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O POVO CEGO

E AS FARSAS DO PODER

O POVO CEGO E AS FARSAS DO PODER   L o u c u r a
 

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A culpa é do hipócrita, mentiroso e esperto ao contrário, que atira a pedra e esconde a mão.Estamira

PREFÁCIO

Este não é um livro de ficção, lamentavelmente. Desde o início de 2007 venho sofrendo perseguições de caráter político e diversas ameaças. Tive meu nome difamado, sofri drogadições involuntárias e tentativas de homicídio. Sabemos que tais coisas ocorreram no passado e que talvez ocorram em algumas partes do mundo hoje. Porém sempre pensamos nisto como algo um tanto distante de nossa realidade. Até acontecer conosco.

A maioria dos países tem um serviço secreto. Que propósitos tem tal atividade? Eles alegam proteger a soberania nacional e a democracia, entre outras coisas. No entanto é difícil imaginar que um governo tão corrupto esteja, ao mesmo tempo, tão preocupado em manter a democracia. A soberania nacional, por sua vez, continua sendo uma abstração sem base concreta. Basta citar o caso do nióbio – mineral absolutamente necessário para a indústria mundial. Somos o único país do mundo com quantidade significativa de nióbio e estamos vendendo este mineral a preços risíveis. O silêncio a esse respeito é total.

A grande mídia distrai a população com questões que nos chocam. Somos submetidos a sucessivos seqüestros emocionais e levados, assim, a ignorar os problemas reais – aqueles cujas soluções nos trariam mais qualidade de vida, prosperidade e paz. A mídia atribui a causa de nossos problemas ao chapéu que temos sobre cabeça e não aos pensamentos que nutrimos dentro dela. Então, compramos um chapéu novo e mais caro – e continuamos com nossos problemas.

O presente texto convida a uma reflexão sobre a justiça e o poder no Brasil contemporâneo e no mundo. A sucessão dos acontecimentos por vir darão a tônica de nossas conclusões: um sopro de esperança no futuro ou a trágica constatação de uma realidade abjeta e inexorável.

Os nomes das pessoas e instituições envolvidas foram trocados para evitar uma eventual proibição do comércio da presente obra, como já aconteceu com outro livro semelhante, a saber, “O Canto dos Malditos” de Austregésilo Carrano Bueno.

Eric Campos Bastos Guedes

Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária

O participante não deve possuir título Universitário a nível de graduação ou equivalente e deve estar matriculado em uma Universidade como estudante de graduação.

IX OIMU (2006)

Nome

Prêmio

Cidade-Estado

Rafael Daigo Hirama

Ouro

S.J. dos Campos - SP

Rafael Marini Silva

Prata

S.J. dos Campos - SP

Thomás Yoiti Sasaki Hoshina

Bronze

Rio de Janeiro - RJ

Felipe Rodrigues Nogueira de Souza

Menção

Campinas - SP

Luty Rodrigues Ribeiro

Menção

Fortaleza - CE

Luiz Felipe Marini Silva

Menção

S.J. dos Campos - SP

Eric Campos Bastos Guedes

Menção

Rio de Janeiro - RJ

Rafael Constant da Costa

Menção

Rio de Janeiro - RJ

Ilustríssimo Dr. Delegado do 77° DP Icaraí

Eric Campos Bastos Guedes, filho de Winter Bastos Guedes (pai) e Dalva Cantos Guedes (mãe), portador da CI nºXXXXXXXX-X, CPF nºYYYYYYYYY-YY, domiciliado à Rua Nem de Sá, n°422 em Icaraí, Niterói, RJ, vem por meio desta requerer registro de ocorrência e apuração pelo seguinte: ameaça de morte, calúnia e difamação (texto abaixo, postado na página de recados da vítima, no Orkut):

“Seu arrombado do caralho

Ao invés de ficar entrando em uma comunidade séria de policiais pra ficar fazendo chacota de nossas caras,porque não vai procurar um trabalho,ou algo do tipo? Filho da puta do caralho,cú de burro desgraçado! Bastardo maldito,no mínimo deve ser algum filho de alguma cadela desgraçada na vida que fica passabdo trotes para as autoridades

E digo mais,se ficar de graça com a gente,é 2 palitos eu falo com uns brothers ae no Rio e consigo seu endereço e passo você pros irmãos ae malucão,nem vem tirar que aqui é policía no baguio,se

liga ae comediagem

pra

desenrolar este barato é 2 palitos,tá avisado. ”

Nestes termos

Pede deferimento

Niterói, 7 de novembro de 2008

Tópico de Discussão na comunidade “Denúncias, Dúvidas, Direito” no Orkut

Infecção Criminosa em Clínica Psiquiátrica

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2 nov (5 dias atrás)

Infecção Criminosa em Clínica Psiquiátrica

Fui internado numa clínica psiquiátrica por motivos políticos. Não havia indicação real para uma internação, visto que eu estava calmo, lúcido e produtivo. No final da internação, como eles não tinham como me manter mais tempo preso, deram uma agulhada no meu pé esquerdo. Quando olhei para meu pé havia, no local da agulhada, uma gota de um líquido vermelho escuro. Não acreditei no que eu estava vendo e não reclamei na hora porque eu estava drogado com altas doses de anti- psicóticos e tranquilizantes. Passei o dedo por cima do ponto vermelho em meu pé. Era sangue. Desconfio que me infectaram criminosamente (talvez HIV), já que estou sendo perseguido desde 2006 por motivos políticos, principalmente depois que obtive a sétima colocação no Brasil na Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária (em 2006) sem estudar. Gostaria, em caso de confirmada a infecção, processar o hospital. Não há, no momento, nenhum teste que confirme qualquer infecção, mas preciso postar isto aqui para que fique o crime bem caracterizado. Como devo proceder?

[ eric campos bastos guedes ]

2 nov (5 dias atrás)

Boa Tarde Érico, lamento pelo que voce passou, mas uma coisa é certa, o bem sempre vence o mal! Como não há nenhuma indicação de infeccção ou manifestação criminosa, no meu entender, para deixar registrada tal situação para uma confirmação ou não de um crime, se dirija a um Distrito Policial para lavrar um Boletim de Ocorrência de Preservação de Direitos, também pode se dirigir diretamente ao Ministério Público e deixar sua denúncia lá, espero que não esteja contaminado, é o que te desejo de melhor, mas, se algo surgir após um tempo, voce já deixou registrado em dois órgãos que poderão investigar o ocorrido.

Boa sorte!

Vida pregressa

Gosto de Matemática desde os 7 ou 8 anos de idade. Naquela época abria a “Enciclopédia Novo Conhecer”, ricamente ilustrada, para me divertir tentando determinar a velocidade de translação da Terra. Essa velocidade não constava da enciclopédia, mas imaginei que pudesse calculá-la. Primeiro supus que a Terra se movia em uma trajetória circular em torno do Sol, o que não está lá muito distante da realidade. Depois supus, corretamente, que o número pelo qual eu deveria multiplicar a distância da Terra ao Sol para ter o “comprimento da trajetória” da Terra em torno do Sol era o mesmo número pelo qual eu deveria multiplicar o raio de qualquer círculo para obter o comprimento da circunferência. Partindo desses pressupostos, apossei-me de um transferidor de formato circular e medi – com grau suficiente de precisão – o valor de tal número, que estimei como sendo aproximadamente 6. Fiz isso sem saber nada a respeito da célebre constante matemática (lê-se “pi”), que expressa a razão entre o comprimento da circunferência e seu diâmetro.

Eu perguntava pelas coisas que queria conhecer e geralmente elas tinham um caráter numérico. Perguntei certa vez sobre o significado dos números que apareciam numa bússola: “Você vai gastar o fosfato de seu cérebro”, respondeu minha mãe. Interessante notar que ela era professora – e uma ótima professora, conforme sempre tenho ouvido falar dela. Já imaginaram ela numa sala de aula dizendo isso para seus alunos? “Assim vocês vão gastar o fosfato de seus cérebros”. Não é difícil imaginar porque o quociente de inteligência do povo brasileiro – em torno de 89 pontos – está próximo da imbecilidade. A boa professora dá sinais de caridade no trato com retardados que jamais alcançarão bom nível cultural, mas tolhe a inteligência do próprio filho. Minha mãe sempre foi caridosa e ensinar a imbecis é, certamente, um ato de caridade; por outro lado, ensinar ao próprio filho poderia ser visto como um tipo perigoso de egoísmo.

Por outro lado, por que um mestre se preocuparia em ensinar alguém inteligente e interessado que pudesse vir a superá-lo? Ninguém gosta da idéia de ser intelectualmente inferior a outrem – exceto quem, por mais delirante que isto possa parecer, julgue-se irremediavelmente superior a todos. E para mostrar sua superioridade, salpica umas gotas dela em pessoas próximas, humilhando as demais de modo deliciosamente dissimulado.

***

Ganhei meu primeiro computador aos 9 anos de idade. Era um TK82C, da Microdigital. Com ele aprendi os rudimentos de programação de computadores na linguagem Basic, muito popular na época. Tornei-me um programador de computadores competente para minha pouca idade. Estava sempre criando e executando programas que me permitissem investigar o mundo dos números. Também costumava jogar xadrez contra o computador – eu era péssimo, nunca venci uma só partida de meu modesto TK82C. Apesar de ser um mal jogador, gostava de jogar e ensinar xadrez a quem quer que fosse. O prazer de ensinar e aprender sempre me acompanhou.

***

Num dia de sol meu avô pegou uma corda e se enforcou. Estávamos somente eu e ele em casa. Antes de sair para o colégio fui me despedir dele e o encontrei deitado no chão de seu quarto. Supus – erroneamente – que estivesse dormindo. Tentei acordá-lo de todos os modos, sem sucesso. Fiquei intrigado: como ele poderia ter um sono tão profundo?

Naquela época eu e meu irmão Lauro fazíamos a quarta série primária no Curso São Francisco de Assis. Ao terminar a aula pediram-nos que não voltássemos direto para casa, mas que esperássemos um pouco até sermos liberados. Ao retornar do colégio, me disseram que meu avô Antônio Caxeta havia morrido. Mas não me disseram que ele havia se matado, nem que ele já estava morto quando saí de casa. Simplesmente não liguei os fatos. Disseram-me que ele falecera vítima de um aneurisma.

Meu pai morreu de modo intrigante. Muito mais intrigante do que eu poderia supor em minha ingênua infância.

Certo dia, quando cursava a 5ª série do ensino fundamental, cheguei em casa após uma surra que levei de uns valentões da escola. Bati na porta da sala, como fazia todos os dias para entrar. Nada. Bati novamente. Silêncio. De repente a porta é aberta num rompante e meu pai passa carregado numa maca, aparentemente desacordado, sendo

levado por dois enfermeiros para uma ambulância. Ao entrar em casa sou informado de que ele sofrera um pequeno mal estar. Tudo bem. Ele não parecia estar tão mal na maca. Não deveria ser nada grave, ele seria medicado e voltaria logo para a casa. Ao ver a grande quantidade de sangue sendo lavada a baldes d’água mudei de opinião. Fiquei apavorado. Minha mãe disse que fôssemos rezar para que ele ficasse bom e não morresse. Foi a primeira coisa realmente importante que pedi a Deus e sem dúvida a oração mais fervorosa que já fiz.

Uma semana depois recebo a notícia de que ele havia morrido no hospital. Minha mãe disse-me que ele havia tido uma tontura quando estava no alto de uma escada. Caiu e bateu com a cabeça num murinho, sofrendo traumatismo craniano. A tontura teria sido causada por um infarto repentino. Uma farsa, como descobri mais tarde, já adulto. De fato, num primeiro momento, ao ver meu pai passando por mim numa maca, não me alarmei: ele estava bem, não havia sangue na roupa dele. O absurdo era evidente: não havia sangue na roupa de meu pai, mas a escada que dá acesso ao segundo andar da casa era um rio vermelho. Ao comentar isso com minha mãe, anos mais tarde, ela disse:

“Eles trocaram a camisa dele antes de levá-lo, para não assustar seu irmão Lauro”. Com essa emenda a fraude tornou-se patente.

Cheguei à conclusão de que meu pai havia sido morto pela ditadura – provavelmente sob tortura. A farsa toda era para encobrir um crime horrendo, que de outro modo teria se tornado um escândalo, visto ser meu pai um ex-militar honesto ao extremo, pessoa instruída e culta ocupando posição de destaque no Ministério da Fazenda (ele trabalhava lá como farmacêutico-bioquímico). Minha mãe sabia de tudo, claro. Mas com a covardia própria dos carolas, manteve o silêncio, mesmo após o fim da ditadura militar.

Um ano após a morte de meu pai minha mãe estava com outro companheiro. Um chupim bebum, amigo de farras e de cachaça. Minha mãe então deixou de dar atenção a mim – eu tinha 11 anos – deixando minha criação a cargo de minha avó Gumercinda da Silva Cantos e de minha tia Hera Verão de Cantos. Naquela época eu passava pelas transformações próprias da puberdade que se iniciava. Não havia sequer tido a primeira ejaculação e nada sabia sobre sexo. Eu pensava que os bebês nasciam após a grande emoção da esposa com seu casamento.

***

Eu queria beijar uma garota. O nome dela era Gisele. Uma menina branca e loura, filha de uma amiga de minha mãe que morava nas proximidades. Não tinha a menor idéia de como beijá-la e não fui feliz na execução de um plano que sequer havia sido planejado. Foi meu primeiro “fora”.

Refugiei-me nos livros, onde encontrei bom material para aprender sobre coisas que julgava importantes. Na quinta série aprendi a resolver equações do segundo grau e um pouco de álgebra no livro “Álgebra I” de Augusto César Morgado e Eduardo Wagner. Nessa época freqüentei um psicólogo chamado Eduardo Nicodemos que mais tarde viria a me ajudar muito, me indicando um excelente curso de Matemática: o método Kumon.

Os livros não me impediram de me sentir em desvantagem perante meus colegas, que já conheciam as meninas na intimidade. Eu, por outro lado, sequer sabia como era o corpo nu de uma mulher. Eu nunca havia visto uma mulher nua, nem ao vivo nem em fotos. Por estranho que possa parecer, isso fez de mim um péssimo aluno e estudante, apesar de estudar mais que os outros e ter uma inteligência um pouco maior (tenho um QI de 121).

Na quinta série comecei a faltar às aulas. Perdi provas, inclusive de Matemática. Fui fazer a 2ª chamada temendo uma possível reprovação, pois havia estudado muito pouco a matéria. Ao fazer a prova, entretanto, achei tudo muito fácil. Foi uma surpresa agradável. A prova era sobre dízimas periódicas e constatei que com um mínimo de conhecimento e o uso do mero bom senso, eu podia resolvê-la toda. Passei de ano.

Na 5ª série eu nutria uma paixão por Kênia Balbi, uma estudante de minha classe. Quando estava a sós com a carteirinha de estudante dela eu a beijava loucamente – a carteirinha. Queria tocá-la. Imaginava que ela torceria o pé na saída do colégio e eu a levaria no colo até minha casa para ser tratada. Minha imaginação ia muito mais longe:

via as paredes do Colégio Saviano Santa Rosa cobertas por bumbuns femininos separados dos corpos. Eu os tocava e acariciava.

Não me julgando capaz de realizar meu intento com meninas de verdade, quis tocar estátuas, dessas que costumamos ver nos museus, despidas com as nádegas expostas. Cheguei a fazer isso quando visitei um museu na cidade do Rio de Janeiro. Eu estava obcecado.

Na 6ª série saí do Curso Saviano Santa Rosa, onde haviam me matriculado. Eu faltava quase todos os dias. Cobrava de mim mesmo um desempenho acadêmico superior, como o que eu sempre havia tido antes da morte de meu pai. A verdade é que eu estava sendo insidiosamente envenenado por drogas de uso psiquiátrico – e isso diminui o rendimento escolar, como bem se sabe. Tomei meus “remédios” durante 22 anos, sempre seguindo a prescrição médica com rigor. Até descobrir a farsa da psiquiatria, utilizada para anular indivíduos inconvenientes.

***

O psicólogo Eduardo Nicodemos me ensinara, através de desenhos, o que era a masturbação na teoria. Achei aquilo muito esquisito e totalmente sem propósito. Afinal, que benefício poderia haver em tal conduta? Eu não fazia idéia. Por vontade própria decidira que teria meu primeiro gozo com minha esposa, depois que casasse. Eu queria casar virgem.

Aos 13 anos, finalmente, descobri o que era a masturbação na prática. Numa noite eu estava deitado em meu quarto com o membro ereto, tentando dormir. Queria que meu membro ficasse “normal”, pois me sentia um pouco desconfortável com ele duro naquela posição. Como ele insistia em permanecer rijo, tentei colocá-lo na posição que considerava mais normal. Então, tentando por meu pênis numa posição que julgava mais adequada, gozei – não tinha essa intenção, entretanto. Foi algo absolutamente natural. Nunca havia sentido aquilo antes, foi ótimo. No início achava que o esperma saía da barriga, pois ela ficava sempre molhada. Não queria saber o que estava acontecendo, ou como acontecia, só sabia que me sentia muito bem com aquilo.

Após alguns meses resolvi comprar revistas eróticas. Passei a ver como as pessoas faziam sexo. Eu também queria fazer, mas não conseguia me relacionar sexualmente com ninguém. Neste aspecto fiz a mim próprio. Ninguém me ajudou.

***

Em 1987 eu cursava a 8ª série do ensino fundamental no colégio Itajuca, situado

na rua Noronha Torrezão. Entretanto, já sabia mais matemática do que os estudantes do ensino médio. Não tendo interesse nas demais matérias e não vendo mais nenhuma graça nas aulas de matemática de minha classe, expliquei isso ao diretor Simplicio – físico arrogante que pensava que era professor – e pedi permissão para assistir também as aulas de matemática das classes do ensino médio. O imbecil disse que eu poderia assistir as aulas do ensino médio depois que eu conseguisse nota 10 em todas as matérias de minha própria classe. Descartei a idéia, pois não me interessava por outras disciplinas, somente por matemática e geometria.

Tendo sido impedido de estudar o que queria, passei a me interessar por outras coisas. Eu queria muito comer uma menina chamada Marcela, uma loira descolada de cabelos curtos. Não tinha coragem ou artifício para isso, entretanto. Os outros alunos perceberam minha fraqueza e começaram a caçoar de mim. Então reagi a uma dessas provocações dando um murro na cara de um aluno.

Naquela época um viado de nome Gerlbaldo – funcionário do colégio Itajuca – se aproximou de mim. Ele me disse os maiores disparates. Disse que os tempos hoje são outros, mais liberais e que se eu decidisse sair na rua com o pinto duro para fora das calças, o melhor que ele poderia fazer seria ficar na minha frente para esconder meu orgão. Aquela conversa dele era um espetáculo grotesco, mas devido à novidade escutei o que ele dizia por algumas horas. Ele estava tão a fim de ficar comigo que me ofereceu o gabarito dos testes do colégio Itajuca. Recusei a idéia sentindo uma repulsa indescritível. No fim, quando eu já estava para ir embora, ele me chamou para ir para sua casa transarmos. Eu não quis. Ele era um velho asqueroso e degenerado que não poderia dar tesão nem num Jegue tarado. Foi constrangedor, mas pelo menos aprendi um pouco sobre como são as pessoas.

Naquela noite, em casa, fiquei profundamente angustiado. Enquanto Marcela me esnobava e dava bola para outros caras, eu era assediado por um gay.

Abandonei o colégio Itajuca.

***

Fui estudar no Colégio Lay-Dussac, no centro de Niterói. Lá conheci outra garota

que, como a anterior, chamava-se Marcela. Branca, cabelos curtos e negros, inteligente, estudiosa. Eu gostava muito dela e ela estava sempre conversando comigo sobre os livros que lia e coisas assim. Mas eu me sentia frustrado por não me sentir capaz de estabelecer uma relação mais próxima com ela, tipo um namoro. Olhando em retrospecto, percebo que era isso que nós queríamos. Ou, mesmo que não quiséssemos isto, era exatamente isto que nos faria felizes.

Frustrado, acabei bancando o imbecil. Fustigado por um outro aluno que bagunçava uma aula de geometria, tirando toda a graça dela, meti a ponta de um compasso na barriga dele. O caso foi parar na diretoria, que foi complacente comigo. Por sorte não foi feita queixa na polícia.

Marcela nunca mais falou comigo e as últimas palavras que dirigiu a mim foram:

“Cala a boca!”

Os outros estudantes passaram a cuspir em mim e a me humilhar. Sofri ameaças e não podia me concentrar nas aulas, pois eles jogavam bolas de papel em mim. Passei a me sentar no fundo da sala.

Nada disso impediu que eu tirasse a maior nota da classe na prova de matemática. Meu professor comemorou isto, escrevendo vários recados motivadores na prova, tipo “Parabéns!”, “A melhor nota!” e coisas assim. A Matemática é uma deusa, um espírito incorpóreo que está em toda parte. Ela, como qualquer outro deus ou deusa, utiliza pessoas para levar sua palavra e recompensar seus servos. Aquelas palavras não eram do professor, mas da própria deusa Matemática; do mesmo modo, o conhecimento que tenho não é meu, mas me foi dado por ela por intermédio de seu espírito.

Aquelas palavras me motivaram a continuar a estudar.

***

Quando completei 18 anos de idade, ainda virgem, meu psiquiatra, Drº Ingenio Lamir, insistiu para que eu procurasse uma sauna, lugar onde eu poderia trocar meu apoucado dinheiro pelos favores sexuais de uma prostituta. Eu não queria transar com nenhuma puta, pois tinha medo de tudo que a TV, os padres, e as piadinhas entre amigos diziam sobre elas. Naquela época interrompi temporariamente as drogas

tranqüilizantes que Lamir me receitara – haloperidol e carbamazepina – e passei a ter uma coragem que eu mesmo desconhecia. Muito excitado, acordei certo dia decidido a ter relações com alguma meretriz. Fui ao local onde, segundo Lamir, havia um prostíbulo. Mas estava fechado, provavelmente já há muitos anos. Fui até um ponto de taxis, no centro de Niterói, pois na certa algum taxista saberia dizer onde havia uma sauna. Dito e feito. Fui instruído a pegar o ônibus Nº30, descer no ponto final e me informar no hospital da polícia militar sobre o lugar que chamavam “Floresta”. Assim fiz.

Lá chegando vi uma mulher em trajes de banho e me dirigi à recepção. Uma das garotas, muito solícita, me mostrou todo o bordel. Ao terminar disse que eu poderia escolher a menina que quisesse e convidá-la para ir para o quarto. Havia uma jovem

bonita que sorria para mim oferecendo-se. Mas tive medo dela, talvez por ela ter tomado

a iniciativa. Eu queria o privilégio da escolha. Chamei outra menina, meio gordinha, que estava deitada repousando e não havia mostrado nenhum interesse por mim. Acho que ela disse chamar-se Maria. Fomos para o quarto, tomamos um banho e transamos. Meu membro nunca havia ficado tão duro. Eu a penetrei e ficamos juntos durante o tempo combinado, porém não consegui gozar. Apesar da ereção bastante satisfatória, não houve ejaculação.

Na semana seguinte retornei lá. Eu tinha voltado a tomar as drogas psiquiátricas e chamei Maria para ficarmos juntos novamente, mas parece que ela não quis muito ficar comigo não. Talvez por eu não ter gozado com ela. Então escolhi outra menina, que dizia chamar-se Amanda. No quarto, nu e duro, perguntei a Amanda: “Você beija?”. Ela respondeu: “Claro que beijo” e tomando meu vigor nas mãos iniciou uma sessão de sexo oral. Quando perguntei se ela beijava não estava pedindo isso. O que queria era beijo na boca. No início essa era minha queixa principal. Elas, via de regra, evitam o beijo na boca. Amanda ficou de quatro e tendo eu a penetrado ela foi a primeira pessoa com quem gozei. Mas a achei muito larga, parecia faltar pressão.

Retornei a Floresta na outra semana. Não vi nem Amanda nem Maria e então fiquei com uma garota chamada Mirtes, de pele branca, cabelos negros e compridos de cerca

de trinta e poucos anos e cujo apelido era “indiazinha”. Esse único contato com Mirtes foi

o suficiente para que ela não me esquecesse mais. Após alguns anos sem nos vermos, ela ainda se lembrava de mim. Mistérios do amor.

Na quarta vez em que retornei a Floresta uma negra gostosa de nome Zuleica me perguntou decidida e natural: “Vamos trepar?” Fomos. Disse a ela que queria penetrá-la

analmente. Ela me prometeu que faria isso da próxima vez que estivéssemos juntos.

Retornei ainda outra vez ao prostíbulo conhecido como Floresta. Entretanto a casa estava em obras e soube mais tarde que havia fechado as portas. Rodei a cidade perguntando a um e a outro onde havia uma sauna com meninas. Tomando as tais drogas psiquiátricas eu não conseguia mais resolver esse problema extremamente simples:

bastava perguntar a algum taxista, como eu tinha feito antes. Entretanto me sentia incapaz de fazer isso. Por fim, num bar de esquina, próximo de minha casa uns camaradas me deram a dica: pegar o ônibus Nº49 e ir até a Alameda São Boaventura, no número 250, onde havia um bordel. Foi o que fiz. Lá reencontrei Maria que me quis para ela de qualquer jeito. Mas eu queria outra menina. Entretanto ela insistiu e eu cedi. Subimos para o quarto e transamos. Gozei normalmente. No final da transa Maria sugeriu que se ficássemos uma segunda vez. Ela disse só me custaria a metade do valor. Na hora não entendi bem o porquê, mas depois concluí que ela queria tanto transar comigo que deixaria de receber a parte que lhe cabia, só para me ter na cama de novo.

Umas semanas depois retornei a 250 e Maria não estava mais lá. Fiquei com uma mulher chamada Neide. Loira, baixinha e com cara de safada. Ela foi boa para mim. Deu- me alguns conselhos, como só casar depois dos trinta anos e coisas assim. Ficava sempre com Neide, fui monogâmico por escolha. Um dia, porém, Neide foi embora. Segundo amigas ela abrira seu próprio negócio. Um bar, acho. Procurei outra garota e encontrei Fátima, uma mulher branca, de cabelos curtos e negros e um tanto magra. Passei a ficar sempre com ela. Fiz até um poema em sua homenagem. Um dia Fátima foi embora. Amigas disseram que ela foi para outro estado, na região norte ou nordeste. Novamente só, procurei outra garota que eu gostasse. Fiquei com algumas de que não gostei. Havia as que não faziam o que era obrigatório na época: o popular boquete; havia as sacanas que depois de furunfar te chamavam de viado; havia as de localização aleatória que vinham e sumiam sem que pudéssemos ter um relacionamento de fato. Decidi procurar outro bordel. Por informações que tive com os próprios freqüentadores da Alameda 250, cheguei a outro lugar, na Rua Marechal Deodoro nº160, no centro de Niterói. Fui até lá e reencontrei Mirtes que testou minha memória dizendo-me: “Meu nome é Diomara” e eu respondi: “Não, seu nome é Mirtes”. Ela se derreteu toda. Transamos. Eu pedi para penetrá-la analmente, mas ela se recusou. Desculpou-se e justificou a negativa dizendo que tinha um problema nos rins. Não a peguei mais desde então.

Maria, que me tirou a virgindade, também estava lá. Fez de tudo para ficarmos

juntos. Tentei escolher outra menina, mas elas, percebendo o interesse da companheira, se recusaram a ficar comigo. Como eu resistia a ficar com ela, Maria me disse que faria sexo anal. Foi a primeira bunda que comi. No entanto, por pouco não brochei, pois me senti pressionado, além de estar tomando várias substâncias psicotrópicas receitadas pelo psiquiatra, Ingenio Lamir. Esses remédios acabavam comigo, mas na época eu não sabia como seria a vida sem eles.

Maria tinha uma amiga conhecida com Shanna. Uma negra muito gostosa e sexy, que tinha um sorriso fácil e bonito além de beijar na boca e fazer muito bem o trivial obrigatório. Quando retornei à Marechal Deodoro 160, Maria já não estava mais lá. Aproveitei para ficar com Shanna. Foi bom. Depois disso sempre que voltava lá ficava com Shanna. Tinha por norma esperar meia hora por ela caso não a encontrasse. Foram cinco anos ótimos, de 1991 até 1996. Neste período fiquei com poucas garotas, só me interessava realmente por Shanna. Ela me disse que seu nome verdadeiro era Hilda. Nas várias dezenas de vezes que transamos nunca brochei. Ao contrário, ardia de desejo por ela. Estimo que devemos ter transado umas 120 vezes nesses cinco anos. A falta de dinheiro foi um grande obstáculo para uma vida sexualmente mais ativa.

***

Naquela época conheci um sujeito chamado Fernando. Ele era jovem, alto e forte. Eramos da mesma turma do CIN – Centro de Informática de Niterói – um curso de informática. Um dia ele me chamou para sair, iríamos ao Plaza Shopping a noite. Ele acabou me contando que era bissexual e que queria ficar comigo. Perguntou se eu era virgem. Eu disse que não, que me relacionava freqüentemente com prostitutas e que era esse meu modo de encarar o sexo. Ele me contou a vida dele toda então. Que tinha tido um menino, menor de idade, por amante; que freqüentava bacanais gays; que nestes bacanais ele era ativo, mas que uma vez, diante da insistência de outro freqüentador, havia sido o passivo; que tinha ascendência portuguesa; que sua mãe sempre lhe deu muito carinho; que tinha uma garota do CIN lhe dando bola (por sinal uma que eu queria) etc etc etc. Após uma longa conversa, já de madrugada, ele me levou ao ponto de ônibus insistindo para que eu tivesse um comportamento homossexual, que não aconteceu. Então peguei o ônibus e nos despedimos.

Não fiquei angustiado como da vez que em Gerlbaldo me cantou, no Itajuca. Dessa vez não fiquei em dúvidas quanto a minha sexualidade. Já tinha uma identidade sexual estabelecida. Eu era putanheiro.

***

Devido ao sucesso no estabelecimento de minha identidade sexual, passei a ser um excelente estudante. Não me via mais como um perdedor incapaz de transar mulheres. Em 1996 eu estava no auge de minha vida acadêmica. Estudava muito e tinha as maiores notas de toda a faculdade. Meu coeficiente de rendimento, média ponderada de minhas notas na faculdade, era de 9,72 – valor superado por menos de 5 estudantes em toda a história do instituto de Matemática da UFF. Nessa época Hilda Shanna me disse que iria se casar. O cara era um sortudo. Anos antes eu havia perguntado à Hilda:

“O que você diria se eu te pedisse em casamento?” Ela disse que não poderia viver com alguém que ganhava somente R$95,00 por mês. Este era meu ganho mensal na época, o de um monitor da disciplina de Álgebra na Universidade Federal Fluminense.

Em agosto de 1996 recebi o telefonema de uma antiga namorada. O nome dela era Cassia Cristina, e eu a chamei para vir passar um tempo comigo. Foi uma relação intensa

e

rápida, além de muito conturbada e problemática. Cassia queria toda a atenção para ela

e

seus acessos já estavam me deixando preocupado. Ficava pensando nos ataques de

Cassia durante as provas da faculdade. Eu me esforcei muito, mas foi impossível conciliar minha ambição acadêmica com as exigências descabidas daquela mulher.

Em dezembro nos separamos, cancelando nosso casamento. Logo após minha separação fui ameaçado de morte por um tenente da polícia militar, que sabia onde eu morava e me humilhou de maneira covarde. Por conta dessa ameaça a faculdade já não tinha mais importância para mim. Não me sentia mais em segurança nas ruas. Acordava sobressaltado no meio da noite, com pesadelos. Durante seis meses tive a sensação de que poderia ser morto a qualquer instante, inclusive dentro de minha casa. Tinha dificuldades para sair da cama pela manhã, me atrasava para as aulas, passei a negligenciar meus estudos. Acabei perdendo duas bolsas de estudo do CNPq, a matrícula na faculdade e nunca mais fui o mesmo. Eu me retraí completamente. Shanna havia se casado e abandonara o trabalho de garota de programa. Isso tudo foi em dezembro de

1996. Passei o natal só e profundamente angustiado. Então fiquei cerca de 30 meses sem manter relações sexuais. Depois disso tentei voltar a UFF, sem sucesso.

Lembrei do conselho que Hilda Shanna havia me dado algum tempo antes de ter tido problema com o tenente: “Eric, tem muita gente má neste mundo!” - disse ela para mim, tomada de surpresa e preocupação sincera ao saber de meus hábitos sexuais reprováveis. Seu rosto era de temor, preocupação, ao saber que eu me engraçava com mulheres que não conhecia. Jamais alguém se preocupara assim comigo. Hilda Shanna não era uma mulher comum. Era especial.

A ameaça que sofri do tal tenente corno me ensinou uma coisa. Nem toda vagabunda é honesta: algumas são mulheres de militares.

***

Em 1999 voltei a me relacionar sexualmente. Encontrei uma prostituta chamada Sílvia, mas que atendia com o nome de Priscila. Ela não beijava na boca, mas fazia sexo anal. Tinha um jeito sapeca que eu apreciava muito. Ela era uma daquelas garotas que eu sempre desejei ter na cama, nem que fosse só em sonho. Era descolada, independente, liberal e tinha um bom papo. Foi bom. Fiz um poema para ela, que transcrevo abaixo:

Será loucura ou pecado

À meia-noite ligar-te

Pra gente fazer uma arte

Pra ter você do meu lado?

