade passível de ser generalizada, é preciso não reinventar aquilo que já foi inventado.

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Qual é o lugar da teoria? Ela nos dirá o que devemos ou não fazer ou nos inspirará a fazermos o que for preciso, segundo nossos sentidos e nossa intuição, para trazermos à tona aquilo que pede para/precisa emergir? Elas estarão listadas no texto, explicando, tra- duzindo aquilo que vemos e trazemos para o produto da investigação, ou estarão encar- nadas em nós, iluminando e ampliando nossos olhares sobre as experiências? Poderiam, ainda, estar neste dentro-fora de mim e do texto simultaneamente? Se estamos nos debruçando sobre o “o que”, talvez reinventar a roda seja um problema. Se nos voltamos para o “como”, talvez reinventá-la seja, de fato, trazer algo para a cena acadêmica. Se não forem produzidas novidades, serão trazidos à tona novos olhares, novas formas de fazer. Ecoar e vibrar junto talvez sejam estas também belíssimas tarefas para a pesquisa. Talvez o lugar da pesquisa em Artes na universidade não seja garantido pela capacidade de encontro de verdades científicas, generalizações ou mudanças de paradigmas. Talvez seja o resgate de uma vocação de não ser como os outros, de não querer aquele mesmo lugar, rompendo radicalmente, elevando às últimas consequências (e assumindo-as) o agir/pensar/fazer de outros modos; radicalizar com a noção hegemônica de que sujeito e objeto são entidades distintas, hierarquicamente separadas; opor-se à ideia de ambiente como algo estanque e a certeza de que é apenas pela ordenação “racional” do pensamento que se apoia o desenvolvimento da nossa capacidade de conhecer as coisas. Não olhar de fora, mas de dentro, não estar vendo à distância, mas observando bem de perto, sentindo e não só mirando. Não ter medo das obviedades. Não fingir que sabe não sabendo nada, mais do que algumas citações que fundamentam o que nos dizem ser certo fundamentar. Não ter receio de expor caminhos, percursos, erros e incertezas que se deslocam e se mostram para quem quiser ver e ouvir Isso é, será – e tem sido – indubitavelmente a grande contribuição das Artes para a Ciência. Ser autêntico, original, criativo. Corajoso. Ser capaz de contar histórias, ins- taurar dúvidas, proporcionar e trazer para a academia de muitas formas as experiências auráticas. Presenças, potências. Assuntos vivos nas Artes que hoje, inspirados por essa área, move cientistas e teóricos de outros campos. Findo esse texto lembrando-me de uma conversa que presenciei entre dois alunos num dia inspirador, dos muitos que tenho vivido com os alunos da pós em Artes Cênicas da ECA. Um deles sintetizou o encontro numa publicação no blog destinado à disciplina:

No final da aula de hoje o (Marcello) Amalfi nos contou de instrumen- tos de corda orientais que possuem cordas que são tocadas enquanto ou- tras não são. Elas fazem parte da estrutura do instrumento, mas estão ali só para vibrarem o som das outras. Vibram por simpatia e o vazio da sua função ecoa. Entre tantas antipatias (teses ou antíteses, teorias ou

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ausência delas) vibrar entre as linhas soa, no mínimo, mais simpático. (Samuel Kavalerski, disponível em: <http://pesquisaqualiemcena.blogs-

pot.com.br/2015/05/pensando-sobre-o-nao-dito-ontem-venho.html/>.

Acessado em 22 ago. 2015).

O vazio da ciência nas Artes ecoa mais do que a busca de adequação aos ditames científicos. Contar sobre processos e percursos singulares é assumir que esses caminhos podem elucidar sobre como pensamos, formulamos e tomamos consciência das nossas inquietações. Se a pesquisa em Artes não for científica, talvez haja por um momento um sentido de mergulho no vazio. Mas isso não a levará a perder o seu lugar na universidade. Talvez alguns egos fiquem ressentidos, mas, seguramente, haverá ecos de simpatia

Sobre a autora

É docente no programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da ECA-USP e no pro- grama de Pós-Graduação em Ciências da Atividade Física da EACH-USP. Seus estudos estão voltados para as pesquisas qualitativas em Saúde e nas Artes. No primeiro caso, os estudos se dirigem especialmente aos programas de intervenção no serviço público de saúde, na promoção da saúde e na educação para a autonomia. Desde 2006, propõe intervenções, projetos de pesquisa e investigação na área artística junto a cantores líricos, desenvolvendo meios de utilização de técnicas de Educação Somática, de Dança Mo- derna e étnica na preparação corporal para a encenação em ópera. Com esse trabalho, participou da montagem de espetáculos com o Núcleo Universitário de Ópera, sobre o qual desenvolve diversos projetos de investigação. Realiza pesquisas colaborativas com grupos do campo da Saúde Pública, das Artes da Cena e da Musicologia. Coordena o Grupo de Estudo e Pesquisa ECOAR – Estudos em Corpo e Arte, que desenvolve estudos e investigações qualitativas e radicalmente qualitativas – e o Grupo de Estudo e Pesquisa SÊNIOR.

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