Espero ansioso na sala,

Vigiando cada carro que passa,

E chega brilhando, cheia de graça,

A mulher que meus sonhos embala.

Quando Priscila vem me visitar,

À trabalho, certo, não esqueço disto,

Pego a melhor roupa que tenho e visto,

Pra logo depois ter que tirar.

Priscila, Priscila, tu és uma rosa num jardim,

Teus cabelos são como pétalas douradas

E tua pele tem o aroma de frutas delicadas

Priscila, Priscila, nunca diga adeus para mim.

Ficamos juntos muitas vezes e era sempre bom. Até que eu e minha primeira namorada, Cassia Cristina – a mulher abacaxi – , voltamos a nos relacionar. Nos casamos em julho de 2000 após ameaças, agressões e intimidações que visavam o estabelecimento de uma relação honesta e amorosa da qual apenas um de nós sairia vivo para contar a história. Demorei para entender muitas coisas. Creio que hoje tenho uma idéia mais concreta do que realmente seja um casamento.

A mídia vende o conceito de que a fidelidade é importante, quando na verdade essa idéia não somente é falsa como também perigosa. Quantas pessoas morrem vítimas dela? Quando um marido mata sua esposa ao encontrá-la com outro homem, não foi ele quem puxou o gatilho, nem foi sua mão que desferiu os golpes. Foi o conceito de fidelidade pregado pela mídia que o fez. Foi a valorização artificial da idéia de casamento monogâmico que desferiu os golpes e puxou o gatilho. Foram as ridículas piadas sobre cornos que mataram aquela mulher. O incrível é que as pessoas simplesmente não se dão conta disso. Tal coisa é obvia para mim. Afinal, ninguém quer ser corno, ninguém admite ser ridicularizado num assunto sacralizado como o amor e o casamento.

Posso dizer que uma mulher tem que ser uma semi-deusa para merecer a fidelidade de um homem. Nenhuma das que conheci até hoje mereceu isto. A maioria sequer pensa nisto. O que elas querem é dinheiro no bolso e alguém que diga que as ama. Somente uma mulher superior mereceria mais que isso. Ofertar fidelidade a uma fêmea comum é jogar pérolas aos porcos. E a esmagadora maioria das mulheres é

comum, donde se conclui que a traição não é um vício, mas um mal necessário.

Antes de casar-me, e durante muito tempo depois, eu queria ser fiel e honrar o compromisso que assumi. Eu apontava um casal idoso na rua e dizia para Cassia Cristina: “Olha. Nós vamos ficar juntos até nosso cabelo ficar daquela cor”. Só que minha mulher não pensava assim. Em 2006 ela me deixou só. Vivíamos juntos, porém não nos relacionávamos mais sexualmente. Ela preferia dormir com uma amiga chamada Grace Kelly. Essa amiga dela tinha um filho que eu estimava muito. Eu me preocupava com ele como se fosse meu próprio filho. Comprei um jogo com números para Luiz Henrique – esse era seu nome – e toda noite jogávamos. Durante algum tempo o exercício da paternidade proporcionado por Luiz Henrique compensou a ausência de Cassia. Eu estava feliz ensinando os números a ele. Mas isso durou pouco.

Quando Cassia me deixou de lado eu fiz um ultimato a ela: ou nós ficávamos juntos

ou eu procuraria outra mulher. Ela deu de ombros e disse: “Procura

durante o casamento, procurei outra mulher – uma garota de programa. Brochei. Não satisfeito, chamei uma outra menina em casa e foi ruim.

Pela primeira vez

”.

Então aconteceu algo realmente importante que mudou toda minha vida de modo definitivo.

Comecei a me perguntar o que estava acontecendo. Eu nunca havia tido duas brochadas seguidas. Meu desempenho sexual era quase sempre muito bom. Então achei a resposta: os remédios que tomei durante mais de 20 anos estavam prejudicando minha saúde. As coisas começaram a se encaixar. A faculdade que eu não terminava, minha cara de retardado nas fotos que havia tirado recentemente, meu desempenho medíocre em provas importantes. Tudo isso começou a fazer sentido. A conversa que tive com um amigo meu, Mauro, foi reveladora. Ele disse: “Onde é que você compra seus remédios? Não é na drogaria? Então taí. O que eles vendem para a gente são drogas. Tão prejudiciais quanto a maconha, só que legalizadas, com receita médica”. Eu senti que havia uma verdade importante aí, ao contrário dos demais comentários dele, sempre muito pessimistas, mas que eu conseguia refutar satisfatoriamente. Para esse comentário de meu amigo, entretanto, eu não achava uma réplica eficaz. Mauro estava certo desta vez.

***

Em 2006, ao ler um livro chamado “Seja seu Maior Aliado” (de Kenneth W. Christian), iniciei uma redução gradual da medicação. Ao mesmo tempo, decidi praticar caminhada diariamente. Minha recuperação foi notável. Participei da Olimpíada Brasileira de Matemática nesta época e obtive menção honrosa, uma colocação inédita para mim em competições universitárias de Matemática. Também fui o sétimo colocado na IX Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária em 2006, um resultado absolutamente surpreendente. Principalmente se se levar em conta que eu havia parado de estudar a anos. Porém, quase vim a falecer sem saber dessa minha conquista.

Também por conta da redução da medicação passei a me sentir muito mais atraído pelas mulheres. Certa vez uma amiga de minha esposa veio nos visitar e eu quis ela para mim. Chamava-se Neinha, era branca, magra, cabelos compridos e tinha trinta e um anos. Ela vestia shorts que deixavam seus encantos a mostra. Eu estava atraído por ela de um modo que jamais estivera por nenhuma outra mulher antes.

Certa noite, Cassia Cristina me deixou a sós com Neinha e aqueles foram os únicos minutos de minha vida em que me senti verdadeiramente vivo. Eu disse que ela era linda, percebi que ela sabia o que eu queria. Então Neinha começou a se sentir cansada e meio adoentada, como se perdesse as forças. De repente.

Cassia arrumou o colchonete para ela no chão da cozinha. Eu estive vivo. Neinha doente e eu cada vez com mais saúde. Tive uma ereção fabulosa, mas minha esposa estragou tudo. Cassia ia se encontrar com Grace Kelly naquela noite e queria que eu ficasse em casa. Por mim tudo bem, desde que Neinha também ficasse em casa. Ela já estava deitada, repousando, e assim que Cassia saísse, poderíamos brincar um pouco. Se Cassia podia sair e fazer novas amizades, eu também tinha este direito. Teríamos um casamento aberto, então. Cada um tratando de resolver sua vida e encontrar outros amores. Teria sido o paraíso. Mas Cassia estragou tudo.

As pessoas são engraçadas. Elas traem, mas não admitem que o parceiro o faça. Foi uma confusão dos diabos. Naquela noite Cassia e eu acompanhamos Neinha até o ponto de ônibus. Depois Cassia disse para que eu voltasse para casa, pois ela iria sair com Grace Kelly e com Sue – o travesti da casa ao lado. Mas eu me recusei a voltar para casa. Cassia Cristina não podia acabar com minha noite e me deixar só. Foi me dando murros e socos enquanto caminhávamos sem rumo pelas ruas de Icaraí. Ela me xingava

enlouquecidamente, dizendo os maiores disparates. Dizia que todos me chamavam de doido e louco pelas costas e que tinham medo de mim. Foi um escândalo. As pessoas que nos viam ficavam constrangidas, perplexas e curiosas. Depois que chegamos em casa, Cassia me disse: “Quem dormir primeiro, morre”. Preferi levar a ameaça a sério. Fui para meu quarto e tranquei a porta. Ela forçou a entrada, mas ao perceber que a porta estava trancada, foi dormir. No dia seguinte, acordei bem cedo e decidi que não poderia mais viver com alguém assim.

Sabendo que seria difícil pô-la para fora de casa, li um livro chamado “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu. Foi muito útil e consegui botar Cassia Cristina para fora. Porém não segui como devia as instruções do livro e ela voltou.

Então, supostamente com a ajuda de Hera Verão – minha tia solteirona – Cassia espalhou pela vizinhança as piores mentiras a meu respeito e, com a ajuda de minha mãe, conseguiu fazer com que eu aceitasse uma internação.

E assim começa toda a história.

A AGÊNCIA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA COMO EXECUTORA DE HOMICÍDIOS CONSENTIDOS PELA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

ERIC CAMPOS BASTOS GUEDES: TESTEMUNHA

Em abril de 2007 fui internado na Clínica de Repouso Santa Serafina, em São Gonçalo/RJ por minha mãe Dalva Cantos Guedes e por minha namorada Cassia Cristina Monteiro Yang. Os motivos que as levaram a me internar são questionáveis. Eles parecem estar ligados à venda das casas que meu falecido pai adquiriu em vida. Essas casas situam-se uma ao lado da outra, nos números 422 e 424 da Rua Nem de Sá, em Icaraí – Niterói – RJ. Minha mãe afirma que fez uma promessa de compra e venda para uma mulher de nome Norma, que viria a comprar a casa número 424. Mas Norma desistiu da compra e minha mãe fez uma promessa de compra e venda para um travesti cabeleireiro que ora ocupa a casa nº424. Esse travesti, segundo minha mãe, pagou R$20.000,00 como promessa de compra e venda da casa 424. Eu recebi 25% deste valor – R$5.000,00 – que foi a parte que me cabia. Do restante, R$80.000,00, jamais vi um tostão. Minha progenitora afirma que estamos esperando o alvará do juiz que ainda não

liberou a venda da casa 424. Ela me mostrou um papel que indica que o pedido de alvará já foi e voltou das mãos do juiz umas 75 vezes. Apesar de ter visto este papel, hoje me questiono se o dinheiro já não foi pago, sem que eu ficasse sabendo de nada. Há bastante tempo o hospital Cardiocentro quer comprar as casas desse lado do quarteirão. O último que se negou a vender foi Heráclito, dono de uma eletrotécnica próxima. Ele sempre disse que não venderia de jeito nenhum. Certa vez o Cardiocentro pôs o lixo hospitalar em frente ao estabelecimento de Heráclito. Ele pegou o lixo e jogou no estacionamento do hospital. Heráclito morreu de um ataque cardíaco fulminante, ainda jovem.

***

Não tenho certeza, mas ao que parece, elas – minha esposa, minha mãe e sua irmã – espalharam mentiras a meu respeito. Isso me fez, meses depois, recordar o livro “O Processo” de Franz Kafka, que logo no início diz algo como: “Certamente espalharam mentiras sobre Josef K., pois naquela manhã não fora acordado para o desjejum pela senhoria, como de costume, mas sim por dois homens vestidos com jaquetas e calças compridas com vários bolsos e fivelas.” E de tal sorte foram as injúrias contra mim que na rua, em plena luz do dia, gritaram em minha direção, a uma distância segura e covarde: “VIAAAAAAAAADO!”. Eu tentei ignorar, mas percebi que outras pessoas se sobressaltaram, escandalizadas. Este tipo de coisa começou a me perturbar. A verdade é que eu não havia dado nenhum motivo para ser vítima de uma injúria dessas, proclamada aos berros em plena luz do dia. Por que alguém faria isso?

***

Em março de 2007, certa noite, minha mulher me deu algumas gotas, misturadas com água, que ela disse que eram de haloperidol, um neuroléptico muito usado para o tratamento da doença de código F20, da qual, supostamente, eu seria portador (F20.9). Não consegui dormir de jeito nenhum. Meu esfincter ficou muito sensível, piscando descontroladamente. Eu não entendia o que estava acontecendo. Mas hoje está claro para mim que fui vítima de uma sórdida intoxicação provocada por minha própria namorada.

Cabe falar, também, sobre certo telefonema. Liguei para o Banco do Brasil para acertar alguns detalhes sobre meu cartão de crédito e pedir uma senha que me daria direito de fazer transações bancárias pela Internet. O telefone para o qual liguei foi: 0800- 99-0001. Este número consta do cartão do Banco do Brasil. Na primeira tentativa estava ocupado. Na segunda ou terceira tentativa uma gravação pediu para que eu ligasse para o número 0800-676-0001. Como esta gravação apareceu como resposta a uma ligação que fiz para o Banco do Brasil pelo número 0800-99-0001, que constava de meu cartão, não desconfiei, na hora, que se tratava de uma armadilha. Liguei para o número indicado pela gravação (0800-676-0001), então. A atendente tinha uma voz macia e mais envolvente que o comum. Ela pediu que eu digitasse minhas senhas, para que ela pudesse me atender. No fim, após eu ter passado minhas senhas, ela disse que não seria possível fazer nada por mim, nem me dar qualquer informação. Desconfiei. Pensei em mudar a senha, mas era final de semana e o banco estava fechado. Liguei para o Banco do Brasil e fiquei sabendo que eles jamais tiveram tal número (0800- 676-0001). Eu achei muito estranho. Liguei para minha cunhada Suelen Palmer Faria, em Santa Maria de Campos, e pedi para que ela ligasse para ambos os números 0800, o que constava no meu cartão do banco (0800-99-0001) e o que haviam me passado pela gravação (0800-676-0001). Ela conseguiu falar com o número que constava no cartão, mas não com o outro. Ao ligar para o Banco do Brasil e expor a situação, disseram-me que eu deveria invalidar minha senha, tentando números errados mais de 3 vezes seguidas. Não fiz isso, entretanto. Também tentei localizar o telefone 0800-676-0001 pela Telelig, empresa telefônica responsável pela minha linha naquela época. Cada tentativa me conduzia a outro número telefônico, onde, teoricamente, eu deveria obter a informação desejada. Por fim, a última ligação me remeteu ao primeiro número que havia ligado. Isso me fez considerar a possibilidade de uma trama de grandes proporções, envolvendo a Telelig. Na segunda-feira fui ao Banco do Brasil e, aparentemente, estava tudo em ordem no caixa eletrônico. Retirei R$400,00 e fui para casa. Isto foi em março de 2007.

***

Voltemos à minha internação na Clínica Santa Serafina (abril de 2007). Nas horas que antecederam minha entrada na clínica e durante toda minha estada lá, tive a inexplicável certeza de que estava próximo da morte. Esse medo inexplicável de algo que não se pode ver foi, possivelmente, provocado pela minha própria namorada e, provavelmente, teve o aval de minha mãe. Assim que entrei nas dependências da Clínica Santa Serafina, no local destinado aos pacientes, a primeira pessoa que vi foi uma mulher jovem, muito bonita, atraente e com um olhar lânguido e provocante. Ela vestia um short curto e sexy que a tornava ainda mais interessante. Entretanto, olheiras enegrecidas sugeriam o uso de tóxicos. Para piorar muito a situação, ela tinha uma barriga saliente, que não combinava com seu tipo físico. Provavelmente estava grávida.

***

Havia também uma senhora de idade, com colares e brincos chamativos. Ela se vestia como uma socialite, dessas que tem muito dinheiro. Certa vez ela me perguntou qual era meu problema e eu comecei a falar rápida e descontroladamente que eu era bipolar, porque, parece-me, o esquizofrênico é muito mal visto por todos. Outro sujeito que estava internado lá chamava-se Arlei. Ele ficava movendo as mãos de um lado para outro e me pareceu que não tinha doença alguma, apenas estava fingindo. Lá também conheci um tipo estranho, de cerca de 18 anos e que parecia não ter o que chamamos de consciência – agia como um autômato, sem auto-crítica. Certa vez, durante uma das refeições ele me perguntou qual era minha religião. Eu respondi, constrangido, que tinha um lado espiritual independente de religiões. Ele se aproximou pondo minha cabeça contra seu peito e disse qualquer coisa de que não me lembro. Fiquei imaginando que tipo de coisas as pessoas que estavam na cozinha – eram várias – estavam pensando. Também posso citar a enfermeira chefe Paula Enoc. Ela me lembrou uma Paula Enoc que conheci nos tempos de minha adolescência, na década de 80, quando tínhamos entre 12 e 14 anos. A Paula Enoc menina que conheci tinha um comportamento sexual bastante promíscuo, na época, para sua pouca idade. Era uma ninfeta. Eu a queria alucinadamente, mas não fazia idéia de como ficar com ela. Por outro lado, um amigo meu de nome Raphael já a tinha possuído analmente, segundo me contara de modo

convincente. Então, tomado por frustração e revolta, banquei o babaca e a agredi a ponta-pés. O pai da menina me deu um soco no queixo. Se eu tivesse, naquela época, a experiência e maturidade que hoje tenho, minha atitude teria sido completamente diferente. Não tenho certeza se a enfermeira chefe Paula Enoc era a mesma Paula Enoc que eu conheci nos tempos de rapaz, mas é uma possibilidade crível. De todos os tipos com quem tive algum contato nesta minha última internação na clínica Santa Serafina, quem me chamou mais a atenção, e de quem mais me aproximei, foi Alberto. Ele era um sujeito calmo, na dele e de poucas palavras. Certa vez me perguntou: “Quer conversar?” Eu respondi entrando em seu quarto para tentar falar coisas que não queria que as enfermeiras e enfermeiros escutassem. Ele disse “Mas aqui não.”, “Porque?”, perguntei e ele respondeu: “Porque aqui é meu quarto”. Eu saí e voltei para meu próprio quarto. O motivo para eu evitar a proximidade com enfermeiros e enfermeiras foi ter a sensação de que eles eram, em algum sentido, meus inimigos e oponentes perigosos. E isto se mostrou ser uma verdade surreal. Alberto era branco, tinha 1,79m de altura e cerca de 80kg. Tinha cabelos pretos ou castanho-escuros e afirmou ser analista de sistemas. Ele tinha uma filha chamada Aline, com 9 (nove) anos na época (em abril de 2007). Alberto tinha uma camisa com a foto de sua filha, que era branca e tinha cabelos pretos ou castanho-escuros.

***

Certa noite acordei momentaneamente com um ruído. Notei que havia alguém próximo à minha cama, colocando luvas plásticas. Devia ser Cassia, minha esposa, pensei. Ergui o braço esquerdo como se alguém pudesse me puxar para cima e me tirar de lá. Então perdi os sentidos e adormeci. Devido às injeções intra-musculares de anti-psicóticos, ou seja lá o que eles tenham me dado, fiquei com o intestino preso. Eu havia reclamado sobre isso com Cassia e com o Dr. Fernão Ourique Pinto Caia. Um dia, ao acordar, percebi que minha bunda estava cagada. Estranhei, pois não me lembrava de ter ido ao banheiro defecar. Talvez eu tivesse esquecido disso devido ao uso de anti-psicóticos. Ou talvez fosse outra coisa. Impossível saber ao certo.

***

Cassia Cristina me pedira a senha de meu cartão bancário. Ao começar a escrever-la, me interrompeu quando faltavam dois dígitos. Minha senha era 29161369 e eu havia escrito 291613. A senha era a justaposição de dois quadrados perfeitos (2916 = 54x54 e 1369 = 37x37). Alguém que não conhecesse os quadrados perfeitos

jamais desconfiaria. Eu, por outro lado, conhecia todos os quadrados perfeitos entre 0 e

10000.

Pouco depois uma enfermeira me pediu para que eu a ensinasse raiz quadrada. Concordei. Então pegou seu caderno e escreveu o número 169 e, ao colocar o sinal da raiz, sem tirar a caneta do papel, circulou o número 69. Eram os dígitos que faltavam para completar a senha. Como ela descobrira? Não há outra resposta senão a espionagem. E não há nenhuma senha bancária segura num país corrupto como o nosso. Qualquer senha pode ser obtida por meios escusos nos computadores dos bancos. Porque haveria de ser diferente? Basta lembrar o caso do caseiro Francenildo, que derrubou o ministro Palocci (ministro da fazenda do governo Lula). O pessoal da Abin escarafunchou a vida de Francenildo para encontrar qualquer coisa que servisse para acusá-lo e desmerecer seu depoimento. Ninguém foi punido pela quebra de sigilo bancário do caseiro. Porque, então, haveriam de punir as pessoas que quebraram meu sigilo?

***

Tamanha foi a angústia e desespero de sentir-me cercado por inimigos que tentei fugir. Cassia Cristina, minha namorada, falou que sabia uma hora que eles deixavam a porta da clínica aberta, e que eu poderia fugir então. Num certo instante ela me fez um sinal de que os portões da Clínica estavam abertos. Tentei uma fuga. Desci até a sala de estar, abri a porta que estaria trancada em outra ocasião e segui em frente. Passei por algumas pessoas de aparência estranha e me aproximei de outra porta. Ouvi um barulho alto que lembrava uma motocicleta acelerando. “Devem ter arrumado alguém de moto para me ajudar a fugir”, pensei. Quanto mais eu me aproximava da segunda porta, mais o barulho ficava alto. Mas a porta estava trancada. Pulei o muro. O ruído ficou muito mais alto. Para minha surpresa havia ainda outro muro para pular. Agi rapidamente, e pulei o segundo muro. Já fora da clínica, estranhei que o ruído tão intenso de moto havia se dissipado. Vi uma das enfermeiras fora da clínica e ela me reconheceu. Então corri em direção ao veículo que mais lembrava uma moto: uma bicicleta com uma criança na garupa, que quase derrubei. Fui recapturado e retornei à

clínica. Mais tarde liguei as coisas e concluí que o intenso ruído que ouvi não era o de uma motocicleta, mas sim de uma motosserra, que seria usada, possivelmente, com criminosa finalidade, conforme concluí algum tempo depois. Essa idéia estava equivocada, coisa que somente descobri anos mais tarde. Naqueles dias Cassia vinha visitar-me na clínica sempre com um detalhe verde no trajar. Esse verde representava a esperança. Certa noite ela não tinha mais nenhum verde na roupa nem em nenhum acessório. Estávamos lanchando no refeitório quando reparei no detalhe verde da camisa de Alberto. Deduzi que Alberto talvez fosse alguém com quem eu poderia aprender algo. Do mesmo modo que ele me disse que não poderíamos conversar no quarto dele, eu fiz o mesmo. Disse a mesma coisa para outro interno que havia entrado no meu quarto. Fiquei estranhamente satisfeito em ter aprendido isso. Por este motivo, Alberto subiu no meu conceito. Então, inesperadamente, aconteceu o surreal.

***

Cassia se divertia a valer comigo. Arrebentou meu livro de “Topologia dos Espaços Métricos”, partindo-o em dois pedaços diante de mim. Depois me apresentou um livro de auto-ajuda cujo título era “Seu Balde está Cheio?” – achei que ela queria chutar o balde e estava certo, pois pouco depois a sereia me disse que iria dormir no motel. Eu não podia dizer nem fazer nada. Estava acabado. Dependia dela para sair da clínica e por este motivo era obrigado a dizer amém para aquele demônio. Anoiteceu e ela foi embora. Era noite e eu estava deitado em meu quarto quando ouvi barulhos vindos de fora – aparentemente Alberto havia levado um tombo, pois ouvi um som surdo de algo que parecia ter caído e batido no chão. Fui verificar o que acontecera e percebi movimentação no quarto dele (ele ficava no quarto C e eu no B, logo ao lado). Quando olhei para dentro do quarto de Alberto, o vi estirado no chão, próximo à cama, tentando levantar a cabeça, porém com o resto do corpo imóvel. Alguém que não identifiquei, mas que devia estar dentro do quarto dele, gritou "Ele está tentando levantar a cabeça!". Foi quando Paula Enoc, a chefe da enfermagem, saiu do quarto de Alberto levando um material que servia, presumivelmente, para aplicar injeções. Quando ela passou por mim, perguntei: “Está tudo bem com Alberto?”. Porém, ela não disse nada e continuou seu caminho a passos ligeiros. Retornei a meu quarto e fiquei imaginando o que estaria acontecendo. Foi quando ouvi bem forte, durante três ou quatro segundos, o mesmo

barulho que tinha ouvido em minha desastrada tentativa de fuga. Mas desta vez eu sabia que não era o ruído de uma moto. O ruído era bastante alto e vinha claramente do quarto de Alberto. Pelas circunstâncias concluí que deveria ser o barulho de uma motosserra. Na hora veio biblicamente na minha cabeça o pensamento: "Que a esquerda não saiba o que fez a direita!". A citação bíblica mostrou ter grande valor. Muito mais do que eu poderia atribuir a ela anteriormente. Para permanecer vivo, e entendendo que expor minhas suspeitas seria motivo para ficar mais tempo na clínica, fingi não ter visto nem ouvido nada.

***

Uma pequena digressão: em criança eu acreditava em Deus, porém depois de adulto tornei-me um ateu militante. Estava sempre disposto a zombar de Deus, a ofendê- Lo e tentava mesmo mostrar que zombar e ofender a Deus não levaria ninguém a lugar algum, simplesmente porque Deus não existia. Este meu modo de proceder e de pensar foi reforçado depois que um grande amigo meu, Carlos Alberto Mantos de Gregório, se tornou evangélico. Eu via neste meu amigo um exemplo a ser seguido. Tornei-me evangélico e passei a freqüentar as reuniões ministradas pelo pastor Ageu. Depois de algum tempo passei a não me sentir bem lá naquela igreja. Tive a impressão de estar sendo segregado, talvez, por sofrer de esquizofrenia. Saí da igreja e aquele meu amigo nunca mais me procurou, embora eu o tenha procurado. Cheguei a perguntar o motivo do afastamento, mas ele saia pela tangente. Essa conduta não condizia com a imagem que sempre tive dele. Conclui, na época, que as religiões afastavam as pessoas umas das outras e que, se havia algum Deus, ele era o responsável por grande parte do sofrimento infligido às pessoas. Após ter sobrevivido a tantos reveses, minha mentalidade com respeito a Deus e à religião mudou radicalmente. Passei a sentir que devia minha vida a Deus e que deveria retribuir de algum modo.

***

Voltemos à Clínica Santa Serafina.

Após o terrível ruído, apaguei a luz de meu quarto e fui dormir. No dia seguinte, ao

”. Quando

acordar, ouvi a senhora dos brincos comentar: “liiiihh! o Alberto foi transferido

saí de meu quarto olhei discretamente para esquerda e vi a porta do quarto dele fechada

e uma das enfermeiras limpando a parede em frente ao quarto que havia ocupado. Fingi

ignorância. Nos dias que se seguiram tive uma taquicardia muito forte ao acordar e pouco antes de dormir. Na certa o plano deles era fazer com que eu tivesse uma parada

cardíaca induzida por medicação. Já procurei me informar – perguntei à um clínico geral,

o Dr. Kid Café Villela, e ele confirmou que é possível fazer com que uma pessoa tenha uma parada cardíaca através da ingestão da mistura adequada de medicações. Minha

morte teria sido considerada por problemas cardíacos. Outro recurso que eles poderiam usar seria dizer que eu fugi da clínica. Eu seria dado como desaparecido e, obviamente, jamais alguém voltaria a me ver. De fato, na entrada da Clínica Santa Serafina havia um painel com as fotos de várias pessoas "desaparecidas". Reclamei com a enfermagem sobre a forte taquicardia que eu estava tendo. Falei que quando abria os olhos pela manhã meu coração disparava, batendo com muita força

e rapidez. Parece que a luz desencadeava a taquicardia – e não era uma taquicardia

comum, dessas que qualquer um tem quando faz algum esforço um pouco mais intenso. Não. Essa taquicardia vinha pela manhã, ao abrir os olhos, e a noite, sem que eu houvesse realizado nenhum esforço físico intenso. Também não era uma taquicardia devida a alguma emoção forte, pois ela ocorria enquanto eu estava calmo, dopado com várias medicações. A morte me pareceu próxima. Então um médico veio me examinar com um estetoscópio. Recordo-me da estranheza de sua fisionomia. Não era própria de um médico que examinava um paciente. Parecia sentir, ao mesmo tempo, um asco e um desprezo inexplicável por mim, como se eu fosse um ser absolutamente abjeto ou perigoso. Ele disse que eu estava bem e que não havia nada de errado comigo. Certo dia, comecei a pensar nos motivos pelos quais eu estaria preso ali. Ao perguntar à minha mãe quanto tempo mais eu ficaria na clínica, ela disse algo como:

“Pode ser um ano, dois anos, quem sabe é o juiz” disse minha mamãezinha querida, com ar fúnebre. Que diabos esse tal juiz tinha com minha vida? Será que eu havia sido internado por determinação judicial? Que teria feito eu? Acabei achando que eu tinha sido preso por ter me inscrito numa comunidade do Orkut sobre prostituição. Eu fiz isso usando o que os orkuteiros chamam de fake – um perfil falso feito com a intenção de não ser identificado. O nome dessa identidade era Arthur Mills. Fiquei preocupado com isso. E se me descobrissem? E se eu viesse a ser denunciado? Eu não poderia ficar num presídio, por ser curatelado, mas também não poderia ir para uma instituição de menores. Então ficaria num manicômio judiciário.

Estava preocupado com tais assuntos, quando ouço, durante uma refeição, alguém pronunciar: “Arthur Mills”. Quem falou não se identificou, mas eu entendi que já haviam descoberto meu fake no Orkut. O nome da tal comunidade era “Paulinha, largue essa vida de prostituição!” Apesar do nome, era a única comunidade do Orkut que não era francamente contra a prática, mas também era de gosto bastante duvidoso. A falta de opções foi o único motivo que me fez assinar esta comunidade. Certa vez minha companheira apareceu com os papeis em que eu guardava minhas senhas do Orkut. “Eu vou recortar e vender tudo”, disse-me, para meu desepero. Ela não fez isso, entretanto. Porém, em outra ocasião, ao me visitar com Dalva, me ofereceu um bolo da Paulina, uma marca de bolo que é vendida no comércio. Eu fiquei visivelmente perturbado com isso, diante de minha mãe. Talvez por isso Dalva tenha dito que o juiz é que ia dizer quanto tempo eu ficaria internado. Já sabiam que eu assinara a tal comunidade. O Psiquiatra responsável, Dr. Fernão Ourique Pinto Caia, veio conversar comigo certo dia. “E aí, Eric? Portugal, Itália ou Brasil? Eu por enquanto sou Brasil”, disse ele. Na época não soube interpretar isso. Talvez fosse um questionamento sobre para onde eu poderia fugir. Eu disse a ele que pretendia ir com minha mulher para Santa Maria de Campos. “Eu sei onde é. Perto de Santo Eduardo, não é?”, disse ele. E completou “Devo te dar alta hoje ou amanhã”, quer dizer, eu sairia no dia 21 ou 22 de abril; ou seja, no dia 21 (tipo, “você é quase doido”) ou no dia 22 (tipo “você é doido mesmo”). Saí no dia 22. Antes de ser liberado, porém, tomei uma injeção que me desnorteou. Ao sair, fiquei completamente imbecilizado, numa doce e idiota tranqüilidade. Não imaginava o que aquela injeção tinha feito comigo. Fomos eu, minha mãe e minha mulher para o apartamento de minha tia. Após descer do taxi – ainda sob efeito da “medicação” – caminhávamos em direção ao prédio de Hera quando passamos por uma mulher. Apesar de não a ter olhado diretamente – apenas a percebi de viés – pareceu-me absolutamente impressionante. Eu a imaginei desenhada, caminhando como um desenho colorido, desses feitos por estilistas. Não consegui olhar para ela, era como se ela fosse sagrada, uma deusa – no sentido religioso do termo. Que teriam feito comigo? Que substância era aquela? Qual a intenção deles? Eu não sabia. Antes de você, caro leitor, concluir que eu estava tendo uma alucinação, destaco que até aquele momento eu jamais havia tido qualquer tipo de visão. Não antes de ter sido internado na clínica Santa Serafina em 2007. Eu jamais havia tido uma alucinação visual antes, com ou sem medicação. Mesmo após ter interrompido a medicação de modo

mais definitivo em 2007, nada que lembrasse uma alucinação – visual ou auditiva – ocorreu. A conclusão é ao mesmo tempo óbvia e estarrecedora: a medicação psiquiátrica causa as alucinações. De fato, sabe-se que o uso de drogas – tais como a maconha – aumenta em 10 vezes o risco de seu usuário desenvolver esquizofrenia. Talvez o uso de medicação psiquiátrica também tenha este efeito. Além disso, eu não havia tido alucinações visuais antes da internação em Santa Serafina e nem fui internado por este motivo. Entretanto, ao sair daquela clínica, ainda sob efeito de forte medicação, estava tendo o que se poderia chamar de alucinações. Efeitos ainda piores dos fármacos com que me drogaram a força estavam ainda por vir.

***

Tal coisa também acontece em outras áreas da medicina. Por exemplo, o tratamento contra o câncer é o pior cancerígeno que há. Se alguém for submetido a uma radioterapia ou quimioterapia, terá chances muito grandes de desenvolver vários tipos de câncer nos 15 anos seguintes. Tal fato se deve unicamente ao tratamento. Se alguém que não tem câncer se submeter a um tratamento desses por tempo suficiente, passará a sofrer dessa doença. O mesmo acontece no caso do hipotireoidismo. Alguém que faça uso do hormônio T4 (tiroxina) usado no tratamento dessa doença – tendo ou não hipotireoidismo – terá que ingerir a tiroxina pelo resto da vida, pois seu organismo deixa de fabricar o T4 de modo natural e passa a depender do hormônio exôgeno, fabricado pelos laboratórios e vendido pelas farmácias. Estes três exemplos ilustram um princípio geral da medicina moderna. O importante é vender medicamentos, quanto mais melhor. O médico não está a serviço de seu paciente, mas sim do grande capital.

***

Subimos para o apartamento de minha tia Hera Verão de Cantos. De lá segui no

mesmo dia para Santa Maria de Campos, pois minha namorada havia levado todos os nossos pertences para lá, numa casinha alugada às pressas. Na rodoviária pedimos poltronas juntas, mas as únicas poltronas juntas eram as de números 22 e 24, separadas pelo corredor. Compramos as passagens, mas comentei

com Marcinha: “Estes números não dão sorte

da orelha e ter concordado tacitamente comigo. Próximo do ônibus avistei uma menininha

Ela parece ter ficado com a pulga atrás

”.

de cerca de 4 anos que viajaria no mesmo ônibus. Fiquei maravilhado. Ela me chamava a atenção sobremaneira sem que eu conseguisse saber porque. “Calhordas! Que fizeram comigo?”, pensei. Só poderia atribuir meu estado alterado de consciência à drogadição a que fui submetido contra minha vontade. Provavelmente a última injeção que me deram na clínica foi a principal responsável por meu estado patológico.

***

O sentido dicionarizado da palavra homofobia é incompleto e parcial. O radical homo- diz respeito à homossexualidade e o sufixo -fobia significa “medo”. Assim homofobia deveria significar algo como “medo de homossexuais” ou “aversão a homossexualidade”. Então a homofobia é uma doença e não um crime, como apregoam os homossexuais e as autoridades, pois se trata de um medo, uma fobia. A meu ver, uma definição muito mais clara e precisa para homofobia é “medo irracional e patológico de ser considerado homossexual ou bissexual por pessoas próximas”. Essa definição não inclui ódio, nem raiva, tampouco preconceito contra homossexuais. Isto faz sentido quando consideramos que uma pessoa que tem pavor de viajar de avião não odeia aviões e não tem raiva deles. Nunca vi tal definição de homofobia em nenhum dicionário, mas é ela que corresponde à realidade. Antes de ter passado perto da morte várias vezes e durante meses ter a certeza de que não sairia vivo da clínica psiquiátrica para onde me mandaram, eu sofria de homofobia. Ficava profundamente angustiado quando percebia que pessoas próximas sugeriam que eu fosse gay. Entretanto, a exposição constante e contundente a esse medo fez com que ele deixasse de existir, ou fosse reduzido a quase nada. Por isso os números 22 e 24 eram os únicos que estavam juntos no ônibus – por sinal na UFF, quando iniciei a faculdade em 1995, meu apelido era Vinte e dois. O pessoal da ABIN – hoje tenho 90% de certeza que são eles que estão por trás disso – queria me provocar. Eu viajei na poltrona 22. Porque o número 22 está relacionado com insanidade? Essa é uma idéia que há a muito tempo e, parece-me, no mundo todo. Para fundamentar isto cito o filme – americano, acho – “Ardil 22”, no qual um soldado faz de tudo para tentar escapar dos horrores da guerra. Até que, no final do filme, ele descobre que pode recorrer ao ardil 22, uma regra militar segundo a qual alguém qualificado como louco pode abandonar a guerra não sendo mais forçado a cumprir suas obrigações militares. Fora isso há, em

língua portuguesa, uma certa semelhança fonética de “Vinte e dois” que é dois e dois, com dô i dô – numa linguagem infantilizada. O número 22 – e também o 21 – parece estar ligado à idéia de loucura.

***

Durante a viagem fechei os olhos para não ver a menininha. Mas era inútil, pois ela ria e ria. E eu não conseguia parar de imaginar que ela estava me olhando e rindo de mim, reparando em mim com a curiosidade própria das crianças. É claro que não era

nada disso, este era tão somente o efeito das drogas que me ministraram – em particular

o da última injeção que me aplicaram. Infelizmente ficaram seqüelas, como pude

constatar mais tarde. Tudo indica que minha esposa desconfiava da encrenca em que eu, e ela por tabela, estávamos metidos – apesar de hoje eu não estar tão certo disso. Descemos na rodoviária de Campos dos Goytacazes e pegamos um taxi para Santa Maria de Campos,

gastando um dinheiro que poderia nos fazer falta. Jamais fizemos isto antes, descer antes de chegarmos ao nosso destino. O ônibus sempre nos deixou próximos da casa de minha sogra em todas as vezes que fomos à Santa Maria de Campos. Atribuí isto à intenção de minha mulher em despistar os secretas – naquela época eu não sabia que eles eram isto realmente, pensava erroneamente que o presumível assassinato de Alberto era obra da Clínica Santa Serafina unicamente. Eu estava errado e certo ao mesmo tempo. Não passava pela minha cabeça que os responsáveis eram muito mais poderosos, gente ligada ao governo, à presidência da república e possivelmente aos militares também. Que diabos Alberto teria feito para desagradar essa gente à esse ponto? Eu não sabia. Talvez ele mesmo não soubesse, pois aparentava tranqüilidade e não comentou nada a respeito comigo. Se ele tinha consciência de que estava visado, talvez achasse mais prudente ficar quieto para dar a impressão de que não oferecia perigo. Essa foi a estratégia que usei e que imaginei que Alberto também usara. Ela mostrou-se equivocada. A Abin não é uma pessoa, é uma agência – ela não esquece das coisas com o tempo, como se dá com alguém de carne e osso. Numa agência os nomes são escritos, há a pasta de entrada e a de saída e há arquivos – com a Abin e com os agentes dela não há conversa – quando eles chegam só querem cumprir logo sua missão e serem pagos.

O ganho de um agente pode ser bastante alto, cerca de R$100.000,00 ou R$400.000,00

por missão cumprida. As vezes mais. Um flagrante desperdício do dinheiro público. Que

diabos Alberto teria feito para desagradar essa gente a ponto de tomarem uma atitude tão drástica? – tornava a me perguntar – Eu não sabia a resposta. Porém, a questão, como descobri anos mais tarde, não era o que Alberto fez para desagradar aos poderosos, mas sim o que eu mesmo teria feito.

***

Voltando à viagem. Ao chegar a Santa Maria de Campos fomos para a casa de minha sogra Dona Núcia. Era noite e fomos dormir. Eu não parava de imaginar que estávamos numa espécie de fuga, sob ameaça de um poder que eu mesmo desconhecia. Custei a dormir.

***

No dia seguinte, pela manhã, meu sobrinho Azazel cantarolou para mim uma estranha canção: “Você vai morreeeer, você vai sofreeeer! Você vai morreeeer, você vai sofreeeer!” Fiquei intrigado com esta sinistra cantoria. Onde ele aprendera tal coisa? Meses mais tarde lembrei de tal fato interpretando-o como uma profecia, ou como algo que Azazel ouvira de alguém que me queria mal.

***

Naquele dia começaram a me provocar através de um casal que visitava a casa de minha sogra com freqüência. Eram um senhor e uma senhora já de certa idade e eu me lembro que, certa manhã, enquanto eu estava ainda na cama, o velho falou na sala algo como “Eu sou velho, mas valho muito mais do que aquele cu de mula (sic) que está lá dentro”, possivelmente se referindo a mim. Em outra ocasião a velha disse à minha companheira Cassia Cristina: “Você é que está precisando de outro casamento”. Cassia riu sem discordar. No dia seguinte ao de nossa chegada a Santa Maria, fomos eu e minha companheira para nossa própria casa. Esta casa era alugada, com o aluguel pago por minha mãe Dalva Cantos Guedes. Lá estavam meu computador, minha esteira eletrônica, meu aparelho de musculação, meus livros, que demorei vinte anos para juntar e que minha mulher disse, mais de uma vez, que iria jogar fora ou por fogo. Nossos pertences

estavam, aparentemente, todos naquela casa em Santa Maria. Uma vez em Santa Maria de Campos (décimo oitavo distrito de Campos dos Goytacazes) começaram a fazer pressão para me confundir via homofobia. Começaram a sugerir que eu fosse homossexual, de modo bastante ostensivo. Por exemplo, minha cunhada Suelen pediu para que eu pegasse um pente vermelho em cima do armário. Eu

encontro apenas um pente rosa e depois ela diz que era o vermelho que ela queria, sendo que só havia o pente rosa lá; minha sogra Dona Núcia disse, para aquela amiga, que comprou quatro objetos por R$15,00 a unidade (lembrar do livro "O Quinze") pagando um

total de R$60,00 ("sessenta", ou "você senta"), e a amiga responde “Ah

outra coisa que eu ouvia bastante e que desconfio que significava alguma coisa – embora eu nunca tenha sabido o que – eram as freqüentes declarações de que estavam “cagando na beirada do vaso” (sic) ou qualquer coisa assim. Ouvi isso da boca de minha sogra e de um cara conhecido por , paciente da clínica Etabamissanga (onde eu me internaria mais tarde). Eu estava na varanda com Dona Núcia quando passou um sujeito numa bicicleta na estrada e gritou em nossa direção: “Padeeeeeiro!”, numa alusão à expressão “queimar a rosca”, usada com freqüência para caracterizar o comportamento homossexual. “Deve ser amigo de Elton”, disse Dona Núcia, já que Elton, meu cunhado, trabalhava numa padaria. Meu nome estava mais sujo que pau de galinheiro, sem que eu tivesse dado motivo para isto. Eu mal saía de casa e meu comportamento sexual nos últimos anos havia sido bastante comportado. De fato, nos últimos 10 anos eu havia me relacionado sexualmente apenas com 4 pessoas: 3 prostitutas e minha companheira, Cassia Cristina.

entendi!”; uma

***

Há um homem em Santa Maria de Campos chamado Liomar. Ele cria porcos e galinhas e faz alguns serviços, como instalar ventiladores de teto. Havia três ventiladores de teto para serem instalados em minha casa e Cassia o chamou para o serviço. Na noite anterior eu havia dormido num pequeno quartinho, por sugestão de minha mulher. Ela estava há dias insistindo para que eu fosse dormir lá e eu cedi. Pela manhã Liomar iniciou seu trabalho de instalar os ventiladores. Eu podia ouvir através da porta o som da broca manuseada por Liomar. Notei que meu cunhado Marcelo, conhecido por Marcelão, também estava na casa, ajudando no serviço, e meu sobrinho Azazel também estava lá. Permaneci deitado no colchonete, escutando as conversas deles.

Liomar usava uma furadeira elétrica para instalar os ventiladores. Eu estava

tranqüilo por meu cunhado Marcelo estar na casa. Não haveriam de me matar com tantas testemunhas. Mas Marcelo saiu e eu deixei de ouvir a voz de Cassia. Liomar e meu sobrinho Azazel, de cerca de 10 anos de idade, conversavam. Num dado momento Liomar diz para

Azazel: “Não mexe aí não que dá choque

ele pronunciou as palavras choque e sangue com mais ênfase que as demais. Fiquei apavorado. Principalmente ao perceber que naquele quartinho haviam malas suficientemente grandes para transportar meu corpo esquartejado. Logo imaginei que Liomar poderia usar a furadeira para matar-me. A certa altura ouvi claramente o som tétrico de uma gravação em que uma voz sinistra falava sobre psicopatas. “O psicopata

e seguiam-se afirmações sobre o psicopata. O tom da voz era fúnebre, como que feito para causar pavor. O que aquela gravação queria me dizer? Seria eu o psicopata? O psicopata era Liomar? A certa altura Liomar parece ter comentado: “Esse aí não morre fácil, não”. Comecei a imaginar cada vez mais que eu poderia ser morto e esquartejado com aquela furadeira. Diriam que eu saí e nunca mais voltei. “Eric? Eric sumiu.” – e ninguém exigiria uma explicação melhor. Dificilmente alguém ficaria fazendo perguntas a respeito ou imaginando o porquê de meu sumiço. Eu não havia contado à ninguém sobre o possível e provável homicídio de Alberto, mas eles sabiam que eu desconfiava de algo. Estive muito próximo da cena do crime enquanto ele acontecia – ou enquanto ele não acontecia. Até então eu tinha poucas informações sobre as pessoas que deviam ter matado Alberto. Quanto mais eu pensava, mais me convencia de que a Abin – Agência Brasileira de Inteligência – estava por traz daquele suposto homicídio. Não via outra explicação. Eles são muitos, e muito bem informados. Sabem muitas coisas a respeito de suas vítimas, mesmo coisas que aconteceram há muitos anos e que ninguém mais faz questão de lembrar. A certa altura a voz tétrica que falava sobre os psicopatas parou e Cassia entrou em cena. Não poderia deixar de ser diferente. Se Cassia tivesse ouvido a tal gravação, teria me dado razão. Afinal, aquele som assustaria qualquer um. Anos mais tarde concluí que a função daquela gravação assustadora era fazer com que eu parecesse um louco delirante, alguém que necessitava de uma internação. Quem hoje lê meu relato tem dificuldades em saber se aquela voz era uma gravação ou uma alucinação.

e

se você se machucar vai sair sangue

”,

Liomar havia instalado dois ventiladores. “É

esses dois eu instalei. Amanhã às 9

horas eu instalo o terceiro”, disse ele e finalmente foi embora. Apavorado, voltei para a casa de minha sogra Dona Núcia. Não me sentia mais protegido em minha própria residência. Sobre os ventiladores, imaginei que Liomar havia criado uma alegoria. Os três ventiladores de teto representariam eu, minha mulher e minha mãe. Os dois ventiladores instalados representariam dois problemas resolvidos: Cassia e minha mãe Dalva não representariam mais problemas – talvez elas tivessem concordado em manter o silêncio a respeito do aparente assassinato de Alberto. O terceiro ventilador, a ser instalado, representaria eu mesmo, um problema ainda a ser resolvido.

***

Eu me sentia frágil e em perigo. Marcinha já não era mais a mesma comigo. Ela me tratava mal e não cuidava mais de mim. Pudera. Minha mamãezinha querida trocou a senha de meu cartão bancário com o qual eu recebia o dinheiro de minha pensão e deu o cartão a Cassia. Com dinheiro na mão ela não precisava mais de mim. Mundo real, lógica simples. Em Santa Maria de Campos não há bancos. O mais próximo ficava em Bom Jesus do Etabamissanga. Isso tornava impossível para mim ir ao banco pegar meu dinheiro, já que eu não tinha o valor da passagem para Bom Jesus e sequer sabia chegar ao banco. Bom Jesus era completamente estranha para mim. Além disso, eu não fazia idéia de onde Cassia guardava o cartão do bancário e também não sabia qual era a nova senha.

Entretanto, nada disso representaria problema para mim se eu estivesse de cara limpa, sem drogas psiquiátricas. Daria um jeito, usaria minha inteligência e conseguiria pegar meu dinheiro, voltando para Niterói. Após Liomar instalar os dois ventiladores, fomos para casa de Dona Núcia. Decidi

ir

para lá, pois estava claro que minha casa em Santa Maria não era segura. Dormimos eu

e

Cassia Cristina na casa da mãe dela. Eu dormi pouco e muito mal. Estava preocupado

demais com o ventilador que faltava instalar às 9 horas do dia seguinte. Era improvável que me matassem às 9 da manhã, mas não era impossível. E eu já sabia que estava visado.

Não conseguia ver outra explicação para o que estava acontecendo. Interpretei os dois ventiladores instalados como representando minha mulher e minha mãe. O terceiro

ventilador seria eu, e Liomar queria me testar para ver se eu sabia de algo, ou se eu estava disposto a fazer algum tipo de denúncia. Quando Cassia acordou olhou bem nos meus olhos. Notou que eu não havia dormido. Então ela foi para a cozinha, pegou um monte de fotos nossas e me chamou:

Eric, veja nossas fotos

respondi desanimado.

Quer seu remédio?, perguntou Cassia, sorrindo.

Mas eu não tomo anti-depressivos. Disse eu, estranhando o comprimido de

fluoxetina que ela me oferecia – uma droga para dar ânimo e não para tranqüilizar.

Não precisa tomar, respondeu minha companheira, jogando o comprimido pela janela e abrindo um sorriso ainda mais bonito. E completou:

Vamos lá em casa para instalar o ventilador?

É

,

Não

não quero ir

,

respondi hesitante.

Ah

,

vamos, amor

Não quero

Eu acho que vou lá com Azazezinho

Tá bom, respondi dando as costas e voltando para o quarto.

Na cama comecei a pensar que coisa terrível eu havia feito. Consenti que minha companheira e meu sobrinho fossem ao encontro de um possível homicida sozinhos! “Tenho que ir lá”, pensei. Mas o terror de ter que enfrentar um homicida foi mais forte. Tentei racionalizar, dizendo a mim mesmo que eles queriam me matar, mas não machucariam Marcinha e muito menos meu sobrinho Azazel. Mesmo assim me senti péssimo e fiquei imaginando como eu era canalha e covarde. Esperei. Cassia e Azazezinho retornaram incólumes, mas isso não foi suficiente para me deixar muito melhor do que eu estava. Até que, desesperado, tentei imaginar o que um assassino faria com alguém tão covarde quanto eu. Talvez ele me torturasse até a morte com uma furadeira elétrica ou coisa assim. Tão desesperado fiquei que preferi morrer com menos dor. Me cobri todo com um lençol e enfiei a cabeça num saco plástico. Minha respiração começou a ficar mais e mais intensa. Mas eu tinha medo de morrer. Tirava a cabeça do saco plástico, tentando me convencer de que eu não precisava morrer. Eu punha e tirava a cabeça do saco. A falta de ar me deixava com medo de morrer, acho. Até que Suelen, minha cunhada, entrou no quarto e interrompeu minhas sucessivas

tentativas fracassadas de suicídio. Ela reprovou meu comportamento e contou o que eu estava fazendo para Dona Núcia. A partir desse dia, Cassia me manteve dopado com altas doses de haloperidol (20mg/dia) e clonazepan (80mg/dia). Devido à alta dose de medicações neurolépticas e ansiolíticas eu estava incapaz de reagir de modo adequado ao turbilhão de problemas em que me encontrava imerso. Quando eu dizia que estas doses de remédio estavam sendo excessivas, Cassia ameaçava chamar o pessoal da clínica para me internar a força. Por outro lado eu também não conseguia voltar para Niterói de ônibus, pois não tinha dinheiro para isto e ninguém me dava dinheiro, por mais que eu pedisse. Cassia tinha o meu cartão do banco e a minha senha, e era ela quem retirava e cuidava de meu dinheiro. Dona Núcia dizia: “Você quer Niterói, mas Niterói não te quer, Eric.” Eu me tornara um refém.

***

Enquanto eu estive em Santa Maria de Campos, minha mãe telefonou algumas vezes para mim. Eu disse a ela que estava sendo maltratado lá, que não me deixavam voltar para minha casa em Niterói. Ela se limitava a desconversar perguntando: “Ah, é?” e coisas assim. Este comportamento dela foi inteiramente diverso do que ela teve comigo durante toda minha vida. Fiquei muito surpreso com isso. Atribuí essa atitude de Dalva ao conhecimento dela sobre o homicídio de Alberto. Para mim, o que ela estava fazendo era se proteger evitando contato com alguém que estava marcado para morrer. Isso indicava que Alberto havia sido morto realmente e que Dalva, minha mãe, sabia ou desconfiava disto. Outra hipótese era que Dalva queria receber o dinheiro da venda da casa nº424 da Rua Nem de Sá, ao lado da casa onde eu morava. O juiz não liberava o alvará por ser eu interditado e um dos donos da casa. E é, muitas vezes, difícil vender bens imóveis de uma pessoa interditada. Comigo morto tudo ficaria muito mais fácil. Ela e meu irmão conseguiriam receber o dinheiro da casa e não teriam que me dar nada.

***

Em Santa Maria morávamos em frente a uma estradinha e carros passavam de vez em quando. Percebi, entretanto, um fluxo notável de ambulâncias e viaturas da polícia passando por aquela estrada, de um lado para outro, toda hora. Achei que isso fosse

normal, mas minha sogra me mostrou que não, ao comentar certa vez “Nossa! Quantos carros passando pela estrada!”

***

A velha preta amiga de minha sogra apareceu certo dia dizendo: “Oi Núcia! Eu ouvi no rádio que sumiu uma criança por essas bandas. Não foi seu neto Azazel que sumiu não?” Perguntou a velha numa ameaça velada. No dia seguinte a van que trazia Azazel do colégio passou direto por nossa casa, parando um tanto longe. Dona Núcia ficara preocupada com Azazel, talvez em razão do comentário da velha preta. Ao ver que a van passou direto pela porta de casa, Dona Núcia saiu correndo desesperada atrás da condução. Ou era uma coincidência muito grande, ou estávamos sofrendo ameaças psicológicas.

***

Um dia decidimos assistir filmes. Entregaram-nos um sem som e sem legendas que começava já do meio. Mas era um filme muito interessante. Duas crianças amigas, com trajes típicos da arábia, resolveram brincar com um rifle. No deserto amplo e ermo vinha vindo um ônibus com uma das protagonistas – uma mulher de feitio benevolente, jovem e bonita. Escondidas num pequeno morro, os amigos dão um tiro no ônibus. O ônibus pára. Daí mostra-se o interior da viação: a protagonista havia sido atingida e agonizava, os passageiros em pânico gritavam apavorados. A confusão em contraste com o deserto silencioso das crianças que brincavam de soldado. O sujeito que entregou este filme em nossa casa estava, por algum motivo, com medo, conforme comentou minha sogra Dona Núcia. A finalidade daquele filme era causar exatamente este sentimento. Mostrar a fragilidade da vida, que se podia perder a qualquer instante, mesmo pelas mãos de crianças inocentes. Aquele não parecia ser um filme que qualquer locadora alugasse. Não sabíamos seu nome ou quem o havia alugado.

***

Eu estava há alguns meses sem gozar. Certa manhã, ao acordar, percebi que minhas mãos haviam sido esporradas. O sêmen já tinha secado, mas o odor

característico estava lá. “Devo ter gozado durante a noite”, pensei. Verifiquei meu short de pijama e ele estava limpo e seco. A porra não era minha. No entanto ela já havia secado e ninguém acreditaria em mim. Mantive silêncio a esse respeito. Tentei esquecer isso, já que não havia nada que eu pudesse fazer. Na manhã seguinte o episódio se repetiu. Tentei imaginar de quem era a porra. Só consegui dois candidatos: Elton, meu cunhado e Azazel, meu sobrinho de 10 anos. Pensei que Azazel poderia ter sido induzido por Cassia

a fazer aquilo, e então ela teria batido uma foto do feito. Se tal foto fosse parar nas mãos do delegado, talvez eu fosse parar na polícia – dependendo da interpretação que fizessem da foto. Devido ao ódio generalizado que a mídia criou contra a pedofilia, eu seria alvo de agressões por parte dos demais presos. Bastariam alguns dias na cela e eu estaria morto. Minha morte seria uma estatística. Satanás é mesmo o príncipe deste mundo.

***

No desespero, dopado, acuado e abandonado por minha família, vendo ambulâncias da CREL (Clínica de Repouso Etabamissanga LTDA – tel. 0xx-22-3831-1383) passando a toda hora na estrada em frente à casa de minha sogra, acabei preferindo me internar, para fugir das agressões morais, das ameaças

veladas e da possibilidade de ir para a cadeia vítima de uma armação. Eu não sabia que a tal clínica era praticamente um manicômio judiciário e que eu ficaria ali muito mais tempo do que queria ou deveria. Também alimentei a ilusão de que minha mãe viria me tirar da Clínica de Repouso Etabamissanga e eu retornaria assim a minha residência em Niterói. Também foi um meio de me sentir menos ameaçado e de, possivelmente, retornar

à casa em Santa Maria tomando menos medicação. Chegando na Clínica Etabamissanga, me puseram numa cama que tinha um dos pés menor que os outros. Isso me incomodou bastante, porque a cama balançava o tempo todo e eu era obrigado a deixar um dos pés de minhas sandálias como calço para

o pé mais curto da cama. Certa vez o interno chamado Xuxa, um homem branco, barrigudo e de aspecto rude tirou o pé da sandália que eu tinha deixado de calço e o examinou sob o olhar de outro interno. Xuxa olhou o pé da sandália com a figura de um jogador de futebol

marcando um gol e disse ao outro: “Não tem valor”. Hoje olho para essa época e chego a conclusão de que a CREL era um manicômio judiciário de fato, caso não o fosse de direito.

Foi quando um interno chamado Odésio, que mantinha a cabeça sempre raspada e era uma voz de comando na CREL, me convidou para ficar na enfermaria dele, onde havia uma cama vaga. Eu achei o convite estranho por dois motivos. O primeiro é que o convite de Odésio veio após uma falha que cometi: Odésio me pediu para que eu pegasse uma vassoura com , amigo de Capiaba. Eu fiz o que ele me pediu, mas impôs a condição de que eu devolvesse a vassoura assim que pudesse. Porém me distraí e a vassoura desapareceu e nunca mais ninguém a viu. O convite para ir para a enfermaria de Odésio veio após este incidente, mas é estranho que uma falha seja recompensada ou que queiram proximidade com alguém que acabou de cometer um erro no cumprimento de uma ordem bastante simples. O segundo motivo pelo qual achei o

convite estranho é que enquanto estávamos tirando minha roupa de cama para levar para

a vaga da enfermaria de Odésio, eu disse: “Olha, Odésio, aquela cama ali ficou vaga, eu

não posso ir para lá?” e Odésio respondeu: “Não, porque aquela cama pertence a alguém que ainda vai chegar” – disse ele. Se o dono da cama não estava na clínica, a cama não tinha dono, claro. Eu poderia ter permanecido na mesma enfermaria e mudado para uma cama em bom estado. Mas preferi não recusar o convite do “chefe”. Além disso, a enfermaria de Odésio ficava próxima à porta onde chegavam as visitas e eu estava ansioso por receber visitas. Fui para a enfermaria de Odésio. Os internos de lá eram o próprio Odésio (branco, careca, baixo, de voz grave e com bigode), um amigo dele que parecia ser um pouco menos másculo que a média e que tinha um nome ligeiramente afeminado (esqueci o nome dele – era o único daquela enfermaria que não trabalhava na limpeza nem na cozinha e tampouco exercia atividade de liderança), Juca (um negro alto conhecido como “Pezão”, que tinha uma das pernas toda costurada – provavelmente em decorrência de algum acidente bastante grave – e que trabalhava na cozinha), Capiaba (que era “sócio”

ou “parceiro” de , e tinha a pele parda não sendo nem negro nem branco) e Zé (que era

o líder da turma da limpeza, muito conversador e trabalhador, com 51 anos de idade). Tão logo me instalei nesta enfermaria, tendo estes sujeitos como companheiros de quarto, fizeram pressão para que eu tivesse um comportamento homossexual, o que felizmente não houve. Logo percebi que algo estava errado ali e na primeira noite, simplesmente não consegui dormir, fiquei virando de um lado para o outro e ouvi quando

Capiaba comentou, parece-me, a meu respeito: “aí você já quer mudar a estória”. Na hora não entendi bem o que ele quis dizer com isso, mas suponho, talvez, e trata-se de uma mera conjectura, que eles esperavam que eu me comportasse de um modo inteiramente diverso do que eu mesmo estava acostumado – isso, talvez, devido a comentários falsos

a meu respeito que corriam toda a CREL, sabe-se lá vindos de onde.

***

Um sujeito que eu não conhecia me perguntou no início de minha internação na Clínica de Repouso Etabamissanga LTDA:

Você veio de Santa Maria?

Vim, respondi.

Então eu sei quem você é, disse o tal sujeito que eu nunca tinha visto antes. Isso é para mostrar como comentários a respeito de pessoas novas correm rapidamente toda cidade do interior e adjacências. Em meu novo quarto tive, de início, dificuldade em adormecer. Na certa adivinhava

a má intenção de meus companheiros de enfermaria. A noite fiquei na cama, tentando

dormir. Virava de um lado para outro, inutilmente. Já quase pela manhã o colega de Odésio simulou soltar uma franga, como se ele fosse gay. Logo depois, neste mesmo dia, durante o banho de sol, no pátio, Odésio me chamou em particular e me disse em voz baixa: “Eu dei”. Na hora pensei ter escutado isso, e realmente foi o que escutei, embora me recusasse a crer que ele tivesse dito tal coisa.

As pressões e sugestões para que eu tivesse um comportamento homossexual e me tornasse gay vieram principalmente através Juca “Pezão” que, mesmo com a perna toda remendada, caminhava sem claudicar, com desenvoltura. Ele tinha alguma liberdade para transitar fora do pavilhão e também fora da clínica. Seu maior e pior defeito era ser, quando queria, extremamente grosseiro, grotesco e mesmo repugnante ao conversar e falar sobre assuntos como sexo (era seu assunto preferido) num recinto onde só havia homens e a presença feminina era rara, limitando-se à visita esporádica de enfermeiras que ficavam por pouco tempo e demonstravam por nós – meros internos – um desprezo bastante compreensível. Pezão sugeria a todo momento que eu era bicha. Imaginem, caros leitores, minha

situação. Se eu partisse para a agressão, ou levava um sacode do Juca, que era muito maior e mais forte que eu, ou seria transferido para o pavilhão 4, que conseguia a proeza de ser ainda muito pior que o pavilhão 2, onde estávamos. De fato, segundo soube, no pavilhão 4 ocorriam assassinatos e agressões físicas rotineiramente. No pavilhão 4 os internos juntavam-se em bandos para surrar os demais. Um dos pacientes que conheci, de nome Romero, disse que um dos internos do pavilhão 4 havia ameaçado outro de morte. Este não deu importância à ameaça e, quando foi ao banheiro urinar, num intervalo de jogo de futebol que todos do pavilhão assistiam, aquele o matou a facadas. Ninguém viu nada. Ou seja, minha situação era realmente bastante delicada. O menor erro me conduziria à morte. Era revoltante e terrivelmente injusto que alguém, que no ano anterior (em 2006) havia sido menção honrosa na Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária estivesse correndo risco de morte num lugar tão baixo e ordinariamente vil quanto aquele. Mais: eu me encontrava naquela situação não por a ter procurado, mas meramente por ter estado próximo, presumivelmente, da cena de um crime – e agora eu tinha certeza que o tal analista de sistemas de nome Alberto e pai de Aline estava morto realmente. Pois se não estivesse, ninguém teria se preocupado tanto em me matar. Isto, pelo menos, era o que eu pensava. Vou citar algumas situações que vivi lá na CREL para que entendam um pouco melhor o que passei. Certa vez, quando Juca estava fazendo a barba do pessoal e chegou a minha vez ele perguntou: "Vai deixar o bigode?" e eu respondi "Não, pode fazer tudo" e Pezão retrucou: "Pra ver se vira homem", como se eu tivesse pedido para deixar o bigode. Pezão já ia deixando o meu bigode quando o enfermeiro Joélio, que viu a cena, disse: “Pezão, ele pediu para fazer o bigode também.” Em outra ocasião Juca foi tomar banho e todos ouviram quando ele pegou a vassoura e varreu com força o chão do banheiro durante alguns instantes e concluiu, imitando a voz e modo de falar de um gay: “Ai! Que horror!”, numa alusão clara ao fato de, naquele dia, pela manhã, eu ter desistido de lavar o banheiro – que foi uma tarefa que Zé, amigo de Capiaba e chefe da limpeza, disse que eu poderia fazer. Eu só não lavei o banheiro porque ninguém se dignou a me ajudar e porque eu não conhecia bem o procedimento para lavar o banheiro, já que nunca havia feito isto. Por exemplo, haviam duas qualidades de produtos de limpeza para usar misturados à água, mas em que proporção? Eu não sabia. Além disso, eu estava sem luvas, requisito básico para a limpeza do banheiro. Eu preferia varrer o chão, o que era muito mais fácil de fazer, mas não me

deixavam usar a vassoura. Era até estranho: ninguém ali recebia um centavo sequer para participar da faxina diária do pavilhão (com exceção dos dois funcionários da CREL), mas as vassouras, rodos e panos de chão eram sempre muito requisitados e nunca faltava mão de obra para limpar o pavilhão. Em geral, quase sempre as mesmas pessoas participavam da limpeza. Haviam apenas dois funcionários da Clínica de Repouso Etabamissanga LTDA que ajudavam na limpeza e todas as outras pessoas – cerca de umas dez – eram pacientes da CREL. Semanas depois, quando Zé teve alta da clínica, eu passei a participar ativamente da equipe de limpeza. Todos os dias, pela manhã, eu e outros colegas mais responsáveis pegávamos vassouras, rodos e baldes d'água para dar uma faxina em todo pavilhão.

***

Uma ameaça constante era o contágio via sangue, na hora de fazer nossa barba. Não costumavam abrir a gilete na nossa frente, e não jogavam a gilete fora imediatamente depois do uso. Nunca procurei conferir, pois isto poderia criar problemas para mim, mas provavelmente muitas pessoas ali usaram a mesma lâmina de barbear que outros pacientes. Uma vez eu disse ao camarada que estava fazendo minha barba – um outro interno: “Você não trocou a lâmina de barbear” ele me respondeu que havia feito a barba do outro sujeito com o outro lado da lâmina. O risco de contagio via sangue me parecia bastante alto. É possível que outros pacientes tenham morrido por doenças contraídas desse modo na própria clínica. Durante minha estada lá um dos internos morreu, e eu havia estado com ele na véspera. Visivelmente ele tinha algum problema de saúde que não fora tratado. Meu risco de morte foi multiplicado várias vezes ao entrar na clínica.

Eu sofri uma pressão muito grande na CREL. Certa manhã, no pátio, o interno Odésio me disse: “Eric, se você não urinar no quarto, vai ter que urinar pelo ralo”. Grande diferença há entre urinar no ralo e urinar pelo ralo. A idéia que ele me passou foi de eu perder minha mangueirinha e passar a ter um ralo para urinar. Quem nunca passou por sofrimentos tão intensos não tem o direito de criticar quem quer que seja. Durante meus primeiros dias na Clínica de Repouso ltabapoana um sujeito cujo nome verdadeiro eu não sei, mas que dizia chamar-se José Alberto Abreu chegou à Clinica. Logo suspeitei que ele havia sido mandado para me matar, mas não era meramente isto. Ele queria fazer com que minha morte parecesse ser uma questão de

saúde meramente e não um homicídio. Certa vez ele disse: “Se eu quisesse te matar você já estaria morto há muito tempo”. Com certeza era verdade, pois ele poderia pagar alguém para fazer o serviço (dentro ou fora da clínica); poderia oferecer alguma vantagem para alguém matar-me ou usar de ameaças veladas para fazer com que alguém me envenenasse; poderia quebrar meu pescoço enquanto eu dormia etc. Existiam muitos modos de me matar, mas a maioria deles deixava tantas pistas e testemunhas que meu assassinato poderia, correria o risco de ser descoberto – ainda que fosse um risco pequeno. E as pessoas que mandaram José Alberto Abreu não poderiam correr riscos. Se pudessem, eu já estaria morto. Há assassinos que matam por R$50,00. Alguns matam até por camaradagem, para agradar o mandante. Entretanto, estes deixam muitas pistas e correm o risco de serem descobertos. E pessoas poderosas e endinheiradas não precisam correr este risco. O que quero dizer é que quando um pé de chinelo quer matar alguém paga um assassino de R$50,00; quando uma autoridade quer matar alguém chama a Abin. O pé de chinelo corre o risco de ser preso, mas sequer é cogitada a culpa da autoridade. Neste caso, quem corre riscos são as eventuais testemunhas, que são perseguidas, ameaçadas e até mortas.

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O enfermeiro da CREL conhecido como Caú costumava dizer que eu era dele. Desconfio, e isto não é uma certeza, mas uma conjectura, que Caú recebeu, ou receberia, dinheiro para facilitar minha morte. Certa vez Caú me perguntou quanto dava por mês uma taxa de juro de 0,6% aplicada num capital de R$24.000,00. Eu respondi de pronto:

R$144,00 e ele me disse que este era, realmente, um valor próximo ao que ele havia obtido. Ora, R$144,00 corresponde exatamente a 0,6% de R$24.000,00, e esta é uma conta muito fácil que qualquer pessoa munida de uma calculadora e que tenha um mínimo de conhecimento pode fazer. Isto mostra que provavelmente o valor combinado não era R$24.000,00, mas sim R$25.000,00. A troca de número era uma mera provocação, como muitas pelas quais passei.

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Até então eu não tinha entendido porque já não tinham me matado de uma vez. O motivo é que a Abin, por ser um órgão do governo, ligado à presidência da república e,

me parece, também à militares de alto escalão, não poderia em hipótese alguma ser acusada de praticar homicídios. Sim, porque o fato de políticos roubarem e se corromperem é muito bem aceito pela população, mas a notícia de que algumas autoridades são mandantes de homicídios contra o cidadão comum seria recebida como uma bomba atômica. Para o povo é comum, normal e até mesmo desejável, que alguns políticos sejam desonestos. Isto situa psicologicamente o cidadão comum num nível moral mais elevado que qualquer político – que tradicionalmente é “ladrão, corrupto e picareta”. Sabe-se que pedófilos, traficantes e milicianos são vistos como párias da pior espécie. O povo acredita que eles merecem a morte. Imagine o choque para o cidadão comum saber que o governo, que deveria protegê-lo com políticas públicas, com a aplicação da lei, e com programas assistenciais, também comete assassinatos, como os bandidos. As pessoas simplesmente não aceitariam isto, pois esta notícia transcenderia totalmente a repetição exaustiva, das mesmas idéias e dos mesmos conceitos que os jornais, revistas e emissoras de TV fazem diariamente. Quem diria? Autoridades dos mais altos escalões, deputados, senadores, generais, além de ganharem rios de dinheiro são mandantes de homicídios de cidadãos comuns, que não cometeram crime algum. A população perderia o sentido de segurança que o governo costuma passar. O homem comum talvez seja induzido pela mídia a pensar que somente a existência do governo e da polícia impede que sejamos todos roubados, estuprados e mortos pelos marginais que habitam nossas TVs e as páginas dos jornais. A verdade é bem outra. É a atitude irresponsável do governo que permite e favorece a prática de crimes. Se a questão da educação fosse levada a sério a maioria dos crimes não ocorreria. De fato, a presença de uma consciência cidadã na mente de uma pessoa faria, em tese – e uma boa tese – que ela buscasse agir corretamente com seu semelhante. O que faz com que o problema da educação seja um mal aparentemente sem cura é a ausência de vontade política. E não há vontade política porque quem governa não é o povo e porque quem governa não é atingido pelas conseqüências de seu mau governo. A única saída é a democracia direta, sem intermediários – o governo feito diretamente pela população, exercido pelas mesmas pessoas que trabalham, pelas mesmas pessoas que dependem do serviço público e pagam impostos. Quem deve decidir o destino das verbas públicas é justamente o público, e não quem hoje chamamos governo. Quem deve decidir o valor da taxa de impostos e o percentual de investimentos nos diversos setores é precisamente quem contribui com impostos e quem faz uso dos serviços públicos. Nada mais justo e sensato que isto. Enquanto questões importantes como esta sequer são cogitadas pela mídia,

discute-se muito o sexo dos anjos e questões menores são hiperdimensionadas, tais como o ódio pedofóbico criado pela TV que o elegeu como o grande vilão do início do século.

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O governo impede o acesso do povo a informações cruciais para o exercício da democracia. A população deveria ter acesso facilitado aos nomes dos deputados e senadores que votaram a favor ou contra cada projeto de lei. Nós deveríamos saber se o deputado X ou o senador Y votaram a favor ou contra aquele projeto que julgávamos tão importante. Também deveríamos ter acesso aos textos dos projetos de lei propostos por cada parlamentar. Esta é uma proposta política razoável. Ela não oneraria o governo com despesas de vulto e seria de fácil implementação. Essas informações poderiam ser disponibilizadas na Internet e tal fato contribuiria de modo relevante para que o povo conhecesse os políticos que elegeu. A verdade é que no panorama político atual não sabemos em quem estamos votando. Desconhecemos o verdadeiro modo de fazer política dos candidatos. O que temos é uma simpatia ou antipatia por um ou outro político, mas não um conhecimento real sobre quem são os candidatos. Na ausência do conhecimento factual sobre os políticos, somos levados a imaginar quem seriam eles. Então votamos em imagens tecnicamente construídas pela mídia, esculpidas psicologicamente pela TV.

***

Certa manhã, após o banho frio e compulsório que diariamente tomávamos, fui à minha enfermaria buscar minha toalha para me enxugar. Ao abrir a parte do armário que me cabia deparei não com meus pertences, mas com uma bola de couro amassada, um pedaço de pau num formato fálico e uma porção de jornal picado. Fingi não ter visto nada, eu estava só na enfermaria. Peguei uma toalha em outro lugar e me enxuguei. Mais tarde, quando já haviam outros internos na enfermaria, abri minha parte no guarda roupas e estava tudo OK. Haviam tirado aquelas coisas e recolocado as outras. A bola amassada me fez pensar no esmagamento de minhas próprias, o pedaço de pau era uma alusão a violação sexual que poderiam praticar contra mim caso eu não cedesse e o jornal picado era um meio de dizerem que eu não poderia recorrer à mídia. Somente quem passa por

este tipo de coisa pode dizer o quanto é angustiante. Eu me sentia no abismo de que fala

a Bíblia. Totalmente abandonado e sem esperanças. Um dia, sem nenhum motivo aparente, Odésio começou a choramingar e fazer uma pirraça sem sentido. Levantava o tom de voz numa lamúria sem explicação. Num rompante virou sua própria cama de ponta cabeça. Desarrumou tudo, ignorou os conselhos dos amigos que tentavam acalmá-lo. A princípio pensei que se tratasse de uma curiosa idiossincrasia – coisa de doido mesmo – mas era mais complicado. Ele tanto fez

que o enfermeiro Joélio lhe aplicou uma injeção para acalmá-lo, porém Odésio continuou

o teatro. Alguns internos se aglomeraram, assistindo a cena. Um deles comentou com

outro: “É birro”. O outro concordou. O interno recém chegado, que dizia chamar-se José Alberto Abreu, postou-se de pé diante da cama em que Odésio havia se deitado. J. A. Abreu abriu uma bíblia e em silêncio se pôs a ensaiar o início de uma leitura que nunca aconteceu. José Alberto Abreu era agente da Abin, como me certifiquei mais tarde. Aguardei pela leitura da Bíblia por um período que parecia estender-se demasiadamente. Não houve leitura. Talvez ele tenha entendido que seria uma heresia sem tamanho ler a Bíblia estando incumbido de tarefa tão inglória quanto cometer um assassinato. Por fim, diante da insistência de Odésio, decidiram transferi-lo para o pavilhão 4, como punição. O homem que dizia chamar-se José Alberto Abreu passou a ocupar a cama de Odésio. Era noite e percebi a fria em que estava. Peguei uma das sacolas plásticas que havia separado para ter a alternativa de uma morte menos dolorosa e esperei na enfermaria por uma oportunidade, mantendo a sacola oculta debaixo dos lençóis. Estava decidido a tentar o suicídio para livrar-me de coisa pior. Odésio veio à enfermaria pela última vez para pegar seus pertences. Entrou com seu colega menos másculo e me disse que não considerava válida a saída dos covardes. Ele sabia que eu pensava em me matar. E sabia disso porque minhas tentativas patéticas de suicídio já eram conhecidas de muitos, inclusive na Clínica Etabamissanga. A diversão desse pessoal de cidade do interior é comentar a vida dos outros. E não importa se os comentários são verdadeiros ou falsos, o importante é falar. Para que o leitor tenha idéia do que estou dizendo cito um caso ocorrido com minha companheira Cassia, há muitos anos atrás. Ao retornar a sua cidade de origem, após alguns anos, foi recebida com espanto e medo. Quando a viam as pessoas se afastavam, assustadas, sem saber o que pensar. Haviam espalhado a notícia de que ela morrera atropelada numa rodovia e até missa fizeram para ela. Isto mostra bem que o que pensamos ser real, na verdade pode não ser. Mesmo que as pessoas com quem temos

contato concordem conosco. De fato, pode ser que as pessoas próximas de nós também estejam sujeitas às mesmas ilusões e fantasias que nos estão confundindo.

***

Diante da sincera opinião de Odésio, decidi viver. Lembro que nesta ocasião o amigo de Odésio disse que certa vez teve cera no ouvido e que o médico teve que por “um cano” no seu ouvido para tirar a cera. O comentário aludiu a imagem de um sujeito com um revólver na cabeça, claro, sugerindo um aspecto da realidade que não poderia, ou não deveria, ser mencionado de outro modo. Nesta rápida conversa que tivemos Odésio me fez entender que havia rolado até ameaça de morte para que ele saísse da enfermaria. Não havia explicação melhor, já que Odésio sabia que seu comportamento o levaria para pavilhão 4 – que fazia o pavilhão 2, onde estávamos, parecer um jardim de infância. José Alberto Abreu estava agora alojado em minha enfermaria e, aproveitando-se disso tentou me intimidar. Ele passou a ler um livro espírita sobre a “vida depois da morte”, o que interpreto hoje como uma tentativa de fazer a morte parecer uma opção mais aceitável para mim. Engana-se quem pensa que as armas de agentes secretos são coisas mirabolantes, vistas nos filmes do agente 007. As armas deles são as ameaças veladas, a psicologia e a intimidação. Eles também são organizados e em grande número, agem de forma articulada, coordenados por outros agentes que, provavelmente, não aparecem. Certa noite, quando todos já haviam se deitado e eu tentava dormir, escutei, não muito alto, o barulho inconfundível de uma sessão de tortura. O infeliz gritava repetidas vezes: “Para! Para! Para!” urrando de dor. Então, já não conseguindo mais articular as palavras, gritava “Ah! Ah! Ah!”. Notava-se o mais puro desespero em sua voz. Até que pude reconhecer o momento em que ele morreu, parando de gritar num derradeiro e inequívoco suspiro. Fiquei quieto na cama, horrorizado. Imaginei logo um sujeito imobilizado tendo as penas perfuradas repetidas vezes por uma furadeira elétrica. Certamente os militares haviam matado pessoas assim durante a ditadura. O que eu havia escutado era a gravação de uma dessas seções de tortura. Fiquei pensando se a gravação era real ou não. Um ator poderia ter sido contratado para fingir aquilo. Mas recusei essa hipótese: era convincente demais para ser uma gravação falsa. Foi uma experiência assustadora. Seguiram-se outros sons, supostamente de

pessoas sendo mortas sob tortura, mas não consegui imaginar como, pois só pelo áudio era difícil imaginar o que estava acontecendo. Na enfermaria todos já estavam deitados, de olhos fechados. Ninguém comentou nada a respeito nem no dia seguinte nem em nenhum momento posterior. Se eu falasse a respeito com algum médico ou enfermeiro, iam dizer que eu estava tendo alucinações e aumentariam a dose de meus remédios. Preferi silenciar.

***

Deixei de ter medo da morte para ter medo de morrer sob tortura. Sobre o homem que dizia chamar-se José Alberto Abreu, tentei negociar minha vida com ele, dizendo que não se deve mentir, mas sim omitir. Até então eu achava que o problema deles era eu vir a denunciar a morte de Alberto na Clínica Santa Serafina. Meu comentário foi em vão, pois ele disse que era “furada". Fosse como fosse, me parece, José Alberto Abreu não decidia nada. Ele apenas cumpria ordens, e era muito bem pago para isto. Ele próprio falou algo como “Cem mil ou trezentos mil”. Interpretei estes valores como os preços pagos por minha cabeça. Hoje penso que os trezentos mil seriam os valores supostamente pagos pelas mortes de minha mãe Dalva, de Cassia e de mim mesmo. Pelo menos era isso que J. A. Abreu queria que eu pensasse, para fazer com que eu mesmo aceitasse e buscasse minha morte. Esse pessoal da Abin usa de muita psicologia. Essa é, na realidade, a principal arma deles. Nada de artefatos estranhos e engenhosos que podem matar ou ferir. A mente humana dotada da técnica certa é a melhor arma que pode existir. A primeira tentativa de J. A. Abreu foi fazer como na Clinica Santa Serafina, simulando ataque cardíaco via medicamentos. Eu havia escrito um texto em que oferecia minha vida pela de minha mãe e de meu irmão. Mostrei o texto a J. A. Abreu, na esperança de que seu comentário e atitude a respeito mostrassem a mim que tudo não passava de um mal entendido de minha parte, uma interpretação equivocada que eu havia feito. O resultado foi o oposto. A postura de J. A. Abreu diante do “documento” que redigi foi diferente da que teria qualquer pessoa que não soubesse nada a respeito. Ao mesmo tempo em que ele não confirmou ou negou nada, nem que era agente, nem que estava ali para me matar, seu modo de proceder não denotou nem surpresa, nem desconhecimento da situação, tampouco chacota ou ironia a respeito. Ele era mesmo um agente. Tentei conversar com ele em outra ocasião e disse que não queria morrer com

dor. Ele comentou: “Eutanásia, a morte sem dor”, ou algo assim. Hoje penso que ao referir eutanásia, José Alberto Abreu queria fazer com que eu pensasse que minha morte seria útil de algum modo. Isso, supostamente, faria com que a idéia da morte me parecesse menos ruim, favorecendo um possível suicídio.

***

Uma noite tive taquicardia sem motivo aparente. Não havia feito nenhum esforço físico nem tido raiva que justificasse tal sintoma. Concluí que os remédios estavam me causando a taquicardia. Reclamei enfática e veementemente na presença dos demais internos e dos enfermeiros. Então essa estratégia para me matar acabou ficando ruim, por várias pessoas terem escutado eu dizer que os remédios estavam me fazendo mal. Caso houvesse uma investigação, a clínica poderia ser responsabilizada, ou algum enfermeiro. Isto tornou este plano deles inviável, por haver risco de alguém denunciar o esquema e a partir daí chegar-se aos verdadeiros responsáveis – pessoas poderosas por trás da conspiração, gente graúda que não poderia aparecer. Ao ver frustrado seu plano para me matar, J. A. Abreu entrou na enfermaria bradando em voz alta: “Vamos legalizar isso aí!”, referindo o tal documento no qual eu oferecia minha vida pela de minha mãe e de meu irmão, que haviam sido ameaçados por José Alberto de modo velado. De fato, ele fez menção, durante uma conversa com outro interno de nossa enfermaria, ao final de telefone 1541, que correspondia a um número meu antigo. E na hora ele até disse, sobre o tal número telefônico: “Quem vai atender é a mãe ou o irmão”, donde ele sugeriu que minha mãe e meu irmão corriam risco caso eu não morresse. Na verdade, tentei negociar com Zé Alberto, através do tal documento, uma "morte melhor" da que ele havia sugerido que eu teria, através de perfurações de furadeira nas pernas. De fato, José Alberto Abreu falava o tempo inteiro que havia um nervo na perna – chamado nervo ciático – cuja inflamação causava uma dor pior que a dor do parto. Ao fazer com que os enfermeiros – em particular Josias – me ministrassem drogas para forçar um enfarte, José Alberto Abreu estava cumprindo sua parte no trato, me possibilitando uma morte sem dor. Mas eu não me entregaria tão fácil. O fato é que eu mesmo estava preferindo morrer logo à passar por aquelas dificuldades. Eu costumava dormir com a cabeça virada para o lado da porta, para ver se ele começava – e terminava logo – a perfurar-me pela têmpora, para que eu morresse de forma rápida e sem dor. Expus esta minha idéia para J. A. Abreu, dizendo a ele que

começasse a perfurara-me pela cabeça. Nesta ocasião, outro interno com quem eu nunca havia falado puxou assunto perguntando se eu queria um cigarro. Neguei sem dar muita importância e ele respondeu: “Já está na cabeça”. Fiquei com medo, achei que estavam referindo minha mãe, querendo dizer que ela havia levado um tiro na cabeça ou algo assim. Achei que era provável que pudessem tentar matá-la – talvez até mesmo tivessem feito isso. Pensei em como eu poderia, naquela situação, avisar minha mãe do risco. Eu não podia. Então José Alberto Abreu me disse: “Acho que você vai receber uma boa notícia nos próximos dias”. Comecei a pensar, então, que a morte de minha mãe pudesse me favorecer de algum modo, fazendo com que eu saísse da clínica. Era precisamente o oposto. Se minha mãe viesse a morrer, eu poderia jamais sair da CREL, caso o meu novo responsável legal fosse alguma instituição, pois sou interditado devido a esquizofrenia. Mas eu pensei que se o juiz nomeasse meu irmão como meu responsável legal, talvez ele me tirasse da clínica. Isso aquietou um pouco meu coração.

***

Um fato muito curioso e perturbador ocorreu na Clínica de Repouso Etabamissanga LTDA. Uma noite, enquanto assistíamos TV, J. A. Abreu, o agente da Abin, afirmou que era sexta-feira. Eu retruquei: “Não, hoje é quinta-feira.” O mostrador de meu relógio concordava comigo e até então não havia motivo para dúvidas. Então o agente chamou minha atenção para a TV – havia começado o Jornal Nacional. A repórter anunciou o dia da semana em alto e bom som: SEXTA-FEIRA. J. A. Abreu completou “deus disse que hoje é sexta-feira”. Fiquei atônito. Eu sabia que era quinta-feira e meu relógio me dizia o mesmo. Em dúvida, fui conferir com outra pessoa. Perguntei o dia da semana ao enfermeiro Josias que trabalhava naquela noite e ele respondeu confirmando que era quinta-feira. Ou seja, certamente aquele programa não era o que o resto da população costumava ver. Havia aí um forte elemento conspiratório. Até mesmo a TV conspirava, talvez a própria rede globo estivesse envolvida. É claro que se eu levantasse tais questões na CREL, me tomariam por um louco alucinado e perigoso que deveria ficar mais tempo internado e tomar mais haloperidol. O fato é que subia um fio da TV e ia sabe se lá deus onde. Talvez a imagem que víamos na CREL proviesse de uma gravação, e não diretamente de uma emissora. Programas anunciados como “ao vivo” na verdade poderiam não ser. Um dos meios para controlar as pessoas é controlar o que elas assistem na TV. De fato, lembrei que em meu

primeiro dia na CREL a imagem da TV mostrava em relevo palavras como “tristeza”, “dor”

e coisas deprimentes assim. Ao comentar isto com outro interno ele fingiu desconhecer o

fato. Na verdade, não sei dizer se ele desconhecia o fato ou se ele preferia fingir não saber de nada. Ou minha percepção era melhor que a dos demais internos, ou eu era mais corajoso que os outros.

***

Mas J. A. Abreu não desistiu de sua missão. Na segunda tentativa ele teve mais sucesso. Explico: fui de uma estupidez suicida ao aceitar uma maçã do agente. Ele deu uma maçã a cada colega da enfermaria. Como a comida da CREL era péssima, eramos compelidos a aceitar qualquer alimento que nos oferecessem. O que se deu, penso, foi uma simpatia patológica pelo carrasco, que ocorre, por exemplo, em seqüestros, quando

a vítima fica “amiga” do raptor. E tendo o agente estudado psicologia, conduziu a situação

de modo a parecer mais simpático e amigável, favorecendo minha patológica simpatia. Provavelmente, se eu estivesse lendo a Bíblia teria sido mais cauteloso com minha própria saúde. Teria identificado o agente secreto como um enviado de Satanás e veria o mal em cada um de seus atos insidiosos. Veria a mim mesmo como um soldado de Jeová, cuja luta contra o mal assentava-se em bases divinas. Pensando assim, eu perceberia haver muito mais em jogo que minha própria vida: o destino de toda civilização humana seria definido pelo resultado do embate psíquico. Era a luta do bem contra o mal. Porém eu estava muito distraído com outro livro. O ótimo "Problems in Higher Mathematics" de V. P. Minorsky – livro russo vertido para o inglês com 2570 problemas de Matemática Superior. Cheguei a resolver cerca de 200 ou 300 problemas deste livro em minha estada na CREL. Fazia isso para manter a proximidade com a Matemática, minha amante imortal por Jeová designada.

***

Era noite e eu me deitei, fechei os olhos e tentei dormir, pouco depois de ter comido a tal maçã. Não conseguia, entretanto. Meus joelhos formigavam. Fiquei imóvel na cama, deitado de olhos fechados. O agente J. A. Abreu me importunou jogando uma toalha sobre mim e retirando-a em seguida. Demorei anos para entender porque ele fizera isso. Ele estava verificando se eu já havia morrido. Percebi que havia algo na maçã que

aceitei de J. A. Abreu. Disse isso aos demais ocupantes da enfermaria. Capiaba respondeu: “Na minha maçã não tinha nada”. O problema era só meu. J. A. Abreu e eu saímos do quarto e reclamei com ele sobre a maçã, acusando-o de ter posto algo nela. Então o agente disse ao enfermeiro Caú, que estava próximo: “Caú, o Eric está reclamando que não morreu”. O enfermeiro Caú olhou para mim, olhou de volta para J. A. Abreu e respondeu: “Mas ele vai morrer”. Este era um indício forte de que Caú estava envolvido na conspiração. O cálculo do juro da taxa de 0,6% que Caú me pedira para fazer fazia sentido agora. Este era o juro médio da caderneta de poupança naquela época. Talvez ele estivesse planejando manter o dinheiro recebido para facilitar minha morte depositado para retirar o juro mensal.

Passei a me sentir ainda muito mais angustiado. Raciocinei que mesmo que eu sobrevivesse um pouco mais, estava com meu tempo se esgotando. Até então eu tinha como certo que uma hora ou outra eu teria alta, e depois disso Dalva ou Cassia teriam que me tirar daquele inferno. Agora minha esperança se desfazia. Mesmo que eu saísse da clínica, estaria doente. Quem acreditaria na história da maçã? Comecei a imaginar com que doença eu estaria. Teria que ser algo que matasse com relativa rapidez, ou que me anulasse rapidamente, comprometendo minha capacidade de raciocínio e pensamento. Então não deveria ser AIDS ou sífilis, se é que se poderia contrair AIDS ou sífilis deste modo. Imaginei que sofria de cisticercose, já que é uma doença sem cura e que anula a inteligência do indivíduo, além de causar psicose e cegueira. Esta seria a solução perfeita para meus algozes. Eu morreria psicótico e imbecilizado numa clínica psiquiátrica.

***

Poucos dias depois de fazer com que eu comesse a tal maçã infectada, J. A. Abreu despediu-se dos companheiros de enfermaria dizendo: “Meu trabalho aqui está terminado”. O plano agora era fazer com que eu morresse internado na CREL. Sobre isso José Alberto Abreu comentou: “O esquecimento é o maior castigo”

***

Juca Pezão tentou fugir. Aproveitou a liberdade que tinha para sair de vez em quando para tentar escapar. O interno de nome Adão, um negro gordinho e de fala mansa passou a ocupar o lugar de Juca em nossa enfermaria. O nome de Adão era motivo de chacota o tempo todo por parte dos demais companheiros de enfermaria. Isso ocorria devido a semelhança fonética entre a expressão “Eva e Adão”, de caráter teológico e a expressão “É viadão”, vulgar e pejorativa . Mas Adão levava na esportiva e não se aborrecia com a gozação dos colegas. Eu ficava a imaginar como seus pais puderam dar um tal nome a ele sem atinar para a possibilidade deste trocadilho infame.

Acabaram recapturando Juca na rodoviária de Bom Jesus de Etabamissanga. Segundo soube, ele estava pedindo dinheiro às pessoas para completar o valor de sua passagem. Ao ser levado de volta para a CREL, Juca foi punido exemplarmente. Ficou uns 2 meses no inferno dantesco do pavilhão 4. Mesmo sendo alto, forte e sabendo se defender, Juca Pezão retornou ao pavilhão 2 visivelmente abatido. Aparentava não ter dormido bem e seu humor era bem diferente do que tinha ao tentar a fuga. Haviam bolsas de pele rugosa sob seus olhos. Juca estava mais na dele, menos expansivo e menos conversador.

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Minha companheira Cassia Cristina me visitou muitas vezes e minha mãe me visitou algumas vezes. Nenhuma das duas assinou o termo de responsabilidade para me tirar da clínica, mesmo depois de meus insistentes pedidos. Elas foram absolutamente indiferentes ao meu sofrimento. Na verdade, divertiram-se com ele. Aproveitaram minha fragilidade para tripudiar. Ao mesmo tempo, agiram com uma correção irrepreensível aos olhos da sociedade. Ninguém ousou questioná-las, ninguém pôs sua conduta em dúvida, ninguém as criticou. De fato, elas não fizeram nada de ilegal ou imoral. Eu era o doido, o louco de pedra, o agressor, o anormal e sabe-se lá deus que outros qualificativos injuriosos minha família atribuiu ao meu nome. Por outro lado, minha mãe era uma cristã devota, uma professora competente e esposa exemplar. Ninguém via o monstro sob o manto da Virgem Maria. Eu mesmo fui enganado pela astúcia do demônio que habita sua alma.

Isso explica porque tantos esquizofrênicos assassinam suas mães e familiares. Eles vivem sob o jugo de mães esquizofrenogênicas e em famílias que lhes impõem agressões emocionais. Uma pesquisa na Internet pelos termos “agressão emocional” e “alta emoção expressa” elucida bem o que ocorre. O esquizofrênico é produto de um meio familiar patológico. Ele sofre agressões emocionais de modo sistemático e dissimulado por parte de familiares. Quem observar superficialmente a família esquizofrenogênica, pensará que o problema está no membro dito esquizofrênico. Um exame mais cuidadoso

mostrará, entretanto, que ele tem sido vítima de repetidas agressões emocionais por parte de seus familiares, e esse é o motivo de sua revolta – vez ou outra convertida em violência física. É por isso que os neurolépticos reduzem os sintomas da esquizofrenia. Eles fazem com que o “doente” não perceba as sutis ironias de seus pais, o deboche de seus irmãos,

e as insinuações maldosas de suas tias. E quando há essa tal percepção, a irritação não

emerge, sufocada pela apatia e passividade decorrentes do uso de psicofármacos. Além disso, ao ver o “doente” frustrado e abatido, os familiares sentem-se menos motivados a

agredi-lo. Afinal, ninguém bate em cachorro morto.

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Ver alguém como realmente é, além dos papéis sociais que exerce, pode ser uma experiência deliciosamente encantadora ou tragicamente perturbadora. Depende do que encontrarmos sob as mascaras dessas pessoas. A experiência me mostrou que, pelo menos numericamente, Satanás está vencendo a guerra.

A maioria das pessoas sabe fingir muito bem – quase o tempo todo. Elas aparentam serem algo que não são. Falam em honestidade, e praticam a insídia; elogiam

a bondade e fazem o mal; aparentam ter conhecimento e são ignorantes; oram a Deus e

pagam o dízimo à Lúcifer. Quando o Cristo reinar sobre todos os povos da Terra, Ele terá mais compaixão com Hitler do que com essa corja que oprime os filhos de Deus.

Como será quente o inferno dos maus! A dor que essa canalha terá será intensa e eterna. Não os invejo nem um pouco por seu sucesso aparente. Eles não tem noção dos sofrimentos que os aguardam. Tanto melhor. A surpresa deles será motivo de meu riso franco e a persistência de seu sofrimento razão para minha satisfação. Meu paraíso será eterno e a punição dos maus não terá limites.

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Certa vez estávamos assistindo TV quando o enfermeiro Joélio comentou com um sorriso: “Homem que não trai não é homem.” Fiquei sem saber o que pensar. Anos mais tarde lembrei as palavras que Joélio proferira ao ler uns versos de Rui Barbosa que ora transcrevo:

De tanto ver triunfar as nulidades, De tanto ver prosperar a desonra, De tanto ver agigantar os poderes nas mãos dos maus O homem chega a desanimar-se da virtude A rir-se da honra, A ter vergonha de ser Honesto

A declaração sem máscaras do enfermeiro Joélio me fez rever os valores que havia alimentado até então. De fato, eu, que havia sido fiel a minha esposa, estava preso como esquizofrênico e desprezado por minha mulher, ao passo que o enfermeiro traía, gozava de liberdade e tinha, presumivelmente, os favores das mulheres. A conclusão que se segue é que o enaltecimento da fidelidade marital uma fraude. A sacralidade do conceito de fidelidade conjugal é um artifício concebido por pessoas mesquinhas para fornecer material de acusação contra os desafetos dos acusadores. Qualquer um que tenha um parceiro sexual declarado único – e isto deixa de fora padres, tias solteironas e libertinos – está sujeito a cometer adultério ou a ser vítima dele. Porém, quem tem juízo logo compreende que o infeliz que põe sua confiança em outras pessoas é um maldito imbecil. De fato, a Bíblia afirma: “infeliz do homem que põe sua confiança no homem”. Ninguém tem o direito de exigir fidelidade de um cônjuge, pois não podemos controlar o comportamento de outrem, quem quer que seja. Podemos, sim, ser fiéis por nossa própria escolha e firmar um acordo com nossos parceiros para que a fidelidade seja recíproca. Isso propiciaria mais segurança ao casal, evitando doenças venéreas e a conseqüente contaminação da prole. Porém jamais tal fidelidade recíproca pode ser exigida. Ela tem que ser sempre uma escolha da própria pessoa. Se não compreendemos isso, ficamos furiosos ou depressivos ao descobrir uma traição, ou nos sentimos culpados ao trair. Nenhum desses sentimentos – fúria, tristeza e culpa – é desejável. Se um marido

descobre o adultério de sua esposa, deve pensar: “sou livre para procurar uma outra companheira, do mesmo modo que ela foi livre para me trair”. Este modo de proceder tem base bíblica, inclusive. Com efeito, o livro sagrado prevê a dissolução do enlace conjugal no caso de prostituição – e uma traição é considerada prostituição pela Bíblia. Caso escolha continuar com sua esposa, o marido deve pensar “sou livre para agir do mesmo modo que minha mulher e procurar uma amante” - afinal, segundo o pensamento vivo de Carlos Massa, o apresentador Ratinho, “corno que trai não é corno”. Ninguém deve sentir- se humilhado pela traição do cônjuge, porque todos estão sujeitos a isso e o homem que todos julgam ser feliz no casamento pode, na verdade, ser o marido de uma prostituta discreta que encobre sua conduta.

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No ano de 2007 houve vários feriadões, e em cada um deles minha mãe veio me visitar. Antes para fazer figura de boa mãe perante a sociedade que por amor, amizade ou qualquer coisa do gênero. Certa vez ela levou meu tio Pantaleão e sua filha Barbarela para me visitarem. Soou como uma despedida. Algo como: “visitem ele agora que depois só no velório”. Foi constrangedor ser apresentado como um animal no zoológico ao meu tio Pantaleão e à minha prima Barbarela. Eles poderiam ter me tirado de lá, aconselhado minha mãe a me tirar ou qualquer coisa assim. Nada fizeram, entretanto. A salvação é mesmo individual. Não dá para contar com mãe, namorada, amigo nem com ninguém. As melhores pessoas só podem contar consigo mesmas. E algumas vezes nem mesmo com elas podem contar, mas somente com a misericórdia de Deus. Triste do homem que põe sua confiança no homem – eis uma grande verdade.

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Depois que J. A. Abreu foi embora minha situação melhorou muito. Consegui trocar algumas coisas que eu tinha por um pequeno armário portátil. Passei a guardar meu livro “Problems in Higher Mathematics” e demais objetos com mais segurança. Um outro interno, chamado Dennis, observou meu modo de proceder enquanto eu resolvia algumas questões de meu livro. Minha conduta digna me rendeu bons dividendos e fizemos amizade. Ele me disse que não sabia quanto tempo ficaria ali e que gostaria de fazer algo

útil enquanto estivesse detido. Ele pediu um livro de matemática à sua mãe, para que pudesse estudar para algum concurso. Estudamos durante alguns dias, mas eu não estava muito animado para fazer isso. Estava mais preocupado com minha saúde e com minha liberdade. Mesmo assim Dennis encontrou em mim um amigo. Certa vez ele me disse: “Eric, quero morrer sendo seu amigo.” Fiquei sabendo muitas coisas curiosas sobre ele. Soube que seu padrasto era um militar de alta patente. Um brigadeiro da aeronáutica, se bem me lembro. Por ter um padrasto influente Dennis passou somente 10 dias na cadeia ao assassinar uma família inteira de evangélicos. Ele também me contou que fugira de outra clínica e que depois que saísse da CREL, arranjaria um meio de me tirar de lá. Disse-me que pediria a uma garota para se fazer passar por uma prima minha, e assim, assinar o termo de responsabilidade que me devolveria a liberdade. Eu disse a ele que teria como arranjar R$10.000,00 como recompensa pelo feito. Ele respondeu que faria tudo de graça, por camaradagem, mas que o pessoal que ele ia arranjar para o serviço precisaria de alguma grana como incentivo. Embora eu não fizesse muita idéia de como conseguir dinheiro suficiente, achei que ao chegar ao apartamento de minha mãe, tudo seria providenciado. Naquela época eu ainda acreditava nas boas intenções de minha mãe. Ao se aproximar o dia de Dennis ir embora, no entanto, percebi que ele desistira da idéia. Ele passou a me evitar e notei que ele estava um tanto angustiado por não se sentir capaz de cumprir o que prometera. Por fim, eu mesmo achei a idéia da fuga inexeqüível, dada a hesitação de Dennis. Preferi desobriga-lo desta tarefa e em vez disso pedi a ele que postasse no Orkut um texto em que eu pedia socorro denunciando toda a situação. Não sei dizer se ele chegou a fazer isso, mas se mostrou aliviado ao ver-se livre da tarefa de arquitetar minha fuga. Assim, nenhum de nós teve que desistir da amizade pelas imposições da realidade, e pudemos continuar amigos em nossas memórias.

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Os tipos que habitavam a Clínica Etabamissanga eram interessantes o suficiente para que os mencione, mesmo que an passant. Havia Ismael Silva, um baixinho calvo e de voz grossa que escreveu a seguinte frase numa parede da clínica: “Cuidado com a morte”, assinando seu nome em baixo. Ele foi parar na CREL depois de pôr fogo num botijão de gás e gritar para ele: “Explooooode! Explooooode!”. O botijão obedeceu, mas não sem que Ismael saísse correndo antes. Havia Geraldo, colega de Ismael Silva, um

tipo equilibrado, de pele branca e bigode que procurava ser útil e tinha boa oratória, sabendo contar piadas, e narrar acontecimentos de modo interessante. Também há que se mencionar Júlio Batalha, colega de Ismael Silva e Geraldo. Seu bordão era inesquecível: “Só fortalece a irmandade criminosa!” Era um dizer motivador de uso amplo, aplicado para incentivar as atitudes dos demais internos. Se alguém dissesse que iria jogar dominó, Júlio Batalha logo bradava: “Jogar dominó só fortalece a irmandade criminosa!”; se alguém dissesse que iria jogar futebol o bordão logo se seguia: “Jogar futebol só fortalece a irmandade criminosa!”. Nós quatro – eu, Ismael Silva, Geraldo e Júlio Batalha – formávamos o núcleo diretor da enfermaria I. Eu era líder em outra enfermaria e fui convidado a ir para a I depois que um dos ocupantes dela recebeu alta e foi embora. Meu nome logo foi sugerido para ocupar o lugar vago: “Chama o Eric. Ele é manero”, disse Ismael Silva. Os internos preferem escolher seus companheiros de quarto do que deixar que a vaga seja ocupada por uma pessoa qualquer. Fiquei satisfeito ao saber que haviam me escolhido. As pessoas acabam reconhecendo nosso bom comportamento.

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Dois irmãos negros e menores de idade foram internados na CREL. Seus nomes eram Jobson e Juckson. Era um absurdo internarem menores de idade numa clínica barra pesada como aquela. Mas aqueles irmãos não eram nada bobos e aparentavam saber se defender. Ainda que sua mentalidade fosse adulta, seus corpos eram infantis e por isso alegravam um pouco o ambiente. Comecei a imaginar que eles poderiam ser usados para me matar. Eles eram menores de idade e talvez a lei pesasse menos sobre eles. Se me matassem talvez fossem para a FEBEM e sairiam em alguns anos, após alcançarem a maioridade legal. Certa noite, enquanto eu tentava dormir, meus colegas decidiram jogar dominó na cama ao lado. Juckson sentou em minha cama para jogar também, mas ele estava me incomodando, não conseguia dormir com ele ali. Pedi para que saísse. “Se eu não sair você vai fazer o que?”, perguntou Juckson desafiador. “Não vou fazer nada. Você é que tem que sair”, respondi. “Você tá precisando tomar um comprimido de piruculina”, continuou. Foi meu limite. Sentei-me na cama e disse: “Vou jogar também”. “Não dá. O jogo já começou”, responderam meus amigos que jogavam. Então retruquei: “Vou jogar no lugar do Juckson”. Na mesma hora Juckson saiu da minha cama. Ismael Silva disse

com alguma admiração: “É

Num lugar desses o respeito tem que ser conquistado através de atitudes inteligentes.

Você teve atitude.”

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Internou-se na CREL um jovem chamado Cirilo. Ele tinha pele branca, cabelos pretos, compridos e desgrenhados. Sua família levava várias coisas para ele: livros, tortas salgadas e doces, remédios caros de última geração, quentinhas com comida de boa qualidade etc. Internara-se na CREL após ter passado várias noites em claro, drogando-se. Apesar de ser avesso ao uso de qualquer tipo de droga, lícita ou ilícita, fiz uma boa amizade com ele. Muitas vezes Cirilo repartiu comigo as refeições e tortas que a família lhe trouxera. Acabamos nos aproximando por sermos de classes sociais mais elevadas. Isso fazia com que tivéssemos preocupações em comum, como a faculdade, o estudo, a família etc.

É claro que Caú não via nossa amizade com bons olhos, pois ela representava uma ameaça à conspiração que ocorria. E se o trato de Caú com José Alberto Abreu fosse descoberto? Se Cirilo resolvesse me ajudar a sair da clínica eu poderia denunciar todo esquema e trazer a baila a conspiração. Ou poderia vingar-me de Caú pelas humilhações freqüentes que ele me infligia.

Cirilo costumava vomitar a comida servida na CREL, que era de péssima qualidade. Em quatro meses de internação só vi carne nas refeições uma ou duas vezes no máximo. Até feijão era difícil ver. O que víamos eram cascas de feijão e uma água escurecida que molhava o arroz e lembrava caldo de feijão. Por outro lado, serviam tomates. A ração da CREL era basicamente arroz com tomate. Sem sal nem tempero, tampouco azeite. Durante visitas de inspeção a comida melhorava um pouco.

O must da clínica era o café com pão servido à noite. Entrávamos numa fila comprida e modorrenta para a última refeição do dia. O cozinheiro distribuía o lanche dizendo: “Vamos lá! Vamos lá! A fila anda e a catraca gira!” O pão era sempre servido puro, sem manteiga ou qualquer coisa do gênero. Nossas refeições não eram humildes, mas sim humilhantes. Alguns internos comentavam que a lavagem dada aos porcos era melhor que a comida da CREL. Se essa afirmação partisse de algum playboy, algum afortunado de classe média ou filhinho de papai, seria vista como um exagero de alguém

que não conhece a realidade do Brasil. Entretanto, eram pessoas simples e humildes que se queixavam da comida. E o estômago delicado de Cirilo confirmava com vômitos freqüentes a afirmação dos colegas.

Cirilo me contou que sua avó era tão rica que comprou o terreno para que se construísse a igreja da cidade. Ele viera de família endinheirada e tradicional, mas seu futuro era incerto. Meteu-se com drogas, como o êxtase e fazia uso rotineiro de antipsicóticos. A idéia que ele tinha de ficar de cara limpa era parar de usar drogas sintéticas. Seu trabalho era uma fachada para encobrir uma vida desregrada e a faculdade que cursava – Ciências Ambientais – servia para nutrir a expectativa da pretensa intelectualidade que a sociedade exigia.

Certo dia Cirilo disse que dois internos haviam sido pegos comendo outro que era retardado mental. Foi um na boca e o outro por trás, segundo fiquei sabendo. “Foi nessa enfermaria aí”, disse Cirilo. “Peraí, essa é minha enfermaria! Como é que não vi nada?”, questionei. Fiquei sabendo que o incidente havia sido no banheiro, pela manhã, quando eu provavelmente estava dormindo. Os envolvidos foram punidos com uma injeção de haloperidol que os manteve dopados por várias horas na cama. Eu estava sem manter relações sexuais já há 7 meses, desde que haviam me internado em Santa Serafina. É preciso coragem para admitir que há situações em que coisas bastante distantes de nosso modo de agir nos passam na cabeça. Comecei a sentir falta de uma boa trepada. Queria sentir que estava no controle, dominando algo ou alguém. Sabendo que o tal oligofrênico havia sido possuído, imaginei, por alguns momentos apenas, que eu também poderia violentá-lo. Não devia ser muito difícil. Eu o cercaria no banheiro, exigindo que me servisse. Então o penetraria com força, sádica e impiedosamente, falando coisas feias. Provavelmente ele facilitaria tudo, por já ter feito isso antes e por ser um imbecil. Recusei tal coisa, entretanto, pois ainda me restava algum orgulho de ser heterossexual e de contrariar as expectativas de meus detratores. Além disso, Geraldo tomara para si a responsabilidade de cuidar do tal retardado, zelando por seu bem estar. Eu não gostaria de entrar em atrito com Geraldo, nem de ser mal visto pelos meus outros companheiros de enfermaria. Seria impossível esconder tal fato dos demais internos.

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Devido ao meu elevado nível cultural, acabei chamando a atenção de Leonardo, psicólogo da Clínica de Repouso Etabamissanga LTDA. Ele percebeu através do que eu

fazia e do que eu dizia que meu caso não era de internação. Entendendo que valia a pena investir em mim, passou a mostrar interesse pela minha problemática. Falei a ele de minhas premiações em Olimpíadas de Matemática, dos artigos que havia publicado, de meu livro etc. Disse também que tudo poderia ser confirmado pela Internet e pedi a ele que localizasse na grande rede algumas pessoas que poderiam dar informações a meu respeito ou me ajudar de algum modo. Eram ex-professores meus da UFF que talvez se lembrassem de mim pelo meu excelente desempenho acadêmico. Ele localizou vários desses professores através de uma procura em buscadores e mandou e-mails para eles.

A professora Anabele Vinho Doce, de quem eu havia sido o melhor aluno de Álgebra há

11 anos atrás, ainda se lembrava de mim e respondeu o e -mail de Leonardo de modo,

parece-me, muito favorável. Ela deve ter sido a única que respondeu. Posso dizer que ter me empenhado com afinco no estudo de Álgebra foi fundamental para que Anabele tivesse uma postura francamente favorável a mim. Isto motivou o psicólogo Leonardo a me ajudar. Ele tinha discernimento suficiente para perceber que eu não era mais um e reconheceu meu valor, do mesmo modo que Anabele. Leonardo era um sujeito consciente

e que se importava com as pessoas. Ele estava ali para atuar, fazer a diferença, não para

simplesmente receber o salário no fim do mês, como a maioria das pessoas. Leonardo era uma total exceção à regra vigente, como pude constatar. Ele me deu dicas valiosas e, creio, intercedeu por mim junto aos manda-chuvas da CREL. Fazer parte da rede, inclusive do Orkut, também me ajudou muito. Devo minha vida à professora Anabele, ao psicólogo Leonardo e ao Orkut, instrumentos que Deus Jeová utilizou para me livrar de meus inimigos.

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A situação na CREL melhorou depois que algumas belas universitárias passaram a

nos dar aulas num espaço que separaram para isso. Acabei gostando de uma dessas meninas. Ela se chamava Katia Any e cursava a faculdade de biologia. Quando eu soube que uma das matérias que ela estudava era cálculo, logo mostrei algum conhecimento a respeito. Passei uns bilhetinhos para ela, dizendo meu nome, pedindo que me ajudasse pela Internet, contatando pessoas, postando mensagens para meus conhecidos no Orkut

e coisas assim. Buscando por meu nome na Internet, Katia Any logo simpatizou comigo.

Meu nome aparecia no Google mais de mil vezes, entre premiações, artigos publicados, resultados de concursos, e-mails arquivados e opiniões publicadas no Yahoo!Respostas. O Google pode dizer muito a respeito de alguém. Katia Any tinha pele branca e um narizinho engraçado que eu gostava muito. Sua postura era de crítica e auto-crítica. Logo em sua primeira aula ela disse que não gostava do próprio nome. Penso que talvez ela achasse o nome “Katia Any” um tanto diferente e próprio para moças mais liberais. Eu, por outro lado, adorei seu nome e pensava muito nela. Queria possuí-la, amá-la. Fantasiei situações sensuais com ela, cheguei ao êxtase pensando nela. Tudo teria sido muito bom se minha má reputação na clínica – sem correspondência com a realidade – não tivesse chegado ao seu conhecimento, razão pela qual ela se afastou. Não sei que tipo de coisas falaram a meu respeito para aquela menina, mas percebi que ela mudara o modo como me tratava. Katia Any passou a ficar visivelmente perturbada com minha presença. Não a via mais sorrindo, em vez disso ficava séria, sisuda. Mesmo com minha imagem manchada, as professorinhas não eram indiferentes a meu respeito. Uma delas, de quem não lembro o nome, disse que teve um pesadelo comigo e com os bilhetinhos que eu passava. Mesmo assim não desisti de ter Katia Any para mim. Escrevi um bilhete inspirado onde eu declarava meu amor por ela, falava de Kurt Gödel e Alan Turing e concluía sugerindo que deveríamos ficar juntos porque o resto da humanidade estava perdida e nós eramos dois exemplares férteis, de sexos diferentes e com genótipos de alta qualidade. Não pude entregar o bilhete, entretanto, pois o destino nos separou definitivamente antes que eu tivesse essa oportunidade.

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Deus quis que eu fosse liberto. E foi numa manhã de sol que me chamaram, dizendo a mim que arrumasse meus pertences. Caú me pareceu ficar levemente tenso. Ele disse: “Se eu não te levar lá fora você não sai não”. Enquanto arrumava minhas coisas para sair e perto do portão do pavilhão 2, recebi as felicitações de meus companheiros de internação. Inclusive os cumprimentos respeitosos de Juca Pezão e de Fiel (Fiel era um interno jovem, branco, boa pinta e que estava sempre ouvindo a Banda

Calypso no radinho que trazia consigo – tinha uma tatuagem grande escrito “Fiel” e outra também grande de Nossa Senhora). Minha companheira me esperava do lado de fora do pavilhão, contrariada. A assistente social veio conversar conosco e disse que eu estava de alta e que Cassia podia me levar para casa. Minha companheira mostrou uma má vontade muito grande em me tirar da CREL. Eu, percebendo isso, tratei de me empenhar em mostrar o melhor comportamento possível. Antes de sair, fomos levados à presença do psicólogo Leonardo, que falou em coisas como “resignificar experiências” e minha “companheira” falou coisas como esse- filho-da-puta-pôs-fogo-em-mim-enquanto-eu-dormia-aqui-minhas-cicatrizes-ó. “Você fez isso, Eric?”, perguntou Leonardo estupefato. Eu respondi que ela se queimou enquanto cozinhava.

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Minha visibilidade na Internet contribuiu, provavelmente, para minha saída da Clínica de Repouso Etabamissanga. Minha franca atuação na word wide web e no Orkut e meu notório e amplo saber matemático talvez tenham despertado a virtude da prudência no administrador da CREL. A possibilidade de um escândalo na mídia de massa com minha eventual morte era muito pequena, mas era um risco que efetivamente existia. E isso poderia traduzir-se em grandes perdas financeiras para a clínica. E viva o capitalismo!

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Assim que pus os pés fora da CREL quis ir para Araruama, para o apartamento de minha mãe. Mas Cassia pensava diferente. Como eu relutei em voltar com ela para Santa Maria, Cassia chamou um policial militar que estava próximo e ameaçou mandar o PM me levar de volta a clínica caso eu a desobedecesse. O PM confirmou que se eu não a obedecesse ele me levaria de volta para a CREL. Fiquei indignado. Eu me tornara um escravo das vontades fúteis de minha própria mulher. Argumentei que haviam pessoas que queriam me matar, e que por isso Santa Maria não era um lugar seguro para mim. Cassia retorquiu, dizendo que se isso fosse verdade eu já estaria morto, já que em Bom Jesus havia matadores cobrando a irrisória quantia de R$50,00 para mandar alguém para

a cidade dos pés juntos. Preferi não discutir. Ela não entenderia que as pessoas que queriam minha morte não pagariam R$50,00 por um serviço porco e descuidado, que teria a possibilidade, mesmo que mínima de ser elucidado. Quem conspirava contra mim era suficientemente poderoso e influente para poder mobilizar quantias muito maiores que possibilitassem criar toda uma estrutura que lhe desse a segurança de jamais ser descoberto.

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Após deixar a CREL, fomos para a casa Dona Núcia, minha sogra. Uma das primeiras coisas que fiz foi ir a uma Lan House buscar informações sobre a cisticercose. Descobri que o tempo entre a ingesta dos ovos de tênia e o aparecimento dos sintomas, poderia ser de 15 dias ou 40 anos. Alguns casos de cisticercose poderiam ser sanados por cirurgia, mas nem todos. Alguns dos sintomas eram psicose, demência, cegueira e sono em excesso. Também descobri na Lan House que o vermífugo praziquantel era o mais indicado para evitar a cisticercose. Ele era comercializado com o nome de Cestox. Eu teria que agir rapidamente se quisesse sobreviver. Procurei o Cestox na farmácia de Santa Maria, mas não o encontrei lá. Também estava complicado marcar uma consulta com o médico para que ele me avaliasse e sugerisse um tratamento. As consultas seriam em Campos ou em Bom Jesus, mas minha esposa Cassia Cristina não poderia me acompanhar. Ela estava mais preocupada em farrear, encontrar-se com seu amante e cuidar de um bar do qual havia se tornado sócia. Passava o dia todo na rua. Por outro lado, eu não conhecia nem Bom Jesus nem Campos dos Goytacazes. E dopado do jeito que me encontrava, não seria possível ir às consultas nessas cidades. Era uma sinuca de bico.

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Neste ínterim percebi algo que já ocorria há algum tempo, mas que julgara erroneamente ser coincidência ou efeito adverso do Haloperidol ou do Clonazepam. Que as pessoas de poder influenciam populações através da TV, é fato conhecido e já bem aceito. A grande novidade é que pessoas influentes podem, também, alterar a programação da TV pontualmente, fazendo com que apenas um número pequeno de

pessoas assista na TV o que "eles" querem. Deste modo são capazes de atingir algumas pessoas apenas, preservando as demais. Percebi isso na Clínica Santa Serafina, na Clínica de Repouso ltabapoana e na casa de minha sogra. Mais tarde descobri que existe um aparelho muito comum que possibilita isso. Chama-se videolink. A noite, na casa de minha sogra, o jornal televisivo passou várias notícias seguidas sobre assassinatos dos mais diversos tipos. A cada notícia de morte seguia-se outra igualmente sangrenta. Foi bastante estranho, não me lembro de ter visto algo assim antes. Contei as notícias consecutivas de homicídios e mortes violentas. Foram seis entre um comercial e outro. Não se tratava do conhecido “Linha Direta”, cujo tema central gira em torno de mortes violentas, tampouco era algum programa similar. Tratava-se de um jornal comum. Me enganei ao pensar que os intervalos proporcionariam coisa diversa. Eles também mostravam violência, como quando anunciaram "A Supremacia Bourne" no intervalo do telejornal. Pior para eles. Eu seria o agente Bourne que buscaria respostas e confrontaria o poder tirânico dos principados deste mundo. No dia seguinte, de manhãzinha, passou “A Família Monstro” na programação infantil matutina. Depois passou uma comédia onde o protagonista fazia o papel de um cadáver com uma faca cravada na cabeça. E assim eram os programas televisivos, todos eles, um após outro sem exceção. Não se tratava de alucinação ou delírio, pois naquela época eu estava bem medicado, com uma dose alta de haloperidol, medicação que tem a função de suprimir delírios e alucinações. Pelo menos é isso que afirma o saber médico e o as bulas das drogas psiquiátricas. Porém, minha experiência começara a indicar que os antipsicóticos – como o haloperidol – eram, na verdade, a causa dos delírios e alucinações. E quando elas ocorriam, uma dose maior era receitada. Após um período de remissão os delírios e alucinações voltavam e a dose era aumentada ainda mais, num círculo vicioso que levava à morte ou à imbecilidade de uma lobotomia química.

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Percebi que teria que fugir. Caso contrário me mandariam, mais cedo ou mais tarde, novamente para a CREL. Além disso eu precisava me tratar, coisa que seria difícil se continuasse em Santa Maria. Nos dias que se seguiram saí da casa de minha sogra e voltei para a minha própria casa.

Numa segunda-feira pela manhã fui ao local onde se compravam passagens, uma padaria. Ela estava fechada, entretanto. Talvez não abrisse nas segundas-feiras, pensei. Então me dirigi à casa de minha sogra e, perguntei se as padarias deixavam de funcionar nas segundas-feiras, como os bares (o bar de minha esposa não funcionava nas segundas). Dona Núcia disse que não, a padaria deveria abrir mais tarde. Retornei a minha própria residência e recebi a ligação de minha sogra que disse ter desconfiado que eu queria fugir. Ela disse também que ligara para a padaria pedindo à funcionaria para não vender nenhuma passagem para mim. Então pensei "Ou vai ou racha, agora sim tenho que ir mesmo". Me dirigi a padaria sem saber bem o que fazer. Se a funcionária não me vendesse a passagem eu não poderia fazer nada. Se insistisse, poderia ser internado novamente. Mas se queremos algo, temos que nos arriscar para conseguir. Então fui para lá. Quando estava quase chegando na padaria surgiu, do nada, uma van indo para Bom Jesus do ltabapoana. “Passa na rodoviária de Bom Jesus?”, perguntei. “Passa perto”, respondeu o motorista. A passagem custava R$5,00. Quando chegamos a Bom Jesus ofereci mais R$2,00 para que o motorista me deixasse em frente a rodoviária. Foi o que ele fez, embora tenha recusado o dinheiro. Eram quase quatro horas da tarde e não havia nenhum ônibus que fosse para Araruama. Porém, havia um que ia para Cabo Frio, uma cidade próxima de onde poderia pegar outra condução para chegar a Araruama, onde residia minha mãe. Minha vontade era ter ido para Niterói, mas eu não tinha as chaves de minha casa lá. Também não sabia qual a situação do imóvel. Talvez ele tivesse sido alugado ou coisa assim. Comprei a passagem para o próximo ônibus que seguiria para Cabo Frio. Ele sairia às 16:30hs. Foi uma espera torturante. Lembrei que Juca Pezão havia sido recapturado naquela rodoviária, tendo sido mandado para o inferno do pavilhão 4. Tive medo. Imaginava Cassia surgindo de repente, numa ambulância ou num carro de polícia, acompanhada por brutamontes que me levariam de volta a CREL. Pensei que seria desejável encobrir ainda mais meu rastro. Se dali eu fosse para outra cidade antes de ir para Araruama, ninguém me encontraria. Fui ao ponto de táxi e perguntei quanto cobrariam por uma viagem até Campos dos Goytacazes. Falaram em R$150,00, mas se pagasse tal quantia a eles, não teria dinheiro suficiente para chegar a Araruama. Reduziram para R$120,00, que também estava fora de minhas possibilidades. Só me restou esperar. O ônibus chegou e logo entrei. No inicio pensei que tudo seria bem mais fácil do que realmente foi. A medida que viajávamos notei pessoas estranhas no meu encalço. Uma das poltronas que estavam disponíveis para a viagem

quando comprei minha passagem passou a ser ocupada por um sujeito suspeito. Num certo momento percebi que ele, falando ao celular, disse: “Eu estou aqui numa missão”; então fez uma pausa e completou: “Quatrocentos mil”. Parece que o preço por minha cabeça havia subido. Talvez a esposa dele quisesse saber onde ele estava, daí ele respondeu que estava numa missão; então ela perguntou o valor da missão e ele respondeu “Quatrocentos mil”. Dificilmente se poderia interpretar este trecho da conversa dele de outro modo. Fiquei apreensivo. Haviam agentes no ônibus e provavelmente outros me aguardavam em Cabo Frio. Talvez fosse bom descer em outra cidade, para despistar os agentes. No último ponto antes de Cabo Frio surgiu a oportunidade de saltar antes. Já havia escurecido e o ônibus parou numa rodoviária pequena e deserta. Eu não sabia se havia carros para Araruama partindo daquela rodoviária. Fui até a parte da frente do ônibus procurar me informar. Levantei esse questionamento a uma senhora e antes que ela pudesse responder, um sujeito próximo, com um sorriso estranho, forçado, logo sugeriu que eu descesse do ônibus ali mesmo, dizendo que seria muito fácil comprar uma passagem para Araruama naquela rodoviária. Um senhor um pouco mais velho logo apareceu reforçando tudo o que o sorridente disse: havia ônibus para Araruama, seria tudo muito fácil, eu poderia comprar a passagem ali pertinho etc. Então perguntei: “Mas qual é a rodoviária mais movimentada, essa ou a de Cabo Frio?” – meus interlocutores evitaram a pergunta saindo pela tangente e insistindo para que eu descesse ali mesmo. Então a senhora a quem eu havia me dirigido pouco antes disse : "É claro que a rodoviária de Cabo Frio é mais movimentada. Afinal, é a rodoviária de Cabo Frio!", disse ela como se tal fato fosse de conhecimento geral. Quer dizer, qualquer um sabia que a rodoviária de Cabo era mais movimentada. Somente uma pessoa que estivesse muito atenta e próxima da cena poderia imaginar que houvesse algo estranho com aqueles sujeitos. Eles não eram naturais. Estavam atuando, representando. A artificialidade ficou patente e eu percebi que corria perigo. Fiquei mais alerta. Voltei ao meu assento e desci em Cabo Frio. Fui ao ponto de táxi, certo de que não poderia pegar o primeiro carro da fila – seria previsível demais. O primeiro taxista que abordei pediu um adiantamento para pagar o combustível. Ele também disse que uma viagem até Araruama custaria entre R$60,00 e R$70,00. Decidi procurar outro taxi. No segundo carro a conversa foi a mesma, procurei outro taxi. Por fim, um taxista que atendia pelo nome de Pereira topou fazer a viagem para receber o pagamento no final. Ele era obeso e tinha pele branca. Conversamos durante o trajeto e fiquei sabendo que

Pereira era Evangélico. Sintonizou uma rádio cristã e fomos ouvindo as palavras do bispo Edir Macedo durante a viagem. Isso foi na noite do dia 8 para o dia 9 de outubro de 2007.

***

Ao chegarmos a Araruama, pedi a Pereira que aguardasse com o taxímetro ligado até que eu conseguisse entrar no prédio. Interfonei para o apartamento de minha mãezinha querida. Disse que eu estava ali na entrada do prédio, sem ter para onde ir e com pouco dinheiro. Era meia-noite e meia e as ruas estavam desertas. A cristã exemplar desligou o interfone. Ela não parecia disposta a conversar. Liguei novamente, mas a competente professora havia posto o interfone fora do gancho. Então fui a um orelhão na esquina e liguei para ela com um cartão telefônico. A serva amada de deus atendeu a primeira ligação e desligou, ignorando as seguintes. Como Dalva recusava minhas ligações telefônicas, resolvi interfonar para ela novamente, dessa vez acompanhado do taxista Pereira. Conversamos, e finalmente ela desceu para falar comigo. Pereira estava próximo assistindo toda a cena ignóbil. Dalva não quis mandar o filho embora na presença de uma testemunha, então ela abriu o portão do prédio e eu entrei. A presença do taxista foi suficiente para fazer com que Dalva abrisse o portão do prédio, pois ela tem uma grande preocupação com o que vão dizer ou pensar dela. Seu catolicismo vazio, baseado em aparências, transformou-a numa criatura repugnante, uma serva legítima de Satanás. No térreo, Dalva tentou me convencer a ir para a casa de Diva – uma amiga dela – naquela noite. Definitivamente ela não me queria em seu apartamento. Insisti para que subíssemos, já que estava de madrugada e eu havia viajado a noite toda e precisava descansar. Ela ficou apavorada de um jeito que eu nunca tinha visto ela ficar em toda minha vida. O ser humano é mesmo uma caixinha de surpresas. Coração dos outros é terra que ninguém pisa. Dalva também mostrou-se agressiva e desesperada. Me fez orar por várias horas com ela e não pude negar, pois dependia totalmente dela na ocasião, e estava por isso sujeito a seu sacro-sadismo doentio. Não tenho nada contra orações. Até faço as minhas próprias regularmente. Mas, definitivamente, o momento não pedia aquelas 4 horas de oração que fizemos. Eu havia viajado a tarde inteira, a noite toda, tinha sido perseguido por pessoas que queriam me matar, estava exausto e faminto e mesmo assim minha mãe

me obrigou a orar por várias horas antes que eu pudesse me alimentar, dormir ou tomar um banho. Não há limites para a maldade que as pessoas podem fazer se não forem punidas. Eu insistia em subir e Dalva ficava cada vez mais nervosa. Desnorteada, tropeçou num canteiro do prédio e caiu de boca no chão, machucando os beiços e as canelas. Fomos ao pronto socorro. Ela não quebrou nada e nem precisou de ponto, a médica só disse que deveria por gelo. Percebi a presença de PM's no local, o que me assustou. Afinal minha mãe era a dona do apartamento e poderia alegar que eu a estava coagindo. Afinal, não havia, perante qualquer PM truculento, um motivo legal que fizesse com que minha mãe tivesse que me aceitar em sua residência. Ela deu o número de telefone errado para a atendente, final 0508, quando o correto era o final 0501. Eu a corrigi de pronto. Uma conhecida dela que presenciou a cena e ficou desconfiada que algo estava errado. Note o leitor que o final 0508 poderia ser um código, afinal, 5x8=40, quer dizer, ferrou geral. Ao Voltarmos para o prédio ficamos orando e discutindo sobre se eu subiria ou não para o apartamento. Ela disse estar sem a chave do apartamento. Disse que meu padrasto é que tinha a chave e que ele não abriria a porta para que eu entrasse. Essa foi a desculpa dela até de manhã, quando seu esposo Alcemir Lourenço de Souza, meu padrasto, nos encontrou no térreo ao sair para sua visita etílica matutina ao bar mais próximo. Diante da cena ridícula, que beirava o absurdo, minha mãe permitiu que eu subisse para o apartamento. Eram cerca de 08:30hs da manhã do dia 09/10/2007 quando finalmente consegui adentrar na residência. Naquela manhã falei com meu irmão e com meu padrasto sobre as dificuldades pelas quais passei e sobre a presumível morte de Alberto. Tais colocações foram recebidas sem muito alarde por meu padrasto, e com a total indiferença de meu irmão. Ele tinha uma fisionomia de arrogante desprezo, que nunca havia visto nele. No dia seguinte viajou sob o pretexto de estudar para um concurso público para o qual se preparava já havia alguns meses.

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No dia seguinte, após ter me alimentado, dormido e tomado um banho, visitei algumas farmácias procurando o vermífugo Cestox. Liguei para a UNIMED, meu plano de saúde, e me informei sobre a dose e freqüência com que deveria tomar os comprimidos

para tratar a cisticercose. Expliquei a situação para a atendente, falei sobre a maçã contaminada e ela confirmou que era possível preparar uma maçã desse modo, com ovos de tênia. Fiz uma tomografia computadorizada do crânio. O clínico verificou que a imagem de meu cérebro tinha um aspecto granuloso. Este era um sinal da cisticercose, conforme eu já havia me informado pela Internet. O médico foi confirmar com o especialista se havia algo de errado comigo ou não. Ele foi sério e voltou rindo e dizendo que eu não tinha nada. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Porque a tomografia mostrava meu cérebro com um aspecto granuloso? Esta informação me foi negada. Decidi tomar 4 comprimidos de Cestox de 12 em 12 horas durante 3 dias, conforme as instruções da médica da UNIMED. Não sei se eu tinha alguma coisa, mas depois deste tratamento com o Cestox passei a me sentir melhor. É claro que isso poderia ser efeito placebo.

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Pouco tempo depois recebi o telefonema da UNIMED dizendo que eu não poderia pedir nenhum tipo de auxílio telefônico a eles, já que meu plano de saúde era de Niterói e eu estava em Araruama. Achei isso muito estranho. Porque se importariam em ligar para mim? E porque eu não poderia ter o auxílio médico pelo telefone? Aquilo não fazia sentido.

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Fiquei cerca de um mês em Araruama. Mas lá não era meu lugar e os donos do apartamento me lembravam disso com freqüência, dizendo: “Você não está na sua casa”. Não me sentia bem com isso. Quem se sentiria? Ao mesmo tempo Dalva dificultava minha ida para Niterói. Ela se negava a me dar as chaves de casa, tanto as de Araruama quanto as de Niterói. Meu irmão tinha as chaves do apartamento, presumivelmente. Porque eu também não podia ter? Decidi pegar meu dinheiro no Banco do Brasil e voltar para Niterói. Descobri que ela sacara parte de minha pensão para uso próprio. Então pedi meu cartão do Banco do Brasil de volta, para que eu pudesse voltar para Niterói e pagar minhas próprias contas. Ela me devolveu o cartão e eu peguei o ônibus para Niterói. Mas não sem antes ouvir ela

ameaçar me desinterditar, fazendo assim com que eu perdesse o benefício financeiro da pensão.

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A viagem para Niterói foi tranqüila. Não identifiquei agentes no meu encalço. Uma imobiliária estava com as chaves de minha residência, a fim de alugá-la. Ao chegar no terminal rodoviário, liguei para Dalva e pedi que ela entrasse em contato com a imobiliária para que eles me dessem a chave de minha casa. Ela se negou categoricamente. Fui até a imobiliária e expliquei a situação. Eles pediram que eu assinasse um documento para reaver a chave. Foi fácil. Então fui para casa. Ao chegar lá deparei com o cenário já aguardado. Não havia móveis nem lâmpadas, os interruptores não funcionavam e a casa estava muito suja. No primeiro dia comprei um colchão, coberta e lâmpadas. Depois tudo começou a ficar mais fácil. Eu ia me arrumando aos poucos, afinal, tinha o dinheiro da pensão. Pouco tempo depois reatei meu relacionamento com Cassia, que estava carente, isto é, sem dinheiro. Eu precisava dela, havia muitas coisas minhas em Santa Maria ainda: livros, computador, documentos etc. Banquei o estrategista e aceitei ela de volta.

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Desde que cheguei a Niterói passei a denunciar o assassinato de Alberto, mas sem nenhum sucesso. Fui a polícia federal e eles alegaram que não investigavam homicídios e me sugeriram ir à polícia civil. Foi o que fiz. Fui à 77ª DP na rua Lemos cunha, perto de onde moro, e eles falaram que a denúncia teria que ser feita no local onde ocorreu o crime. Mas isto foi em São Gonçalo – um lugar notoriamente perigoso, onde grassa a criminalidade. Seria muito fácil para meus oponentes me matarem a distância e dizer que foi bala perdida. Ou até mesmo simular um assalto. Ninguém ia estranhar ou se incomodar muito com uma morte lá por aquelas bandas. Já em Icaraí, onde moro, área nobre de uma cidade nobre, um crime dessa natureza poderia fazer os empreiteiros e construtores terem um grande prejuízo. Haveria uma desvalorização dos terrenos o que não combinaria com a atual onda de exploração imobiliária nessa região. Afinal, ninguém quer morar numa área onde há homicídios.

Liguei para o disque denúncia, mas fui informado que eu teria que procurar uma polícia investigativa, e não eles. Fui até um orelhão e liguei para a polícia militar, no 190. Expliquei a situação e perguntei como proceder. A atendente informou que eu deveria fazer a denúncia no departamento de polícia mais próximo a minha residência. Fiquei feliz com isso e pedi para que confirmassem que eu tinha o direito de fazer a denúncia nas proximidades de minha residência, e não necessariamente na DP da localidade da ocorrência, mas tal confirmação me foi negada. A atendente disse, então, que eu deveria fazer a reclamação na delegacia de São Gonçalo, onde ocorrera o crime. Eu expliquei que não conhecia São Gonçalo e também não tinha carro e que por esse motivo seria difícil e perigoso para mim fazer a denúncia lá. Perguntei se eles poderiam me escoltar até lá, eles disseram que não e, sem me darem chance de argumentar, desligaram o telefone. Foi frustrante, mas não desisti. O absurdo da coisa toda não era nem o presumível homicídio ocorrido, mas a impossibilidade de denunciá-lo. Se não se pode denunciar o governo como autor de um assassinato, então o governo pode mandar matar quantas pessoas quiser, pois não sofrerá nenhuma punição. De fato, a grande mídia alardeia as falcatruas do governo o tempo inteiro. Nossos políticos roubam despudoradamente, sem punição. Mas a denúncia da mídia centra-se no desvio de dinheiro. Ora, caro leitor! Ladrão, ladrão e meio! Um assaltante é um homicida habitual, que não hesita em puxar o gatilho – quem rouba sem punição, também mata impunimente! E se a impunidade protege o político corrupto e ladrão, protege também o homicida.

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Naquela época eu era sacerdote da V.I.D.A., Verdadeira Igreja da Divindade Axiomática – uma comunidade no Orkut dedicada ao louvor da Grande Deusa Matemática. Pedi uma ajuda para os demais membros da igreja. O líder, auto-intitulado Dr. Clandestino, me passou o link para um site onde eu poderia fazer a denúncia. Era o site do ministério público de São Paulo. Mandei a denúncia ao ministério público, com meu telefone, e-mail, endereço, telefone de pessoas próximas etc. Fui dormir bastante tarde aquela noite. De manhã fui acordado ao som de um helicóptero, que passou por cima de minha casa. Nos dias que se seguiram, pude constatar que a ocorrência rara e eventual de helicópteros sobrevoando minha residência transformou-se num fato que se repetia todos os dias, de modo perturbador. Diariamente passavam helicópteros por perto,

e algumas vezes aviões a jato. O ministério público jamais me procurou. Isto traduz bem o quanto o governo está preocupado com a vida dos cidadãos. O comportamento é o espelho do caráter.

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No dia 4 de março de 2008 me separei de Cassia novamente, após uma terrível discussão. Ela não acreditava em mim quando eu falava no assassinato de Alberto, na perseguição que sofri, nos agentes no meu encalço etc. Por outro lado, eu pensava que ela estava escondendo algo. Nós brigamos por causa disso. O estopim daquela nossa separação ocorreu quando Cassia declarou desesperada “Eu vou me armar!”, indo em direção a cozinha, presumivelmente pegar uma faca. Fugi para a rua, desesperado. Chamei a polícia e tentei abrigar-me por alguns momentos na casa de Waldemar, um paraplégico com quem tenho alguma amizade já há muitos anos, mas ele se negou a

me receber. Tive medo da polícia me conduzir para uma internação involuntária. Quando

a PM chegou, eles garantiram minha segurança e a saída de Cassia de minha residência.

Ela foi para a casa de uma vizinha amiga, Dona Marina Keller. É claro que eu não comentei a denúncia que tinha para fazer com aqueles policiais. Eu teria sido taxado de louco e internado.

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Nos dias que se seguiram, continuei não tendo êxito em tentar fazer a denúncia na polícia. Recorri ao Orkut, então. Postei o que sabia em algumas comunidades. Postei a denúncia numa comunidade que reunia a polícia de São Paulo e também em outra que tinha exatamente essa finalidade: fazer denúncias. Expus o caso aos amigos da comunidade “Entender a Esquizofrenia”. Nesta última, me disseram: “Mortos não falam”, acho que isso assustou alguns participantes, mas eu já tinha me acostumado com este tipo de coisa. A idéia da morte já não me assustava tanto. Na comunidade de policiais minha denúncia foi muito mal recebida. Inclusive com uma ameaça de morte postada na minha página de recados. Dei queixa desta ameaça na 77ªDP, que repassou o caso para

a DRCI – Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, localizada na cidade do Rio de Janeiro.

Postei na Internet meu endereço completo e meu telefone mas ninguém apareceu para verificar minha história ou ajudar. Ao contrário, apareceram uns tipos estranhos nas proximidades de minha residência. Eles olhavam para mim como se me conhecessem. Deviam ser agentes da Abin, pois caso contrário não me reconheceriam, já que minha foto não está na Internet. Iniciei um pequeno relato diário, o qual transcrevo abaixo:

05/03/2008 – Quarta-feira, 10:57hs

Possivelmente, grampearam meu telefone. Talvez forjem gravações com minha voz a partir de trechos gravados de conversas minhas ao telefone. Aí eles podem “remendar” minhas falas e exibir na TV como se eu tivesse falado coisas absurdas, cometido crimes etc. Meu celular e meu telefone não são mais seguros. Possivelmente eles estão gravando minhas conversas. Parece-me que o orelhão próximo ao Cardiocentro também está sendo vigiado. Existem pessoas estranhas rondando as proximidades. Falei com Waldemar, do prédio da Nem de Sá 409, sobre o Esquemão. Perguntei a ele se poderia ficar com uma cópia do dossiê, ele disse que não. O Maurício Martins, irmão de um antigo amigo meu da UFF, Martin, tem uma cópia do dossiê, mas parece que está com medo. Vou tentar divulgar, para minha própria segurança.”

10/03/2008 – Segunda-feira

Hoje tive uma consulta com Cacilda Cabrita Gondola. Marcius Marmota Morta, o terapeuta ocupacional, participou da consulta, a pedido de Cacilda. Estão preocupados. Querem que eu me interne em Jujuba. Eu concordei que um tal de Muniz fosse me buscar amanhã para que fôssemos ao hospital de Jujuba para uma avaliação. Foi meio forçação de barra. É lógico que é uma armadilha. Vou dispensá-lo em alto estilo. O tal de Muniz vai sair “catando cavaco”, com “duas quentes e três fervendo” amanhã. Porém, tenho que estar preparado para tudo, talvez ele venha com reforços. Quando acabou a consulta, a chave de fenda que eu tinha sob a roupa, presa por uma fita crepe, escorregou e caiu no chão. Eu a peguei rapidamente, não sei se Cacilda e Marcius viram. Provavelmente, sim. É claro que não pretendia ferir ninguém. Essa era uma simples medida de proteção. Eu deveria ter me protegido mais, entretanto. Em vez disso achei que estivesse seguro e não

levei mais a chave de fenda comigo. É claro que se tivesse levado, provavelmente teriam me matado com um tiro. Eles só precisariam que eu desse um motivo. Eu teria sido morto e a estória que iriam contar seria a que eles mesmos escolhessem. Está bastante difícil conseguir uma secretária. Ninguém quer o cargo. E quando aparece alguém fica por pouco tempo. Tive 3 secretárias. A que ficou mais tempo saiu antes de completar dois dias. A que ficou menos tempo, trabalhou menos de 30 minutos.” E este foi o fim do diário.

***

Quando o tal de Muniz me procurou em minha residência, fingi cooperar, mas não fui com ele à Jujuba, claro. Um dia, entretanto, fui à policlínica Sérgio Barrouca conversar com o psiquiatra Ruiz Mérdio, que já me atendia há muitos anos. Sem fazer nenhuma pergunta nem me examinar, ele passou uma recomendação para que eu fizesse uma avaliação no Hospital Psiquiátrico de Jujuba. Isto não fazia sentido, pois ele mesmo poderia fazer essa avaliação. Além disso o Hospital de Jujuba era só para casos de emergência, quando o paciente está descontrolado, quebrando coisas, batendo em pessoas e esse não era o meu caso. Um outro psiquiatra, que sequer me conhecia, reforçou o que Ruiz Mérdio disse. Eu argumentei racional e pacientemente que meu caso não atendia aos requisitos para uma internação em Jujuba, além do que, precisava falar com algum amigo de confiança sobre isso, pois não me sentia em segurança naquela situação. Liguei de meu celular para Pafuncio, um professor amigo que me orientava na publicação de meus artigos. O telefone estava ocupado. Eles insistiram dizendo que a internação deveria ocorrer imediatamente. Dois trogloditas chegaram numa ambulância do SAMU para me levarem e me obrigaram a ir. Preferi não reagir, para mostrar que eu estava bem consciente e que não era violento. Mas a questão passava longe da saúde mental. Tratava-se de uma decisão política, pois claramente não havia necessidade de internação. Fui conduzido à Jujuba. Enquanto aguardava minha vez de ser atendido tentei fazer uma ligação, mas o celular informava que não havia crédito. Isto era muito estranho, pois era um pós-pago e há poucos minutos eu ligara para Pafuncio e o telefone estava funcionando. É difícil explicar isso sem recorrer à idéia de uma conspiração envolvendo empresas de telefonia celular. Ou isso, ou uma puta falta de sorte.

Me tomaram o relógio, o celular, as chaves de minha casa, meu tênis além de minhas roupas. Passei uma semana em observação, e fui drogado contra minha vontade, quando a lei diz que todo paciente tem o direito de recusar medicação. Permaneci calmo durante todo esse período e também consciente. Havia pessoas lá que dormiam calçadas com tênis, gente com tiques estranhos e conversas despropositadas. Não era o meu caso. Mesmo assim aquelas pessoas foram postas em liberdade, enquanto eu fui considerado merecedor de “tratamento”. O Drº Rildo Bonifascista, um homossexual enrustido que é citado no Google pelo Grupo Gay da Bahia, me chamou para conversar e expus o caso. Falei do que vi e ouvi na clínica Santa Serafina, da perseguição que sofrera na Clínica Etabamissanga etc. Ele me chamou de “seu pôrra” sem se incomodar com a presença da outra “profissional” que assistia a tudo. Permaneci calmo. Rildo disse que os poderosos jamais permitiriam que eu tivesse êxito e tentou me convencer de que seria mais seguro para mim que eu ficasse internado. Eu respondi que Jujuba não garantiria minha segurança e que preferia morrer crivado de balas na rua do que envenenado numa clínica psiquiátrica. A decisão de me internar não teve legitimidade técnica, mas apenas motivação política.

***

Fui conduzido ao SIM – Serviço de Internação Masculino. Estava calmo, entretanto, pois eles precisariam de minha assinatura para me manter internado. O que eu não desconfiava é que eles conseguiriam a assinatura de minha mãe autorizando minha internação. Porque ela se deu ao trabalho de vir a Niterói assinar um termo autorizando ato tão desumano e cruel contra seu próprio filho? Tal fato é absolutamente revoltante, mas também ilustra o conceito cristão de que a salvação é individual. Estamos todos sós na busca de nossa salvação. Ainda que Deus Jeová nos dê o paraíso, pode ser que dê o inferno para nossos pais. Dalva, minha mãe, assinou o termo sem falar comigo, colaborando cegamente com Rildo. Ela não se deu ao trabalho de verificar sequer meu estado de saúde, ou se eu necessitava de algo. Há um véu de ignorância do pior tipo encobrindo o conceito popular de “mãe”. Os filhos só convém aos pais enquanto lhes são úteis e convenientes. Perante a sociedade, as mães fazem o que tem que fazer para manter as aparências. E só. Elas pensam e se preocupam sim, com a opinião dos demais, mas não vai além disso. Hoje, diferentemente do que sempre pensei até os 35 anos, reconheço isso. Mas reconheço

também que não fujo a esta regra. Se eu tivesse filhos e tivesse que escolher entre arriscar minha vida por eles ou sacrificá-los mortalmente, faria a escolha certa. Na hora da morte estamos completamente sós, ninguém pode morrer por nós, sequer se arriscar por nós. Não se pode ser verdadeiramente sincero e humano sem reconhecer isso. As exceções estão nos em manicômios. Em quatro meses de internação não recebi mais de três vezes a visita de minha zelosa mãe. Falei a ela sobre a perseguição que estava sofrendo no hospital de Jujuba e ela ignorou. Disse que se ela não me tirasse de lá, eu me mataria. Ela se zangou. Quando finalmente recebi alta, a infeliz chamou os bombeiros para me internar novamente no dia seguinte sem que eu tivesse dado motivo. Ela alegou que eu não quis tomar os remédios (drogas). Estou sem remédio há mais de 4 meses. Onde está minha mãe para pedir minha internação? Ela não precisa mais fazer isso, pois agora sim estou doente. Não consigo mais me concentrar em estudar para as Olimpíadas. Leio com dificuldade, tenho acessos inexplicáveis de fúria que não tinha antes de ser internado em Jujuba. Ela só parou quando eu já havia perdido minha saúde.

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Nos primeiros dias de minha internação no Hospital Psiquiátrico de Jujuba fui tratado como um príncipe pelas psicólogas e atendentes terapêuticas. Mas logo a opinião delas se inverteu e aquilo se transformou num campo de concentração. Elas tinham extremo prazer em me agredir emocionalmente e frustrar minhas expectativas repetidas vezes. É o tipo de coisa difícil de explicar, mas que está bem documentado na Internet. Basta procurar pelos termos “alta emoção expressa” ou “agressão emocional”. Certa vez, enquanto a observava, a psicóloga Dábura escreveu no quadro de avisos: “Inche”, quando deveria estar escrito “lanche”. Quem parava para ler poderia ficar em dúvida sobre o que ela escrevera. Dábura referia o fato de que os antipsicóticos engordam o usuário e que ao causar hipotireoidismo tal ganho de peso poderia ser irreversível. Aquela era uma forma sutil de zombar de meu estado de saúde. Como alguém poderia sentir prazer em fazer tal coisa, meu Deus? Zombar da doença de outra pessoa?

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Eu havia feito amizade com um interno chamado Josemil. Ele, eu e outro interno de quem não lembro o nome resolvemos bolar um plano para fugir. Não funcionou e fomos punidos exemplarmente, com altas doses de drogas. Semanas depois Josemil disse que queria me mostrar uma coisa. Eu fui ver com ele o que era. Josemil levava consigo um lençol branco. Chegamos num local onde nos encontrávamos sós. Então ele pôs-se a meter o lençol por uma fresta do tijolo da parede. Eu não sabia o que ele estava fazendo. Imaginei que era um sinal em código para que seus amigos da favela em frente viessem resgatá-lo. Em seguida ele atou o lençol no pescoço e apertou com força, abandonando o corpo à ação da gravidade. Eu entendi que ele queria se enforcar e comecei a gritar desesperado. O pessoal da enfermagem logo apareceu. A atendente terapêutica Xaquel veio com um sorriso brilhante, acompanhada de um enfermeiro. Ela me disse: “Viu, Eric, como a enfermagem age rapidamente?” Só tempos depois entendi que era uma armação, algum tipo de teste ou algo assim. Quem seria perverso o suficiente para simular uma tentativa de suicídio a fim de levantar material de acusação contra um amigo? Josemil era essa pessoa. Algum tempo depois, estávamos sós, assistindo TV à noite quando Josemil, fingindo espontaneidade, pôs suas pernas sobre as minhas. Eu olhei para ele com estranhamento e disse: “Pode sair de cima de mim?”, ele perguntou: “Porque?” e eu respondi: “Porque eu não gosto disso”. Os testes continuavam. Josemil era um maldito pervertido. E do pior tipo, aquele que faz o que faz por escolha própria, e não pela imposição dos vícios adquiridos. Mas naquela época eu ainda não tinha entendido isso. O interno Josemil foi cooptado por meus inimigos e passou a me ameaçar de modo velado. Certa vez me deu seu “telefone”, onde se lia a palavra “babacas” escrita com números. O “b” era um “6”, o “a” era um “0”, o “S” era um “5” e o “c” era o garrancho de um “0” mal desenhado. Embaixo lia-se: “Amigos dos Amigos”. Uma evidente referência a ADA, um grupo criminoso que se destacava pela crueldade e pelo grande número de cadáveres que deixava em suas ações.

***

Após o incidente com Josemil a atendente terapêutica Xaquel ficara simpática à minha pessoa. Talvez eu tenha passado no teste, talvez minha sincera preocupação com o pequeno calhordinha do Josemil tenha feito brotar algum amor no coração da atendente. Os agentes da Abin logo perceberam isso e escreveram no quadro de avisos:

X A Q U E L A T

Ou, aquela at (aquela atendente terapêutica), uma referência ao bom tratamento que eu estava tendo de Xaquel. Uma ameaça, claro. Xaquel deixou de sorrir para mim.

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No início da internação conheci um interno chamado Carlos Andrade. Ou Carlos and raid, conforme sugestão fonética. Logo percebi que se tratava de um agente da Abin. Numa de nossas conversas ele disse que eu poderia ir para Miame. Comentei que Miame era perto de Cuba e ele indicou com os dedos como o pessoal lá “corta os charutos”, referindo claramente a idéia de castração. Comentei com outro interno, de nome Jota Morel, que Carlos Andrade era um agente secreto. Estávamos sentados no pátio de um lado e Carlos Andrade estava do outro lado do pátio. Ao levantarmos eu e Jota Morel para irmos conferir se ele era mesmo um agente, Carlos levantou-se sorrateiramente e dirigiu-se à enfermaria. Nós o seguimos de perto, mas quando chegamos, ele fingia dormir tão bem que não o chamamos. Carlos Andrade logo teve alta e sumiu.

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Uma noite acordei com forte taquicardia. Fui até a enfermagem e medi por conta própria minha pulsação. Em 15 segundos me coração bateu 38 vezes; quer dizer, o número de batimentos por minuto era de 152. Disse isso à enfermeira e pedi a ela que confirmasse por si mesma. Ela mediu meu pulso durante 1 minuto e disse que estava normal, com cerca de 80 pulsações. Não havia nenhum meio de eu mostrar aos demais que ela estava mentindo, pois ela se encontrava só no posto de enfermagem. Como eu poderia provar o que dizia? Numa outra ocasião diante, de forte taquicardia, à noite, pedi a outra enfermeira que medisse minha pulsação e ela simplesmente se negou. A situação se repetiu uma terceira vez, quando chamaram um “médico” que nem olhou para mim, simplesmente me

deu uma injeção para que eu dormisse. Se eu tivesse morrido teriam teriam alegado morte por problemas cardíacos ou qualquer coisa assim. Quem contestaria tal parecer?

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Recebi a visita de minha tia Hera Verão de Cantos algumas vezes. Certa vez ela me trouxe duas maçãs. Eu as comi e logo depois minha garganta começou a pegar fogo, como se estivesse querendo inflamar. Tive diarréia e depois de alguns dias minha garganta ficou coçando por dentro. É claro que tinha algo na maçã. Pedi ao clínico para fazer um exame de vermes e ele negou. Várias vezes pedi e várias vezes tal exame me foi negado. Então pedi para que fosse ministrado em mim o praziquantel, um vermífugo conhecido, pois eu desconfiava que a maçã estava batizada com ovos de tênia. Ele se recusou e disse que teria que falar com minha mãe antes. Isso seria impossível, entretanto, pois minha mãe vinha muito raramente no hospital e sequer residia na cidade e ele, o médico, também não tinha um horário fixo para aparecer lá. Não dava para combinar um encontro assim. Expliquei isso ao clínico e ele concordou em fazer os exames se eu conseguisse um pedido para tal, assinado por minha mãe. Eu consegui o pedido rubricado por minha mãe e mostrei a ele. Ele voltou a dizer que não poderia ministrar o praziquantel sem falar com minha mãe. Fiquei sem remédio num hospital psiquiátrico que é referência para o Brasil. Imaginem como é uma internação num hospital ruim, então.

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Depois de meses de internação, já na expectativa de ter alta, ocorreu um fato curioso. Na reunião diária dos internos de Jujuba, senti uma agulhada em meu pé esquerdo. Quando olhei para meu pé vi uma gota de sangue vermelho-escura emergindo no local magoado. Passei o dedo por cima para conferir. Era sangue mesmo. Eu não vi quem me fez isso, pois estava tão absurdamente dopado que movia-me com lentidão. Comecei a ficar preocupado. Assim que saí de Jujuba fiz um teste de HIV e nada foi detectado, mas isso foi cerca de 3 dias depois de meu pé ter sido perfurado e não daria tempo do vírus ter se multiplicado. Planejei fazer novo exame em fevereiro de 2009. O objetivo de meus oponentes era triplo: desqualificar meu testemunho, uma vez que a

AIDS é associada sempre a um comportamento promíscuo e sexualmente reprovado; matar-me, como já planejavam há pelo menos dois anos; dificultar a investigação que eu estava fazendo visando esclarecer a situação e punir os culpados. Todos os exames HIV que fiz até hoje sempre foram negativos. Não há um sequer que seja positivo. Como explicar que sei que tenho uma doença terrível e incurável? Não há outra explicação para a agulhada que deram em meu pé esquerdo no hospital psiquiátrico de Jujuba. Ninguém faz isso sem ter um objetivo.

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Desconfio que o Dr. Dimenos, meu psiquiatra em Jujuba, tenha recebido algum suborno para me deixar tanto tempo internado. Fiquei mais de 4 meses detido, quando haviam pessoas em situação bem pior que recebiam alta com duas ou três semanas. Houve um sujeito, um pedófilo, que puxara uma peixeira ameaçando ferir outra pessoa. Ele ficou menos de duas semanas internado. Não havia motivo para me manter tanto tempo detido. Meu comportamento era ótimo e apesar de estar sendo claramente injustiçado, não me rebelei, ainda que em certos momentos sentisse uma revolta muito grande, que preferi não exteriorizar.

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Uma noite acordei maravilhado. Tudo parecia muito bom. Até a morte. Cogitei fazer uma declaração autorizando a retirada de meus órgãos em caso de morte. E eu sabia que iria morrer, entretanto isto me pareceu, naquela noite, algo realmente muito bom. Eu estava em êxtase, nunca havia me sentido daquele modo em minha vida. Era muito bom, ou pelo menos eu pensei que fosse. Na noite seguinte acordei desnorteado, logo achei que havia sido envenenado. Levantei-me, perdi o equilíbrio e caí no chão. Vi o chão ir e voltar várias vezes, rápida e descontroladamente, diante de meus olhos. Não conseguia me levantar. Estava claro que tinha sofrido algum tipo de intoxicação. Na noite posterior, comecei a sentir uma raiva incomum, antes de dormir. Há dois anos não sentia uma raiva tão forte. Posteriormente um interno que chamavam de Ariovaldo, e que claramente trabalhava para a Abin, disse algo como: “Esse papo de que neguinho se vicia em crack e não consegue mais parar e balela. Conversa de vagabundo safado. Sei de um caso que o filho disse isso para o pai, que era militar. O pai respondeu: 'filho, vou te provar que você

pode parar de fumar crack. Vou fumar somente 40 dias com você.' O pai fumou crack durante 40 dias com o filho. Quando acabou o prazo o filho chamou o pai para fumar e o pai respondeu 'Não vou fumar, pois isso vai contra meu treinamento militar'” Essa estória e eu saber que Ariovaldo era da Abin, me fez acreditar que haviam baforado crack na minha cara, enquanto eu dormia. Isso naquele dia em que fiquei maravilhado. Nos dias seguintes passei por uma espécie de síndrome de abstinência, pois o crack é altamente viciante. Houve outra estória que Ariovaldo contou, sobre uma mulher que viciou o esposo em crack, pondo todo dia, enquanto ele dormia, uma fumacinha de crack perto do ventilador. Como eu poderia me defender? O crack deve ter entrado lá do mesmo modo que entra nos presídios. A estória da mulher que viciou o esposo talvez tenha sido contada para me induzir a afastar-me de minha mulher. Na época eu não pensava em reatar com ela novamente, mas foi o que fiz quando tive chance. Hoje interpreto a estória que Ariovaldo contou sobre o pai com disciplina militar e seu filho viciado como uma tentativa de criar em mim uma curiosidade sobre drogas, em particular o crack. Se eu me viciasse, deixaria de ser um problema para eles. O que eles não sabiam, e que eu começava a descobrir, é que já estava me tornando um viciado, mas não em drogas, e sim em expor para toda a civilização suas absurdas contradições. Eu queria assombrar toda humanidade, ser um peso na consciência do canalha mais indiferente. Eu queria mudar o mundo.

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Quando finalmente recebi alta estava acabado. Letárgico, sem vontade de fazer nada. Dormia o dia todo e a noite toda. Só saída da cama para me alimentar. Fui a um clínico geral de meu plano de saúde e ele me passou um hemograma completo, inclusive com o teste para HIV. O HIV deu negativo, mas eu estava com hipotireoidismo, pelo menos parecia que eu estava, pois o TSH se encontrava um pouco alto. Eu me sentia péssimo, depressivo, envergonhado, pensando constantemente na morte. Minha mãe disse que ficaria comigo, em minha casa, cuidando de mim. Em outra situação teria recusado, por saber o escorpião que ela é. Mas do jeito que eu estava não havia saída. Eu sabia que provavelmente estava infectado com HIV, apesar dos exames mostrarem que não. Haviam agulhado meu pé a poucos dias, mas ninguém acreditava que eu estivesse com AIDS. Quando chamei Cassia para voltar para mim, ela veio. Não resisti e

nós transamos já no primeiro dia, sem camisinha. Teve uma hora que a consciência bateu e eu decidi recusá-la sexualmente. Mas ela me provocava a cada dia. Eu dizia a ela que em fevereiro de 2009 – quando pretendia fazer o teste definitivo – nós voltaríamos a ficar juntos. Mas não me contive e passamos a nos relacionar sexualmente sem camisinha. Contei a ela então sobre a agulhada que tinham me dado em meu pé esquerdo quando eu estava no Hospital Psiquiátrico de Jujuba. Ela ignorou, não acreditou em mim. Continuamos a transar normalmente. Mas também ninguém acreditou e já que é assim, não preciso me preocupar. Que tudo seja considerado uma alucinação então. Posso até doar sangue. Ninguém vai perguntar no questionário: “Tem inimigos poderosos?”; “Te deram uma agulhada suspeita no pé esquerdo?”; “Você é um opositor do governo e tem talento (eu tinha) para ser reconhecido mundialmente e representar perigo?”; “Você já passou a língua no rego de alguma vagabunda que usava aparelho nos dentes e era casada com um militar de alta patente?”. Não, não iriam perguntar nada disso. Bem, é melhor escrever tais coisas que revoltar-me inutilmente e buscar uma vingança destrutiva. O sucesso é a melhor vingança, e o conhecimento correto, auto-disciplina e auto-confiança seus veículos eficazes.

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Chegou no Hospital Psiquiátrico de Jujuba, pouco depois de mim, um sujeito chamado Chianelo. Ele aparentava ser um criminoso. O modo como falava e agia, sua aparência, tudo sugeria isso. Quando chegou, tinha várias feridas pelo corpo. Contou que havia sido capturado correndo de moto na contra-mão da Avenida Brasil. Perguntei a ele se os ferimentos estavam doendo muito e ele respondeu: “Já doeram mais”, adivinhando, talvez, que eu estivesse incitando o sentimento de vingança pelo que fizeram a ele. Isto poderia fazer com que passasse para meu lado. Eu já sabia que a Abin o havia mandado para Jujuba, embora sob coação. “Foi você que escreveu tudo aquilo ou você tirou de algum lugar?”, ele perguntou a mim certa vez. Onde diabos ele havia lido textos meus? Na época pensei que ele se referia a um texto meu contendo denúncias e que eu remeti para os Direitos Humanos, na Suíça. Ou talvez Chianelo estivesse se referindo a poemas meus que estivessem sendo exibidos em Jujuba numa exposição – que eu não visitei – denominada “Trabalhos dos Internos”. A tal carta para os Direitos Humanos que continha várias denúncias e que remeti para a Suiça, retornou o aviso de recebimento assinado como “NoNoNo Abreu” (sic), indicando claramente que a correspondência havia sido

interceptada. Esse sobrenome “Abreu” eu já havia topado, na Clínica Etabamissanga. O

que ele significava? Talvez um ab-réu, um réu que não era, ou não deveria ser réu. No meu entender eu não era réu, mas sim o governo; por outro lado o governo não se admitia réu, mas queria me transformar em um. Na ocasião em que indaguei a Chianelo

sobre seus ferimentos, ele disse: “Quando chegar a hora, vou pedir seu apoio ao Lula

também para quem manda nele!”. Presumo que quem manda no Lula é a Abin e os generais das forças armadas. Somos uma ditadura mal disfarçada com eleições compradas. Quem teria cacife para competir com o bolsa-família? O bolsa-família é uma compra de votos. Pagamos 43% de impostos sobre tudo que produzimos. Esse montante, entretanto, é usado pelo governo em benefício dos próprios governantes e para garantir que tudo continue como está. Só sai perdendo quem não faz parte da máfia.

e

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Passei a ser o fiel escudeiro de um interno conhecido como Dom Bosco, cujo nome verdadeiro era João Bosco. Ele era puro e bom, alguém admirável. Tinha cerca de sessenta anos e todos gostávamos dele. Eu o auxiliava em seu banho matutino todos os dias. Ajudava-o a se enxugar e a se vestir, pois ele tinha dificuldade em fazer isso. Fiz amizade com sua mãe. Ela levou um jogo de damas para João Bosco e me pediu que tentasse fazer com que ele jogasse um pouco. Mas disse sobre o jogo: “Jogar damas é bom, mas não pode comer para trás”, disse ela. “Como assim?”, perguntei, “nas regras que usamos aqui no Brasil se pode fazer isso”, completei. “Não, comer para trás não pode”, insistiu ela. Fiquei assutado, com medo mesmo. E se abusassem de João Bosco em Jujuba? Não. Não João Bosco. Para qualquer outro eu teria sido indiferente, mas não com aquele meu amigo. Eu teria que ajudá-lo, tentar impedir que fizessem mal para ele. Saí de minha enfermaria, uma das mais confortáveis, e fui para a de Dom Bosco. A única cama que havia livre lá não tinha colchão, nem lençol tampouco travesseiro. Procurei em toda parte um travesseiro, um colchão, um lençol. Ninguém tinha nada. Já de noite, sem opções, me deitei sobre a armação de metal da cama, esperando que o sono chegasse e eu dormisse logo. Tem gente que dorme até de pé nos presídios, porque eu não poderia dormir sem um colchão? A noite seria longa, mas eu estava disposto a enfrentar a situação. Não deixaria ninguém tocar em meu amigo. Alguém mais consciente, entretanto, entendeu – sabe-se lá como – o que estava

acontecendo. Ao me levantar para ir ao banheiro, havia um colchão encostado na parede. Eu disse a mim mesmo que Deus mandara o colchão como incentivo ao meu bom trabalho. A noite não foi tão ruim e nos dias seguintes consegui o travesseiro e o lençol. João Bosco ficou bem. Um enfermeiro negro, culto e educado descobrira o que ocorria. Ele me disse: “Eu entendo o que você está fazendo, e acho nobre de sua parte. Algo louvável. Mas tem uma coisa: não é responsabilidade sua.” Talvez ele não entendesse que a partir do momento em que me sentia responsável, passava a ser responsável por Dom Bosco. Minha consciência jamais me deixaria em paz se eu negligenciasse a segurança de meu amigo naquela ocasião. E vou te dizer: quando traímos nossa consciência, deixamos de ser filhos de Deus para nos tornarmos escravos de Satanás.

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Certa noite fui acordado por Josemil que conversava em tom tenebroso com outro interno que eu ainda não conhecia. Eles conversavam num tom amedrontador. Logo achei que este outro interno estava lá para matar-me. Percebi que falavam sobre mim e que eles sabiam o que havia acontecido na Clínica Santa Serafina. “Podemos conversar?”, perguntei a certa altura. “Não” foi a resposta categórica. A certa altura o cara que eu não conhecia perguntou: “O doutor Fernão Ourique está bom para você?” como que me incitando a buscar vingança. Dava a impressão de que ele queria tratar comigo que apenas o Doutor Fernão Ourique Pinto Caia fosse punido pelo incidente na Clínica Santa Serafina. Essa foi uma evidência clara de que ele era agente da Abin – de outro modo, como saberia sobre o Dr. Fernão Ourique? Após o susto inicial, levantei-me, fui ao banheiro e urinei de pé dizendo bem alto: “Eu estou determinado!”, como se quisesse dizer que iria até onde fosse necessário para fazer justiça. No dia seguinte a psicóloga Dábura nos apresentou o sujeito na reunião conhecida como “Bom dia”. Esse mesmo infeliz me fez uma ameaça velada ao me passar a suposta conta da Igreja Mundial. O número da conta era “BB 253 0280-02”. O “253” fazia menção ao telefone de um grande amigo meu, o professor doutorado pela UFRJ Jorel Pafuncio Vilhana, da UFF, que me orientou durante anos em minhas pesquisas em Matemática – o número telefônico dele começava com “2553”. Escrevendo o “5” uma vez só em vez de duas, ficava “253”. O bloco seguinte, “02”, fazia referência a Pafuncio e sua esposa (duas pessoas) que eram

objetos da ação “80” ou 40+40 = 40x2, onde o quarenta fazia menção às 40 chibatadas da bíblia, ou, o que era muito pior, quarenta enrabadas, como consta no livro “Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos. O “-02” significava “menos dois”, que poderia significar que eu já não podia contar com eles. Cheguei a pensar que haviam matado Pafuncio e sua esposa, mas na verdade eles estão bem, graças a Deus. Sequer foram ameaçados e nada sabem a esse respeito. O mesmo infeliz do golpe da Igreja Mundial mostrou-me duas fotos: numa via-se o Cristo crucificado da cintura para cima, e na outra estavam suas pernas. A idéia sugerida era clara.

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Um ponto que destaco é o fato de eu e os demais internos sermos obrigados a tomar os remédios (drogas), quando a legislação brasileira prevê que os usuários da saúde podem se negar a tomar os remédios, desde que desobriguem seus médicos de qualquer responsabilidade por essa decisão. Esse direito foi e tem sido violado despudoradamente pelos hospitais psiquiátricos. Fui drogado de forma vil durante minha estada em Jujuba. A dosagem foi suficientemente absurda para comprometer minha memória e meu raciocínio. Coisas que antes memorizava com facilidade, agora retenho com esforço e dificuldade. Imediatamente antes de iniciar minha caminhada diária, eu sempre memorizava a hora em que começava a andar, para saber ao certo quanto tempo tinha caminhado. Isso sempre foi fácil de fazer. Agora, porém, esqueço essa informação em dois ou três minutos. Também não tenho mais prazer em estudar, em me exercitar ou escrever. Faço tudo com muito esforço e má vontade, e o resultado tem ficado sempre aquém dos que eu costumava ter. Sou hoje um homem frustrado e ansioso, devido às drogas que me ministraram em Jujuba. Sofro de hipotireoidismo por conta dessas drogas, e talvez pelo crack que tenham baforado em meu rosto enquanto eu dormia no Hospital Psiquiátrico de Jujuba. Minha frustração também vem de saber que provavelmente tenho AIDS, sem ter tido comportamento de risco que justificasse isto. Nunca fumei, não bebo, nunca usei nenhum tipo de droga ilícita, com possível exceção para o crack supostamente baforado em meu rosto a revelia em Jujuba. Não sou hemofílico, nem homossexual e nunca fiz sexo em troca de dinheiro, apesar de, no desespero de não ter comida em casa, ter anunciado meus serviços “somente para mulheres” nos classificados do Jornal “O

Fluminense”. Além disso, sempre fui fiel à minha esposa. É revoltante o que fizeram comigo. Como disse Estamira: “A culpa é do hipócrita, mentiroso e esperto ao contrário, que atira a pedra e esconde a mão.”

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Houve uma conversa que tive com o psiquiatra Dr. Dimenos em que ele toca na questão do suborno. Ele questionou quanto eu poderia pagar para ter alta. Ele foi suficientemente discreto para não justificar uma denúncia, mas se fez entender. A questão era “quanto”. Das duas, uma: ou ele estava sendo pressionado para me manter internado, ou estava recebendo dinheiro para isso. A segunda possibilidade me parece mais crível. Fiquei chocado. Se um médico faz este tipo de coisa, que dirá um político ou um juiz! Não é o desejo de ajudar as pessoas que motiva os estudantes de medicina, mas sim a possibilidade de ter nas mãos a saúde de outras pessoas e poder decidir a quem ajudar, conforme o tamanho da propina. Eu começava a entender as piadas sobre médicos, como aquela em que um médico que acabara de morrer e estava diante das portas para o paraíso dizia a São Pedro: “Deixe-me entrar! Eu só estava fazendo meu trabalho ” Outro ponto é que o direito que todo paciente tem de ver seu prontuário me foi negado várias vezes, pelo terapeuta ocupacional Marcius Marmota Morta, pelo psicólogo Tohn e por duas enfermeiras. Pedi a todas essas pessoas para ver meu prontuário e elas me negaram um direito que tenho por lei. Por conta dessa e de outras arbitrariedades cheguei à conclusão de que a legislação é uma estória da carochinha. Não há legitimidade nenhuma na legislação, do mesmo modo que não há legitimidade na representação do povo no congresso nacional. A esmagadora maioria dos políticos simplesmente acata as ordens do grande capital. A lei é uma ficção moral – um delírio coletivo. Pelo menos por enquanto.

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Conheci um sujeito chamado Marcelo Vimente em Jujuba. Por sinal, ele foi internado um dia antes de mim. Pensei ter nele um aliado, um amigo. Estava enganado. Marcelo recusou a comida de Jujuba e foi para o soro. Apesar desse mal comportamento, recebeu licença e alta uns três meses antes de mim. Certa vez, quando ele estava visitando o hospital pediu para que eu vigiasse uma maleta esverdeada que ele levava e

foi para outro recinto. Como ele demorava a voltar, peguei a maleta pela alça e fui devolver para ele dizendo “Eu não posso tomar conta para você”, ao que ele diz:

“Vitória!!”. Ele só queria minhas digitais na maleta. Comecei a me preocupar. O pessoal da Abin poderia plantar a tal maleta na cena de um crime ou algo assim. Depois a culpa recairia em mim. Hoje penso que provavelmente eles só queriam minhas digitais mesmo, para o caso de eu tentar me vingar. Quando tive alta do Hospital Psiquiátrico de Jujuba estava com os nervos em frangalhos. Um verdadeiro fantasma. Tinha uma rouquidão e apatia próprias de pessoas doentes. Julguei estar com sintomas da AIDS, que teria se desenvolvido rapidamente a partir de uma infecção absolutamente atípica. Intuí que a quantidade de vírus que meu corpo havia recebido deveria ser muito alta para que, em poucos dias, a doença chegasse num estágio tão avançado, que de outro modo levaria de cinco a sete anos para acontecer. Todos os meus exames anteriores deram negativo para todas as doenças venéreas, AIDS inclusive. Eu estava esperando o resultado do exame que fiz após a perfuração em meu pé esquerdo, entretanto. Para minha surpresa e contentamento o resultado também foi negativo, porém descobri que minha apatia e rouquidão decorriam do hipotireoidismo, o que podia significar que a quantidade de vírus que meu organismo recebeu era pequena o suficiente para não resultar num desenvolvimento rápido da doença. Menos mal. Minha mãe dizia não acreditar nas coisas que eu lhe falei. Ela preferiu agir como se tudo fosse um delírio, alucinação e esse tipo de estória da carochinha que os donos do poder inventam para vender haloperidol, carbamazepina, risperidona e tantos outros psicofármacos. Comecei a perceber que todos agiam assim. Se eu falasse com o imbecil do Ruiz Mérdio, meu psiquiatra na policlínica Sérgio Barrouca, que haviam me contaminado com uma agulhada no pé esquerdo ele me mandaria internar novamente. Eu já tinha falado por alto sobre isso com a Drª Cacilda Gondola, minha psicóloga na policlínica e ela praticamente ignorou a gravidade da denúncia. Riu-se a infeliz. Preferi não falar com mais ninguém sobre isso, pois era constrangedor ser suspeito de uma doença associada popularmente a comportamentos sexuais duvidosos. Como ninguém acreditava em mim e eu mesmo não tinha como provar o que dizia, e tendo a consciência tranqüila de que eu não havia tido nenhum comportamento de risco que justificasse a suspeita, chamei minha namorada Cassia para voltar a morar comigo. Antes dela chegar, entretanto, eu era corroído por pensamentos e dúvidas: o que eu estava fazendo era correto? Não seria melhor explicar a situação para Cassia antes? Se eu fizesse isso ela poderia não vir mais e espalharia a

notícia infame. Ela chegou e fomos logo transar. E assim seguiam os dias, muitas transas, todos os dias, e sem camisinha, claro, pois eu queria ter filhos e sentia que meu tempo estava esgotando-se. Até que um dia a consciência, ou o medo de Cassia me culpar por sua eventual infecção, me fez recusá-la sexualmente durante algum tempo. Ela não entendia o motivo e eu dizia que em fevereiro de 2009 (seis meses após a suposta infecção) nós resolveríamos tudo. Ela continuou sem entender nada e passou a me provocar sexualmente. Não foi necessário muito tempo e eu logo caí em tentação. Ficamos juntos e depois disso, finalmente, contei a ela o que havia ocorrido. Isso foi menos do que nada. Ela ignorou totalmente meu relato, ninguém acredita em mim e quem acredita finge não acreditar. Cassia se encontra no primeiro caso e Dalva, provavelmente, no segundo. Desde então somos um casal como qualquer outro. Prefiro esperar para ver no que dá. Enquanto isso, escrevo esse relato.

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Sobre minha internação em Jujuba há ainda outros acontecimentos notáveis. Um interno alto, pele parda, educado e inteligente, de nome Jota Morel logo me chamou a atenção. Ele dizia coisas como: “Aqui dentro eu digo que sou Deus, mas eu não sou Deus, eu sou O CARA, e se você disser que eu sou Deus lá fora eu vou dizer que você come merda, rasga dinheiro e só fala bobagem”. Admito hoje, muito a contra gosto, que ele trabalhou para a Abin – ou talvez para outro braço do poder, talvez para a mídia. Não era um secreta típico, entretanto. Não, Jota Morel era especial, culto, inteligente e tinha uma conversa interessante. Essa frase que citei ele dizia sempre. Parece-me que ele pedia por silêncio no fim da frase e também mostrava o quanto as testemunhas são frágeis: ele não confirmaria nada e talvez fosse difícil alguém fazer isso. No início ele dizia que era Deus, O CARA, e queria dizer com isso que ele tinha poder para decidir as coisas. Ele ter dito que era O CARA me fez pensar se ele próprio não seria o infeliz do filho-da-puta que teria picotado Alberto com a motosserra. Não, Jota Morel, não. Ele tinha carisma, liderança e a Abin não correria esse risco, pois eles não sabiam se eu poderia reconhecê-lo. Jota Morel tinha uma outra frase que ele repetia muito: “Quem parte e reparte e não fica com a maior parte é louco, trouxa ou está escondendo o Jogo”. Nessa aqui, penso que ele perdoava a roubalheira do governo, que deveria partir e repartir, reconhecendo que era natural que houvesse desvio de verbas, corrupção etc. Se não houvesse isso, aí sim, segundo o pensamento vivo de Jota Morel, havia alguma coisa

errada – loucura, idiotice ou uma trapaça ainda maior. No fim de minha internação ele me mostrou uma capa do disco de Gonzaguinha, com o cantor com a cabeça partida ao meio, apenas um nó de arame farpado segurando as metades da cabeça. “Você parece mais com essa capa do que com aquela outra”, disse-me Jota Morel. Na outra capa Gonzaguinha aparecia entre tons de verde (esperança) e vigilante de sua “capacidade de reprodução”. Eu estava dividido, realmente. Se por um lado eu procurava mostrar que ficaria quieto ao sair, que não faria denúncia alguma e que achava o governo Lula muito bom, por outro eu não podia concordar com os métodos hitlerianos que utilizavam. Ao sair, logo comunicaria as mazelas que presenciei, como de fato faço aqui. Algum tempo depois, agulharam meu pé, e isso talvez prejudicasse minha intenção de ter uma descendência fértil e com boas chances de sobrevivência. Era o contrário da “capacidade de reprodução”, de que Jota havia me falado algum tempo antes.

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Havia um interno com quem fiz uma boa amizade. O nome dele era Júlio Prático, uma grande pessoa, um bom coração. Ele sofria de epilepsia e eu cheguei a presenciar algumas de suas crises. Eu logo chamava os enfermeiros ou algum médico que estivesse por perto. E estranhava que ninguém mais fizesse isso. Uma boa alma ele era. Pelo menos foi o que me pareceu. Júlio Prático era paciente de Rildo Bonifascista. Conversávamos eu, Júlio Prático e um outro interno, cujo nome esqueci, e que dizia não saber ler nem escrever. Este outro interno era evangélico e mentia a respeito de ser analfabeto, sabe-se lá com que intenção. “Eric, eu não tive quem me ensinasse as letras”, lamentava-se numa farsa patética. Eu fingia acreditar, para não criar problemas. Certa vez Júlio Prático apontou para uma letra “E” e perguntou a ele: “Que letra é essa?”, ao que o infeliz responde: “Essa letra é o Ó”. Sim, fazia sentido, “E” de Eric e “O” de Otário. Esses camaradas tiveram alta muito antes de mim. Havia outro interno chamado Ronaldo Justoso, alto, branco, calvo, de barba e que ficava indo e voltando com as mãos num movimento irritante e meio gay. Não falava com ninguém e ninguém falava com ele. Na maioria das vezes que puxei assunto com ele, não tive resposta.

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Num dos primeiros dias de internação fiz a denúncia da morte de Alberto na porta

da enfermaria, diante de enfermeiros e pacientes. O psicólogo Tohn sabia das denúncias e me perguntou: “Porque você está fazendo as denúncias aqui?”, respondi: “Para garantir minha segurança”. Algum tempo depois um enfermeiro apareceu para colher meu sangue, para, supostamente, fazer exames. Fui levado a uma pequena sala, onde estávamos somente eu e o coletor. Sentei-me, estendi o braço e permaneci imóvel. Entretanto, o coletor, ao furar minha veia puxou a agulha para cima, levemente, dizendo: “fica quieto vai ser uma pena perder uma veia boa dessas” Estive imóvel durante todo procedimento. O coletor usou força suficiente para se fazer entender: eu teria que ficar quieto, de bico calado, caso contrário ele viria colher sangue novamente, e dessa vez poderia arrebentar minha veia de propósito. E eu não poderia fazer nada a respeito. Afinal, quem teria mais crédito? Em quem as pessoas iriam acreditar? Em mim, interno de uma clínica psiquiátrica deixado ao deus-dará pela família ou em um funcionário público trabalhador e pai de família? No dia seguinte, pela manhã, Jota Morel me mostrou um jornal e perguntou: “Quer ler?”, “Sim”, respondi. A manchete era “Covardia assusta população” - tratava-se do caso do homicídio de Isabela Nardoni, muito comentado na época. De tal forma fui drogado na clínica que logo associei a “covardia” de que se falava na primeira página do jornal ao medo que eu mesmo tive e que me impediu de continuar a denunciar. De repente entendi que a matéria falava de mim mesmo, tal era o grau de confusão em que minha mente ficou depois de tantas ameaças e drogas infligidas criminosamente. Comecei a associar o caso Isabela Nardoni ao problema que eu havia tido na Clínica Santa Serafina. Será que Aline e Isabela, de algum modo que eu não podia entender, eram a mesma pessoa? Talvez Jota Morel só quisesse mostrar que crimes bem mais chocantes podem ficar impunes ou não serem punidos adequadamente. Será que Alberto era, na verdade, o padrasto de Isabela/Aline? Ninguém falou do padrasto de Isabela. Quem ele era? Qual sua aparência? Hoje entendo que essas questões provavelmente não estão conectadas desse modo. Seria uma mancada homérica da Abin me deixar a par de todas as pistas do caso. Então minhas suspeitas deviam ser infundadas.

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Na hora do jantar percebi que havia um pedaço de carne que eu mastigava, mastigava e ele não era triturado. Tirei aquele pedaço de carne da boca e pus no canto do prato. Terminei de jantar e reclamei veementemente: alguém estava colocando coisas no

meu prato que não faziam parte do cardápio. Guardei o pedaço de pele no bolso e falei com várias pessoas a respeito: com a psicóloga Dábura, com o Dr. Dimenos, com a nutricionista. Esta nos garantiu que se tratava de um tempero. Não era tempero, certamente, pois não tinha gosto de nada nem cheiro de tempero e era visivelmente um tecido animal. Algum tempo depois caiu a ficha: parecia muito com um pedaço de saco, o escroto mesmo, de alguém, cortado bem embaixo. Duvido muito, apesar da aparência, que se tratasse de tecido humano. Pensei em meu filho de consideração, Luiz Henrique, que morava em São Gonçalo, num lugar perigoso, não raro palco de assassinatos. Tive medo. Mas realmente fui inconseqüente ao, no campo de futebol de Jujuba, sem pronunciar uma palavra, e já para ir embora, pegar a bolinha infantil e colorida de futebol americano, amorosamente, e pô-la em lugar mais seguro. Pronto. A cagada estava feita. No dia seguinte o interno João Bosco, também conhecido como Dom Bosco, que era um dos únicos loucos de fato lá, puro, bom e ingênuo, me falou: “Companheiro, eu tô vivo companheiro. Eu tô vivo. Como é que eu tô vivo se ouvi uma voz dizendo 'você matou a criança, você matou a criança' e eu continuo vivo?” O pessoal da Abin já sabia que eu sentia uma afeição de pai por Luiz Henrique. Culpa do Orkut: “Tem filhos? > Sim, me visitam de vez em quando”. Graças a Deus Luiz Henrique está bem, na casa de sua mãe, como verifiquei assim que saí de licença. Inclusive ofereci abrigo à ele e à sua mãe Grace Kelly, mas ela recusou, por não achar que houvesse necessidade. Não, eles não matariam Luiz Henrique comigo para denunciá-los à Deus e o mundo. Sim, eles matam criancinhas. Sempre mataram e ainda matam. Em Esparta – cidade eminentemente militar – os bebês que não serviam para a guerra eram atirados de um precipício. Em tempos mais recentes, no Brasil, está documentada a “Operação Condor”, em que ficou clara a posição dos governos militares da década de 70 a esse respeito. Havia um conluio de caráter internacional visando a execução não somente de presos políticos, mas também de seus filhos – mesmo que fossem crianças. Procurando na Wikipédia do Brasil, há mais detalhes. Porque matar as crianças? Porque ao deixá-las viver corre-se o risco de que elas cresçam e venham a clamar por justiça ou a querer a vingança. Elas poderiam, no futuro, servir de testemunhas de acusação contra os antigos dirigentes num tribunal internacional que julgasse crimes contra a humanidade. É uma questão de “lógica”.

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Apesar de todos os avanços tecnológicos e científicos, dos avanços da medicina e das comunicações, o ser humano continua o mesmo. Os militares, não todos, mas os de alta patente principalmente, são homicidas em potencial, visto prepararem-se para a guerra; e assassinos eventuais, em se tratando de manter o poder historicamente

estabelecido. As forças armadas, que matam criancinhas com o apoio dos governos, com

o respeito medroso da população e financiadas com o dinheiro suado do trabalhador, não devem continuar existindo. Enquanto houver exércitos, haverá terror.

***

Após reatar com Cassia, ela entrou em contato com o suposto Alberto, que ela afirmava ser o mesmo Alberto que esteve na Clínica Santa Serafina, internado comigo.

Foi muito estranho o modo como ela conseguiu o telefone dele. Ela simplesmente ligou para a Clínica Santa Serafina e pediu o telefone de Alberto. Eles não tinham obrigação nenhuma de dar o número. Ao contrário, deveriam ter negado a informação para proteger

a privacidade do ex-paciente. Fizeram o contrário, e informaram o nome dele completo:

Alberto dos Mantos Gregório. Achei isso ainda mais estranho, já que o nome “Alberto Mantos de Gregório” era justamente o nome de um grande amigo meu dos tempos de adolescência (o nome completo desse meu amigo era “Carlos Alberto Mantos de Gregório” - já me referi a ele antes). Acabei achando que esta era uma piada da Abin para me confundir e mostrar que eles conhecem minha vida inteira. Cassia foi ao trabalho deste Alberto e bateu duas fotos dele, mas não ficaram muito boas as imagens, pois as fotos foram batidas meio de longe. Se Alberto estivesse vivo, meu principal argumento para demonstrar o interesse que a Abin tem de me matar cairia por terra. Porque os meganhas da Abin estariam no meu encalço, então? Que motivos teriam? Duas coisas estão claras: o poder comunga com o poder e o poder quer minha morte. Acredito que minha conquista da sétima colocação na Olimpíada Iberoamericana de Matematica Universitária em 2006 foi o motivo para a perseguição que estou sofrendo.

07/11/2008

Fui ao Proderj, afinal, local de trabalho de Alberto. É mesmo o Alberto que trabalha lá, ele está vivo. Ele me disse que havia tido uma crise na noite em que o vi caído no chão, devido a alta ingesta de água com conseqüente baixa do sódio no organismo. Mas

isso não explica o barulho da motosserra que ouvi pouco depois naquela noite. Isso também não explica a forte taquicardia que tive na Clínica Santa Serafina, beirando um ataque cardíaco. Nem o fato de ter sido perseguido na Clínica Etabamissanga e no ônibus que ia para Cabo Frio. O fato de Alberto estar vivo só piora minha situação, pois perdi um grande trunfo que tinha contra meus algozes. Pelo menos agora sei que não é por este motivo que estão me perseguindo. Qual o motivo, então? Talvez minha premiação na Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária em 2006, após ter suspenso a medicação psiquiátrica, tenha sido o motivo. Há uma indústria bilionária em torno do mito da doença mental. Os ditos “remédios” antipsicóticos são drogas terríveis que tolhem o indivíduo de tal forma que o impedem de ter sucesso na vida. O tamanho do cérebro de alguém que toma antipsicóticos é menor do que deveria. A memória é prejudicada pelos tranqüilizantes, o raciocínio torna-se impreciso e lento. O paciente fica “imbecilizado”, torna-se uma sombra. Passa a descuidar da higiene e da aparência, transformando-se num sujeito frustrado. E uma pessoa frustrada e drogada está muito mais suscetível a cometer agressões e crimes que alguém satisfeito e de cara limpa. Quem nunca ouviu falar de alguém que se tornou violento e agressivo depois de beber? E o sujeito idiotizado pelo consumo habitual de maconha? E os crimes cometidos por pessoas que fizeram uso de cocaína? Não é tão diferente com os neurolépticos e demais drogas psiquiátricas. Elas são drogas como quaisquer outras. Causam forte dependência psicológica e quem tenta parar sofre de síndrome de abstinência. Em 95% dos casos, a desvantagem de um paciente psiquiátrico em relação à alguém sem diagnóstico decorre somente do dano neurológico causado pelo uso prolongado ou excessivo de medicação psiquiátrica. Dizem que não há nenhum tipo de exame que possa ser feito para confirmar, cientificamente, um diagnóstico de esquizofrenia, bipolaridade ou mesmo TDAH – embora isso possa não ser inteiramente verdadeiro, reforça a idéia de que a autoridade médica psiquiátrica é a única que pode, com o aval do poder, julgar se alguém é esquizofrênico ou não. Isto dá margem às maiores arbitrariedades. A chamada “doença mental” é um artifício criado para estigmatizar, punir, prender, anular e matar as pessoas que discordam do sistema ou do governo. Na antiga União Soviética diversas pessoas foram mantidas presas por muitos anos em instituições psiquiátricas por motivos políticos. Isso continua acontecendo em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Atualmente, na China, muitas pessoas estão sendo mantidas presas em manicômios por terem um modo de pensar que incomoda o governo. Essas

pessoas estão sendo drogadas compulsoriamente com o pretexto de serem “doentes” e estarem sendo “tratadas”. Eu mesmo fui ameaçado por minha psicóloga Cacilda Cabrita Donnona: ela me disse numa consulta que teria que me prescrever a Eletroconvulsoterapia. E ela tinha poder suficiente para isso. A conclusão é que a psiquiatria é um instrumento de coerção utilizado pelos mais fortes para silenciar os mais fracos.

Não há como contestar um laudo psiquiátrico, pois ele é totalmente baseado na autoridade do médico. E os médicos tendem fortemente a concordarem uns com os outros quanto a laudos psiquiátricos. Até porque os empregos deles dependem disso e, afinal de contas, ninguém quer entrar em conflito com outros profissionais do ramo. Atualmente a voz dissonante dentro da Psiquiatria é o Dr. Thomas Szasz, que está denunciando estes abusos.

***

Revoltado com minha situação – doente, perseguido, caluniado e detido sem motivo por meses – passei a não procurar mais meu próprio desenvolvimento. Queria apenas curtir a vida. Porém, passei a ter muita raiva do pessoal de Jujuba e do posto de saúde Sérgio Barrouca. Fui seviciado durante meses sem necessidade alguma, sai doente de Jujuba e as pessoas ainda torciam o nariz para mim, como se eu fosse um grande mentiroso, como se eu tivesse inventado toda história. Aquilo me indignou. Certo dia resolvi ir até a policlínica Sérgio Barrouca e pedir uma cópia de meu prontuário, que, afinal de contas eu tinha o direito de ter. Pedi a secretária para ver meu prontuário. Ela disse que pegaria para mim e falou para que eu aguardasse. Esperei o suficiente e então perguntei a ela novamente pelo prontuário. Ela disse que o havia dado ao Drº Ruiz Mérdio. Eu me dirigi ao consultório dele e pedi para ver meu prontuário. Ele disse que eu teria que esperar. Encrespei. Porque o prontuário não foi entregue a mim? Porque o diabo da secretária deixou a entender que entregaria a prontuário a mim quando na verdade não tinha intenção de fazê-lo? Derrubei uma pilha de papeis da mesa de Ruiz Mérdio. O diabo da secretária disse: “Vou chamar a patrulhinha!”. Então me desesperei e dei um empurão nela. Saí do posto a passos rápidos. Os funcionários me perseguiram até minha casa. Entrei em casa e tranquei a porta. Mas tive azar. Minha mãe estava por perto e abriu a porta para que o corpo de bombeiros entrasse em minha casa. Eu estava trancado em

meu quarto e o corpo de bombeiros conseguiu abrir a porta sabe-se lá como. Conversamos. Eu expus o caso. De nada adiantou, acompanhei-os até o hospital de Jujuba. Fui levado para a emergência. Disse que não tomaria nenhuma droga, que era um direito que tinha por lei. Inútil conversar com os capangas do governo. Quatro enfermeiros mais fortes que eu me agarraram com violência e me amarraram com força na cama. Fui drogado e imediatamente comecei a sentir muita sede. Pedia água e tinha que pedir muitas e muitas vezes para um pequeno copo d’água chegar a minha boca. Demorava séculos. Pedi água para o próprio Josemil, que perguntou com cara de pouca amizade: “Você ainda se lembra de mim?”. Não respondi e aceitei a água. Até que comecei a ter vontade de urinar. Eu estava amarrado e pedia para me desamarrarem para que eu fosse ao banheiro. Eles não me desamarraram, entretanto. Entrei em desespero. Era como se eu estivesse a dias amarrado na cama. Uma verdadeira tortura química. Não resisti e acabei urinando ali mesmo. Fui terrivelmente injustiçado o tempo todo. A enfermeira parecia ter prazer em me ver sofrer. Era uma sádica. Mas só comigo. Ela fazia questão de mostrar estar sendo justa com outros internos. Fiquei amarrado de tarde até a noite. Já estava achando que ia começar tudo de novo, quando tive a notícia de que minha mãe e minha esposa iriam me levar para uma clínica particular, a clínica Santo Moran, da qual eu tinha boas referências de Mauro, um amigo meu que sofre de distúrbio bipolar. Fui desamarrado da cama, tomei um banho e pus um uniforme de Jujuba. Puseram minha roupa urinada num saco plástico e me mandaram numa ambulância para a Casa de Saúde Santo Moran. Minha mãe e minha esposa foram nos bancos da frente da ambulância. Fiquei um mês em Santo Moran. Eu havia feito as provas do vestibular para a UFF novamente nesta época. Passara em 7ª colocação para cursar matemática nessa faculdade. Foi a quarta vez que prestei vestibular para UFF e a quarta vez que fui aprovado nas primeiras colocações. Eu teria que fazer a matrícula e a inscrição em disciplinas, entretanto. Uma vez na Santo Moran, alertei minha psiquiatra, os enfermeiros e coloquei essa questão na reunião semanal dos internos. Pedi ao corpo de enfermagem para falar a respeito com a direção da Santo Moran, mas eles sempre colocavam algum obstáculo. Ou os diretores estavam em reunião, ou já tinham ido embora, ou qualquer coisa do gênero. Minha esposa me garantiu que faria minha matrícula e fiquei menos preocupado. Tentei por muitas e muitas vezes falar com minha mãe pelo orelhão situado nas dependências da clínica. Não é um exagero dizer que devo ter ligado para ela cerca de 150 vezes. Consegui falar duas. Ela nunca atendia, me evitou o tempo todo.

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Nessa época chegou à Casa de Saúde Santo Moran uma uma garota chamada Samantha. Branca, sapeca, ousada – tinha 21 anos e se vestia de modo provocante, com shorts que realçavam suas curvas. O papo dela era insinuante. Ela dizia coisas como “Eu fiz massagem mas mereço respeito”. Procurei me aproximar dela, manifestei interesse. Tudo que ela queria eu fazia uma forcinha para conseguir. Samantha gostava de jogar dominó e eu sempre jogava com ela. Certa noite, no dia 15/01/2009 aproximadamente às 22:00, estávamos jogando xadrez (eu a estava ensinando) quando ela disse: “Posso de perguntar uma coisa?”, “Claro! O que é?”, disse eu. “Não, nada, respondeu ela”. Continuamos a aula e então ela tomou coragem e disse: “Eu quero te dar um beijo!”. Eu enlouqueci. Levantei-me, nos beijamos, ela mordia meus beiços, eu metia a língua em sua boca molhada. Ela pôs minha mão sobre seus seios, que passei a acariciar. Foi ótimo. Isso nunca acontecera comigo – uma garota dar um mole desses para mim. O mais perto que eu chegara disso foi com minha esposa Cassia Cristina. Mas ficamos nisso. Somente outra vez a cerquei na escada roubando um beijo. Ela me disse “Acabou”. Eu beijei Samantha como nunca tinha beiijado alguém antes. Segundo suas próprias palavras ela era uma drogadicta. Com aquela mulher de 21 anos aprendi o que é o amor entre duas pessoas descoladas. Passei a acreditar mais no meu potencial de atrair mulheres.

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Também escrevi alguns textos e pesquisei sobre farmacologia na biblioteca da Clínica Santo Moran. Transcrevo alguns destes textos aqui.

Carta Aberta aos Direitos Humanos

No Brasil muitas pessoas estão sendo mantidas em cárcere sem que tenham cometido crime algum. Alega-se que se tratam de doentes mentais, quando na verdade essas pessoas não tem doença alguma, excetuando as doenças causadas pelas próprias

drogas que lhes são ministradas em caráter compulsório. Essas pessoas vivem completamente alienadas, pois lhes é negado o acesso à cultura, à informação de bom nível, ao estudo e ao desenvolvimento enquanto seres humanos. Cito o caso do interno Adailson Madeira do Hospital Psiquiátrico de Jujuba, vítima de drogadição e, possivelmente, de abuso sexual por parte de funcionários do HPJ e de outros internos. Menciono também meu próprio caso: após obter a sétima colocação na Olimpíada Iberoamericana de Matemática Universitária em 2006 sofri diversas internações absolutamente sem necessidade médica e sem que se cumprissem as condições para tanto. Nessas internações tentaram, por diversas vezes, matar-me provocando um enfarte via mistura de medicações. Não sei porque tentaram fazer isso, tudo que imagino a esse respeito é mera conjectura. Cito também o caso de Geraldo Tourada que é mantido em cárcere contra a própria vontade já há mais de dez anos na Casa de Saúde Santo Moran, na cidade do Rio de Janeiro. Geraldo é meu companheiro de quarto e manifesta constantemente o desejo de retornar ao lar em definitivo. Não percebo no comportamento dele nenhum motivo que justifique sua internação por tanto tempo. Há, ainda, o caso de Breno Manhães da Vendeta que é inteligente e não tem nenhuma doença mental, como se pode constatar conversando com ele. Breno é culto e inteligente, mostrando que quer se desenvolver como ser humano. A despeito disso ele é mantido preso (internado) e se

torna um verdadeiro escravo dos caprichos da família. No contexto geral essa situação é mantida por dois motivos:

I. A necessidade que os governos tem de uma opção para silenciar

opositores políticos. De fato, para se internar alguém em um hospital psiquiátrico no Brasil basta que a força bruta do corpo de bombeiros seja amparada pela palavra de um psiquiatra, normalmente com a conivência da família, que toma para si as posses e a eventual pensão que o internado

ganhar.

II. O fortalecimento da indústria da psiquiatria, que engloba a industria das

drogas psicotrópicas. Essas indústrias movimentam cerca de 1 trilhão de dólares por ano em todo o mundo. Mortes suspeitas pelo uso de drogas psicotrópicas ocorrem e algumas delas são noticiadas pela imprensa. A mais comentada foi a do campeão de Jiu-jitsu Ryan Gracie que foi morto devido à administração dessas drogas. Também houve o caso de minha avó Gumercinda da Silva Cantos, que, aos 91 anos de idade foi submetida à drogadição por sua filha Hera Verão de Cantos que, amparada por médicos inescrupulosos e pela cultura

da impunidade e do favorecimento do status quo, ministrou à sua mãe Haloperidol e Neozine, levando-a a morte ao cabo de alguns meses. Então forjaram um laudo em que Gumercinda teria, supostamente, morrido em decorrência do Mal de Alzeheimer, doença que sequer foi cogitada enquanto minha avó ainda estava viva e parcialmente lúcida. Ora, os traços marcados de senilidade e degeneração mental avançada somente surgiram após a administração de haloperidol, razão pela qual somos levados a natural conclusão de que seus aparentes sintomas de Alzeheimer foram, na verdade, causados pela ingesta de Haloperidol. Em psiquiatria chamam isso de “psicose tóxica” ou “confusão de pensamento”, quando os sintomas da doença são causados pelos próprios medicamentos que deveriam combate-la. Tal informação consta do livro “Fundamentos de Farmacologia”, editado por John A. Bevan – editora Harbra, 1979. Tenho medo de morrer do mesmo modo. Parece haver um exame neurológico – ressonância com espectroscopia – que determinaria se alguém sofre de esquizofrenia ou não. Tal exame mediria a atividade dopaminérgica no cérebro do indivíduo, que no caso dos esquizofrênicos, seria aumentada. Entretanto tal exame é feito muito raramente e geralmente a autoridade de um psiquiatra é suficiente para que uma pessoa seja considerada portadora de esquizofrenia. A autoridade de um psiquiatra é tomada como a verdade por todos, inclusive pelos demais médicos, sem que seja exigido o exame comprobatório. Isto dá margem às mais absurdas arbitrariedades no que tange à diagnósticos psiquiátricos de esquizofrenia. Tenho corrido risco de morte a cada nova internação a que sou submetido. Provavelmente tenho seqüelas das drogadições a que fui submetido contra minha vontade desde 2007. Lesões neurológicas que quiçá hoje eu tenha são devidas às drogadições a que fui submetido, e não a nenhuma doença pré existente. Há casos de indivíduos que permanecem 10, 20, 40 ou 50 anos internados, mesmo após terem recebido alta, devido à exigência descabida de que algum parente teria de “aceitar” a alta do paciente, vindo busca-lo no hospital. Ora, até por tais pacientes terem recebido alta, deveriam ser considerados inteiramente aptos a deixar o hospital psiquiátrico por conta própria, sem depender de parentes que muitas vezes não os querem por perto para poderem (os parentes) continuar a gastar ao seu bel prazer as pensões dos familiares internados em instituições psiquiátricas. Essa situação vai contra os princípios básicos dos direitos humanos, e por isso escrevo essa carta.”

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No livro “Fundamento de Farmacologia” de John A. Bevan, editado pela editora Harbra, tive a confirmação de que a síndrome conhecida como “psicose tóxica” foi, possivelmente, a responsável pela morte de minha avó. Segundo o livro essa síndrome leva o paciente à morte fazendo com que o psiquiatra receite doses cada vez maiores de drogas antipsicóticas e anticolinérgias que aumentam os chamados sintomas extrapiramidais e fazem, assim, com que mais antipsicóticos e mais anticolinérgicos sejam receitados. Esse círculo vicioso pode levar a morte. O mesmo livro nos informa que “o tempo freqüentemente mostra que o remédio é pior que a doença” (capítulo 7: Reações Adversas a Drogas) e que “Nenhuma droga está livre do estigma de causar doenças” (capítulo 74: Doenças Induzidas por Drogas). Então, porque ingerir antipsicóticos? E, em particular, porque ingerir cada vez mais antipsicóticos com o avanço da idade? Sim, porque a função do antipsicótico é diminuir a atividade do neurotransmissor dopamina, cuja produção em nosso corpo diminui naturalmente com o passar dos anos e a chegada da idade madura e da velhice. Porque os psiquiatras são, então, aconselhados pelos manuais a aumentar a dose dos antipsicóticos com o passar dos anos e aumento da idade do paciente? Eu respondo: para anular o paciente e evitar que ele perceba o engodo em que o fizeram acreditar, a armadilha que é a psiquiatria e a canalha que está por traz dela. Eu percebi essa farsa e passei a ser perseguido. Se um único paciente que percebe a verdade causa tantos problemas, que dirá vários. Acrescente a isso a reputação de matemático competente e está armada uma guerra.

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De um lado a verdade, consubstanciada na pessoa de alguém que a descobriu por si mesmo e que tenta passar essa verdade adiante; do outro lado um monstro imenso, de cujo corpo milhões de pessoas participam e em cujas veias correm 1 trilhão de dólares por ano. Esse monstro é essa farsa vil em que a sociedade se encontra mergulhada. Nunca tantos ganharam tão pouco para que tão poucos ganhassem tanto. Considere o advento da Internet e seu desenvolvimento, os vídeos do YouTube – muitas vezes reveladores de assuntos proibidos na grande mídia; os diálogos francos de gente como a gente no Orkut, que fogem dos parâmetros ditados pelo grande capital; as respostas de populares a perguntas de populares no Yahoo!Respostas, que democratizam o

conhecimento. Tudo isso tem contribuído para que a verdade chegue ao grande público de modo cada vez mais isento. Antes, a verdade nos chegava em forma de fábula – os filmes, como THX 1138, que toca no ponto da drogadição numa perspectiva futurística e surreal – agora, com os sites de relacionamento, Orkut, Yahoo!Respostas e os sites de vídeos caseiros a verdade tem-nos chegado crua, como deveria ser desde o início, sem a censura do poder tirânico. Antes era necessário que intuíssemos a verdade por traz de um filme como THX 1138, sem que pudéssemos ter certeza sobre o que o autor – George Lucas – estava realmente falando; agora essa mesma verdade nos chega em vídeos claros, em diálogos francos em respostas contundentes através da Internet. Os poderosos querem manter a fraude. Mas a verdade costuma encontrar um meio de aparecer, ainda que demore muito, abafada pela força do poder econômico. A farsa é a arma do poder injusto; a ignorância da população é seu objetivo. O príncipe deste mundo mantém seu poder pela força do medo e do ódio imposto pela mídia à população. A grande mídia, por sua vez, é aliada do poder. Ela criou o ódio pedofóbico – no sentido de um ódio a relacionamentos entre pessoas legalmente menores de idade e indivíduos que já atingiram a maioridade legal; criou a degradante farsa homofóbica e o medo na população, que é mantida refém da TV e da grande mídia. Quando eu ainda acreditava que Alberto havia sido morto liguei para várias revistas e constatei atônito que a mesma pessoa que atendia telefonemas para a revista “Veja” também atendia as ligações para a revista “Isto É”, de linha editorial diametralmente oposta. Liguei também para vários jornais constatando o mesmo fenômeno. As mesmas pessoas atendiam as ligações direcionadas a veículos de mídia diversos. Isso é antidemocrático, uma vez que faz com que um número muito grande de assuntos e denúncias fique na dependência de um número muito reduzido de pessoas. As pessoas que atendiam sempre pegavam meu telefone e diziam que ligariam caso a história interessasse. Nunca ligavam, apesar de a história ser fantástica e de eu ter um nome na Internet como matemático premiado em Olimpíadas. Isso foi meses antes da grande mídia noticiar os grampos da Abin. Não existe opinião pública, existe opinião publicada. Do lado esquerdo do ringue o ser humano, pesando duas medidas de carne, sangue e ossos em um metro e tanto de altura; idade suficiente para lutar, esforçado, inteligente e com um futuro promissor. Alguém que descobriu as farsas do poder, alguém que descobriu a verdade, alguém que descobriu que a verdade tem várias faces e várias fontes – sejam elas bíblicas, sejam acadêmicas, teológicas, pessoais ou tecno-científicas – é sempre a mesma verdade. A verdade somente pode se conciliar com a verdade. Não

há contradição na verdade. Há paradoxos na verdade – parecem contradições, mas não o são. Verdades aparentemente contraditórias o são apenas superficialmente – tem caráter paradoxal, uma aparência de serem coisas irreconciliáveis – porém não são. A verdade tem várias fontes aparentes – os livros, a TV, os jornais, a Internet, a meditação, a reflexão – mas apenas uma fonte no coração humano: Deus – que está além de qualquer sentimento falso de religiosidade, além de qualquer idéia falsa pré-concebida, além até mesmo do arraigado ateísmo que costuma habitar os corações de pessoas verdadeiramente cultas e inteligentes que foram afastadas da idéia de Deus – porém não de Deus – pela inevitável observação de gente que, sob o pretexto de levar a palavra de Deus às pessoas, somente o faz para manipular as massas e tirar proveito próprio sem se importar com a situação delas, dizendo perversas mentiras sob o manto de uma falsa religiosidade. Os frutos do mal são sempre maus e os frutos do bem são sempre bons. Os frutos do bem provém do amor e os maus frutos do rancor. Isso pode não parecer verdadeiro, se fizermos uma reflexão superficial, mas se trata de uma grande verdade. Pelos frutos conhecemos as coisas boas e más. A bíblia está cheia de idéias poderosas,

para o bem e para o mal. A rigor tais idéias não estão na Bíblia, mas podem ser sugeridas por ela. A Bíblia é um veículo para despertar certas idéias que estão adormecidas na mente dos homens. Ela é toda para ser interpretada, não é um livro para ser seguido de modo literal. Quando a Bíblia afirma que Adão foi feito de barro está apenas constatando de modo intuitivo o que os pesquisadores descobriram séculos depois de modo racional:

a vida veio de uma espécie de “sopa de matéria”, que a Bíblia disse ser barro, ou seja, a

sopa de matéria inanimada. O grande dramaturgo Nelson Rodrigues afirmou que Deus está no detalhe. Eu acredito que não. Deus é percebido pelo hemisfério direito do cérebro,

a porta para o inconsciente que enxerga tudo num contexto geral. Então Deus não está

no detalhe, mas na idéia geral, na essência, não na substância. Deus é espírito, não matéria; essência, não substância. Por isso a Bíblia deve ser toda interpretada, ela nos fala de um mundo espiritual, que não enxergamos com nossos olhos, mas cuja existência intuímos, uns de modo mais forte, outros nem tanto. Um mesmo trecho bíblico pode ser muito bom se corretamente interpretado ou visceralmente mau se mal interpretado. Um exemplo: o trecho que fala que é melhor que percamos um olho do que o corpo inteiro caso nosso olho corrompa o resto do corpo. Esse trecho pode ser interpretado como a necessidade que alguém tem de livrar-se de algo que lhe é muito caro, mas que lhe fará mal mais adiante, como mal hábitos – bebida, cigarro, sexo sem segurança, apostas, ou uma namorada ruim – ou pode ser interpretado como uma ordem para cortar fora o pênis

e a mão direita no caso de masturbação – o que efetivamente foi feito por pelo menos um

indivíduo. Tal atitude grotesca não teve origem nem no amor nem em Deus, certamente, embora a Bíblia pareça ter sido a fonte da motivação. O problema não está na Bíblia. Em que trecho a bíblia condena a prática da masturbação de modo claro e sem margem para

outra interpretação? Desconfio que não há tal coisa na Bíblia. Acredito, inclusive, que a ciência mostrará que tal prática faz bem a saúde. O tema tem sido evitado, ao que parece

é um tabu. Mas logo vai cair, pois a verdade encontra um meio de aparecer. O leitor pode estranhar que nos dias de hoje, quando se fala tão abertamente em sexo, haja silêncio sobre a prática da masturbação. A verdade é que enquanto o sexo entre duas ou mais pessoas é um importante mecanismo de controle das massas, a masturbação não permite tal manipulação. O sexo é fator de contaminação por doenças venéreas, mas a masturbação é higiênica; o sexo torna as pessoas dependentes umas

das outras, a masturbação as torna livres; o sexo pode ser comercializado, a masturbação não; o sexo pode, dependendo das leis de um país, levar uma pessoa para a cadeia, mas

a masturbação é inócua; o sexo está restrito aos fatos e à realidade, mas não há limites

para a imaginação quando nos masturbamos. Tendo em vista tantas vantagens, só se pode atribuir a pecha infame que pende sobre a prática masturbatória à influência insidiosa do poder que nos quer ver todos escravos, doentes, dependentes e anulados. Do outro lado a mentira, cruel, desumana, fria, medindo muitos quilômetros de extensão, pesando milhares de toneladas e sendo mais antiga que palavra; semeando o medo, o ódio, o desejo de vingança, o desânimo e a violência. Com um trilhão de dólares por ano na conta bancária, com uma miríade de soldados absolutamente fieis, bem pagos e com um coração de pedra. Suas armas são a ignorância, arrogância, a drogadição involuntária, a imposição artificial de comportamentos e a tirania. Há cerca de uns 10 ou 15 anos atrás, na década de 90, ouvi falar de um super computador que teria informações pessoais sobre cada ser humano da face da Terra. Isso me foi contado por minha tia Hera Verão e por minha mãe Dalva Cantos. O nome desse projeto era 666 e segundo minha mãe este era o projeto de dominação de Satanás sobre a humanidade, conforme a Bíblia relata. Cada pessoa teria em sua mão direita um microchip que permitiria a ela fazer compras, sendo que o débito seria feito de modo imediato, direto na conta do comprador. O nome do microchip é mondex, mom de monetário e dex referindo seu uso na mão direita. Todas as pessoas com o microchip poderiam ser localizadas a cada instante por um sistema de satélites. Isso poderia evitar seqüestros, por exemplo. Na época acreditei que seria uma boa idéia, porque, em teoria,

se todos nós tivéssemos este microchip e somente realizássemos operações financeiras com ele, isso acabaria, por exemplo, com o tráfico de drogas, com os seqüestros e com a corrupção. Pelo menos em teoria. Por tudo que passei, entretanto, não creio mais nisso. Essa é somente uma arma muito poderosa para criar um governo totalitário a nível mundial. O tirano será, como tem sido já há muito tempo, o grande capital. Notem que a recente crise financeira internacional não é coisa recente. Já aconteceram várias outras, como a grande depressão de 1929. Nessas crises o capital migra das mãos de muitos para a mão de poucos. Tais crises são criadas com o rigor de fórmulas matemáticas e obedecem a regras bem conhecidas da economia. Primeiro é feito, pelo grande capital, uma oferta crescente de crédito. O mercado interpreta isso como um bom sinal e começa a fazer empréstimos e a gastar, comprar imóveis a prestação, fazer gastos para pagar a perder de vista etc. Depois, de repente e sem avisar, o grande capital retira todo o crédito que estava oferecendo e passa a cobrar os empréstimos que fez. De súbito o dinheiro some da praça. Bancos pequenos começam a quebrar, empresas vão a falência e pessoas são demitidas. Como pagar os empréstimos feitos? Somos forçados a vendermos tudo que temos, nossos bens reais – não bens imaginários, a moeda podre sustentada unicamente por uma ficção legal e que chamamos dinheiro. Que faremos se o governo decidir confiscar nosso dinheiro nos bancos e cadernetas de poupança? Somos reféns do governo que pode, com a ajuda da mídia, criar a idéia, psicológica e tecnicamente construída de que precisamos fazer a nossa parte, de que o dinheiro e os bens confiscados teriam que ser realmente confiscados para evitar um mal maior. O governo não luta mais para conseguir mais dinheiro. Ele já tem o suficiente. Luta para que o cidadão comum não tenha dinheiro e tempo suficientes para preocupar-se com as questões realmente importantes que estão sendo deliberadamente omitidas pela grande mídia.

Por exemplo: a questão da água. Já há alguns anos o governo federal vem veiculando uma campanha publicitária nas emissoras de TV para alertar sobre a importância da economia de água. Querem nos fazer crer que o Brasil precisa economizar água. Nada mais falso. O Brasil e o povo brasileiro tem água suficiente. Por enquanto. A campanha veiculada nas emissoras de TV sobre a importância da economia de água está, na verdade, preparando psicologicamente o povo para um aumento absolutamente abusivo no custo da água. Este aumento atingirá, principalmente, as classes mais pobres e a classe média. Quando a serpente der o bote lembre-se deste texto e de quem o

redigiu. Estou lançando minha campanha à presidência da república baseando-a na idéia da democracia direta, exercida de modo direto pela população. Dificilmente vencerei a disputa, mas julgo que minha candidatura é importante por lançar a idéia da democracia direta. O mote pode ser: “na década de 80 o povo gritou: diretas já! No novo século o povo gritará: democracia direta já! – democracia direta: o cidadão no controle do país” Se o governo governa em prol de si próprio, o povo governará, também, em prol de si próprio. Nada mais justo – esse é precisamente o objetivo da idéia de democracia: um governo do povo pelo povo. Sou avesso à idéia do comunismo. Ele sempre resultou em tiranias, nunca em governos democráticos, conforme nos mostra a história. Ao contrário, gosto da liberdade do capitalismo, das idéias do livre mercado e da concorrência, da livre oferta de mercadorias e serviços e da competição. Porém, a forma como concebemos o capitalismo hoje foi pervertida pelo grande capital. Nada contra o grande capital em si, porque ele também é natural e desejável. Porém, ele tem usado seu poder de influenciar as decisões políticas para impedir que as massas também tenham acesso livre ao capital e a livre concorrência; à livre oferta de produtos e serviços – conceitos básicos no capitalismo. Senão, vejamos. Há uma burocracia sem medida quando se tenta abrir uma empresa de fundo de quintal; a legislação não protege o microempresário porque não é o micro empresário que faz a legislação; a carga de impostos que incide sobre a população é brutal e não se justifica diante da baixíssima qualidade dos serviços públicos: pudera, quem faz a legislação não é o povo, mas sim o governo, que não utiliza o serviço público, mas o particular. Há que se alertar para a necessidade da democracia direta, exercida de modo direto pelo próprio povo. Meu governo se ocupará de discutir e implementar os mecanismos que tornem a democracia direta uma realidade. Ou o meu governo, ou o governo de alguém que está para vir depois de mim. Essa idéia é tão boa que vingará por si mesma. Só há dois meios de impedir que a democracia direta seja implementada nos próximos 20 anos em caráter mundial: o estabelecimento de ditaduras ou a imbecilização do povo. As pessoas de poder sabem disso, e tentarão a todo custo nos impor uma dessas duas condições.

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Porque o banco quando empresta dinheiro exerce seu papel social legítimo permanecendo dentro da lei e o particular que empresta dinheiro a juros é taxado de

marginal, e chamado pelo nome pejorativo de agiota? Ora, se os particulares pudessem, com o amparo da lei, emprestar dinheiro a juros, isso resolveria o problema de juros altos que o país enfrenta atualmente. Também seria uma fonte de renda para boa parcela da população. A maior oferta de crédito derrubaria o juro bancário e estabilizaria o mercado. Com o mercado estável não haveria mais as grandes crises do capitalismo. O problema é que não é o povo que legisla, não é o povo que faz as leis. Quem faz as leis são os grandes banqueiros internacionais, a quem não interessa que o particular possa, também, emprestar dinheiro a juros (com o amparo da lei e sem precisar recorrer a jagunços para garantir o recebimento do empréstimo ora feito), pois isso criaria uma concorrência que, por sinal, é uma das bases do capitalismo e está sendo evitada de modo iníquo pelo grande capital. Outra questão é a prostituição. Vamos entender como era esse problema no passado e como ele é hoje em dia. No passado distante há dois mil, três mil anos, as pessoas não tinham a noção da existência de seres microscópicos que causavam e espalhavam as doenças. Os homens e mulheres que se relacionavam com vários parceiros morriam com as entranhas podres. Sem saber como ocorria isto a sociedade atribuía tal fato a algum tipo de castigo divino. Procurou-se com isto, naturalmente, evitar relacionamentos sexuais transitórios e sem um compromisso maior, pois tais relacionamentos pareciam trazer o castigo divino. A existência da figura da prostituta era abominada por tal motivo. Ela era um ser disseminador de doenças, que eram interpretadas como castigo divino. Hoje em dia a maior parte das doenças venéreas está controlada e seus sintomas são tratáveis. Elas não nos causam tantos problemas como ocorria há milhares de anos. A despeito disso a figura da prostituta continua a ser fortemente combatida. Porque? O motivo não existe mais, como vimos. Alega-se motivação religiosa, bíblica, mas a humanidade cresceu, evoluiu. A prática do sexo livre era negada e combatida na infância da humanidade, como talvez o deva ser na infância do ser humano; porém a humanidade hoje é adolescente, cheia de hormônios e com maturidade suficiente para a prática do sexo. Uma mãe amorosa naturalmente evitará passar as idéias do sexo para uma criança, porém não fará o mesmo com um filho ou filha adolescente. A mãe é a mesma, Deus é o mesmo, porém sua atitude com uma humanidade adolescente é inteiramente diversa da com uma humanidade infantil. No passado o combate à prostituição e ao amor livre se justificava para o próprio bem do ser humano. Hoje em dia não há mais tal justificativa. Então, porque a mídia combate tanto a idéia da prostituição? Ora, a mídia está a

serviço de quem? Do grande capital, conforme se sabe. Então o idéia da prostituição está sendo combatida pelo grande capital. Porque a popularização da prostituição assusta tanto o grande capital? Simples! Há o conceito de exército industrial de reserva que ampara a iniqüidade do grande capital perante o pequeno. O exército industrial de reserva seria fortemente abalado se a prática da prostituição se tornasse mais popular e fosse regulamentada. O exército industrial de reserva se compõe da massa de pessoas que podem e querem trabalhar, mas que estão desempregadas devido a uma menor oferta de vagas para trabalho. A existência desse exército industrial de reserva faz com que o trabalhador procure a todo custo manter o emprego, pois se ele se negar a fazer o que o patrão lhe manda, mesmo que seja algo indigno e até contra a lei, haverá muitas outras pessoas tão qualificadas quanto ele que estarão desempregadas e que poderão vir a ocupar sua vaga. Além disso, a disputa de várias pessoas por uma mesma vaga num emprego possibilita que o patrão pague um salário menor, pois quem quiser ganhar mais terá seu desejo inibido pelo fato de muitas pessoas que até então se encontram desempregadas poderem vir a ocupar aquela vaga para ganhar até um salário menor. Imagine quantas mães deixam de alimentar os filhos para engrossar as fileiras do exército industrial de reserva. Novamente, aqui, o culpado não é o capitalismo, mas sim a degeneração do capitalismo pelo grande capital via interferência nas decisões políticas. Somente quando a idéia da democracia direta vingar o povo se verá livre do jugo do grande capital. Poderemos, então, escolher nossos próprios caminhos, sem medo de ser feliz e sem sermos enganados por nenhum rato barbudo. Imagine quantas mães passariam a alimentar os filhos com dignidade se o conceito de prostituição fosse incorporado à lei como um modo lícito de se ganhar a vida. O conceito de exército industrial de reserva ficaria capenga, com a perna torta, pois a qualquer mãe seria dado o direito de prostituir-se com dignidade. Partido do pressuposto que (quase) todas as crianças tem mãe, elas teriam sempre uma opção para alimentar os filhos, sem depender do grande capital e sem praticar a verdadeiramente má prostituição de sua dignidade e liberdade de pensamento e ação. Não entenda o leitor que defendo a prostituição em si. Não. O que defendo é a liberdade do ser humano. E defender a liberdade é, principalmente, defender a liberdade de quem pensa diferente de nós. Nossa própria liberdade estamos sempre defendendo, pela defesa inerente contida em nossas próprias ações. Quando faço algo, o que faço é a própria defesa de minha liberdade – minha atitude defende a liberdade que tenho de ter aquela mesma atitude. Defender a liberdade vai além, portanto. Por isso há também o

dizer, devido a Voltaire se não me engano: “Posso não concordar com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito que tem de dizê-las”. A liberdade de expressar uma opinião é algo básico, necessário à democracia. Do mesmo modo, a liberdade de quaquer um, seja pequeno ou grande, aliado ou adversário, bom ou mal, para oferecer um produto ou serviço, com a garantia dada pelo Estado de que receberá pelo serviço ou produto que oferta, é requisito básico para a democracia e para a prática salutar do verdadeiro capitalismo. Assim, o grande capital não deve oprimir o pequeno, emprestando dinheiro a juros e impedindo que o pequeno faça o mesmo; não deve oferecer produtos e serviços e dificultar, via influência na legislação, que o pequeno faça o mesmo. Todos devem poder emprestar dinheiro a juros, não somente os bancos; todos devem poder oferecer produtos e serviços e ter a garantia dada pelo Estado de que, segundo os princípios do capitalismo, receberá pelo produto ou serviço que oferta. O futuro é uma incógnita em seus detalhes. Porém consigo divisar coisas bem fantásticas que poderão acontecer. Disse numa ocasião anterior que a verdade é uma só e que a verdade concorda com a verdade. Que dizer do conceito de vida eterna? No meu entender é algo plausível e vou explicar o porquê. Cientificamente. Em Física o tempo não é algo fixo para todos. A passagem do tempo ocorre em taxas variadas conforme a velocidade em que uma porção de matéria – que os físicos chamam corpo – se encontra. Teoricamente sob determinadas circunstâncias um corpo poderia retornar no tempo, por exemplo, se ele adquirisse uma velocidade superior a da luz. Portanto a idéia de voltar no tempo é concebida pela Física atual. No futuro certamente haverá grandes avanços científicos e técnicos. Disso ninguém duvida. Inclusive tais avanços parecem ocorrer de modo cada vez mais rápido, numa taxa geométrica de crescimento. Portanto, a idéia de retornar no tempo não deve ser ignorada como um disparate. Pelo menos não no futuro. O que há de mais valioso em nosso passado? Nossa infância e entes queridos que já se foram, certamente. Quem que pudesse retornar ao passado não buscaria rever um pai já falecido, ou uma mãe? E que dizer da taxa de mortalidade? O ser humano vive cada vez mais e morre cada vez mais velho. Haverá um dia, no futuro, onde as pessoas não morrerão mais, a julgar pelo aumento da expectativa de vida que cresce no mundo inteiro. Logo a medicina e a ciência terão avançado o suficiente para garantir uma vida sem fim. Uma vez que não haverá mais morte na Terra, poderemos, se dominarmos as viagens no tempo, buscarmos nossos entes queridos que já faleceram para vivermos com eles uma eternidade sem morte e uma vida plena num paraíso terreno que ainda está por vir. O requisito para

vivermos neste paraíso seria deixarmos boas obras que nos fizessem ser queridos pela posteridade ou por algum filho ou filha que fosse querido por ela. Isso é muito mais fácil do que parece. Se eu educar meus filhos com amor e correção, a possibilidade de que ele volte ao passado para me resgatar para o paraíso por vir é muito grande. Basta que ele tenha uma descendência fértil e útil para a posteridade, ou que seja ele próprio muito útil para o desenvolvimento do mundo. Coisas que deveríamos evitar para merecer o paraíso por vir são óbvias: não devemos ser tiranos impiedosos, como Hitler ou Stalin, não devemos deixar maus exemplos, tais como suicídio ou homicídio. Pessoas que fossem julgadas como sendo realmente más teriam uma chance bem menor de vir a reviver numa terra paradisíaca do futuro. O grande democrata Sólon teria grande chance de ser revivido, pela contribuição que fez à democracia ateniense. Por sinal pretendo dar o nome Sólon a meu primeiro filho, pois minha esposa está grávida, o que vem a ser uma benção nessa altura dos acontecimentos. A idéia é bastante interessante, ao mesmo tempo crível e teologicamente aceitável. Como bom matemático e como bom cristão não acredito que Deus faça mais mágicas além do grande milagre que já é a própria existência. Não entendo como essas idéias ainda não surgiram com força no campo da Teologia.

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Como no filme Falcão – meninos do tráfico, digo: não sou mais nem menos que ninguém. Se me matam hoje, nascem três, sete, dez para fazer o meu trabalho, levar minha palavra. Sou um veículo que Deus encontrou para dizer o que digo, para pensar o que penso, para fazer o que faço. Cada um de nós é assim. Ninguém é melhor ou pior. Fazemos a cada instante o melhor para nós mesmos, ou pelo menos o melhor que nossa mente concebe. Se eu morrer hoje, tenho a esperança da vida eterna num mundo democrático, amoroso e bom que venha a ajudar a construir para meus filhos e netos. Tenho a certeza de deixar boas obras, enquanto meu coração disser sim para Deus e para o Bem. Na medida em que acredito que fazer o bem vale a pena, passo a significar mais para a eternidade e para as pessoas que amo e que virei a amar. Luto pela liberdade, pela democracia verdadeira, pela justiça. Minhas palavras encontraram voz na minha voz; sou a imagem dos sentimentos que carrego em meu coração e que escolheram minhas mãos para renascerem como atitudes e ações. Em mim não há apenas um, nem dois. Sou outro Yoñlu: tenho o anseio de ser vários e a necessidade de ser único. Não vou me matar se não conseguir. Sei que esse é não é o caminho. Não me

calo, não ficarei quieto num canto, sem atuar, sem exercer meu papel; não sou um perdido nem um perdedor. Gritei do alto do penhasco e do cume da montanha. Serei ouvido? Tenho certeza de que tenho uma chance. Se não vencer nesta vida sei que do alto dos séculos futuros meu eco me sustentará.